Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Lebohang

Javalis de Setúbal, lontras no Tâmega ou coatis em Gaia: os mamíferos selvagens estão entre nós (e cada vez mais atrevidos)

Publicações recomendadas

Citação

Javalis de Setúbal, lontras no Tâmega ou coatis em Gaia: os mamíferos selvagens estão entre nós (e cada vez mais atrevidos)

Raposas curiosas, improváveis texugos, doninhas hiperativas. Mas também linces-ibéricos, talvez um dia ursos e castores. Os relatos de encontros com mamíferos selvagens em ambiente urbano são cada vez mais comuns em Portugal. Relatos de quem os tem avistado, de norte a sul do país

Javalis à solta pela baixa de Setúbal, lontras que são atração turística em Chaves, um lince-ibérico que se instala confortavelmente no relvado de um campo de golfe do Algarve. Num mundo cada vez mais urbanizado e tecnológico, a distância que nos separa do mundo natural desfaz-se quando os animais selvagens fazem questão de nos recordar que partilhamos o mesmo planeta. Alguns tornaram-se mesmo especialistas em aproveitar o que a civilização humana lhes oferece. Mesmo resumindo a pesquisa aos mamíferos, os nossos vizinhos mais próximos na árvore da evolução das espécies, encontramos dezenas de encontros improváveis que, à conta das câmaras de vigilância e dos telemóveis, ganham ressonância coletiva.

Seguindo as redes sociais e os fóruns de apaixonados da vida animal, fica a sensação de que há cada vez mais encontros entre humanos e vida selvagem no espaço urbano. Será isso ou agora registamos para a posteridade episódios que noutros tempos eram só memória dos envolvidos? “É um misto das duas coisas”, garante Francisco Álvares, biólogo e investigador na área de mamíferos no CIBIO-InBIO — Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, da Universidade do Porto. “Há mais formas de reportar, desde as câmaras de videovigilância às armadilhas fotográficas (câmaras ativadas por sensores de movimento ou de infravermelhos), passando, naturalmente, pelos telemóveis. Mas também há espécies que são menos perseguidas e não veem o homem como uma ameaça. As populações aumentam e os avistamentos tornam-se mais comuns.”

Na verdade, muitos destes animais peludos (e tantas vezes fofinhos) sempre foram nossos vizinhos. Muitos, especialmente os de hábitos noturnos, eram praticamente invisíveis até começarem a aparecer nas câmaras de segurança. “Recebo muitos vídeos de ginetas, raposas, martas, que provavelmente sempre por ali andaram, só que não eram captadas em imagem”, relata o especialista do CIBIO-InBIO. São, quase sempre, oportunistas. E os humanos, com o seu desperdício e alguma falta de civismo, são uma boa fonte de oportunidades, especialmente de alimento fácil. “A ração do cão ou do gato. O lixo mal acondicionado. Restos de comida deixados pelas ruas…”

O facto de os relatos, ilustrados, serem cada vez mais comuns pode provocar algum receio. Estamos a ser invadidos por bichos selvagens? Vamos ser atacados nas nossas ruas, nos nossos quintais, nos nossos parques urbanos? “As pessoas que pensam assim se calhar até pagam para fazer safáris”, ironiza Francisco Álvares, que reforça a ideia de que não há motivo para alarmismos: “É o comportamento natural das espécies, temos de saber conviver com elas. O que importa é que as pessoas sejam informadas e tenham a noção das regras de comportamento. São animais selvagens, quase sempre inofensivos, mas é de bom senso evitar a interação.” Um bom conselho é manter os cães com trela — os animais selvagens até podem evitar interagir com os humanos, mas podem mais facilmente entrar em contacto com um cão à solta.

O perigo é relativo, até porque em Portugal há poucos animais selvagens que possam ser realmente perigosos para os humanos. Mas quando javalis descem à noite para a baixa de Setúbal ou vagueiam por outras localidades, todo o cuidado é pouco. Trata-se de indivíduos juvenis, movidos pela natural curiosidade de explorar novos territórios, não tanto pela necessidade de encontrar fontes de alimento ou devido a crescimento descontrolado da população — garante o ICNF, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.

