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A China aprende a jogar futebol em Portugal (e faz negócio)

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O grande salto em frente: Os investimentos milionários em jogadores e em grandes clubes europeus.

 

 

O grande salto em frente

 

Os investimentos milionários em jogadores e em grandes clubes europeus.

 

Com 1382 milhões de habitantes, a República Popular da China é o país mais populoso do mundo, mas está bem longe do topo na hierarquia do futebol mundial. No ranking FIFA, a China é apenas 78.º e oitavo entre os países asiáticos, apenas com uma qualificação para uma fase final de um Mundial, em 2002, facilitada por este torneio ser organizado por dois países asiáticos (Japão e Coreia do Sul). Mas há um plano em marcha para a China dar o grande salto em frente no futebol. E esse plano também passa por grandes investimentos em grandes clubes do futebol europeu.

 

Já não são só os grandes clubes a procurar activamente o lucrativo mercado asiático para aumentar as suas receitas, em merchandising, patrocínios e transmissões televisivas. Agora são também as empresas chinesas, com apoio do Governo chinês, a entrar directamente nos clubes, com especial incidência na Premier League inglesa, na Série A italiana, na Liga Espanhola e na Liga Francesa – na Bundesliga alemã, por causa da regra dos “50+1”, é impossível que um investidor milionário assuma o controlo de um clube.

 

No “calcio”, os dois maiores clubes de Milão, Inter e AC Milan, já são maioritariamente de empresas chinesas. Em Junho passado, a Suning Holdings comprou 70 por cento dos “nerazzurri” por 307 milhões de euros, enquanto em Agosto passado Silvio Berlusconi desfez-se do AC Milan por 520 milhões a um fundo de investimento chinês, que pagou ainda mais 220 milhões para limpar o clube de dívidas. O controlo do Palermo, também da Série A, está perto de passar para o controlo de uma empresa chinesa por um valor a rondar os 200 milhões de euros.

 

Na Premier League, o Manchester City já tem uma participação minoritária de capital chinês (13 por cento por 297 milhões de euros), enquanto o West Bromwich Albion já é controlado por chineses (196 milhões de libras), estando quase a acontecer o mesmo ao Hull City. No Championship, Aston Villa (67 milhões) e Wolverhampton (50 milhões) também são controlados por grupos chineses. Em França, o Lyon teve um investimento chinês recente de 100 milhões de euros por 20 por cento do capital social. Em Espanha, 20 por cento do Atlético Madrid pertencem ao milionário chinês Wang Jianlin (45 milhões).

 

Para além do controlo de alguns clubes europeus e acordos de patrocínios, o investimento chinês no futebol europeu surge ainda na forma de contratações milionárias de jogadores. No mercado de transferências do último Verão, o antigo avançado do FC Porto Hulk foi do Zenit de São Petersburgo para o Shangai SIPG por 55,8 milhões, a terceira maior transferência do defeso, atrás de Paul Pogba (105 milhões) e Gonzalo Higuaín (90 milhões). No início de 2016, dois negócios da China destacaram-se, a transferência do colombiano Jackson Martínez do Atlético Madrid para o Guangzhou Evergrande por 42 milhões de euros, e a do brasileiro Alex Teixeira, do Shakhtar Donetsk para o Jiangsu Suning por 50 milhões.

 

 

Uma questão de minutos: Protocolos que obrigam os clubes a utilizar jogadores chineses

 

 

Uma questão de minutos

 

Nunca chegou a vir para Portugal o melhor jogador chinês da actualidade – os melhores jogam na endinheirada liga chinesa - e, como a sua lista (de Dias Ferreira) não ganhou as eleições no Sporting, Paulo Futre não chegou a ter a oportunidade de abrir em Alvalade o “departamento do jogador chinês”. Mas há muitos a jogar em Portugal, sobretudo com um objectivo, o de aprender e de evoluir com a conceituada formação portuguesa.

 

O número de jogadores chineses não é fácil de quantificar e qualquer recolha corre o risco de ficar desactualizada de um dia para o outro, já que as inscrições de novos jogadores vão continuar a chegar até Janeiro à FPF. São várias dezenas no escalão sénior, concentrados em meia-dúzia de distritos, quase todos em clubes do Campeonato de Portugal (III Divisão). Na I Liga, estão apenas dois, e ambos no Paços de Ferreira, o guarda-redes Yeerzati Teerijeti e o avançado Tang Shi.

