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Yanis Varoufakis: "A democracia não tem qualquer hipótese sob o tecnofeudalismo”

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Yanis Varoufakis: "A democracia não tem qualquer hipótese sob o tecnofeudalismo”

Em entrevista ao Expresso, Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças grego olha para a forma como o sistema democrático está a ser afetado pelo novo sistema económico, o tecnofeudalismo, por si batizado. Agora, para não sermos servos, "precisamos de tomar, não apenas os meios de produção, mas também os meios de comunicação", defende

O economista grego Yanis Varoufakis defende que o capitalismo morreu e está a ser substituído por uma nova ordem económica dominada pelas grandes plataformas digitais: um sistema económico a que chama de tecnofeudalismo. Cético quanto à capacidade das instituições políticas ocidentais para domar o poder das grandes plataformas digitais, o ex-ministro das Finanças não suaviza o diagnóstico no seu mais recente livro.

Defende que este novo modelo concentra riqueza, dados e influência numa elite pequena, esvaziando a democracia e abrindo caminho a novas formas de autoritarismo. A inteligência artificial apenas acelera esta dinâmica. Entre o risco do desespero coletivo e a necessidade de agir, o antigo ministro grego das Finanças insiste que “tudo poderia ser diferente”, desde que os trabalhadores sejam coproprietários das máquinas e o poder económico seja radicalmente reconfigurado.

A resignação ou sentimento de impotência das pessoas que vemos hoje deve-se também ao facto de a mensagem de “poucos a governar muitos” ser, no fundo, a história de toda a civilização humana?

Nas décadas de 1910 e 1920, a resignação estava a ser posta de lado e substituída pelo entusiasmo; os sindicatos estavam a fortalecer-se. Por outro lado, após a Segunda Guerra Mundial, no período de desindustrialização da década de 1970, havia essa resignação. Quando entramos num refeitório e vemos pessoas sentadas na mesma mesa e cada uma delas está a olhar para o ecrã, totalmente isolada de todos os outros, apercebemo-nos de que este capital-nuvem está a potenciar a solidão e o isolamento. Quando as pessoas estão isoladas umas das outras, sentem-se impotentes e manipuladas. É por isso que é importante utilizar estas máquinas para unir as pessoas. Mas, claro, quando se tenta fazer isso com uma rede social que pertence a estes magnatas da tecnologia, que otimizam os seus algoritmos para nos fazerem odiar uns aos outros, porque é assim que maximizam os seus lucros, é o ódio que faz com que as pessoas fiquem coladas ao ecrã, muito mais do que o amor e a solidariedade. Portanto, estas máquinas estão a minar as nossas capacidades, os nossos esforços, as nossas campanhas para unir as pessoas, mesmo online.

Defende, no seu livro, que é muito difícil abandonar todas as plataformas e todos os sistemas de pagamento online. Seria uma solução se todos abandonassem, ao mesmo tempo, todas as plataformas e redes sociais?

Teoricamente falando, sim. Se todos nós entrássemos em greve e derrubássemos todo o sistema, então seria possível mudá-lo, mas o objetivo não deve ser nunca ignorar as tecnologias, mas sim dominá-las. A minha preocupação é que, em vários momentos da História, as pessoas tentaram esta fuga da realidade, alimentando a fantasia de escapar à sociedade exploradora e horrível em que vivemos, e subir às montanhas e formar novas estruturas sociais. Era teoricamente viável e algumas pessoas fizeram-no, mas depois diferentes tipos de tragédias aconteceram com elas nestas pequenas comunidades. Portanto, não, essa não é a solução. A solução deve vir da mesma forma que os trabalhadores entenderam, no século XIX, que precisavam de tomar os meios de produção. Agora, precisamos de tomar, não apenas os meios de produção, mas também os meios de comunicação, porque os meios de comunicação são os novos bens de capital que conferem um poder exorbitante a uma pequena oligarquia. Assim, se queremos democracia, se queremos reivindicar o nosso direito a não sermos servos, temos de assumir o controlo destas máquinas. Não podemos simplesmente ir para o meio do mato ou para uma qualquer ilha deserta e escapar.

Falou de grandes nomes da tecnologia nos Estados Unidos, mas será que a Europa e a China poderiam oferecer alguma alternativa a este tecnofeudalismo?

