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Em São Francisco, já nem os salários anuais de 180 mil dólares das tecnológicas são suficientes

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Em São Francisco, já nem os salários anuais de 180 mil dólares das tecnológicas são suficientes

O preço mediano de uma casa em São Francisco ultrapassou 1,7 milhões de dólares em abril. Katrine Razniak, de 27 anos, vive na cidade desde 2022. Recentemente quis procurar um T1 para arrendar com o companheiro por menos de 5000 dólares por mês. Mas todos os imóveis que visitaram eram demasiado caros

Katrine Razniak, de 27 anos, chegou a São Francisco em 2022 para trabalhar como recrutadora no LinkedIn, com um salário anual de 70 mil dólares. O seu rendimento anual disparou para 180 mil dólares quando entrou para a empresa de software Rippling, onde passou a liderar uma equipa de gestores de conta. O seu companheiro, Adam Woodbury, de 39 anos, mudou-se para a cidade em 2021 e ganha 185 mil dólares por ano como engenheiro de software. Mas hoje em dia mesmo estes salários de seis dígitos já não chegam em São Francisco.

Quando Razniak e Woodbury tentaram encontrar um apartamento T1 por menos de 5000 dólares por mês nesta primavera, não tiveram sucesso. Visitaram cerca de 30 imóveis ao longo de três meses, mas todos eram demasiado caros e tinham demasiada procura. Num apartamento anunciado por 5200 dólares mensais, verificaram que 30 pessoas tinham inscrito o seu nome numa lista apenas uma hora depois da visita aberta ao imóvel.

Acabaram por desistir de procurar. Mas, mesmo que tivessem encontrado uma casa, permanecia uma dúvida: será que uma cidade onde as compras no supermercado e um jantar com amigos se tornaram motivo de preocupação financeira é um lugar onde se consegue construir o futuro?

"Não me sinto completamente sem esperança, mas não acho que consiga ficar em São Francisco", afirma Katrine Razniak. “A certa altura houve uma transição lenta em que ambos percebemos que simplesmente deixava de fazer sentido”, acrescenta Adam Woodbury.

Katrine Razniak e Adam Woodbury não enfrentam dificuldades segundo qualquer critério convencional. No entanto, à medida que uma nova vaga de riqueza gerada pela inteligência artificial promete inundar São Francisco, até os jovens profissionais da tecnologia que chegaram à cidade para perseguir o sonho do Vale do Silício começaram a sentir que um futuro financeiramente acessível está cada vez mais fora do seu alcance.

A razão é que, enquanto empresas de IA como a OpenAI e a Anthropic — ambas sediadas em São Francisco e avaliadas em quase um bilião de dólares — se preparam para entrar em Bolsa, surgiu uma elite da inteligência artificial com capacidade financeira para gastar muito mais do que outros trabalhadores tecnológicos. As duas empresas, juntamente com a SpaceX, de Elon Musk, recentemente cotada em Bolsa, poderão criar mais de 20 novos multimilionários entre atuais e antigos colaboradores, segundo uma análise da Sacra, uma empresa de investigação e análise especializada em mercados.

"Sinto um pouco que já não sou suficientemente bom para viver aqui porque não trabalho numa empresa de IA", diz Woodbury, apesar de o seu salário o colocar aproximadamente entre os 20% dos agregados familiares com maiores rendimentos nos Estados Unidos, de acordo com dados do Census Bureau.

Woodbury mudou-se recentemente para Carnelian Bay, junto ao Lago Tahoe, na Califórnia, onde o custo de vida é mais baixo. Razniak continua a viver num apartamento no bairro de Haight-Ashbury, em São Francisco, que partilha com duas colegas de casa e pelo qual paga 1650 dólares por mês. Os dois mantêm uma relação à distância.

São Francisco tem custo de vida 65,6% acima da média dos EUA

São Francisco debate-se há muito tempo com problemas de acessibilidade financeira, mas a situação agravou-se à medida que a OpenAI, a Anthropic e outras startups atraíram uma vaga de trabalhadores especializados em inteligência artificial. O custo de vida global na cidade situa-se atualmente 65,6% acima da média nacional, segundo os dados mais recentes do Índice do Custo de Vida do Council for Community and Economic Research.