 

Na II Liga são quatro chineses e dois de Macau, sendo que três deles têm (pouco) tempo de jogo. Wei Shi Shao jogou um total de 244 minutos em sete jogos pelo Leixões, entre II Liga, Taça de Portugal e Taça da Liga; Wang Shu tem seis minutos pelo Cova da Piedade num único jogo da II Liga; Li Rui fez 29’ pela Académica na Taça da Liga (números até à presente jornada). Ou seja, não se cumpriu o propósito de colocar jogadores chineses nas dez melhores equipas da II Liga, mas também não se verificou a obrigatoriedade de os colocar a jogar, algo que chegou a ser ventilado quando a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) anunciou o acordo de patrocínio com a Ledman.

 

No Campeonato de Portugal, o número de jogadores chineses sobe substancialmente e há duas equipas que se destacam, Pinhalnovense (seis) e Torreense (sete), dois clubes cujas SAD pertencem maioritariamente desde 2015 à Wsports Seven, do empresário Qi Chen, – 80 por cento da SAD do Pinhalnovense foi adquirida por 60 mil euros; 70 por cento da do Torreense ficou por 360 mil. Para não colidir com os regulamentos, a SAD do clube de Torres Vedras tem como accionista maioritário a filha de Chen, que foi o responsável, em 2006, pela ida do avançado Yu Dabao para o Benfica – Dabao ainda brilhou nos juniores “encarnados”, com muitos golos, mas a transição para a primeira equipa do Benfica foi difícil, com poucos minutos na equipa sénior; ainda assim, Dabao, hoje com 28 anos, tem tido uma boa carreira no campeonato chinês e é internacional A pelo seu país.

 

Um modelo de negócio

 

Para além de controlar estes dois clubes, que também integram jogadores chineses nas equipas de juniores, a Wsports Seven controla também o Oriental Dragon FC, criado de raiz para ajudar à formação de jogadores chineses. Esta equipa começou nesta temporada a disputar a II Divisão Distrital de Setúbal, com dez jogadores chineses inscritos, depois de ter andado dois anos na “Future Stars Football League”, uma competição sub-21 que envolvia várias equipas de Setúbal e Lisboa, e com um plantel composto apenas por jogadores chineses. O P2 contactou a a Wsports Seven através dos responsáveis técnicos do Oriental Dragon FC e através do número de telefone que disponível no site do clube. Em nenhum destes contactos a empresa de Qi Chen se mostrou disponível para falar, por o projecto estar a ser “reformulado”.

 

Desde a sua criação em 2014, o Oriental Dragon chamou a atenção de várias entidades, desde o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) à própria Federação Portuguesa de Futebol (FPF). O organismo liderado por Fernando Gomes, através do Conselho de Disciplina, instaurou um processo a Qi Chen e a seis jogadores do Oriental Dragon “em virtude de eventuais irregularidades dos atletas, com vista à época 2015-16”. Ao que o PÚBLICO apurou, este processo foi recentemente arquivado. Quanto ao SEF, chegou a marcar presença num treino da equipa.

 

Na sua estreia em competições seniores, o Oriental Dragon, sem contar com a jornada deste fim-de-semana, tem uma vitória e um empate em duas jornadas da II Divisão Distrital de Setúbal. Em declarações recentes ao jornal O Setubalense, Paulo Mateus, o treinador da equipa, assumiu que o objectivo é a subida à I Divisão Distrital “já este ano” e que, a médio prazo, o propósito é chegar aos campeonatos nacionais. Em Maio do ano passado, em declarações ao Maisfutebol, Qi Chen assumia o propósito formador do Oriental Dragon: “O objectivo deste projecto é aproveitar o conhecimento português na formação […] e assim ajudar o futebol chinês a progredir.”

 

Jogadores a potenciar

 

Mais acima na pirâmide, Torreense e Pinhalnovense disputam, respectivamente, as Séries F e H do Campeonato de Portugal, e é a equipa de Torres Vedras que está melhor, perto das posições de topo e com menos um jogo. Já a equipa de Pinhal Novo, está um pouco mais abaixo na classificação e já mudou de treinador nesta temporada. Não foram os resultados que ditaram o afastamento do técnico Eduardo Almeida, como acontece na maioria dos treinadores despedidos. “Havia a obrigação de colocar dois jogadores chineses a titular e eu fui despedido porque não o fazia”, conta ao P2 o treinador que não teve qualquer derrota nos cinco jogos oficiais disputados.