O mesmo padrão de comportamento destes juvenis (os adultos raramente se deixam ver) leva-os a aparecer, de vez em quando, nas praias da região. Em qualquer dos cenários, é preciso ter cuidado com esta excessiva proximidade, porque, se se sentirem acossados, os javalis podem atacar com extrema violência.

Em julho, o ICNF garantiu ao “Jornal de Notícias” que “no Parque Natural da Arrábida e áreas limítrofes, são abatidos anualmente entre 400 a 600 javalis, mantendo-se a população numerosa, mas estável”. E especificou que, desde o início de 2025, autorizou “53 ações de correção de densidade” — dados que continuam válidos, esclareceu o Instituto após contacto do Expresso a meio de agosto. A nível nacional, em muitas zonas o javali já é visto como uma praga. O Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal, elaborado pelo Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro, recomenda para os próximos cinco a dez anos que se redobrem esforços para corrigir o efetivo da espécie em 20% a 30%. Leia-se: é preciso caçar os javalis, que não têm praticamente predadores naturais em Portugal.

Lobos… e ursos?

Outra espécie potencialmente perigosa é o lobo. Em Portugal são poucos (entre 300 e 350, uma população que, em contraciclo com o resto da Europa, está a regredir) e muito tímidos, mas há países onde a crescente confiança dos lobos é fonte de preocupação. Francisco Álvares participa no projeto internacional Life Wild Wolf, que tem uma componente para caracterizar e minimizar os encontros com lobos em meio urbano e a curta distância. “Em Portugal ainda não detetámos nenhum caso problemático de lobos ‘confiantes’ ou ‘urbanos’, mas este é um fenómeno que está a ter grande expressão em vários países europeus (Países Baixos, Alemanha, Itália e Grécia, nomeadamente).”

Na primeira semana de agosto, no parque de Den Treek, província de Utrecht, Países Baixos, um lobo atacou um menino de seis anos que passeava com a mãe e o irmão mais novo. Vindo aparentemente do nada, o predador arrastou o rapaz para o bosque e o ataque só parou quando duas pessoas que passavam no local afastaram o animal à paulada. Este comportamento, para mais solitário vindo de um animal que caça em matilha, é absolutamente excecional. Mas muito problemático. “A forma como este lobo não mostrava medo dos humanos leva-me a pensar que até pode ser um exemplar fugido de cativeiro”, comenta Francisco Álvares.

Em Portugal os poucos encontros “imediatos” têm acontecido quando os lobos se aproximam de veículos, não se apercebendo da presença de pessoas no seu interior. Num vídeo notável, captado em 2024, um agricultor de Pitões das Júnias sentado em cima do seu trator filma um lobo que avança, primeiro a medo, depois confiante, por um terreno agrícola. Quando o homem o interpela em voz alta, o animal assusta-se e foge rapidamente.

(fotografia de Luís Santos, em Matosinhos) são animais avistados com frequência
(fotografia de Luís Santos, em Matosinhos) são animais avistados com frequência
Luís Santos

Outro grande mamífero predador que pode ser realmente perigoso para os humanos é o urso-pardo. Na Eslováquia, as autoridades autorizaram recentemente o abate de 350 ursos e aprovaram a comercialização da carne destes animais, na sequência de uma série de ataques a pessoas (em média, dez por ano nesta década), alguns dos quais fatais — o mais recente aconteceu em abril. Com cerca de 1300 ursos-pardos residentes, a Eslováquia alberga a segunda maior população da espécie na Europa, apenas atrás da Roménia, onde são dez vezes mais.

Em Espanha há cerca de 350, mas alguns residentes parecem estar a ficar com falta de espaço, como Francisco Álvares explica: “As populações estão em franco progresso e em 2019 um urso passou três dias no Parque de Montesinho. Já este ano, outro andou bem perto de Portugal, mas quedou-se a 10 km da fronteira, perto de Chaves. Há uma população residente na região de Sanabria e, durante a época de acasalamento, os machos dominantes escorraçam os mais jovens. Durante os meses de abril e maio, estes acabam por vaguear por longas distâncias, às vezes numa área de até 100 km. As ursas ficam no território original, pelo que será difícil que tenhamos para breve uma população residente, mas estes ursos dispersantes podem tornar-se mais comuns.”

