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Tópico da Política, Ambiente e Economia

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Citação de antifa, há 4 minutos:

Desde que lançou “A Esquerda não É Woke”, em 2023, Susan Neiman tem recebido mensagens de leitores agradecidos. “Pessoas que pensavam desta maneira, mas não conseguiam perceber porque é que estas coisas as incomodavam”, contou-nos, em março. As contradições do movimento woke, que diz ter nascido nos campus universitários americanos, em 2016, são o tema do título mais recente (agora editado em Portugal pela Presença) de uma longa obra dedicada à filosofia e à análise cultural.

Talvez devêssemos começar por tentar definir woke — parece ser um conceito confuso. É um movimento, um discurso, uma ideologia? Terá características de culto? Se tivesse de criar uma definição para uma enciclopédia, o que escreveria?

Normalmente não escrevo definições para enciclopédias, mas se tivesse de o fazer, a primeira coisa que diria é que é um conceito incoerente. Baseia-se num conflito entre emoções e ideias. É por isso que é tão confuso. As emoções vêm da esquerda tradicional ou da esquerda liberal. Querem que todas as coisas sejam iguais, querem estar ao lado dos oprimidos, dos marginalizados. Querem fazer algo pelos que estão em apuros, por todas as vítimas, querem olhar de frente para os crimes da história e, se possível, fazer algo para os resolver. E tudo isso são emoções que eu partilho e partilhei toda a minha vida. Mas o que eu acho que o woke não percebe é que essas emoções estão a ser prejudicadas por algumas ideias filosóficas extremamente reacionárias, e não é preciso ter lido filosofia para captar essas ideias, porque elas estão na corrente, estão constantemente na comunicação social e nós não as percebemos. Ontem, em Madrid, alguém me perguntou o que penso sobre o “The New York Times” e eu respondi que este é o meu primeiro livro em 20 anos sobre o qual não eles publicaram uma crítica. As críticas que escreveram sobre os meus últimos quatro livros foram muito boas. É verdade que os citei como um mau exemplo dos meios de comunicação tradicionais. Não estamos a falar de estudantes universitários. Estamos a falar de meios de comunicação muito poderosos que publicam artigos que pressupõem que as inclinações políticas de cada um de nós são determinadas pelo local de nascimento das nossas mães. Escrevi este livro para fazer com que as pessoas parassem e pensassem nisso. Há outros tipos de ideias. Por exemplo, aposto que todos os grandes jornais do mundo publicam, todos os dias, algum artigo que diz que determinado acontecimento pode ser explicado por ser vantajoso para a evolução. E os nossos antepassados, caçadores-recoletores, faziam-no há 200 mil anos e isso explica tal acontecimento. Essa também é outra hipótese louca, mas conta como ciência. O que quis fazer foi expor os pressupostos filosóficos que o woke toma como certos e que, na verdade, vêm de fontes extremamente reacionárias.
 

Porque acha que o movimento do woke é tão forte e crítico ao ponto de, como diz, alguns dos seus amigos, e mesmo a professora, terem começado a pensar que se calhar já não são de esquerda?

Acho que o woke é uma expressão de desespero. É uma expressão de sentimento. Não há muito que a esquerda possa fazer em grande escala, de forma internacional, como pensávamos que poderia acontecer até 1991. Essa é uma data crucial. Quando o verdadeiro socialismo existente na Europa de Leste entrou em colapso, abriram-se muitos caminhos. Ou seja, o capitalismo existe sob várias formas. Não há razão para que o mesmo não possa acontecer com o socialismo. Mas houve uma combinação de mensagens difundidas pelo mundo financeiro, pelo mundo político, e, curiosamente, pela cultura popular, que serviram para nos convencer que, como dizia Margaret Thatcher, não há alternativa ou, como disse Francis Fukuyama, que este é o fim da história. Não há alternativa ao neoliberalismo global. E isso não significava apenas um sistema económico. A dada altura no livro cito Thatcher, que disse “não estamos a falar de economia. Queremos mudar a alma”. E as nossas almas têm mudado. Não é por acaso que toda esta pseudociência da psicologia evolutiva ganhou asas, ao mesmo tempo que a ideologia neoliberal global tomava conta do mundo. Portanto, não falamos apenas de as pessoas terem perdido a esperança de que pudesse haver um projeto socialista com o qual se pudessem preocupar e talvez um dia ver implementado, mesmo que tal não acontecesse na sua geração. As pessoas perderam a esperança de que os seres humanos possam ser motivados por qualquer outra coisa que não seja o desejo de poder e bens, que é basicamente a mensagem das ideologias reinantes. E acho que isso começou por volta da mudança de século ou no final dos anos 90. Quer que também fale sobre isso?

