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Das selfies para as mãos de Vhils: toda a história do retrato oficial de Marcelo Rebelo de Sousa

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Das selfies para as mãos de Vhils: toda a história do retrato oficial de Marcelo Rebelo de Sousa

O Presidente imortalizado em milhares de selfies entregou-se à posteridade pela mão de um artista que começou na rua, a pintar o exterior de carruagens de comboios. Vhils fixou o legado de 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa à frente dos portugueses. A história de um quadro

“Ele não tem sentimentos, nada cola, tudo desliza por ele incólume, Marcelo é de teflon.” A frase de um dirigente anónimo do PSD foi citada por Clara Ferreira Alves no Expresso há exatamente 30 anos e recuperada em 2012 por Vítor Matos na biografia de Rebelo de Sousa. Pela contradição que implica no caso de um homem que ficará conhecido como o Presidente das emoções, cabe à medida neste texto que explica porque, na hora de partir, no fim do segundo e derradeiro mandato como Presidente da República, será uma colagem de jornais que vai fixar a imagem institucional do homem que criou, influenciou e comentou a realidade política nacional nas últimas décadas. Em mais uma pirueta, o chefe de Estado surpreende a opinião pública e escolhe Vhils, o mais conhecido representante da arte urbana em Portugal, para o imortalizar no nicho de 1,29 metros por 96 centímetros que lhe está destinado na parede da galeria dos retratos do Museu Presidencial em Belém. O quadro será apresentado ao país no próximo dia 4 de março.

Concebida há cerca de dois anos, nenhum dos dois protagonistas consegue precisar a data exata em que a ideia foi verbalizada. Mas o que não se sabe também é que a empreitada enfrentou obstáculos à nascença, porque Alexandre Farto começou por recusar a proposta presidencial. Vhils, nome construído com base nas letras mais rápidas e fáceis de desenhar com latas de spray pelo artista que pintava as paredes dos comboios da Margem Sul de Lisboa, receou aceitar o convite de um Presidente de quem se sentia politicamente distante. Assim, quem acabou por dizer não a Marcelo Rebelo de Sousa não foi António Costa nem Luís Montenegro, foi Alexandre.

A ideia, contudo, era sedutora e, mais uma vez, o Presidente dos abraços e das selfies, filho de um ex-ministro de Salazar, militante do PSD, que transformou o tato no sentido primordial da política, convenceu o artista. Marcelo ousou rejeitar as escorregadias pinturas a óleo que caracterizam os retratos presidenciais e aceitou deixar-se colar em folhas de jornal por um artista de esquerda. E, desta forma, tenta equiparar-se às ruturas estéticas provocadas pelo sorriso vivo de um Mário Soares que salta da tela de Júlio Pomar e do cenário onírico criado por Paula Rego para retratar Jorge Sampaio. Agora, também Marcelo Rebelo de Sousa destaca-se, abre um caminho e desafia o sucessor, António José Seguro, que terá de decidir se cobre a aposta da inovação ou recua à casa de partida da previsibilidade.

O convite

“Ele não mostrou grande abertura para a ideia, porque já tinha tido solicitações de outros responsáveis políticos. Aquiesci com grande pena minha e deixei cair”, admite Marcelo Rebelo de Sousa ao Expresso, desfiando a história como quem conta uma novela. Depois do primeiro capítulo, vem sempre o segundo: “Eis senão quando o Rui Ochoa (fotógrafo oficial da Presidência da República) me contou que ele começara a trabalhar por iniciativa própria.”

Outra conversa, no armazém da Margem Sul que serve de ateliê ao artista. Vhils revela a mesma história, mas pelo ponto de vista do outro protagonista. “O primeiro contacto aconteceu há cerca de dois anos e foi o Alfredo Cunha, que sempre foi uma referência para mim, que disse que eu tinha de me encontrar com o Presidente, que ele tinha visitado a minha exposição no MAAT e queria que eu fizesse o retrato presidencial. O Rui Ochoa reforçou. Os dois são muito amigos e disseram que o Presidente tinha colocado essa hipótese”, conta Alexandre Farto, ainda com a obra resguardada e por terminar no Barreiro.

