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Cantinho do Jornalismo

Publicações recomendadas

Olá, pessoal.

 

Já tive esta ideia há uns tempos, contudo, só agora me lembrei de a consumar. Este é um "cantinho" para o pessoal partilhar tanto as reportagens que fez, quer fazer, queria fazer. Como as entrevistas, as notícias escritas, as crónicas, os artigos de opinião, os ensaios. Tudo e mais alguma coisa. Não só nossos, mas também artigos/reportagens/entrevistas interessantes de jornalistas dos quais gostam. Tanto faz sentido publicarem algo referente à imprensa escrita, como à rádio e televisão. Ou para se discutirem questões críticas do jornalismo contemporâneo, claro.

 

Servirá de igual forma para partilharem experiências de contacto com jornalistas conceituados, palestras às quais tenham ido, histórias de pessoal da área. Um pouco de tudo. Não será só um sítio onde os jornalistas em si podem participar, mas todos os que têm um "jornalistinha" dentro deles. No fundo, para todos.

 

Começo com uma reportagem do Paulo Moura, meu professor. O homem é um génio do jornalismo. Sem qualquer exagero:

 

"A vida normal de dois sem-abrigo"

 

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/a-vida-normal-de-dois-semabrigo-1679944

 

Leiam, vale a pena.

 

Depois, e já inserindo aqui a vertente televisiva, é tempo de relembrarem a reportagem mais premiada da televisão portuguesa:

 

 

 

 

(falta a parte 4, se encontrarem, postem)

 

Para começar, é isto. À medida que o tempo passar vou pondo aqui mais coisas. Conto com a vossa colaboração, filhos.

 

Btw, tenho um projecto em mãos que pode ser uma cena em grande. Uma reportagem em grande. Tenho de ver se tenho mãos para isto, porque o ângulo é perfeito - modéstia à parte, obviamente.

 

Se calhar fica melhor no Offside, não?

 

Para dar aso à discussão, eu começo: Jornalista Cidadão, faz sentido? Em que medida não desvaloriza o papel do jornalista? Que impacto têm as novas tecnologias nisso? Está cá para ficar?

Editado por nopla

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Bom, um cantinho aqui no nosso fórum onde posso ajudar :mrgreen:

Actualmente estou a trabalhar no jornal Sporting e tenho feito algumas reportagens mais viradas para as modalidades do Clube que têm sido bons desafios em termos de evolução e de conhecimento.

Já tive que escrever sobre Golfe, Tiro, Râguebi e o futsal feminino :mrgreen:

Quando estiver na redacção posso deixar cá algumas das coisas que escrevi.

 

Quanto ao jornalismo cidadão acho que não faz sentido, nem o podemos ver como trabalho de jornalista. Pessoas com informação não é o mesmo que um jornalista e muitas vezes transmitem essa informação sem seguir certas regras que são essenciais.

Ainda assim acho que são uma importante fonte e que devem ser valorizadas enquanto isso.

 

EDIT: Deixo aqui uma que fiz antes da Naty ir para o Mundial da Guatemala (Portugal acabou em 4º)

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Editado por OntheRadio

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Bom, um cantinho aqui no nosso fórum onde posso ajudar :mrgreen:

Actualmente estou a trabalhar no jornal Sporting e tenho feito algumas reportagens mais viradas para as modalidades do Clube que têm sido bons desafios em termos de evolução e de conhecimento.

Já tive que escrever sobre Golfe, Tiro, Râguebi e o futsal feminino :mrgreen:

Quando estiver na redacção posso deixar cá algumas das coisas que escrevi.

 

Quanto ao jornalismo cidadão acho que não faz sentido, nem o podemos ver como trabalho de jornalista. Pessoas com informação não é o mesmo que um jornalista e muitas vezes transmitem essa informação sem seguir certas regras que são essenciais.

Ainda assim acho que são uma importante fonte e que devem ser valorizadas enquanto isso.

 

EDIT: Deixo aqui uma que fiz antes da Naty ir para o Mundial da Guatemala (Portugal acabou em 4º)

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Super fixe! E como está a ser a tua experiência no jornal do teu clube? Fui convidado para escrever para o jornal do Belenenses, mas rejeitei. Censura ridícula e demasiados "contras" para me levar a aceitar.

 

Agora ando a analisar o caso do Jayson Blair. É uma história incrível. Alguém conhece?

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Super fixe! E como está a ser a tua experiência no jornal do teu clube? Fui convidado para escrever para o jornal do Belenenses, mas rejeitei. Censura ridícula e demasiados "contras" para me levar a aceitar.

 

 

Está a ser interessante.

Entrei com algumas reservas por causa dessa mesma censura. Mas encontrei um ambiente completamente diferente. Escreve-se o que tem que se escrever e quando é para criticar, desde que se tenha razão, critica-se a sério, sem reservas.

O nosso editor mete-nos logo completamente à vontade, para escrevermos o que quiseremos, com razão, que ele dá-nos protecção.

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Acabei finalmente a reportagem que estive este tempo todo a escrever. Custou, mas foi. Deu-me um gozo imenso "contar" esta história. Sobretudo porque adorei o ângulo de abordagem.

 

"Feira de Memórias", é o título. Amanhã ou assim ponho aqui.

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Só agora vi este tópico. Muito interessante.

 

Estagiei no DN, no Porto, há dois anos (como o tempo passa...). Foi no âmbito do mestrado em Ciências da Comunicação - Informação e Jornalismo, da UMinho. Foi uma boa experiência, apesar de, claro, não ter feito tanto quanto queria. Por falar no mestrado, uma das coisas que mais gozo me deu foi fazer um mini-jornalinho no Publisher (:mrgreen:) numa cadeira dada pelo professor Joaquim Fidalgo, um dos fundadores do Público. E tive a nota mais alta. :heart:

 

Na licenciatura em Comunicação Social e Cultura, nos Açores, também fiz vários trabalhos. Gostei de ter feito uma reportagem sobre o comércio tradicional na altura do Natal. A ver se, com tempo, meto aqui algumas coisinhas.

 

Partilhem os vossos trabalhos à vontade. :)

 

EDIT: Trabalhar para o jornal do Sporting deve ser engraçado, mas não sei se me satisfaria na plenitude. No jornal do Sporting e noutro qualquer de desporto, entenda-se. Gosto de fazer reportagens variadas sobre temas diversos, e prender-me ao desporto não me agrada. Mas se me abordarem com valores, quem sabe... :mrgreen:

Editado por C-4

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Tenho uma dúvida. Estou mesmo confiante que o meu professor vai adorar a minha reportagem e querer publicá-la. A pergunta é: se eu a colocar aqui, fodo um bocado tudo, não fodo? Em termos "legais" ou "legítimos", algo assim.

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Guest Lotterer.

Tenho uma dúvida. Estou mesmo confiante que o meu professor vai adorar a minha reportagem e querer publicá-la. A pergunta é: se eu a colocar aqui, fodo um bocado tudo, não fodo? Em termos "legais" ou "legítimos", algo assim.

 

? Como assim, divulgares aqui primeiro?

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Tenho uma dúvida. Estou mesmo confiante que o meu professor vai adorar a minha reportagem e querer publicá-la. A pergunta é: se eu a colocar aqui, fodo um bocado tudo, não fodo? Em termos "legais" ou "legítimos", algo assim.

Eu não metia já,nopla.

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Têm razão. Espero pelo veredicto e depois partilho.

 

Entretanto e de forma a não deixar isto morrer, lancemos mais umas questões críticas do jornalismo contemporâneo.

 

Até que ponto a objectividade e a imparcialidade vêm sendo cada vez mais postas de lado no jornalismo actual? E até que ponto é que isso afecta a transmissão das notícias e o papel de responsabilidade social inerente aos media?

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Entrevista: Francisco Simões: “Quanto mais vejo as pessoas a conformarem-se, mais inconformado eu sou”.

