Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Marlo Stanfield

[Discussão] Triagem de Manchester

Publicações recomendadas

Visitante

Porquê? Podes ter notas de top, mas de top mesmo, e não teres vocação alguma para ser médico.

 

Aliás, dou-te um exemplo, não de um médico, mas de um "enfermeiro" (coloco assim porque não se chegou a formar). Era um aluno com notas extraordinárias, média de 18 valores (ou algo semelhante) no secundário. Entrou para Enfermagem, chegou ao terceiro ano e desistiu porque não tinha estaleca, simplesmente as competências técnicas e humanas dele não eram suficientes para ser um bom enfermeiro, aliás nem para ser um enfermeiro razoável. E, se fossemos a ver pelas notas, que eram de top, ele tinha tudo para singrar nessa área e não singrou.

 

As notas são importantes, contudo não são condição suficiente para definir alguém como sendo top numa determinada profissão, ainda para mais na área da saúde onde, além das competências técnicas, é também importante possuir boas capacidades de relacionamento e empatia.

 

Eu estou de acordo. Mas acho que a dificuldade do curso e as especificidades de se ser médico (conheço pessoal de medicina e, o Red Prince pode confirmar, é uma pressão do crl para se ser bem sucedido no curso) tratam do pessoal que não tem estaleca, como dizes. E falei nas notas porque normalmente quem tem uma média de 18 para cima não o consegue apenas e só por ser inteligente. Haverá trabalho, dedicação e capacidade de reter e aplicar conhecimento, e essas são valências essenciais para um bom profissional, sobretudo para um que ganha a vida a salvar vidas :biggrin:

 

Obrigado Ed, compreendido :fixe:

Editado por Visitante

Compartilhar este post


Link para o post

Eu estou de acordo. Mas acho que a dificuldade do curso e as especificidades de se ser médico (conheço pessoal de medicina e, o Red Prince pode confirmar, é uma pressão do crl para se ser bem sucedido no curso) tratam do pessoal que não tem estaleca, como dizes. E falei nas notas porque normalmente quem tem uma média de 18 para cima não o consegue apenas e só por ser inteligente. Haverá trabalho, dedicação e capacidade de reter e aplicar conhecimento, e essas são valências essenciais para um bom profissional, sobretudo para um que ganha a vida a salvar vidas :biggrin:

 

Obrigado Ed, compreendido :fixe:

 

A questão é que o médico é mais do que alguém que trabalha e que tem grande capacidade de reter e aplicar conhecimentos. Tem de criar empatia, tem de saber ouvir e passar a informação ao doente. Nesse sentido faz muito sentido o que o Vaart disse.

 

E essas coisas não se aprendem estudando ou trabalhando. É algo que faz parte das pessoas e faz parte da sua (ou não) vocação.

Editado por 1906

Compartilhar este post


Link para o post
Visitante

A questão é que o médico é mais do que alguém que trabalha e que tem grande capacidade de reter e aplicar conhecimentos. Tem de criar empatia, tem de saber ouvir e passar a informação ao doente. Nesse sentido faz muito sentido o que o Vaart disse.

 

E essas coisas não se aprendem estudando ou trabalhando. É algo que faz parte das pessoas e faz parte da sua (ou não) vocação.

 

Claro que sim, mas todas as profissões têm também uma ou outra especificidade do género. Por exemplo, os professores também não devem ser avaliados pelo conhecimento que têm na disciplina, mas pela capacidade em passar esse conhecimento aos alunos. Mas como é que se poderia avaliar esse tipo de competências num estudante de medicina ou de Educação ou de outra coisa qualquer?

Compartilhar este post


Link para o post

Claro que sim, mas todas as profissões têm também uma ou outra especificidade do género. Por exemplo, os professores também não devem ser avaliados pelo conhecimento que têm na disciplina, mas pela capacidade em passar esse conhecimento aos alunos. Mas como é que se poderia avaliar esse tipo de competências num estudante de medicina ou de Educação ou de outra coisa qualquer?

 

Penso que os professores são avaliados a dar aulas.

Editado por 1906

Compartilhar este post


Link para o post

Eu estou de acordo. Mas acho que a dificuldade do curso e as especificidades de se ser médico (conheço pessoal de medicina e, o Red Prince pode confirmar, é uma pressão do crl para se ser bem sucedido no curso) tratam do pessoal que não tem estaleca, como dizes. E falei nas notas porque normalmente quem tem uma média de 18 para cima não o consegue apenas e só por ser inteligente. Haverá trabalho, dedicação e capacidade de reter e aplicar conhecimento, e essas são valências essenciais para um bom profissional, sobretudo para um que ganha a vida a salvar vidas :biggrin:Obrigado Ed, compreendido :fixe:

 

Elliot, não vou entrar em questões de vocação e de orientação vocacional/profissional. Todavia, podem haver pessoas com notas mais baixas (16-17-18 valores) que poderiam dar bons médicos, por isso é que falei numa metodologia distinta de seleção para certos cursos da área de saúde, em oposição à quantofrenia.

 

Às vezes, o critério de avaliação quantitativa não é suficiente para julgar as capacidades de uma pessoa para desempenhar certa profissão (eu sei que isto pode ser controverso). Poderão haver pessoas com uma motivação intrínseca enorme para serem médicas e, possivelmente, seriam excelentes profissionais.

 

Confesso que, ontem, ao ouvir o Marcelo não fazia ideia de que não havia uma especialidade de Urgência. Quando ele disse que não existia, joguei as mãos à cabeça e perguntei-me como é que isso era possível, vários países por todo o Mundo têm essa especialidade.

 

PS: 1906, eu e tu de acordo? O que estará para vir...

Editado por Vaart

Compartilhar este post


Link para o post

 

PS: 1906, eu e tu de acordo? O que estará para vir...

 

Até parece :mrgreen: futebol é futebol, "pinners" como diz o outro :compinchas:

Compartilhar este post


Link para o post

Mas como é que se poderia avaliar esse tipo de competências num estudante de medicina ou de Educação ou de outra coisa qualquer?

 

Que tipo de competências falas?

Compartilhar este post


Link para o post
Visitante

Penso que os professores são avaliados a dar aulas.

 

No primeiro ano, penso eu. Mas continuam a existir maus professores aos pontapés. E seria extremamente dificil avaliar um médico como se avalia um professor. Depois de 6 anos de curso, com centenas de milhares de euros gastos pelo Estado na formação do médico, estaríamos em condições de dispensar um profissional por incapacidade em criar empatia com os doentes?

Uma coisa parece-me certa, à partida, antes da entrada na Universidade, é muito complicado avaliar se o estudante está talhado para ser médico. Como tal, atribuem-se as vagas àqueles que apresentam à partida como excelentes nas condições que referi acima, que se reflecte na média com que entram. A partir daí, o curso deve ser talhado não só para passar o conhecimento necessário à profissão, mas deve funcionar também como um filtro de potenciais maus profissionais e como uma ajuda na melhoria de competências que não estarão directamente relacionadas com o conhecimento inerente à profissão, mas que ajudará ao exercicio da mesma, nomeadamente a criação de empatia, capacidade para lidar com a pressão, capacidade para perceber o que é ou não importante no discurso dos pacientes, etc. Este é o meu ponto de vista :)

 

Elliot, não vou entrar em questões de vocação e de orientação vocacional/profissional. Todavia, podem haver pessoas com notas mais baixas (16-17-18 valores) que poderiam dar bons médicos, por isso é que falei numa metodologia distinta de seleção para certos cursos da área de saúde, em oposição à quantofrenia.

