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El Shafto

[FM22] Sado (não) sente saudade

Publicações recomendadas

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O Livro de Quem Não Precisa de Memórias
20 - Pelos adeptos

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É um debate eterno: a Supertaça é a primeira competição da época ou é a última da época anterior?

Para mim, tanto quanto me importa, na minha mera posição de Observador, é a primeira. É aí que coloco o meu voto. Como tal, foi com a Supertaça que começou a época de João Lento.

A sua última época. Não que ele o soubesse, obviamente. Ainda assim, acho que o sentia no seu âmago. Quanto mais crescia, mais se apercebia do quão pequeno é e a pequenez de Homens é inconcebível para alguns.

O campeão da Taça de Portugal contra o campeão da Liga Portuguesa. Vitória Futebol Clube contra Sport Lisboa e Benfica. Um duelo tão antigo quanto o tempo em finais de taças e, ao contrário do FC Porto, um adversário que o Vitória já tinha conseguido por várias vezes bater nestas mesmas.

No Algarve, o tempo convidava o bom futebol. O sol trazia um clima festivo e convidativo e as pessoas aproveitavam para abrir o pré-jogo na praia, muitas delas tentando tirar proveito da temporária deslocação à região.

Quando a bola começou a rolar, tudo isso se tornou irrelevante.

E que bem rolava a bola. As duas equipas encaixadas tentavam criar oportunidades de perigo e cada vez mais pairava no ar que o jogo só seria desbloqueado pela qualidade individual de algum dos intervenientes...

... o que era um mau prenúncio para o Vitória. Apesar de todos os novos membros da equipa, o Vitória tinha a equipa mais jovem da Primeira Liga Portuguesa. Se também é verdade que a irreverência da juventude poderia revelar-se importante, a mesma também podia ser o catalisador de uma catastrófica derrota.

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Mas por vezes a criatividade vem de quem menos se espera. Aos dezoito minutos de jogo um dos defesas centrais do Vitória, Luís Silva, um dos jogadores favoritos dos adeptos, viu a hipótese de Kamo-Kamo correr e bombeou uma bola para a frente que desmarcou o avançado do Vitória que não perdoou, colocando o Vitória na frente do marcador!

Para o gáudio dos adeptos sadinos o árbitro apitava para o intervalo e o Vitória estava na frente do marcador.

A pausa foi infeliz para o Vitória. Talvez alguma complacência fruto de estarem à frente do resultado, mas a verdade é que o Benfica entrou para a segunda parte mordaz e com espírito de campeão e numa saída rápida de bola logo após o apito para o começo da segunda parte marcou mesmo golo, empatando o jogo. Os jovens do Vitória foram apanhados a dormir e o Benfica não perdoou.

Foi como se o jogo voltasse ao seu ponto de partido em termos de futebol praticado também. As equipas encaixavam numa na outra e procuravam praticar o seu futebol e foi preciso outro momento de inspiração para o jogo desbloquear: Bruno Ventura passa por um jogador e tabela com Val e cai em falta, com o Benfica a reclamar falta fora da área. O VAR foi célere e indicou com prontidão que a falta foi dentro da área e Kamo-Kamo preparava-se para bisar da marca da grande penalidade. Com confiança disparou e as redes de Vlachodimos voltaram a abanar, pela segunda vez nesta partida!

Claro que o Benfica não ficou à espera de morrer. A morte pertence aos mortais e criaturas etéreas como o Benfica não gozam desse direito. Carlos Vinícius, que vive na sombra de Gonçalo Ramos desde que voltou do PSV, apesar de também ter bons números, ainda que inferiores ao do seu companheiro de ataque, que também goza de algum estatuto por ser um produto do Seixal, aos oitenta minutos, combinou bem com o seu colega de equipa e conseguiu aparecer na área, disparando um remate com força que, apesar de ter sido tocado por João Valido, praticamente não se desviou da sua trajetória, empatando o jogo a dois golos.

Com as duas equipas ainda a sentirem a pré época nas pernas, o jogo acalmou. Era como se ambas as equipas tivessem aceite o desempate por grandes penalidades. Tentava-se um ou outro balão para a frente, na esperança de um último sprint triunfante, mas sem sucesso. O árbitro apitava e o campeão da Supertaça seria decidido nas grandes penalidades.

Para trás ficavam Kamo-Kamo, Hugo Félix, Walter Bou, Bruno Ventura e Sophian do Carmo com penalties de sucesso para o lado do Vitória. Do outro lado, Brenner, Vinicius, Marcus Edwards e Maximiliam Wober também não falharam. Foi no frente a frente entre Rafa e João Valido que o título ficou decidido, com o esquerdino a pontapear a bola direitinha para o jogo do Benfica contra o Arsenal de 1991, coroando assim o Vitória, pela primeira vez, campeão da Supertaça Cândido de Oliveira!

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Os adeptos recebiam o clube em festa e na varanda da Câmara Municipal a equipa levantava o troféu mais uma vez, para a festa do público na Praça do Bocage.

*

Já o campeonato e o futebol europeu haviam começado quando começaram as taças, nomeadamente a Taça da Liga e a Taça de Portugal. O calendário ficava preenchido e os pupilos de João Lento sentiam a quantidade de jogos nas pernas. Ainda assim, talvez fruto da imprudência da juventude, e talvez seja por isso que as mulheres, em média, vivem mais anos que os homens, estes corriam até não poderem mais. Preferiam sair de maca, do que sair derrotados.

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Fruto da boa classificação no campeonato, o Vitória entrou direto e como cabeça de série para a fase de grupos da Taça da Liga, num ano em que o Sporting não marcou presença, pois foi eliminado pelo Vizela nas grandes penalidades.

Num grupo com os seus rivais vitorianos, o Vitória de Guimarães e o Arouca, o grupo é, essencialmente, decidido no derby. Apesar do golo tardio poder indicar o contrário, o jogo foi completamente dominado pela equipa do "jovem" treinador. O empate em Arouca selava o destino do Vitória e a passagem à próxima fase, onde iria defrontar o Benfica na meia final, no Estádio da Luz, que haveria sido escolhido como o "campo neutro" deste ano.

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O que fica para a história é o resultado. O que se passou em campo, torna-se secundário, ficando na memória curta daqueles que lá estiveram. O Benfica de Jorge Jesus foi melhor. Consideravelmente melhor, entenda-se. Então como é que o Vitória de João Lento os superou com um resultado até algo contundente?

Bem, a resposta a isso é complicada de dar.

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O guarda-redes sub-21 espanhol, suplente do capitão João Valido, protagonizou uma exibição bastante boa na meia-final contra o SL Benfica

Talvez, no fundo, simplesmente fosse um troféu mais importante para os jogadores vitorianos. A verdade é que, para os clubes grandes, a Taça da Liga passa um pouco ao lado. É um troféu, claro. Mas não é um troféu que vá fazer as pessoas sair à rua.

Para os filhos da cidade onde mora o primeiro campeão da Taça da Liga, esta tem um sabor especial e os jogadores, integrados na cultura da cidade, alguns até já peritos em cozinhar choco frito e assar sardinhas, sentem isso. Jogadores como Rodrigo Conceição, que ganhou o prémio de homem do jogo, vivem para estes jogos e agigantam-se, elevando também os seus companheiros.

Com o Vitória na final, os adeptos do Benfica vestiam temporariamente a camisola do clube de Setúbal para que estes impedissem o FC Porto de voltar a festejar no Estádio da Luz.

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A edição anterior da Taça da Liga também teve a sua meia-final e final disputada no Estádio da Luz, ficando o Benfica ver os seus rivais a disputar o troféu em sua casa, com o FC Porto a sair como campeão, voltando a referir-se à casa do Benfica como "Salão de Festas".

O mês de Janeiro havia sido infernal para o Vitória.  Seis jogos para o campeonato, um para a Taça de Portugal e o último de todos sendo a Meia Final da Taça da Liga contra o Benfica, sendo que imediatamente dois dias depois seguia-se a final contra o FC Porto.

Atenção, é verdade que o calendário foi infernal para o Vitória, mas assim o foi para a vasta maioria dos clubes portugueses. Para o leitor, é preciso ter isso em conta. Todos os treinadores da Primeira Liga passaram por esse teste e talvez tenha sido esse mesmo teste que custou ao FC Porto.

