pedritsh Publicado 30 Maio 2018 Li um conto do James Salter que fala sobre os dias seguintes a um homem tomar a decisão de desligar as máquinas que mantêm a mulher em vida, são dias de angustia e sofrimento, mas não pude deixar de pensar no sofrimento dos familiares que ficaram a cuidar do meu tio até ao fim. São vidas que se puserem em suspenso, numa angustia e desespero sufocante que duram até hoje, mesmo depois da sua morte. A verdade é que até chegar a morte, cuidamos, mas, nesta situação nada podemos fazer. É um falso cuidar. É que o cuidar, para quem está ligado às máquinas, é deixá-lo num centro hospitalar (o melhor que o nosso bolso puder pagar) e ir lá visitá-lo. E depois é esperar. Nestas situações não é só o doente que espera pela morte e isso, inevitavelmente, marca-nos a vida toda. Pergunto se isto é vida? É isto que penso. Compartilhar este post Link para o post
John Bonifácio Publicado 30 Maio 2018 E btw, a abertura parece-me claramente vir da convivência com situações ou processos mais delicados. Qual é a vossa experiência para também serem a favor da eutanásia, já agora ? Que direito temos de decidir sobre o sofrimento alheio? Como nos arrogamos a posição de juiz de quem já não vê a luz, a alegria? Como subentendeu o Saramago no excerto que colocaram aqui, a eutanásia não é uma discussão sobre a vida em geral, mas sobre a morte em particular. Não me lembro de nenhuma experiência pela qual tenha passado que me tenha levado a pensar desta forma. O que sei é que a mera ideia de me fazerem de mim um assassino emocional dos meus entes queridos sem que eu, ou alguém a quem a minha vida tenha sido cedida, nada possa fazer me aterroriza. Compartilhar este post Link para o post
John Bonifácio Publicado 30 Maio 2018 E btw, a abertura parece-me claramente vir da convivência com situações ou processos mais delicados. Qual é a vossa experiência para também serem a favor da eutanásia, já agora ? Que direito temos de decidir sobre o sofrimento alheio? Como nos arrogamos a posição de juiz de quem já não vê a luz, a alegria? Como subentendeu o Saramago no excerto que colocaram aqui, a eutanásia não é uma discussão sobre a vida em geral, mas sobre a morte em particular. Não me lembro de nenhuma experiência pela qual tenha passado que me tenha levado a pensar desta forma. O que sei é que a mera ideia de me fazerem de mim um assassino emocional dos meus entes queridos sem que eu, ou alguém a quem a minha vida tenha sido cedida, nada possa fazer me aterroriza. Compartilhar este post Link para o post
sepa Publicado 30 Maio 2018 O tema é mesmo muito difícil. Acredito que, mantendo-se esta tendência, acabe por vir a ser aprovada nos próximos anos. De qualquer das formas, parece-me também que não passa pelo atual PR. Sou contra mas tenho noção do quão problemática é a discussão. Deixo aqui um texto do Henrique Raposo que (com exceção do 3.º parágrafo do ponto I. - que é totalmente ao lado) apresenta um pouco da defesa do não. Não validei a informação nem os dados do ponto II. mas se tal acontece, a situação é mesmo dramática. Eutanásia: votar “não” pelo dever de salvar 28 mai, 2018 A maioria dos portugueses ainda não sabe o que se passa na Holanda e na Bélgica, dois países que legalizaram a eutanásia. O quadro é dramático, para usar um eufemismo. I. Em Portugal, a discussão sobre a eutanásia tem sido colocada ao contrário. Os defensores do sim, apoiados pela habitual onda mediática, consideram que uma pessoa tem liberdade para fazer o que quiser com a sua vida, logo tem o direito de pedir a morte ao hospital, como se a morte fosse uma operação médica como outra qualquer, como se “morte”, “morrer” e “matar” fossem meros conceitos técnicos ou médicos como “remover” ou “aspirar”. Mesmo que isto fosse verdade, mesmo que tivéssemos de aceitar que a morte é um direito, o argumento da liberdade esbarraria sempre no ponto central: o que interessa aqui não é quem quer morrer, mas sim quem se vê forçado a matar – os médicos e enfermeiros. O que interessa aqui não é o alegado direito a morrer, mas sim o dever de matar, que não pode existir. Por outras palavras, invocar o argumento da liberdade na eutanásia é falacioso, porque a eutanásia não é um suicídio normal. “Eu faço o que quiser com a minha vida” ou “sou eu quem escolhe a