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O flow de José Carlos Pinto vem da Noruega. Foi lá que se juntou a Gjert Ingebrigtsen, “mestre” que o fez “voltar a gostar de competir”

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O flow de José Carlos Pinto vem da Noruega. Foi lá que se juntou a Gjert Ingebrigtsen, “mestre” que o fez “voltar a gostar de competir”

Quando recebeu o convite para se juntar a Gjert Ingebrigtsen, José Carlos Pinto não pensou duas vezes em mudar-se para Sandnes. Nem mesmo o mediático processo judicial que terminou com o treinador condenado a 15 dias de pena suspensa e ao pagamento de uma multa por ter batido com uma toalha na cara da filha fez o meio-fundista descartar a oportunidade. Ao fim de poucos meses de trabalho com o novo técnico e de uma reformulação do treino, o atleta de 28 anos que reforçou o Sporting vingou-se das noites sem dormir e estabeleceu oito recordes pessoais em 2025

Há ciência para explicar porque é que José Carlos Pinto aprendeu a voar.

Chamam-lhe “método norueguês” e ajudou Jakob Ingebrigtsen (1500 metros) e Kristian Blummenfelt (triatlo) a serem campeões olímpicos. Uma série de outros atletas com o mesmo passaporte desta fórmula utilizaram-na para prepararem provas de resistência nas quais foram bem sucedidos. O truque é prestar atenção aos milimoles de lactato que, traduzindo para português, significa não abusar na produção da substância que substitui a capacidade de gerar energia por um estado em que os atletas podem dizer que se sentem doridos.

José Carlos Pinto escolhe dois dias por semana para, duas vezes a cada 24 horas, fazer corridas por séries em que atinge quatro milimoles de lactato ou até menos. Seguem de novo as legendas: estes níveis marcam a fronteira entre um esforço moderado e um esforço intenso. Segundo esta teoria, o tradicional dar o máximo pode causar uma quantidade de fadiga indesejável. Tratam-se por isso de sessões curtas e feitas a um ritmo controlado e preciso. A eficiência, conseguida através da monitorização constante das métricas, evita treinos excessivamente longos.

Desde que adotou o “método norueguês”, José Carlos Pinto ganhou asas e começou “a ver logo resultados imediatos”, conta à Tribuna Expresso. Entre junho e julho, ganhou cinco corridas consecutivas nos 1500 metros e chegou aos Campeonatos Nacionais numa forma aceitável para fugir com o título nos 1500 metros e nos 5000 metros. Mais tarde, juntou o triunfo no Campeonato Nacional de Corta-Mato Longo. “Ia para a prova a divertir-me”, assume. A exceção foram os Mundiais em que se ficou pela meia-final nos 1500 metros, onde Isaac Nader levou a medalha de ouro.

O português em ação nos Mundiais de Tóquio
O português em ação nos Mundiais de Tóquio
Daniela Porcelli

Dois mil e vinte cinco foi uma estante de inéditas conquistas. O meio-fundista de 28 anos apaparica-o como “um ano de sonho”. “Estou num flow muito bom, é fantástico sentir-me assim”, admite aquele que conseguiu “voltar a gostar de competir” depois de momentos mais frenéticos para a mente. Entre 2019 e 2022, José Carlos Pinto não conseguiu bater sequer o recorde pessoal nos 800 metros, evento em que até então era especialista. “Esses três anos foram difíceis. Nunca perdi a vontade de treinar. De competir, talvez. Estava muito nervoso, não conseguia dormir.”

José Carlos Pinto estabeleceu oito novos recordes pessoais em 2025: 800 metros, 1500 metros, 3000 metros, 5000 metros (pista ao ar livre), 1000 metros, 1500 metros (pista coberta), cinco quilómetros e 10 quilómetros (estrada). Nestas últimas duas distâncias, é detentor dos recordes nacionais.

Recentemente, a sua emancipada capacidade aeróbica reforçou o Sporting (após deixar o Benfica). “A primeira vez que fui ao Estádio de Alvalade era criança, ainda nem andava na escola. Comprámos um cachecol e uma bola assinada por todos os jogadores. Agora, esse cachecol foi comigo para a apresentação. É muito bom estar no clube de que eu era em pequenino”, revelou. No entanto, a sua base está distante de Lisboa.

Reunião de vikings

O método de treino funcionou tão bem que José Carlos Pinto mudou-se para a nascente. Vive regelado em Sandnes, na Noruega, país de origem da fórmula que o pôs a correr como um ser motorizado. A 200 metros do sítio onde mora encontra-se a casa do treinador, nada mais nada menos do que Gjert Ingebrigtsen. “Estou a treinar com o mestre que revolucionou o atletismo a nível mundial.”

José Carlos Pinto foi a “lebre” de Narve Gilje Nordås, em 2024, numa corrida de 3000 metros em Madrid. Desde a juventude que o norueguês é treinado por Gjert Ingebrigtsen. “No final dessa prova, fiquei à conversa com o Gjert durante 30 ou 40 minutos. Fiz-lhe questões sobre treino”, recorda o português. “Entretanto, em 2025, no final da época de pista coberta, o meu antigo agente falou comigo e disse que o Gjert tinha interesse em que eu ingressasse no grupo de treino dele [Vikings Athletics Club, composto por José Carlos Pinto, Narve Gilje Nordås, Per Svela, Kieran Lumb e Maël Gouyette].”