Já oferecem. Na China, fizeram uma série de coisas para conter o poder das leis tecnológicas, e conseguiram contê-lo. Não há comparação entre a China e os Estados Unidos ou a Europa. Deixe-me dar alguns exemplos. Quando a rentabilidade da Alibaba, o equivalente chinês da Amazon, ultrapassou um certo nível, o equivalente chinês de Jeff Bezos, um senhor conhecido por Jack Ma, que era o proprietário e CEO da empresa, recebeu uma diretiva do governo: ‘Parem com isso. Não vamos permitir que extraia tanto rendimento desta economia’. E ele não os ouviu, então foi censurado. Depois, a Alibaba alterou as suas políticas de preços e o seu algoritmo. Este é um exemplo. Mas o Governo chinês também introduziu a interoperabilidade por lei há cerca de um ano. Isto é algo tremendo, que gostava que tivéssemos na Europa. Interoperabilidade para benefício público significa que, da mesma forma que posso mudar de operador móvel e levar o meu número comigo antigamente isso não era possível, e esta era uma forma de impedir que se mudasse de operadora —, é possível sair do X, de Elon Musk, e ir para o Blue Sky, e, de cada vez que publique algo, os meus seguidores no X também o receberão. Isto seria um grande golpe no poder de monopólio de Elon Musk, e isto já é lei na China. Também têm a capacidade, utilizando a aplicação WeChat, de efetuar pagamentos gratuitos.

Na Europa, o Banco Central Europeu não o permite, porque os banqueiros querem reter as taxas sempre que se realizam transações entre bancos diferentes. A aliança, na Europa, entre os banqueiros e as grandes empresas tecnológicas está a causar muitos danos às sociedades, está a extrair muitos rendimentos. Os chineses não fazem isso. Outro exemplo: a inteligência artificial. Os seus modelos de IA são muito mais razoáveis. Se observar a quantidade de eletricidade que consomem, é um décimo do que os modelos ocidentais consomem. A quantidade de água doce que consomem, para o arrefecimento do servidor, é um décimo. Não estão a desperdiçar enormes recursos, como está a acontecer nos Estados Unidos agora, nesta super corrida pela dominância da IA, que é ridícula. Têm IA muito decente; estão a gastar muito pouco dinheiro e recursos com ela e o que fazem é impulsioná-la para fazer coisas úteis, como trabalhar em conjunto com máquinas, usando robôs na esfera da produção. Enquanto nós estamos a ser substituídos.

Os leitores que o conhecem definem-no facilmente como alguém um pouco cético quanto à capacidade reguladora das instituições políticas no Ocidente. Assim, ao lerem este livro, poderão ver o cenário da revolução popular como única saída como uma desistência de encontrar qualquer outra solução mais plausível? Porque, se falhou contra o capitalismo clássico, porque haveria de funcionar contra um adversário mais feroz? Não o preocupa que este livro possa deixar as pessoas mais ansiosas por não verem a luz ao fundo do túnel?

Estou preocupado com tudo isso, tem razão. A forma como escrevo livros é tentando encarar a realidade de frente, não me esconder dela, porque não acredito que algo de bom venha de me esconder debaixo da mesa e fingir que a fera não está na sala. Mas, ao mesmo tempo, fazê-lo de uma forma esperançosa, de uma forma que realmente revele as possibilidades. Levo sempre a sério as palavras do meu grande amigo David Graeber, que disse que tudo podia ser diferente. Esta é a afirmação mais revolucionária que se pode imaginar. Então, tento sempre começar por aí. É brutal, é horrível, é repugnante, mas tudo poderia ser diferente. Esta é uma forma de impedir que as pessoas se sintam desamparadas e desesperadas. Sobre a questão da revolução, repare, eu não sou revolucionário por ser revolucionário. Sou revolucionário porque é para aí que a minha lógica me leva.

Porquê?