“Depois de ter ficado um bocado espantado, percebi que era um reconhecimento do meu trabalho. Confesso que política e historicamente não estou muito alinhado com ele, mas reconheço que foi um Presidente que vim de alguma forma a compreender, dada a transformação política que aconteceu em Portugal e no mundo. Apesar de tudo, ele foi um baluarte de ponderação, num tempo em que se exacerbaram os extremismos, conseguiu trabalhar com a esquerda e com a direita e aproximou a presidência das pessoas”, acrescenta o artista, justificando a resposta positiva que acabou por dar.

E assim, dois homens com percursos e idades distintas uniram cedências mútuas em nome da fixação de uma imagem para a imortalidade. Marcelo queria inovar, e Alexandre ser reconhecido num território que ainda estava vedado ao movimento artístico de que faz parte. “Ele é um dos maiores expoentes da arte portuguesa, com projeção nacional e internacional, símbolo de um período que corresponde a esta década e que já retratou os mais diversos rostos da nossa sociedade”, defende o chefe de Estado. Depois de Amália, Ronaldo, Saramago, Salgueiro Maia e de muitos anónimos, Vhils teria de fixar o rosto, não de Marcelo Rebelo de Sousa, mas do Presidente da República. Depois do fado e do futebol, ainda fica a faltar-lhe Fátima, mas o passo não deixa de ser gigante.

“É verdade que quando lancei a ideia sabia que seria uma temeridade, mas ficaria mal com a minha consciência se não o tivesse feito. Foi um pouco como Júlio Pomar e Paula Rego. E felizmente o não converteu-se em sim”, completa o Presidente. “Apesar de tudo, não deixa de ter um papel institucional de validação”, assume o artista, acrescentando que nenhuma outra área visual surge agarrada a um apêndice tão explícito. “Nenhum artista que trabalhe num ateliê é chamado artista de ateliê, mas o artista urbano é sempre, artista urbano. Isso põe-te a um canto que não te permite ter um discurso mais conceptual. Tudo o que generaliza facilita a identificação, mas também aprisiona os artistas, portanto, mais do que ficar institucionalizado, esse retrato leva a arte para um espaço a que não está habituada e não só a minha arte, mas a de todo o movimento de que faço parte.”

O processo

Por mais que se saiba que Marcelo precisa de poucas horas de sono, a agenda de um Presidente da República é demasiado preenchida, não se compadece com os ritmos da arte. Assim, numa pessoa tão fugidia e tão presente na cena pública nacional, o problema era descobrir como ir para lá das infindáveis imagens reproduzidas nas páginas dos jornais, nos sites e nas televisões, alcançando aquilo que um retrato deve imortalizar, bem mais do que o traço fisionómico, mas a aura da personagem. Entrar-lhe na cabeça, para refletir fora o que lhe vai dentro.

Vhils resolveu o dilema com fotografias e com perguntas. Foi ao Palácio de Belém e fixou a imagem de Marcelo com uma Leica q3, especialmente cedida pela marca para este trabalho. E encheu o Presidente de questões. “Como quer ser representado para o futuro?” Foi a pergunta fundamental, que mereceu uma resposta imediata e inequívoca: “Com o peso dos dois mandatos.” Uma resposta arriscada para quem chegara a Belém com 67 anos, a 9 de março de 2016, e vai sair com quase 80 a 9 de março de 2026. No rosto, um observador atento encontrará as marcas da solidão pandémica, das lágrimas pelos grandes incêndios de 2017, do franzir de sobrancelhas pelas polémicas envolvendo o filho Nuno e as gémeas brasileiras, da impassibilidade facial ao destituir três Governos, da preocupação de ver a Europa novamente em guerra. Sem falar nos efeitos das cirurgias a que foi sujeito e sem contar com as intempéries pessoais e climáticas.

“Pus-me a pensar no meu próprio processo de amadurecimento desde 2016, de tomada de consciência, o que me ajudou a posicionar-me. Tentei perceber no meu corpo de trabalho e neste processo de criar quase um fóssil de dez anos de mandato, como seria capaz de dissecar o meu encontro pessoal com a construção de alguém que nos representa a todos e à República. E no peso do que aconteceu na última década. Como poderia passar tudo isso para um retrato?” Este era o desafio assumido por Vhils. Porque, como confessa o artista, “um retrato não é apenas um retrato. À superfície pode ser uma imagem muito polida que nós construímos ou pode mostrar todas as camadas que também fizeram o Presidente ser o que ele é hoje”.

