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Gonçalo Feio: o treinador que está a aprender a sobreviver às suas próprias tempestades

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Gonçalo Feio: o treinador que está a aprender a sobreviver às suas próprias tempestades

Entrou no Radomiak como quem muda a temperatura de uma sala. Não pediu licença, não esperou pelo contexto, não se deixou intimidar pelo passado recente da equipa. Instalou-se, reorganizou, exigiu, puxou, falou e, sobretudo, convenceu. Em poucas semanas, o clube que começara a época a olhar para a linha de água passou a falar, sem ironia, na Europa. Passamos um dia de estágio com a equipa, no Algarve, para traçar o perfil de Gonçalo Feio, treinador de 36 anos que nunca treinou em Portugal e encontrou uma carreira na Polónia, entre sucessos, inovações e algumas polémicas

A maioria dos jogadores ainda percorria a pé o trajeto em terra batida que separa a receção do hotel do campo relvado e já Gonçalo Feio e a sua equipa técnica, da qual fazem parte sete adjuntos, concluíam a montagem do treino da manhã. São 10h30 e o sol do Algarve finalmente afastou as nuvens para expulsar o frio de janeiro e mandar a chuva regar outros campos. Os jogadores calçam as chuteiras, devagar, como quem tenta convencer o corpo de que aquilo é uma boa ideia. Gonçalo conversa com os adjuntos no centro do relvado e observa os rituais dos que estão a acabar de equipar.

Ao todo são 26 jogadores, que se dividem em três grupos. O dos guarda-redes, um outro sob a orientação do adjunto Emanuel Ribeiro, que agiliza as combinações do jogo interior, numa mini peladinha, e, mais adiante, o terceiro grupo à volta do treinador principal, que está a falar, a corrigir, a apontar para o espaço entre dois cones como se ali estivesse escondida uma verdade que só ele vê. “Mais dentro. O passe tem de entrar aqui”, vai explicando para os que treinam ataque posicional. Gesticula, fala em polaco, muda para inglês, grita em português, incentiva em francês, numa linguagem corporal própria e uma espécie de dialeto táctico, que os jogadores vão aprendendo por osmose.

Gonçalo Feio durante o treino no estágio do Radomiak, no Algarve
Gonçalo Feio durante o treino no estágio do Radomiak, no Algarve
Filipe Farinha

Gonçalo Feio tem 36 anos, nunca treinou em Portugal mas na Polónia tornou-se uma figura conhecida e respeitada, que já passou por quatro clubes, entre eles o Legia de Varsóvia - o maior e mais bem-sucedido clube de futebol polaco -, apesar das várias polémicas em que o seu feitio já o meteu. Antes de entrar no Radomiak, em outurbo passado, teve uma breve passagem pelo Dunkerque, de França, com quem diz ter feito “o maior contrato da história do clube”. Rescindiu ao fim de 20 dias por se ter deparado com, assegura, “um perfil muito abaixo” daquilo que são as suas exigências ao nível de estruturas e ambição. Quando regressou à Polónia, o Radomiak estava no 11.º lugar da tabela classificativa do campeonato, com 16 pontos ao cabo de 13 jornadas.

A viagem para a Polónia que não teve bilhete de volta

Quando o treino termina, o silêncio instala-se por segundos. É um silêncio de cansaço, que logo a seguir é interrompido pela correria dos jogadores mais apressados, ao encavalitarem-se no carrinho elétrico, que quase tomba com as brincadeiras e o excesso de lotação, em direção ao hotel.

Aproveitamos a pausa do almoço para conversar com o treinador. A biografia contada pelo próprio é a de alguém que se habituou a “arrombar” portas com trabalho, estudo e uma obsessão quase científica pelo jogo. Nascido e criado entre os bairros lisboetas de Alcântara, Ajuda e Belém, num ambiente onde o futebol não era profissão de família, mas era paixão de infância, em criança jogou em vários clubes, Atlético, Belenenses e Benfica, sempre com a sensação de que entendia o jogo melhor do que o jogava. Era um médio “à Gattuso”, como faz questão de dizer, intenso, falador, responsável, e cedo percebeu que a sua vocação estava menos nos pés e mais na cabeça. Desistiu de ser jogador e aos 17, 18 anos, já ajudava nas escolinhas do Benfica, como voluntário, enquanto entrava na faculdade decidido a montar, peça a peça, o puzzle do que seria o seu universo profissional e onde além de um modelo de jogo, se incluem a psicologia, corpo humano, sistemas energéticos, metodologia, liderança.