A bola rolava na final e o Porto apresentava o mesmo onze que havia apresentado frente ao Rio Ave. "Em equipa que ganha não se mexe", dizem os sábios, ainda para mais se a tua equipa derrotou o Braga por 0-2 num jogo completamente dominado.

A verdade é que a meio da primeira parte notava-se já que os jogadores do Vitória tinham mais alguma energia que os jogadores do Porto não tinham. Podia não ser muita, mas era o suficiente para fazer com que os lances disputados pendessem para o lado do Vitória, levando os adeptos azuis e brancos a amaldiçoar a sua sorte naquele dia.

Aos 6' Sequeira avisou, aparecendo isolado e abanando as redes do Porto, mas o VAR declarou o golo como irregular por doze centímetros. Talvez alarmados pelo aviso do argentino, o Porto elevou o jogo a um nível superior e tornou-se ameaçador. Ainda assim, gradualmente, foi perdendo gás e, como disse anteriormente, a meio da primeira parte começava a dar-se uma virada no jogo. Os últimos cinco minutos já foram dominados pelo Vitória e o Porto agradecia o apito do árbitro para o intervalo, com 0-0 no marcador.

A segunda parte só tem uma história. O Vitória entra contundente e aos 48' adianta-se no marcador por Kamo-Kamo.

Assim como na primeira parte, o golo pareceu despertar os jogadores do Porto, talvez ferindo o seu orgulho e ativando a sua mentalidade de contra tudo e contra todos. Se na primeira parte isto não se traduziu em nada, na segunda parte a história foi diferente. Evanilson respondeu bem a um cruzamento de João Mário, ganhando a bola no meio dos dois centrais do Vitória ("Esta bola nunca pode ser dele!", dizia-se nas bancadas) e cabeceando letalmente para dentro da baliza de João Valido.

Que melhor resposta podia dar o Vitória, quando nem dois minutos depois, após Val ganhar um pontapé de canto, Hugo Félix cruza para a área e Vinhas redime-se do seu erro, desviando a bola com a cabeça para a baliza e colocando o Vitória de volta na frente.

Não sei se foi a velocidade da resposta, mas a verdade é que o Porto tornou-se amorfo e voltou mesmo a sofrer, com um corte mal feito pela defesa, que permitiu a Val rematar de forma atabalhoada à baliza, num remate que Diogo Costa devia ter defendido, mas talvez apanhado de surpresa, deixou a bola passar.

E voltariam a sofrer novamente.

Os adeptos (e, erradamente, os jogadores) já faziam a festa, quando o Porto reduziu para 4-2 através de Vitinha, que começou o jogo no banco. Serviu apenas para colocar alguma pomada na ferida, reduzindo a humilhação a que o Porto tinha sido sujeito.

O primeiro campeão da Taça da Liga estava de volta.

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*

Das taças nacionais, resta a Taça de Portugal.

O sorteio foi pouco simpático com o Vitória, na sua primeira ronda. O sorteio ditou que o Vitória iria a Chaves jogar contra um Chaves que apesar do seu colapso na segunda metade da época, perfilava-se para ser um dos principais candidatos à promoção para a Primeira Liga.

Talvez o jogo mais bizarro da carreira de João Lento, ou um dos. Ainda hoje em dia, quando olhando para o resultado, faz as pessoas pensarem sobre se foi mesmo um jogo de futebol que assistiram. No final da partida o placar marcava Chaves 5 - 7 Vitória. Sim, 5 - 7.

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O extremo guineense apenas marcou três golos em toda a temporada na Segunda Liga, mas, contra o Vitória, fez questão de marcar os mesmos golos num só jogo.

Mas há algo que é importante mencionar: ao intervalo o jogo ainda parecia normal. O Vitória marcara primeiro, com João Pedro a bisar em seguida pelo Chaves, levando os anfitriões para o intervalo a ganhar.

Quando começou a segunda parte, o Vitória voltou muito melhor e marcou. E marcou novamente. E outra vez. Sequeira, Leroy e Daniel Carvalho colocavam o Vitória na frente por 2-4 aos 75' e o jogo parecia terminado.

Exceto que as gentes de Chaves não fazia intenções de desistir e aos 89' o ponta de lança, formado no Benfica, Rudi Almeida abana as redes de Samuel e torna o tempo extra mais interessante para toda a gente menos para os adeptos do Vitória. Galvanizados pelos seus adeptos, que acreditavam firmemente que os jogadores conseguiriam dar a volta, Rudi Almeida volta a marcar aos 90+6, nos minutos finais do período de descontos, colocando o jogo 4-4 e levando-o para prolongamento.

Numa altura em que o Vitória já disputava a Liga dos Campeões, a ideia deste prolongamento era terrível. Dali a três dias seguia-se um jogo que, felizmente, seria em casa, contra o Leipzig. Se a isto ainda se somasse uma viagem para a Alemanha... poderia ser uma hecatombe. 

A bola corria no prolongamento e a flecha prateada da equipa do Vitória, Sophian do Carmo, que saltara do banco aos 80', fruto de ainda estar fresco, arrasou completamente a equipa do Chaves. Era como ver os restantes carros tentar competir com os atuais carros da Red Bull em retas. Impossível. Ficavam todos desesperados a vê-lo fugir. Aos 108' abriu a caixa de pandora e marcou. 4-5. Aos 109', numa jogada em tudo semelhante à anterior, mudando apenas quem assistia, marcava novamente. 4-6. Os jogadores do Vitória acharam que poderiam descansar, que Sophian tinha-lhes dado esse direito, mas faltava a João Pedro selar o seu hattrick, que o fez aos 118' minutos, voltando a alimentar a esperanças nas bancadas. 5-6.

Só que Sophian não estava para isso. Logo em seguida, aos 120', matou as esperanças dos transmontanos e selou também ele o seu hattrick. 5-7, num resultado histórico, naquele que foi, talvez, um dos jogos mais emocionantes da história da Taça de Portugal.

Talvez os deuses do futebol (sim, eles existem) tenham tido pena do Vitória e tenham decidido abençoar com um sorteio mais favorável até à meia final.

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Montalegre, Sintrense e Mafra visitaram Setúbal para enfrentar o Vitória, tendo somados ótimos trajetos até ali, principalmente o Mafra, mas todos caíram perante o futebol praticado pela equipa treinada por João Lento. Seguia-se o FC Porto nas meias finais, com uma primeira visita ao Dragão.

Em pleno Estádio do Dragão, em frente aos seus adeptos, o Porto foi surpreendido por dois lances de bola parada onde os centrais do Vitória se superiorizaram e não uma, mas por duas vezes abanaram as redes de Diogo Costa. A seguir, em algo que é incaracterístico do Vitória, a equipa fechou-se atrás. Normalmente este Vitória de João Lento era uma equipa de alta rotação, sempre ofensiva, mas, talvez mostrando que os jogadores não eram os únicos a evoluir e também ele crescia, a equipa tornava-se mais metódica, trocando a bola calmamente e focando-se em reter a bola em vez de atacar desalmadamente.

A vitória estratégica de João Lento sobre Marcelo Gallardo confirmava-se mesmo aos 90' quando o árbitro apitou e selava a surpreendente vitória por 0-2 no Estádio do Dragão.

Na visita a Setúbal, o jogo tornou-se feio. Aos 25', num canto, Luis Diaz faz falta para grande penalidade ao abrir o sobrolho de Pedro Ganchas com o cotovelo, penalty que Hugo Félix falhou. Dez minutos depois, Luís Diaz volta a ter uma entrada dura e o árbitro não perdoa, o extremo do Porto leva o segundo amarelo. O jogo tornava-se mais feio, nas bancadas inclusive, tendo, por exemplo, o Porto somado 28 faltas no final do encontro, e, contra dez, o Vitória superiorizava-se no relvado. 

Foi num dos poucos ataques do Porto que, a cruzamento de Zaidu, a bola é cortada pela defesa do Vitória para uma zona onde só estava Corona que rematou, um defesa do Vitória intercepta a bola que vai parar diretamente aos pés de Otávio e o médio luso brasileiro aos 70', apesar do Porto jogar com menos um, colocava os nortenhos de volta na eliminatória.

O jogo chegava aos 90' e os adeptos estavam apreensivos na bancada à espera do apito final. Queriam estar novamente no Jamor! Uns tapavam os olhos a cada carga do Porto, outros amaldiçoavam Diogo Costa a cada defesa que fazia (foram dezasseis as defesas feitas no total pelo guardião do Porto!) e outros berravam o que lhes passava pela cabeça, na esperança da ajudar a equipa.