 

O modelo de negócio da Wsports Seven, explica Carlos Dinis, que trabalhou durante quatro meses na empresa, é, basicamente, valorizar jogadores com minutos de competição, mesmo que seja na III Divisão portuguesa. “Os jogadores que trazem para aqui são jogadores a desenvolver, a potenciar. Mesmo a um nível que não seja muito elevado, quando regressam à China conseguem ganhar dinheiro com eles. Se têm minutos no Campeonato Prio ou na II Liga, conseguem bons contratos e bons negócios”, explica ao P2 o treinador português. No início de 2016, foram vendidos dois jogadores para a liga chinesa, Liu Yiming e Yan Zihao, cada um por valores a rondar o milhão e meio de euros. O primeiro estava no Pinhalnovense, o segundo passou pelo Torreense e Oriental Dragon, sendo que ambos terão tido uma valorização extra por terem passado pela formação do Sporting Clube de Portugal.

 

Eduardo Almeida até se mostra compreensivo quanto a este modelo de negócio, argumentando, em sua defesa, que, com ele, havia um jogador chinês que jogava sempre, um defesa-central com muita qualidade. “Mas não podia pôr em causa os resultados, apesar de compreender o projecto, como sempre fiz. Estava sempre aberto a contribuir para a sustentabilidade do negócio. Depois, passar à imposição de determinados elementos estava completamente fora de questão”, diz o treinador, acrescentando que, quando foi contactado durante a época passada para salvar a equipa da descida de divisão, nunca lhe foi colocada “qualquer situação de jogadores”. “Na reunião com o presidente, ele disse-me que os jogadores chineses até tinham evoluído bastante, mas teríamos de passar à segunda fase. Eles teriam de jogar minutos. Foi essa expressão”, revela.

 

Nos quatro meses que passou ligado à Wsports Seven, Carlos Dinis sentiu volatilidade e ingerência no seu trabalho por parte da administração e, por isso, ficou pouco tempo. “Havia um flutuar de ideias e não havia autonomia para que eu pudesse ser o responsável pelo que se estava a passar. […] Havia uma instabilidade permanente em todo o processo que não era claro e linear”, reforça Carlos Dinis, acrescentando que houve também uma tentativa de usar a sua influência na FPF (à qual esteve vários anos ligado como técnico das selecções jovens) na questão do processo disciplinares na federação. Sem poder confrontar os responsáveis da empresa a estas questões, recupera-se uma declaração de Qi Chen ao jornal “Record” de Novembro de 2015: “Tenho todo o respeito pelo senhor Carlos Dinis. O projecto irá seguir o seu caminho. Agradecemos as críticas construtivas, mas ignoramos comentários irresponsáveis.”

 

 

A China aprende a jogar futebol em Portugal (e faz negócio): Vários clubes portugueses têm participação de capital chinês e/ou protocolos para ajudar na formação de futebolistas da China. Mas nem todas as parcerias correram bem.

 

 

A China aprende a jogar futebol em Portugal (e faz negócio)

 

Vários clubes portugueses têm participação de capital chinês e/ou protocolos para ajudar na formação de futebolistas da China. Mas nem todas as parcerias correram bem.

 

Noventa e nove vírgula nove por cento (dando ou tirando uma centésima) dos jogos de futebol em Portugal não passam na televisão e, por isso, o domingo à tarde continua a ser o tempo preferido do futebol português para acontecer. Às 15h de um desses domingos, há duas semanas, aconteceu um jogo não transmitido na televisão no Campo de Sucena, em Sintra, que não era suposto acontecer. Houve uma inversão no calendário da sexta jornada da Série G do Campeonato de Portugal (III Divisão), e o 1.º de Dezembro aceitou ser a equipa da casa na primeira volta por pedido do Atlético Clube de Portugal, que não podia jogar em casa por estar proibido de entrar no campo da Tapadinha, em Alcântara. Por quem? Pelo Atlético Clube de Portugal.