Treino da equipa do Radomiak em estágio no Algarve
Treino da equipa do Radomiak em estágio no Algarve
Filipe Farinha

A grande viragem acontece com o Erasmus, na Polónia. Vai para lá em 2012 porque a Faculdade de Motricidade Humana tinha cooperações e porque queria conhecer um futebol que não tinha tanta oportunidade de ver: polaco, ucraniano, escandinavo, alemão. “Dei aulas de português para ganhar uns trocos e, através de contactos, cheguei ao diretor da academia do Legia de Varsóvia”, conta. Levava uma carta de recomendação do professor Fonte Santa e disse-lhes que não queria dinheiro, só ver treinos. Abriram-lhe as portas. Durante dois meses observou, aprendeu, mas também comentou. “Numa altura em que quase ninguém falava inglês, acabei por aprender polaco”. Até que o diretor o chama: os treinadores gostam dele, do que diz, da forma como vê o jogo. Propõem-lhe uma equipa de sub-10. Ele aceita, mesmo sabendo que, teoricamente, ia embora dali a três meses.

O trabalho com os sub-10 corre tão bem que, antes da época acabar, o diretor volta a chamá-lo: querem que coordene o futebol de 11 e treine os sub-14. Ele aceita, com a condição de ser só mais um ano. Quando sobe de escalão, os pais dos miúdos mais pequenos fazem uma “manifestação”: não querem que ele saia. Ainda passa pelos sub-17.

A seguir, chega Henning Berg à primeira equipa do Legia e precisa de um analista. O clube apresenta-lhe duas opções internas. O treinador norueguês pede um teste: uma análise ao Borussia Dortmund, de Klopp. “Fiz como se fosse para preparar um jogo”, recorda. Berg gostou.

O treinador português durante o treino da manhã
O treinador português durante o treino da manhã
Filipe Farinha

Em dois anos, sempre a subir de meio ano em meio ano, Gonçalo chegou à primeira equipa do Legia como analista. Tinha 23 anos. Na primeira metade da época com Henning Berg fez quase só análise. Mas aos poucos, ganhou espaço no campo e passou a acumular o trabalho de análise com trabalho de treino. Ficou duas épocas e meia na primeira equipa. Quando Berg é despedido, Gonçalo ainda tinha contrato, mas decidiu sair também.

Viveu aí o período mais duro da carreira: meses sem clube, sem estabilidade económica, a bater às portas em Lisboa, sem que ninguém o conheça. Regressou à Polónia, para o Wisła Kraków, em 2016/17, “através de um telefonema do diretor da academia”, que tinha estado numa das formações que fez na Polónia para ganhar dinheiro. “Queria que eu fosse coordenar o futebol de 11 na academia e que treinasse os sub-18”. Em quatro meses, é puxado para a primeira equipa como adjunto do espanhol Kiko Ramirez, que, curiosamente, hoje faz parte da sua equipa técnica no Radomiak.

Segue-se a Grécia, no Xanthi, ainda como adjunto de Kiko, onde vive um início fulgurante e uma queda abrupta, uma lição sobre expectativas, resultados e a diferença entre performance e pontuação.

Gonçalo é sempre muito intenso durante os treinos da sua equipa
Gonçalo é sempre muito intenso durante os treinos da sua equipa
Filipe Farinha

Em 2019, volta à Polónia para ser adjunto de Marek Papszun no Raków, um projeto emergente, onde se torna figura central: dois segundos lugares, duas Taças da Polónia, uma Supertaça, e a sensação de que já é mais do que adjunto. Está a terminar o UEFA Pro e sente que é o momento de ser treinador principal. Recusa propostas, prepara-se, e escolhe o Motor Lublin, um clube polaco sem estrutura mas com espaço para construir tudo de raiz. Sobe o clube duas vezes seguidas, transforma jogadores, cria metodologia, cultura, identidade. Mas é também ali que vive o episódio mais negro da carreira.

