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A Casa às Costas

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Citação de silentz, Em 08/06/2025 at 21:26:

dá para meter a do João Carvalho? obrigado desde já

 

Spoiler

“Senti que estava confortável em não jogar no Benfica, não gostei disso e fui para o Nottingham Forest ganhar 10 vezes mais”

João Carvalho, 28 anos, eleito mais do que uma vez “o médio do mês” da I Liga, esta época, iniciou o percurso profissional no Benfica, onde esteve quase 14 anos. Recorda como tudo começou com uma choradeira, fala dos anos passados no Seixal, onde fez parte do “assalto à cozinha”, e explica porque foi emprestado ao Vitória de Setúbal. O hoje jogador do Estoril Praia fala ainda da experiência em Inglaterra e Espanha, onde jogou no Almería, antes de partir para a Grécia

Nasceu em Coimbra, foi criado em Castanheira de Pêra. É filho de quem?
O meu pai jogava futebol quando nasci. A minha mãe sempre foi engenheira civil.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã com menos de três anos.

Qual é a sua primeira memória de infância?
Eu a jogar futebol no meio da sala. Sempre me disseram que mal me davam uma bola eu ficava logo elétrico, mas de resto era tranquilo.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Não me lembro. Mas não deve ser muito difícil de adivinhar [risos].

Gostava da escola?
Até aos 12 anos, altura em que fui para o Seixal e as coisas mudaram um pouco, sim, gostava da escola e tinha muito boas notas.

João Carvalho com a irmã mais nova três anos
João Carvalho com a irmã mais nova três anos
D.R.

Quem eram os seus ídolos do futebol quando era criança?
O Fernando Torres.

Em casa torciam por que clube?
O meu pai sempre foi benfiquista ferrenho. Eu segui um pouco os passos dele.

Qual o primeiro clube para onde foi jogar e com que idade?
Com cinco anos comecei a jogar no Sport Castanheira de Pêra e Benfica. Mas para poder jogar tinha de usar os cartões de identificação dos mais velhos. Tinha de decorar os nomes deles.

Nunca se enganou?
Acho que não, mas ia rodando os nomes e era difícil. Lembro-me que tínhamos uma fila até ao árbitro e o meu pai, que era o treinador, mais os outros treinadores, diziam o nome dez vezes antes que eu chegasse ao árbitro para conseguir dizer o certo [risos] Só estive um ano no Castanheira de Pêra, porque houve um olheiro do Benfica que me chamou para fazer treinos de captações em Lisboa, ao lado do Estádio da Luz.

João (2º à direita e cima para baixo) era conhecido por Jó Tó no Sport Castanheira de Pêra e Benfica, onde começou a jogar com cinco anos
João (2º à direita e cima para baixo) era conhecido por Jó Tó no Sport Castanheira de Pêra e Benfica, onde começou a jogar com cinco anos
D.R.

Recorda-se desse dia?
Claro que sim, recordo-me demasiado bem.

Então porquê?
Estava muito ansioso, fizemos uma viagem grande, acabámos por estacionar o carro numa subida onde dava para ver o campo todo lá em baixo e quando abriram a porta do carro, olhei e foi tipo, uau, estava muita gente dentro do campo, só se viam miúdos a correr, muita gente.

Assustou-se?
Assustei-me, não queria sair do carro. [risos]. Os meus pais diziam que tínhamos feito uma viagem grande, que eu ia gostar, para experimentar, etc., aquelas coisas normais para tentar convencer-me. Fui a chorar até ao campo. Cheguei lá e um senhor chamado Fonte Santa esteve a fazer umas brincadeiras comigo, aquele jogo de fazer aparecer uma moeda atrás da minha orelha, acabei por me soltar, lá comecei a fazer as coisas que era suposto e acabou por correr bem. Quando estou a voltar para casa contactaram-nos para dizer que gostaram muito, etc., e que no ano seguinte ia fazer torneios.

Ou seja, voltou a jogar no Castanheira de Pêra?
Sim, continuei a jogar e ia fazer torneios a Lisboa, pelo Benfica. Fiz isso durante um ano. A partir daí, como não tinha sítios para treinar com alguma competitividade, porque infelizmente no interior não há muitos clubes, há cada vez menos crianças que jogam futebol, o Benfica chegou a acordo com o meus pais e pagava as despesas para eles levarem-me a Lisboa, três vezes por semana, para treinar no Benfica. Ia com outros colegas, havia o Kiko, de Aveiro, o Bruno, de Santarém, o Denis, de Leiria. Não sei se vinha mais alguém.

Esteve nesse regime de treinos durante quanto tempo?
Durante três, quatro anos. Aos 12 anos fui para o Seixal.

O médio (2º à direita em baixo) começou a jogar pelas escolas do Benfica com 8 anos
O médio (2º à direita em baixo) começou a jogar pelas escolas do Benfica com 8 anos
D.R.

Custou-lhe muito deixar o conforto da casa, os pais e a irmã?
Não muito, porque já tinha muitos amigos que jogavam comigo e que acabaram por ficar lá também. Ajudávamos-nos uns aos outros. Conhecíamos muita gente e acabou por ser um bocado mais fácil.

Dividiu quarto com quem?
Havia uma camarata de oito, mas acabei por ficar num quarto com mais dois. Era eu, o Kiko e o Denis, porque fazíamos as viagens e jogávamos juntos na equipa de Lisboa.

A mudança de escola correu bem?
Mais ou menos. Em Castanheira a minha escola tinha uns 150 alunos e a escola do Seixal tinha uns 2000 alunos, foi uma diferença muito grande e acabou por ser um bocado mais difícil, acho que acima de tudo pelo facto de estarmos mais sozinhos no sentido em que sem os pais se calhar não estudávamos tanto e, por outro lado, já sabíamos que estávamos ali para outra coisa. Por isso, acabou por ser um pouco difícil estar bem em tudo e a escola acabou ficar um bocadinho mais para trás. Mas fiz tudo até ao 11.º ano, agora tenho de acabar o 12.º ano.

Até chegar à equipa B, quais foram os treinadores e os momentos que mais o marcaram?
Foram muitos anos. Lembro-me, por exemplo, do Luís Nascimento, irmão do Bruno Lage, que foi um treinador que me ajudou muito, mas há muitos, passei por muitos treinadores. Momentos marcantes, o campeonato nacional de iniciados que conquistámos e os dois europeus, o de sub-17 e sub-19, em que ficámos nas meias-finais.

João mostra a medalha que ganhou pelo Benfica num Torneio em Leiria
João mostra a medalha que ganhou pelo Benfica num Torneio em Leiria
D.R.

Quando começou a ser chamado para representar Portugal?
Fui chamado logo na primeira convocatória que houve dos sub-15.

Do que mais se recorda dos dois Europeus que mencionou?
No primeiro Europeu tínhamos 17 anos e eu achava que íamos mesmo ganhar. Foi engraçado porque eu não era titular indiscutível da seleção; era sempre chamado, mas não jogava muitas vezes, e nos Europeus acabava sempre por ganhar a titularidade durante as competições. Lembro-me de um jogo muito bom que fiz contra a Alemanha, que foi o terceiro jogo da fase de grupos no Europeu sub-17. Como já tínhamos ganhado dois jogos, o selecionador pôs a jogar os que não tinham jogado até lá. E acabei por ser titular na meia-final, com a Inglaterra.

Quem eram os seus concorrentes na seleção.
Tínhamos uma seleção muito boa. Eu também jogava, como faço agora, a extremo esquerdo. No meio-campo jogava o Guga Rodrigues, o Diogo Gonçalves, o Buta, o Pedro Delgado, o Renato Sanches.

Viveu muito anos no Centro de Estágio do Seixal, de certeza que tem muitas histórias para contar. Recorda-se de alguma?
Fiz parte do assalto à cozinha, por exemplo. Naquela altura só havia Chocapic aos domingos e havia uma janela em que se via a cozinha toda. Era um sítio onde passavam carros, onde não havia muita passagem de pessoas e já tínhamos reparado que na cozinha havia muitos Chocapics. Tínhamos um torneio qualquer, mas era uma altura do ano, o Natal, em que estávamos praticamente sozinhos. Eu e os meus companheiros de quarto acabámos por ir à cozinha, vimos que a porta da despensa estava aberta e entrámos. Roubámos Chocapics, sumos e outras coisas. Como foi demasiado fácil roubar a despensa, pensámos: porque não voltar lá outra vez? Mas da segunda vez, assim que descemos o elevador e abrimos a porta, estava o segurança à nossa espera [risos]. Já sabiam para onde é que nós íamos.

O que aconteceu?
Ele acabou por ir connosco ao quarto e tivemos de devolver tudo. Só que, no dia seguinte, dissemos a todos os que estavam na camarata o que se tinha passado. Conclusão, estivemos a pensar como podíamos ir todos à cozinha novamente. Foi um dia excelente, a preparar tudo e decidimos ir encapuçados. À noite, éramos uns dez, todos encapuçados. Chegámos à despensa e, claro, estava fechada. Os seguranças, entretanto, viram-nos nas câmaras de vigilância, mas não sabiam que éramos nós. Só viram uns tipos encapuçados, não sabiam quem eram. Resolveram ir ver.

Foram apanhados.
Lembro-me que quando estávamos a voltar para os quartos apareceu o segurança e desatámos a correr, cada um para o seu lado, para os quartos. Eu e mais um ou dois acabámos por ir por outro lado. Subimos as escadas de serviço que ficavam no fundo do corredor e vimos pelo vidro da porta que o segurança estava à nossa espera. Fizemos o par ou ímpar para ver quem era o primeiro a ir. Assim que o da frente dá um passo para entrar no corredor, o segurança agarra-o pelo pescoço, porque não sabia quem era [risos]. Foi um filme.

Ainda vivia no centro de estágios quando passou para a equipa B?
Após os primeiros seis meses tive de sair. Fui viver lá para o lado. Comecei a dividir um apartamento com mais três colegas e depois acabei por ficar só com o Aurélio Buta.

É nessa altura que começam as saídas e os namoros mais sérios?
Sim. Foi nessa altura que conheci a minha mulher, a Andreia. Tinha 18 anos. O Hugo Santos conhecia-a por ser de Mafra, eram os dois mais ou menos do mesmo sítio, mas não se falavam, só se conheciam de vista. Acabou por ser através das redes sociais que nos conhecemos, o normal hoje em dia.

O que ela fazia?
Estudava Direito.

Quando assinou o primeiro contrato profissional, quanto recebia e o que fez com o primeiro dinheiro ordenado?
Assinei aos 16 anos, não me lembro quanto ganhava, devia ser pouco mais de €1000 e nem me lembro do que fiz com o dinheiro.

Como e quando se definiu a posição em campo?
Eu era avançado e fazia muitos golos, daí o meu ídolo ser o Fernando Torres, mas acabei por recuar um pouco no terreno e fixei-me como 10. O Iniesta acabou por se tornar no meu maior ídolo.

Em 2016/17, João Carvalho foi emprestado ao V. Setúbal
Em 2016/17, João Carvalho foi emprestado ao V. Setúbal
Gualter Fatia

Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser jogador de futebol era realizável?
Fiz uma trajetória muito, muito certa, felizmente sempre a subir, as coisas foram acontecendo naturalmente. Desde que fui para o Benfica, era dos primeiros a ter contrato, fui dos primeiros a ser chamados à seleção, nunca tive um obstáculo, por isso, não tenho consciência de quando senti que já era jogador ou que podia ser jogador de futebol, porque fui sendo.

Com 15 anos qual era o maior sonho? Como se projetava no futuro?
Acho que ser titular do Benfica era o principal objetivo e o principal sonho, assim como chegar à seleção nacional.

Porque foi emprestado ao Vitória de Setúbal a meio da época 2016/17 e como reagiu?
Reagi bem. Foi ideia do Benfica com a seleção de sub-21. Eu era convocado para os sub-21, o Rui Jorge sempre gostou muito de mim e agradeço-lhe muito o que fez por mim porque pressionou para isso acontecer; ou seja, havia Europeu no final do ano e para eu estar melhor preparado ele achou que o empréstimo era o ideal. Eu estava a jogar na II Liga e jogar na I, no Vitória, era diferente. Lembro-me que me falaram do Rui Jorge, que ele queria muito que eu fosse e acabou por ser uma boa decisão de todos.

Teve receio que o Benfica não o quisesse de volta?
Não. Nessa altura não tinha medo, não tinha receio, porque não tinha responsabilidade As coisas fluíam muito bem. Acho que sempre fui muito positivo e, felizmente, nunca duvidei.

Tinha empresário?
Tinha, era o Jorge Mendes. Lembro-me que o Vitória ganhou ao Benfica 1-0 no final de janeiro e no dia seguinte fui para o Vitória.

Foi viver para Setúbal?
Não. Já tinha carro, ia e vinha.

Como foi recebido no Vitória, num balneário com jogadores mais velhos do que estava habituado?
Esse era o receio maior que eu tinha, como me enquadrar no balneário. Mas correu tudo super bem. Os mais velhos também tinham uma mente jovem, o Vasco Fernandes, o Edinho, o Trigueira, são pessoas com mente jovem, era um balneário muito brincalhão, onde também havia muitos jogadores jovens, então foi fácil.

E do treinador, José Couceiro, gostou?
Era um treinador com muita experiência, deu-me bons conselhos e, além disso, é fácil gostar de um treinador quando nos mete a jogar.

O jogo de estreia na I Liga foi contra quem?
Com o Arouca.

Estava muito nervoso?
Sendo uma pessoa um pouco ansiosa, claro que estava um bocado nervoso, mas faz parte. Entrei na segunda parte.

Após quase cinco meses em Setúbal regressou ao Benfica. Estava confiante que na época seguinte estaria na primeira equipa?
Sim. Mas foi um ano em que tive basicamente o primeiro obstáculo da minha carreira, porque não fazia parte das opções, ou melhor, era a terceira ou a quarta opção na equipa A.

Nessa equipa do Benfica [2017/18], qual foi o jogador que mais o surpreendeu? Aquele que não estava à espera que fosse tão bom?
Havia o Jonas e o Pizzi, que eram muito bons e toda a gente sabia, mas o Rafa foi o que mais me surpreendeu, pela forma de jogar, pela velocidade que tinha com bola.

Foi treinado esse ano por Rui Vitória. Muito diferente de Couceiro?
O Couceiro é um pouco mais ligado aos jogadores, o Rui Vitória ficava um pouco mais longe. Mas também a pressão do clube é diferente, as pessoas enquadram-se um pouco mais no ambiente que vivem.

Disse que enfrentou o primeiro obstáculo na carreira. Por não ser a primeira opção de Rui Vitória?
Não é que estivesse à espera de ser a primeira opção, mas se calhar esperava ser a segunda ou ir entrando no jogo.

Quem tinha à sua frente?
O Pizzi, o Krovinovic, o Martin Chrien. O problema foi que não lidei muito bem com a situação, acho que me deixei ir um pouco e acabei por não ser opção quase até dezembro.

O que quer dizer com deixar-se ir?
Fiquei um bocado desmotivado. No final de agosto, quando o campeonato já tinha começado e eu não fazia parte das opções, no último dia ligaram-me a perguntar se queria ir para o Marítimo. Disse que não, porque achava que aprendia e evoluía mais a treinar no Benfica do que fazer igual ao que tinha feito no Vitória de Setúbal. Acabei por não aceitar e fiquei, mesmo sendo a terceira ou quarta opção. Só que fui sempre um jogador que, nas equipas onde estava, sentia ser diferente ou podia fazer diferente e naquela altura era só mais um, porque os outros tinham a mesma ou mais qualidade que eu. Senti que não fazia parte, deixava-me estar de parte, até dentro do balneário ficava sem falar com muita gente. Hoje sei que isso tudo passa para dentro de campo. Joguei um bocado para a Taça no início, mas pouco tempo, e só voltei a jogar outra vez no final de dezembro, curiosamente em Setúbal.

Correu bem esse jogo?
Sim, fiz uma assistência. Recordo-me que já estávamos fora da Taça da Liga e jogaram os que não costumavam jogar. Treinámos só uma vez ou duas, não treinámos muito porque era fase de Natal, depois havia esse jogo e íamos para a passagem de ano. Mas acabou por correr bem e a partir daí já comecei a ser mais opção.

O médio assina a camisola de uma adepta do Nottingham Forest
O médio assina a camisola de uma adepta do Nottingham Forest
NurPhoto

No final dessa época, mesmo sem jogar muito, acabou por ser contratado pelo Nottingham Forest. Por que decidiu sair do Benfica?
Foi uma opção que veio e aceitei porque não gostei do ano que tinha passado no Benfica, senti que estava confortável em não jogar e não gostei disso. Achei que tinha de sair da minha zona de conforto, para conhecer outras coisas.

Essa opção também teve muito a ver com o facto do Rui Vitória não lhe ter dado as oportunidades que queria?
Não me deu as oportunidades que eu queria, agora, não sei se me deu, ou não, as que merecia. Acima de tudo o que tiro de aprendizagem é que foi muito mais culpa minha do que do treinador, porque me senti um pouco desmotivado, não dei tudo.

A proposta do Nottingham era quantas vezes melhor a nível financeiro?
Sim, fui ganhar 10 vezes mais. Era um contrato de cinco anos. Estava mais perto da Premier League estando no Championship e decidi arriscar. Nunca senti que foi um passo para trás, mas um passo, se calhar, para o lado.

Foi sozinho para Inglaterra?
Não, fui com a Andreia. Ela tinha deixado o curso de Direito e abrimos uma loja de roupa na Inglaterra, que acabou quando a covid-19 chegou.

O seu inglês era bom e dava para comunicar bem?
Era o básico, da escola. O da Andreia era muito melhor que o meu, mas no início desenrascava-me. Acabei por ter aulas, mas acho que acabei por evoluir mais no dia a dia.

Na época 2020/21 João foi emprestado ao Almería, da Espanha
Na época 2020/21 João foi emprestado ao Almería, da Espanha
Europa Press Sports

Como foi o primeiro impacto quando chegou ao clube? Era o que tinha imaginado?
Confesso que não estava à espera que fosse um clube tão grande e apesar de na Inglaterra os clubes todos terem muitos adeptos, não estava à espera de tanta gente, tantas mensagens, tanta euforia. Mas era uma transferência grande para o clube e acabou por gerar expectativas grandes.

Sentiu essa pressão?
Sim, mas naquela altura eu nem pensava nisso, não tinha responsabilidades.

Porque diz que não tinha responsabilidades?
No futebol eu ainda era um projeto, era quase uma promessa, tinha muito para escalar, tinha muito para desfrutar e naquela altura senti que Inglaterra é o país do futebol, por isso fui para desfrutar muito no primeiro ano.

Encontrou um balneário muito diferente do que estava habituado?
Sim, uma cultura diferente, com menos brincadeiras, mas muito tranquilos e simpáticos. Era um balneário jovem, o que facilitou, porque havia jogadores que vinham da formação e, além disso, fui com o Diogo Gonçalves e o Gil Dias; o Tobias Figueiredo já lá estava, então acabou por facilitar tudo um pouco.

O que mais o surpreendeu pela positiva e do que gostou menos?
Pela positiva, sem dúvida o ambiente dos jogos. Todos os jogos, mesmo numa segunda divisão, tinham os estádios cheios. O estádio do Nottingham era excelente, sempre cheio, muita gente a apoiar. Em Portugal é mais o oito ou 80, lá apoiam sempre, apesar de não serem tão efusivos. Do que não gostei tanto foi da comida.

Como eram os treinos?
Um pouco mais intensos.

Achou que o Championship é do nível da nossa II Liga ou está mais acima?
É difícil dizer. É muito diferente da I Liga, porque os jogos são um bocado mais intensos e menos táticos. Acaba por ser mais parecido, para quem vê de fora, com a II Liga, devido aos golos e não haver equipas que são muito melhores do que as outras. Mas depois é uma intensidade muito grande e a qualidade dos jogadores também é maior.

Como lhe correram as primeiras duas épocas no Nottingham e de que treinadores mais gostou?
Quando cheguei o treinador era o [Aitor] Karanka, espanhol, o que facilitou um pouco. Ele tinha um adjunto português, o Carlos [Cachada], que está com o Bruno Lage, o que facilitou a adaptação. O mister também era muito tranquilo. Eu jogava, por isso, para mim sempre foi bom [risos]. Depois houve um problema entre ele e a direção e o treinador foi embora. Veio o Martim O'Neill, mais velho e mais ‘old school’, já não havia tanta tecnologia à volta dos treinos, nas palestras, era tudo à base do campo. Por exemplo, bolas paradas não era nos powerpoints, eram no campo, ele metia-nos lá e ficava meia hora a posicionar-nos e gostava de falar muito.

E percebia bem o que ele dizia, uma vez que é irlandês?
Era mais difícil de perceber. Metade das vezes a partir de determinada altura já nem sabia o que queria, porque quando não é a nossa língua e é uma língua mais difícil de perceber, tem que se estar muito focado no que a pessoa está a falar. E ao fim de dez minutos o foco já não era o mesmo e perdia-me um pouco.

Em 2021, o médio regressou ao Nottingham Forest
Em 2021, o médio regressou ao Nottingham Forest
NurPhoto

Na segunda época veio Sabri Lamouchi e não jogou tanto. Porquê?
Lesionei-me logo no primeiro jogo de pré-época. O Martin O'Neill ainda começou a época e na primeira semana pôs-nos a correr no meio do mato. Não tocámos na bola e depois fomos fazer um jogo contra uma equipa de quinta divisão e acabei por me lesionar nesse jogo. Torci o tornozelo e os ligamentos. Demorei a voltar e quando voltei a equipa estava bem, acabei por jogar menos. Quem jogava era o Tiago Silva, que agora está no Vitória. Acabava por entrar mais vezes do que jogar a titular. Mas ainda joguei alguns jogos.

Continuava satisfeito no Nottingham Forest?
Mais ou menos. Sinceramente, na Inglaterra, quando não se joga, quando o trabalho não está a correr bem, como é um país um bocado fechado, no inverno fica noite muito cedo, fica-se um pouco mais desmotivado.

Ainda não tinha filhos?
Não. Acabámos por ter um cão. Um pug, Tommy. Os filhos só vieram mais tarde.

O Sabri Lamouchi, muito diferente do Martin O'Neill e do Karanka?
Sim. O Karanka era um bocado ofensivo, o Martin O'Neill ‘old school’ e o Lamouchi era um bocado mais defensivo. O jogo dele não ia ao encontro das minhas características e eu acabava por entrar mais vezes quando a equipa precisava.

João com a mulher, Andreia
João com a mulher, Andreia
D.R.

Ainda iniciou a temporada 2020/21 no Nottingham, mas acabou por sair para o Almería. O que aconteceu?
Faço a pré-época no Nottingham, faço um jogo e percebi que não fazia parte dos planos do mister Lamouchi. Resolvi procurar clube para jogar mais tempo.

Só surgiu o Almería, ou dentro do que apareceu foi a sua escolha?
Foi um bocado à última hora, então quase a única coisa que me apareceu. Também não procurei muito, já não me lembro. Disse logo sim porque falei com o mister José Gomes, que era o treinador. Ele acabou por me convencer.

Estava com dúvidas porquê?
Fiquei um bocado reticente devido ao facto de ser II Liga, porque é diferente do Championship. Mas fui na conversa dele e fui para Espanha.

Adaptou-se bem ao balneário espanhol?
Mais ou menos, o balneário era um bocado mais fechado, os espanhóis faziam um bocado mais de grupo, mas tinha portugueses na equipa, tive sorte em todos os clubes que passei haver portugueses no plantel e acabou por ser mais fácil devido a eles. Mas era a altura da covid-19, estava tudo fechado, os jogos eram sem adeptos, os balneários eram na rua, não havia refeições em conjunto, etc. Foi um momento chato.

Que fazia nos tempos livres para estar ocupado?
Comecei a jogar mais Playstation. Via séries e filmes com a Andreia, não fazia muito mais.

João com a mãe, a irmã, o pai e a mulher
João com a mãe, a irmã, o pai e a mulher
D.R.

Que tal o José Gomes como treinador?
Sempre foi um treinador que me deu muito carinho, senti-me muito confortável em jogar na equipa dele, dava-me muita confiança e naquela altura era disso que eu precisava.

Chegaram aos quartos de final da Taça do Rei. Que outras recordações tem dessa época?
Acabou por ser uma época triste, porque estávamos a lutar pela subida, se subíssemos eu acabava por ficar lá. Éramos uma das três equipas que estavam na luta para subir diretamente e nos últimos jogos caímos para o 3.º lugar e fomos ao play-off. Fomos menos motivados do que os outros e acabámos por perder logo.

Sabia então que tinha de regressar a Nottingham. Estava tranquilo com isso, ou pediu ao seu empresário para encontrar uma alternativa?
Não me lembro bem. Queria muito que corresse bem em Nottingham, sinceramente. Não me importava nada de ter de voltar.

Voltou e ainda esteve lá seis meses. O que aconteceu nesse período de tempo?
O Lamouchi fez os primeiros jogos, mas perdemos quase todos, estávamos com zero pontos e ele acabou por ir embora.

Ganhou esperança de ter a sua hipótese no Nottingham?
Sim. Depois veio um novo treinador, mas acabou por ser um bocado igual.

 

Spoiler

“Num jogo, na Grécia, os adeptos quiseram invadir o campo, a polícia usou gás lacrimogéneo e tivemos de fugir para debaixo das bancadas"

João Carvalho prepara-se para ser pai novamente no final deste mês de junho. Nesta II parte do Casa às Costas, o médio aborda a sua passagem pelo Olympiacos da Grécia, onde foi campeão e ganhou a Liga Conferência, em diferentes períodos, com uma passagem pelo Estoril Praia pelo meio, o clube que agora representa e com o qual tem contrato até 2027. Entre vários pormenores, fala sobre a altura em que recorreu a ajuda psicológica, de como passou a desfrutar do futebol e da alcunha “Cigas”, que também pertenceu a Cancelo

Foi para o Olympiacos em 2022 porque o Nottingham Forest deixou de contar consigo e disse-lhe que era melhor procurar clube, ou foi opção sua?
Foi um bocado as duas coisas porque o clube tinha expectativas em mim, se calhar achavam que eu rendia mais no Olympiacos, acabaram por conversar todos e chegaram a acordo.

Quando lhe falaram no Olympiacos, não torceu o nariz?
Por acaso torci um pouco, porque não queria sair das melhores ligas do mundo, nunca pensei sair destas ligas.

Como o convenceram?
Acabou por ser mais ou menos a única hipótese que tinha para sair do Nottingham, porque não estava a jogar. Também falei com o mister Pedro Martins, ele falou-me bem e acabei por ir.

Foi uma boa aposta, porque em seis meses foi campeão da Grécia e esteve na meia-final da Taça. Gostou do campeonato grego?
É um campeonato interessante, tem equipas muito competitivas entre si. São quatro equipas grandes. Depois têm o play-off no final e acaba por haver muitos dérbis durante o ano e é interessante.

“Num jogo, na Grécia, os adeptos quiseram invadir o campo, a polícia usou gás lacrimogéneo e tivemos de fugir para debaixo das bancadas”
DeFodi Images

Como foi a adaptação à Grécia?
Foi uma agradável surpresa. A comida, o clima, o ambiente. O clube é muito grande, há muita pressão para ganhar e isso é bom. Acabei por ter portugueses na equipa, o mister era português, o que facilita sempre a adaptação.

Com que opinião ficou do treinador Pedro Martins?
Bom treinador, fez um trabalho excelente no Olympiacos. Tem o currículo cheio para mostrar que é bom treinador.

Foi campeão nessa época. Qual foi a sensação de ser campeão pela primeira vez e como foram os festejos?
Sinceramente, os festejos deixaram a desejar porque o título foi ganho facilmente, em março ou abril já éramos campeões e fomos celebrando a cada jogo, mas nada de especial. Houve depois a festa no último jogo em casa, mas no estádio, nada fora. Acabou por ser muito tranquilo.

O Pedro Martins ainda iniciou a época seguinte, mas as coisas não lhe correram bem. Pode recordar o que se passou?
Não fomos apurados para a Liga Europa e o mister foi despedido. Veio outro treinador que jogava numa tática diferente. Lembro que ele veio falar comigo e disse-me ter três jogadores para a mesma posição. Um jogador tinha acabado de chegar, o outro jogador tinha 35 anos, o Valbuena, e por isso achava que o melhor para todos era procurar clube. É engraçado porque o jogador que tinha acabado de chegar foi emprestado passado um mês.

João com a taça de campeão nacional pelo Olympiacos [2021/22], aqui lado da mulher, grávida do primeiro filho
João com a taça de campeão nacional pelo Olympiacos [2021/22], aqui lado da mulher, grávida do primeiro filho
D.R.

Quando foi pai pela primeira vez?
O meu filho Salvador nasceu a 29 de julho de 2022, no dia em que o Pedro Martins vai embora. Não assisti à despedida do mister porque estava no hospital para assistir ao parto.

O que mudou com o nascimento do Salvador?
Muda tudo e acabas por, finalmente, saber que o futebol não é tudo na vida. Acho que é por isso que passei a desfrutar mais do futebol, porque sei que há coisas mais importantes.

Foi emprestado ao Estoril Praia porque foi o único clube que apareceu ou teve outras propostas?
Tive outras propostas e naquela altura queria mesmo voltar a Portugal, porque tinha um filho com dois meses. Era tudo novo para nós. Acabámos por viajar de avião quando ainda não era possível devido à idade do Salvador. O presidente do Olympiacos era amigo do dono da companhia que nos facilitou a passagem no avião e viemos. Tinha mesmo de vir embora porque estávamos já no fecho do mercado.

Que outras propostas teve em cima da mesa?
Eram da I Liga, mas não vou dizer o nome dos clubes.

João com a mulher e o filho Salvador
João com a mulher e o filho Salvador
D.R.

O que levou-o a optar pelo Estoril Praia?
A conversa com o diretor-desportivo, o Pedro Alves, que me ligou várias vezes e sentia que era o local certo. O treinador era o Veríssimo, que já conhecia, e havia mais jogadores que conhecia no plantel. Também por ser em Lisboa, acabou por facilitar tudo.

Que tal essa primeira época no Estoril Praia?
Foi interessante, diferente e foi também estranha porque fiquei um bocado surpreendido com a qualidade do campeonato. Estava à espera que fosse mais fácil. É muito complicado o nosso campeonato. As coisas não me correram tão bem porque acho que pus demasiada pressão em cima de mim.

Porquê?
Porque sentia que era o ano em que tinha de aparecer, tinha de voltar a ser falado; acabou por não acontecer e não lidei muito bem com isso.

Quando vem abaixo psicologicamente como faz para dar a volta à situação? Recorre ou recorreu a ajuda psicológica?
Tive durante dois anos ajuda de um psicólogo e agora uso as ferramentas que ele me deu e que me ajudaram a superar os obstáculos. Recorri a ele pela primeira vez, curiosamente, quando estava no Almería. Foi estranho, porque foi numa altura em que eu sentia que estava sem confiança, mas estava a jogar sempre.

Pode dar um exemplo de uma ferramenta que ele lhe tenha dado e que o ajudou?
O que ele me dizia muito é que a linguagem corporal é muito importante. Muitas vezes em vez de demonstrar que estava chateado e que queria jogar mais, acabava por mostrar que estava amuado e isso não era bom; foi uma das coisas em que me ajudou. Mas o meu problema maior é que, como sou uma personalidade muito tranquila, acabo por deixar as coisas passar, ou pelo menos passar a imagem de que nada me afeta.

No ano seguinte regressou ao Olympiacos. Foi o clube que assim o quis ou queria mesmo voltar?
Voltei ao clube porque tinha de voltar. O Estoril não tinha capacidade financeira para ficar comigo. Regressei para fazer a pré-época, até porque era um treinador novo, o [Diego] Martínez, e ele queria ver os jogadores todos. É engraçado, acho que foi aí que cheguei à minha maturidade, foi no ano passado.

O que quer dizer com isso?
Cheguei à pré-época sem nenhuma expectativa e acabaram por me dizer que era só para fazer a pré-época e depois logo se via. Estivemos a treinar durante duas semanas na Grécia para ele ver os jogadores que tinham vindo de empréstimo. Foram uns treinos estranhos porque a qualidade não era muita; a formação na Grécia está a crescer, mas os jogadores que vinham à equipa naquela altura não tinham assim muita qualidade, comparado, por exemplo, com o Benfica. Quando estão para fazer a convocatória para viajar para novo estágio, eles dizem que não contam comigo, que não vou para estágio e que vou ficar na Grécia a treinar à parte.

Foi isso que aconteceu?
Não. Passado dois dias dizem que tenho de viajar com a equipa para não descer o meu valor de transferência, porque o clube estava à procura de dinheiro e se eu ficasse parecia que estava fora do grupo. Fui e acabei por fazer um bom estágio e o treinador passou a querer-me. Acabei por ficar no grupo principal e lembro que o Martinez dava sempre o meu exemplo, que eu nem era para cá ficar, mas trabalhava e merecia com mérito ter minutos. Fui titular no apuramento para a Liga Europa.

Mas o Martínez acabou por sair.
Sim, ele saiu depois de um episódio que aconteceu em Vólos.

Que episódio foi esse, pode contar?
A meio do ano estávamos em 1.º lugar e acabámos por descer para o 2.º lugar, as coisas não estavam a ir muito bem, os adeptos estavam descontentes com o treinador, com arbitragens, etc. Fomos jogar a Vólos, estávamos a perder com menos um, fizemos um golo que podia virar o jogo e o golo foi anulado, por fora de jogo. Os adeptos começaram a atirar cadeiras para cima da polícia, ficaram malucos, queriam entrar no campo e a polícia começou a ter de se proteger com o gás lacrimogéneo. O jogo teve de parar porque o gás era tanto que entrou no campo. Não sabia o quanto é difícil respirar aquele gás, é impossível estar sob aquilo.

O jogo acabou?
Foi interrompido. Saímos todos do relvado, fomos para debaixo das bancadas do outro lado do estádio. Ficámos todos lá, nós, o adversário, o árbitro, diretores, staff, à espera que o gás saísse. Estávamos todos com os olhos meio a chorar. Acabámos por ir para o balneário e decidimos que para não ter mais castigos, porque naquela altura havia um protesto do clube contra a federação, voltámos ao relvado para fazer cinco minutos de jogo. Eles não tinham um jogador de campo porque estava a passar muito mal, devido ao gás, então ficávamos cinco minutos a passar a bola uns aos outros, até o árbitro acabar com o jogo.

O médio com o filho Salvador, a campo do Olympiacos
O médio com o filho Salvador, a campo do Olympiacos
D.R.

O Martínez foi despedido e chegou Carlos Carvalhal, certo?
Que não ficou muito tempo.

O que correu mal?
Foi muito complicado, a mentalidade daquele clube é muito difícil, as coisas não estavam bem desde que ele chegou, acabou por ter muitos jogos numa altura em que houve o Natal e a passagem de ano, ou seja, não teve tempo sequer para treinar. As coisas já não estavam bem e não melhoraram. Mas é um treinador que tem muitos bons processos, é boa pessoa, os adjuntos também são impecáveis. Só que foi muito rápido, o primeiro resultado não apareceu e a equipa não ganhou aquela confiança toda no treinador, o clique com a equipa não deu, porque também não houve tempo para treinar.

Depois do Carvalhal entrou o espanhol José Luis Mendilibar. Outro género?
É muito da escola do Martin O'Neill, é ‘old school’, mas ele é muito engraçado. Sabe pedir quando tem que pedir e sabe dar quando tem que dar. Em termos de folgas era muito bom, dava muitas folgas mas também pedia para corrermos muito e as coisas acabaram por correr bem.

Conquistaram a Liga Conferência. Jogou a final?
Acabei por não sair do banco na final, mas foi muito bom. Fiz alguns jogos durante o caminho e foi excelente, não estávamos nada à espera e ninguém dava nada por nós.

Quando passaram a acreditar que era possível ganharem o troféu?
Há um jogo que perdemos em casa 4-1 e fora tínhamos de ganhar 6-1 e fomos ganhar fora 6-1. A partir daí houve aquele sentimento de "será?", "já que este correu bem, será que os outros...?". Não vou dizer que acreditávamos totalmente, porque fomos jogar ao Fenerbahçe, ao Aston Villa, equipas de um nível acima, sobretudo o Aston Villa.

Os jogos europeus são muito especiais?
Sim, o ambiente é muito diferente. É diferente a viagem, o treinar no estádio do adversário no dia anterior, fazer aquelas conferências, etc. Nota-se que é um dia diferente e é engraçado.

O Olympiacos venceu a Liga Conferência em 2023/24
O Olympiacos venceu a Liga Conferência em 2023/24
Nicolò Campo

Não permaneceu no Olympiacos porquê?
O clube queria dinheiro por mim, o treinador acabou por querer que eu ficasse e desfrutei da época porque estava já sem contrato, todos os minutos eram importantes para mostrar-me e foi uma época em que não pensei em nada, só em desfrutar, porque sabia que no final do ano ia sair, ou sim, ou sim.

Qual era o objetivo seguinte, voltar para Portugal ou continuar fora?
Era ver o que havia porque queria voltar a sentir-me feliz e a desfrutar de futebol.

Teve outras propostas além do Estoril Praia?
Tive uma proposta da Áustria, do Lask, logo que a época terminou. Já estava de malas feitas, no final de junho ia viajar, mas penso que houve um erro de comunicação e eles optaram por não fazer contrato.

Que erro de comunicação foi esse?
Eles apresentaram a proposta, eu disse que sim, e ao falar da posição em campo, eles acharam que eu não queria jogar a extremo esquerdo, a posição onde jogo agora no Estoril. Porque na reunião que tivemos eu disse que também podia ajudar noutras posições, eles acharam que eu não queria jogar a extremo. Foi a justificação.

Ficou desiludido?
Foi tão cedo no mercado que achei, se calhar, o destino não queria que eu fosse para lá. Mais para o final do mercado apareceu o Estoril Praia. Já tinha falado com o presidente do Estoril e tinha-lhe dito que o meu objetivo era jogar as competições europeias e ele disse que mais para o final do mercado falávamos outra vez e assim foi.

oao Carvalho, Santiago Hezze e Francisco Ortega com a Taça da Liga Conferência
oao Carvalho, Santiago Hezze e Francisco Ortega com a Taça da Liga Conferência
Boris Streubel - UEFA

Não teve mais propostas?
Que eu saiba não. O meu empresário dizia-me que os clubes diziam que gostavam muito de mim, mas que não sabiam o quanto eu estava preparado para "x" objetivos ou para liderar uma equipa, ou em termos de golos.

Porque acha que diziam isso?
Porque acima de tudo não tinha muitos minutos. No último ano não tinha jogado muito. No ano anterior, no Estoril, joguei numa posição mais recuada e para um n.º10, como sempre fui, não ter muitos números...

Assinou com o Estoril Praia por quantos anos?
Três anos.

Veio ganhar muito menos do que ganhava no Olympiacos?
Claro que sim. Isso faz um pouco parte da balança, optei por ser feliz em vez de pensar em termos financeiros, porque acima de tudo sentia que ia desfrutar, que ia ter uma mentalidade diferente do ano anterior em que tinha estado cá. E sentia que ia resultar porque as pessoas gostavam de mim e é um sítio onde gosto muito de estar.

O festejo com os adeptos do Olympiacos
O festejo com os adeptos do Olympiacos
D.R.

Esta época correu melhor do que esperava?
Não, acho que foi uma época onde joguei futebol, ponto final. Ou seja, foi uma época em que não pensei muito. Tinha o meu filho que dava cabo de mim em casa e quando ia para o meu trabalho só tinha que desfrutar. Não tinha peso nenhum, não tinha pressão nenhuma, foi viver os momentos com a equipa.

Está a gostar de trabalhar com o treinador escocês Ian Cathro?
É excelente pessoa, como treinador também. Acho que melhorámos todos, acabou por ser um crescimento de todos durante a época e o mister não é exceção, acaba por ser uma boa surpresa porque no início ninguém o conhecia.

Quais são as suas expectativas daqui para a frente?
Continuar a crescer, tentar fazer melhor do que na época anterior e melhorar em termos individuais. Lutar para o Estoril estar mais acima na tabela porque acho que temos capacidade para isso.

Mas que ambições ainda tem?
As ambições são as mesmas, jogar ao mais alto nível, acho que ainda é possível para mim. Tenho 28 anos, não tenho 38, acho que ainda é possível e estou a trabalhar para isso. Se no próximo ano estiver ainda melhor, coisas boas vão aparecer, de certeza.

Já voltou a ser pai?
Vou ser pai do Vicente no final deste mês.

João (no meio) regressou ao Estoril Praia em 2024/5
João (no meio) regressou ao Estoril Praia em 2024/5
Eurasia Sport Images

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No Almería.

Investiu?
Em imobiliário só.

Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Não.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
As férias, ou ir a alguns hotéis e restaurantes. Gosto sempre do melhor.

Algum local que tenha visitado e de que tenha gostado particularmente?
As ilhas São Bartolomeu.

Tem algum hobby?
Nas férias gosto de jogar ténis. Mas agora, com o meu filho, já não tenho muitos.

É um homem de fé?
Acredito um pouco no destino, mas não em Deus.

Superstições tem ou teve?
Já tive, mas já deixei de ter. Tenho uma superstição que é entrar sempre com o pé direito no campo, mas antes tinha outras coisas como, por exemplo, colocar primeiro a caneleira da perna esquerda, ou a meia, coisas assim. Mas acabei por esquecer isso porque nada vai mudar.

João e a mulher vão ser pais novamente no final de junho
João e a mulher vão ser pais novamente no final de junho
Nuno Botelho

Tem tatuagens?
Não.

Acompanha alguma outra modalidade?
Ténis e F1. Gosto do Alcaraz no ténis e na F1 gosto do Charles Leclerc.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ter subido de divisão com o Nottingham.

E o maior arrependimento?
Não ter dado mais em determinadas alturas da minha carreira.

O momento mais feliz?
Ter ganhado a Conference League.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Liverpool.

Tem ou teve alguma alcunha?
Tinha. Houve ali uma fase nos sub-17, sub-18, sub-19, que toda a gente pensava que eu era cigano, devido ao meu tom de pele. Era engraçado que mesmo fora do campo, até pessoas de etnia cigana vinham falar comigo. Chamavam-me “Cigas”. Curiosamente era a alcunha do João Cancelo. Depois que ele saiu do Benfica fiquei eu com a alcunha.

O médio fotografado com as novas chuteiras na mão, na semana em que foi entrevistado por Tribuna
O médio fotografado com as novas chuteiras na mão, na semana em que foi entrevistado por Tribuna
Nuno Botelho

Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Tirava o vídeo árbitro porque os erros do árbitro fazem parte, são humanos, assim como nós cometemos erros durante o jogo. E acho que os programas de arbitragem em Portugal não fazem sentido.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
Saúl Níguez, no Europeu de sub-21.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Não faço ideia. Era capaz de ter sido contabilista, alguma coisa assim porque sempre fui mais de matemática.

Qual foi a liga onde mais gostou de jogar?
O Championship.

 

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Rui Capela

Spoiler

“No Paraguai passava diariamente por um campo de capim. Um dia deitaram fogo para limpar aquilo e descobriram dezenas de cobra-cascavel”

Rui Capela, 56 anos, foi jogador de futebol, mas uma pubalgia tirou-lhe as forças para vingar como médio. Ainda assim, jogou até aos 37 anos e foi sócio de uma imobiliária até se dedicar novamente a 100% ao futebol. Começou como coordenador técnico no Quarteirense, mas ao fim de 10 anos em Portugal, onde passou por vários clubes, aventurou-se. Esteve no Paraguai, treinou uma equipa no Bangladeche e viveu episódios marcantes em Marrocos e Lituânia, antes de completar o UEFA Pro, que lhe abriu portas para outros destinos

Nasceu em Beja. É filho de quem e onde cresceu?
A minha mãe era chefe de secção da Caixa de Previdência e o meu pai trabalhava na Câmara Municipal de Beja. Tenho uma irmã mais nova quatro anos que é assistente social. Fomos criados na chamada Zona Azul de Beja, onde havia um clube para onde todos nós íamos nos tempos livres, praticar futebol, andebol, basquetebol, atletismo… Ainda hoje tem equipas no nacional de andebol.

Começou em que modalidade e com quantos anos?
Comecei a ir para o Zona Azul Beja com cinco ou seis anos. Fazíamos de tudo um pouco, andebol, futebol, havia atletismo. Entretanto, fui morar para uma zona antiga, o Castelo, e comecei a praticar atletismo. Fui campeão distrital de arremesso da bola, que era a transição para o lançamento do peso. Fui campeão também dos 800 metros e do salto em comprimento, bati o recorde distrital e o recorde nacional de arremesso da bola no ano de infantis. Isto já no Grupo Desportivo Castelo, mas comecei jogar futebol na Zona Azul.

Em pequeno torcia por que clube?
O meu pai era do Benfica e a minha mãe do Sporting. Fui influenciado a ouvir os relatos do Benfica. Gostava do Chalana. Em iniciado comecei a jogar no Desportivo Beja, onde jogava pelos juvenis e começámos a ganhar títulos distritais e depois fui à seleção de juvenis, acho até que sou o único internacional pelo Clube Desportivo de Beja. Depois a Torralta interessou-se por mim, como o Benfica também, mas fui jogar para a Torralta nos dois anos de júnior e continuei a ir à seleção. Só que, entretanto, tive um problema de pubalgia e não consegui afirmar-me na seleção onde jogava o Vítor Baía, o Domingos, o Cadete, alguns jogadores que depois jogaram num nível mais alto.

Rui com a mãe e a irmã
Rui com a mãe e a irmã
D.R.

Depois da Torralta ainda jogou no Farense, onde se estreou na I Divisão, certo?
Sim. Fiz um torneio pela Torralta, onde estava o Benfica e fui o melhor jogador do torneio. Tinha 16 anos. Fiz um excelente ano de júnior e o Farense contratou-me para a primeira equipa da I Divisão. No último ano de juniores eu já estava nos seniores do Farense.

Vivia em Faro sozinho?
Vivi sempre sozinho no Algarve desde os 15 anos, aliás, como muitos meus colegas que vieram do Porto, de Lisboa, etc. A Torralta foi uma escola fantástica, com condições fantásticas. Éramos todos miúdos de fora, sentíamos todos as mesmas dificuldades de sair da casa dos pais para ir viver sozinhos num ambiente diferente. No início vivíamos nas torres da Torralta junto à Praia de Alvor, depois fizeram um mini centro de estágio que por brincadeira chamávamos de “Irão”. Era um espaço ao lado das torres, onde tínhamos refeitório e quartos que dividíamos dois a dois. Por sentirmos que estávamos num sítio isolado começamos a chamar de “Irão” e toda a gente aqui nas redondezas já dizia: "Eles vivem no Irão [risos]. "

Como foi o percurso escolar?
Nessa altura frequentava o 9º ano, mas como tinha muitas saídas para a seleção e para jogos em Lisboa, fiz uma pausa nos estudos. Mais tarde é que terminei o 12º ano, e ainda me meti na Universidade em Assunção, no Paraguai, onde fiz o curso de Desporto, é uma história que mais tarde posso contar.

 

Rui com o pai e a irmã
Rui com o pai e a irmã
D.R.

Recorda-se do jogo de estreia na I Divisão?
Foi em Portimão, substituí o Kostov, que jogou no Sporting. Dividi esses anos com o Fortes, o Jorge Andrade, o Pereira. Foi até o primeiro jogo do campeonato.

Mas jogou pouco nesse ano. Porquê?
Como tinha dito, na Torralta tive um problema de pubalgia que fui aguentando. Fui para o Farense e ao treinar muito duro os problemas foram-se avolumando. Até que me estreei no Farense, fui convocado mais alguns jogos, lembro que fui a Chaves, joguei contra o Rio Ave, contra o Benfica, mas depois tive de parar. Estive quase dois anos com problemas de pubalgia e o Farense foi-me aguentando sempre, com o Fernando Belo a fazer recuperações. Até que fui operado.

Com 18/19 anos, qual era a sua maior ambição?
Já tinha sido internacional, que era um grande objetivo, sendo um rapaz do Baixo Alentejo, de um clube da periferia. Estar no meio de jogadores do Sporting, Benfica e FC Porto era um sonho. Digamos que consegui os grandes objetivos que eram jogar na I Divisão e ser Internacional por Portugal, nas camadas jovens. Claro que tinha a ambição de fazer uma carreira mais forte na I Divisão, principalmente no Farense, onde todos gostavam de mim, era uma promessa, tinham depositado esperança no meu valor. Mas não consegui dar uma resposta positiva devido a esse problema físico que tive. Arrastou-se por muito tempo. E o futebol é o momento. O Farense trazia muitos jogadores do Brasil. Chegámos a ter 15 jogadores do Brasil, mais jogadores da Bulgária, ainda tínhamos o Paco Fortes. Era difícil um júnior afirmar-se naquela altura, não é como hoje. Não havia os sub-23, aos 17/18 anos eras lançado para os seniores e desenrasca-te. Não havia psicologia, não havia empresários, não havia nada.

Rui Capela (2º atrás à esquerda) fez parte da seleção distrital de Beja em 1978/79
Rui Capela (2º atrás à esquerda) fez parte da seleção distrital de Beja em 1978/79
D.R.

Mesmo assim não desistiu e acabou por fazer um percurso de jogador nas divisões mais baixas. Constituiu família?
Casei com 21 anos, ainda estava no Farense, era profissional. Estamos juntos há 35 anos. A minha mulher trabalha no hospital particular de Alvor desde sempre, na parte administrativa. Temos dois filhos. Um tem 34 anos e o outro 29. O mais velho, o Hugo, jogou nas seleções do Algarve, como avançado. Esteve comigo no Portimonense, quando fui lá coordenador técnico, depois mudei-me para o Esperança de Lagos e ele foi comigo, fez alguns anos na antiga III Divisão e ficou pelo Algarve. Está ligado ao Desporto, é coordenador do Grupo Desportivo Alvorense, tem 400 miúdos com ele. O mais novo, o Rúben, está ligado à pesca, é mestre aqui no Alvor.

Quando deixou de jogar futebol?
Com 27 anos, era titular do Imortal, mas surgiu uma oportunidade para investir numa imobiliária, em Portimão, com um sócio. Pensei, já não vou chegar aos objetivos que queria, estou com 27 anos, vou começar a jogar a nível amador e vou dar seguimento a esta atividade imobiliária. Na altura começaram a vender-se casas aqui no Algarve, era uma atividade que começou a ter alguma dinâmica. Fui para diretor de vendas e o meu sócio era diretor comercial e financeiro. Comecei a jogar como amador, fui treinar à noite, fui jogar para o Ourique, um clube a 90 quilómetros de Portimão. Quis continuar a fazer aquilo que amava, que era jogar futebol, mas ter outra capacidade financeira porque tenho uma família.

Teve essa empresa de imobiliária durante quanto tempo?
Dois anos, até mudar para o Grupo Desportivo Lagoa onde joguei até quase aos 32 anos, altura em que deixei mesmo de jogar. Deixei a empresa imobiliária por motivos pessoais, mas continuei ligado às vendas. Tirei um curso de técnico de vendas profissional, trabalhei na área comercial de outras empresas, ao mesmo tempo que jogava.

Rui (4º atrás à esquerda) fez a formação até júnior no Desportivo de Beja
Rui (4º atrás à esquerda) fez a formação até júnior no Desportivo de Beja
D.R.

Quando resolveu mudar o seu rumo para coordenador técnico/treinador de futebol?
Quando estava a jogar em Ourique tirei o primeiro nível do curso de treinador, em Beja. Eu e o Tueba, que jogou no Benfica, éramos os dois médios centros e o nosso treinador, que era preletor nesse curso, sugeriu-nos fazer o curso. E fomos. Fizemos o Nível I e gostámos. Pensei que com a minha atividade comercial durante o dia, ao fim do dia podia ir treinar miúdos, ficar ligado à formação.

Deixou de jogar em 2000/01, estava no GD Lagoa e na época seguinte tornou-se coordenador técnico do Quarteirense. Como foi lá parar?
A dois meses do campeonato terminar falei com o presidente do Lagoa, disse-lhe que ia deixar de jogar, que ia tirar o nível 2 do curso e que se precisassem de um treinador para as camadas jovens, eu estava disponível. Naquele momento estava tudo preenchido. Entretanto, no curso, encontrei-me com o Quim Paulo que tinha sido meu treinador no Quarteirense, fizemos trabalhos de grupo, ele era o treinador do Quarteirense na III Divisão. Tenho de agradecer-lhe muito, porque se não fosse ele se calhar hoje não estava ligado ao futebol. Ele perguntou-me se eu não queria agarrar na equipa dele durante dois meses, no verão, porque tinha um restaurante e no verão é quando há mais movimento, tinha de estar presente no restaurante.

Aceitou de imediato?
Fiquei um bocado chocado porque nunca tinha treinado antes, acabara o nível II nesse momento. Mas como em Lagoa, tinha a porta fechada porque os quadros técnicos estavam cheios, vi ali uma oportunidade, sem deixar a minha atividade comercial que fiz durante seis, sete anos, de continuar ligado ao jogo. Sou muito agradecido a ele porque ele já me tinha dado a mão anteriormente.

Quando?
Quando saí do Farense tinha as portas todas tapadas porque tinha pubalgia e ninguém acreditava que pudesse voltar a jogar, mas o Quarteirense abriu-me as portas e consegui voltar a jogar com muito esforço, aos 21 anos.

O jovem médio (3º atrás à esquerda) jogou clube da Torralta
O jovem médio (3º atrás à esquerda) jogou clube da Torralta
D.R.

Como foi essa experiência de dois meses à frente da equipa sénior do Quarteirense?
Ele continuava a ser o treinador, eu era a pessoa que estava encarregue de fazer o treino, ou seja, o metodologista de treino. Organizava o micro ciclo do trabalho semanal. Juntei-me à equipa de trabalho, mas ao fim e ao cabo assumi durante dois meses o trabalho de treinador principal, não o sendo. Foi uma oportunidade incrível logo aos 32 anos, para pôr em prática os conhecimentos que trazia do curso.

O que retirou de positivo e negativo dessa primeira experiência a treinar?
O que me surpreendeu foi a recetividade, porque tinha jogadores que foram meus colegas e eram mais velhos do que eu. A facilidade com que interagiram comigo e deram-me liberdade para atuar foi a parte mais incrível.

Na altura, quais eram as suas referências de treinador?
O José Mourinho. Foi na altura em que ele começou a "rebentar". Não pela metodologia dele porque não conhecia quando comecei, mas em termos de trabalho e de resultados.

Após esses dois meses o que aconteceu?
Depois pertenci à equipa técnica, era o adjunto principal do Quim Paulo. Estivemos cinco meses. Estávamos nas cinco primeiras posições, quando ele e o presidente do Quarteirense, de quem é irmão, tiveram um desaguisado e chatearam-se. Como o nosso treinador foi quem me levou, fui solidário com ele e saí também. O presidente disse para eu continuar, mas posso orgulhar-me de não ter passado à frente do nosso treinador. Saímos em dezembro/janeiro e fiquei desempregado do futebol. Fiquei até maio sem trabalhar, depois o Lagoa mudou de gerência e lembraram-se de mim. Fui para lá como coordenador técnico.

Quais eram as suas funções em concreto?
Organizar as equipas de competição até às escolas. Tínhamos juniores, juvenis, iniciados, infantis e escolas. E, ao mesmo tempo, fui convidado para treinar a equipa de juniores, que estava na II Divisão regional do Algarve. O objetivo principal era disciplinar os miúdos, ter níveis de competitividade bons para a realidade do clube, que antigamente não tinha uma identidade na formação; e tentar criar um modelo de jogo em que todos pudessem jogar da mesma forma. Conseguimos superar todos os objetivos, que era subir todas as equipas da segunda divisão distrital à primeira.

No último ano de júnior, Rui Capela (3º sentado à esquerda) foi jogar para o Farense
No último ano de júnior, Rui Capela (3º sentado à esquerda) foi jogar para o Farense
D.R.

Nesses quatro anos também foi observador do Benfica?
Exato. Porque estava na formação e observava muitos jogos, fui convidado a dar apoio ao Benfica, no Algarve, para indicar atletas que tivessem capacidade e potencial para ir prestar provas no Benfica. Fiz isso durante dois anos. Depois o Portimonense convidou-me para assumir a coordenação técnica e também treinar os juniores. Nesse ano pude optar pelo profissionalismo, coloquei de lado a parte comercial e dediquei-me 100% ao clube, na coordenação técnica e no treino do Portimonense, nos juniores, estávamos na primeira divisão nessa altura.

Sentia-se confortável como coordenador técnico ou já ambicionava ser treinador principal de uma equipa?
Vi-me sempre como treinador, mas, ao mesmo tempo, como tinha capacidade de organizar e estruturar todo o departamento, foi o que fiz tanto em Lagoa, como no Portimonense, no Esperança de Lagos, no Wydad Athletic Club de Casablanca e no 3 de Febrero do Paraguai. São duas atividades que não se complementam, mas ajustavam-se devido aos orçamentos daqueles clubes. Sou apologista de haver um coordenador técnico, que só faça a coordenação técnica, mas devido às dificuldades dos clubes, era tipo dois em um.

Quanto tempo ficou no Portimonense?
Não cheguei a estar um ano porque em dezembro houve eleições, o meu presidente saiu, eu tinha um ano de contrato mais três de opção, mas quem veio quis mudar a estrutura. Fui indemnizado e saí. Em termos políticos, Portimão atravessava um período difícil e pagámos todos uma fatura muito grande de sermos contratados por um determinado presidente que não correspondia às cores políticas então vigentes. Entretanto fui convidado para ser coordenador técnico no Esperança de Lagos. Treinei a equipa sénior do Grupo Desportivo Lagoa, nas últimas dez jornadas, por falta de um treinador que foi destituído. Essa foi a primeira experiência como treinador principal nos seniores e levei o clube ao 2.º lugar do Campeonato do Algarve e à Taça de Portugal.

Quando cumpriu o serviço militar, Rui jogou no U. Tomar
Quando cumpriu o serviço militar, Rui jogou no U. Tomar
D.R.

Depois disso, vai para o 3 de Febrero do Paraguai. Como surgiu essa oportunidade e através de quem?
Estava no Esperança de Lagos a fazer um trabalho excelente e senti que queria treinar e coordenar num patamar mais alto. Na altura começámos a ter contactos internacionais, a falar de projetos, através das Internet e comecei a enviar para algumas pessoas do meio todo o trabalho meticuloso da nossa organização, modelo de jogo, modelo de treino, modelo de jogador, características, todo um projeto bem elaborado para poder trabalhar no exterior. Surgiram oportunidades em Angola e no Paraguai.

O que o levou a optar pelo Paraguai?
No Clube 3 de Febrero mostraram interesse nesse tipo de projeto de coordenação técnica para as camadas jovens e fui escolhido. A partir do momento em que fui escolhido, no final de 2010, falei com o presidente do Esperança de Lagos, disse-lhe ser ambicioso, queria trabalhar a nível profissional, por isso queria aceitar aquela oportunidade. Ele compreendeu perfeitamente. No princípio de janeiro viajei para o Paraguai para começar a trabalhar.

Foi sozinho ou com a família?
A família estava estabilizada no Alvor. O clube pediu para ir sozinho para dar formação aos técnicos locais, aos quadros locais, que eram treinadores paraguaios e algum staff brasileiro, porque o presidente do clube era do Brasil. Posso agradecer-lhe também por me ter dado a oportunidade.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Quatro vezes mais.

Capela com Juanito e Miguel Ángelo, com quem jogou no Zona Azul e Beja, onde começou a jogar futebol com cinco anos
Capela com Juanito e Miguel Ángelo, com quem jogou no Zona Azul e Beja, onde começou a jogar futebol com cinco anos
D.R.

Quais foram as primeiras impressões quando chegou ao Paraguai?
Um mundo novo por descobrir, com condições muito boas, um estádio muito bom, com muitos campos. Estávamos na segunda cidade do país, a Ciudad del Este, onde havia muitos jovens, muita capacidade de recrutamento. Vi que tínhamos possibilidades de fazer um bom trabalho, tentando criar o tal modelo de jogo, modelo de treino, com princípios mais europeizados, onde a componente técnico-tática estava mais presente, porque no Paraguai fazia-se um trabalho mais físico. Pouco a pouco fomos introduzindo o nosso conhecimento e aquilo que queríamos alterar, devagarinho, porque não se pode mudar de golpe, sem perder as características do futebol e do jogador paraguaio.

E que características são essas?
O jogador paraguaio é muito lutador, não dá uma bola por perdida. É um jogador trabalhador, diferente do nosso, que é trabalhador também, mas mais técnico. O nosso futebol privilegia mais a componente técnico-tática, é mais estruturado; lá era um trabalho mais analítico, onde as dimensões técnica, física, psicológica e tática são separadas. Tentei conjugar esses fatores, tentando mesclar esses comportamentos num trabalho diferente. Conseguimos, pouco a pouco, juntar o mundo mais europeu com a qualidade do jogador paraguaio e a capacidade de trabalho que tinham. Conseguimos resultados excelentes no futebol paraguaio.

Esteve só como coordenador técnico?
Comecei os primeiros dois meses como coordenador técnico. Mas, como dava o exemplo, entrava no campo para fazer alguns trabalhos que tínhamos no modelo de jogo, o pessoal pensou: "Ele pode treinar." O treinador dos seniores saiu e comecei a treinar na I Liga, assim, do nada. Mas sempre com a possibilidade de voltar à coordenação e a treinar a formação, porque o meu grande objetivo era em três anos dinamizar e estruturar todo o futebol do 3 de Febrero. Mas assumir a primeira equipa no Paraguai foi uma experiência incrível.

Como era a Liga, muito competitiva?
Muito competitiva e muito equilibrada. O primeiro classificado não sabe se vai ganhar a casa do último. Os jogadores muito competentes, embora faltando aquela dimensão mais tática do futebol europeu, como disse. Mas um futebol muito aguerrido, muito agressivo, onde o resultado é sempre uma incógnita. Abriu-me ainda mais o gosto por treinar, sem descurar a parte da coordenação.

A primeira experiência de Rui Capela no estrangeiro foi no 3 de Febrero, do Panamá
A primeira experiência de Rui Capela no estrangeiro foi no 3 de Febrero, do Panamá
D.R.

Relativamente ao país e às suas gentes, o que mais o surpreendeu e do que gostou menos?
Fui muito bem recebido no Paraguai, têm um estilo de vida mais aberto, vivem mais virados para o exterior. Toda a gente tem um quintal ou um espaço ao ar livre, devido às temperaturas, onde se convive muito, fazem o famoso churrasco, vive-se mais de dentro para fora do que aqui na Europa. Foi uma experiência muito, muito rica. Do que gostei menos foi o facto de ter de ter alguns cuidados devido à criminalidade, porque muitas partes da cidade têm algumas dificuldades.

Apanhou algum susto?
Um dia estava a tomar o café e, sem saber, estava a ser observado por um gangue. Peguei no carro, fui para casa e quando estava a chegar estacionei em frente ao meu prédio, o segurança do prédio saiu e mal saio do carro ele começa a gritar-me "rápido, rápido, estás a ser perseguido". Fui para dentro, o segurança sacou da arma e apontou ao carro onde estavam quatro indivíduos que se preparavam para sair. Eles felizmente assustaram-se e arrancaram a grande velocidade. Foi um grande susto, mas, a posteriori, porque só me apercebi depois do perigo que corri. O segurança explicou-me que o grupo preparava-se para me assaltar ou para fazer um rapto.

Tem mais alguma história que se lembre?
Fui convidado para ir até Encarnação e quando cheguei lá, para minha surpresa, eles tinham apanhado um crocodilo e era o nosso almoço. "Não vou comer crocodilo" [risos]. Mas provei e gostei imenso. A carne é macia, branca tipo galinha e é doce. Foi cozinhado como se faz o nosso bacalhau à brás. Lembrei-me de outro episódio.

Força.
Quando íamos para o campo de treinos passávamos todos os dias por um outro campo com capim alto e houve uma altura em que resolveram incendiar aquilo para tirar aquele mato. Nós passávamos diariamente naquelas veredas. Qual não foi o nosso espanto quando vimos algumas dezenas de cobras-cascavel que tinham morrido com o fogo. Felizmente nunca fomos atacados ao passar de um campo para o outro, mas pelos vistos passávamos por elas todos os dias [risos].

O treinador (1º à direita atrás) com a sua equipa de Sub17 que venceu o Torneio Internacional de Santa Catarina, no Brasil
O treinador (1º à direita atrás) com a sua equipa de Sub17 que venceu o Torneio Internacional de Santa Catarina, no Brasil
D.R.

Entretanto, no segundo ano no Paraguai começou a acumular funções, certo?
O meu foco e o objetivo da direção, era que dinamizasse todo o futebol juvenil durante três anos. Então, à sexta jornada, eles foram buscar um treinador para os seniores, naturalmente, porque o outro tinha saído, e eu voltei para as minhas funções de coordenador. Mas como perceberam que eu tinha capacidade para treinar, comecei a treinar as equipas de sub-17 e sub-18 e definitivamente deixei a coordenação. Pensei, é agora que vou começar só a treinar. E aconteceu.

Como?
Fomos a um torneio no Brasil. Um torneio muito importante, chamado Saudades, que foi onde o Neymar se estreou quando jogava no Santos. Tem equipas de toda a América do Sul e nesse ano consegui ganhar esse torneio com o 3 de Febrero, com a equipa de sub-17. Fui considerado o melhor treinador do torneio, pediram-me para fazer uma seleção para ir à Europa representar os melhores jogadores num torneio que eles faziam. Mas eu não pude ir porque tinha a equipa de sub-18 e dei lugar a outro treinador do Brasil. Depois, com a equipa de sub-18, fui campeão do Paraguai. Colocámos alguns jogadores na seleção de juniores e foi muito bom.

Não continuou no Paraguai porquê?
Entretanto, eu queria mais, mas não chegámos a acordo, em dezembro de 2013 voltei para Portugal e quando cheguei fui confrontado com uma proposta do Bangladeche, que veio também de contactos online, porque já tinha uma network importante. Como eu tinha dado uma boa resposta no Paraguai pensaram que podia dar uma resposta também positiva na I Liga, no Bangladeche. Fui convidado para o Mohammedan SC, que este ano, por acaso, foi campeão do Bangladeche, 11 anos depois de eu ter ganhado a Taça.

Capela com os dois trofeus que conquistou no Paraguai
Capela com os dois trofeus que conquistou no Paraguai
D.R.

Foi uma época que lhe correu bem. Fale-nos um pouco dessa experiência no Bangladeche.
Quando cheguei foi um choque. São pessoas de uma humildade enorme, um país onde a hierarquia social é tremenda. Mas a cidade de Daca é insuportável para viver devido à poluição, ao calor... Foi um choque brutal. Condições completamente diferentes das que tinha no Paraguai. Tínhamos um estádio fantástico para jogar, o estádio nacional, o resto... Quando cheguei estávamos a três dias de começar o campeonato, porque eles tinham mandado o treinador embora. Eu pensava que ia fazer a pré-temporada, mas ao fim de três dias estava a jogar o primeiro jogo. Cheguei lá no dia 29 de dezembro, no dia 2 de janeiro estava a jogar para o campeonato.

O que achou do campeonato?
O primeiro impacto foi muito diferente do campeonato paraguaio. Estava uns furos abaixo daquilo que estava acostumado, embora o clube tivesse seis jogadores da seleção e dois estrangeiros da Nigéria, que tinham qualidade. A nossa equipa em termos de qualidade era a terceira ou quarta melhor. O nosso capitão era o capitão da seleção nacional e ajudou-me bastante a passar a mensagem. Mas o jogador do Bangladeche é um jogador mais lento, que não está habituado a grandes cargas de trabalho. Tive de adaptar-me rapidamente e os primeiros momentos foram difíceis tanto em termos de treino, como de qualidade de campo para treinar. A alimentação foi terrível. Não estava acostumado ao picante e tive problemas gástricos. Mas compensou tudo o facto de termos conseguido ganhar a Taça do Bangladeche e uma classificação honrosa, em que estivemos 12 jogos sem perder depois da minha adaptação. Tivemos ali um período difícil porque tínhamos de combater com as duas melhores equipas e aquilo é muito politizado.

Pode explicar melhor?
Na altura, quem mandava era mais adepto do Abahani Limited. Agora mudou o governo e são mais pelo Mohammedan. Também têm o Basundhara Kings, uma equipa que é de uma pessoa que tem muita capacidade financeira, são os três maiores. Tu só ganhas se realmente estiveres ligado a um determinado grupo.

Porque há influência nas arbitragens?
Porque o investimento no Abahani Limited era mais forte e as próprias arbitragens também eram um bocadinho mais tendenciosas, no meu ponto de vista. Normalmente não falo das arbitragens, mas quando nos sentimos bastante prejudicados, podemos falar. E nesse ano senti como o Mohammedan tinha dois clubes à frente e dificilmente podíamos ultrapassá-los por esse motivo.

Em 2013/14, Rui Capela (no centro) foi treinar uma equipa do Bangladeche
Em 2013/14, Rui Capela (no centro) foi treinar uma equipa do Bangladeche
D.R.

Algum hábito, um costume do Bangladeche que o tenha chocado?
Quando vamos para um país muçulmano temos de adaptar-nos aos horários das rezas deles. No princípio não compreendi porque no Paraguai são católicos, embora seja um povo que vive também a religião de uma forma muito forte; antes dos jogos juntávamos-nos sempre todos para rezar, por exemplo. No Bangladeche, no início não sabia onde é que estava nesse aspeto. Mas atualizei-me e adaptei-me. Foi tudo muito rápido para mim. A alimentação também foi um problema. Eles não tinham cuidado, comiam muitos fritos e a comida era feita com condimentos muito fortes. Mas penso que no futebol já mudaram e têm mais cuidado.

Tentou mudar alguma coisa nesse aspeto?
Não, era impossível mudar, porque se tentasse mudar, quem mudava era eu. [risos] Não havia abertura, aquilo estava implementado e era impossível interferir. A higiene era muito pouca, a poluição tremenda, por isso tive tantos problemas gastro. Outra situação com que me deparei foi com um trânsito infernal. São 20 milhões de pessoas numa cidade. Tinha de ir de riquixó para o treino e para todo o lado. Era caricato. Por outro lado, apanhei uma altura onde havia alguns atentados em Daca e fiquei um bocado assustado. Antes de chegar lá houve a revolta dos estudantes, em que a polícia matou 200 e tal estudantes. Ainda ouvi tiros à noite, apesar de viver num bairro residencial, onde estavam as embaixadas. Foi um período conturbado.

E a comunicação? Como era o seu inglês e o deles?
O meu inglês é razoável, havia cinco ou seis jogadores que falavam inglês razoável. Depois era transmitido na língua deles pelo capitão ou por um treinador-adjunto. É curioso que o treinador que trabalhou comigo, que bebeu muita informação nossa, é hoje o treinador do Mohammedan que foi campeão nacional há uma semana.

Os jogadores foram sempre recetivos às suas ideias?
Em termos de disciplina são pessoas que ouvem muito, por isso não tenho nada a dizer. Nas primeiras duas ou três semanas tentámos simplificar mais os processos, em espaços reduzidos. Em termos técnico-táticos fui com um sistema de 4x2x3x1, que já se estava a usar muito. Não foi difícil. No Paraguai jogavam normalmente em 4x4x2 e fui ao encontro do que estavam acostumados.

O treinador português a orientar a equipa do Mohammedan SC, do Bangladeche
O treinador português a orientar a equipa do Mohammedan SC, do Bangladeche
D.R.

Porque não continuou no Bangladeche, uma vez que estava a desempenhar o papel que mais queria, o de treinador principal numa primeira divisão?
Quando ganhei a taça foi um alívio porque consegui um objetivo grande na minha carreira. Já tinha ganhado um torneio internacional, já tinha sido campeão de juniores no Paraguai, e naquele momento pensei que para dar continuidade ao meu trabalho no Bangladeche tinha de ter outras condições, outro tipo de jogadores para poder lutar pelo título. Como isso não era possível, como tinha passado por todas aquelas dificuldades de adaptação, com problemas gástricos, decidi voltar para casa e esperar por algum projeto. Estava convencido de que apareceria algum trabalho na Europa ou na América do Sul. Disse à direção que me vinha embora. Eles queriam que continuasse, mas coloquei logo essa premissa de esperar outras coisas e aguardar em Portugal e não continuamos a conversação.

Quanto tempo esteve em Portugal à espera, até ir para Marrocos?
Eu já não queria voltar para a coordenação técnica, por isso passou-se junho, julho e agosto, não apareceu nenhuma proposta.

Ficou muito desiludido? Considera que o que conquistara era suficiente para ter uma proposta de cá?
Confesso que estava à espera que aparecesse, por exemplo, um clube da II Liga em Portugal, um projeto profissional, vá. Nunca podia esperar ir para a I Liga naquela altura, porque sabia que era impossível saltar de um determinado contexto, sabemos como as coisas funcionam, não é fácil, tens de estar nos sítios certos, tens de ter os empresários certos. Mas pensei que poderia começar na II Liga ou numa Liga 3 e isso seria fantástico. Já tinha passado 12 anos no ativo, sempre em progressão. Mas não aconteceu, fiquei um bocado desiludido. Na América do Sul as posições também estavam fechadas.

A equipa com a qual Rui Capela venceu a Taça do Bangladeche
A equipa com a qual Rui Capela venceu a Taça do Bangladeche
D.R.

Acabou por ir para o Wydad Athletic Club de Marrocos como coordenador técnico novamente. Não era o que desejava.
Eu não queria ser mais coordenador, mas estava sem trabalhar. Há quatro meses que não entrava dinheiro em casa. Era um convite para coordenador, feito dentro dos mesmos moldes financeiros que o do Paraguai e do Bangladeche, não podia rejeitar, mesmo sabendo que ia perder visibilidade como treinador. Era um grande clube africano, três vezes campeão de África, 20 vezes campeão de Marrocos, um colosso, com um centro de estágio fantástico, com campos de treino fantásticos, com um estádio Mohamed VI muito bom. Assinei contrato para coordenar os sub-21, sub-20, sub-18, sub-15 e sub-12. As escolinhas era outro coordenador, marroquino.

Que tal essa experiência em Marrocos?
Foi outro mundo novo, fiquei encantado. Uma cultura muçulmana diferente, árabe. Foi o primeiro contacto que tive com o mundo árabe, um mundo fascinante, de mistérios. Ainda por cima estava na maior cidade de Marrocos, Casablanca, uma cidade mítica, ou mística, como se queira dizer. Apesar de não estar a fazer aquilo que mais gostava, que era treinar, gostei muito, porque foi um trabalho proveitoso, estava a trabalhar com bons jogadores. Fiz uma seleção de treinadores, porque só queriam treinadores locais. Começámos em setembro e correu-me tudo muito bem. O pior veio depois, quando o presidente começou a faltar à palavra com aquilo que tínhamos combinado.

Refere-se a problemas de pagamentos?
Sim. Tínhamos combinado um valor com o presidente, eu tinha um contrato de dois anos, e a partir de novembro/dezembro ele começou a falhar; desde o valor para pagar a casa, o salário, fiquei um bocado chocado. Nunca me tinha acontecido, nem no futebol amador. Trabalhei mais um mês e ele continuou na mesma. Mas, volto atrás para lhe dizer que treinei a equipa feminina de Casablanca durante um mês. O treinador de futebol feminino adoeceu. Foi uma experiência muito interessante, mas difícil.

Porquê?
Porque não sabia como interagir com elas, ainda por cima no mundo árabe. Falei com o treinador e ele disse para fazer como fazia normalmente. Esse treinador via como eu trabalhava, porque enquanto coordenador técnico na primeira semana tento ir para o campo e interagir com os treinadores e passar uma forma de trabalhar com alguns exercícios. Ele disse-me que não precisava ser diferente, que podia fazer o que estava acostumado, com disciplina, com respeito.

Em 2014/15, Capela aceitou o desafio de ser coordenador técnico do Waydad de Casablanca, em Marrocos
Em 2014/15, Capela aceitou o desafio de ser coordenador técnico do Waydad de Casablanca, em Marrocos
D.R.

As mulheres eram mais disciplinadas do que os homens?
Elas guerreavam muito entre elas. Não estava acostumado. E falavam alto, em árabe. Mantive sempre a mesma postura, sempre com disciplina. Nunca houve grandes guerras, era a forma de estarem. Muito interventivas no treino, a trabalhar, a questionar, muito ativas, diferente dos homens.

Se surgisse uma oportunidade no futebol feminino, aceitava?
Prefiro trabalhar o futebol profissional sénior, masculino. Mas deixou-me interessado porque vi que havia potencial para o desenvolvimento do futebol feminino a nível geral. Percebi que o futebol feminino tinha uma palavra a dizer no futuro, como está a ter agora. Não me enganei.

Veio embora de Marrocos, e depois?
Em dezembro fui à federação marroquina, expliquei a situação e percebi que só podia esgrimir a situação se fosse treinador principal. Falei com os advogados aqui em Portugal, mas não podia fazer nada, nem podia recorrer para a FIFA. Vim embora porque não podia admitir que brincassem com os meus direitos, nem faltar ao respeito ao trabalho, à nossa forma de estar na vida. Posso dizer que perdi muito dinheiro. Estamos a falar do ano e meio de contrato que ficou lá. Quando estava para vir embora já havia conversas para a Europa de Leste, de embarcar num projeto na Lituânia, embora ainda não estivesse nada definido.