“Há um debate sobre os homens não poderem escrever sobre mulheres ou os brancos sobre negros. Isso não é só o fim da literatura, é uma espécie de fim da comunicação”

Sim, por favor

O woke tornou-se um fenómeno internacional e estou convencida de que não é um conflito geracional. Começou nos campus universitários americanos, mas certamente migrou para muitos países do mundo e rapidamente foi absorvido pelos guardiões da cultura. Não se trata apenas do “The New York Times”, mas sim do mecanismo de edição da maioria dos meios de comunicação social. Acho que, no sentido de desespero que já estava a tomar conta da esquerda, 2016 desempenha um papel especial, porque foi quando começou nos campus das universidades americanas. E estou a tentar imaginar como deve ter sido ter 10 anos quando os Obamas chegaram à Casa Branca, e ver isso como normal. Não como uma vitória ou uma coisa incrível. Conheço muitas pessoas de cor que não queriam votar em Obama porque tinham a certeza de que um negro seria assassinado antes de ser Presidente. Era assim que as coisas estavam em 2008. Para um adulto que já soubesse alguma coisa de história não, mas para uma criança de 10 anos, o normal era haver uma família negra, inteligente e bonita na Casa Branca. E, de repente, foram substituídos por [Donald] Trump. A palavra woke não foi usada na campanha presidencial americana de 2016. Cresceu mais tarde e penso que é uma expressão de desespero. Em primeiro lugar, Trump chegou ao poder como racista, como alguém que dizia as coisas racistas e sexistas que os outros tinham medo de dizer. Ficou claro que as pessoas queriam lutar contra isso. Mas também ficou claro um sentimento de desespero.

Sente que a linguagem do woke envenena o debate político? Qual o efeito de dizerem que uma pessoa empenhada com a justiça universal é um aliado, ou quando se referem aos direitos como privilégios?

