Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Lebohang

Clubes europeus são extravagância para milionários estrangeiros

Publicações recomendadas

Clubes europeus são extravagância para milionários estrangeiros

 

Alguns dos maiores clubes da Europa são propriedade de investidores estrangeiros e esta é uma realidade com tendência para aumentar. Por capricho, por interesse ou por estratégia.

 

A presença de investidores estrangeiros no futebol europeu já deixou de provocar estranheza. Inglaterra é onde este fenómeno é mais comum, mas os campeonatos de Espanha, Itália e França também começam a revelar-se atractivos para quem tem alguns milhões disponíveis para empenhar numa extravagância, como é a compra de um clube de futebol. Quando, em Junho de 2003, Roman Abramovich passou a ser proprietário do Chelsea, dificilmente imaginaria o que aí vinha: os últimos dados oficiais colocavam o investimento feito pelo russo muito perto da fasquia dos 1500 milhões de euros. E Abramovich até é dono de um clube que tem uma marca global e conquista troféus regularmente, porque há outros que não são mais do que um sorvedouro de dinheiro.

 

O que leva um milionário a interessar-se por um clube de futebol de outro país, sabendo à partida que dificilmente vai fazer dinheiro com esse negócio? “Pensar que os clubes possam tornar-se em activos geradores de rendimentos, que paguem dividendos todos os anos, é errado, porque não é a forma como eles funcionam. De certa forma, são um bem raro, tal como uma obra de arte, um automóvel clássico ou uma colecção de bons vinhos. A sua escassez e poder de atracção dá-lhes valor intrínseco”, sublinhou Dan Jones, da consultora Deloitte, ao The Wall Street Journal. Em alguns casos o objectivo pode ser a mera ostentação, mas noutros há um propósito financeiro: quando, em 2005, a família norte-americana Glazer adquiriu o Manchester United, fê-lo recorrendo a um empréstimo em nome do próprio clube. Os red devils estão a pagar mais de 750 milhões de euros aos bancos, mas em Setembro foi anunciado que o clube passará a pagar anualmente aos seus proprietários 21,4 milhões de euros a título de dividendos.

 

O tema da propriedade de clubes por estrangeiros tem provocado debate e preocupação em Inglaterra. Segundo o diário The Guardian, 28 clubes de quatro escalões do futebol inglês são detidos por forasteiros, quase todos eles através de sociedades com sede em paraísos fiscais. No caso do Manchester United, o registo da empresa está nas Ilhas Caimão (a 7592 quilómetros de Old Trafford, o estádio dos red devils), tal como acontece com o Birmingham City, Coventry City e Cheltenham Town.

 

Contrastes europeus

 

Numa Liga como a espanhola, que conta com a atracção global de ter os dois melhores jogadores do mundo, só em três clubes há posições maioritárias de investidores estrangeiros: Valência, Málaga e Granada. O Atlético de Madrid cedeu 20% das acções ao empresário chinês Wang Jianlin em troca de 45 milhões de euros. E em Espanha acredita-se que venham a concretizar-se mais investimentos a curto prazo: “Há vários meses que a Liga de Futebol Profissional vem a detectar um incremento no interesse por investir em clubes do futebol espanhol. Em alguns casos recebeu-os na própria sede, onde os interessados foram pedir informação sobre os clubes em que pensam investir. ‘Nos próximos seis ou sete meses vão fechar-se várias operações’, garantem”, podia ler-se, no início do ano, no diário El País.

 

Em Itália diz-se que só duas equipas e meia estão em mãos estrangeiras. O Inter de Milão foi comprado há dois anos pelo empresário indonésio Erick Thohir e a Roma está nas mãos de um grupo norte-americano liderado por James Pallotta desde Abril de 2011. E Silvio Berlusconi confirmou em Setembro ter chegado a acordo com o tailandês Bee Taechaubol para a venda de 48% do Milan. Na Liga francesa, só dois clubes são propriedade de estrangeiros: o Paris Saint-Germain foi adquirido por uma sociedade do Qatar e o Mónaco foi comprado há quatro anos pelo milionário russo Dmitry Rybolovlev.

 

Esta é uma realidade impossível de verificar-se no futebol alemão, devido à regra 50+1: para competir na Bundesliga, um clube deve ser detentor da maioria dos seus próprios direitos de voto.

 

Os cheques dos xeques

 

Muitos dos milhões que circulam actualmente no futebol europeu têm origem no Médio Oriente. O Manchester City foi adquirido em Agosto de 2008 pelo xeque Mansour Bin Zayed, membro da família real de Abu Dhabi; o Paris Saint-Germain é, desde Outubro de 2011, dirigido por Nasser Al-Khelaif, que foi conselheiro do actual emir do Qatar, o xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, que também é uma das figuras-chave da Qatar Foundation, que patrocina as camisolas do Barcelona; um parente do emir, Abdullah bin Nasser Al-Thani, é o proprietário do Málaga. E podia continuar-se a explorar as ligações.