Capela com Hassan, um dos treinadores da formação, no Waydad de Casablanca
Capela com Hassan, um dos treinadores da formação, no Waydad de Casablanca
D.R.

O que o aliciou no projeto da Lituânia?
Fui convidado para treinar o FK Kruoja Pakruojis, passado um mês e pouco de estar desempregado. Era um clube da I Liga, aquilo que eu queria, ser treinador profissional de uma liga europeia, fiquei extremamente motivado. Houve um grupo chinês que adquiriu o clube que estava na pré-eliminatória da Liga Europa, tinha ficado em segundo do campeonato lituano. Um clube de uma cidade pequena, não tão grande como os grandes de lá, mas que estava a querer evoluir e queria ter uma palavra a dizer. Não hesitei nem um segundo. Levei um treinador português para trabalhar comigo, fomos os dois.

Como foi o primeiro impacto?
Foi engraçado porque fui substituir um treinador croata que tinha feito a pré-temporada no Chipre, os jogos de pré-temporada não correram bem e eles quiseram mudar de treinador a uma semana do campeonato começar. Mais uma situação difícil para mim como no Bangladeche. Tive de trabalhar rápido para ganhar tempo, para numa semana pôr a equipa à nossa imagem, ou pelo menos minimamente competitiva, para darmos uma resposta positiva no primeiro jogo do campeonato da Lituânia. A adaptação foi boa, mas com um contraste, o frio. Estavam 15 graus abaixo de zero, eu e o meu treinador-adjunto íamos morrendo de frio [risos]. Para quem tinha vindo do Marrocos foi um choque brutal.

Em 2015, Capela (de gorro e cachecol) Capela foi treinar para a Lituânia, mas como não tinha ainda o nível UEFA Pro, tinha de sentar-se ao lado do banco
Em 2015, Capela (de gorro e cachecol) Capela foi treinar para a Lituânia, mas como não tinha ainda o nível UEFA Pro, tinha de sentar-se ao lado do banco
D.R.

Como é o campeonato e o jogador lituano?
É um povo que não sorri muito, é de trabalho, é para fazer, é para fazer. Não há aquela ligação, de darmos um abraço ao jogador e dizer aquelas palavras de circunstância, é um jogador que recebe a informação e faz, acata ordens, tecnicamente não é muito evoluído, taticamente, aquilo que era pedido, eles faziam. Mas há jogadores lituanos que têm qualidade, temos o exemplo do Jankauskas, que jogou no FC Porto. O campeonato lituano está uns furos abaixo. É a terceira divisão do futebol europeu.

Ao que sei, não correu bem. Porquê?
Estive lá só dois meses. No primeiro mês não pagaram. O grupo chinês entrou em divergência; é como se passa em Portugal, divergências entre clubes e SADs. No segundo mês não pagaram, fui direito ao dono do clube, porque não tinha ainda sido feita a escritura da SAD. Na altura eu só tinha o curso UEFA A, tinha de ficar ao lado do banco, como acontecia com o Ruben Amorim quando começou. Não estava muito contente com isso, escrevi para a Federação Portuguesa de Futebol para tirar o curso, não consegui, somando a isso à falta de pagamentos, ao facto dos jogadores virem queixar-se, porque não recebiam e tinham família para sustentar, fui direito a eles e disse que não podíamos continuar assim. Bati com a porta.

Como reagiu o clube?
A direção do clube veio à minha casa pedir para que ficasse, mas eu não tinha condições para trabalhar assim. O grupo chinês, entretanto, deu de frosques. Desapareceu. Adquiri o meu bilhete, com o meu dinheiro e vim embora. O meu treinador-adjunto ficou lá mais dois ou três meses, mas não houve capacidade para aguentar o clube. O grupo chinês foi uma grande tramoia e começaram a perder jogos por falta de comparência. Foram à Liga Europa com 15 jogadores. Pressenti o que ia acontecer. O clube não acabou a época e fechou as portas.

Capela com o seu adjunto Bruno Ribeiro, durante uma viagem da equipa FK Kruoja Pakruojis, da Lituânia
Capela com o seu adjunto Bruno Ribeiro, durante uma viagem da equipa FK Kruoja Pakruojis, da Lituânia
D.R.

É depois disso que consegue tirar a licença UEFA Pro?
Exatamente. Quando cheguei a Portugal, em março/abril, tenho conhecimento que em maio vai abrir o UEFA Pro. A FPF não tinha como dizer não. Eu já tinha feito várias exposições, eles sabiam que eu estava a trabalhar numa I Liga e entrei no curso. Fiz o curso com o Abel Ferreira, em 2015. Acho que aí abriram-se os horizontes para o meu percurso. Porque com o UEFA Pro podes trabalhar em qualquer parte do mundo, em qualquer seleção. No Paraguai tirei o curso de treinador superior de futebol e estive na Universidade de Assunção três anos onde tirei a licenciatura em Desporto. O que não tinha feito em Portugal por motivos familiares e profissionais, fiz lá. Tenho duas formações de treinador de alto nível, uma na América do Sul, da CONMEBOL, e outra na Europa, o UEFA Pro.

Estava a dizer que quando terminou o UEFA Pro várias portas se abriram…
Sim. Nessa formação onde estão alguns treinadores que têm mais contactos e como interagimos entre nós, acabamos por trocar experiências. Havia um treinador, o Jordan Vieira, que tem um conhecimento forte no mundo árabe, e que recebeu um e-mail a pedir um treinador e um coordenador técnico para o Al-Khor, do Catar. Cinco ou seis que estávamos a tirar o curso ficámos interessados porque se levantavam outros valores em termos financeiros e abria-se uma porta. Ele mandou os nossos currículos e fomos escolhidos dois para a coordenação técnica.

Quem foi o outro treinador escolhido?
Não vou revelar. Voltei à coordenação técnica e havia outro colega meu que era para ser treinador da equipa B, que jogava a II Liga do Catar. Entretanto, o treinador que ia comigo teve uma proposta mais vantajosa de outro clube e viajei sozinho para lá. Como o campeonato da II Liga ia começar logo, puseram-me a treinar a equipa B. Fiquei feliz da vida. Foi uma oportunidade que surgiu do nada. Acabei por ficar dois anos na equipa B, depois fizeram o campeonato de sub-23 que veio substituir as equipas B e depois estive mais dois anos com os sub-23.

 

Spoiler

“Foi no Catar onde ganhei mais dinheiro. Quando lá cheguei a gasolina estava a 20 cêntimos. Era mais barata que uma garrafa de água”

“Foi no Catar onde ganhei mais dinheiro. Quando lá cheguei a gasolina estava a 20 cêntimos. Era mais barata que uma garrafa de água”
LUIS BRANCA

Rui Capela já treinou em dez países, em quatro continentes e, meio a brincar, foi dizendo sempre aos amigos que ia trabalhar nas seis confederações de futebol, nos cinco continentes. Atualmente está com a carreira em suspenso devido a um problema de saúde da mulher, embora assuma que já foi abordado para treinar uma seleção e um clube de uma I Liga africana. Após seis anos no Catar, foi treinador na Chéquia, no Líbano, em Singapura e fez dois jogos à frente da seleção do Brunei. É sobre todas estas aventuras que falamos nesta Parte II do Casa às Costas

Como foi o primeiro impacto quando chegou ao Catar em 2015/16, para treinar a equipa B do Al-Khor?
Fabuloso. Temos todas as condições e mais algumas para desempenhar o melhor trabalho possível. Campos de qualidade fantástica, infraestruturas tanto particulares como profissionais fabulosas, tudo e mais alguma coisa que possamos imaginar de qualidade existe no Catar. Na equipa B tinha os jogadores que tinham menos qualidade, que não jogavam na equipa A, então a qualidade não era muito boa. Foram campeonatos medianos que fiz na equipa B, nunca para disputar o 1.º lugar porque a nossa equipa vivia do que o nosso treinador principal dava. Estava sujeito a essa qualidade.

E que tal os jogadores cataris?
Há jogadores com muita qualidade técnica, mas devido ao calor não é um jogador que se esforce muito. É um jogador que tem uma qualidade de vida tremenda, não precisam do futebol profissional para viver, por isso levam o futebol como um hobby. Tive de me adaptar a isso também. Jogadores que têm dez carros na garagem, cinco casas, viajam por todo o mundo. Arranjam sempre muitas desculpas para não treinar. Treinamos fora de horas porque o calor é imenso. Há períodos do ano em que chegam a estar 50 graus. E o jogador tem essa predisposição, dorme tarde, depois há o Ramadão, um período difícil que tem de ser respeitado. Tem esses contras para o futebol profissional, mas posso dizer que a minha adaptação foi fantástica, passei seis anos no Catar muito bons. Embora não tenha atingido o nível que eu queria.

Porquê?
Porque fiquei um pouco acomodado, devido ao salário que recebia e às condições que tinha. Eles não falharam com nada e fui deixando andar. Estou bem aqui, gostam de mim, faço um trabalho que me valoriza como profissional, estou num clube de I Liga, estou num país onde se vai disputar o Mundial em 2022, fui deixando andar. Houve mudanças de direção. Passei para a equipa de sub-23, fui vice-campeão. Na equipa de juniores fui campeão. Voltei à equipa principal quando mandaram um treinador embora. Estive lá seis jornadas, salvei a equipa da descida. Tinha contrato e também não tinha soluções para mudar de clube para um patamar que fosse tão bem pago ou que dinamizasse a minha carreira como treinador principal.

Rui Capela (3º atrás à direita) com a sua equipa de Sub-23 do Catar, com a qual foi vice-campeão
Rui Capela (3º atrás à direita) com a sua equipa de Sub-23 do Catar, com a qual foi vice-campeão
D.R.

Por que razão não continuou à frente da equipa principal?
É fácil explicar. Vou dar um exemplo fora da realidade. Você ganha €100.000 como treinador da base, mas o treinador principal ganha um milhão de euros. As comissões são X. Quem é que vai buscar? O treinador da base ou o treinador estrangeiro que vem de fora?

O estrangeiro porque a comissão é maior?
Acertou em cheio. Nunca há hipótese da qualidade dos treinadores da base ter continuidade. Acomodei-me como treinador da segunda equipe e treinador do sub-23, porque tinha um estatuto muito bom, nunca tinha o lugar em risco, digamos. Ganhava muito bem, tinha qualidade de vida ótima e por isso fiquei lá seis anos e passei por todos os escalões, desde a primeira equipa, à equipa B, aos sub-18, também estive uma semana como coordenador técnico, passei por todas as funções no futebol profissional do Al-Khor.

Tem alguma história para contar do Catar?
Não tenho nada de especial. Posso dizer que quando cheguei a gasolina estava a 20 cêntimos. Era mais barata que uma garrafa de água. Com €10 enchia o depósito.

O que fazia nas folgas?
Houve uma altura em que ia muito aos Emirados, ficava a quatro horas. Também fui algumas vezes à Turquia.

Ia passear sozinho, com a família ou com algum membro do staff?
Quando escolhem os treinadores, mesmo o treinador principal, normalmente seguem uma linha de orientação. Quem escolhe os treinadores são pessoas externas aos clubes, são indicados pelo governo, então normalmente as equipas técnicas são do Egito, de Espanha. Posso dizer que o meu preparador físico era espanhol, tinha um adjunto do Irão, tinha gente do Catar, era muito diversificado. Normalmente andava muito sozinho. A parte da manhã era para estar em casa. Passamos muito tempo nos centros comerciais porque tem muita diversidade e ar condicionado; ia ao cinema, às praias no tempo que se pode ir às praias. Cozinhava muitas vezes em casa, eles têm supermercados de qualidade. Era uma vida muito tranquila.

Em 2022, o treinador regressou a casa e foi treinar o Esperança de Lagos
Em 2022, o treinador regressou a casa e foi treinar o Esperança de Lagos
D.R.

Acabou por vir embora. Porquê?
Em 2021 renovei contrato. Estou em casa a passar férias, a minha esposa teve uns problemas de saúde e pedi para ficar um tempinho mais. Eles não aceitaram e aí rescindimos o contrato. Foi tão simples como isso. Foi uma incompreensão mútua. Fiquei mais duas semanas em casa para tentar acompanhar um processo da minha esposa, era um problema oncológico, com o qual se tem debatido ao longo destes quatro anos. Foi por isso que vim para o Esperança de Lagos. Não falo muito desse assunto, porque foi um problema complicado, que infelizmente voltou agora, por isso regressei do Brunei recentemente. Estava tudo a correr lindamente, estava nos primeiros lugares, ganhei os jogos todos na seleção e a minha esposa voltou a ter esse problema, foi operada e voltei. Graças a Deus, ao fim dos seis, sete meses que estou cá, a coisa normalizou. Mas estes quatro, cinco anos não têm sido fáceis.

Foi fácil voltar para o Esperança de Lagos, em 2021/22, após mais de uma década fora?
Tenho uma amizade muito grande com o presidente do Esperança de Lagos. Eu estava a ser visto já como um treinador de sub-23. O Esperança de Lagos estava no Campeonato de Portugal, pensei, é uma forma de arrancar outra vez, dinamizar o percurso para outros voos. E foi assim. Tanto que saio do Campeonato de Portugal e vou para a III Divisão da Chéquia, depois vou para a II Liga do Líbano e acabei na I Liga de Singapura e na seleção nacional do Brunei. Que era um objetivo que tinha como um homem do Sul, treinar uma seleção nacional. Em quatro anos, subo cinco patamares. Ou seja, o passo que dei para o Esperança de Lagos foi muito importante.

Ainda na época 2022/23, Capela assinou pelo SC Znojmo, da Chéquia
Ainda na época 2022/23, Capela assinou pelo SC Znojmo, da Chéquia
D.R.

Como foi parar à Chéquia depois do Esperança de Lagos?
O problema da minha esposa complicou-se e pedi para sair do Esperança de Lagos na 6.ª ou 7.ª jornada. Pensei mesmo em terminar a vida profissional. Começamos a ir para o IPO novamente e debelamos o problema. Entretanto, o SC Znojmo, da Liga III, mandou o treinador embora. Era uma equipa bastante competitiva, uma cidade boa, estive a pesquisar tudo, tinha a situação normalizada aqui em Portugal, o presidente contactou-me para treinar e salvar a equipa que estava em último lugar. Havia ali o interregno do inverno. Falei com a minha mulher, se estava em condições de eu ir fazer três, quatro meses. Era também para não deixar morrer a minha carreira. E fui.

Correu bem?
O handicap era estarmos em penúltimo e com muitas dificuldades, muito longe dos lugares de manutenção; pensei duas vezes, pus tudo na balança, a família, a carreira, e chegámos à conclusão que devia ir. Havia uma grande divergência entre a SAD e os diretores do clube. Houve alguém que comprou a SAD e queria salvar o clube. O clube queria um treinador checo, a SAD queria-me e esses problemas adensam-se. Cheguei, começámos a trabalhar forte, os jogadores impecáveis. Tinha havido ali um reajuste de três ou quatro jogadores que vieram para a nossa equipa, não escolhidos por mim, mas fomos felizes nesse reajustamento. As condições de trabalho eram boas, apesar de muito frio, com neve. Começámos a ganhar, nas primeiras três jornadas fizemos nove pontos e viemos cá para cima. Aquilo deu uma motivação incrível. Fizemos uma campanha de 17 jogos, em que no final da segunda volta fomos a quarta melhor equipa do campeonato e acabámos no meio da tabela. Os problemas que tive foi com a direção. Tentaram sempre prejudicar-me, puseram notícias falsas, a dizer que eu era um bandido.

Porquê?
Porque no clube queriam pôr outro treinador. Queriam ter comissões dos treinadores, dos jogadores. Ajudei sempre o meu presidente, tanto que quando saí de lá indiquei sempre treinadores portugueses. O último foi o Casquilha, que esteve lá até há pouco. Tivemos muitas guerras verbais, eles difamaram-me como treinador, mas nunca conseguiram porque o nosso presidente esteve sempre do nosso lado, os jogadores também. Tivemos sempre os ordenados e os prémios em dia, a situação correu muito bem no sentido em que unimos forças, levámos o barco até ao fim e quem saiu foram os que não queriam a nossa presença. Não fiquei porque tive um convite para a I Liga do Líbano. Quis subir um patamar e voltar ao mundo árabe, porque as condições financeiras são diferentes de trabalhar numa II ou III Liga na Europa.

Capela dá indicações para dentro de campo, num jogo do SC Znojmo
Capela dá indicações para dentro de campo, num jogo do SC Znojmo
D.R.

Falou em clube da I Liga, mas no Líbano treinou o Salam Zgharta que estava na II Liga, certo?
Na última jornada no Líbano houve problema, porque houve invasão de campo, o jogo não acabou e eles estavam com um processo na FIFA. Só quando já lá estava é que soubemos que íamos jogar na II Liga. Sempre pensei que ia jogar na I Liga. Já estávamos com uma equipa formada e devido a essa situação alguns jogadores saíram do clube e tivemos que reformular, arranjar alternativas, porque a equipa estava organizada para a I Liga. É um país fantástico, praias maravilhosas na costa mediterrânica, com montanhas que têm a neve a 40 minutos, aquilo é a Suíça do Médio Oriente. Beirute é uma cidade fantástica, tirando a problemática da guerra e da religião. Estávamos a lutar pela subida de divisão, quando deixei o clube estávamos em 2.º lugar, mas houve um episódio que fez com que viesse embora.

Que episódio, pode contar?
Um dia à noite estou em casa, em Zgharta, uma cidade católica, eram umas oito horas e ouço um barulho muito ruidoso. Eram dois bombardeiros, a baixa altitude, que passam por cima da minha casa a contornar a baía para apanharem o mar. De repente, a minha casa treme por todo o lado. Bombardearam a Síria. No outro dia soube que eles atacaram extremistas e houve uma mortandade enorme numa base terrorista na Síria, a 30 quilómetros da minha casa. Pensei, já não fico mais aqui. Eram aviões israelitas que de tempos a tempos fazem raides no Líbano, na Cisjordânia... A minha casa tremeu bastante, fiquei assustado. Fui falar com o presidente no outro dia e pedi para sair. Temi pela segurança. Foi o prenúncio da guerra que me fez sair.

A seguir, o técnico português foi treinar o Salam Zgharta, do Líbano
A seguir, o técnico português foi treinar o Salam Zgharta, do Líbano
D.R.

A seguir foi parar ao DPMM, de Singapura. Como?
Já havia uma abordagem, desde novembro/dezembro, o meu nome estava cogitado para ser um dos treinadores do DPMM, da I Liga de Singapura. Fiquei motivado, mas sem nunca perder aquilo que era o meu foco na altura que era levar o Zgharta à I Liga. Quando saí, o DPMM mantinha o interesse em mim e comecei em fevereiro. Estive lá até junho, altura em que a saúde da minha mulher voltou a piorar, o que me fez vir para casa, até hoje.

Mas também treinou a seleção do Brunei.
Sim, enquanto lá estive consegui treinar ao mesmo tempo a seleção do Brunei. Fizemos dois jogos com o Sri Lanka. O Brunei nunca tinha ganhado ao Sri Lanka e nunca tinha estado dois jogos sem perder e sem sofrer golos. Foi um caso inédito. Só acumulei porque houve uma paragem no campeonato e o presidente do país, o Príncipe, pediu ao dono do DPMM, para me ceder à seleção durante essa jornada dupla com o Sri Lanka. Mas não podia dar continuidade a esse projeto, que era depois o apuramento para a taça asiática e por aí fora. Depois eles foram eliminados por Timor-Leste, mais tarde.

Do Brunei trouxe algum episódio ou história para contar?
É um país pequeno, fantástico em termos de condições, mas onde vivemos no meio da selva, em que o mundo animal está junto às nossas casas; temos macacos pendurados na janela e temos de ter cuidado porque eles roubam comida ou outra coisas se deixarmos as portas e janelas abertas [risos].

Capela (1º atrás à esquerda) com a sua equipa o Líbano
Capela (1º atrás à esquerda) com a sua equipa o Líbano
D.R.

Neste momento está com a carreira em suspenso?
Já tive alguns convites. No meio desta época fui convidado para o SC Znojmo, que se viu aflito e o presidente lembrou-se de mim. Infelizmente, não podia ir. Fui convidado para uma equipa da África, da I Liga da Tanzânia. Tive uma abordagem para uma seleção, não posso dizer nomes porque está em stand by. Está a ser estudado, depende de como as coisas correrem em Portugal.

Pode dizer de que continente é a seleção?
[Risos] Não. Já trabalhei em dez países, em quatro continentes. Agora seria um país da CONCACAF. Em brincadeira com pessoas conhecidas, fui dizendo que ia trabalhar nas seis confederações e nos cinco continentes. Então, se for trabalhar para a CONCACAF, seria a quinta confederação porque já trabalhei na América do Sul, em África e na Ásia, onde trabalhei no Médio Oriente e na Ásia Profunda. Ou seja, tive uma experiência incrível.

Além do óbvio, o que não pode faltar na mala, quando vai trabalhar para fora?
Levo alguns amuletos ligados à minha religião, que sou católico. Jesus Cristo, um crucifixo e mais outro amuleto pessoal, também ligados à religião. Uma coisa que nunca deixo de fazer é frequentar, pelo menos uma vez por semana, a igreja de Alvor. Não é ir à missa, mas ter um momento meu, nunca peço nada, só agradeço sempre poder ir e vir sempre com segurança e com saúde.

Em 2024, o treinador assinou contrato com o DPMM FC, de Singapura
Em 2024, o treinador assinou contrato com o DPMM FC, de Singapura
D.R.

O que a passagem por tantos países lhe ensinou de mais importante?
Para já é uma experiência que não há dinheiro nenhum que pague. Estar em contextos tão diferenciados, conhecer as pessoas, é algo que quando viajamos uma semana não é o mesmo. Conviver com os locais, viver a realidade, perceber o contexto, são experiências incríveis que de outra forma nunca poderia ter se não estivesse ligado ao futebol. Quando comecei, nunca imaginei um dia ser internacional para Portugal, nunca pensei treinar na I Liga, nunca pensei jogar na I Divisão portuguesa e nunca pensei treinar uma seleção. Um rapaz da província. Sou agradecido ao futebol por tudo o que me deu.

Qual é a sua maior ambição profissional atualmente?
Estou num limbo, que me leva por um lado a dizer basta, já são 24 anos a treinar e a coordenar, com mais 20 a jogar futebol, são 46 ou 47 anos em jogo. Estou num período de reflexão. Quando vim de Singapura disse às pessoas que trabalhavam comigo que ia abandonar o futebol. Mas, por outro lado, o bichinho está cá. Penso em trabalhar numa seleção se a oportunidade surgir, em qualquer continente. Mas se surgir algum projeto minimamente ambicioso, que me leve a dar continuidade àquilo que tenho feito, vou ponderar. Tem é de ser algo com objetivos bem definidos, para conquistar algo. A coordenação técnica, apesar de não pode dizer desta água não beberei, está fora de hipótese. É diferente de ser diretor-desportivo, um cargo de direção desportiva, que não tem nada a ver com a parte técnica, talvez.

Gostava de finalizar a carreira em Portugal?
Há muita qualidade em Portugal e quem está fora normalmente é um pouco esquecido, e é natural que assim seja, porque todos os dias se estão a formar treinadores jovens, a qualidade é imensa. Em Portugal não penso trabalhar mais como treinador de futebol. Também nunca fui abordado nem fiz força para isso. Mas até dezembro vou reagir a tudo o que se passou comigo, talvez treine mais três, quatro, cinco, seis anos, apenas.

Capela também fez dois jogos como selecionador do Brunei
Capela também fez dois jogos como selecionador do Brunei
D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Catar e em Singapura.

Investiu?
Deu para investir em imobiliário. Agora vivo do imobiliário, tenho três apartamentos alugados. Consegui assegurar mais ou menos o meu futuro.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Viajar. Gosto muito de viajar.

Algum destino de que tenha gostado mais?
Gostei muito do Brasil.

Tem algum hobby?
Tenho dois ou três. Um é o padel. Estava a jogar em torneios e fiz uma rotura parcial do tendão de Aquiles. Outro hobby são as caminhadas e a pesca. Os meus filhos têm barco de pesca, gosto muito de ir à pesca também. Estar perto do mar para mim é fundamental. Vivo a 100 metros da Ria de Alvor e a 400 metros do mar.

Superstições, tem ou teve?
Quando jogava entrava com o pé direito e benzia-me. Já não o faço. Agora é algo mais interior, faço sempre a minha reza.

Acompanha alguma outra modalidade sem ser o futebol?
Praticamente todas.

Rui com a mulher e os dois filhos
Rui com a mulher e os dois filhos
D.R.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
A grande frustração é não ter insistido mais e ter acreditado mais que podia ser possível, no Farense, apesar da lesão. Podia ter acreditado mais em mim. É um arrependimento e uma frustração, as duas coisas juntas.

O momento mais feliz na carreira?
Quando ganhei a taça do Bangladeche, quando ganhei o torneio internacional de Santa Catarina, no Brasil, e quando fui campeão nacional de juniores no Paraguai. São três momentos inesquecíveis, porque são três conquistas fora do nosso país.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho que um dia gostava de ter treinado?
O meu clube é o Real Madrid, era onde gostava de ter trabalhado. Uma utopia.

Presentemente, quem são os treinadores que são uma referência?
Além do José Mourinho, são o Klopp e o Guardiola. Há um treinador português com que tive o prazer de fazer o curso, em 2007 do nível III, no qual vi um potencial tremendo: o Vítor Pereira. É uma pessoa que admiro porque veio de baixo. Apesar de estar num patamar altíssimo, acho que tem um potencial ainda para mais.

Tem mais alguma história que possa partilhar, para terminar?
Ia fazer uma viagem para o Catar, via Istambul, num determinado dia, mas, entretanto, o clube mandou-me ir no outro dia e a passagem foi trocada. No dia em que inicialmente era suposto viajar, houve um atentado no aeroporto de Istambul, onde morreu muita gente. Ou seja, escapei porque o meu voo foi trocado para um dia depois, porque supostamente aquela hora eu estaria no aeroporto.

 

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Visto que há várias entrevistas em atraso irei atualizar isto

Bruno Moraes

Spoiler

“No FC Porto, num jogo de pré-época o Co Adriaanse disse que tínhamos de marcar 10 golos. Fizemos 9 e impôs castigo à mesma: correr o dobro"

O brasileiro Bruno Moraes, de 40 anos, nasceu para o futebol no Santos de Pelé e começou a enriquecer o currículo logo na estreia como sénior com a conquista do Brasileirão. Cobiçado pela Juventus e FC Porto acabou por meter os pés na Invicta, onde ainda vive com a mulher e os dois filhos. Pelos dragões somou dois títulos de campeão nacional e uma Liga dos Campeões, quase sem jogar, fustigado por lesões que o afastaram do tão desejado caminho da glória. Pelo meio, o avançado ainda ganhou uma Taça de Portugal, emprestado ao V. Setúbal. É sobre estes primeiros anos que falamos nesta Parte I do Casa às Costas

Nasceu em Santos. É filho de quem?
O meu pai [Aluísio Guerreiro] era jogador de futebol profissional, foi para Santos e conheceu lá a minha mãe, que trabalhava numa agência bancária. A minha mãe praticava ténis pela agência, mas era amadora. O meu pai parou de jogar em Santos e ficaram por lá.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã mais velha e um irmão mais novo que também jogou futebol profissional. A minha irmã até foi a primeira a jogar futebol. Ela começou, mas acabou por desistir porque não se adaptou ao ambiente, não gostou, naquela altura o futebol feminino não era como hoje e acabou por sair do futebol. Mas ela tinha talento.

Cresceu a jogar futebol na praia?
Sim, na praia, na rua, na escola, nos campos, onde fosse possível.

Gostava da escola?
De forma geral gostava e cumpria. Estudei até ao 12.º ano.

Quando e como começou a jogar futebol num clube?
Em Santos há um clube, a Associação Atlética Portuária de Santos, que tem um espaço enorme, com muitos campos. Fui para lá treinar com cinco anos e só saí com 14, altura em que entrei no Santos. Comecei pelo futsal e depois passei a fazer também futebol de 11.

Bruno Moraes (à direita) com o irmão Júnior
Bruno Moraes (à direita) com o irmão Júnior
D.R.

Aos 14 anos, quem eram os seus ídolos?
No Brasil eram o Romário, o Edmundo e o Ronaldo Fenómeno; fora do Brasil eram o Batistuta e Rui Costa. Gostava também de Sérgio Conceição, gostava de jogadores que jogavam na Europa.

Naturalmente, torcia pelo Santos.
É. Cresci praticamente ali na Vila Belmiro. O meu pai levava-me para assistir aos jogos. Cheguei a entrar em campo com os jogadores do Santos.

E qual era o seu maior sonho?
Era ser profissional do Santos e chegar o mais longe possível. E, consequentemente, jogar na seleção brasileira.

Quando foi chamado pela primeira vez para representar o Brasil, através de uma seleção?
Tinha 14 anos, foi para os sub-15. Na altura, fui o único do Santos a ser chamado.

A primeira grande competição que fez foi o Mundial de sub-17?
Exatamente. Eles começaram a convocar essa equipa de sub-15, para preparar o Mundial de sub-17. Então eu alternava nessa altura. Ficava 15 dias fora a viajar com a seleção, íamos fazer amistosos, torneios no Brasil e fora, em vários continentes, para depois disputar esse Mundial.

Bruno (2.º em baixo à esquerda) com a equipa de futsal do Santos
Bruno (2.º em baixo à esquerda) com a equipa de futsal do Santos
D.R.

Quais as principais memórias que tem dos quatro anos no Santos?
Muitas aprendizagens, com todos os treinadores e também com os colegas. As amizades que ficaram. O Santos é uma equipa onde a exigência é alta. Há jogadores que batem à porta para tentar ficar no clube. É um clube grande. E acabei por absorver tudo aquilo que é a formação de um clube grande.

Quando se estreia pela equipa principal?
Fui convidado para treinar com a equipa principal ainda júnior e em 2002 já integrava o plantel. Eu tinha muita expectativa de jogar. Como disse, estava a viajar com a seleção e estava no Santos, eles optaram por deixar alguns jogadores a viajar mais com a seleção e ficar com outros para poder começar o campeonato. No meu caso eu viajava com a seleção e treinava no Santos e acabei por perder um pouco de espaço no Santos. Por isso só me estreei no campeonato mais para a frente, depois de alguns meses.

Estreou-se numa época em que o Santos ganhou o Brasileirão, algo que já não acontecia há muitos anos. Foi especial?
Foi, até porque esse grupo tinha poucos jogadores experientes, três ou quatro, o resto eram jogadores novos, formados no Santos. Foi um ano muito importante na história do clube e foi o meu primeiro ano como sénior. Acabei por fazer parte desse grande triunfo.

Iniciou a época seguinte [2003/04] no Santos, mas acabou por sair para o FC Porto, ainda com 17 anos. Como aconteceu? Tinha empresário?
O meu representante na altura era o meu pai. Mas o contacto surgiu através do empresário Jorge Baidek. Eu tinha outra proposta, até já estava na Suíça porque um outro empresário tinha uma proposta da Juventus, de Itália. Mas o FC Porto foi mais persuasivo, mais intencional, mais rápido e acabou por convencer-me, apesar de eu querer muito jogar na Juventus.

O adolescente Bruno com Pelé e Robinho, no Santos
O adolescente Bruno com Pelé e Robinho, no Santos
D.R.

O que o levou a aceitar a proposta do FC Porto?
As condições financeiras eram semelhantes. Só que, no FC Porto, eu ia ter oportunidade de fazer parte da primeira equipa logo no primeiro ano, enquanto na Juventus era um contrato de três anos, mas no primeiro queriam que eu fosse emprestado ao Young Boys, para ganhar alguma rotatividade, alguma experiência e fazer adaptação; depois, correndo bem, eu ia integrar a equipa da Juventus. O meu interesse era mais pela Juventus porque no Brasil o campeonato que passava na televisão era o italiano. Eu conhecia muito pouco o campeonato português. Só conhecia os três grandes, também por causa de jogadores que estiveram no Santos e vieram para Portugal.

Quando aterrou no Porto, quais foram as primeiras sensações?
Era o mesmo idioma, mas eu não conseguia entender muito o que as pessoas falavam [risos]. Era muito rápido, ainda mais no Porto, em que há um sotaque próprio muito acentuado. No aeroporto percebi logo que era um clube grande, pela receção, havia muitos jornalistas. Lembro-me que tive um jantar interessante com o presidente, Pinto da Costa. Eu estava a jantar com ele, uma criança foi até à nossa mesa e pediu para ele dar autógrafo e isso surpreendeu-me porque no Brasil não é muito comum os presidentes serem reconhecidos e bem-visto, ao ponto de uma criança pedir autógrafo [risos].

O avançado brasileiro jogou quatro anos no Santos
O avançado brasileiro jogou quatro anos no Santos
D.R.

E como foi o primeiro contacto com José Mourinho?
Eu fui a Setúbal conhecer o José Mourinho. Encontramo-nos num café em frente ao Estádio do Bonfim. Ele foi muito solícito, conversou, até perguntou se eu e o meu pai queríamos pastel de nata, que não conhecíamos.

Nessa primeira conversa, o que vos disse?
Nada de específico, foi uma conversa básica, perguntou como tinha sido o voo, se conhecíamos Portugal, uma conversa de circunstância.

O José Mourinho não lhe disse o que esperava de si?
Naquela altura não. Mas poucos dias após eu chegar, dei uma entrevista a um jornalista, por telefone. Eu era novo aqui, quis ser atencioso e no dia seguinte saiu uma página grande e o Mourinho chamou-me [risos]. Disse que não podia ser assim, que as entrevistas tinham de ser orientadas em conjunto com o clube. Explicou como as coisas funcionavam em Portugal. Recordo-me da primeira conversa que ele teve comigo no Olival. Disse que o FC Porto era um clube exigente, mas que conhecia o meu talento e acreditava que o clube tinha feito uma excelente contratação e que eu ia crescer muito ali.

Na primeira época fez mais jogos pela equipa B do que pela equipa principal. Jogar pela equipa B deixou-o chateado?
No começo, sim. As primeiras vezes fui um pouco contrariado porque eu treinava a semana toda com a equipa principal e depois ia jogar com a equipa B. Era difícil arranjar motivação. Mas, aos poucos, com muita conversa com os adjuntos também, eles davam o exemplo do Ricardo Costa que às vezes jogava na equipa B, mas no outro dia já jogava na Liga dos Campeões, foram controlando aquilo que para mim era difícil. Depois acabei por usar a meu favor os jogos na equipa B para me preparar melhor.

Bruno Moraes começou a ser chamado às seleções brasileiras com 14 anos
Bruno Moraes começou a ser chamado às seleções brasileiras com 14 anos
John Walton - EMPICS

Recorda-se do jogo de estreia pela equipa A?
O primeiro jogo não oficial foi contra uma equipa de Inglaterra, no campo do Rio Ave. Entrei e joguei alguns minutos. Logo a seguir vamos para a Corunha e aí, sim, foi um jogo mais interessante. Depois começou o campeonato e o meu primeiro jogo foi contra o Alverca, fiz uma boa primeira parte e até participei no primeiro golo. Joguei ao lado de grandes jogadores, com experiência, jogadores muito bons e isso também me ajudou bastante.

Estava nervoso antes de entrar?
Sinceramente, não. Estava com aquele friozinho na barriga. Queria muito que as coisas corressem bem, mas estava confiante e com muita vontade de mostrar o meu valor e retribuir a aposta em mim.

A primeira vez que entrou no balneário e foi confrontado com os pesos pesados do FC Porto, como foi a receção?
O balneário foi depois. E quando eu chego no parque de estacionamento, que eram só grandes máquinas? [risos]. Cheguei com o automóvel do clube e quando vejo o parque, era só grandes carrões. Aí deu logo para perceber onde estava a chegar. Depois no balneário, o Bicho [Jorge Costa] era o nosso líder principal, mas não era o único, havia uns seis ou sete líderes natos. O Mourinho conseguiu juntar grandes jogadores e líderes. Tínhamos o Deco, o Costinha, o Baía, o Maniche, e até os jogadores que não eram habituais no onze titular, como o Pedro Emanuel, Nuno Espírito Santo e depois o Sérgio Conceição, eram mentalmente muito fortes.

Tem algum episódio de balneário que possa partilhar e que o tenha marcado?
Lembro-me dos aniversários, em que havia sempre chamuças e uma cervejinha [risos]. Eles levavam comida e bebida, era muito fixe. Era uma equipa muito unida que fazia muitos almoços e jantares.

Nunca lhe fizeram nenhuma partida?
Fizeram. Havia aquela praxe aos jogadores que chegavam, de atirarem um balde cheio de água e muito gelo. Havia um jogador que vinha a conversar contigo, encaminhava-te para uma zona, onde por cima já estavam os outros com o balde. Quando o recém-chegado parava por baixo daquela varanda, eles viravam o balde [risos].

Bruno (à direita) com a mãe e o irmão
Bruno (à direita) com a mãe e o irmão
D.R.

Houve algum jogador que o tenha impressionado mais?
O Deco era um jogador diferente, todos na equipa sabiam que podiam passar-lhe a bola, que ele ia conseguir fazer algo de criativo e ia acabar por ajudar a equipa. Agora, cada um era muito importante na sua especificidade. O Vítor Baía era um porto seguro lá atrás, o Jorge Costa em toda a defesa, Ricardo Carvalho, o Nuno Valente e o Paulo Ferreira eram muito certinhos, muito corretos. O Maniche, era um box-to-box, tinha uma qualidade técnica… E o Alenichev também. Acho que todos foram importantes, o Derlei, o trabalhador, o Benni, que fazia muitos golos. Era uma equipa fantástica, o mérito todo é do presidente, do Mourinho e de toda a equipa técnica.

O que mais reteve de José Mourinho?
Acho que era uma pessoa corajosa, ambiciosa, que não teve medo de ser feliz, conseguiu tirar proveito. Foi intérprete no Barcelona, tradutor do Bobby Robson, aproveitou essa oportunidade muito bem e teve uma riqueza de conhecimento de jogo, de relações com os jogadores que acabou por transportar para o FC Porto. Mas era, acima de tudo, uma pessoa muito apaixonada pelo treino, pelo jogo.

Ao nível de treino e de jogo o que aprendeu com ele?
Notei que conforme o treino ia aumentando de intensidade, a qualidade também aumentava, o que acabava por fazer de nós melhores jogadores. Falando de futebol mais especificamente, ganhei reação à perda. Vim do Brasil, que é um futebol mais pausado, mais técnico, mas em termos de organização defensiva, naquela altura, não era tão forte. Com o Mourinho e com os quatro adjuntos que ele tinha, mais o preparador físico, que estavam sempre a puxar pelo treino, se perdêssemos a bola tínhamos de reagir rapidamente, ganhei muito em termos de contexto tático. O jogar sem bola foi o que aprendi nesse ano.

Gostou de jogar na Liga dos Campeões?
Claro. Mas joguei muito pouquinho. Fui entrando no final dos jogos. Entrei contra o Real Madrid, contra o Manchester United. Na primeira volta eu estava bem, só que depois tive uma lesão no tornozelo, não conseguia correr e fiquei fora do jogo contra o Partizan. Mas foi um primeiro ano de muita aprendizagem, de adaptação também e de crescimento. Mais adiante, em 2006/07 já joguei mais na Liga dos Campeões.

O avançado chegou assinou pelo FC Porto em 2003/04
O avançado chegou assinou pelo FC Porto em 2003/04
D.R.

A que lhe custou mais adaptar-se em Portugal?
Nos primeiros seis meses, a diferença, o clima, talvez o fato de ficar mais tempo longe do meu pai, mãe, da família.

Vivia sozinho no Porto?
A minha namorada, que hoje é a minha esposa, a Paola, veio comigo no início, mas depois ela voltou ao Brasil porque tinha de acabar os estudos, ela fez um curso de gastronomia e fiquei um período sozinho e fui-me adaptando.

Na época seguinte entrou Del Neri e acabou por ser emprestado ao V. Setúbal. Custou-lhe a aceitar?
Ainda fiz a pré-época e surgiu a possibilidade de ser emprestado para jogar mais tempo. O FC Porto contratou alguns jogadores e foi-me colocada essa hipótese. Eu queria muito jogar, não queria estar outro ano só a entrar aos poucos. E acabei por aceitar a proposta do V. Setúbal. É nessa altura que a Paola volta e vai viver comigo para Setúbal.

Em Setúbal sentiu muitas diferenças na qualidade dos jogadores?
A qualidade não era igual à do FC Porto, mas era um grupo unido e também tinha jogadores com peso na equipa, que poderiam andar noutros patamares.

Quem, por exemplo?
O Jorginho, que acabou por ir para o FC Porto, o Meyong, que foi para o SC Braga, o Sandro e outros jogadores que saíram para o estrangeiro. Era uma equipa que tinha qualidade também, que foi muito bem montada pelo mister José Couceiro, tanto é que fez uma boa época e acabou por vencer a Taça de Portugal.

“No FC Porto, num jogo de pré-época o Co Adriaanse disse que tínhamos de marcar 10 golos. Fizemos 9 e impôs castigo à mesma: correr o dobro”
ANTONIO SIMOES

O José Couceiro é muito diferente do José Mourinho?
Sim, diferentes treinadores, mas bons homens. O Mourinho se calhar absorveu uma cultura tática no Barcelona que aplicou na sua carreira; o mister Couceiro era mais um gestor de homens, um treinador que os jogadores gostavam, tinha outra forma de liderar, era unânime entre os jogadores.

Acabou por não jogar a final da Taça. Porquê?
Joguei várias eliminatórias, mas a final não joguei porque estava lesionado. Foi a minha primeira lesão.

Como fez essa lesão?
Lembro que estava um dia muito quente, na altura não se regava tanto o relvado como hoje. As chuteiras, os pitons eram um pouco diferentes, eram mais quadrados e acabei por ter um azar. Rodei o corpo e o pé ficou preso na relva, não rodou junto, fiz uma torção no joelho. Tive de sair do jogo e recebi logo a notícia de que podia ter feito uma rotura de ligamentos cruzados. Depois comprovou-se que tinha derrame no joelho e a ressonância acabou por revelar o pior, não ia poder jogar pelo menos durante seis meses.

Fez a recuperação em Setúbal ou no Porto?
Acabei por fazer a cirurgia no Porto e só regressei a Setúbal para acompanhar a equipa no dia da final da Taça.

Foi muito abaixo psicologicamente devido à lesão?
Fui. Sofri muito, mas a presença e a dedicação da minha esposa foi fundamental para manter-me calmo. Ter alguém com quem conversar e partilhar as coisas foi importante para mim.

Num treino do FCPorto
Num treino do FCPorto
ANTONIO SIMOES

Quando regressou aos treinos no FC Porto?
Comecei a treinar, era o Victor Fernandez o treinador, mas tenho um problema no treino e acabo por ter uma lesão na rótula. Saí do treino, achei que não era nada, porque não me doía muito. A minha rótula saiu do joelho e voltou, só que, quando voltou estava partida no meio, como mostrava o raio X. Tinha de fazer nova cirurgia e o tipo de recuperação levaria novamente de cinco, seis meses. Acabei de recuperar de uma lesão e mal comecei a treinar surgiu outra.

Recorreu a algum pedido de ajuda psicológica?
O FC Porto ofereceu o serviço do psicólogo que já trabalhava no clube, e ele foi-me ajudando com algumas ferramentas e orientando, o que ajudou bastante. Entretanto, a época terminou e comecei a pré-temporada seguinte com Co Adriaanse.

Com que opinião ficou dele?
É um treinador intransigente nas regras. A prioridade dele eram as regras, sem dúvida. Mas também foi para isso que ele foi contratado, porque o FC Porto teve dois, três treinadores antes o grupo estava bagunçado, estava partido, tinha havido alguns atos de indisciplina e penso que a ideia da direção e do presidente foi contratar um treinador que fosse mais rigoroso, mais linha dura e rigoroso nessa parte da disciplina. Nesse sentido, ele fez o trabalho dele. Na pré-época, acordávamos bem cedo, praticamente não tomávamos o pequeno-almoço, íamos logo de bicicleta para o bosque, corríamos muito, regressávamos de bicicleta, tomávamos então o pequeno-almoço e voltávamos para o campo para treinar.

Lisandro López e Bruno Moraes a festejar um golo pelo FC Porto
Lisandro López e Bruno Moraes a festejar um golo pelo FC Porto
Sandra Behne

Que outras regras ele implementou?
Antes do almoço gostava que o capitão perguntasse se podíamos almoçar. Também não gostava de bonés e brincos. Uma vez usei boné e ele perguntou logo: “Vai jogar de boné?”. Lembro-me bem que os jogadores não gostavam muito. Ainda na pré-época nós íamos jogar com adversários teoricamente mais fracos, dos Países Baixos, então ele dizia: “Neste jogo vocês, no mínimo, têm de marcar dez golos”. No final a equipa conseguiu marcar nove golos, ele colocou o castigo na mesma por causa de um golo e obrigou-nos a todos a correr o dobro no dia seguinte.

Pessoalmente correu-lhe bem essa pré-época?
Correu. Estava muito feliz, porque tinha completado a minha reabilitação, fiz um trabalho com o António Dias, o preparador físico do FC Porto, que até o próprio Co Adriaanse elogiou. Quando eu cheguei para treinar, o Co Adriaanse ficou surpreendido porque fisicamente parecia que eu estava melhor do que os que estavam a treinar e encarou-me mesmo como um reforço. Comecei a treinar, a jogar e acabei a pré-época a fazer bons jogos e a marcar golos. Estava muito animado e empolgado, porque me sentia bem e a expectativa de fazer uma excelente época pelo FC Porto era grande.

Entretanto, o Co Adriaanse vai embora. Porque saiu?
Sinceramente até hoje não sei. Acho que foi algum desgaste devido a essas coisas das regras, não sei bem. Sei que houve algum problema com os jogadores e a direção, em que as ideias acabaram por não estar alinhadas e o FC Porto decidiu rescindir o contrato com ele.

Depois entrou o Jesualdo Ferreira. Muito diferente?
Sim, uma outra filosofia e metodologia de treino, outras ideias. Acabou por mudar um pouco aquilo que era a cara da equipa naquele momento e seguiu por outro caminho.

Em que aspetos mudou mais a equipa?
O Jesualdo é um treinador português muito experiente, que conhece a fundo o contexto do país e do clube. Aliviou um pouco as regras e focou mais na parte estratégica e técnica, depois dos treinos. Não que tivesse muita diferença na parte de jogo, porque o Co Adriaanse também era muito bom treinador a nível de jogo. A diferença maior foi a parte do rigor, da disciplina. Ele aligeirou o ambiente.

O avançado brasileiro a salta a vedação para ir festejar com os adeptos do FC Porto
O avançado brasileiro a salta a vedação para ir festejar com os adeptos do FC Porto
ANTONIO SIMOES

E é em 2006/07 que acaba por fazer a sua melhor época no FC Porto.
Exatamente. Foi a época que mais joguei, em que, tal como tinha dito, participei mais na Liga dos Campeões, fiz golos e assistências e pude ajudar o FC Porto na conquista do título do campeonato, com um golo contra o Benfica.

Sentiu que passou a ser mais respeitado no balneário?
Sim. Quando cheguei ao FC Porto eu era um miúdo, era o mais novo e vinha de outro contexto. Claramente era o novato, o jogador que ainda tinha muito a conquistar. Nesta outra equipa eu já era um jogador mais velho, mais maduro, com a experiência de ter jogado e ter ganhado uma Taça de Portugal e de ter também passado pelas lesões. Sem dúvida um jogador mentalmente muito mais forte do que aquele Bruno acabado de chegar a Portugal. Era mais respeitado, não era a terceira opção. Eu ia lutar por jogar.

Quem eram os maiores concorrentes na equipa?
O FC Porto tinha dois excelentes avançados: Lisandro López e Hélder Postiga.

Quais eram as suas mais-valias de avançado?
Acho que era um avançado tecnicamente evoluído. A minha forma de estar no campo, o meu posicionamento, a forma como jogava simples, mas objetivo, a maneira de segurar a bola para ligar o jogo para os outros jogadores... Era um avançado que podia jogar em várias posições. E foi isso que o Jesualdo fez. Acho que ele aproveitou, acabei por entrar a jogar em várias posições e ajudei muito a equipa. Joguei a extremo, a médio, a médio-ofensivo, a ponta de lança.

Onde se sentia mais confortável?
Desde pequeno sempre fui o 9. Onde me sinto mais confortável é perto da baliza com oportunidade para marcar.

Na época 2004/05, Bruno foi emprestado ao V. Setúbal
Na época 2004/05, Bruno foi emprestado ao V. Setúbal
Barrington Coombs - EMPICS

Quem era o maior rival do FC Porto nessa altura?
O Benfica. Sempre foi. Mais que o Sporting. Os próprios portistas picam-se uns aos outros, com o Benfica, dizem logo, “temos de ganhar”. Já existe uma cultura dentro do clube de não perder, não se pode perder duas vezes, mas com o Benfica é ganhar ou ganhar.

Que mais histórias pode contar da sua passagem pelo FC Porto?
Recordo uma vez que chegamos de uma derrota com o Gil Vicente, na época do Mourinho, e havia só um adepto no hotel à nossa espera. Ele já tinha bebido muito, falou algumas besteiras contra os jogadores, o Mourinho acabou por nos defender, foi para cima dele, disse que se ele não sabia beber devia beber outra coisa. Mas o que recordo mais é que esse era um grupo muito unido. Os jogadores mais velhos faziam questão de deixar-me confortável e que não me sentisse sozinho e abandonado. Ligavam sempre para perguntar se eu queria jantar, ou ir para aqui ou acolá. Isso foi importante. Procurei fazer isso também com outros jogadores que chegavam de novo à equipa e pudessem estar mais sozinhos.

A sua mulher adaptou-se rapidamente a Portugal?
Sim. Ela também é de Santos. Não vinha do mundo do futebol, não tem nada a ver com futebol. Acabou por entrar neste planeta do futebol quando entrou na minha vida. Ela gosta de Portugal e de viver aqui, mas sente saudades de Santos. Ela gosta muito de praia de clima tropical, com um pouco menos de vento e água mais quente do que aqui [risos]. Mas sempre que podemos vamos ao Brasil.

O avançado (à esquerda) em ação pelo V. Setúbal
O avançado (à esquerda) em ação pelo V. Setúbal
Barrington Coombs - EMPICS

Na temporada 2007/08 também não jogou. Porquê?
Eu tinha feito uma época boa, estava muito feliz, mas houve um desgaste com o FC Porto, porque eu tinha contrato por objetivos e quando estava a chegar perto dos objetivos o FC Porto entendeu não me convocar em alguns jogos e houve um desgaste entre o meu representante e o FC Porto. Acabei por treinar afastado da equipa. Foi um período difícil. Depois, há uma aproximação de um outro empresário, o Nelson Almeida, que queria juntar as partes, tentar ajudar a recuperar a minha carreira e que o FC Porto também tivesse um atleta que fosse realmente um ativo do clube. Nessa altura recebi uma proposta da Lázio, estava com as malas quase prontas para sair e na última semana do campeonato, antes de um jogo da Taça, num treino recebi uma entrada mais forte e acabei por lesionar-me de novo nos ligamentos cruzados do joelho esquerdo.

Voltou a ser operado ao mesmo joelho?
Sim, mais uma cirurgia no Porto, depois fui recuperar para o Brasil e estive quase toda a época sem jogar. Quando regressei fui emprestado ao V. Setúbal, mas não estava bem do joelho. Treinava, parecia que estava começar a ficar bem e o joelho falseava. Não tinha estabilidade. Então jogava, o joelho falseava e ficava três, quatro dias sem treinar, tinha que fazer tratamento e fortalecer a perna. Voltava a jogar, jogava bem, mas de um momento para o outro fazia um movimento e o joelho parecia que saía fora.

Bruno com Paola no dia do casamento de ambos
Bruno com Paola no dia do casamento de ambos
D.R.

Sentiu a carreira em risco?
Sim. Estava no pleno das minhas capacidades psicológicas e estava na flor da idade para um jogador de futebol, mas parecia que o corpo não estava bem, era um contraste. Cheio de força, cheio de vontade, mas alguma coisa não estava a suportar o peso dos treinos e dos jogos e a carga de alta intensidade. Até que rompi o menisco e tive de fazer cirurgia. Foi muito complicado, porque o meu joelho entrou numa fase em que inchava com muita frequência, depois tinha que fazer limpeza... Foi complicado. Fiz essa coleção toda de lesões no joelho e tenho pena porque acho que se não fosse isso teria chegado muito longe na carreira.

Tinha contrato com o FC Porto e depois do V. Setúbal ainda foi emprestado ao Rio Ave, em 2009/10. Como foi essa experiência?
Gostei de trabalhar no Rio Ave, um clube de boa gente, muito organizado dentro das suas capacidades, acolheram-me super bem, trabalhei com grandes profissionais, não só na parte do campo com o mister Carlos Brito, mas também com o departamento médico, se disser alguns nomes não vou lembrar todos, vou ser injusto. Foi uma passagem rápida, foram só seis meses, mas acabei por fazer bons jogos e marquei até contra o FC Porto.

Entretanto, o contrato com o FC Porto terminou. Foi difícil conseguir outro clube?
Foi a primeira vez que, não que estivesse preocupado, mas senti que a carreira estava a tomar um rumo diferente daquilo que estava projetado no começo. Recebi algumas propostas de Portugal, mas eram propostas em que percebia que havia desconfiança, com risco mínimo. Os treinadores e os observadores tinham medo que passado algum tempo eu pudesse estar lesionado de novo. Apareceu o Portimonense, o Paços, com um salário muito baixo. Entretanto, o meu irmão estava no Glória Bistrita da Roménia, queria muito que eu fosse para lá jogar com ele. Fui lá conhecer e ouvir a proposta do clube. Eu já tinha casa em Gaia, já estava adaptado aqui e acabei por declinar a proposta. Mas o campeonato estava a começar, não sobraram muitas opções e a única que estava ainda em cima da mesa era desse clube romeno. Acabei por ir.

 

Spoiler

“Joguei com um dos filhos do Sérgio Conceição. Em qualidade, não lhe ficava nada atrás, mas não tinha a vontade e o inconformismo do pai"

Bruno Moraes conta nesta Parte II do Casa às Costas como foi o seu percurso de jogador, após deixar o FC Porto, até se tornar treinador-adjunto na II Liga nesta época 2024/25, que agora terminou. Da Roménia à Hungria, passando por Chipre e um regresso ao Brasil pelo meio, o ex-avançado chegou a jogar na distrital e só pendurou as botas aos 37 anos. A viver em Gaia, confessa que gostava de continuar o seu percurso como treinador em Portugal e explica como é importante para este cargo ter coerência, ser um bom gestor e sobretudo tornar-se bem amado pelos jogadores

Na época 2010/11 foi jogar para o Glória Bistrita, da Roménia, depois de vários anos ao serviço do FC Porto. Foi difícil mudar o rumo da carreira e da vida?
Foi duro porque eu tinha uma vida boa em Portugal e a estrutura da cidade, a estrutura do país não era igual. O que vale é que tinha lá o meu irmão que foi muito importante na adaptação. Os primeiros jogos foram intensos e havia um misto de preocupação. Por um lado queria fazer as coisas bem e evidenciar-me, mas o meu irmão também era avançado como eu e por isso existia aquela dúvida do passar a bola ou chutar.

Qual era a sua primeira tendência?
Tentei ser o mais correto possível, nada que eu não fizesse com outro jogador, se tivesse possibilidade de chutar, chutava, se ele estivesse melhor colocado, tentava passar. Ele já tinha estatuto na equipa e eu tinha o estatuto de vir do FC Porto. Tentámos unir-nos e jogar juntos, mas os primeiros jogos foram um pouco difíceis. Quando estávamos a começar a ter sucesso, a estrutura do clube acabou por não ter paciência e mudou o treinador. Chegou um treinador que só jogava com um na frente. Aí alguém tinha que ir para o banco.

Quem foi o preterido?
Houve jogos em que ele colocou o meu irmão no banco, mas o presidente não queria o meu irmão no banco, então noutros jogos ele trocava. Foi alternando. Mas fartei-me e quis regressar a Portugal. A cidade tinha poucas opções, poucos restaurantes, eu sempre gostei de comer bem… O campeonato era fraco, havia muita notícia de corrupção, era muito instável. Um país pobre. Havia sempre muitos miúdos a pedir quando saíamos dos treinos. Uma cultura diferente.

Bruno Moraes assinou pelo Glória Bistritada Roménia em 2010
Bruno Moraes assinou pelo Glória Bistritada Roménia em 2010
D.R.

Veio embora da Roménia ainda sem clube?
Sim. Desde o FC Porto que eu tinha bons contactos com a Gestifute e eles acabaram por me levar para a Naval. Quando cheguei, apanhei o Mozer como treinador e ele foi muito taxativo. Disse que eu provavelmente não jogaria. Acho que também me quis provocar. Ele já tinha dois avançados, um muito bom que jogava sempre e marcava muitos golos, o Fábio Júnior, e um francês. Fui trabalhando sempre muito e acabei por ganhar a titularidade e jogar mais no final da época. Ainda ajudei a Naval, mas não deu para evitar a descida. Consegui mostrar que estava bem e que poderia jogar noutros clubes. Logo que a época acabou apareceu a União de Leiria e nem pensei duas vezes.

Já tinha sido pai?
Quando fomos para Leiria a minha mulher estava grávida do Bruninho.

Como correu essa temporada no U. Leiria
Tínhamos grandes expectativas porque o U. Leiria tinha feito uma boa época anterior e tinha um treinador, o Pedro Caixinha, que era um treinador promissor e que comparavam até com Mourinho.

O que achou dele, tendo em conta que foi treinado por Mourinho?
Nem tivemos muito tempo. Fizemos a pré-época, estava tudo muito bem delineado e organizado. Jogámos uns três jogos, ele teve uma proposta melhor e saiu. Mas a verdade é que o clube estava muito instável, a administração e o presidente não estavam a falar a mesma língua. Essa época foi um descalabro, acabámos a época a jogar contra o Benfica com oito jogadores. Houve uma rescisão unilateral de um grupo de jogadores que já estavam há seis meses sem receber. Fiz parte desse grupo, apoiado pelo Sindicato dos Jogadores, mas não foi benéfico para ninguém porque o sindicato falhou até no compromisso de meter a carta para o fundo de garantia. Falhou na data.

O que fez nessa altura?
Por outro lado, também há pessoas muito competentes em Portugal e que são sérias e com o meu advogado pessoal conseguimos, mesmo passando o prazo, pedir o fundo de garantia salarial.

O avançado a entrar em campo, para mais um jogo pela equipa romena do Glória Bistrita
O avançado a entrar em campo, para mais um jogo pela equipa romena do Glória Bistrita
D.R.

Como foi parar à Hungria a seguir?
Após o Leiria, surgiram algumas propostas, mas não eram diretamente dos clubes, eram de intermediários que estavam sempre a querer levar muita vantagem, esperando que eu estivesse desesperado. Mas tive paciência. Fui de férias para o Brasil e acabei por ficar lá mais um mês do que era previsto, até que acabei por receber uma proposta de uma equipa da Hungria, diretamente do presidente do clube. Tratei diretamente com ele e fui.

A adaptação ao Újpest FC e à Hungria propriamente dita foi fácil?
Não fiz muitos jogos. Tive um outro acidente de trabalho. Infelizmente, no quarto jogo, subo para cabecear uma bola, o adversário vem contra mim, acabo por cair mal amparado e parti o braço. Nova cirurgia, mais três meses de recuperação, depois voltei a jogar, mas acabei por pedir para vir embora também. É um país muito frio.

Alguma história para contar de lá?
O único stress na Hungria era com os taxistas. O clube não dava carro, mas um cartão para podermos utilizar táxis. Só que os taxistas eram um pouco mal-educados, queriam despachar-se e quando fui para lá, já tinha o Bruninho e precisava usar o carrinho de bebé, mas eles não tinham muita paciência. Alguns, não todos. Era um pouco desconfortável às vezes.

Bruno e a mulher grávida do primeiro filho de ambos
Bruno e a mulher grávida do primeiro filho de ambos
D.R.

Pela primeira vez esteve num clube onde não havia jogadores brasileiros ou portugueses. Foi estranho?
Sim. O único jogador que falava uma língua parecida era um espanhol, o Antón, e naturalmente ficámos mais próximos, porque sentíamos essa necessidade de conversar.

Não continuou na Hungria porquê?
Quando fiz a cirurgia ao braço foi às pressas, teve que ser logo depois do jogo e foi num hospital húngaro. Não tive controlo desta situação. Quando voltei a treinar e fazia movimentos com o braço, sentia ainda muita dor e que não estava a 100%. Esperei mais um tempo, mas foi constatado que eu precisava fazer outra cirurgia. Entretanto, falei com o médico aqui de Portugal e o clube tinha uma opção, que era operar na Bélgica pelo seguro. Eu não conhecia ninguém na Bélgica, não conhecia o sistema de saúde de lá, já tinha algum desgaste emocional e preferi fazer um acordo com o clube e voltar para Portugal. O presidente foi super tranquilo, entendeu o meu lado e acabei por voltar para cá. Fiz a cirurgia aqui e perdi alguns meses na época.

Mesmo assim recebeu um convite do Gil Vicente, certo?
Sim. Tinha o interesse do Tondela também e de outros clubes, mas acabei por assinar pelo Gil porque recebi uma chamada do diretor do Gil, o Aloísio, que trabalhou no FC Porto, foi central do Barcelona. Já tinha trabalhado com ele no FC Porto, naquela época do Mourinho, porque ele era um dos adjuntos. O treinador do Gil era o João de Deus, com quem tinha trabalhado em Setúbal e sempre ouvi falar muito bem do Gil Vicente. Vi ali uma boa oportunidade de jogar e ajudar o clube também.

Mas voltou a ter um azar.
Sim. Perto do final da 1.ª volta, num treino, houve um rapaz que caiu em cima do meu joelho direito e acabei por me lesionar de novo. Ligamentos cruzados também. Mais uma cirurgia. No final da época acabou o contrato e cada um seguiu o seu caminho. Treinei um mês com a equipa do Sindicato dos Jogadores, fiz alguns amigáveis e surgiu a situação da Portuguesa, no Brasil e voltei ao meu país.

Após um passagem pela Nala e o U. Leiria, Bruno jogou no Újpest FC, da Hungria
Após um passagem pela Nala e o U. Leiria, Bruno jogou no Újpest FC, da Hungria
D.R.

Como foi regressar ao Brasil para jogar, dez anos depois de ter saído?
Foi uma decisão de quem já sabia que não estava tão bem do joelho, mas queria ter oportunidade de jogar, embora já numa fase muito complicada da carreira. A Portuguesa também vivia um momento difícil, muita confusão no clube, muita troca de treinadores, muita instabilidade, sem direção, sem rosto, muita bagunça. Fiquei dececionado porque tinha cinquenta jogadores para treinar na mesma equipa. Tinha duas equipas a treinar, 11 contra 11 e depois mais 11 de fora. Tentei cumprir o contrato até o final do campeonato, mas foram poucos jogos.

Ficou a viver com a família em São Paulo?
Não. Fui sozinho para São Paulo, eles ficaram em Portugal. Mas principalmente depois de termos um filho, a saudade duplica, é mais difícil. Nessa altura a minha esposa estava grávida da nossa filha Maria Eduarda, a Duda. Ela nasceu no Hospital da Lapa no dia 16 de junho de 2014, aqui no Porto.

Naquela altura já pensava no que queria fazer após deixar os relvados?
Quando estava no Gil Vicente e tive aquela lesão no joelho, fiz só sete jogos, mas aproveitei o tempo em que estive lesionado para fazer o curso de treinador, em Braga.

Já sabia que queria ser treinador?
Não tinha a certeza. Mas o facto de o ter feito ajudou depois a decidir que era uma opção válida para o futuro.

Os pais de Bruno Moraes
Os pais de Bruno Moraes
D.R.

Depois do Brasil, ainda jogou no Varzim. Foi a sua estreia na II Liga portuguesa. Sentiu muita diferença para a I Liga?
É diferente, com jogos à quarta-feira. Foi um bom teste para o meu joelho, porque foram muitos jogos com equipas mais novas e uma exigência física bastante importante. É um campeonato com outra qualidade técnica, tática, psicológica, mas é competitivo. Tem muita exigência, é um campeonato bem nacional, bem português, em que apanhas um pouco de cada região. E isso torna-o atraente do ponto de vista da competição.

Ainda se deixou tentar pela II Divisão de Chipre. Como foi a experiência no ENP em 2016/17?
Os números no Varzim na II Liga, apesar de não ter feito muitos golos, deram um pouco de credibilidade, no sentido de que fisicamente estava apto para jogar numa II Liga. Apareceu essa situação de Chipre. Eu já tinha ouvido falar do país, já tinha tido convite de uma equipa grande, noutra altura da minha carreira. Naquele momento era uma possibilidade de conhecer um país com um clima bom e boas praias. Além de que o projeto do clube era subir da II para a I Divisão e contavam comigo para isso. Acabei por aceitar o convite.

Gostou de lá viver e jogar?
Não trocaria nem o Brasil, nem Portugal para viver em Chipre. Mas para passar um período como passei de oito, nove meses, foi espetacular. A família também foi e tivemos muitos bons momentos. Quanto ao futebol, achei a II Divisão muito fraca. Em termos de campeonato, organização, estádios, bem abaixo da Liga 3 portuguesa. Muito parecido com o distrital daqui.

A determinada altura, Chipre ficou conhecido como um país onde havia muitas apostas no futebol, muitas histórias de armas e dinheiro em cima da mesa. Assistiu a alguma coisa dessas?
Não. Pelo menos não me apercebi de nada. O clube cumpriu a parte deles comigo, não tenho do que me queixar.

Em 2013/2014, Bruno jogu pelo Gil Vicente
Em 2013/2014, Bruno jogu pelo Gil Vicente
D.R.

Até ao final da carreira de jogador passou por mais três clubes, sempre nos escalões mais baixos do futebol português. Primeiro no SC Espinho, a seguir duas épocas no Trofense e uma no Sport Canidelo. Essa vontade de prolongar a carreira até aos 37 anos, depois de ter sofrido tantas lesões, deveu-se apenas à vontade de continuar a jogar ou a alguma necessidade financeira?
Quando saí de Chipre estava a ponderar parar de jogar. Mas entretanto apareceu um convite para ir para o Espinho, eu vivo no Canidelo e Espinho é perto de Gaia, ainda achei que dava para fazer mais uma época. Quando cheguei ao Espinho, não tinha condições nenhumas de estrutura, de estádio, balneário, treino, mas sempre ouvi que o Espinho tinha uma camisola com história, que é um clube mítico, com adeptos muito fervorosos e fui treinar lá, sem compromisso, para manter a forma. Depois o Espinho acabou por fazer uma proposta para jogar, gostei do grupo, do treinador, do presidente, e acabei por ficar.

Foi no SC Espinho que jogou com o filho de Sérgio Conceição. Muito diferente do pai?
Isso era uma prova de como eu já estava a começar a ficar velho para o futebol [risos]. O Sérgio Júnior tem qualidade, não coloco em causa se é mais ou menos do que o pai, mas a diferença entre os dois é a "fome", o temperamento. A vontade que o Sérgio pai tinha, o inconformismo, o querer sempre mais e mais, o Sérgio Júnior não tinha tanto. Com certeza foram criações diferentes e o filho acabou por usufruir de um conforto diferente do Sérgio pai e isso também teve influência na personalidade, na forma deles serem. Mas em termos de qualidade, o Sérgio filho não ficava nada atrás do pai.

E o Trofense, porque aceitou ir para o Campeonato de Portugal?
Passava pela minha cabeça jogar uma época pelo Espinho, e depois, se calhar, ficar como treinador, ou treinar a formação. Estava com essa perspetiva. Só que a época no Espinho correu tão bem, principalmente do meio para o final, comecei a fazer golos, os adeptos começaram a acreditar, a equipa começou a crescer e no final da época, apesar de não termos conseguido subir de divisão, ficou uma boa imagem. O Trofense estava atento e convidou-me. As condições do clube, financeiras também, eram muito melhores do que as do Espinho. Não tinha como rejeitar essa proposta.

O avançado regressou ao Brasil para jogar pela Portuguesa em 2014
O avançado regressou ao Brasil para jogar pela Portuguesa em 2014
D.R.

A seguir vai para o Sport Canidelo onde termina a carreira de jogador e começa a de treinador. Como foi esse processo?
No Trofense, a primeira época foi muito boa, foi a minha melhor época em termos de números, em Portugal. Mas a segunda época não começou tão bem, entretanto recebi um convite para treinar a formação do Canidelo, que é perto da minha casa. Treinava no Trofense de manhã e à tarde dava treino no Canidelo. Aí começou essa história de eu treinar também. Já tinha o curso, comecei a treinar os infantis do Canidelo, e estava a preparar o pós-carreira. No meio disso teve a pandemia e na época 2021/22 o Canidelo convidou-me para jogar e ser treinador dos sub-13. Mais tarde até pude treinar meu filho também, nos sub-13.

Como é treinar um filho? Complicado?
Achei que ia ser mais complicado, mas conversávamos muito e tivemos muita paciência um com o outro. Quando ele estava nos sub-12 ele tinha um treinador que treinava o filho e era um exemplo um pouco negativo, porque os dois estavam sempre muito stressados; sempre alertei o Bruninho para isso, para ele saber o lugar dele e eu saber o meu. Ele também foi bom atleta, bom jogador, nunca deu problema.

Como e quando acabou por se tornar treinador-adjunto da UD Oliveirense?
A Oliveirense começou com um treinador, não deu certo, mudaram de treinador duas vezes, e depois o António Campos é convidado para treinar e ele não tinha equipa técnica. A equipa técnica foi formada por alguns elementos que já estavam no clube, mas estavam a precisar de um adjunto e como eu como já tinha o UEFA B fui contactado em janeiro deste ano.

O que acha do cargo de treinador-adjunto de uma equipa profissional?
Vivi muito tempo nesse contexto, como jogador, por isso algumas coisas são mais familiares até do que a formação. Tenho adquirido conhecimento, tenho procurado estudar. Nesse momento, estou a fazer um curso de scout e análise no Futebol Clube do Porto. Tenho tentado crescer muito na parte teórica. É o complemento que preciso para poder ser um grande treinador no futuro.

Em 2016/17, Bruno vestiu a camisola do ENP, em Chipre
Em 2016/17, Bruno vestiu a camisola do ENP, em Chipre
D.R.

Qual é o seu maior objetivo enquanto treinador?
O que quero mesmo é ser treinador principal. Mas esta experiência foi boa, gosto de ajudar, sempre fui muito prestativo. Tentei ajudar o treinador em tudo aquilo que ele precisava. Estou a fazer tudo o que gostaria que fizessem para mim. O António tem uma forma de trabalhar muito direta, muito simples, não é uma pessoa vaidosa, dá abertura para falarmos, se ele acha que é bom para a equipa, ele aceita. Estou a gostar muito de trabalhar com ele.

De todos os treinadores que teve, o que reteve de mais importante de cada um deles?
Por exemplo, o Mourinho antecipava cenários, ele estava preparado bem para várias situações. Acho que estudava muito bem o que poderia ou não acontecer no jogo e tinha um conhecimento profundo dos jogadores. Do Jorge Costa recordo a coragem. Houve um jogo em que eu estava no Rio Ave e ele era o treinador do Olhanense e a primeira parte estava praticamente perdida para ele, estávamos a ganhar 1-0. No último lance dessa parte, ele mandou os centrais para a área, empurrou a equipa toda para frente e acabou por marcar o golo do empate. No intervalo, não sei o que ele fez, mas o Olhanense acabou por nos ganhar 6-1. A coragem de arriscar e assumir é uma das coisas que fazem a diferença também.

Atualmente, há algum treinador que seja um modelo para si?
Sou fã do futebol apoiado. Mas acho que a riqueza do jogo também está na variabilidade. Cada treinador tem uma identidade, a equipa também vai criando uma identidade muito própria. Não existem duas equipes iguais. Existe, sim, o treinador olhar para a equipa e dessa "laranja" fazer o melhor sumo, no sentido de que cada um interpreta o seu papel no campo, mas tem a liberdade para criar, tem a responsabilidade de saber defender, de jogar em equipa. Isso tudo é uma coisa que se vai construindo. O treinador dá as direções, mas acho que é muito do grupo, da confiança. Gosto muito do Guardiola, mas também gosto de treinadores que são líderes; gosto muito do Mourinho e do Ancelotti. Dos mais novos, gosto muito da comunicação e da liderança do Ruben Amorim. O Sérgio Conceição fez um grande trabalho também.

Bruno (à direita) vestiu as cores do SC Espinho na temporada 201718
Bruno (à direita) vestiu as cores do SC Espinho na temporada 201718
D.R.

Um balneário tem força para despedir um treinador?
Sem dúvida. Os jogadores é que decidem se correm ou não pelo treinador. E não é só o correr. Nos momentos mais importantes, se vão colocar o pé, se vão tirar a cabeça, se vão dar algo mais. Cada vez mais acredito que um treinador tem que ser especialista na gestão de grupo, porque se não tiver equipa com ele, se não for bem amado… O ser bem amado pelos jogadores tem muito a ver com a coerência. Os jogadores são muito atentos e reparam muito. Um tratamento com os colegas serve de exemplo para eles. É muito a gestão emocional. E também o conhecimento de jogo, claro.

É em Portugal que quer continuar a fazer carreira e a viver?
Gostava. Estamos muito bem aqui em Portugal. Os nossos filhos estão a crescer aqui e são felizes. Temos muita saudade do Brasil, os nossos familiares estão lá, tentamos colmatar um pouquinho dessa saudade, indo às vezes para o Brasil ou vindo alguns deles cá, mas os nossos filhos querem continuar a viver cá. Já têm os amigos da escola, do futebol... Mas o importante é estarmos os quatro juntos, seja aqui ou no Brasil.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira?
No FC Porto.

Investiu?
Sim, em imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Comprei um Mercedes e gastei muito dinheiro numa loja com roupas.

Tem algum hobby?
Presentemente gosto de jogar padel.

É um homem de fé? Acredita em Deus?
Sem dúvida. Gostaria de ser um pouco mais praticante, mas acho que sou um pouco equilibrado demais. Às vezes não sou tão religioso, sou mais pé no chão.

Superstições?
Agora não tenho nenhuma e quando jogava tinha poucas.

O avançado coma mulher e os dois filhos
O avançado coma mulher e os dois filhos
D.R.

Qual foi a primeira tatuagem que fez e quantos anos tinha?
[Risos] É engraçado, fiz um dragão no braço, mas não tinha nada a ver com o FC Porto. Foi uma coisa da rebeldia, da irreverência da adolescência. Tinha um amigo com quem andava sempre, houve um momento em que andávamos a descobrir a noite essas coisas e um dia resolvi fazer uma tatuagem e por acaso quando chegou a altura de escolher, escolhi aquela imagem de um dragão [risos]. É a única que tenho.

Acompanha ou pratica outras modalidades?
Neste momento não, já tenho os meus filhos para acompanhar. O meu filho vai para o Boavista e a Maria Eduarda também joga futebol, no Canidelo. Foi campeã do sub-11 agora.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Nunca ter ganhado um campeonato em campo, jogando. Talvez isso me sirva de combustível para ganhar um título com alguma equipa, como treinador.

E o maior arrependimento?
Não tenho.

O momento mais feliz na carreira?
A semana em que fiz um golo contra o Benfica e um golo na Champions.

O objetivo que está por cumprir?
Ser campeão estando no campo, tendo influência no jogo.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Juventus. E no Santos, mas com outro protagonismo. Também gostaria muito de ter jogado no Real Madrid ou no Barcelona.

Tem ou teve alguma alcunha?
Tenho uma alcunha de infância que foram os meus irmãos que me colocaram, por causa do meu pé ser muito grande para a idade. Havia uma banda desenhada, os Battletoads, que eram uns sapos que tinham os pés grandes e eles chamavam-me de Battletoad.

Na época 2024/25, Bruno Moraes (à direita) foi treinador-adjunto de António Campos (à esquerda)na UD Oliveirense, na II Liga
Na época 2024/25, Bruno Moraes (à direita) foi treinador-adjunto de António Campos (à esquerda)na UD Oliveirense, na II Liga
D.R.

Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Há duas regras que não gosto. Uma é o cartão amarelo por simulação, em que o árbitro não entende que o jogador pode mesmo se desequilibrar e não é por mal, é porque vai em velocidade e o adversário está a tentar derrubá-lo. E também acho que a regra da bola na mão está fora do controlo agora. Não conseguem ter critério para isso. Antes, se o jogador esticava o braço e punha a mão na bola com intenção, era penalti, era falta, hoje já não conseguem distinguir o que é, e o que não é. Outra regra que também não gosto é quando o jogador tem a bola controlada, abre os braços para proteger a bola do adversário e o adversário simula que foi uma cotovelada, cai no chão e estraga o jogo.