Há quase 200 anos que o urso-pardo foi declarado extinto em Portugal — aconteceu em 1843, quando o último exemplar foi abatido no Gerês. Há razões para termos medo deste regresso? “Acho que é mais um privilégio, podermos ter estes animais nos nossos parques naturais!”

Porque, pelo menos em Espanha, os ursos têm mantido a distância para os seres humanos. “Na Cordilheira Cantábrica, não há registo de eles descerem ao meio urbano”, afiança o biólogo do CIBIO-INBio. Noutros países, como a Roménia, a realidade é diferente. O que não precisa de ser, forçosamente, uma má notícia: “Na zona dos Cárpatos, acontece com cada vez maior frequência e há mesmo uma aldeia que transformou isso num argumento turístico.” Magura, na Transilvânia, é anunciada nos guias turísticos como um paraíso para os ursos-pardos e fica junto ao maior santuário desta espécie no mundo. A beleza natural da região, aninhada entre grandes montanhas, é inegável, mas, no fundo, o que leva os ursos a descer às povoações é um fator bem mais prosaico: comida fácil — a que encontram no lixo.

As lontras de Chaves

Chaves, pelos vistos, não está fora do horizonte do urso-pardo, mas a sua grande atração, em termos de vida selvagem, é, por estes dias, outro mamífero, bem mais simpático aos olhos dos humanos. As obras do Programa Polis, terminadas em 2007, transformaram uma parte das margens do rio Tâmega, que atravessa a cidade transmontana, num parque público e as lontras que por ali viviam acabaram por se habituar à presença mais frequente de seres humanos. Resultado: são hoje facilmente avistáveis e tornaram-se “vedetas” de muitos vídeos “fofinhos” que podemos encontrar nas redes sociais.

Renato Gil, da Associação Inspira, organização flaviense que se foca na educação ambiental e intervenção juvenil, diz que até da janela do seu escritório pode acompanhar o dia a dia dos simpáticos mustelídeos: “O rio é represado naquela zona e há muito alimento, nomeadamente lagostins e peixe, pelo que as lontras estão muito confortáveis. Vejo-as com peixes na boca, a nadar, a saltar para a água… São mais fáceis de avistar ao princípio e ao fim do dia. Muitos dos participantes nos nossos grupos — e temos muita gente a vir de fora — até se levantam mais cedo só para poderem observar as lontras antes das atividades planeadas.”

O rio separa duas realidades bem diferentes: numa margem o aglomerado urbano, na outra um ambiente mais rural. As pontes, nomeadamente a milenar ponte romana e a ponte pedonal mais moderna, acabam por ser pontos privilegiados para observar as lontras do Tâmega. Não há como falhar, elas estão sempre lá. “Temos uma população residente”, resume Renato Gil. Após as obras, que deram origem ao parque junto à ponte de Trajano (que tem 2000 anos), as pessoas passaram a frequentar a zona, mas as lontras não se incomodam. “Têm muito alimento e um plano de água estável… estão em casa!” E são uma garantia de saúde do ecossistema, porque as lontras não se fixam em águas poluídas ou demasiado agitadas pela atividade humana.

Os avistamentos de lontras em Chaves são rotineiros, mas há vários outros locais onde elas são facilmente notadas, garante Francisco Álvares, que deixa um exemplo: “Recebo muitos vídeos e relatos da Póvoa de Varzim, do Parque da Cidade.” Com 30 hectares, e um plano de extensão para 78, o espaço inclui um lago artificial com uma ilha não acessível aos visitantes. As lontras são presença de destaque, mas há também — e só falando de mamíferos — doninhas e uma espécie de rato-de-água de dimensões generosas que é bastante raro.

AVISTAMENTO DE MAMÍFEROS EM ZONAS URBANAS

Seleção de casos reportados nos últimos anos;só mamíferos terrestres, sem incluir os mais comuns, como coelhos, lebres, ratos ou toupeiras, por exemplo
Javalis de Setúbal, lontras no Tâmega ou coatis em Gaia: os mamíferos selvagens estão entre nós (e cada vez mais atrevidos)

 

Para quem queira procurar na internet, não é difícil encontrar fotos e vídeos de lontras em Portugal. Eles aparecem, por exemplo na página do Facebook Mamíferos de Portugal (que tem mais de 37 mil membros), no site da “Wilder” (revista online dedicada ao jornalismo de natureza criada em 2015 e que tem uma rubrica onde especialistas — entre os quais Francisco Álvares — ajudam a identificar as espécies observadas) ou na comunidade BioDiversity4All (que compila estudos científicos e observações de cidadãos). Entrar nestes fóruns é descobrir um mundo de biodiversidade que anda por aí, tantas vezes sem darmos por isso.