Aos 90'+2, o Vitória está no ataque quando Vitinha recupera a bola e num instante solta para Taremi que se desmarca e finaliza, empatando a partida. O árbitro também não deixou jogar mais e mandou o jogo para prolongamento, apesar da imensa quantidade de tempo de jogo parado.

O jogo voltava para o prolongamento e já ninguém tinha tempo para nervosismos. Os adeptos cantavam todos na bancada e cantaram durante todos os trinta minutos deste.

A equipa ouvia-os e ouvia-os bem, tanto que lhes deram imediata resposta aos 92: um livre lateral após mais uma falta do Porto, lance cobrado por Bruno Ventura que encontrou milimetricamente os 190 centímetros de Ganchas e o antigo central do Benfica, finalmente, conseguiu bater Diogo Costa com um poderoso cabeceamento à queima roupa. O Vitória derrotava o Adamastor que fora Diogo Costa e os efeitos psicológicos traduziam-se na equipa do Porto. Com a moral em baixo, o Vitória controlou o resto do prolongamento e, novamente, o Vitória marcaria presença no Jamor!

A final da Taça de Portugal era o último jogo da temporada. O jogo número 65 para este plantel, que no Inverno vira Walter Bou despedir-se do clube e juntar-se ao Gil Vicente a troco de 250m€ e numa decisão que deixou os adeptos apreensivos, o clube investiu 1M€ de contratação de Henrique Araújo do Benfica, que era pretendido por Vitória de Guimarães e Belenenses, escolhendo ir para as margens do Rio Sado.

"Temos sequer este dinheiro para gastar?"

"Estamos bem, mas basta uma série de jogos negativa para irmos por aí abaixo e depois é voltar onde estávamos!"

"Temos de investir se queremos dar o próximo passo. Se estamos a dar um passo maior que a perna... não sei. Eu confio no mister."

"É tal e qual como o Gandalf disse ao Freeza em Marte depois da luta contra os Moto Ratos, "Old habits die hard, my friend" nós somos iguais".

Escreviam os adeptos nas redes sociais.

Esta festa do Jamor revelou-se diferente das anteriores. Havia uma maior tensão entre os adeptos do Vitória e os do Braga. Eu, do meio poiso neutro, proclamo como inveja. Não quero saber do Vitória, não quero saber do Braga, estou aqui apenas pelo João. Ainda assim, vi muita coisa e consigo compreender o incómodo dos bracarenses. Afinal, este Vitória, era tudo o que eles queriam ser. Este Vitória podia dizer-se como sendo o quarto grande. Assim, o jogo tornava-se uma questão de orgulho.

E uma questão de orgulho foi. Os adeptos lutavam entre si nas bancadas, não fisicamente, mas por ver quem se fazia ouvir melhor e valia tudo. Valia imitar outros e proclamar "Bra-ga! Bum! Bum! Bum!", não fosse o mundo dos cânticos de futebol uma constante mutação de ritmos populares, como valia um grupo de adeptos vitorianos com megafones a gritar "E quem não salta é espanhol, olé! Olé!".

Dentro de campo viam-se duas equipas ofensivas que levavam os seus adeptos à ponta da cadeira regularmente, com Luiz Filipe e João Valido a darem cartas nas balizas. Nenhum deles parecia ter particular vontade de sofrer golo e os adeptos até os adeptos mais novos sentiam a calvície proveniente do stress a surgir.

Aos 90' o árbitro dá o jogo como terminado e, mais uma vez nesta longa temporada, o Vitória via-se em tempo extra.

Num ano anterior, num jogo para a Taça de Portugal contra o Benfica, João partilhou um pensamento com os jogadores.

"Na minha opinião, há uma verdade inegável sobre talento. Não é só uma questão de ter. É uma questão de acreditar nele. (...)"

E a verdade é que os jogadores do Vitória eram talentosos. Agora, todos sabiam disso. No prolongamento, mostraram todo o seu talento, cozinhando uma bonita jogada que desmontou a defesa do Braga e viu o jovem de ouro Europeu, Hugo Félix, aparecer na área sozinho e finalizar com sucesso.

SZ4EYOX.gifNum belo trabalho de equipa e de inteligência os jogadores do Vitória conseguiram finalmente conquistar a baliza bracarense.

O Braga subiu as linhas e tentou dar troco, tentando correr atrás do prejuízo, mas João Valido deu uma contundente resposta. "Calma, eu estou aqui", disse, na sua melhor imitação da já reformada estrela portuguesa, Cristiano Ronaldo.

Com o Braga a descartar a defesa, Val não teve dificuldades em encontrar num um para um, após mais um belo passe de Bruno Ventura e que melhor forma de terminar a temporada do que com um golo do menino bonito de Setúbal?

O Vitória tornava a vencer a Taça de Portugal, desta vez pela segunda vez consecutiva. Nas bancadas os adeptos cantavam que o Vitória não é grande, é enorme. Na festa, a distância assolava-o. O calendário ficava sem folhas e nem fazia sentido que as tivesse.

"Porquê?"

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Editado por El Shafto
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Que fenomeno nas 3 taças disputadas, que mais se podia pedir a este Vitória ? Nada! Fantástico

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Que excelentíssimo trabalho operado ao leme dos homens do Sado ❤️ Resultados fantásticos e uma equipa que está muitíssimo viva e que se recomenda de todas as formas e feitios. Iniciaste a temporada com uma vitória épica perante o Benfica na Supertaça, mas estava longe de imaginar que irias igualmente anexar quer a Taça da Liga, quer a Taça de Portubal... SOBERBO!!!

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O Livro de Quem Não Precisa de Memórias
21 - Pelos jogadores

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Existem várias formas de um jogador de futebol alcançar a glória. As mais ambicionadas são, de longe, o Mundial e a Liga dos Campeões, talvez com a Libertadores pelo meio, para jogadores nativos da américa do sul.

Apesar disso, não é propriamente fácil ser campeão do mundo ou vencedor da Liga dos Campeões. Bem, historicamente, podes assinar pelo Real Madrid e rezar que tenhas minutos nessa competição. As probabilidades estariam do teu lado.

Como tal, a maioria salta para uma segunda linha e sonha com o título mais simples: campeão nacional. Porquê simples? Porque existe uma constante ilusão da sua acessibilidade. Um exemplo fácil disso, aplicado à equipa do nosso amigo João, veja-se o ano de 2004.

Portugal vivia ainda os resquícios da final do europeu perdida em casa e os três grandes começam com partidas incomuns. O Benfica, à oitava jornada, era o que mais se destacava, com cinco vitórias, dois empates e uma derrota, com o Porto atrás com quatro derrotas e quatro empates, vindo o Sporting mais atrasado, já com duas derrotas para juntar às quatro vitórias e dois empates.

Nenhum destes liderava o campeonato. Quem liderava o campeonato era o Vitória Futebol Clube, sob a batuta do maestro Jorginho e a tutela do infame José Couceiro. Começara o campeonato goleando o Penafiel e à segunda jornada surpreendeu o Sporting, batendo-o por 2-0 no Bonfim. 

Claro que o Vitória não foi campeão nesse ano. Celebrou a última época do capitão, que irá dar o nome ao futuro estádio, Hélio Sousa, conquistando a Taça de Portugal, mas não foi campeão nacional. Ainda assim, naquele começo de campeonato, as pessoas acreditavam. Os jogadores acreditavam. O troféu era palpável. Nunca o tinham feito antes, viviam todos os anos com a calculadora na mão para saber se alcançavam a manutenção, mas, ainda assim, acreditavam que seriam campeões nacionais.

Entendem assim o que quero dizer? Não é a mesma coisa que, por exemplo, ir à Liga dos Campeões. Ninguém acha que o Vitória vai ganhar a Liga dos Campeões, mesmo que ganhe um jogo à Juventus. Não vai passar a ser "queres ver que afinal conseguimos fazer?", não, vai ser apenas um grande orgulho de ter batido um gigante europeu. Numa situação em que o Vitória se encontra no primeiro lugar à oitava jornada, é larga a quantidade de gente que se via com uma mão no troféu, jogadores inclusive.

O ano de 2024/2025 não foi muito diferente. Com a conquista da Supertaça, a equipa, apesar da carga de jogos, entra bem no campeonato e os adeptos sonham.