Como resolveria essas situações?
Quanto à primeira, uma coisa é o jogador que está constantemente a atirar-se para o chão, como o Neymar, Liedson, jogadores que fazem isso muitas vezes e irrita. No mesmo jogo, depois do segundo, terceiro lance a cair daquela maneira, dava um cartão amarelo. Outra coisa é o jogador que vai em velocidade para tentar marcar golo, desequilibra-se, cai e o árbitro dá amarelo por simulação.

E em relação à mão na bola ou a bola na mão?
É voltar ao critério antigo. Ninguém joga sem braços, os braços são fundamentais para se equilibrar. Um jogador, quando tenta colocar a mão para defender mesmo, diante da baliza, um bom árbitro consegue perceber se é intencional ou não. Agora, quando o jogador faz um movimento e a bola bate na mão dele, como o penalti contra o FC Porto no jogo com o Boavista, em que o jogador estava com a mão levantada a reclamar de outra coisa, a bola bateu na mão dele e foi penalti. Isso é ridículo. Para mim não faz sentido nenhum essa regra.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
O Pepe e o Bruno Alves.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Quando era pequeno gostava muito de animais e estava a pensar em ser veterinário. Mas foi só pensei nisso um dia, no outro dia já estava a jogar futebol [risos].

Tem algum talento escondido?
Gosto de tocar instrumentos de percussão, mais voltado para o samba, como o pandeiro. Tem a ver com a infância no Brasil, os lugares que frequentava.

 

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Pêpê Rodrigues

Spoiler

“Fiquei com a mágoa do Rui Vitória não me ter dado oportunidade de mostrar o meu valor num jogo pela equipa principal do Benfica”

Pêpê Rodrigues foi descoberto pelo Benfica aos 11 anos e com essa idade veio de uma aldeia de Sátão, onde não havia autocarros ou comboios, para Lisboa. A timidez demorou-lhe a adaptação, mas acabou por vingar nas camadas jovens do clube da Luz. Saiu emprestado para o Estoril Praia, com 20 anos e um sabor amargo na boca por nunca ter jogado pela equipa principal dos encarnados. Foi em Guimarães que encontrou a mulher com quem casou e deixou o Vitória entrar-lhe no coração, mas acabou por sair para a Grécia pouco antes de ser pai pela primeira vez

É natural de Sátão, do distrito de Viseu. O que faziam os seus pais profissionalmente quando nasceu?
A minha mãe era costureira, depois começou a trabalhar como cozinheira na escola lá da aldeia. E o meu pai trabalhou na resina, por conta própria, e depois passou a ser distribuidor de pão.

Tem irmãos?
Tenho quatro irmãos e uma irmã, todos mais velhos.

Deu muitas dores de cabeça aos seus pais em pequeno, ou foi uma criança tranquila?
Dei logo problemas quando nasci porque tive um problema no rim [risos]. O rim esquerdo não funcionava a 100% e passado um mês de ter saído da maternidade tive de voltar ao hospital para fazer exames e fui operado. Pelo que a minha mãe me contou, a médica disse-lhe que não tinha a certeza do que poderia acontecer e que o melhor que ela podia fazer era rezar. Do hospital de Viseu à casa dos meus pais ainda eram 30 minutos de distância e os meus pais na altura não tinham carro, só uma moto. A minha mãe ficava comigo e o meu pai e os meus irmãos tentavam revezar-se a ir lá ter de moto para me visitar.

Quanto tempo esteve internado?
Mais ou menos um mês. Por incrível que pareça, quando as coisas começaram a correr melhor foi quando o meu padrinho me foi visitar e sem querer tirou o cateter por onde eu fazia xixi, da barriga. Foi nessa altura que os médicos viram que o tubo tinha muita porcaria e a partir daí as coisas começaram a correr melhor. Uma semana depois saí do hospital.

Em criança, o que queria ser quando fosse grande?
Os meus irmãos sempre jogaram futebol e, principalmente ao domingo, eu ia com os meus pais ver os meus irmãos jogar à bola e no intervalo eu ia para o campo jogar. Depois da escola jogava na rua com os meus irmãos, vizinhos, às vezes o meu pai também se juntava, quando tinha tempo. Os meus pais, para além do trabalho deles, cultivavam muita coisa e tinham porcos, vitelos, galinhas, por isso quando chegavam a casa tinham esse trabalho também.

Pêpê Rodrigues em criança
Pêpê Rodrigues em criança
D.R.

Em pequeno torcia porque clube e quem eram os seus ídolos?
A maioria da minha família é benfiquista. O meu ídolo sempre foi o Rui Costa. Se calhar por influência dos meus irmãos, que uma altura ofereceram-me uma camisola do Benfica, do Rui Costa.

Gostava da escola?
Gostar nunca gostei, mas enquanto estive na casa dos meus pais, sempre tive boas notas. No primeiro ano em que estive em Lisboa, fiquei em casa de uns primos e também não tive problemas. Quando fui para o centro de estágio do Benfica, os primeiros anos passei tranquilo, mas já não com as mesmas notas que tinha antes e com o avançar dos anos o futebol começou a correr bem, comecei a priorizar mais o futebol do que a escola. Só fiz até ao 9.º ano.

Como surgiu o futebol num clube pela primeira vez?
Eu jogava na escola e na rua, como todas as crianças e uma vez surgiu uma captação do Benfica, em Viseu. O presidente do clube da minha terra, o Ferreira de Aves, falou com os meus irmãos que jogavam lá e perguntou-lhes porque não me levavam às captações. Eu já tinha jogado no Ferreira de Aves uns dois anos antes, mas o meu escalão acabou por falta de miúdos e deixei de jogar. Os meus irmãos levaram-me às captações, correu-me bem e fui selecionado para ir a Lisboa fazer outra captação. Em Lisboa, chamaram os meus pais e perguntaram onde é que eu jogava. Os meus pais disseram que eu só jogava na escola e na rua e o Benfica disse que era importante eu jogar num clube para eles poderem continuar a observar-me.

Que idade tinha nessa altura?
Uns oito, nove anos. Eles perguntaram se eu podia jogar no Académico de Viseu. Para os meus pais era muito difícil levar-me aos treinos porque Viseu ainda ficava longe da minha aldeia. Sou natural de Lamas, uma aldeia na freguesia de Ferreira de Aves, no Concelho de Sátão. A minha mãe, por sorte, conseguiu que uma professora da minha escola, que vivia em Viseu, me levasse aos treinos quando regressava a casa depois das aulas. Assim já dava tempo para os meus pais saírem do trabalho, irem a casa tratar da horta e dos animais e depois irem buscar-me a Viseu.

Pêpê (1º atrás à esquerda) com a sua equipa do Académico de Viseu, para onde foi jogar com 9 anos
Pêpê (1º atrás à esquerda) com a sua equipa do Académico de Viseu, para onde foi jogar com 9 anos
D.R.

Quanto tempo ficou no Académico de Viseu?
Um ano. Entretanto, quase no final do ano, o Benfica quis que eu fosse para o Centro de Formação e Treino (CFT) do Benfica, que abriu em Viseu. Era uma maneira de controlarem mais de perto a minha progressão, porque a metodologia de treino do CFT ia ser igual à que havia em Lisboa. Fui para o CFT de Viseu e a meio do ano houve um torneio, penso que na Itália, em que dizem para eu fazer esse torneio pela equipa de Lisboa.

Correu-lhe bem esse torneio na Itália?
Já não tenho muitas memórias. Sei que não fiz nada de extraordinário, joguei alguns minutos em todos os jogos. Na altura eu era muito tímido, custava-me muito adaptar a novos ambientes. Sei que não fui extraordinário nos jogos, mas também não fiz asneira. No final do ano, houve outro torneio em Espanha, onde também fui, mas antes disso já tinham falado com os meus pais, para dizer que gostavam que eu fosse para Lisboa.

Como reagiram os seus pais, sabe?
Pelo que me contaram, no início estavam receosos por eu sair de perto deles com 11 anos. Mas os meus irmãos, como jogavam à bola e eram benfiquistas, disseram-lhes que entendiam os receios deles, mas, por outro lado, se não me deixassem ir, mais tarde eu podia cobrar-lhes ou ficar chateado por não me deixarem seguir o sonho, porque a oportunidade podia não voltar a surgir. Os meus pais entenderam que era o melhor a fazer, porque era o meu sonho e deixaram-me ir.

Foi viver para o centro de estágio do Benfica?
Não. Os meus pais achavam que podia ser uma mudança e um choque muito grande para mim e o próprio Benfica perguntou se não tínhamos nenhum familiar ou amigos em Lisboa onde eu pudesse ficar. Eles lembraram-se de uns primos que viviam em Moscavide, perguntaram-lhes se não se importavam de ficar comigo um ano. No primeiro ano que estive em Lisboa treinávamos no Colégio Militar, até por isso não fazia sentido eu ir para o centro de estágio, quando podia ficar em casa de familiares. Os meus primos aceitaram e estou-lhes eternamente grato.

O médio em pose, com o equipamento do Académico de Viseu
O médio em pose, com o equipamento do Académico de Viseu
D.R.

De qualquer forma, deve ter sido duro de repente ficar longe dos pais e irmãos. O que mais recorda desse primeiro ano?
Foi um choque muito grande, sim. Na minha aldeia, conhecia toda a gente e podia ir para todo o lado a pé. Não havia autocarros, metro ou comboios e foi um choque porque com 11 anos tinha de apanhar o comboio e depois o metro para ir para o treino. Lembro-me que um dos meus irmãos tirou férias, veio para Lisboa e esteve uma ou duas semanas comigo para me orientar, para ir comigo aos treinos e explicar-me como tinha de fazer. Cheguei a deixar passar a estação mais do que uma vez [risos]. Mas não me perdia. E, claro, no início senti muitas saudades de casa. Às vezes chorava no caminho para o treino, com saudades dos meus pais, dos meus irmãos, dos amigos. Por ser tímido tinha dificuldade em fazer amizades e isso ainda complicou mais a adaptação. Às vezes pensava: “Porque estou aqui? É melhor ir para casa, lá tenho a minha família e amigos, vivo mais tranquilo.” Mas acho que nunca verbalizei esses pensamentos porque, no fundo, o que eu queria era jogar futebol e estava feliz por estar no Benfica. Sofri, mas com a ajuda dos meus primos, dos meus pais e dos meus irmãos, que foram incansáveis porque tentavam sempre revezar-se para me ir ver aos fins de semana, consegui ultrapassar essas barreiras e graças a Deus correu tudo bem.

Quando se mudou para o centro de estágio do Benfica?
No ano seguinte, o de iniciado, a equipa ia começar a treinar no Seixal. Os meus pais disseram ao Benfica que para eu continuar lá tinha de ir para o centro de estágio, já não dava mais para ficar na casa dos meus primos. Para mim foi o melhor, porque os que estamos ali dentro temos todos as mesmas dores, partilhamos emoções, histórias e como estamos todos juntos ajuda a passar o tempo. Mesmo quando vamos para a escola, vamos em grupo, temos sempre miúdos conhecidos na turma; criamos uma amizade muito forte no centro de estágio e isso às vezes ajuda a esquecer certos problemas.

Com quem partilhou quarto?
O primeiro ano foi com o Luís Borges, que vinha do SC Braga. Depois cheguei a partilhar quarto com o Aurélio Buta, mas com quem estive mais tempo foi com o João Carvalho.

Pêpê Rodrigues fez toda a formação no Benfica, onde entrou ainda com 11 anos
Pêpê Rodrigues fez toda a formação no Benfica, onde entrou ainda com 11 anos
D.R.

Fez toda a formação no Benfica. Até chegar a júnior, quais são as maiores recordações que tem?
Ter ganhado o título de iniciados. É sempre importante porque é um título e foi o primeiro título nacional para a nossa geração. Recordo-me também que, principalmente às quartas-feiras, havia uma promoção da Telepizza só que não era permitido pedir comida para o centro de estágio; então pedíamos para entregarem a pizza na parte de trás do centro de estágio [risos]. Tínhamos de passar pelos campos de treino todos, só que, como era de noite, às vezes os seguranças viam [risos].

Qual era o castigo?
Levávamos um raspanete. No dia seguinte a nossa encarregada de educação chamava-nos ao gabinete para dizer que não podíamos fazer aquilo, outras vezes ligavam aos pais. Mas não havia nenhum castigo maior, porque, no fundo, sabiam que não era uma coisa grave.

Quais foram os primeiros craques do Benfica que viu ao vivo?
Lembro-me do Aimar, do David Luiz, do Saviola, do Di María… Dos nossos quartos conseguíamos ver o campo de treino deles, só que, não sei se era a regra do clube ou regra do Jesus, quando eles treinavam não podíamos ir para as varandas ver o treino. Muitas vezes não íamos para a varanda, mas abríamos um bocadinho a cortina para espreitar e ver um bocado do treino [risos]. Ficávamos maravilhados ao passar por eles quando íamos para a escola e eles estavam a chegar ao treino. Às vezes íamos para o refeitório, eles estavam a sair do treino e cruzávamos-nos nos corredores e para nós, miúdos de 11/12 anos, era um sentimento espetacular cruzar com os nossos ídolos. Foi bom até para perceber qual é o sentimento agora que uma criança tem quando me pede a camisola ou um autógrafo.

Na adolescência qual era a sua maior ambição, o grande sonho?
Sempre tentei usufruir do momento. Mas tinha um sonho, claro. O sonho sempre foi chegar à equipa do Benfica. Mas na minha altura não havia tantos jogadores a entrar nas equipas principais como há agora. Talvez por isso também eu não olhasse mais além. Eu tentava desfrutar do momento, de jogar, porque sempre quis ser importante. Acho que o consegui ser muitas vezes, porque joguei quase sempre a titular. Esse era o meu principal objetivo, eu queria jogar, jogar, jogar, jogar.

Pêpê foi chamado para representar a seleção desde os Sub15 aos Sub21
Pêpê foi chamado para representar a seleção desde os Sub15 aos Sub21
Martin Rickett

Quando começaram as primeiras saídas à noite e os primeiros namoros?
Nunca fui de sair à noite. Penso que nunca saí à noite em Lisboa. Sempre fui focado no treino e no futebol. Saía à noite quando ia à casa ou nas férias. Com os meus irmãos. Tentava usufruir da campanha deles e dos meus amigos. Embora, sair à noite era ir a um barzinho que temos na aldeia, onde toda a gente se junta e ficar até mais tarde a conversar.

Até chegar à equipa B, qual foi o treinador que mais o marcou?
Gostei muito de trabalhar com o Luís Nascimento. Era muito bom treinador e boa pessoa. Outra pessoa que me fez crescer muito foi o Luís Araújo. Na altura eu era iniciado de primeiro ano e ele puxou-me para cima para jogar o campeonato nacional nos iniciados do segundo ano. Saltar de escalão foi especial para mim.

Quando começou a jogar na equipa B, acreditava que ser possível chegar à equipa principal?
Na equipa B, sim. Mas houve um momento antes, nos juniores, em que duvidei. Quando subi de juvenil a júnior, faço as primeiras semanas de pré-época e duas semanas antes de começar o campeonato, o diretor e o treinador, o João Tralhão, vieram falar comigo: "Tu aqui não vais ter muito espaço, este ano temos outros jogadores em que o mister acredita mais e que vão jogar. Para não estares aqui parado, queremos que vás para o Casa Pia emprestado, para teres minutos de jogo e nós arranjamos uma carrinha daqui para vos levar para o treino e para os jogos." Eles tinham falado com outros colegas também. Aí foi a primeira vez que comecei a duvidar.

Aceitou bem a decisão?
Não. Cheguei a falar com o meu irmão, que na altura jogava no Campeonato Nacional de Séniores, no sentido de ir para lá, jogar com ele e tentar fazer o meu caminho, por outro lado. Mas o meu empresário, Pini Zahvi, não achou que fosse o melhor e os meus pais foram a Lisboa para assinar o contrato.

Em 2017/18, o médio foi emprestado ao Estoril Praia
Em 2017/18, o médio foi emprestado ao Estoril Praia
D.R.

Assinou o primeiro contrato com quantos anos?
Com 16 anos.

Recorda-se quanto recebia?
À volta de €800 líquidos/mês.

O que fez com o primeiro ordenado?
A minha mãe tentou sempre que eu poupasse. Ela metia €500 numa conta poupança e o resto ficava para mim, para eu gastar no que precisasse.

Falava sobre a dispensa nos juniores do Benfica. Chegou a ir para o Casa Pia?
Fui a um treino ao Casa Pia. O Benfica ia jogar uma semana depois o primeiro jogo do campeonato e chegaram castigos para dois jogadores, um médio centro e um extremo, que tinham ficado no Benfica. Eles não podiam jogar as primeiras quatro jornadas e vieram ter comigo. Disseram que por causa dessa situação não iam avançar já com o meu empréstimo ao Casa Pia, porque eu ia jogar as primeiras quatro jornadas no Benfica. Fui lá treinar a semana que faltava para o jogo, mas pensava: "Venho cumprir porque precisam de jogadores." Nem pensei sequer em jogar. Não só joguei a titular como o jogo correu-me super bem e o mister veio falar comigo: "Pêpê, sabes quando é que vais para o Casa Pia?"; "Quando?"; "Nunca. Vais ficar aqui connosco a época toda." Acabei por ficar, e fiz uma boa época, joguei quase sempre. Isto mostra como os pequenos detalhes e o fator sorte podem mudar tudo no futebol.

Foi para a equipa B do Benfica no seu segundo ano de júnior, era Hélder Cristóvão o treinador. Como correu?
No primeiro ano não joguei muito. Fiz alguns jogos a titular, noutros ia entrando, mas não joguei muito. Era futebol profissional, não sabia o que ia acontecer, mas pensava, não estou a jogar, mas estou uma etapa à frente de muitos dos meus colegas da minha idade. Os treinos tinham outra densidade, outra qualidade, mais dificuldades. No ano seguinte, aí sim, joguei praticamente todos os jogos e comecei a pensar que estava perto de conseguir chegar à equipa A do Benfica.

Em 2018/19, o médio (à esquerda) foi emprestado ao V. Guimarães
Em 2018/19, o médio (à esquerda) foi emprestado ao V. Guimarães
SOPA Images

Recorda-se da primeira vez que foi chamado para treinar com a equipa principal?
Vagamente. Era júnior ainda. Foi com o Jorge Jesus. Ele tinha muito o hábito de, depois do jogo deles, fazer um treino de posse de bola e jogo com os jogadores que não tinham jogado. E para fazer o 11 para 11 ele chamava muitas vezes jovens da equipa B e dos juniores. Não me recordo da primeira vez, mas fomos dois ou três. Eles traziam a roupa e equipávamos no nosso balneário; ficávamos à espera que um dos adjuntos ou até mesmo o roupeiro nos viesse dizer que já podíamos ir para o campo. Recordo de estar nervoso e que era um grupo grande.

O Jorge Jesus gritou muito com vocês?
Nunca senti que ele gritasse comigo. Mas também sempre tive uma característica: as coisas negativas ou mesmo positivas que me vão chegando quando estou a jogar não mexem com o meu estado mental. Consigo lidar bem com a pressão quando estou em campo. Por exemplo, se estiver a jogar fora, num ambiente adverso contra nós, até gosto. Gosto de sentir o que chamam de pressão, deixa-me vivo no jogo.

Tem alguma história que tenha acontecido consigo ou a que tenha assistido, nesses treinos com a equipa principal?
Lembro-me que por duas ou três vezes aconteceu eles chamarem-nos, nós fazíamos o aquecimento, fazíamos a posse de bola e depois o Jorge Jesus dizia: "Miúdo espera aí que já entras." Ficávamos da parte fora do campo. Eles iam fazer 11 para 11 e às vezes acontecia o treino acabar e nós nem sequer entrámos no campo para jogar [risos].

Esteve duas épocas na equipa B. No final da segunda época quais eram as suas expectativas?
Achei que pela época que tinha feito ia pelo menos fazer a pré-época com a equipa principal. Tinha jogado os jogos todos a titular e quase os minutos todos. Falei com o empresário e disse-lhe que já estava muito confortável na equipa B e que se fosse para continuar lá, ia ser um ano perdido porque não via por onde evoluir mais ali. Achava que era a altura de dar o próximo salto. Fosse na equipa A do Benfica, ou noutra equipa da I Liga. Acabei por fazer a pré-época com o Benfica.

Aí já com o Rui Vitória. Como correu?
Não me correu muito bem em termos individuais.

Porquê?
Sinceramente não sei, lembro-me que os primeiros treinos foram muito físicos e senti-me bastante cansado, com dores musculares.

Tinha abusado nas férias?
Não. Sabia que ia fazer a pré-época com o Benfica, por isso estava preparado. Mas é o normal, por mais que te prepares, a pré-época é sempre um pouco dura e cansativa. Não era só eu que me sentia assim. Não fiz nada de especial nos treinos, mas também não tive a oportunidade de mostrar-me, porque não cheguei a fazer nenhum jogo amigável.

Após uma época em Guimarães, Pêpê Rodrigues foi comprado pelo Vitória
Após uma época em Guimarães, Pêpê Rodrigues foi comprado pelo Vitória
Catarina Morais

Com que opinião ficou do Rui Vitória?
Como pessoa achei super tranquilo. Como treinador, tem que ser bom, senão não tinha ganhado o que ganhou com o Benfica. A única coisa em que fiquei com um amargo foi não ter oportunidade de fazer alguns minutos na pré-época para me mostrar. Porque sinto que consigo dar muito mais num jogo do que dou num treino. Não tem a ver com vontade. Estou a falar em termos de qualidade de jogo e qualidade de treino. Por isso fica-me esse amargo de não ter tido a oportunidade de fazer alguns minutos para que me pudessem avaliar.

Quem era a sua concorrência na equipa?
Eram o Fejsa e o Samaris. O Fejsa chegou mais tarde e quem jogou a maior parte do tempo foi o Samaris. Fiz a primeira parte da pré-época no Seixal, depois fomos dez dias para a Suíça, regressámos ao Seixal e aí o Rui Vitória já foi cortando alguns jogadores antes da ida para a Inglaterra, para outro estágio. Ele veio falar comigo e disse-me que gostava de mim como jogador e tal, mas achava que ainda não estava 100% preparado para estar na equipa A. Tinha o Fejsa, que era um jogador que ele gostava muito e que à partida ia ser o titular dele, e como segunda opção gostava mais de Samaris do que de mim. Então, que não fazia sentido eu ficar na equipa.

Foi um grande balde de água fria?
Depois de não jogar na pré-época, já estava à espera. Se não tenho minutos é sinal que não vou ficar, que não estão a contar comigo. Ele deu-me duas opções: "Ou ficas aqui na equipa B do Benfica, continuas a tua evolução e a qualquer momento posso chamar-te, ou tentas procurar uma equipa na I Liga. É uma decisão tua." Fui sincero com ele, disse que a equipa B já não fazia muito sentido, não ia evoluir tanto como se fosse para uma equipa de I Liga. Comecei a treinar com a equipa B e a tentar encontrar equipa e é quando aparece o Estoril Praia.

Ficou com uma mágoa por não estrear pela equipa principal do Benfica?
Fiquei, porque sinto que tinha capacidade para o fazer, mas sobretudo por não ter tido a oportunidade de demonstrar o meu valor. Mas o futebol é mesmo assim e nunca me lamentei muito por isso. Depois fui para o Estoril Praia.

Pêpê confessa que um dia gostava de voltar a jogar no V. Guimarães
Pêpê confessa que um dia gostava de voltar a jogar no V. Guimarães
D.R.

Antes de passarmos ao Estoril Praia, quando foi chamado pela primeira vez a uma seleção?
Fui chamado desde os sub-15 aos sub-21.

Participou em Europeus e um Mundial. Qual a competição que foi mais marcante para si?
O Campeonato do Mundo de sub-20, em 2017. É sempre especial.

Esperava ser chamado à seleção principal?
Não, porque nunca tive em equipas que normalmente proporcionam esse tipo de chamada. Tinha esse objetivo, mas sei que para o conseguir tinha de estar noutros patamares.

Quando chegou ao Estoril Praia era Pedro Emanuel o treinador, certo?
Sim. Quando cheguei ele falou comigo, explicou-me o que pretendia de mim, da minha posição e as coisas foram acontecendo. Não me recordo bem do meu jogo de estreia na I liga, mas acho que foi contra o Sporting, fora. Entrei por volta dos 60 minutos e perdemos 2-1, mas não tenho a certeza. Sei que entrei bem, senti-me bem e o ambiente ajudou, porque onde há pressão é onde gosto de jogar.

O que mais recorda dessa época?
Não estávamos muito bem. Começámos a perder, a perder, a perder, o Pedro Emanuel é despedido, ficou um dos adjuntos durante dois jogos e nem sequer fui convocado. Depois veio o Ivo Vieira. De início também não joguei muito, tanto que em dezembro falei com um dos adjuntos naqueles treinos dos não convocados e disse que não entendia porque nem sequer era convocado. Disse-lhe que ia procurar outra solução porque não queria estar sem jogar e que em janeiro o mais certo era sair. Ele disse para eu ter calma, para trabalhar que o mister gostava de mim. Nas férias de Natal fui a casa, espaireci um bocado a cabeça, voltei, comecei a treinar bem e o primeiro jogo após o Natal foi em Setúbal, joguei a titular e fiz um bom jogo. A partir daí joguei sempre com ele.

O Ivo Vieira é muito diferente do Rui Vitória e do Pedro Emanuel?
Sim, principalmente do Rui Vitória. O Rui Vitória é uma pessoa mais pacata. O Pedro Emanuel também era extrovertido, dinâmico dentro do treino, mas o Ivo fazia lembrar um pouco o Jorge Jesus, embora com um bocado mais de tato na forma de interagir com os jogadores. Mas tem aquela forma de estar no treino muito interativa, de pressão, na maneira como fala, como comunica. Gosto dessa forma de estar, dizia as coisas como se estivesse a falar com os amigos e marcou-me, gostei muito de trabalhar com o Ivo Vieira. É um excelente treinador, fez-me evoluir.

O jogador com a mulher e os dois filhos
O jogador com a mulher e os dois filhos
D.R.

No final da época regressou ao Benfica?
Não cheguei a voltar ao Benfica. Fui de férias à França para a primeira comunhão da minha sobrinha e vi num jornal que eu podia ir para o Vitória de Guimarães. Liguei ao meu empresário para perguntar o que se passava. Ele disse que o [Luís Filipe] Vieira tinha falado com ele sobre essa possibilidade. Acabou por acontecer. Fui emprestado e fiz a pré-época no Vitória, com o Luís Castro.

Um treinador completamente diferente daqueles que tinha tido?
Sim, muito diferente. Gostei muito da metodologia de treino e vi logo uma grande diferença entre a pré-época que fiz com o Rui Vitória e com ele. Com o Luís Castro fizemos quase tudo com bola. Foi uma pré-época cansativa, como são todas, mas não fiquei com grandes dores musculares nas pernas porque era muita coisa com bola e fomos ganhando ritmo ao longo da pré-temporada. Foi progressivo e gostei muito desse método. A maneira de lidar com os jogadores é muito mais próxima, falava muito com os jogadores, mesmo individualmente. Tentava perceber o que o jogador sentia, o que podia melhorar, dizia o que pretendia. A equipa técnica dele também era muito boa. Os treinos eram atrativos, sempre com bola.

Mas não jogou sempre com ele.
Eu ia jogando. Mas sou muito exigente, quero sempre jogar a titular e os minutos todos, isso não aconteceu também porque tinha um meio-campo forte com o Wakaso, o André André, o Matheus Oliveira, o Tozé, o João Carlos Teixeira… Na altura jogava quase sempre a seis e o Wakaso estava muito bem, fez uma época muito boa e era um jogador que defensivamente entregava muito, recuperava muitas bolas e eu não sou esse tipo de jogador. Completava bem o meio-campo com o André André, depois eles iam revezando muitas vezes o Mattheus e o João Teixeira.

Considera-se um médio mais ofensivo?
Sim. Posso jogar a médio defensivo, mas a minha principal característica é a saída de bola, não é recuperar bolas, não é ganhar duelos aéreos, não sou um jogador tão defensivo. O treinador procurava mais esse tipo de jogador para essa posição. Por outro lado, o nosso primeiro jogo foi contra o Benfica e eu não podia jogar porque estava emprestado e o Wakaso começou, jogou bem e não perdeu mais o lugar. Às vezes eu jogava, mais à frente, ou jogava quando ele estava castigado ou lesionado. Mas cresci muito, porque tínhamos uma equipa forte.

Ainda tinha contrato com o Benfica no final dessa época 2018/19?
Sim, tinha mais dois anos de contrato, salvo erro.

Mas foi comprado pelo Vitória. Como aconteceu?
Acabei os últimos dois, três jogos a titular. Entretanto, o Luís Castro sai e entra o Ivo Vieira, que já no ano anterior, quando vou para o Vitória e ele vai para o Moreirense, me tinha ligado para eu ir para lá. Como apareceu o Vitória, optei pelo Vitória. Quando ele entrou no Vitória, liguei ao meu empresário e disse-lhe que era uma boa opção continuar no Vitória, até para me afirmar. Eles conseguiram fazer o acordo e assinei quatro anos com o Vitória.

Nessa época jogou Liga Europa?
Quando cheguei, faltava uma semana para o primeiro jogo da pré-eliminatória da Liga Europa. Agarrei o lugar, apesar de termos uma equipa com muitos médios, uns seis ou sete. Comecei a jogar, em outubro/novembro fui alguns jogos para o banco, mas voltei a jogar em dezembro e fiz uma época muito boa, praticávamos um futebol muito atrativo também. Ainda hoje, quando falo às vezes com adeptos do Vitória, dizem que mesmo quando não ganhávamos as pessoas não iam tão frustradas para casa como de outras vezes, porque o futebol era atrativo.

Continuava a viver sozinho em Guimarães?
Sim, mas foi lá que conheci a minha mulher, a Claudia. Conhecemo-nos nas redes sociais, começámos a falar, fomos tomar café e começámos a gostar um do outro. Foi já no início do segundo ano no Vitória. Começámos a viver juntos ainda em Guimarães.

 

Spoiler

“O meu sonho era jogar na I Liga espanhola, tive essa oportunidade e o Pedro Martins não me deixou. Fiquei chateado e senti-me injustiçado"

Campeão de Chipre esta época, com possibilidade de juntar a Taça ao currículo na próxima semana, Pêpê Rodrigues, de 27 anos, conta nesta Parte II do Casa às Costas como foi a sua passagem pelo Olympiacos e explica porque saiu chateado com Pedro Martins e acabou emprestado ao FC Famalicão. Fala também da experiência na Turquia e na II Liga espanhola, antes de rumar ao Pafos, onde tem sido feliz e parece ter encontrado alguma estabilidade

Como foi parar à Grécia, na época seguinte, 2020/21?
Fiz uma época muito boa no Vitória de Guimarães e fiquei com expectativas de sair. Eu gostava de jogar na I Liga espanhola. Falou-se de algumas possibilidades, mas nada em concreto e não chegou a acontecer. Depois veio o interesse do Olympiacos. A princípio fiquei na dúvida, mas depois comecei a ver que jogavam a Liga dos Campeões, que havia jogadores que saíram para a Premier League e para a liga espanhola e comecei a olhar com os outros olhos, a pensar que podia tentar mostrar-me lá para dar um salto maior. Claro que o contrato também era muito melhor.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Umas quatro, cinco vezes mais do que ganhava no Vitória. Isso também pesa.

E também pesou o facto do treinador ser português?
Claro que sim. O Pedro Martins falou comigo, disse que me queria lá porque o médio tinha saído. Senti confiança, que as coisas iam correr bem e que ia para jogar, porque quando surgiu essa possibilidade do Olympiacos eu estava lesionado, fiz uma rotura na coxa, na pré-época, no Vitória. O negócio ficou pendente dos exames que ia fazer lá, porque eles iam ter a pré-eliminatória da Liga dos Campeões e acabei por assinar ainda lesionado Eles acabaram por contratar outro médio, o Yann M’Vila que começou a jogar muito bem. A equipa sempre a ganhar... Entretanto, nasceu a minha primeira filha, a Valentina.

Pêpê Rodrigues assinou pelo Olympiacos em 2020
Pêpê Rodrigues assinou pelo Olympiacos em 2020
D.R.

Assistiu ao parto?
Não, por pouco. A minha filha nasceu em Portugal no dia 10 de setembro, de 2020. Quando fui para a Grécia a minha mulher já não podia viajar. Tínhamos marcado cesariana para o dia 11 de setembro. Disse ao mister que gostava de ir a Portugal para assistir ao parto, ele deixou, mas com a condição de eu ainda treinar no dia 10 de manhã e regressar logo a 12. Quando vou para o treino, a minha mulher diz-me estar com dores. Depois do treino, ela já estava no hospital. Vou para o aeroporto e ela diz que, em princípio, a menina vai nascer naquele dia. A mãe dela foi para o hospital. Viajei da Grécia para Madrid, quando cheguei a Madrid, ainda não tinha nascido. Quando aterrei no Porto, ligo a internet e cai-me logo a foto da minha filha. Nascera há cinco minutos. Fui direto para a maternidade. Tive de aguardar um tempo para poder entrar, porque a minha sogra estava lá dentro e havia as contingências da covid-19. No hospital foram simpáticos, perceberam a minha situação, abriram uma exceção e deixaram-me vê-la.

Regressou à Grécia, mas acabou por jogar pouco nessa época. Porquê?
Recuperei da lesão e quando recomecei a treinar, passados três ou quatro treinos, voltei a ressentir-me. Estive mais três ou quatro semanas fora, isto já no final de outubro, mais ou menos. Depois fiz dois ou três jogos a titular, mais cinco ou seis em que ia entrando e às vezes não jogava. Não estava satisfeito com a minha situação, acho que também se juntou um pouco o ser pai, estar a primeira vez fora do país, sem a família, eu não falava muito bem inglês... Não me sentia confortável, não estava a gostar e queria sair. Falei com o meu empresário e ele tentou arranjar soluções.

Com que opinião ficou dos gregos?
Como não falava muito inglês, pouco me relacionei com eles. Tínhamos um grupo com alguns portugueses e estava mais com eles.

Ainda na época 2020/21, o médio foi emprestado ao FC Famalicão
Ainda na época 2020/21, o médio foi emprestado ao FC Famalicão
Octavio Passos

Gostou de trabalhar com o Pedro Martins?
Sim, gostei. Só não gostei da atitude que ele teve quando lhe pedi para me deixar sair. Em janeiro, o meu empresário conseguiu-me o Granada, que estava na I Liga espanhola. Fui falar com o Pedro Martins, disse-lhe ser um sonho meu jogar na I Liga espanhola e como não estava a ter o meu espaço no Olympiacos, gostava que ele me ajudasse a sair emprestado para o Granada.

O que lhe respondeu ele?
Ele disse: Apanhaste-me completamente de surpresa, tu sabes que fui eu que quis que viesses para aqui e agora estás-me a pedir isso. Disse-lhe que entendia, mas, ao mesmo tempo, que não era grande surpresa porque eu não estava a jogar e naturalmente não estava satisfeito. E, podendo ir para a I Liga espanhola e as coisas correndo bem, podia ser bom também para o clube caso o Granada quisesse comprar-me. Se isso não acontecesse, eu regressava e se calhar melhor jogador porque naquele momento não estava feliz ali.

Pêpê esteve época e meia no FC Famalicão
Pêpê esteve época e meia no FC Famalicão
D.R.

O que aconteceu depois?
O meu empresário falou com o presidente, o presidente disse que o Pedro Martins não me deixava sair, eu voltei a falar com ele, ele disse que não podia dizer ao presidente para me deixar sair, porque tinha sido a transferência mais cara daquele mercado e ele gostava de mim, achava que eu podia render ali. Mas eu estava decidido a sair. Ele disse que não, que não. O mercado fechava no dia 1 à noite e nós jogámos fora no dia 31, e entrei meia hora. Entrei bem, estávamos a ganhar 1-0 e acabámos por ganhar 3-1. No dia seguinte, quando fecha o mercado, treinamos de manhã, acabamos o treino por volta do meio-dia, e ele vira-se para mim e diz-me: Podes sair, mas as portas do Olympiacos estão fechadas para ti”. Na altura eu disse obrigado, porque fiquei contente, mas o empresário disse-me que já não havia possibilidade de ir para Espanha.

Porquê?
Porque no dia anterior o Granada colocou pressão, o presidente continuou a dizer que não, eles precisavam contratar alguém e como o meu empresário disse-lhes que não me deixavam sair, no dia 1 eles já tinham um jogador a viajar para Granada para assinar. Naquelas 12 horas tive de arranjar alguma coisa porque não tinha cabeça para ficar no Olympiacos e acabou por aparecer o Famalicão. Fui seis meses emprestado ao Famalicão.

Sentiu-se frustrado e zangado?
Aí, sim, foi um grande balde de água fria. Senti-me muito chateado, injustiçado, principalmente com o Pedro Martins. Porque o presidente, é normal querer o bem do clube, foi um investimento que fez. Agora, o Pedro Martins é português como eu, não entendi o porquê dele dizer que não, que não, que não e no final deixar-me ir, quando faltavam 12 horas para fechar o mercado. Não sei se a ideia foi dele ou do presidente, mas para mim foi uma falta de respeito para comigo e, não tenho certeza disto, mas parece que alguém fez de propósito, porque só me libertaram quando sabiam que já não havia possibilidade de eu ir para o Granada.

Em 2022/23, Pêpê foi para o Ankaragücü, da Turquia
Em 2022/23, Pêpê foi para o Ankaragücü, da Turquia
D.R.

Quando chegou ao Famalicão quem era o treinador?
O Silas. O Famalicão estava cá em baixo na tabela, o Silas saiu e veio o Ivo Vieira.

Do pouco que lidou com o Silas, o que achou dele?
Achei que tinha boas ideias, mas como equipa não conseguimos entender as ideias dele. A forma como as passava muitas vezes não era clara. Não era muito incisivo na maneira como passava as ideias e isso podia criar alguma desconfiança nos jogadores. Mas analisando a ideia em si, acho que ele entende de futebol, mas naquela altura pelo menos, faltava-lhe ser mais incisivo para que os jogadores acreditassem mais na ideia dele.

Com o Ivo as coisas acabaram por correr bem.
Sim, tanto que no ano seguinte quis continuar. A segunda época foi muito boa. Primeiro com o Ivo, depois com o Rui Pedro Silva. Fiz golos e assistências.

Não continuou no Famalicão porquê?
Não continuei porque estava emprestado e o salário que tinha no Olympiacos não era possível ao Famalicão pagar-me. Eu também não queria baixar o meu salário, porque já tinha uma filha.

Acabou por ir para o Ankaragücü, da Turquia. Como foi o primeiro impacto e a adaptação?
Foi mais fácil. Nessa altura já tinha o meu segundo filho, o Júnior. Fiz a pré-época na Grécia, a treinar à parte e fui a Portugal assistir ao nascimento do meu filho, a 21 de julho de 2022. Regressei à Grécia e, entretanto, fui transferido para a Turquia. A minha mulher foi lá ter depois com os nossos filhos.

PêPê (no centro) em ação pelo clube turco
PêPê (no centro) em ação pelo clube turco
D.R.

O que achou do futebol e das gentes da Turquia?
As pessoas são prestáveis, tentavam ajudar ao máximo em tudo o que precisássemos. O campeonato é muito bom, gostei porque os estádios estavam sempre cheios. Agora, taticamente não é tão bem jogado como em Portugal, são praticamente cinco a atacar e cinco a defender, tem muitas transições e por isso é que há muitos golos. Essa parte não gostei tanto porque sou disciplinado taticamente, mas gostava da envolvência que tinha o jogo.

Mas só ficou uma época porquê?
No primeiro jogo a titular lesionei-me, saí no intervalo e o treinador que me quis foi despedido nesse jogo. Veio outro treinador. Nessa semana não tivemos jogo, mas o mercado ainda estava aberto e no último dia do mercado, na véspera de um jogo fora, estou lesionado ainda e o treinador traz dois médios turcos e leva-os diretamente para o jogo. Nem sequer treinaram. Os dois jogam esse jogo a titular, diretos. A partir daí jogaram sempre e praticamente não joguei mais, só entrei em alguns jogos. Tive de arranjar outra solução. Falei novamente com o meu empresário e apareceu o Cartagena da II Liga espanhola. Era uma equipa que estava a lutar para entrar no playoff de acesso à La Liga, e podia mostrar-me, em Espanha.

Teve de baixar o salário?
Claro. O Cartagena não podia pagar o que eu recebia, mas quis arriscar esses seis meses porque era um sonho que eu tinha e podia ser que corresse bem. Fiz meia época muito boa.

O médio não ficou até final da época 2022/23 no Ankaragücü
O médio não ficou até final da época 2022/23 no Ankaragücü
D.R.

O futebol da II Liga espanhola era o que estava à espera?
Sim. Dos melhores que joguei. Tem muitos adeptos no estádio, o futebol é muito atrativo, taticamente é muito bem jogado, todas as equipas querem jogar futebol, não há aquela equipa que diga vamos meter-nos todos atrás e defender a baliza. Não. Todos querem atacar, todos querem jogar, todos querem ter a bola. Isso fascina-me. Foi uma experiência espetacular. Gostei muito.

Então não continuou porquê?
Devido à questão financeira. Tive propostas do Levante, do Racing Santander.

E de Portugal?
Voltei a ter do Moreirense, desse tipo de equipas, mas não eram interessantes. Eu tinha contrato com o Olympiacos e se continuasse na II Liga espanhola ia ter que baixar o meu salário. Até que surgiu o Pafos, no ano passado, para vir emprestado. Primeiro disse que não queria, mas o meu empresário insistiu que eles estavam muito interessados. Disse-lhe que só se fosse uma proposta muito atrativa a nível financeiro porque a nível futebolístico não me estava a ver a ir para Chipre. Ainda esperei para ver se aparecia alguma coisa interessante em Portugal. Tentei ver se havia possibilidade no Vitória, porque apesar de saber que ia receber menos, é um clube diferente pelo qual fiquei com um carinho especial. A minha mulher também é da cidade, temos casa em Guimarães, mas não houve abertura da parte deles para que eu voltasse. Ainda tive outras propostas, como do Ludogorets, mas a melhor proposta em termos financeiros era de longe a do Pafos e não quis arriscar. Tenho de orientar a minha vida com dois filhos, uma família e uma vida para viver.

Gosta de viver em Chipre?
Sim, é muito bom para viver, é um pouco parecido com a Grécia, mas mais calmo, tem menos trânsito e a cidade é espetacular, as temperaturas sempre boas, o mar, tudo ótimo. Confesso que cheguei com aquela mentalidade de que o campeonato era fraco, mas no Pafos temos qualidade; aliás, se eles pagam bem conseguem trazer qualidade. Não estava a jogar muito no início, estava um bocado em baixo e já estava a pensar outra vez em mudar, em janeiro, até porque apareceu uma situação novamente da II Liga espanhola. Mas falei com a minha mulher e percebemos que não podíamos andar sempre de um lado para o outro com dois filhos. Para mim era mais fácil mudar, mas para a minha mulher e filhos não tanto. Isso fez-me mudar a mentalidade e as coisas começaram a correr melhor, acabei o ano a jogar. Ganhámos a Taça e no final do ano o presidente perguntou-me se eu gostava de ficar, que eles gostavam de contar comigo. Disse que sim e compraram-me ao Olympiacos. Tenho contrato até 2028.

Pêpê Rodrigues jogou meia época no Cartagena, da II Liga espanhola
Pêpê Rodrigues jogou meia época no Cartagena, da II Liga espanhola
Andy Cespedes

Esta época conquistaram o campeonato e estão na final da Taça.
Sim. Entrámos este ano pela primeira vez nas competições europeias na fase de grupos da Conference League, conseguimos passar a fase de grupos, deixámos uma boa imagem. Para o ano jogamos a pré-eliminatória da Liga dos Campeões e dá para ver que o clube tem crescido imenso, mesmo em termos de adeptos. As coisas têm corrido bem.

Faz 28 anos na terça-feira, dia 20. Apesar de ainda ser cedo para deixar de jogar, já sabe o que quer fazer quando tiver de pendurar as chuteiras?
Sim. Tenho duas possibilidades. Treinador ou empresário. Eu gostava muito de ser treinador. Depende muito de como terminar a carreira e da estabilidade financeiramente que tiver na altura. O meu principal objetivo presentemente é terminar a carreira e não ter a obrigação de trabalhar para viver. E poder escolher o que quero fazer.

Está perto de atingir esse patamar?
Acho que estou quase a chegar lá. Se tiver essa independência e estabilidade financeira, arrisco ser treinador. Sei que no início vou ganhar mal. O meu empresário já falou muitas vezes comigo e disse que tenho perfil para ser empresário e ajudá-lo, principalmente em Portugal, porque é uma empresa espanhola. Está em aberto, só quando chegar o momento é que vou saber, por agora quero usufruir do futebol e nem sequer penso em me retirar.

Gostava de terminar a carreira em Portugal?
Sim. Onde vou terminar não sei, mas gostava de voltar a vestir a camisola do Vitória, no meu percurso como jogador. Sei que cada ano que passa fica mais difícil, mas fui muito feliz lá e tenho um carinho especial pelo clube.

Na época passada, 2023/4, o médio foi emprestado ainda pelo Olympiacos ao Pafos, de Chipre
Na época passada, 2023/4, o médio foi emprestado ainda pelo Olympiacos ao Pafos, de Chipre
D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
Em termos de salário, na Turquia, mas se for o contrato todo, em Chipre.

Deu para investir em algum negócio ou só em imobiliário?
Neste momento só invisto em imobiliário porque sei que nos negócios é preciso estar presente para que deem certo.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Se calhar gastar mais de 600€ num almoço.

Tem algum hobby?
Antes jogava muito Playstation, agora com as crianças gosto de ir com elas ao parque, assistir um filme e jogar Uno com eles.

Acredita em Deus?
Acredito. Deveria ser mais praticante. Quando estou em Portugal tento ir à igreja e fazer as coisas normais de um cristão.

Superstições?
Não.

Tatuagens?
Não.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Gosto de ver ténis, mas não acompanho.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Ter sido impedido de jogar na I Liga espanhola.

E o maior arrependimento?
Ter saído do Vitória para o Olympiacos.

Pêpê com a mulher e os dois filhos
Pêpê com a mulher e os dois filhos
D.R.

O momento mais feliz na carreira?
A estreia na I liga portuguesa e o título de campeão este ano, porque foi o primeiro do clube e meu, como profissional.

Qual o momento mais difícil porque passou na vida?
Talvez a perda da minha avó.

Um objetivo que está por cumprir?
Jogar a I Liga espanhola.

Se pudesses escolher, qual o clube de sonho onde um dia gostava de ter jogado?
Barcelona.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Tenho algumas. Por exemplo, o João Carvalho, o Ferro, o Fábio Novo.

Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
Rodri, do City.

Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Sim. Eu ouvi o Piqué dizer uma coisa que achei muito interessante. Se o jogo terminasse empatado a zero, nenhuma das equipas devia ficar com pontos. Seria uma regra muito interessante porque quem vai ver o jogo quer ver espetáculo e quer ver golos. Ter equipas que só querem defender e não queiram atacar, o jogo acaba por ser um pouco aborrecido.

Pêpê Rodrigues é campeão do Chipre esta época 204/25 e ainda vai jogar a final da Taça
Pêpê Rodrigues é campeão do Chipre esta época 204/25 e ainda vai jogar a final da Taça
D.R.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Não faço ideia nenhuma [risos].

Tem algum talento escondido?
Não.

Há alguma frase que tenha ouvido nos meandros do futebol que tenha retido para a vida?
Há uma frase dita por um colega, o Cafú, que me deixou a pensar sobre o que era uma equipa de futebol e o que podia ser uma equipa de futebol. Num torneio de sub-15 ou sub-16, nós íamos jogar a final, ele era mais velho, foi ver o jogo e o mister perguntou-lhe se ele queria dizer algumas palavras antes do jogo e ele disse esta frase simples, mas que me deixou a pensar: As coisas individualmente nem sempre correm bem e podem não estar a sair bem, mas o espírito de grupo, o sacrifício e a união têm que estar sempre presentes".

Neste momento qual é o seu maior sonho no futebol?
Conseguir jogar no Vitória e o meu irmão ser o treinador. Ele neste momento está a treinar na distrital, em Viseu.

 

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Evandro Goebel

Spoiler

“Quando cheguei ao Estrela Vermelha percebi que, no Brasil, onde já tinha jogado a final da Libertadores, eu reclamava de barriga cheia”

Evandro Goebel nasceu para o futebol no Athletico Paranaense, do Brasil. Filho de jogador, não resistiu a seguir as pisadas do pai, apesar de mostrar muito talento no ténis. Com 19 anos disputou a final da Taça de Libertadores e jogou no Mundial de sub-20 pela seleção canarinha. Nesta primeira parte do Casa às Costas conta como a ida para a Sérvia, onde sentiu dificuldades de integração, obrigou-o a amadurecer e a mudar a mentalidade, antes de chegar ao Estoril Praia

Nasceu no Brasil, no estado de Santa Catarina. É filho de quem?
O meu pai foi jogador profissional e quando nasci ele jogava no Criciúma. A minha infância foi influenciada por isso, a minha diversão sempre foi jogar à bola com o meu irmão, que é mais velho quatro anos, e com o meu pai. A minha mãe estava em casa connosco, mas quando o meu pai se aposentou do futebol, ela abriu uma fábrica de bordados.

Gostava da escola?
Eu gostava de estudar, mas quando já estava nas camadas jovens do Athletico, em que comecei a fazer alguns treinos no profissional, faltava ainda um ano para eu concluir o segundo grau completo e comecei a reclamar com a minha mãe. Ela dizia ó filho, esforça-te, só falta mais um ano, se quiseres fazer uma faculdade no futuro já tens o segundo grau completo”. Aí dei mais um gás final.

Começou a jogar futebol com quantos anos?
A minha sequência foi a seguinte: com 10, 11 anos eu praticava ténis e estava a destacar-me, mas o meu pai percebeu que eu tinha talento para o futebol. Então, aos 12 anos, o meu pai disse que eu tinha de escolher. Escolhi o futebol. O meu pai levou-me ao Palmeiras para fazer um teste, fui aprovado, só que naquela altura o Palmeiras não tinha a estrutura que tem hoje e os meus pais teriam de arcar com as despesas da casa e as condições da escola não eram boas. Eu tinha um amigo que estava a jogar no São Paulo, o clube do qual eu era adepto, e ele conseguiu-me um teste no São Paulo. Fui lá e fui reprovado. Aí o meu pai conseguiu um terceiro teste, no Athletico Paranaense, o clube onde o meu pai se iniciou nas camadas jovens.

E correu bem?
Foi muito bom, era próximo da minha cidade, Blumenau, onde os meus pais acabaram por ir morar quando eu ainda era bebé. Fiz a minha infância toda nessa cidade, em Santa Catarina. O Athletico ficava a três horas de carro e a estrutura é fantástica, sempre foi boa, dão tudo, alimentação, levam para a escola, tem alojamento muito bom.

Evandro fez toda a formação no Athletico Paranaense
Evandro fez toda a formação no Athletico Paranaense
D.R.

Foi difícil com 12, 13 anos deixar os pais e irmão para ir viver num centro de treinos longe de casa?
O meu irmão quando saiu para fazer teste chorava e queria voltar para casa, estava com saudade dos amigos e tal. Sou quatro anos mais novo e recordo-me que dizia à minha mãe: Mãe, se isso acontecer comigo, tu não me vais buscar, porque eu quero ser jogador, eu vou ser jogador[risos]. Por isso, quando fui aprovado no Athletico, não tinha essa sensação de querer voltar. Inclusive, nos dias de folga, ficava lá, fazia de gandula, que vocês chamam apanha-bolas, no jogo dos profissionais e aquilo alimentava muito o meu sonho, porque via os jogadores famosos muito de perto.

Tornou-se profissional no Athletico, em 2005. É nessa altura que assina o primeiro contrato profissional e joga a final da Taça Libertadores?
Foi exatamente nesse ano que realizei o meu sonho. Nessa altura era o meu pai quem cuidava da minha carreira. Eu já disputava competições pela seleção brasileira desde os sub-17, e nessa altura, do profissional, eu estava nos sub-20 a disputar o campeonato sul-americano e o campeonato mundial. Quando fiz o meu contrato, como já tinha 18 anos, o meu pai comprou-me um carro.

Já namorava?
Não, mas não demorou muito para conhecer a minha namorada, que acabou por se tornar a minha esposa. Estamos juntos desde 2006, se não me engano, até hoje.

Como se conheceram?
A Roberta é de Blumenau também e já nos conhecíamos há muitos anos. Mas quando eu estava a jogar o Mundial de sub-20, em Amesterdão, começámos a falar pelo MSN ou Orkut, ainda não havia redes sociais. Quando regressei ao Brasil, passámos a encontrar-nos e foi assim que tudo começou. Ela fazia faculdade em administração e marketing. Inclusive, ficámos noivos na formatura dela.

Em 2005, Evandro (1º direita à frente) jogou a final da Libertadores pelo Athletico Paranaeense contra o S. Paulo
Em 2005, Evandro (1º direita à frente) jogou a final da Libertadores pelo Athletico Paranaeense contra o S. Paulo
D.R.

Voltando um pouco atrás, por volta dos 14, 15 anos, quem eram os seus ídolos?
Quem eu gostava de ver jogar era o Ronaldinho Gaúcho. Sempre foi ele.

Jogou sempre como médio ofensivo, ou foi variando a posição no campo?
Na verdade, sempre fui médio ofensivo. Em Portugal, especificamente no FC Porto, às vezes jogava como médio, como camisa 8.

Na adolescência qual era a sua maior ambição, com que sonhava?
Recordo-me que com 9, 10 anos, o meu pai levou-me pela primeira vez a um estádio de futebol, para ver um jogo do Athletico Paranaense, contra o Grêmio. O Athletico estava para cair na segunda divisão, então foi um jogo em que a Arena da Baixada, o estádio, estava muito lotado. Quando saí daquele jogo, eu lembro-me que o meu sonho era: eu quero um dia jogar num estádio assim, com muita gente, lotado. Eu tinha muito presente esse sonho de me tornar um jogador profissional e jogar em estádios com muita gente a assistir.

Não tinha o sonho secreto de jogar num clube em particular?
Não. Eu queria ser jogador profissional, queria jogar no alto nível, mas não tinha um clube específico.

Aos 20 anos, quando ainda estava no Athletico, já lhe passava pela cabeça sair do Brasil e jogar na Europa?
Naquela altura, não. Isso mudou muito. Hoje percebo que com as redes sociais e o formato da Champions League todo o mundo fica fissurado e quer jogar na Europa, mas não me recordo de ter esse assunto com os meus colegas e de ouvir falar nisso. Não tinha essa visão de como o futebol fora é muito bom.

O médio brasileiro (1º à direita à frente), com a equipa do Athletico Paranaense, em 2006
O médio brasileiro (1º à direita à frente), com a equipa do Athletico Paranaense, em 2006
D.R.

Entretanto, foi emprestado pelo Athletico Paranaense ao Goiás. Foi imposição do clube?
Eu já estava um pouco desgastado porque teve um episódio no Athletico de um jogador de muito destaque, o Dagoberto, que estava numa briga com o clube, de não querer renovar o contrato. Ele foi padrinho do meu casamento. Nós somos muito amigos. Quem andava com ele começou a ser um pouco prejudicado. Nós não fazíamos a pré-época, ficávamos na equipa B. Chegou um momento em que disse ao meu pai que precisava sair do Athletico, respirar novos ares. E foi quando surgiu o empréstimo para o Goiás.

Correu bem no Goiás?
Fiz um campeonato estadual, ganhei um nível muito bom, acabei por destacar-me, marquei muitos golos e assistências. E foi quando o Palmeiras me comprou.

Como foi entrar num clube de uma dimensão como o Palmeiras?
Há alguns anos percebi que eu não estava preparado para o Palmeiras naquela altura. Os jogadores que estavam lá tinham um nível acima do meu e se calhar teria sido melhor eu ter ficado mais um tempo no Goiás. A equipa tinha, por exemplo, Valdivia, Léo Lima, Alex Mineiro, o Kleber, era uma equipa muito forte. Às vezes eu ficava um pouco frustrado por não jogar, estava sempre no banco. Mas a experiência e a aprendizagem foi muito grande.

Gostou de trabalhar com Vanderlei Luxemburgo?
Achei ele um bom treinador. Ele tinha um currículo muito grande, já havia ganhado muitos campeonatos. Foi uma experiência bacana.

Evandro Goebel jogou o Mundial de Sub-20 pela seleção do Brasil
Evandro Goebel jogou o Mundial de Sub-20 pela seleção do Brasil
D.R.

Ainda iniciou a época seguinte no Palmeiras, mas acabou por sair para o Atlético Mineiro. Porquê?
Como disse, eu havia jogado pouco e aí houve interesse do Atlético Mineiro, onde comecei a jogar mais com o treinador Celso Roth. Passei a jogar com mais frequência.

Continuava a viver sozinho ou já tinha casado?
Já estava com a minha mulher. Noivámos em 2006. A partir daí ela começou a morar comigo. Acompanhou-me a vida toda. Ela ficou grávida da minha filha mais velha, a Lara, quando fui jogar na Sérvia. E a minha filha mais nova nasceu no Porto.

Antes de passarmos à Sérvia, pode resumir como foi essa época e meia no Atlético Mineiro?
A minha chegada foi muito boa. No outro ano, quando começou o estadual, o treinador foi embora, veio o Vanderlei e aí voltei a ficar muitos jogos no banco.

É quando vai para a Vitória?
É. E no Vitória foi uma experiência negativa, porque o diretor que pediu a minha contratação passado duas semanas foi mandado embora. Acabei por nem sequer ser convocado para muitos jogos. Foi uma experiência curta, de três ou quatro meses, acabei por ir para o Figueirense, onde acabou por não dar certo também. Foi um erro do meu empresário, um sérvio, que estava a morar no Brasil, tinha vários jogadores no Athletico. Conheci-o em 2006, no Athletico. Quando cheguei ao Figueirense para jogar o final da Série B, o meu irmão avisou-me que eu não podia jogar em mais de dois clubes no mesmo ano. Eu já tinha jogado no Atlético Mineiro e no Vitória. Liguei para esse empresário, ele disse que o meu irmão não percebia nada das leis e então fui para Florianópolis. No dia seguinte, eles reuniram comigo e disseram-me que eu não podia jogar pelo Figueirense. Isso foi em 2010. Eu já estava com o casamento marcado para o final do ano e fiquei três meses desempregado. O empresário sérvio então disse-me: Estás sempre a saltar de clube, vamos fazer um contrato longo com o Estrela Vermelha, na cidade onde eu nasci.

Evandro (à esquerda) com o guarda-redes Vinicius e Fernandinho
Evandro (à esquerda) com o guarda-redes Vinicius e Fernandinho
D.R.

Como reagiu a essa proposta de sair do Brasil para ir jogar na Sérvia?
No início fiquei um pouco assustado por ser um país do qual não conhecia nada. E realmente lá foi difícil. É outro tipo de alfabeto. Eu não dominava o inglês. A minha esposa já falava muito bem inglês, mas o povo não comunicava muito em inglês, então, no início fiquei um pouco assustado. Mas já estava com a ideia de ir para desempenhar o meu futebol e poder dar nas vistas.

Quando aterrou na Sérvia, foi um choque?
Foi um choque em todos os aspetos. De cultura, o clima, é muito frio. Mas foi no Estrela Vermelha que mudei a minha maneira de ver o futebol e de me comportar.

Como assim?
Se reparar no meu currículo, aqui no Brasil joguei em equipas muito grandes e tinha jogado já uma final de Libertadores com 19 anos. E sempre fui de reclamar muito. Apontava o dedo aos outros, ou era o treinador que não percebia nada, ou era o meu colega que não me dava a bola. Era muito fácil eu passar a culpa para os outros. No Estrela Vermelha tive dificuldade em conseguir comunicar bem, o jogo era mais rápido, foi difícil adaptar-me ao clima, o clube estava numa situação muito precária, financeira e de estrutura... . Então, eu percebi como eu reclamava de barriga cheia e precisei mudar esse meu comportamento. Foi onde amadureci mais, passei a ser mais profissional, a ser mais companheiro dos meus colegas, a preocupar-me com o que o jogador pode controlar. Que, no caso, é entrar no campo no dia do treino, dar 100% e ser o melhor naquilo. Se o treinador me vai convocar, se vou jogar de início, ou não, isso eu não controlo mais. Já não é problema meu. E à conta dessa aprendizagem tive um grande salto na minha carreira.

Tinha assinado por quantos anos?
Não me recordo bem, acho que por quatro ou cinco anos.

Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no Brasil?
O dobro mais ou menos. Porém, eles não pagavam. Era normal ficar cinco ou seis meses com o ordenado atrasado. Após duas temporadas e meias contratei um advogado e fui-me embora.

Em 2008, o médio ofensivo foi comprado pelo Palmeiras
Em 2008, o médio ofensivo foi comprado pelo Palmeiras
D.R.

O que mais o marcou nessas duas épocas e meia na Sérvia?
Não tive essa percepção logo mas depois acabei por perceber que eu precisava passar por aquela situação para amadurecer e aprender que não valorizei e não fui profissional, como um jogador tem que ser, no Brasil. Quando saí da Sérvia pensei: no próximo clube para onde for, vou estar diferente.

O ambiente no balneário devia ser muito diferente do brasileiro também…
Era muito diferente e para mim foi muito difícil, porque quem fez a minha apresentação no Estrela Vermelha foi o Petkovic, que foi o camisa 10 do Flamengo, jogou no Real Madrid, e aquele foi o clube onde ele se iniciou como profissional. Ele é de Belgrado. Então, nos jornais saía chegou o maestro; diziam que eu ia resolver tudo e o meu contrato era bom. Acabei por receber tudo depois. Porém, aquelas notícias geraram um certo ciúme nos outros atletas, não me sentia confortável, não sentia que tinha sido acolhido e que era querido. Para mim foi um período difícil.

Mas foi na Sérvia que foi pai pela primeira vez, certo?
Foi lá que a minha mulher engravidou, mas fomos visitar os hospitais e a situação era precária, por isso a minha esposa voou para o Brasil e teve a Lara aqui, em Blumenau.

Conheceu a sua filha quanto tempo depois?
Íamos jogar a semifinal da Taça da Sérvia e a minha filha tinha nascido três dias antes. Fui falar com o treinador, perguntei se podia ir vê-la. Ele disse que se ganhássemos a semifinal dava-me quatro dias. Ganhámos e vim vê-la.

 

Spoiler

“Queria ter ficado no FC Porto, mesmo sabendo que era a última opção. Mas veio uma ordem de cima, acho eu, para me juntar à equipa B”

O brasileiro Evandro Goebel, de 38 anos, entrou em Portugal pela porta do Estoril Praia onde conheceu um dos dois treinadores que mais marcaram a sua carreira: Marco Silva. As boas exibições levaram-no a assinar pelo FC Porto, onde esteve duas épocas e meia e cumpriu o sonho de jogar na Liga dos Campeões. Assume que não havia química entre os jogadores e Lopetegui. Passou pela Premier League, no Hull City, antes de regressar ao Brasil, para o Santos, de Sampaoli, com quem diz ter aprendido muito. Hoje, o ex-médio é treinador

Após duas épocas e meia na Sérvia veio para o Estoril Praia, em 2012/13. Porquê?
Como estava sempre com ordenados em atraso, meti um advogado e quis vir embora. Eu era jogador da Traffic, que tomou conta do Estoril Praia, e fui para lá para manter a forma. Assinei um contrato de empréstimo até o fim da época. Não fui muito esperançoso, porque não conhecia o Estoril, fui meio empurrado.

Era a primeira vez que vinha a Portugal?
Sim.

Quais foram as primeiras impressões?
Quando cheguei a Cascais, pensei na minha esposa e filha. Vi logo que elas iam amar aquele lugar fantástico. A minha primeira impressão foi muito boa. Outra coisa maravilhosa é que reencontrei o Wagner, o guarda-redes que fez a formação comigo no Athletico Paranaense, desde os 12, 13 anos. Sempre tivemos uma amizade muito forte e foi muito bom voltarmos a nos encontrar, depois de muitos anos, em Portugal. Aliás, havia vários jogadores brasileiros na equipa, na minha situação, que não estavam a encaixar-se no Brasil. Depois, a chegada do Marco Silva, que estava a iniciar uma carreira... Foi tudo ótimo. Fizemos campanhas que marcaram a história do Estoril Praia. Vários jogadores foram vendidos. Por isso, desde o início foi muito, muito fixe em Portugal.

Evandro Goebel chegou ao Estoril Praia, em 2012/13
Evandro Goebel chegou ao Estoril Praia, em 2012/13
CatarinaMorais

Teve algum receio por Marco Silva ser um treinador inexperiente, que estava a começar?
Há dois treinadores que marcaram imenso a minha carreira. Um é o Marco Silva, o outro é o Jorge Sampaoli. Recordo-me que nos primeiros jogos no Estoril Praia não fui convocado. Só que eu já estava com aquele mindset: Eu não fui agora, mas amanhã vou ser o melhor do treino. Depende só de mim. Chegou uma altura em que fui convocado, estava no banco contra o Rio Ave e um jogador nosso foi expulso. Entrei nos últimos 15 minutos. O Marco chamou-me depois e disse: Puxa, tu entraste numa furada; Ó mister, não existe isso, temos de estar preparados para qualquer situação. Depois desse dia eu não saí mais da equipa.

Gostou dos métodos dele?
Gostei muito. É o método dos treinadores portugueses. Vou dar um exemplo simples para perceber porque eu gostava tanto da rotina. No Brasil, quando iniciávamos uma pré-época, não encostávamos nem nas chuteiras, nem na bola. Era muito treino físico. Hoje já mudou, por causa da Europa. Quando cheguei a Portugal, todos os treinos eram com bola e senti-me muito bem. Não tive lesões, depois comecei a jogar todos os jogos. Os tipos de treino eram prazerosos, era uma rotina agradável. Sempre foi muito positivo. Não só a liderança do Marco Silva, como os métodos de treino, gostei muito de tudo. No começo eu ficava a pensar: Será que isso vai funcionar?, pelo facto do Marco Silva não fazer ginásio. No Brasil estamos habituados a fazer muito ginásio. Isso no início deixava-me um pouco confuso. Mas, depois, sentia-me bem, não tinha lesões, então passei a achar normal.

O médio brasileiro (à direita)num jogo pelo Estoril Praia
O médio brasileiro (à direita)num jogo pelo Estoril Praia
KataMorais

Pessoalmente quais foram os momentos mais marcantes nessas duas épocas no Estoril?
Foi em Portugal que meti na cabeça que o meu próximo objetivo, sonho, o meu desejo, era jogar uma Champions League.

Com o Estoril jogou na Liga Europa.
Esse foi um momento muito fixe. Quando falo com os jogadores, recordamos o jogo contra o Sevilla. Foi muito especial também.

Notou grande diferença do futebol sérvio para o português?
Bastante. O campeonato sérvio é um campeonato que não tem prestígio, não é forte, são duas equipas: o Estrela Vermelha e o Partizan. Não fiquei entusiasmado com a competição, mas como já disse foi uma experiência que precisava ter passado para dar valor àquilo que eu tinha. Cheguei a Portugal com outra cabeça. Tanto que depois eu fui para o FC Porto e ainda joguei um pouco na Premier League.

E quais as maiores diferenças que sentiu entre o futebol português e o brasileiro?
Tendo em conta o tamanho do país, é normal que o campeonato brasileiro tenha equipas mais fortes. A liga portuguesa também é muito forte, mas pelo fato de ser um país pequeno, acaba por não ter tantas equipas com chances de lutar pelo título.

Evandro assinou pelo FC Porto, em 2014/15
Evandro assinou pelo FC Porto, em 2014/15
Kats

De 2012 a 2014, altura em que jogou no Estoril Praia, para si qual era a equipa mais forte?
O FC Porto. Quando joguei no Estádio do Dragão a primeira vez fiquei com um desejo muito grande de jogar lá. Achei a arquitetura, o ambiente, fantásticos.

O que mais amou assim que chegou a Portugal?
A comida e a bebida. Gosto muito de vinho e aí come-se muito bem. Tem muita qualidade.

Algum prato português preferido?
Até hoje, o prato que a minha esposa faz nas comemorações de Natal, e algumas vezes no Ano Novo, é o bacalhau com natas, que aprendeu a fazer no Porto.

Quando e como surgiu o interesse do FC Porto?
No ano em que cheguei já o campeonato tinha começado. Vários jogadores foram vendidos, o Carlos Eduardo, o Licá, o Steven Vitória e eu fiquei também com esse desejo de ir para uma equipa maior. Eles disseram-me para fazer mais uma temporada, o Marco Silva ia ficar, podia fazer a pré-época com ele e com a equipa, então renovei mais um ano. Fiz mais uma época completa e tivemos um desempenho melhor. Foi quando surgiu o interesse do FC Porto. Eu tinha mesmo muita vontade de ir para o FC Porto.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Quando cheguei ao Estoril Praia tive uma situação que me deixou bem preocupado. O meu contrato com a Traffic era praticamente simbólico. Eles colocaram um valor muito mais baixo do que eu ganhava no Estrela Vermelha. Era realmente muito baixo. Aquilo deixou-me muito pressionado, só pensava: Preciso jogar muita à bola aqui, porque senão...”. Eu já estava com uma filha, já tinha muita conta para pagar. Só na minha renovação com o Estoril Praia é que fiquei com um contrato parecido com o que já estava acostumado. Quando fui para o FC Porto, melhorei o contrato e acredito que fui ganhar o dobro.

Gostou de viver no Porto?
Gostei muito da cidade. Aqui em casa, quando relembramos os momentos em Portugal, a minha esposa ama o Porto, por ela preferiria estar a viver lá e eu prefiro Estoril/Cascais.

O médio Evandro durante um jogo com o Borussia de Dortmund para a Liga Europa, em 2015
O médio Evandro durante um jogo com o Borussia de Dortmund para a Liga Europa, em 2015
Gualter Fatia

Como foi entrar no Futebol Clube do Porto?
Fui muito bem recebido por todos, o Sérgio Oliveira, que está no Brasil agora, e o Gonçalo Paciência, por exemplo, foram espetaculares comigo. Os brasileiros que estavam no clube também foram cinco estrelas. Só tenho coisas boas para falar do meu tempo em Portugal, não apenas no Porto ou no Estoril. Se olhar para o meu histórico no FC Porto, joguei apenas três jogos consecutivos de início. Depois fui sempre suplente e entrava muito. Mas como eu e a minha esposa gostávamos tanto de Portugal e da nossa vida, eu não me chateava. Queria ter renovado.

E não renovou porquê?
No último dia de transferência, o FC Porto queria o Boly, o central do SC Braga, e queria dar-me como moeda de troca. Aí já era o Nuno Espírito Santo o treinador. Se não me engano, era o meu último ano de contrato. Chamaram-me ao Dragão, eu estava sem empresário, fui lá no último dia, e disseram que tinha surgido aquela situação de eu ir para Braga. Mesmo sabendo que eu era a última opção, porque me disseram que havia cinco médios à minha frente, respondi: Não. Eu quero ficar no FC Porto, eu quero ser campeão no FC Porto.

Mas acabou mesmo por sair, para o Hull City.
Chegou um momento que me afastaram para a equipa B, depois de sermos eliminados pelo Chaves na Taça de Portugal. Entretanto, há o contacto para jogar na Premier League.

Evandro (à esquerda) no FC Porto, tenta fugir a Ricardo Valente  do Vitória d Guimarães, em 2016
Evandro (à esquerda) no FC Porto, tenta fugir a Ricardo Valente do Vitória d Guimarães, em 2016
Gualter Fatia

Antes de voarmos já para Inglaterra. Quando entrou no FC Porto o treinador era Lopetegui. Há a ideia de que ele não conseguiu criar uma boa relação com o plantel, com os jogadores. É verdade?
Não é que os jogadores não gostassem dele, mas isso eu também sentia, não havia uma química entre os jogadores. Tínhamos uma equipa muito forte e, no futebol, mesmo com uma equipa muito forte, podes perder, mas percebes que a equipa está a evoluir, está a jogar bem. Mas aquela equipa… Não conseguíamos jogar bem, nem ganhar jogos.

Acha que isso teve mais a ver com os métodos de treino e com a forma de jogar do Lopetegui, ou pela falta de química que havia entre ele e a equipa?
Ambos. O que me recordo é que fazíamos muito treino tático, 10 para 0, e era uma circulação de bola muito para os lados, era uma posse enganosa, eu achava. Era manter a posse de bola, porém, tens de ser agressivo no último terço; mas isso é uma percepção minha.

No FC Porto cumpriu o sonho de jogar a Liga dos Campeões. O que teve de especial?
Aquilo é um sonho. A primeira coisa é que sabes que os melhores jogadores e os melhores treinadores estão a participar e o mundo todo está a ver. Cria-se uma expectativa muito grande. Enfrentas equipas como o Chelsea ou o Real Madrid e quando vai ter um sorteio, gera sempre aquela expectativa: em que grupo eu vou cair? É muito fixe. E tudo é muito bom, as viagens, os estádios, tudo é fantástico.

Conheceu Pinto da Costa. O que recorda dele?
Quando participei a primeira vez na gala do Dragão de Ouro fiquei impressionado com a memória e o raciocínio rápido dele. Impressionava-me muito a maneira como ele dominava a oratória, a liderança, a presença dele. O sucesso que teve não foi à toa. É uma lenda que marcou muito o futebol português e principalmente os portistas.

O brasileiro Evandro Goebel a festejar um golo pelo FC Porto
O brasileiro Evandro Goebel a festejar um golo pelo FC Porto
Kats

Alguma vez foi alvo de praxes ou fizeram-lhe muitas partidas, em Portugal? Lembra-se de alguma história engraçada?
Uma coisa que eu gostava muito, que havia principalmente no Estoril Praia, eram os jantares de equipa. E quando chegava o final da época reuníamos o plantel num restaurante e cada jogador levava uma prenda, mas era uma prenda para zombar o outro. Por exemplo, eu sempre tive muita barba e às vezes eu tinha preguiça e acabei por receber umas Gillettes. Isso aqui no Brasil não tem. Outra cena que eu gostava muito, quando alguém fazia anos levava sempre queijos, presuntos, salames, frango, etc., para o balneário. Eu achava isso muito bom. Aqui no Brasil também não se faz esse tipo de coisas.

Recorda-se de algum jogo ou algum momento em especial da sua passagem pelo FC Porto?
Tem uma cena muito fixe nos quartos de final da Champions, frente ao Bayern. Quando ganhámos o primeiro jogo no Dragão, por 3-1, vamos a Munique e no almoço fiquei a pensar muito durante a refeição que se passássemos naquele dia, estávamos entre os quatro melhores da Champions e nas meias finais. Aquilo para mim foi muito forte. Perceber a grandeza de onde poderíamos ter chegado. Aquela sensação foi muito boa e inesquecível para mim.

Porém, perderam por 6-1 com o Bayern de Munique, na 2.ª mão. Que explicação tem para uma derrota tão pesada?
A única explicação no meu ponto de vista é que quando chegamos aos quartos de final ou meias-finais de uma Champions enfrentamos equipas muito grandes, onde a diferença técnica e tática é evidente. Não foi uma questão do nosso desempenho, foi mais da qualidade do nosso adversário que naquela altura era bem superior a nós, na minha opinião.

Entretanto, voltou a ser pai, certo?
Fui pai da Alice em 2015. Nasceu no Porto, mas também não consegui assistir ao parto porque estávamos na Ilha da Madeira [risos].

“Queria ter ficado no FC Porto, mesmo sabendo que era a última opção. Mas veio uma ordem de cima, acho eu, para me juntar à equipa B”
Kats

Depois do Lopetegui teve como treinador José Peseiro. Com que opinião ficou?
Eu gostei porque passei a jogar um pouco mais com ele. Mas eu achei que o trabalho era bom. Foi curto, mas o pouco que teve foi bom.

E do Nuno Espírito Santo, as memórias também são boas, ou nem por isso?
Uma coisa que gostei muito no Nuno é que quando me chamaram ao Estádio do Dragão para ser moeda de troca com o Boly, o Antero Henrique disse-me: O Nuno tem outros cinco médios à tua frente. Eu disse que queria ficar e lutar pelo meu espaço. Quando voltei para o centro de treino, falei com o Nuno e ele foi muito simpático e disse-me: Evandro, tu és um gajo de quem gosto muito, és muito profissional, a malta aqui gosta muito de ti, só há aquilo que tu já sabes, tens cinco médios à tua frente. Respondi-lhe que ia lutar pelo meu espaço. Chegou uma altura em que perdemos com o Benfica, em casa, eu nem sequer fui convocado, mas estava a treinar muito bem, estava no meu melhor momento, e o Nuno chamou-me: Tu estás a partir o meu treino sempre e eu vou começar a levar-te para os jogos. Foi quando entrei contra o Copenhague, na Champions League; joguei um jogo da Taça da Liga, entrei no jogo contra o Chaves em que fomos eliminados da Taça de Portugal e depois desse jogo veio uma ordem de cima, acho eu, para me juntar à equipa B. Foi o fim do meu ciclo no FC Porto.