hora e o modo da minha morte” são argumentos para a defesa do suicídio, que é um acto total e radical de liberdade. A eutanásia não pode ser defendida nestes termos, porque a decisão final depende de um conjunto de médicos que tem de validar e executar a morte pedida. Ou seja, a eutanásia não é um acto de liberdade. Pelo contrário, é a usurpação da liberdade do outros (dos médicos e enfermeiros) em nome de um alegado direito à morte. Se não existe o dever de matar, também não existe o direito de morrer. E aquilo que está em jogo na eutanásia e no suicídio assistido é a transformação do suicídio num valor colectivo decorrente de um alegado direito a morrer. Um direito que importa matar à nascença. O ser humano terá sempre a liberdade radical para se matar, não pode é ter o direito de desviar o ónus do seu suicídio para outra pessoa ou para uma entidade colectiva e desresponsabilizadora. Ou seja, eu terei sempre a liberdade para me matar, não tenho é o direito de chamar os outros para o meu suicídio, não tenho o direito de exigir que me matem. Para me matar, eu terei sempre de fazer algo na solidão absoluta da liberdade: congregar coragem para o salto final. Ora, a eutanásia e o suicídio assistido são formas de evitar essa solidão e essa coragem inerentes à liberdade; são formas de desviar para terceiros o ónus e a coragem do acto. Pior: são formas de transformar um acto moral num acto médico e técnico isento de opróbrio. Não, o suicídio não pode ser um acto médico ou social. Um suicídio executado por terceiros é uma contradição nos termos, porque não existe um direito a morrer. Isto é verdade na eutanásia e no suicídio assistido, e continua a ser verdade no suicídio clássico. Se virmos uma pessoa no cimo da ponte prestes a dar o salto para o abismo, o nosso impulso moral é agarrá-la. Se virmos um homem no topo do edifício na pose clássica do suicídio, o nosso impulso é demovê-lo, o nosso dever é ir contra a sua vontade, contra a sua liberdade. Tal como escrevi no meu “Alentejo Prometido”, mostrar empatia por um suicídio em concreto (ou por todos) não determina a criação de um direito ao suicídio. Além da falácia do direito a morrer e do dever de matar, existe uma terceira falha no argumento da liberdade aplicada à eutanásia: quem pede para morrer dificilmente está na posse do seu livre arbítrio ou, no mínimo, a dor já lhe diminuiu o perímetro da liberdade. Será que tem validade uma decisão tomada debaixo da coação da dor? Será que é consciente uma escolha feita no limite da dor? Duvido. E, mesmo que seja consciente, cabe à sociedade não validar esse desespero. O desespero do acamado que pede eutanásia tem a mesma validade moral do desespero do suicida normal no cimo da ponte. O nosso dever é recusar o seu desespero. Se no cimo da ponte temos de tentar agarrá-lo, na cama do hospital temos o dever de lhe dar o melhor dos cuidados paliativos e da medicina da dor. II. Em Portugal, a discussão tem sido colocada ao contrário noutro sentido: a maioria dos portugueses ainda não sabe o que se passa na Holanda e na Bélgica, dois países que legalizaram a eutanásia. O quadro é dramático, para usar um eufemismo. Estamos a falar de milhares e milhares de eutanásias por ano. Estamos a falar do assassínio – sim, assassínio – de velhos com demência. Se são dementes, como é que podem assinar o consentimento? Estamos a falar do assassínio – sim, assassínio – de jovens com depressão e simplesmente cansados de viver. Estamos a falar do assassínio – sim, assassínio – de pessoas cegas, por exemplo. O quadro não é dramático, é abjecto: a cegueira e a depressão são usadas como justificações legítimas para a eutanásia. É este, de resto, o grande perigo de uma lei geral da eutanásia: abre um alçapão por onde tudo pode entrar. O que é “sofrimento insuportável”? E quem decide o que é “sofrimento insuportável”? É por isso que a eutanásia está a servir para centenas e centenas de famílias despacharem os seus velhos com demência ou com outras incapacidades. É por isso que jovens com depressão entram nos hospitais e são mortas porque estão com depressão. Ainda hoje há gente em Portugal que não acredita naquilo que estou aqui a dizer, mas os deputados que votarão não têm o luxo da negação. Os deputados de Portugal não têm o luxo de pactuar com