 

Francisco Simões, nascido no Porto Brandão há 69 anos, no tempo em que as crianças não podiam ser crianças e os horizontes se fechavam na pesca. Filho de pais humildes, cedo se destacou da chancela fabril e piscatória da Margem Sul; cedo quis ser algo mais. Foi em Itália que aprendeu mais do que muito sobre a vida, não tanto sobre a escultura, a sua arte. Aos 21 anos, começou por ensinar a aprender quem nada tinha para comer; fez da mulher o seu templo e da Foice a sua arma. Lutou sempre pela liberdade e viu no 25 de Abril uma janela para um Portugal melhor que, segundo o próprio, nunca chegou. Hoje tem 3 filhos e uma obra sem igual no campo das artes. Das amizades com poetas, fez nascer a sua maior obra: o Parque dos Poetas, em Oeiras. David Mourão Ferreira gostou, a obra nasceu. Como o gosto que ambos partilhavam pelo corpo da mulher. É um burguês pelo que ganhou, contudo, nunca deixará de lutar com os seus “camaradas” por uma país culto e livre.

 

Como é ser-se “um burguês de esquerda”?

 

O ser burguês em termos etimológicos, quer dizer que é um gajo que vive no burgo. Em termos políticos, ideológicos, sociais, ser burgês é alguém que numa sociedade de injustiças, dificuldades e desiquilíbrios, é alguém que, em termos económicos, está no lado dos que estão bem na vida. Eu, para ser honesto, tenho de dizer que estou bem na vida. Trabalhei, tive sorte, as pessoas gostam das coisas que eu faço, e eu consegui por essa via, estar bem. Sou burguês neste contexto e nestas condições. Depois, ser burguês e de esquerda. Bom, eu sou de esquerda. Isto porque nasci há 69 anos, no tempo da vida difícil no tempo da ditadura fascista e, logo em miúdo, percebi que aquilo que seria uma coisa maravilhosa, a liberdade, estava cortada. A primeira coisa que senti que precisava, mais do que comer e tudo isso, era a liberdade. E percebi que não existia. Eu, se tenho muito ou se tenho pouco, não conta para nada. Nem dantes contava. O que conta é ter direitos fundamentais, ou seja, quando entrei na escola eu devia ter os mesmos direitos de todos os outros meninos do meu país, todos. Como sou contra tudo isto, sou de esquerda. É perfeitamente exequível ser de esquerda e ser burguês.

A nível político, é um homem vincadamente de ideais de esquerda. Numa entrevista, disse vivermos “numa democracia de faz de conta”. Quais são os efeitos práticos disso?

 

Os efeitos práticos são exactamente o que se está a passar em Portugal. Os partidos passaram a ser aparelhos gestores de algumas influências e algumas pessoas. Nomeadamente, os tipos que eram os políticos, que se fartaram da política, e pegaram nos meninos e mandaram-nos para as jotas. Esses, que nunca foram nada na vida, que nunca lutaram e nem conseguiram nada, passam a ser doutores e engenheiros. E sabemos outra coisa, que neste momento há 400 jovens a acabar jornalismo. E para onde vão trabalhar esses jovens? Eles sabem que têm mão-de-obra barata, porque esses 400 jovens jornalistas não têm trabalho. Têm de se sujeitar a um ordenado miserável, e depois têm de se sujeitar a escrever o que eles querem que se escreva. Porque se não, os contratos são a prazo e eles vão-se embora. Portanto, isto é já uma falta de liberdade e uma ausência de independência do jornalista. Eles destruíram isso. Da mesma maneira que esta...porcaria de Governo destruiu o que era um professor. O que devia ser um professor, foi completamente destruído. É um empregado público qualquer. Isto quando o professor foi sempre uma espécie de luz que iluminava os caminhos, a ler e a escrever e muitas vezes ensinava a pensar. Portanto, é de “faz de conta”, por isso mesmo.

 

Na política reina a incompetência e a subserviência em vez da transparência e da coerência?

 

Sem dúvida. Isso é evidente. É incontestável. É uma evidência.

O Francisco é muito crítico em relação à política, um inconformado, digamos. É assim nos restantes aspectos da sua vida?

 

Sou. Sou muito exigente. Começo por ser comigo próprio. Sou terrível comigo, no meu trabalho sou muito disciplinado, obrigo-me a estar no meu Atelier às 9h e saio daqui às 19h; obrigo-me a fazer as coisas com a máxima competência e perfeição, exijo um ambiente mental e estético, limpo, muito “clean”. Obrigo-me a ser um homem justo; obrigo-me a ser um homem livre; obrigo-me a ser um homem fiel e sério. Se eu falhar, sou tão violento comigo que você nem imagina. Em relação ao resto, continuo inconformado e exigente. Embora eu pela minha formação, pela minha maneira de ser, seja um homem tolerante. Mas a tolerância tem limites. Quando a gente passa para além desses limites, não somos tolerantes, somos estúpidos. E eu não posso suportar as intolerâncias. Não sou tolerante com as intolerâncias. Não sou. Sou exigente. Então, inconformado porque não posso fazer mais nada, critíco e falo muito. O que não agrada a ninguém.

 

Um dia afirmou que no seu tempo “as crianças não podiam ser crianças”, como se passa uma infância assim? Como foi crescer nessas circunstâncias?

 

Foi crescer. O homem é um produto do meio e não só. Eu sou produto do meio. E o meio era um meio de gente muito humilde; gente de bom coração; gente bonita; gente trabalhadora; que amava; gente que compreendia; gente que tinha de ser solidária com o vizinho que não tinha que comer. Isto passava-se onde nasci, no Porto Brandão. Passava-se com a minha família, com os meus vizinhos. E nós, meninos que não tínhamos tempo para ser crianças, procurámos sempre a felicidade. A procura da felicidade é um direito do homem, de todo o homem. E não há nenhuma sociedade que possa impedir que as suas crianças, sejam de facto crianças. Aquela sociedade na qual cresci, proibia. Mas a imaginação, o amor, a criatividade, a procura, a invenção, fazia-nos procurar a felicidade. Inventávamos os companheirismos e as nossas amizades. Tudo isto nos ajudava a ultrapassar essa situação terrível de crianças que não podiam ser crianças. Se não tivesse tido a infância que tive, não era o homem que sou.

De uma criança com uma infância complicada, até ao dar um nome a uma escola. Isto realizou-o a nível pessoal? Como foi todo esse processo/experiência?

 

Vamos lá ver. Eu aos 21 anos comecei por ser professor para viver. No ensino, fiz alguma investigação, corri alguns riscos. Antes do 25 de Abril, na Ilha da Madeira, fiz uma escola com crianças que não tinham o que comer. Essa já não era para brincar, era para comer. A brincar arranjávamos comer. Brincávamos a apanhar fruta e a plantar árvores. Esta “brincadeira”, dava-nos de comer. Isto marcou. E marcou-me. Eu não queria mais nada, só queria que as pessoas aprendessem a aprender. Eu não ensino nada a ninguém. Só queria ensinar a aprender. Se eu ensinar a aprender, ele aprenderá. Não ensino mais nada. Até que um dia, um grupo de professores do Laranjeiro, me procurou, eu não os conhecia. Vieram ter comigo, porque a Escola Secundária Número 2 do Laranjeiro, de acordo com a lei agora em vigor, deveria ter não um número, mas um nome de uma personalidade. Eu disse “ah, sim, acho muito bem que tenha!”. Mas a personalidade que eles queriam, era eu. Algo que eu não achei muito bem. Já lá vão 26 anos, eu era um jovem de 43, e portanto disse: “não quero, ainda posso fazer muitas asneiras e isso seria mau para a escola”. Passado uns tempos, aceitei. Hoje, tenho orgulho. Sinto-me honrado e tento, aliás, sinto a obrigação, de ser exigente com a missão de honrar o nome da escola. Já não é o meu nome, já é o nome da escola. O Francisco Simões tem de honrar o nome daquela escola. Então sou sempre solidário com a escola; vou à escola; participo na vida da escola e convivo com os alunos, que acham graça porque pensavam que eu já tinha morrido. Portanto olhe, eu lido desta maneira.

 

A sua experiência enquanto professor é algo que guarda e guardará sempre? Como foi toda essa aventura numa das mais nobres profissões do mundo?

 

Guardo. Um professor nunca deixa de ser professor e é até ao fim da vida. Nem percebo porquê que os professores se reformam. Nós estamos sempre a estudar, estamos sempre a pensar como é que podemos dar aos outros. O professor é um homem ou uma mulher, generoso, que dá aos outros sem estar à espera de receber. Às vezes o que recebe são, maus tratos, insultos, etc..