A habitação lidera os custos. O preço mediano de uma casa em São Francisco ultrapassou 1,7 milhões de dólares em abril, segundo um relatório da Redfin, muito acima da mediana nacional, situada em cerca de 450 mil dólares. Nos últimos meses, a renda média dos apartamentos na cidade ultrapassou inclusivamente a de Nova Iorque, tornando São Francisco o mercado de arrendamento mais caro dos Estados Unidos, com uma renda média mensal de 3827 dólares, segundo a empresa de dados imobiliários CoStar.

"É uma panela de pressão, e aqueceu muito depressa", afirma Nigel Hughes, investigador sénior da CoStar. A taxa de apartamentos vagos em alguns dos bairros mais procurados da cidade — incluindo Marina District, Pacific Heights e South of Market — caiu para cerca de 3%, quando em 2020 rondava os 13%, segundo dados da CoStar. Ao mesmo tempo, a construção de novos edifícios praticamente estagnou.

A subida dos preços da habitação é agravada por outros fatores. Os serviços públicos custam cerca de 41% mais em São Francisco do que a média nacional, os transportes são aproximadamente 43% mais caros e os produtos alimentares custam cerca de 19% mais do que no resto do país, segundo o Índice do Custo de Vida.

Além disso, é cada vez mais difícil acompanhar o nível de vida dos mais ricos — ou, neste caso, de Sam Altman, presidente executivo da OpenAI, e Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic. O rendimento anual médio em São Francisco foi de 196.365 dólares no ano passado, face aos 153.359 dólares registados em 2020, segundo o Bureau of Labor Statistics.

Ted Egan, economista-chefe da Câmara de São Francisco, afirmou que os profissionais com rendimentos elevados sempre tiveram de ponderar se aceitavam os compromissos de viver na cidade ou se preferiam mudar-se para um local onde pudessem ter um jardim e uma garagem. O que mudou agora, diz, é a escala do fenómeno. Quando a Uber entrou em Bolsa, em 2019, estava avaliada em cerca de 82 mil milhões de dólares. "A OpenAI e a Anthropic estão avaliadas em mais de dez vezes esse valor", afirma Egan.

Daniel Lurie, presidente da Câmara de São Francisco, declarou que a sua administração está a trabalhar para reduzir os custos suportados pelas famílias através de um maior acesso a creches, de um novo plano de ordenamento para habitação familiar e de melhorias na rede de transportes. Não respondeu especificamente às preocupações das pessoas com salários de seis dígitos.

Um peso constante

Para Katrine Razniak, o simples custo de viver em São Francisco tornou-se um peso constante. O seu orçamento mensal aumentou cerca de 1000 dólares em relação aos anos anteriores para aquilo que descreve como praticamente o mesmo estilo de vida. Apesar de ter mais do que duplicado o salário desde que chegou à cidade, Razniak diz que não se sente rica, mas também não vive de salário em salário. Está algures entre esses dois extremos: mantém uma preocupação permanente, embora moderada, com o dinheiro, algo que esperava já ter ultrapassado.

Katrine Razniak no seu quarto no apartamento que partilha em São Francisco.
Katrine Razniak no seu quarto no apartamento que partilha em São Francisco.
CHRISTIE HEMM KLOK / The New York Times

"Achava que, quando ganhasse 200 mil dólares por ano, deixaria praticamente de me preocupar com dinheiro", afirma, acrescentando que ela e os amigos deixaram de ir a restaurantes no ano passado e passaram a organizar jantares partilhados e noites dedicadas a programas de televisão.

A procura de habitação acessível por parte de profissionais disparou. Este mês, Varsha Madapoosi, de 25 anos, que vive no bairro de Lower Pacific Heights e trabalha no sector da tecnologia financeira, anunciou dois quartos disponíveis na casa com quatro quartos e uma casa de banho, que arrenda — com rendas de cerca de 1200 e 1500 dólares por mês — num grupo privado do Facebook. Juntou um formulário do Google e deixou-o disponível durante apenas 24 horas. Recebeu imediatamente 88 respostas. Em comparação, um quarto anunciado por cerca de 1400 dólares, em julho do ano passado, tinha gerado apenas 28 mensagens ao longo de quatro dias. "Nunca tinha visto uma resposta deste género", afirma Madapoosi.