Ficou triste?
Fiquei sim, porque eu gostava muito da minha vida no FC Porto, mesmo sendo suplente… A vida social da minha esposa, a escola das meninas, a cidade, o clube, foi o clube onde mais senti um carinho especial com a minha família. Eu só me preocupava em jogar futebol. As meninas amavam o Estádio do Dragão porque tinha um playground para elas brincarem, a minha esposa podia ver o jogo com calma, era muito bom.

Só recebeu a proposta do Hull City ou houve outros clubes interessados em si?
Tive o interesse do Nantes, do Sérgio Conceição. Ele queria a minha contratação. Acabei por escolher Inglaterra por ser a primeira hipótese e o facto de ser a Premier League. Porque o normal aqui no Brasil é esse tipo de mercado aparecer para o jogador que vai à seleção brasileira com 19, 20 anos. Na minha situação era como se ganhasse o Euromilhões, porque já estava com 30 anos. Era uma oportunidade única.

O facto do treinador do Hull City ser o Marco Silva também pesou na decisão?
Esse foi o primeiro factor, sem dúvida.

Em 2016/17, Evandro assinou pelo Hull City
Em 2016/17, Evandro assinou pelo Hull City
Tim Goode - EMPICS

Quando chegou na Inglaterra, qual foi o primeiro impacto?
Para mim foi muito difícil devido à comunicação. Eu não falava nada de inglês, passei a ficar um bocado introvertido e comecei a lesionar-me. Demorei um pouco para adaptar-me, era um jogo muito mais físico.

E um futebol mais direto?
Sim, um futebol direto. Principalmente no Championship, onde joguei na época seguinte, é um futebol que não favorece o meu estilo, mas foi fantástico na mesma. Tanto que eu tenho o sonho de um dia voltar a trabalhar na Inglaterra.

Porquê? Qual a principal razão?
Tem a ver com o futebol. Foi dos lugares onde eu mais sentia o futebol, Inglaterra respira futebol. Lá sentia o ambiente da Champions League todos os fins de semana. Até mesmo no Championship. Os estádios são muito bons, os campos muito bons, é tudo muito bom.

A família adaptou-se bem?
Foi um período complicado para a minha esposa porque Hull é uma cidade com pouca coisa para fazer e por eu estar numa vibe ruim de muitas lesões, acabei por passar esse sentimento para elas. Hoje, quando vemos as fotos e recordamos, sentimos saudades porque vivemos numa casa muito boa, numa espécie de quinta. Comecei a fazer aulas de inglês e percebi que não aproveitei o meu tempo lá como jogador, onde muita gente sonha chegar. Então fiquei com essa vontade de voltar para lá uns aninhos.

Que lesões teve?
Na verdade, não eram lesões graves, mas foram nove ou dez lesões, todas na perna esquerda. Comecei a ter um desequilíbrio muscular muito grande e psicologicamente comecei a ter insónia, a dormir mal. Pensava, se não dormir hoje vou lesionar-me de novo. E foi uma bola de neve.

Pediu ajuda médica?
Sim. O meu irmão falou que o Alexandre Pato, quando veio para o Corinthians, depois do Milan, ele tinha tido 28 lesões musculares e falavam muito do tratamento do recuperador físico Bruno Mazziotti, que trabalhou no Arsenal e na seleção brasileira e hoje está no Valladolid. Enviei-lhe uma mensagem no Instagram. Ele estava no Paris Saint-Germain, na época do Neymar lá. Perguntou se eu conseguia ir a Paris fazer uns exames. Pedi permissão ao clube, eles deixavam fazer tudo desde que eu arcasse com os custos. E foi muito bom, tenho uma relação com ele até hoje. Inclusive, quero fazer uns estágios com ele para saber mais sobre metodologia de treino, carga de treino. Ele resolveu o meu problema.

De que forma?
Foi muito simples. Quando cheguei a Paris, marcámos num ginásio dentro de um hotel. No momento em que fiquei só de calções, ele disse: Evandro, já sei qual é o teu problema. Olha para a tua perna direita. Tu não consegues perceber o quão a tua perna está muito fina? Olha, para a esquerda, ela está a ter uma sobrecarga muito grande. Vamos equilibrar essa musculatura. Ele disse que se eu tivesse um fisioterapeuta para me acompanhar na Inglaterra, ele passava todo o trabalho de ginásio, caso contrário, tinha um colega dele com quem fez mestrado no Brasil com o qual podia falar. Eu disse que fazia com quem ele mandasse. Ele mandou vir o Tiago, que hoje trabalha no Fluminense e ele ficou quatro meses comigo no Hull, a acompanhar o que eu comia, se eu dormia, tudo. Trabalhou da maneira que o Mazziotti mandava e resolveu o meu problema.

Esse desequilíbrio aconteceu porquê, ele explicou?
Ele disse que é um processo inconsciente que o nosso cérebro começa a fazer. Pela falta de velocidade da perna e de musculatura, eu acabava por usar mais a esquerda, mas eu não percebia isso. O que ele me explicou é que quando tu tens uma lesão, se não cuidares bem, a percentagem de teres outra vai crescendo muito. Quando eu cheguei na sétima ou oitava lesão, essa percentagem dobra se não tens um controlo de carga adequado, um trabalho no ginásio. Na Inglaterra, eles já estavam sem muito recursos, sem saber o que fazer comigo. Comecei a ficar muito mal psicologicamente. Isso foi o pior.

Recorreu a algum psicólogo/a?
Também. Nessa altura eu já estava a falar com um psicólogo muito amigo do meu irmão. Fazíamos sessões por videochamada.

O médio brasileiro (à direita) durante um jogo pelo Hull City contra o Sheffield Wednesday
O médio brasileiro (à direita) durante um jogo pelo Hull City contra o Sheffield Wednesday
Chris Vaughan - CameraSport

Quando estava na Premier League, apesar de ter jogado pouco, houve alguma equipa ou algum jogador que o tenha impressionado particularmente?
Vários. Houve uma altura em que jogamos contra o Manchester United, na Taça, fizemos um golo e quando estamos a voltar para o centro para reiniciar o jogo, estava o Ibrahimovic e o Rooney e aquilo para mim foi impressionante. O Ibrahimovic é muito imponente mesmo, uma presença forte. À chegada ao estádio já tinha visto muitos cachecóis do David Beckham e do Alex Ferguson e foi muito marcante. O Pogba estava a jogar também naquele dia. E de repente, estás a jogar contra o Chelsea, de Mourinho.

Quais as principais diferenças entre o Championship e a Premier League?
No Championship o jogo é muito mais direto, mais físico e com menos qualidade.

Qualquer equipa do Championship era capaz de disputar a liderança da I Liga portuguesa, ou não?
Retornando ao período em que eu estava lá: no meu período no FC Porto, fizemos duas pré-épocas em que jogámos contra equipes inglesas. Jogávamos contra o Everton, por exemplo. E a maneira como jogávamos, de pôr a bola no chão, fez com que tivéssemos uma dominância no jogo que parecia que vencíamos sem muito esforço. Mas o Varela, que já havia jogado na Inglaterra, disse que se fosse lá jogar o campeonato ia ver que era muito difícil e realmente percebi isso quando fui para Inglaterra. Só que a ida do Guardiola para a Inglaterra levou a que hoje tu não vejas uma equipa, até mesmo no Championship, que não ponha a bola no chão. Isso mudou muito. Tem muita equipa a jogar bem na Inglaterra. Mudou muito por causa do Guardiola. Por isso, hoje, acho que já há equipas no Championship capazes de disputar a liderança do campeonato português.

Antes de voltarmos ao Brasil, houve algum jogador português que o tenha impressionado enquanto jogou em Portugal?
O Rúben Neves era muito jovem e, além de ser um bom jogador, a mentalidade dele já estava pronta. E isso é muito raro de ver. Quando eu estava no Estoril, o João Moutinho era um jogador que eu admirava muito. Era da minha posição.

Evandro esteve no Hull City duas épocas e meia
Evandro esteve no Hull City duas épocas e meia
Richard Sellers/Allstar

Como foi parar de novo ao Brasil e porquê?
Lembra que eu falei da questão psicológica? O meu contrato estava a acabar na Inglaterra, então nós quisemos voltar para o nosso país. Eu estava com uma idade em que já não conseguia contratos longos. Por isso, quando houve o interesse do Santos, combinei com a minha esposa que ela vinha para Blumenau, também por causa das nossas filhas, para ter mais rotinas, estabilidade, ter contacto com os avós, a família e preparar o futuro. Eu fui para o Santos sozinho.

Foi no Santos que encontrou o segundo treinador que mais o marcou, o Sampaoli.
Foi lá que me entusiasmei de novo com o futebol. Até então eu jamais imaginaria que eu queria voltar a trabalhar com o futebol, principalmente como treinador. Com o Sampaoli, arrisco dizer que aprendi a jogar futebol. De verdade.

O que quer dizer com isso?
Foi com ele que tive o primeiro contacto com o jogo de posição. Quando eu entrava em campo, quando eu ia para o aquecimento, eu pensava: Preciso pegar a bola no pé dos médios, preciso fazer assistências, preciso fazer golo, para ter sucesso. Eu ia buscar a bola muito lá atrás. Ele começou a dizer-me: Não, Evandro. A bola é que tem que vir até ti. Tu não tens de correr atrás da bola. Comecei a posicionar-me melhor. Sabia onde estavam meus companheiros, como ia posicionar. Ele era um treinador que, independentemente de se jogar dentro ou fora de casa, deixava muito claro: As dimensões são as mesmas, a bola é a mesma e nós vamos dominar o jogo. A bola é nossa. Cada vídeo que ele passava, era uma aula de futebol. Eu cheguei ao Santos muito mal fisicamente, sem muita força e muito ritmo, mas joguei praticamente todos os jogos só pelo facto de entender onde tinha de me posicionar e onde o outro jogador ia atacar o espaço.

Regressou ao futebol brasileiro nove anos depois. Estava muito diferente?
Não percebi muita diferença. Mas por ser um país muito grande, já vemos que há muitos treinadores estrangeiros a vir para cá, porque é um mercado atrativo. Há vários jogadores de nome a vir para aqui.

Em 2019, Evandro regressou ao Brasil para jogar no Santos
Em 2019, Evandro regressou ao Brasil para jogar no Santos
D.R.

Na época seguinte não continuou no Santos porquê? Teve a ver com a chegada do Jesualdo Ferreira?
Foi a questão do meu contrato e a pandemia. Isso foi o que acabou por me prejudicar.

Chegou a jogar com Jesualdo Ferreira?
Sim, no estadual. Jogamos alguns jogos.

O que achou dele?
O meu período com o Jesualdo não achei fixe. Não gostei. Como tive aquele encantamento com a maneira dos treinos e estilo de jogo do Sampaoli… Não é que eu achasse o trabalho do Jesualdo mau, mas o que vivi com o Sampaoli foi uma coisa tão forte, abriu-me tanto a cabeça que parece que com qualquer outro eu não me entusiasmava tanto. Tanto é que, a seguir, no Chapecoense também percebi que não ia conseguir encontrar mais aquilo que vivi. Daí comecei a ter o desejo de parar de jogar futebol.

Por que razão deixou o Santos e foi para o Chapecoense?
Veio a pandemia e o meu contrato com o Santos acabou. Não apareceram muitas equipas, é uma verdade. Só a Chapecoense para jogar a final da Série B e acabei por aceitar. Mas joguei muito pouco, tive uma lesão na posterior e percebi que já não estava mais com aquele ritmo e com aquele desejo.

Custou muito tomar essa decisão de pendurar as chuteiras?
Não, não custou nada.

Já sabia o que queria fazer a seguir?
Não. Fui para casa aproveitar a família. Quis ficar um tempo com a minha família, com meus amigos, levar as minhas filhas na escola. Sempre gostei muito de praticar ténis e passei um período a jogar muito ténis. Sempre foi um hobby meu. Quando completou um ano e meio, comecei a ficar incomodado sem rotina. Foi quando comecei a procurar os cursos para voltar a trabalhar com o futebol.

Tinha algum objetivo em mente quando começou a fazer os cursos?
O que ficou para mim muito marcado no meu período com o Sampaoli e no Santos, e esse é o meu objetivo, é o que quero passar quando estiver numa equipa principal, é aquela sensação de conforto. Quando subia para o aquecimento, era tão prazeroso, porque nas outras equipas eu ia muito tenso com a pressão do jogo e de querer desempenhar bem. No aquecimento do Santos eu estava tão feliz, sabia que íamos dominar o jogo, sabia aonde ia posicionar-me. Era uma química tão forte com a equipa. Quando comecei a fazer os cursos, pensei: Eu preciso que os meus jogadores entendam o jogo e desfrutem com a bola. Isso, para mim, ficou muito nítido.

Durante um jogo pelo Santos. Evandro está de branco
Durante um jogo pelo Santos. Evandro está de branco
D.R.

Como se tornou treinador adjunto no Athletico Paranaense?
Foi em agosto de 2023. Primeiro eu fiz um curso de análise de desempenho para ativar contactos e para ver como é que aquilo funcionava. E o Felipe Luiz, que está no Flamengo, com quem joguei na seleção brasileira sub-20 e tive uma relação muito boa, nessa altura já estava a pensar aposentar-se no ano seguinte. Ele sempre teve o desejo de ser treinador. Quando soube do meu desejo também, disse-me: Estás sem trabalho, por que não fazes o curso da UEFA? Porque se surgir uma oportunidade para trabalhares em Portugal, no Japão, em qualquer sítio, essa credencial vale, já a do Brasil, precisas ter muitos anos de experiência numa equipa principal, é mais difícil. Fui fazer a licença B da UEFA, em Londres. Comecei a ativar os meus contactos, falei com o Paulo André, mandei o meu currículo para a formação do Athletico Paranaense e fui espalhando os contactos, no Estoril também. Quando estava em Inglaterra a fazer aulas presenciais, esse coordenador das camadas jovens do Athletico Paranaense disse para ir lá quando voltasse. Assim fiz. Tivemos uma conversa muito boa e ele disse que a próxima vaga era minha. Eu disse: Eu nunca dei um treino, queria começar como adjunto. Passou um mês e pouco e surgiu a oportunidade de treinar os sub-12, ele disse que ia ter profissionais para me ajudar. E foi dessa maneira que comecei como treinador.

E agora?
Depois subi para os sub-13 e no final do ano passado chamei o meu coordenador, disse-lhe que estava preparado e gostava de assumir uma equipa numa categoria acima, um sub-14 ou um sub-17. Quando o treinador dos sub-14 pediu para ir embora, voltei a dizer ao coordenador que estava preparado mas eles disseram que iam contratar outro treinador. Isso deixou-me um pouco chateado. Depois o português João Correia, que veio assumir os sub-20, convidou-me para ser adjunto dele e aceitei. Entretanto, houve um episódio com um jogador da minha equipa, que teve um ato de indisciplina e no dia seguinte foi promovido para a categoria acima. E recentemente, nós iríamos jogar uma competição, com equipas grandes do Brasil, com o São Paulo, Corinthians, e esse coordenador disse-me que o tal jogador, que já não estava na minha equipa, tinha de jogar em São Paulo. Eu disse que não, que o punha como suplente. Ele disse que não podia fazer isso. Tivemos uma conversa mais dura e disse-lhe: Nós somos um clube formador, disciplinador e para mim é muito difícil colocá-lo a jogar, porque ele pontapeou um atleta meu sem bola. No dia seguinte, eu chamei-o para conversar, para entender o porquê da situação e vocês subiram-no de categoria, e agora eu tenho de colocá-lo a jogar? Fica mal perante os meus atletas e o Athletico Paranaense também não compactua dessa ideia. Ele começou a dar as explicações dele, e isso deixou-me muito incomodado.

O que aconteceu depois?
Como entrei na fila de espera para fazer a licença A da UEFA, quero focar-me agora nisso. Estou a tentar fazer em Portugal, mas está difícil. Quero fazer alguns estágios, vou tentar com o Bruno Mazziotti, e daqui a um mês vou estar no Flamengo, com o Filipe Luiz, porque quero tirar algumas dúvidas de tática, de metodologia de treino, temos ideias parecidas e ele é hoje a minha inspiração, o meu mentor. Então, vou focar agora na minha licença A e fazer alguns estágios.

Evandro (1º atrás à direita) com a equipa do Santos
Evandro (1º atrás à direita) com a equipa do Santos
D.R.

O objetivo é ser treinador principal de uma equipa profissional?
É.

Onde ganhou mais dinheiro em toda a carreira?
Em Inglaterra.

Deu para investir?
Mais em imobiliário, inclusive ainda tenho em Portugal algumas coisas.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Em Inglaterra comprei um X5.

Além do ténis que outro hobby tem?
Leio muito.

É um homem de fé?
Acredito em Deus. Fui criado na Igreja Adventista. Não tenho praticado muito, mas considero-me cristão.

Superstições tem ou teve?
Não.

Tatuagens?
Não. Minha esposa tem sete, mas eu tenho muito medo de agulha [risos].

Qual a maior frustração que tem na carreira de jogador?
Uma coisa que me dói muito é que sempre cheguei muito perto de conquistar grandes competições, mas nunca fui campeão de um torneio importante, de uma competição. Não é uma coisa que me incomoda, mas fiquei frustrado com isso.

E o maior arrependimento?
Eu estava num momento tão bom no Goiás, eles queriam renovar, mas o convite do Palmeiras falou mais alto, só que eu não estava preparado. Talvez seja o arrependimento.

O momento mais feliz da carreira?
Sem dúvida foi a realização do sonho de disputar vários jogos da Champions League e jogar numa equipa como o FC Porto.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
O Barcelona. Sou um adepto muito forte do estilo do Guardiola. Onde o Guardiola está a trabalhar, estou sempre a acompanhar.

Tem ou teve alguma alcunha?
A minha família aqui no Brasil chamam-me de “Vado”.

O médio brasileiro ainda jogou no Chapecoense em 2020
O médio brasileiro ainda jogou no Chapecoense em 2020
D.R.

Alguma regra do futebol que se pudesse alterava, ou bania?
Essa coisa dos guarda-redes demorarem com a bola na mão incomodava-me, mas já alteraram.

Qual o adversário mais difícil que enfrentou?
As equipas do Guardiola. Mas a do Bayern... foi um massacre muito grande lá na Alemanha. Fiquei impressionado com a qualidade do Thiago Alcântara.

Tem algum talento escondido?
Há uma coisa que estou a perceber que sou bom e preciso usar mais a meu favor. Sempre tive uma liderança positiva, porém muito calado. Agora, como treinador, sou o líder máximo da equipa, então fiz há pouco tempo um curso de oratória para comunicar mais. Acho que tenho uma boa liderança, mas preciso ser mais comunicativo.

Se não tivesse sido jogador de futebol e agora treinador, o que teria sido?
Quando o meu pai levou-me para fazer os testes, eu estava a destacar-me muito no ténis, por isso, talvez fosse um jogador de ténis. Gosto muito de ténis.

Tem algum jogador predileto?
O Roger Federer. Da atualidade, estou encantado com o Alcaraz. E o nosso brasileiro, o Fonseca.

Qual o momento mais difícil porque passou na vida?
Foi o período das lesões em Inglaterra, acredito que estava até com uma pequena depressão.

Disse que os treinadores de que mais gostou foi o Marco Silva e o Sampaoli. O que os diferenciava?
O Marco Silva tem uma maestria enorme em ser muito racional e não emocional, algo que acho muito difícil. E é uma coisa que preciso melhorar. Ele está sempre muito lúcido nas mudanças. Não deixa a emoção tomar conta. E o Sampaoli é a maneira de treinar e o domínio de jogo. Mas a forma dele gerir o grupo, não gostei muito. Acho que ele só não está hoje numa equipa grande na Europa pela forma dele liderar. E eu sei que posso ser bom nisso, criar um ambiente agradável, ter os jogadores comigo.

 

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Hélder Ferreira

Spoiler

“O Benfica foi ao meu bairro para levar-me, mas não estive no Seixal um mês. Chorava e pedia para ir embora. O Vitória aceitou-me de volta”

Hélder Ferreira, 28 anos, cresceu num bairro social onde diz ter aprendido que a vida tem de ser feita a pulso e nada cai do céu. Aos 11 anos entrou para o Vitória, dois anos depois o Benfica levou-o para o Seixal, mas as saudades de casa foram mais fortes. Regressou a Guimarães, onde acabou por fazer toda a formação, num percurso no qual o papel de uma família de adeptos vitorianos foi crucial no futuro do jovem avançado, que está perto de sagrar-se campeão pela primeira vez enquanto profissional

Nasceu em Guimarães, mas cresceu em Fafe. O que faziam os seus pais profissionalmente?
A minha mãe sempre trabalhou nas limpezas e o meu pai trabalhava nos camiões do lixo.

Tem irmãos?
Tenho quatro irmãos mais novos, mas não são todos do mesmo pai e da mesma mãe.

Qual a primeira memória de infância que tem?
Jogar à bola com os meus amigos no bairro, num campo que ainda existe, mas que antigamente era de terra. Temos histórias engraçadas porque no meu bairro havia muita gente da etnia cigana e eles levavam para lá os cavalos, faziam festas e nós tínhamos de andar a limpar aquilo tudo com vassouras para jogar à bola [risos].

Cresceu num bairro social?
Sim. Foi bom, vivenciam-se muitas coisas, ajuda-te para o futuro, sabes que tens de crescer e fazer a vida a pulso, porque nada vai cair do céu.

Qual foi a pior situação a que assistiu no bairro?
Uma altura em que era muito novo, estava a sair de casa para ir para a escola e o bairro estava rodeado de polícias. Estavam a fazer uma rusga e foi um choque para mim, nunca tinha assistido a nada daquilo.

Hélder Ferreira com o guarda-redes Neno, iniciou o seu percurso no Vitória, aos 11 anos
Hélder Ferreira com o guarda-redes Neno, iniciou o seu percurso no Vitória, aos 11 anos
D.R.

Foi uma criança tranquila ou deu muitas dores de cabeça?
Tranquilo. Quando eu começava a ficar mais chatinho os meus pais levavam-me a dar uma volta de carro e acabava por adormecer.

Sempre quis ser jogador de futebol?
Os meus pais dizem que sim. O meu pai jogou futebol amador, foi guarda-redes e mais tarde jogou também como avançado, mas sempre amador.

Gostava da escola?
Não gostava muito. Quando eram os intervalos e aulas de educação física, gostava [risos]. De resto, não ligava muito.

Em pequeno torcia por que clube e quem eram os seus ídolos?
Pelo Sporting e o meu ídolo era o Rochemback, até me chamava de Rockembach. Mas o meu ídolo maior, de sempre, pelo qual dou, entre aspas, a minha vida, é o Cristiano Ronaldo.

O avançado te uma breve passagem pelo Benfica, não aguentou as saudades de casa
O avançado te uma breve passagem pelo Benfica, não aguentou as saudades de casa
D.R.

Quando e como foi jogar pela primeira vez para um clube?
Com sete/oito anos eu era apanha-bolas no Fafe, ia ver os jogos dos seniores. Ia todos os fins de semana. Um dia, jogava uma equipa de outro escalão, cujo nome não me lembro, a quem faltavam jogadores. Eu tinha ido ver esse jogo e havia um senhor que foi guarda-redes muitos anos, o Fangueiro, que me perguntou se eu queria jogar. Eu disse que gostava, mas que não tinha chuteiras, nem equipamento. Ele disse: "Não há problema, nós arranjamos." Fiquei todo contente. Joguei de sapatilhas esse jogo, porque não tinham chuteiras do meu tamanho. Joguei como avançado, perdemos 3-2 e por acaso marquei os dois golos.

E depois?
O senhor convidou-me para ir fazer treinos de captação ao Fafe a ver se gostavam de mim. Fui, gostaram e fiquei. Só que não tinham um escalão da minha idade, por isso fui jogar num escalão mais acima. Eu ia aos treinos, mas nunca era convocado e chegava a casa a chorar. Era miúdo, queria jogar. O meu pai disse-me que me ia levar ao Vitória de Guimarães.

E levou?
Levou. Fiz uma semana de treinos e na semana seguinte os diretores chamaram-me. Queriam falar comigo e com o meu pai, para eu ficar no clube. Tinha uns 11 anos. Fiquei 12 anos no Vitória.

Hélder (no centro) com a família Mora, que segundo ele tem uma marca importante na sua vida
Hélder (no centro) com a família Mora, que segundo ele tem uma marca importante na sua vida
D.R.

Mas pelo meio não teve uma passagem no Benfica?
Sim. O Benfica contactou o meu pai, foram ao meu bairro para me levar, acho que tinha uns 13 anos. Só que era muito jovem, foi um momento muito difícil. Fui para o Seixal, mas todos os dias ligava os meus pais a pedir para irem buscar-me, queria vir embora.

Eram só as saudades ou assustava-o a grandeza do Benfica?
Talvez também, na altura tinha o Benfica e o Sporting interessados em mim, só que o Benfica fez uma proposta muito boa financeiramente. Com aquela idade já recebia dinheiro.

Quanto recebia?
Eram €1500/mês, o dinheiro supostamente ia para uma conta, mas acabei por não receber porque só fiquei lá um mês, nem isso. Estava sempre a ligar aos meus pais, queria ir embora. Não me adaptei e, graças a Deus, o Vitória aceitou-me de volta.

O presidente do Vitória Júlio Mendes (à esquerda) cumprimenta Hélder Ferreira por ter sido campeão nacional de juniores B
O presidente do Vitória Júlio Mendes (à esquerda) cumprimenta Hélder Ferreira por ter sido campeão nacional de juniores B
D.R.

Quais os momentos e as pessoas mais marcantes na formação?
O Vitória desde os escalões dos mais novos até à equipa principal é como uma família, toda a gente trata bem toda a gente, no geral todas as pessoas foram marcantes. Mas, a primeira vez que fui fazer captações houve uma família que foi crucial na minha vida e no meu futuro. Quando lá cheguei não tinha equipamento, não tinha nada e essa família, a família Mora, ajudou-me muito. Tinha um colega que jogava comigo, o Zé Mora, e os pais dele sabiam que eu tinha muitas dificuldades e tentaram ajudar-me em tudo [emociona-se]. Eu ia muitas vezes para casa deles e ficava lá a dormir dias e dias. Essa família, além de dois filhos biológicos, tinha um filho adotivo no bairro onde vivi muitos anos e, foi destino e coincidência, porque quando eles iam buscar esse filho adotivo também me levavam para casa deles, porque felizmente tinham recursos.

Quando fala das muitas dificuldades que tinha, refere-se em concreto a quê?
Era tudo, financeiramente, em casa também tinha muitos problemas, assisti a muitas confusões, custou muito [emociona-se]... Mas, graças a Deus, hoje as coisas estão bem melhores e acho que estes momentos fizeram com que eu fosse uma pessoa melhor e mais forte também. Mas essa família foi fundamental na minha vida.

A separação dos seus pais foi traumatizante?
Foi complicado. No início o meu pai não deixava que tivéssemos contacto com a minha mãe, depois foram para tribunal e acabámos por ficar com a minha mãe porque o meu pai percebeu que não tinha condições para nos manter. Entretanto, como comecei a jogar no Vitória e não havia muitas condições, a minha mãe acabou por emigrar com a minha irmã e com o meu padrasto. Nessa altura fiquei com os meus avós.

Mimito, Hélder Ferreira, Kiko Rodrigues e Denis Martins com o trofeu do Torneio de La Manga, realizado em Espanha
Mimito, Hélder Ferreira, Kiko Rodrigues e Denis Martins com o trofeu do Torneio de La Manga, realizado em Espanha
D.R.

Quando assinou o primeiro contrato profissional?
Foi no ano seguinte a ser campeão de juvenis, um título que o Vitória ainda não tinha. O grupo que criámos foi importante, ainda hoje temos contacto uns com os outros e encontramo-nos. Na altura ganhava cerca de €700.

Lembra-se do que fez com o primeiro dinheiro que ganhou?
Já não me lembro muito bem. Quando assinei o meu contrato profissional era menor de idade ainda, os meus pais tiveram de assinar também e na altura até fui viver para a casa de uma senhora, a Dona Rosa. O filho dela trabalhava para os meus empresários, para a empresa do Fernando Meira. Como a minha mãe estava emigrada e o meu pai não tinha muitas condições, acabei por ir viver para a casa dessa senhora. Tinha 16/17 anos.

Ainda estudava?
Sim, passei a estudar à noite. Mas só fiz o 9.º ano.

Com 16, 17 anos qual era a sua maior ambição?
Se falar com o coração, claro que queria jogar no Sporting, mas naquele momento eu só pensava em chegar à equipa principal do Vitória e um dia poder representar o nosso país. Depois de tantos anos no Vitória e depois daquele momento em que fui para o Benfica e eles aceitaram-me de volta, sentia que tinha de retribuir, entre aspas, ao Vitória e chegar à equipa principal.

A seleção de Sub 20 que disputou o Mundial de 2017 e para a qual Hélder (3ª à esquerda em pé) foi convocado à última hora
A seleção de Sub 20 que disputou o Mundial de 2017 e para a qual Hélder (3ª à esquerda em pé) foi convocado à última hora
D.R.

Recorda-se da primeira vez que foi chamado para treinar com a equipa A?
Sim, fomos vários jogadores, era Rui Vitória o treinador. Mas só fui mesmo treinar. Fiquei todo contente por estar no meio de tantos jogadores como o Ricardo Ferreira, Tomané, etc., foi muito bom.

Entretanto, já estava na equipa B.
Sim, logo desde o primeiro ano de júnior. O treinador era o Vítor Campelos. Eu já ia com frequência treinar com a equipa B, com muitos colegas, porque o Vitória gosta de apostar na formação. Um dia o mister veio falar comigo e perguntou-me se preferia ir jogar nos juniores ou ser convocado para a equipa B? Disse-lhe que preferia ser convocado para a equipa B. Julgo que o primeiro jogo foi contra o Feirense. Aí, sim, estava um pouco nervoso porque já eram jogos a valer e tremi um bocadinho. Lembro-me que o primeiro jogo em que entrei efetivamente foi contra a equipa B do Benfica, num dia muito marcante e inesquecível porque foi quando faleceu o nosso amigo Diogo, num acidente de carro. Foi um choque grande. Fizemos uma homenagem nesse jogo. Acabei por entrar e fiz um golo.

Já namorava?
Comecei a namorar quando era júnior. Fui sair à noite com a equipa e um colega meu que já conhecia a Marina, no fim da noite veio dizer-me que ela tinha gostado de mim e perguntado quem eu era. No dia a seguir fui ao Instagram pesquisar, meti-lhe dois gostos e começámos a falar. Com 18 anos fui partilhar casa com o Kiko Rodrigues, em Guimarães.

Gostava das saídas à noite?
Claro que quando se é miúdo toda a gente gosta. Mas o meu pai não me deixava abusar, quando ia com os meus amigos para o café, à meia-noite já me estava a ligar para eu ir para casa.

Quando se estreou na equipa principal do Vitória?
Foi no ano a seguir a ir ao Mundial com a seleção de sub-20, na Coreia. Quando cheguei fui fazer a pré-época com a equipa principal. O treinador era o Pedro Martins.

A primeira chamada a uma seleção aconteceu quando?
Por volta dos 16 anos. Infelizmente só fui chamado a esse Mundial devido à lesão de um colega. Às duas da manhã, estava a dormir e liga-me o treinador Emílio Peixe. Acordei um bocado estremunhado, ele diz que eu tinha de estar às seis horas em Lisboa, porque iam partir para a Coreia e tinha-me convocado porque houve uma lesão de um colega. Parecia um sonho. Um elemento do Vitória que já estava a par da situação pegou em mim por volta das quatro da manhã e fomos sempre a abrir até Lisboa.

Chegou a jogar no Mundial?
Sim. No primeiro jogo que fizemos contra a Zâmbia, entrei e fiz golo.

Gostou do ambiente na seleção?
É incrível, é uma família. E saber que estão milhares e milhares de portugueses a apoiar-nos é muito bonito. O ponto mais alto da carreira de um jogador é representar a seleção portuguesa. Mantenho contacto com muitos jogadores dessa geração, o Rúben Dias, Diogo Dalot, Diogo Costa, etc. Quando estive no Chipre, o ano passado, o Manchester United foi lá jogar contra o Omonia e fui ter com Dalot ao hotel, estive lá um bocado a falar com ele. Aqui há uns tempos também falei com o Rúben Dias, pedi-lhe uma camisola porque faço coleção. Quando jogava no Paços de Ferreira, ele enviou-me pelo correio uma camisola autografada do Manchester City. Lembro-me que nesse Mundial de sub-20 passava muito tempo com o Pêpê Rodrigues a jogar porque ele levou o computador e eu ainda não tinha.

O avançado (à esquerda) com três irmãs, a mãe e o padrasto
O avançado (à esquerda) com três irmãs, a mãe e o padrasto
D.R.

O que achou de Pedro Martins como treinador?
Ainda há uns tempos fomos fazer um estágio ao Catar e fui ter com ele para lhe agradecer, por ter apostado em mim e me estreado. No geral aprendi com todos e cresci com todos, mas acho que ele foi muito importante, porque chegares a uma equipa principal e meterem-te logo a jogar é um momento-chave para o teu futuro.

Sente que foi com ele com quem mais aprendeu?
Toda a gente tem os seus pontos bons e aprendi com todos, mas. para mim, o treinador com quem mais aprendi, não quer dizer que seja o melhor, ou o pior, foi o Luís Castro, no ano seguinte, apesar de não ter jogado muito com ele. Ele mostrou o que é jogar à Guardiola, muito mais com bola do que sem bola. O posicionamento no campo, as linhas de espaço que deves dar, ou não, aprendi muito com ele nesse aspeto. E também com os jogadores que a equipa tinha, porque era recheada de craques, o que torna as coisas mais fáceis.

No ano em que se estreou com o Pedro Martins, ele não ficou até ao fim, ainda teve como treinadores o Vítor Campelo e o José Peseiro. O que pode dizer sobre cada um?
O Campelo já me tinha treinado na equipa B do Vitória, e também é um treinador que vai muito ao pormenor taticamente. Não consigo dizer muito sobre o Peseiro porque nessa altura eu intercalava entre a equipa B e a equipa A. Ele entrou numa fase e num contexto mais difícil, mas foi um treinador com quem também aprendi bastante nos treinos, a motivação, o currículo dele fala por si.

Hélder Ferreira (atrás, no meio) no seu jogo de estreia pelo Vitória, com a equipa que disputou a Supertaça de 2017
Hélder Ferreira (atrás, no meio) no seu jogo de estreia pelo Vitória, com a equipa que disputou a Supertaça de 2017
D.R.

Quando subiu a sénior qual era o avançado com quem se identificava mais na forma de jogar?
O Marco Reus.

Antes de passarmos ao Paços de Ferreira, deve ter muitas histórias para contar do Vitória…
A mais marcante foi quando os adeptos invadiram o treino, quando Pedro Martins foi embora. Eu estava no treino e assustei-me. Estávamos a fazer um joguinho lúdico, com as mãos, e começámos a ouvir vozes a berrar, vindas do túnel. Parámos, e quando olhamos vimos alguns adeptos a entrar no campo. Começaram a atirar tochas de fumo e disseram para pararmos o treino. Depois vieram falar connosco. Começámos a trocar umas ideias e no final ainda houve confusão.

Andou lá metido no meio?
Não, como que era miúdo e eles já me conheciam, houve um que me disse: "Anda para aqui para o canto." A mim não me fizeram nada.

Hélder com a mulher (no centro) o pai e dois dos quatro irmãos do avançado
Hélder com a mulher (no centro) o pai e dois dos quatro irmãos do avançado
D.R.

Ainda não disse qual foi o seu jogo de estreia pela equipa principal.
O primeiro jogo como sénior foi na Supertaça, contra o Benfica.

Ficou nervoso?
Fiquei, porque não esperava jogar. Quando ele disse o meu nome, fiquei nervoso. Logo uma Supertaça, a titular. Por acaso correu-me bem, até fiz uma assistência para o Raphinha. Para o campeonato o primeiro jogo acho que foi em casa, mas não me lembro contra quem.

Jogou na Liga Europa?
Sim. Foi um momento muito especial, ainda por cima poder estar em campo por um clube onde estive 12 anos.

 

Spoiler

“Estava muito reticente em vir para a Arménia, até que um dia o Luís Figo ligou-me e disse que não me ia faltar nada. Convenceu-me”

Hélder Ferreira está à beira de tornar-se campeão da Arménia, pelo FC Noah, sob o comando do treinador português Rui Mota. Nesta segunda parte do Casa às Costas, o avançado conta porque passou do Vitória de Guimarães, onde esteve 12 anos, para o Paços de Ferreira e como tem sido a sua vida desde que em 2022 saiu de Portugal, primeiro para jogar em Chipre e depois na Arménia

Como foi parar ao Paços de Ferreira na época 2019/20, após quase 12 anos no Vitória?
Através dos meus empresários. O treinador, o Filó, mostrou interesse em que eu fosse para lá, eu também queria uma nova experiência e tentar afirmar-me na I Liga. O Paços ajudou-me bastante nisso, proporcionou-me coisas muito boas.

Teve de mudar de casa. Já vivia com a sua atual mulher?
É precisamente nessa altura que começamos a viver juntos. Ela trabalhava numa loja de roupa perto de casa dela, mas deixou para ir viver comigo.

Foi praxado quando chegou ao Paços?
Não, só aquela cena do túnel e de cantar. Acho que cantei Xutos e Pontapés [risos].

Encontrou um balneário muito diferente do Vitória?
Não, eram idênticos. Se calhar no Vitória havia mais craques, entre aspas, com nomes maiores, mas fui sempre bem tratado por todos.

Houve algum colega com quem tenha feito amizade de imediato?
No primeiro ano foi com o Baixinho, o Oleg, o Ricardo, guarda-redes; depois veio o Adriano Castanheira e o Amaral. Com estes dois últimos é com quem talvez mantenha maior contacto. Fui um felizardo por apanhar pessoas tão boas.

Dessa época, o que mais recorda?
Foi um ano bastante complicado porque lutámos até ao fim para não descer. Por isso acho que o mais marcante foi a festa que fizemos por termos cumprido o objetivo do clube.

Em janeiro mudaram de treinador, entrou o Pepa. Foi o ponto de viragem?
Sim, foi um treinador que me ajudou bastante a crescer e a afirmar-me na I Liga. Em termos de discurso e de moralizar a equipa é muito bom e acho que foi o ponto-chave para conseguirmos virar e mantermos o clube na I Liga. Entretanto, na época seguinte veio a covid-19, mas nesse ano fizemos uma equipa ótima, um grupo top, foi quando conseguimos apurar para o play-off da Conference League.

Pessoalmente, como foi atravessar o período de covid-19 e do confinamento?
Foi difícil, estávamos habituados a ter uma rotina de treino e de repente era tudo uma incógnita. E ter de ficar em casa sempre fechado, não poder sair, não foi fácil. Fazia treinos em casa com a minha mulher, íamos dar umas caminhadas, jogava Playstation.

O avançado durante um jogo pelo Paços de Ferreira
O avançado durante um jogo pelo Paços de Ferreira
D.R.

Nas três épocas que esteve no Paços Ferreira, quais foram os momentos mais marcantes?
Foi o ano em que conseguimos ir à Conference League. Outro momento marcante foi quando fui embora do clube.

Porque saiu?
Recebi uma proposta do Anorthosis, de Chipre, que em termos financeiros foi muito aliciante. Sabemos que a realidade financeira de muitas equipas em Portugal não é a mesma desses países e precisava de organizar a minha vida e o meu futuro.

O Paços mostrou interesse em continuar consigo?
Sim. O mister César Peixoto queria muito que eu ficasse. Ainda estive reticente em aceitar a proposta, mas o Anorthosis aumentou novamente a proposta e tive de aceitar.

Está arrependido dessa decisão?
Não, não me arrependo das decisões que tomei. Claro que jogar no teu país e com a qualidade que tem o nosso campeonato é muito melhor, mas fora também vivi experiências muito boas, como a que estou a ter agora. Além de crescer como pessoa e como jogador.

Jogar fora era algo que já ambicionava?
Sim.

Antes de avançarmos para o Chipre, não tem nenhum episódio divertido para contar do Paços de Ferreira?
O momento mais engraçado que me lembro foi quando apurámos para a Conference League e o Fernando Fonseca, um amigo para a vida, resolveu aparecer vestido com uma espécie de fato de banho e uma cabeleira, a distribuir medalhas a toda a gente. Há um vídeo disso que posso mandar, o momento é hilariante.

Como foi o primeiro impacto em Chipre?
Foi bom. Não sabia muito sobre o país, mas o meu empresário já tinha jogado em Chipre, falou-me do país, da cultura, dos costumes, do campeonato. Quando cheguei, gostei do país e do clima, o campeonato também é competitivo, mas vivi momentos difíceis no clube.

Que momentos foram esses?
A adaptação foi um pouco difícil porque não falava muito bem inglês. O que me valeu é ter portugueses na equipa. O [Marco] Baixinho foi comigo e havia mais dois ou três portugueses que me ajudaram nesse aspeto, mas foi um bocado complicado no início. Depois o clube deixou de pagar no último ano. Estive os últimos oito meses sem receber salário.

Como se aguentou tanto tempo sem receber? Foi às poupanças?
Graças a Deus, a minha mulher ajudou-me muito, fomos muito poupados e não tivemos problemas.

Ela trabalhou em Chipre?
Desde que fomos para o Chipre que deixou de trabalhar. Mas quando fomos para Paços procurou um emprego e trabalho. Ela não gosta de estar parada e às vezes até diz na brincadeira que não gosta de viver à custa do meu dinheiro.

Entretanto, já recebeu esse dinheiro em atraso?
Estamos em tribunal.

Na época 2022/23, Hélder foi jogar para o Anorthosis de Chipre
Na época 2022/23, Hélder foi jogar para o Anorthosis de Chipre
D.R.

Como era o ambiente no balneário? Muito diferente do português?
A vivência é diferente. Acaba-se por criar pequenos grupos. Os portugueses juntavam-se mais, o que é normal porque falamos todos a mesma língua.

O dia a dia também era diferente daquele que tinha em Portugal?
Era igual. Lá podia aproveitar mais as praias porque o clima é bastante bom e têm praias maravilhosas. A cultura de treino era idêntica. No segundo ano o treinador era espanhol, o método era parecido ao nosso e acabámos por fazer uma época melhor do que a primeira. Até deixarem de pagar estávamos bem, em 1.º lugar, a lutar com o APOEL, que foi o campeão, com o mister Sá Pinto. Quando deixaram de cumprir com o que diziam a equipa mentalmente foi abaixo.

Tem histórias para contar do Chipre?
Tal como já tinha vivido no Vitória, também houve uma invasão num treino porque os adeptos são muito fervorosos. O Anorthosis tem uma massa adepta muito boa e como estávamos a passar uma fase menos boa, na primeira época, foram e lá tivemos uma conversa, mas não houve agressões. Lembrei-me de outra história.

Força.
Num estágio que tivemos na Polónia, já quase no último dia. Juntámo-nos todos num quarto e no meio da brincadeira houve um colchão que foi janela fora do hotel, estava a chover [risos].

Durante um jogo, em Chipre, o árbitro deixou cair o cartão amarelo e Helder agarrou nele e mostrou-o na brincadeira ao árbitro, antes de devolvê-lo
Durante um jogo, em Chipre, o árbitro deixou cair o cartão amarelo e Helder agarrou nele e mostrou-o na brincadeira ao árbitro, antes de devolvê-lo
D.R.

Acabou por sair do Chipre para a Arménia, Como e porquê?
O Adriano Castanheira, um amigo/irmão que tenho para a vida, estava na Arménia e mantemos contacto, as nossas mulheres dão-se bem também. Como de Chipre à Arménia é uma hora e meia de voo, em novembro viemos visitá-los. Estivemos aqui dois, três dias e gostámos bastante do centro de Yerevan, mas nunca na vida me passou pela cabeça que houvesse a possibilidade de vir para cá. Quando acabou o contrato eu fui embora mais cedo do Chipre e um preparador físico que apanhei na equipa B do Vitória contactou-me e disse que o FC Noah da Arménia estava interessado em mim. O clube também entrou em contacto com o Meira, e o Meira é que negociou. Mas no início eu estava muito reticente.

Porquê?
Eu vi alguns jogos do Adriano e achava que o FC Noah não tinha tantas condições como as que o clube me propôs. Também estava a ver se arranjava outro clube no Chipre, estava interessado em continuar lá mas noutro clube, por ser perto de Portugal .

O que o fez mudar de ideias?
O Paulo Leitão e o Paulo Moreira, que já estavam no clube, mostraram o projeto e as condições do clube, mas mesmo assim eu continuava um pouco reticente, até que um dia estou em casa, o Meira liga-me e diz: "Tenho aqui uma pessoa que quer falar contigo." Era o Figo. Eu nem queria acreditar que o Figo queria falar comigo.

Porquê o Luís Figo?
Ele é uma espécie de embaixador da empresa do presidente. Falou comigo, disse-me que o presidente dava-nos grandes condições, que já tinha estado cá e que a cidade era boa e não me iria faltar nada. Convenceu-me, acabei por aceitar. As condições que o clube me oferecia também eram melhores que as do Chipre.

Diogo Dalot e Hélder Ferreira
Diogo Dalot e Hélder Ferreira
D.R.

E o treinador Rui Mota, conhecia-o?
Não. O mister teve um papel fundamental na formação da equipa, na mística que incutiu no grupo, porque nunca deixou que deixássemos de acreditar que isto fosse possível. A liderança dele tem sido fundamental.

Como é o campeonato? De um nível superior ou inferior ao de Chipre?
No geral, em termos de equipas, acho que é inferior, mas as condições que temos no Noah e a equipa que o mister criou, a forma como a equipa joga e como dá tudo em campo, acho que se jogássemos contra qualquer equipa do Chipre ia ser um bom jogo e bem disputado. Jogámos contra o Apoel e fomos superiores, mas infelizmente fomos infelizes nesse jogo porque fizemos o 2-1, mas o golo foi anulado porque tinha batido na mão de um colega nosso. Se tivéssemos feito o 2-1, acho que conseguíamos a vitória e quem sabe também passar a fase de grupos da Liga da Conferência.

Como foi a vossa adaptação à Arménia? Mais fácil do que ao Chipre?
Aqui é um bocadinho mais difícil no que toca ao envolvimento com as pessoas, porque a maioria das pessoas não fala inglês, a segunda língua é o russo. Outra coisa estranha aqui é que quando vamos para o treino, por exemplo, vemos pessoas encostadas à valeta, acidentes e coisas a arder. Há muitos acidentes. Eles são um bocado extravagantes a conduzir.

Qual é a sua ambição depois da Arménia? Como se projeta?
Atualmente não tenho nada em mente. O meu grande objetivo, do clube, colegas e equipa técnica, é sermos campeões. O clube ainda não foi campeão e é um objetivo que tem desde que foi fundado, apesar de ser um clube recente. Nunca fui campeão desde que sou profissional, por isso acho que vai ser marcante.

O empresário Fernando Meira e Hélder no dia em que o avançado assinou pelo FC Noah
O empresário Fernando Meira e Hélder no dia em que o avançado assinou pelo FC Noah
D.R.

Tem alguma história engraçada para contar da Arménia?
Um dia tivemos um jogo à noite e, depois do jogo, eu e o Gonçalo [Silva] e as nossas mulheres fomos jantar no centro da cidade e após o jantar fui cortar o cabelo, mas já ficava um pouco tarde. Como estou sempre a pregar partidas à equipa técnica do Noah, coisas simples, do género “olha, deixaste cair ali um papel” e não está lá nada, eles combinaram com o mister pregar-me uma partida também.

O que fizeram?
O barbeiro pôs uma foto minha nas redes sociais já tarde, mostraram ao mister e no dia a seguir no treino o mister chamou-me e disse: “Vimos uma foto tua a uma hora que já não é adequada para estares na rua, por isso vamos ter que te multar e esse comportamento vai ter mais consequências.” Fiquei assustado, disse que aquela foto não foi bem aquela hora e disse que tinha o Gonçalo como testemunha. Só que já tinham combinado com o Gonçalo para ele desmentir-me e “entregar-me” [risos]. Só que eu não sabia. O mister disse para eu ir chamar o Gonçalo e quando ele chegou, disse que não sabia o que eu tinha ido fazer a seguir ao jantar, fiquei ainda mais em pânico, o mister começou a dizer que o meu comportamento ia ter consequências, eu cada vez mais aflito, comecei a tremer… E, de repente, começaram todos a rir e o mister acabou por dizer que estava a brincar.

Hélder (à esquerda) e a mulher (à direita), com aos sogros (atrás à esquerda) e os cunhados (no centro)
Hélder (à esquerda) e a mulher (à direita), com aos sogros (atrás à esquerda) e os cunhados (no centro)
D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
Aqui no FC Noah.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Não digo que foi extravagância, mas era uma coisa que eu gostava de ter e graças a Deus tive condições para isso, comprei o meu primeiro relógio Rolex.

Acredita em Deus?
Sim, mas não sou muito praticante. Às vezes faço as minhas rezas e todos os anos faço uma caminhada de Braga a São Bentinho a pé, eu e a minha namorada. Acho que é a minha missão com Deus também.

Superstições, tem?
De vez em quando. Nesta fase faço sempre os jogos com um santinho na meia.

Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando?
Tinha 17 anos e foi um terço e uma rosa. De lá para cá já fiz várias, tenho um braço todo tatuado.

Alguma mais importante?
Cada uma tem a sua importância, mas se calhar uma que tenho com a minha mulher e a data de nascimento dos meus pais e dos meus irmãos são as mais importantes; também tenho o meu número de estreia, o 22, com que procuro sempre jogar.

Tem algum hobby?
Jogar PlayStation. Jogo Call of Duty e o Fortnite.

João Félix e Hélder Ferreira
João Félix e Hélder Ferreira
D.R.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Acompanho, mas praticar, não. Acompanho futsal, ténis, basquetebol, F1, vejo um bocado de tudo.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Nunca ter ganhado um título enquanto sénior.

E o maior arrependimento?
Nenhum.

O momento mais feliz na carreira?
A estreia pelo Vitória.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Real Madrid.

Quais são as maiores amizades que fez no futebol?
Tenho bastantes. Amaral, Castanheira, Baixinho, Gonçalo Silva, etc.

Hélder (à esquerda) conta ser campeão da Arménia esta época 2024/25, pelo FC Noah
Hélder (à esquerda) conta ser campeão da Arménia esta época 2024/25, pelo FC Noah
D.R.

Tem ou teve alguma alcunha?
Quando era miúdo, no bairro onde cresci, chamavam-me “visolho” e “tigelas”. “Visolho”, não sei bem a explicação, mas foi um tio que já faleceu que me pôs. Tigelas porque a família do meu pai é apelidada por Tigelas. Mas as pessoas da minha familia materna, algumas tratam-me por tripa porque o meu avô tinha esse apelido.

Alguma lei do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Acho que não.

Tem algum talento escondido?
Jogar às cartas. Sou muito bom no Rami [Rummy].

Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
O Chelsea e o Tottenham. Se falar de jogador, foi o Disasi, do Chelsea. E em Portugal o Grimaldo, o Pedro Porro e o Nuno Mendes.

Se não fosse jogador, o que teria sido?
Não faço a mínima ideia. Mas se calhar gostava de alguma coisa ligada ao desporto. Se calhar trabalhar com alguma agência de empresários.

Qual foi a pior coisa que um treinador já lhe fez ou que viu fazer?
A pior coisa que um treinador pode fazer é não ser sincero.

Esta é a última que faltava

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Acácio Santos

Spoiler

“Após o primeiro jogo à frente de uma equipa sénior, escrevi na bola assinada pelos jogadores: o meu objetivo é ser treinador do Barcelona"

Acácio Santos, 44 anos, quis ser jogador e tinha o sonho de jogar no Euro 2004, mas uma pancada num joelho, aos 17 anos, provocou um volte face na sua vida. Licenciou-se em Desporto, fez todos os cursos de treinador até ao UEFA Pro, estagiou em vários clubes europeus, entre eles o Barcelona de Pep Guardiola, e tornou-se treinador. Abriu a escola Geração Benfica, em Beja, deu aulas numa escola pública e foi treinador na academia inglesa Vision Sports Institute, até que partiu para a Malásia, onde diz ter começado a expressar a sua reflexão do que aprendeu em Barcelona

É natural de Beja. Pode começar por nos apresentar a família?
Sou filho de um médico e de uma professora. Tenho dois irmãos mais velhos e um mais novo.

Cresceu onde?
No prédio mesmo em frente ao Estádio Doutor Flávio dos Santos, em Beja. Passei lá horas e horas a treinar, a jogar, a divertir-me, a brincar.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Como não sabia dizer piloto, dizia que queria ser um carro de Fórmula 1 e o Paulo Futre.

Foi uma criança tranquila ou deu muitas dores de cabeça?
Super tranquilo. Muitos amigos e irmãos diziam que eu era o líder para o bem.

Acácio em bebé, na praia
Acácio em bebé, na praia
D.R.

Qual a primeira memória de infância que tem do futebol?
Tenho uma história engraçada que até criou um certo stress em casa. Com cinco anos saí de casa e fui ver um jogo ao estádio, lá em frente. Ninguém sabia de mim, eu estava na bancada. Foi o meu pai que descobriu que eu estava no estádio a ver o jogo. Supostamente a minha irmã devia estar a tomar conta de mim, mas não devia estar para aí virada e não me viu a sair de casa sozinho [risos]. Acho que talvez seja a primeira memória.

Em casa torciam por que clube?
Pelo Benfica e Belenenses. O meu pai nasceu em Lisboa, foi jogador do Belenenses nas camadas jovens, foi campeão nacional de basquete, de andebol, fez competições internacionais. Ele sempre trouxe muito desporto para casa. Estávamos sempre a fazer atividades físicas.

Da escola, gostava?
Gostava de ir à escola. Era muito respeitador. Levava sempre a bola debaixo do braço. Adorava estar a jogar e cheguei a "subornar" o responsável do campo de futebol da escola para nos deixar ir jogar para lá. E ninguém podia entrar sem a minha decisão.

Subornava-o com o quê?
Como médico, o meu pai recebia muitas prendas. Garrafas de whisky, de vinho, batatas, cebolas. Eu levava sempre uma garrafa de vinho ou de whisky ao senhor. Não sei se o meu pai sabia disso. Acho que ninguém sabia. Eu teria uns 12 anos na altura.

Acácio (2º jogador em baixo à direita, com a bola) começou a praticar futebol no Despertar SC, de Beja, com sete anos.
Acácio (2º jogador em baixo à direita, com a bola) começou a praticar futebol no Despertar SC, de Beja, com sete anos.
D.R.

Quando e onde começou a jogar futebol?
Comecei cedo, com sete anos já jogava nos infantis do Despertar SC. Na altura jogava com o meu irmão mais velho, fui sempre precoce, joguei sempre nas camadas acima. Ainda me recordo do meu primeiro jogo. Foi em Serpa. Fui convocado para jogar com os mais velhos, fui para o banco e lembro-me de ter começado a roer as unhas. Estava no banco, super ansioso para entrar, aquilo era extremamente importante para mim. Entrei para a defesa direito, perdi logo a bola e eles fizeram um golo [risos]. Houve uma fase da vida em que roía muito as unhas e tudo começou nesse jogo.

Só praticou futebol?
Quando acabava a época de futebol ia jogar basquete e andebol. Fui campeão distrital de basquete e de andebol. A malta, especialmente do andebol, pressionava-me porque eu tinha jeito para a modalidade, queria que eu ficasse no andebol, mas eu dizia sempre que só ia para o andebol quando acabasse a época de futebol.

Que ambições tinha no futebol, onde se imaginava no futuro?
Eu tinha um objetivo de ser selecionado para o Euro 2004. A minha referência na altura era o Paulo Sousa. Tinha também a ambição de jogar no Benfica com o Paulo Sousa.

Com o pai e os dois irmãos mais velhos: Sónia e Tiago
Com o pai e os dois irmãos mais velhos: Sónia e Tiago
D.R.

Fez toda a formação no Despertar FC, mas nunca deu o salto para um clube de maior expressão. Porquê?
Devido a uma lesão num jogo com os juniores do Vila Real de Santo António. Estávamos no Campeonato Nacional, a jogar em casa, rematei à baliza e quando vou pôr o pé no chão um rapaz do Vila Real de Santo António deu-me uma patada no joelho e as coisas mudaram drasticamente na minha vida. Fui operado, depois tive de meter o meu pai ao barulho, porque o clube não se portou muito bem. Eu tinha mesmo o objetivo de fazer do futebol a minha carreira. Sempre fui capitão de equipa em todos os escalões, tinha esse protagonismo. As coisas estavam a correr bem. Tinha o interesse do Belenenses e do Boavista. Já tinha as coisas muito orientadas para ir para os juniores de último ano, com contrato profissional.

Nunca conseguiu recuperar do joelho porquê?
Houve negligência médica também no processo. Fui com o meu pai ao médico do Benfica, o Dr. Bernardo Vasconcelos, e foi aí que ele disse que não havia espaço de continuidade para mim, para tirar essa ilusão, que ia ter muitas complicações se continuasse a jogar. Foi a primeira vez que vi o meu pai mais emocionado. Lembro que cheguei a casa e fui deitar-me a chorar. Foi horrível, se não tivesse o meu pai ainda tinha sido pior. Houve um dirigente do clube que teve a ousadia de dizer-me: "Já que falas com o Benfica, em troca das bolas que eles nunca deram, pede para eles te operarem." Ouvir isto, com 17 anos... .

O que fez após ouvir essa “sentença”?
Dediquei-me a acabar o 12.º ano para entrar na faculdade. A decisão foi muito rápida. Entrei em Educação Física e Desporto. Fui para a Lusófona, em Lisboa. Apesar de tudo, houve um clube, que era o mais rico na distrital de Beja, que me convidou para jogar: o Clube Desportivo das Neves. Era de um agricultor com muito dinheiro que ia buscar todos os melhores jogadores do distrito, velhos ou novos, que já tinham passado pelas divisões nacionais. Fiquei surpreendido com o convite, mas aceitei. O meu primeiro contrato foi de €250, mas passava para o dobro se eu fizesse três jogos a titular.

E conseguiu?
Consegui, mesmo com o joelho limitado, consegui ser titular naquela equipa e tiveram de duplicar-me o salário. Só estive lá um ano porque depois entrei na faculdade. Percebi que não dava mais, porque jogava com dores. Hoje continuo constantemente com cuidados com o joelho e tenho de levar injeções três vezes por ano, andamos a tentar evitar a prótese e tenho 44 anos.

A equipa dos infantis onde Acácio (o 4º atrás a partir da esquerda) iniciou o seu percurso de jogador
A equipa dos infantis onde Acácio (o 4º atrás a partir da esquerda) iniciou o seu percurso de jogador
D.R.

Mas nos anos da faculdade não jogou no Vasco da Gama da Vidigueira?
Joguei, mas isso foi um acordo que fiz, em que eles me pagavam as despesas para ir jogar ao fim de semana, o gasóleo e a alimentação. Basicamente foi o que me sustentou na faculdade. Ia à sexta-feira, jogava no domingo e era capitão. Apesar de só ir à sexta-feira, assumia muita responsabilidade e como estava num curso de desporto mantinha-me ativo; era uma forma de ir a casa de borla e dava-me para pagar a renda. Chegava lá com faturas num envelope e o clube pagava.

Quando decidiu fazer o curso de Educação Física e Desporto, qual era o objetivo que tinha em mente?
Ser treinador de futebol. Eu tenho uma coisa que me foi incutida pelos meus pais: o sentido de responsabilidade da nossa ação. Vivia muito isso. Assumi que se queria ser treinador tinha de preparar-me e passar por várias experiências, adquirir conhecimentos, fazer estágios; toda a minha vida é baseada nesse sentido da responsabilidade da minha ação.

Como inicia a sua vida profissional?
Enquanto estou na faculdade faço um estágio na Geração Benfica, com o Bruno Lage, a Helena Costa, o Bruno Maruta, malta que ainda está na estrutura do Benfica e são treinadores. Acabei a formação e percebi que devia fazer alguma coisa por Beja. Isto sempre esteve presente e continua muito presente em mim. Sou mesmo fruto de Beja. E levei a Geração Benfica para lá. Tinha 24 anos, assumi a responsabilidade, arranjei patrocínios e abri a primeira escola de futebol do Benfica, em Beja, em 2005. Com o claro intuito de formar jovens primeiro e depois formar jovens jogadores, que se expressam no futebol.

Teve sucesso?
Bastante. Fiz um protocolo com a universidade, foram destacados estagiários e fizemos uma avaliação de todos os meninos. Detetámos várias necessidades morfológicas e de desenvolvimento biológico e éramos a única escola do Benfica, que tínhamos atividades paralelas ao futebol de acordo com essas necessidades. Então, tínhamos miúdos a quem prescrevemos aulas de hóquei em patins, começámos a ter aulas de ginástica desportiva, tudo para colmatar as debilidades e as necessidades que os miúdos apresentaram nessas avaliações. Hoje sei que tenho alguma expressão na sociedade de Beja, por este tipo de iniciativas. Nunca mais me esqueço do agradecimento de uma mãe, porque detetámos que havia algo no pé do filho. Ela depois foi investigar e realmente ele estava a iniciar uma má formação congénita no pé.

O jovem alentejano no campo do Despertar SC
O jovem alentejano no campo do Despertar SC
D.R.

Esteve quanto tempo nessa escola?
Estive como coordenador três anos. Ao mesmo tempo, consegui aguentar um ano com treinos e jogos no Vasco da Gama da Vidigueira. Depois fui convidado para ser treinador dos miúdos de 10 anos do Vasco da Gama; a seguir convidaram-me para ser treinador principal, ao fim de seis anos no clube. Também já era treinador das seleções distritais.

O que foi mais difícil quando começou a treinar a equipa principal?
A relação com alguns ex-colegas de equipa, que me desiludiram. Esticaram-se um bocadinho e isso custou-me. Depois foi a parte emocional. Fui muito bem recebido na Vidigueira e foi difícil em alguns momentos, porque podia ter sido mais assertivo, mas não consegui por questões emocionais à terra, para o bem e para o mal. Foram três anos muito desafiantes. Três anos em que, por exemplo, o estádio foi construído, foi posto um campo sintético, num investimento grande da Câmara e nós íamos treinar para um sítio onde às vezes chegávamos e estavam lá cavalos, burros, ovelhas. Era surreal. Fez-me crescer enquanto treinador. Tive de me adaptar constantemente. Ainda me insurgi politicamente, foi talvez a minha primeira manifestação social/política, porque as promessas não estavam a ser cumpridas. Como tinha alguma expressão na sociedade da Vidigueira, utilizei-a na rádio, nas entrevistas que fui dando e numa reunião com o vereador. Sou muito intenso se estou do lado do que é o correto. Vou à luta.

Acácio (à direta) com o pai e o irmão Tomás, com as faixas de campeões de infantis
Acácio (à direta) com o pai e o irmão Tomás, com as faixas de campeões de infantis
D.R.

Quais eram as suas ambições e objetivos enquanto treinador? Via-se a ser treinador de que equipas e de quem?
Vou contar uma história gira. Quando assumi a equipa, na apresentação vou dar a minha primeira palestra e peço ao presidente e todos os elementos de direção para saírem do balneário. Havia problemas com o presidente e eu não podia associar-me a quem estava a dever dinheiro aos jogadores. Quando acabou o primeiro jogo, ganhámos esse jogo 3-0, agarrei na bola do jogo e pedi para todos assinarem. Ainda tenho essa bola. E está lá escrito que o meu objetivo de carreira é ser treinador do Barcelona. Está definido, quando for apresentado no Barcelona, vou com aquela bola. Ninguém controla o futuro. Ninguém me tira os sonhos. Havia de ser bonito eu estar numa apresentação no Camp Nou e ter a bola [risos].

Porque não?
Exato, porque não? Até porque fiz lá o mestrado e tenho alguma ligação. A minha passagem no Barcelona marcou a minha forma de trabalhar enquanto treinador.

Isso foi quando?
Nessa altura em que estava no Vasco da Gama da Vidigueira. Após ter tirado a formação, a especialização e o UEFA B, percebi precisar mais e comecei a fazer um périplo por vários clubes da Europa. Estive no Ajax, no Feyenoord, no Panathinaikos, no Manchester City, no FC Porto com o Vítor Frade, no Benfica, no Sporting; mas, entendi que precisava ainda de mais e que tinha de ser uma coisa totalmente fora da caixa e com outra dimensão. Descobri um mestrado profissional em Barcelona, candidatei-me e entrei. A seguir fiz estágio com o Pep Guardiola, duas vezes, e com o Tata Martino.

Acácio (o 5º atrás a contar da esquerda) foi campeão distrital de iniciados pelo Despertar SC de Beja
Acácio (o 5º atrás a contar da esquerda) foi campeão distrital de iniciados pelo Despertar SC de Beja
D.R.

Como é que a passagem pelo Barcelona alterou a sua forma de pensar?
Pela profundidade da reflexão do porquê. Ou seja, em Portugal tínhamos as coisas bem estruturadas; a simplificação da estrutura complexa do jogo por Carlos Queiroz e Nelo Vingada foi extremamente bem-feita. Mas reduzia, para mim, o porquê e, fruto do que me incutiram os meus pais, a procura do porquê, eu queria aprofundar mais de onde é que vinha esta perspetiva de jogo, o que se traduzia o jogo em termos práticos, que relações é que se criavam. Havia uma complexidade interativa dos jogadores. No Barcelona obrigaram-me a estudar sociologia, filosofia e fui estudar também um bocadinho a origem do processo adaptativo do universo e comecei a aprofundar muito os estudos, por exemplo, do Charles Darwin; em todas as minhas formações falo sobre ele. Depois entrou a perspetiva ecológica, na área da psicologia e da sociologia.

Explique melhor.
Somos frutos do contexto em que estamos inseridos. Se sou treinador de futebol, sou responsável pela determinação desse contexto. Então qual é o contexto que quero criar de acordo com as necessidades destes jogadores, deste clube e desta equipa. Isso começou a ganhar uma dimensão complexa, mas, ao mesmo tempo, mais clara para mim e deixei de estar agarrado à fórmula encontrada no processo mental do Carlos Queiroz e da sua equipa para uma construção minha. Curiosamente, onde consegui perceber efetivamente isto, foi com um grupo de miúdos de 12 anos, na Noruega. E depois na União de Santarém.

Acácio (de vermelho e preto a cabecear a bola) num jogo entre a seleção sénior de Beja e a de Évora, em 1999
Acácio (de vermelho e preto a cabecear a bola) num jogo entre a seleção sénior de Beja e a de Évora, em 1999
D.R.

Já lá vamos. Quando saiu do Vasco da Gama da Vidigueira foi fazer o quê?
Aí começou a crescer ainda mais a vertente da intervenção social. Acabei por ser convidado para ser coordenador técnico da Associação de Futebol de Beja. Percebi que ia ter efetivamente ter algum espaço de intervenção. Foi muito importante para mim esse ano porque fiz o UEFA A também e entrei na esfera da federação. Fiz uma avaliação muito grande sobre o futebol no distrito e criámos linhas orientadoras que continuam até hoje em atividade. Não faço nada sem analisar, tenho que ter dados concretos do que está certo. Foram dois alunos da faculdade que me ajudaram e criámos uma avaliação muito forte sobre o momento do futebol no distrito. E saíram normas orientadoras desde a estimulação do futsal, à estimulação do futebol feminino, à criação do futebol nove, a diminuição da importância do resultado. Foram muitas horas passadas ao computador, mas foi extremamente gratificante.

Só lá esteve um ano. Porquê?
Senti que já tinha terminado essa parte do futebol em Beja e voltei para Lisboa. Na altura fui coordenar a escola de futebol do Sporting, em Corroios, e fui dar aulas na escola secundária da Bobadela.

O médio (de frente) ainda jogou no Vasco da Gama Vidigueira, até aos 25 anos
O médio (de frente) ainda jogou no Vasco da Gama Vidigueira, até aos 25 anos
D.R.

Como foi a experiência de dar aulas numa escola pública?
De muita revolta. Ao ser professor sentia responsabilidade da minha intervenção e sentia no contexto da escola mais orientação para a frustração do que para a gratidão. Eram raros os professores que olhavam para a oportunidade da intervenção que tinham na sociedade. E essa intervenção perdura, não é como pôr um penso numa ferida e podes ir embora. Não, a intervenção de um professor perdura na vida de um aluno. Dava-me ânsias, além da estrutura educativa, a burocracia que existia, as palas nos olhos que muitos professores tinham, porque acreditavam mais que era os conteúdos programados que tinham de ser respeitados e não as necessidades mentais dos alunos. E depois, o facilitismo. Para o aluno que tinha uma nota 4 não se olhava, olhava-se mais para o aluno que tinha 2, e não olhávamos para as necessidades do aluno, olhávamos sim para o que iria dar de trabalho se o aluno reprovasse de ano. Posso dar outro exemplo?

Força.
No conteúdo programático do basquetebol está a definição clara de como agarrar uma bola e efetuar o lançamento. Eu tinha uma miúda que não tinha muita disponibilidade motora, mas ela punha a bola por baixo do queixo e encestava. O conteúdo dizia que a miúda tinha de agarrar a bola, levantar o cotovelo, fazer um T com os dois polegares, fazer um movimento de extensão do braço e empurrar a bola. Eu olhava para aquilo e pensava, vou dar-lhe uma negativa porque ela não faz nada do que está na componente crítica? Mas ela concretizou o objetivo do jogo, então, tenho que lhe dar cinco. Na altura havia aquelas famosas avaliações dos professores e confrontaram-me com isso. Foi a gota de água. Eu não posso estar num contexto em que se olha mais para aquilo que está escrito do que são as necessidades do aluno. Então o que o contexto determinou? Por inerência das circunstâncias da miúda, coloquei-a no nível mais alto do grupo homogéneo da turma, e ela, por necessidade, para encestar, começou a levantar os braços para lançar a bola. Ela própria caminhou-se para arranjar a sua solução para encestar, que era o objetivo. E aí, sim, houve uma aprendizagem. Devemos olhar para aquilo que são as necessidades e criar os constrangimentos para o medo fazer emergir um ser responsável pela sua interação com o contexto. Isto é perspetiva ecológica. Isto vai influenciar muito a minha maneira de ver o jogo e também de estar na sociedade.

Quando ainda jogava pelo Vasco da Gama da Vidigueira, Acácio começou a treinar os miúdos de 10 anos do clube
Quando ainda jogava pelo Vasco da Gama da Vidigueira, Acácio começou a treinar os miúdos de 10 anos do clube
D.R.

Entretanto, nesse período não esteve também ao serviço do União de Leiria como observador?
Sim, é verdade, sempre fui multitask. Essa experiência não correu muito bem, apesar de eu adorar o Pedro Caixinha, que foi meu treinador. O Pedro Caixinha estava a montar a equipa técnica dele e havia necessidade para observações de jogo. Apresentei-lhe um projeto com um colega de faculdade e acabei por ficar mais eu encarregue do departamento. O problema foi a direção do U. Leiria. Só recebi dois meses em um ano e nunca mais tive hipótese de reaver esse dinheiro. Mas também tive coisas boas. Tenho uma história fantástica, expressa muito aquilo que é a dignidade do ser humano.

Quer contar?
O primeiro jogo que observei para o U. Leiria foi entre o Paços de Ferreira e o Vitória de Guimarães. Eu tinha um iPod e gravava por voz aquilo que iria para o relatório. No intervalo, saí da minha bancada para ir à bancada principal buscar qualquer coisa para comer. Saio do estádio, para dar a volta, e quando regresso ao meu lugar dou conta que o iPod tinha desaparecido. De repente, nos altifalantes do estádio, começam a dizer: "Foi encontrado um iPod preto nas imediações do estádio. O dono pode dirigir-se à secretaria para levantar." Isto não existe. Uma pessoa que encontra um iPod fora do estádio, numa altura em que o iPod era um objeto fancy, era caro, e o devolve, deixou-me deliciado.

O que fez depois desse ano?
Tive um convite para ir para uma academia inglesa, a Vision Sports Institute, que na altura se tinha mudado para Rio Maior, mas agora só funciona na Flórida. Fui convidado para treinador-adjunto. Os atletas eram residentes, tinham um componente educacional e tinham uma prática regular.

Os jogadores dessa academia eram portugueses?
Não. Depois abrimos espaço para trials e acabámos por ter dois portugueses, mas eram todos inglês, espanhóis, húngaros, africanos e franceses. Foi extremamente interessante, foi diferente, já foi um nível profissional. Tínhamos o Ian Wright e Mark Hughes como padrinhos do projeto e estavam com presença constante. Ter conhecido o Ian Wright, que é um personagem, foi fantástico.

Acácio abriu a escola Geração Benfica, em Beja
Acácio abriu a escola Geração Benfica, em Beja
D.R.

Foi parar à Malásia em 2012/13. Como?
Foi o Divaldo Alves, um colega com quem criei muita empatia no curso UEFA A. Ele tinha treinado dois clubes na Indonésia, ia pegar num clube da Malásia, o Negeri Sembilan FA, e convidou-me para ser treinador-adjunto e treinador da equipa B. Acabei também por ser coordenador da formação.

Como foi o primeiro impacto com a realidade da Malásia?
Muito calor [risos]. Mas adorei a Malásia, adorei conviver com aquela malta, criei uma relação incrível com os jogadores, os dirigentes e o presidente. Quando vais para o estrangeiro tens mesmo de ser tu porque as âncoras sociais desaparecem, estás num espaço completamente diferente, tens de criar novas interações e descobri que ali não usava máscaras, sentia-me muito mais livre do que no meu próprio país e foi muito bonito perceber essa interação, esse espaço de utilidade que é uma das minhas forças motrizes, o sentir-me útil. O clube estava numa fase de mudança e precisava de treinadores como nós. O Divaldo estava muito focado no seu espaço de líder da equipa principal, eu tinha abrangência de intervenção no clube todo.

Em 2011/12, Acácio Santos (à direita vestido de escuro com as mãos na cintura), foi treinador na academia inglesa Vision Sport Institute, em Rio Maior
Em 2011/12, Acácio Santos (à direita vestido de escuro com as mãos na cintura), foi treinador na academia inglesa Vision Sport Institute, em Rio Maior
D.R.

Como eram os jogadores malaios, que características tinham?
A Malásia é um misto de chineses, de malta da Índia e daquela região do Sudeste Asiático. A malta do Sudeste Asiático é mais médio-centro, o próprio guarda-redes, o central, são pessoas mais robustas. Os chineses normalmente são mais extremos, os da Índia são muito rápidos, são laterais, são avançados, portanto, é um bocadinho um misto. Mas são bons jogadores e dentro daquele contexto tínhamos os melhores jogadores. Marcou-me muito.

O que mais o marcou?
Por exemplo, foi o ano em que comecei a expressar muito aquilo que foi a minha reflexão do que vi no Barcelona. A nossa equipa da Malásia jogava com o domínio total da bola e do espaço e da manipulação do espaço, embora ainda não tivesse a profundidade que tive depois com os noruegueses. Os miúdos viviam na academia, tínhamos um espaço, mas que já estava feito e eu queria um espaço que a minha equipa construísse. Pedi uma sala que estivesse suja, abandonada, na pré-época agarrei nos miúdos e fomos limpar e pintar a sala. O clube ofereceu os cacifos, tínhamos uma zona de reza para os muçulmanos; eu ofereci uma máquina de musculação e uma arca para pormos o gelo. Criámos um espaço nosso, que era o "Keluarga yang kuat", que significa "família forte".

Acácio com Paco Seirul-lo, quando estagiou no Barcelona
Acácio com Paco Seirul-lo, quando estagiou no Barcelona
D.R.

Qual a importância desse espaço na prática do futebol?
Trabalhámos a significância dos jogadores com idades dos 17/18 aos 23 anos. Naquela cultura há muito pouco espaço de expressão, há muito aquilo que é o respeito pela hierarquia independentemente do comportamento de quem está acima. Então, a primeira coisa que fiz foi obrigar a que toda a gente comesse na mesma mesa, fosse o motorista ou o presidente do clube. Criou logo alguma divergência e resistência por parte de quem estava habituado a sentir o poder. O que resultou é que quando fui convidado para ir para a I Liga da Grécia, tive muitas reuniões com o presidente e o diretor-desportivo e não queriam que eu fosse. Mas eu tinha de ir, tinha de seguir o meu objetivo, que era ir para uma liga europeia. E tinha o convite da Federação da Malásia para treinar os sub-21.

Como reagiram os jogadores à sua saída?
Temos um jogo em casa e decidi contar aos jogadores, nessa noite, que me ia embora. Foi impactante para mim. Quando estou a contar, começam a cair-me lágrimas no rosto e quando olho tenho o meu staff e os jogadores todos a chorar. E a primeira pessoa que me veio oferecer qualquer coisa foi o roupeiro, o tal que se sentiu reconhecido por ir comer para a mesa dos treinadores e dos jogadores. Deu-me uma camisa oficial do jogo por tudo o que fiz no clube. Toda esta dimensão emocional expressa o trabalho de impacto, para além do trabalho que foi feito em campo, que depois teve continuidade. Não é fácil, num mundo de tantos egos e tanta expressão.