 

Referiu em tempos a sua experiência na Madeira e os “meninos subnutridos e pernas fininhas” que lá encontrou. Pensa que tal ainda é uma realidade?

 

Ainda hoje se passa, infelizmente. E também se passa aqui, não é só na Madeira. Há meninos sub-alimentados. Hoje ainda há uma degradação mais vil. Os meninos que encontrei na Madeira, sub-alimentados, eram filhos de homens e mulheres muito pobres, vítimas de um regime horrível, mas toda a gente tinha dignidade. Hoje, há gente muito pobre, há um regime dito “democrático”, que eu digo que é de faz de conta, mas perderam o direito à dignidade. Essa é a maior das pobrezas. Isto de ver as crianças na rua de mão estendida a prostituírem-se, a roubarem, a drogarem-se, isto é a vilania. É o aviltamento. O regime fascista foi tenebroso, violento, mas as pessoas iam resistindo ao aviltamento. Agora já não resistem. Acho que as pessoas se conformaram. Quanto mais vejo as pessoas a conformarem-se, mais inconformado eu sou.

 

Ensinar é uma arte? Sente que esculpe os seus alunos ao seu gosto, ou deixa que eles se moldem?

 

Ensinar é uma arte, de facto. Quando se ensina arte, o que se pretende ensinar aos nossos alunos são técnicas. Depois temos de os ensinar a aprender. Ensiná-los a ter os seus próprios gostos, seguir o seu próprio caminho, a descobrir a sua própria personalidade. Isto porque cada artista, há-de encontrar a sua própria linguagem. Picasso tinha a sua linguagem; Mondigliani tinha a sua linguagem; Rodin tinha a sua linguagem; Miguel Ângelo tinha a sua linguagem. Nós olhamos e dizemos: “aquele fala Rodin! Aquele fala Picasso!”, cada um é uma língua. Uma personalidade. Um carácter. Eu, enquanto professor, não posso fazer uns “francisquinhos”. Eu tento que cada um dos meus alunos seja ele próprio. Nunca os esculpirei.

 

Os valores que gosta de passar aos seus alunos, são os mesmos que incute à sua família, certo? São esses que guiam a sua vida. Já os deixou de parte por alguém, alguma coisa ou algum momento?

 

Isso são. Os meus valores eu considero que são justos, mas posso estar errado. Mas enquanto considerar que estou certo, os meus valores são simples. Incuto-os aos meus filhos, à minha família, aos meus alunos, aos meus amigos. São mesmo muito simples. Principal: liberdade. O mais sagrado dos valores é o da liberdade. Depois são os da justiça; da lealdade; da fraternidade; da sabedoria. Isto são valores que não podemos deixar. Sou contra todos os valores que são totalitários, que são da tirania, que são da opressão, portanto, há os valores e os anti-valores. Você não precisa só de dar os valores, às vezes é preciso despertar as pessoas para os anti-valores. Não podemos ir aplaudindo a repressão. É preciso sempre ver esta moeda do valor e a outra do anti-valor. É isto que eu tento transmitir. Não tento impor. Nunca gostei de impor nada a ninguém. Acho que nunca pus os meus valores de parte. Nem sei viver sem os meus valores é mesmo intrínseco.

 

Se os seus pais não o tivessem encorajado e permitido ir para a escola António Arroio, talvez não fosse escultor. No entanto seria sempre um homem das artes. Concorda? Pensa que isso é algo intrínseco a cada pessoa? Como foi consigo?

 

Não estava aqui. De certeza. A família, você falou bem, é um valor sagrado e um valor muito complexo. Eu tive a sorte de ter tido uma família. Mas naquele tempo acontecia, e ainda hoje acontece, a família tem um lado bom e um lado mau. É uma moeda bonita e uma contra-moeda feia. Eu tive uma sorte muito grande, é que na família, apareceu-me uma figura que é absolutamente divina, que foi a minha mãe. E portanto, pessoas humildes, no meio humilde, um meio inculto, um meio pobre, no Porto Brandão. Na altura, o que as famílias queriam para os filhos era que fizessem um curso industrial e depois, provavelmente, iriam para serralheiro, mecânico ou electricista. Tudo isto era um ascensão. Isto estava dentro dos desejos, dos horizontes mais longínquos das pessoas. Mas há um rapazinho que não vai para empregado de escritório, não vai para mecânico, não vai para electricista. Vai para uma escola de artistas. Mas o que era ser artista? Para as pessoas do Porto Brandão, não era nada. Quanto é que ganha um artista? Qual é que vai ser a vida de um artista? Um dia a minha mãe disse-me: “sim, filho, se é isso que queres”. E fui para Artes. Para a António Arroio. Quanto ao resto, não sei mesmo responder se seria um homem das artes. Eu penso que há pessoas que têm todos os dotes que eu teria, mas se não forem conduzidos, eles podem nem nunca saber o que é a arte. Há pessoas que são muito sensíveis, que olham para uma obra de arte, ou para um monumento, e se comovem muito. Essas pessoas, muito provavelmente, têm essa alma de artista que nunca foi explorada ou propiciada. Eu devo muito ao professor Calvet Magalhães, que foi o meu professor. Perguntou-me o quê que eu ia fazer, eu disse que ia para uma escola industrial, ele disse que nem pensar, para eu dizer à minha mãe para ir falar com ele. E é o professor Calvet que diz à minha mãe “olhe, o seu filho é uma pena não seguir artes”. Se não fosse este homem, muito provavelmente teria ido para uma escola industrial e teria feito um curso qualquer de mecânica ou coisa parecida com isso. Era outra vida de certeza absoluta.

 

Foi bolseiro da OCDE, que influência teve isso na sua vida?

 

Ganhei a bolsa um bocado inesperadamente. Iam ser atribuídas bolsas, eu já trabalhava nessa altura em artes gráficas. Comecei a trabalhar aos 14 anos. Como há pouco disse, sempre fui exigente comigo próprio. Embora fosse um jovem de 17 ou 18, sempre fui muito exigente e gostava de fazer o meu trabalho muito bem feito. As coisas estavam a correr muito bem e comecei a ter o respeito dos outros. E, por causa disso, disseram-me que ia ganhar uma bolsa. Então, fui para Itália. Chego ali e descubro um mundo completamente moderno, desenvolvido, etc. Fiz o curso de artes gráficas, durante 1 ano em Itália. E voltei. Voltei com outra abertura, a todos os níveis. Vim com outra abertura cultural, outra abertura de política, porque descobri também que havia democracia, liberdade, coisa que não havia por cá. Acho que essa bolsa me para tudo, menos para as artes gráficas. Mas serviu muito para a minha vida. Para abrir horizontes.

 

Tem três filhos. Como é que a ligação dos seus filhos com as artes? E em particular, com o seu trabalho?

 

Muita. Tenho uma filha que já é mestrada e doutorada em artes; tenho um filho que já doutorado em história das artes e tenho outro filho que talvez tivesse dotes para poder seguir artes, que é o mais velho, que não quis seguir. Não tentei encaminhá-los para as artes, pelo contrário. Tentei por todos os meios que não fossem para onde foram. A opção foi deles. Iam existir comparações entre nós. É sempre um drama. As comparações são o que mata a arte.

A sua arte está muito ligada à poesia. Qual a razão para tal?