No mesmo dia em que correu 10 quilómetros nos Europeus de Estrada, cruzou-se com Gjert Ingebrigtsen na Bélgica e seguiu com o técnico para um estágio de altitude na Serra Nevada, em Espanha, ignorando que tinha um outro marcado para Font-Romeu, em França.

Gjert Ingebrigtsen, vestido à portuguesa, a acompanhar José Carlos Pinto e Maël Gouyette nos Europeus de Corta-Mato
Gjert Ingebrigtsen, vestido à portuguesa, a acompanhar José Carlos Pinto e Maël Gouyette nos Europeus de Corta-Mato
Sportmedia Contenidos

A ligação manteve-se e Gjert Ingebrigtsen ofereceu casa a José Carlos Pinto nos primeiros tempos em Sandnes, onde se estabeleceu. “Olho para ele e para a mulher como os meus pais na Noruega. Ligo mais para eles do que ligo para os meus pais. Quando estava em casa deles, dizia ‘obrigado por serem a minha família’ e eles ficavam um bocado constrangidos. Devo-lhes tudo neste momento.”

O corredor nacional considera que Gjert Ingebrigtsen “revolucionou o desporto como nós o conhecemos” e que “estamos a viver história escrita por esta pessoa”. Desde que Gjert Ingebrigtsen levou o “método norueguês” para o meio-fundo que começaram a ser obliterados segundos às melhores marcas. “Um atleta de 3:31 [nos 1500 metros], neste momento, acaba por estar num top-20, top-30. Antes era um atleta top-3, candidato a ganhar uma medalha em Jogos Olímpicos, Mundiais e Europeus. Toda a gente começou a aplicar este método de treino.”

De facto, 50 das melhores marcas de sempre nos 1500 metros foram obtidas depois do tiro de partida de 2020. Dessas, nove foram cunhadas por um norueguês: o campeão olímpico Jakob Ingebrigtsen, filho de Gjert.

Drama familiar

Embora sete filhos seja um bom começo para montar uma equipa de futebol, Gjert preferiu erguer uma de atletismo. Jakob, Henrik e Filip foram os que tiveram mais sucesso, combinando, apenas na correrias em pistas descapotáveis, duas medalhas olímpicas, cinco em Mundiais e 11 em Europeus. Em 2016, a televisão norueguesa começou a emitir a série documental “Team Ingebrigtsen”, momento que terminou com o anonimato dos meio-fundistas e do seu treinador.

Os “Kardashian da Noruega”, comparação que a fama lhes valeu, também tiveram os seus dramas. Recentemente, a família passou por um season finale. Jakob e Ingrid, a única rapariga da carrinha de descendente de Gjert, acusaram o pai de abusos. O caso chegou a tribunal, onde a acusação pediu dois anos e meio de prisão para o patriarca. No final, Gjert foi condenado a 15 dias de pena suspensa e a pagar uma multa a rondar os €850 por ter batido na cara de Ingrid com uma toalha molhada quando esta se esqueceu de levar para o treino um equipamento de medição da frequência cardíaca.

As supostas ofensas mais gravosas foram expostas por Jakob, que se queixou de ter sido “espancado” algures “entre 10 e 20 vezes”. “Acusou-me de mentir e bateu-me na cabeça várias vezes”, disse em tribunal. O tribunal considerou não existirem provas suficientes e Gjert foi ilibado numa sentença anunciada em junho, quando já treinava José Carlos Pinto.

Os irmãos Ingebrigtsen combinam 17 medalhas em Jogos Olímpicos, Mundiais e Europeus de pista ao ar livre
Os irmãos Ingebrigtsen combinam 17 medalhas em Jogos Olímpicos, Mundiais e Europeus de pista ao ar livre
Michael Steele

“Não tenho uma coisa má a dizer sobre ele.” O processo judicial não fez o português pensar “de todo” duas vezes em relação à parceria. “Ele foi absolvido de 99,9% daquilo a que estava a ser acusado”, defende o corredor que deu primazia à oportunidade de “só vem uma vez na vida” de trabalhar com uma referência do atletismo. “A partir do momento em que tive esta proposta na mesa, considerei logo. Falei com os meus pais. Ia fazer 28 anos. Estou nos meus últimos seis, sete anos de carreira. Tive de arriscar.”

O imbróglio fez com que a federação norueguesa de atletismo deixasse de conceder acreditação a Gjert Ingebrigtsen para eventos internacionais. No entanto, o técnico surgiu equipado com as cores portuguesas nos Europeus de Corta-Mato, competição em que acompanhou José Carlos Pinto. A federação já anteriormente tinha tentado que Gjert fizesse parte da comitiva que esteve presente nos Mundiais de Tóquio, mas, conta o atleta, um “problema com e-mails” enviados à World Athletics impediu a conclusão do processo a tempo da competição.

José Carlos Pinto espera colar ao corpo o equipamento justo de Portugal nos Jogos Olímpicos 2028. Não sabe se será nos 1500 ou nos 5000 metros. “Depende de onde estiver mais competitivo na altura.” Até lá, tem muita estrada para correr.

 

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Não li tudo. Mas dizer apenas que é absolutamente surreal ter um gajo a fazer 2:45/km. Beijos.

(É o pace do record nacional que ele fez nos 10km, 27:37.)

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