Mas como esse trabalho que refere se reflete na sua forma de jogar?
Na minha forma de jogar tem de haver um elemento fundamental que é a empatia. As interações e as relações que se criam entre os jogadores estão dependentes da empatia que sinto pelo meu colega de equipa. Não quero saber como eles se relacionam lá fora, até podem nem ser amigos, embora, naturalmente, se tivermos uma relação grupal forte fora de campo, melhor; mas em termos práticos, dentro do campo, a relação empática é fundamental. E quem não o tiver vai ter muitas dificuldades comigo.

Em 2012/13, o treinador de Beja foi convidado para adjunto de Divaldo Alves, no Negeri Sembilan FA, da Malásia
Em 2012/13, o treinador de Beja foi convidado para adjunto de Divaldo Alves, no Negeri Sembilan FA, da Malásia
D.R.

Como é que essa relação empática se expressa em campo?
Quando eu tenho a bola, sendo a bola o elemento mais valioso, toda a gente tem de assumir que aquele indivíduo com a bola precisa de ajuda. Curiosamente, o povo com quem trabalhei e que mais percebeu isso foi a Noruega, porque na sociedade deles têm elementos muito vincados de cooperativismo, de relação social. Foi lá que senti a maior expressão do meu jogar num contexto empático. Para criar isso tenho de criar estratégias que aproximem o indivíduo um do outro e, neste caso em particular, na Malásia foi este exemplo da sala e da mesa. Não foi fazer por fazer. Tem relações sociais tremendas que é aquilo que falta muito à nossa sociedade. Esta relação social, esta proximidade.

Que outras histórias tem para contar da Malásia?
Eu vivia no 9.º andar de um condomínio. Na altura, a minha namorada estava lá e, de repente, à meia-noite, comecei a ouvir barulhos que vinham da escola que havia em frente ao prédio. Era um barulho horrível. Parecia que estavam a fazer mal aos miúdos. Fiquei preocupadíssimo, liguei para a receção, para a polícia e a polícia parecia estar a gozar comigo. Havia miúdos vendados, a serem transportados por outros, muito barulho. Eu a pensar, tenho de ir embora daqui, isto é uma cena dramática, aconteceu qualquer coisa. Não dormi nada. No outro dia vou para o clube, vou falar com o diretor-desportivo, conto-lhe, ele começou a fazer telefonemas, até que me diz: "Não foi nada, pá. Aquilo foi o dia nacional da independência e eles fazem essas praxes aos miúdos para perceberem o quanto custou sermos independentes. Metem os miúdos a passar por situações de supostos raptos e violência, mas é só para perceberem quanto custou sermos independentes." [risos] Lembrei-me de outro episódio engraçado.

Força.
Sou muito de aprender as línguas para onde vou. Quando fui ter reunião com uma potencial professora, ela veio com o marido porque como eu era estrangeiro ela não podia estar à conversa comigo. Entretanto, apareceu a minha namorada, sentou-se e ela vinha com um top. No fim dessa reunião, ela virou-se para a minha namorada e disse: "Olhe, ainda bem que está cá, que eu assim vou ensiná-la a vestir-se com modos." Naturalmente, não fiquei com essa professora.

 

Spoiler

“Na seleção da Nigéria não pagaram durante um ano, mas o Zé Peseiro continuou a pagar os salários dos adjuntos do bolso dele"

O treinador Acácio Santos está prestes a lançar um movimento político sem ligações partidárias e confessa que dentro de seis a oito anos gostava de dedicar-se exclusivamente à política. Porém, nesta parte II do Casa às Costas, fala das suas experiências enquanto treinador-adjunto na I e II Ligas na Grécia e no V. Setúbal. Explica também o sucesso que teve como treinador principal do U. Santarém, clube que subiu de divisão, e revela muitos pormenores da passagem pela seleção da Nigéria, onde foi adjunto de José Peseiro, treinador que diz ser extremamente inteligente, mas que às vezes é demasiado boa pessoa

Como surgiu o convite para o Levadiakos FC, da Grécia, em 2012/13?
Pela relação que tinha com o Jasminko Velic, que conheci quando fiz um estágio no Panathinaikos, com o José Peseiro. Na minha passagem pelo U. Leiria, o Pedro Caixinha ligou-me a dizer que o Velic estava à procura de um treinador-adjunto e fui ter reuniões com ele. Criámos uma empatia, é uma pessoa muito inteligente, muito assertiva. Quando fui para a Malásia já havia conversas sobre treinarmos juntos e eu tinha esse acordo com a malta do Negeri Sembilan, se surgisse um convite da Europa, saía. O Velic pegou no Lavadiakos e convidou-me.

Essa experiência correspondeu às expectativas?
Levámos muita porrada, mas aprendi imenso.

O que quer dizer com "levámos muita porrada"?
Foi o momento mais agressivo do mundo do futebol.

Porquê?
Começámos por ter uma experiência muito gira com o capitão de equipa. O Velic era mais o manager do clube e eu mais o metodólogo do processo de treino, que era da minha responsabilidade. O capitão era o Giorgio Zisopoulos, um indivíduo de barba e cabelo negros compridos, sempre com um ar sério. Estamos na paragem das seleções, a treinar, estou a introduzir conceitos mais complexos num exercício e, de repente, ele pára, vai direto a mim, faz-me a imagem de uma pistola apontada à cabeça com a mão e diz: "Sabes que nós estamos com uma pistola apontada à cabeça. Não ganhamos há dez jogos. Estes exercícios são bons, mas isto é muito complexo. Isto não dá para nós nesta altura." Olhei para ele e pensei, que tipo espetacular. Um dos grandes ensinamentos enquanto treinador foi essa liberdade, essa disponibilidade e esse feedback por parte dos Zisopoulos.

Em 2012/13, Acácio tornou-se adjunto de Velic no Levadiakos FC, da I Liga grega
Em 2012/13, Acácio tornou-se adjunto de Velic no Levadiakos FC, da I Liga grega
D.R.

O que aconteceu depois? Alteraram os vossos processos?
Falei com o Velic, ele teve uma conversa com o capitão e decidimos tornar o processo de treino muito orientado para as necessidades emocionais da equipa, que é a linha onde estou presentemente. Os exercícios têm que ter a sua componente de orientação para um comportamento que está sempre inerente a uma disponibilidade emocional. Os exercícios passaram a ser muito mais simples, muito mais orientadores, muito mais amplos, não tanto exercícios reduzidos, mas com espaços para passarem, com zonas para respeitarem e também a dar um sentido mais coletivo. Foi espetacular. E salvámos a equipa que estava para descer de divisão.

Porque vieram embora?
O Velic esteve muito bem e quisemos sair. No último jogo já tínhamos assegurado a manutenção e houve jogadores que facilitaram. Basicamente, clubes a quem interessava o resultado desse jogo falaram com jogadores, ofereceram-lhes contratos para saírem do clube em troca de facilitarem nesse jogo, ou simularem uma lesão. Não é correto e infelizmente aconteceu e vimos. Isso para mim foi um choque grande. O Velic não sabia, no fim do jogo houve uma confrontação grande, até no intervalo, entre os jogadores que não sabiam e se aperceberam dessa postura.

O que aconteceu?
Fui pôr-me à frente de um jogador para não haver conflitos e o diretor-desportivo insurgiu-se comigo, porque estava metido ao barulho. O Velic confrontou-o. Criou-se ali uma clivagem grande. O Velic acabou por decidir sair do clube. Éramos para ter continuado. Foi um momento extremamente arrepiante em termos daquilo que é a utilização do futebol para coisas que não interessam.

Acácio com jogadores do Episkopi, da Grécia
Acácio com jogadores do Episkopi, da Grécia
D.R.

Com que opinião ficou dos adeptos gregos?
São muito malucos, muito fervorosos. Lembro-me do PAOK ir jogar à nossa casa e haver baldes de lixo em chamas e uma grande confusão. Mas o adepto do Levadiakos, que é uma zona de Delfi, mais espiritual, onde havia muitos ortodoxos, era diferente. Eles tinham os terços com umas bolas redondinhas. E estávamos no banco a ver os ortodoxos na bancada de terço na mão a rezar e quando o terço chega ao fim, eles fazem um movimento rotatório com a mão e o terço volta ao início. Faz aquele barulho "raape, raape". Então, estás a ver o jogo e a ouvir constantemente "raape, raape, raape", que é o terço a dar a volta, porque são centenas de pessoas a fazer aquilo. Mas eu tenho outra história engraçada.

Conte.
Na altura deixei ficar só o bigode, ninguém usava bigode na Grécia. Quem usava bigode até tinha uma conotação associada à homossexualidade, uma parvoíce. Fui para o treino de bigode e foi logo: "Olha, o Freddie Mercury, blá, blá, que bigode é esse?" Aquilo gerou ali um burburinho. Às tantas, na véspera do jogo, o presidente do clube, que falava muito mal inglês e é uma pessoa muito estranha, chegou ao pé de mim e disse: "Moustache stay if we win. If we draw, if we lose, moustache out." Não é que empatámos e tive de tirar o bigode? [risos].

O treinador alentejano fez voluntariado em Moçambique, em 2017 e 2019
O treinador alentejano fez voluntariado em Moçambique, em 2017 e 2019
D.R.

Acabou por ir parar à II Liga grega em 2014/15. O que fez pelo meio?
Ainda assinámos pelo Panathinaikos, mas houve uma quebra na direção e ficámos sem nada até dezembro. Depois, a família dona do Panathinaikos, era dona do Episkopi, o clube da terra, em Creta, e convidou o Velic para ir para lá. Ele ligou-me e fui. É uma ilha incrível, foi uma experiência de vida fantástica.

Mas a II Liga é bem mais fraca, ou não?
Sim. Na altura até tínhamos o AEK, que tinha descido e queria subir. Mas os clubes de Atenas são sempre mais fortes. A nossa equipa teve muitas dificuldades. Ainda conseguimos recuperar na fase da liga normal, depois fomos à fase-final e já não conseguimos, facilitámos um bocadinho e foi mais difícil.

Tem algum episódio diferente ou marcante desses meses em Creta?
Para irmos para o continente íamos de barco. Os barcos eram bons, tínhamos suítes, mas eu sou de Beja [risos]; não estou habituado a andar no mar tantas vezes e para mim aquilo era uma confusão enorme, as primeiras vezes enjoei. Na primeira vez tomei um comprimido para os enjoos, fui dormir e quando chegámos ao centro de estágio do Panathinaikos, onde fazíamos o nosso estágio, estou a marcar uma linha de um exercício e, de repente, a malta toda começou a rir. Quando olhei para trás, a minha linha estava aos ziguezagues [risos]. Mas foi espetacular ter vivido na Grécia. A comida, a cultura, a bondade das pessoas, a história, a cultura. Comecei a aprender grego, fiz amigos.

Na época 2019/20, Acácio dava a cara pelo comando da equipa do V. Setúbal, mas na verdade era adjunto de Sandro Mendes, o treinador principal da equipa
Na época 2019/20, Acácio dava a cara pelo comando da equipa do V. Setúbal, mas na verdade era adjunto de Sandro Mendes, o treinador principal da equipa
D.R.

Porque não continuou como adjunto do Velic?
Foram momentos complicados também, com muitos jogadores a facilitarem e a procurarem dinheiro através da manipulação de resultados. Não vi propriamente, mas percebia-se no jogo. Fiquei muito, muito desiludido. Tanto eu como o Velic estávamos revoltados com o facto de o nosso trabalho não estar a ter utilidade nenhuma, porque havia um ou outro elemento que facilitava; mais uma vez, jogadores que eram aliciados para as próximas épocas e deixavam de ter o compromisso connosco. Pedi desculpa por tudo ao Velic, ele até ficou um bocado chateado comigo, não quis continuar na Grécia. Precisei mesmo parar um bocadinho. Já quando cheguei à Malásia, o treinador que fui substituir tinha sido banido do futebol porque vendeu a final do campeonato. Sou um indivíduo que prezo muito a moral e a ética, então o meu sonho de estar no futebol profissional começou a ser... Decidi parar.

Foi fazer o quê?
Fui trabalhar para a televisão, na Sport TV. Já tinha feito uns comentários, eles abriram o SportTV+ e convidaram-me para ser comentador residente. Na altura tinha um convite para ser diretor-desportivo do Famalicão e pagavam muito bem. Mas não aceitei porque tinha mesmo de descansar. Optei por ter o papel de comentador e tentar trazer alguma linguagem mais serena e um bocadinho mais de conhecimento para a televisão.

Não é nessa altura que assume também o cargo de coordenador geral do Atlético?
Foi no ano seguinte, antes do início da época 2016/17 e foi um convite para ter o papel de diretor-desportivo e de desenvolvimento do projeto, com um grupo de investidores chineses e com o presidente, que eu estimo muito, o Almeida Antunes. Começou tudo a correr muito bem, mas depois, em termos morais e éticos, a coisa resvalou, desde a política de contratação dos jogadores e do treinador. Quando começaram as decisões fortes, eles começaram a fugir à responsabilidade. Não pactuei com isso e saí.

Pode explicar melhor o que correu mal?
Desde o treinador não ter importância, a “nós é que vamos mandar em tudo”, “os jogadores são os que vamos escolher”... Mas não foi isso que foi definido, não foi isso que o projeto apresentava. E aí tive de sair.

Acácio durante um treino do V. Setúbal
Acácio durante um treino do V. Setúbal
D.R.

Esteve quanto tempo sem regressar ao futebol?
Fiquei só como comentador durante algum tempo. Até que em 2019/20, eu estava a fazer comentários e já rangia os dentes, porque sentia que tinha de estar no campo. Sentia que o meu tempo de influência social através da televisão tinha terminado, tinha de voltar ao terreno. Fiz como todos os treinadores, fui-me expondo às necessidades. E através do Rodolfo Vaz, que tinha sido meu diretor-desportivo na União Leiria, e do Sandro Mendes, surgiu o convite para ser treinador-adjunto e metodólogo. Eu acabei por assumir, mas, na prática, quem controlava o processo de liderança era o Sandro, só que ele não tinha habilitações para ser treinador principal e fui como treinador UEFA Pro. Nessa época tive mais uma vez um comportamento que muita gente ficou abananada.

Como assim?
Com o Sandro a coisa não correu muito bem, é despedido. O clube convidou-me para assumir a ver como corria. Na altura, porque já estava muito embrulhado no processo de treino com os jogadores e com toda a orientação metodológica, a minha primeira decisão é, claro, sou funcionário do clube, aceito. Mas, em conversa com o Sandro, ele ficou um bocadinho melindrado e uma vez que ele teve um voto importante para eu ir, senti que não podia faltar-lhe ao respeito e não aceitei ficar. Muita gente deu-me na cabeça porque era a oportunidade para ser treinador principal, efetivamente, na I Liga portuguesa. Mas não vou fazer o meu caminho em prol do despedimento de outro, ainda para mais tinha uma relação próxima com o Sandro. Jogadores como o Semedo, o Nuno Pinto, ou João Meira vieram dar-me os parabéns pela atitude.

Depois é que vai para a Noruega treinar os miúdos de 12 anos?
Sim. A Noruega é um projeto de ligação do futebol português ao norueguês, em que são convidados treinadores para darem formação. Sou muito amigo do antigo diretor da NF Academy e fui convidado várias vezes para ir lá dar formação, até assumir o Santarém. Tive convites para treinar lá e tudo, e não aceitei por questões pessoais.

Vivia com alguém?
Casei-me na altura da Malásia, mas já me divorciei.

Tem filhos?
Não. Mas quero.

Após a saída do V. Setúbal, o treinador foi dar formação a crianças de 12 anos na NF Academy, da Noruega
Após a saída do V. Setúbal, o treinador foi dar formação a crianças de 12 anos na NF Academy, da Noruega
D.R.

Contava que na Noruega conseguiu exprimir o seu futebol.
Foi incrível. Adoro o país, adoro as pessoas, adoro algumas manifestações culturais e sociais, algumas regras da sociedade. Primeiro, senti uma disponibilidade tremenda para tudo o que necessitei, mesmo de pessoas que não sabiam que eu era treinador. Foi lá que fiz a primeira tatuagem. Adorei o país e as pessoas. São calorosos, empáticos.

E o futebol?
O papel do indivíduo no jogo está dependente da sua expressão no espaço. Ou seja, o jogo é determinado pela linha de fora de jogo e a linha de meio-campo. O resto é só espaço. Depois, naturalmente, o cuidado dentro da grande área, porque há um elemento que joga com as mãos. O jogo de futebol não tem nada mais do que a manipulação do espaço. Não existe posição no jogo, existe expressão do indivíduo no espaço. E na Noruega senti muita facilidade em que eles se soltassem da posição em si, de acordo com as necessidades. E as necessidades têm a ver com onde está a bola, tem que haver inúmeras linhas de espaço, independentemente da posição. Então o jogo passa a ser uma dinâmica tremenda de ligações entre indivíduos, independentemente da posição. Hoje em dia vê-se muito isso no Paris Saint-Germain, que é neste momento a equipa com maior expressão nessa complexidade e na relação sócio-afetiva, por causa desta capacidade relacional que eles têm. Porque não se prendem às posições. E isto é brutal.

Em 2020/21, Acácio assume a liderança do U. Santarém
Em 2020/21, Acácio assume a liderança do U. Santarém
D.R.

Foi esse conhecimento e prática que levou para o União de Santarém e que resultou na subida de divisão, em 2020/21?
Sim, foi por isso que subimos de divisão. Para além da parte empática, que teve de ser muito trabalhada, a verdade é que ajudou muito a questão da covid-19; é estranho dizer isso, mas a pandemia acabou por nos unir nas dificuldades que estávamos a passar e eu também aproveitei isso. Tirei formação muito especializada na área da psicologia e tive formação de coaching com o Tony Robbins. Neste caso particular do Santarém, onde acho que a equipa tinha zero pontos e seis jogos em atraso, quando cheguei, foi um trabalho espetacular e subimos de divisão contra tudo e contra todos. Toda a gente dizia para eu não ir para lá, que a equipa não tinha jogadores nenhuns de jeito.

Sentiu muita resistência da parte dos jogadores às suas ideias e métodos?
Sou muito assertivo e realista. Quando lá cheguei, o capitão foi dispensado porque foi incorreto e um capitão não pode ser incorreto. Foi outro que passou a ser capitão e esse capitão chegou três minutos atrasado à saída do autocarro e perdeu a braçadeira. Vou limando e vou criando regras bem estabelecidas. Trabalho muito em definições de princípios comportamentais. E faço muito isso comigo.

O técnico durante um treino do U. Santarém
O técnico durante um treino do U. Santarém
D.R.

Mas o início da segunda época, já na Liga 3, não correu bem e saiu. O que aconteceu?
[Risos] Isso foi bruxaria. Temos uma vitória, quatro derrotas, depois entrámos em choque, eu e a direção, porque foram incorretos. É um problema quando os clubes sobem de divisão e o ego começa a manifestar-se. Já pensam que podem dispor e o processo não é assim, o processo é em conjunto. Na prática, até ao período das seleções, nós éramos a equipa com mais oportunidades de golo, com mais entradas no adversário, com mais criações de momentos de golo, com mais jogo no meio-campo adversário, mas tivemos cinco penáltis e falhámos, fomos eliminados da Taça de Portugal, em penáltis. Criou-se uma energia estranha, negativa, à volta do momento do golo. Criávamos, trabalhávamos, jogávamos, tínhamos uma forma de jogar muito manipulativa, com os processos muito bem definidos, com jogadores inteligentes...

Mas quando a bola não entra…
Sim. Senti muito essa ingratidão, ou seja, peguei na equipa durante a covid-19, com zero pontos, subimos de divisão, em conjunto, o orçamento era baixo. Na altura tinha tudo certo para ir para a I Liga do Chipre, marcação de viagem para a reunião com o presidente. Veio a covid-19, fecharam o país e eu fiquei sem clube, sem nada. Fui para Santarém. Já não estava à espera de trabalhar na III Liga portuguesa, porque já andava a trabalhar nas I e II Ligas. E, de repente, vou para o U. Santarém. Tive uma situação que vale a pena contar.

Força.
Crio muitos elementos de tensão nos meus jogadores, de forma propositada. Seja em tarefas, seja em desafios durante a semana de trabalho. Fomos para a fase de apuramento para a Liga 3 com o Alverca, que era a equipa mais forte, o Marinhense, e o Condeixa. No primeiro jogo, vamos todos de peito cheio porque conseguimos a qualificação para a fase de subida muito cedo, fizemos 11 jogos com oito vitórias e três empates, que ninguém estava à espera, com jogadores a serem convocados para a seleção de Cabo Verde. E jogámos muito com ego, com muitas ações individuais. Na semana a seguir, de preparação da segunda jornada, jogo com o Alverca em casa, disse-lhes: "Meus amigos, comigo isto não funciona, vocês já me conhecem, não é por aqui o caminho, portanto, vamos criar uma regra: eu em todos os treinos vou estar na bancada e vou avaliar só o comportamento, e quem quiser mesmo jogar no domingo, vai ter que demonstrar durante a semana." O processo de treino passou a ser muito simples, só a avaliar efetivamente quem queria jogar e subir de divisão, porque era um marco para eles. Criou muita tensão. Até porque criei outras estratégias.

Que tipo de estratégias?
Eu tinha jogadores juniores que não equipavam no balneário da equipa sénior, para eles perceberem que não era fácil lá estar. Mas houve um jogador da equipa sénior que trocou com um júnior. Um júnior derrubou-o num treino com a vontade de querer jogar e a intensidade. E esse sénior foi equipar sozinho para o balneário dos juniores. O que se passou nessa semana? Dois jogadores, titulares, número dez e o ponta de lança, entraram no balneário, começaram a mandar bocas um ao outro e agrediram-se. No balneário, que para mim é como se fosse um santuário. Aquilo custou-me tanto. Telefonei ao presidente e disse: "Estes dois vão-se embora."

Como reagiu o presidente do clube?
Chamou-me maluco porque estávamos numa fase sensível, mas eu disse-lhe: ou vão eles, ou vou eu. Foram os dois embora e subimos de divisão. Ficámos só com um avançado, que foi o tal jogador que havia ido para o balneário dos juniores, que aprendeu nessa semana onde precisava de trabalhar mais e foi-nos útil nos restantes jogos.

Acácio Santos subiu o U. Santarém à Liga 3
Acácio Santos subiu o U. Santarém à Liga 3
D.R.

Retrocedendo um pouco. Como dizia, no início da sua segunda época no U. Santarém, a bola não entrava. Acabou por ser dispensado?
Na verdade, despedi-me. Achei que não ia funcionar, entretanto, tive clubes de outras ligas que me convidaram e não quis ir, acreditei no projeto do Santarém, devia ter ido. Precipitei-me quando perdemos em casa, e mais uma vez há penaltis falhados, pensei isto são sinais de que não devo estar aqui. Se nem nos penáltis consigo fazer golos. Liguei ao presidente a dizer que tinha o meu lugar à disposição. Ele aceitou. Depois voltei atrás, mas a decisão já estava tomada. E saí.

A seguir vai para a seleção da Nigéria como adjunto de José Peseiro. Uma realidade completamente diferente de tudo o que tinha vivido até ali.
Sim, não tem nada a ver. O último treinador que subiu uma equipa do Santarém a uma liga profissional antes de mim foi o Zé Peseiro. Ele ia ver os jogos e acompanhava o clube, tinha amigos lá dentro e nós já nos conhecíamos. Ele fez-me o convite. Fiquei extremamente agradecido por ter a oportunidade de trabalhar com uma referência como o José Peseiro e na seleção da Nigéria, era impossível de dizer que não e voltei ao papel de adjunto, embora numa seleção seja diferente. Eu conhecia África, tinha estado a fazer voluntariado em Moçambique e já lá tinha estado três vezes, mas nunca estive num espaço tão profundo como esta experiência da Nigéria. A nossa seleção estava avaliada em 400 milhões de euros, só por aí se vê o potencial.

Como foi trabalhar com José Peseiro?
Não conheço os processos do Zé Peseiro com os outros clubes, conheço o processo que desenvolvemos na Nigéria. Foi talvez o treinador com quem aprendi mais na forma de liderança, na integridade e no processo de treino. O Zé é um indivíduo extremamente inteligente. Acho que às vezes até é boa pessoa demais. E se posso fazer uma crítica, é essa, às vezes é boa pessoa demais.

Em 2021/22, Acácio (o 1º mais atrás à direita), aceitou o convite de José Peseiro para ser seu adjunto na seleção da Nigéria
Em 2021/22, Acácio (o 1º mais atrás à direita), aceitou o convite de José Peseiro para ser seu adjunto na seleção da Nigéria
D.R.

Que explicação encontrou para a derrota na final do CAN, em 2023, com a Costa do Marfim?
Não ganhámos o CAN por cansaço, por desgaste da maioria dos jogadores. Simplesmente por isso. Podíamos ter feito uma gestão melhor de alguns jogadores? Talvez. Já sabíamos que um dos grandes desafios era a capacidade de recuperação dos jogadores por inerência das características da seleção, pelas limitações da seleção. Batalhámos muito, muito, muito mesmo para ter melhores condições, mais recursos, desenvolver os jogadores. Os jogadores é que levavam muito material para a recuperação; há um contexto complexo a nível da federação, houve uma mudança de presidente na federação, portanto não tínhamos os recursos científicos disponíveis para a recuperação dos jogadores e sofremos depois por isso. E jogámos contra a seleção da casa, o fator anímico e o fator emocional estava muito presente. E houve muitas outras coisas que as pessoas não sabem.

Pode revelar algo?
O Zé foi muito criticado na Nigéria e ele nunca fez uso disto, mas tivemos uns 12 meses sem receber nada. Estamos a falar de uma seleção nacional. E o Zé é que suportava tudo para os adjuntos dele. Ele disse, estou bem na vida, não tenho problemas, eu vou sustentar os vossos salários, a bem ou a mal sei que vou receber, porque está tudo escrito, eles são obrigados a pagar. E os jogadores, muitos deles, estavam lá por causa dele. O Victor Osimhen adora o Zé Peseiro, e disse-lhe: "Estou aqui por si. Já passei por tanta porcaria na Nigéria, mas estou aqui por si." Isto é que faz de nós seres humanos.

A gestão do cansaço foi a única razão para aquela derrota na final?
Houve uma coisa que condicionou muito o Zé. O amarelo que ele levou na primeira parte. O Zé é muito intenso na gestão que faz com os jogadores e no jogo em si, mas isso fá-lo estar vivo e a leitura do jogo dele depende muito dessa sua ativação. Ele depois teve que se resguardar e ir para o banco, a pior coisa que podes fazer a um indivíduo que está habituado a tomar decisões em frequência cardíaca alta. Eu já sou um bocadinho ao contrário. Consigo estar mais sereno na tomada da decisão. O Zé é o oposto. Então mudámos de papel. Ele ficou muitas vezes sentado.

Isso determinou ou alterou o rumo do jogo?
Acreditávamos mesmo que íamos ganhar o jogo, muito honestamente. Mas começámos a sentir que tanto o Ola Aina como o Victor e o Zaidu Sanusi estavam a claudicar e no momento em que íamos fazer as alterações, eles fazem o segundo golo, um erro nosso e pronto, isso mudou o jogo e tiveram de ficar alguns jogadores mais cansados. Depois fomos para cima deles e poderíamos ter feito pelo menos o 2-2. Mas há outro dado importante fisiológico.

Qual?
Fomos jogar a meia-final com a África do Sul, que fomos a prolongamento e a penáltis, num dos sítios mais caricatos em que estive. Se puserem um alfinete no meio da Costa de Marfim, foi para onde fomos. Começámos a estudar muito antes as características da cidade em si, se havia alguma coisa de anormal. E não é que a cidade é caracterizada por ser um dos sítios com o nível de humidade mais baixo do planeta. Andámos a treinar com 16% de humidade, o que cria uma dificuldade respiratória tremenda. O ar é seco. Ainda para mais, aquilo era uma zona meio-deserta, com muita areia. Então, tanto nós como a África do Sul tivemos muitos problemas de adaptação durante o jogo. Foi extremamente desgastante. E o processo de recuperação depois também é mais lento. Se nós já tínhamos dificuldade no processo de recuperação, por inerência das características da federação, ainda mais acabámos por ser prejudicados devido a onde fomos jogar na meia-final.

José Peseiro e Acácio Santos durante um jogo da Nigéria
José Peseiro e Acácio Santos durante um jogo da Nigéria
Karpushev

Veio embora da Nigéria e só no início deste ano é que recebeu convite para trabalhar no Irão, o que não veio a acontecer. Porquê?
Tive vários convites quando regressei da Nigéria, só que, quando regressei, depois fui fazer um estágio ao Manchester City, com o Pep Guardiola, e quando venho para Portugal, venho com covid. A covid entrou no coração e fiz uma pericardite. Não podia treinar, não podia fazer nada, zero. Não pude aceitar projetos. Mas recuperei e lá me dispus a ir para o Mes Rafsanjan, do Irão. Era um convite de seis meses, o dinheiro era bom. Queria perceber o Irão, conhecia algumas pessoas iranianas, conversámos muito e decidi ir. A verdade é que quando assino o contrato, no dia seguinte, lembrei-me de comunicar à embaixada que ia para lá. Entretanto, o embaixador ligou-me e disse: "Estou aqui sozinho, a minha família já voltou para Portugal, não está cá ninguém, estamos a dizer aos portugueses para se irem embora e o mister faz o que quiser, mas nós não aconselhamos a vir."

Isso aconteceu quando?
Em janeiro ou fevereiro deste ano, já o Trump tinha sido eleito. Quando ouves isso do embaixador ficas a pensar, porque à partida ele sabe mais do que está a dizer. Mas, um bocadinho louco como sou, fui preparando as coisas com o empresário de lá e disse que ia na mesma. Telefonei ao embaixador quando chegou o bilhete para dizer que ia e ele voltou a insistir: "É melhor não vir. Não venha. Não venha." E pronto, tomei a decisão de não ir. Houve várias situações que até foram noticiadas, como o caso da jornalista italiana, o casal de suíços que estava a passear e foram presos do nada. O clima estava bastante instável na zona, ele não abriu muito o jogo, disse que não podia, mas ponderei. Só tenho a agradecer ao embaixador, ao dr. André, vendo o que está a passar-se hoje.

De lá para cá já recebeu mais algum convite?
Já tive algumas respostas de um nível que não queria, da Liga 3; de Angola, também. Mas não aceitei. Eu queria três meses de contrato apenas, para ver como corriam as coisas e depois analisávamos se ficaria mais tempo, mas eles queriam um ano.

O treinador-adjunto (ao centro) com alguns elementos da equipa da seleção da Nigéria, vestidos a preceito
O treinador-adjunto (ao centro) com alguns elementos da equipa da seleção da Nigéria, vestidos a preceito
D.R.

O que está a fazer profissionalmente agora?
Tenho empresas. Tenho um projeto de tecnologia no futebol, que é a Coach ID, com dois sócios, o João Daniel e o João Lapa; já desenvolvemos um software e agora vamos lançar uma nova versão, mas não posso revelar grande coisa ainda. E tenho uma intenção clara, política, de organização social. Não gosto do termo político.

Está ligado a algum partido?
Não. Estou a criar o Movimento Compromisso Nacional. Uma coisa é certa, não vou ficar só pelo mundo do futebol, vão-me ouvir na intervenção social. Para mim um político é um organizador social, não é nada mais do que isso. Eu não vou para a política para fazer carreira. Vou para a política para fazer intervenção social. Isto é um dos pontos fortes. Isso está muito presente em mim. Não só porque sinto que tenho princípios importantes que me levam a isso, sinto isso muito no âmago. Já tive alguns convites de alguns partidos, mas a minha intervenção é sempre como independente. Sempre disse que o meu partido político era de acordo com as necessidades da sociedade. Se entramos em dogmatismos, deixamos de ver e esses dogmatismos levam-nos a extremos e perdemos a capacidade crítica. Estamos a entrar numa fase de medo e o medo leva a uma reação primitiva que é a proteção e a proteção manifesta-se de duas formas: na agressão ou no recolhimento. É o que estamos a ver na sociedade.

Esse movimento surge para combater essa maior tendência para a agressão e recolhimento?
Eu não sou solução para nada. A questão não é essa. A questão é, para já, limpar um pouco a imagem daquilo que é a política em si, que está associada à corrupção e ao querer fazer carreira e mostrar que há pessoas mais interessadas em fazer algo pelo país e pela sociedade do que propriamente pelo seu amigo. Não tenho telhados vidros, o movimento não tem telhados vidros, não há cá compadrios, nem favores. Há uma necessidade, que é humanizar a sociedade, não tornar a sociedade extremista.

Acácio (no meio) com o irmão mais novo e a mãe
Acácio (no meio) com o irmão mais novo e a mãe
D.R.

Quando pensa lançar oficialmente esse movimento?
O movimento está a ser escrito. Não sei o timing, mas já esteve mais longe de aparecer. A partir do momento em que comecei a manifestar esta minha vontade e a escrever muitas coisas sobre a sociedade atual e a interpretar aquilo que são as políticas, as questões internas, do dia a dia, da tomada de decisões, das leis, e fui falando com várias pessoas, começaram a unir-se várias pessoas ao movimento. São pessoas que nunca tiveram ligação partidária, são pessoas com experiências sociais, com experiências fora do país, com experiências de voluntariado, pessoas que viveram fora da nossa redoma.

E se aparecer um convite do futebol?
Tenho uma perspetiva temporal para deixar o futebol e dedicar-me só à questão da política.

Estamos a falar de quanto tempo?
Para já está definido em seis, oito anos. Vou fazer 45 anos, na casa dos 50 e poucos deixo o futebol para dedicar-me à política. Exclusivamente.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
Na Nigéria.

Já disse que investiu na área tecnológica. Tem outro tipo de investimentos?
Tenho dois projetos a decorrer associados à agricultura, criação de cavalos, através da perspetiva holística de respeito pela terra. Estou a criar duas quintas onde a essência é a terra, a natureza e a interação entre o homem e a natureza.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Pagar para ir na 1.ª classe num voo longo curso.

Tem algum hobby?
Leitura e cinema.

O treinador com a medalha da final do CAN, em 2023
O treinador com a medalha da final do CAN, em 2023
D.R.

É um homem de fé? Acredita em Deus?
Estou muito influenciado por Bento de Espinosa, na ligação à natureza.

Superstições, tem o teve?
Acredito nas energias, sou muito espiritual.

Disse que fez a primeira tatuagem na Noruega. O que tatuou?
Foi um estado emocional que me define e que foi criado pelo Tony Robbins e pelo Jorge Coutinho. É a junção de duas palavras, que é o Gandhi e o Mo. O Mo, surgiu por referência à minha essência. Portanto, Gandhi e Mo, com a árvore da vida, é uma marca que tenho no corpo para nunca me esquecer de quem sou.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Acompanho sobretudo Fórmula 1, ténis, futsal e andebol. E todos os jogos que sejam da seleção nacional, em qualquer modalidade.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ser jogador de futebol.

E o maior arrependimento?
Não ter aceite ter sido treinador principal do Vitória de Setúbal.

Acácio com os seus dois cães: o Snoopy e a Caju
Acácio com os seus dois cães: o Snoopy e a Caju
LUIS BRANCA

O momento mais feliz da carreira?
Despedir-me da equipa no balneário lá na Malásia. Foi um dos momentos mais marcantes. Subir de divisão no Santarém e ter um jogador que me disse que o que lhe ensinei mais foi a gratidão.

Tem ou teve alguma alcunha?
Cako.

Há alguma lei do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Gostava que os jogos não terminassem empatados por uma questão de espetáculo. O jogo é uma manifestação cultural, mas pelo impacto na sociedade, acho interessante haver empate. Em termos de jogo, o jogo nunca devia acabar empatado e, se fosse preciso, desempatava-se com três penáltis para cada lado.

Tem algum talento escondido?
Aprendo línguas com facilidade.

Quais foram os seus modelos de treinadores?
Há duas pessoas que marcaram a minha carreira: o José Mourinho e o Arlindo Morais. Um concretizou coisas num nível mais baixo e outro a nível mais alto. Atualmente, a minha referência é o Pep Guardiola.

 

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Só faltou dizer que o Peseiro também pagava do bolso dele para não o voltar a levar para onde quer que fosse. 

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Citação de silentz, Em 26/06/2025 at 18:36:

 

Spoiler

Leonardo Jardim: "Não gosto muito do show off que existe à volta do futebol. Há profissões mais importantes para a sociedade do que a nossa"

O treinador português aceitou o convite para treinar o Al-Hilal, campeão da Arábia Saudita, depois de um ano e meio longe dos bancos, em que aproveitou para acompanhar a família e cumprir outro sonho: fazer vinhos no Douro. Aos 47 anos, continua a preferir a discrição ao mediatismo do futebol. E diz que nada o vai fazer mudar.

Está no Al-Hilal desde junho. Já podemos falar de primeiras impressões?
É um desafio planeado já há algum tempo. Há dois anos fiz uma viagem ao Catar, China e Riade para conhecer, porque a minha perspectiva era quando o meu filho acabasse o 12.º ano vir para um destes países treinar. E agora surgiu a oportunidade de vir para trabalhar na Arábia Saudita. Tem sido fantástico, nos vários níveis, não só a nível de futebol, mas também em termos culturais e comportamentais, a trabalhar num cenário diferente daquele cenário habitual na Europa, principalmente pela questão da religião, com as paragens para as rezas e também devido às condições climatéricas, porque faz muito calor. Em relação ao futebol, temos um campeonato competitivo, porque todas as equipas têm sete estrangeiros.

Horários muito diferentes, suponho.
Trabalhamos mais à noite e a vida cá também se desenvolve mais à noite. Acorda-se tarde e vai-se dormir tarde. Nos treinos teve de haver uma adaptação, treinar às sete, oito da noite, chegar a casa à uma da manhã depois dos treinos. Inicialmente foi o mais difícil de organizar, mas agora quer staff como jogadores estão em sintonia, percebemos que é melhor ir a favor da vaga que é treinar tarde, recuperar bem e acordar tarde, em vez de eles dormirem tarde e terem de acordar muito cedo.

Essa adaptação demorou?
Eu adaptei-me rápido. Mas isso também é uma das características dos portugueses, temos uma grande capacidade de adaptação. Por isso é que somos capazes de trabalhar no futebol e em outras áreas por esse mundo fora. Não somos de queixarmo-nos muito. Existem diferenças grandes, mas o plano também era este: já tinha treinado em Portugal, na Grécia e em França e queria novas experiências. Gosto de conhecer novas culturas, sociedades que olham para a mesma coisa de forma diferente.

Não lhe faltam jogadores que já passaram por Portugal, Marega, Vietto, Matheus Pereira, Carrillo. Mas como é o jogador saudita? Quem por aí passa diz que têm qualidade mas que lhes falta dar o salto na questão do profissionalismo.
Há muitos jogadores com valor e eu estou na equipa que tem mais internacionais. Toda a gente fala desse tal salto, mas não nos podemos esquecer que estes campeonatos e estes países, devido às condições climatéricas, não podem ter jogos com a intensidade que há na Europa. Nós agora na Liga dos Campeões jogámos com uma humidade altíssima e trinta e muitos graus. E isso não existe na Europa. Na Europa com 20 graus os jogadores já dizem que está calor. Não se pode comparar na intensidade. Mas há boa qualidade técnica.

E a vida em Riade?
É outra adaptação. Às 16h, 17h vou para o treino, fico lá sempre até muito tarde para fazer as reuniões, as análises, o planeamento, observar as equipas. E durante o dia não podemos andar na rua porque está muito calor. Aproveitamos para estar em casa, porque até às 14h, 15h é impossível andar na rua.

Levou a família?
Estou com a minha esposa. Esperei até este momento para fazer esta experiência porque o meu filhote saiu para a universidade, está nos Estados Unidos, na Carolina do Norte. E eu e a Carla voltámos a ter a liberdade que não tínhamos porque ele estava sempre connosco [risos]. Foi o momento ideal para sair da Europa, porque enquanto ele estava no secundário não abdiquei que ele estudasse em bons colégios e por isso não podia sair.

Então agora tem a família separada em continentes completamente diferentes.
Sim, geograficamente estamos longe, mas hoje em dia com o digital estamos muito próximos. Mas isto no passado já aconteceu à minha família, o meu pai foi emigrante na Venezuela, eu nasci lá, depois voltámos. Nessa altura estivemos separados e não havia esta tecnologia. Hoje em dia é tudo muito mais fácil.

O seu filho está na área do desporto ou foi por um caminho diferente?
Está na área da gestão, uma licenciatura mais aberta, com finanças, liderança. Mas ele gosta muito do desporto, no futuro pode canalizar para algo na área. Mas as decisões no que diz respeito aos estudos sempre foram dele.

E para a sua esposa, como tem sido a mudança para um país onde as mulheres têm tantas restrições?
Há dois anos eu e a Carla estivemos cá durante três, quatro dias. Ela já conhecia Riade e por isso foi fácil, quando recebi a proposta nem foi preciso vir cá conhecer, já sabíamos para onde vínhamos. A Arábia Saudita mudou muito nos últimos dois anos, está numa mudança constante. Por exemplo, há dois anos as mulheres usavam abaya e hoje é normal vermos mulheres com a cara descoberta. Também já podem frequentar hotéis e restaurantes sozinhas. Estão a adaptar-se ao mundo moderno, a aproximar-se ao que existe no Dubai, por exemplo. Por isso tem sido fácil para a Carla, temos uma vida normal como tínhamos nos outros sítios, quando precisamos de sair, saímos, temos aqui bons restaurantes. Nós não somos de centros comerciais, mas há bons shoppings aqui.

Leonardo Jardim é treinador do Al-Hilal desde junho, depois de uma pausa de ano e meio
PASCAL GUYOT

Aquele ano e meio em que esteve parado, foi opção ou não lhe apareceu a proposta ou o projeto certos?
Foi um misto de situações. Saí do Mónaco no início de 2020, que coincide com o início da pandemia. Começa tudo a fechar e o futebol em França parou. Depois recomeça, mas eu tinha o meu filho a estudar e eu só aceitava ir para um clube muito próximo do Mónaco para conseguir estar junto da família, não queria abdicar disso. Isso não apareceu e não apareceu o clube que eu perspectivava. Depois de estar no Mónaco, Sporting, Olympiacos, clubes que sempre tiveram ambições, não queria ir para clubes com muito menos ambições e por isso fechei a porta a muitos clubes, na Europa e fora da Europa. E aproveitei esse ano e meio para desenvolver outros sonhos e outros projetos que tinha em mente. Foi um excelente ano e meio, apesar de tudo. Porque aproveitei a família mais do que nunca e atirei-me a projetos que tinha na gaveta já há algum tempo. Mas é claro que depois a saudade apertou, o Bernardo também decidiu ir estudar fora e eu pensei que era hora de voltar a trabalhar.

Foi neste período que se tornou produtor de vinhos e azeite no Douro?
Sim, foi o meu grande projeto deste ano e meio, a quinta no Douro. Sou um apaixonado pela natureza, principalmente a parte da produção. A minha família já faz vinhos na Madeira há muitos anos, mas para consumo próprio. Quando vim para o continente trabalhar, fui para o Chaves, depois para Aveiro, passei muitas vezes para baixo e para cima no Douro vinhateiro e meti na cabeça que queria ter ali uma quinta e fazer uma produção de vinho. Em 2020, na paragem, eu e a Carla aproveitámos para começar a pesquisar o que existia no mercado e acabámos por comprar uma quinta. Começámos primeiro no azeite, conseguimos fazer a primeira colheita no final do ano e o nosso primeiro azeite já está no mercado. Vai ser certificado como biológico já este ano. Queremos produzir pouco, mas em qualidade. Está representado principalmente fora de Portugal, nos Emirados, em Paris, no Mónaco. Temos tido algum sucesso.

Agora vem o vinho?
Este mês fizemos a primeira vindima, para os nossos primeiros vinhos brancos e tintos. Serão lançados talvez no final de 2022. Não queremos rivalizar com grandes produtores de vinho, queremos fazer produtos especiais, diferentes, de qualidade, até porque a nossa produção é pequena.

É uma paixão que rivaliza com o futebol?
São coisas diferentes. O futebol é o meu trabalho e enquanto cá estiver vai ter a minha dedicação a 100%. A quinta é a minha reforma, que eu não me posso sentar no sofá, preciso de ter atividades! Quando estiver fora do futebol é o que eu vou abraçar, porque são coisas que também gosto. Não quero ser treinador até aos 70 anos, vou ser treinador enquanto sentir a motivação e o prazer. Quando achar que tenho mais prazer fora do que dentro do futebol, terei outras atividades.

Neste ano e meio desligou completamente do futebol?
Não, não. Este ano e meio teve várias fases. Nos primeiros seis, sete meses houve quase um off, porque a pandemia parou os campeonatos e acabou por haver um corte na visualização, na troca de experiências com outras pessoas. Nos seis meses seguintes, aos poucos, comecei a ver algum futebol, principalmente para conhecer as adaptações que aconteceram devido à covid-19. Em termos técnicos, houve a questão das substituições, que passaram para cinco e isso traz novas responsabilidades ao treinador, porque passa a ter mais opções. Preocupei-me também com as ideias desenvolvidas para superar a covid-19, para evitar os contágios. E nesta fase final, aí a partir de fevereiro de 2021, já comecei a interessar-me pelas opções que teria no mercado para voltar a treinar em junho, como acabou por acontecer.

O treinador e mulher, Carla, numa prova do azeite Jardins do Tua, produzido na quinta da família, no Douro
O treinador e mulher, Carla, numa prova do azeite Jardins do Tua, produzido na quinta da família, no Douro

Teve contactos do Brasil, de França. Não o seduziram essas propostas?
Tive várias hipóteses, desde Inglaterra, Espanha, França, Brasil, aos vários mercados árabes. Há pessoas que não conseguem compreender porque é que vim para o Al-Hilal, mas o importante é eu decidir consoante a minha consciência. O Brasil para mim é o país com mais talento no futebol. Mas aliado a isso tem alguns problemas. A covid-19 ainda é uma questão grande lá, tal como a instabilidade causada pela criminalidade. Gostava de um dia treinar no Brasil, mas espero que o contexto melhore entretanto. Na Europa, as propostas que tive não foram dos três melhores de França, nem dos três melhores de Espanha nem dos seis melhores de Inglaterra. Sinceramente, depois de 50 jogos na Champions, depois de ser campeão francês, depois de lutar sempre pelo pódio, não estava preparado para jogar para o meio da tabela ou para não descer, mesmo que seja nos melhores campeonatos europeus.

E virou-se então para os países árabes.
Depois apareceram as oportunidades nos países árabes. Procurei o campeonato mais competitivo e aparece o Al-Hilal, que me permite jogar para os primeiros lugares, jogar a Champions asiática. E o contexto é bom, apesar da parte cultural ser muito diferente, mas em termos de qualidade de vida é muito bom. Estamos aqui como se estivéssemos na Europa. Os ocidentais vivem em componds, que são quase pequenas cidades. Tenho um vizinho francês, outro belga, um irlandês. E há de tudo, supermercados, pastelarias, restaurantes. Estou muito satisfeito, até porque nos últimos sete anos vivi num apartamento minúsculo no Mónaco e agora estou numa vivenda [risos].

Apesar disso, viver no Mónaco deve ter as suas partes boas.
É super tranquilo, ninguém chateia ninguém. Tanto pode estar lá um piloto de Fórmula 1, como qualquer tenista, ninguém quer saber. É uma qualidade de vida... para mim, que gosto de estar tranquilo e de passar despercebido, é o local ideal. O meu vizinho do lado era o manager dos Beatles, um velhote com 80 anos, muito engraçado. Tinha vizinhos milionários que iam de pijama buscar o pão [risos]. A minha ideia é viver no Mónaco, se for possível vou continuar lá, porque é uma forma de estar à qual estava totalmente adaptado, adapta-se muito à minha personalidade. Por exemplo, ainda agora em maio estive em Portugal, num congresso de treinadores, e foi tão engraçado... estava com o Vítor Pereira, que eu conheço há muitos anos, e ele diz-me: "Oh Leonardo, eu não oiço falar de ti há um ano e meio". E eu disse-lhe: "Ainda bem, isso é bom sinal". Eu gosto muito do futebol, mas também da minha privacidade e de estar tranquilo.

Em tempos disse que havia o "Special One", mas que o Leonardo era o "Normal One". Acha que esse lado mais discreto que tem pode ser às vezes um handicap na hora de um grande clube olhar para si?
É a minha forma de ser e não se vai alterar só porque ganhei em França, porque fomos às meias-finais da Liga dos Campeões ou porque fui campeão na Grécia. Já fui o treinador que vendeu mais jogadores no mundo. Mas sou o que sou e gosto de ser como sou. O futebol é o meu trabalho mas não gosto muito do show-off que existe à volta do futebol. Os treinadores e os jogadores são importantes. Mas os professores, os médicos também são importantes. Há profissões muito mais importantes para a sociedade do que a nossa. Acho que vivo dentro daquilo que é a minha dimensão e acordo feliz todos os dias porque gosto do que faço e gosto de quem sou. Não necessito de grande show-off, de grande publicidade, gosto de passar ao lado, como uma pessoa normal. Daí ter-me apelidado de "Normal One".

Ganhar a liga francesa em 2017 com o Mónaco, contra aquele Paris Saint-Germain todo-poderoso, é o maior orgulho que tem na carreira?
Sim. É, pelo menos, o mais visível. Eu não fui atleta de alta competição, não tive ninguém na família que me impulsionasse na carreira. A minha caminhada foi feita paulatinamente, com trabalho, com subidas de divisão, da III para a II, da II para a I. De clubes mais pequenos para clubes maiores, sempre procurando mostrar resultados, porque são os resultados desportivos que melhoram a carreira de um treinador. Isto apesar de agora vermos apostas em treinadores que nunca treinaram ninguém e passam a treinar grandes clubes. Ou treinadores que descem de divisão num lado e vão treinar clubes para subir no outro. Mas isso são modernices, eu sou da velha escola [risos]. Mas, continuando, todos esses marcos, a subida à II Liga do Chaves, a subida à I Liga do Beira-Mar, o 3.º lugar no SC Braga, vice-campeão no Sporting com aqueles miúdos que tinham ficado em 7.º lugar um ano antes... tudo isto é importante. É claro que o campeonato francês dá outra visibilidade, é uma liga forte, o PSG é uma super-equipa. E nós com um conjunto de miúdos que tinham sido trabalhados nas duas, três épocas anteriores, com mais dois ou três jogadores experientes, conseguimos ser campeões franceses. É muito gratificante, não é?

Jardim a festejar o título francês de 2017, com o Mónaco
Jardim a festejar o título francês de 2017, com o Mónaco
Jean Catuffe/Getty

Esse ano muda a vida a uma série de jogadores, que saem dali para grandes clubes.
Tive a felicidade de encontrar muitos jogadores jovens que depois de passarem por mim têm tido oportunidades a outros níveis. O primeiro foi o Pizzi. Fez os primeiros três jogos do campeonato comigo no SC Braga e depois foi vendido para o At. Madrid. Mas há vários, os Manolas no Olympiacos, que depois vai para Itália, no Sporting o William Carvalho, o Eric Dier. Mas a maior fornada foi no Mónaco, sim. Naqueles anos o mercado também estava uma loucura, pagaram €180 milhões pelo Mbappé para o PSG, €70 milhões pelo Lemar para o At. Madrid, Fabinho, Bernardo Silva, Mendy... todos esses jogadores foram vendidos por números muito grandes. Quase todos eles, antes do Mónaco, vinham de clubes mais modestos ou então eram jogadores que não jogavam.

Por falar em Mbappé, o Leonardo será sempre o treinador com quem ele se estreou.
Sim, era um miúdo da formação e logo aos 17 anos vimos as potencialidades dele. Trouxe-o para a equipa principal e o primeiro ano foi de trabalho, integração, desenvolvimento das capacidades dele, principalmente tático-estratégicas, porque ele a nível técnico já era muito bom, físico também. O segundo ano é o ano da explosão, mostrou a toda a gente o talento que tinha e por isso é que depois tem uma das maiores transferências da história. Foi muito gratificante. Mas mais para o clube do que para mim, foram eles que receberam o dinheiro [risos].

Pois, é que depois de ser campeão de repente fica ali com uma equipa um bocadinho... coxa.
Um bocadinho... eu acho que naqueles dois anos seguintes até os suplentes foram embora [risos]. E tivemos de voltar a fazer uma equipa. Em dois anos o grupo foi totalmente dizimado. De um plantel de 20 perdemos uns 15 jogadores. Tive pena porque aquela equipa com mais um ano poderia ser campeã novamente, podia ter jogado a Champions para ganhar. Mas sabemos que o Mónaco é um clube vendedor. Aliás, antes dessa fornalha já tínhamos tido outra muito boa no primeiro ano, com o Martial, o Ferreira-Carrasco, o Kurzawa, o Kondogbia.

Voltando ao Mbappé: foi logo visível que era um fora de série?
Para chamar craque a um jogador é preciso analisar vários parâmetros. Não é só a qualidade técnica e física, mas também a capacidade de evolução. Há jogadores que aos 30 anos jogam da mesma forma que jogavam aos 16. Mas ele era diferente em termos técnicos e de velocidade de execução. E era um jogador competitivo, gostava de treinar, de ganhar. Isso é fundamental.

Para lá do Mónaco, falou há pouquinho daquele ano do Sporting, em que aproveita muitos jovens. Dá-lhe uma pica especial trabalhar e desenvolver os miúdos?
Os clubes têm essa necessidade, mas em termos pessoais posso dizer que gosto de, como dizem os franceses, mettre la pâte, de meter a mão. Ou seja, marcar o trabalho, a evolução de alguém. Há muitos jogadores que sabem: "Quando passei pelo Jardim, passei para outro nível". Isso para mim é gratificante. Não é um troféu, mas é gratificante. Quando estou com o William Carvalho, por exemplo, falamos disso. Há uns tempos estive na seleção e estava lá muito pessoal que passou por mim, o William, o Pizzi, o Adrien.

Leonardo Jardim e Kylian Mbappé
Leonardo Jardim e Kylian Mbappé
VALERY HACHE/GETTY

Esse ano no Sporting imagino que não tenha sido só de trabalho em campo, mas também de recuperação de um plantel que vinha da pior classificação de sempre. Foi duro?
Sinceramente, não. Treinar o Sporting era um dos objetivos da minha vida desportiva e de carreira. Fui para o Sporting porque queria mesmo treinar o Sporting, não foi por salários, nada. Não havia sequer dinheiro para contratações. Os nossos reforços foram o Slimani, que vinha da Argélia, o Montero que vamos buscar aos Estados Unidos. Tivemos de ir a estes mercados mais pobres para reforçar a equipa porque não havia recursos. O Bruno de Carvalho penso que nessa altura fez uma boa gestão. Essa equipa foi fácil de trabalhar, porque tinha muita ambição, miúdos novos que queriam ganhar, que queriam jogar, porque muitos deles nunca tinham tido a oportunidade de serem verdadeiramente titulares no clube. Foi um ano muito engraçado, desportivamente correu bem e em termos de trabalho criámos ali uma excelente dinâmica.

E ainda dá luta ao Benfica para o título.
Perdemos o campeonato, penso eu, no jogo da Luz, quando o vento deitou uma parte da pala abaixo. O jogo é adiado para o dia seguinte. Em termos estratégicos íamos apostar em dois avançados para esse jogo e no dia seguinte a surpresa já não funcionou da mesma forma. Eu acho que o Jorge [Jesus] deve ter sabido da mudança e ainda conseguiu adaptar-se. Se esse jogo tem caído para o nosso lado, podíamos ter sido campeões nesse ano.

Com mais um ano de trabalho aquela equipa poderia ter chegado ao título?
Saí com pena, mas sempre fui muito frontal com o Bruno de Carvalho. Fui para o Sporting e no primeiro ano a minha preocupação não era a questão financeira. A preocupação era que o Sporting passasse aquela fase do 7.º lugar e conseguisse estar na luta. E aceitei as condições que o clube me dava, em termos de equipa técnica, mas também de jogadores, porque sabia que não podíamos ir buscar grandes jogadores. Fizemos um bom aproveitamento dos jovens, uns emprestados, outros da formação, o Inácio aí também teve um papel fundamental. Mas depois de sermos vice-campeões, de qualificar a equipa para a Champions, não podíamos voltar ao recrutamento que tínhamos feito. Isso não aconteceu e também foi por causa disso que saí para o Mónaco. Quando o Jesus veio, por exemplo, aí houve um verdadeiro investimento para o Sporting tentar ser campeão. São timings. Eu acho que não estive no Sporting num bom timing. Ou seja, numa fase em que o clube quer investir e assumir uma aposta no mercado.

No SC Braga, não foi por muito tempo, mas apanhou o Rúben Amorim. Já tinha pinta de treinador?
Sim, foi na altura em que chega do Benfica, tinha tido alguns problemas com lesões. Só tenho coisas boas a dizer dele. Não sendo um titularíssimo na altura, era um jogador que quando era chamado tinha sempre boa atitude. Penso que é um pouco aquilo que ele é como pessoa. Nesse ano apanho outro grande profissional, o Nuno Gomes, que também não sendo titular foi um dos jogadores que mais admirei, pela sua postura. Sempre cooperante com a estratégia da equipa, nos treinos, boa atitude jogasse ou não jogasse. Tanto o Rúben como o Nuno Gomes eram dois jogadores que mesmo não jogando cooperavam com os colegas, com o treino, com a própria equipa técnica. Isso para mim é fundamental. Mas sinceramente não é muito fácil definir quem são os jogadores que poderão dar treinadores. Há atletas que pela postura e comportamento dão alguns sinais que vão continuar na área. Por exemplo, nessa equipa tínhamos o Alan, que hoje é diretor desportivo do SC Braga, e eu sempre tive noção que ele poderia ser algo no futebol que não treinador. Já o Custódio, o Amorim, jogadores com um sentido coletivo muito grande, são o tipo de futebolistas que poderão ficar ligados ao treino desportivo.

Jardim foi vice-campeão com o Sporting em 2014
PATRICIA DE MELO MOREIRA

Não saiu muito a bem do SC Braga, pois não?
Não, saí a bem. Tive um convite do Olympiacos. Eu e o António Salvador temos uma excelente relação, ainda neste último verão cedeu as instalações do clube para eu fazer alguma atividade física. Temos verdadeiramente uma boa relação, esteve várias vezes comigo no Mónaco. Mas nessa altura acabou a época e tínhamos visões completamente diferentes sobre o passo a dar e resolvemos de uma forma muito simples.

Voltar a treinar em Portugal é uma ideia longínqua?
Neste momento não passa pela minha cabeça porque quero continuar a diversificar as minhas áreas de trabalho, a nível geográfico. Agora estou aqui na Arábia Saudita, mas queria ter mais algumas experiências fora, porque em termos de riqueza pessoal penso que se ganha muito. Às vezes temos a mania que na Europa é que se vêem as coisas de forma correta e acho que nos abre muito o cérebro quando temos a capacidade de treinar em vários sítios. Acho que somente um grande clube europeu poderia mudar esta forma de pensar. Não estou a pensar mudar agora para Portugal, mas no futuro vamos ver o que vai acontecer, sabendo que não me vejo a treinar até aos 70 anos.

E que outros campeonatos mais fora do radar gostaria de experimentar?
Aqui o mercado árabe, a China, o Japão e Coreia são também países que em termos culturais são muito diferentes. Os Estados Unidos também, que é uma realidade no futebol distinta. E a América do Sul. Acho que são estas quatro áreas ou conjunto de países que em termos culturais poderão ser interessantes. Mas não vale a pena estar a fazer grandes planos para daqui a um ou dois anos. No futebol acho que temos de viver o momento.

Olhando para a sua ideia de jogo, de futebol de ataque, com vertigem, e para a forma como trabalha com jovens, qual dos grandes campeonatos assentaria melhor ao treinador Leonardo Jardim?
O campeonato italiano. Porque é um campeonato que aposta pouco nos jovens. Em Itália um jogador com 21 anos é jovem e eu acredito que jovem é ter 17 ou 18 anos, com 21 anos já têm de ser quase uma certeza. É um daqueles campeonatos em que eu acredito que poderia trazer uma diferença em termos de abordagem.

 

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Inês Pereira

Spoiler

“A minha mãe faleceu quando eu tinha 12 anos. Praticamente não via o meu pai, ele trabalhava à noite. O futebol era o que nos ligava”

Inês Pereira, 26 anos, jogava à bola com pedras na rua antes de ir para as escolinhas do Sporting, no Atlético do Cacém, onde começou a extremo-esquerdo e acabou à baliza. A guarda-redes, que já está na Suíça onde vai disputar o Europeu, conta como o futebol foi o meio natural de ligação ao pai, fala da perda da mãe e como isso ainda a afeta e explica como foi parar ao Sporting, depois de ter passado pelo 1.º Dezembro e o Estoril Praia

Nasceu em Lisboa. É filha de quem?
Quando nasci o meu pai era condutor de autocarros da Carris. Como ele fazia muitos horários noturnos, eu via o meu pai praticamente só quando jogava futebol, acabei por não passar muito tempo com ele. A minha mãe era cozinheira. Tenho um irmão mais velho quatro anos que atualmente é maquinista da CP.

Cresceu onde?
Sou do Cacém.

Em pequena deu muitas dores de cabeça ou era uma criança calma?
Não dei muitas dores de cabeça, mas também não era calma. Se calhar a minha revolta, no sentido de criar mais problemas, foi mais na adolescência, não tanto na infância. Da infância recordo-me só de um episódio, que envolveu o café que havia perto de casa. Eu estava sempre a jogar futebol ali perto. Um dia, estava a jogar futebol com pedras, dei um pontapé numa pedra e parti o vidro do café. O que vale é que o senhor já me conhecia e foi super simpático e disse que eu e o meu pai não nos precisávamos de nos preocupar.

Qual a primeira memória de infância que tem?
O futebol. Ir para o descampado, que tinha um campo de futebol, na terra da minha mãe, Foz de Alvares, perto de Góis, jogar futebol.

Inês com a mãe
Inês com a mãe
D.R.

De onde veio essa paixão pelo futebol, tem ideia?
O meu pai era apaixonado por futebol e acho que nos incutiu essa paixão, a mim como ao meu irmão, porque ambos jogávamos quando éramos mais pequenos. Entretanto, o meu irmão deixou, mas continuei com essa paixão. Como eu muitas vezes não via o meu pai, porque ele estava a trabalhar, o futebol acabava por ser o momento que nos ligava mais, porque ele me levava aos treinos e aos jogos. A partir dessa altura, comecei a criar ainda mais paixão pelo futebol.

Em casa torciam porque clube?
A minha mãe não ligava muito ao futebol, não tinha clube, o meu irmão e o meu pai eram benfiquistas. Mas, o facto de eu ter jogado e ter feito a minha formação numa escolinha do Sporting fez com que eu fosse do Sporting.

Começou a jogar futebol com quantos anos no Atlético do Cacém?
Com sete anos. Na altura, era onde estava a escolinha do Sporting. O meu irmão foi para lá jogar e o meu pai também meteu-me a jogar. Naquela altura era o meu pai que decidia tudo o que eu fazia na vida, mas fui feliz da vida, sem saber o que viria depois.

Agarrou logo a baliza?
Não. Fiz um ano sem ser federada, porque não podia jogar com aquela idade, como lateral/extremo esquerdo. Mas, aos oito anos, fui ver um jogo de futebol dos seniores do Cacém e não sei porquê foquei-me no guarda-redes. Achei engraçado o trabalho que ele tinha, a pressão e a responsabilidade e decidi ir para a baliza. Nunca mais deixei os postes.

Gostava da escola?
Nem por isso. Consegui terminar o 12.º ano com muito esforço, mas terminei.

Em criança
Em criança
D.R.

Qual a primeira memória futebolística que tem enquanto jogadora?
Recordo-me de uma vez em que fomos jogar ao Seixal, contra o Benfica, e perdemos 7-0, se não estou em erro. No final do jogo as pessoas vieram falar comigo e deram-me os parabéns pelo jogo que fiz, apesar do resultado.

Em pequena, o que dizia querer ser quando fosse grande?
Fisioterapeuta.

Aos 13 anos vai jogar para o 1.º Dezembro, porquê?
Porque só podíamos jogar com os rapazes até aos 12 anos e o 1.º Dezembro era a única equipa perto de casa que tinha futebol feminino.

Foi um grande choque passar a jogar só com mulheres?
Foi um grande choque no sentido em que eu tinha 13 anos e a maioria delas já tinham mais de 18 anos. Elas tinham muito mais maturidade, eu era uma criança ao pé delas. Não sabia o que dizer, o meu tema de conversa era diferente do delas.

Ficou com vontade de deixar o futebol nessa altura?
Não, muito pelo contrário, acabei por criar referências porque quando era pequenina não via muito futebol feminino e não tinha nenhuma referência no futebol feminino, só comecei a ter quando comecei a interagir com elas. Acho que também me fez perceber melhor o futebol feminino e que poderia evoluir e crescer.

Quem eram então as suas referências?
Iker Casillas e o Buffon.

A guarda-redes com o seu cão Kinder
A guarda-redes com o seu cão Kinder
D.R.

Esteve um ano no 1.º Dezembro e em 2013/14, vai para o CAC da Pontinha. Porquê?
Fiz uma época em que não jogava ou jogava muito pouco, entretanto, o CAC abordou o meu pai, apresentou o projeto e eu gostei. Era uma equipa mais jovem, ia ter jogadoras da minha idade e algumas do 1.º Dezembro também foram para lá. Aproveitei a oportunidade, porque ia para uma equipa em que já conhecia muitas jogadoras e que ia competir na 2.ª Divisão Nacional. Fiz lá uma época também.

Passou a ganhar dinheiro no futebol?
[Risos] Não. Muito pelo contrário, até havia uma cota, não me recordo se era mensal ou anual, mas na altura até os equipamentos e os kits de treino pagávamos. Pagava-se tudo, basicamente tinha de pagar para jogar futebol.

Na temporada seguinte foi para o Estoril Praia, certo?
No final da época no CAC fiz uma rotura do menisco, num torneio, e passei o verão todo a fazer recuperação. Felizmente foi só o menisco e como era jovem o meu corpo acabou por recuperar rápido, mas acabei por não ter férias porque tive de fazer a recuperação e depois surgiu o convite do Estoril Praia.

Já lhe passava pela cabeça ser jogadora profissional de futebol?
Ainda não. É verdade que quando o Estoril Praia falou comigo senti que, por ser um clube com nome no futebol masculino, estava a dar um grande passo, mas nunca pensando que queria ser profissional.

Inês a defeder a baliza do Sporting, clube que representou de 2016 a 2021
Inês a defeder a baliza do Sporting, clube que representou de 2016 a 2021
D.R.

Estava com 15 anos e há pouco disse que foi na adolescência que deu mais dores de cabeça. Como?
A minha mãe faleceu de cancro quando eu tinha 12 anos. Foi numa altura em que eu não tinha muita maturidade. Obviamente fiquei triste e é uma dor que nunca vou conseguir superar. O meu irmão já tinha 16 anos, tinha uma maturidade diferente e acho que conseguiu assimilar melhor as coisas e perceber o verdadeiro problema da situação. A mim, só me bateu essa dor mais tarde, quando comecei a ter mais objetivos de vida, quando comecei a perceber que se calhar vou casar e não vou ter essa figura, vou ter filhos e vou ter sempre de explicar esta história e não vou ter uma presença materna na minha vida. Por isso acabei por criar uma revolta dentro de mim e fechei-me muito para as pessoas, para a família, para o meu pai, para o meu irmão. Fechei-me porque não sabia gerir essa situação.

Percebia o que estava a acontecer com a sua mãe, ou não?
Ela ficou hospitalizada, eu ia todos os dias ao hospital vê-la e houve uma altura em que ela melhorou e eu pensei: "OK. As coisas vão ficar bem"; mas, passados uns dias, ela faleceu.

Quem lhe deu a notícia?
Tinha uma tia minha da parte do meu pai lá em casa e foi ela que me disse.

Como reagiu?
Fechei-me no quarto. Mas a verdade é que... é como se me tivessem apagado algumas memórias. Há muitas coisas que não me recordo. Acho que foi o choque e o trauma. Lembro-me de chorar e que nessa noite acabei por ir passá-la com umas primas, que são da margem sul, para não estar em casa.

Mudou muito a vida em casa, sem a sua mãe?
Mudou, porque o meu pai trabalhava muito de noite e a minha mãe acabava por fazer mais as coisas lá em casa. O meu pai teve de dar uma volta enorme na vida dele, tinha dois filhos para cuidar sozinho.

O que fez? Mudou de emprego?
Continuou durante algum tempo na Carris e depois reformou-se. Mas nunca me faltou nada e sou muito agradecida por isso. Sei que nem sempre tive as melhores atitudes com ele e que não tenho a melhor relação com ele, mas percebo também a parte dele.

Inês começou a ser chamada para representar Portugal com 15 anos
Inês começou a ser chamada para representar Portugal com 15 anos
VI-Images

O facto de ter apanhado jogadoras muito mais velhas numa altura em que perdeu a sua mãe foi importante para o seu crescimento enquanto pessoa e mulher?
Eu não falava muito sobre o assunto, havia pessoas que nem sequer sabiam. Eu sentia que se calhar às vezes apegava-me a pessoas mais velhas porque me faltava essa parte materna na minha vida. Ainda hoje, no futebol, costumo dar-me mais depressa com pessoas mais velhas, do que com pessoas da minha idade ou mais novas.

Quando começaram as primeiras saídas à noite e os primeiros namoros?
Nunca fui muito de sair à noite, o meu pai também não me deixava. Ainda hoje não gosto muito de sair à noite, talvez porque nunca experienciei isso na minha adolescência. Prefiro ficar em casa ou ir a algum lado com os meus amigos e aproveitar esse tempo com eles do que ir para uma discoteca. Acho que posso passar tempo de qualidade de outras formas. Os namoros começaram às escondidas, obviamente, com 14 anos.

Atualmente vive com alguém?
Sim, estou para casar.

Quando e como se conheceram?
Conhecemo-nos numa visita de estudo da escola, em que fomos aos Açores. Na altura senti aquelas borboletas na barriga, mas ela estava com uma pessoa e eu também. Entretanto, tornámo-nos bastante amigas. Houve uma altura em que perdemos o contacto, mas voltámos a falar e as coisas acabaram por acontecer há seis anos.

Como se chama e o que faz profissionalmente?
Chama-se Rita, é mais velha quase dois anos e é enfermeira.

A vossa relação nunca criou problemas em casa, com o seu pai e irmão?
Com o meu irmão, não. Com o meu pai sabia que se calhar não ia aceitar da melhor maneira, mas contei-lhe e a verdade é que houve um choque ao início, mas acabou por aceitar. Acho que teve de acabar por aceitar que é a minha vida, são as minhas decisões e que, se estou feliz, é o mais importante.

Inês e a noiva Rita
Inês e a noiva Rita
D.R.

Em 2016/17 entrou no Sporting pela mão de quem?
Fiz duas épocas no Estoril Praia e, entretanto, apresentaram à Raquel Sampaio, que é atualmente a minha agente e na altura estava no Estoril, o projeto do Sporting. Convidaram-na a ir como diretora-desportiva do futebol feminino; como ela já me conhecia, falou comigo, com o meu pai e obviamente não podia recusar essa oferta.

Começou finalmente a ganhar algum dinheiro do futebol?
Ganhava €150.

O que fez com o primeiro "ordenado"?
Comprei um iPod.

Quando chegou ao Sporting já lá estava a Patrícia Morais, concorrente também na baliza da seleção. Na altura, sentiu que ela já estava noutro patamar?
Senti. Ela já tinha muita experiência no futebol feminino, eu estava a começar a dar os primeiros passos, era muito jovem. Ela já tinha tido uma experiência no estrangeiro, o que, querendo ou não, faz-nos sempre crescer bastante.

Sente que aprendeu com a Patrícia Morais? Como se desenvolveu a vossa relação?
Aprendi bastante com ela, fez-me crescer e tenho a certeza que também a fiz crescer. De resto, a minha melhor amiga no futebol é a [Ana] Capeta, tornámo-nos amigas no Sporting e ela acabou por ser o meu suporte na seleção.

Entrar no Sporting foi entrar num mundo diferente?
Sim, não só pelo facto de ser uma equipa praticamente profissional, mas também porque era um sonho de criança. Eu olhava para trás e via-me a dar os primeiros toques numa escolinha do Sporting e de repente poder ir ao estádio José de Alvalade e ir à academia, era incrível.

Como foi recebida no plantel?
Foi bem recebida, era uma equipa recém criada, algumas jogadoras já se conheciam da seleção, outras não, foi quase como começar do zero.

Recorda-se do jogo de estreia?
Muito sinceramente, não. Deve ter sido para a Taça de Portugal, mas não me recordo.

Até 2020/21 não jogou muito no Sporting. A Patrícia fazia-lhe muita sombra?
Quando há duas guarda-redes de muita qualidade acaba por ser complicado para o treinador e difícil de gerir esse aspeto. É verdade que não joguei aquilo que gostaria de ter jogado no Sporting.

Como se motivava para treinar todos os dias com vontade?
Motivava-me porque treinava com a minha grande referência nacional. Sabia que quando tivesse de entrar em campo tinha de mostrar aquilo que tinha trabalhado durante todas as semanas e que também tinha uma palavra a dizer.

Mas quando chegava o fim de semana e percebia que ia novamente para o banco, como reagia?
Não ficava contente, obviamente, mas percebia a pessoa que tinha ao meu lado e percebia que era uma guarda-redes de muita qualidade e por isso eu tinha de continuar a trabalhar. Acho que nesse aspeto sempre fui muito paciente.

Os dois cães Kinder e Black (que faleceu recentemente) que Inês tatuou no braço
Os dois cães Kinder e Black (que faleceu recentemente) que Inês tatuou no braço
D.R.

No Sporting teve dois treinadores, o Nuno Cristóvão e a Susana Covas. Muito diferentes um do outro?
Com o mister Nuno Cristóvão, como ele esteve lá muito anos, não jogávamos de olhos fechados, mas já sabíamos o que tínhamos de fazer. Sempre que vem um treinador novo a ideia de jogo é diferente, os treinos acabam também por ser diferentes, mas no meu caso foi uma adaptação simples.

Tem alguma preferência em ser treinada por homens ou por mulheres?
Gosto de ser treinada por mulheres porque sinto que compreendem melhor as mulheres. Hoje já não há tanta diferença, houve uma evolução nesse aspeto.

Quando diz que uma mulher percebe melhor a outra mulher, tem a ver com o estado de espírito ou com, por exemplo, saber lidar melhor com os períodos da menstruação?
Sou uma sortuda porque não tenho dores na altura da menstruação. A única coisa que sinto é que fico mais cansada, mas, tirando isso…

Esteve cinco anos no Sporting. Quais as memórias mais fortes que tem desse período?
A conquista da primeira Taça de Portugal e depois o campeonato. E o facto de ter sido no Sporting que fui pela primeira vez chamada à seleção principal, na preparação para o Euro 2017. A Patrícia teve uma pequena lesão e eu acabei por ser chamada.

Deve ter histórias para contar desses anos no Sporting. Pode revelar alguma?
Não tenho nada de especial. Eu era muito reservada e acabava por passar muito tempo sozinha. Mas, recentemente, estive a falar com a Tati [Tatiana Pinto] e record+amos um dia em que depois de um treino ela estava a comer um ovo cozido ao pé de mim e da Carolina Mendes, e engasgou-se; deixou de conseguir respirar e, naquele momento de pânico, eu só conseguia rir. Ela sem saber o que fazer, entrou em pânico, eu ria-me desalmadamente, porque estava super nervosa, felizmente estava lá a Carolina para conseguir tirar-lhe o ovo da garganta [risos]. Entretanto, lembrei-me de outra história.

Força.
Numa fase inicial da Liga dos Campeões, fomos jogar à Croácia e nessa altura eu partilhava quarto com a Capeta. Fomos dar um passeio à noite e deixámos as luzes e as janelas do quarto abertas, resultado: quando chegámos ao quarto tínhamos o quarto cheio de mosquitos, melgas, joaninhas, enfim, uma série de insetos e tivemos de ir dormir para a enfermaria porque era o único sítio que tinha uma cama disponível.

Já tinha sido chamada à seleção antes de entrar no Sporting?
Só para as camadas jovens. Comecei a ser chamada aos 15 anos, para as sub-16. No Sporting é que fui chamada à seleção principal.

Inês com o seu cão Kinder
Inês com o seu cão Kinder
D.R.

Como foi entrar no ambiente da seleção principal?
Foi bom. Muitas delas também já jogavam comigo no Sporting e, depois, poder jogar com a Cláudia Neto e com a Edite [Fernandes], foi incrível. Foi um reconhecimento para mim e foi o clique, porque senti, estou aqui, não quero sair daqui, quero manter-me aqui e representar o meu país durante muitos anos.

Quem passou a ser a sua referência de guarda-redes no futebol feminino?
A Hope Solo dos EUA.