 

Vamos ver. Desde miúdo que tenho um gosto extraordinário pelas letras. Desde rapaz que leio grandes escritores, e desde rapaz que sou amigo de alguns dos grandes nomes da literatura portuguesa. Tinha 18 ou 19 anos, conheci o mestre Almada Negreiros, que além de um grande pintor, foi um grande escritor, ensaísta e poeta. Depois conheci o Tomás Figueiredo, o Edmundo Bettencourt, o Urbano Tavares Rodrigues, a Maria Judite de Carvalho, entre outros. Comecei a ser amigo de grandes vultos da nossa literatura e eles também faziam o favor de serem meus amigos. Curiosamente, o meu melhor amigo chegou mais tarde. Falo do David Mourão Ferreira. Há um momento da minha vida em que é necessário que alguém escreva sobre o meu trabalho, quando começam a aparecer os catálogos, os livros, etc. Aprendi com o Arpad Szenes, que me disse um dia: “Francisco, nunca peças a um crítico para escrever. Um crítico tem de ter a liberdade de escrever o que quiser; seja bem ou mal! Se tu lhe pedires, ele não vai poder escrever mal. Vai ser “obrigado” a escrever bem. Portanto, fala com os teus amigos escritores e eles que escrevam”. Assim foi. Começaram a ser os escritores meus amigos, que começaram a prefaciar e a escrever sobre o meu trabalho e sobre mim. Um deles foi o David. Até que o David me disse que tinha uma grande lacuna no seu percurso literário: ainda não tinha escrito um Romance. Então escreveu o seu primeiro Romance, chama-se “Um Amor Feliz”. Do qual as personagens masculinos são dois homens. Um escritor, o Fernando, e ele próprio, o David. Aparecem também três mulheres, numa teia dramática, numa teia romanesca. A “X”; a “Y” e a “Z”, três letras. Para algumas pessoas aquele escultor sou eu, devo confessar que não sou. Aquele escultor é o alter ego do próprio David. O David gostava muito de ser escultor, então foi por aí. Na altura pediu-me para fazer a capa do livro. Ora bem, se eu já tinha tido o privilégio de ter textos escritos por ele, seria uma honra e um privilégio duplo eu desenhar a capa para ele. Assim foi.

 

Isso deu bastante polémica na altura...

 

Deu mesmo! Na altura fiquei um bocado assustado. Porque, vamos ver o seguinte: se há aqui alguém que é e sempre será muito importante, chama-se David Mourão Ferreira. Pensei “estou a comprometer o trabalho do meu amigo”. Fiquei muito assustado. Afinal não havia razões para isso, o David ficou muito feliz e gostou muito. Aí finalmente descansei. Não sou medroso, mas sou consciente.

Pode dizer dessa forma que a escultura acaba por ser uma personificação da própria poesia?

 

O que aconteceu foi uma coisa para além do gosto que os escritores meus amigos têm pela arte e para lá do gosto que eu tenho pela literatura, outro fenómeno. O fenómeno foi o seguinte: a minha expressão plástica, a forma como eu desenho; esculpo ou idealizo a beleza do corpo da mulher, é a mesma linguagem que é usada que o poeta David Mourão Ferreira, usava na poética, para tratar a beleza do corpo da mulher. Começámos por observar que, quer um quer outro, em linguagens diferentes, falávamos a mesma língua. Era uma cumplicidade total. Ora eu fazia um desenho e ele um poema; ou ele um poema e eu um desenho. Uma e outra coisa casavam. E uma escultura e um poema, casavam. Usávamos as nossas expressões linguísticas, a escrita e a arte, para definir o corpo da muher. Foi este o fenómeno.

 

“A mulher é a coisa mais bonita do universo”, disse. E as mulheres da sua vida? São tão belas como as que esculpe?

 

São. As mulheres são a coisa mais bonita do universo. Não há nada mais belo que o corpo de uma mulher. Cabem aqui tantas mulheres: a minha mãe; a minha mulher, ou a minha amante, ou a minha amada; cabe a minha irmã; cabe a minha filha; cabe a minha camarada; cabe a minha companheira. Portanto, cabem todas as mulheres, desde o materno, ao filial, ao amor.

 

Como é que as mulheres da sua vida lidam com a forma como esculpe o corpo?

 

Às vezes com ciúmes(risos). Vêem-se retratadas. Há também muitas que o são.

 

“O toque do barro é igual ao toque que se dá a uma mulher”. Sente que a sua obra, sem as mulheres, seria algo inócuo?

 

Oh caraças! A minha obra sem as mulheres não exisita. Não havia obra. Já viu bem como seria se em vez de estar a retratar a beleza do corpo da mulher tinha de estar a fazer gatinhos, cavalinhos, patinhos e florzinhas? Era uma chatice. O barro é a natureza, a terra molhada. Portanto, estou em contacto com a natureza e o barro tem uma macieza que permite que eu modele. E o corpo da mulher tem. Você quando toca na mama de uma mulher, a acaricia, a apalpa, é como o barro. Depois, a pele da mulher é sedosa, é lisa; é como o barro.

 

 

 

A Piéta, é a sua inspiração? Disse que só considera as suas obras prontas quando sente o mesmo toque do que o que sentiu quando tocou na Pietá. Que sentimentos são esses que tem com as suas obras? O que precisa para saber se estão prontas?

 

Eu era um menino, que nunca tinha ido para lá de Lisboa. A primeira vez que saio é para Itália. Quando entrei no Vaticano, pela porta principal, vi ali uma coisa pequenina. Não sei bem explicar, mas fui como que “atraído” até lá. Havia tanta coisa, mas fui directo àquilo e nem sabia o que era. Quando chego ao pé, é de facto comovente. Fiquei, mesmo sendo miúdo, sem vivência e sem grande cultura ainda, totalmente fascinado. Cheguei perto e pus as mãos, comecei a tocar e acariciar. O toque era um toque que nunca tinha sentido até então. O que aconteceu depois, foi que fiquei com as lágrimas a escorrer pela cara a baixo. E perguntei-me “porra, porquê que estou a chorar?”. O certo é que as lágrimas caiam-me. Fez-me uma confusão do caraças. Lá acalmei. Tinha uma grande ânsia de aprender, descobrir, ver. Quando comecei finalmente a ser escultor e a tratar as pedras, ainda conheço aquele toque da Pietá. Quando estou a acabar as peças, para dizer que está fechado, tenho de fechar os olhos. É quando começo a mexer, a tocar, até perceber se está pronto ou não.

 

Que sentimento acha que despertam as suas estátuas a quem por elas passa diariamente, num momento de azáfama para ir para o trabalho, ou numa passada rápida para chegar a casa?

 

Não sei. Isso tem de perguntar a quem passa por elas. Embora eu tenha, graças a Deus, algum feedback de algumas pessoas que me dizem “epá, aquilo é um descanso, quando passamos ali e olhamos para aquilo, até nos esquecemos das coisas”. Quer as do metropolitano, quer as do Parque dos Poetas. No caso do Parque dos Poetas, há pessoas que me dizem que é um descanso estar ali sentado à frente do Fernando Pessoa, de livro aberto, a ler e a olhar para estátua. Parece que está ali o próprio connosco. Tenho vários comentários assim, no entanto, nunca poderei falar em nome dessas pessoas.

Costuma visitar os sítios onde tem as suas obras expostas?

 

De vez em quando. Ainda agora cheguei do Porto e fui ver o “Amor de Perdição”, do Camilo Castelo Branco. Fiz aquilo no sítio central, que estava todo sujo, cheio de grafitis e eu estou sempre com medo que esteja tudo chacinado. 5 anos depois fui lá e continua tudo impecável. Isso para mim é tudo. Depois eu digo, vaidoso – vaidoso me confesso! -, “se as pessoas não estragaram, foi porque gostaram e respeitaram”. Quero-me convencer que é por isso.

 

"As pessoas passam pelas peças mas não sabem quem é o artista. Isso é algo que me agrada", constatou um dia. Sente que é essa a magia da escultura? O anonimato imortalizado numa obra que todas as pessoas vêem, mas poucas sabem de quem é? Que prazer é que isso lhe dá?

 

É, sim. Eu senti isso pela primeira vez, que foi talvez o passo mais importante e maior passo que dei na minha vida de escultor, ter uma estação, a primeira a estação em escultura e as pessoas não sabem. Não olham para a minha cara e não conhecem, não vedeta de televisão nem de cinema. Sou um cidadão anónimo. Eu sentava-me ao lado a ouvir as pessoas e as suas conversas. De facto, existe esse mistério. As pessoas falam com uma imagem de pedra, que elas interiorizam como uma personagem que é, não só o personagem retratado, como o autor. Esse diálogo é misterioso. Só me apercebi disso quando me sentei ao lado, à espera do metro e com umas orelhas de elefante a tentar perceber tudo o que era falado.

“Não há arte sem desenho”. E se fizessem num papel um esboço da sua vida, acha que o passaria para a pedra e imortalizava numa estátua?

 

A minha vida é tão complicada que não havia pedra que chegasse. Ficava-me só pelo esboço.

 

Diz que “a primeira regra da democracia é a liberdade, a segunda é a cultura”, sente que é essa falta de cultura que não faz Portugal avançar?