Para os liberais, e essa é, na minha opinião, a diferença entre os liberais e a esquerda, os direitos sociais são privilégios. São bons se os tivermos, mas concedidos de acordo com a vontade de um empregador e não de um governo. Coisas que as pessoas na Europa tomam como garantidas, como cuidados de saúde, educação universitária e baixas médicas — houve agora uma greve nos Estados Unidos ou uma ameaça de greve por parte do serviço nacional de comboios, pois queriam cinco dias de baixa médica. E não se tratava apenas dos cinco dias. Queriam poder ficar doentes e não serem despedidos por estarem doentes. Isto logo após uma pandemia internacional. E Biden, embora afirme ser um sindicalista, não conseguiu aprovar essa medida. Portanto, os europeus devem dar valor ao que têm. Não acontece apenas nos Estados Unidos, mas na maior parte do mundo em desenvolvimento. Na China, que conseguiu combinar o pior do capitalismo e o pior do comunismo num só país. De qualquer forma, se considerarmos essas coisas benefícios ou privilégios, então não são obrigatórias. São algo que é bom como caridade, mas não algo a que tenhamos direito dentro de um pacote de direitos humanos. E isso, para mim, é a diferença entre os liberais e a esquerda. No que diz respeito a ser um aliado, se alguém me chama de aliada, sinto-me imediatamente alienada. Porque um aliado é alguém cujos interesses se alinham temporariamente com os nossos. O exemplo que uso no livro, mas há muitos outros, é que os EUA e a União Soviética foram aliados enquanto tinham um interesse comum, que era derrotar a Alemanha nazi. Mas assim que deixaram de o ter, os Estados Unidos... Na minha opinião, foram os EUA que escalaram a Guerra Fria. Quando quero estar envolvida em algum tipo de ação política, faço-o pela solidariedade como questão de princípio. Não porque tenha qualquer interesse que seja comum, digamos, com homens ou mulheres negros desarmados que estão a ser baleados pela polícia. Acho que é injusto, uma abominação e uma violação dos direitos humanos. Mas é uma questão de princípio. Tive uma discussão com uma das minhas filhas sobre isso. Podemos dizer: “Oh, são apenas palavras, é apenas linguagem, não é realmente importante o nome que se lhe dá.” Mas acho que é, porque o pensamento por trás disso é que as pessoas só lutam genuinamente pelos seus próprios interesses. Digamos que o Black Lives Matter é fundamentalmente uma questão sobre interesses negros, não interesses humanos. Se a única razão para lutar pelos direitos civis ou contra a violência contra os negros é porque é do seu interesse, porque é que alguém se deve preocupar com isso? Não devia. Assim que se começa a falar de aliados, reduz-se toda a luta política a uma questão de interesse. E eu não acho que isso seja verdade. Se a nossa família, os nossos amigos e a nossa tribo estão a ser oprimidos, isso talvez nos motive a agir mais rapidamente. Mas eu acredito nesta coisa engraçada, que supostamente morreu no século passado, que é que a maioria das pessoas quer viver num mundo justo. Claro que há exceções. Referi o Donald Trump como alguém que parece não entender o que é um ideal ou um princípio. E realmente não entende. Fica surpreendido quando lhe tentam explicar o que são, mas acho que é por isso que as pessoas se sentem fascinadas por Trump, mesmo que o detestem: por ser tão diferente de nós.

Vamos ao primeiro princípio fundamental da esquerda que sente que o woke rejeita: o universalismo. Porque é que o universalismo é crucial para a esquerda e como é que o woke o enfraquece ou rejeita?

O princípio fundamental básico da direita é que só podemos realmente ligar-nos a pessoas da nossa própria tribo e que não temos nenhuma verdadeira obrigação com ninguém. Existe um princípio antigo, na verdade bastante universal, sobre os “direitos dos visitantes”, ou seja, se um estranho aparecer à sua porta, é suposto cuidar dele. Vemos isso em Homero, mas está presente em muitas outras culturas. Ou seja, não assumir uma posição de animosidade imediata para com alguém que não faz parte da nossa tribo. Apesar de termos histórias sobre isso em Homero, também temos uma sensação muito forte de tribalismo e guerras entre Atenas e Esparta. E isso transforma-se num movimento conservador ao qual por vezes se chama nacionalismo. Eu chamar-lhe-ia tribalismo, porque é mais específico. Não precisa ser alguém do seu próprio grupo étnico. Também podem ser pessoas do seu sexo, ou outras coisas menores. E a ideia da esquerda passava por dizer que nos podemos ligar a todos os tipos de pessoas. Claro que nos poderíamos questionar como os homens e mulheres se juntaram. Vemos certas semelhanças visuais, falamos a mesma língua, temos certas ligações culturais, e dizemos: “OK, estas são as pessoas que percebem as minhas piadas, estas são as pessoas que conhecem as canções com que eu cresci.” É por isso que a apropriação cultural é uma coisa tão boa. Mas ser universalista significa abstrair-se das aparências que vemos em pessoas que se parecem connosco e ver que, por trás de todas essas diferenças, temos algo em comum, algum potencial para a dignidade humana. E essa pessoa deve ter direitos humanos.

