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Pablo Honey

(Ajuda) Editoras de livros

Publicações recomendadas

Já nem estava a ir por aí. Se bem que há livros por aí de gente famosa que valha-me nossa... Há uns tempos folheei um romance histórico de um jornalista da RTP e aquilo não tem sumo nenhum, as personagens eram meros peões dos acontecimentos e não contribuíam em nada para estes, uma das personagens até falava como um tio de Cascais...

 

Aliás, isto é recorrente em romances históricos de autores portugueses.

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Tenho que vir aqui fazer um post mais detalhado, mas como é que alguém que escreve "aldrabisse" espera ter uma proposta para publicar que não seja scam?

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Tenho que vir aqui fazer um post mais detalhado, mas como é que alguém que escreve "aldrabisse" espera ter uma proposta para publicar que não seja scam?

 

Ficarias surpreendido então meu caro :)

A coisa que mais me alertam sempre por acaso é dos erros ortográficos e já me disseram para ter bem atenção nisso.

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Pá, eu vejo o teu nível de escrita aqui, num nível mais primário de sintaxe e concordância, e até me assusto. E já sei, não é a mesma coisa, blablabla, mas quem comete erros de concordância aqui vai fazê-lo em qualquer registo.

 

Ah, e também não acredito que quem cometa erros ortográficos de maneira regular possa ser escritor do que quer que seja. Pelos mais diversos motivos: se calhar até mais por motivos implícitos do que explícitos.

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Tenho uma conhecida que editou um livro há tempos. Só sei alguns detalhes que foi o não ter que pagar nada pela edição (ou se teve foi mesmo pouco) e o ter que fazer a revisão do livro ela própria. Digamos que o livro es-tá cheio de erros. E tem um preço de mercado de...16€.

Editado por Longineu

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Pá, eu vejo o teu nível de escrita aqui, num nível mais primário de sintaxe e concordância, e até me assusto. E já sei, não é a mesma coisa, blablabla, mas quem comete erros de concordância aqui vai fazê-lo em qualquer registo.

 

Ah, e também não acredito que quem cometa erros ortográficos de maneira regular possa ser escritor do que quer que seja. Pelos mais diversos motivos: se calhar até mais por motivos implícitos do que explícitos.

 

Depende imenso da forma como escrevas e queiras escrever. Eu nos últimos 2/3 anos tenho trabalhado imenso quer na forma como escrevo quer na forma como leio. Muito também para mudar muito dos hábitos que vêm de trás. E não me ajudou ter deixado a faculdade. A questão é que tudo tem a ver com empenho. E com um bom corrector ortográfico :mrgreen: Mas explicando melhor:

 

Eu tenho graves problemas na parte da ortografia, o que me mete numa desvantagem clara. A questão é que isso é tudo trabalhado e pode vir a ser corrigido. Eu não te disse que quero editar algo já ou que o possa fazer. Aliás, há um ano atrás tive proposta para editar uma série de poemas e recusei, exactamente por não achar estarem de acordo com o que eu quero. Eu tenho andado a fazer alguns progressos dentro da área, mas sim, a forma como escrevo aqui pode indicar qualquer coisa.

 

2ª parte: empanco imenso na escrita descritiva e redundante. Que é um problema grave de quem não sabe escrever. Estar duas e três páginas na mesma palha, sempre a não sair do sitio. Daí sempre me ser mais fácil escrever texto dramático (que dentro de si têm um montão de características, eu sei), não prende tanto ao nível descritivo (e sim, há grandes escritos que não têm tanto detalhe a nivel descritivo).

 

Simplesmente, uma coisa é fazer-te um post aqui em que estou a cagar no assunto e muitas vezes dou 5 ou 6 chutos em tudo o que é gramatica (e não ajudou até ao secundário nunca ter tido aulas de português a sério), outra coisa é quando te tento escrever algo, que muitas vezes paro, leio, tento trabalhar sentidos e tudo mais. Possivelmente tens razão, a forma como escrevo vai ser um enorme passo atrás para entrar na área. Mas quando leio algo que foi escrito a 3 ou 4 anos atrás e algo que escrevi mais recentemente tens diferenças notórias. Mas acredito que de fora pouco ou nada se veja e que, no dia-a-dia, continue a não cuidar a forma como escrevo. E, se há coisa que nunca faria, era editar um livro sem alguém que realmente perceba do assunto me fizesse uma revisão, porque se há coisa que sei, é que muitas vezes exprimo mal o que quero. Felizmente, é outra coisa que tenho trabalhado imenso.