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Ainda assim, existiam evidentes problemas. A equipa estava mais sólida que o seu habitual defensivamente, mas os seus dados ofensivos eram inflacionados pelas goleadas ao Tondela, Vitória de Guimarães e Paços de Ferreira. Nesses três jogos foram marcados mais de metade dos golos que representam a ofensiva do Vitória neste período.

A criação de oportunidades não mudou. O que faltava ao clube, diziam os adeptos na rua, era uma maldição antiga. Faltava um ponta de lança que o clube nunca foi capaz de encontrar depois dos melhores anos de Meyong. Walter Bou não estava a dar grande conta do recado, Sequeira não é um finalizador nato e, apesar das opções Kamo-Kamo e Sophian terem alguns golos marcados, nenhum deles era o mais adequado para liderar o ataque.

Surgiu o interesse do Gil Vicente em Walter Bou e chegava ao fim o movimento #BouTemMel em Setúbal, com o jogador a mudar de casa.

Tornava-se ainda mais imperativo a contratação de um ponta de lança e João virou-se para um jogador em quem estava interessado desde que enfrentou o Benfica B na Segunda Liga.

O problema? Dinheiro.

"João, não é que não consigamos pagar, mas se isto falha... é a minha cabeça, percebes?", dizia o presidente.

O treinador respondia pedindo confiança, que iria correr bem.

"Pois, olha, com o Jota também ia correr bem e é o que é, não é?"

E, aqui, o presidente tinha razão.

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Contratado para liderar a equipa, Jota falhava em impressionar a crítica e os adeptos.

Ou, pelo menos, tinha alguma razão. João assumia a culpa e colocava de parte as justificações, nomeadamente os problemas físicos com que o jogador começou a época e que foram surgindo ao longo da mesma, em parte porque sabia que não ia favorecer a sua posição e, noutra parte, porque era um tópico que efetivamente o preocupava. Jota era bom jogador, todos sabiam disso, mas não estava a ser capaz de voar em Setúbal.

"Olha, está bem. Se ele preferir ir para os outros é com ele, não quero saber, mas se vier, é bom que ganhe a porcaria da bota de ouro, estás a ouvir?"

O Vitória juntava-se à corrida por Henrique Araújo, do Benfica. O jogador queria sair, dado que Jorge Jesus não parecia inclinado a dar-lhe futebol de equipa A, e Guimarães e Portimonense já se tinham antecipado com propostas, com o B SAD também à espera.

Aparentemente foi fácil convencer Henrique Araújo. Como toda a gente em Portugal por esta altura, conhecia bem o trabalho do João e estava muito interessado em trabalhar com este.

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Por 1M€, com prémios a ascender aos 1,6M€, Henrique Araújo juntou-se ao Vitória

O resto, como diz o povo, foi história. João tinha o seu matador e este não o desiludiu em nada. O ataque do Vitória parecia renovado. Henrique Araújo encaixava que nem uma luva. Até ao fim da época realizou dezanove jogos a titular, entrando em sete a partir do banco, marcando vinte golos, sendo que dez destes foram para o campeonato.

Um dos melhores pontos da contratação de Henrique, inclusive algo que João não esperava, foi a melhoria no rendimento de Val. A conexão entre ambos foi imediata, dentro e fora do relvado, e juntos foram uma dupla de ataque demoníaca para os adversários do Vitória. Os adeptos comparavam os jovens jogadores a Yekini, o melhor marcador da história do clube, e Jacinto João, dizendo que o Vitória, finalmente, tinha conseguido juntar os dois.

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O jovem brasileiro encanta os adeptos do Vitória desde o dia em que chegou por apenas 70m€ vindo do Estrela da Amadora.

A influência dentro e fora do terreno foi imediata.

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O Vitória chegava a Abril ganhando não um, dois ou três, mas todos os jogos que realizou para a Primeira Liga, inclusive numa visita a Alvalade e numa recepção ao Benfica.

Se antes disto os adeptos acreditavam que o Vitória poderia, pela primeira vez na sua história, tornar-se campeão nacional, agora não acreditavam só. Exigiam aos jogadores que lutassem por isso. Na rua, ao treinador, pediam-lhe que trouxesse o troféu para Setúbal. Os jogadores respondiam sempre dentro de campo.

Os jornalistas destacavam a intensa luta pelo título.

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À primeira vista, nenhum dos principais candidatos tinha a vida facilitada. O Vitória, além de ainda ter de receber em sua casa o Porto e o Sporting, ainda tinha de ir à pedreira jogar contra o Braga e inclusive ir a Portimão, jogar contra um Portimonense com qualidade, mas aflito no campeonato.

Por outro lado, o Porto também não tinha a vida facilitada. Tinha de visitar o Bonfim, ir visitar Guimarães, cujos anfitriões estavam a fazer uma boa época e ia terminar a época numa recepção ao Benfica.

Por esta altura o Vitória começava a entrar no campo dos sessenta jogos realizados em toda a temporada e era evidente que os jogadores sentiam o peso nas pernas. Mas nas palavras de João...

"(...)Portanto, se vocês não acreditam no vosso próprio talento... bem, tirando eu não entender porquê, porque olhem para a p*ta de temporada que estão a fazer, mas se assim o é, se acreditam que os outros que são mais talentosos do que vocês, tudo bem. Então peço-vos que acreditem em mim, que eu acredito sem a maior pinga de duvida no vosso talento."

E a inegável verdade sobre o talento dos jogadores que vestiam a camisola do Vitória veio ao de cima.

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Fruto da má visita ao Bonfim, o Porto encontrava-se a quatro pontos do Vitória. Foi um dia não para os jogadores do Porto, em que tudo lhes saía mal, apesar de terem jogado oitenta minutos contra dez jogadores, porque Jota continuou a cavar a sua sepultura para com os adeptos do Vitória, ao seu expulso aos dez minutos de um jogo tão importante com uma entrada completamente imprudente. 

Mesmo a jogar com dez, só houve uma equipa a mostrar o seu futebol e essa equipa foi o Vitória, que, eventualmente, como água mole em pedra dura, conseguiu quebrar a defesa do Porto e solidificar a vitória.

Restava então ao Porto torcer que o Sporting conseguisse fazer melhor figura na sua visita a Alvalade para que, na última jornada, pudessem almejar inverter o curso das ações e conquistar mais um campeonato nacional.

Mas as aspirações do Porto duraram muito pouco tempo.

Passado dezassete minutos, Sequeira viu o movimento de Hugo Félix e desmarcou-o. Ainda assim,  o veloz Matteo Gabbia estava prestes a apanhar o médio ofensivo emprestado pelo Benfica em Setúbal, mas este, com toda a sua capacidade criativa, viu a saída do guarda-redes do Sporting e fez um lindíssimo chapéu com apenas um toque na bola, levantando o estádio.

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E com o Sporting ainda abananado com o golaço sofrido, foi Cepeda que apareceu à entrada da área e num forte remate rasteiro voltou a abanar as redes!

O Vitória estava a ganhar por 2-0 no jogo do título frente ao Sporting. Frase estranha, não é? Mas é a verdade.

Os adeptos já tomavam a vitória por garantida e cantavam nas bancadas, "(...)agora já tem igual, aos grandes de tradição, o Vitória faz das suas(...)", quando o árbitro achou que uma entrada de Kamo-Kamo foi violenta e mostrou o vermelho direto ao extremo moçambicano. O jogador estava desolado e os adeptos assobiavam o árbitro.

O jogo mudou então. O Vitória tirava o pé do acelerador e tornava-se mais comedido, tentando controlar o jogo de forma inteligente. O Sporting tornava-se mais perigoso e começava a atacar mais, mas todas as suas tentativas eram negadas pelo capitão, João Valido. 

Os jogadores do Sporting ficavam frustrados e os do Vitória começavam a voltar a causar estragos e, num canto, o central David Vinhas apareceu num canto para voltar, novamente, a abanar as redes defendidas pelos leões.

A goleada ficou confirmada quando Coates travou um contra ataque em falta já dentro da área e quem melhor que "O Mito" Mimito para colocar o prego no caixão e acabar com o jogo?