Ainda que sem contornos “urbanos”, há outro mamífero semiaquático que tem sido notícia nos últimos meses: o castor-europeu voltou a Portugal após pelo menos 500 anos de ausência. Os primeiros sinais surgiram no verão de 2022, com o registo de atividade desta espécie na bacia do rio Tormes, afluente do Douro, mas ainda em território espanhol. Em fevereiro deste ano, investigadores espanhóis reportaram o avistamento de castores na bacia do Tejo, perto de Madrid. E em maio passado uma equipa da Rewilding Portugal documentou a presença de um indivíduo, provavelmente um juvenil, em pleno Parque Natural do Douro Internacional, perto da foz do Tormes.

O castor-europeu esteve à beira da extinção no final do século XIX, mas as populações recuperaram e estima-se que existam atualmente cerca de 1,5 milhões de indivíduos. A extinção foi total na Península Ibérica — os castores são mencionados na era romana e visigótica, mas desapareceram por completo. Até que em 2003 uma libertação ilegal na bacia do Ebro os devolveu a Espanha. Novamente por mão humana, seguiram-se regressos ao Guadalquivir, ao Douro e ao Tejo — e, com estes dois rios a unirem os países ibéricos, os castores ficavam em rota para Portugal. Agora, os famosos construtores de represas estão de volta a território português.

Encontros imediatos

O mesmo sucedeu com o lince-ibérico nas últimas duas décadas. Em tempos verdadeiros fantasmas esquivos, de cuja passagem se conheciam apenas indícios, estes felinos em risco de extinção beneficiaram do esforço de conservação e repovoamento partilhado por Espanha e Portugal. Hoje, há já mais linces em Portugal do que lobos (354, segundo o mais recente censo de lince-ibérico) e os avistamentos (bem como as imagens desses encontros) estão a tornar-se normais.

Mas talvez o grande momento tenha acontecido este verão, quando um lince foi filmado num campo de golfe de Castro Marim (consta que é frequentador assíduo do local, por albergar muitos coelhos). Estes felinos não são agressivos com os humanos e mostram-se mesmo muito esquivos, mas, lá está, cada animal tem a sua personalidade… e há alguns que parecem à vontade na presença de humanos. Na filmagem em questão, o lince passeia pela relva e depara-se, a alguns metros, com um gato doméstico, que, naturalmente, não fica nada à vontade. Pelo contrário, o lince quase não presta atenção ao “primo”, nem à pessoa que regista o momento, aproveitando para se deitar placidamente à sombra.

Mesmo deixando de fora animais mais comuns como os ratos, as toupeiras, os coelhos ou as lebres, há muitos avistamentos documentados de mamíferos para descobrir na Internet. Passemos adiante, também, no que toca a morcegos, esses fantásticos inseticidas. E nem sequer olhamos para o mar, onde parece haver também notícias fantásticas: à colónia residente de roazes no Sado juntam-se a frequência cada vez maior de avistamentos de baleias junto à costa na região metropolitana de Lisboa (no final de julho, uma baleia-de-bryde e a sua cria passearam-se ao largo da praia da Fonte da Telha) e a regularidade da presença de golfinhos nas imediações e mesmo no interior do estuário do Tejo.

Atraídos pela abundância de presas, nomeadamente corvinas, os golfinhos aventuram-se cada vez com maior assiduidade nas menos poluídas, mas ainda assim perigosamente movimentadas, águas da capital. De tal maneira que já há empresas a organizar passeios de observação de cetáceos com partida de Lisboa, incluindo uma que opera em colaboração com o Oceanário de Lisboa. É a única capital europeia onde se podem observar golfinhos no seu habitat natural.

Sem criaturas marinhas, sem alguns dos mamíferos mais comuns em terra e sem morcegos, o que sobra para descobrir? Muita coisa. Mesmo olhando apenas para os encontros em espaços urbanos, a lista de espécies observadas e os cenários são muito variados, como se pode ver no mapa da página 15. Esquilos, leirões, ouriços, raposas, fuinhas, ginetas, doninhas, sacarrabos, musaranhos, visões, texugos, corços, veados… até um coati, provavelmente fugido de cativeiro, apareceu em Vila Nova de Gaia.