A assessora, o presidente e o erro

Para entender o treinador português que hoje lidera o Radomiak, é preciso também recuar aos momentos em que o seu temperamento o traiu. Gonçalo fala de uma tensão crescente no Motor Lublin, onde acabaram por surgir “frações”. O dono, com quem se dava bem, quase nunca estava no clube. O técnico português entrou no Motor Lublin ao mesmo tempo que o presidente. “Eu acho que as estrelas do futebol têm de ser os jogadores, mas claro, quando pegas numa equipa que está em último e de repente fazes uma série boa com os mesmos jogadores, quando vais buscar outros que estavam na segunda equipa e eles tornam-se estrelas da liga, quando começam a ser chamados às seleções jovens, isso provoca um impacto muito grande na tua pessoa. Julgo que isso afetou um bocado o ego do presidente, porque ele queria ser a figura do projeto. E eu com isso não tinha nenhum problema. Mas isso foi criando atritos”, justifica.

Abriram-se duas frações no clube e uma parte remava para o lado oposto ao de Gonçalo que, assegura, manteve-se “exigente com as condições de trabalho, a organização e a defesa dos jogadores”. Até que, num pós-jogo, de vitória para a equipa, já dentro do túnel, o técnico passou pela assessora de comunicação e perguntou-lhe: “E agora, vais continuar contra mim?”. A assessora acabou por fazer queixa ao presidente e já não acompanhou o treinador à conferência de imprensa, o que deixou o técnico irritado com a “falta de profissionalismo”. Quando pouco depois encontrou o presidente num dos gabinetes do clube, a conversa azedou rápido, resultado de tantos meses de crispação. “Cometi um erro, atirei com um porta-documentos de plástico que estava em cima da mesa na direção do presidente”, assume, sublinhando de seguida: “Claro que não tinha intenção de magoar ninguém”.

O treinador num gesto carinhoso com Adrián Diéguez
O treinador num gesto carinhoso com Adrián Diéguez
Filipe Farinha

O dono do clube escolheu ficar ao lado do treinador e afastar o presidente. Gonçalo sabe que, se tivesse sido ao contrário, a carreira podia ter ficado num beco. Seguiram-se um processo disciplinar, uma multa pesada, uma pena suspensa de dois anos (se voltasse a acontecer algo do género, ser-lhe-ia retirada a licença), que já passaram, um processo criminal (do qual foi ilibado) e um processo civil, com pedido de indemnização ainda em curso. Gonçalo não se esconde: “A razão tinha eu. Mas perdi-a naquele momento. A lição é essa: Apesar de sentir, tenho de pensar mais forte do que sinto.”

O trabalho, os feitos (e os gestos) no Legia

Há decisões que mudam carreiras. A ida para o Legia, deixando para trás o projeto que tinha construído no Motor, foi uma delas. “Não fui capaz de dizer não ao Legia”. É assim que Gonçalo Feio resume o momento em que interrompeu o trabalho no Motor Lublin, já na reta final da época 2023/24. Faltavam cinco jogos para terminar a fase regular, a equipa estava bem posicionada, toda a estrutura que ele tinha montado funcionava como um organismo autónomo e, ainda assim, quando o Legia chamou, sabia que não podia recusar. “Toda a minha equipa técnica ficou no Motor. Fui sozinho para o Legia.”

O pedido do Legia não vinha embrulhado em promessas, mas em urgência. “Tens sete jogos. Estamos fora da Europa. Isto é uma catástrofe. És da casa, cresceste aqui, salva-nos”, disseram-lhe. Era este o contexto: três dias para preparar o primeiro jogo, sete semanas para transformar uma equipa que estava em 7º lugar numa equipa capaz de terminar nos três primeiros.

E o cenário não ajudava. “Havia muitos jogadores lesionados, sete ou oito titulares estavam em fim de contrato”. Era, no papel, uma missão ingrata. Mas foi aí que encontrou aquilo que mais valoriza num balneário: compromisso. “Tive um senhor que se chama Josué Pesqueira, o Yuri Ribeiro, o Thomas Pekhart, entre outros, que tiveram um compromisso fantástico. Mesmo sabendo que se iam embora, deram tudo.”

Gonçalo (de frente) com um dos seus adjuntos do Radomiak
Gonçalo (de frente) com um dos seus adjuntos do Radomiak
Filipe Farinha

O que aconteceu a seguir é contado sem dramatização, mas com a consciência de quem viveu algo decisivo. “Fizemos o 3º lugar”. Sete jogos, uma equipa remendada, jogadores a pensar no futuro, e ainda assim o objetivo cumprido. “Ganhei o grupo”, diz, como quem constata um facto. E ganhar o grupo, naquele momento, significava mais do que somar pontos: significava devolver identidade, devolver competitividade, devolver crença. O 3º lugar garantiu o acesso à Europa. E foi ali, naquele sprint final, que se iniciou o caminho europeu: a campanha na Liga Conferência, os jogos a eliminar, a estratégia afinada ao milímetro, a equipa que se reinventou.