 

Esse é um problema. A liberdade começa a estar toda condicionada. Outra questão, é de facto a cultural. Nós temos permitido a degradação do ensino, da qualidade pedagógica; prática; científica. Tudo isto por uma questão economicista. A economia a sobrepor-se a um valor básico, como o ar que respiramos, que é: saber ler, escrever, pensar, investigar, etc. Sabendo isto que se cultiva. Sem estes instrumentos, não há democracia. Mesmo que ela fosse a liberdade total e mais pura. No dia em que se disser assim: “podes fazer tudo, nada te constrange”, não vai passar a estar tudo bem. Se eu não tiver instrução; pensamento; capacidade de análise, nada vale. Ou seja, as três não existem umas sem as outras. Não há democracia sem liberdade e cultura.

Quando é que percebeu que as suas esculturas podiam atingir o patamar que atingiram?

 

Comecei a ter consciência de que a cultura e o saber eram muito importantes, quando era miúdo, com os meus 17/18 anos. Penso que foi nesta fase de transição de adolescente para homem e o meio que nos fez dar essa volta.

 

Não acredita na inspiração. Qual a razão para isso?

 

Eu, ou ando sempre inspirado, o que acho que não é verdade, ou então, para fazer o que faço, trabalho. A minha inspiração chama-se trabalho. Apenas e só. Ainda não me veio nenhuma “inspiração” bater à porta.

Diz que tem uma rotina, um “horário” muito específico. Não vê isso como algo negativo? Normalmente toda as pessoas querem fugir dessa rotina.

 

Não é nada negativo. Há vezes em que me faz falta não ter mais. Eu há uma semana que não ando aqui no atelier. Fui para o Porto, fui para Itália, tenho andado por todo o lado. Já me está a fazer falta chegar aqui às 9h, com o meu barrinho, com os meus cãezinhos aqui à minha volta, ir falando com eles... Isso é que eu gosto. Estar aqui, desenhar uma anja, depois saltar para o barro, depois voltar para o desenho. Obrigo-me a fazer isto.

Acabou por ser o primeiro homem da família a não se tornar marinheiro profissional. Mas o gosto pelo mar continua. É o seu refúgio?

 

A minha relação com o mar é de amor. É uma maravilha. É o meu escape, a minha fuga. Todos os meus problemas, quando eu desamarro o barco, ficam em terra. Não penso em mais nada a não ser no mar, na evasão, no prazer da vela, no prazer do mar, em navegar. E não tem nada a ver com a minha arte. Nem sequer vou para o mar para me inspirar, e para vir agora fazer temas do mar. É só um refúgio. Vem na génese, na carga genética.

O mar tem um papel essencial na sua obra, na sua família e no seu dia-a-dia?

 

Não. É um outro mundo onde vou com frequência.

 

Tem uma obra preferida? Se sim, porquê?

 

Se você tivesse 10 filhos, eu perguntar-lhe-ia: tem um filho que é o seu preferido?

 

O Parque dos Poetas em Oeiras, sente-o como um espelho seu? Como um marco da sua vida?

 

É um marco da minha vida. Esta ideia é uma ideia muito simples, as pessoas costumam fazer uma grande confusão com o parque dos poetas, mas a ideia é linear e simples. Aqui há uns anos, não me lembro quantos, quando foi feito ali as Olaias. Passei ali e não gostei do que vi. Uns verdes, uma alface, uns cor-de-rosas, uns amarelos e tal. Para além daquilo, as ruas não tinham bancos, não tinham árvores, não tinham jardins. Tínhamos cimento armado pintado de amarelo, cor-de-rosa e verde. Via-se logo que era construção de má qualidade. O meu grande amigo David Mourão Ferreira, numa altura em que não existiam telemóveis como hoje, quase todos os dias, depois do jantar, falava-me. Houve um dia em que lhe disse: “David, hoje passei num sítio horrível. Se eu mandasse, nunca permitiria fazer uma urbanização como aquela. Obrigava a fazerem uma Alameda; com bancos, com jardins e com estátuas dos poetas. Somos um país de poetas. 20 poetas do século XX para o ano 2000”. O David achou muita graça. Fomos ver aquilo. Ele fez uma lista de 20 poetas. Quando fez aquilo eu disse-lhe que faltava ele, ao que ele me retorquiu logo dizendo que não contava. Ficámos nesta brincadeira, passou-se e nunca mais houve nada. Nisto, um jornalista, um bom jornalista que já morreu, Afonso Praça, que tinha sido aluno do David, assistiu a uma cena horrível. Um jantar que houve, no qual estava o David Mourão Ferreira, o Abecassis, que tinha deixado de ser Presidente da Câmara de Lisboa, estava a filha do Marcelo Caetano, estavam uma data de pessoas. A dado momento, o David vira-se para o Abecassis e diz: “Oh Nuno, sabes que o Francisco Simões teve uma ideia muito engraçada? Uma Alameda de poetas do século XX para o ano 2000”. Depois disto, o Nuno Abecassis, ficou colérico e disse que não o perdoava por ele não lhe ter dito nada. O David respondeu que só lhe tinha ocorrido contar naquela altura porque se tinha lembrado no momento. O Abecassis estava pior que estragado, só esbracejava a dizer que lhe deviam ter dito antes, que agora que ele tinha saído da Câmara não valia de nada. Lisboa, capital dos poetas, ele viu aquilo como uma boa ideia. Foi uma grande discussão, mas acabou em bem. Passados uns anos inaugurei a galeria Luís Verney, em Oeiras, fiz uma discursatas, umas coisas, mas não conhecia o Isaltino de lado nenhum. Nisto, o Afonso Praça, que na qualidade de jornalista estava ali, disse para o Isaltino “ah, presidente, vou-lhe contar uma história de que vai gostar”. Lá lhe contou a história. O Isaltino, naquele momento, disse que quem ia fazer aquilo era ele. Chegou ao pé de mim e disse-me: “mestre, venha comigo!”. Não sabia para onde ia. Mete-me dentro do carro, leva-me aquele sítio onde agora é o Parque dos Poetas, que era um terreno enorme, e diz-me: “a Alameda dos Poetas vai ser aqui”. Eu pensei que ele estava a brincar comigo. Foi assim que nasceu a ideia, que passa de Alameda para Parque. Eu inicialmente tinha pensado nos 20 poetas do século XX e depois passámos a ter a história da poesia, desde que ela se escreve. Temos ali o balanço da história da poesia em escultura, no Parque dos Poetas. Foi assim que nasceu. Claro que é importante e claro que é um marco na história. Na Europa não há um jardim temático com esta dimensão e valor cultural. Exceptuando, maior ainda que o parque dos poetas, que se chama Vigeland Park. Se eu fosse vaidoso, isto tinha de ser o Simões Parque, porque o outro tem o nome do escultor, mas eu aqui preferi que fosse o Parque dos Poetas.

 

António Barradas

Se quiserem ver, esta foi uma entrevista que fiz ao Francisco Simões, um dos maiores - se não o maior - nomes da escultura portuguesa. Parque dos Poetas e outras milhares de estátuas espalhadas por esse país fora. Um homem mesmo muito interessante a nível cultural. Deu-me imenso gozo fazer isto.

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Bem, fui super gamado na nota à cadeira. Tive 13 na única cadeira que me motivou a escolher Jornalismo. É demasiado triste. Perguntei-lhe pelos critérios e por feedback e... Nada. Enfim. Como já não vale de nada, aqui fica a reportagem que eu achei uma maravilha, mas, ao que parece, deve estar uma valente m*rda.

 

P.S - tudo o que aí está escrito é verídico e foi fruto de um trabalho de vários meses na Feira da Ladra.

Feira de Memórias

“Castilho, Chateau, Castle, Castelo!”. É este o grito entoado pelo motorista do eléctrico 28, que anuncia que estamos perto. Mais duas paragens e estamos na Igreja de São Vicente de Fora. Os menos atentos pensarão que estão na freguesia da Graça. Os turistas guiados pelos “Tuk-Tuk” - que povoam a zona histórica tal e qual baratas numa lixeira, acabam por seguir os seus guias de 10£ comprados no aeroporto e desaguar no mar de lembranças da Feira da Ladra.