um conceito de direitos humanos que assenta apenas na autonomia e na perfeição corporal ou mental. Os defensores radicais da eutanásia assumem que uma vida humana só pode ser vivida com total autonomia corporal ou mental; acham que a nossa dignidade está dependente da saúde e da autonomia corporal ou até mental. Sucede que a sacralidade da vida humana não depende da autonomia corporal ou sequer da consciência mental. Um bebé ou um deficiente mental não têm consciência kantiana, mas não deixam de ser sagrados. O mesmo acontece com os portadores de deficiências físicas, da trissomia até à surdez. Na Holanda e na Bélgica, quem cai na cegueira ou na depressão é convidado à desistência porque já não é autónomo ou porque tem algo incurável. Exagero? Leiam o que se passa na Holanda e Bélgica. Já não têm o luxo da negação. http://rr.sapo.pt/artigo/114399/eutanasia-votar-nao-pelo-dever-de-salvar Compartilhar este post Link para o post
Black Hawk Publicado 30 Maio 2018 (editado) Com todo o respeito, mas estamos em 2018 e ainda se tenta levar esse palerma a sério? Só para que conste, o "todo o respeito" é para contigo, que tens a tua opinião, embora não a tenhas partilhado connosco. Não consigo é levar a sério um tipo que artigo a artigo, opinião a opinião, se limita a descarregar argumentos de ódio e argumentação que se baseia em fomentar o medo, nesta caso falando até em assassínios, mas sem apresentar dados ou referências que as suportem. E tenho até dificuldade em entender como gente inteligente, como tu com quem já tive boas discussões noutros tempos, consegues sequer levar o tipo a sério. Editado 30 Maio 2018 por Black Hawk Compartilhar este post Link para o post
Mayday Publicado 30 Maio 2018 Eu sei que é o Raposo, mas, acho que nem por isso se deve deixar de olhar com alguma atenção para estes artigos. Já têm quase tanta atenção e importância como uma noticia. Ser contra é tão válido como ser a favor, claro, mas a argumentação de quem é contra é sempre tão oca. Porquê? E depois, claro, isto vai ser sempre consoante o virar do bico ao prego. "O que interessa aqui não é quem quer morrer, mas sim quem se vê forçado a matar. O que interessa aqui não é o alegado direito a morrer, mas sim o dever de matar, que não pode existir." E usar a palavra matar, sempre. Não vá isto perder alguma força. É desonesto olhar para as coisas desta forma. Claro que em momento algum o Raposinho esclarece a posição da comunidade médica. Este até é um ponto válido, a posição da comunidade médica, dos que têm que tratar da morte. Mais uma vez, a Eutanásia é apresentada como uma ideia de suicidio prático. Expõe a ideia de que a Eutanásia serve para nos irmos suicidarmos se quisermos. Mas em vez do salto acrobático da ponte, vamos ao hospital pedir que nos matem.Como se fosse assim tão simples. É ler o segundo páragrafo. E o terceiro parágrafo: "E, mesmo que seja consciente, cabe à sociedade não validar esse desespero." Enfim, que dizer? :lol: O último parágrafo serve para validar a propaganda, como aquela rapariga do cartaz, de que a Eutanásia serve para matar velhinhos. Mais ficção do que realidade, provavelmente. Mais conto de terror do que realismo, com certeza. Não é por ser uma opinião contra, é por não ser sério e ser oco. Compartilhar este post Link para o post
Mayday Publicado 30 Maio 2018 https://www.facebook.com/comentadores/videos/1690946394322220/ ri-me um bocadinho :lol: Compartilhar este post Link para o post
sepa Publicado 30 Maio 2018 Com todo o respeito, mas estamos em 2018 e ainda se tenta levar esse palerma a sério? Só para que conste, o "todo o respeito" é para contigo, que tens a tua opinião, embora não a tenhas partilhado connosco. Não consigo é levar a sério um tipo que artigo a artigo, opinião a opinião, se limita a descarregar argumentos de ódio e argumentação que se baseia em fomentar o medo, nesta caso falando até em assassínios, mas sem apresentar dados ou referências que as suportem. E tenho até dificuldade em entender como gente inteligente, como tu com quem já tive boas discussões noutros tempos, consegues sequer levar o tipo a sério. Como certamente compreenderás, ainda por cima sendo historiador, não vou descartar uma opinião pelo facto de ele ser persona non grata. A minha (e tua) predisposição para ler o artigo