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A Espanha não ganhou o Mundial. Foi o processo que se encarregou de o fazer

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A Espanha não ganhou o Mundial. Foi o processo que se encarregou de o fazer

Há cerca de duas décadas, Espanha deu início à criação de uma identidade futebolística nacional. O método a que, desde cedo, os jogadores estão sujeitos deu frutos em 2026, tal como em 2008, 2010, 2012 e 2024. Num torneio repleto de destaques individuais, ganhou a “melhor equipa do mundo”, orientada por alguém que conhece o processo de cima a baixo e valoriza “boas pessoas”. Manu Fernández, diretor das seleções jovens do país, explicou à Tribuna Expresso como é forjado o ADN de La Roja

As camisolas com que a seleção espanhola jogou contra a Argentina terminaram o dia desatualizadas. Assim que se percebeu que o golo de Ferran Torres, já no prolongamento, aos 106 minutos, seria suficiente para conquistar o Mundial, o equipamento foi substituído. Em vez de uma, a nova versão tinha duas estrelas por cima do símbolo. Foi com essa indumentária, suporte das referências aos títulos de 2010 e 2026, que os jogadores deram início à festa no relvado do MetLife Stadium, em Nova Jérsia.

A desconfiança que se seguiu após o empate frente a Cabo Verde, no primeiro jogo da fase de grupos, foi manifestamente exagerada. A partir daí, a Espanha pintou um desenho sem nunca ultrapassar o risco e sujeitou outros favoritos, como a França e a Argentina, a um processo de banalização. A prestação imaculada culminou numa final em que não concedeu qualquer remate à baliza, terminando a competição apenas com um golo sofrido, lapso ocorrido contra a Bélgica nos quartos de final.

As conversas do planeta giravam em torno do celestial Lionel Messi, dos seis Mundiais em que Cristiano Ronaldo marcou, dos golos que fizeram de Kylian Mbappé o melhor marcador de sempre na competição, do quão em voga o carisma de Erling Haaland ficou nos Estados Unidos, do poder de fogo de Harry Kane. Enquanto isso, a Espanha sempre foi a Espanha, equipa onde por um Lamine Yamal ou um Rodri existiu um Álex Baena ou um Pedro Porro.

Aos 19 anos, Lamine Yamal já é campeão da Europa e do Mundo. Jogar acima do escalão nunca foi um problema para o extremo do Barcelona
Aos 19 anos, Lamine Yamal já é campeão da Europa e do Mundo. Jogar acima do escalão nunca foi um problema para o extremo do Barcelona
Hector Vivas - FIFA

“As estrelas brilham juntas.” A frase que seguiu à boleia do autocarro panorâmico que transportou os jogadores espanhóis entre os mais de dois milhões de pessoas que celebraram o título com a equipa nas ruas de Madrid confirmou o triunfo do coletivismo. “As pessoas boas, solidárias, generosas e com valores são capazes de formar uma autêntica equipa. Jogámos contra as melhores seleções do mundo, mas nós fomos a melhor equipa do mundo. Estes jogadores puseram o bem comum à frente do particular”, afirmou o selecionador, Luis de la Fuente, elogiando a abnegação do grupo.

O humanismo não é o requisito mais óbvio para filtrar candidatos a comporem a tropa de elite. É, no entanto, um critério exigido a todos os que evoluem na estrutura da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF). “Os valores de humildade, respeito e companheirismo são indispensáveis, caso contrário, os jogadores não podem continuar connosco.” Ouvido pela Tribuna Expresso, Manu Fernández é intransigente. É o diretor responsável por supervisionar todas as seleções jovens e admite que, na dúvida entre atletas “de um nível similar”, essas qualidades podem definir quem continua a fazer parte da seleção.