“Um retrato não é apenas um retrato. À superfície pode ser uma imagem muito polida ou pode mostrar as camadas que fizeram o Presidente ser o que é hoje”, diz Vhils

Qual arqueólogo, Alexandre Farto foi buscar jornais nacionais e estrangeiros com os principais acontecimentos dos últimos dez anos e fez tela com as notícias que encheram a vida do país e de um Marcelo Rebelo de Sousa, que para lá de político, manteve sempre a identidade de um animal noticioso. “É um retrato de uma década de governação e de visibilidade pública constante, de equilíbrio de forças e criação de pontes, tentando perceber o peso que isso teve pessoalmente, porque é um retrato, que é fotográfico e mostra a superfície, mas também podemos ir ao osso e à entranha”, revela, assumindo que a sua técnica tem um lado “que é agressivo e destrutivo”. Porque da colagem emerge um rosto, fruto da ação de escavar: “Eu vou cravando, expondo as camadas e é nessa tensão, e de alguma forma admiração por alguém que está disposto este trabalho, num contexto, a meu ver, cada vez mais injusto e polarizado.”

“Há sempre um diálogo estético e de conceito, mas o trabalho do retrato é muito particular. Tento não fazer um julgamento, mas colocar a crueza do que não se consegue fixar numa fotografia, daí esse acumular de informação e documentação do que foram estes últimos dez anos.” Marcelo Rebelo de Sousa toma a palavra: “Vhils é de outro mundo, é uma rutura. Pela primeira vez naquela galeria utilizam-se outras técnicas, para lá da pintura, novas aproximações estéticas. É um testamento político. A interpretação política da minha pessoa”, assumindo ter admiração pelo “lado idealista e quase teenager” do artista. Estava consumado o encontro improvável entre dois homens diferentes em tanta coisa.

As versões

Foram feitas várias alternativas, duas das quais tornaram-se preponderantes e serão entregues ao Museu da Presidência. Os vários caminhos foram sendo trilhados em simultâneo pelo artista, até perceber aquele que conseguiria perdurar no tempo. O Presidente não terá interferido nem feito exigências, garante Alexandre Farto.

Uma das versões utilizou duas portas do mosteiro descartadas de Arouca como suporte da imagem e consegue conjugar a influência católica com os padrões moçárabes e o rosto do Presidente resulta da perfuração na madeira, a mesma técnica utilizada por Vhils no trabalho que foi exposto em frente às pirâmides de Gizé no ano passado. Mas Marcelo recuou quando se viu assim fixado. “Estava demasiado pesado, parecia que o mundo desabava sobre mim, não tinha o lado extrovertido”, conta o Presidente. Estava envelhecido. Como disse Eduardo Lourenço, “ver é ser visto” e como poderia o Presidente dos abraços e demolidores apertos de mão ficar para a posteridade como um idoso, pessimista e de olhar carregado? A alternativa foi descartada e ainda está por decidir o destino desta obra.

Recusada esta versão, Vhils apresenta outra, mais solar, comunicativa. O Presidente revê-se, aceita-a. A segunda e definitiva versão terá conseguido cumprir o objetivo desejado pelo Presidente: ter um retrato psicológico. Encontram-se o artista que vê e o retratado que se revê. Mas, coberto por um manto de segredo e protegido por um contrato de confidencialidade, o retrato não foi visto pelos jornalistas do Expresso. Esta condição foi a única colocada pelo Presidente e pelo artista para participarem neste texto, que começou a ser concebido há um ano, com a auscultação de várias pessoas ligadas à política e à arte sobre quem seria o artista escolhido. E, ao longo deste período, ninguém ousou arriscar em Vhils, nem sequer os que lhe eram próximos.