 

Às vezes, o critério de avaliação quantitativa não é suficiente para julgar as capacidades de uma pessoa para desempenhar certa profissão (eu sei que isto pode ser controverso). Poderão haver pessoas com uma motivação intrínseca enorme para serem médicas e, possivelmente, seriam excelentes profissionais.

 

Confesso que, ontem, ao ouvir o Marcelo não fazia ideia de que não havia uma especialidade de Urgência. Quando ele disse que não existia, joguei as mãos à cabeça e perguntei-me como é que isso era possível, vários países por todo o Mundo têm essa especialidade.

 

Como já disse atrás, boas notas não é sinónimo de competência. Mas como desconheço grandes alternativas ao método usado na atribuição de vagas que não o de atribuição aos melhores alunos (já com alguma personalização, visto que existem depois exames específicos que contam metade da nota), acho que a média é um indicador razoável da capacidade do indivíduo no que toca, como disse atrás, à dedicação, determinação, capacidade de reter e aplicar conhecimento, etc. Mas tu saberás melhor do que eu como é que poderia adequar ainda melhor as características do indivíduo ao curso a que se está a candidatar.

E por curiosidade, é engraçado estar a fazer de advogado do diabo, eu que por ter uma média relativamente baixa tenho tido alguma dificuldade em entrar no mercado de trabalho em empresas mais conceituadas, em relação a alguns colegas meus que à partida não são tão talhados para a posição, apesar de terem melhor média :mrgreen:

 

Ah, quanto às competências de que falo. Num médico, a competência essencial é clara, analisar e compilar os sintomas e estar preparado para dar uma resposta no combate à doença. Mas depois há outras competências que julgo importantes. Desde logo, a empatia com o doente, saber compreendê-lo e ter paciência para o fazer. O discurso de um paciente pode dizer bastante mais do que apenas a enumeração dos sintomas. Também é importante saber por o paciente à vontade - eu, por exemplo, odiaria ir a um urologista a não ser que achasse mesmo necessário :mrgreen: A capacidade para lidar com a pressão também, super importante sobretudo nas urgências! Depois também é preciso que um profissional da saúde seja capaz de apresentar a doença ao paciente, e salientar a importância que terá a adopção de certos comportamentos no tratamento da mesma, e este é também um ponto essencial a meu ver, pois a generalidade dos pacientes sentir-se-à tentado a não adoptar esses comportamentos se não se sentir suficientemente persuadido :)

Editado por Visitante

Compartilhar este post


Link para o post

Elliot, não vou entrar em questões de vocação e de orientação vocacional/profissional. Todavia, podem haver pessoas com notas mais baixas (16-17-18 valores) que poderiam dar bons médicos, por isso é que falei numa metodologia distinta de seleção para certos cursos da área de saúde, em oposição à quantofrenia.

 

Às vezes, o critério de avaliação quantitativa não é suficiente para julgar as capacidades de uma pessoa para desempenhar certa profissão (eu sei que isto pode ser controverso). Poderão haver pessoas com uma motivação intrínseca enorme para serem médicas e, possivelmente, seriam excelentes profissionais.

 

Confesso que, ontem, ao ouvir o Marcelo não fazia ideia de que não havia uma especialidade de Urgência. Quando ele disse que não existia, joguei as mãos à cabeça e perguntei-me como é que isso era possível, vários países por todo o Mundo têm essa especialidade.

 

PS: 1906, eu e tu de acordo? O que estará para vir...

 

Atenção no INEM os médicos que estão lá têm formação própria para isso não têm é a especialidade, são duas coisas diferentes.

Compartilhar este post


Link para o post

 

O problema é que os medicos, trabalham em uma carrada de hospitais, porque os hospitais só podem contratar a empresas de prestação de serviços, e os que pertencem aos quadros dos hospitais, normalmente já chegaram há idade de pedir dispensa de fazer turnos na urgencia, o que é que acontece, os médicos contratados, neste momento, encontram-se no ponto de "estou-me bem a cagar para esta m*rda" e atendem pela ordem que o pc os coloca, se um doente é triado de amarelo, vai para a fila dos amarelos, e espera pela vez dele, os medicos nem sequer se dão ao trabalho de ir lendo as notas de enfermagem, mas pode ser um amarelo realmente urgente, ou pode ser um pode esperar.

 

 

Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade.

Darei aos meus Mestres o respeito e o reconhecimento que lhes são devidos.

Exercerei a minha arte com consciência e dignidade.

A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação....

Compartilhar este post


Link para o post

Qual é então?

 

podia alongar-me mais nisso, mas é principalmente o sistema, que está completamente ultrapassado e não acompanhou as necessidades dos pacientes.

 

A famosa racionalização então é a gota de água disso tudo. É o fim de um sistema que se preocupa com a saúde do paciente e passa a preocupar-se com a saúde do dinheiro. Até já cheguei a ouvir que se uma pessoa tiver 80 anos e precisar de um medicamento para estender a sua qualidade de vida em mais 10 dias, isso deverá ponderado de forma a poupar um dinheirinho nesse medicamento. É só um exemplo. E andou pelas rádios e jornais isso, há uns tempos. Devia ser para brincar, de certeza.

Editado por Jone Eduardo

Compartilhar este post


Link para o post

podia alongar-me mais nisso, mas é principalmente o sistema, que está completamente ultrapassado e não acompanhou as necessidades dos pacientes.

 

A famosa racionalização então é a gota de água disso tudo. É o fim de um sistema que se preocupa com a saúde do paciente e passa a preocupar-se com a saúde do dinheiro. Até já cheguei a ouvir que se uma pessoa tiver 80 anos e precisar de um medicamento para estender a sua qualidade de vida em mais 10 dias, isso deverá ponderado de forma a poupar um dinheirinho nesse medicamento. É só um exemplo. E andou pelas rádios e jornais isso, há uns tempos. Devia ser para brincar, de certeza.

 

Não duvido nadinha que se tomem decisões com base nisso.

Compartilhar este post


Link para o post
Visitante

podia alongar-me mais nisso, mas é principalmente o sistema, que está completamente ultrapassado e não acompanhou as necessidades dos pacientes.

 

A famosa racionalização então é a gota de água disso tudo. É o fim de um sistema que se preocupa com a saúde do paciente e passa a preocupar-se com a saúde do dinheiro. Até já cheguei a ouvir que se uma pessoa tiver 80 anos e precisar de um medicamento para estender a sua qualidade de vida em mais 10 dias, isso deverá ponderado de forma a poupar um dinheirinho nesse medicamento. É só um exemplo. E andou pelas rádios e jornais isso, há uns tempos. Devia ser para brincar, de certeza.