Digamos que existe uma empresa que produz qualquer coisa, vamos chamar-lhe um dispositivo. Produz 100.000 dispositivos, com 1000 trabalhadores. E, de repente, surge um robô com inteligência artificial que é muito barato, que faz com que a mesma quantidade, de 100.000 dispositivos, possa ser produzida com metade dos trabalhadores. Isto acontece enquanto falamos, todos os dias... O que os gestores farão em nome dos acionistas da empresa de capital privado é trazer este robô industrial e despedir metade dos trabalhadores. Mas compare isto com outra situação, em que esta empresa é uma cooperativa e cada trabalhador é um acionista. Cada um deles tem uma ação, e fazem uma reunião e dizem: “Vamos implementar isto, porque, assim, podemos produzir a mesma quantidade de dispositivos e trabalhar metade do tempo; podemos trabalhar quatro horas por dia, ninguém é despedido, mas nós temos mais tempo para cuidar dos nossos filhos, dos nossos pais idosos e aprender uma nova língua, escrever poesia, não fazer nada”… No primeiro caso, acaba-se com 505 trabalhadores que nós, o resto da sociedade, teremos de sustentar com subsídio de desemprego, o que aumentará os nossos impostos, e isto inicia um círculo vicioso. No segundo caso, nada disso. Teremos uma sociedade melhor com pessoas que têm mais tempo livre; algumas delas vão desperdiçá-lo e outras podem escrever belos poemas. Portanto, se o limite lógico da IA for o aumento massivo da produtividade e a marginalização do trabalho, ótimo, desde que sejamos os coproprietários das máquinas. Se não formos os coproprietários das máquinas, a vida será desagradável, brutal e curta, inclusive para os ricos, porque haverá tantos pobres por aí que eles nem sequer conseguirão andar pelas ruas. A revolução não é uma opção; temos de a fazer.

Yanis Varoufakis é um dos críticos mais contundentes do poder das big tech. No livro "Tecnofeudalismo", defende que a democracia não sobrevive sem enfrentar a concentração digital e devolver a propriedade das máquinas aos trabalhadores
Yanis Varoufakis é um dos críticos mais contundentes do poder das big tech. No livro "Tecnofeudalismo", defende que a democracia não sobrevive sem enfrentar a concentração digital e devolver a propriedade das máquinas aos trabalhadores
Thierry Monasse

Se fosse hoje ministro das Finanças, qual seria a sua primeira medida concreta contra este tecnofeudalismo?

A primeira coisa que eu faria seria legislar imediatamente a interoperabilidade, o que os chineses já fizeram. Esta nem sequer é uma medida muito radical e não é assim tão difícil. Em segundo lugar, introduziria um imposto sobre a nuvem, sobre todas as transações digitais para empresas com um valor superior a 500 milhões, de cerca de 5% a 6%. E, simultaneamente, reduziria o IVA. São duas coisas que eu faria hoje. A longo prazo, o socialismo.

Sob este tecnofeudalismo, poderão existir verdadeiras democracias ou estamos perante um novo sistema económico que está a alimentar uma nova forma de fascismo?

A resposta está na sua pergunta. A democracia não tem qualquer hipótese sob o tecnofeudalismo. Quando os proprietários, os 0,001% da população, controlam as nossas mentes diretamente fora dos mercados, nem sequer pode falar-se de democracia, mesmo se houver eleições. De qualquer forma, sabemos há décadas que nunca houve uma democracia, talvez com excepção da antiga Atenas, e isto apenas para os cidadãos do sexo masculino, não mulheres, não metecos, não migrantes. O que temos tido na Europa nas últimas décadas é uma oligarquia com eleições periódicas e quando, em raras ocasiões, as pessoas conseguiam ultrapassar os seus medos e a sua aversão e eleger um governo genuinamente progressista, este governo descobria rapidamente que não tinha poder. Estavam no cargo, mas não no poder. Portanto, o ‘demos’ [povo] foi retirado da nossa democracia há muito tempo. O que o tecnofeudalismo faz é colocar uma lápide muito pesada sobre a própria ideia de democracia. É por isso que a luta contra o tecnofeudalismo é uma luta para manter a possibilidade de uma democracia.

Então, se é a maior reconfiguração de poder em décadas, porque é que isto não causa uma divisão política maior?

A pior escravidão é aquela com a qual os escravos consentem, ou contra a qual não reagem. O grande filósofo francês Marquês de Condorcet disse-o lindamente quando afirmou que o segredo do poder do tirano não reside no poder das armas dos seus soldados, mas na mente do oprimido.

Esta é uma parte da entrevista a Yanis Varoufakis. Poderá ler mais no site e na edição semanal do Expresso, que será publicada esta sexta-feira.

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Citação de Descartes, há 6 minutos:

Demagogia. Isto que vivemos é puro suco capitalista. 