Algumas das fotos ou vídeos que documentam a passagem destes vizinhos insuspeitos são obtidas por câmaras de vigilância ou (normalmente em meio selvagem) por armadilhas fotográficas deixadas por naturalistas, investigadores ou amantes da fotografia. Mas, desde instantâneos sacados na pressa do momento recorrendo ao telemóvel a fotos artísticas que exigem grande investimento de tempo e em equipamento, há de tudo.

Em ambiente urbano, a reação é muitas vezes de surpresa. Mas nem foi bem isso o que aconteceu a Luís Santos na noite de 22 de maio deste ano, junto ao Parque das Ribeiras, em Miramar, Matosinhos. “Já tinha encontrado ouriços na zona, são comuns. É uma zona suburbana, mas com algumas matas, terrenos baldios e, mais recentemente, o parque. Estava perto de um ecoponto, onde colocam comida para gatos e os ouriços aproveitam…”

Luís é enfermeiro-veterinário, mas não exerce. Trabalha na Quinta Ecológica da Moita, em Aveiro, e, assim, mantém-se ligado ao mundo natural. Considera-se um naturalista, interessa-se pelo mundo selvagem, pelas questões ecológicas, conservação da Natureza. Fotografa habitualmente aves, mas está sempre atento a outras oportunidades — publica as imagens na BioDivrsity4All — e o ouriço daquela noite foi um desses momentos. “Era um indivíduo bem grande… Foi um encontro fortuito, mas não se pode dizer que tenha sido uma surpresa.”

Elisabete Sismeiro também documenta habitualmente animais em meio selvagem — principalmente aves na Lagoa de Óbidos, perto da sua casa, em Salir do Porto. A professora do primeiro ciclo, agora aposentada, recorda o dia em que captou a imagem entretanto partilhada na página Mamíferos de Portugal: “Estava a fotografar um rabirruivo (pequena ave, também conhecida por pisco-ferreiro) no tronco de uma árvore, no quintal de um vizinho, nas traseiras da minha casa, e vejo o esquilo no muro, por trás da árvore. Foi o primeiro esquilo que fotografei, apesar de ter tentado em lugares onde sei que ‘residem’, como no Parque D. Carlos I, em Caldas da Rainha.”

O impacto da pandemia

A presença crescente de golfinhos no Tejo começou a ser notada durante os tempos da pandemia, que trouxe consigo a diminuição da atividade humana. Está longe de ser caso único — na verdade, é mesmo um fenómeno global: nos anos em que o planeta foi assolado pela covid-19, o mundo selvagem recuperou algum do seu espaço. E não parece querer abrir mão dele, até porque os humanos estão cada vez mais sensibilizados para a sua presença. Na maior parte dos casos, com um sorriso.

Nos grandes parques urbanos, em muitos países europeus é normal encontrarmos esquilos ou corços, mas durante a pandemia os encontros imediatos em meio urbano passaram para outro nível. Um estudo publicado na revista “Science” analisou dados de GPS de 2300 mamíferos terrestres, de 43 espécies diferentes, e concluiu que em 2020, por comparação com o ano anterior, antes da covid-19, que os animais se aproximaram muito mais das zonas urbanas e de estradas. O português João Paulo Silva, também investigador no Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, foi um dos envolvidos no trabalho.

Os herbívoros comportam-se com muito mais confiança do que os carnívoros, bem mais desconfiados e receosos de encontros desagradáveis. Mas foram observados pumas nas ruas de Santiago do Chile, raposas em Toronto, chacais nos parques de Telavive e junto à ponte Golden Gate, em São Francisco… bem como javalis em Barcelona ou veados em Nara, no Japão. Só para dar alguns exemplos.