Pela primeira vez na sua história, o Vitória tornava-se campeão nacional. Os jogadores explodiam em alegria, com os jogadores formados no Vitória desde crianças, André Pedrosa, Bruno Ventura, João Valido e Daniel Carvalho lavados em lágrimas. Os jogadores nem se atreveram a deixar que o treinador fizesse a sua tímida celebração, agarrando em João e atirando-o ao ar, e carregando-o em volta do estádio, com os adeptos a cantar o seu nome.

Não sendo de ferro, também o treinador foi exacerbado pelas emoções. Era campeão nacional.

"Até que o meu nome ecoe pelos céus."

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Que passe e que golo. 

Que se podia pedir mais nesta reta final ? Simplesmente fantásticos mesmo. Que orgulho e que raça destes meninos.

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Janeiro, fevereiro e março foram meses de perfeição... E diga-se de passagem que apenas uma equipa perfeita (ou muito próxima disso) seria capaz de bater um muito forte FC Porto! Época memorável e que culmina com a conquista estonteante e acima de tudo (justíssima) do título nacional 😄

E agora? O que se segue? Prestigiar o clube em termos europeus? 😉 

 

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O Livro do Sado
4 - Por ti, João

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Quando o sol raiasse, o Senhor Vitória teria o seu primeiro jogo em casa para a Liga dos Campeões, enfrentando o Dinamo Zagreb.

Vagueando pela cidade, João Lento era interpelado por adeptos.

"O primeiro correu muito bem, vamos com tudo!"

"Empatar em Turim não é para todos mister, força! Ainda vamos passar do grupo, é preciso é acreditar!"

"Então é assim que o Guardiola se sente?", pensou João, esboçando um sorriso.

A ideia de se comparar ao treinador do Manchester City era absolutamente hilariante. 

"Um pato olha para uma montanha e diz-lhe "sou maior do que tu!" e ainda tem a lata de acreditar no que disse.", continuou nos seus pensamentos.

O sol raiava e abria as portas ao segundo dia de Outubro. Ao longe, o Estádio do Bonfim era abraçado por estes primeiros raios e acordava para disputar o seu primeiro jogo da Liga dos Campeões. Em situação normal, o jogo não seria disputado no Bonfim. Por mais valor sentimental que tenha, é um estádio velho e obsoleto, mas pequenas obras feitas à última da hora, em preparação para a sua substituição, foram o suficiente para convencer a UEFA a permitir a realização dos jogos neste mesmo, no ano da sua despedida.

Para João, não havia nada a fazer. Era um nível de competição muito diferente. Ainda agora estavam a crescer ao ponto de conseguir lutar contra os três grandes de Portugal, como é que poderiam competir contra clubes de outra categoria europeia?

Ainda assim, claro que nunca o dizia aos jogadores. Que raio de treinador passa uma mensagem dessas ao seu plantel? Certamente não é algo que Pep Guardiola faria.

Aos jogadores, pedia mais. Aos jogadores, pedia-lhes que acreditassem no seu talento, ainda que lhes mentisse com todos os dentes que lhe adornavam a boca.

"Afinal, se não for assim, o que pensarias de mim?", pensava enquanto os jogadores saíam rumo ao relvado.

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A equipa dava tudo o que tinha, mas, evidentemente, não era suficiente, apesar das notórias boas exibições contra a Juventus e o Leipzig, o futebol não se limita a jogar bem, mas a ganhar bem. Isso era algo que João acreditava desde o dia em que embarcou nesta aventura futebolística.

"Aqueles que jogam bem, tendencialmente, ganharão mais."

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A caminhada do Vitória na Europa não terminava, tendo conseguido a qualificação para a Liga Europa

Restava então ao Senhor Vitória a Liga Europa, onde o sorteio ditou o encontro contra outra equipa holandesa, o AZ Alkmaar, um clube bem conhecido pelos adeptos do futebol português.

Fruto da vitória contra o PSV e da evolução da equipa após a contratação de Henrique Araújo, os adeptos acreditavam cegamente nos seus jovens jogadores. Na saída do hotel para o estádio formava-se um corredor humano que cantava em plenos pulmões a marcha do vitória em todo o seu comprimento, com os jogadores a observar pela janela do autocarro.

Dentro de campo, deram a resposta aos adeptos. Uma colossal exibição que não produziu um resultado mais expressivo porque o guarda-redes do AZ esteve bastante bem, mas não conseguiu evitar terminar o jogo vendo a sua rede abanar por três vezes, com o Vitória a conseguir uma confortável margem para a segunda mão.

Na Holanda, o AZ, como tinha de ser, foi mais ofensivo, mas não foi além do empate a uma bola, ficando para trás na competição e o Senhor Vitória seguia em frente, atingindo os 16-avos.

Seguia-se um sorteio menos simpático, o Bétis, atravessando-se pelos sonhos dos setubalenses jogadores como Fekir, William Carvalho, Sergio Canales e Marcos Alonso.

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A par de William Carvalho, Fekir é a principal figura deste Bétis, tendo 63 golos marcados nas últimas 3 temporadas.

Eu não sei se os jogadores do Bétis subestimaram o Vitória, se entraram no velhinho Bonfim e sentiram que estavam num jogo de pré época contra uma equipa local, mas a verdade é que estiveram muito longe do seu futebol enquanto que, do outro lado, Val brilhava em todo o seu esplendor. A pérola brasileira não só marcou dois golos, como assistiu para os outros dois, realizando uma das suas melhores exibições com a camisola do Vitória e guiando o marcador para uma surpreendente 4-0 sobre os espanhóis.

Os adeptos deliravam e sabiam que era preciso uma hecatombe em Espanha para que não estivessem nos oitavos. Imediatamente surgiam as memórias dos resultados do passado, contra o Chaves, Benfica e Boavista, onde a equipa estivera longe de ser sólida defensivamente e certamente que Fekir não iria estar tão apagado.

Havia alguma ansiedade antes do jogo. Não no balneário, mas nas bancadas. De certa forma, olhando para a secção dedicada a adeptos do Vitória, João quase se sentia ofendido.

"Ainda não conquistámos a vossa confiança?"

Não sei ao certo se os jogadores sentiram o que o seu treinador estava a sentir, mas a verdade é que houve outra estrela jovem a brilhar. Não foi Fekir quem foi um astro no Benito Villamárin e também não foi Val, foi o reforço Henrique Araújo, que perante o maior pendor ofensivo do Bétis, fez questão de fazer valer as suas oportunidades ofensivas e logo aos nove minutos já abanava as redes do clube espanhol. Aos quinze, novamente, depois de uma intercepção falhada por William Carvalho de forma completamente amadora, Henrique voltou a não perdoar. No fim do jogo, depois do Bétis já ter reduzido por Marcos Alonso, selou o seu hattrick e, se os adeptos espanhóis ainda se atreviam a sonhar com um milagre para o seu clube, se sequer um restasse, como um meteoro, foi a anunciada extinção dessa mesma esperança.

O Vitória surpreendia e eliminava uma das grandes equipas em prova, não sendo o sorteio lisonjeiro para com esse facto, ditando o Southampton em seguida. As equipas inglesas são sempre uma ameaça. É a liga que mais gera dinheiro a nível mundial e, como tal, os seus gastos refletem isso. Mesmo uma equipa como o Southampton, seria candidata ao título em larga parte das ligas europeias. Em Inglaterra, é um mero peão que, casualmente, tenta intrometer-se na luta pela qualificação para o futebol europeu.

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"James é um dos melhores médios do mundo e um dos melhores da história nas bolas paradas, sozinho consegue resolver um jogo.", João Lento

James Ward-Prowse era o claro líder um plantel onde existiam mais jogadores de qualidade, como Lyanco, Che Adams e Dani Ceballos. Era também a primeira vez na fase a eliminar da Liga Europa que o Vitória jogaria o primeiro jogo fora de casa.

Surgiam então memórias para os adeptos mais velhos de quando o Vitória, sonhador, jogou contra o Newcastle e fora surpreendido pelas más condições atmosféricas, sendo goleado por estar a jogar em condições que em nada eram para si benéficas ou habituais.

Em Inglaterra, o que se viu, foi um grande jogo de futebol europeu. Frenético, duas equipas ofensivas que queriam ganhar. Primeiro marcaram os anfitriões, logo aos dez minutos, por Che Adams. Pouco mais de vinte minutos depois, os visitantes retorquiram, com Val a encontrar Bruno Ventura sozinho à entrada da grande área e o médio centro que acompanha João Lento desde o seu primeiro dia no Vitória disparou um míssil que só parou dentro das redes inglesas. 