Acha que o discurso woke converteu a famosa máxima de Terêncio “Eu sou humano e nada do que é humano me é estranho” em “Eu sou humano e nada do que é humano me é familiar, exceto as minhas circunstâncias específicas”?

Sim, acho. Há um grande debate, principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha, sobre o facto de as mulheres não poderem escrever sobre homens. Os homens não podem escrever sobre mulheres, os brancos não podem escrever sobre negros, etc. Ou sequer traduzir. E isso não é apenas o fim da literatura, é uma espécie de fim da comunicação.

Porque é que a política de identidade, a que se refere como tribalismo, é uma forma de perder o foco? Parece que o objetivo não é criticar o facto de 10% das pessoas comerem 90% do bolo, mas exigir que pertençamos aos 10% que comem 90% do bolo. Então, é por isso que, como diz Richard Rorty, que cita no seu livro, “este é o tipo de esquerda com que a oligarquia sonha”?

Sim, Rorty estava certo. Mas acho que há um problema mais fundamental. Esta é a razão pela qual não uso o termo “política de identidade”, porque penso que pressupõe o que precisa de ser provado, nomeadamente, que as nossas identidades fundamentais são determinadas por duas coisas que não podemos mudar: a nossa origem étnica e o nosso sexo biológico. Eu peço às pessoas para pegarem numa folha e escreverem dez coisas. Como se estivessem a escrever o seu perfil numa app de encontros ou a sua autobiografia, ou a escrever uma carta de apresentação a um futuro empregador. O que quer que seja que sintam ser fundamental dizer sobre si mesmos. É provável que escrevam sobre raça e género, mas tenho a certeza de que não escreveriam apenas isso. E é muito bizarro que tenhamos chegado a pensar que as nossas identidades são redutíveis às duas coisas que não escolhemos. Curiosamente, reli Frantz Fanon quando estava a trabalhar neste livro. E pensei que era estranho, porque Fanon é considerado o santo padroeiro da política de identidade negra e da teoria pós-colonial, e relendo “Os Condenados da Terra” e “Pele Negra, Máscaras Brancas”, isso não condiz com o que se diz sobre Fanon. Acabei de terminar um longo ensaio sobre Fanon, e ele é um verdadeiro universalista. Um existencialista profundo, completamente influenciado por Sartre. E a ideia de que a existência precede a essência. Podemos entrar num discurso Hildegardiano sobre isso, mas também podemos dizer que significa que não somos determinados pelo nosso nascimento. Sou livre para escolher a minha identidade. A frase que cito é: “Não sou escravo da escravatura que desumanizou os meus antepassados.” E isso é tão contrário ao woke e à discussão pós-colonial que ouvimos vezes sem conta que nem sequer nos damos ao trabalho de voltar atrás e ler as coisas e pensar.

No segundo capítulo, fala da distinção entre justiça e poder. Refere-se ao famoso debate entre Chomsky e Foucault, que está no YouTube. No final do debate, Chomsky disse que Foucault era a pessoa mais amoral que já conheceu. A razão é a distinção entre justiça e poder. Porque Foucault não aspira à justiça, aspira ao poder. Não parece ser contra a injustiça porque quer justiça. Parece ser contra a injustiça porque procura um tipo diferente de injustiça. Será que o movimento woke herdou isso?