Em que altura sentiu que podia fazer do futebol a sua profissão?
Quando comecei a receber um ordenado em que já não dependia tanto do meu pai, já podia comprar as minhas coisas e que ele já não tinha de me controlar nesse aspeto.

E isso aconteceu quando?
Julgo que um ano e meio depois, quando renovei com o Sporting.

Quando interiorizou a ideia de ser jogadora profissional de futebol, qual era o maior sonho, a maior ambição e objetivo?
O meu grande objetivo sempre foi, e é, dar uma alegria à minha mãe. É um dos rituais que tenho, olhar para o céu, quase para pedir uma força extra. Quero que a minha mãe esteja orgulhosa de mim, que saiba que estou a fazer aquilo que mais gosto e que sou feliz a fazer o que mais gosto. Ela só teve oportunidade de ver um jogo meu, ainda jogava no Cacém, e perdi esse jogo. Foi um dos piores jogos da minha vida, mas sinto que agora ela vê todos os jogos e tenho de mostrar que trabalho sempre para ser a melhor e quero dar-lhe essa alegria. Nunca sonhei tanto com títulos, não por não ter essa ambição, mas por pensar que as coisas vêm por acréscimo. Se trabalhar bem as coisas acabam por chegar.

Em ação pela seleção A
Em ação pela seleção A
Charlotte Tattersall - UEFA

Quando sentiu haver uma evolução maior na sua condição de guarda-redes e no seu treino?
Quando fui para o Sporting, o treinador de guarda-redes já pertencia à escolinha de formação e senti que vindo do masculino ele trazia coisas muito positivas, era mais profissional; não só o treinador em si, mas o próprio clube.

Como e quando surgiu o interesse do Servette, da Suíça?
Desde pequenina, dizia que adorava ter uma experiência fora de Portugal. O Sporting queria renovar comigo, mas senti que precisava sair e conhecer um novo sítio, uma nova equipa. Já era agenciada pela Raquel, apareceram várias propostas e o Servette foi aquela de que gostei mais, não só porque iria ser a minha primeira experiência fora, mas por ser um país onde havia muitos portugueses e ia ter um bocadinho de casa, mas também porque tanto a nível desportivo como financeiro era a que me beneficiava mais. Ia jogar Liga dos Campeões, o que era também um motivo forte para ir para lá.

As outras propostas eram de onde?
De Escócia e Espanha.

Quando vai para a Suíça ainda vivia em casa do seu pai?
Não, já vivia com a minha namorada e com os nossos dois cães na altura. Um, o "Black", morreu recentemente. Agora só temos o Kinder.

 

Spoiler

“Não tenho ambição de clubes ou de conquistas, mas de conseguir trabalhar os pontos menos fortes. Ainda não temos uma guarda-redes completa”

Inês Pereira explica nesta Parte II do Casa às Costas o porquê de há dois anos ter sentido necessidade de recorrer a ajuda psicológica, diz quais são as suas superstições e revela onde vai jogar na próxima época. A guarda-redes aborda ainda os três anos em que jogou no Servette, da Suíça, onde conquistou duas taças e um campeonato. E fala também da seleção, da evolução do futebol feminino e de como ultrapassa o “obstáculo” de só ter 1,70 m de altura

Como foi o primeiro impacto quando chegou à Suíça em 2021/22, para jogar no Servette? O seu inglês era bom?
Sempre fui boa em inglês, mas as primeiras sensações foram más, não pelo país ou pelas pessoas, mas sim porque eu vivia 24 horas com a minha namorada e de repente vou para um país diferente e estou sozinha. Custou-me bastante, sentia que era muito dependente dela, por isso a primeira semana chorava todos os dias e ainda me passou pela cabeça vir embora. Felizmente a Mónica Mendes foi comigo e acabou por ser um apoio bastante grande.

Vivia sozinha ou foi viver com a Mónica?
A Mónica estava sozinha e eu estava num apartamento para duas pessoas, mas na altura ainda não havia mais ninguém, era só eu. Como me sentia muito sozinha e ainda não tinha internet, nem televisão, a Mónica deixou-me ficar com ela uma semana até me adaptar um pouco mais. Depois estive seis meses a viver sozinha.

A Rita nunca foi viver consigo na Suíça ou mais recentemente em Espanha?
Não. Têm sido anos duros.

O que custou mais nessa solidão?
O facto de estar num país em que se falasse a minha língua, as pessoas não iriam perceber, o facto de estar habituada a viver com uma pessoa 24 horas por dia e de repente chegava à noite e não tinha companhia para jantar, para ver uma série ou um filme. Isso custou-me bastante.

Costumava ir jantar fora ou cozinhava em casa?
Agora gosto de cozinhar, naquela altura não. Mas acabava por cozinhar porque na Suíça não é impossível jantar fora, mas não é algo para se fazer todos os dias, é muito caro. Cozinhava coisas mais simples, frango grelhado com arroz. Mas gosto de cozinhar, gosto mais de fazer sobremesas e doces.

Como a receberam no balneário do Servette?
Havia pessoas de nacionalidades e culturas diferentes. Havia muitas espanholas, ou pessoas que falavam espanhol, isso também me ajudou, por ser muito semelhante ao português. Receberam-me bem. Gostei bastante tanto da cidade como dos suíços. São pessoas muito amáveis, é uma cidade muito limpa, costumo dizer que as pessoas na Suíça vivem para trabalhar, não trabalham para viver. Nós acabamos por desfrutar um bocado mais do nosso tempo livre. Os suíços trabalham menos horas que nós, mas depois vão para casa enquanto nós gostamos de sair a seguir ao trabalho, ir a uma esplanada, aproveitar com os amigos; eles saem do trabalho e vão diretos para casa.

O que fazia nos tempos livres?
Jogava computador, "Call of Duty". Atualmente não jogo nada porque senti que estava a deixar que isso me afetasse bastante.

De que forma?
Afetava-me na parte do descanso. Muitas vezes ficava a jogar até mais tarde, estava muitas horas sentada e o corpo acabava por não se regenerar da melhor maneira.

A forma de treinar e de jogar no Servette era muito diferente do Sporting?
Era diferente porque na Suíça fazia-se um trabalho muito mais físico do que técnico-tático.

Adaptou-se bem a essa forma de treinar?
Confesso que me chateava porque havia muito trabalho de ginásio e na altura não fazia muito ginásio. Tive de me habituar.

Reconheceu a importância do ginásio, ou não?
Acho que havia alturas que era exagerado. Muitas vezes estávamos cansadas e tínhamos de fazer ginásio, as cargas não baixavam e o que é demais nunca é positivo. Mas acho que me fez crescer bastante, aprendi outras coisas sobre o meu corpo que não sabia.

Como, por exemplo?
Em termos de estabilidade, de potência de salto, coisas desse género.

Na época 2022/23, Inês conquistou a sua primeira Taça da Suíça
Na época 2022/23, Inês conquistou a sua primeira Taça da Suíça
Daniela Porcelli

Esteve três épocas no Servette onde conquistou duas Taças, um campeonato e jogou Liga dos Campeões. Já tinha jogado a Liga dos Campeões pelo Sporting?
Sim, tinha feito aquela primeira fase quando fomos campeãs, mas nunca conseguimos chegar à fase final. Não me recordo do jogo de estreia na Liga dos Campeões pelo Sporting, mas por acaso recordo-me de todos os que fiz pelo Servette. Fomos à Finlândia fazer a primeira fase. Foi nessa altura que criaram a fase de grupos, a Champion's Path, que conseguimos passar e depois jogámos contra o Glasgow na segunda fase. Empatámos 1-1 em Genebra e fomos ganhar 2-1 a Glasgow. A seguir fomos jogar contra Chelsea, Wolfsburgo e Juventus, o nosso grupo era incrivelmente difícil, mas foi uma grande experiência. É das coisas que mais me recordo e até tenho uma tatuagem com as coordenadas do Estádio de Genéve por isso mesmo.

Foi praxada no Servette?
Fui. Tive de fazer disparates, dançar, cantar. Acabei por fazer com outra rapariga que era hispano-suíça, cantámos uma canção brasileira que se chama "Vidrada em Você". As pessoas estavam habituadas a uma Inês mais fechada, acabei por me soltar um pouco mais e se calhar perceberam que eu também sou divertida e que não sou tão séria quanto demonstro. Comecei a dançar e as pessoas começaram a bater palmas e a divertir-se bastante.

Tem mais alguma história que se recorde dos tempos que passou na Suíça?
Do clube e da equipa não me recordo de nada. Lembro-me que uma vez fui de transportes para o treino e esqueci-me, entre aspas, de comprar o bilhete do autocarro. O revisor apareceu e começou a pedir o bilhete, eu não tinha. A multa era de 70 francos. A sorte é que o revisor era português, reconheceu-me e só disse para eu não voltar a fazer [risos]. Se fosse outro tinha de pagar os 70 francos.

A guarda-redes portuguesa a fazer uma defesa pelo Servette
A guarda-redes portuguesa a fazer uma defesa pelo Servette
RvS.Media/Basile Barbey

A sua primeira grande competição com a seleção foi o Euro 2022. Recorda-se do jogo de estreia?
[Risos] Esse gostava de não me lembrar, mas lembro-me. Foi contra a Suíça, estava muito nervosa, deixei que os nervos me controlassem e as coisas não correram da melhor maneira. Fiz uma primeira parte desastrosa, a segunda parte já foi em crescendo. Mas pronto, deixei que as emoções e o nervosismo me controlassem, senti que bloqueava bastante e o que demonstrava não era a Inês que fui durante essa época.

No intervalo disse alguma coisa ao selecionador ou ele disse-lhe alguma coisa?
Não, não disse nada, senti bastante apoio tanto do staff como das jogadoras. Acho que isso também me fez ter mais confiança para a segunda parte, mas senti que não estava preparada para aquele momento.

Quando admite que não se sentia preparada, refere-se mais à questão psicológica ou também ao lado técnico-tático?
À parte psicológica, porque acabei por não me preparar para esse momento.

Recorreu a apoio psicológico?
Nunca tinha tido. Agora sim, desde há dois anos que trabalho com uma psicóloga que me ajuda bastante.

Sentiu essa necessidade porquê?
Porque sentia que o meu rendimento muitas vezes baixava mais pela parte psicológica, não tanto pelo cansaço e eu queria controlar isso, queria saber como geri-lo, porque podia perder oportunidades devido ao meu bloqueio mental.

Esse bloqueio tinha a ver com o quê? Com o medo de falhar, ou achar que não era capaz?
Com medo de falhar. Desde pequenina que sou muito perfecionista, quero fazer sempre as coisas muito bem e quando cometo algum erro, ou quando as coisas não correm como quero, acabo por ficar muito presa a isso. Quando isso acontecia eu tinha semanas em que mais valia não treinar nem jogar porque as coisas corriam sempre como não queria. Chegou um ponto em que tive de dizer, já chega, isto não pode continuar assim, se quero melhorar e continuar a ter as minhas oportunidades, tenho de mudar a minha mentalidade.

Houve alguém que tenha sido importante para essa tomada de decisão?
A minha agente, a Raquel, que sempre me apoiou e sempre disse que eu devia procurar ajuda e depois também a minha noiva, que sempre me ajudou.

Inês com a taça de campeã a Suíça, pelo Servette, conquistada em 2023/24
Inês com a taça de campeã a Suíça, pelo Servette, conquistada em 2023/24
Daniela Porcelli

O facto do primeiro jogo ter sido contra a Suíça, o país onde jogava, também agravou os nervos da estreia no europeu?
Eu sentia que era um jogo especial, porque conhecia algumas jogadoras da seleção suíça. Pode ter tido um efeito de querer que a minha performance fosse boa e mostrar que era um jogo especial. Se calhar também me afetou um bocado, mas acho que não foi esse o grande problema. O problema foi mesmo eu não estar preparada mentalmente para esse momento.

Na época passada foi contratada pelo Everton, mas emprestada ao Deportivo da Corunha. Porquê?
Porque não tinha os pontos suficientes para ir jogar para a Inglaterra. O Everton, desde março de 2024 que mostrou bastante interesse por mim. Fiquei toda contente porque ia jogar numa das melhores ligas do mundo, mas depois chegou essa informação que eu não tinha os pontos suficientes para jogar lá.

O que significa não ter os pontos suficientes?
Basicamente, para se jogar em Inglaterra é preciso ter 24 pontos, sendo que os pontos são ganhos pela liga em que estamos a jogar. Por exemplo, a liga espanhola e a dos EUA dão logo 9 pontos, já a liga suíça e a liga portuguesa davam 5 pontos. Na Suíça, por ter ganho o campeonato e a taça, tinha mais 10 ou 15 pontos, já não me lembro. A seleção também dá pontos mas tem a ver com a percentagem de jogos e eu não tinha os pontos através da seleção. Eu sei que tinha 20 pontos e precisava de 24. O Deportivo foi um dos primeiros clubes a falar com a minha agente e felizmente conseguiram chegar a um acordo entre os dois clubes. Mas confesso que no início foi um choque, porque já me tinha mentalizado que ia jogar para Inglaterra e quando recebi a notícia da pontuação fiquei uns dias um bocado abalada, mas tinha de procurar uma solução.

O Deportivo foi a única hipótese de empréstimo?
Não. Quando soube que não tinha os pontos, houve logo a hipótese do empréstimo para a Suécia e falou-se de outros clubes. Mas como o Deportivo já tinha falado com a minha agente, tentámos o melhor do mundo, digamos assim, que era ir jogar para a liga espanhola, também muito competitiva. Felizmente, o Deportivo mostrou-se aberto para que fosse para lá emprestada.

Na mesma época [2023/24], a guarda-redes portuguesa voltou a ganhar a Taça da Suíça
Na mesma época [2023/24], a guarda-redes portuguesa voltou a ganhar a Taça da Suíça
D.R.

Quando passou do Sporting para o Servette, foi ganhar quantas vezes mais?
Não chegava ao dobro, mas quando fui para o Everton já fui receber quase o dobro do que recebia na Suíça.

Como foi recebida no Deportivo?
Tive a sorte que em todas as equipas sempre me receberam bem. Vivi toda a época com uma brasileira que já estava no Deportivo, o que foi uma fonte de aproximação às outras colegas. Acho que foi das equipas que melhor me recebeu, tinha acabado de subir à I Divisão e poderem ter uma internacional penso que acabou também por pesar um bocado porque senti que elas já me respeitavam bastante.

Gostou de viver na Corunha?
Adoro. Uma cidade pequena, mas com muito verde. Costumo dizer que sou uma pessoa de campo, gosto de zonas mais de campo. Corunha tem praia, tem tudo, é super bonito.

Como correu a época?
Começou muito bem, não acabei na melhor forma, mas foi positiva. Foi também de aprendizagem para o futuro no sentido em que tenho de ser mais consistente e tenho de conseguir ler melhor o meu corpo e perceber quando estou mais cansada ou menos cansada, para conseguir render no fim de semana.

A liga espanhola é muito mais exigente que a Suíça?
Muito mais. Em Espanha têm uma mentalidade superior àquela que atualmente temos em Portugal e tínhamos na Suíça. Passei de um clube que era semiprofissional para um clube completamente profissional.

Quando diz que têm uma mentalidade diferente, consegue dar exemplos?
A forma de trabalhar delas é mais profissional. Fazem o aquecimento no ginásio e vão para campo, treinamos e ficam lá depois do treino a fazer trabalhos específicos. Não digo que não aconteça noutros países, mas senti que desde pequenas que lhes foi incutida a mentalidade de terem de ser as melhores e em campo tentam demonstrá-lo.

Inês defende uma bola da Alemanha, no jogo de qualificação para o Mundial 2023
Inês defende uma bola da Alemanha, no jogo de qualificação para o Mundial 2023
picture alliance/Getty

Para o ano vai jogar no Everton ou continuar no Deportivo?
Vou ficar mais um ano emprestada no Deportivo.

Ficou desiludida?
Não, agradou-me bastante. É um clube onde senti que cresci bastante, as pessoas sempre foram incríveis comigo. Na Suíça, no último ano senti que a paixão que tinha pelo futebol estava a diminuir, treinava e jogava, sim, mas já não era com a mesma paixão de antes.

Porque acha que isso aconteceu?
Porque fiquei numa zona de conforto, que acabava por ser mais uma rotina. Eu sabia que o meu dia era acordar, treinar, vir para casa, jogar computador. É verdade que os nossos dias são muito rotineiros, mas agora consigo acordar de manhã e dizer: boa, vou treinar. Antes, se calhar, acordava e dizia: tenho de ir treinar.

Na Espanha, aproveita o tempo de forma diferente?
Sim, aproveito o tempo mais para mim, para autoconhecimento, para as minhas capacidades, não só futebolísticas. Fiz um curso de nutrição, agora leio bastante, gosto de ler coisas de autoconhecimento. A psicóloga também me ajuda bastante nesse sentido, conheço-me muito melhor, sei aquilo que preciso em vários momentos do dia e já não me foco naquelas 4/5 horas que jogava computador, em que não aprendia nada. Agora nem jogo.

Disse que vai casar. A Rita vai viver consigo em Espanha?
Casamos no próximo ano, em junho, mas a Rita tem o trabalho dela em Portugal, tem a família dela aqui. Depois veremos. Sabemos bem aquilo que queremos, quais as nossas prioridades e costumo dizer que agora até valorizo mais os momentos em que estou com ela. Obviamente que preferia estar com ela todo o tempo e compartilhar os vários momentos do dia a dia, mas quando estamos juntas também valorizo muito mais esses momentos.

Pensam ter filhos?
Sim.

Inês (à esquerda) à entrada para a 2ª parte do jogo com o EUA no Mundial de 2023
Inês (à esquerda) à entrada para a 2ª parte do jogo com o EUA no Mundial de 2023
Hannah Peters - FIFA

Pela seleção jogou o Euro 2022 e o Mundial 2023, em que só fez dois jogos em cada competição. Sentiu uma responsabilidade diferente no Mundial?
Não, senti que estava muito mais preparada, preparei-me muito melhor para o Mundial do que para o Euro. Senti que o meu rendimento também foi melhor. Mas tivemos o azar de ter uma bola no poste e não conseguimos passar à fase seguinte. Sinto-me de consciência tranquila, fiz o meu papel e aquilo que mostrava em treino também consegui demonstrar em jogo.

De que forma é que a experiência no Mundial foi importante para a sua carreira e crescimento?
Foi importante ao nível da confiança. Como tinha corrido bem, a minha confiança aumentou. Cresci bastante também nesse sentido.

Quais são as expectativas para este Europeu 2025?
Obviamente que individualmente é conseguir ter o maior número de minutos possível, a nível coletivo estamos bem cientes que queremos passar à fase a eliminar e que temos competência para chegar a uns quartos de final.

O ambiente da seleção é bom ou já foi melhor?
Temos um bom ambiente.

Sente que a seleção continua a evoluir ou entrou numa fase de estagnação?
Acho que continuamos a evoluir. É verdade que ultimamente os resultados não foram aqueles que queríamos, mas é uma página virada e sabemos que faz parte do futebol, faz parte da vida, acho que não estamos a dar passos atrás.

Que razões encontrou para esses resultados menos bons?
Acho que não há nenhum culpado, foi uma fase. Se calhar as pessoas também se esquecem que fizemos grandes jogos anteriormente, É verdade que a última imagem é aquela que fica, mas nem nós, nem o público, podem duvidar daquilo que somos capazes, porque já demonstrámos muitas vezes.

Os maus resultados, sobretudo contra Inglaterra, deveram-se a desconcentração, cansaço, a quê?
Foi um pouco tudo. O cansaço, se calhar também não estávamos concentradas no plano de jogo, naquilo que tínhamos de fazer, mas foi um jogo, nada pode apagar aquilo que já fizemos.

Deve ter muitas histórias para contar da seleção. Pode partilhar alguma?
A minha memória não é a melhor para esse tipo de coisas. Mas, recordo-me de uma vez que fomos jogar à Bélgica. Normalmente o staff fica com os nossos cartões de cidadão (CC), porque se acontecer alguma coisa têm logo à mão. Quando estavam a devolver os cartões no final do estágio para viajarmos, faltava o meu cartão, não aparecia. Desatei a chorar que nem uma criança perdida, porque queria voltar para Portugal. E afinal o CC estava colado ao de uma colega de equipa. Hoje rio-me bastante com este episódio, mas na altura não teve graça nenhuma.

A guarda-redes (no meio) com as melhores amigas da seleção, Capeta e Tatiana
A guarda-redes (no meio) com as melhores amigas da seleção, Capeta e Tatiana
Andre Sanano

Qual foi a maior dura que levou de um treinador e porquê?
Não me lembro de nenhuma. Quer dizer, quando era criança, eu aplicava-me pouco na escola e muitas vezes chegava aos treinos e o meu pai dizia ao treinador que eu me tinha portado mal na escola ou que não tinha tido boas notas e ele obrigava-me a fazer exercícios extra [risos].

Alguma vez se sentiu diretamente responsável por um resultado?
Já me senti responsável. Sempre que cometo um erro, sinto-me responsável porque afeta a equipa.

Qual foi o pior? Aquele que a deitou mais abaixo?
Foi um jogo que acabámos por ganhar, mas senti que cometi um erro que me marcou bastante porque foi o primeiro erro evidente que tive: foi no jogo de apuramento para o Mundial, contra a Sérvia, que acabámos por ganhar 2-1, mas sofri um golo em que a culpa foi inteiramente minha. Foi um livre quase do meio-campo, por segundos deixei de ver a bola e a bola passou por cima de mim.

Não é uma guarda-redes muito alta, tem 1,70 m. É um grande handicap para si?
Não acho que seja para mim, mas se calhar para os clubes e para alguns treinadores, porque estão habituados a que a posição do guarda-redes seja ocupada por um jogador alto, que chega a todas as bolas. Obviamente, cabe-me a mim trabalhar essa parte. Se calhar não tenho 1,90 m, mas tenho uma impulsão de uma pessoa de 1,90 m, consigo chegar a qualquer bola que uma pessoa mais alta que eu também chegue. Cabe-me trabalhar para demonstrar que a altura não afeta. Acho que em Espanha consegui trabalhar muito isso.

Qual é a sua mais-valia enquanto guarda-redes?
O meu jogo de pés, acho que na parte ofensiva posso ajudar bastante a equipa, sinto também que entre os postes sou muito forte, não sou tanto uma guarda-redes de cruzamentos, de saídas, mas nos postes consigo fazer bem o meu trabalho.

Que ambições tem enquanto guarda-redes?
Não tenho ambições no sentido de clubes, ou de conquistas, mas sim de conseguir trabalhar os meus pontos menos fortes, nomeadamente cruzamentos e saídas da baliza, para quando terminar a minha carreira poder sentir que sou uma guarda-redes completa. Porque é algo que ainda falta muito ao futebol feminino, termos uma guarda-redes que seja completa.

Atualmente, quem é a sua referência de guarda-redes?
Não tenho nenhuma e continuo a dizer que são o Casillas e o Buffon.

Qual foi o golo que mais lhe custou sofrer?
Foi recentemente, no jogo com a Espanha que perdemos por 4-2 . O terceiro golo, da Cláudia Pina, em que consigo fazer uma primeira defesa mas depois não consigo a segunda. Custou-me.

E a melhor defesa que já fez?
Foi num jogo com o Benfica, em Alvalade, quando eu jogava no Sporting. Perdemos 2-0, mas defendi um grande remate da Pauleta.

Como tem visto a evolução do futebol feminino?
O futebol feminino em Portugal evoluiu bastante, tanto com a entrada dos clubes grandes, como com a aposta da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no futebol feminino. A nível mundial também evoluiu porque em termos de Europeus e de Mundiais, sinto que há mais entrada de patrocinadores, orçamentos maiores, eles tentam que o espetáculo seja melhor e que atraia cada vez mais pessoas. Não podemos nos equiparar ao futebol masculino em termos de valores, mas em termos de estádios, de infraestruturas está cada vez mais semelhante ao futebol masculino.

Não sente que em Portugal o futebol feminino entrou numa fase de estagnação ou até de algum recuo?
Em Portugal o que falta é mais competitividade entre os clubes. Temos o Benfica que é a maior potência do futebol feminino e faltam clubes que consigam jogar de olhos nos olhos com elas. Mas muito sinceramente não estou muito atenta a esses temas. Sinto que realmente há uma falta de competitividade, agora se me perguntarem se são os clubes que não apostam ou se é a FPF, não faço ideia.

Tem noção de que há colegas suas em Portugal que têm ou tiveram ordenados em atraso?
Tenho a noção daquilo que sai cá para fora. Preocupa-me, obviamente. Se fosse comigo não iria gostar. E se uma jogadora tiver uma proposta de Portugal e souber dessas situações, se calhar pensa duas vezes. Mas penso que cada vez mais os clubes estão a formar futuras jogadoras e com muita qualidade.

Inês foi emprestada pelo Everton ao Deportivo na época 2024/25
Inês foi emprestada pelo Everton ao Deportivo na época 2024/25
NurPhoto

Já sabe o que vai fazer no dia em que tiver de deixar de ser guarda-redes?
Não, não faço ideia. Um dos temas que trabalho com a minha psicóloga é tentar perceber o que quero para o futuro e preparar-me para isso. Sei que possivelmente não terá nada a ver com treinadora ou algo do género. Posso manter-me no desporto, no futebol, mas calhar numa área mais de agenciamento, também gosto da parte da nutrição. Mas se tivesse de deixar hoje o futebol não saberia o que iria fazer.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
No Deportivo.

O dinheiro que ganhou já deu para investir?
Sim, atualmente tenho um apartamento e tenho dois carros.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Quando vou de férias, se me apetecer comprar alguma coisa compro. Gosto de viajar.

E qual foi o local que mais gostou até agora?
Londres.

Tem algum hobby?
Gosto bastante de ver filmes e séries.

Alguma série preferida?
“Anatomia de Grey”.

E filme?
Não por me identificar, mas porque gostei bastante: “8 Mile”, com o Eminem.

A guarda-redes a dar indicações às suas colegas durante um jogo do Deportivo
A guarda-redes a dar indicações às suas colegas durante um jogo do Deportivo
NurPhoto

Acredita em Deus?
Acreditava. Quando a minha mãe faleceu comecei a pensar um pouco porque é que as coisas aconteciam ou porque tinham de ser assim e perdi um bocado essa fé.

E superstições?
Tenho. Entro com o pé esquerdo em campo, dou três saltinhos, depois dou dois saltos com os dois pés e antes do jogo começar benzo a baliza, os postes e a barra. Olho para o céu e mais recentemente, porque tenho uma tatuagem dos meus cães, beijo a tatuagem do meu cão que faleceu.

Qual foi a primeira tatuagem que fez e quantos anos tinha?
Tinha 18 anos e fiz metade da cara de um leão e metade da cara de uma leoa, para simbolizar o meu pai e a minha mãe. Entretanto, completei um braço, tenho duas nas costas, na mão, no gémeo, no pé.

Acompanha ou pratica outras modalidades?
Acompanho a Fórmula 1. Adoro o Hamilton.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ter tido os minutos que gostava no Sporting.

O maior arrependimento?
Não tenho.

O momento mais feliz na carreira?
Quando ganhei o campeonato pelo Servette, que foi no meu dia dos meus anos.

Inês Pereira numa foto recente
Inês Pereira numa foto recente
D.R.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de jogar um dia?
Já joguei: o Sporting. A nível mundial, o Real Madrid.

Qual a maior amizade que fez no futebol?
A Capeta e a Tatiana.

Tem ou teve alguma alcunha?
No Atlético do Cacém chamavam-me Casillas, porque gostava bastante dele.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
A regra em que o guarda-redes só pode ter a bola 8 segundos na mão, senão dá canto. Alterava para uns 15 segundos, porque às vezes é importante para a equipa respirar.

Qual foi a adversária mais difícil que já enfrentou?
A Cláudia Pina.

Quem foi o treinador que mais a influenciou?
Gostava de dizer um treinador principal, mas não foi, foi um treinador de guarda-redes no Cacém, que era o Paulo Graça, ele jogava futebol e foi sempre uma pessoa que me apoiou bastante. Nunca me deixou cair e esteve sempre comigo em todos os momentos.

Se não tivesse sido jogadora profissional de futebol, o que teria sido?
Fisioterapeuta.

 

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André Sousa

Spoiler

“Perdemos 5-0 com o Benfica e o Sá Pinto deu-nos uma dura. Ele espumava da boca e batia com tanta força no projetor que já saltavam peças”

André Sousa está prestes a completar 35 anos e a iniciar nova época no Nacional da Madeira. O médio, que fez parte da formação do Sporting, conta como a sua carreira começou por ser construída a pulso, com muitos altos e baixos. Fala de um empresário que o enganou e de outro que o ajudou, explica porque os pais emigraram para França, deixando-o sozinho em Portugal, e revela muitas histórias da passagem por clubes como a Naval, Odivelas, Pampilhosa, SC Covilhã, Beira-Mar e Belenenses

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A casa às costas

“Perdemos 5-0 com o Benfica e o Sá Pinto deu-nos uma dura. Ele espumava da boca e batia com tanta força no projetor que já saltavam peças”

“Perdemos 5-0 com o Benfica e o Sá Pinto deu-nos uma dura. Ele espumava da boca e batia com tanta força no projetor que já saltavam peças”
Gualter Fatia

André Sousa está prestes a completar 35 anos e a iniciar nova época no Nacional da Madeira. O médio, que fez parte da formação do Sporting, conta como a sua carreira começou por ser construída a pulso, com muitos altos e baixos. Fala de um empresário que o enganou e de outro que o ajudou, explica porque os pais emigraram para França, deixando-o sozinho em Portugal, e revela muitas histórias da passagem por clubes como a Naval, Odivelas, Pampilhosa, SC Covilhã, Beira-Mar e Belenenses

 

Nasceu em Lisboa. O que faziam os seus pais profissionalmente?
O meu pai é do norte, de uma aldeia em São Pedro do Sul e a minha mãe de Lisboa. Com seis meses fui para a margem sul, para a zona da Moita e curiosamente havia um ringue de futebol mesmo em frente à janela da casa dos meus pais. O meu pai era padeiro e a minha mãe empregada doméstica, mas depois acabou por trabalhar no balcão de uma pastelaria.

Tem irmãos?
Sou filho único.

Deu muitas dores de cabeça ou foi uma criança tranquila?
Era um rapaz calmo.

Da escola, gostava?
Eu gostava do convívio da escola, até porque tinha muita gente do meu bairro, estávamos sempre juntos e íamos a pé para a escola, agora, gostar dos estudos, não gostava. Fui até um bocado negligente nesse sentido, porque deixei a escola quando saí de casa de meus pais, com 17 anos.

Onde, quando e como começou a jogar futebol?
Comecei no clube da terra, o Moitense, com nove anos. Um colega, cinco ou seis anos mais velho, que morava na mesma rua dos meus pais, viu-me a jogar no ringue e desafiou-me para jogar no Moitense.

Já pensava ser jogador de futebol na altura?
Sim. Era o meu sonho. A paixão que tinha pelo futebol era muita. Desde que me lembro que gosto de futebol. Nunca imaginei outra coisa para a minha vida que não fosse o futebol.

André em bebé com os pais
André em bebé com os pais
D.R.

Em criança torcia porque clube?
Pelo Benfica, por influência familiar, só que o percurso que levei, fez com que esse lado de adepto tenha esmorecido, até porque fiz parte da formação no Sporting. Quando nos tornamos profissionais começamos a sentir a camisola que se veste.

Quem eram os seus ídolos?
O maior sempre foi o Frank Lampard.

Começou por jogar em que posição?
Como era miúdo e usava o pé esquerdo, começaram a meter-me no lado esquerdo, na linha. Mas comecei a ir para o meio, porque as minhas características são de médio. Fiz carreira a médio por gostar de contacto com a bola.

Como foi parar ao Sporting, com 13 anos?
Eu já tinha sido abordado pelo Sporting nos infantis do 1.º ano e acabei por não ir, mas foram dois colegas meus da equipa. Não fui escolhido talvez porque jogava na equipa de 2.º ano, mas era mais novo. Lembro-me que estava a jantar com os meus pais e contava-lhes, meio triste, que os meus colegas foram para o Sporting, quando a minha mãe me diz: "Não cries muitos castelos no ar porque se não foste é porque não tinhas que ir." Aquilo mexeu comigo, eu já era muito resiliente, parece que me caiu mal e respondi-lhe: "No próximo ano vou para o Sporting." E fui. O Sporting voltou a ir ter comigo porque voltei a fazer um bom campeonato, com muitos golos.

Quem o levava aos treinos na Academia do Sporting?
Os meus pais, entretanto, abriram um café na Praça do Peixe, da Moita, e como só o meu pai tinha carta de condução, era ele que me levava e a minha mãe nessa altura ficava no café. Por volta dos 15 anos o Sporting começou a ter uma carrinha da Margem Sul, apanhava-nos na escola e íamos todos juntos.

Em criança, na Moita
Em criança, na Moita
D.R.

Recorda-se do primeiro dia de treinos na Academia de Alcochete?
Lembro-me de chegar e aquilo era tudo novo para mim e no início foi um bocado complicado. Quando vais para um clube que tem muita gente do teu nível, para te impores não é fácil, porque nos miúdos existe sempre aquela rivalidade, acaba-se por ser um pouco mais egoísta, quer queiramos, quer não. Custou-me um pouco a impor porque era muito tímido. Nos primeiros tempos fui jogar a central por não assumir o jogo e não ter essa arrogância de fazer. Depois havia aquela coisa das chuteiras.

Das chuteiras?
Eu tinha chuteiras baratas e já havia colegas meus com chuteiras bem mais caras. Na altura começou a doer-me as costas e aproveitei esse pretexto, apesar de hoje em dia ainda ter dores nas costas e achar que é um mal de postura e daquilo que é a minha fisiologia. Lembro-me de ter dito à minha mãe que precisava de umas chuteiras melhores, que me doíam as costas. Os meus pais fizeram sempre grandes esforços para nunca me faltar nada.

Com 13 anos ainda não ganhava dinheiro no Sporting, pois não?
Não. Nessa altura acontecia pouco. Dois anos depois é que assinei um contrato de formação e tive o meu primeiro salário: €250.

O que fez com o primeiro dinheiro que ganhou?
Sou muito poupado, ainda hoje, mas lembro-me de ter dito à minha mãe que passava a ser eu a comprar a minha roupa. Isto porque na altura usava-se muito a “Pepe Jeans” e eu queria estar na moda, claro [risos].

André (de pé, no centro com camisola listada) iniciou o percurso futebolístico no Moitense
André (de pé, no centro com camisola listada) iniciou o percurso futebolístico no Moitense
D.R.

Passou quatro anos na formação do Sporting. Que memórias maiores guarda desses anos?
As viagens na carrinha da margem sul eram marcantes. Lembro-me que passei alguns jogos sem ser convocado e eram viagens complicadas, enfiava o capuz da camisola na cabeça e vinha com as lágrimas nos olhos. Mas fiz bons amigos, o "DJ", que é o André Monteiro, o Bruno Simões, que vivia na Academia, por exemplo. Encontrei uma geração de malta boa. Quando fui campeão nacional de juvenis também foi um momento marcante.

Algum treinador que o tenha marcado mais?
Marcaram quase todos, porque é uma fase importante da nossa vida e acabei por ir para a melhor formação que havia na altura. Encontrei pessoas muito competentes, nomeadamente o Luís Dias, com quem ainda falo, o Nuno Lourenço, o Luís Gonçalves, todos foram importantes.

Acabou por sair do Sporting para a Naval, com 17 anos, porquê?
Fomos campeões nacionais e, no ano seguinte, só ficaram cinco ou seis jogadores dessa equipa, porque deixou de existir o limite de extra comunitários. Acho que fomos um pouco penalizados com isso porque o Sporting começou a captar talentos noutros países, o que se calhar tapou o espaço para alguns de nós que ali estavam. Eu fui um desses. O Sporting optou por me dispensar.

André (1º em baixo à direita) foi campeão distrital de Setúbal pelo Moitense, nos Infantis
André (1º em baixo à direita) foi campeão distrital de Setúbal pelo Moitense, nos Infantis
D.R.

Na altura já acreditava que ia fazer do futebol a sua profissão?
Ainda não. Apesar de saber que estava na melhor formação do país, não o tinha sequer imaginado, até porque nunca fui um dos melhores da minha geração, honestamente.

Quem era a sua concorrência?
O Diogo Amado, que está na União de Leiria, o André Martins, que já acabou a carreira. Aliás, da minha geração do Sporting, acho que só eu é que estou na I Liga. E dos adversários penso que o David Simão, que estava no Benfica, também é o único na I Liga. Havia também o Diogo Rosado que era uma promessa enorme. O William Carvalho também treinou connosco.

Como reagiu quando soube que ia ser dispensado?
Eles falaram comigo e não me disseram que iam dispensar-me, mas que provavelmente ia ser emprestado porque eu tinha contrato de formação de dois anos de juvenis, com mais dois de opção de juniores. Eles queriam emprestar-me a uma equipa que estivesse na I Divisão nacional de juniores. Pedi para ir para o Vitória de Setúbal, porque era perto de casa, mas o Vitória de Setúbal estava na II Divisão, por isso não quiseram. Depois tínhamos a Académica, mas a Académica queria-me como jogador deles e o Sporting manteve sempre que me queria emprestar. O tempo passou e acabei por ir para a Naval 1.º de Maio porque jogava na I Divisão nacional de juniores.

Emprestado?
Foi falado como empréstimo, só que as coisas começaram a correr-me muito bem na Naval. Entretanto, a Naval quer me dar contrato de formação e o Sporting envia a carta a dispensar os meus serviços. Doeu, foi um choque de realidade. Acabei por assinar dois anos de formação com a Naval. O primeiro ano de juniores foi muito bom e o Sporting quis-me de volta, mas eu já tinha assinado o contrato de formação com a Naval.

Aos 13 anos, André Sousa foi para a formação do Sporting
Aos 13 anos, André Sousa foi para a formação do Sporting
D.R.

Saiu de casa dos pais para ir viver para a Figueira da Foz. Foi difícil deixar o ninho com 17 anos?
Sim, sou filho único, muito ligado aos meus pais, tenho uma relação próxima com eles e foi difícil deixar a casa, os amigos. Quando vivemos num bairro somos muito ligados àquilo que são as nossas raízes, aos nossos amigos e custa muito.

Foi viver para onde, com quem e ao que custou mais a adaptar-se?
Fui viver para uma casa onde juntaram alguma malta da mesma idade, havia duas camas por quarto, éramos seis num apartamento. Aquilo que me custava mais era quando tinha momentos maus e eles não estavam lá. Na altura, os telemóveis ainda não permitiam videochamadas, só chamadas de voz, e era muito mais difícil. Por mais que ouvíssemos a voz e as palavras de ânimo, o abraço, o beijo não havia.

Deixou algum coração partido no bairro?
Não, nessa altura só pensava em futebol.

O médio esteve no Sporting até aos 17 anos
O médio esteve no Sporting até aos 17 anos
D.R.

Como correu a mudança de escola?
Esse período está ligado à desistência da escola. Eu ia para o 10.º ano, mas, estando em grupo, a viver fora de casa dos pais acaba-se por ter um atrevimento maior. A primeira vez que bebi álcool foi nessa altura, as primeiras saídas à noite também. Mas felizmente tive pessoas ao meu lado que me ajudaram muito. Os dois treinadores da Naval foram muito importantes para mim, até foram ao meu casamento mais tarde. Acabaram por ter o lado paternal de que eu sentia falta, foram muito próximos nesse sentido e provavelmente viram ali algum potencial em mim. Mas, claro, também temos colegas que nos acompanham nessas loucuras. Eu estava com um colega de quarto, o Zé Mário, que também era da formação do Sporting e nós não queríamos ir à escola porque não gostávamos da escola. Aí, sim, há história [risos].

Conte.
Nós trancávamos os quartos todos, escondíamos as chaves e ninguém acordava para ir à escola, então todos faltavam à escola lá em casa [risos]. Acho que eles honestamente também não se importavam muito. Foi assim que começou, depois entrámos naquela de, olha, se calhar já não vamos, também mais uma falta, outra falta, e foi assim.

Como reagiram os seus pais?
Na altura não havia tanto o compromisso dos pais estarem sempre em cima da escola porque antigamente começava-se a trabalhar muito mais cedo. Os meus pais ainda são desse tempo. Apesar deles darem-me muito na cabeça, davam-me na cabeça ao longe, era como se não sentisse nada praticamente.

O que faziam no tempo em que deviam estar na escola?
Íamos para o campo, treinávamos, jogávamos à bola. E na Figueira há praia. Uma praia enorme, havia muitas coisas para nos distrairmos.

Em ação com a camisola dos leões
Em ação com a camisola dos leões
D.R.

Acabou por só ficar uma época na Naval e saiu para o Odivelas. Porquê?
É uma parte má da história desta carreira, que está mais ligado a empresários. Eu tinha um contrato profissional para assinar com a Naval. Fiz a pré-época com os seniores, era Ulisses Morais o treinador e há um empresário que começou a falar comigo. Não vou dizer o nome. Eu ia ganhar na Naval o ordenado mínimo do futebol, que dava pouco mais de €1400, e esse empresário diz-me que tem um clube na Espanha, da II Liga, já não me recordo qual, era do norte da Espanha, não sei se era o Zamora. Acreditei nas palavras dele, porque me davam o triplo do salário e fui com ele. O certo é que no caminho comecei a ver que estávamos a ir para o sul. Achei estranho, perguntei e ele disse que tinha havido um contratempo do parceiro espanhol. Senti logo que tinha dado confusão ou que tinha sido enganado.

O que aconteceu?
Após umas cinco horas de carro, chegamos a uma equipa da II B e metem-me logo a fazer um jogo amigável, estilo captações. O jogo até nem correu muito mal, mas provavelmente não quiseram ficar comigo. O certo é que, no dia seguinte, estou no hotel, sozinho, e ligam-me a dizer que eu tinha de sair porque não tinha mais dias pagos no hotel. Tinha 18 ou 19 anos, senti-me um bocado perdido. Liguei ao empresário que mandou o filho ir buscar-me. Fiquei à espera uma data de tempo na receção do hotel, com as malas ao lado. Voltei para Portugal, já o campeonato ia na 8.ª jornada. Claro, já não voltei para a I Liga, fui para a II B, para o Odivelas.

Foi esse empresário quem lhe arranjou o Odivelas?
Sim. Ligou-me a dizer: "Tens um clube com quem já falei, o Odivelas, vai lá que eles estão à tua espera para treinar." Cheguei lá e ninguém estava à minha espera. Acho que o treinador deixou-me treinar quase por pena. Foi uma situação complicada, numa transição difícil, a de júnior para sénior. É preciso ter resiliência.

Que justificação lhe deu o empresário?
Falei com ele por telefone, ele dava sempre muitas desculpas, até que cheguei a um ponto em que, como tinha 19 anos, nem sabia o que havia de dizer ou fazer e acabei por nunca mais falar com ele.

Uma das equipas da formação do Sporting, da qual André Sousa (3º em baixo à contar da esquerda) fez parte
Uma das equipas da formação do Sporting, da qual André Sousa (3º em baixo à contar da esquerda) fez parte
D.R.

Voltou para casa dos seus pais?
Não, porque, entretanto, os meus pais tiveram problemas com o café e tinham emigrado para França, onde estiveram durante 11 ou 12 anos. Ou seja, não tinha sequer os meus pais em Portugal. Foi o meu tio José, irmão do meu pai, quem me ajudou, deu-me casa para eu poder jogar no Odivelas, que me dava apenas €150 de salário.

Passou-lhe pela cabeça desistir do futebol?
Passou. Falei com os meus pais, aquilo para eles também custava muito e foram sinceros comigo. Perguntaram se eu tinha a certeza se queria continuar no futebol e se ia valer a pena. O tempo passava e eu não ia conseguir construir vida andando como andava naquele momento. No final dessa época, no Odivelas, disse à minha mãe: "Fazemos assim. Eu vou tentar, se não der certo, vou para França ter convosco." Eu não tinha feito escola, não tinha feito nada, era o meu único escape, ir para a França. E ia.

Acabou por ir parar ao Pampilhosa. Como?
Como tinha corrido tão bem na Figueira da Foz, nos juniores, o que pensei? Vou para aquela zona, porque conheço lá muita gente. Falei com os meus treinadores, fiquei em casa de um treinador meu, de amigos, a minha ideia era tentar fazer uma experiência em algum clube. Tive duas propostas. Os clubes acabaram por se lembrar de mim, como fui júnior na zona sabiam do meu valor. Tinha o Grupo Recreativo “O Vigor Mocidade”, de Coimbra e o Pampilhosa do Botão, entre a Mealhada e Coimbra. O Pampilhosa acabou por ser um clube muito importante, assim como o presidente. Ainda hoje sou amigo dele. Também foi uma decisão acertada da minha parte.

Porque diz isso?
O Vigor da Mocidade” dava-me €800, mas era III Divisão, que é agora o Campeonato de Portugal, e o Pampilhosa dava-me €350 euros, mas era da II B, agora Liga 3. Pensei, se é para arriscar o último ano, a parte financeira não é o mais importante, vou para a II B, que provavelmente tem mais visibilidade e se as coisas correrem bem, pode ser que tenha outra oportunidade. Acreditei sempre no meu potencial, sempre fui muito comprometido. Acabei por fazer a cartada certa.

Viveu onde e com quem?
O presidente Guilherme deu-me casa e fazia-me o avio para a casa, mensalmente. Eu andava com o presidente, quando ele ia às compras [risos]. Ele ia com um carrinho e eu ia com outro, fazíamos as compras e ele pagava. Essa época foi muito importante para mim, porque tinha 21 anos, fiz 14 ou 15 golos e no final da época veio um empresário falar comigo, e esse, sim, foi importante para mim: o Dimas. Ele veio ver um jogo porque tinha lá um jogador emprestado pelo Benfica e, pelos vistos, chamei a atenção. Assinei com ele. Isto em janeiro ou fevereiro. O que é certo é que no final dessa temporada fui chamado à seleção de sub-21.

Em 2010/11, o médio foi jogar para o Pampilhosa, após ter passado pela Naval e o Odivelas
Em 2010/11, o médio foi jogar para o Pampilhosa, após ter passado pela Naval e o Odivelas
D.R.

Quem lhe deu a notícia da convocatória e qual foi a sua reação?
Estava de férias no Algarve, porque as épocas de II B são contratos anuais, e liga-me o presidente do Pampilhosa: "Estás sentado?"; "Estou, porquê?"; "Vão ligar-te da seleção"; "Está a brincar comigo ou quê?"; "Estou a falar a sério. Vão ligar-te porque foste convocado para os sub-21". Aquilo para mim foi um alívio, acho que foi das melhores alegrias que tive. Estava sem clube, no Algarve, com a minha mulher, que já conhecia.

Como se conheceram?
A Joana é de Olhão, mas conhecemo-nos na Figueira da Foz, porque ela foi lá passar férias. Um colega, o David Silva, conhecia-a e às amigas, elas iam de férias uns dias à Figueira da Foz, mas ele não conseguia arranjar casa para elas. Sempre fui muito tímido, mas era matreiro, era esperto. Disse-lhe: “Fazemos assim, se eu conseguir casa para elas, eu também vou contigo quando estiveres com elas.” Consegui a casa e foi assim que conheci a minha mulher. Na altura nem aconteceu nada, mas mantivemos conversa durante a época. Depois fomos jogar ao Algarve, a Vila Real, e estive com ela. Depois fui de férias para Quarteira onde o meu melhor amigo da altura, tinha um apartamento. Fiquei em casa dele e por acaso estava com ela quando recebi essa convocatória.

Ela estudava ou trabalhava?
Estudava Educação Social. Mas a história da convocatória continua. Porque eu não tinha carro, só carta de condução, e tive de apanhar um autocarro à pressa para Sete Rios e depois o Dimas é que me levou até Rio Maior, onde estava a seleção a estagiar. Foi aí que as portas se abriram para mim.

Depois da época no Pampilhosa, André foi chamado à seleção de Sub 21
Depois da época no Pampilhosa, André foi chamado à seleção de Sub 21
D.R.

Quando entrou no ambiente da seleção sentiu estar à altura?
Senti. Para já conhecia toda a gente porque eram da minha geração e fiz formação no Sporting. Sentia-me preparado. As épocas tinham corrido bem, sentia muita confiança. As coisas correram bem no estágio, fizemos dois jogos, ganhámos 4-0 à Alemanha, no Algarve. Foi curioso porque jogámos na zona da minha namorada, ou seja, tudo ajudou para a conquistar ainda mais [risos].

Diz que essa chamada à seleção de sub-21 abriu-lhe muitas portas, refere-se a quais em concreto?
Eu era o único jogador da convocatória sem clube, era jogador livre, o que é muito chamativo. Na altura apareceu o Marítimo, o Beira-Mar, a Académica e ainda o Vitória de Setúbal, se não me engano.

Porque escolheu o Beira-Mar?
Nem todos fizeram propostas reais, eram sondagens. Na altura havia a questão dos direitos de formação e o único que se manteve até ao fim para assumir esses encargos foi o Beira-Mar.

Foi contratado pelo Beira-Mar, mas não jogou lá nessa época de 2011/12, foi emprestado ao SC Covilhã. Quando assinou já sabia que seria emprestado?
Não. Fui para a época com eles, o treinador era o Rui Bento. Mas optaram por emprestar-me.

Ficou chateado?
Não, tudo o que acontecia naquele momento era crédito para mim. Era bónus. E, no fundo, também estava a conseguir aquilo que me tinha comprometido com os meus pais, que era tentar mais aquele ano.

Num treino da seleção de Sub 21
Num treino da seleção de Sub 21
D.R.

Como foi jogar e viver na Covilhã?
Foi o primeiro ano em que vivi com a minha mulher. Para mim isso não foi fácil, porque os hábitos são diferentes, eu andei sempre sozinho desde os 17 anos e as coisas mudam muito. Os horários mudam, a dinâmica diária também porque já tens uma pessoa contigo para almoçar, para jantar.

Ela não trabalhava?
No ano da Covilhã não trabalhou. Mas acabámos por nos adaptar um ao outro, tivemos um cãozinho que também ajudou, era um pinscher chamado Jay-Z. Criámos algum amor à volta do cão e isso também nos ajudou na harmonia do dia a dia.

O balneário do Covilhã era muito diferente do Pampilhosa?
Sim, era diferente, para já era profissional, logo, os egos mudam, é inevitável. Há malta com mais qualidade, com egos maiores, mas foi um grupo fantástico, praticamente só malta do norte, íamos muitas vezes jantar fora a uma pizzaria para ver jogos da Champions. Eu era dos mais novos do grupo e sempre foram impecáveis comigo. O treinador era o Tulipa, que também era um jovem treinador e ajudou-nos.

Adaptou-se bem ao frio da serra?
[Risos] Senti na pele o que é o frio a sério. Lembro-me que muitas das vezes tínhamos de esperar que o campo descongelasse para poder treinar, porque íamos pisar o relvado e parecia que estávamos a pisar cimento. Era difícil ter água quente porque o frio era tanto que os canos congelavam. Até a água ficar quente demorava muito. Muitos dos meus colegas, que viviam num hotel ali perto, metiam a roupa no cesto e tomavam banho no hotel. Eu tinha paciência para esperar, também não gosto da água muito quente.

O médio durante um jogo amigável da seleção Sub 21
O médio durante um jogo amigável da seleção Sub 21
D.R.

Entretanto, regressou ao Beira-Mar, pela mão de Ulisses Morais.
Sim, acabei por encontrar o Ulisses Morais, que já me tinha chamado dos juniores aos seniores na Naval. Ele voltou a apostar em mim naquele ano e fiquei no plantel.

Recorda-se do jogo de estreia na I Liga?
Recordo. Estava muito nervoso, mas eu não aparento, para fora mostro sempre que sou calmo. A minha estreia foi no Dragão, ainda por cima. Entrei na 2.ª parte. Foi um momento inesquecível. Perdemos 4-0, mas correu-me bem. Senti-me bem no jogo. Não houve nenhum erro que me pudesse comprometer, as sensações foram boas.

Mas jogou pouco nessa época. Porquê?
Por opção. O Ulisses Morais depois saiu e veio o mister Costinha.

Muito diferentes, naturalmente.
Sim. Como o Costinha trabalhou com o Mourinho, vinha com muitos métodos e treinos diferentes. Era uma pessoa com uma visão mais moderna e muito de grupo, gostava muito de fazer convívios. Foi bom apanhar o Costinha. Acabámos por descer de divisão, o que foi pena, mas gostei do trabalho dele.

Foi praxado no Beira-Mar?
Sim, tive de cantar. Normalmente nas praxes canto sempre duas músicas, que nunca falham. Uma é a "Paixão (Segundo Nicolau da Viola)", do Rui Veloso. Essa é mítica, a malta faz coro. A outra é o "Ponha a Mão na Cabecinha". Como tem coreografia, fica sempre bem [risos].

Quando sonhava com o seu futuro, como se projetava, com o que sonhava?
Quando fui à seleção e assinei contrato profissional comecei a sentir que poderia ser possível fazer disso vida. Eu sentia que se tivesse as oportunidades certas poderia chegar lá. A ambição é sempre chegar a um grande e para mim não é mágoa não ter chegado, a única coisa que ficou foi a curiosidade de como poderia ter sido se tivesse jogado num grande. Pela minha mentalidade e características, acho que me aguentava ficar num grande.

Em 2011/12, André assinou pelo Beira-Mar mas foi emprestado ao SC Covilhá
Em 2011/12, André assinou pelo Beira-Mar mas foi emprestado ao SC Covilhá
D.R.

Como foi a segunda época no Beira-Mar, na II Liga?
Em termos desportivos foi boa, a nível financeiro já não. O salário aumentava com os anos e eles não me desceram o salário, mas ficaram a dever-me. Os meus pais ajudaram-me algumas vezes na altura, que foi quando comprei o meu primeiro carro, um Seat Leon. O meu empresário, o Dimas, também me ajudou, assim como os meus sogros. A minha namorada trabalhava nas caixas do Continente e esse salário também nos ajudava. Para ver o nível surreal em que aquilo estava, foi para lá um presidente italo-brasileiro que resolveu pagar apenas a um grupo de jogadores e, nomeadamente os portugueses, não recebiam. O nível estava assim, era insustentável e por isso acabei por sair do Beira-Mar. Tinha cinco meses de salário em atraso. Fiz um acordo para sair em novembro.

Já tinha algum clube para onde ir?
Nada. O meu empresário perguntou-me se eu tinha a certeza que queria rescindir. Eu disse que sim, porque para mim era a desvalorização máxima. Estar a viver o dia a dia naquilo, uns recebem, outros não… Houve colegas que aguentaram e depois foram para o Sindicato e receberam do Fundo de Garantia Salarial algum dinheiro, mas eu não aguentei tanto tempo. Vim embora. Se não me sinto desejado ou algo não está bem, não tenho problemas em tomar decisões e naquele dia disse ao empresário que ia rescindir. Dos cinco meses que me deviam, pagaram-me dois. Queria estar com consciência tranquila e começar do zero, porque ali sentia-me preso. Preso ao contrato, não pagavam. Como os meus pais ainda eram emigrantes, fui para a casa dos meus sogros, no Algarve.

E que clubes o contactaram depois?
Apareceu o Santa Clara e o Académico de Viseu e acabei por ir para Viseu, porque o meu filho, o Dinis, tinha nascido em Aveiro e como era ainda muito pequeno eu não queria ir para uma ilha.

Assistiu ao parto do seu filho?
Não. Ele nasceu no Dia dos Namorados de 2014 e na altura tinha um treinador italiano que não me deixou ir assistir. Mas já vi o parto da minha filha, a Beatriz, que nasceu a 19 de outubro de 2019.

Na época 2012/13, André estreou-se na I Liga pelo Beira-Mar
Na época 2012/13, André estreou-se na I Liga pelo Beira-Mar
D.R.

Como correu a época no Académico de Viseu?
O clube não é nada do que é hoje. Na altura era um clube pequeno, uma estrutura pequena, era o presidente, um motorista e outro diretor, basicamente. Mas correu bem, porque voltei a jogar, voltei a sentir-me bem. O início foi complicado, também deveram alguns salários.

Passou-lhe pela cabeça que poderia nunca mais jogar na I Liga?
Não. Eu tinha 24, se calhar era aquela ingenuidade própria da idade, mas acreditava e acho que isso foi positivo para mim. Fui para lá em janeiro e em março já estava a assinar com o Belenenses. A história é interessante. Eu não queria acreditar. O treinador ia ser o Sá Pinto. Perguntei qual o dia em que ia assinar. Ele disse que ainda não sabia, mas para me preparar porque quando me avisasse eu tinha de descer rápido. O meu carro estava no mecânico na altura. No dia em que me ligou tive de pedir o carro emprestado a um colega e ia de tal maneira ansioso para assinar, com a minha mulher e o meu filho no carro, que só quando chegámos é que reparei que a cadeirinha do Dinis ia solta.

Assinou por quanto tempo?
Dois anos. Depois de já lá estar, num ano renovei três vezes com o Belenenses.

Joana, a mulher de André e o pinscher que ambos tiveram quando começaram a viver juntos
Joana, a mulher de André e o pinscher que ambos tiveram quando começaram a viver juntos
D.R.

Como foi lidar com o treinador Sá Pinto?
Apanhei-o duas vezes, no Belenenses e depois na Turquia. Gostei imenso. As pessoas, mesmo a própria comunicação social, traçava um perfil, também provocado por ele, de rezingão, muito durão, e assisti a episódios com essas características, mas gostei muito dele como pessoa e como treinador. Lembro-me dele ter uma conversa quando cheguei ao balneário em que foi logo sincero comigo.

O que lhe disse?
Disse que foi ele que quis que eu viesse, que via valor em mim, mas que eu tinha vindo da II Liga e tinha jogadores mais experientes, que já estavam no Belenenses e que provavelmente não ia ser a primeira opção. Respondi-lhe: "Mister, agradeço a sinceridade, mas quero mostrar que o mister está enganado."; "Então quero que me mostres." A época correu muito bem e o meu primeiro jogo oficial foi na 3.ª eliminatória da Liga Europa, como titular com o Gotemburgo, em casa.

Tem alguma história com ele no Belenenses?
Tenho. O Sá Pinto foi jogador, pressente o balneário como ninguém, sabe o que é motivar o grupo e ter o grupo com ele. Fazíamos muitos almoços e jantares com ele, ele é dessa geração que gostava muito de convívio. Antigamente havia muito mais isso do que hoje. Um dia tivemos um almoço e ele gostava que não fôssemos nos nossos carros, mas todos de autocarro. Ele ligava muito a esses pormenores e aquilo fazia algum sentido. Fomos a um almoço na Arruda dos Vinhos, comer umas postas de bacalhau e, claro, a malta sente mais liberdade, não conduz, há sempre alguns excessos. O almoço durou até o final da tarde e volta e meia um de nós começava a bater na mesa e a cantar baixinho: "Não há treino, não há treino, amanhã não há treino" e o resto seguia até que começávamos todos a gritar e a bater na mesa.

Como ele reagia?
Ele nunca se descoseu. Fazia aqueles olhos de quem nos quer comer vivos, mas nós já não queríamos saber, estava a festa instalada e fizemos aquilo umas 10 vezes durante o dia. Voltámos para o Restelo já o sol estava a pôr-se. E quando chegámos, ele diz: "Malta, ninguém vai para os carros, tudo para o balneário." Pensámos: “Estamos lixados. O que ele quer dizer?” Eles não acenderam as luzes do balneário, estava a ficar escuro. Ele diz: "Malta, não posso admitir o que aconteceu no almoço. Tenho de falar convosco, não quero que se volte a repetir", com uma cara séria. E de repente baixa-se, põe-se quase de cócoras e começa a cantar baixinho: "Não há treino, não há treino, amanhã não há treino" [risos]. Foi a loucura, começámos todos a cantar em alvoroço. Estavam lá umas bolas no balneário, alguns começaram a chutar as bolas em direção a ele, foi uma confusão... Mas ele não levava essas coisas a mal, ele sentia que eram coisas de grupo.

Em 2015/16, André assinou pelo Belenenses
Em 2015/16, André assinou pelo Belenenses
Carlos Rodrigues

Ele saiu por maus resultados, certo?
Julgo que sim. Apesar de ter sido uma época muito boa, porque passámos à fase dos grupos, pela primeira vez na história do Belenenses e com possibilidade de passar os grupos, porque se ganhássemos à Fiorentina, na Itália, no último jogo, passávamos nós e a Fiorentina, algo assim. Eu até atirei uma bola ao poste de pé direito, nunca mais me esqueço, tinha sido o herói do Belenenses, mas acabámos por perder esse jogo. Ou seja, foi muito positiva a campanha europeia. Também não estávamos muito mal no campeonato, mas ele perdeu três ou quatro jogos seguidos, se não me engano, antes de ir embora. O grupo gostava dele.

E do Júlio Velázquez que entrou a seguir, também gostou dele?
Sim. Tem uma paixão muito grande por aquilo que faz e é muito energético. Às vezes também saltava-lhe a tampa. O Belenenses na altura deve ter comprado umas cinco geleiras, porque ele no próprio banco chutava a geleira [risos]. Era muito apaixonado, mas não se irritava tão facilmente como mister Sá Pinto.

Recorda-se de alguma dura do Sá Pinto?
Lembro-me. Sofremos penso que 5-0 do Benfica. Entrei aos 70 minutos nesse jogo e já estava 5-0. Ele deu-nos uma dura tão grande no dia seguinte. Mostrou o vídeo e, talvez por ter sido o Benfica, aquilo ainda lhe subiu mais, já lhe saía espuma pela boca; começou a bater tanto no projetor que começaram a saltar peças por todo o lado [risos]. Ele dizia "estes lampiões..." e pim, pum, batia no projetor.

No dia do casamento com Joana
No dia do casamento com Joana
D.R.

Na segunda época além do Velázquez ainda teve Quim Machado e Domingos Paciência como treinadores. O que pode dizer deles?
Dos três, aqueles com quem gostei mais de trabalhar foi com o Domingos e com o Júlio. Mas tenho uma história do Quim Machado.

Força.
Tínhamos vindo de uma folga e o mister não está no treino de manhã. O que se passa com o mister? Tinham-lhe roubado os quatro pneus do carro e deixaram o carro em cima de tijolos. No dia seguinte, quando ele veio para o treino, vários colegas pegaram em dois pneus enormes de trator, daqueles que se usam agora no CrossFit, e apareceram no treino com os dois pneus. O treino a ser montado e eles na pista de tartã a rolar os pneus [risos]. O mister não gosta muito de brincadeiras, ficou louco connosco, já nem nos podia ver.

E o Domingos Paciência?
Um perfil completamente diferente do Sá Pinto. Mais calmo, um pouco mais distante. Ele só se aproximava mesmo daqueles jogadores por quem sentia algum carinho. Comigo até teve boa relação. Hoje falo muito com o Artur, que era um adjunto dele. Mas fez uma coisa que nunca ninguém tinha feito e que me marcou.

O quê?
Ele estava quase para ser despedido na altura, eu e o Tiago Caeiro vínhamos de dois jogos sem jogar como titulares e ele mete-nos a jogar a titulares no jogo com o Estoril Praia, que ganhámos 2-0 e quem fez os golos fui eu e o Caeiro. No primeiro treino da semana ele quis reunir connosco. Sentámo-nos na pista de tartã, à sombra, e contou-nos um pouco a história dele, de vida, com alguns pormenores pessoais. Aproximou-se muito de nós. Quase no final, diz: "Eu quero pedir uma salva de palmas para o André e para o Caeiro porque independentemente de tudo, foram muito importantes para mim neste momento e eu não tinha sido justo com eles." Aquilo marcou-me, porque há muitos treinadores que não dão o braço a torcer, vão com a deles até ao fim e ele soube reconhecer. Isso também serviu de aprendizagem para mim, porque um dia gostava de ser treinador e foi uma lição.

Em ação pelo Belenenses
Em ação pelo Belenenses
D.R.

A seguir veio a época com o Silas.
Sim, essa época também foi positiva, até porque depois eu saí para Espanha. Acabei sempre por ser a figura da equipa em quase todas as épocas. Na primeira fui a surpresa, nas outras fui a figura.

Apanhou a estreia do Silas como treinador numa equipa profissional. Que tal?
A malta estava toda curiosa. Ele adaptou o sistema em que hoje muita gente joga, de três centrais. Foi um dos primeiros a utilizar e foi muito inteligente nesse sentido, porque as características dos jogadores que tínhamos no plantel encaixaram como uma luva; ele tem boas ideias e as coisas correram muito bem. Também teve um episódio comigo interessante. O primeiro jogo dele, acho que é com o Aves, em casa. Ele estava com tanta vontade de ter bola que nos deu muita liberdade para ter bola e para errar e para jogar desde trás, que levámos cinco golos. Também era uma adaptação nossa àquele sistema, porque estávamos habituados a jogar em 4x4x2. Ele tirou-me aos 30 minutos da 1.ª parte.

Porquê?
Quer queiramos, que não, sentimo-nos um pouco culpados do que está a acontecer. Só que, na semana a seguir, íamos jogar com o Estoril, ele chama-me e diz: "Na próxima semana vais jogar a titular, não te preocupes porque eu não te tirei por ser culpa tua." Ou seja, deu-me logo uma injeção de confiança no início da semana e ganhámos esse jogo e era importante ganhar porque já vínhamos de alguns maus resultados com o Domingos, por isso é que o Silas veio. E aí começa a boa fase do Belenenses nesse sistema.

 

Spoiler

“Na Turquia, no meio de uma reunião, o Sumudica diz: 'Querem lixar-me? Só falta baixar as calças'. Literalmente baixou as calças e virou-se”

O médio André Sousa explica nesta Parte II do Casa às Costas porque quis sair do Belenenses para o Sporting de Gijón, fala do regresso contrariado para jogar na B SAD e da aventura na Turquia, onde viveu e jogou durante duas épocas e meia, antes de regressar a Portugal para jogar no Vilafranquense. Sem nunca baixar os braços ou deixar de acreditar nas suas capacidades, ajudou o Nacional a subir à I Liga no final da época 2023/24 e revela o segredo desse sucesso. Pelo meio, fala sobre Rui Borges, por quem foi treinado, conta mais histórias de Sá Pinto e antevê um futuro onde gostava de ser treinador

Como acabou emprestado ao Sporting de Gijón, de Espanha, em 2019?
Curiosamente nessa altura mudei de empresário porque o Dimas ia deixar de representar para ser adjunto do José Gomes e indicou-me a agência do Bruno Bastos e Paulo Madeira. Almocei duas ou três vezes com eles para perceber como trabalhavam, se me identificava e acabei por ficar com eles. É já com eles que apareceu o Gijón.

Era algo que ambicionava, jogar fora do país?
Sim. Jogar numa equipa grande é o sonho de qualquer jogador e naquela altura os jogadores acabavam por arrastar muito essa ambição, até aos 28, 29 anos. O tempo passava e se calhar perdiam boas oportunidades no estrangeiro, até mesmo financeiras. Mas desde cedo comecei a perceber que provavelmente não ia chegar a um grande, até porque já estava há vários anos no Belenenses. Estive várias vezes para sair. Acho que houve uma aproximação forte do SC Braga, acabei por não ir e comecei a pensar que estava na hora de experimentar outros campeonatos, outras realidades, outras culturas e apareceu Espanha.

Mas era II Liga, não torceu o nariz?
Não, até porque eu sabia que o campeonato espanhol, mesmo da II Liga, era muito forte. E confirmei isso mesmo.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Duas. E no Belenenses já estava no teto salarial, praticamente.

Em 2018/19, André foi emprestado ao Sporting de Gijón pelo Belenenses
Em 2018/19, André foi emprestado ao Sporting de Gijón pelo Belenenses
D.R.

Como foi recebido no balneário espanhol?
Muito bem recebido. O Gijón é nas Astúrias, no norte, e as pessoas de lá são parecidas também às nossas gentes do norte, são muito acolhedoras, muito próximas. Adorei estar em Espanha. Foi uma época muito feliz.

Foi com mulher e filhos?
Sim.

O que nos pode dizer da II Liga espanhola da altura?
A qualidade futebolística não fica atrás da nossa I Liga, até porque financeiramente conseguem captar melhores jogadores ao manter os melhores de Espanha. Infelizmente é um problema que temos em Portugal, financeiramente não conseguimos lutar com outros mercados para manter cá o jogador português, que é bom. E depois, a loucura que os adeptos têm pelo clube da cidade, era enorme.

O ambiente de balneário é semelhante ao português?
Um pouco diferente. Existe menos brincadeiras, apesar de eles terem boa energia, é mais recatado nesse sentido, mas eu também fui com um português, o André Geraldes, o que facilitou. Em Espanha aconteceram coisas que nunca me tinham acontecido cá.

Como, por exemplo?
O clube dava carro e o carro estava dentro do estádio com a nossa imagem no vidro e cada um ia buscar o seu carro. O dérbi lá é incrível. Aí senti verdadeiramente o que é jogar um dérbi, o Oviedo-Gijón. O autocarro nem anda praticamente, há muita gente na rua.

Tem alguma história de lá que possa contar?
A história que tenho foi quando vim embora, saí em lágrimas. Eu sabia que não ia ficar, eles não iam assinar a opção de compra porque acabou por ficar um valor alto e também mudaram de direção. No último jogo, venho embora com as lágrimas nos olhos, sozinho no carro, porque sentia que era a despedida. Eles ficaram com um grande carinho por mim. Quando já estou na viagem para baixo, de carro, com a minha mulher e o meu filho, eles querem fazer uma entrevista em direto comigo para a rádio. Vim a falar ao telemóvel e a ouvir a rádio ao mesmo tempo, no carro e foi um momento que me marcou.

Entretanto, ainda tinha contrato com o Belenenses que no ano em que esteve em Espanha viveu um momento muito conturbado com a criação da B SAD…
Eu não queria ir para a B SAD. Como tinha saído para o estrangeiro e as coisas correram bem, financeiramente melhorei, o campeonato na Espanha para mim estava melhor do que a I Liga naquele momento, queria manter-me na Espanha. A minha situação de mercado subiu, digamos assim, queria manter aquele nível, não queria voltar. Além disso, eu joguei no verdadeiro Belenenses, não queria voltar para um clube que era a B SAD. Falava muito com o Gonçalo Silva, um dos capitães, de quem sou amigo pessoal, e ele contava-me tudo o que se passava. Estava a par de tudo. Era o último ano de contrato. Lembro-me de ter almoçado com o presidente, o Rui Pedro, várias vezes, e pedir-lhe para me deixar sair.

Como ele reagia?
Não deixava, dizia que eu fazia parte de um núcleo forte, ele regia-se muito por isso, gostava de ter um núcleo forte nos plantéis dele. Na altura esse núcleo forte era eu, o Gonçalo Silva, o Licá, o André Santos e o Nuno Coelho. Ele não queria abdicar de nenhum. Eu andava meio contrariado, porque o clube já não era o mesmo, andávamos com a casa às costas, no Jamor… Havia momentos em que andava chateado. Ele falava comigo, eu insistia que não queria ficar, houve ali um certo atrito. Até que há um jogo em que acabei por ter se calhar a melhor expulsão da minha vida, no sentido em que ele ficou tão doido comigo que ligou logo ao meu empresário para dizer que eu não estava com a cabeça lá e que tinha de ir embora, que arranjasse solução para mim.

O médio a entrar em campo pelo Sprorting de Gijón
O médio a entrar em campo pelo Sprorting de Gijón
D.R.

Qual a razão da expulsão?
Na altura eu era o capitão, sou expulso porque há uma falta que faço em que levei amarelo e deu livre direto para o Moreirense. Eles fazem golo e durante os festejos deles fui expulso por palavras. O presidente ainda me castigou, ainda tive de fazer um jogo nos sub-23, na Liga Revelação. Ele pensava que eu ia recusar, mas fui.

Quem era o treinador na altura?
O Petit. Ele compreendeu a minha situação. Apesar de no início dizer que não queria que eu saísse. Mas perguntei-lhe: "Onde é que o mister ganhou mais dinheiro?"; "Foi no estrangeiro". Eu tinha uma proposta irrecusável da Turquia, onde ia ganhar quase cinco vezes mais. Ele acabou por perceber.

Já era a proposta do Gaziantep?
Era.

Como foi o primeiro impacto quando chegou à Turquia?
O primeiro impacto foi quando vi num mapa para onde é que ia [risos]. Acabei o treino e as coisas tinham que ser decididas rápido, fui almoçar com o Bruno Bastos e quando olhei para o mapa e vi que a cidade ficava a 40 minutos da Síria, disse que não sabia se ia. Já tinha os dois filhos, a minha filha tinha três meses e o meu filho estava no 1.º ano se não me engano, da escola. Para eles irem, ia ser complicado, porque naquela zona nem escolas internacionais de jeito havia. A ir tinha de ir sozinho.

O que o convenceu, foram os valores?
Sim. O meu empresário começou a escrever no papel os valores e quando olho para a minha mulher ela já estava com as lágrimas nos olhos porque sabia que eu ia aceitar. Era uma proposta irrecusável. Se saísse do Belenenses para um grande ou para um SC Braga, não ia ganhar aqueles valores, porque não era valorizado dessa forma e não acontece isso no mercado português. Eram valores muito altos.

Como era o seu inglês?
Era mau, aprendi a falar lá, tive que me desenrascar. Aprendi turco também, ainda hoje consigo fazer um pedido num restaurante em turco.

Que tal a cidade e o clube?
É uma zona muito velha, uma cidade muito antiga. Toda a gente de cara tapada porque a cultura muçulmana é muito vincada ali. Quando cheguei ao aeroporto, foram buscar-nos, o meu empresário foi comigo, e no caminho até ao hotel só pensava: “Onde é que me vim meter?”. Passei por zonas muito velhas em que provavelmente na rua a seguir há uma zona riquíssima. Na Turquia acontece muito isso. Gosto de me informar dos sítios onde estou, gosto de conhecer a história, conhecer as pessoas da região e comecei a ver que o clube era muito organizado. O treinador era o mítico treinador das histórias do Cândido Costa.

O Marius Sumudica. Tem alguma história com ele?
Tenho. Antes de eu ir para a Turquia, ele ligou-me. "André, eu saber falar português" - porque ele jogou no Marítimo. "Tu, tranquilo. Vem para aqui, eu ser teu pai. Tu comigo ganhar muito dinheiro" [risos]. Acabou por tirar um pouco aquela apreensão. Comecei a rir, a minha mulher começou a rir. Ao menos o treinador estava a dar-me confiança. Senti que ele não me ia deixar cair e acabei por ir. Foi engraçado.

André acabou por assinar pelo Gaziantep, da Turquia, em 2019/2020
André acabou por assinar pelo Gaziantep, da Turquia, em 2019/2020
D.R.

Como foi lidar com ele?
Uma personagem. Uma bomba-relógio autêntica. Nós fomos quase à Conference League, andámos em primeiro e tudo nesse ano, correu-lhe muito bem. E uma vez um treinador chamou-lhe anão, depois de uma vitória nossa. O Sumudica tinha muito o lado motivacional. No balneário disse-nos: "Aquele treinador chamou-me anão, eu quero ver agora qual é o carácter da minha equipa, para me defender". Ganhámos o jogo, estamos a festejar e ele sai a correr direito à bancada, nós a pensar, vai dar confusão, porque já tinha havido um bate-boca. Mas o que ele fez? Foi à bancada, subiu para os primeiros lugares e pegou num anão que lá estava e começou a dançar com ele às cavalitas, nos ombros [risos]. Para ver o nível dele. O anão não deve ter percebido nada. Lembro-me de outra.

Força.
Esta é pesada, mas acho que ninguém vai levar a mal. Na altura da covid-19, todas as equipas queriam baixar salários aos jogadores. Ele como treinador estrangeiro falou com todos os jogadores estrangeiros e perguntou se algum ia baixar salário. Como estávamos fora do nosso país e sempre temos mais alguma força porque somos os mais bem pagos, dissemos sempre que não. Depois reunimos no campo e os turcos decidiram o mesmo que nós. O presidente queria fazer reuniões individuais com cada jogador para saber qual era a decisão do jogador. O treinador disse que quem baixasse salário depois da reunião com o presidente, provavelmente não iria contar mais para o plantel e ficava à parte.

O que aconteceu?
Alguns jogadores, nomeadamente turcos, aceitaram reduzir. E ele, cego, marcou outra reunião por videochamada com todos, incluindo o presidente, e disse que a decisão tinha de ser por maioria. Estamos a falar, os turcos são muito mais reservados que nós, e a determinada altura, ele passou-se e diz: "Ah, vocês querem lixar-me? Querem lixar-me? "Então lixem-me. Só falta baixar as calças para vocês lixarem-me…" e baixou literalmente as calças e virou-se de rabo [risos]. O certo é que ninguém baixou o salário.

A propósito da covid-19, foi-lhe muito difícil passar essa fase?
Foi, porque não consegui viajar para cá. Depois fechou tudo. Ainda tentámos reunir uns portugueses para tentar alugar um avião privado a dividir por todos, mas não conseguimos viajar, não nos deixaram. Ou seja, deixei a minha filha aqui com três meses, quando voltei, ela tinha nove. Essa parte foi complicada.