Com o jogo prestes a ir para intervalo, apareceu James Ward-Prowse e numa bola parada que, fosse outro a marcar, não seria tão perigosa, fez um cruzamento milimétrico para um dos defesas centrais cabecear para dentro da baliza.

Na segunda parte, talvez por orgulho, talvez por irreverência juvenil, os jogadores do Vitória não se quiseram ficar atrás e num livre em tudo semelhante com aquele que dera golo para o Southampton, Bruno Ventura cruzou incrivelmente bem e, quase que de forma teleguiada, encontrou a cabeça de Pedro Ganchas, que desviou para dentro da baliza.

O jogo terminava 2-2 e as decisões ficavam adiadas para o jogo no Estádio do Bonfim.

Antes do último treino de preparação para a segunda mão contra o Southampton, o Vitória ficou a saber o seu sorteio para a próxima fase, caso passasse. Iria enfrentar o vencedor do Lille vs Dortmund, onde o Dortmund na primeira mão havia ganho por 4-3 ao Lille e era o grande favorito para a segunda mão, tendo, até agora, demolido toda a oposição. Era uma equipa claramente de Liga dos Campeões e, a par do Atlético de Madrid, eram os grandes favoritos à vitória na competição.

No treino, os jogadores, consciente ou inconscientemente, reagiam à notícia. Hugo Félix arriscava menos, Val preferia a tabela ao drible, Bruno Ventura não tentava o remate, Henrique Araújo tentava colocar demasiado os remates...

João cancelou o treino.

"Tudo para casa. Treinar hoje é um desperdício de tempo. Mas amanhã quero de todos uma resposta, amanhã, antes do jogo, quero que me digam o que é que acham que memórias são."

Os jogadores, na sua maioria jovens, ficaram extremamente confusos, alguns até a duvidar que raio estava ele a dizer. Não fosse o facto de já ter muitos créditos e o total controlo do balneário, provavelmente, teria corrido muito mal, mas a liderança de jogadores como João Valido ajudou a atenuar o ambiente de estranheza e a empurrar os jogadores para dar o próximo passo.

Antes do jogo, os jogadores deram a sua resposta. João agradeceu e partilhou com os jogadores a sua.

"Para mim, são apenas isso. Memórias. Aqueles que vivem das suas memórias, o que é que serão amanhã?"

Que lata tens tu, João. Tu, que aqui por memórias estás, como te atreves a pronunciar essas palavras, como se de uma altivez intelectual te projetasses, como uma qualquer entidade omnisciente que transcendeu a necessidade mortal do que é definido como memórias.

Evidentemente que os jogadores irão perceber que não és nada mais que um vendedor de banha da cobra e a equipa irá colapsar por causa da tua necessidade de projetares os teus próprios fantasmas para os outros.

Bem, pelo menos era o que eu gostaria de lhe poder dizer. Ah, como eu odeio a capacidade que ele tem para provar que eu estou errado.

Não só os jogadores voltaram a jogar como sempre, como alcançaram um resultado que ficaria para a história do clube.

Henrique Araújo sofre uma falta à entrada da área e sem hesitação ou medo, Hugo Félix pega na bola. O relógio batia nos oito minutos e o médio formado no Benfica não dava qualquer indicação de fazer algo que não rematar. Quase queria que o adversário soubesse que ia chutar à baliza. A forma como se dispunha, como se mexia, como respirava, tudo gritava "apanha-a se conseguires". O guarda-redes inglês não conseguiu.

Logo minutos depois, Bednarek, que havia feito a falta que deu o primeiro golo do Vitória, travou Henrique Araújo quando este se ia isolar e o árbitro não teve meias medidas: segundo amarelo para o internacional polaco. O Vitória jogava contra dez e tinha a vantagem de golos marcados fora.

Mas isso não era suficiente. A mensagem passou muito bem para os jogadores. No minuto seguinte, a expulsão do jogador do Southampton era apenas uma memória.

Numa jogada bem trabalhada entre Rodrigo Conceição, Val e Leroy, foi o defesa português a encontrar o ponta de lança Henrique Araújo na área e a celebrar o trabalho de equipa que desmontara a defesa inglesa com o segundo golo do Vitória.

Nem dez minutos depois, foi Kamo-Kamo quem encontrou o ponta de lança português que bisou na partida.

Os jogadores continuaram a carregar e o árbitro já estudava o tempo de compensação a dar, quando Henrique Araújo, numa bola bombeada para as costas da defesa do Southampton, decidiu fazer magia e rematar de fora da área, selando o seu hattrick. Os adeptos festejavam nas bancadas e os jogadores transpiravam confiança. Arriscada, mas a tática de João funcionara.

Na segunda parte os jogadores entraram mais calmos. A seguir a este jogo seguia-se um jogo importantíssimo contra o Porto e era preciso conservar energias para esse jogo. Talvez fruto dessa calmia, o Southampton conseguiu chegar ao golo através de bola parada. Já o jogo estava morto, quando Kamo-Kamo cruzou e Salisu decidiu roubar o poker a Henrique Araújo, atirando a bola para o fundo da própria baliza, selando o resultado num histórico 5-1, vingando assim os 5-1 contra o Newcastle em 1968.

Seguia-se então o Borussia de Dortmund, que atropelou o Lille na segunda mão por 6-0.

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O jovem Moukoko liderava o ataque do Dortmund e os melhores marcadores da prova e cada vez mais se afirmava como uma estrela mundial, atraindo as atenções de PSG, City e Liverpool

O ambiente em Setúbal não era bom. Havia um clima de derrotada entre os adeptos.

"Já foi bom aqui chegar!"

"Derrotámos equipas onde alguns jogadores recebem o nosso orçamento inteiro, o Vitória não é grande, é enorme!"

Entre outros posts eram publicados nas redes sociais.

Pelo meio, o calendário tornava-se infernal. O clube viria a sagrar-se campeão nacional, mas os jogos contra o Dortmund realizaram-se após um jogo contra o Porto, seguido de um jogo contra o Braga, realizando-se após isso a segunda mão, seguindo-se o que seria o jogo do título contra o Sporting.

"Estarei a ser demasiado ganancioso?"

João não tinha a mínima intenção de abdicar de algum das competições. Podia rodar a equipa contra o Dortmund, aceitar a derrota contra o Dortmund e focar-se no campeonato. Qualquer coisa sobre ser mais valioso um pássaro na mão, do que dois a voar.

Ainda assim, queria  tudo. Sentia um buraco no estômago, uma fome insaciável, um enorme desejo de vencer. Tudo.

Estranhamente os jogadores estavam bastante tranquilos. Os "garotos", todos pareciam mais crescidos, portanto João lutava contra uma sensação de satisfação acontecesse o que acontecesse.

A surpresa não tardaria a vir. Rolava a bola no Signal Idun Park e aos dezanove minutos, em esforço, Val fez um cruzamento sem qualquer forma de cálculo por trás, uma bola dificílima de ser jogada. Qualquer jogador normalmente dominaria a bola e tentaria criar algo, vendo o quão complicado seria o remate.

Henrique Araújo não. Num remate de enorme dificuldade técnica saltou e no que mais parecia um pontapé de karaté do que um remate de futebol, apanhou o guarda-redes dos alemães de surpresa e a bola abanava as redes.

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A fotografia que ficaria para a história do clube, do gesto técnico de Henrique Araújo.

Ainda assim, algo era evidente: o Dortmund era uma equipa consideravelmente superior. Não que o Vitória não conseguisse, em rasgos, mostrar o seu futebol, mas todas as barreiras que enfrentavam eram de uma dificuldade a que não estavam habituados.

E foi por isso que Henrique Araújo foi uma contratação tão instrumental na transfiguração da ofensiva da equipa. O internacional sub-21 português e a sua dupla com Val ficaram marcadas para a história deste jogo em particular, pois foram os dois jogadores que, claramente, eram diferenciados de todos os outros. Perante o seu futebol, o Dortmund vergava. A equipa apercebia-se disso e tentava jogar através destes o máximo possível e foi, novamente, graças a esta dupla que o Vitória conseguiu chegar ao segundo golo, com o Henrique a aproveitar outra oportunidade sem perdoar.

O Vitória ganhava 0-2 na Alemanha, surpreendendo todo o mundo do futebol.