 

Isso é uma situação vergonhosa, sem dúvida. Mas a verdade é que o SNS tal como estava a operar era insustentável se não fosse reestruturado e haveria duas alternativas: procurar cortar custos e aumentar a contribuição dos utentes. Acho que no geral se cortou bem, porque havia desperdício e muito abuso dos médicos no que toca a esquemas com a prescrição de receitas (e 3 anos depois de o ministro ter começado a exercer funções, ainda hoje é recorrente a denuncia de fraudes no SNS), mas é preciso ver que há limites, e que fazer mais com menos é quase sempre um chavão, visto que na realidade não é bem assim. Aumentar as taxas moderadoras deu azo a alguma revolta por parte do povo português, portanto não sei sinceramente se seria possível reestruturar o SNS calma e pacificamente e, provavelmente, acho que a maior parte das pessoas preferiria que o Estado tivesse continuado a empurrar o problema com a barriga e apenas a parte financeira do SNS se viesse a agravar.

Compartilhar este post


Link para o post

Só vi este tópico aqui agora. Esteve sempre aqui?

 

Deixo lançado o debate. Triagem de Manchester até que ponto deve ser levada à letra. Deve haver uma menor burocracia e maior sensibilidade das pessoas que estão no local de trabalho para garantirem de imediato que efetivamente o doente não corre risco de vida? Será assim tão difícil haver um serviço de 24 horas mais eficiente das Urgências?

 

A Triagem de Manchester funciona se houver meios humanos que possam dar seguimento nos limites de tempo que lhe são atribuídos. Uma triagem não é um diagnóstico, é uma triagem que tem efectivamente de ser feita porque é impossível garantir meios humanos para atender toda a gente que surja ao mesmo tempo, sobretudo em determinadas alturas sazonais como esta.

 

Com os cortes cada vez maiores e mais ridículos nos cuidados primários, nomeadamente Centros de Saúde - onde efectivamente se poderia fazer uma "triagem" mais eficaz e só encaminhar para o Hospital quem deve estar no Hospital... Agora vai ver quantos CSs reduziram os horários de urgência por esse país fora na última meia dúzia de anos e se calhar tens uma surpresa. Já para nem falar de quem nem tenta ir primeiro à linha de saúde e depois ao CS e vai logo directo para o Hospital.

 

Claro que se poupam muitos milhões, mas essa triagem prévia por um clínico geral num CS se calhar era preferível mesmo que perdesses meia-hora a seguir a transportar para o Hospital mais próximo se fosse preciso do que teres alguns enfermeiros a triar 700 pessoas por dia e depois não se ter possibilidade de responder nos tempos pré-definidos a seguir, o que leva às horas e horas de espera. Com todo o respeito pelos enfermeiros, mas se é verdade que estão capacitados para triar, não têm capacidade para diagnosticar, nem é de todo esse o seu propósito.

 

Os hospitais deviam ter uma zona de quartos "habitável" de forma a poderem ter um nº de médicos a dormir lá (não sempre o mesmo obviamente). Desta forma o médico iria descansar caso não houvesse nenhum serviço urgente ou "entupimento" de urgências.

 

Quanto ao sistema parece-me ser muito pouco objetivo. Não dá para dividir quadros clínicos em 5 níveis. É pior do que avaliar um filme de 0 a 5 ainda. Não faz sentido, é arcaico.

 

Idealmente a rotatividade dos períodos de banco assegurava isso. Períodos de 9h, 12h ou 24h, com o respectivo período de descanso a seguir. O problema é que com a escassez de recursos cada vez há mais médicos a entrar em burnout, ainda há umas semanas uma amiga de uma amiga minha se espetou com o carro depois de estar 30 e tal horas seguidas porque tinha consultas que tinha de dar depois de um banco agitado. Admito que muita gente não sabe, por exemplo, que há muita malta que faz com alguma regularidade 24 horas seguidas no hospital, logo desde que se é Interno de Ano Comum, 1º ano laboral. Entras às 21h, e estás lá até às 21h do dia a seguir, noite na Urgência, dia a seguir na enfermaria. Claro que pode haver tempos mortos mais tarde na enfermaria no dia seguinte, mas como deves calcular depois de uma noite em claro as capacidades não estão a 100%.

 

Também não deixa de ser curioso que desde o início do novo ano se tenham multiplicado pela imprensa estas situações de problemas na saúde, de cortes diretos com implicações na qualidade do serviço e no valor prestado ao paciente, de mortes nas urgências...esta das mortes nas urgências então é fantástica. É como se estas mortes nunca acontecessem ao longo dos tempos :roll: então na era Passos Coelho é uma maravilha. Dizer que o Sr. Secretario da Saude está a fazer um bom trabalho. Chegar à pasta e cortar na qualidade do serviço sem critério também eu faço. Qualquer um faz.

 

De repente o país descobriu que morrem pessoas nos hospitais.

 

Fui há 2 meses ao Hosp. S.João diretamente de Angola. Tinha ido a uma clínica em Luanda no dia anterior e disseram que poderia ter sido febre tifóide ou uma infeção. Tive pulseira amarela como toda a gente que lá estava.

Estive 2h30 à espera até ser visto pela médica. Só depois de ser visto por ela é que se lembraram que se calhar era bom tirar sangue para fazer análises. Ora, tive de esperar mais 2h30 por resultados de análises, pq era de noite. Isto acrescido à médica ser completamente inexperiente e a cada peido que tivesse de dar ia validar a um médico que era o único superior que estava de serviço nessa noite.

 

A partir de agora quando tiver problemas vou ao Hospital da Arrábida. Nunca tive uma única razão de queixa, só não lá fui pq não sou ADSE há ano e meio, mas prefiro gastar mais um bocado e ter um serviço em condições do que não tratarem como esterco.

 

:rolleyes:

 

Sabes que já todos os médicos foram inexperientes e que a única forma de formar um médico é ser acompanhado por um mais velho? E que é perfeitamente normal que numa situação para a qual não existe propriamente uma preparação exaustiva em Portugal porque felizmente não somos um país onde a febre tifóide (ou malária ou outros diagnósticos possíveis de febres tropicais) é endémica? Se se armasse em campeã e te tratasse como uma gripe banal sem ir consultar o especialista seria certamente melhor... Eu sei o básico sobre febre tifóide, nem no teste de Infecciologia saiu e não vou estudar febre tifóide nos próximos 10 meses porque não é isso que me é exigido para a prova nacional de seriação, se me aparecesses na Urgência podes crer que ia pedir ajuda a quem tem obrigação de saber mais do que eu em vez de te mexer mal. Na dúvida, não se deve fazer algo que possa prejudicar o doente. É parte do princípio da não-maleficência.

 

Isto é vergonhoso. Tenho o meu avô desde as 3h30 da tarde há espera para ser atendido! O caso é grave, e está num sofrimento terrivel. um médico que o reencaminhou suspeita que seja um tumor na próstata, pelos exames que ele fez, a coisa está muito feia, e só teve pulseira amarela. Palhaçada.

 

Um tumor quase nunca é uma urgência quando é diagnosticado. Aliás, acho que nem há oncologistas de prevenção na Urgência, é uma das especialidades que quem não quer fazer Urgência escolhe.