“A dessacralização da figura do Presidente e essa alegria que ele trouxe, com altos e baixos” estará, portanto, refletida na obra que será revelada em conferência de imprensa no início do próximo mês, conta ao Expresso quem melhor a conhece. Recorre à já tradicional técnica utilizada por Vhils de fazer colagens com camadas sobrepostas de materiais, sejam pósteres ou folhas de jornal, como neste caso, sobretudo jornais nacionais, com as notícias dos principais acontecimentos que marcaram o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa no Palácio de Belém. Qual palimpsesto histórico-social, o artista interveio na realidade noticiosa, escavando por incisão, com a profundidade necessária até que, da conjugação de atos e escolhas, conseguisse fazer emergir o rosto do retratado.

Questionado sobre a ausência dos símbolos de poder inerentes aos retratos institucionais de um chefe de Estado, como a cadeira com cabeças de leões que aparece em vários dos retratos presidenciais, Vhils invoca justamente a utilização das notícias, sinais de memórias vividas — “se calhar, o único símbolo presente é o do poder de comunicação e de o Presidente chegar às pessoas. E isso vê-se pelas notícias, com os altos e baixos da Presidência”. No final do processo produtivo, a imagem foi submetida a passagem de uma tinta branca para dar homogeneidade ao resultado. E daqui a muitas décadas, se alguém quiser fazer um exercício de arqueologia, terá de desconstruir o retrato presidencial, e assim, talvez consiga perceber que país foi aquele que Marcelo Rebelo de Sousa liderou.

Os outros

A ideia de criar uma galeria de retratos dos Presidentes da República surgiu no Estado Novo. Ainda em 1925, um artigo no “Diário de Lisboa” dá o primeiro sinal, a propósito do retrato de Manuel Teixeira Gomes (1923-1925), pintado por Columbano Bordalo Pinheiro, assumindo que este viria posteriormente a ficar reunido com as pinturas de Manuel de Arriaga (1911-1915) e de Teófilo Braga (1915), numa sala do Palácio de Belém.

Já na década de 30, António de Oliveira Salazar consolida o objetivo ao encomendar os retratos em falta — Sidónio Pais (1917-1918), João do Canto e Castro (1918-1919), António José de Almeida (1919-1923), Bernardino Machado (1915-1917 e 1925-1926) e Óscar Carmona (1926-1951). Torna-se assim quase hegemónico o traço de Henrique Medina, responsável pelos retratos de cinco presidentes, seguido de perto por Columbano (três). A galeria foi-se constituindo, portanto, muitas vezes através de encomendas póstumas ou com o aproveitamento de retratos realizados antes ou depois do exercício do cargo de cada chefe de Estado.

É a partir de Mário Soares (1986-1996), no entanto, que a galeria de retratos presidenciais ganha interesse artístico, de tal forma que ficou instituída a tradição de que o Presidente não cesse funções sem que a galeria receba o seu retrato, nos últimos dias de mandato. Em 1992, ao apresentar a pintura de Júlio Pomar em que, pela primeira vez, um chefe de Estado português é retratado em pleno movimento e a sorrir, Soares derruba muros estéticos e estabelece um novo paradigma.

Antes desta rutura, em 1980, já alguns sintomas de mudanças puderam ser percebidos com a apresentação do retrato de António de Spínola (1974), uma pintura com história própria. A primeira a mostrar um Presidente num cenário extramuros, com o Palácio de Belém ao fundo e transeuntes a circular pela cidade, foi iniciada por Manuel Lapa e terminada pelo seu filho Francisco, que chegou a ser preso pela polícia política na cadeia do Aljube por distribuir propaganda contra o regime de Salazar.

Seguiu-se a este o mais mal-amado dos retratos, em que Francisco da Costa Gomes (1974-1976) aparece sentado, vestindo uma farda de gala, o colar da Ordem Militar da Torre e Espada, pintado por António Rebocho, cuja data de execução se desconhece. Por oposição, no retrato pintado por Luís Pinto-Coelho, o Presidente António Ramalho Eanes (1976-1986), militar de carreira, aparece, a seu pedido, despido de qualquer farda ou honraria. E, mais uma vez, surgem aspetos novos, como os elementos gráficos colocados por trás do Presidente que não se percebe o que significam ou representam.