 

Mas ya, há cerca de 99% de chances de nunca ir dar nada e de eu realmente nunca sequer ter um livro lido por mais de 100 pessoas. Mas também há uma infima chance do contrário. E sim, cai-me lá que não sei escrever, que cometo erros básicos e tudo mais, quando provavelmente nunca leste ou estive envolvido num projecto que tenha estado fora daqui, principalmente no último ano onde tenho tido uma incidência muito maior sobre o mundo das artes. E isto não é para dizer que não concordo ou deixo de discordar do que dizes, simplesmente que vires com essa arrogância desmedida era bastante desnecessário.

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Ler Raymond Carver, quase toda a sua obra - alguns contos mas principalmente os seus poemas (e um livro que se chama Fogos e que tem uns ensaios sobre escrita), mudou a minha ideia de pensar a escrita e também o que leio e como leio. Não sei explicar bem porquê. Isto por causa das descrições.

 

Fear of seeing a police car pull into the drive.

Fear of falling asleep at night.

Fear of not falling asleep.

Fear of the past rising up.

Fear of the present taking flight.

Fear of the telephone that rings in the dead of night.

Fear of electrical storms.

Fear of the cleaning woman who has a spot on her cheek!

Fear of dogs I've been told won't bite.

Fear of anxiety!

Fear of having to identify the body of a dead friend.

Fear of running out of money.

Fear of having too much, though people will not believe this.

Fear of psychological profiles.

Fear of being late and fear of arriving before anyone else.

Fear of my children's handwriting on envelopes.

Fear they'll die before I do, and I'll feel guilty.

Fear of having to live with my mother in her old age, and mine.

Fear of confusion.

Fear this day will end on an unhappy note.

Fear of waking up to find you gone.

Fear of not loving and fear of not loving enough.

Fear that what I love will prove lethal to those I love.

Fear of death.

Fear of living too long.

Fear of death.

Editado por Mayday

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Se fizesse esse texto na escola, tinha 0 e levava um recado para casa.

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Os escritores mais interessantes são os que tiveram zero na escola e levaram recados para casa.

Editado por Mayday

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Sendo assim, ainda sou novo. Vou a tempo de ter uma carreira brilhante.

Editado por Almeno

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Isto é como no desenho. Há quem queira ser pintor mas só saiba as regras da casa com a árvore e o sol, porque o contrário dava zero e um recado para casa. E mostrar isto aos 30 não surpreende ninguém. Nem vai surpreender por mais que mudes as cores do desenho.

 

Depois há os outros.

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Mano Mayday, não desistas meu. Se curtes escrever, não desistas.

 

Eu pessoalmente, tenho confiança naquilo que escreve, sendo que sou também o meu maior crítico. Reconheço a qualidade da minha escrita, no entanto não sei se é boa o suficiente para ser publicada em moldes que não tenha de pagar dinheiro que não tenho. Porque acho sinceramente que aquilo que escrevo é melhor que muitas coisas que vejo publicadas e até mesmo nos top sellers.

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Gosto de escrever mas eu fui feito para decorar e inventar formas de dar corpo e voz ao que os outros escrevem.

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Se fizesse esse texto na escola, tinha 0 e levava um recado para casa.

:heart:

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http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/o-homem-sonha-a-chiado-editora-publica-e-a-obra-nasce

 

Isto saiu ontem e lembrei-me deste tópico. Fiquei de vir cá escrever e foi-me passando.

 

Como alguns sabem estou dentro do meio. Trabalho em freelancing para uma editora, estou a concluir um ciclo de estudos no assunto, enfim.

 

Dito isto, o mercado editorial português é muito diferente dos de países de maior dimensão. Cá não existe a figura do agente literário, o país é pequeno, e e em função disso os leitores também não são muitos. Simultaneamente, os leitores têm por hábito congregar-se em determinado tipo de leituras.

 

É isto que editoras como a Chiado entenderam. Descobriram que as pessoas estão mais interessadas na ilusão de serem autores, "escritores", do que em serem leitores. Noutras áreas rapidamente nos apercebemos da nossa própria inaptidão comparativamente aos artistas. Boa parte de nós é inapto ou analfabeto da guitarra, ou não tem sequer pretensão de fazer o que o Ronaldo faz com a bola. Mas os escritores... só escrevem. E todos sabemos escrever.

 

O que não é evidente é que a escrita séria, a escrita que tem pretensão de ser mais do que um fogacho de tempos livres, não é um desígnio, não é um raio de sorte. Como a generalidade dos talentos, aliás. Mas na escrita as pessoas esquecem-no mais facilmente.