 

A atracção do Médio Oriente pelo futebol não é inocente. “No caso do Qatar, o documento ‘Visão Nacional 2030’ elegeu o desporto como pilar fundamental do desenvolvimento estratégico da nação. Tal como aconteceu com os EUA, que através de Silicon Valley posicionaram-se no coração da indústria global de investigação e desenvolvimento, o desporto está a ser utilizado da mesma maneira pelas nações emergentes”, analisou Simon Chadwick, da universidade britânica de Coventry, citado pela CNN. A estratégia beneficiou de um empurrão considerável com a atribuição ao Qatar, em 2010, da organização do Campeonato do Mundo de 2022 – um processo muito questionado desde o início, devido às suspeitas de corrupção, as condições meteorológicas em que vão decorrer as partidas e a violação dos direitos dos trabalhadores que estão a construir os recintos.

 

Os coleccionadores de clubes

 

Em termos empresariais, falar-se-ia de concentração horizontal. Mas, no futebol, o fenómeno está mais próximo de ser considerado coleccionismo: há empresários com bolsos recheados que se dedicam a controlar vários clubes ao mesmo tempo, em países diferentes. A prática chegou a levantar dúvidas em termos europeus, por causa das provas organizadas pela UEFA, e a própria Comissão Europeia teve de intervir para salvaguardar a integridade das competições.

 

O caso remonta a 2000, quando o grupo britânico ENIC apresentou queixa contra a UEFA por entender que os regulamentos das competições europeias desencorajavam e restringiam o investimento em clubes. “No caso da regra da UEFA sobre a multi-propriedade, a Comissão entende que o propósito não é adulterar a competição, mas garantir a integridade das competições por si organizadas”, podia ler-se na decisão da Comissão Europeia que rejeitou a queixa da ENIC. E o grupo britânico, que chegou a ter participações em seis clubes europeus, três delas maioritárias – Vicenza (99,9%), Slavia Praga (96,7%), Basileia (50%), AEK (47%), Tottenham (29,9%) e Rangers (25,1%) – seria obrigado a desfazer-se da maioria delas. Actualmente controla apenas o Tottenham, na totalidade.

 

Tal como se lê na formulação em vigor das regras das provas organizadas pela UEFA, “ninguém pode estar simultaneamente envolvido, directa ou indirectamente, em qualquer cargo de direcção, administração ou chefia desportiva de mais de um clube participante”. E acrescenta o regulamento: “Nenhum indivíduo ou entidade legal pode controlar ou influenciar mais de um clube participante nas competições da UEFA”, referindo concretamente situações de maioria accionista de votos.

 

Porém, apesar da deliberação da Comissão Europeia e do que os regulamentos estabelecem, a posse de vários clubes por uma só pessoa continuou e continua a ser uma realidade, ainda que a questão das competições europeias não tenha voltado a colocar-se.

 

Giampaolo Pozzo pode orgulhar-se de ser dono de um clube de futebol em três dos principais campeonatos europeus. O empresário 74 anos, com fortuna de família feita na produção e comercialização de máquinas industriais, é proprietário da Udinese (clube da cidade onde nasceu), tendo-lhe juntado o Granada em 2009 e o Watford em 2012. O intercâmbio de jogadores entre os três clubes tem sido constante.

 

Já houve um caso semelhante com ligação a Portugal: o investidor iraniano Majid Pishyar controlou o Beira-Mar entre 2011 e 2013, quando também detinha os suíços do Servette. O belga Roland Duchâtelet é, segundo o diário britânico The Independent, dono do Standard Liège, Charlton (Inglaterra), Carl Zeiss Jena (Alemanha) e Alcorcón (Espanha), enquanto a sua esposa dirige os belgas do Sint-Truidense e o seu filho detém os húngaros do Újpest.

 

Originário de Singapura, Peter Lim ganhou notoriedade quando adquiriu o Valência e começou a fazer negócios com o futebol nacional: contratou o treinador Nuno Espírito Santo e uma série de futebolistas portugueses e outros que actuavam em clubes nacionais. E também há o caso da Red Bull, marca de bebidas energéticas que tem um clube na Áustria e outro na Alemanha (e mais dois nos EUA e Brasil).

 

Estoril-Praia é caso único na I Liga

 

Ao contrário de outros países, no futebol português o controlo de clubes por entidades estrangeiras ainda é a excepção. Na I Liga só há um caso, o do Estoril-Praia: o emblema “canarinho” é controlado, desde Outubro de 2010, pelo grupo brasileiro Traffic, que adquiriu 74% das acções da SAD estorilista por 200 mil euros. A empresa detém outros clubes, no Brasil e nos EUA, e também actua na representação de futebolistas, para quem o Estoril serve como “montra”.