 

Mal se desce do eléctrico sente-se um ar diferente. A mistura de sotaques, de cheiros, de olhares, antevê um sítio único. Com um requinte especial. O túnel que se segue até à entrada transporta-nos para diversos imaginários. Desde a praça central de Paris em 1482 que era “dançada” por Esmeralda no clássico de Victor Hugo, o “Corcunda de Notre Dame”; ao fantástico mundo de “Amélie Poulain” e a sua exacerbação do fantástico; até finalmente pararmos no nosso 1 de Dezembro de 1640 e nos libertarmos. De tudo. Ali, no fim do túnel que não é mais se não uma preparação meditada, chegamos ao “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. A diferença é que não somos condicionados psicologicamente a viver em harmonia. Naquele lugar, a harmonia sente-se. Toca-se. Não surge por regras impostas, é na quebra de algumas delas que se encontra a magia.

A azáfama vive-se. Estrangeiros com um olhar curioso, um dedo apontado e sempre um “how much is this?” na ponta da língua. A resposta depende do vendedor, das nuvens e da desfaçatez da pergunta. “Cinco euros e já é dado”, returque o senhor que vende bolas de neve de todos os países.

 

“As memórias não têm preço”. Aqui têm. Todas. Tudo vale o que quer que seja. Nem que seja uma singela troca de recordações. Um livro da coleção “Vampiro” por três pins da Juventude Socialista num estado parecido com o do país. É nos livros onde residem muitas memórias. Folhas umedecidas pelo tempo e gastas pelos olhos. É exactamente numa toalha de mesa estendida no chão, num passeio com pedras da calçada soltas e no meio de tantas outras bancas de “pé alto” que há um livro que chama a atenção. Pela fotografia escarrapachada de Jim Morrison na capa e pelo lugar de destaque que ocupa entre quatro casacos de bombazine e um relógio de bolso. “São dois euros!”, exclama um senhor sentado numa cadeira de praia com um boné do já extinto 24h. Abro o livro para começar a folhear: “Para o Joel, um grande abraço do cunhado Chico”. Natal de ‘98” está cravado na contra-capa. Uma insignia de uma memória já distante. “Deram isso ao meu filho já há uns anos. Leu 3 ou 4 páginas e cansou-se. Acho que é por estar em “americano”!”, disse enquanto se ria impaciente para que eu me chegasse à frente para comprar.

 

Dois euros. Quatrocentos escudos, na moeda que outrora foi gasta para construir auto-estradas. “Wilderness”, era o nome do livro. Um rol de poemas de Jim Morrison. Uma colectânea, dígamos. A imaginação fluiu. Afastei-me da capa bege e do ar tresloucado do ex-vocalista dos The Doors e deixei-me ir até ao Natal de 1998. Um Natal distante, numa casa desconhecida com uma família extensa, presumo. Um presente mal-amado, algo comprado para despachar ou um pai com necessidade de fazer dinheiro? Prossigo o meu caminho enquanto o senhor do boné suspirava de alívio por não ter tentado regatear.

 

“Isto agora está tudo muito mau, nem imagina. Dantes é que se vendia bem. Agora... Agora o dinheiro está caro”, dizia-me o senhor Carvalho, de 75 anos e que tem mais história na Feira da Ladra do que a Democracia em Portugal. 42 anos de Terças e Sábados ocupados a lucrar com memórias dos outros, como faz questão de frisar. “Isso das recordações não é para mim. Mal me lembro do que almocei ontem, quanto mais do que esta salva de prata significou para o sicrano ou o beltrano. Faço dinheiro com memórias dos outros”, afiançou com o seu semblante carrancundo e os seus braços cruzados como se estivesse à espera de uma inevitabilidade. Entre uma vaga e outra de turistas que passava pela sua “banca” e se debruçava sobre os seus conjuntos de velharias, pratos de cobre e salvas de prata, o senhor Carvalho soltava sempre um “Estás a ver mas não vais comprar. É 10€. Queres pagar menos? Então vai para o crl!”. Alto e bom som. Com o peito cheio e as pernas esticadas na cadeira. Entre dentes é para quem é novato. Para quem não tem as mãos calejadas das idas ao ferro velho, para quem não conhece cada raio de sol da Feira da Ladra.

 

A conversa dura pouco. O tom não é o melhor, os vociferares insultuosos para quem passa marcam o compasso e a despedida torna-se célere. É este o maior guardião de memórias do Campo de Santa Clara, 1100-472 Lisboa. Não de objectos, mas de vivências. As suas. São 42 anos de transmissão de conhecimento, venda de pedaços de outros e aquisição de... “Bons negócios”, como o próprio gosta de se referir. As lembranças contam. Sem elas, o senhor Carvalho não estaria ali sentado, com o seu material espalhado no chão com o Panteão Nacional atrás a completar o quadro.

 

A descer todos os santos ajudam, dizem. É a descer que se vê em fundo um maralhal de roupa, bonecos de tez pálida e retratos de uma Lisboa perpetuada nos anos 20. É também com os pés a tomarem as rédeas da viagem e as pernas a forçarem o corpo a agarrar-se ao chão que a mente vagueia por entre todos os haveres expostos sem ordem decretada e numa avalanche de cores e formas que prende e desperta qualquer um. Neste caminho encontramos a Paula, mãe de dois filhos – um deles que está sentado ao seu colo -, 36 anos muito gastos e uns olhos sem ilusão. Vende brinquedos. Todas as infâncias expostas por tamanho. Há Nenucos, Motoratos, Action-Men, peluches sem olhos e os eternos Playmobil que mesmo em tempos difíceis nunca perdem o sorriso sincero e os olhos risonhos. “Venho para aqui reviver a minha infância”, deixou escapar entre um suspiro. “Compro tudo o que me relembre os tempos que passava em miúda na casa dos meus tios. Algumas coisas vendo, outras guardo na minha arrecadação. Gosto de me imaginar menina, com o coração cheio, as mãos macias e as bonecas de porcelana em meu redor. Infelizmente já nada disso acontece”. Agora Paula vende para sobreviver e compra para revender: “A crise não deixa”, reclama.

 

O filho Afonso sentado ao seu colo escuta pacificamente tudo o que a mãe diz. Já está habituado à agitação de mais um Sábado. Também ele tem pedaços seus à venda no chão alcatroado. Pedaços dos seus sete tenros anos que passou a atirar bonecos pelo ar e a pô-los no cimo das árvores, conta-nos a mãe Paula. Os seus maiores clientes são pais de miúdos que não têm posses para comprar brinquedos novos. A exigência dos novos tempos. Tempos esses que nos fazem recorrer ao usado, ao “brincado”, ao estropiado, tudo em detrimento do novo. Será só a força das circunstâncias que move as pessoas na Feira da Ladra? O pesar da consciência pela leveza da carteira? Paula diz que não. Que não só: “A Feira continua a ser o local onde se compram pedaços de outros. Tudo aqui é história. É vida e tradição. São partes de todos nós. Aqui passamos as nossas memórias e compramos as memórias dos outros. Mesmo revendendo, fazemos história com elas”, constatou com um pesar de quem sente a falta de tempos idos, de quem retira da injustiça inerente à obrigação de vender para sobreviver o que de melhor há: vivências.

 

Ao fundo ouve-se fado. O nosso fado. Que é triste mas com um peso tal que nos faz a todos sentir pelo corpo aquele sentimento que é unicamente português: saudade. É a “Casa da Mariquinhas” que ecoa durante uns metros pela feira em diante. Uma casa que por momentos é nossa e onde também nós passamos e já não recordamos nada a não ser reminiscências de uma infância passada entre palmadas por tropelias feitas à revelia dos pais e aconchegares de lençol em noites de Inverno. Tudo isto transportado por uma música, uma letra, um lugar. E Amália, pois claro. Rick Blaine diz que “We will always have Paris”; por cá teremos sempre Amália e a sua inconfundível voz, o xaile preto e o cheiro a laca em todas a músicas.

 

É na música onde residem parte das histórias da população. É também no vinil que está um dos baluartes da Feira da Ladra. Vinil por todo o lado. Com os “Talking Heads” a terem uma capa plastificada, até ao EP do Roberto Carlos com a humidade a levar a melhor. Há de tudo. De todas as épocas, de todos os tempos, para todos os gostos. Uma panóplia sem fim que atrai inúmeros clientes, mais que não seja pela curiosidade em tentar perceber se, naquele amontoar de discos pretos, não estará um seu, um que tenha vendido ou um que tenha cicatrizado a infância.