O que fazia para se entreter?
Treinávamos por Zoom. Comecei a cozinhar e a fazer algumas coisas engraçadas. Panquecas e bolos. O “Fanatik”, um jornal desportivo de lá, até fez um artigo comigo sobre isso. Alguns jogadores juntavam-se em casa uns dos outros e passávamos muito tempo juntos. Tínhamos alguns brasileiros, era fácil estar com eles.

Com que opinião ficou dos turcos?
O turco é mais reservado nas brincadeiras, em tudo. Nos estágios os quartos eram sempre individuais, as cabines de duche são individuais, são mais reservados. Nunca tive problemas com nenhum, mas quando eles se juntavam às vezes era complicado para nós. De certa forma eu também os compreendo, porque éramos estrangeiros, íamos ganhar muito dinheiro, somos pagos em euros, eles em liras, é uma diferença muito grande, a lira não vale nada, praticamente.

Do que gostou mais e menos da Turquia?
O sítio onde eu estava é a capital do pistácios. Eu gosto muito de frutos secos. A sobremesa baklava, que é feita à base de frutos secos, é feita nessa cidade. A comida é muito boa na Turquia. Apesar de ter muito picante, cheguei a um ponto que a comida para mim já tinha que ter picante. Os estádios também são muito bons e também gostei daquela loucura dos adeptos. A parte que menos gostei foi o trânsito. Aluguei carro, andei lá sem problemas, mas percebi que os sentidos proibidos não existem, eles entram em sentido proibido, os carros não param na passadeira, as pessoas é que param. Eu parava, começavam a apitar e os peões até ficavam surpreendidos, tipo, passo, não passo. Nas rotundas funcionam ao contrário. Quem pára é quem está dentro da rotunda. Quem tiver mais coragem vai. Tenho uma história em Istambul.

Conte.
A minha mulher foi lá ter comigo a Istambul num fim de semana grande e ficámos os dois a visitar a cidade. Muita gente, muitos carros. Estávamos na Taksim Square, eu queria ir para o hotel, sabia que o hotel não ficava muito longe dali, mas a verdade é que estive uma hora e meia para encontrar um taxista que nos quisesse levar. Eles recusavam. Diziam que estava muito tráfego e não levavam.

André com os dois filhos, Dinis e Beatriz
André com os dois filhos, Dinis e Beatriz
D.R.

Na segunda época voltou a ter Sá Pinto como treinador. Era um Sá Pinto diferente daquele que encontrara no Belenenses?
Não. O temperamento, o caráter, a personalidade era praticamente igual. A equipa técnica é que já era diferente. Ele foi com o Rui Mota, que agora foi para o Ludogorets e ele era muito mais calmo, mais cerebral. Complementava o Sá Pinto. Uma vez jogámos fora, ele ia dar a folga de dois ou três dias e combinámos voltar a Portugal de avião juntos, no mesmo voo. O voo era praticamente a seguir ao jogo. O transfer que mandámos vir nunca mais chegava e o Sá Pinto, com a loucura dele, não sei o que fez, mas conseguiu que a polícia de intervenção desse boleia na carrinha deles até ao aeroporto ou até ao hotel, já não me recordo bem. Ele era tão espontâneo [risos]. Com essa brincadeira ainda me lixou uma camisola que vinha trazer para Portugal e que tive de dar a um polícia.

Acabou por mudar para o Manisa FK da II Liga, porquê?
O contrato com o Gaziantep não foi renovado, eu queria manter-me na Turquia e essa foi a melhor proposta que tive. Era uma equipa que queria apostar tudo para subir e foi buscar três ou quatro estrangeiros da I Liga turca, eu fui um deles. Pagavam muito bem, deram-me um contrato praticamente de I Liga. Adorei o sítio, porque é um clube de Izmir, a cidade mais europeia da Turquia, com praias.

Aí já estava com a mulher e filhos?
Não, continuei sozinho porque o meu filho estava na escola.

Na época 2021/22, André representou o Manica FK, da II Liga turca
Na época 2021/22, André representou o Manica FK, da II Liga turca
D.R.

O que achou da II Liga turca?
Muito diferente da I, o nível é muito mais baixo. A I Liga ainda tem um nível bom, consegue ir buscar muitos jogadores bons, mas não tem um nível bom em termos táticos, nesse aspeto não é como Espanha e Portugal, nada a ver. Na II Liga o nível é um bocado baixo, é mesmo só a questão financeira que nos faz ir. Há um estádio ou outro bom, de equipas que já foram fortes anteriormente e estão a passar um mau bocado, mas a liga não é nada de especial. Assinei por dois anos, mas fiquei só uma época porque a determinada altura comecei a treinar à parte.

O que aconteceu?
Como não subimos de divisão, a culpa é sempre de quem ganha mais. Ali é assim. Os estrangeiros ficam todos em questão. Fui para a pré-época, estive a treinar à parte. Mesmo assim treinávamos melhor que os turcos, eles só apanhavam sol. Ainda estive um tempo a treinar à parte porque só venho para o Vilafranquense em outubro ou novembro.

Rescindiu?
Fiz um acordo. Tentei aguentar o máximo possível porque eles precisavam das vagas dos jogadores estrangeiros, precisavam da minha vaga, para assim tentar ter melhor posição no acordo.

Veio ganhar quantas vezes menos?
No Vilafranquense ganhei o salário mínimo no futebol. Caí um pouco na realidade. Como eu tinha um currículo já de I Liga, muitas épocas aqui a correr bem, tinha estado em Espanha, na Turquia, pensei que talvez conseguisse voltar à I Liga, mas não. Ainda houve uma aproximação do Chaves, mas acabei por não ir. Assinei com o Vilafranquense já cá estava há um mês.

Em 2022/23, o médio assinou pelo Vilafranquense
Em 2022/23, o médio assinou pelo Vilafranquense
D.R.

O treinador do Vilafranquense era o Rui Borges. Com que opinião ficou dele?
Como pessoa é 10 estrelas. Estive pouco tempo com ele porque, entretanto, ele saiu do Vilafranquense. Ninguém queria que ele saísse, mas foi decisão dele. Acho que entrou em conflito com a direção, não sei bem porquê. O grupo não queria que ele saísse porque claramente ele é líder nato, pelos recursos humanos que tem. Ele sabe conquistar os jogadores pela boa pessoa que é. E é competente como treinador, como é óbvio, senão não tinha chegado onde chegou e provavelmente vai continuar a fazer um bom trabalho. Tem uma equipa técnica no mesmo sentido, são todos boas pessoas. Gostei muito de trabalhar com ele e ainda falo com ele. É mesmo genuíno, é puro. Ele era a pessoa certa para juntar o grupo do Sporting e fazê-los acreditar novamente. Ainda bem que foi campeão, estava a torcer por ele, por ser amigo pessoal dele.

Só tinha assinado até final da época com o Vilafranquense?
Sim. Quando voltei da Turquia, tinha 33 anos, não fazia sentido fazer contratos maiores. Mas queria voltar a aparecer, voltar a mostrar-me, porque isto do futebol é mesmo assim, é preciso estar a jogar, estar na montra para as coisas acontecerem. E foi o que aconteceu.

O Nacional foi o único clube que se mostrou interessado?
Houve algumas conversas com o Belenenses também, era um clube onde eu queria muito voltar e era II Liga também, mas as coisas não aconteceram. Acabou por aparecer o Nacional. Combinámos que a família vinha toda para cá, estão aqui comigo na Madeira. Eu tinha alguma curiosidade em jogar aqui. Quando cheguei da Turquia tive uma despedida de solteiro na Madeira e na altura disse aos meus colegas: "Jogava aqui um aninho ou dois, na boa" [risos].

Também só assinou por um ano?
Sim. Só que consegui uma cartada boa. Disse ao Bruno Bastos para sugerir ao presidente que se subíssemos tinha renovação automática, com melhoria de salário. O presidente aceitou porque na época o objetivo não era para subir, não houve grandes contratações, o plantel foi praticamente o mesmo e na época anterior quase desceram.

Acabam por subir. Qual foi o segredo do sucesso?
O mister Tiago Margarido foi muito importante. É um treinador que vinha de uma divisão inferior e vinha com fome, com vontade. Depois, é muito competente em termos táticos e técnicos. O lado estratégico dele é muito forte, analisa a equipa adversária muito bem. Vamos sempre para o campo a saber o que fazer e com confiança naquilo que foi proposto. A estratégia corre bem. Ele conseguiu juntar o grupo de uma equipa completamente desacreditada, porque esteve quase na III Divisão. Conseguiu fomentar no grupo a vontade de querer crescer, aparecer, porque há muitos jovens com potencial; também tinha um núcleo de mais velhos, eu, o João Aurélio, o próprio Jota, que conseguimos ser bons aliados dele.

Quando perceberam e acreditaram que a subida era possível?
Acho que foi a vitória nos Açores. Perdemos os primeiros dois jogos, mas depois começámos a pontuar, a ganhar. Na Taça da Liga apurámos para os grupos antes da época começar e percebemos que havia potencial. A vitória ao Santa Clara foi já na 2.ª volta e sabíamos que se perdêssemos aquele jogo, estávamos possivelmente afastados da corrida. A energia começou a entrar no balneário e quando há sentimento nas coisas que se fazem, normalmente correm bem. Também há pormenores que contam. Agradeço ao mister Tozé Marreco porque quando ele jogou connosco, a nossa postura foi sempre de outsiders, empatámos, e no final do jogo ele diz: “O objetivo do nosso adversário é 40 pontos e o nosso é 41" ou 42. Disse-o com alguma ironia. Parece que nos deu mais força. A nossa conversa uns para os outros começou a ser: “Nós ainda vamos subir em Tondela.” E acabou por acontecer. Parecia que estava escrito.

Esta época 2024/25, na I Liga, estavam à espera fazer melhor?
Não. Sabíamos que ia ser uma época difícil, porque é sempre difícil para as equipas que sobem. Saíram alguns jogadores importantes também, por opção deles. Veio muita gente nova do estrangeiro, isso carece de adaptação.

Jogou bastante menos.
Sim, fui menos opção. Não foi por questões físicas, porque ainda me sinto bem. Acho que nos momentos em que joguei acabei por ser importante. Ainda fiz um golo num jogo em que estávamos a perder 3-0 na 1.ª parte e conseguimos empatar na 2.ª.

Renovou?
Sim. O presidente faz sempre reuniões individuais com os jogadores, dá a opinião dele. Ele fez a proposta, ainda hesitei, porque joguei pouco, mas acabei por ficar, também devido ao lado familiar. Os miúdos estão bem aqui na escola. A minha filha vai entrar no 1.º ano e provavelmente se fosse para o continente não entrava porque é condicional, só faz seis anos em outubro. Depois há outra questão. Quero entrar no curso de treinador e ter mais uma época na I Liga para poder entrar ao abrigo do atleta profissional também ajuda.

Quando decidiu ou descobriu que queria ser treinador?
Acho que quando fui para a Turquia. Nós aqui trabalhamos o lado tático, a preparação para o jogo e lá isso não existe, ou melhor, existe, mas não é tão trabalhado por eles. É uma cultura diferente. Aquilo fez-me muita confusão e criava-me alguma revolta interior. Depois, a minha personalidade foi mudando com a idade, a experiência, comecei a ter olho para muitas coisas que não tinha quando era mais novo e comecei a ter essa vontade. Mas não vou forçar. Se achar que não sou um treinador de qualidade, não vou forçar. Agora, quero tentar, pelo menos.

André (de camisola amarela)a chegada ao aeroporto da Madeira, onde a equipa do Nacional foi recebida em festa pela subida à I Liga
André (de camisola amarela)a chegada ao aeroporto da Madeira, onde a equipa do Nacional foi recebida em festa pela subida à I Liga
D.R.

Quais são as suas perspetivas para a época que se vai iniciar?
As mesmas que tinha na época anterior, não depende só de mim, mas é tentar jogar o máximo de minutos possíveis, continuar com a postura que tive desde que aqui cheguei, sendo dos mais velhos, dos mais experientes, um dos capitães, de ajudar os mais novos naquilo que puder. O treinador também mostrou essa vontade de continuar comigo e isso foi importante para mim.

Nunca teve uma lesão séria?
Não. Gosto de me cuidar, levo muito a sério o que faço, porque é a minha paixão, é a minha profissão.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
Na Turquia.

Já deu para investir?
Sim, em imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Não foi extravagância, foi o dinheiro mais bem investido, mas foi uma quantia elevada. Como os meus pais nunca tinham feito férias num resort, decidi alugar uma carrinha e levei a minha família, os meus sogros, os meus pais para um resort, em Espanha.

Tem algum hobby?
Como estou aqui na ilha, gosto de ir à praia, de caminhar ao pé do mar. E jogo às vezes com o meu filho na Playstation, os jogos dele.

É um homem de fé? Acredita em Deus?
Sim, vivo a fé à minha maneira. Vou a Fátima todos os anos, antes das épocas.

André Sousa com os pais, a mulher e os filhos no estádio do Nacional
André Sousa com os pais, a mulher e os filhos no estádio do Nacional
D.R.

Superstições, tem ou teve?
Não tenho muitas, mas beijo as caneleiras onde está a minha família, antes de me equipar, e ando sempre com uma imagem da Nossa Senhora de Fátima, desde que saí de casa, que foi a minha mãe quem me deu. Anda sempre comigo na minha bolsa.

Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando?
Foi quando saí de casa, acho que tinha 18 anos. Tatuei aqui um crucifixo com a família dentro, no braço. Tenho muitas agora, mas é tudo relacionado com a minha família.

Acompanha ou pratica outra modalidade sem ser futebol?

Acompanho modalidades motorizadas. Comecei a gostar da Fórmula 1 devido à série e vejo as competições grandes de ténis.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não tenho.

E arrependimento?
Também não.

O momento mais feliz na carreira?
A primeira vez que joguei na seleção, a minha estreia na Liga Europa e ter entrado com os meus dois filhos no último jogo da época em que subi de divisão.

Qual o momento mais difícil que passou na vida?
Ter parte do final da infância longe dos meus pais.

André com a mulher e os dois filhos
André com a mulher e os dois filhos
D.R.

O objetivo que ainda está por cumprir?
Já fui jogador na I Liga, por isso agora é treinar na I Liga.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde um dia gostava de ter jogado?
Real Madrid.

Quais as maiores amizades que fez no futebol
Gonçalo Silva e Jaime Simões.

Tem ou teve alguma alcunha?
Tive. "Esquerdinha", mais na infância, lá na minha terra.

Alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Não.

Tem algum talento escondido?
Não.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
O Valencia para a Taça do Rei.

Se não tivesse sido jogador de futebol, o que teria sido?
Teria sido algo ligado ao desporto.

 

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Rui Pires

Spoiler

“A praxe no FC Porto B era ir à maquina zero. Os mais velhos passavam por nós e faziam 'bzz, bzz'. Parecíamos uns malucos de cabeça branca”

Rui Pires foi viver para a Casa do Dragão com 13 anos, onde foi alvo de muitas partidas, que acabou por repetir anos mais tarde a outros. O médio de 27 anos, que joga em Singapura, conta como o futebol se instalou na sua vida e vice-versa, fala dos 10 anos passados no FC Porto, onde teve o sonho nunca concretizado de chegar à equipa principal

Nasceu em Mirandela. É filho e irmão de quem?
Os meus pais são de uma aldeia próxima de Mirandela, chamada São Pedro Velho. A minha infância foi praticamente passada toda aí. O meu pai trabalhava em casa, geria muitas coisas na bolsa. A minha mãe é professora primária e tenho uma irmã quatro anos mais velha.

Qual a primeira memória de infância que tem?
Talvez seja jogar na rua, era o que fazia o tempo todo. Quando se está numa aldeia tem-se muita liberdade desde pequenino. Os meus pais deixavam-nos sair, porque ali toda a gente se conhece.

Torcia por qual clube?
Fui sempre portista. Em pequenino já ia aos jogos do FC Porto com o meu pai.

Gostava da escola?
Sim e fui sempre bom aluno. Não gostava de estudar, mas tive sorte que era inteligente e tinha muito boas notas. Era muito bom a matemática. Até o 10.º ano fui sempre muito bom aluno, porque era uma altura em que ainda não precisava de estudar. Quando precisei de estudar já foi mais complicado, não conseguia acompanhar as aulas todas, mas terminei o 12.º ano, que foi o mais importante.

Rui Pires em criança, vestido com equipamento do FC Porto
Rui Pires em criança, vestido com equipamento do FC Porto
D.R.

Quem eram os seus ídolos?
No futebol foi sempre o Cristiano Ronaldo, gostava do Pirlo, que era da minha posição. Mais para frente o Sergio Busquets, o Xavi, o Iniesta.

Deu uma infância calma aos seus pais?
Segundo dizem era um bocadinho reguila quando era mesmo pequenino, mas depois tornei-me um menino tranquilo, muito bem-comportado, respeitador, que tirava boas notas na escola.

Quando deixou de jogar na rua para jogar num clube?
Quando eu tinha oito ou nove anos o meu professor de Educação Física andava sempre a chatear os meus pais, porque na escola já me destacava nos intervalos e nas aulas de Educação Física. Estava sempre a dizer-lhes: "Vocês têm que pôr o miúdo a jogar, têm que pôr o miúdo a jogar". Insistiu tanto que os meus pais lá meteram-me no futsal da ACD Torre Dona Chama, numa vila perto de São Pedro Velho. Fiz um ano de futsal e as coisas correram muito bem, fomos campeões distritais, acho que nunca tinham sido. Consegui destacar-me e no ano a seguir fui para o Mirandela jogar futebol de 7, com 10 anos. Também correu muito bem, fomos campeões distritais.

Rui com a mãe e a irmã
Rui com a mãe e a irmã
D.R.

A seguir entrou logo no FC Porto. Como aconteceu? Descobriram-no ou foi lá bater-lhes à porta?
Naquele ano do Mirandela tanto o Sporting como o FC Porto manifestaram interesse em ver-me. Fui fazer uns treinos com cerca de 50 miúdos a Fão e passado alguns dias ligaram do FC Porto. Na altura não tinha telemóvel ainda, por isso o meu pai ligou ao professor de Educação Física que me passou o telemóvel dele. Mas quando o meu pai me disse: "Olha Rui, o FC Porto quer que vás para lá jogar para o ano. Tu queres ir?", acho que nem tinha noção nenhuma do que significava, mas claro que disse sim.

Foi viver logo para o Porto?
Não. Eles queriam que eu fosse para a Casa do Dragão, mas eu era muito novo, tinha 11 anos e para os meus pais era complicado deixarem o filho muito pequeno, então fizemos um acordo com o FC Porto. Eu continuava a treinar no Mirandela, não sei se era duas vezes por semana, e só ia treinar ao Porto à sexta-feira. O meu pai tinha de me levar e foram tempos com muitas histórias.

Que histórias?
Tive de fazer um acordo com a escola para sair mais cedo à sexta-feira, porque precisava estar no Porto às cinco ou seis da tarde, para começar o treino. Saía às três da tarde, isto no primeiro ano, e era sempre uma correria, porque ainda estavam a fazer o túnel do Marão, então íamos pela serra e apanhávamos trânsito. Sei lá quantas vezes cheguei ao Porto e o treino já tinha acabado ou faltavam 10 minutos para acabar. Ou era por causa do mau tempo, ou porque apanhávamos um camião e não dava para ultrapassar. Uma vez fui com a minha mãe e o carro estava praticamente sem travões, chovia torrencialmente e a minha mãe só queria levar-me a tempo ao treino, mas estava super preocupada. Nesse primeiro ano treinava sexta, ficava no hotel com o meu pai e jogava sábado.

Rui (com a bola) aos 10 anos a jogar pelo Mirandela
Rui (com a bola) aos 10 anos a jogar pelo Mirandela
D.R.

No 2º ano manteve-se esse esquema?
Mais ou menos. Os meus pais continuavam a não me deixar viver na Casa do Dragão, mas já treinava duas vezes por semana no Porto. Eram duas horas e tal, três de viagem e no dia seguinte tinha de ir para a escola. A maior parte do tempo no regresso já vinha a dormir. Andava sempre cansado. Eu na altura nem tinha noção do esforço que os meus pais fizeram, foi mesmo muito grande. Até a nível financeiro.

O FC Porto não pagava nada?
Davam um valorzinho, mas acho que não dava para tudo, porque eram as viagens, a comida, a estadia no hotel, às vezes a minha mãe e irmã também iam para podermos passar o fim de semana juntos. Houve muito esforço da parte dos meus pais e devo tudo a eles porque não é qualquer um que, mesmo podendo financeiramente como o meu pai por acaso podia, estava disposto a fazê-lo. Era muito cansativo e podia não dar em nada.

Nunca pensou em desistir, uma vez que andava tão cansado dessa correria?
Não, porque também tive sorte das coisas correrem bem. Eu treinava à sexta e jogava sempre ao sábado. Tive a sorte dos treinadores gostarem de mim e darem-me essa oportunidade, porque não era fácil para os outros que treinavam lá a semana toda e se calhar não jogavam. Eu chegava lá à sexta, treinava e jogava no sábado. Se calhar também sabiam que provavelmente se eu não jogasse podia desistir.

Rui Pires com os pais e a irmã numa visita à República Dominicana
Rui Pires com os pais e a irmã numa visita à República Dominicana
D.R.

No ano seguinte foi mesmo viver para a Casa do Dragão, tinha 13 anos. Foi dura a separação dos pais e irmã?
Muito duro. A adaptação não foi fácil, porque havia muitos miúdos mais velhos. Aliás, tenho uma história até logo no meu primeiro ou segundo ano no FC Porto. Ainda não vivia na Casa do Dragão, mas tive de ficar lá a dormir porque tínhamos um torneio no dia seguinte. Aquilo tem vários quartos, quando somos mais novos ficamos em quartos de quatro, depois tem quartos de três, dois e um. Fiquei num quarto de quatro que tinha umas janelas para um restaurante mesmo à frente, e um colega no quarto resolveu meter-se com umas pessoas no restaurante, porque ninguém nos conseguia ver. Andou naquilo a noite toda. Nós ríamos, o segurança vinha e apagávamos as luzes, até que por volta da uma ou duas da manhã o segurança já mesmo zangado diz que era a última vez que ia ao quarto e que se ninguém dissesse quem estava a fazer aquilo íamos ser todos expulsos. Fiquei logo, ai meu Deus onde é que eu me vim meter. Fiquei calado, mas cheio de medo a pensar que me iam mandar embora. Claro que não aconteceu nada.

A que mais lhe custou habituar-se quando foi viver para a Casa do Dragão?
Eu vinha de uma aldeia muito pequenina, com 180 pessoas. Como pode imaginar, eu era muito tímido. Fiquei com miúdos mais velhos no quarto, por isso eram partidas diariamente. Eu era o bonequinho deles. Acordava com champô ou pasta de dentes no cabelo, ou na cara. Eu era muito arrumadinho, punha a minha roupa para o dia seguinte e eles tiravam a roupa, escondiam a chave do armário e eu não tinha roupa. Esse tipo de coisas. Mas foi bom porque começámos a ganhar confiança uns com os outros e também crescemos muito.

Rui com o pai à sua direita, a festejar uma vitória do FC Porto
Rui com o pai à sua direita, a festejar uma vitória do FC Porto
D.R.

Fez toda a formação no FC Porto. Que memórias mais fortes tem até chegar a júnior?
As memórias que tenho são dos torneios. Na Páscoa e no final do ano tínhamos sempre muitos torneios em que jogávamos contra o Real Madrid, Barcelona, Benfica, Sporting, e era engraçado podermos competir e muitas vezes vencer essas equipas, porque são as melhores equipas do mundo. Lembro-me de irmos para os torneios a cantar músicas do FC Porto. Tivemos a oportunidade de ir ao Catar, que na altura era algo completamente diferente para nós, fui à Malásia, fui a muitos países com o FC Porto na formação, foram experiências muito boas que são as maiores recordações, assim como as amizades que fiz e que são ainda as que ainda tenho hoje. Recordo-me do meu 1.º ano de júnior em que fomos campeões nacionais. No segundo ano já fui para a equipa B.

Quando assinou o primeiro contrato e quanto dinheiro ganhava?
O meu primeiro contrato assinei-o nos sub-15, se não estou em erro, já não me lembro se foi um contrato de dois ou um ano, e recebia 500 euros.

O que fez com o primeiro ordenado?
Sempre fui muito certinho, nunca cometi muitas loucuras. Acho que não fiz nada de especial, já não me recordo.

Aos 11 anos, Rui começou no FC Porto
Aos 11 anos, Rui começou no FC Porto
D.R.

Quando começaram as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios?
A minha esposa foi a única namorada séria que tive, apesar de ter tido outras antes. Conhecemo-nos com 18 anos, através de amigos em comum. Ela estudava Ciências da Comunicação e Marketing, em Londres, estivemos dois anos a namorar à distância. Quando acabou a faculdade, voltou para Portugal e aí já estivemos juntos. As primeiras saídas à noite também aconteceram tarde porque na Casa do Dragão não tínhamos muita liberdade. Acho que a primeira ida a uma discoteca foi com 17 anos, por aí.

Saía com os amigos do futebol ou da escola?
Com o pessoal do futebol, vivíamos numa bolha, porque o pessoal da escola era maioritariamente do futebol, só havia duas, três pessoas que não eram da Casa do Dragão ou não jogavam no FC Porto porque tínhamos horários muito específicos. Tínhamos uma aula às oito ou oito e meia da manhã, depois íamos diretos para o treino e só voltávamos a ter aulas depois do almoço. Era um horário muito específico que quase ninguém tinha, por isso a turma era basicamente só jogadores.

Diz-se que no Porto a pressão dos adeptos é muito grande, sobretudo nas saídas à noite dos jogadores. Alguma vez sentiu isso?
É assim, nós íamos sair à noite e o segurança que estava à porta era o mesmo que também estava no Olival, porque era tudo da mesma empresa. Mas eles facilitavam. Por exemplo, nós gostávamos muito de sair na Queima das Fitas, às vezes tínhamos jogos e íamos sair na mesma. Íamos todos encapuçados e com óculos para ninguém saber quem éramos [risos]. Mas sim, no Porto, se és jogador, sobretudo da equipa principal, e pisas qualquer discoteca, no dia seguinte toda a gente sabe.

O jovem médio com Pinto da Costa, falecido presidente do FC Porto
O jovem médio com Pinto da Costa, falecido presidente do FC Porto
D.R.

Quando sentiu pela primeira vez que ia conseguir fazer do futebol o seu futuro profissional?
Desde pequeno que queria ser jogador, porque era bom com a bola. Quando estava no Mirandela, era um jogador que fintava todos, gostava muito de dar assistências, fazia muitos golos, basicamente, era avançado. Depois cheguei ao FC Porto e pensei: "O que é isto? O que vim para aqui fazer?". Porque eles eram muito melhores que eu, já não conseguia fintar tudo e todos, já não tinha essas aptidões, nem sabia bem qual era a minha posição. Meteram-me como médio e tive a sorte de ser sempre opção, fui jogando sempre, fui capitão em todos os escalões, era um jogador muito respeitado por toda a gente. Mas acho que o momento em que após o 1.º ano de júnior subi logo para a equipa B foi decisivo. Na passagem de sub-17 para juniores a maioria dos meus colegas foi dispensada, porque eles tinham de encurtar o plantel e ter ficado foi um momento muito importante para mim. Depois, claro, a partir também do momento que assino o meu primeiro contrato profissional, com 18 anos.

Nessa altura qual era a sua maior ambição, como se projetava no futuro?
Como eu disse, estamos numa bolha e nem temos noção do que é o futebol exterior, porque estamos numa equipa grande, pensamos que é tudo muito bonito. Na minha cabeça, como acho que na cabeça de 99% dos jogadores o sonho é conseguir chegar à primeira equipa. Eles incutem-nos de tal maneira a vontade de ganhar, de odiar perder, temos tanto isso na nossa cabeça, que a nossa ideia é mesmo só conseguir chegar à equipa A. E esse era o meu sonho também na altura.

Essa fome de vencer e o odiar perder que lhe foi incutido faz a mística do FC Porto?
Completamente. Em todas as paredes do clube, desde que entras até saíres, tens frases de vencer, de odiar perder. Isso foi-me incutido desde muito miúdo e essa é a mística que realmente mostra o que é ser FC Porto.

Rui Pires (à esquerda) com os colega do FC Porto, Diogo Queirós, Oleg e Xavi
Rui Pires (à esquerda) com os colega do FC Porto, Diogo Queirós, Oleg e Xavi
D.R.

Quem o puxou para a equipa B do FC Porto, em 2016/17?
Foi o mister Luís Castro. Foi ele que me estreou como sénior na II Liga, ainda me lembro do jogo, na Vila das Aves, era o primeiro jogo do campeonato. Eles tinham sido campeões no ano anterior. Tive a sorte do Tomás Podstawski estar na seleção ou lesionado, já não me lembro, então subi. As coisas acabaram por correr muito bem e o mister gostava de mim, acabei por ficar esse ano todo na equipa B.

É nessa altura que é chamado também à seleção pela primeira vez?
Já tinha sido chamado antes, mas apenas para estágios. Nos sub-17 tivemos a ronda da elite, a qualificação para o Europeu, e fomos 22 jogadores, ou algo parecido, para estágio de cinco ou seis dias, só que eles convocavam sempre dois a mais, caso acontecesse alguma lesão. No final do estágio eles diziam quem eram os dois jogadores que tinham de ir embora. Lembro-me de uma palestra no meio do campo, do mister Filipe Ramos, em que ele dizia que tinha de tomar essas decisões, e acabou por dizer que um dos que tinha de ir embora era eu. Custou-me mesmo muito, fui o caminho todo até ao hotel a chorar. Tinha 16 anos. No ano seguinte, estreei-me nos sub-18 e a partir daí comecei a ir e cheguei a ser capitão da seleção, nos anos seguintes.

De que forma é que o treinador Luís Castro foi importante, ou não, na sua carreira?
Foi mesmo muito importante. Há um gap muito grande entre os juniores e a equipa B muito grande, em termos de intensidade. Já estamos com jogadores mais velhos e isso era o que eu sentia, mais intensidade. A forma como o mister Luís Castro ensinava aos jogadores taticamente, a forma como tínhamos de estar concentrados diariamente no treino, a maneira de passar a bola, de nunca facilitar, nunca estar um segundo desligado do jogo, foi muito importante, foi com ele que aprendi mais. Estar ali no meio deles fez-me crescer bastante, por isso foi mesmo uma peça fundamental para a minha evolução nos primeiros meses.

O médio uma das Premier League Internacional Cup, que venceu duas vezes com o FC Porto, em 2016/17 e 2017/18
O médio uma das Premier League Internacional Cup, que venceu duas vezes com o FC Porto, em 2016/17 e 2017/18
D.R.

Chegou a ser chamado para treinar com a equipa principal de Nuno Espírito Santo?
Sim. Fui pela primeira vez nesse ano. Ainda me lembro do meu primeiro treino. Eles escreveram uma mensagem no nosso grupo de WhatsApp a dizer: "Amanha vais treinar com a equipa A, tens que estar às x horas...", como se fosse uma coisa normal. Quando vi aquilo nem queria acreditar, fiquei logo todo nervoso. Estávamos na pré-época e o mister só precisava de dois jogadores para fazer de apoio, era uma coisa super simples, no treino da tarde. Foi eu e outro jogador e lembro-me que estava super nervoso, mas muito concentrado em todos os lances, em cada passe que fazia, não queria falhar e que ninguém dissesse nada.

Houve algum jogador que tenha sido mais amistoso com vocês?
Eu já conhecia o Rúben Neves. Quando chegámos, por acaso, eles estavam a descansar nas camas e eu fui logo parar à cama dele, sem querer [risos]. Até foi bom porque ele só disse: "Ó miúdo, sai daí", naquela forma de brincar. Mas, na verdade, as pessoas pensam que os jogadores das equipas grandes têm mania, mas são pessoas super tranquilas, iguais a todos os jogadores, foi sempre muito tranquilo ir lá e era uma felicidade enorme. O próprio mister também nos deixava relaxados, tentavam pôr-nos o mais à vontade possível.

Quem foi o jogador que mais o surpreendeu quando treinou com a equipa A?
Há vários jogadores que me surpreenderam muito. O Brahimi foi talvez o que me surpreendeu mais pela capacidade técnica, era muito difícil tirar-lhe a bola.

Os treinos eram muito diferentes dos da equipa B?
A forma dos treinos era muito idêntica. A maior diferença era a intensidade, se já tinha sentido de júnior para a equipa B, então para a equipa principal... A forma como iam aos duelos, como interpretavam cada lance, a rapidez do jogo, era nisso que sentia haver mais diferença.

Rui Pires durante um jogo da seleção Sub 19
Rui Pires durante um jogo da seleção Sub 19
D.R.

Luís Castro saiu a meio do seu primeiro ano na equipa B e veio Folha, um ex-jogador do FC Porto. Muito diferente?
Ele já tinha estado comigo vários anos na formação, fui campeão de júnior com ele. A diferença maior era mais na forma como falavam, a sua personalidade, o mister António Folha sempre mais brincalhão e o mister Luís Castro tinha a sua maneira de estar mais calma, mas também sabia fazer as suas brincadeiras, achava-os muito idênticos.

Na equipa principal, entretanto, Sérgio Conceição assumiu a liderança. Chegou a treinar com ele?
Sim, também cheguei a fazer vários treinos com ele. Com o mister Sérgio era uma intensidade muito, muito grande mesmo, não deixava ninguém parar a meio do treino, vias toda a gente a andar, por isso também tinhas de andar [risos].

No final do segundo ano na equipa B sentia-se preparado para subir à equipa A?
Tive sempre aquela esperança de ser chamado, mas a verdade é que tive sempre jogadores de alto nível na minha posição, então sabia que era difícil. Acho que foi isso também que me fez sair. Eu podia ter continuado mais dois/três anos na equipa B, era capitão, estava ambientado, e esperar pela minha oportunidade. Mas preferi sair porque vi que a oportunidade não estava a chegar e já estava demasiado relaxado na equipa B, queria mudar para um nível competitivo melhor.

Tinha empresário?
Sim, desde os 14 anos. Estive sempre com o Pedro Pinho.

Rui antes da final do Euro Sub19, que Portugal disputou com aInglaterra. O médio era o capitão da seleção
Rui antes da final do Euro Sub19, que Portugal disputou com aInglaterra. O médio era o capitão da seleção
D.R.

Teve de deixar a Casa do Dragão quando e com quem foi viver depois?
Saí com 18 anos. Junto do Estádio do Dragão há uns T0, onde viviam muitos jogadores. A minha irmã estava na faculdade e conseguimos os dois ir viver para lá. Alugamos um duplex, então tive a sorte de viver com a minha irmã nesses anos seguintes, o que também foi uma grande ajuda para mim, porque não estava sozinho.

Quando percebeu que não ia subir à equipa principal?
Estive no Europeu sub-19, em 2017, que perdemos na final, contra a Inglaterra. Eu era capitão de equipa, joguei o Europeu todo, estive muito bem, na altura até tive uma proposta da equipa B do Barcelona. Claro que queria sair, porque apesar de ser equipa B, era uma montra gigante. Mas o FC Porto não quis, porque eu poderia ainda ser opção para a equipa principal. Recebi algumas propostas, já tinha feito a Youth League, mas a verdade é que nem fiz a pré-época com o FC Porto. Havia o Rúben Neves, depois o Danilo, jogadores muito bons jogadores, que eu sabia estarem num nível acima. Claro que gostava muito de ter tido a minha oportunidade, não foi possível, mas também não guardo mágoa porque o FC Porto deu-me tudo o que tenho hoje.

Ronaldo Fenómeno, com Rui Pires na seleção de Sub 19
Ronaldo Fenómeno, com Rui Pires na seleção de Sub 19
D.R.

Ainda tinha contrato com o FC Porto quando decidiu aceitar a proposta do Troyes, da França?
Sim, na altura tinha assinado cinco anos no FC Porto, tinha ainda bastantes anos, mas o Troyes apresentou-me um projeto muito bom, o diretor-desportivo era português, já me andavam a acompanhar há muito tempo. E eu tinha propostas da I Liga portuguesa também.

De onde?
Do Paços de Ferreira, para onde acabei por ir uns anos depois. Mas quis tentar a minha sorte em França. Tive o azar de, passados dois meses, lesionar-me no joelho, tive uma rotura de ligamentos.

Antes de passarmos a França, deve ter muitas histórias para contar dos anos 10 anos que passou no FC Porto?
Uma delas era a praxe quando chegavas à equipa B. Penso que já não existe, mas era engraçado. Quando chegávamos à equipa B tínhamos de rapar o cabelo à máquina zero. Fomos de estágio para Valência e durante toda a semana os mais velhos passavam por nós e faziam "bzzz". Desde sempre que tinha o cabelo muito comprido e quando me disseram que iam rapar o cabelo, só me apetecia chorar. Nunca tinha rapado o cabelo na minha vida e andavam a semana toda com brincadeiras "bzz, bzz" sempre que passavam por nós. Até que um dia entraram no meu quarto todos a cantar, nem falei, só me sentei à frente do espelho da casa de banho. Começaram a rapar-me o cabelo e as lágrimas começaram a cair, eu tentava rir ao mesmo tempo. Eles todos a cantar [risos]. Depois andávamos ali 10 ou 12 jogadores que parecíamos uns maluquinhos, todos com o cabelo rapado e a cabeça branca, branca, branca [risos]. Não tem piada nenhuma para quem está a passar por isso, mas acabamos por fazer aos mais novos a seguir.

 

Spoiler

“Tive um colega, jogador da seleção de Singapura, que passou 15 dias preso, sozinho, só com um livro, porque faltou ao serviço militar”

Rui Pires renovou com os Lion City Sailors, campeões de Singapura, e confessa estar a viver um momento muito feliz a nível pessoal e profissional. O médio, que passou pelo Troyes da França e o Paços de Ferreira, fala sobre essas épocas conturbadas, da lesão no joelho e revela também algumas das partidas incontáveis que faziam no clube da capital do móvel. Explica porque quis continuar na Ásia e desvenda que o futuro pode passar pelo imobiliário

Em 2019/20, aos 21 anos, deixou o FC Porto para jogar no Troyes, de França. O seu francês era bom?
Nada. Só inglês. Mas consigo adaptar-me muito rápido. Meti-me logo a ter aulas com a minha namorada, que tinha acabado a faculdade e foi comigo, e em dois meses estava a falar francês praticamente fluente, já conseguia dar entrevistas e tudo.

Como era a realidade do clube? Muito diferente do que tinha imaginado?
Já tinha falado com o diretor-desportivo, o Luís Sousa, mas não conhecia nenhum jogador. Acabei por ficar muito amigo do Kiki Kouyaté, que tinha jogado no Sporting, ele falava português. Era um clube que andava sempre no sobe e desce e o grande objetivo era subirmos. Fui para lá com o intuito de subir, não passava outra coisa na nossa cabeça. Claro que financeiramente também era muito melhor que as propostas que tinha, mesmo sendo II Liga. Lá fora consegue-se sempre ganhar muito mais dinheiro que em Portugal.

Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no FC Porto B?
Três vezes mais.

Em 2019/20 Rui Pires foi jogar para o Troyes da França
Em 2019/20 Rui Pires foi jogar para o Troyes da França
D.R.

Que tal a II Liga francesa?
Gostei muito porque também tinha um treinador que potenciava o lado técnico-tático. Na II Liga muitas equipas jogam muito com o físico, têm muitos jogadores africanos, então há muitas equipas que não tentam jogar um bom futebol, mas eu tive sorte que o meu treinador potenciou muito a técnica, a qualidade de jogo, isso beneficiava-me. Entretanto, lesionei-me no joelho e depois veio a covid-19 e o nosso foi o único campeonato que não retomou. Faltavam 10 jogos, estávamos em 3.º lugar, a um ou dois pontos da subida. Foi muito azar porque não fizemos esses 10 jogos e as equipas que estavam em 1.º e em 2.º subiram direto e nem nos deixaram ir ao play-off.

Como contraiu a lesão no joelho?
Faltavam cinco minutos para acabar o jogo e num duelo com um jogador o meu joelho ficou preso e rodou. Senti logo um estalo. Fizemos três horas de viagem de autocarro, tive sempre o joelho com gelo, mas quando chegámos a Troyes já não conseguia pousar o pé no chão, estava com muitas dores. A ressonância magnética confirmou a rotura.

Fez a cirurgia e recuperação em França?
Não, fui operado pelo Dr. Noronha e fiz a recuperação toda em Portugal. Pedi autorização para vir. Tenho de agradecer também ao fisioterapeuta Tiago, porque me apoiou muito, mesmo em tempos de covid-19. O Tiago tem uma clínica em Leça e fui lá todos os dias. Ele vinha de propósito tratar-me, são coisas que não se esquecem, porque esses momentos foram muito difíceis para mim.

Na França, Rui lesionou-se num joelho e teve de ser operado. Na foto com a mulher, Inês
Na França, Rui lesionou-se num joelho e teve de ser operado. Na foto com a mulher, Inês
D.R.

O que achou dos franceses?
Primeiro, eu tinha a ideia que os franceses eram muito antipáticos, mas Troyes não é uma cidade muito grande, as pessoas eram super simpáticas, muito acolhedoras, ajudavam-me tudo o que precisava, era um clube muito familiar. Quando ia a Paris, já notava um bocadinho mais de arrogância. Por exemplo, comparativamente com Portugal não há aquele espírito de equipa que temos, de fazer almoços e jantares, as pessoas são muito mais fechadas. Estou a falar em termos de jogadores. Há muito jogador africano em França.

A sua namorada trabalhava?
Na altura ela criou uma marca de joias que ainda durou dois anos, mas viu que não era isso que queria da vida e começou a trabalhar para uma empresa portuguesa, a partir de casa.

Na época e meia que esteve no Troyes sentiu que evoluiu técnica e taticamente ou que não acrescentou muito mais ao que tinha aprendido no FC Porto?
Evoluí muito porque eu era muito magrinho e quando tive a minha lesão evoluí fisicamente. Estava tudo parado devido à covid-19, mas meti na cabeça que tinha de ganhar alguns quilos de massa muscular então todos os dias ia ao ginásio. Treinava de manhã a parte do joelho e depois fazia ginásio. Sinto que esse tempo de paragem da lesão, que foram oito meses, acabou por fazer bem a outras coisas. Ficamos mais fortes psicologicamente e melhoramos em vários aspetos, senti mesmo que foi bom para mim.

O médio foi campeão da Liga 2 francesa com o Troyes
O médio foi campeão da Liga 2 francesa com o Troyes
D.R.

Recorda-se do primeiro jogo pós-lesão? Teve receio de lesionar-se novamente?
Lembro-me até mais do primeiro treino. Estava com muito, muito medo mesmo. Eu nem me chegava perto de ninguém. Estava a fazer um exercício de passes, só queria ficar no meu cantinho longe e que ninguém me viesse tocar. Tinha muito medo de ir aos duelos, por mais que já estivesse preparado. Mas é um bloqueio mental que tu tens de vencer.

Como é que desbloqueou?
É com o tempo. Ainda agora tive aqui um colega que esteve lesionado e eu sei o quão sofremos durante esses meses, o quão difícil é. É muito trabalho de ginásio, é cansativo, tens melhoras, mas há alturas que tens recaídas, com muitas dores, é muita repetição do mesmo, são muito chatos os primeiros meses. Disse-lhe que os primeiros treinos tinham de ser com calma, mas que ia ganhando confiança com o passar dos treinos e das semanas.

O Troyes foi campeão em 2020/21 e subiu à I Liga, mas não continuou lá. Porquê?
Eu tinha mais um ano de contrato com eles, mas o clube a meio da época foi comprado pelo City Group. Saiu o diretor-desportivo português que me tinha levado, ainda fiz a pré-época, só que eu tinha na cabeça que como no ano anterior em que fomos campeões não fui sempre a opção inicial, queria jogar e sabia que se ficasse na I Liga, muito provavelmente não ia ter um ano inteiro a jogar, que era o que eu precisava depois da minha lesão. Sendo o último ano de contrato, se eu não jogasse e não tivesse os minutos para voltar ao que sou, para me sentir bem outra vez, ia ser complicado. Expliquei-lhes isto mesmo, eles entenderam e fui emprestado ao Paços de Ferreira.

Só teve o interesse do Paços de Ferreira?
Não. Tive o interesse de algumas equipas do estrangeiro, uma equipa da Croácia, o HNK Rijeka, que me queria muito, outra da Série B da Itália, agora já não me recordo qual, uma equipa da II Liga espanhola também. Financeiramente ficava bem, porque ainda tinha o contrato de França, por isso quis voltar para Portugal, porque ainda não tinha feito I Liga.

Rui Pires (de costas) a festejar com os adeptos do Troyes a subida à I Liga francesa
Rui Pires (de costas) a festejar com os adeptos do Troyes a subida à I Liga francesa
D.R.

Como foi a estreia na I Liga?
Foi muito bom. Tínhamos um grupo muito bom. Já não estava habituado a ter o ambiente que temos em Portugal, onde há muito mais convívios. Foi uma lufada de ar fresco para mim, embora em França o grupo também fosse bom, porque quando as coisas correm bem parece que é tudo perfeito. Mas claro que estar no Paços e poder estar no Porto, que já considero casa, é diferente. Lembro que o meu primeiro jogo com o Paços foi para a Taça da Liga, contra o Gil Vicente.

Gostou do treinador Jorge Simão?
Sim, gostei, enquanto pessoa também. Mas claro que as coisas quando não correm bem no futebol, não se pode mudar os 20 jogadores, é sempre o treinador o sacrificado. Depois veio o mister César Peixoto, com ideias muito mais de um treinador jovem.

O que isso quer dizer? Consegue explicar melhor?
Por exemplo, há treinadores que gostam de um futebol mais físico, de um futebol mais longo, outros que gostam de sair a jogar, outros não gostam de sair a jogar. Vai de treinador para treinador. Acho que o mister César Peixoto é um treinador que gosta de ter muita posse nas suas equipas e o mister Jorge Simão gosta de um futebol mais direto, mais rápido, com transições. As duas estão certas, por isso depois vai de jogador para jogador, de treinador para treinador, o que preferem, mas acho que as grandes diferenças eram essas.

Pessoalmente que abordagem prefere?
Fui muito habituado no FC Porto a jogar sempre com posse de bola e a controlar o jogo. Isso é o que gosto de ter na minha equipa, é o futebol a que gosto mais de assistir e de jogar.

Como resume a sua primeira época no Paços de Ferreira?
Tivemos a Conference League logo no início, que também foi um ponto a favor para eu ir para o Paços. Ganhámos ao Tottenham, em casa. Tive a oportunidade de jogar no estádio do Tottenham, cujo treinador até era o mister Nuno Espírito Santo. Foi uma experiência incrível jogar naquele estádio contra jogadores tão bons. Conheci a I Liga portuguesa, uma vez que só tinha jogado na II Liga, pelo FC Porto B.

E as diferenças são muito grandes?
Sim, os jogadores têm mais qualidade, o jogo é um bocadinho mais rápido, não tão físico, a bola anda muito mais rápida, mas também há muito espaço.

Deixou de ser o menino que sonhava chegar à equipa principal do FC Porto, que já tinha jogado em França e estava de regresso a Portugal, à I Liga. Em que se tornaram os seus sonhos e ambições?
Sabia que era muito difícil voltar ao FC Porto, apesar deles ainda terem uma percentagem do meu passe quando fui para França e poderia regressar, caso eles entendessem, porque fazem isso com a maior parte dos jogadores. Quando regressei ao Paços sabia que era difícil. Mas, se reparar, qualquer jovem que joga na I Liga em Portugal consegue ter mercado fora. O objetivo de quase todos é chegar a um dos grandes, ou ir para fora, para tentar resolver a sua vida o mais rapidamente possível, financeiramente.

Era isso que já lhe começava a passar pela cabeça?
Sim. Sobretudo depois da lesão que tive, que psicologicamente mexe muito connosco. Pensamos em tudo. Por acaso tive sorte, tive a lesão e tinha contrato, mas vamos pôr o cenário de eu estar lesionado e não ter contrato com nenhuma equipa. Depois não é fácil uma equipa pegar em nós, sem jogarmos praticamente há um ano. E o futebol é um mundo muito imprevisível, hoje estás bem, amanhã és o pior do mundo, fazes um jogo bom e a seguir fazes um jogo mau, a tua vida pode mudar muito rapidamente. Sempre fui um jogador muito trabalhador, muito respeitador. Tinha na cabeça ir para Portugal tentar fazer o máximo de jogos possíveis e depois certamente chegariam oportunidades boas para mim.

O que aconteceu no final da primeira época no Paços de Ferreira?
O mister César Peixoto veio, eu tinha o Stephen Eustáquio na minha posição na primeira metade da época, então jogava, não jogava, e quando o Stephen sai para o FC Porto, joguei praticamente sempre e foi muito bom para mim porque consegui ter os minutos todos. Mas a segunda época foi muito, muito complicada.

Houve muitas mudanças e inclusive o César Peixoto saiu e voltou a entrar no clube na mesma época.
Sim. Começamos muito mal a época, depois veio o mister José Mota, mas também não correu bem, não conseguimos ter resultados e voltou o mister Peixoto.

De que forma é que tantas trocas de treinadores mexem com a cabeça dos jogadores e com uma equipa?
Quando vem um treinador novo, para os jogadores que não jogam muito é uma lufada de ar fresco. Ganhas uma nova esperança, tens outra vez de lutar pelo teu lugar, é outra vez uma correria, começa tudo do zero. Esse também é o objetivo dos clubes, porque os jogadores que já estão meio desmotivados ganham uma motivação extra para se mostrarem ao treinador. Mas infelizmente dessa vez não correu bem, não conseguimos obter resultados. O grupo acolheu bem o regresso do mister César Peixoto, mas claro que foi estranho estar de volta outra vez na mesma época, acho que nunca tinha acontecido em Portugal. Com o regresso do mister conseguimos fazer muitos pontos, mas já não fomos a tempo.

José Mota é um treinador também muito diferente de César Peixoto?
O mister José Mota também é cinco estrelas, muito próximo dos jogadores, uma pessoa com muitas histórias para contar, super experiente, correu muitas equipas, já teve muito sucesso em Portugal, mas também um treinador mais objetivo. Tinham maneiras diferentes de jogar.

O médio com os pais
O médio com os pais
D.R.

Que momentos ou histórias marcantes tem para contar do Paços de Ferreira?
No Paços tínhamos muitos convívios, almoços que às vezes só acabavam à meia-noite. Tenho muitas histórias. Tive colegas, cujos nomes não posso dizer, que faziam muitas partidas, algumas não são coisas muito agradáveis, como fazer necessidades para um frasco de champô e tu pegas, metes no teu cabelo sem saber o que lá está. Escondiam as chaves do carro e quando chegavas ao carro estava um cheiro horrível, tu sem saber o que é, e havia fezes de pessoas escondidas no carro. Ou chegares ao estacionamento e o teu carro não está lá porque pegam no teu carro, levam embora e não te dizem onde está, andas a tarde toda à procura. Havia muitas brincadeiras, gostei muito de estar lá porque tínhamos um grupo bom e fiz várias amizades.

Quando o Paços desceu ainda tinha contrato com o clube?
Ainda tinha mais um ano, mas eu não queria ficar e o meu salário também não era muito compatível com a II Liga, por isso chegamos a um acordo.

Teve outras propostas além da do Lion City Sailors, de Singapura?
Tinha na cabeça que queria sair. Se me perguntassem para onde, não tinha um sítio em concreto na cabeça. Mas queria sair. Tive várias equipas interessadas da Turquia, também tive algumas pessoas a dizer que podia ir para o Catar, para a Arábia, mas não tinha nenhuma proposta 100% certa. Também era muito cedo no mercado quando apareceu o Lion City. O mercado em Singapura fechava mais cedo, eu vinha a meio da época para eles. Eu tinha de dizer se queria ou não, tive de tomar uma decisão rápida.

Preferiu jogar pelo seguro?
Sim, falei com a minha família e a minha esposa, decidimos jogar pelo seguro e não perder a oportunidade que era muito boa. Assinei dois anos.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Quase quatro vezes mais.

Em 2022/23, Rui Pires (à esquerda) assinou pelos Lion City Sailors, de Singapura
Em 2022/23, Rui Pires (à esquerda) assinou pelos Lion City Sailors, de Singapura
D.R.

Já conhecia Singapura?
Não. Quando chegou a proposta, comecei a tentar falar com jogadores que estão aqui, na altura havia os brasileiros Diego Lopes e o Pedro Henrique, que tinham jogado no Rio Ave e no V. Guimarães. Só me falaram maravilhas da cidade, do país e do clube. Fui surpreendido pelas instalações espetaculares do clube, ao nível das equipas grandes portuguesas. Gostei do projeto que me apresentaram, cheio de ambição. Fui habituado desde sempre a jogar numa equipa que queria ganhar títulos, que controla o jogo, tem a posse de bola e foi isso que encontrei aqui. Depois do ano complicado que tinha passado, porque não estávamos bem na tabela e psicologicamente não foi fácil para todos os jogadores do Paços, tinha metido na cabeça que queria jogar numa equipa que lutasse por títulos, por ser campeão.

O Lion City Sailors é uma espécie de "oásis" em Singapura, as outras equipas não têm as mesmas condições, nem a mesma qualidade. Ou têm?
Não tem qualquer comparação, porque esta é a única equipa que é privatizada. Temos o nosso dono que mete muito, muito dinheiro aqui, porque tem objetivos internacionalmente. E, sim, nós estamos num patamar completamente diferente das outras equipas em tudo, de estrutura, de instalações. Esse foi um dos fatores que fez com que eu quisesse vir para aqui. E, obviamente, que financeiramente também consegui resolver a minha vida. Ganhei bastante dinheiro nestes últimos dois anos.

Como foi o primeiro contacto com o campeonato?
Quando cheguei as datas eram diferentes, a época era de janeiro a dezembro, eu cheguei no final de julho e só podia ser inscrito para a AFC Champions League Two - que não é a Champions Elite é como se fosse a Liga Europa aqui-, porque faltavam sete ou oito jogos para acabar a época. Aqui havia limite de vagas de estrangeiros, e ainda há, mas já aumentaram, quando cheguei só podiam jogar três estrangeiros, por isso também o quão difícil era vir para aqui. Este ano são sete, mas no ano passado eram cinco. Quanto mais estrangeiros, melhor fica a liga e é bom para o jogo.

Em 2023, o médio português conquistou a sua primeira Taça de Singapura
Em 2023, o médio português conquistou a sua primeira Taça de Singapura
D.R.

Os jogadores locais reagem bem à vinda e aumento de estrangeiros?
Acho que sim porque acabam por perceber que vimos acrescentar, somos muito profissionais no dia a dia, estamos habituados na Europa a trabalhar de outra forma, a ter outra performance, cumprimos com tudo. No campo eles conseguem perceber, por isso não há aquele sentimento de separação. Encontrei pessoas muito boas. Temos um grupo espetacular, todos os jogadores são cinco estrelas.

Mas como foi o primeiro embate com o futebol?
Como estava a dizer, eu só podia jogar a Champions 2 no meu primeiro ano. Então, a primeira vez que fui ver um jogo, pensei: "Onde é que eu vim parar". Era um jogo completamente diferente, muito mais aberto do que estamos habituados na Europa, não é organizado. Os jogadores aos 70 minutos estão com cãibras, há jogadores que além do futebol, têm um trabalho extra. Foi um bocadinho aquele choque inicial. Recordo, por exemplo, o meu primeiro jogo na Champions 2, aos 30 e tal minutos estava completamente cheio de transições, era a nossa linha defensiva, mais os médios e depois os nossos atacantes na frente. Nós atacávamos, os outros atacavam. Isto aos 30 e tal minutos. Na Europa é completamente impossível. Quando cheguei era muito complicado lá dentro conseguir organizar o jogo, mas o nosso clube está muito mais organizado, temos estrutura técnica, treinadores e fisioterapeutas europeus. Desde que estou aqui que as coisas correram muito bem.

O que foi mais difícil implementar tendo em conta a cultura deles?
Nós temos muito a ideia de trabalhar no ginásio, de comer bem, fazer o descanso, fazer as coisas todas corretamente. Eles não foram habituados a isso. Mas a grande diferença é tática. Eles não tiveram a nossa escola e os nossos treinadores portugueses, que são ótimos. Por isso nós vimos acrescentar. Nota-se que os jogadores estão muito melhores, muito mais comprometidos com tudo. Eles próprios dizem-nos: "Se tu não vens acrescentar, não vens para aqui fazer nada". Financeiramente os estrangeiros também têm contratos muito melhores, por isso temos de mostrar tanto dentro como fora de campo que acrescentamos ao clube, à equipa, é esse também o nosso papel como jogadores aqui.

Com a mulher e filha em Singapura
Com a mulher e filha em Singapura
D.R.

Culturalmente, quais foram os maiores contrastes e choques que teve?
Singapura é um pouco diferente do resto da Ásia, porque tenho uma qualidade de vida aqui que muito dificilmente teria em muitos sítios no mundo. Tenho segurança, aqui não há um assalto, não há sem-abrigos, não há pessoas a passar dificuldades, não há drogas, a minha esposa pode andar na rua a qualquer hora do dia ou da noite, ninguém se vai meter com ela, ninguém se atreve a fazer nada. Tendo essa segurança também te dá anos de vida, porque em Portugal estamos muitas vezes preocupados com a segurança, não deixas a tua filha de 10 anos andar sozinha à noite ou a qualquer hora, não é?

Essa segurança é conseguida à conta de um sistema “big brother”, com muita videovigilância nas ruas…
…sim, mas prefiro isso do que haver assaltos, violações, ou mortes. Não me importo de ter videovigilância em todo lado se, por outro lado, tenho essa segurança toda. Eles veem-nos em todo o lado, é verdade, mas é o revés da moeda. Em termos culturais, sinto que não estou muito na Ásia, porque há muitos estrangeiros, há muitos expatriados que vêm para cá trabalhar. Os estrangeiros são obrigados a morar em condomínios, que têm todas as condições, por exemplo, ginásios, piscinas, salas de convívio, barbecues, saunas, etc. Aqui no condomínio acabamos por conhecer mais estrangeiros e é como se fosse uma família. Outra coisa, é que eu aqui ando de transportes públicos.

Vai para os treinos de transportes públicos?
Sim. Só para ter a licença do carro tens de pagar à volta de 70 mil euros ou mais. Por isso nenhum estrangeiro aqui anda de carro.

Na época 2024/25, Rui sagrou-se campeão de Singapura. Na foto com a mulher a filha e o troféu do campeonato
Na época 2024/25, Rui sagrou-se campeão de Singapura. Na foto com a mulher a filha e o troféu do campeonato
D.R.

Não é importunado nos transportes, não o reconhecem?
Eles não são grandes fãs de futebol, não há muita gente nos estádios. Só na época passada, como fizemos uma campanha incrível, é que os estádios começaram a estar cheios. Ando de metro, de autocarro e ninguém me chateia, isso também é uma coisa boa. E estou num clube ao nível de um FC Porto, Benfica ou Sporting, é a melhor equipa do país. Pedem-nos uma foto de vez em quando, mas nada de especial. É verão o ano inteiro, sempre 30 graus, treinamos ao final do dia por causa do calor. E a propósito dos treinos lembrei-me de uma coisa engraçada.

Força.
Aqui há aviso de trovoadas. Por vezes estamos no treino e começa a tocar uma sirene, então temos de sair do campo e esperar meia hora, pelo menos. Às vezes voltamos ao campo, e passado dois, três ou cinco minutos, volta a acontecer. Já me aconteceu num jogo também, ter de sair do campo, esperar a meia hora de segurança, para depois voltar.

Tem havido mais mudanças no campeonato além da utilização do número de estrangeiros?
Este ano só vão ser oito equipas na Liga, com três rondas. O ano passado eram nove equipas com quatro rondas, o que é complicado porque, por exemplo, no ano passado joguei com uma equipa seis vezes, porque nos encontrámos também na taça.

Os estádios são bons?
São todos do Governo. Singapura é um país muito pequenino, não há muito espaço para construção e o futebol não é dos principais desportos onde querem gastar dinheiro, por isso, há quatro estádios, e cada duas equipas partilha um estádio, porque são todas do Governo. Um relvado e três sintéticos. Jogamos muito em sintéticos, mas este ano vão ser mais relvados, o que é bom.

Com a medalha de campeão de Singapura e a filha Carolina ao colo
Com a medalha de campeão de Singapura e a filha Carolina ao colo
D.R.

Não deve ter sido fácil habituar-se a jogar em sintético.
É o que é. Temos de nos habituar. A bola salta mais, é mais seco, é mais propício a lesões, mas tentas nem pensar nisso. Mas na Champions 2, no ano passado, em casa não perdemos nenhum jogo.

Aliás, o Lion City Sailor foi à final da Champions 2.
Sim, foi algo completamente irreal porque o grande objetivo do clube era passar a fase de grupos, se dissessem ao nosso dono que íamos à final, ninguém acreditaria.

Qual foi o segredo desse sucesso?
Em casa éramos muito fortes. Jogamos em sintético e as equipas, é verdade, passam dificuldades, porque estás habituado ao relvado, a bola anda muito mais rápido, e nós porque já conhecíamos, ficávamos fechadinhos ali atrás, tínhamos as transições. E tivemos também a estrelinha, conto aqui uma história dos quartos de final, em que fomos jogar contra o Hiroshima, no Japão, perdemos 6-1. Aos 60/70 minutos meteram o Valère Germain, que jogou no Marseille muitos anos e estava na Austrália na época anterior. Era o primeiro jogo dele. Passados dois, três dias, começa-se a ouvir que o Germain tinha jogado de forma ilegal. Começam a sair notícias por todo o lado que o jogador na época anterior tinha sido expulso no túnel, quando acabou um jogo, na mesma competição. Supostamente ele não podia jogar, só que não estava no sistema. Confirmou-se e eles atribuíram-nos uma vitória por 3-0.

Como foi a 2ª mão, em casa?
É verdade que eles são muito superiores a nós, porque a liga do Japão é muito superior à nossa, mas conseguimos empatar 1-1. Lá está, em sintético eles tiveram muitas dificuldades. O jogo não foi igual ao da 1.ª mão e nós até merecíamos ter ganho. Ou seja, também tivemos a estrelinha e depois apanhámos o Sidney, nas meias-finais, ganhámos e fomos à final, com o Al Sharjah, uma equipa dos Emirados, que tem jogadores como o Taarabt, o Caio Lucas, que jogou no Benfica.

A final foi na vossa casa, mas desta vez o sintético não ajudou.
Tem história a razão da final ser em Singapura e não foi em sintético. A final da Champions da Elite, que até foi o Al-Ahli que ganhou, era na Arábia, por isso ficou estipulado que a final da Champions 2, seria em Singapura. Mas eles não permitiam jogar a final em sintético. Ter a possibilidade de jogar a final, em casa, seria algo completamente histórico para o clube e para o futebol de Singapura, porque nunca ninguém tinha chegado tão longe. Não ser possível fazer cá seria uma vergonha. Então, numa semana no estádio onde jogávamos, meteram capacidade para 10 mil pessoas, balneários novos, túneis, bancada VIP, mudaram o campo todo, gastaram dois ou três milhões para remodelar o estádio, numa semana. Uma coisa de loucos, mas meteram tudo em condições. Conseguimos ter aqui a final, mas infelizmente perdemos. Claro que o que já tínhamos conseguido durante o ano foi completamente histórico e o clube estava super orgulhoso da campanha que fizemos.

Que mais histórias é que tem para contar de Singapura?
Têm regras diferentes. Não se pode cuspir para o chão, não se pode comercializar pastilhas, não há sequer à venda. Acho que a história disso está ligada a um ministro que uma vez viu ou calcou uma pastilha elástica no chão, não gostou e lembrou-se de proibir, porque não fazia nada bem ao país. Se te apanharem no aeroporto com pastilhas elásticas, não entras. Lembrei-me de uma história relacionada com regras, mas que tem a ver até com o clube.

Vamos lá.
Eles têm o serviço militar obrigatório aos 18 anos se não estou em erro. Depois ficam dois anos no serviço militar, ou seja, na passagem para o futebol sénior perdem muito, porque é uma passagem muito importante e são dois anos em que não jogam. Só podem jogar no segundo ano numa determinada equipa, o Young Lions, que é a equipa do Governo. Todos os miúdos que estão no serviço militar podem jogar ou, por exemplo, só treinar. E há uma história com um colega meu, jogador de seleção, que até é dos melhores jogadores daqui, que já tem mais de 30 anos. Todos os anos depois de terem terminado o serviço militar têm de fazer uma ou duas por ano na Army, só para continuarem ativos, é uma espécie de manutenção dos conhecimentos militares. Eles mandam uma carta e houve um mal entendido entre ele, o clube e o governo. O clube não queria que ele fosse nestas datas, mas o governo não permitiu, então ele não apareceu quando tinha de ir.

O que aconteceu?
Chegou uma carta a dizer que ele tinha de se apresentar na prisão. Ficou 15 dias preso. Um jogador de seleção. 15 dias num quarto, com uma cama e com um livro que é dado por eles. Tinha uma hora por dia para sair, por ter falhado ao serviço militar. Com os estrangeiros aqui são super rigorosos. Se um de nós comete algum crime, está completamente tramado, vais logo mandado embora do país. É bom porque quem cumpre as regras, vive uma qualidade de vida muito grande.

A festejar com colegas do Lion City Sailors o apuramento para a final da AFC Champions League Two
A festejar com colegas do Lion City Sailors o apuramento para a final da AFC Champions League Two
D.R.

Já foi pai?
Sim, a minha filha, a Carolina, nasceu no ano passado. Basicamente, chegámos aqui e descobrimos a gravidez. Eu acho que ela já estava grávida quando chegámos, mas não sabíamos. É engraçado que eu tinha tido uma semana de folga, estávamos em Bali, andávamos de moto para todo o lado, a minha esposa bebia e comia tudo o que queria, e eu por acaso já tinha reparado que ela estava com um bocadinho de barriga, mas estava com medo de dizer alguma coisa [risos]. Quando chegámos, disse-lhe para fazer o teste e ela já estava de três meses.

A Carolina nasceu aí, em Singapura?
Fizemos aqui todo o acompanhamento, mas como cheguei numa fase em que a época estava quase a terminar e eles queriam sincronizar com o calendário europeu, então tivemos três meses de férias, de dezembro até março. A minha filha nasceu dia 2 de março, induzimos o parto para eu poder ficar com ela uns dias antes de regressar. Viajei primeiro e elas viajaram passado 20 dias. Mas queremos voltar a ser pais.

Entretanto, renovou com o Lion City Sailors, certo?
Renovei mais um ano. Estamos muito contentes.

Com a mulher e a filha
Com a mulher e a filha
D.R.

Qual é o seu objetivo agora?
Não gosto muito de falar em objetivos, gosto muito de cá estar. No ano passado tivemos uma época completamente surreal, vivemos um sonho, a vida que nós temos aqui não é real, no sentido em que sabemos que quando acabar e tivermos de regressar a Portugal, vai ser completamente diferente.

Em que aspetos? Pode explicar?
Por exemplo, nos dias de folga consigo viajar pelos países aqui perto. Já viajei pela Ásia toda, consegui ir ao Japão, à Coreia, à Tailândia, à Indonésia, ao Vietname, às Filipinas, China, a muitos países aqui à volta. E as ilhas aqui são maravilhosas, são culturas completamente diferentes e isso para mim também são coisas importantes porque são experiências de vida. Poder juntar o trabalho e ter estas experiências, não é qualquer pessoa que pode e sinto-me mesmo muito feliz por isso.

Tem ambição de jogar em Portugal novamente?
Ainda este ano, não vou dizer de onde, tive uma proposta para voltar à I Liga portuguesa, mas enquanto conseguir estar aqui e financeiramente conseguir ajudar a minha família, vou querer continuar por cá, porque me sinto feliz. Agora, claro, nunca digo não a nada, porque o futebol muda muito rápido. Estamos sempre com as malas às costas porque isto a cada seis meses pode mudar, estamos sempre preparados para novas aventuras.

Qual é o objetivo da equipa para a próxima época?
O ano passado conseguimos ganhar o campeonato, a taça e a supertaça, internamente ganhamos tudo e acho que esse é o principal objetivo da equipa. Depois é competir internacionalmente. Temos duas competições, a Champions e a Shopee Cup, do Sudoeste Asiático, os países mais próximos de nós. Acho que primeiro o objetivo é passar a fase de grupos e depois ver como corre. Sabemos que há equipas muito superiores, mas o ano passado era igual e conseguimos fazer uma época incrível, por isso vamos ver como vai correr este ano.

O médio com os pais, a irmã e a mulher
O médio com os pais, a irmã e a mulher
D.R.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Não.

Já sabe o que quer fazer quando tiver mesmo de pendurar as chuteiras?
Não tenho 100% certo. Gosto muito do ramo imobiliário, é uma coisa que tenho mesmo prazer, gosto de tudo o que envolve construção, compra e venda, arrendamento. Dentro do futebol, hoje, se me perguntarem se quero ser treinador, digo que não, mas daqui a cinco anos, se calhar tenho uma mentalidade diferente. Estou envolvido neste meio desde sempre. Mas acho que daria melhor um diretor-desportivo ou algo assim.

Calculo que onde ganhou mais dinheiro até agora foi em Singapura e que já investiu em imobiliário.

Correto. Tenho vários apartamentos. Também me interesso pelo mundo das ações e aplicações financeiras, mas onde tenho investido mais é sem dúvida no imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Comprei um Rolex.

Tem algum hobby?
Gosto muito de estar na praia, de passear com a família, gosto de ver Fórmula 1.

É um homem de fé, acredita em Deus?
Cada vez mais acredito, mas não sou aquela pessoa de ir à igreja.

O que o tem levado a ser cada vez mais crente?
Fases da vida, também o ter uma filha e pedir que as coisas corram bem no futebol.

Rui Pires com a mulher e a filha Carolina
Rui Pires com a mulher e a filha Carolina
D.R.

Superstições tem ou teve?
Tenho duas medalhas, uma foi a minha mãe que me deu, a outra foi a a minha esposa que me ofereceu com uma foto dos três, por isso normalmente vejo sempre essas medalhas e tenho as fotos da minha família nas caneleiras.

Tem tatuagens?
Não.

Acompanha ou pratica outras modalidades?
Acompanho a Fórmula 1, mas não pratico mais nada a não ser futebol.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não diria frustração, mas o que eu sempre sonhei era jogar na equipa principal do FC Porto. Não uma frustração, mas um sonho que ficou por realizar. Nem guardo mágoa.

E o maior arrependimento?
Acho que não tenho nenhum.

O momento mais feliz na carreira até hoje?
Tive vários. Ter sido convocado para o Europeu Sub-19, chegar a uma final de uma Champions League 2. Quando soube em Sidney, na Austrália, que iríamos disputar a final, foi o momento mais feliz, porque sabíamos o quão difícil era e esse sentimento foi mesmo de alegria. A minha esposa estava lá com a minha filha, por isso foi mesmo um sentimento muito bom.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde um dia gostaria de ter jogado?
Real Madrid.

Tem ou teve alguma alcunha?
Não.

Quem são as maiores amizades que fez no futebol?
Tenho várias. O Rui Pedro, o João Tavares, o Bruno Pereira e o Oleg são os mais chegados.

Há alguma regra do futebol que pudesse, alterava ou bania?
Acabava com o VAR. Sei que ajudou muito, mas também fez com que se perdesse muito a essência do que é o futebol. O facto de marcar-se um golo e haver aquela dúvida sem saber se se pode festejar ou não... Sei que não é 100% correto, mas ficava mais a essência do futebol como era antigamente.

Qual o objetivo que está por cumprir?
O meu grande objetivo na altura era jogar pela equipa principal do FC Porto. Depois de não o ter alcançado, hoje não tenho um objetivo onde quero jogar, ou não. Mas o meu objetivo é jogar o mais tempo possível, para também conseguir continuar a dar tudo de bom à minha família, que esse é o meu grande objetivo.

Se não tivesse sido jogador, o que é que acha que teria sido na vida?
É uma boa questão. Eu era muito bom aluno, alguma coisa ligada a finanças ou engenharia, provavelmente iria tentar alguma engenharia.

Qual a pergunta que não lhe fiz e gostava que tivesse feito?
Quais as pessoas por quem tenho mais admiração. São os meus pais e a minha irmã também. Apoiaram-me desde miúdo. Contei aqui algumas coisas, mas foi uma caminhada muito difícil e só o facto de ter conseguido chegar a profissional de futebol já é um orgulho enorme.

 

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Paredão

Spoiler

“Fui obrigado a ir para o Alverca porque o meu empresário, o Manuel Barbosa, não se entendia com o Benfica”

Emerson Thome, de 53 anos, ficou conhecido por Paredão quando foi jogador de futebol e conta no Casa às Costas como surgiu a alcunha e chegou a Portugal, aos 20 anos, para jogar na Académica, onde foi chamado “puto” e não gostou, por ter outro significado no Brasil. Nesta Parte I fala ainda do Tirsense e da passagem pelo Benfica, que ficou marcada por uma saída conturbada, que não gosta de recordar

É natural de Porto Alegre, no Brasil. O que faziam os seus pais quando nasceu?
O meu pai era eletricista e a minha mãe tinha um pequeno salão de beleza nos fundos da minha casa.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho e duas irmãs mais novas.

Quais são as suas primeiras memórias de infância?
Visitar a casa dos meus avós, tanto paternos como maternos, que eram agricultores. Recordo-me das grandes aventuras que tínhamos nas férias escolares, quando os íamos visitar, assim como a alguns dos meus tios e primos que viviam na mesma área. Era uma alegria acordar ainda antes do sol nascer, ir ver as primas e os primos a ordenhar as vacas, a soltar os animais no campo, andar nas carroças e trabalhar também um bocadinho no campo.

Em pequeno já sonhava ser jogador de futebol?
Não escondo que sempre gostei de futebol e que o futebol era uma arma de interesse geral, acho que 99.9% dos meninos no Brasil queriam ser jogadores, até pelas dificuldades, porque era visto como uma possibilidade de futuro.

Começou a jogar num clube com quantos anos?
Comecei num clube pequeno, o São José de Porto Alegre, um clube da I divisão do meu estado, com 11 anos. Fui lá fazer testes e fiquei durante três meses. Entretanto, havia um torneio na Argentina e tanto eu como o meu irmão, que também lá jogava, fomos selecionados para irmos. Só que o clube não tinha capacidade financeira para pagar as viagens das equipas, as famílias tinham que entrar com uma grande parte. O meu pai, como não havia condições para grandes devaneios financeiros, disse que não íamos. Foi a minha primeira grande deceção no futebol [risos].

Paredão ao colo da mãe e o irmão
Paredão ao colo da mãe e o irmão
D.R.

A sua posição foi logo de central?
Eu tentei começar a jogar como trinco. Tenho uma história engraçada sobre isso. O meu pai e o meu irmão eram adeptos do Grêmio, o rival do Internacional de Porto Alegre. Eles forçaram que fossemos fazer um teste no Grêmio, que era um clube mais elitizado e havia que pagar uma taxa de inscrição. O meu pai, mais uma vez, não quis pagar para poder fazer o teste, eu e o meu irmão ficámos tristes. Na realidade eu queria jogar, não importava onde, embora o meu sonho era jogar no Internacional, que era o meu clube. Conversei com o meu irmão para tentar convencer o meu pai a deixar-nos ir ao Internacional, que é conhecido como o Clube do Povo. O meu pai não queria de maneira nenhuma [risos]. Mas forçámos tanto que o convencemos.

Pelos vistos os testes correram bem porque fez lá toda a sua formação.
Sim, mas a história continua, a propósito da posição em campo. Do Internacional disseram: os meninos tragam umas meias, um calção e uma t-shirt branca. O Internacional é vermelho e branco, eu só tinha um calção azul, uma t-shirt branca e umas meias azuis, que eram as cores do S. José. Quando cheguei lá todos pensavam que nós vínhamos do rival, o Grêmio [risos]. Havia uns 400 miúdos. O meu irmão foi para os sub-14, eu para os sub-12, fazer os testes. O treinador sentou os miúdos no chão e ia chamando por posições. Eu não queria jogar como central, mas estava um rapazito ao meu lado, o Anderson, que me disse: "Vamos jogar a central? Tu é grandão. Vamos?". Comecei por dizer que não queria, mas ele insistiu tanto que levantámos a mão para fazer um teste como central. Fomos fazendo os jogos todos e no final do dia, o treinador reuniu as duas melhores equipas, apontou para nós os dois e disse: "Vocês vêm comigo". Dois dias depois voltamos lá e ele apresentou-nos ao treinador da equipa principal do nosso escalão. Foi assim que fiquei no Internacional, como central. Eu e o Anderson fizemos todas as categorias quase sempre juntos até aos sub-19.

Ganhou muitos títulos durante a formação?
Em sete anos ganhámos cinco títulos, fui duas vezes campeão de taças sul-americanas e fui duas vezes vice-campeão brasileiro. Tive uma carreira na academia do Internacional muito vitoriosa.

O jovem central fez toda a formação no Inter de Porto Alegre
O jovem central fez toda a formação no Inter de Porto Alegre
D.R.

