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Lebohang

“O falcão, na tua mão, é como um filho ou um amigo”: mergulho num misticismo nacional do Catar que não está ao alcance de todos

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“O falcão, na tua mão, é como um filho ou um amigo”: mergulho num misticismo nacional do Catar que não está ao alcance de todos

No Souq Waqif está talvez o mais importante hospital de falcões do Médio Oriente. À volta existem lojas que vendem essa e outras aves, mas também artesanato e utensílios todos virados para esta devoção nacional. As criaturas participam em corridas e caçam, às vezes ganhando o direito a ter um nome. Fomos a uma clínica, em Al Khor, onde alguns donos pagam entre €1.300 e €1.800 por cada visita para testes de rotina, que repetem a cada 10 ou 14 dias. Ouvimos mais do que uma vez que toda a gente tem um, mas o salário mínimo, se cumprido, está fixado nos €260.

O ofício de Rashid é vender falcões. Parece uma vida pacata e relaxante. Está numa loja no Souq Waqif, o lugar mais feliz de Doha e que confunde viajantes forasteiros quanto à natureza do regime, por ser tão harmonioso, colorido e cheiroso. Rashid, do Bangladesh, vai contando coisas vulgares e fala sobre os preços, que podem ascender aos 5.000 euros. Depende do tamanho e do berço, já que alguns aprendem a comer e a procurar alimento desde pequenos.

“Toda a gente tem um falcão, dos mais velhos aos mais novos. Fazem corridas e caçam”, conta com uma voz mansa e tímida. No interior da loja estão algumas daquelas feras elegantes viradas para onde lhes convém, cercadas por prateleiras que carregam bules com tons diferentes e o que parece ser uma coroa no topo do edifício. Veem-se também tecidos mal amanhados e esquecidos, e ainda uma máquina de costura, o que sugere a presença de algum tipo de ecletismo. Também estão outros na rua, entre o sol e a sombra, quem sabe para atrair visitantes. Alguns têm os fabulosos olhos vendados.

Há lojas desta natureza por todo o lado nesta quadra. Também existem outras categorias de aves para venda e vê-se um ou outro senhor a magicar peças de artesanato e utensílios.

Está tudo relacionado com os falcões, uma devoção nacional no Catar.

E em sintonia com o Médio Oriente: as fachadas e os pilares, os recortes nas janelas e os chãos e tetos trabalhados. Há detalhes que impressionam. Não muito longe de um caixote onde descansam pedaços redondos de bosta de camelo, passam autocarros da organização do Mundial e no horizonte estão edifícios enormes que quase coçam o céu. É Corniche, outro lugar com importância e sedução que funciona como um comprimido para esquecer tudo o que está errado nesta terra e como se tratam os imigrantes vulneráveis que tentam aliviar a pobreza que os açoita nos países de origem.

Numa das artérias que saem da praça onde nos encontramos está o Hospital de Falcões de Souq Waqif. A sala de espera está vazia. Só se esperam ali turistas por turnos, que no limite visitam o museu. Noufal, da Índia e há cinco anos no Catar, trabalha ali e vai-nos falando sobre a tradição e conta que normalmente atendem entre 150 e 200 falcões por dia. “A época alta por aqui é a partir de setembro”, explica pacientemente, revelando peculiaridades várias, como o facto de os falcões mudarem de penas todos os anos.

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Há seis ou sete hospitais deste tipo no país, sendo que este é um dos que é apoiado pelo governo, talvez por isso tenham tanta abertura a jornalistas e organizem meticulosamente as conversas com responsáveis. A clínica está vazia porque as ruas estão todas fechadas por causa do Campeonato do Mundo e, como os falcões não podem circular no metro, isso dificulta a vida dos donos. Têm de procurar soluções.

Uma delas está em Al Khor.

É uma sucursal desta clínica que acabámos de visitar, muito menos equipada. Fica quase a uma hora de carro. É muito perto do Estádio Al Bayt, o maior pesadelo de jornalistas e adeptos. À porta estão grandes jipes e carros com o ar condicionado ligado, de onde saem os senhores com os sossegados falcões no braço. Alguns acariciam o bicho.