Chega-se então ao já referido retrato de Mário Soares, a estalar de brilho e vida, mas sem se esquecer de simbolizar o poder através da institucional cadeira dos leões. Amigos de longa data, os retratos de Soares feitos por Pomar remontam ao tempo em que os dois foram presos políticos.

A segunda e definitiva versão terá conseguido cumprir o objetivo do Presidente: ter um retrato psicológico. Encontram-se o artista que vê e o retratado que se revê

Jorge Sampaio (1996-2006) marca esta história de duas formas distintas. É o responsável pela criação em 2004 do Museu da Presidência da República, instalando-o nas antigas cavalariças do Palácio Nacional de Belém. O espaço preserva e divulga a história da República Portuguesa e da própria instituição presidencial, através da exposição de objetos pessoais, retratos oficiais e presentes de Estado.

Mais marcante, contudo, foi a escolha de Paula Rego para pintar o seu retrato presidencial. A primeira mulher a assinar um quadro na galeria, a artista luso-britânica era também uma antiga amiga do chefe de Estado. Foi ela também a única artista a oferecer as três versões que fez de Jorge Sampaio, duas na posse do museu e uma entregue à família. A maior inovação, no entanto, é o próprio traço de Paula Rego, marcante, irónico e crítico da instituição e dos símbolos do poder representados, como um busto da República que se assemelha a um bibelô vendido nas feiras populares.

Aníbal Cavaco Silva (2006-2016) regressa ao protocolo rígido dos retratos, sem deixar de introduzir uma nota de excitação ao escolher Carlos Barahona Possolo, pintor com obra feita em desenhos de cariz erótico. Mas há mais por dizer. Como conta o site oficial do Museu da Presidência, “a encomenda do retrato foi dirigida a dois pintores, em total segredo. No primeiro mandato, a Carlos Barahona Possolo, já no segundo mandato, a António Macedo”.

O que não se diz, mas sabe, é que a segunda imagem retratou um Cavaco Silva muito envelhecido, abatido. Assim, após a submissão à aprovação de cerca de quatro dezenas de pessoas, sobretudo a família do chefe de Estado, a versão de Possolo foi a escolhida. Curiosa também a opção por retratar o Presidente com uma enorme bandeira nacional a tremular, embora o cenário remeta para um espaço fechado, a pilha de livros grossos, com destaque para “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, e a caneta na mão, sem que se veja qualquer documento por assinar.

Pintados para reproduzir um modelo herdado da monarquia, a maioria destruídos pelo terramoto de 1755, os retratos da Galeria Presidencial são, como classifica Joaquim Caetano, ex-diretor do Museu Nacional de arte Antiga (MNAA), “retratos falantes”. “Têm grande peso iconográfico, que pretendem mostrar não só a realidade física da figura, mas toda a sua posição de poder na sociedade.” O exemplo mais emblemático, diz, é o retrato de dom Sebastião, pintado por Cristóvão de Morais, “porque exalta tudo o que o rei não foi”.

Na origem desta tradição estão os retratos dos Habsburgos de que o pintor italiano Ticiano (séc. XVI) se tornaria a principal referência. Um modelo que passa pela presença de elementos essenciais, como a vestimenta do retratado, os adereços, os animais e o gestual, como a mão dos monarcas sobre um espadachim, por exemplo. Mas, por mais voltas que se dê, acaba-se sempre por regressar a Soares e a Pomar. “O retrato de Júlio Pomar é um corte de modernidade na galeria”, sublinha Joaquim Caetano, sobre a revolução provocada pela introdução do sorriso e do movimento. “É o único que retrata o ímpeto da palavra, é quase uma biografia do retratado”, acrescenta.

O próprio Marcelo chegou a ter um primeiro retrato presidencial. Conhecido em 2017 e feito por António Bessa, um artista do norte do país, mostra o Presidente sentado numa escada, de pernas entreabertas, informal e a sorrir, de olhar brilhante. O quadro está no Palácio de Belém, no gabinete das ajudantes de campo. Mas o que realmente anima a diretora do Museu da Presidência, é a opção de Marcelo Rebelo de Sousa por Vhils. Entusiasta da opção, Maria Antónia Matos equipara a chegada da nova obra de arte à mudança de paradigma ocorrida com a instalação do retrato de Mário Soares.