 

E é por isso que digo que não pode dar erros ortográficos regulares quem ambiciona escrever de forma séria. O problema não está no conteúdo: é claro que os Irmãos Karamazov continuarão a ser uma grande obra com duas ou três patacoadas na língua, um ou dois acentos em que ficou o shift por premir, três ou quatro formas verbais em que o hífen, intrometido, se meteu no meio e não devia. O problema é que para escrever os Irmãos Karamazov, ou para escrever qualquer outra obra de pretensão e valorização estética, é preciso ler muito. E quem lê muito não dá erros que não sejam fortuitos ou ocasionais.

 

Não me tomem mal, eu também me engano, também vou rever e percebo que me distraí naquela vírgula ou naquela letra. Mas como leitor regular é praticamente impossível que dê erros regulares. Reparem que isto não é um elogio de mim mesmo, é uma constatação. Perdi só muito tempo a fazer uma coisa, o que me trouxe alguma perícia. Não é especialmente impressionante que alguém que passe o dia a fazer flexões consiga fazer cem seguidas, sem paragens. É só uma consequência de pouco mais que fazer, de obstinação.

 

Dito isto: quem não é leitor regular, jamais será bom escritor. E quem dá erros regulares não pode ser leitor regular.

 

 

Outro assunto: a publicação. O mercado em Portugal está viciado. Existem dois eucaliptos editoriais, Leya e Porto Editora. Todas as chancelas que fizeram fama e dinheiro nos anos 90 tendem a desaparecer ou a ser absorvidas: Presença, Assírio & Alvim, Caminho, Asa, enfim, já são só tudo chancelas dos dois nomes que disse em cima.

 

Abaixo disso, sobrevivem dois tipos de editoras: de nichos e pay-per-publish.

 

As primeiras quase não publicam prosa de ficção. Boa parte delas até já publica sem ISBN, em lojas do circuito, são autores que são conhecidos de meia-dúzia, quase todos que se vão destacando pela poesia ou pelo ensaio. Companhia das Ilhas, Douda Correria, Do Lado Esquerdo...

 

As segundas são negócios parecidos ao da Chiado, mas a Chiado foi a pioneira. É certamente a editora que mais dinheiro jamais fez neste país, mas desengane-se quem pensa que foi à custa dos livros vendidos. Vide em cima, nesse artigo, aliás. Os outros fazem um negócio parecido, mas à escala. E é possível, num mundo editorial perverso como o que existe, fazer negócio transparente neste modelo... não vendendo sonhos nem pretensões, fazendo um serviço sério de revisão, apoio editorial e impressão, e cada um publica o que quer. Contudo, lembrem-se que são empresas, que pretendem lucrar.

 

Pois é, mas e agora, o que sobra? Os grandes ficcionistas estão todos ao serviço das duas grandes chancelas que referi em cima. Se planeiam enviar originais para lá, esqueçam. Nem sequer vão abrir, e podem enviar um inédito do Saramago, ficará à porta na mesma.

 

Dito isto, há dois caminhos. Os concursos literários são o mais óbvio. Se ignorarmos a probabilidade de ser igualmente um sistema viciado, em que os vencedores já estão anunciados antes sequer do prémio ser aberto, é o sistema mais democrático e transparente de todos. O outro é fazerem caminho meio adentro. Que é como quem diz: construírem um currículo literário, até chegarem a um ponto em que os grandalhões vão ler o vosso original porque vocês até têm formação académica, publicaram um paper aqui ou ali, ou até vêm recomendados por um tipo publicado e com renome, que vocês até conheceram por um livreiro ou editor em comum.

 

Esta última é bem mais complicada, mas é só consequência directa de um país em que, de forma geral, quem não conhecer o conhecido do outro, por mais competente que seja, nunca se safará. Esta é a triste realidade. E como o poder instituído assenta o rabo de forma demasiado pesada e confortável no trono, a força de meia-dúzia de papalvos nunca será suficiente para o demover.

 

Desengane-se, contudo, quem quer pôr a culpa toda no sistema. 99% das pessoas que escreve e quer publicar não tem mesmo consciência de nada: do mundo editorial, do universo literário semelhante, ou sequer da língua. E isto traduz-se em obras manifestamente mal preparadas, frágeis como uma pena, que nem sequer merecem o tempo de espera do .doc ser aberto. E assim é complicado meter a culpa nos responsáveis dessas grandes editoras, especialmente quando as pressões para vender livros e fazer dinheiro com os autores são do tamanho do mundo.

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Chandler, tu que tens algum conhecimento da área. Quão fazível seria criar uma editora neste momento?

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Têm surgido bastantes pequenas editoras. Tenho visto dois tipos: as que apostam em autores Portugueses contemporâneos, mais da poesia, e outras que trazem traduções inéditas, pequenas coisas que faltam no mercado.