Atribuir o nome de feudalismo a monopólios é uma maneira ingénua de tentar ser aceite pelo establishment. 

Comecem a converter grandes empresas em cooperativas de trabalhadores e vejam as coisas florescer. Na melhor das hipóteses corre mal e vai tudo para o campo plantar batatas. Se correr mal, a cooperativa sobrevive e as mais valias geradas são repartidas pelos trabalhadores. 

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Citação de Che, há 1 minuto:

Demagogia. Isto que vivemos é puro suco capitalista. 

Atribuir o nome de feudalismo a monopólios é uma maneira ingénua de tentar ser aceite pelo establishment. 

Comecem a converter grandes empresas em cooperativas de trabalhadores e vejam as coisas florescer. Na melhor das hipóteses corre mal e vai tudo para o campo plantar batatas. Se correr mal bem, a cooperativa sobrevive e as mais valias geradas são repartidas pelos trabalhadores. 

Corrigido o erro.

Editado por Descartes

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Yap um gajo que cita a China como exemplo, que hoje se sabe, tem uma divida total (state, companies e individuals) de 300% do GDP ou um debt to GDP ratio ja acima da maior parte dos paises desenvolvidos, uma taxa de desemprego jovem tao grande que deixaram de apresentar dados, etc...

A mascara do progresso esta tanto a cair, que a nivel economico ja ha bastantes academicos a argumentar que a China passar os States (que se previa para 2030-2040) so devera acontecer em 2100 (if ever...)

Interoperabilidade? Sim 'e mesmo isso que vai resolver os problemas da Europa...

 

 

Editado por Burkina2008

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Yanis Varoufakis: “O capitalismo produz crises como produz iPhones”, mas o que veio a seguir é pior

A revolução deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade, garante Yanis Varoufakis, criador teórico do tecnofeudalismo, em entrevista ao Expresso, a propósito do seu mais recente livro "Tecnofeudalismo", publicado em português

"O capitalismo morreu. Bem-vindos ao tecnofeudalismo." A privatização da internet, a crise financeira de 2008 e a ascensão das grandes plataformas digitais foram os combustíveis para que, na opinião de Yanis Varoufakis, surgisse uma nova era, um novo sistema económico baseado na extração de renda através do controlo algorítmico. O antigo ministro das Finanças grego e professor de Economia na Universidade de Atenas chama-lhe tecnofeudalismo, no seu mais recente livro, com o mesmo nome. Isso coloca os cidadãos na posição de servos da nuvem. Em entrevista ao Expresso, Varoufakis, doutorado em economia pela Universidade de Essex, pensador e académico, garante que a democracia não sobrevive ao tecnofeudalismo.

Se o tecnofeudalismo é uma rutura, em que ponto é que ela ocorreu? É possível definir o ponto de não retorno?

O exemplo que dou aos meus alunos na universidade é o da minha cabeça careca. Que cabelo tive de perder para passar de cabeludo a careca? Não existe esse momento delimitado, mas esta transição começa com a privatização da internet, no final da década de 1990 e início dos anos 2000, porque a internet costumava ser, antes da chegada das grandes empresas tecnológicas, um bem comum. Não eram sites comerciais, nem um espaço monopolizado e tecnofeudal. Depois, a grande bolha da internet rebentou, e foram criadas muitas infraestruturas que também eram necessárias, como cabos de fibra ótica. E, depois, duas coisas desencadearam o Big Bang: uma delas foi o colapso financeiro de 2008, porque, como explico no livro, imediatamente a seguir, os bancos centrais enlouqueceram e imprimiram cerca de 35 biliões de dólares (cerca de 30 mil milhões de euros). Este é um número incompreensível. Entretanto, praticámos a austeridade nos nossos países, em Portugal, na Grécia, nos Estados Unidos, em todo o lado. Portanto, havia muito dinheiro e austeridade. A austeridade significa que as grandes empresas olham para o mercado e veem pessoas pobres, por isso não investem, mas levam o dinheiro porque é gratuito, vindo de um banco central, e vão à bolsa e recompram as suas próprias ações, enriquecendo-se.