 

O Atlético é um dos vários clubes portugueses que, nos últimos anos, têm tido investimento chinês, um investimento difícil de quantificar num universo tão vasto como é o futebol português. O caso do Atlético é o que tem corrido pior, com a separação total entre o clube, que se mantém na Tapadinha, e a SAD, que controla o futebol profissional. Mas o investimento que vem do Império do Meio não é todo igual. O Desportivo das Aves, por exemplo, tem a participação de uma empresa brasileira de capitais chineses e beneficia de um protocolo com a Federação Chinesa de Futebol para ajudar a construir um centro de estágio Vila das Aves, cidade do concelho de Santo Tirso. Também a norte, o Gondomar tem uma parceria para ajudar na formação de jovens jogadores chineses.

 

Pinhalnovense e Torreense fazem parte da “rede” da Wsports Seven, uma empresa chinesa que criou ainda um clube de raiz, o Oriental Dragon FC, para desenvolver jovens jogadores do seu país. Outros clubes, como o Cova da Piedade, o ARC Oleiros, o Tourizense, o 1.º Dezembro ou o Atlético da Malveira também têm alguns jogadores chineses. A própria II Liga tem o patrocínio da Ledman, empresa que paga 4,2 milhões de euros para dar o nome ao segundo escalão do futebol nacional até 2019.

 

Está a cumprir-se, assim, a profecia de Paulo Futre feita durante uma campanha presidencial do Sporting em 2011. O futebol português (e não só) está a abrir-se ao mercado do país mais populoso do mundo e estão a vir “charters de chineses”, como dizia o antigo internacional português. Mas o negócio não tem sido feito nos mesmos termos do que está a ser feito em países como Inglaterra ou Itália (ver texto nestas páginas), em que os grandes clubes das divisões principais são a porta de entrada. Em Portugal, os chineses estão a começar por baixo, pelas divisões secundárias, com investimentos mais modestos e objectivos diversos.

 

Made in Gondomar

 

Gondomar é o local improvável onde está a ser preparado o futuro do futebol chinês. Nada menos que 13 jovens jogadores chineses estão a fazer a sua aprendizagem no clube desta cidade do distrito do Porto. Muitos deles são internacionais pelas selecções jovens e alguns estão na equipa chinesa de sub-19, que está a disputar o campeonato asiático da categoria no Bahrein e que serve de apuramento para o Mundial de sub-20, que irá decorrer em 2017 na Coreia do Sul. Vivem todos numa quinta em Ferreira, têm aulas de Português e estão no Gondomar SC para aprender.

 

Venham da China ou de Portugal, todos os futebolistas têm o seu sonho. O de Kudirat Ableti, guarda-redes de 19 anos, é de jogar um dia no Real Madrid ou no Borussia Dortmund, mas, enquanto não chega ao Santiago Bernabéu ou ao Westfalenstadium, Kudirat está no Complexo Desportivo Valbom a defender as redes da equipa B do Gondomar num jogo-treino contra a equipa principal, que está na Série C do Campeonato de Portugal. Kudirat é um guarda-redes alto e esguio, ágil e com bons reflexos e, muito por causa dele, o Gondomar A demora a fazer golos. Na bancada, Agostinho Oliveira diz que Kudirat é o melhor guarda-redes chinês no escalão sub-19. Como os outros, ainda tem de aprender. Mas tem potencial e pode, pelo menos, chegar à baliza de um clube da Superliga chinesa, que tem de ter guarda-redes nacionais.

 

Agostinho Oliveira, uma das grandes referências do futebol de formação em Portugal (e chegou a ocupar interinamente o cargo de seleccionador nacional), é consultor da Federação Chinesa de Futebol e o coordenador deste projecto que colocou em Gondomar mais de uma dezena de futebolistas chineses. “Só alguns clubes de topo na China é que têm algo parecido com a formação”, explica Agostinho Oliveira para justificar esta opção de colocar alguns dos melhores jovens futebolistas da China a aprender em Gondomar.

 

Mesmo assim, acrescenta, chegam tarde a Portugal porque só podem residir no país a partir dos 18 anos, depois de assinarem contrato profissional para terem um visto de residência. Abaixo dos 18 anos, só podem permanecer um ou dois meses, e, nestas condições, estão alguns em Gondomar para um estágio de curta duração. Não há aqui um objectivo competitivo nesta equipa B do Gondomar. A formação é o objectivo prioritário, compensar as falhas de um sistema chinês que tem poucas competições para as camadas jovens. E é isso que Agostinho Oliveira vai tentando fazer em Gondomar com este grupo reduzido, ao mesmo tempo que vai desenvolvendo um plano para fazer evoluir as competições chinesas de jovens.