A construção de um ADN

Se duas equipas entrassem em campo descaracterizadas, a seleção espanhola seria desmascarada a partir do momento em que os jogadores tocassem na bola. A impressão digital podológica que partilham denunciá-los-ia. A Espanha não se sagrou campeã do mundo agora, mas sim há 20 anos quando criou uma identidade futebolística nacional que a diferencia e que instantaneamente valeu a conquista dos Euros 2008 e 2012 e do Mundial 2010.

Criar a sensação de que em campo estão jogadores geneticamente modificados e aos quais o cromossoma da técnica foi sobredimensionado “é um processo muito longo”, alerta Manu Fernández, que passa por sujeitar os jovens ao “modelo ideal” desde que são “muito pequenos”. “A Espanha tornou-se campeã do mundo com naturalidade, sem fazer nada além do que já fazia”, diz.

“A primeira coisa que fazemos é escolher um modelo. A partir daí, vamos buscar os jogadores ideais para o que queremos. Depois, criamos um perfil. Os nossos centrais têm que ter uma série de requisitos para poderem estar connosco. O mesmo para todas as posições do campo. Queremos um perfil ofensivo e um perfil defensivo em cada posição. Quando os captamos, tentamos criar hábitos de jogo que se assemelhem ao que procuramos”, escalpeliza o responsável da RFEF.

Pau Cubarsí, um central à espanhola que sabe ter a bola nos pés
Pau Cubarsí, um central à espanhola que sabe ter a bola nos pés
NurPhoto

Saciados com a Liga das Nações 2022/23, o Euro 2024 e o Mundial 2026, alguns dos jogadores que, em 2019, conquistaram o Europeu sub-21, com Luis de la Fuente, perguntaram ao selecionador: “Mister, e agora? O que nos falta ganhar?” Há 13 anos na federação, o treinador “é um exemplo claro de como se gere um grupo e de como se pode chegar ao sucesso através do conhecimento que se tem dos jogadores de baixo”. A “promoção interna”, praticada na RFEF para que jogadores e técnicos vejam “opções de crescimento dentro da estrutura”, funcionou em pleno, de acordo com Manu Fernández. “Parte do sucesso desta seleção reside no facto do selecionador já conhecer o grupo.”

O envolvimento transversal de Luis de la Fuente no processo rejeita qualquer ceticismo no momento de observar o que está a ser produzido na base. O conhecimento total dos recursos disponíveis não é alheio à preponderância que Lamine Yamal e Pau Cubarsí têm, apenas com 19 anos, na seleção campeã do mundo. O central com neurónios dentro das chuteiras foi considerado o melhor jovem do torneio, uma das três distinções individuais recolhidas por internacionais espanhóis (Rodri foi considerado o melhor jogador e Unai Simón recebeu o prémio de melhor guarda-redes).

O dirigente que toma conta do desenvolvimento dos prodígios é progressista: “Tentamos promover os jogadores de escalão o mais cedo possível.” Quando se está perante um “central geracional” como Cubarsí ou um Yamal que “há dois anos já estava preparado para muitas coisas”, as dúvidas quanto ao salto desfazem-se.

Com um modelo “cada vez mais sólido”, as fornadas de jogadores espanhóis estão cada vez “mais bem preparadas”. “Na federação espanhola, não nos pressionamos a ser campeões continuamente”, suaviza Manu Fernández, que ainda assim acredita num futuro que “vai correr bem” às próximas gerações. Enquanto o ADN sobreviver, a Espanha arrisca-se a mais conquistas.

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Agora há já teorias também de que alguém foi ao balneário da Argentina antes do jogo dizer-lhes que era para perder lol

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Citação de Abraxas, há 9 minutos:

Agora há já teorias também de que alguém foi ao balneário da Argentina antes do jogo dizer-lhes que era para perder lol

A porrada toda que deram foi só para disfarçar

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Citação de Ricardo Pinto, há 1 hora:

A porrada toda que deram foi só para disfarçar

O Enzo e o Paredes esqueceram-se do script 

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Então a solução não é jogar com malta em fase descendente da carreira e/ou meio-reformada em campeonatos irrelevantes?

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