pode ser influenciada pelas anteriores opiniões do sujeito, mas isso em nada invalida a argumentação em outro tema diferente. Acho que neste ponto concordarás comigo. Partilhei o artigo porque, especialmente nos dois primeiros parágrafos, concordo com a posição dele. A minha opinião está aí revista em parte. Concordo quando ele diz que o prisma da questão está só a ser mediaticamente direcionado para o "direito de morrer" e não para o "dever de matar". Com esta lei estás a decidir sobre a liberdade de (pelo menos) duas pessoas: o assistido e o assistente. Concordo com "A eutanásia não pode ser defendida nestes termos, porque a decisão final depende de um conjunto de médicos que tem de validar e executar a morte pedida. Ou seja, a eutanásia não é um acto de liberdade. Pelo contrário, é a usurpação da liberdade do outros (dos médicos e enfermeiros) em nome de um alegado direito à morte.". Ao necessitar de uma opinião de outrém que não o assistido, estás a transferir o ónus da decisão para uma outra parte que, tendo que tomar essa decisão enquanto profissional, vê a sua liberdade interferida. Isto acaba por vir um pouco refletido no 2.º parágrafo em "O ser humano terá sempre a liberdade radical para se matar, não pode é ter o direito de desviar o ónus do seu suicídio para outra pessoa ou para uma entidade colectiva e desresponsabilizadora. Ou seja, eu terei sempre a liberdade para me matar, não tenho é o direito de chamar os outros para o meu suicídio, não tenho o direito de exigir que me matem. ". (Ainda que eu em nada concorde com a equiparação do suicídio à eutanásia ou suicídio assistido.) Eu sei que é o Raposo, mas, acho que nem por isso se deve deixar de olhar com alguma atenção para estes artigos. Já têm quase tanta atenção e importância como uma noticia. Ser contra é tão válido como ser a favor, claro, mas a argumentação de quem é contra é sempre tão oca. Porquê? E depois, claro, isto vai ser sempre consoante o virar do bico ao prego. "O que interessa aqui não é quem quer morrer, mas sim quem se vê forçado a matar. O que interessa aqui não é o alegado direito a morrer, mas sim o dever de matar, que não pode existir." E usar a palavra matar, sempre. Não vá isto perder alguma força. É desonesto olhar para as coisas desta forma. Claro que em momento algum o Raposinho esclarece a posição da comunidade médica. Este até é um ponto válido, a posição da comunidade médica, dos que têm que tratar da morte. Mais uma vez, a Eutanásia é apresentada como uma ideia de suicidio prático. Expõe a ideia de que a Eutanásia serve para nos irmos suicidarmos se quisermos. Mas em vez do salto acrobático da ponte, vamos ao hospital pedir que nos matem.Como se fosse assim tão simples. É ler o segundo páragrafo. E o terceiro parágrafo: "E, mesmo que seja consciente, cabe à sociedade não validar esse desespero." Enfim, que dizer? :lol: O último parágrafo serve para validar a propaganda, como aquela rapariga do cartaz, de que a Eutanásia serve para matar velhinhos. Mais ficção do que realidade, provavelmente. Mais conto de terror do que realismo, com certeza. Não é por ser uma opinião contra, é por não ser sério e ser oco. Espero mais ou menos ter refletido alguns pontos na resposta a cima. Relativamente à vulgarização do suicídio e aos dados apresentados relativamente aos outros países, como referido não os validei, mas se efetivamente acontece é gravíssimo. Tenho pena de ele não ter colocado a fonte. O terceiro parágrafo do 1.º ponto não tem pés nem cabeça, e por tão estúpido que é, desvia um bocado o mencionado nos outros pontos. Por fim, de referir que a minha opinião estará certamente influenciada pela forma como aprendi a pensar e como fui educado. Dos casos próximos que conheci que, nos termos atuais legislativos, seria permitido aceder ao suicídio assistido, nenhuma das pessoas o teria feito. Adicionalmente, gostaria de ouvir opiniões de médicos/enfermeiros. Seria também um contributo importante. Compartilhar este post Link para o post
What Publicado 30 Maio 2018 Isso da liberdade do assistente é falacioso... A questão colocava-se de igual forma relativamente à IVG e o que aconteceu foi que quem não o quis realizar teve a possibilidade de se colocar como objector de consciência. https://www.dn.pt/portugal/interior/mais-de-1300-medicos-sao-objectores-de-consciencia-1853193.html Compartilhar este post Link para o post