 

A parceria começou em 2013. “Uma empresa contactou-nos para meter cá dois jogadores chineses. Começou por aí. Depois, fizemos um protocolo com eles para ter dez, 12 jogadores. Como não queríamos tê-los na equipa de juniores, resolvemos criar uma equipa B”, explica Álvaro Cerqueira, presidente do clube nortenho. Alguns foram sendo integrados, posteriormente, na equipa principal e dois deles até já deram o salto para uma equipa da I Liga, o guarda-redes Yeerzati Teerijeti e o avançado Tang Shi (ambos sem minutos em jogos oficiais até à jornada deste fim-de-semana). O protocolo, acrescenta o presidente do Gondomar, é renovável por períodos de dois anos e os indicadores do parceiro chinês, para que a parceria se prolongue para lá da época 2016-17, são positivos. Para já, este acordo vai ajudando a equilibrar as contas do clube, que não tem despesas com esta parceria e ainda recebe algum dinheiro. Álvaro Cerqueira não diz quanto.

 

À medida que o jogo entre “A” e “B” decorre, Agostinho Oliveira vai fazendo comentários aos posicionamentos dos jogadores em campo, apontando, por exemplo, algumas coisas que precisam de ser corrigidas na movimentação do avançado e que são fruto de uma formação de base deficiente. Mas também fica satisfeito ao ver que outras coisas já foram corrigidas. No terreno, José Nuno Azevedo, antigo lateral com uma carreira quase toda ligada ao Sp. Braga, vai dando as ordens ao Gondomar B, que também tem alguns jogadores portugueses e que consegue aguentar o empate sem golos até ao intervalo, num jogo dividido e com oportunidades para os dois lados.

 

A comunicação é que não é fácil, apesar das aulas de Português quase diárias. Entra em campo Miguel Xu, nascido no Porto e de família chinesa, com um domínio perfeito de mandarim e português. Formado em Engenharia, Miguel serve como tradutor para o grupo de chineses e vai com eles para todo o lado. Fica no banco ao lado do treinador para ajudar nas instruções à equipa e é uma ajuda fundamental na hora de, a pedido do P2, juntar todos os jogadores chineses para uma foto de grupo no centro do campo.

 

É em poucas palavras que Kudirat, o guarda-redes, e Li Yang, um defesa, explicam o que é diferente para eles em Gondomar. “O treino e o jogo têm mais intensidade”, diz Yang, um central que tem o madridista Sérgio Ramos como referência da sua posição. Kudirat, por seu lado, gostava de ser mais como o alemão Manuel Neuer, do Bayern Munique. “Aqui, um guarda-redes tem de jogar bem com os pés. E sinto que já evoluí”, diz o jovem guardião. Ambos partilham as sensações na adaptação a Portugal — “difícil” — e na avaliação ao país de adopção — “gosto muito” —, mas com a consciência de que este é um ponto de passagem. Palavra a Li Yang: “Gostava de mostrar a minha habilidade numa competição superior.”

 

Os dois Atléticos

 

Há muito que o Atlético Clube de Portugal anda afastado dos seus tempos de glória. Entre os anos 1940 e 1970, o histórico clube lisboeta cumpriu 24 temporadas na primeira divisão e chegou a ser duas vezes terceiro classificado (1944 e 1950), mas desde 1977 que o campo da Tapadinha, em Alcântara, deixou de ser destino para o futebol de primeira, e nas últimas quatro décadas tem alternado entre o segundo e o terceiro escalões. Como muitos clubes, o Atlético foi perdendo força e gastando mais do que podia, e entrou em pré-falência.

 

Entra em cena a Anping Football Club, empresa sediada em Hong Kong e referenciada pela UEFA como de risco elevado quanto a possíveis ligações a manipulação de resultados. No Verão de 2013, adquire 70% da Sociedade Desportiva (SAD) do clube alcantarense e assume a gestão do futebol profissional, ficando o clube com os restantes 30% — Nelo Vingada, experiente treinador português, passou brevemente pela liderança da sociedade, tal como Almani Moreira, antigo futebolista do Boavista e Hamburgo, entre outros.