Jolie Gan, de 23 anos, mudou-se para São Francisco em janeiro, depois de concluir uma bolsa Fulbright no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Atualmente tem dois empregos: trabalha na empresa de capital de risco Andreessen Horowitz e escreve para a publicação tecnológica e científica Core Memory, auferindo cerca de 250 mil dólares por ano. Ela e a colega de casa já mudaram de residência três vezes em apenas dois meses — numa das situações, abandonaram um apartamento anunciado como tendo dois quartos, quando afinal não correspondia à descrição; noutra, saíram de um edifício com bolor e infestação de ratos.

Com um rendimento anual de 250 mil dólares e sem dívidas de crédito estudantil, Gan afirma que consegue gerir as despesas e até poupar para a reforma. Ainda assim, vê a pressão sentida pelos amigos que ganham menos de 200 mil dólares por ano e para quem a renda, os serviços públicos e as compras de supermercado consomem praticamente todo o rendimento disponível.

Gan diz estar determinada a permanecer em São Francisco durante os próximos anos, devido às oportunidades de carreira, à energia da cidade e à comunidade que ali construiu. "Por mais absurda que seja esta situação da habitação, e por mais caro que tudo fique, continuo a achar que todos esses benefícios intangíveis compensam", afirma.

Razniak e Woodbury começaram entretanto a ponderar mudar-se para Seattle. A vida que Razniak imagina poder ter nessa cidade é uma vida que não consegue imaginar em São Francisco, mesmo com um rendimento conjunto que seria extraordinário em quase qualquer outro lugar dos Estados Unidos. "Queremos uma casa, queremos uma garagem, queremos espaço para arrumação", afirma. “E isso simplesmente não parece estar ao nosso alcance aqui”, conclui.

Este artigo foi publicado originalmente no “The New York Times”

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ya menos de 300k por ano 'e classe media baixa nesta zona

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São Francisco parece um bairro aleatório que participa nas Marchas 

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Tenderloin é acessível, não se queixem.

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Não é só São Francisco. LA, NY e todas as grandes cidades estão a sofrer dos mesmos problemas, e no Canadá o problema está muito mal também.

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não vamos ser proprietários de nada no futuro. 

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Citação de kareca, há 7 horas:

Tenderloin é acessível, não se queixem.

Mesmo ai nao 'e assim tao barato...

Epa conheco malta que trabalha em start-ups com um rendimento de 150k+ e que vive numa autocaravana toda f*dida num parque de estacionamento...

Arrendar 'e simplesmente caro...o mesmo em Manhattan, Dumbo, Hoboken e umas 3 ou 4 zonas de LA 

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Se calhar acabamos com a propriedade privada @Che

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Citação de Lifehouse, há 53 minutos:

não vamos ser proprietários de nada no futuro. 

Basta sair um bocadinho da realidade de Portugal e percebes facilmente o pouco que isso é exequível lá fora, especialmente terrenos.

A Bélgica é um grande exemplo: mesma população (agora) que nós, e cabe entre Chaves e Viseu. Acho que dá para entender a pressão imobiliária que lá existe sobre os terrenos (embora os preços nem sejam super díspares em relação aos praticados aqui, mas isso são outros 500).

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Citação de Ghelthon, há 1 hora:

Basta sair um bocadinho da realidade de Portugal e percebes facilmente o pouco que isso é exequível lá fora, especialmente terrenos.

A Bélgica é um grande exemplo: mesma população (agora) que nós, e cabe entre Chaves e Viseu. Acho que dá para entender a pressão imobiliária que lá existe sobre os terrenos (embora os preços nem sejam super díspares em relação aos praticados aqui, mas isso são outros 500).

Já nada é, a Europa como um todo está a rebentar em termos de preços de casas e terrenos.

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Citação de Su1, há 2 horas:

Se calhar acabamos com a propriedade privada @Che

Basta regular. Valor do aluguel indexado a 25% do recibo de vencimento do inquilino. 

Casa vazia paga imposto. 

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Citação de Hidden, há 14 horas:

São Francisco parece um bairro aleatório que participa nas Marchas 

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