Ego Sum Publicado 30 Maio 2018 Sou completamente a favor. Já tive um caso na minha família e custava só de olhar. Nunca falei com a pessoa sobre essa questão, mas tenho a certeza que preferia a eutanásia a continuar com aquele sofrimento. Idem. Compartilhar este post Link para o post
Ghelthon Publicado 30 Maio 2018 (editado) E btw, a abertura parece-me claramente vir da convivência com situações ou processos mais delicados. Qual é a vossa experiência para também serem a favor da eutanásia, já agora ? Não tive nenhuma situação extrema, mas não acho que seja necessário para ser a favor. Vivi a morte da minha mãe de relativamente perto (tinha 11 anos, portanto foi com um certo distanciamento próprio da idade, quer inato, quer forçado), imagino que ela tenha sofrido horrores com o cancro que a matou, mas não tenho noção, para ser honesto. Lembro-me mais ou menos do sofrimento que foi a remoção dos 2 peitos, a quimio, o alastrar do cancro à coluna e outros órgãos, a fase final em que ela mal se mexia e nem me conhecia... mas não consigo mesmo quantificar a dor que ela poderia estar a sentir. Não a conheci ao ponto de conhecer as ideologias dela a fundo, mas provavelmente seria contra a eutanásia e duvido que a quisesse. O facto de eu ser a favor da eutanásia não tem (felizmente) nada a ver com a minha experiência pessoal - é simplesmente algo que me parece óbvio. Da mesma forma que nunca experienciei um aborto, sou pessoalmente contra, mas ainda bem que hoje se pode fazer abortos legalmente em Portugal. Também felizmente consigo fazer algo que a maioria (pelos vistos) não consegue: permitir a escolha de cada um, mesmo sendo contra. Acho uma estupidez haver gente que faz questão de legislar contra algo que não afecta negativamente mais ninguém além da pessoa em causa que, supostamente, devia ter liberdade de escolha. Editado 30 Maio 2018 por Ghelthon Compartilhar este post Link para o post
sepa Publicado 30 Maio 2018 Isso da liberdade do assistente é falacioso... A questão colocava-se de igual forma relativamente à IVG e o que aconteceu foi que quem não o quis realizar teve a possibilidade de se colocar como objector de consciência. https://www.dn.pt/portugal/interior/mais-de-1300-medicos-sao-objectores-de-consciencia-1853193.html O caso parece-me ligeiramente diferente porque o critério de decisão também o é. Quando me referia a afetar a liberdade não era necessariamente relativamente a questões de consciência ou eventual objeção. Refiro-me ao facto de ser necessário a posição de um assistente (médico/enfermeiro) de confirmar que, na sua opinião clínica, não existe mais esperança (atendendo ao sofrimento inerente e à ciência disponível) e a pessoa terá necessariamente de passar por um processo penoso que a levará inevitavelmente à morte. Compartilhar este post Link para o post
What Publicado 30 Maio 2018 O caso parece-me ligeiramente diferente porque o critério de decisão também o é. Quando me referia a afetar a liberdade não era necessariamente relativamente a questões de consciência ou eventual objeção. Refiro-me ao facto de ser necessário a posição de um assistente (médico/enfermeiro) de confirmar que, na sua opinião clínica, não existe mais esperança (atendendo ao sofrimento inerente e à ciência disponível) e a pessoa terá necessariamente de passar por um processo penoso que a levará inevitavelmente à morte. Mas não é sobre isso, que o texto que aqui meteste, se foca. O texto foca a ideia de que isto mexe com a liberdade do clínico que é "obrigado a matar uma pessoa" basicamente. Compartilhar este post Link para o post
Ghelthon Publicado 30 Maio 2018 O caso parece-me ligeiramente diferente porque o critério de decisão também o é. Quando me referia a afetar a liberdade não era necessariamente relativamente a questões de consciência ou eventual objeção. Refiro-me ao facto de ser necessário a posição de um assistente (médico/enfermeiro) de confirmar que, na sua opinião clínica, não existe mais esperança (atendendo ao sofrimento inerente e à ciência disponível) e a pessoa terá necessariamente de passar por um processo penoso que a levará inevitavelmente à morte. De qualquer forma, a última decisão será sempre do paciente. Da mesma forma que nenhum paciente pode ser obrigado a efectuar um determinado tratamento, por que razão deverá ser obrigado a viver mais do que quer? Compartilhar este post Link para o post