 

Há uns anos todas as pequenas editoras que apareciam com um bom conceito eram compradas pela Leya.

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Chandler, tu que tens algum conhecimento da área. Quão fazível seria criar uma editora neste momento?

A parte logística e legal não será complicada. Tens de investir uns euros, não muitos, nada de especialmente desajustado. O grande problema é a a distribuição e os contactos, coisas que, curiosamente, estão relacionadas.

 

1) Quem vais publicar? Tens algum nome conhecido da praça, mesmo que do circuito, para apresentar a editora e potenciar logo a difusão do nome? Não falo do Lobo Antunes, falo, sei lá, de um nome qualquer minimamente difundido da poesia, daqueles que em condições normais vendem nas grandes livrarias. A Língua Morta chegou-se à frente com o Vasco Gato, por exemplo;

 

2) Quem são os teus contactos? Conheces alguém que te meta a fazer apresentações em sítios públicos? Conheces alguém que faça a distribuição dos teus livros em grandes livrarias? Conheces alguém que te apresente às pessoas certas? Vou ao mesmo exemplo: a Língua Morta é da cabeça, das mãos e da casa do DVP, nome mais que conhecido do meio, e mesmo assim duvido que dê um tostão. É tudo carolice.

 

3) Que modelo de negócio vais ter? Repara que fazer dinheiro com os autores é muito comum, diria que fácil até: é o que todas as editoras que profundem o modelo Chiado fazem. Mas imagino que queiras publicar coisas que triunfem pela qualidade dos textos, pela inovação do que queres publicar. Se sim, onde vais arranjar os autores? Ou melhor, como vais conseguir holofotes, por teres convencido as pessoas do que o que planeias publicar é de facto pertinente?

 

 

e agora também

 

as únicas editoras que sobrevivem são as editoras de facebook. Qualquer editora séria que apareça é afundada ou comprada

Existem editoras de Facebook? Não sei mesmo do que falas, consegues dar um ou dois exemplos?

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É sempre bom ler coisas escritas por malta da área para perceber como tudo funciona.

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http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/o-homem-sonha-a-chiado-editora-publica-e-a-obra-nasce

 

Isto saiu ontem e lembrei-me deste tópico. Fiquei de vir cá escrever e foi-me passando.

 

Como alguns sabem estou dentro do meio. Trabalho em freelancing para uma editora, estou a concluir um ciclo de estudos no assunto, enfim.

 

Dito isto, o mercado editorial português é muito diferente dos de países de maior dimensão. Cá não existe a figura do agente literário, o país é pequeno, e e em função disso os leitores também não são muitos. Simultaneamente, os leitores têm por hábito congregar-se em determinado tipo de leituras.

 

É isto que editoras como a Chiado entenderam. Descobriram que as pessoas estão mais interessadas na ilusão de serem autores, "escritores", do que em serem leitores. Noutras áreas rapidamente nos apercebemos da nossa própria inaptidão comparativamente aos artistas. Boa parte de nós é inapto ou analfabeto da guitarra, ou não tem sequer pretensão de fazer o que o Ronaldo faz com a bola. Mas os escritores... só escrevem. E todos sabemos escrever.

 

O que não é evidente é que a escrita séria, a escrita que tem pretensão de ser mais do que um fogacho de tempos livres, não é um desígnio, não é um raio de sorte. Como a generalidade dos talentos, aliás. Mas na escrita as pessoas esquecem-no mais facilmente.

 

E é por isso que digo que não pode dar erros ortográficos regulares quem ambiciona escrever de forma séria. O problema não está no conteúdo: é claro que os Irmãos Karamazov continuarão a ser uma grande obra com duas ou três patacoadas na língua, um ou dois acentos em que ficou o shift por premir, três ou quatro formas verbais em que o hífen, intrometido, se meteu no meio e não devia. O problema é que para escrever os Irmãos Karamazov, ou para escrever qualquer outra obra de pretensão e valorização estética, é preciso ler muito. E quem lê muito não dá erros que não sejam fortuitos ou ocasionais.

 

Não me tomem mal, eu também me engano, também vou rever e percebo que me distraí naquela vírgula ou naquela letra. Mas como leitor regular é praticamente impossível que dê erros regulares. Reparem que isto não é um elogio de mim mesmo, é uma constatação. Perdi só muito tempo a fazer uma coisa, o que me trouxe alguma perícia. Não é especialmente impressionante que alguém que passe o dia a fazer flexões consiga fazer cem seguidas, sem paragens. É só uma consequência de pouco mais que fazer, de obstinação.