 

O problema não está só no sistema, mas sim em quem faz a recepção aos doentes, no passado mês de Novembro o meu pai foi internado de urgência ao final da manhã, com muitas dores na zona púbica, e pensávamos que era uma hérnia que ele tem que estava a ficar estrangulada, entrou, foi visto pelo enfermeiro e passado três horas foi visto pelo médico, que disse que a hérnia que ele tinha não era responsável pelas dores (colocou-a no sítio com os dedos), só por volta das 20.00h é que me informaram que ele ia ser operado de urgência a uma apendicite...

 

plot twist... ele tinha a pulseira amarela...

 

Não é nada escandaloso que isso aconteça na triagem, sobretudo numa altura de maior afluência. Lá está, é uma triagem, não um diagnóstico. É precisamente o contrário do que dizes, o problema neste caso é mesmo do sistema porque são duas situações que a um olhar muito superficial são passíveis de ser confundidos e só depois o médico é que naturalmente chegou ao diagnóstico.

 

Eu vi muitas vezes a triagem de manchester, e sei bastante bem como funciona, na minha opinião o problema não é a triagem e atribuição de cores, é o Ministerio da Saude, e forma como o governo se tem esforçado por privatizar a Saude.

 

Os enfermeiros fazem a triagem, consoante os dados que vão sendo fornecidos pelos doentes, vão introduzindo no pc, e no final antes de sair a cor da pulseira, o Enfermeiro coloca as suas observações, que alertam o clinico para estado do doente, porque existem pulseiras amarelas, que podem esperar 5h e outras que não podem esperar 30min.

 

O problema é que os medicos, trabalham em uma carrada de hospitais, porque os hospitais só podem contratar a empresas de prestação de serviços, e os que pertencem aos quadros dos hospitais, normalmente já chegaram há idade de pedir dispensa de fazer turnos na urgencia, o que é que acontece, os médicos contratados, neste momento, encontram-se no ponto de "estou-me bem a cagar para esta m*rda" e atendem pela ordem que o pc os coloca, se um doente é triado de amarelo, vai para a fila dos amarelos, e espera pela vez dele, os medicos nem sequer se dão ao trabalho de ir lendo as notas de enfermagem, mas pode ser um amarelo realmente urgente, ou pode ser um pode esperar.

 

O problema não é nem nunca foi da triagem, é da forma como ministerio da saude tem atendido ao lobby dos privados, e o bastonario do Medicos, é outro badamerda, que está a fazer propaganda para eles.

 

Não te quero chamar mentiroso e sei que trabalhas também na área da Saúde e com toda a certeza há mais tempo do que eu estou na área, mas já fiz bastantes horas de urgência e, além de NUNCA ter presenciado essa situação, aliás, bem pelo contrário, muitas das vezes ficam é exasperados com a falta de informação que surge no ALERT vinda da triagem.

 

E sem qualquer tipo de simpatia particular pelo bastonário da OM. Ele tem-se insurgido sempre contra a política absurda da tutela nos últimos anos, em defesa do SNS.

 

Há outra maneira de resolver isto e baixar o salário dos médicos de forma a poder diminuir custos da saúde e ter mais médicos a trabalhar, que é aumentando as vagas dos cursos. Mas a classe médica tem medo que isso venha a "banalizar" a profissão.

 

lol

 

Só tenho uma questão, quanto é que um médico recebe em topo de carreira e no início da mesma?

 

Em topo de carreira não sei e teoricamente nessa altura a grande maioria tem privada também, mas sei que um grande amigo meu que é especialista há +- 20 anos e só faz público ganha pouco mais de 4 mil euros/mês. Um Interno de Ano Comum, que é a base, ganha 1120 por mês.

 

O grande problema é a falta de vagas para os cursos de medicina, parece-me. E isso deve-se aos entraves colocados pela Ordem dos Médicos, que teme uma diminuição da qualidade dos estudantes que entram para esses cursos. É uma preocupação legitima, os médicos devem ser o top dos estudantes portugueses, mas acredito que a abertura de mais algumas centenas de vagas levaria a uma diminuição da média geral de uma ou duas décimas, provavelmente, o que não me parece ser grande diferença.

 

Falta de vagas? O sistema está mais do que entupido. A minha formação foi feita com o número de pessoas de volta de um doente a crescer. O rácio de 10, 20 gajos para um tutor é absurdamente ridículo tendo em conta o quão importante é a prática na nossa formação. Sabes o quão desconfortável é estarem 4 ou 5 grupos de 20 gajos cada dentro de uma enfermaria com 40 camas num Hospital Universitário?

 

Não vai haver a curto prazo (já era este ano se não houvesse a manobra que houve de criar uma pseudo-especialidade que não é nada em lado nenhum do mundo, que se chama Farmacologia Clínica e não dá equivalência em mais lado nenhum) vagas para quem sai do curso poder entrar na especialidade e concluir a formação. Vamos voltar aos médicos indiferenciados mais tarde ou mais cedo, é um retrocesso brutal na prestação de cuidados de saúde. Tudo porque o número de especialistas a dar formação específica vai diminuindo, o número de candidatos na melhor das hipóteses mantém-se no número exagerado dos últimos anos e na pior aumenta ainda mais.

 

As vagas nos cursos de medicina de ano para ano têm vindo a aumentar, as vagas para as especialidades é que não. Supondo que temos 1000 alunos por ano a saírem das universidades, o número de vagas para as especialidades acabam depois por ser 500 para MGF (medicina geral e Familiar) e as outras divididas entre cirurgias, medicinas internas, etc, ficando especialidades como anestesiologista, que é uma das mais carenciadas, com 10, por exemplo. Para suprimir isso o governo vai buscar médicos fora, pelo menos cá acabamos por ter médicos estrangeiros.

 

Olha que Anestesiologia até acho que é bem apetecível. E tenho quase a certeza que a maior parte dos médicos estrangeiros que cá estão são MGF, devido ao desinvestimento brutal que houve na especialidade. As vagas das especialidades mais específicas são quase sempre todas ocupadas. O que sobra sempre para o fim é MGF, muito por culpa da mentalidadezinha de muitos colegas meus para quem seria um desprestígio brutal trabalhar num CS, Anatomia Patológica, Legal, Saúde Pública e esse tipo de coisas que é para quem gosta mesmo dado que não envolve contacto directo com um doente nos termos em que a maioria idealiza ao entrar no curso.

 

Não devem estar bem a par da realidade económica portuguesa para acharem que um recém licenciado receber cerca de 1500€ como médico de medicina geral é pouco... pode não ser muito para uma licenciatura de 6 anos e para a profissão que é. Mas também não é pouco nas condições atuais do País e dado que se fala de uma área com 100% de empregabilidade.

 

O valor médio do salário base de um recém-licenciado anda nos 900 e tal, 1000 e poucos euros... ao menos na área de Medicina além de já começarem com uma base bem maior, podem ganhar bastante mais em horário extra nas urgências. Houve uma altura que havia médicos a fazer só choradinho para irem parar à urgência, porque era rios de dinheiro por cada hora que lá passavam. Uma disparidade enorme relativamente ao pago no horário normal, que a juntar-se à acessibilidade de preços do Serviço de Saúde no Geral para os doentes agrava o equilíbrio económico e de recursos de todos os hospitais no futuro, que é o que se tem vindo a verificar.