"I don't know how he [João Lento] does it, but he always seem to find a way to lower the impact of the opposing star", comentavam na transmissão inglesa do jogo, com as restantes a partilhar da mesma opinião. O nome de João Lento ecoava pelo mundo do futebol e atravessava todos os corredores.

Ainda assim, os comentários surgiram demasiado cedo. Na segunda parte Bernas viu o segundo amarelo ao tentar travar Moukoko (que outra forma tinha para o travar se não em falta?) e acabou expulso.

Se o jogo com onze já estava extremamente complicado e beneficiado pela ótima exibição dos dois meninos do ataque, quanto mais com dez?

Gradualmente as estrelas cintilantes do ataque foram-se extinguindo, dado que a bola nem chegava lá e do outro lado duas super novas explodiam, com Loiodice e Moukoko a dizimar a defesa do Vitória, conseguindo mesmo empatar o jogo. No fim da partida, felizmente, o VAR conseguiu apanhar Moukoko em fora de jogo, caso contrário o Vitória teria mesmo saído derrotado da Alemanha. Assim sendo, ficava tudo em aberto para o Estádio do Bonfim, com o empate a duas bolas.

Há quem acredite nos deuses do futebol. Quem acredita, faz muito bem, pois eles, de facto, existem. Não são muito simpáticos ou acessíveis, são de cismas, mas gostam muito do que fazem. Não sei se é mérito de João e os seus jovens, se os deuses do futebol a interferirem, se ambos, mas a verdade é que a bola rolava no Bonfim, o Vitória jogava consideravelmente melhor que na primeira mão, já ganhava mesmo por 1-0, mostrando que não foi sorte marcar na Alemanha, como logo em seguida, no espaço de dois minutos, Klostermann, defesa direito do Dortmund, conseguiu a proeza de ver dois amarelos (bem mostrados) e, consequentemente, sendo expulso. O Dortmund já estava a mostrar dificuldades na visita ao Estádio do Bonfim, dificuldades que viria a culpar na falta de condições do estádio, gerando um bate boca feio entre dirigentes, a encontrar-se a jogar com menos um elemento na defesa, transparecia apenas valer a qualidade individual dos jogadores.

Qualidade individual essa que era de outro mundo e estes responderam logo a seguir à expulsão, com Moukoko a finalizar o um para um contra João Valido, empatando o jogo.

Do outro lado, quem retorquiu foi Val, também logo três minutos a seguir, numa boa combinação com Rodrigo Conceição, simulando o passe para tirar o defesa do Dortmund da frente, mas rematando para a baliza e marcando o golo que selaria o marcador.

Os adeptos festejam efusivamente após o apito do árbitro. O Vitória estava na final da Liga Europa. Uma frase estranha. Há nem quatro anos, profetizava-se a morte do clube. Quatro anos depois, sob a batuta de João Lento, iriam jogar a sua primeira final europeia.

Ainda assim, entre os jogadores, um estava mais feliz que todos os outros.

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Do outro lado, a opor-se ao Vitória, estaria o outro candidato ao título, Atlético Madrid.

Hugo Félix fazia uma vídeo chamada com o irmão e trocavam galhardetes no meio da festa de cada um, ainda que esta fosse muito mais comedida no balneário do Atlético Madrid.

Os irmãos iriam enfrentar-se na final da Liga Europa e, sendo duas das principais figuras das suas equipas, os jornalistas, nacionais e estrangeiros, atiravam-se à história.

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Os irmãos Félix encontravam-se em planaltos completamente diferentes do futebol, mas, por um dia, pela primeira vez, seriam rivais em campo.

Os adeptos corriam às bilheteiras, desejosos de adquirir os seus bilhetes, ainda para mais sendo a final anunciada para bem perto, no Estádio José Alvalade, que já recebera uma final que não correra muito bem para o clube português que a jogou, enquanto que João Félix tinha várias boas memórias das vezes que lá jogou.

Nada disso significava algo para os adeptos. A alegria e o orgulho que sentiam era enorme. Alguns discutiam até quem era mais adepto que os outros e que tinham mais direito a bilhetes, porque estavam lá quando o clube foi despromovido à Liga 3, enquanto que outros só se juntaram no ano passado quando viram o clube a ter sucesso.

Justificado ou não, toda a gente queria bilhetes e numa atitude nobre, a câmara de Setúbal, em acordo com o clube, adquiriu uma centena de bilhetes que seriam oferecidos a jovens de zonas mais pobres da cidade e a jovens que demonstrassem boa performance académica nas escolas públicas da cidade.

No lado do realismo, os adeptos do Atlético esfregavam as mãos. Não queriam subestimar o Vitória, claro, mas é preciso alguma honestidade: era um adversário muito mais acessível que o Dortmund. O Vitória ganha uma eliminatória em dez ao Dortmund. Calhou que os deuses do futebol assim o quisessem naquele dia e toda a gente sabe que os deuses do futebol são de vontades voláteis.

E sabem-no bem. Talvez seja por isso que aos dez minutos de jogo na final os adeptos já temiam o pior. A equipa parecia algo nervosa e o Atlético aproveitava uma má saída de João Valido para se adiantar no marcador.

Imediatamente o Atlético recuou. Uma filosofia completamente diferente da do Vitória, que ataca até que os seus jogadores não possam mais. O Atlético não, baixou as linhas e procurava controlar a bola, defendendo no campo inteiro.

Posto isto, o Vitória tinha dificuldades em impor o seu futebol e a frustração dos jogadores aumentava. O árbitro apitava para o intervalo e os jogadores estavam claramente desiludidos e nervosos.

Cabisbaixos, falando entre si, partilhando o seu desgosto, tudo sob o olhar do seu treinador, que não se pronunciava. Antes pelo contrário, estava tranquilo e parecia até sorridente. Isso foi o suficiente para que um dos mais revoltados, Rodrigo Conceição, conhecido por não ser preciso muito para que lhe chegasse a mostarda ao nariz, se revoltasse para com o treinador.

"Está muito feliz para quem está a perder!", soltou o jovem lateral direito.

Os jogadores ficaram num misto de impedir que o colega falasse mais ou juntar-se a ele. A verdade é que não concordavam com o desrespeito ao treinador, mas concordavam com o sentimento do colega de equipa.

"Não sei porque é que estás tão chateado. Sinceramente, depois destes quarenta e cinco minutos, não vejo porque é que eu haveria de achar que vamos perder este jogo.", respondeu-lhe o treinador.

Era um momento incaracterístico porque não mentia. De alguma forma, naquele dia, João sentia que seria impossível perder.

E os deuses do futebol responderam ao seu desejo. Aos 63', Hugo Félix tem a bola completamente controlada, roda sobre Kovacic e está de frente para a baliza, pronto para criar jogo ou até rematar, quando o médio croata em uma entrada completamente imprudente por trás sobre o médio português, que fica imediatamente agarrado à perna em dores, temendo-se uma lesão muito grave. O árbitro não hesitou e mostrou imediatamente o vermelho ao jogador do Atlético, sem sequer precisar de ir ao VAR.

No banco, o jogador dialogava com o treinador.

"Estás bem?"

"Sim mister, só quero jogar, consigo jogar!"

"Porquê?"

"Porquê? Porque vamos ganhar, não foi o que disse? Quero ganhar ao meu irmão!"

João, o mentiroso, era exacerbado por recordações. Em tempos, também ele sentira algo semelhante.

Não que ela fosse sua irmã, afinal, conheceram-se porque tinha tido curiosidade por o seu nome estar sempre antes dos livros que escolhia.

Hugo Félix voltava a entrar em jogo e o treinador voltava a tentar concentrar-se neste mesmo. O Vitória atacava e quando conseguia furar a defesa do Atlético, encontrava um dos melhores guarda-redes do mundo, Oblak, que parava qualquer tentativa...

... pelo menos até surgir um herói improvável. Não foi Henrique Araújo, não foi Val, não foi Kamo-Kamo ou Bruno Ventura, foi sim Rodrigo Conceição que num momento de puro instinto sobre no terreno e entra na área, Sophian vê o seu movimento e passa-lhe a bola para uma zona vazia e o filho de Sérgio Conceição, sem qualquer critério, sem um pingo de reflexão ou cálculo, dispara a bola com toda a força que tem e só assim mesmo é que o Vitória conseguiu furar a defesa colchonera, empatando a partida à entrada dos dez minutos finais de jogo.