 

Não se pode dizer que o projecto desportivo tenha corrido bem, ou razoavelmente bem. Na verdade, em três temporadas na II Liga, o Atlético terminou três vezes nos lugares de descida de escalão. Em 2013-14, terminou em último, mas manteve-se porque o campeonato foi alargado a 24 equipas. Em 2014-15, foi 22.º, mas beneficiou na despromoção administrativa do Beira-Mar para continuar na competição. Em 2015-16, voltou a ser 22.º e, desta vez, não houve nenhuma decisão de secretaria que lhe valesse.

 

A relação entre clube e SAD nunca foi pacífica e, já em 2014, o então presidente do Atlético, Almeida Antunes, queixava-se da falta de diálogo com os administradores chineses. “Achincalham, gozam e brincam connosco”, dizia Almeida Antunes numa entrevista ao Record. A nova direcção do Atlético avançou para um corte radical com a sociedade chinesa, impedindo todas as pessoas ligadas à SAD, equipa de futebol incluída, de entrarem na Tapadinha. E assim chegamos a esta situação de haver dois Atléticos no futebol português, com as mesmas cores e o mesmo emblema, mas que não são a mesma equipa.

 

“Não temos relação nenhuma [com a SAD]. É feita de ultimatos para regularizarem as situações. Não vieram fazer parcerias e o objectivo nunca foi engrandecer o nome do clube”, diz ao P2 Armando Hipólito, presidente do Atlético recentemente eleito. Hipólito fala de uma dívida da SAD à Segurança Social que ultrapassa os 100 mil euros e que faz com que o clube não seja elegível para uma série de subsídios, acrescentando que também há diversas dívidas ao clube pela utilização das instalações da Tapadinha e a vários fornecedores. Quanto a eventuais dívidas ao fisco, Armando Hipólito não sabe, porque a administração da SAD não lhes mostra as contas.

 

A equipa que está ligada ao clube, e que funcionava antes como equipa B, está a competir na I Divisão distrital de Lisboa, a equipa da SAD está na Série G do Campeonato de Portugal e, à entrada para a sétima jornada (que se disputa neste domingo), estava em último lugar, com apenas um ponto (um empate e cinco derrotas). Ainda assim, a equipa da SAD conseguiu arrastar meia dúzia de adeptos para aquela tarde de sol em Sintra, familiares de alguns jogadores.

 

Sem poder entrar na Tapadinha, a equipa do Atlético SAD tem feito jogos em casas emprestadas, no campo do “Fofó” e num campo secundário do Real Massamá, e vai treinando onde pode. José Manuel Francisco, director desportivo da equipa da SAD (e pai de Bernardo, o guarda-redes), defende a sua equipa e a sua administração, devolvendo para o clube as acusações de falta de diálogo. “O que lhe posso dizer é: não fomos nós que fechámos a porta a ninguém. Sempre que nos foi solicitada uma conversa, nós tivemo-la. Não me vou lá pôr à porta, à espera que alguém me chame. Reuniões inconclusivas? Se calhar não é a conclusão que querem, mas não vou entrar em pormenores”, defende José Manuel Francisco.

 

Do investidor chinês, José Manuel Francisco nada tem a apontar. “Não tenho nenhuma razão de queixa. Estávamos a dois dias do início de época e não tinha bolas nem equipamentos. Em dois dias, isso apareceu. Dentro das limitações, temos as condições mínimas para trabalhar. Obviamente que, em termos desportivos, a estadia desta SAD não foi o que se queria, com três despromoções em três anos, mas também é preciso que se diga que, quando o Beira-Mar desceu, o Atlético só ficou na II Liga porque tinha tudo em dia”, defende o director desportivo, que espera uma solução a bem entre as duas partes, até porque “SAD e Atlético são a mesma coisa”.

 

Ao contrário do desejo expresso por José Manuel Francisco, as coisas não vão mesmo acabar bem. O clube deu um prazo à SAD para reconstruir pontes e apresentar contas, mas, segundo Armando Hipólito, nada aconteceu. Como não havia no acordo de 2013 uma cláusula que permitisse ao clube a recompra das acções ao investidor chinês, diz o presidente do clube, o Atlético vai avançar para um pedido de insolvência da Atlético SAD, de forma a poder formar outra sociedade no futuro e salvaguardar o património do clube no presente.