 

Uns largos passos à frente da banquinha do fado, está um senhor a passar música. Não é um “DJ” como os modernos, não. Este é um “bota discos”. E com orgulho. Vende a música que passa e capta a atenção até dos mais aluados. “Chefe, qual é a música?”, pergunta um transeunte interessado. “Se te dissesse terias de comprar. Como sei que não o vais fazer, não digo”, pronunciou-se de forma austera.

 

A música era de Joe Cocker, “Don’t You Love Me Anymore?”. A agulha passava e a música ia-se entranhado mais. Ela e a sua letra melancólica e apaixonada. Envolve-nos e deixa-nos num universo ainda mais distante, de desilusões amorosas e arrufos com o amores que se julgam para a vida. Tal e qual Rob Fleming no premiado Romance de Nick Hornby, “Alta Fidelidade”. “Não há nada mais marcante do que o vinil. É tal e qual um álbum de fotografia em que conseguímos associar cada EP ou LP a pensamentos e acontecimentos que nos moldaram e nos marcaram certos - como é que hei de dizer - frames da vida”, afiançou num laivo de bom humor. A banda sonora da nossa vida pode ser encontrada numa caixa de plástico verde espojada no chão desta “Feira de Memórias”. Quem sabe? Existe sempre essa esperança quando a visitamos.

 

Jorge Fonseca não tem uma banca. Não tem de chegar às 5h da manhã para arranjar lugar, não arrisca ter de discutir por um palmo de chão e muito menos fica com as pernas dormentes das longas horas sentado num banco de madeira ou numa cadeira de plástico ressequida pelo sol. Jorge tem uma loja. Uma lojinha de esquina que abre as hostes para um série de outras lojas que vendem material novo. Que destoam. Menos esta. Tem o seu encanto, a sua especificidade. O tempo passa por ela de uma forma singular. Os relógios de bolso acentuam o passar de mais um minuto e os de pulso vulgarizam os segundos num apressado passar de ponteiros.

 

Relógios e canetas, artigos de coleção que são valorizados por quem gosta de ter. Por ter. Estes têm a particularidade de já ter tido outras mãos, outros pulsos, outras vidas. “Não vendo pedaços de mim e muito menos da minha história! Dessa não me consigo desprender”, garantiu. “Para mim isto é um negócio. Sei que cada caneta e relógio tiveram outros donos, com profissões e hábitos distintos, mas a mim pouco me interessa”. Para Jorge é o dinheiro que movimenta tudo, o que faz a canetas assentarem a sua tinta num papel ou os ponteiros do relógio girarem sem parar. “Lembranças? Isso é uma forma de tentarem encarecer o produto”, disse enquanto pegava numa das canetas em destaque. “Estás a ver esta caneta? Quem me vendeu disse que tinha pertencido ao Adelino da Palma Carlos, o ex-primeiro ministro. E como posso eu acreditar nisso? Nem impressões digitais tinha. É só uma forma de tentar rentabilizar o produto, associando-o a gajos da história e a lembranças míticas”, acrescentou rindo à gargalhada. Rio-me com ele. Há um momento de pausa em que cada um de nós se lembra de acontecimentos relacionadas com tentativas de inflação forçadas. Nenhum as partilha. Acelero o passo para subir a rua íngreme quando a conversa não consegue ficar parada e desata a fluir novamente. “Se me perguntares se quem me compra valoriza mais o produto se tiver um lado romântico de uma história... Talvez! É uma mistura disso e da falta de dinheiro para mais...Mas eu agradeço, claro!”, exclamou enquanto me deixava finalmente prosseguir o caminho.

 

Quase no topo da feira, como quem fez o caminho descendente pela direita e voltou a subir pela esquerda; existe uma banca que chama a atenção. O toldo branco com um ar senhoril deixa antever um furor de artigos novos que nada têm em comum com os espírito do local. Por outro lado, o cheiro a ferrugem que paira a 5 metros de distância, torna todas as asserções turvas. Um misto de sentimentos atrai as pessoas para a banca. Quando o suspense da lugar à curiosidade, aproximamo-nos. Comboios, caminhos de ferro, carros, pistas de carros. Todo um quarto de uma criança dos anos 70, 80 ou mesmo 90, ali, assente em três mesas e uma lona que as cobria. Todo um imaginário confinado num cheiro, numa imagem, em vários objectos. O retratar dos tempos idos e a esperança de quem passa em fazer deles a sua máquina do tempo. Voltar a ser o maquinista das três carruagens da Märklin e de uns carris que voltavam sempre ao mesmo sítio: a nossa infância. Quem os vende sabe o que faz. Não está ali ao engano. Esta banca não poderia existir em mais lugar nenhum, tinha de ser aqui, no Campo de Santa Clara, na Feira da Ladra.

 

Num passo descansado de quem vive em sossego, aproxima-se com um ar paternalista bucólico o vendedor. Vítor, 53 anos feitos há duas semanas, tez morena, calvice condizente com a idade, óculos caídos no peito e traz consigo um pano que usa para limpar o óleo das rodas dos carros e comboios que vende. “Faço isto há muito tempo”, returque antes de me deixar prosseguir a conversa. Sabe cada tamanho de cada miniatura e sente as falsificações à distância. Nunca teve a pretensão de fazer mais nada. “Fui militar em tempos, mas perdia mais tempo a observar os veículos do que focado nas missões”.

 

Labiríntico. É esta forma que a Feira é descrita pelo orgulhoso vendedor de comboios. “As pessoas vêm à procura do que lhes aparece à frente. Poucos são os que querem algo específico. Gostam de vaguear, acho eu. É esse o encanto da nossa feira!”. Pede-me desculpa porque tem de ir atender 3 estrangeiros que têm a vontade de levar tudo mas que no fim acabam por levar apenas uma réplica de um Ferrari da Burago, algo que, como o próprio balbuciou antes de os ir atender, o irrita solenemente. “Para isso iam ao Toy’s ur us! Isto aqui é para quem ama”, exclamou irritado.

 

Depois de 5 minutos de diálogo com os turistas, lá retomou a sua posição e adiantou a história. Acendeu de forma quase que instintiva e automática um cigarro. Olhou para ele enquanto ardia e abanou a cabeça em sinal de desaprovação. “Está a ver isto? Isto é um vício. Horrível! Um dia ainda me vai matar, eu sei... Mas sabe o que é que isto me faz lembrar? A Feira da Ladra. Isto é mesmo um vício. Tanto para nós que vendemos como para quem vem comprar. Não passam uma Terça ou Sábado sem cá vir passear e ver o que há de novo”, constatou. Os artigos expostos são todos de coleção. Uma coleção para ser brincada, não daquelas que se fecham num expositor de vidro, num caixa de cartão ou que ficam paradas em cima de uma estante sem que ninguém possa sequer respirar em para cima delas. Todos estes carros e comboios já andaram quilómetros e quilómetros. Todos eles já ouviram gargalhadas, caíram de locais inóspitos e perderam tinta. Há marcas de guerra que trazem consigo reminiscências de cada lugar, de cada dedo com unhas roídas que os pilotou, da volta ao mundo em 2 metros quadrados.

 

“Este carro é especial. Está todo desgastado da porrada que levou. É uma miniatura do carro do James Bond”. Não foi conduzido pelo Sean Connery, certamente. “Tem uma história engraçada e foi em parte por isso que o decidi comprar. Cativou-me, para ser mais exacto”, disse enquanto a sua mente vagueou automaticamente para o local e o momento de quando o comprou. “Foi em 1990 e troca o passo numa loja em Benfica, na Bambi. Uma loja com muitos brinquedos. Quando lá cheguei perguntei ao homem atrás do balcão o que tinha de coleccionismo, tanto de miniaturas de carros como de comboio. Disse-me que nada. Quando ia a sair da loja, sou parado pelo dono. Não me deixa sair porque ouviu a conversa ao longe. Diz-me que tem um carrinho que era seu e que o tinha usado muito na infância mas que já não lhe dava uso e queria vender. Era o Aston Martin DB5”. Por esta altura já os seus olhos semicerravam enquanto abanava a cabeça com toda a nostalgia patente em quem tem mais de meio século vivido. “O carro do James Bond! Do 007! Aquele que chamava as miúdas só de passar a 20 à hora. Então quando o senhor da loja me começou a contar que já tinha caído de um prédio de 7 andares e só tinha riscado a pintura, além de ter sido o avô a dar-lhe como prenda de Natal, avancei logo para a compra. Nem hesitei”.