É já na época seguinte, com Gonçalo a liderar desde o início, que o Legia vive a sua campanha mais profunda na Europa desde 1991. A equipa passa as rondas preliminares, elimina adversários mais ricos e mais experientes, e chega aos oitavos de final, onde enfrenta o Brøndby.

A primeira mão corre bem, o plano resulta, a equipa cumpre a missão. Mas a segunda mão, em Varsóvia, é outra história. “Eles eram muito bons”, diz. “Muito bons mesmo”. E o jogo transforma-se numa montanha-russa emocional: o Legia marca, sofre, volta a marcar, volta a sofrer, tem um golo anulado, vê o banco adversário saltar, sente o estádio a ferver.

Assim que o treino terminou vários jogadores arrancaram para o hotel
Assim que o treino terminou vários jogadores arrancaram para o hotel
Filipe Farinha

É nesse momento que tudo aquece. Ele está à frente, concentrado no jogo, e quando olha para trás vê a sua equipa técnica envolvida numa troca de palavras com o banco dinamarquês. Cartões amarelos para aqui, cartões amarelos para ali, o ambiente a escalar. “Eu até estava tranquilo”, diz, com ironia, acusando em tom de brincadeira: “Costumo dizer que a culpa é deles, da minha equipa técnica”. Após o apito final, com a qualificação garantida, o corpo reagiu antes da cabeça. Os gestos que Gonçalo fez em direção aos adeptos adversários e que lhe valeram castigo e multa, foram a descarga de adrenalina acumulada num jogo que parecia não ter fim. Ele próprio reconhece: “Não devia ter feito”. Mas também sabe que foi ali, naquele caos, que a equipa mostrou que sabia sofrer. E que, às vezes, sofrer é a única forma de passar.

A qualificação colocou o clube nos quartos de final da Liga Conferência, algo que não acontecia numa competição europeia desde a Taça das Taças de 1990/91. É um feito histórico, reconhecido pela UEFA e pelo próprio clube. O adversário seguinte é o Chelsea, um dos gigantes da competição. A diferença de orçamento é abissal. “Foi um momento agridoce porque fomos a primeira equipa polaca a ganhar em Inglaterra ao Chelsea, só que fomos eliminados e se tivéssemos passado estava o Djurgarden à nossa espera, uma equipa que podíamos bater, ia ser uma eliminatória equilibrada”, resume. O Legia perdeu a eliminatória, mas não perdeu a identidade. Saiu da Europa com a sensação de ter ido mais longe do que alguém esperava.

O treinador durante um momento descontraído do treino
O treinador durante um momento descontraído do treino
Filipe Farinha

Gonçalo entretanto percebeu que o talento, a exigência e a frontalidade não bastam para construir chegar lá acima. “A única parte que me podia segurar de fazer uma grande carreira era o controlo emocional”. Procurou ajuda. Fez, e continua a fazer coach healing. Primeiro semanalmente, agora de 15 em 15 dias. “Aprendi a contar até dez”. Aparentemente, está a aprender a não deixar que o fogo o queime, ainda que acabe por concluir o assunto com alguma ironia usando a frase do escritor inglês Horace Walpole: “‘A vida é uma comédia para quem pensa e uma tragédia para quem sente’. Eu sou dos que sente. Também penso, atenção” [risos].

Radomiak um clube em (re)construção

O treino da manhã foi intenso, quase frenético. Houve momentos em que parecia que a bola não tinha tempo para respirar. Gonçalo interrompe, reorganiza, repete. A equipa técnica acompanha-o como quem acompanha um maestro que não admite que a orquestra desafine. “Now that 's my team” [Agora sim, esta é a minha equipa], atirava o treinador em inglês após as jogadas que culminavam em golo.

A assistir ao treino esteve o português António Ribeiro, de 30 anos, diretor-desportivo do Radomiak desde março passado e que já tinha tido uma passagem pelo clube em 2021/22 como chief scout. Antes de traçar o perfil de Gonçalo, fala sobre o clube que encontrou. Se em certas componentes diz estar mais avançado do que alguns clubes portugueses, porque têm um estádio novo, um centro de treino com quatro campos relvados, um campo de relva artificial coberto por causa das condições climatéricas. Já no que diz respeito à organização, “em termos daquilo que são as metodologias de trabalho”, assume, “foi preciso implementar muita coisa”.

