Lebohang Publicado 3 horas Citação A imprudência de acreditar em Fernando Alexandre Fernando Alexandre tem razão: os pais foram imprudentes ao marcar as férias. Acreditaram no calendário do Ministério. O sistema de correção digital já tinha sido testado e já tinha falhado em 2025, com o exame de Filosofia. O ministro não ligou aos avisos. Repete um padrão: começa por negar o problema, transfere culpas e acaba a prometer auditorias. Apesar das discordâncias, julgava que este ministro salvaria a honra do convento de um governo impreparado. Também fui imprudente Os pais foram imprudentes. Não o Ministério, o EduQA ou quem decidiu generalizar um sistema de correção de exames que já tinha falhado no seu primeiro grande teste. Imprudentes, nas palavras de Fernando Alexandre, por terem marcado férias com base num calendário que o próprio Ministério da Educação publicou. Mais uma vez, o ministro consegue atirar as consequências das suas falhas para o regaço alheio. Até ao ano passado, um exame nacional seguia um percurso simples: o aluno escrevia a prova à mão e um professor corrigia essa prova inteira, do princípio ao fim. Este ano, mais de 300 mil provas passaram a ser corrigidas de outra forma: os alunos continuam a escrever à mão, mas a prova é digitalizada, cortada em perguntas isoladas e anónimas e distribuída por professores diferentes. Mais seguro e objetivo. Mais complexo. Este novo sistema de correção borregou em três momentos. Primeiro, na atribuição: chegaram a ser convocados professores para corrigir disciplinas que nunca lecionaram e até professores já falecidos ou aposentados há anos. Depois, na entrega: professores convocados para classificar provas ficaram, durante dias, sem conseguir aceder à plataforma para receber o que tinham de corrigir – ontem, já depois do adiamento, a plataforma voltou a ficar "em manutenção" durante toda a manhã. E, por fim, na contagem: o manual oficial do avaliador já admitia, desde meados de junho, que o contador de respostas por classificar podia apresentar valores negativos e instruía os professores a ignorar esse erro e a dar o trabalho por concluído mesmo assim. Em 2025, o exame de Filosofia serviu de projeto-piloto para esta correção digital, numa escala muito menor, com cerca de 23 mil provas. Os professores relataram, já nessa altura, problemas que voltámos a ver agora: exames que desapareciam do sistema, folhas em branco, respostas cortadas a meio, respostas trocadas entre alunos. Mas o Ministério classificou a experiência como "muito positiva" e generalizou o sistema a todas as disciplinas do secundário. Confrontado com a repetição de falhas, o ministro conclui que "os erros serviram para aprender". Mas só repetiu os erros agora porque se recusou a admiti-los há um ano. Há um padrão neste ministro. Primeiro, negar os problemas, dizendo que os mensageiros mentem ou exageram. Depois, quando os problemas se tornam indesmentíveis, transferir as responsabilidades para outros — os serviços, o sistema, os diretores. Por fim, protelar o apuramento da verdade e das responsabilidades. Vimos isto em novembro de 2024, quando Fernando Alexandre anunciou, como resultado milagroso das suas medidas, uma redução de 89% no número de alunos sem professor a pelo menos uma disciplina, comparando os 2238 casos desse ano com os alegados 20887 do ano anterior. Foram os serviços do Ministério a desmentir o que a experiência dos efeitos lentos de qualquer política pública fazia imaginar: no ano anterior, eram 3295 alunos, não 20887. Confrontado com um erro grosseiro, que revelava o pouco conhecimento do ensino básico e secundário, Fernando Alexandre atribuiu a culpa aos serviços do ministério e encomendou uma auditoria externa à KPMG, prometendo resultados em poucos meses. O prazo foi adiado de março para abril, depois para maio, até o próprio ministro admitir que talvez nunca fosse possível apurar o número certo. O comportamento repete-se nesta crise dos exames. Perante as convocatórias erradas de professores, atirou a responsabilidade para os diretores das escolas. Perante denuncias dos professores sobre falhas na classificação, disse que eram “falsas”. Nega primeiro, transfere a culpa depois e no fim lá promete o apuramento responsabilidades que nunca passará a porta do seu gabinete. Neste caso, há consequências práticas para professores avaliadores, para alunos e para os "imprudentes" pais. A classificação, que deveria terminar a 10 de julho, foi empurrada para 14; a afixação das pautas, inicialmente prevista para 14, passou para 17; e a segunda fase dos exames, que começaria a 16 de julho, arranca a 20 e prolonga-se até 24. As candidaturas ao ensino superior mantêm-se, por agora, inalteradas. Os pais têm de refazer as suas férias, já “imprudentemente” marcadas. Os alunos terão menos tempo para tomarem decisões determinantes para o seu futuro. Os professores classificadores não terão os dez dias úteis para a correção. Apesar de discordâncias políticas, achava que Fernando Alexandre seria um ministro competente (é-o como académico), quase uma exceção num dos governos mais despreparados que a nossa democracia conheceu, incluindo o de Santana Lopes. Devia ter reparado mais cedo na relação tortuosa que mantém com a responsabilidade política. Nem Fernando Alexandre salva a honra do convento. E ao acreditarem nele, os pais foram, como eu, imprudentes. Compartilhar este post Link para o post