É compreensível, depois de ver, durante anos e anos, as pessoas fazerem reivindicações de justiça ou democracia, quando tudo o que lhes interessa realmente é o poder. Dou o exemplo da guerra de Bush no Iraque, que não era de todo sobre levar a democracia para o Médio Oriente. Mas, não sei como, muitos europeus acreditavam que era isso que Bush queria. Começo com esta discussão de Trasímaco na “República” de Platão, que basicamente diz: “Parem de falar sobre justiça. Estão a tentar enganar-vos. A justiça é uma reivindicação que pessoas fortes usam para convencer pessoas mais fracas a ouvi-las quando, na verdade, estão apenas a levá-las como ovelhas até ao matadouro.” É uma passagem interessante, porque é a única vez que Sócrates diz ter sentido medo daquele jovem. E podemos ver a “República” como uma tentativa de responder a esta acusação. O engraçado é que todos pensam que é pós-moderno e tem pelo menos 2500 anos. As pessoas estão sempre a pensar nisso e não têm de ler filosofia para o fazer. Este é apenas mais um exemplo da forma como os media traduzem afirmações filosóficas. Não sei quantos jornalistas estão aqui, mas aposto que não conhecem nenhum jornalista que alguma vez tenha ganhado um prémio ou uma promoção por escrever uma história a dizer: “Pesquisei muito e esta foi realmente uma boa jogada. Isto aconteceu. Isto tornou o mundo um pouco melhor.” Os prémios e promoções são ganhos com histórias que dizem “Isto parece uma coisa boa, mas nos bastidores, descobri que na verdade aconteciam outras coisas e esta foi apenas mais uma forma de esta empresa ou de este político ganhar mais poder.” Fico feliz por existir jornalismo de investigação. Acho que esse tipo de coisas precisa de ser contado. Mas se ouvirmos isso várias vezes, e se nos dizem que somos ingénuos porque acreditámos que alguém estava a agir por um sentido de justiça e que nos fazem sentir envergonhados... Acreditem, já me chamaram ingénua inúmeras vezes. Aí começamos a acreditar que não vale a pena tentar distinguir essas duas coisas. Concordo que é muito difícil, mas toda a base da esquerda e do liberalismo é a ideia de que, por mais difícil que seja, em casos particulares, fazer essa distinção, essa é a base da justiça. Não se pode roubar a terra de alguém só porque somos maiores e não sermos punidos por isso. Acontece, mas condenamos esse comportamento. O interessante é que não condenámos o colonialismo antes. Todas as sociedades que conhecemos tiveram alguma forma de colonialismo e era assim que o mundo era. É possível vê-lo em Tucídides. As grandes nações engolem nações mais pequenas e isso é natural. Ainda acontece. Mas a possibilidade de condenar e de fazer algo sobre esse tipo de injustiça é a base do que significa estar à esquerda. Se investigarmos o suficiente, vamos sempre encontrar os interesses por trás do que parecia ser uma boa ideia, mas isso é muito Foucault. Ele acreditava que tudo é poder.

O terceiro capítulo chama-se Progresso e Destino. Nele afirma que, enquanto à esquerda temos a crença de que o progresso é possível, para o movimento woke a ideia de progresso é em última instância impossível, diz que estamos a viver o pior dos tempos. Porque é que isso é uma grande diferença?

Não estamos a viver tempos bons, não me interpretem mal. Quando Bernie Sanders diz que estas são as épocas mais perigosas que já viveu, e ele é mais velho do que eu, então estes são tempos realmente maus. Não quero esconder nada, mas acho que não é possível fazer progressos se pensarmos que tal não aconteceu no passado. Se pegarmos num livro, filme ou peça de teatro e o analisarmos hoje, ou se fizermos uma crítica num jornal ou se pensarmos se a publicamos ou não, é como dizer: este livro é sexista. E dizer que Abraham Lincoln não era tão antirracista como pensamos. Esta ideia tira-me do sério, porque Abraham Lincoln deu a sua vida por defender os direitos civis para os negros. Essa foi a razão pela qual foi assassinado. Quando as pessoas começam a querer derrubar monumentos de Lincoln e retirar o seu nome de alguns locais, apetece-me perguntar-lhes se conhecem [a História] além das discussões no Twitter. Há passagens realmente ofensivas de Immanuel Kant, que é um autor de que gosto muito. O que ele diz sobre as mulheres é horrível. E tem algumas passagens racistas, mas deu-nos a metafísica dos direitos humanos universais, e acredito que, se ele falasse comigo ou consigo, ou olhasse para a forma como o mundo é, ele e muitos outros pensadores do iluminismo veriam que tínhamos progredido. Tornámo-nos melhores e foi devido a estes autores. E fizemo-lo usando princípios que estes autores não conseguiam ver por estarem presos no preconceito do seu próprio tempo. Mas fizemos progressos. E sempre achei estranho, este cliché de ler livros antigos para analisar o que não é agora aceitável, porque podíamos olhar para eles e ver como melhorámos nalguns aspetos. Mas isso não acontece e é profundamente preocupante.