 

Bo, o trintão que se vai embora

 

A rotina diária de Bo Hao começa às 7h da manhã, algures em Lisboa. Depois, vai para o trabalho de transportes públicos. Primeiro o metro e, depois, o comboio, para chegar às 9h em ponto ao estádio do Sport União Sintrense, onde joga como defesa desde o início da temporada — só precisava de estar lá às 9h30, mas o defesa chinês faz questão de chegar meia hora antes. Depois, faz o caminho de volta e, dependendo do nível de cansaço, talvez vá ao restaurante para almoçar (mais cansado) ou vá para casa cozinhar (menos cansado). A seguir, talvez faça uma pequena sesta, uma hora de corrida no Parque das Nações, algum convívio com amigos chineses e portugueses, umas partidas de snooker, jantar, algumas leituras (em português) e descanso — dorme sempre sete horas. No dia seguinte, repete tudo, menos ao domingo (dia de jogo) e segunda-feira (folga). Mas esta rotina de Bo Hao está quase a acabar.

 

O trintão Bo Hao é um pouco diferente dos outros futebolistas chineses que andam pelo futebol português, quase todos entre os 18 e os 20 anos. Bo, pelo contrário, chegou em 2012, com 26 anos, andou pelo Vianense, Olivais e Moscavide, Operário Lisboa e Alta de Lisboa, antes de chegar ao Sintrense, que também tem um investidor chinês, este com raízes de duas décadas em Portugal. Bo já tem, no entanto, data para regressar a casa. “Em Janeiro, volto para a China. Para que clube. Ainda não posso dizer, é segredo”, diz o sorridente futebolista, comunicativo e bem-disposto, num português imperfeito mas suficientemente desenvolto para contar um pouco da sua história ao P2.

 

Na conversa, o gesto também é tudo. “Portugal. Adoro Portugal”, diz, ao mesmo tempo que leva a mão ao lado esquerdo do peito, apontando o coração. Até o hino português aprendeu, confessa. Bo, que vive sozinho, mas que chegou a ter uma namorada portuguesa, está agradecido por tudo o que tem aprendido no futebol português, que “tem mais qualidade que o futebol chinês”. “O futebol na China é muito fraco. Os treinos lá têm muita corrida e pensa-se pouco”, diz Bo Hao, que decidiu vir para Portugal por influência de Quinzinho, avançado angolano que chegou a jogar no FC Porto, e que foi seu colega de equipa na China.

 

“Já cá está há alguns anos e o facto de falar português é uma mais-valia”, diz Luís Loureiro, antigo médio do Sporting e do Sp. Braga que é o treinador do Sintrense e que nunca tinha trabalhado com um jogador chinês. Ajuda à comunicação com o treinador e à integração na equipa. “É um rapaz que está fora do país dele, mas teve uma adaptação fácil, e é um bom rapaz, simples e afável, que gosta de aprender. Está completamente integrado. Não é o Bo e o resto da equipa. É um grupo”, diz o antigo internacional português.

 

Apesar de ter uma licenciatura em Gestão, Bo quer continuar no futebol como treinador, depois de deixar de ser jogador, o que irá acontecer daqui a três ou quatro anos. E, para aprender a ser treinador, Bo quer voltar a Portugal. “Portugal é muito importante na minha vida. Nunca vou esquecer. No futuro, quero viver em Portugal”, diz. E volta a apontar para o coração.

 

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daqui a dois meses vou para um clube que tem alguns chineses a jogar. tou curioso em ver como jogam xD

Editado por dafuq

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Guest fiasco

daqui a dois meses vou para um clube que tem alguns chineses a jogar. tou curioso em ver como jogam xD

 

 

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Treino da semana passada. :mrgreen:

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Banha da cobra. Nem daqui por 30 anos formam um jogador de nível alto.

Se até a Libéria já teve um jogador de alto nível não sei porque é que a China não poderá ter com aquela população toda. Se o investimento continuar na formação e no campeonato, em 10/15 anos estão a formar bons jogadores.

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Adianta-lhes de muito investirem. Até podem investir fortunas. É uma questão cultural e sociológica.

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Banha da cobra. Nem daqui por 30 anos formam um jogador de nível alto.

 

Há qualidade aqui. Muita. Eles crescem mal. Mas com bons treinadores e o planeamento certo não vejo porque não. A China vai crescer muito no futebol.

 

A nossa equipa sub 13 foi a Portugal. Empatou 3 a 3 com os nossos no Caixa. Esteve a ganhar 3 a 1 até quase ao fim.

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Adianta-lhes de muito investirem. Até podem investir fortunas. É uma questão cultural e sociológica.

Revolução Cultural ao resgate.

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