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Hugo Vieira, a força de quem nunca caminhará sozinho

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Um nó na garganta. A realidade que atira o insignificante jogo para «décimo» plano, oprimido pela brutalidade da vida. Conversar com Hugo Vieira foi para lá do futebol. Foi um testemunho íntimo de quem não se ilude com o futuro. «O melhor está para vir? Isso não é verdade. Infelizmente o melhor já foi.» Tão doloroso quanto honesto. E é nesta consciência de honestidade para consigo próprio que o avançado português assenta a sua vida. Cumprir os sonhos conjuntos. Dele e de Edina, a namorada que perdeu a batalha contra o cancro mas que nunca o deixará caminhar sozinho.

 

«Nunca mais vou estar sozinho. O que quer que eu faça ela vai estar sempre comigo; no coração, na forma de pensar, em tudo… é inevitável. Um amigo meu ainda hoje me disse que o melhor ainda está para vir. Eu disse-lhe que não, que isso não era verdade. Infelizmente o melhor já passou, que é a Edina. Mas nunca vai passar porque ela vai estar sempre presente. É duro mas é a realidade, é a minha vida e vai ser sempre.»

 

Hugo Vieira é o primeiro a encarar o destino de frente. Não o nega, não o suprime à necessidade de seguir em frente. Seguem os dois. E é com essa certeza que a conversa com o zerozero.pt se faz, de Belgrado até ao Porto. E na Sérvia, onde está desde o início da temporada ao serviço do Estrela Vermelha, Hugo tem sido acarinhado; amado mesmo. Porquê?

«É uma pergunta difícil… [suspiro]. O que é um facto é que aqui fazem-me sentir muito especial, acarinham-me muito. Como toda a gente sabe tive os problemas pessoais que tive e que não terminaram da melhor maneira. E também por isso prometi a mim mesmo e à Edina que ia vencer tudo e conquistar todos os sonhos que ela tinha», conta. Mas já lá vamos, à veneração dos adeptos ao ídolo de Belgrado. Sim, de Belgrado, porque Hugo pode ser do Estrela Vermelha mas já entrou no coração de todos.

 

Antes disso, um flashback. Os tempos de Portugal. De Barcelos. Do Gil Vicente. Quando a doença da namorada chegou sem aviso prévio, Hugo não teve dúvidas onde procurar um porto de abrigo.

 

«As pessoas muitas vezes não percebiam o porquê de eu voltar sempre ao Gil Vicente quando tinha muitos outros clubes a fazer ofertas. Mas isso não era o mais importante. A partir do momento em que descobrimos o que a Edina tinha o futebol passou para décimo plano. Costumo comentar com os meus amigos que antes de aparecer a doença nós tínhamos 10 sonhos. Depois passamos a ter só um: ela ficar bem; nada mais importava. Barcelos foi, é e vai ser sempre a minha casa; o Gil Vicente e a cidade.»

 

Benfica: Se fosse hoje…

Os 11 golos e as boas exibições em 2010/2011 ao serviço do Gil Vicente rapidamente colocaram o avançado nos holofotes dos grandes. É conhecida a disputa a sul entre Benfica e Sporting. No fim ganhou a Luz, embora Hugo Vieira nunca viesse a ter uma verdadeira oportunidade para brilhar. Política do clube, do treinador… Jorge Jesus tinha outras apostas; com Rui Vitória, Hugo tem uma certeza.

 

«Sinceramente não penso nisso. Mas tenho a certeza que se isso tivesse acontecido [coabitado com Rui Vitória] eu hoje se calhar era um dos jogadores fortes do Benfica; ou se calhar já me tinham vendido e ganho muito dinheiro. Mas isso é tudo muito relativo e é difícil responder a essa questão. O importante é que eu estou muito bem agora», responde, fechando o capítulo Benfica.

Ídolo de Belgrado

Da Luz a Gijón, onde tudo começou a desmoronar. O regresso a Barcelos, a mudança para Braga e a viajem para a Rússia, onde jogou no Torpedo. Hugo Vieira fez a travessia sem nunca desistir, mesmo quando nada fazia sentido. Mas Belgrado trouxe-lhe, por fim, um pouco de paz embrulhada em afeto sem paralelo. E ele retribui. A época está a ser sensacional: 17 golos em 23 jogos - 13 golos nos últimos 10 jogos; rei dos dérbis frente ao Partizan. E começamos por aí. O dérbi.

 

«Um amigo meu foi ver um Besiktas x Galatasaray e disse: ‘isto é fantástico, incrível.’ Outro assistiu ao Olympiacos x Panathinaikos. São, de facto, jogos incríveis, dérbis muito quentes, como um Benfica x Sporting ou um Benfica x Porto. Mas nada como isto. E eles agora dão-me razão e dizem que não falham o próximo dérbi, nem que tenham de faltar ao trabalho. Por muito que uma pessoa fale, estando presente é algo único. Vá para onde for, até daqui a 100 anos venho ver este jogo. Eles transformam isto num vulcão. É um ambiente inexplicável mesmo. É… único. Aconselho.»

 

Um turbilhão. Belgrado, berço de guerras e reconquistas; do Império Otomano à independência da Sérvia. A capital do General Tito e da queda de Milosevic. Os sérvios são apaixonados; quentes e fervorosos. Na vida e no futebol. Partizan e Estrela Vermelha, duas existências incompatíveis. A não ser que te chames Hugo Vieira.