 

Dito isto: quem não é leitor regular, jamais será bom escritor. E quem dá erros regulares não pode ser leitor regular.

 

 

Outro assunto: a publicação. O mercado em Portugal está viciado. Existem dois eucaliptos editoriais, Leya e Porto Editora. Todas as chancelas que fizeram fama e dinheiro nos anos 90 tendem a desaparecer ou a ser absorvidas: Presença, Assírio & Alvim, Caminho, Asa, enfim, já são só tudo chancelas dos dois nomes que disse em cima.

 

Abaixo disso, sobrevivem dois tipos de editoras: de nichos e pay-per-publish.

 

As primeiras quase não publicam prosa de ficção. Boa parte delas até já publica sem ISBN, em lojas do circuito, são autores que são conhecidos de meia-dúzia, quase todos que se vão destacando pela poesia ou pelo ensaio. Companhia das Ilhas, Douda Correria, Do Lado Esquerdo...

 

As segundas são negócios parecidos ao da Chiado, mas a Chiado foi a pioneira. É certamente a editora que mais dinheiro jamais fez neste país, mas desengane-se quem pensa que foi à custa dos livros vendidos. Vide em cima, nesse artigo, aliás. Os outros fazem um negócio parecido, mas à escala. E é possível, num mundo editorial perverso como o que existe, fazer negócio transparente neste modelo... não vendendo sonhos nem pretensões, fazendo um serviço sério de revisão, apoio editorial e impressão, e cada um publica o que quer. Contudo, lembrem-se que são empresas, que pretendem lucrar.

 

Pois é, mas e agora, o que sobra? Os grandes ficcionistas estão todos ao serviço das duas grandes chancelas que referi em cima. Se planeiam enviar originais para lá, esqueçam. Nem sequer vão abrir, e podem enviar um inédito do Saramago, ficará à porta na mesma.

 

Dito isto, há dois caminhos. Os concursos literários são o mais óbvio. Se ignorarmos a probabilidade de ser igualmente um sistema viciado, em que os vencedores já estão anunciados antes sequer do prémio ser aberto, é o sistema mais democrático e transparente de todos. O outro é fazerem caminho meio adentro. Que é como quem diz: construírem um currículo literário, até chegarem a um ponto em que os grandalhões vão ler o vosso original porque vocês até têm formação académica, publicaram um paper aqui ou ali, ou até vêm recomendados por um tipo publicado e com renome, que vocês até conheceram por um livreiro ou editor em comum.

 

Esta última é bem mais complicada, mas é só consequência directa de um país em que, de forma geral, quem não conhecer o conhecido do outro, por mais competente que seja, nunca se safará. Esta é a triste realidade. E como o poder instituído assenta o rabo de forma demasiado pesada e confortável no trono, a força de meia-dúzia de papalvos nunca será suficiente para o demover.

 

Desengane-se, contudo, quem quer pôr a culpa toda no sistema. 99% das pessoas que escreve e quer publicar não tem mesmo consciência de nada: do mundo editorial, do universo literário semelhante, ou sequer da língua. E isto traduz-se em obras manifestamente mal preparadas, frágeis como uma pena, que nem sequer merecem o tempo de espera do .doc ser aberto. E assim é complicado meter a culpa nos responsáveis dessas grandes editoras, especialmente quando as pressões para vender livros e fazer dinheiro com os autores são do tamanho do mundo.

 

:handclap:

a bold...eu não sou um leitor muito assíduo. Embora ache que esteja longe de escrever mal (bem pelo contrário), diria que me falta essa cultura e sinto que é exatamente isso que me diferencia de um "bom" escritor. Leio um ou outro texto solto, sou fã do Peixoto e do Lobo Antunes, mas não vou a correr comprar os livros. E quiçá, talvez seja isso que me diferencia de meter uma vírgula no sítio certo. Mas bem, também do pouco que sei existem alguns autores nacionais e internacionais que descobrem uma quantidade de pérolas nas revisões, algumas com direito a insuficiente se estivéssemos nos ditados da primária. Estou certo que já deves ter apanhado algumas coisas interessantes.

 

Esse artigo só me lembrou a minha mãe e irmã...

Estão a tentar pela Chiado a edição de um livro e bem, nem vos conto nem vos digo. Talvez quando aquilo chegar ao fim eu falo por aqui da experiência. De qualquer forma, esse artigo tem algumas histórias bem piores.

Editado por jmopborba

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Chandler, já agora, qual a tua opinião sobre as editoras online, que praticamente deixam qualquer artista colocar o seu trabalho em e-book e que apenas vendem em formato físico após o comprador já ter efectuado a compra?

Editado por Maffu

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