Porque é que não há mais pessoas à esquerda a dizer isto? Quer dizer, a escrever livros como este?

O livro saiu há cerca de um ano nos Estados Unidos e na primeira apresentação que fiz, em Princeton, disse: “Este livro surgiu de conversas que de certeza têm tido em privado com os vossos amigos mais próximos nos últimos anos”, e toda a gente riu e concordou com a cabeça. Comecei a escrever um livro semelhante, focando apenas a parte universalista, com um amigo meu, que infelizmente morreu entretanto. Era um sociólogo muito conhecido nos Estados Unidos, com 16 livros publicados, e estávamos os dois perturbados; foi durante a pandemia e estávamos em confinamento. E a certa altura as pessoas começaram a comunicar umas com as outras via Zoom e faziam reuniões assim, e pensámos que era uma boa ideia escrever um livro sobre isso. Não conseguimos que nenhum editor o aceitasse. E eu tenho um agente muito bom. Sei que havia uma série de livros em 2021, de pessoas mais famosas do que eu no mundo da literatura inglesa, que não conseguiam uma única editora. E um editor que já publicou, com sucesso, vários dos meus livros disse que me respeitava muito, mas que naquele momento não éramos as pessoas certas para escrever sobre isto, ou seja, éramos ambos brancos. Espero que isto esteja a mudar, porque tantas pessoas vieram ter comigo ou escreveram-me a agradecer por ter escrito este livro. Pessoas que pensavam desta maneira, mas não conseguiam perceber porque é que todas estas coisas as incomodavam. E agradeciam-me por ter escrito o livro.

“Todas as sociedades tiveram alguma forma de colonialismo. As grandes nações engolem nações mais pequenas. A possibilidade de fazer algo sobre isso é o que significa estar à esquerda”

A questão de as pessoas não se pronunciarem por causa do medo lembra-me que, no final do livro, [conta] que encontrou um amigo e lhe disse que estava a escrever este livro e que tinha três princípios cruciais que distinguem a esquerda do movimento woke. E ele disse que acrescentaria um quarto princípio, um compromisso com a dúvida. Ou seja, ele acha que à esquerda temos um compromisso com a dúvida e que o movimento woke não. Acha que isso significa que o movimento woke tem algumas características do fanatismo?

Sim. O problema é que há fanáticos à direita e à esquerda, tal como há cancelamentos à direita e à esquerda. Mas uma vez que o mencionou, quero falar de Harsh Mander, que é realmente corajoso e poderá enfrentar uma pena de prisão na Índia por enfrentar Modi. Ele é hindu, mas está a enfrentar o primeiro-ministro. Chama de genocidas os ataques aos muçulmanos. Conhecer pessoas assim deve deixar-nos menos receosos. As pessoas têm medo de criticar o movimento woke e serem acusadas de defenderem a direita e que lhes digam que deviam estar caladas porque, ao fim e ao cabo, a esquerda é a nossa tribo. Não acho que a esquerda seja o inimigo, de todo. Acho que o movimento woke, muitas vezes, parte exatamente das mesmas intenções que as minhas. Acho é que está confuso sobre as formas de lá chegar. Entendo que as pessoas sentem que, se criticarem o movimento woke, vão parecer o Rishi Sunak ou Donald Trump ou Éric Zemmour ou o político de extrema-direita que têm aqui [em Portugal]. A questão é que, se a esquerda o não faz, estamos a perder pessoas para a direita ou, pelo menos, para uma total alienação política.