Tika, um funcionário do Nepal, recebe-nos talvez com o sorriso mais sincero e jovial alguma vez visto. Como um relâmpago, inesperadamente, pôs-se a falar de religião e sobre como não acredita em nada, mas ainda assim mencionou qualquer coisa sobre as camadas do nosso corpo e a vida eterna. “Que religião há em Portugal?”, perguntou, curioso como uma criança. “Tens religião?”, alimentava a curiosidade.

Esta clínica parece mais agradável porque tem um espaço exterior onde esperam os pacientes. Estão talvez 10 ou 15 homens com os seus animais amados, ou à espera deles. Há colunas e arcadas. No meio do pátio descansam, no poleiro, três vistosas aves, às vezes regadas com água. À entrada, num cartaz, está o mapa do edifício: receção, clínica veterinária, laboratórios, farmácia, raio-x, endoscopia, tratamento de penas, corte de bico e unhas, identificação do falcão e gravação de anéis de perna.

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Um homem parece inexperiente ou então talvez tenha poucos laços com o seu falcão. Talvez não seja dele. O animal está muito desassossegado, bate as asas, quer fugir e quase dá uma volta ao braço, fazendo lembrar aquele brinquedo de criança de outros tempos em que se tentava enfiar a bola presa por um cordel num copinho na ponta do pau. O indivíduo, um jovem, não sabe como serená-lo. Fazia aquele som que se faz aos cães e gatos para os acalmar. Foi necessário alguém entrar em ação e olhá-lo com desprezo.

O especialista do laboratório, Binu John, faz-nos uma visita guiada por todos aqueles lugares que prometiam a placa à entrada. Com uma simpatia teatral, já certamente saturado destas visitas, vai explicando tudo. Um falcão ia agonizando durante uma endoscopia. Num velhinho armário, em vez de pedaços de papel ou segredos antigos, estão as penas, de todos os feitos e tamanhos. Quando há acidentes ou lesões e ainda falta algum tempo para a substituição das penas, estes veterinários colam uma pena como se fosse um puzzle. Na parede, mais à frente, um ecrã mostra o que contêm as análises ao sangue de um qualquer bicho.

Num dos escritórios, sentamo-nos com Ikdam Alkarkhi, um dos veterinários e já batido nestas andanças das entrevistas. É de Bagdade, Iraque, tem 43 anos e chegou ao Catar em 2004. Está desde 2007 no Hospital de Falcões de Souq Waqif, que só volta a abrir em 18 de dezembro, por isso veio emprestado para Al Khor.

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“Toda a gente tem um falcão. Eu tenho três”, começa a contar o iraquiano que, por querer fazer um doutoramento, fugiu do seu país por causa da guerra. Os seus falcões não têm nome. Alguns dão-lhes nomes, é certo. Noutros casos só acontece como recompensa, por obra feita no campo de batalha. Ou seja, na caça normalmente, mas também são usados e treinados para corridas. Os treinos preveem a utilização de drones com isco, o que torna os falcões muito fortes e potentes, mas o recurso a esse bicho dos tempos modernos representa também um risco acrescido.

Este veterinário, encantado pela beleza que mora nos grandes e apurados olhos dos falcões, prefere o lado lúdico: “Acordas cedo, vais para a natureza, para o deserto, vês as pegadas de um pássaro, a direção na areia, estudas o vento, vês as montanhas… toda a investigação é muito boa”.

E depois solta-se o falcão, um caçador implacável que vê qualquer coisa a 10 quilómetros como se estivesse diante dos seus olhos.

Mais à frente, volta a dizer: “Sabes quando estás com os teus amigos? Sem stress, sem tecnologia, sem internet, na natureza, só a falar, a tua história, a minha história, com o fogo, com a comida que caçaste e estás a fazê-la no fogo, tudo natural. Depois acordas, sem tecnologia, sem gás, nada elétrico, tudo no fogo, fazes o chá, comes e vais embora. Encontras uma boa área, páras, fazes comida e depois vais para outro. Tens esta arma poderosa, o falcão”. O tom é deslumbrado e reverente.

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Os donos e pacientes que estão por aqui pagam qualquer coisa como €1.300 ou €1.800 cada vez que vêm à clínica, algo que pode acontecer a cada 10 ou 14 dias. Depende do dono e dos cuidados. Este dado, mais aquele que fala sobre o preço destas aves, torna a frase “todos têm um falcão” tão difícil de tragar como a uma bola de futebol, pois há salários miseráveis entre a população imigrante, que representa cerca de 90% do Catar. O salário mínimo, se respeitado, está nos €260.