A parte financeira é sempre uma limitação e o Radomiak tem o terceiro orçamento mais baixo da liga polaca. “Temos de fazer um trabalho de scout mais aprofundado e tomar decisões com menos grau de erro”, explica. Preocupado com o futuro do clube, António criou uma parceria com o Benfica “com o objetivo de desenvolver o jogador da base e o treinador da academia do Radomiak”. É um plano a cinco anos, que visa o desenvolvimento individual e coletivo dos escalões de formação do clube numa cooperação muito próxima, até porque contam com dois treinadores do Benfica, David Gomes e Tiago Marques, na Polónia a tempo inteiro.

Um momento do treino da manhã, no Algarve
Um momento do treino da manhã, no Algarve
Filipe Farinha

Sobre o treinador escolhido por si, “com o aval do presidente” para substituir outro português, João Henriques, o diretor-desportivo, diz sem hesitar: “É o melhor treinador a atuar no campeonato polaco. Não tenho dúvidas nenhumas que dentro de um curto espaço de tempo vai atingir um patamar europeu altíssimo.” E explica porquê: “Pela capacidade de trabalho, pela visão, capacidade de organização, capacidade de liderança. Creio que é um predestinado nesse sentido e estamos muito contentes de o ter”.

A exigência num clube habituado ao conforto, era urgente. “A maior luta foi tirar o clube da bolha do ‘está bom’ e o Gonçalo foi fundamental nisso”, acrescenta. Trouxe refeições obrigatórias, rotinas de grupo, coesão e cultura. E também a ideia, quase herética, de que o Radomiak pode disputar lugares europeus. Ou mais. “O clube pode visar ser campeão. A liga permite isso”, conclui António Ribeiro.

Sobre os episódios em que Gonçalo Feio esteve envolvido, António Ribeiro garante que nunca foram pedras no caminho da contratação do técnico português, pelo facto de “o conhecer muito bem como pessoa, como treinador, de saber o profissional e a pessoa humana que é”. O diretor-desportivo continua a defesa do seu treinador argumentado: “É muito fácil acusá-lo, mas a realidade é que ele é uma pessoa extremamente profissional, extremamente exigente, e essa exigência muitas vezes cria algumas barreiras quando as pessoas estão muito acomodadas”. E, a finalizar, embora ressalve que não gosta de comparações, confessa que vê em Gonçalo “um misto de Sérgio Conceição e Jorge Jesus”.

Um treinador exigente e poliglota

Roberto Alves, suíço de cabeça e português de coração, resume o impacto da chegada do mister: “No início da época dizíamos que o objetivo era não descer. Quando ele chegou, começámos a olhar para cima”. Não é apenas retórica. O médio, que não jogava muito, encontrou no treinador alguém que o puxou para dentro do jogo e para dentro de si próprio. Conversas individuais, correções técnicas, exigência absoluta. E, ao mesmo tempo, um lado humano que surpreende quem só conhece o rótulo: “Fora do campo é tranquilo, brinca, pergunta pela família. Mas se vê alguém a dar 1% a menos, vai logo falar”. É esta combinação, dureza no treino, empatia no corredor, que parece ter desbloqueado um balneário que, até então, vivia num limbo competitivo.

Roberto Alves durante uma pausa do treino
Roberto Alves durante uma pausa do treino
Filipe Farinha

O avançado brasileiro de 31 anos, Maurides, já tinha ouvido muita coisa sobre o mister. Histórias de um treinador “maluco”, rígido, obsessivo, agressivo no treino. Quando o conheceu, sorriu. Era exatamente isso que queria. “Para mim caiu muito bem. Gosto de trabalhar. Ele agrega sempre para melhor”. Gonçalo mexeu na intensidade, mexeu na organização, mexeu no ataque, mexeu na defesa. Mexeu em tudo. E mexeu rápido. “Com ele estou aprendendo mais na minha forma de jogar, na minha forma de pensar. Só não evoluímos se não quisermos. Tenho certeza que com ele vamos evoluir ainda mais para buscar o título”, conclui Maurides.