Vamos falar sobre o fim do livro, que termina com uma nota muito assustadora. Diz: “Muitas vezes, dizemos que os nazis chegaram ao poder através de eleições democráticas, mas só tiveram uma maioria absoluta depois de estarem no poder. Se os partidos de esquerda tivessem estado dispostos a formar uma frente unida, como insistiam muitos pensadores de Einstein a Trotsky, o mundo poderia ter sido poupado da sua pior guerra. As diferenças que dividiam as partes eram reais. Até sangue tinha sido derramado, mas, embora o Partido Comunista estalinista não o conseguisse ver, essas diferenças não eram nada quando comparadas com a diferença entre os movimentos de esquerda universais e a visão tribal do fascismo. Não podemos cometer o mesmo erro.” Sente que esta fratura entre a esquerda tradicional e o movimento woke representa o mesmo tipo de perigo?

100%. E por todo o mundo. Tenho outro amigo indiano que diz que, se esperarmos até que construam campos de concentração para os chamarmos de campos de concentração, será tarde demais para fazer alguma coisa. Portanto, estamos a olhar para o crescimento do protofascismo, em diferentes percentagens, em muitos países. Vou falar-vos de uma conversa que tive com um jovem afro-americano que vive em Madrid. Ele veio à minha palestra, gostou e perguntou-me se eu ainda votava nos Estados Unidos. Porque também sou cidadã alemã, cidadã europeia. Disse-lhe que sim. E ele perguntou-me o que é que ia fazer no outono. Respondi-lhe que aquela era uma pergunta fácil. Ao que ele retorquiu: “Sempre fui contra pessoas que diziam que um candidato tem de ser perfeito para poder votar nele e que todo o sistema está podre e que por isso não iam votar. Mas desta vez, o apoio de Biden à guerra em Gaza está a dar cabo de mim. Não sei o que fazer.” Perguntei-lhe: “Sabes o que o Netanyahu quer que faças? Que ajudes a eleger Donald Trump. Essa é a jogada dele.” E depois tivemos uma longa conversa sobre isso, porque ele trabalha numa qualquer rede social. E pedi-lhe para dizer o mesmo aos seus amigos. Cerca de 19% das pessoas no Minnesota que iriam votar no Partido Democrata disseram que não o iriam fazer, como protesto à guerra. Se isso pressionar Biden para exercer mais pressão sobre Netanyahu, ótimo. Sou completamente a favor disso. E parece que está a tentar. Mas Netanyahu está a fazer finca-pé porque conhece muito bem a política americana. O que mais quer é outro mandato presidencial de Trump. A propósito, há algum tempo que os principais meios de comunicação norte-americanos têm usado a palavra fascista para descrever Trump. De qualquer forma, isso é apenas um exemplo. O mesmo está a acontecer na Alemanha, com a ascensão do AfD, porque os partidos tradicionais de esquerda e de centro-esquerda estão focados na linguagem de género quando há pessoas em algumas partes do país que não conseguem pagar a renda com as suas pensões. É um problema real.

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Se os partidos de esquerda tivessem estado dispostos a formar uma frente unida, como insistiam muitos pensadores de Einstein a Trotsky, o mundo poderia ter sido poupado da sua pior guerra.

 

Os partidos de esquerda não evitariam isso. Também não tinham maioria. A única forma de travar eleitoralmente nos anos 30 seria haver uma frente transversal de esquerda, centro e direita e não apenas de esquerda. Com partidos tipo o PCp e o PSD unidos.

E mesmo assim nada nos garantiria que nas eleições seguintes o Partido Nazi não vencesse novamente mais confortavelmente. 