A jogar com menos um, o Atlético focava-se nos seus contra-ataques através de João Félix e Ángel Correa, mas sem grande sucesso. O Vitória apostava tudo no ataque, mas Oblak continuava concentrado apesar do golo sofrido.

Volvidos 90', o jogo estava empatado e não havia um vencedor decidido, portanto, seguia-se o prolongamento.

Talvez fosse a fadiga de uma longa época. Talvez fosse a pressão das bancadas, a pressão da final ou até a vontade dos deuses do futebol. O que foi ao certo, ninguém sabe, mas aos 105', em algo completamente incaracterístico, Milenkovic bate um livre junto à linha de fundo extremamente mal, colocando a bola nos pés de Henrique Araújo, que, pelo canto do olho vê a corrida de Kamo-Kamo e solta-lhe a bola, deixando-o no um para um com Oblak e o homem que marcou o primeiro golo do Vitória de João Lento desempatava o jogo e colocava o Vitória na frente, nesta histórica final. 

O Atlético parte imediatamente para o ataque, sem qualquer critério, tentando apenas meter a bola na frente e o Vitória responde com Val a segurar a bola na frente e a conseguir ganhar um pontapé de canto para levantar os adeptos no estádio.

Os adeptos roíam as unhas e eram surpreendidos quando Bruno Ventura bate o canto, Luís Silva cabeceia mal (queixando-se de falta) mas o seu cabeceamento acaba por ser um desvio fortuito que faz com que, ao segundo poste, Cepeda conseguia ganhar a bola e apanhar Oblak em contrapé, selando o resultado em 3-1.

Hugo Félix batia o seu irmão, João Félix. Os irmãos abraçavam-se no fim do jogo e trocavam camisolas, rodeados de fotógrafos e os jogadores e equipa técnica celebravam efusivamente junto aos adeptos.

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Ainda assim, no meio da festa, apesar de, por vezes ser arrastado para o meio desta por adeptos, jogadores ou equipa técnica, o treinador encontrava-se distante de todas as alegrias.

Respondia friamente aos jornalistas, sempre com um distanciamento que quase fazia parecer que não estava ali.

E não estava.

Aos dezasseis anos, deixara-o. Permitido pelas funcionárias que já o conheciam, visitou a escola e folheou os velhos registos de requisições de livros. Escrito numa letra que gradualmente se tornava mais bonita, estava o nome que procurava. Leonor de Sousa. Parecia que carregava sempre com mais força no de, como se para o destacar. Esboçava um sorriso a lembrar-se de como pensava que certamente teria da mania.

Ainda tentou roubar um dos livros do registo como recordação, mas acabou por não ter coragem para o fazer.

Aos dezassete anos, quis morrer. Ponderou como o fazer. Entrou no autocarro a caminho de casa e pensou como o faria. O que aconteceria em seguida. As consequências da sua escolha. No fundo, queria fazê-lo por egoísmo. Queria mais um momento em que pudesse falar com ela. Na altura, achou que isso seria por saudades. A solidão dos seus dias sem a sua energia exacerbavam-no e todos os tons coloridos eram substituídos por preto e branco. Hoje sabia porque é que o queria fazer.

Aos dezoito anos, fugiu para o Brasil. Folheava os livros que ambos leram, os que ela mais gostou, à procura de uma resposta. "Tem de estar algures", pensava. Acordava com esse desejo e era com esse desejo que tentava adormecer. Foi então que leu uma passagem num antigo diário digital que partilhara com ele em tempos. "Com as instruções dele, ganhámos quase todos os jogos, era quase como se ele adivinhasse como é que podíamos ganhar, vou tentar convencê-lo, aposto que um dia vou poder gabar-me que o meu irmãozinho é melhor que o José Mourinho, hehehe! Rima e, como tal, é verdade!"

Decidiu então largar tudo e dedicar-se ao futebol. É por isso que digo que é um mentiroso. Ele, de todos os que constituem esta nova geração do Vitória, pede aos outros que abandonem as suas memórias, sem que ele mesmo o faça. Egoísta. Mentiroso. Egocêntrico.

Resta então perguntar, porquê? Porquê, João?

Havia algo que João se apercebera. Tinha trinta e dois anos e haviam passado dezasseis desde que ficara sozinho e quinze desde que decidira morrer. Quando pensava porque fazia o que estava a fazer, apenas sentia um enorme vazio que procurava ser satisfeito. Não é que não soubesse de onde esse vazio vinha, mas, ao contrário do que esperava, com o tempo, esse buraco negro só se tornara maior, consumindo tudo em seu redor. Entre aquilo que devorara, estavam as suas memórias. Por mais que tentasse, se não olhasse para uma fotografia, não se lembrava dela. Quanto tentava visualizar porque é que queria ganhar, via um semblante de uma rapariga, mas não era capaz de o colorir. De que cor eram os seus olhos? Como é que era o seu cabelo? Curto? Longo? E a sua voz? Será que era irritante? Era alta? Baixa? Média?

Quanto mais tentava colorir a sua fachada, mais apertado sentia o coração. Sentia-se a afogar, sentia que se estava a trair a si mesmo.

De troféu na mão, não era mais que um impostor. Sorria para as fotos com um sorriso que não era seu. Fazia o seu papel, sentido que estava a ocupar um lugar que não era seu. Lembrava-se de porque é que Hugo Félix queria voltar a entrar em campo. E eu? Porque é que quero isto?

Por ti, João.

Por ti.

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Caso não seja evidente, porque não o escrevi por palavras absolutas, esta foi a última atualização do save.

Achei que era uma boa nota para terminar, três meses depois e depois desta temporada inesperada com estas chocantes vitórias para a coroar. De certa forma era o que tinha planeado desde o início, não esperava era que acontecesse tão cedo.

Espero que tenham gostado, não vos julgo se não tiverem, nunca quis que não fosse uma história algo caótica porque era a melhor forma possível de, aos meus olhos, caracterizar a personagem. Ainda assim, evidentemente, compreendo perfeitamente que possa simplesmente ter sido excessivamente esquizofrénico, mas, no fundo, estava a fazê-lo por mim, queria produzir algo que me deixasse satisfeito.

Posto isto, boa sorte a todos os que continuam com os seus belos saves, principalmente o Black Hawk, que, a meu ver, seria o vencedor do Save do Mês todos os meses e deveria ser a barra que todos os restantes almejam alcançar ao postar, atualmente, nesta secção. Eu bem tentei, ainda que infrutífero.

Um abraço e bons jogos.

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Ora, indo por partes, e por posts diferentes, que o CMPT agora mete quotes dentro de quotes, parece a piada dos tupperwares que servem para guardar tupperwares (pode ser que isto agrupe tudo no fim).

Citação de El Shafto, Em 16/05/2022 at 13:58:

"É tal e qual como o Gandalf disse ao Freeza em Marte depois da luta contra os Moto Ratos, "Old habits die hard, my friend" nós somos iguais".

Ah!, como irritar várias fan bases em simultâneo. 😄

Citação de El Shafto, Em 16/05/2022 at 13:58:

Valia imitar outros e proclamar "Bra-ga! Bum! Bum! Bum!", não fosse o mundo dos cânticos de futebol uma constante mutação de ritmos populares

Isto teria feito mais sentido se fosse no jogo do Porto e com os Super Dragões a fazê-lo, if ya know what I mean... 👀

Brincadeira! Guardem as naifas! 😶

Bum! Bum! Bum!

 

Citação de El Shafto, Em 18/05/2022 at 11:57:

Surgiu o interesse do Gil Vicente em Walter Bou e chegava ao fim o movimento #BouTemMel em Setúbal

Este movimento não teve o devido reconhecimento. Principalmente quando tiveste em tempos a belíssima dupla Bou Bustos...

Damn, esta foi má até para os meus padrões.

Anyway, isto foi belíssimo de se acompanhar. Escreves muito, muito bem, já o tinha dito aqui, e quando assim é até se lê num instante por mais caracteres que um texto tenha. Fico com pena que tenha terminado, mas termina no momento certo.

Agradecido também pelas palavras finais, mas pah, acho que ninguém neste fórum escreve como tu. Isto foi um docinho. Vou sentir falta da leitura semanal.

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Grande Grande Vitória, não teve grande hipótese na LC mas foi a LE e provou que era merecedor de estar na LC ao limpar a concorrência toda que lhe aparecia a frente.

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