 

No fundo, não resistimos. É mais forte que nós ouvir as recordações que um simples carrinho de brincar nos traz. Um carrinho que na nossa mão é um Aston Martin DB5 com o tamanho real e nós o Sean Connery no Goldfinger. De repente estamos em 1964, usamos um fato preto, levantamos a sobrancelha a 60 graus e temos a Shirley Bassey a cantar atrás de nós. Ao ouvido. Tudo enquanto fazemos “vrum-vrum” com o carro no chão do quarto. Ou o atiramos de um prédio de 7 andares.

“Paguei 500 escudos. Uma fortuna, para a altura! Hoje são 2,5€ e tenho-o à venda por mais de 50€. Venho para aqui há 10 anos e ainda não o vendi. Talvez porque não queira, não sei. Sempre que vejo que alguém está interessado, subo o preço 10€. Uma parvoíce, verdade. A única razão que encontro não se explica muito bem. Afeiçoei-me. A ele, à história, a tudo. E isso sim, não tem preço. É mágico”, replicou suspirando.

 

E é mágico, sim. Desde a envolvência, ao imaginário revivido, às recordações trocadas e às lembranças trazidas. Tudo faz sentido na Feira da Ladra, todas as bancas têm vida e foram vida. Em cada vendedor há uma história, em cada objecto jaz um turbilhão de momentos. E é nesta “Feira de Memórias” que encontramos o que já foi nosso, o que gostávamos que tivesse sido, o que nos marcou. Aqui, no Campo de Santa Clara, junto ao Panteão Nacional, não são as ilustres figuras que se erguem; não é Manuel Arriaga que nos traz a 1ª República; não é Humberto Delgado que nos faz não ter medo ou Guerra Junqueiro que nos relembra do “Bom Tempo D’Outrora”. Não. Tudo isso é feito por nós, neste cantinho sem ordem, com vista para o rio e o Panteão em fundo.

 

O dia não é longo, pelas 16h já são poucos os resistentes. A vida é dura para quem começa o dia às 5h da manhã. No regresso a casa e na passagem novamente pelo túnel que nos trouxe a este “Admirável Mundo Novo”, a carteira pode não ir tão cheia quanto se gostaria e o carro quase tão pesado como quando veio, mas uma coisa é certa, os vendedores de memórias, saem todas as Terças e Sábados mais ricos. Ricos daquilo que não se vê mas se sente. Um lugar comum carregado de verdade e que não dá margem a outras interpretações. Quanto a quem compra, volta sempre. Movido pela incerteza, pelo desejo e pela curiosidade. É todo o século XX preso num quilómetro, estendido em dezenas de bancas e guardado em várias caixas. Aqui, quem vem volta e quem está fica. Assim é no Campo de Santa Clara, 1100-472 Lisboa. Uma “Feira de Memórias” sem igual, que cativa todos os que por lá passam.

 

António Barradas

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Sei que este tópico não tem tido atenção nenhuma e, muito possivelmente, ninguém se interessa. Contudo, e aproveitando o último post que fiz no tópico do jogo de Portugal, deixo aqui isto para discussão:

 

O jornalismo televisivo não é tão mau assim. Temos bons profissionais e segmentos muito bons. Aliás, temos várias reportagens nomeadas, como é exemplo a do "Balneário". A CMTV, para mim, não é para ser tida em conta. Representa uma mediocridade - por vezes bem portuguesa - que não quero qualificar como jornalismo. A RTP, a título de exemplo, tem investido cada vez mais e melhor. Não só no design, mas numa diversificação inteligente. Tens um canal "recente" que tem surtido o efeito desejado e está a surpreender-me. Falo d'ABOLA TV. Gajos com talento mediano mas uma programação muito diversificada e que abrange vários quadrantes do desporto. É de saudar este tipo de iniciativas.

 

No jornalismo de imprensa, há muito bons profissionais. O Público decaiu um bocado, mas o DN está a querer dar a voltar por cima e o Expresso - à parte de ser elitista - tem muita qualidade. Fazem-se peças muito boas, com critério e interessantes ângulos de abordagem - um problema bicudo no jornalismo português em geral, concordo. Falta interesse do público em geral e mais divulgação. Na imprensa desportiva, concordo contigo. É demasiado formatada para agradar e criar quezílias inúteis. O grande problema da imprensa desportiva é não haver lugar para os mais novos. São os "donos do tacho" que mandam e fazem tudo isto girar. Um cliché, eu sei. Contudo, é pior no que concerne ao desporto. Há jornalistas que só têm uma mini-área específica de trabalho (que não exige grande esforço ou trabalho árduo) e que ganham 3000 euros. É ultrajante. Sabem o que acontece aos novos nomes do jornalismo português que tentam sobressair na área? Contratos a prazo de 6 meses (que só podem prefazer 1 ano e meio) e nunca ascendem aos quadros. É por esse mesmo motivo que não há inovação, não há diversificação e a qualidade carece. Essa é a razão chave de tudo isto: os "lobos velhos" que não saem e os jovens talentos que acabam a fazer cobertura do Distrital de Salto ao Eixo. É triste. O que se passa no jornal ABOLA então, é de bradar aos céus.

 

Claro que há muito lixo. Demasiado, até. Agora, não é tão mau como o pintas. A nível de ciberjornalismo, por exemplo, estamos à frente de muitos países europeus que deviam ser mais desenvolvidos que nós. Há qualidade em Portugal e há coisas boas a serem feitas. Temos de deixar de ser tão críticos e olhar para o lado bom que, por vezes, também existe.

 

Agora, se o futuro está assegurado? Gostava de te dizer que sim, que há essa hipótese. Mas qual é o gajo são que quer trabalhar de sol a sol, depois de ter investido milhares de euros e 16 anos de uma vida a estudar, para ganhar 600 e tal €? Dessa forma perder-se-ão inúmeros talentos e o jornalismo virá ainda mais para a mó de baixo.

 

tl; dr - O jornalismo português não é assim tão mau, apesar de ter muitas falhas. Há bons nomes e bons projectos. Fim.

 

Desculpem o testamento, mas é um tema do qual me apraz muito falar. :mrgreen:

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Obrigado pela partilha, Samurai!

 

Finalmente o bom nome do jornalismo a ser, parcialmente, restabelecido! Enorme furo, enorme escândalo. Era bom que se discutisse isso.

 

Ah e btw, é impossível existirem jornalistas em Portugal que escrevem mal a própria língua. Dá-me sempre umas cólicas renais...

 

"João Soares acordou e decidiu bater nos cronistas que não gosta"... f*da-se, como é possível este erro grosseiro? O i está cada vez pior.

Editado por nopla

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por acaso sempre foi daquelas coisas que me fez confusão. um gajo até entende numa ou outra notícia ou artigo que tenha escapado algo mas por alguma razão isso cá acontece constantemente :lol: há certos indivíduos que eu nem sei como é que têm emprego.

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Descobri isto agora!

 

Sou aluno de Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Quanto ao jornal I, e não totalmente relacionado com o jornal, no semestre passado fiz um trabalho sobre o António Ribeiro Ferreira (no âmbito da cadeira de Direito da Comunicação) e bem... Duro nas palavras é dizer pouco.

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Sou aluno de Jornalismo na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Quanto ao jornal I, e não totalmente relacionado com o jornal, no semestre passado fiz um trabalho sobre o António Ribeiro Ferreira (no âmbito da cadeira de Direito da Comunicação) e bem... Duro nas palavras é dizer pouco.

Tenho uns 4 gajos no meu mestrado que vieram daí!

 

btw, apesar de antigo, vale sempre a pena ouvir.

 

Reportagem: A cidade do baú

http://www.tsf.pt/programa/reportagem-tsf/emissao/a-cidade-do-bau-959811.html

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O ContraPonto é um programa de televisão da minha turma de Ciências da Comunicação da Faculdade de Letras da UP, que vai estrear dia 27 de maio. Tudo o que peço é um like na página e que sigam os nossos conteúdos. Obrigado :biggrin:

 

ContraPonto

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