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Agora, já não é só a correr que Portugal ganha medalhas

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Agora, já não é só a correr que Portugal ganha medalhas

 

Ao contrário do passado, já não são o meio fundo e fundo os responsáveis pelos maiores sucessos do atletismo português. O paradigma mudou e há razões que o explicam.

 

Reafirmando uma tendência mais recente, as duas medalhas ganhas por Portugal nos últimos Campeonatos da Europa de atletismo em pista coberta, que este domingo terminaram em Belgrado, foram-no em provas mais técnicas do que no passado, quando o meio fundo e fundo eram responsáveis pela totalidade dos sucessos do atletismo nacional. As ditas medalhas vieram nas provas masculina e feminina do triplo salto e a outra “quase medalha” resulta do quarto lugar de Tsanko Arnaudov no lançamento do peso. Aliás, actualmente, Portugal tem no lançamento do peso três atletas capazes de ultrapassar 20 metros, o que era impensável há apenas uma década, ou mesmo menos.

 

O meio fundo e fundo em Portugal desceram drasticamente de nível nas últimas duas décadas e esse é um fenómeno, de resto, de expressão europeia. Se se compararem listas nacionais anuais masculinas de vários países com as de há 30 anos, em bruto os resultados de hoje são muito mais fracos. Ao invés, Africa era um continente incipiente em ternos atléticos quase até ao início dos anos oitenta do século passado, com algumas excepções, e depois subiu de forma impensável, dominando o panorama mundial actual de forma quase total. A nível global este fenómeno tem sido um pouco minorado no lado feminino, até porque as comparações com o passado são mais difíceis pelo facto de terem surgido provas novas no panorama competitivo das mulheres, avultando em especial a prova da maratona. Também a nível de Portugal o abaixamento do meio fundo é um pouco mascarado no lado feminino pela existência de uma geração de grandes atletas – Dulce Félix, Jéssica Augusto e Sara Moreira como maiores expoentes- incomparavelmente mais forte do que sua congénere masculina, mas que, no entanto se prepara para dar as primeiras passadas da sua recta final.

 

Melhores condições de treino

 

Jorge Vieira, o actual presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, que é professor de educação física e teve formação numa nação que é uma referência a nível mundial - Alemanha - analisa esta alteração de paradigma do atletismo português. ”Não creio, para já, que o decréscimo do peso do meio fundo seja um contraponto ao acréscimo da qualidade das provas ditas técnicas. Uma coisa não implica a outra. O que me parece decisivo é que desde há duas décadas para cá, ou mesmo um pouco mais, o meio fundo perdeu resultados comparativos no contexto internacional, porque este também mudou, e nas provas técnicas houve por cá muitas melhorias. Agora há melhores condições de treino, há mais pistas, mais equipamento. O quadro competitivo também se alargou imenso. Há anos atrás nas provas técnicas estava-se praticamente oito meses por ano sem competir. Treinava-se muito mais do que se competia. Não havia o quadro alargado de competições que há agora, não havia sequer provas em pista coberta. Por outro lado, até aos anos noventa a grande maioria dos técnicos dedicados ao atletismo estava centrada nas disciplinas de corrida de média e longa distância. Hoje já não é assim, e o nível médio de formação dos técnicos é na actualidade muito mais elevado, comparativamente com o passado. Também há mais apoios aos atletas, daí que tudo conjugado resulte no crescimento das disciplinas de força explosiva”.

 

Pedro Rocha, antigo fundista internacional e hoje em dia técnico federativo com responsabilidades no meio fundo e fundo, também valoriza outro factores, nomeadamente sociológicos e psicológicos. “A base de recrutamento para as disciplinas de resistência no atletismo diminuiu de forma significativa em relação ao passado. Hoje, é tudo muito mais difícil, até porque a dedicação ao treino é crucial para se ter sucesso e também, actualmente, se mostra mais difícil de encontrar. Temos menos atletas de topo e para que tal aconteça há que ter igualmente em conta que muitos potenciais talentos têm de fazer opções de vida e entrar no mercado de trabalho numa altura em que começariam a carreira como seniores. Ao contrário do passado cada vez mais os atletas, neste tipo de disciplinas, não encontram base financeira de sustentação, pelo menos a médio prazo. Por outro lado, não há hoje um grupo de trabalho alargado e coeso que mantenha uma mística de treino conjunto e da emulação positiva, como havia nos tempos áureos do professor Moniz Pereira”. E há ainda a conotação persistente da palavra “crise”, de há muito colada ao meio fundo e fundo. Estar numa prática desportiva associada a “crise” não é apelativo para nenhum candidato.

 

No entanto, Pedro Rocha não se mostra fatalista quanto à possibilidade de uma melhoria. "Nós, cá em Portugal, até agora não encontrámos maneira de dar a volta à situação e inverter o longo ciclo de abaixamento do meio fundo e fundo. Mas a Inglaterra, através do apoio financeiro estatal, a França, com contributo de atletas vindos do norte de África ou com as raízes lá, a própria Espanha, que depois de ver passada uma armada de fundistas de enorme qualidade voltou a melhorar, todos estes países souberam voltar a cima. Portanto a situação não está fechada”, disse.

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