Por cá, como no resto do mundo, a vida voltou ao normal depois da covid, mas muitos animais tinham descoberto o filão dos restos deixados para trás pelos humanos. Não alimentar animais selvagens é um dos conselhos mais básicos para evitar interações que possam criar maus hábitos e, até, potenciar conflitos, mas às vezes até isso dá uma boa história. Em 2016, a RTP divulgou a relação especial de um pescador desportivo de Chaves com um vison-americano. “Martinha”, assim lhe chamou o pescador, trocava um peixinho por umas horas de companhia e os dois partilhavam o sossego das margens do rio Tâmega…

Amizades improváveis. Como a que nasceu na zona de Vila Nova de Gaia, onde um morador fotografou um coati no seu jardim. Trata-se de uma espécie exótica (é originário das Américas) cuja posse está sujeita a regras muito apertadas e o mais certo era ter fugido de cativeiro. Na verdade, acabou por ficar por ali e vai partilhando o espaço, as brincadeiras e a comida com o cão doméstico. Outros não estão tão à vontade. Na madrugada de 27 de janeiro de 2021, relata a “Wilder”, Pedro Cabral, de 26 anos, detetou e filmou um texugo a vaguear, aparentemente algo assustado, pelas ruas do bairro de Alvalade, em Lisboa.

Javalis. Em muitas zonas de Portugal, o javali já é visto como uma praga. Por cá, o animal não tem, praticamente, predadores naturais
Javalis. Em muitas zonas de Portugal, o javali já é visto como uma praga. Por cá, o animal não tem, praticamente, predadores naturais
Getty Images

Não havia registo de qualquer avistamento desta espécie na capital e este também não voltou a aparecer. Mas há pelo menos um que anda por Ferreira do Zêzere… e foi apanhado pelas câmaras de vigilância no pátio exterior de uma moradia, na madrugada de 9 de junho deste ano. Outro aparece numa notável fotografia de Nuno Xavier Moreira, divulgada em março no grupo de Facebook Mamíferos de Portugal — a imagem foi captada na zona de Penafiel a 19 de fevereiro. Em julho deste ano, Carlos Inácio fotografou uma raposa que vagueava, em plena luz do dia, pelo aldeamento da Quinta do Lago, em Almancil.

Podem ser surpresas, mas estes encontros acabam por motivar, invariavelmente, sorrisos de simpatia, fruto do fascínio que continuamos a sentir pelo mundo selvagem. Mas nem sempre conseguimos evitar um arrepio. Em agosto deste ano, a BBC fez eco de uma descoberta inquietante. Há muito que os moradores de Normanby, perto de Middlesbrough, Inglaterra, notavam um crescente aumento da dimensão dos ratos encontrados na zona e apontavam o dedo à crescente urbanização que afasta os roedores do seu ambiente natural e à proliferação de estabelecimentos de fast food, cujo lixo lhes serve de alimento.

O maior exemplar alguma vez detetado na zona por Brian Sowerby, há 44 anos a trabalhar no controlo de pragas, media 43 cm de comprimento, um tamanho que já deixará muita gente à beira da histeria e levava os habitantes a falar de “ratos do tamanho de cães”. Esqueçam. A partir de agora, até os gatos mais arrojados pensarão duas vezes antes de caçar roedores: a 6 de agosto foi apanhado um rato verdadeiramente gigantesco em Normanby. Media 55 centímetros de comprimento. Não é engano, é mesmo mais de meio metro.

 

  • Like 2

Compartilhar este post


Link para o post

Javalis no meio da estrada já me apareceram quase meia dúzia de vezes.

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de bug, há 6 minutos:

Javalis no meio da estrada já me apareceram quase meia dúzia de vezes.

5?

  • Like 1
  • Haha 12

Compartilhar este post


Link para o post

Texugos em Lisboa é normal, os níveis de sedentarismo são abismais...

 

E veados em Mafra também é relativamente comum, principalmente nas zonas próximas da tapada...

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de PRFA47, há 25 minutos:

Texugos em Lisboa é normal, os níveis de sedentarismo são abismais...

 

E veados em Mafra também é relativamente comum, principalmente nas zonas próximas da tapada...

Veados ou viados?

Compartilhar este post


Link para o post

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisa de ser membro desta comunidade para poder comentar

Criar uma conta

Registe-se na nossa comunidade. É fácil!

Criar nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Autentique-se agora
Entre para seguir isso  

  • Todo o Mundial 2026 no CMPT
  • Outros membros neste tópico

    Nenhum utilizador registado está a visualizar esta página.

×
×
  • Criar Novo...