 

1120. "Bem maior". E duvido que um Interno de Especialidade, a não ser das de top, ganhe os valores que aí se falaram de 1300 a 1500. "Bastante mais em horário extra na urgência". Meu, acorda.

 

Deixo-te as horas que fez um amigo meu na SEGUNDA SEMANA que trabalhou, não necessariamente na Urgência:

 

Sábado (SU de 12h)- 8h30-22h

Segunda - 8h30-18h30

Terça (permanência) - 8h30-20h30

Quarta - 8h30 - 18h

Quinta - 8h30 - 18h30

Sexta - 8h30 - 18h30

Que da um grande somatório de 65 horas num horário de 40 horas

 

Confesso que, ontem, ao ouvir o Marcelo não fazia ideia de que não havia uma especialidade de Urgência. Quando ele disse que não existia, joguei as mãos à cabeça e perguntei-me como é que isso era possível, vários países por todo o Mundo têm essa especialidade.

 

 

Apesar de não termos essa especialidade, temos Internistas extremamente bem preparados para trabalhar no SU, bem como Ortotraumatologistas. Não tenho a experiência contrária, mas acho que não é por aí...

 

podia alongar-me mais nisso, mas é principalmente o sistema, que está completamente ultrapassado e não acompanhou as necessidades dos pacientes.

 

A famosa racionalização então é a gota de água disso tudo. É o fim de um sistema que se preocupa com a saúde do paciente e passa a preocupar-se com a saúde do dinheiro. Até já cheguei a ouvir que se uma pessoa tiver 80 anos e precisar de um medicamento para estender a sua qualidade de vida em mais 10 dias, isso deverá ponderado de forma a poupar um dinheirinho nesse medicamento. É só um exemplo. E andou pelas rádios e jornais isso, há uns tempos. Devia ser para brincar, de certeza.

 

É importante frisares "qualidade de vida". Isso é absurdo. Mas é preciso distinguir de obstinação terapêutica, que concordo com a teoria mais vigente, que é condenável e é importante saber quando estamos a fazer objectivamente pior ao mexer no doente do que não mexer, não só com ele mas com o psicológico dos familiares, dando por vezes falsas esperanças e tendendo a vender ilusões. Um exemplo prático é teres esse mesmo senhor de 80 anos com um cancro terminal, para o qual sabes que a QT e a RT não terão mais qualquer efeito benéfico, em que o incómodo causado, por tudo o que provoca, é grande, e abdicas de lhe dar essa terapia que custa milhares de euros por dia e dás simplesmente morfina para aliviar a dor até à hora da morte. Volto a citar o princípio da não maleficência.

Compartilhar este post


Link para o post

Isso é uma situação vergonhosa, sem dúvida. Mas a verdade é que o SNS tal como estava a operar era insustentável se não fosse reestruturado e haveria duas alternativas: procurar cortar custos e aumentar a contribuição dos utentes. Acho que no geral se cortou bem, porque havia desperdício e muito abuso dos médicos no que toca a esquemas com a prescrição de receitas (e 3 anos depois de o ministro ter começado a exercer funções, ainda hoje é recorrente a denuncia de fraudes no SNS), mas é preciso ver que há limites, e que fazer mais com menos é quase sempre um chavão, visto que na realidade não é bem assim. Aumentar as taxas moderadoras deu azo a alguma revolta por parte do povo português, portanto não sei sinceramente se seria possível reestruturar o SNS calma e pacificamente e, provavelmente, acho que a maior parte das pessoas preferiria que o Estado tivesse continuado a empurrar o problema com a barriga e apenas a parte financeira do SNS se viesse a agravar.

 

O grande problema começou lá atrás. E eu aí quase que tenho que concordar totalmente com o Medina Carreira (valha-me Deus): o problema começou no início. Ter um SNS "tendencialmente gratuito". A contribuição dos utentes já devia ser maior há muito tempo. Só há 2 anos se subiu para os 20€ nas urgências por exemplo. Isso já devia estar há 10 anos de forma a não saturar. Se isso tivesse acontecido, por exemplo, assumindo que o fluxo a ir ao hospital não seria assim tão inferior porque o custo de vida não era tão mau como agora, não existiria a saturação dos serviços que existe agora, existiriam mais recursos com certeza, e não haveria a banalização do racionalizar.

 

Eu concordo totalmente com o aumento das taxas. Foi demasiado tarde, infelizmente.

 

 

É importante frisares "qualidade de vida". Isso é absurdo. Mas é preciso distinguir de obstinação terapêutica, que concordo com a teoria mais vigente, que é condenável e é importante saber quando estamos a fazer objectivamente pior ao mexer no doente do que não mexer, não só com ele mas com o psicológico dos familiares, dando por vezes falsas esperanças e tendendo a vender ilusões. Um exemplo prático é teres esse mesmo senhor de 80 anos com um cancro terminal, para o qual sabes que a QT e a RT não terão mais qualquer efeito benéfico, em que o incómodo causado, por tudo o que provoca, é grande, e abdicas de lhe dar essa terapia que custa milhares de euros por dia e dás simplesmente morfina para aliviar a dor até à hora da morte. Volto a citar o princípio da não maleficência.

 

Sim, eu concordo contigo nesse caso específico, até pelos efeitos da QT e da RT. Esse caso até seria interessante. O que fazer no caso do paciente querer a QT e a RT, sendo que o benefício podiam ser 3 meses mais e um custo avultado para o serviço público em realizar esse tratamento? Para mim, o serviço público tem estar habilitado a dar a opção ao paciente e responsáveis mais próximos, e estar de acordo com a sua decisão, mesmo que seja a de seguir com a QT e a RT. Mas é como te digo: cada vez mais isso não acontece e a única solução é "racionalizar" e não seguir com uma possível QT e RT. Não concordo com isso. O sistema tem de estar preparado para isso. Mas cada caso é um caso, obviamente.

 

E a palavra qualidade de vida talvez tenha sido mal usada, mas acho que te fiz perceber. Se esse medicamento poderia alongar a vida dessa pessoa em 10 dias, e de acordo com o paciente bem como com os familiares, o serviço público deve estar sujeito a fazer tudo para esse medicamento ser usado. Aliás, a ideia do serviço nacional de saúde é essa, e por isso se defende tanto, ainda por hoje em dia. Porque é um sistema de saúde minimamente sustentável e com ideais centrados no paciente, mas isso aos poucos foi-se perdendo, foi-se julgando que era tendencialmente gratuito para sempre...

 

Agora, o sistema tem de estar habilitado a servir o paciente, e de tudo o que já observei, de tudo o que já li, confesso que cada hospital onde passo é pior que o outro em termos de organização e de capacidade de fluxo em termos de doentes. E olha, o que acho que até foi o melhor que vi a funcionar até foi os HUC :mrgreen: e mesmo aquilo dizem que tem alguns departamentos que é o salve-se quem puder, de malta que tirou por lá Medicina (também estás a tirar, também podes dar feedback). Eu acredito que quase todos os médicos estão prontos para salvar vidas e que fazem tudo para salvar a vida do paciente que têm à sua frente. Acredito genuinamente.

