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Ela entrou para a história. Sem pressa para celebrar

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Ela entrou para a história. Sem pressa para celebrar

Filipa Pipiras. Primeira Grande Mestre Feminina portuguesa

Uma tarde ensolarada dá mais cor ao cenário verdejante do Parque da Cidade do Porto e o mundo cabe todo dentro de uma pequena bolsa. Filipa Pipiras chega acompanhada pela mãe, Natércia, e traz consigo o objeto que a acompanha para quase todo o lado. Um tabuleiro de silicone enrolado, guardado ao lado das peças brancas e pretas que há anos fazem parte da sua rotina diária. O gesto é simples. Quase automático. Como se fosse tão natural como levar um caderno ou um telemóvel.

Antes de a conversa entrar no território do xadrez, a mãe faz questão de mostrar fotografias de desenhos da filha. Não são apontamentos dispersos nem passatempo leve. São trabalhos meticulosos, com precisão e paciência, com uma densidade de detalhe que os aproxima de uma sala de aulas de belas-artes. Há ali outra forma de concentração. Outro tipo de silêncio.

Filipa fala devagar. Escolhe as palavras como define os lances. Sem pressa. Sem excesso. Aos 20 anos, tornou-se a primeira portuguesa a alcançar o título de Grande Mestre Feminina, um marco inédito no xadrez nacional. Mas a forma como o diz não traz euforia. Traz distância e serenidade. Como se o feito já tivesse sido colocado no lugar certo da memória.

“Significa que o meu nome vai ficar para a história do xadrez nacional”, afirma a jovem portuense. “Espero também que seja uma motivação para outras xadrezistas, porque consegui quebrar uma barreira que até agora ninguém tinha conseguido ultrapassar”, acrescenta.

“O meu nome fica para a história do xadrez nacional. Espero ser uma motivação para outras xadrezistas”

A palavra história entra cedo na conversa. Mas não pesa. Não a fixa. Filipa sabia exatamente o que estava em causa. Nunca tinha existido uma Grande Mestre Feminina portuguesa. Ainda assim, este foi apenas mais um passo, um movimento lógico de um lance mais ambicioso. “Como os meus objetivos são mais altos, encarei este título como um passo intermédio. Fiquei feliz, mas não senti euforia. Quero mais”, sublinha a jogadora.

O impacto chegou depois. Em ondas curtas: mensagens, chamadas, o seu nome espalhado nas notícias. Um ruído inesperado a entrar subitamente na rotina. “Quando cheguei, estava a receber dezenas de pedidos de entrevistas e não estava à espera de tanto impacto, honestamente”, admite.

O tempo de digestão foi mínimo. Quase inexistente. Entre o regresso da Alemanha e a vida em Portugal não houve uma pausa real. “Gostava de ter tido uns dias para assimilar tudo, mas tive apenas um dia de descanso”, conta ao Expresso. “Depois tive de voltar logo a estudar, porque tinha exames e muita matéria para recuperar.” O xadrez raramente oferece intervalo. A vida de Filipa parece ter herdado essa mesma lógica. Avançar, ajustar, continuar.

“Não houve tempo para celebrar”

Em Karlsruhe, na Alemanha, o tabuleiro deixou de ser apenas jogo para se tornar cálculo em estado puro. Não havia espaço para dispersão. Nem para dúvidas prolongadas. Filipa conhecia o terreno. A sétima ronda alterou a geometria do torneio. As contas deixaram de ser abstratas, tornaram-se quase inevitáveis. “Quando ganhei a sétima ronda, percebi que, se um dos adversários das últimas duas rondas aparecesse ao jogo, já tinha feito a norma”, explica.

Mas havia sempre mais do que um objetivo em simultâneo. O título feminino não era o limite. Era apenas uma das linhas em jogo. “Como também estava com uma performance acima de Mestre Internacional absoluto, queria tentar atingir essa norma.” Na manhã seguinte, bastava um resultado mínimo para fechar uma parte do percurso. “Acabei por ganhar logo o primeiro jogo da manhã”, recorda. O dia, porém, não terminou aí. O tabuleiro não conhece celebrações antecipadas, o corpo também não. “Ainda tinha outro jogo à tarde, por isso não houve muito tempo para celebrar.” O cansaço acumulado tornou-se presença constante. Um adversário invisível.

“Como os meus objetivos são mais altos, encarei este título como um passo intermédio. Quero mais”

Quando tudo terminou, a emoção apareceu tarde. Sem explosão. Mais próxima de um alívio. “Entre 2024 e o início de 2025 não estava a ter um balanço positivo”, reconhece Filipa Pipiras. “Conseguir finalmente fechar o título deixou-me feliz.” No xadrez internacional existem seis títulos principais, organizados em duas escalas paralelas — uma geral e outra feminina. Filipa Pipiras conquistou o mais alto título reservado às mulheres, o de Grande Mestre Feminina. Acima dele, na escala absoluta, existem ainda dois patamares: Mestre Internacional e Grande Mestre, o grau máximo da modalidade.

O percurso no xadrez começou de forma quase inusitada. Jogava no clube da escola por influência de um amigo. Nada apontava para uma continuidade. Tudo mudou num momento de fragilidade familiar. “A minha mãe ficou doente e acharam que seria boa ideia dis­trair-me com alguma coisa”, recorda. Um e-mail da escola anunciou um torneio. O avô levou-a. E o jogo abriu-se. “Fiquei em segundo lugar e ganhei uma taça.” Tinha 9 anos. “A partir daí comecei a jogar mais e a gostar do jogo.” O acaso ganhou forma de destino lento. Sem rutura. Sem anúncio.