O brasileiro Maurides durante o treino
O brasileiro Maurides durante o treino
Filipe Farinha

Com 14 anos de Radomiak, um dos capitães e o mais velho do plantel, Leandro Rossi, de 37 anos, já viu o clube subir, cair, renascer, tropeçar, levantar-se. Mas nunca tinha visto alguém entrar assim. “Ele mudou o sistema tático muito rápido. É muito profissional e exige o máximo de cada jogador”. Recorda um jogo em que venciam 2-0 e falharam o 3-0. “Ele ficou muito nervoso. Tem que se fazer o terceiro e o quarto golo”. Não era raiva. Era padrão. Gonçalo, todos reconhecem, não joga para manter, joga para crescer. E Rossi, que já viu treinadores de todos os feitios, sublinha um dos detalhes que mais o impressiona: “Chama sempre um ou outro jogador depois do treino, depois do jogo. Incentiva, corrige. Fala vários idiomas e os jogadores gostam disso e que o treinador fale com eles”. “Para nós é muito importante”, acentua. O capitão só lhe aponta um defeito, mas fá-lo com a ternura de quem conhece o interior do homem: “Às vezes podia ter mais calma. É uma pessoa muito boa de coração, mas, às vezes, a vontade que tem de ganhar é tanta que não consegue segurar uma ou duas palavras. Mas é o jeito dele. E nós respeitamos muito”.

Leandro, de 37 anos, é o joagdor mais velho do Radomiak e um dos capitães
Leandro, de 37 anos, é o joagdor mais velho do Radomiak e um dos capitães
Filipe Farinha

De Mourinho a Jesus, Klopp e Guardiola

Após o almoço, há uma pausa. Alguns jogadores vão para os quartos, outros ficam a conversar no corredor, outros ainda reveem vídeos no telemóvel. O estágio tem este lado de suspensão: o tempo parece mais lento, mas tudo acontece mais depressa. Pouco depois das três da tarde, estão todos sentados numa pequena sala de reuniões. As luzes apagam-se. No ecrã surgem as imagens gravadas por drone de todos os treinos que já fizeram desde que chegaram ao Algarve. Gonçalo está de pé, com a postura de quem não vai apenas explicar uma ideia, vai defendê-la. Realça os pontos fortes, volta a explicar onde estão as falhas e qual o melhor caminho na direção da baliza adversária. Fala como quem acredita que o futebol é uma ciência exata, mas também como quem sabe que a ciência só funciona se for vivida. Mostra um lance do treino da manhã. Pára o vídeo. Volta atrás. Aponta com um laser vermelho, “Here, look here” [Aqui, vejam aqui]. O inglês é a língua predominante, num plantel com jogadores originários de 14 países.

Gonçalo explica à equipa o que pretende desta, no meio campo adversário
Gonçalo explica à equipa o que pretende desta, no meio campo adversário
Filipe Farinha

Os jogadores ouvem em silêncio. Não é um silêncio de medo, é um silêncio de atenção. Gonçalo fala de timings, de distâncias, de coragem para jogar dentro quando o instinto manda fugir para fora. Há momentos em que a voz sobe, não por irritação, mas por convicção. A sala acompanha-o. Ele não vende ideias. Ele acredita nelas. E essa crença é contagiosa.

Diz-nos sobre a equipa e o seu futebol que gosta predominantementede equipas com características ofensivas. O meu futebol tem elementos muito marcantes, especialmente ao nível do que é a posse e dinâmicas que temos em campo contrário e o tempo que passamos em campo contrário; a forma como entramos na área, como reagimos à perda, o balanço que fazemos nas marcações ofensivas, os movimentos de ruptura de jogadores que estão acima da bola, são coisas muito visíveis no meu futebol.

Um momento da palestra do treinador aos jogadores
Um momento da palestra do treinador aos jogadores
Filipe Farinha

Já no que diz respeito às referências que foi acompanhado ao longo da sua formação enquanto treinador, há treinadores que estão sempre presentes: Mourinho e Jorge Jesus. Pela comunicação, pela liderança, pela capacidade tática, ofensiva e defensiva, pelo que as equipas deles jogavam, justifica. Mas salienta que ao nível da defesa da área, a forma como Simeone desenvolveu sistemas defensivos, fechar espaços de jogo, fazer as coberturas, defender espaços da área, acho que foi muito influente. De Guardiola realça-lhe o desenvolvimento do jogo posicional e de Klopp a forma como desenvolveu o ataque ao espaço e a reação à perda. Fala ainda do follow press de De Zerbi, que deu muito ao futebol a nível da construção, mas explica que os seus príncipios eram mais visíveis no Sporting do Ruben Amorim, também "no FC Porto de Sérgio Conceição. Sempre atento, ainda remata: No outro dia estivemos a ver uma conversa com o Vitor Pereira e com o adjunto dele, em que eles falaram de uma dinâmica que achamos muito interessante dentro daquilo que é a nossa estrutura e a nossa forma de ver o jogo interior”.