Visitante Publicado 30 Maio 2018 Não consigo levar a sério quem defende o Não quando o primeiro argumento que usa é algo deste género: A maioria dos portugueses ainda não sabe o que se passa na Holanda e na Bélgica, dois países que legalizaram a eutanásia. O quadro é dramático, para usar um eufemismo. "Fazer uma lei mais avançada e que acautele este tipo de problemas? Não, mais vale chumbar e resolver de uma vez." Compartilhar este post Link para o post
Koper Publicado 30 Maio 2018 Esse parágrafo é um susto. Fala como se fosse usual pessoas com cegueira morrerem. Só há 1 caso relatado na Holanda, de uma idosa de cerca de 70 anos, apesar de ter sido noticiado e não se saber o caso a fundo, e deste caso de gémeos, que aconteceu na Bélgica. Aliás, as leis para a prática de eutanásia nesses países são bastante restritas. Basta ver neste quadro que, por exemplo, a idade que mais abrange a eutanásia são menores de 59 anos, se dividirmos entre 18-59, 60-79 e mais de 80. Além de que falamos de países que tratam melhor os idosos que nós, portanto "despachar os velhos" é pouco demagogo, é. Compartilhar este post Link para o post
lucho^ Publicado 30 Maio 2018 Qual é a tua posição sobre isto, Lucho? Sou totalmente a favor. Aliás, as posições que muitos defendem, de se poder reforçar a rede de cuidados paliativos ao invés de se investir num programa do SNS direccionado à eutanásia, não invalida qualquer um dos projetos. Ninguém em Portugal sabe qual a real capacidade da rede de cuidados paliativos, ninguém sabe quantas pessoas abrange nem o que está a ser feito para ficar acessível a cada cidadão. Não estão a ser formados médicos nesta área (é uma área de mestrado/pós-graduação). Só a título de exemplo, no meu estágio atual de medicina interna, 30% dos doentes que tenho a cuidado da minha equipa são casos sociais, à espera de resolução pela rede de cuidados continuados. Não estou a dizer que são 100% doentes que deviam ser propostos para eutanásia, estou a dizer que a nossa rede "alternativa" de cuidados sociais continuados não é eficaz como os partidos querem fazer parecer. Compartilhar este post Link para o post
sepa Publicado 30 Maio 2018 Mas não é sobre isso, que o texto que aqui meteste, se foca. O texto foca a ideia de que isto mexe com a liberdade do clínico que é "obrigado a matar uma pessoa" basicamente. Não foi de todo a única (nem principal) ideia que retirei do texto. Interpretei o "dever de matar" além da "obrigação", mais como a "posição que tem de ser tomada". Não sei se estou a conseguir explicar claramente que são coisas diferentes, mas parece-me que a comparação com a IVG é boa para demonstrar que não se trata da mesma coisa. De qualquer forma, a última decisão será sempre do paciente. Da mesma forma que nenhum paciente pode ser obrigado a efectuar um determinado tratamento, por que razão deverá ser obrigado a viver mais do que quer? Depende como a lei for aprovada. Não falamos de suicídio. O assistente tem de validar que a única hipótese é a morte e por isso esta pode ser antecipada. O "sim" do paciente é necessário, mas não suficiente para decidires pelo suicídio assistido. Relativamente à segunda frase, isso significa que admites a opção pelo suícido (normal) como aceitável? Não consigo levar a sério quem defende o Não quando o primeiro argumento que usa é algo deste género: "Fazer uma lei mais avançada e que acautele este tipo de problemas? Não, mais vale chumbar e resolver de uma vez." A frase não sei se foi ele que escolheu ou a edição da RR. Não é o primeiro argumento, é uma mero "subtítulo". Admito que tenha sido usado por questões mediáticas. Concordo com o facto da lei dever ser revista, embora me pareça que os argumentos para o "Não" são suficientes para evitar a mudança. Também acho que se a questão tivesse ido a referendo, não passava. Esse parágrafo é um susto. Fala como se fosse usual pessoas com cegueira morrerem. Só há 1 caso relatado na Holanda, de uma idosa de cerca de 70 anos, apesar de ter sido noticiado e não se saber o caso a fundo, e deste caso de gémeos, que aconteceu na Bélgica. Aliás, as leis