Em "Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo", Yanis Varoufakis defende que o capitalismo, tal como o conhecemos, está a ser substituído por uma nova ordem económica dominada pelas grandes plataformas digitais. Segundo o autor, já não vivemos num sistema baseado essencialmente em mercados competitivos, lucros e capital produtivo, mas numa estrutura em que um pequeno número de empresas tecnológicas controla infraestruturas digitais essenciais e extrai rendas de utilizadores, empresas e Estados. Neste novo regime, o poder económico desloca‑se do capital tradicional para o controlo de dados, algoritmos e redes.
Em "Tecnofeudalismo: O que matou o capitalismo", Yanis Varoufakis defende que o capitalismo, tal como o conhecemos, está a ser substituído por uma nova ordem económica dominada pelas grandes plataformas digitais. Segundo o autor, já não vivemos num sistema baseado essencialmente em mercados competitivos, lucros e capital produtivo, mas numa estrutura em que um pequeno número de empresas tecnológicas controla infraestruturas digitais essenciais e extrai rendas de utilizadores, empresas e Estados. Neste novo regime, o poder económico desloca‑se do capital tradicional para o controlo de dados, algoritmos e redes.

E qual foi a outra causa do Big Bang, como lhe chama?

As únicas empresas que realmente investiram foram as grandes empresas tecnológicas. Assim, o dinheiro público acabou por financiar criação dessas grandes empresas. Chamo a isso capital-nuvem. Isto aconteceu ao mesmo tempo em que se deram grandes avanços nos algoritmos de aprendizagem por reforço, ou seja, algoritmos que aprenderam a aprender sozinhos e a interagir connosco numa relação onde nos treinam para os treinar e, gradualmente, exercem poder sobre nós em nome dos seus proprietários. Portanto, a resposta curta é que os historiadores do futuro identificarão algures entre 2005 e 2020 como o período durante o qual o tecnofeudalismo emergiu como um novo modo socioeconómico de produção, comunicação e troca.

Nessa perspetiva, considera que o tecnofeudalismo é pior do que o capitalismo em si?

Depende do que significa pior. Deixe-me definir… Retoricamente, afirmo que o capital matou o capitalismo e criou algo ainda pior. Esta é a linha que uso, e que gentilmente repetiu. Venho de uma tradição marxista de esquerda - não vamos usar meias palavras. Assim, para mim, o capitalismo sempre foi um sistema altamente problemático que produzia simultaneamente enormes riquezas e tecnologias fantásticas, bem como novas formas de pobreza e crise. Do meu ponto de vista, o capitalismo produz crises como produz os iPhones. Não é um acidente, faz parte do sistema. O capitalismo precisa de crises para continuar a funcionar. Nesse sentido, encaro sempre o capitalismo como um sistema perdulário, um sistema que não nos permite usar as tecnologias notáveis que ele produz. E acabamos escravizados pelas máquinas que produzimos, em vez de termos as máquinas ao nosso serviço. Essa foi sempre a minha visão sobre o capitalismo.

O que se agrava, então, com o tecnofeudalismo?

Com o tecnofeudalismo, temos dois grandes desenvolvimentos ao nível macroscópico. O primeiro é que se perdem todos os benefícios que o capitalismo proporcionava com a descentralização. Porque o capitalismo é um sistema paradoxal, produz coisas ótimas e coisas horríveis ao mesmo tempo. E estamos a perder as ótimas. Um elemento de liberdade é oferecido pelo capitalismo: a liberdade de competir. Temos uma ideia, colocamo-la no mercado, e talvez tenha sucesso. Ora, esta nova forma de capital, chamada capital-nuvem, pode comunicar diretamente consigo. Máquinas que podem manipular e inserir diretamente desejos no seu coração para direcionar as suas escolhas, fazendo-o trabalhar para isso através de posts e várias outras coisas que fazemos online. Replicar este capital-nuvem com humanos mata efetivamente o mercado. Portanto, estamos a perder os benefícios que o capitalismo tinha. No final, acabamos apenas com a ilusão de escolha no mercado, especialmente agora, com a IA e chatbots que a Amazon, Google, Facebook e outros estão a desenvolver, que falam connosco como seres humanos. Mas não são seres humanos, não são nossos amigos; fazem parte de uma máquina, uma rede de capital na nuvem, cujo propósito é extrair o máximo rendimento de nós como se fossemos servos. As partes mais desagradáveis que a acumulação de capital sempre proporcionou no capitalismo pioram muito sob o tecnofeudalismo.

Pode dar um exemplo?