 

Mas eu sei bem que muitas vezes as ordens que vêm da administração, muitas vezes de pessoas que poucas ou nada percebem disto, é de "não fazer aquele teste se x" ou "esse teste é demasiado caro e só pode ser usado 30 vezes por mês" ou "não temos mais camas, mande-o para casa" ou "precisamos que faça mais 10 horas porque está um médico em falta" ou "tem contrato de 40 horas? Vai ter de fazer 40".

 

Mas essas ordens que vêm da administração, hoje em dia e cada vez mais, são resultado de uma banalização quase absurda da racionalização, como se fosse a solução para todos os problemas. E são o resultados de ter incompetentes a liderar hospitais, já agora.

 

Isto chama-se Triagem de Manchester, mas o problema é muito mais que isso...

 

bom post antes aí btw.

Editado por Jone Eduardo

Compartilhar este post


Link para o post

Sim, eu concordo contigo nesse caso específico, até pelos efeitos da QT e da RT. Esse caso até seria interessante. O que fazer no caso do paciente querer a QT e a RT, sendo que o benefício podiam ser 3 meses mais e um custo avultado para o serviço público em realizar esse tratamento? Para mim, o serviço público tem estar habilitado a dar a opção ao paciente e responsáveis mais próximos, e estar de acordo com a sua decisão, mesmo que seja a de seguir com a QT e a RT. Mas é como te digo: cada vez mais isso não acontece e a única solução é "racionalizar" e não seguir com uma possível QT e RT. Não concordo com isso. O sistema tem de estar preparado para isso. Mas cada caso é um caso, obviamente.

 

E a palavra qualidade de vida talvez tenha sido mal usada, mas acho que te fiz perceber. Se esse medicamento poderia alongar a vida dessa pessoa em 10 dias, e de acordo com o paciente bem como com os familiares, o serviço público deve estar sujeito a fazer tudo para esse medicamento ser usado. Aliás, a ideia do serviço nacional de saúde é essa, e por isso se defende tanto, ainda por hoje em dia. Porque é um sistema de saúde minimamente sustentável e com ideais centrados no paciente, mas isso aos poucos foi-se perdendo, foi-se julgando que era tendencialmente gratuito para sempre...

 

Agora, o sistema tem de estar habilitado a servir o paciente, e de tudo o que já observei, de tudo o que já li, confesso que cada hospital onde passo é pior que o outro em termos de organização e de capacidade de fluxo em termos de doentes. E olha, o que acho que até foi o melhor que vi a funcionar até foi os HUC :mrgreen: e mesmo aquilo dizem que tem alguns departamentos que é o salve-se quem puder, de malta que tirou por lá Medicina (também estás a tirar, também podes dar feedback). Eu acredito que quase todos os médicos estão prontos para salvar vidas e que fazem tudo para salvar a vida do paciente que têm à sua frente. Acredito genuinamente.

 

Mas eu sei bem que muitas vezes as ordens que vêm da administração, muitas vezes de pessoas que poucas ou nada percebem disto, é de "não fazer aquele teste se x" ou "esse teste é demasiado caro e só pode ser usado 30 vezes por mês" ou "não temos mais camas, mande-o para casa" ou "precisamos que faça mais 10 horas porque está um médico em falta" ou "tem contrato de 40 horas? Vai ter de fazer 40".

 

Mas essas ordens que vêm da administração, hoje em dia e cada vez mais, são resultado de uma banalização quase absurda da racionalização, como se fosse a solução para todos os problemas. E são o resultados de ter incompetentes a liderar hospitais, já agora.

 

Isto chama-se Triagem de Manchester, mas o problema é muito mais que isso...

 

bom post antes aí btw.

 

No caso em particular da QT e RT tens por exemplo uma situação actualmente em que dás duas hipóteses ao doente: pode começar um esquema X de imediato ou um esquema Y que é melhor (e mais caro) mas só pode começar daí a 2 semanas porque antes tem de ir ao Conselho de Administração, apesar de aqui ser quase sempre aprovado porque os oncologistas são bons (em Oncologia...) e sabem bem o que propor exactamente para cada caso.

 

Mas já que estamos na Oncologia, há coisas muito mais graves a passarem-se por aqui, por exemplo. Quando fazes um tratamento tens de fazer TACs de controlo em determinados períodos certos. Ora, as TACs estão com a demora de 20 semanas, o que não encaixa na maioria dos ciclos (há vários e muito resumidamente cada um tem uma combinação de fármacos a fazer em semanas específicas, com semanas de pausa pelo meio). Uma semana de pausa pode fazer toda a diferença num tratamento de quimio e até se fazer a TAC não se pode interromper, mesmo que para lá do deadline da TAC - por óbvios motivos éticos. O custo de uma semana de um doente de quimio é infinitamente superior ao de arranjar mais meios humanos e aparelhos para fazer as TACs a tempo. Multiplica-se a semana por semanas e o doente por doentes e percebe-se o desperdício de dinheiro que está a ser feito pela administração, já para não falar do que deve ser o essencial, o custo humano porque uma semana que podia já não ser necessária, por fracasso ou sucesso parcial, era uma semana a menos a levar com efeitos secundários da QT.

 

Mesmo falando em abstracto, normalmente sabe-se quando é que há falência de QT e RT. Independentemente do número de meses que sobram de vida, a diferença é entre viver sem dor e a fazer QT ou viver sem dor mas a fazer uma QT que já não vai ser útil (porque como calculas há largos estudos sobre isto...) e que só prejudica o doente com os efeitos adversos que são cada vez piores. Nesse caso, eu acho que o médico, depois de tentar explicar ao doente a situação, mesmo que o doente não compreenda (porque não é fácil!) que aquele tratamento só lhe vai trazer problemas e custa um verdadeiro balúrdio, deve poder cancelá-lo. Sei que pode ser uma posição difícil de perceber, mas é a tal obstinação terapêutica que promove falsas esperanças por um lado, efeitos secundários por outro, e culmina quer no insucesso porque não é aquele tratamento que faz viver mais um dia ou menos um dia, quer num aumento exponencial de custos (e concordo contigo, deve ser sempre numa situação ideal o último peso da balança).

 

Quando falaste em qualidade pensei que estivesses a simplificar QALYs, que é uma unidade de anos de qualidade de vida usada em economia da saúde ;)

 

Acredito (e sei) perfeitamente que há serviços que funcionam melhor que outros, que há serviços que ganham alguns vícios, que há profissionais que se acomodam, mas acho que tendo em conta a proporção do que já vi por onde passei está longe de ser dos principais problemas. Temos dos melhores médicos do mundo e das melhores formações profissionais do mundo. Os médicos portugueses fazem cada vez mais com menos, são verdadeiros McGyvers comparados com os colegas de outros países em que há médicos que se safam porque podem pedir 10 exames num total de 1000 euros e por aqui pedes 2 ou 3, gastas 100 euros e complementas o diagnóstico que idealizaste porque conheces a doença pelo que estudaste dos sintomas e dos sinais do doente... Já vi uma vez algures um estudo em que a diferença de exames pedidos entre os médicos dos USA e os de cá era abissal quer em quantidade quer em custos e nós tinhamos melhores resultados porque um médico de lá já "não sabe" identificar uma pneumonia sem pedir todas as análises e mais algumas, mais Raio X, mais TAC, mais qq coisa que eles lá tenham... Faço-me entender?