para a prática de eutanásia nesses países são bastante restritas. Basta ver neste quadro que, por exemplo, a idade que mais abrange a eutanásia são menores de 59 anos, se dividirmos entre 18-59, 60-79 e mais de 80. Além de que falamos de países que tratam melhor os idosos que nós, portanto "despachar os velhos" é pouco demagogo, é. Como referi não validei os dados de que ele fala. Se se verificassem a situação seria preocupante. Inevitavalmente e de um ponto de vista realístico tens o problema da eutanásia estar num "slippery slope". (https://www.researchgate.net/publication/280908459_Euthanasia_in_Belgium_and_the_Netherlands_On_a_Slippery_Slope Sobre a realidade holandesa (https://www.cbsnews.com/news/euthanasia-assisted-suicide-deaths-netherlands/ Euthanasia has become a common way to die in the Netherlands, accounting for 4.5 percent of deaths, according to researchers who say requests are increasing from people who aren't terminally ill. Requests from those who aren't terminally ill still represent a small share, but have been increasing, Van der Heide said. "When assisted dying is becoming the more normal option at the end of life, there is a risk people will feel more inclined to ask for it," she said. About 8 percent of the people who died in 2015 asked for help dying, the review showed. Van der Heide said about half of all requests are approved now, compared with about a third in previous years. Scott Kim, a bioethicist at the U.S. National Institutes of Health who was not part of the study, said the report raises concerns, particularly in regards to people seeking euthanasia due to age-related issues. Acho uma estupidez a expressão "despachar os velhos" e (mais uma vez), achei que teria sido para chamar a atenção. Se de facto esta realidade se verifica, percebo onde querem chegar. (Nota que o tens aí faz todo o sentido mas é sobre a realidade Belga) Poderás ainda ter situações mais sensíveis como estas (https://www.theguardian.com/world/2018/mar/12/dutch-prosecutors-investigate-euthanasia-cases-sharp-rise-docter-assisted-deaths-netherlands) que, não sendo materiais, levantam questões adicionais. Compartilhar este post Link para o post
Burkina2008 Publicado 30 Maio 2018 Eu sou um leigo na materia, mas se eu me quiser matar, mesmo que nao esteja terminally ill, porque diabo e que o estado me deve impedir O que e que acontece? Se calhar como diz ai no artigo, na Holanda hoje 4,5% dos casos de Eutanasia sao de pessoas que nao estao terminally ill, mas sera que o numero de suicidios nao baixou Quem sou eu, ou algum de voz, para impedir uma pessoa de morrer de forma tranquila e com o minimo de dor possivel? Compartilhar este post Link para o post
Ghelthon Publicado 30 Maio 2018 Sou totalmente a favor. Aliás, as posições que muitos defendem, de se poder reforçar a rede de cuidados paliativos ao invés de se investir num programa do SNS direccionado à eutanásia, não invalida qualquer um dos projetos. Ninguém em Portugal sabe qual a real capacidade da rede de cuidados paliativos, ninguém sabe quantas pessoas abrange nem o que está a ser feito para ficar acessível a cada cidadão. Não estão a ser formados médicos nesta área (é uma área de mestrado/pós-graduação). Só a título de exemplo, no meu estágio atual de medicina interna, 30% dos doentes que tenho a cuidado da minha equipa são casos sociais, à espera de resolução pela rede de cuidados continuados. Não estou a dizer que são 100% doentes que deviam ser propostos para eutanásia, estou a dizer que a nossa rede "alternativa" de cuidados sociais continuados não é eficaz como os partidos querem fazer parecer. Esse argumento é incrivelmente fraco. Mesmo que a nossa rede de cuidados paliativos fosse a melhor do mundo e fosse capaz de suprir todas as necessidades, do que servem cuidados paliativos a alguém que não suporta as dores que tem, onde já nem a morfina resolve? Há algum tipo de analgésico super-poderoso que é administrado nos cuidados paliativos que eu desconheça? É que, caso não haja, o argumento não faz de facto sentido. Depende como a lei for aprovada. Não falamos de suicídio. O assistente tem de validar que a única hipótese é a morte e por isso esta pode ser antecipada. O "sim" do paciente é necessário, mas não suficiente para decidires pelo suicídio