Um clube a mudar de pele

No Radomiak ninguém fala mais em não descer. Fala-se em crescer. Fala-se na Europa. Fala-se, até, em título. Não porque seja fácil. Mas porque, quando alguém entra em campo com esta intensidade, é difícil continuar a pensar pequeno. Os jogadores, que antes se protegiam no discurso do “não descer”, repetem agora outra frase: “Eu acredito em cada palavra que o mister diz”.

Para ele, o jogador não é apenas um executante técnico, é um ser humano com emoções, rotinas, fragilidades, hábitos, contexto. O treino não é apenas intensidade, é intenção. A equipa não é um conjunto de posições, é um sistema de relações. E o treinador não é apenas quem manda, é quem cuida. “A primeira responsabilidade de um treinador é tratar as pessoas”, repete. “Depois vem tudo o resto”.

Gonçalo Feio durante a palestra com a equipa do Radomiak
Gonçalo Feio durante a palestra com a equipa do Radomiak
Filipe Farinha

É por isso que fala com todos os jogadores da mesma forma, do mais jovem ao mais velho. Que insiste que todos tenham o mesmo tempo de feedback, a mesma atenção, a mesma exigência. Foi por isso que introduziu refeições obrigatórias, rotinas de grupo e espaços de convivência. E foi por isso também que estreou 12 jogadores da formação no Legia: porque acredita que, se o ambiente for justo, o talento aparece.

Defende que o futebol é um desporto individual fora do campo, “cada um com o seu ego, o seu ginásio, a sua prevenção”, mas dentro do campo é um desporto profundamente coletivo. “Quando o jogador vê que todos são tratados da mesma maneira, o que é inegociável é inegociável, que o treinador diz o que tem a dizer e exige a todos o mesmo, ele sente que a decisão é só sobre futebol e tudo muda”, assegura.

Gonçalo Feio, treinador do Radomiak
Gonçalo Feio, treinador do Radomiak
Filipe Farinha

É por isso que fala cinco línguas, para que ninguém fique de fora e trabalha o controlo emocional como trabalha a pressão alta. Sobre o plantel não há dúvidas: “Achava que havia aqui potencial escondido e isso confirmou-se”.

No fim, a sensação que fica é a de que o Radomiak está a mudar de pele. Resta saber se esta paragem de inverno veio ajudar ou atrapalhar a ascensão de uma equipa cuja média de idades é de 26,6 anos e que em cinco jogos com Gonçalo teve três vitórias, um empate e uma derrota.

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Não sei se os jornalistas se dão ao trabalho de verificar a autenticidade das palavras, mas o Legia estava em 5o quando ele pegou na equipa, a 3 pontos do 3o.

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Citação de Vimaranes1922, há 1 hora:

Não sei se os jornalistas se dão ao trabalho de verificar a autenticidade das palavras, mas o Legia estava em 5o quando ele pegou na equipa, a 3 pontos do 3o.

Escreveram aquilo que o empresário pagou e segue caminho. Isso ou foi uma troca de favores qualquer que ficaram a dever ao jornalista.

E agora é esperar algum clube possa ter interesse nele quando começarem os despedimentos de Fevereiro/Março 

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Citação de JohnyM, há 26 minutos:

Escreveram aquilo que o empresário pagou e segue caminho. Isso ou foi uma troca de favores qualquer que ficaram a dever ao jornalista.

E agora é esperar algum clube possa ter interesse nele quando começarem os despedimentos de Fevereiro/Março 

Não sei se acredito muito nisto, já que é uma reportagem que deve ter demorado imenso tempo a fazer e que vai chegar a pouquíssimas pessoas por ser premium (mesmo que não fosse, duvido que fizesse grandes números). É daquelas que fica melhor no CV do que no "apanhado" do mês

Editado por Wincing Hálldor

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