 

E sim, quanto à parte final do teu post, totalmente de acordo. Como já deves ter entendido, acho que as administrações hospitalares fazem parte do problema. Acho até que se não tivessemos os médicos e enfermeiros que temos estavamos ao nível de um Ruanda.

Compartilhar este post


Link para o post

Mas tu saberás melhor do que eu como é que poderia adequar ainda melhor as características do indivíduo ao curso a que se está a candidatar.

 

Eu acho que, para certos cursos da área da saúde, se devia criar um processo de seleção mais rigoroso do que aquele que existe, valorizando a vertente quantitativa (média final do secundário) mas também outros aspetos, nomeadamente psicológicos. Há pessoas que ingressam em certos cursos e que não têm a mínima vocação para estar neles, depois, quando desistem ou exercem mal, há consequências, por exemplo financeiras, que surgem.

 

Por exemplo, na minha área há maus profissionais, porque muitos vão para o curso para resolver os seus problemas e não para serem psicólogos.

Editado por Vaart

Compartilhar este post


Link para o post

No caso em particular da QT e RT tens por exemplo uma situação actualmente em que dás duas hipóteses ao doente: pode começar um esquema X de imediato ou um esquema Y que é melhor (e mais caro) mas só pode começar daí a 2 semanas porque antes tem de ir ao Conselho de Administração, apesar de aqui ser quase sempre aprovado porque os oncologistas são bons (em Oncologia...) e sabem bem o que propor exactamente para cada caso.

 

Mas já que estamos na Oncologia, há coisas muito mais graves a passarem-se por aqui, por exemplo. Quando fazes um tratamento tens de fazer TACs de controlo em determinados períodos certos. Ora, as TACs estão com a demora de 20 semanas, o que não encaixa na maioria dos ciclos (há vários e muito resumidamente cada um tem uma combinação de fármacos a fazer em semanas específicas, com semanas de pausa pelo meio). Uma semana de pausa pode fazer toda a diferença num tratamento de quimio e até se fazer a TAC não se pode interromper, mesmo que para lá do deadline da TAC - por óbvios motivos éticos. O custo de uma semana de um doente de quimio é infinitamente superior ao de arranjar mais meios humanos e aparelhos para fazer as TACs a tempo. Multiplica-se a semana por semanas e o doente por doentes e percebe-se o desperdício de dinheiro que está a ser feito pela administração, já para não falar do que deve ser o essencial, o custo humano porque uma semana que podia já não ser necessária, por fracasso ou sucesso parcial, era uma semana a menos a levar com efeitos secundários da QT.

 

Mesmo falando em abstracto, normalmente sabe-se quando é que há falência de QT e RT. Independentemente do número de meses que sobram de vida, a diferença é entre viver sem dor e a fazer QT ou viver sem dor mas a fazer uma QT que já não vai ser útil (porque como calculas há largos estudos sobre isto...) e que só prejudica o doente com os efeitos adversos que são cada vez piores. Nesse caso, eu acho que o médico, depois de tentar explicar ao doente a situação, mesmo que o doente não compreenda (porque não é fácil!) que aquele tratamento só lhe vai trazer problemas e custa um verdadeiro balúrdio, deve poder cancelá-lo. Sei que pode ser uma posição difícil de perceber, mas é a tal obstinação terapêutica que promove falsas esperanças por um lado, efeitos secundários por outro, e culmina quer no insucesso porque não é aquele tratamento que faz viver mais um dia ou menos um dia, quer num aumento exponencial de custos (e concordo contigo, deve ser sempre numa situação ideal o último peso da balança).

 

Quando falaste em qualidade pensei que estivesses a simplificar QALYs, que é uma unidade de anos de qualidade de vida usada em economia da saúde ;)

 

Acredito (e sei) perfeitamente que há serviços que funcionam melhor que outros, que há serviços que ganham alguns vícios, que há profissionais que se acomodam, mas acho que tendo em conta a proporção do que já vi por onde passei está longe de ser dos principais problemas. Temos dos melhores médicos do mundo e das melhores formações profissionais do mundo. Os médicos portugueses fazem cada vez mais com menos, são verdadeiros McGyvers comparados com os colegas de outros países em que há médicos que se safam porque podem pedir 10 exames num total de 1000 euros e por aqui pedes 2 ou 3, gastas 100 euros e complementas o diagnóstico que idealizaste porque conheces a doença pelo que estudaste dos sintomas e dos sinais do doente... Já vi uma vez algures um estudo em que a diferença de exames pedidos entre os médicos dos USA e os de cá era abissal quer em quantidade quer em custos e nós tinhamos melhores resultados porque um médico de lá já "não sabe" identificar uma pneumonia sem pedir todas as análises e mais algumas, mais Raio X, mais TAC, mais qq coisa que eles lá tenham... Faço-me entender?

 

E sim, quanto à parte final do teu post, totalmente de acordo. Como já deves ter entendido, acho que as administrações hospitalares fazem parte do problema. Acho até que se não tivessemos os médicos e enfermeiros que temos estavamos ao nível de um Ruanda.

 

A bold, dois problemas típicos que deveriam ser melhorados num sistema de saúde. O primeiro porque poderia ser menos que 2 semanas (embora ache que nesse caso nem é assim tanto, já ouvi falar de casos que demoram 1 mês ou mais). O segundo porque é um claro exemplo de uma má gestão dos serviços, com uma calendarização que tem de ser melhorada. Há malta que olha para isto e pensa: "comprar mais uma TAC". Nah, nem por isso. Se a gestão do serviço já for má, irá existir o mesmo problema.

 

A economia da saúde tem os seus usos mas não se deve olhar para a saúde como estritamente para os números. É o maior erro de qualquer gestor/economista à frente dos destinos de uma unidade de saúde, e infelizmente é o que mais acontece. Eu percebo que o dinheiro escasseia e a responsabilidade deles também muitas vezes na administração é também de obedecerem ao que o governo diz ou vão para a rua. Isto é um ciclo. Mas existem outras formas. E eu sei que existem porque já li sobre isso, e efetivamente resulta.

 

Eu entendo que as administrações hospitalares são grande parte do problema. Costuma dizer-se que a visão dos líderes do hospital é usualmente representada no próprio hospital. Nunca terás um conjunto de leões bem liderado por um cordeiro.

 

Existem outros problemas, como já referi, mas o primeiro passo é mudar a mentalidade, reconhecer as falhas no sistema e nos seus processos e trabalhar para as melhorar de forma progressiva, contínua no tempo, sem prejudicar o dia-a-dia dos trabalhadores na área da saúde e sem a tal racionalização. Otimizar é muito diferente de racionalizar.

 

Eu acho que, para certos cursos da área da saúde, se devia criar um processo de seleção mais rigoroso do que aquele que existe, valorizando a vertente quantitativa (média final do secundário) mas também outros aspetos, nomeadamente psicológicos. Há pessoas que ingressam em certos cursos e que não têm a mínima vocação para estar neles, depois, quando desistem ou exercem mal, há consequências, por exemplo financeiras, que surgem.