 

“Não somos inventores, apenas seguimos a receita de outros clubes, portugueses e europeus”, admitia então ao PÚBLICO o director da Traffic Sports Europe, Tiago Ribeiro, que ocupou o cargo de presidente da SAD do Estoril até Setembro. Desde que é controlado pelo grupo brasileiro, o emblema da Linha projectou vários jogadores para outros patamares, como se destacava no site oficial a propósito da recente transferência de Bruno César para o Sporting: “É com muito orgulho que o Estoril-Praia vê mais um dos seus jogadores ser transferido para um dos grandes clubes da Europa, seguindo os passos de Jefferson, Jardel, Evandro, Carlos Eduardo, Licá, Sebá entre outros”. Neste grupo pode também incluir-se Marco Silva, que, com a Traffic no Estoril, passou de jogador para director desportivo e depois para treinador, assumindo o comando técnico do Sporting na época 2014-15, estando actualmente ao serviço dos gregos do Olympiacos.

 

Quando ainda estava na I Liga, o Olhanense constituiu uma SAD em que 80% das acções estavam nas mãos de um grupo de investidores estrangeiros liderado por Igor Campedelli. Outro caso na II Liga é o do Atlético, controlado desde há um par de anos pelos chineses da Anping. Mas a Tapadinha tem vivido em instabilidade e o clube chegou a estar na mira das instâncias internacionais por suspeitas de viciação de resultados e manipulação de apostas. Há alguns meses foi noticiado o possível interesse de um fundo inglês em adquirir o controlo da SAD alcantarense.

 

A possibilidade de a própria II Liga ser patrocinada por investidores chineses já foi admitida por José Godinho, presidente da Oliveirense e porta-voz dos clubes da II Liga: “Caso [a proposta] seja aceite, será a grande salvação dos clubes.”

Compartilhar este post


Link para o post
Guest fiasco

N me admirava que fosse por aqui que o Vieira enveredasse.

Compartilhar este post


Link para o post
que adquiriu 74% das acções da SAD estorilista por 200 mil euros.

Até foi barato.

Compartilhar este post


Link para o post
Visitante

Até foi barato.

 

É preciso ver que na altura estavam em dificuldades financeiras e desportivas, na Segunda Liga ;)

Compartilhar este post


Link para o post

Estoril é caso único? 8-[

 

Tal como diz na notícia é caso único na Primeira Liga. Na II Liga há um ou outro caso e no CNS há vários (muitos mesmo e a maioria detidos por empresários chineses). Ainda há alguns dias atrás a ABola fez uma reportagem sobre isso (clubes detidos por estrangeiros no CNS) e a maioria estava ligado a projetos de desenvolvimento de jogadores chineses (eles mandavam para cá o dinheiro, que depois tinha como contrapartida a obrigação de colocar os chineses a jogar para evoluir).

 

Não me lembro da reportagem de cor e salteado mas havia pelo menos uns 6 a 7 clubes detidos por chineses no CNS (Pinhalnovense à cabeça e depois mais uns quantos). E ainda havia mais outro a competir na Segunda Divisão Distrital da AF Setúbal, o Oriental Dragon, que foi criado de raíz com o objetivo de desenvolver jovens jogadores chineses num ambiente mais competitivo.

Editado por Lebohang

Compartilhar este post


Link para o post

E este ano o Loures foi buscar esse mesmo exército chinês, bem como o treinador que subiu o Mafra. Mas os chineses não calçam, tal como no ano passado acontecia no Mafra. Aliás, até estavam quase todos na respectiva equipa B, algo que o Loures não tem.

 

Esta é uma realidade impossível de verificar-se no futebol alemão, devido à regra 50+1: para competir na Bundesliga, um clube deve ser detentor da maioria dos seus próprios direitos de voto.

Tal como deveria ser sempre. Bundesliga :heart:

Compartilhar este post


Link para o post

É preciso ver que na altura estavam em dificuldades financeiras e desportivas, na Segunda Liga ;)

Sim, mas ainda assim tenho alguma dificuldade em aceitar o valor.

Ter 74% da SAD significa ter o quê em termos de património/plantel?

Compartilhar este post


Link para o post
Visitante

Sim, mas ainda assim tenho alguma dificuldade em aceitar o valor.

Ter 74% da SAD significa ter o quê em termos de património/plantel?

 

Varia de clube para clube. Mas os credores têm sempre prioridade sob os activos da SAD, e por isso é que não vês muita gente a comprar clubes super endividados para os deixar falir e ficarem com terrenos e restante património ;)

Compartilhar este post


Link para o post

O Gondomar anda a apostar forte nesse tipo de parcerias com os chineses...

Se fosse só o Gondomar... No outro dia o Record fez uma reportagem sobre isto, por acaso, e há imensos clubes de divisões inferiores "suportados" por mecanismos destes.

Editado por Coiso

Compartilhar este post


Link para o post

Se fosse só o Gondomar... No outro dia o Record fez uma reportagem sobre isto, por acaso, e há imensos clubes de divisões inferiores "suportados" por mecanismos destes.

Só a equipa B deles deve ter uns 10...

Compartilhar este post


Link para o post
Visitante
Este tópico está impedido de receber novos posts.
Entre para seguir isso  

  • Todo o Mundial 2026 no CMPT
  • Popular Agora

  • Outros membros neste tópico

    Nenhum utilizador registado está a visualizar esta página.

×
×
  • Criar Novo...