“O xadrez reflete 
muito a vida”

O xadrez deixou de ser ocupação. Tornou-se linguagem. Um sistema de pensamento. “O xadrez reflete muito a vida, porque estamos sempre a tomar decisões e a adaptar-nos a mudanças rápidas”, observa a Grande Mestre portuguesa. A lógica do tabuleiro não fica dentro do tabuleiro. “Temos de estar sempre a decidir e a reagir às posições que vão surgindo”, complementa.

A aprendizagem mais constante vem do erro. “Nas vitórias nem sempre aprendemos tanto. Nas derrotas é preciso perceber onde errámos”, observa a xadrezista. Depois de cada partida, o processo continua. “Se não verificar os lances, fico sempre a pensar neles.”

A exigência prolonga-se para fora do xadrez. Bifurca-se com outro percurso igualmente exigente: o curso de Medicina. “Não é fácil equilibrar tudo”, reconhece. “Houve semanas em que tive de estudar muitas horas para recuperar o tempo perdido durante torneios.”

A vida organiza-se em blocos de esforço. Se pudesse escolher apenas um caminho, não hesita: “Escolheria o xadrez.” Mas a aluna do 3º ano de Medicina sabe que “não é possível viver apenas disso em Portugal”. Apesar do esforço hercúleo para conciliar o estudo e a competição, Filipa ainda encontra espaço para respiros curtos. Toca violoncelo e encontra na corrida uma fuga ao stresse.

O xadrez feminino, aponta a jogadora, continua a viver com uma marca estrutural. “Há pessoas que acham que as mulheres não são capazes de jogar xadrez ao mesmo nível. Ou que não têm a agressividade necessária para o jogo”, refere a atleta, que tem Judit Polgár como principal referência na modalidade. “Foi a única mulher a atingir o topo absoluto do xadrez. Isso mostra que era possível chegar lá numa altura em que muitos achavam que não.”

“Quando cheguei recebi dezenas de pedidos de entrevistas e não estava à espera de tanto impacto”

No contexto português, as condições ainda são limitadas. “Faltam patrocínios e apoio institucional”, lamenta. “Noutros países há salários e estruturas mais fortes.” Todavia, isso não abala a ambição e já aponta para metas mais altas. “A curto prazo, gostava de chegar ao título de Mestre Internacional absoluto”, projeta a jogadora. Depois há o horizonte mais distante, o topo da montanha. “O meu sonho é ser Grande Mestre absoluto”, assume Filipa.

Estado não leva 
o xadrez “tão a sério”

A leitura institucional do feito reforça a sua dimensão. Dominic Cross, presidente da Federação Portuguesa de Xadrez (FPX), enquadra-o. “É algo extraordinário e muito importante para o xadrez português. Só há cerca de 500 pessoas com este título”, refere o responsável. No universo feminino a escala ganha outra dimensão. “A Filipa está entre as 130 melhores jogadoras do mundo, num universo de cerca de 174 mil atletas femininas no ranking.”

Em Portugal, o xadrez cresce de forma constante. “O xadrez tem muita gente a praticar e há cada vez mais praticantes”, diz o dirigente. A estrutura acompanha essa evolução. “Existem cerca de 150 clubes distribuídos por todos os distritos”, indica. A base formativa também é extensa. “No desporto escolar estima-se que haja quase 20 mil alunos a jogar xadrez”, frisa o presidente da federação.

O acesso ao topo exige tempo e método. “É preciso muita dedicação, gosto pela modalidade e muitos anos de treino”, enfatiza Dominic Cross. No caso de Filipa Pipiras, o esforço traduz-se em volume competitivo elevado. “Compete cerca de 70 a 80 dias por ano em torneios internacionais de alto nível”, realça o dirigente, para quem a jovem atleta “tem ainda uma grande margem de crescimento, havendo apoios e disponibilidade”.

As condições, porém, são limitadas. “O apoio da federação é limitado e muitas vezes são os pais que suportam os custos”, reconhece Dominic Cross. E traça o diagnóstico estrutural: “O xadrez não é levado tão a sério pela tutela como outras modalidades.”

Para o presidente da FPX, “é cada vez mais importante incentivar os jovens a pensar. Todos os anos há atletas a entrar em Medicina, Engenharia ou Aeronáutica.” E isso, defende, não é obra do acaso. “Os hábitos de treino e de leitura facilitam depois a aprendizagem noutras áreas”, remata.

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Uma moça cujo apelido começa por Pipi deve ter sido alvo de bullying frequente.

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Citação de Descartes, há 13 horas:

Uma moça cujo apelido começa por Pipi deve ter sido alvo de bullying frequente.

Acho que isso está implícito no facto de se ter dedicado ao xadrez...

  • Haha 1

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Grande máquina. Jogar a este nível não é para qualquer cabeça.

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Vejo a jogar desde os sub 12, até porque na altura estava sempre a disputar titulos contra um miudo de um clube onde eu estava

Nao duvido que vá ser GM absoluta. É o maior talento feminino no xadrez que Portugal já viu

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