 

«Nunca vou ter palavras nem vou conseguir agradecer o que estas pessoas fazem por mim. Consigo sair à rua; até os adeptos do Partizan gostam de mim. No final do dérbi em casa do Partizan, todos os meus colegas saíram e atiraram-lhes bombas, petardos, telemóveis, isqueiros… tudo, atiraram de tudo aos meus colegas. Eles foram todos a correr e eu fui o último a sair; fui a andar e quando estava a chegar ao túnel os adeptos do Partizan começaram a cantar o meu nome. Como é que eu não me hei-de sentir especial? São coisas destas que eu não consigo explicar, mas é mágico. E dá para perceber aí que eu nunca vou caminhar sozinho», conta ao zerozero.pt.

 

Tocou-lhes no coração, diluindo as cores da rivalidade. «Dizem que sou dos melhores jogadores da história do Estrela Vermelha, que sou o melhor estrangeiro de sempre. Este clube ganhou a Liga dos Campeões, teve jogadores fantásticos!» Tudo verdade, como aqueles 20 mil…

 

«Eu fui ver um jogo de basquetebol há uma semana e estavam 20 mil pessoas. De repente começou tudo a gritar o meu nome. Viram-me e começou tudo a gritar… Estive lá horas a tirar fotografias com muitas pessoas. Arrepiei-me todo, são sensações únicas e que eu acho que nunca mais vou sentir em nenhuma parte do mundo. Sinto-me de facto muito especial. Muitos adeptos dizem que adoram ver o Estrela Vermelha a marcar, mas quando sou eu é especial. As pessoas dizem que é especial, que vibram de uma maneira diferente quando eu marco. Não sei porquê.»

 

Hugo quer ajudar Ronaldo e Portugal

Convenceu os adeptos do Estrela Vermelha. Convenceu os do Partizan. Conquistou o respeito dos sérvios. Só falta convencer Fernando Santos. E não será seguramente por falta de bons números, sobretudo quando comparados com outras opções para o ataque de Portugal.

 

«[Pausa, risos] Não sei… é um tema complicado também. Não há comparação com os meus números; tirando o Cristiano Ronaldo, não há comparação possível, não existem números sequer perto dos meus. Mas o que é que eu posso dizer? Vou continuar a marcar. Se vou ser chamado ou não, não sei. O que eu sei é que vou continuar a marcar», prometeu o avançado de 27 anos, que não usa meias palavras para expressar o desejo que tem para o verão de 2016.

 

«Gostava muito de ajudar o meu país a ganhar um Europeu, porque também para o Cristiano ou é este ou não é; e ele tem de ganhar um título pela seleção e claro que eu gostava de ajudar.» Mas até ao momento, contactos só mesmo por cortesia.

«Ninguém me contactou. Fizeram-no só quando vieram cá jogar à Sérvia porque faziam questão que eu fosse ver o jogo, mas eu não estava cá. Agora também quando esteve cá o futsal ligaram-me e agradeço isso, mas tirando isso nunca fui contactado. Vou continuar a fazer o meu trabalho sempre com a esperança que me chamem. E se me chamarem vou ser uma agradável surpresa de certeza», atirou.

 

O telefone desliga-se. Numa semana em que o You’ll Never Walk Alone voltou a ser cantado num momento de tristeza [morte de um adepto do Dortmund], o testemunho de Hugo Vieira é a prova viva de uma letra imortal:

 

«Walk on through the wind

Walk on through the rain

Though your dreams be tossed and blown

 

Walk on walk on with hope in your heart

And you'll never walk alone

You'll never walk alone.»

 

@zerozero

 

Sempre gostei deste rapaz, já passou por muito, mas mesmo assim está a erguer-se, Fernando Santos dá-lhe uma oportunidade

Editado por Apollion

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Sempre gostei deste rapaz, já passou por muito, mas mesmo assim está a erguer-se, Fernando Santos dá-lhe uma oportunidade

é isso mesmo que falta ao conjunto orientado por fernando santos. a poiado

 

separo o "a" do "poiado" porque "poiado" me faz lembrar um poio, e um poio é tudo aquilo que o hugo vieira é como jogador de futebol.

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Como jogador é fraquissimo, como pessoa tem de ser um gajo muito forte psicologicamente e merece ter sorte depois de passar pelo que passou.

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As qualidades dele como jogador de futebol não são grande coisa, mas não consigo ficar indiferente ao que aconteceu na vida pessoal dele.

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Atendendo à sua qualidade, está a ter a carreira que merece.

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Porque dizem que ele é assim tão fraco? Acho que nunca o vi jogar, no tempo em que estava no Gil lembro-me que se falava dele como um dos melhores avançados do campeonato fora dos "grandes". Mais tarde veio para o Benfica num daqueles lotes de jogadores que nunca chegam a calçar e são logo emprestados.

 

Mas olhando apenas para os números, ele agora é uma estrela no estrela vermelha. Sei que não é nada de extraordinário por ser a Sérvia, um campeonato com menos qualidade que o português etc, mas também não são nenhuns coxos. Melhor marcador da liga com 17 golos em 23 jogos é um bom feito e algo a considerar.

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Mas olhando apenas para os números, ele agora é uma estrela no estrela vermelha. Sei que não é nada de extraordinário por ser a Sérvia, um campeonato com menos qualidade que o português etc, mas também não são nenhuns coxos. Melhor marcador da liga com 17 golos em 23 jogos é um bom feito e algo a considerar.

 

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Eu não gostava. Era daqueles extremos que não percebi a contratação porque via-se que na altura era um gajo que aproveitava principalmente um sistema de contra-ataque e bloco baixo, o que não se ia traduzir.

 

Não foi este gajo que lhe morreu um familiar ou a namorada há pouco tempo, de onde veio obviamente um comentário delicioso do Gelton?

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Foi mesmo a namorada, diz na notícia:

 

Dele e de Edina, a namorada que perdeu a batalha contra o cancro mas que nunca o deixará caminhar sozinho.

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