As interpretações

“Foi uma ousadia do Presidente escolher Vhils”, concorda João Pinharanda, diretor do MAAT e responsável pela curadoria da primeira exposição de Vhils num museu, em 2013 na Central Tejo. Com o título “Dissecação” apresentou um Alexandre Farto para lá das imagens escavadas nas paredes e muros, através de serigrafias e de uma cidade vista de cima, em relevo.

Um risco, sublinha ainda. “Soares e Sampaio eram amigos dos artistas escolhidos, não é o caso deste Presidente. O gesto mais importante foi o que foi feito pelo encomendador, que escolhe alguém que pode não ser consensual. É um gesto mais relevante do que a aceitação do artista, que tradicionalmente trabalha por encomendas”, explica Pinharanda. Questionado sobre se a aceitação “institucionaliza” o artista que começou no graffiti, responde que “há muito tempo que Vhils faz retratos, e não é este o trabalho que o vai institucionalizar. Já não pode ser classificado como um artista marginal, há muito tempo que está institucionalizado, embora, do ponto de vista da análise crítica, ainda não esteja consolidado”, conclui.

No dia 4 de março, o nicho, onde ainda só está escrito “Marcelo Rebelo de Sousa”, receberá o rosto colado e escavado por Vhils

O crítico de arte do Expresso José Luís Porfírio prefere sublinhar uma diferença substancial para os demais retratos da galeria, “uma diferença física. Ainda não se conhece, mas será um retrato em relevo, uma obra em volume, que resulta da transposição de uma fotografia. Nota-se uma vontade de ser criativo por parte do Presidente da República. Mas Vhils já está muito institucionalizado, bem adaptado ao mercado, acaba por ser um risco controlado”.

Celso Martins, também crítico do Expresso, aprofunda o debate ao contextualizar os retratos de forma cronológica. “Até à representação que Júlio Pomar fez de Mário Soares, os retratos oficiais dos Presidentes da República eram muito mais formais e esteticamente anacrónicos em relação ao seu tempo artístico. O de Pomar era um retrato psicológico que fazia jus à exuberância expressiva do protagonista e é bem mais interessante do que, por exemplo, o de Paula Rego para Sampaio.”

Sobre Vhils, a opinião de Celso Martins é dura: “Vhils foi um dos responsáveis pela popularização da street art em Portugal, trazendo arte para a rua onde se via sobretudo publicidade, mas o seu percurso subsequente é exemplar dos equívocos que acometeram este tipo de intervenção que, entre encomenda e homenagem, viu essa energia ser neutralizada e transformada em entretenimento massificado.”

O crítico não se espanta com a opção do atual chefe de Estado: “Esta é uma escolha espelho, que coincide exatamente com o perfil político de Marcelo e os seus mandatos presidenciais, na medida em que está a escolher levando em conta o que julga que é popular. A própria escolha já é a produção de uma imagem, e isso diz mais sobre Marcelo do que sobre Vhils.”

Também Joaquim Caetano questiona a opção. “A arte contemporânea é marcada pela experimentação de meios e de estéticas. Vhils experimenta meios, mas a estética é previsível. Os seus métodos de trabalho são inovadores, mas os retratos são convencionais”, atira o ex-diretor do MNAA. Opiniões que sinalizam um debate que agora apenas se inicia.

O legado

Quando a rainha Isabel II escolheu Lucian Freud para a retratar no início deste século, o resultado causou espanto. Uma pintura a óleo invulgarmente pequena (de apenas 24x15 cm), muito marcado pelo realismo impiedoso característico do artista, que retratara figuras públicas como a modelo Kate Moss. Revelado em dezembro de 2001, transformou-se numa das mais controversas obras da história da arte real britânica.

Não se espera tanto da apresentação do retrato de Marcelo Rebelo de Sousa feito por Vhils. Mas, desde já, questiona-se a reação dos agentes instituídos da comunidade das artes plásticas nacionais. Até porque, alguns artistas atuais não rejeitariam a oportunidade a que Alexandre Farto começou por recusar. É o futuro, contudo, que já ocupa os interessados na área.