Editado por Ticampos

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Citação de Lebohang, há 7 horas:

 Vou falar-vos de uma conversa que tive com um jovem afro-americano que vive em Madrid. Ele veio à minha palestra, gostou e perguntou-me se eu ainda votava nos Estados Unidos. Porque também sou cidadã alemã, cidadã europeia. Disse-lhe que sim. E ele perguntou-me o que é que ia fazer no outono. Respondi-lhe que aquela era uma pergunta fácil. Ao que ele retorquiu: “Sempre fui contra pessoas que diziam que um candidato tem de ser perfeito para poder votar nele e que todo o sistema está podre e que por isso não iam votar. Mas desta vez, o apoio de Biden à guerra em Gaza está a dar cabo de mim. Não sei o que fazer.” Perguntei-lhe: “Sabes o que o Netanyahu quer que faças? Que ajudes a eleger Donald Trump. Essa é a jogada dele.”

Que p*ta de nojo. E o que querem as crianças de gaza? Querem que votes no genocide joe?
Tão intelectual mas não consegue deixar de apelar ao voto pelo genocídio. Que desgraça...

Quando o "mal menor" é genocídio só um psicopata vota no genocida. Se o biden diz que vai abusar1 milhão de crianças e o Trump diz que vai fazer o mesmo a um milhão e uma, esta malta ia apelar que se vote no gajo que ia abusar 1 milhão de crianças...
Tem de haver linhas vermelhas....
 

O que quer esta criança que o votante americano faça? Será que essa criatura já se perguntou isso?

Editado por AntiZio

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Um grande dia do trabalhador a todos e todas, menos aos aburguesados e traidores da classe operária

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Citação de Puto Perdiz, há 1 minuto:

Um grande dia do trabalhador a todos e todas, menos aos aburguesados e traidores da classe operária

@Plagio o Original

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Vamos todos para o shopping, comemorar.

Editado por kareca

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Citação de kareca, há 20 minutos:

Vamos todos para o shopping, comemorar.

por falar nessa m*rda, ainda se lembram daquela promoção do PG, há uns anos, no 1º Maio?

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Citação de Puto Perdiz, há 1 hora:

por falar nessa m*rda, ainda se lembram daquela promoção do PG, há uns anos, no 1º Maio?

Yep. Foi um dos pontos altos da história contemporânea de Portugal

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Citação de Puto Perdiz, há 1 hora:

Um grande dia do trabalhador a todos e todas, menos aos aburguesados e traidores da classe operária

 

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Citação de Puto Perdiz, há 1 hora:

por falar nessa m*rda, ainda se lembram daquela promoção do PG, há uns anos, no 1º Maio?

 

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Do entrevista aí de cima:

Não há muito que a esquerda possa fazer em grande escala, de forma internacional, como pensávamos que poderia acontecer até 1991. Essa é uma data crucial. Quando o verdadeiro socialismo existente na Europa de Leste entrou em colapso, abriram-se muitos caminhos.

 

Está bonito, isto.

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Citação de Plagio o Original, há 52 minutos:

Um bom dia para todos menos para o Ricardo Pereira

O que tens contra o defesa direito do Leicester? É por causa da voz mais afeminada?

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Citação de Mayday, há 1 minuto:

O que tens contra o defesa direito do Leicester? É por causa da voz mais afeminada?

Gosto desse, grande lateral-direito

Não gosto do comediante. Não entendo pq os comediantes e os comentadores são os unicos que falam dos wokes, especialmente com tantas coisas para falar como o oriental do doutor antonio costa ou do bimbo doutor luis montenegro

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Citação de Plagio o Original, há 1 hora:

Um bom dia para todos menos para o Ricardo Pereira

ricardo-pereira-conde.gif

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Citação de whatever, há 6 horas:

Do entrevista aí de cima:

Não há muito que a esquerda possa fazer em grande escala, de forma internacional, como pensávamos que poderia acontecer até 1991. Essa é uma data crucial. Quando o verdadeiro socialismo existente na Europa de Leste entrou em colapso, abriram-se muitos caminhos.

 

Está bonito, isto.

IL gosta disto

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pov escreves muito por isso podes meter lá no meio a m*rda que quiseres, há uns quantos aqui que aprenderam essa também

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Citação de Lebohang, há 22 horas:

 

PG = Pingo Goce?

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Citação de Puto Perdiz, há 4 minutos:

 

#chega

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