Se comparar uma empresa tecnofeudal, uma empresa de computação em nuvem, como o Facebook, com uma empresa capitalista tradicional como a General Motors ou a General Electric, as taxas de lucro são gigantescas no caso das grandes empresas tecnológicas. A sua capacidade de extrair renda é simplesmente enorme. Empregam muito poucas pessoas em comparação com as receitas que têm. Isso é muito bom para Jeff Bezos e para Mark Zuckerberg, mas o que significa, de um ponto de vista macroeconómico, é que todo este dinheiro que Pequim ganha, que Elon Musk ganha, é extraído do fluxo circular de rendimentos. Sai dos mercados. Se eu lhe der dois milhões de euros, pode gastá-los estupidamente, mas pode gastar. Se eu lhe der 200 mil milhões, é demasiado dinheiro. É impossível gastar, simplesmente não se sabe o que fazer. Portanto, por definição, retira-o do fluxo circular de rendimentos. Isto reduz a procura e torna a crise macroeconómica da economia social muito pior do que era no capitalismo.

Este é um momento em que os trabalhadores estão a lutar entre si? Ainda lhe faz sentido falar de luta de classes e de outras lógicas marxistas?

Claro que, enquanto as máquinas forem propriedade de poucas pessoas que não trabalham com as máquinas, e a grande maioria estiver a trabalhar para as máquinas ou sob o comando delas, então haverá uma concentração de poder. Warren Buffett, um dos investidores mais bem-sucedidos, disse um dia que não há nada mais real do que uma luta de classes, e que o melhor é que estavam a ganhá-la. Referia-se aos capitalistas. Mas a esquerda, especialmente nos nossos países europeus, está agora um pouco tímida quanto a falar sobre a luta de classes, com medo de parecer grosseira e pouco moderna. O que acontece agora é que a luta de classes está a tornar-se mais complexa sob o tecnofeudalismo porque temos a Google, a Uber e a Airbnb, que são empresas tecnofeudais, e os seus proprietários são a nova classe dominante. Na era de Henry Ford, George Westinghouse, Thomas Edison, eles eram extremamente ricos, concentravam o poder, tinham muito capital, e eram monopolistas que compravam jornais e políticos. Henry Ford tinha uma fábrica cheia de máquinas para produzir outras máquinas, carros, e queria que os consumidores os comprassem. Tinha muito poder para nos fazer comprar e garantir que não tínhamos outra escolha. Mas o que ele queria que se comprasse eram máquinas que ele próprio construía.

A grande diferença é que as grandes tecnológicas hoje não produzem, como a Google que não possui os resultados que indexa?

Jeff Bezos não se importa com o que o consumidor compra, porque ele não produz nada. O seu capital é totalmente improdutivo, a produção é nula. O que ele pretende é garantir que se compra através da sua plataforma digital, através do seu feed na nuvem. Cobra 35 a 40% em tudo o que se compra, e isto é uma forma de feudalismo. Era essa a distinção entre os senhores feudais e os capitalistas nos séculos XVIII e XIX: os senhores feudais ganhavam dinheiro possuindo propriedades e cobrando renda. Os capitalistas eram pessoas que ganhavam dinheiro a construir coisas e a tentar vendê-las por um preço superior ao custo. Existe uma diferença fundamental: lucro versus renda. Essa é uma diferença muito grande. Se olharmos para a contabilidade das grandes empresas tecnológicas, elas falam de lucros, mas não são lucros, são renda. Colocam-nos em feudos digitais ou na nuvem e cobram-nos por esse privilégio. Não estão a produzir nada. As pessoas dentro destes feudos estão a produzir tudo. E os proprietários, os senhores feudais tecnológicos só cobram renda. Não é aluguer de terreno, é aluguer de nuvem.

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Citação de Burkina2008, há 40 minutos:

Yap um gajo que cita a China como exemplo, que hoje se sabe, tem uma divida total (state, companies e individuals) de 300% do GDP ou um debt to GDP ratio ja acima da maior parte dos paises desenvolvidos, uma taxa de desemprego jovem tao grande que deixaram de apresentar dados, etc...

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A China está para falir desde a tomada de posse do saudoso Deng Xiaoping. 

Até que esse momento chegue, os ocidentais que coloquem tarifas para conter o livre mercado. 

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A China vai falir amanhã, o Putin tem uma doença terminal, e mais dia menos dia o Elvis regressa 

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