assistido. Relativamente à segunda frase, isso significa que admites a opção pelo suícido (normal) como aceitável? Acho que não podes colocar a eutanásia no mesmo saco do suicídio. Geralmente a eutanásia é definida para casos clínicos terminais e/ou sem cura, não é no sentido dos hospitais passarem a ser matadouros humanos. As coisas são diferentes, não podes comparar alguém que quer terminar o seu sofrimento físico e/ou psicológico porque sabe que vai morrer com alguém que "apenas" tem uma depressão. Mas, mesmo assim, prefiro muito mais a ideia de alguém no segundo caso poder "agendar" a morte, com toda a calma e rodeado dos que gosta, do que simplesmente parar o carro na Ponte 25 de Abril e saltar, ou tomar um frasco de comprimidos, ou dar um tiro na cabeça, ou cortar os pulsos. Claro que a eutanásia nunca funcionou nem vai funcionar assim mas, do meu ponto de vista, até nessa situação extrema é melhor. Compartilhar este post Link para o post
Rōnin Publicado 30 Maio 2018 Acho que não podes colocar a eutanásia no mesmo saco do suicídio. Geralmente a eutanásia é definida para casos clínicos terminais e/ou sem cura, não é no sentido dos hospitais passarem a ser matadouros humanos. As coisas são diferentes, não podes comparar alguém que quer terminar o seu sofrimento físico e/ou psicológico porque sabe que vai morrer com alguém que "apenas" tem uma depressão. http://catholicherald.co.uk/news/2018/02/01/dutch-doctors-euthanise-29-year-old-woman-with-depression/ Eu sou um leigo na materia, mas se eu me quiser matar, mesmo que nao esteja terminally ill, porque diabo e que o estado me deve impedir O que e que acontece? Se calhar como diz ai no artigo, na Holanda hoje 4,5% dos casos de Eutanasia sao de pessoas que nao estao terminally ill, mas sera que o numero de suicidios nao baixou Quem sou eu, ou algum de voz, para impedir uma pessoa de morrer de forma tranquila e com o minimo de dor possivel? Não deves ter tendências suicidas, mas algo aí dentro não bate certo quando não entendes que o Estado deve proteger a vida e não promover a morte. Compartilhar este post Link para o post
Sumudica by Night Publicado 30 Maio 2018 Proteger a vida ou o bem estar? Compartilhar este post Link para o post
Burkina2008 Publicado 30 Maio 2018 Não deves ter tendências suicidas, mas algo aí dentro não bate certo quando não entendes que o Estado deve proteger a vida e não promover a morte. O estado nao deve nunca de forma alguma sobrepor se a decisioes individuais que nao afectam directamente terceiros...algo nao bate bem na cabeca de pessoas que pensam que tem o direito de decidir pelos outros, seja na eutanasia, no aborto, nas drogas ou na orientacao sexual. Estamos no seculo XXI, parece incrivel como ainda existe tanta gente a viver mentalmente no seculo XIX Compartilhar este post Link para o post
Rōnin Publicado 30 Maio 2018 Proteger a vida ou o bem estar? Porque não ambos? O estado nao deve nunca de forma alguma sobrepor se a decisioes individuais que nao afectam directamente terceiros...algo nao bate bem na cabeca de pessoas que pensam que tem o direito de decidir pelos outros, seja na eutanasia, no aborto, nas drogas ou na orientacao sexual. Estamos no seculo XXI, parece incrivel como ainda existe tanta gente a viver mentalmente no seculo XIX Se um familiar meu tivesse tendências suicidas (e tenho), ficaria apaziguado se houvessem mecanismos que o impedissem de seguir em frente com o suicídio. Esta conversa de liberdade individual quando não nos toca tem muito que se lhe diga. E friso isto nos casos em que mencionaste e não nos de doença terminal, onde é preciso ter uma falta de compaixão monumental para não se dar a liberdade a essa pessoa de terminar de uma vez com o sofrimento e dor. Compartilhar este post Link para o post
pedritsh Publicado 30 Maio 2018 E friso isto nos casos em que mencionaste e não nos de doença terminal, onde é preciso ter uma falta de compaixão monumental para não se dar a liberdade a essa pessoa de terminar de uma vez com o sofrimento e dor. Exactamente, eu concordo com a eutanásia neste ponto. Agora, se a pessoa tiver tendências suicidas é óbvio que não faz sentido nenhum dar-se a liberdade para a pessoa morrer, devemos é ajuda-la a procurar ajuda e a reabilitar-se. Compartilhar este post Link para o post