 

Por exemplo, na minha área há maus profissionais, porque muitos vão para o curso para resolver os seus problemas e não para serem psicólogos.

 

concordo em absoluto.

Conheço uma amiga da minha namorada que é assim, e foi para psicologia o ano passado. Para resolver os seus problemas. :mrgreen:

Compartilhar este post


Link para o post

Conheço uma amiga da minha namorada que é assim, e foi para psicologia o ano passado. Para resolver os seus problemas. :mrgreen:

 

É o mais comum, depois o mercado fica cheio de maus profissionais ou de profissionais que insistem em confundir os seus problemas com os dos seus pacientes. Já ouvi falar de consultas em que o psicologo se tornou o cliente e o cliente se transformou no psicólogo.

 

Uma seleção de candidatos que passe por uma avaliação curricular (notas obtidas + atividades realizadas dentro ou fora da escola), avaliação psicológica e entrevistas seria uma boa forma de despistar este tipo de situações. Claro que isto não seria o "remédio" para haver melhores profissionais, mas seria um começo.

 

Em Enfermagem e Medicina podiam-se efetuar processos de seleção semelhantes, mas que se deviam focar, essencialmente, em aspetos de orientação vocacional. Aquele antigo colega que falei ontem, que desistiu de Enfermagem, é o exemplo de tudo o que está errado em termos vocacionais, podia ser um bom profissional, mas em termos humanos era um valente zero. Costumo compará-lo com um dos meus melhores amigos, este costumava tirar notas razoáveis no Secundário (14-16 valores) e teve que ingressar numa Universidade privada. Todavia, pelo feedback que vamos tendo é um profissional de excepção, em termos técnicos e humanos. Lá está, caso os pais não tivessem possibilidades monetárias teria-se perdido um excelente enfermeiro.

Compartilhar este post


Link para o post

Antes de falarem mal na gestão que o governo faz, lembrem-se que os hospitais são muito mal geridos e quase todos eles(as administrações) pensam primeiro no seu bolso, do que na saúde dos seus pacientes.

Compartilhar este post


Link para o post

O grande problema começou lá atrás. E eu aí quase que tenho que concordar totalmente com o Medina Carreira (valha-me Deus): o problema começou no início. Ter um SNS "tendencialmente gratuito". A contribuição dos utentes já devia ser maior há muito tempo. Só há 2 anos se subiu para os 20€ nas urgências por exemplo. Isso já devia estar há 10 anos de forma a não saturar. Se isso tivesse acontecido, por exemplo, assumindo que o fluxo a ir ao hospital não seria assim tão inferior porque o custo de vida não era tão mau como agora, não existiria a saturação dos serviços que existe agora, existiriam mais recursos com certeza, e não haveria a banalização do racionalizar.

 

Eu concordo totalmente com o aumento das taxas. Foi demasiado tarde, infelizmente.

Muita gente vai para as urgências com constipações e m*rda que de urgentes têm muito pouco, é um absurdo. E as taxas moderadoras ainda podiam aumentar mais um pouco, actualmente não há capacidade para suportar tamanho número de actos. Até no SIGIC os pagamentos já vão com meses de atraso...

Editado por Foster

Compartilhar este post


Link para o post

Antes de falarem mal na gestão que o governo faz, lembrem-se que os hospitais são muito mal geridos e quase todos eles(as administrações) pensam primeiro no seu bolso, do que na saúde dos seus pacientes.

 

E quem é que pôs as administrações lá? Muitos conselhos de administração nem têm médicos nos mesmos, faz algum sentido?

Compartilhar este post


Link para o post

É triste ouvir um "opinião pública" e ver como uma classe inteira tão profissional e competente com a dos enfermeiros portugueses achar generalizadamente que a forma diferente como foram encaradas as medidas anunciadas (pôr enfermeiros a pedir exames complementares de diagnóstico lol) é luta de poderes entre classes profissionais e não pensar no que é melhor para o doente tendo em conta as capacidades e apetências profissionais de cada um.

 

Como é que um indivíduo que não diagnostica pode complementar o seu diagnóstico? Está errado no ponto inicial da questão!

Compartilhar este post


Link para o post

Não te quero chamar mentiroso e sei que trabalhas também na área da Saúde e com toda a certeza há mais tempo do que eu estou na área, mas já fiz bastantes horas de urgência e, além de NUNCA ter presenciado essa situação, aliás, bem pelo contrário, muitas das vezes ficam é exasperados com a falta de informação que surge no ALERT vinda da triagem.

 

E sem qualquer tipo de simpatia particular pelo bastonário da OM. Ele tem-se insurgido sempre contra a política absurda da tutela nos últimos anos, em defesa do SNS.

 

Falo do que vejo e do que conheço.

 

Neste momento, é assim que as coisas aqui funcionam.

 

Nunca apontei a culpa aos medicos, até porque em ultima analise não existe apenas 1 culpado, ou uma classe culpada. Se a culpa é de alguem é de todos nós, simplesmente porque não sabemos dar uso ao Sistema Nacional de Saude, e se recorre a Serviço de Urgência por dá cá aquela palha, e é nossa porque deixamos que o Ministerio da Saude, esteja suavemente a privatizar o nosso acesso aos cuidados de saude primarios, sem que isso nos importe.

 

Neste momento a area da saude é a nova galinha dos ovos de ouro das empresas privadas, eu estive com um contrato na mão, entre o ministerio da saude, e uma instituição privada, que vai começar a funcionar no proximo ano, e o ministerio decidiu pagar 45€/consulta a essa empresa já apartir deste ano, sendo que fica obrigado a "enviar" 9000 utentes por ano, se não houver a marcação de pelo menos 9.000 consultas por ano, o estado tem que as pagar na mesma, e se houver mais de 9.000 passa a pagar a 80€/consulta. Este protocolo foi estabelecido numa localidade onde há 5 anos existia um hospital com Bloco Operatorio, internamento, e diversas especialidades a funcionar em pleno, simplesmente conseguiram fechar o hospital, alegando custos, esvaziaram as valencia, para o poder fechar, e fizeram um protocolo, que sairá muito mais caro aos contribuintes. Se a isso juntares que aprovaram a construção de novas instalação por parte dos privados, que irá custar cerca de 90M€, mas que vai ser financiada em 80% pelo estado.

Compartilhar este post


Link para o post

Pessoalmente não gostaria de trabalhar no sector privado como médico. A trabalhar no privado, só gostava ligado a um clube desportivo. E é claro que é uma vergonha a privatização da saúde e já alertei isso aqui diversas vezes, subjugado a muitos inter€sses. Que o JMS também critica...

Compartilhar este post


Link para o post

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisa de ser membro desta comunidade para poder comentar

Criar uma conta

Registe-se na nossa comunidade. É fácil!

Criar nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Autentique-se agora
Entre para seguir isso  

  • Todo o Mundial 2026 no CMPT
  • Outros membros neste tópico

    Nenhum utilizador registado está a visualizar esta página.

×
×
  • Criar Novo...