Há quem venha de longe e até de outros países para o seu falcão ter os cuidados adequados. Normalmente fazem-se testes de rotina antes de irem para a caça e a seguir, para garantir que as presas não tinham perigosas bactérias ou doenças desavindas. Os falcões tapam as presas com as asas, conta Alkarkhi enquanto faz o gesto com os braços, para as esconderem de rivais e para as esventrar em privacidade. Começam por aspirar o coração para garantir a mortalidade alheia.

Depois dos ritos de caça, do encantamento feroz e implacável, Ikdam Alkarkhi mostra o lado mais tenro. “O falcão é muito forte, mas na tua mão é como um filho ou um amigo”, vai refletindo. “Não faz nada. Quando lhes damos nomes, eles percebem. São muito inteligentes, reconhecem o teu tom. Se te der o meu falcão, nem o consegues segurar. Começa a mexer-se, fica nervoso. Comigo, não. Posso fazer tudo. Então, tens uma ave muito forte, agressiva, que na natureza vai embora e que depois volta para ti. Está 10 horas na nossa mão, começa a ser uma espécie de relógio. Em vez de um Apple Watch, é um falcão.”

A época de caça começa em agosto, mas o grande evento desportivo, as corridas, é já em janeiro, durante um mês inteiro. Assim se criam lendas. E também resolve-se dar nomes a certas criaturas pelos feitos e façanhas. Alguns falcões custam milhões de rials catarenses. No Souq Waqif, onde o Mundial junta pessoas de todo o mundo em delírio por causa do futebol, de vez em quando passa um homem – são sempre homens – com um falcão, causando algum espanto.

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Pensava que o misticismo nacional do Qatar era explorar trabalhadores Nepaleses. Afinal tem que ver com falcões. Aprende-se algo novo todos os dias, né.

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Citação de Lebohang, há 4 horas:

“O falcão é muito forte (...) Se te der o meu falcão, nem o consegues segurar. Começa a mexer-se, fica nervoso. Comigo, não. Posso fazer tudo."

Estou a sentir-me extremamente desconfortável com esta conversa. Feedback, @Hawkeye?

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Citação de Lebohang, há 23 minutos:

 

A minha série de eleição ❤️

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Citação de Black Hawk, há 27 minutos:

Estou a sentir-me extremamente desconfortável com esta conversa. Feedback, @Hawkeye?

O Falcão Negro está a pedir ao Gavião feedback se pode fazer tudo com ele, é isso?

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Citação de Black Hawk, há 10 horas:

Estou a sentir-me extremamente desconfortável com esta conversa. Feedback, @Hawkeye?

Justiça pros falcões 

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Citação de Hawkeye, há 35 minutos:

Justiça pros falcões 

Se o plural de cão é cães, então o de falcão é falcães.

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Citação de Descartes, há 1 hora:

Se o plural de cão é cães, então o de falcão é falcães.

E se o de mão é mãos, o de limão é limãos. Contudo, o plural de irmão não é irmões.

Editado por John Bonifácio

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Citação de John Bonifácio, há 4 minutos:

E se o de mão é mãos, o de limão é limãos. 

Exato. Tal como o de alemão é alemãos.

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Citação de John Bonifácio, há 6 minutos:

Não é alemões? 

Só se for para rimar com os melões com que ficaram ao ser eliminados na fase de grupos.

  • Like 1

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Citação de Black Hawk, há 18 minutos:

Estou a ver que tomaram o esclarecimento deste assunto nas vossas mães.

Oh, bai-me à benda e traz-me o pom!

Ou melhor, dez pões.

Editado por John Bonifácio

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Citação de John Bonifácio, há 7 minutos:

Oh, bai-me à benda e traz-me o pão!

Ou melhor, dez pões.

E onde os ponho?

Pãe-nos à beira do binho.

Editado por Descartes

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Citação de Descartes, há 13 minutos:

E onde os ponho?

Pãe-nos à beira do binho.

Eu enganei-me há pouco. Qual é o plural de pom?

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Citação de John Bonifácio, há 22 minutos:

Eu enganei-me há pouco. Qual é o plural de pom?

Acho que é pons. Mas pões também me parece bem.

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