“O Presidente teria sido mais disruptivo se tivesse optado por um fotógrafo. Talvez o próximo o faça”, arrisca Joaquim Caetano. “O tempo faz com que as verdades venham ao de cima. Estes retratos existem para perpetuar a memória e esta foi uma boa escolha para o momento, não sei se o será para a posteridade”, completa. Celso Martins também acrescenta dúvidas. “Obviamente, ainda não conheço o retrato em apreço, mas os primeiros retratos de rua de Vhils tinham como interesse fundamental o de trazerem pessoas anónimas para a visibilidade pública, ou seja, neles interessavam mais as circunstâncias envolvidas do que a riqueza expressiva do retrato. Obviamente, estas condições não se aplicam à reprodução da imagem de um Presidente da República que fez tudo para ser omnipresente. Esse será um desafio a resolver: como distinguir um retrato autoral de mais uma selfie?”

No dia 4 de março, o nicho, onde ainda só está escrito “Marcelo Rebelo de Sousa”, receberá o rosto colado e escavado por Vhils. Ao lado, no nicho restante ainda vazio, como manda a tradição, será inscrito o nome de António José Seguro e as avaliações começarão a surgir, baseadas na imagem revelada.

“Claro que fico intimidado e é muito difícil estar num espaço destes, tendo vindo da Margem Sul, da Arrentela, e de pintar comboios, de puxar por artistas, fazer trabalho social com o Eminente — projeto que celebra a criatividade emergente e a cultura de rua. No entanto, é importante que estes telhados de vidro se consigam partir, o que, para mim, foi uma honra, mas é também para que outros artistas consigam entrar nestes espaços e comecem a trazer a contemporaneidade para que os diálogos que existam em espaços como o Conselho de Estado, reflitam também a realidade do país, que é muito diferente de há dez anos”, desabafa Alexandre Farto, num depoimento sobre a sua escolha e aceitação.

Quanto a Marcelo Rebelo de Sousa, apetece recordar o ato 5, de “Macbeth”: “Ainda assim, quem poderia imaginar que o velho teria tanto sangue dentro dele?” Um político que percebeu, naquela que será uma das suas últimas cenas, que “o rei tem em si dois corpos, isto é, um corpo natural e um corpo político. (…) O corpo natural é um corpo mortal, sujeito a todas as enfermidades que ocorrem por natureza ou por acidente (…). Mas o seu corpo político é um corpo que não pode ser visto nem tocado, consistindo numa sociedade política e num governo, e sendo constituído pela direção do povo e pela gestão do bem público”, como explicou Evelyne Pieiller, num artigo do “Le Monde Diplomatique”, em dezembro de 2023, citando o emblemático “Os Dois Corpos do Rei”, de Ernst Kantorowicz (1957).

Marcelo, um filho do antigo regime, que soube distanciar-se da tradição de pinturas como a de Luís XIV (1638-1715), o Rei-Sol, em trajes da coroação, de Hyacinthe Rigaud, e preferiu apostar no artista de 39 anos. Um risco pensado, medido, uma aposta na inovação controlada, na notoriedade assegurada, na história por ele marcada. Depois de Spínola, o pastiche do naïf; de Costa Gomes, o disforme; da contenção de Eanes, do brilho de Soares, da preocupação de Sampaio e da austeridade de Cavaco; Marcelo tinha de deixar a sua assinatura. E o ex-jornalista escolheu a comunicação. Segue-se Seguro, a incógnita do parágrafo em branco.

Nota: Este texto foi corrigido no dia 26 de fevereiro, às 16h45, para que todas as referências à apresentação do retrato, previstas para dia 3 de março, fossem substituídas por 4 de março.

 

 

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Citação de rcoelho14, há 1 hora:

Fiquei bastante curioso de ver o resultado final, cá estaremos para a semana.

Entretanto fui ao site do Museu da Presidência para ver os retratos dos outros.

https://www.museu.presidencia.pt/pt/conhecer/presidentes-da-republica-biografias/

Fica aqui, podem entrar na página de cada presidente e podem ver os retratos.

 

Até nisso o do Cavaco dá sono.

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