No meio disso, como ficaram os estudos?
Sempre fui estudando. A partir dos 15 anos comecei a ter treinos bi-diários, duas a três vezes por semana, e aí fui literalmente obrigado a estudar à noite. Houve uma grande convulsão familiar, a minha mãe ficou muito preocupada, porque para eu ir treinar tinha de apanhar mais do que um autocarro e demorava duas horas no percurso. Quando começou a meter horário noturno, tive de encontrar uma escola no centro da cidade para estudar depois dos treinos. A minha mãe ficou muito preocupada por causa da violência, coitada, sofreu muito. Mas terminei o 12.º ano.

Recorda-se da sua estreia como profissional?
A minha primeira participação oficial como titular foi contra o Bragantino, em casa, tinha quase 19 anos. Fui campeão gaúcho, a maior parte das vezes no banco de suplentes, sem grandes oportunidades.

Paredão (no centro) com a família no dia em que veio a Portugal pela primeira vez
Paredão (no centro) com a família no dia em que veio a Portugal pela primeira vez
D.R.

Como foi parar a Portugal e à Académica, em 1992/93?
Quem me procurou pela primeira vez foi um antigo presidente do Internacional. Era advogado, conhecia bem o grupo dos jogadores da formação, fez o acompanhamento de alguns, tinha conhecimentos no mercado português e um dia quis falar comigo. Disse que já tinha falado com algumas pessoas sobre mim. Na altura, se não me engano, falou com o Vitória de Guimarães e com o Penafiel. Entretanto, o presidente do Internacional descobriu que o ex-presidente me tinha abordado e encetou contactos com o Manuel Barbosa, que na altura já tinha levado o Assis, irmão do Ronaldinho, para o Lugano, da Suíça. Conversou com ele e fez um pacote de jogadores. Lembro que na altura veio o Eliseu, que era um defesa central mais velho, que foi para o Gil Vicente. Trouxe um médio defensivo, chamado Dacroce, para o Paços de Ferreira, com um extremo direito chamado Helcinho, que jogou no Farense.

E o Paredão foi diretamente para Coimbra?
Eu vim com a ideia que ia ficar no Penafiel. Vim para Portugal com outro colega, o Ricardo Moreno, que era um ano mais velho e estava emprestado a um clube do Rio Grande do Sul. Viemos com os outros três, que já tinham sido colocados. Eu e o Moreno sem saber o que ia acontecer connosco. Acabámos por ser levados para a Académica de Coimbra, para fazer testes, o que nos deixou estupefactos. Não estávamos à espera de sair do clube onde estávamos para ir fazer testes.

Como foi o primeiro impacto com Portugal e os portugueses?
Foi engraçado, até por causa das terminologias linguísticas. Foi para mim um choque, porque algumas das palavras ditas aqui, para nós têm significado diferente. O presidente da Académica, um senhor com os seus 60/70 anos de idade, chamou-me de puto e achei aquilo um bocado insultuoso, porque no Brasil tem outro significado. Disse-lhe mesmo: "Ó senhor presidente, você não me conhece, como está me chamando de puto?" [risos]. O Manuel Barbosa depois explicou-me que "puto" em Portugal é uma rapaz jovem e que eles sabiam o que queria dizer em brasileiro, estavam a brincar comigo para ver como é que reagia. Depois perguntei-lhe como se retratava o significado do "puto" do Brasil, em Portugal. Ele disse-me qual era a palavra e eu disse que no Brasil essa palavra era quem fazia panelas. Foi uma risota.

Paredão (3º atrás a partir da direita) no seu primeiro jogo pela Académica
Paredão (3º atrás a partir da direita) no seu primeiro jogo pela Académica
D.R.

Acabou por ficar na Académica, mas praticamente não jogou. Porquê?
O meu processo de regularização demorou muito devido ao excesso de contingente de estrangeiros no plantel. Tive de aguardar que um jogador saísse para que eu pudesse ser inscrito.

Ter de fazer testes e não poder ser inscrito para começar a jogar fê-lo querer voltar ao Brasil?
Claro, não vou mentir. Fiquei assustado. Mas a Académica contratou-me, pagava-me, deu-me um apartamento dividido com outro colega português, o Justiniano, um jogador mais maduro, que já tinha experiência no futebol português. Eu era jovem, tínhamos as nossas distâncias, o nosso espaço, mas ele foi extremamente cordial comigo, tratou-me sempre bem. Foi muito difícil, senti-me um bocado subjugado, até porque não podia apresentar o trabalho durante o fim de semana, nem ser convocado. O mister era o José Rachão, a Académica lutava para subir de divisão, tinha excelentes jogadores no plantel; fui colega do Latapy, que jogou no FC Porto e Boavista, do Zé do Carmo, que foi jogador do Vasco da Gama durante muitos anos, era um senhor que eu via no Brasil na televisão. Era uma equipa muito boa, tanto é que a Académica naquele ano lutou para subir de divisão até às últimas jornadas.

Lembra-se do seu jogo de estreia em Portugal?
Vou ser sincero, não me lembro qual foi. Mas lembro-me de ter feito um jogo contra o Felgueiras, que perdemos 2-0.

Quais foram as primeiras sensações em relação ao futebol português?
Eu não tinha tido grande experiência de jogo a nível profissional no Brasil. Treinava há mais de um ano com o plantel principal, tinha feito jogos amigáveis, mas não tinha grande experiência de minutos. Claro que houve uma grande discrepância em termos de adaptabilidade de jogo, porque o futebol português era mais rápido, com outras dinâmicas. A II divisão tinha um futebol agressivo e senti muito a diferença do tempo de jogo, do tempo de bola. Até pela evolução da época em que passei muito tempo sem jogar, só treinando, não foi fácil a adaptação do processo. Mas serviu-me bastante essa experiência e foi um trampolim para o Tirsense.

Em 1993/94, o central assinou pelo Tirsense
Em 1993/94, o central assinou pelo Tirsense

Só tinha assinado um ano pela Académica?
Sim, porque o Barbosa na altura fez um contrato de empréstimo. Acho que ele alocou o meu passe num clube português, não sei qual, e depois fez o empréstimo à Académica.

Como foi parar ao Tirsense?
Num jogo-treino contra o Salgueiros, o mister Eurico Gomes estava na bancada a assistir, gostou muito da minha apresentação, deve ter reconhecido potencialidades naquele jovem central e correu atrás de mim.

Que memórias guarda da primeira época no Tirsense?
Tive uma lesão grave logo depois do segundo jogo no Tirsense. Uma rotura do músculo peronial.

Como fez isso?
No último jogo de preparação da época contra o Marco de Canaveses fiquei com dores, pensava que era uma micro-rotura, passei duas semanas cheio de dores na perna a tomar comprimidos, ainda fiz dois jogos, porque queria jogar. A partir dali fui à procura da solução da lesão e vi que era muito mais grave do que eu e o departamento médico do Tirsense esperávamos, tinha feito uma rotura total do músculo peronial da perna e fiz uma operação bastante complicada porque perdi 25 % do músculo. O músculo foi costurado, tenho um rasgo na perna que vai quase do osso do meu tornozelo até ao meu joelho. Sofri muito na recuperação, o médico disse que se tivesse um bocado mais de azar, podia até ter de deixar de jogar futebol. Foi um baque, tinha 21 anos, chorei muito, nunca mais me esqueci. Depois tive uma infeção na perna e foi muito complicado o processo de recuperação e adaptabilidade, porque perdi também um bocado da minha mobilidade no tornozelo. Fiquei três meses e meio fora da equipa.

Correu bem o regresso?
O primeiro jogo não correu muito bem, eu ainda estava com algumas debilidades e o mister tirou-me do jogo, mas disse-me que acreditava em mim e que ia apostar em mim. Depois, quando voltei, ficámos 17 jogos invictos, ainda faltavam algumas jornadas para terminar o campeonato e já tínhamos subido de divisão.

Paredão (à esquerda) e Vinha, num jogo entre o Tirsense e o Salgueiros
Paredão (à esquerda) e Vinha, num jogo entre o Tirsense e o Salgueiros
D.R.

Como era Eurico Gomes enquanto treinador? Gostou dele?
Muito. Mais do que um excelente treinador, o que mais me ligou ao mister foi a parte humana. Ele compreendeu, apoiou-me, esteve ao meu lado na minha dificuldade. Às vezes pedia aos adjuntos para continuarem o treino e vinha ter comigo, para me apoiar na minha situação delicada, porque no meio do processo ainda tive uma pubalgia, devido ao desequilíbrio físico e ele esteve sempre lá do meu lado. Treinava comigo, fazia alongamentos comigo, foi mais do que um treinador, foi um pai para mim e devo muito da minha ascensão futebolística, apesar de ter tido boas bases, ao mister Eurico. Sou eternamente grato a ele e ele sabe disso.

Notou grandes diferenças da II para a I divisão?
Notei que o tempo de jogo diminuía, que a qualidade das tomadas de decisões aumentava e que era importante saber determinar os momentos do jogo e as tomadas de decisão. Eu tinha tido grandes bases, vinha de um grande clube no Brasil, as próprias experiências que tive de sofrimento no processo de adaptabilidade no futebol português, na Académica, depois a lesão pelo caminho com a pubalgia... Eu comecei a jogar na I divisão com dores na púbis. A única mágoa que tenho dessa época é que quando faltavam quatro ou cinco jornadas estávamos em 4.º ou 5.º lugar e infelizmente não conseguimos manter a posição. Não sei se foi só performance, acho que houve mais coisas, mas não quero mexer em situações sobre as quais não tenho controle. A verdade é que não ganhámos nenhum jogo dos últimos quatro do campeonato e caímos para o 8.º lugar. Mas foi a melhor época de sempre do clube. Terminámos o campeonato, se não me falha a memória, como a terceira ou quarta melhor defesa do campeonato.

O central a roubar a bola a Oceano, num Sporting-Tirsense
O central a roubar a bola a Oceano, num Sporting-Tirsense
D.R.

Foi já no Tirsense que sofreu a maior perda da sua vida.
Foi. A minha mãe estava com um cancro na mama, que depois se espalhou para os órgãos vitais. Enquanto estive na Académica ela não quis dramatizar o processo dela, eu só falava com ela por telefone público. Quando vou de férias ao Brasil é que vejo a dimensão daquilo. Foi um choque. Participei dos primeiros processos de quimioterapia dela. Foi muito, muito duro, muito triste. A minha mãe era a minha estrela-guia. Ela faleceu no dia do jogo contra o União da Madeira, em casa.

Quem lhe deu a notícia?
No dia do jogo, da parte da manhã, o meu pai ligou para o Marcelo, que tinha telefone. "Está aqui o teu pai, precisa falar contigo". A notícia foi devastadora porque ainda esperava ver a minha mãe em vida. O mais lacónico é que ganhámos esse jogo e os dois golos foram feitos pelo Marcelo e em cada um dos golos ele fez questão de vir ter comigo. Até o pessoal do União no final soube do acontecido. Não era para ter jogado esse jogo. Falei com o mister Eurico que me deixou à vontade, a decisão era minha. Só que fiz uma conversa pessoal com a minha mãe, eu não podia mais fazer nada para mudar os acontecimentos. Fiz um ato de constrição mental comigo e com ela pedindo permissão para ir ao jogo e ela presenteou-me com a vitória.

Paredão, Iliev e Preud'homme no balneário do Benfica
Paredão, Iliev e Preud'homme no balneário do Benfica
D.R.

Após a época na I divisão com o Tirsense, só teve o interesse do Benfica?
Quando fomos campeões da II Divisão, apareceram logo propostas de clubes da I Divisão.

Do V. Guimarães, de Quinito, e do Marítimo, de Paulo Autuori?
Isso. Mas o mister Eurico pediu muito que eu ficasse. Financeiramente para mim não foi vantajoso. Perdi muito, foi uma diferença grande entre ficar no Tirsense e ir, por exemplo, para o Marítimo. Na altura, os clubes da Madeira, principalmente o Marítimo, eram bem suportados financeiramente. O mister Eurico disse-me: “Se tu fizeres o que fizeste no ano passado, acreditares naquilo que vamos fazer este ano e continuares a tua evolução, tu não vais para o V. Guimarães ou para o Marítimo, vais acabar por ir para um dos três grandes em Portugal”. Bendita a hora que ele disse isso, porque na realidade houve algumas sondagens da parte dos outros também, mas o senhor Manuel Barbosa, que era o nosso orientador de carreira, achou que seria melhor ir para o Benfica. Ele tinha uma ligação muito forte com o Benfica. Acabei por ir eu e o Marcelo.

Como foi entrar num clube grande em Portugal?
Em termos profissionais é uma realização, não preciso nem comentar o tamanho e a dimensão que o Benfica tinha e tem. É um dos grandes clubes de futebol português e europeu. Não era o Benfica de hoje, com o património e as condições de trabalho que tem hoje, com a academia. Era muito mais rudimentar, treinávamos no campo 2 à volta do estádio. Tínhamos de sair do estádio e fazer uma caminhada até ao campo e os adeptos vinham falar connosco, tiravam foto, conversavam, xingavam, havia treinos que eram abertos, era uma realidade completamente diferente.

Sentiu que o clube passava por uma reformulação?
Claro, vi que a equipa estava a ser desmontada e montada de novo, em dois anos. Eu apanhei a segunda parte. O mister Artur Jorge faz a primeira "lavagem" daquele grande Benfica, do Mozer, Caniggia, Vítor Paneira, do próprio Veloso, Isaías, etc. Como vais pegar em dois jovens como eu e como o King, cheios de ilusões, quando retorna o Ricardo Gomes, vem do FC Porto o Paulo Pereira e tens o Helder enraizado no clube? O Benfica desfez-se do Mozer, que para mim foi um dos melhores centrais estrangeiros que passaram pelo futebol português, com todo o meu respeito pelos outros. Claro, foi uma tarefa incomensurável para nós substituirmos esses jogadores. Ficámos ali, trabalhando, para apanhar as sobras.

Paredão com a Taça de Portugal conquistada pelo Benfica em 1996
Paredão com a Taça de Portugal conquistada pelo Benfica em 1996
D.R.

O Artur Jorge também era muito diferente do Eurico Gomes, mais distante, não?
Era metódico, profissional, com a linha de raciocínio dele, a abertura que ele dava era limitada, era um treinador parco de palavras, taticamente muito inteligente, um revolucionário dentro do processo. Ele queria ser campeão, usaria as peças que acharia mais vinculativas com o processo e o resto vinha atrás, trabalhando. Esteve pouco tempo, depois assumiu o mister Mário Wilson, com uma abordagem diferente, um bocado mais aberto à comunicação, mas também com as suas opiniões. 80% das vezes a dupla de centrais era o Hélder e o Ricardo Gomes. Eu intrometi-me um bocado, o Paulo Pereira um bocado mais do que eu.

Recorda-se do jogo de estreia pelo Benfica?
Não, mas lembro da minha estreia europeia, foi contra o Roda Kerkrade, em casa. Acho que fiz um total de 12 ou 13 jogos pelo Benfica. Há só duas coisas no Benfica que gosto de lembrar. Primeiro, fui o último jogador a fazer o último golo do Benfica no último jogo do campeonato daquele ano, foi em casa contra o Marítimo, ganhámos 5-1, entrei e fiz o 5.º golo. A outra coisa, foi a vitória na final da Taça de Portugal no Jamor, frente ao Sporting, por 3-1, em 1996. Foi positivo pela vitória, mas negativo pelo acontecimento dramático da morte de um adepto do Sporting atingido por um very-light.

Em campo perceberam logo o que tinha acontecido?
Nós sentimos uma convulsão, um grande murmúrio no estádio e quando olhamos para a bancada tinha aberto um buraco no meio dos adeptos do Sporting. Mas só no final é que soubemos que não seria entregue a Taça de Portugal no púlpito do Estádio Nacional, acho que foi a primeira vez na história, devido à morte do adepto. É um dos poucos títulos que angariei na minha carreira e tenho muito orgulho mas, por outro lado, muita pena e tristeza pelo que aconteceu.

Preud'homme e Paredão durante um treino do Benfica
Preud'homme e Paredão durante um treino do Benfica
D.R.

Assinou com o Benfica por três anos, mas só ficou um. O que aconteceu para ir parar ao Alverca da II divisão?
Não vou dizer que teve dedo do A, B, C ou D no meio. Acredito que deve ter acontecido alguma coisa extra-campo, porque havia todas as condições para continuar. Depois houve a possibilidade da minha saída, cheguei a estar em Valladolid com o senhor Manuel Barbosa para assinar contrato. Mas julgo que houve um bloqueio da comissão dele, não sei se resultado dos desentendimentos que ele já angariava junto da nova presidência do Dr. Vale e Azevedo. O que me prejudicou imensamente porque não assinei. Ele disse que não tinha sido gratificado pelo trabalho dele naquele processo e que me ia colocar em França. Citou-me dois ou três clubes, e eu como acreditava no trabalho dele, regressámos, ainda passámos por Salamanca, falámos com o mister João Alves. Até podia ter ficado, mas o senhor Manuel Barbosa achou melhor não, apesar das choradeiras que fiz, porque o Giovanella estava lá e queria que eu ficasse. Éramos e somos grandes amigos, jogámos juntos no Internacional.

No Benfica as portas fecharam-se todas?
Podia ter ficado no Benfica, o mister Autuori comentou sobre o assunto e disse que a situação o ultrapassava. Tive de respeitar as decisões do clube. Entretanto, fiquei nesse limbo, tive quatro ou cinco ofertas da I divisão, mas não havia entendimento do clube com o Manuel Barbosa e acabei por ser obrigado a jogar no Alverca, porque eu era funcionário do clube. O Benfica não me queria no plantel principal, eu era um ativo, tive de ir senão o clube podia rescindir com justa causa. Na altura não tinha qualquer apoio jurídico.

Não encostou Manuel Barbosa à parede? Afinal, o grande prejudicado era o Paredão.
Tivemos incompatibilidade em algumas decisões, mas tive de seguir o meu caminho no Alverca. Lá encontrei novamente o mister Mário Wilson. Trabalhei com o Deco e o Maniche.

Foi-se muito abaixo psicologicamente nesse período?
Completamente. Repare, eu saí do processo de ter sido escolhido para o 11 da época pelo jornal “O Jogo” dois anos antes, era um jovem em ascensão e, de repente, há todo um retrocesso que não encaixei muito bem. Fez uma revolução na minha cabeça. Sempre fui irreverente, na altura era jovem, passei momentos muito difíceis, até depois com alguns desentendimentos no próprio Alverca, que não tinha culpa nenhuma.

Paredão, Dimas e Edgar na chegada à África do Sul para pré-época
Paredão, Dimas e Edgar na chegada à África do Sul para pré-época
D.R.

Continuava solteiro?
Não, já vivia com a minha esposa, a Paula. Foi difícil até para a nossa vida pessoal.

Onde e como se conheceram?
A Paula é portuguesa, de Santo Tirso, e conhecemo-nos lá. É um meio pequeno, a minha esposa é uma gata então foi fácil. Ela é super inteligente, fala várias línguas, tem o curso de gestão de empresas, mas infelizmente acabei "amputando" a carreira dela, porque ou ela seguia a carreira dela ou a minha. Em 17 anos profissionais, joguei em 12 clubes e só tenho a agradecer-lhe por ter abdicado do sonho dela para viver o meu. Temos dois filhos maravilhosos, a Isabela, que nasceu em Newcastle, em 2001 e o Gabriel, que foi feito no Japão e nasceu em Portugal.

Como conseguiu sair do Alverca para a Premier League?
Quando fui para o Alverca, só pude voltar a ser inscrito em janeiro. Fiz meia época, ajudei de alguma maneira o clube a manter o estatuto da II divisão, embora tenha sido difícil porque o clube quase desceu naquele ano. Quando regressei ao Benfica, na minha última época, voltou a haver convulsões. O Benfica já não aceitava que eu ficasse no Alverca, o senhor Manuel Barbosa estava em litígio também comigo. Os primeiros quatro, cinco meses dessa época foram terríveis. Acabei por não jogar, só treinava no Alverca, às vezes até à parte, e depois entrei num acordo com o Benfica. Quem me ajudou foi o Ângelo Martins, filho do antigo jogador do Benfica com o mesmo nome. Ele era advogado e estava no agenciamento de jogadores, fizemos uma amizade porreira e acabei por me desligar do senhor Manuel Barbosa, no litígio. E foi o Ângelo que me abriu portas para fazer testes em Inglaterra.

Conseguiu rescindir logo com o Benfica?
Não. O Benfica deu uma carta de liberação, mas queria ser ressarcido. Porém os clubes que tive, que eram do Championship, não aceitaram pagar a transferência. Acabei por retornar ao Benfica.

Já era Graeme Souness o treinador?
Era, mas ele nunca me viu treinar, nem me conheceu naquela altura. Passado uns anos falei com ele em Inglaterra sobre isso e ele disse que se soubesse quem eu era tinha-me mantido no Benfica. No meu processo de validação na Inglaterra, quando entro no Sheffield Wednesday, na Premier League, faço um certo estrondo no clube. Mesmo sem jogar durante muito tempo, acabei entrando que nem uma luva no processo do Sheffield.

 

Spoiler

“Imagina eu chegar a Inglaterra, sem falar inglês direito, e na t-shirt estar The Wall? Esquece, qual The Wall qual quê, quero Thome”

Paredão, Emerson Thome de seu nome, jogou oito anos em Inglaterra, em clubes como o Sheffield Wednesday, Chelsea, Sunderland e Bolton Wanderers, entre outros, antes de terminar a carreira de futebolista no Japão. É sobre esses anos de ouro em que jogou com grandes craques que falamos nesta Parte II do Casa as Costas. Abordamos ainda temas como o VAR, as lesões e a sua nova atividade como analista, sempre com a frontalidade que o caracteriza

Como chegou ao Sheffield Wednesday, na época 1997/98?
Depois de ter voltado de dois ou três clubes da Championship e não haver acordo porque não quiseram pagar ao Benfica, falei com o clube para rescindir. Na altura, o Benfica devia-me alguns salários e acabou por entrar em acordo comigo, deixei meio ano do meu salário para trás. Ou seja, saí mesmo pela porta dos fundos, sentia-me completamente derrotado. Era um sonho ter podido ter sucesso no clube.

Ter tido sucesso, ou não, no Benfica, dependeu apenas de si?
Acredito que não. Acredito muito na naquilo que é a nossa competência e naquele que nos rege que é o nosso Pai maior. Gosto de dizer que quando o homem fecha uma porta, Deus abre uma janela e o teu anjo da guarda é o teu guia. Acho que meu anjo da guarda sempre foi forte. As portas foram fechando e as janelas foram abrindo.

Mas afinal como foi parar ao Sheffield Wednesday?
Rescindi com o Benfica, entretanto, os clubes ingleses onde estive, que eram o Huddersfield, o Stoke City e o Bristol City, também cheguei a falar com o Preston North End, não queriam pagar, voltei para Portugal, o Marcelo que estava no Sheffield United falou comigo. Eu era para ter ido para o Sheffield United, mas o treinador é mandado embora quando finalmente consigo a rescisão com o Benfica. Entretanto, apareceu um empresário inglês que falou com o Ângelo Martins e comigo e disse que tinha gostado dos treinos que me viu fazer e por isso falou com o Sheffield Wednesday, que era da Premier League. O treinador era o Ron Atkinson que me abriu a oportunidade de ir lá treinar. Foi assim que fui para lá. Acabei por jogar no final dessa época, tinha assinado já a meio da época.

Que tal era o Ron Atkinson?
Figuraça. Carismático, muito vibrante, no Brasil chamamos de boleirão, tipo o Marinho Pérez do Belenenses, o Abel Braga lá no Internacional, é aquele treinador maduro, cheio de experiência, cheio de malícia, de malandragem de futebol. O Ron tinha treinado no Manchester United, no Aston Villa, no Atlético de Madrid, era um treinador com uma bagagem muito grande. Quando viu aquilo que eu era, chamava-me de gem. Eu era um diamante que ele descobriu e vangloriou-se disso, porque ganhei estatuto no clube. O pessoal cantava música para mim.

Paredão chegou ao Sheffield Wednesday em 1997/98
Paredão chegou ao Sheffield Wednesday em 1997/98
Neal Simpson - EMPICS

Mas na camisola não ficou com o nome Paredão. Porquê?
Então eu vou explicar primeiro como surgiu o Paredão, uma vez que o meu nome verdadeiro é Emerson Thome. Quando fui fazer aquele treino no Internacional e depois passo para a equipa do sub-12 oficial do clube, no primeiro treino, o extremo direito da equipa titular quando me vai driblar dá-me um toque e joga no fundo. Como eu ainda não tinha aquelas malícias de posicionamento de pés, aquela malandragem toda, dei um encontrão no miúdo [risos]; ele era mais magrinho, eu já era grandão, trabalhei muitos anos com serviço pesado, ajudei o meu pai a fazer umas casas, carregava saco de cimento nas costas, tinha fibra. Imagina, quando bati no menino, o Júlio, ele caiu e ficou. Os outros meninos começaram a dizer: "Mister, o Júlio parece que bateu contra uma parede" [risos]. Ali ficou, parede, paredão, Emerson Paredão e acabei por ser apresentado dentro do futebol profissional no Internacional como Emerson Paredão.

Em Inglaterra não deixou que colocassem "The Wall" na camisola.
Nem pensar. Lá só tinha "armários", tanto centrais como pontas de lança, a envergadura física era impressionante e eu pensei, não quero nada disso, quero simplesinho. Imagina eu chegando na Inglaterra, sem falar inglês direito, com aquela preponderância toda e na t-shirt estar The Wall; os outros vão ler e vão dizer "Ah, vem cá que eu vou te virar do lado B". Esquece isso, qual The Wall qual quê, quero ser o Emerson Thome. E colocaram Thome.

Como foi a adaptação a Inglaterra?
Bendito Deus que eu tinha a minha mulher, que fala bem inglês. Fora do contexto profissional salvaguardei-me bastante com ela, no contexto profissional tinha, claro, dificuldades, não era como hoje em que os clubes arranjam logo tradutor e professores para te ensinar. Eles eram old school, tive de aprender na marra. O treinador, o Ron, falava duas, três palavras de espanhol e tive a felicidade de cruzar com dois italianos dentro do grupo. Comecei a jogar bem, vieram as vitórias, era o melhor em campo e os jornais queriam entrevistas. Eu só dizia, "não falo, não sei falar, não quero falar errado". Não queria falar asneira. Até que o próprio clube trouxe um professor para eu dar uma entrevista coletiva. Depois, fui-me adaptando, lendo os jornais todos os dias, vendo televisão só em inglês.

O futebol inglês também era muito diferente do que tinha jogado até aí. Foi fácil entrar naquele registo?
Sabe o que posso dizer? A Premier League começou em 1992, eu entrei em 1997/98 e joguei num grande período da Premier League. Joguei possivelmente com o melhor Arsenal da história, com o melhor Manchester United da história. Joguei contra o Manchester do Barthez, do Schmeichel, do Neville, Jaap Stam, Rio Ferdinand, Roy Keane, Paul Scholes, Beckham, Giggs, Andy Cole, Dwight York, Teddy Sheringham, joguei contra o Manchester mais vitorioso de sempre do Alex Ferguson. Defrontei o Chelsea do Desailly, Didier Deschamps, Frank Leboeuf, Albert Ferrer, John Terry, George Weah, Roberto Di Matteo, Babayaro, Zola... O Arsenal do Thierry Henry, Marc Overmars, Patrick Vieira, Dennis Bergkamp, Suker, Emmanuel Petit, Ashley Cole, David Seaman... Marquei Michael Owen, Robbie Fowler, Steve MacManaman… Não pára a lista.

Desses todos, qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
Citei tantos [risos]. Posso dizer que o que mais me deu prazer, o que mais respeitei na altura, porque era um ponta de lança destemido e bastante agressivo, não era fácil de lidar, até pelo caráter que tinha, e com quase dois metros de altura, foi o Duncan Ferguson. Era uma torre, era um animal no jogo aéreo e era um jogador que se defendia muito bem. Antigamente, como não tinha VAR, era um futebol realmente muito viril e de certa maneira a virilidade ultrapassava o limite [risos].

Qual foi a equipa mais forte contra quem jogou?
Respeitei muito o Manchester United, também gostava muito do Arsenal e do Chelsea.

E a equipa mais forte onde jogou?
Foi definitivamente a do Chelsea. Joguei com três campeões do mundo: Didier Deschamps, Desailly e Leboeuf. Daquela equipa, mais de 90% da equipa eram jogadores internacionais, a maioria de grandes seleções. Quem daquele grupo infelizmente não teve a possibilidade de chegar a esse nível fui eu e o Ambrosetti, que não jogou na equipa principal da Itália. De resto, acho que todos os outros jogavam nas suas seleções.

O central com o trofeu de melhor jogador do ano do Sheffield Wednesday
O central com o trofeu de melhor jogador do ano do Sheffield Wednesday
D.R.

Qual foi o jogador que não esperava que fosse tão bom?
Não vou dizer nenhum, porque eu esperava tudo. Quando sais de um Sheffield Wednesday que está a meio da tabela, lutando pela manutenção e vais jogar num clube da dimensão do Chelsea, em que a equipa titular era Ed de Goey, guarda-redes da Holanda, Albert Ferrer, o defesa direito da seleção espanhola, os dois centrais que jogaram a final do Mundial, o Desailly e o Leboeuf, o defesa esquerdo podia ser o Babayaro, que era titular da seleção da Nigéria, no meio-campo tínhamos do Di Matteo da Itália, Denis Wise da Inglaterra, Didier Dechamps, campeão da França, Gustavo Poyer, da seleção do Uruguai; nos extremos tínhamos o Zola da Itália, Tore André Flo, da Noruega, tínhamos o George Weah da Libéria, o Casiraghi da Itália… esperas tudo. Era uma equipaça.

O seu expoente máximo no futebol foi com essa equipa?
Sem dúvida. O jogo na Liga dos Campeões em que vencemos o Barcelona, com um dos ataques mais famosos, com Luís Figo, o Rivaldo, que tinha sido o melhor jogador do mundo no ano anterior, e o Kluivert. No meio-campo já tinha o jovem Xavi. Também já lá estavam os irmãos De Boer e o Puyol. O processo com o Chelsea foi bom, mas mudou muito rapidamente depois do Vialli sair. Veio Ranieri e no meio desse processo apareceram outros clubes de menor dimensão interessados na minha contratação. O Ranieri quando veio do Valencia trouxe o Winston Bogarde, tínhamos o jovem John Terry, tínhamos um francês que fazia central lateral também chamado Bernard Lambourde, eu pensei, são seis, sete jogadores de alto nível para duas posições. O meu empresário veio falar comigo. O Chelsea fez um profit, comprou-me por 2 milhões e 700 de libras, aproximadamente 4 milhões de euros, e vendeu-me por 4 milhões e meio de libras passado um ano. Era um grande negócio, sobretudo tendo em conta que não cheguei para ser titular do Chelsea, mas para fazer plantel. Tive a sorte que o Vialli gostou muito de mim, do meu comprometimento.

Sentia-se no mesmo nível dos seus colegas de equipa?
Nunca pude dizer que eu era do nível dos outros dois [Desailly e Leboeuf] porque não tinha o pedigree deles, mas quando tu jogas ao lado deles e te equivales em termos de performance… Senti-me realizado ao jogar no meio desses craques todos. Foi um orgulho. E depois as amizades que fiz.

As pessoas muitas vezes têm a ideia de que os grandes jogadores são demasiado vaidosos, com egos enormes. Nunca se sentiu excluído?
Não. Um jogador aborda um jogador do tamanho da arrogância que transporta. Sempre fui uma pessoa muito franca, muito original, muito aberta na minha abordagem. Não sou muito de fazer média com ninguém, a minha abordagem sempre foi muito frontal e correta. Sempre conhecido por ser um jogador franco, honesto e viril. Não fui conhecido por ser um tecnicista. Não era um central tecnicista, o Frank Leboeuf era um central muito mais técnico, eu identificava-me muito mais com o Desailly, o John Terry, esse tipo de linha. O grupo entendeu isso, que cheguei de braços abertos e por isso fui recebido de braços abertos. A química foi muito rápida, porque já tinha jogado contra o Chelsea. E a abordagem que o Chelsea fez para me levar foi a coisa mais caricata.

Pode contar?
Posso. A abordagem nem foi com empresário, foi num jogo, na entrada de um túnel. Nós fomos fazer um Sheffield Wednesday-Chelsea para a Taça da Inglaterra. Nesse jogo o Gustavo Poyet estava no final da fila e chamou-me. O Vialli ia jogar esse jogo. O Poyet diz-me: "Estás a ver lá na frente?", apontando para o Vialli que passava o tempo todo a olhar para trás, a ver se ele estava a falar comigo. Nessa altura o Vialli já era jogador-treinador. O Gustavo disse-me que o Vialli pediu-lhe para falar comigo, porque queria levar-me para o Chelsea. A minha reação foi: "Ó Gustavo, estás a gozar com a minha cara? Estás a amaciar-me porque vamos jogar agora?": "Não, Emerson, o Vialli quer jogar para tu o marcares mesmo". A frente de ataque do Chelsea era o Gustavo na direita, no meio o Vialli e o Zola por trás, do lado esquerdo já não me lembro quem era. Eu virei o Vialli. Virava o Zola, que até fugia para trás, era mais técnico, mais baixinho. O Vialli gostava do contacto físico. Pegamo-nos lá. Resumindo: o Vialli saiu no intervalo e ficou a segunda parte a observar-me. O jogo terminou a zero, mas fiz um bom jogo. No final do jogo ele passou por mim e parabenizou-me. O Gustavo no final do jogo, diz: "Tu não estás a ver, o Vialli estava cego dentro do balneário, falando comigo para falar contigo que ele está louco para te levar para o Chelsea." Foi assim que aconteceu a primeira abordagem.

Que outras abordagens teve de clubes ingleses?
Antes de ir para o Chelsea, a primeira abordagem foi do Tottenham, depois do Arsenal, mas acabei por assinar pelo Chelsea. Entretanto, o Newcastle veio atrás de mim, o Everton também. Tive vários clubes que vieram atrás de mim quando saio do Chelsea.

Porque escolheu o Sunderland?
Sei que não tinha e não tem a dimensão como o Everton e o Newcastle. Fui para lá porque na altura quem acabou por acertar com o Chelsea o valor da transferência foi o Blackburn, o Charlton e o Sunderland. Olhei para a dimensão dos três e o maior clube em termos de adeptos era o Sunderland e essa foi uma das razões que me fez ir para lá. O Graeme Souness, que estava no Blackburn, falava com o meu empresário para eu ir para lá. Passados dois anos, voltou a tentar comprar-me, mas o Sunderland não me quis vender. O Sunderland acabou por descer e eu acabei por ir parar ao Bolton. Já estava também com quase 33 anos. Joguei um ano no Bolton, fizemos uma ótima época, terminamos em 8.º lugar, da Premier League.

Era um equipa que também tinha umas figuras interessantes, entre elas Mário Jardel.
Se tinha. Joguei com o Youri Djorkaeff, campeão do mundo, com Jay-Jay Okocha, melhor jogador africano que tinha jogado no Paris Saint-Germain, era um cracaço, o Ivan Campo, que tinha vindo Real Madrid; o Stelios Giannakopoulos, e também o Mário Jardel. Gente boa demais o Jardel, só que infelizmente já o apanhei na fase descendente da carreira dele. Tive grande amizade com ele, a esposa e a filha. O Mário é um ser humano fabuloso, com um coração grande demais para a imensidão daquilo que conquistou. Tivemos uma amizade extra-futebol também com as famílias, passamos o Natal juntos, guardo muito essas recordações. Levámos o Bolton à final da Taça da Liga, o clube não chegava há 50 anos, mas infelizmente perdemos a final contra o Middlesbrough do Doriva, do Juninho Paulista, do Mendieta, do Boateng, do Joseph-Desire Job, de grandes craques.

Emerson Thome jogou no Sunderland entre 2000 e 2003 e bateu, à época, o recorde de transferências do clube
Emerson Thome jogou no Sunderland entre 2000 e 2003 e bateu, à época, o recorde de transferências do clube
Nick Potts - EMPICS

O ambiente de balneário em Inglaterra era muito diferente do brasileiro e do português?
Dinâmicas diferentes. Uma coisa que me marcou era a abordagem do treino, das dinâmicas de treino, até porque trabalhávamos grande parte do ano no frio, os timings eram diferentes. A produtividade do treino em Inglaterra era muito maior. Treinava menos, gastava menos tempo no campo de treino, mas a intensidade era uma coisa alucinante. Tudo era feito com muita intensidade, com muita dinâmica, com muita energia, era muito proativo o treino. Cresci muito lá como jogador, por isso cheguei aonde cheguei e só não consegui acabar a minha carreira no patamar mais alto porque no Sunderland comecei a ter lesões que me causaram grande transtorno no final da carreira.

Que lesões foram essas?
Eu fiz quatro cirurgias nos joelhos. Três no direito e uma no esquerdo. Já no Wigan Athletic, em 2005, parti a cara. Levei uma cotovelada que me partiu o malar, o osso que faz a estrutura da cara. Na marcação de um canto, fui antecipar-me ao jogador no primeiro poste, ele abriu o braço para cabecear a bola e acabei por levar com o cotovelo na cara.

Se houvesse VAR…
…Ui. Perdia a paixão que o futebol tinha. O futebol hoje não é apaixonante como foi na minha altura. A parte lúdica da malícia, da intencionalidade do jogo, daquele carrinho mais intenso, aquela bola metade-metade que um pé vai por baixo e o outro por cima, aqueles lances mais maliciosos na área, um agarrão, um puxão… Não vou dizer que era bom ou era mau; fazia parte do jogo na minha altura e aquele condimento todo às vezes ficava muito picante.

A tentar bloquear um remate de Alan Shearer, num Newcastle-Sunderland.
A tentar bloquear um remate de Alan Shearer, num Newcastle-Sunderland.
Stu Forster

Que histórias nos pode contar dos tempos da Inglaterra?
Lembro-me de pegar-me com o Duncan Ferguson num jogo. De ele querer acertar-me duas ou três vezes e eu ter que fugir. Uma das mais engraçadas foi com o Thierry Henry. Ele era muito refinado, foi um dos ponta lança mais elegantes com quem joguei, parecia uma gazela dentro de campo, voluptuoso, dinâmico, intenso, muito móvel, aproveitava muito bem os espaços. Quando entrava entre linhas era muito difícil pará-lo em movimento, era rapidíssimo, tecnicamente muito evoluído e uma vez num jogo eu estava no Chelsea, foi quase no final da época, tive uma entrada mais dura nele e ele: “Poxa, Thome, nós jogámos já várias vezes contra, nunca precisou e hoje estás a dar-me porrada para caramba. Tu nunca precisaste de ser assim viril comigo"; "Ó Thierry estou a dar na bola." [risos] Ele ficou um bocado chateado comigo. Entretanto, no final da época estou no aeroporto para ir para casa e de repente vejo-o ao longe a vir na minha direção a rir. Quando chegou junto a mim disse: "Estou tão feliz por te encontrar aqui. Aqui não me podes bater" [risos] e deu-me um abraço.

Como foi parar ao Japão, para jogar no Vissel Kobe, em 2006?
Quando entrei na fase final com o Wigan, tive a possibilidade de voltar ao Brasil.

Para onde?
Apareceram uns contactos com o Santos, o Cruzeiro e com um clube da minha terra, o Juventude. As abordagens nunca foram muito para a frente, até devido ao fator financeiro. Depois tive uma oferta para ir para o Atlas, do México, e outra para uma equipa pequena da Arábia Saudita, cujo nome já não me lembro, mas que financeiramente era a mais vantajosa. Só que naquela altura a Arábia era um país extremamente fechado e como eu não ia nem para Riade, nem para Jeddah, era para o interior da Arábia Saudita, aconselharam-me a não levar a mulher e filha. Recusei. Estava à procura de um espaço para aproveitar o final da carreira e lógico que queria ficar com a minha mulher e filha. Depois ele falou-me do Japão e da Coreia do Sul. Sempre tive curiosidade pelo mundo asiático, mais do que pelo mundo árabe.

Assinou por quanto tempo?
Assinei dois anos com o Vissel Kobe. Foi pela estabilidade familiar, pela hipótese de conhecer uma nova realidade e pela abordagem que o treinador teve. Um dos estrangeiros que estava lá era o Pavel Horvath, que jogou no Sporting. O clube subiu de divisão comigo lá. Não consegui acabar os últimos três jogos da época porque levei uma pancada no pé e parti o metatarso, num treino.

A defender Paolo Di Canio, no Sunderland, já depois de ter partilhado equipa com o italiano em Sheffield.
A defender Paolo Di Canio, no Sunderland, já depois de ter partilhado equipa com o italiano em Sheffield.
Steve Morton - EMPICS

O que mais o surpreendeu no Japão?
A cultura, o respeito, o civismo, a integridade das pessoas, o profissionalismo. Adorei. Identifiquei-me muito com o povo japonês.

Tem alguma história para contar do Japão?
Eu era um central viril. Nos primeiros cinco jogos que joguei, levei cinco cartões amarelos. Eu mal podia tocar neles, eles vinham logo pedir falta [risos]. O japonês cresceu com aquela malícia do futebol brasileiro, porque o Japão teve muita influência do futebol brasileiro nos seus primórdios. O jogador japonês por norma é um jogador mais leve, rápido e ágil e eu vinha de um futebol mais físico, mais agressivo, mais dominante. Eu usava muito o corpo, aproveitava para proteger a bola e acabei por cometer algumas faltas que eles consideravam ser para amarelo. O treinador que me levou é o treinador que foi trabalhar com o Boavista, o mister Stuart Baxter.

Não achou o futebol nipónico fraco?
Não. Se vires a exportação dos jogadores que passam pelo futebol europeu agora... Tu tens um excelente jogador no Sporting, o Morita. Só que naquele tempo o jogador japonês não estava tão interessado em sair para a Europa. Ou não era tão reconhecido ainda, porque não tinha feito a imigração. Até pela própria cultura de dificuldade de comunicação. O japonês não fala muito outra língua a não ser o japonês. Então eles não queriam arriscar. Era cultural. Aqueles poucos que arriscaram tiveram sucesso. O futebol japonês não tinha a dimensão que tem hoje em termos de divulgação. Mas era um futebol rápido, tecnicamente evoluído, só que com processos não tão evoluídos taticamente como o nosso. O poder de choque do jogador japonês em geral era menor.

Mas tecnicamente não eram tão evoluídos, ou eram?
Quem é o central português mais evoluído tecnicamente? O Gonçalo Inácio, talvez um bocadinho mais evoluído. Mas o Ruben Dias, por exemplo, para mim era que nem eu tecnicamente. Não acho que o Rúben Dias seja um central tecnicamente muito evoluído. Quando digo técnico, é habilidade técnica, dribles e coisas desse género. O Rúben Dias é reconhecido pela competência, porque é um central agressivo, líder, dominador, extremamente competente no trabalho defensivo que ele faz. Ele não é conhecido porque sai a jogar lá de trás. Nesse pormenor, os jogadores na parte defensiva, não eram jogadores de grande preponderância técnica. Agora, na parte ofensiva, eram bons jogadores. Não tinham o nosso nível, é lógico que não. Mas gostei da experiência em si.

Porque veio embora do Japão e colocou um ponto final na carreira?
Quando parti o pé, eu tinha um número de jogos a cumprir e não consegui cumprir. Quando terminei a ligação com o clube tive a oferta de dois outros clubes da II divisão, novamente para um processo de subida. Já ia fazer 36 anos, a minha esposa estava à espera do meu filho, em Portugal, a minha filha tinha começado a escola. Tive uma oferta para a Austrália, tive outra para a MLS, também para Chipre, tive oferta para ficar em Portugal, mas achei que estava hora de parar.

Foi muito difícil pendurar as chuteiras?
Mentalmente, fui-me preparando, porque as lesões foram consumindo o meu estado de espírito. Como sempre fui muito forte mentalmente e guerreiro, aquilo estava a machucar-me. De certa maneira, fui entendendo que o atleta, o profissional, a paixão e a liderança que eu tinha dentro de mim já não era compatível com a minha capacidade física.

Quando percebeu que a carreira de jogador estava a chegar ao fim já sabia o que queria fazer depois?
Eu tinha uma oferta para ir trabalhar com o mister Baxter, ele estava no Helsingborg, na Suécia. Ele queria que eu fosse lá terminar o ano com ele e depois começasse a fazer o curso de treinador, que me daria uma oportunidade de trabalhar com ele. Só que, voltamos à mesma situação: a minha esposa não queria sair de Portugal. Senti que apesar dela dizer-me para eu ir, interiormente ela não queria que eu fosse. Eu tinha falado com algumas pessoas. E o Tony Henry, que tinha sido meu agente e que depois foi diretor-desportivo de uma ou duas equipas pequenas, deu-me a oportunidade de direcionar-me para o scouting. Ele entrou para chefe do recrutamento internacional do Everton. Um dia falámos por casualidade e ele disse que ia falar com o David Moyes. Conversei com ele, vimos como podia funcionar, porque eu não tinha noção nenhuma de scouting. Uma coisa é jogar futebol e entender futebol, outra coisa é ser analista e analisar profissionais. Mas fui-me adaptando. Foi um caminho que tive de trilhar de baixo para cima. Trabalhei sete anos no Everton.

E depois?
Tive uma oferta para ir para o West Ham num cargo de maior responsabilidade. Estive lá três anos. Entretanto, surgiu o projeto da Red Bull, do Leipzig. Conversámos e estou lá desde então. Vou começar a minha oitava época.

Contra o Arsenal e Thierry Henry, pelo Bolton
Contra o Arsenal e Thierry Henry, pelo Bolton
Shaun Botterill

Vive em Santo Tirso?
Sim. Eu era cidadão do mundo até surgir a pandemia. Raramente parava em casa. Após a pandemia, trocámos a abordagem. Passámos a fazer um perfil mais setorial. Passei para uma área de maior responsabilidade dentro do grupo. Sinto-me uma pessoa realizada. Fiz o curso de treinador de nível I e II, na Associação do Porto. Apareceram-me algumas possibilidades na área do treino, mas como não achei que fosse o momento certo, acabei por optar por ficar na área da observação e realizei-me dentro dela. É a minha 18.ª época sempre ao mais alto nível, a trabalhar na Premier League durante 10 anos e agora na Bundesliga. Também dou assessoria para o grupo da Red Bull, que tem muitas equipas.

Quem foram os jogadores mais importantes que recrutou?
Ninguém tem o toque de Midas, hoje o recrutamento é uma apelação de grupo, de opiniões, de decisões, eu fiz parte das últimas gerações do Leipzig.

Que característica é fundamental para si quando observa um jogador?
Eu não vou dizer do jogador. Para ser bastante elucidativo, vou dizer: o factor-chave do scouting é saber para quem trabalho. Não te vou falar de perfil. O bom scout, o bom analista sabe para quem trabalha. Ele tem que entender inside out, de dentro para fora e de fora para dentro, a estrutura, a metodologia, aquilo que o clube procura. Sempre me identifiquei com os clubes onde trabalhei, tanto é que sempre fui recrutado. Nunca fiquei desempregado. Deve existir algum mérito por trás do processo da minha avaliação como analista.

Tem naturalmente acompanhado a evolução dos jogadores. O que mais se alterou?
O jogador cresceu muito, muito, na parte cognitiva do jogo. Evoluiu não só numa função, mas em muitas. Hoje o jogador não é diagnosticado única e exclusivamente para uma só função. A parte cognitiva, cresceu taticamente falando. A própria dinâmica do jogo aumentou e diminuiu na parte da estrutural do jogo. Gosto daquilo que se viveu no passado, não desdenho.

O que mais se perdeu do passado e que tem pena?
Mais do que tudo, uma certa paixão, uma certa melancolia. O jogador perdeu um bocado isso, pelos números. Mas a culpa não é do jogador, é do sistema. Vem da pirâmide, da estrutura do futebol. O futebol cresceu financeiramente, as ligas estão cada vez mais poderosas. O revenue ganho através da televisão, do merchandising das competições aumentou incomensuravelmente. A exigência que os jogadores estejam aptos para jogar o maior número de jogos aumentou também. Os plantéis aumentaram muito. E depois há um gap, entre aqueles que podem e aqueles que não podem. E essa paridade para mim é o que mais frustra o futebol em geral. Porque não te adianta teres um Benfica, um FC Porto, um Sporting, um SC Braga fortes se o resto do conteúdo não conseguir competir. Nesse momento, vemos um Sporting forte, um Benfica com a potência que sempre teve e um FC Porto reestruturante, que vai chegar forte de novo no campeonato.

Paredão terminou a carreira no Vissel Kobe do Japão
Paredão terminou a carreira no Vissel Kobe do Japão
D.R.

O papel dos empresários também foi mudando. Ganhou demasiado protagonismo?
Não quero falar porque lido com eles. Eles têm um mediatismo que o mercado lhe oferece. Os bons empresários conseguem detetar a dinâmica das ligas e dos clubes, pela dimensão da força que eles têm mediante o leque de jogadores que conseguem trazer para a sua companhia.

O seu filho joga futebol?
Tentei. Não gosta. Às vezes pratica, mas não tem aquele bichinho. Está na área das ciências e a minha filha é formada em psicologia da saúde.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira?
Em Inglaterra.

Em algum clube em particular?
Por incrível que pareça foi na minha transição do Chelsea para o Sunderland.

Deu para investir em algum negócio ou só investiu em imobiliário?
Tenho uma diversidade de investimentos. Eu era formiga, nunca fui uma rainha no processo financeiro do jogo. Também cheguei tarde no mercado onde ganhei um bocadinho mais, mas não tem nada a ver com a realidade de hoje.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Nunca fui de extravagâncias. Não tenho. Joguei em Inglaterra durante oito anos e meio, nunca tive um Porsche, um Ferrari, um Lamborghini, um Aston Martin... Podia? Podia. A minha extravagância é poder fazer férias de qualidade com a minha família.

Paredão no Estádio da Luz a assistir a um Benfica-Tirsense para a Taça de Portugal
Paredão no Estádio da Luz a assistir a um Benfica-Tirsense para a Taça de Portugal
D.R.

Tem algum hobby?
Amo fazer BTT. Amo fazer passeios pelo monte de bicicleta. O meu grande grupo de amizade hoje gira todo em torno dos passeios de bicicleta.

Superstições tem ou teve?
Não.

Tem tatuagens?
Tenho uma em baixo do meu braço, que é uma coisa familiar. Fiz quando estava no Japão, é escrita em japonês.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
As lesões.

E o maior arrependimento?
Acho que a nossa irreverência é uma virtude, mas também pode ser um defeito. Foi através dessa irreverência, desse querer mais, de lutar por mais, da paixão que consegui chegar onde cheguei, de poder deitar a minha cabeça no travesseiro e dormir descansado, realizado, e dizer que se não fui mais longe, não foi porque não tentei.

O momento mais feliz na carreira?
A vinda para Portugal, a chegada a Inglaterra, os poucos títulos que conquistei, as amizades que fiz, a relação que criei com o Marcelo, com o Giovanella, com o grupo do Vialli na Inglaterra, em geral, dos grupos não trago grandes mágoas. Trago alguma mágoa, e a maior frustração que tenho pode ter sido a minha infeliz, entre aspas, passagem pelo Benfica. E as vitórias da Taça de Portugal, e da II Liga Portuguesa. A frustração foi não ter podido dar mais dentro do Benfica.

Se pudesse escolher um clube de sonho, onde gostava de ter jogado?
O facto de ter chegado no Benfica e no Chelsea, por exemplo, já são clubes com que muitos jogadores sonhariam...

Alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Não me lembro quem foi que disse, mas concordo plenamente: seria muito mais interessante se no futebol se pudesse fazer substituições como faz o futebol de sala, sem aquela paragem. E também acho que já que o VAR existe, para acabar com a polémica, o VAR devia ser completamente eletrónico. Se a máquina predeterminasse e fosse uma lei única para todos, predeterminada, a polémica do VAR acabaria com certeza.

Tem algum talento escondido?
Não sei. Sou um agregador, sou a pessoa que gosta do amigo, e que faço tudo para viver em boa vizinhança. Mas tenho um defeito, vou do 8 ao 80. É melhor tu ser meu amigo do que ser meu inimigo, não sou muito macio quando estou bravo.

 

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Rui Pedro

Spoiler

“A mágoa da saída do FC Porto vai estar sempre comigo. Não foi correta a forma de tratar um jogador formado na casa e que ama o clube”

Rui Pedro, de 27 anos, foi uma jovem promessa do FC Porto, mas acabou por não vingar no clube do coração, onde fez toda a formação dos 14 aos 18 anos. Sublinha que não foi por falta de vontade ou de talento que saiu do Dragão, mas devido a acontecimentos “estranhos”, aos quais, garante, foi alheio. O avançado, que está na Turquia há dois anos, revela pormenores da sua ascensão e queda no FC Porto, fala dos primeiros empréstimos ao Boavista e Varzim, antes de sair para Espanha, e da morte repentina do pai

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A casa às costas

“A mágoa da saída do FC Porto vai estar sempre comigo. Não foi correta a forma de tratar um jogador formado na casa e que ama o clube”

“A mágoa da saída do FC Porto vai estar sempre comigo. Não foi correta a forma de tratar um jogador formado na casa e que ama o clube”
Carlos Rodrigues

Rui Pedro, de 27 anos, foi uma jovem promessa do FC Porto, mas acabou por não vingar no clube do coração, onde fez toda a formação dos 14 aos 18 anos. Sublinha que não foi por falta de vontade ou de talento que saiu do Dragão, mas devido a acontecimentos “estranhos”, aos quais, garante, foi alheio. O avançado, que está na Turquia há dois anos, revela pormenores da sua ascensão e queda no FC Porto, fala dos primeiros empréstimos ao Boavista e Varzim, antes de sair para Espanha, e da morte repentina do pai

 

Nasceu em Paredes. O que faziam os seus pais profissionalmente?
Nasci em Paredes, mas sou de Pedorido. Os meus pais trabalhavam ambos numa fábrica. Eram operadores fabris.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais novo que vai fazer 19 anos.

Foi uma criança tranquila ou deu algumas dores de cabeça?
Era uma criança difícil, mas acima de tudo bem-educada. Não estava em casa cinco horas pegado a um tablet ou telemóvel como hoje, porque nem sequer tínhamos acesso a isso. Estava sempre na rua, com os amigos, a jogar futebol, a fazer mil e uma coisas.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Porque tive noção muito cedo das dificuldades que os meus pais passavam, o que eu ambicionava mesmo era tirar os meus pais daquele, não digo miséria porque miséria é outra coisa, mas daquele aperto enorme em que vivíamos. Foi difícil fazer o meu pai acreditar que eu poderia ser jogador de futebol. Na escola tirava boas notas, mas tinha mau comportamento e os professores por mais que dissessem ao meu pai que tinha de meter-me no futebol, o meu pai não deixava devido ao meu comportamento. Isto para dizer que eu não posso dizer que queria ser jogador de futebol, o meu objetivo principal era mesmo tirar os meus pais do aperto em que estavam naquele momento. Só que o futebol era a única coisa que eu sabia fazer.

Quando diz que tinha mau comportamento, o que quer dizer?
Nunca fui criança de fazer birras. Só que, se os meus pais diziam que não podia ir, eu ia na mesma, se diziam que tinha de estar em casa às seis e meia, sete horas para jantar, porque nas aldeias jantava-se cedo, eu nunca chegava a horas. E o meu pai era muito rigoroso.

Rui Pedro em bebé
Rui Pedro em bebé
D.R.

Torcia por algum clube em criança?
Sempre fui do FC Porto.

Quem eram os teus ídolos?
Tinha uma referência, o Falcão, mas não tinha um ídolo. Eu olhava para o meu pai como um ídolo. Na formação eu era ponta de lança, fixo, era um nove puro e a referência era o Falcão.

Quando e como foi jogar para um clube pela primeira vez?
Comecei a jogar futsal na escola com os mais velhos, tinha uns 11 anos. Na escola sempre fui uma referência, por causa dos recreios, jogávamos futebol no ringue e antigamente toda a gente ficava à volta do campo a ver-nos jogar. No início parecia ser um passatempo, mas depois o professor de Educação Física começou a perceber que podíamos fazer alguma coisa em condições, também muito devido ao meu talento, modéstia à parte. Realmente eu era diferente, não só pelo jogo, mas também pela raça, pela determinação. Nesse mesmo ano o professor conseguiu organizar um torneio com equipas federadas de futsal e defrontámos o Paços de Ferreira, o Académico, Nogueirense, e a verdade é que ficamos em 1.º lugar, fui o melhor jogador e o melhor marcador. Isto contra equipas federadas que treinavam diariamente enquanto nós só treinávamos à quarta-feira.

Como se deu a passagem para o futebol?
Ainda tive uma curta passagem no futebol 7, no Paivense. Mas devido ao mau comportamento na escola, acabei por sair. Na altura não sei se foi mesmo por comportamento ou se foi porque o meu pai não tinha posses, tínhamos de pagar equipamento, fato de treino e essas coisas. Acho que foi um bocadinho por aí. Depois estive um ano e meio sem jogar, até que voltei a jogar no Paivense. Eles vieram ter comigo e fizeram uma reunião com o meu pai, em que disseram que financiavam tudo, davam-me botas, para eu ir jogar futebol de 11. Tinha 13 anos.

Com os pais
Com os pais
D.R.

E a ida para o FC Porto, aconteceu como?
Um empresário amigo da família, o Armando Silva, veio falar connosco lá a casa. Na altura ele trabalhava com o Jorge Mendes e queria muito que eu fosse fazer testes a algumas equipas. Acabei por ir ao Benfica, ao Chelsea, ao FC Porto, ao West Ham e a outra equipa inglesa cujo nome não me recordo. O primeiro treino que fiz, no FC Porto, foi péssimo, correu-me mesmo muito mal. Até chorei ao vir embora. Era uma realidade completamente diferente. No Benfica já foi diferente, fui uma semana com eles para um torneio, em que fui o melhor jogador e o melhor marcador do torneio. Eles queriam muito que eu ficasse, mas acabei por ir para o FC Porto. Não foi o coração que falou mais alto, mas foi o que eles fizeram pelo meu pai, porque o meu pai estava desempregado, a minha mãe também, e eles arranjaram emprego para o meu pai e iam pagando umas parcelas, por objetivos. Foi a melhor decisão que podia ter tomado porque foram sem dúvida os melhores anos da minha vida aqueles que vivi no FC Porto.

Foi viver para a Casa do Dragão?
Sim, com 14 anos.

A adaptação foi difícil para um menino que vinha da aldeia?
Adapto-me muito rápido. Tenho um talento que é: fazer-me de forte. É um dos meus maiores talentos. E um gajo a fazer-se de forte acaba por não ligar tanto, ou as pessoas não te veem tanto como uma pessoa saudosa, carente, que também precisa e necessita de receber carinho e apoio.

Era daqueles que durante o dia era um durão, mas à noite chorava de saudades, com a cabeça enfiada na almofada?
Ainda sou assim. Agora não com saudades dos pais, infelizmente perdi o meu pai, mas tenho uma filha com cinco meses, tenho a minha mulher e tenho muitas saudades delas. Mas também são por elas os sacrifícios.

Rui Pedro com o irmão ao colo
Rui Pedro com o irmão ao colo
D.R.

Como foram as primeiras aventuras na Casa do Dragão?
Fui muito bem recebido por todos. Quase todos os miúdos da minha equipa estavam lá. Partilhei o quarto com o Rui Pires que ainda hoje é um dos meus melhores amigos e com o João Bola e o Fábio Ferreira, o guarda-redes. Depois veio o Bruno Pereira, lateral esquerdo, que também é um dos meus melhores amigos. A adaptação foi muito rápida, foi muito fácil. Foi tudo muito precoce. A minha vida no FC Porto, como hei de explicar, um ano passava em cinco meses, praticamente.

Porquê?
Porque nunca fiquei estagnado num escalão, tirando nos sub-15, em que fiz o ano todo. Depois, foi sempre a saltar de patamar, dois ou três patamares. Descia para jogar com os da minha idade, mas ia treinar e jogar outra vez em cima. Respeitavam-me muito por isso e na Casa do Dragão fui tratado como um filho pelas pessoas que lá estavam. Segundo as pessoas, tenho personalidade e eles gostavam, por isso foi tudo perfeito.

Quando diz que tem uma personalidade diferente, consegue explicar melhor o que quer dizer?
Definindo-me um bocadinho como pessoa, acho que preencho muito o espaço onde estou inserido. A minha alegria é contagiante, a minha forma de estar na vida é contagiante. A proteção para com as minhas pessoas é enorme. Costumo dizer que dou a vida pelas minhas pessoas. E eles sabem disso. Todas as pessoas que entram na minha casa e jantam comigo na minha mesa são pessoas em quem realmente confio muito, senão não o faria.

A propósito de saltar patamares no FC Porto, chegou à equipa B aos 16 anos. Subiu pela mão de Luís Castro?
Sim. Por incrível, quem fez o meu primeiro contrato no FC Porto, quando entrei aos 14 anos, foi o Luis Castro, ainda trabalhava na SAD. Depois, quando ele já estava na equipa B, fui chamado por ele, depois de um jogo-treino que fizemos contra eles.

Quando assinou o primeiro contrato profissional, qual o valor do seu primeiro ordenado e o que fez ao primeiro dinheiro que ganhou?
O ordenado do meu primeiro contrato profissional era de €3500, mas só tive acesso à minha conta com 19 anos. Fiz questão que os meus pais primeiro tratassem do que tinham para tratar, que era muita coisa, e só depois comecei a fazer a minha vida também.

As primeiras saídas à noite, os primeiros namoros, surgiram quando?
Não gosto muito de sair à noite, prefiro conviver com os amigos em casa. Também só comecei a beber álcool aos 20/21 anos. Vim de um meio diferente, o regime de educação dos nossos pais numa aldeia não era igual ao dos meus colegas, não tem nada a ver com uma educação dada numa cidade. Eu próprio também era muito fechado. Não era fechado no sentido de não me dar, era mais fechado naquele sentido de não querer fazer as coisas para não desiludir os meus pais, também com algum receio do meu pai. Ele era muito exigente no sentido de não querer que eu fosse igual a ele. Não tenho nada contra as pessoas que trabalham numa fábrica, mas naturalmente ele queria que tivesse uma vida melhor que a dele. Por isso ele ficava muito chateado com o meu comportamento na escola. Não que eu fosse mal-educado com alguém, mas era daquele género de meter toda a gente a rir na sala, e se havia alguma coisa, o culpado acabava por ser sempre eu.

A propósito da escola, concluiu os estudos em que ano?
Fiz o 12.º ano no Porto.

Em criança
Em criança
D.R.

Quais são os momentos mais marcantes na formação do FC Porto?
São todos. O mais marcante, já depois daquele primeiro treino que correu muito mal, foi o primeiro treino com os sub-15, com o António Folha, o meu treinador. Foi um dos treinadores mais importantes porque acreditou sempre em mim de uma maneira que nem tenho palavras. Esse primeiro treino nos sub-15, em que ia começar a época no FC Porto, correu-me mal também. Eu achava que não tinha feito o que devia ter feito.

Estava muito nervoso?
Não. Era mesmo uma fase de adaptação que somos obrigados a ter. Tens de estar num nível de concentração bom, porque já não é uma brincadeira. O mister sentou-nos no chão no final do treino e perguntou a alguns jogadores se treinaram bem e o que achavam do treino. Perguntou-me se achava que correu bem, eu disse que não e até chorei no banho. Fiquei um bocadinho mal, mas queria tanto aquilo naquele momento que a partir daí foi mesmo tudo muito rápido. Torneios fora, acabei a época com 52 golos. Na época seguinte fiz logo a pré-época na equipa B.

O Luís Castro é muito diferente do Folha?
O FC Porto trabalhava muito da mesma forma. Claro que individualmente cada treinador é diferente, mas dentro daquele esquema tático que tinha o FC Porto do 4x3x3 sólido, ou seja, não havia ainda estas nuances de um 3x4x3 ou de um 5x2x3. Mas eram os dois muito chegados aos jogadores, gostavam de falar com os jogadores, saber como estão pessoalmente. O Folha é mais novo, era assim mais irreverente, mais impulsivo às vezes. O Luís Castro tinha uma maturidade já diferente, outro pulso, nós olhávamos para ele de uma maneira diferente, mas era um homem extraordinário, brincava connosco quando tinha de brincar e quando era para trabalhar, era um trabalho mesmo sério. Evoluí muito com ele.

Aos 14 anos, o avançado concretizou o sonho de jogar no FC Porto, onde fez a formação
Aos 14 anos, o avançado concretizou o sonho de jogar no FC Porto, onde fez a formação
D.R.

Como se projetava no futuro? Qual era a sua maior ambição?
Tendo em conta a minha rápida evolução e ascensão e como as pessoas me tratavam, comecei a ambicionar estrear-me pela equipa principal. Não pensava que ia ser tão rápido, mas ambicionava um dia chegar à equipa principal do FC Porto. Nunca vi o FC Porto como um clube de relançamento, como um meio para chegar a um fim, do género, vou fazer um ano bom no FC Porto e vou para o United ou para o Chelsea. Não. Na minha cabeça naquele momento só existia o FC Porto e era muito claro o objetivo. Eu lutava tanto e pensava tanto naquilo que acabou por acontecer mais rápido do que eu ou a minha família pensava.

Quando foi chamado pela primeira vez para representar Portugal?
A minha primeira internacionalização foi com 15 anos. Como dizia há bocado foi tudo muito precoce, porque eu saí do Paivense, fui para o FC Porto e passado três jogos fui chamado para a seleção. Foi tudo muito rápido.

Quais os melhores momentos que guarda dos vários escalões da seleção portuguesa onde jogou?
Todos os momentos com o treinador Filipe Ramos, que é um treinador especial, porque não é só um treinador, nenhum jogador o via só como treinador. Todos os momentos com o mister Hélio foram fantásticos. É também uma pessoa 10 estrelas e acreditava muito nas ideias dele, era incrível connosco. Tínhamos um grupo muito forte e dávamos-nos todos muito bem. Por isso é que conseguimos fazer muitas coisas bonitas nas seleções.

Quando foi chamado para treinar pela primeira vez com a equipa principal?
Foi logo aos 16 anos, pelo Lopetegui.

Estava nervoso por ir treinar com as grandes figuras do clube?
Nervoso não, estava ansioso para que o treino começasse. Mas tive azar porque torci logo o pé. Chutei a bola e o Opare chegou tarde e torceu-me o pé. Os treinos eram intensos, a qualidade já era fora do normal porque o FC Porto na altura era muito forte.

Qual foi o jogador que mais o surpreendeu?
Nesse primeiro treino não me recordo, só me lembro de estar ansioso, entrar e torcer o pé, estive pouco tempo a treinar. Mas foram todos impecáveis comigo. Mais para a frente, o jogador que mais me surpreendeu foi o Corona. Na parte técnica, era absurdo. E o Herrera, naquilo que é o entendimento do jogo. O mister era impecável comigo. Brincava muito comigo, os jogadores também, receberam-me de uma forma incrível. Com o tempo começas a sentir-te mais jogador porque o entendimento deles contigo é diferente, o jogo é mais rápido, é mais fluido, percebes que se eles fazem, também tens de fazer, se tiveres talento e vontade, as coisas acabam por acontecer.

Acabou por estrear-se na equipa principal já com Nuno Espírito Santo como treinador. Recorda-se do jogo?
O meu jogo de estreia foi para a Taça com o Belenenses. Entrei bem no jogo, mas acabámos por empatar 0-0. Havia muita pressão naquela altura no FC Porto, porque a equipa já não marcava há muitos jogos. Íamos enfrentar o SC Braga dias depois, eu não contava ser chamado porque havia jogadores que voltaram de lesão, mas acabei por ser convocado. E no dia do jogo, senti que se entrasse ia fazer golo.

Foi um pressentimento?
Sim, porque sonhei muito com isso no dia anterior. Não é bem sonhado, antes de adormecer, pensei e visualizei mesmo muito as formas que poderia fazer o golo e acabou por acontecer.

Tinha 18 anos. Recorda-se do que o Nuno Espírito Santo disse-lhe antes de entrar em campo?
Disse só para eu desfrutar. Ele dizia-me sempre que eu tinha muita, muita qualidade, mas do que gostava mais em mim, era a alegria com que eu treinava, a forma com que eu estava no treino. Nunca mais me esqueço a maneira como ele disse: “Vamos entrar, desfruta do jogo com a tua alegria e vai correr tudo bem.”

Consegue lembrar-se do que sentiu quando marcou aquele golo contra o SC Braga?
Não consigo expressar o sentimento por palavras. Quando fiquei sozinho com o guarda-redes à minha frente, estava muito claro na minha cabeça o que queria fazer. O estádio naquele momento, não digo que foi por ser o meu golo, viveu aquele momento de uma forma diferente, porque já não marcávamos há muito tempo. Foi o desbloquear da situação em que estávamos, sob pressão, toda a gente.

A partir daí pensou e sentiu que havia agarrado o seu lugar na equipa principal?
Não. Havia muita qualidade, sabia que tinha de ser aos poucos. Claro que se as coisas tivessem sido feitas de outra forma, eu poderia estar noutra situação, acredito que sim, mas as coisas são como são.

Explique então o que aconteceu para ter ido parar ao Boavista na época 2017/18.
Não quero falar sobre isso. As pessoas que fizeram o que fizeram já não estão lá, felizmente. Já foi tudo mandado embora. Eu também não consegui perceber muita coisa. Estava no europeu sub-19, em que fomos à final contra a Inglaterra, e eu, o Dalot e um jogador inglês fomos eleitos os melhores jogadores do Europeu. Voltámos ao FC Porto. Depois tivemos outra vez um estágio com a seleção, para fazer dois jogos contra a Suíça. Nesse estágio estava no quarto com o Rui Pires e vejo no rodapé da TV que eu tinha sido emprestado ao Boavista.

Não sabia de nada?
Pois. Eu, que era o jogador, não sabia o que estava a acontecer.

Quem era o seu empresário?
Prefiro não dizer.

Mas deve ter falado com ele depois, não lhe perguntou o que se passou?
Como disse, não quero falar ainda sobre o assunto. O que posso dizer é que senti um misto de sensações. Tudo começou a desenrolar-se porque deixei o empresário que tinha e passar para um novo, o mesmo que tenho agora, e a partir daí foi o desmoronar de tudo. Não posso dizer mais nada por agora, não é o momento certo.

A passagem pelo Boavista não correu muito bem. Porquê?
Eu era apenas um miúdo que ia emprestado pelo FC Porto. Mas aconteceram muitas coisas, muitas polémicas e confusões, saíram notícias sobre mim que não correspondiam à realidade.

Que tipo de notícias?
Que eu saía à noite, que fazia isto e aquilo, que andava não sei onde. Coisas que não faziam mesmo sentido nenhum, que não existiam e que não eram verdade. Acho que o meu exterior, talvez a forma como me expresso, faz parecer às pessoas uma coisa que não sou.

Não se defendeu?
Não, não tinha a maturidade que tenho agora, não tinha o acesso às coisas que tenho agora, eram tempos completamente diferentes. O que posso dizer é que até o Pinto da Costa disse: "O Rui Pedro vai ser um jogador de grande utilidade". E, de repente, parece que passei de bestial a besta.

Sente que teve alguma responsabilidade na mudança de atitude do FC Porto para consigo?
Não, é completamente alheio a mim. A mágoa ainda está comigo, não minto, e vai estar sempre, porque não foi a forma correta de tratar um jogador que ama o clube e que é formado na casa. A partir do momento em que fui para o Boavista e para todos os outros clubes porque passei, antes de sair do país, a minha cabeça esteve sempre no FC Porto. Nunca consegui desvincular-me totalmente do FC Porto, nunca consegui ser um jogador das equipas onde estava inserido, nunca consegui. Depois de estar inserido nos clubes, eu queria tanto voltar para o FC Porto que em vez de lutar e fazer algo para voltar, deixava que o tempo fosse passando e só desejava que chegasse rápido o final da época.

Chegou a fazer pré-época com Sérgio Conceição, antes de ir para o Boavista?
Eu fiz duas pré-épocas com o Sérgio Conceição, antes de ir e depois de vir do Boavista.

Tinha esperança de ficar no FC Porto depois do Sérgio Conceição o ver treinar?
Lá está, foi tudo muito estranho.

Durante a primeira pré-época com o Sérgio Conceição, que indicações é que ele foi dando? Mostrava estar satisfeito com o seu trabalho?
Não conseguia entender bem, porque o Sérgio era um treinador mesmo para a equipa toda. As pessoas sabem perfeitamente que o Sérgio é um treinador diferente. É um treinador especial. Não há nenhum treinador no mundo como o Sérgio.

Porque diz isso?
A maneira de ele ser, a maneira como ele trabalha, nunca vi nada igual. A maneira como os treinos são tratados, nunca vi nada igual, a intensidade do treino, nunca vi nada igual e depois podem dizer assim, ele berra, faz não sei quê, mas, no fundo, vais colher os frutos daquilo tudo. É impressionante. Eu não guardo mágoa do mister, porque aquilo foi tudo muito estranho. Queria, não queria, queria, não queria... O que me chegava eram informações sem base, contraditórias. Diziam que estava a gostar muito, depois já não queria, estava a gostar muito, depois já era, se calhar é melhor saíres para jogar...

Quem lhe dava essas informações?
Pessoas do clube. O que fizeram comigo não se faz. Na altura não tinha noção do impacto que tive naquele momento, hoje consigo ter mais noção do que realmente foi, do que foi comentado, do que foi falado e acho que foi mesmo muito mal gerido, sinceramente.

O avançado começou a ser chamado para representar Portugal aos 15 anos
O avançado começou a ser chamado para representar Portugal aos 15 anos
D.R.

Já tinha deixado de viver na Casa do Dragão?
Sim, fui viver para os apartamentos por cima do Dolce Vita, para onde ia a maioria dos jogadores que saiam da Casa do Dragão. Fui para lá com o Rui Pires.

E namoro sério ainda não havia?
Sim, estou com a minha mulher desde os 16 anos. Conheci a Bárbara na escola. Ela é irmã de um dos meus melhores amigos na altura. Eu gostava muito dela, mas nunca a tinha visto com outros olhos, porque era a irmã de um dos meus melhores amigos, mas as coisas foram evoluindo. O pai deles, o meu sogro, teve muita influência também na minha carreira, porque me levou muitas vezes aos treinos. Mas quando fui para o Boavista já tinha comprado casa em Canidelo. E depois a Bárbara foi viver comigo. Já faço vida de casado há muitos anos.

Disse no início da entrevista que já perdeu o seu pai. Quando e como aconteceu?
Ele faleceu há seis ou sete anos. Foi repentino. Eu estava na minha casa com a Bárbara e o meu irmão, que tinha 13 anos, ligou-me a chorar, aos berros, a dizer que eu tinha de ir rápido para casa, que o pai não estava bem. Fui para lá a correr, ainda estive de volta dele algum tempo com os bombeiros, mas já não deu. Foi um ataque cardíaco fulminante.

A estreia na Liga dos Campeões contra o Leicester City, em 2016
A estreia na Liga dos Campeões contra o Leicester City, em 2016
Carlos Rodrigues

Como foi a sua estreia no Boavista?
Até correu bem, fiz logo golo contra o Estoril Praia, com assistência do Fábio. Fui porque era o mister Miguel Leal que supostamente me queria, mas, entretanto, foi despedido e veio o mister Jorge Simão. A minha estreia lá já foi com ele. Mas o jogo a seguir era como FC Porto, no Bessa, e o jogador que jogava na minha posição fez um jogo muito bem conseguido, muito bom e senti logo que as coisas iam começar a desmoronar. Eu era miúdo, não tinha a autoridade que tenho agora, depois falava-se muito, muitas coisinhas daqui e dali. Eu não tinha muita paciência para essas coisas. As pessoas se quisessem saber a verdade que viessem falar comigo.

Nunca tentou defender-se de alguma maneira?
Como é que te vais defender de um boato? Houve 20 boatos. É impossível. Eu posso inventar uma coisa sobre ti, falar 10 vezes essa coisa, pedir a mais pessoas que falem... Para que me ia expor mais do que o que já estava a ser exposto? Eu até podia defender-me, mas para quê, sinceramente? As pessoas que estiveram comigo desde os meus 15 anos é que tinham de confiar e perguntar-me, se queriam saber a verdade. Não era acreditarem em coisas que chegavam, não sei de onde.

Está de consciência tranquila em relação aos seus comportamentos?
Completamente.

Como foi a relação com o Jorge Simão e o que achou dele enquanto treinador?
Não tenho muito o que dizer, sinceramente. Se calhar, não foi a melhor versão de mim para ser treinada por ele. Acho que não estávamos no mesmo enfiamento. Ele até pode ter puxado para mim, já não me recordo, mas eu não estava com a cabeça lá. O grupo era bom, fiz boas amizades boas, mas...

Sentiu que tinha baixado um patamar e não sabia lidar com isso?
Sim. Baixei um patamar quando não o merecia e em vez de lutar para sair fui muito abaixo psicologicamente.

Não pediu ajuda? Desabafava apenas com a sua namorada?
Não sou muito de desabafar, nunca desabafei nada, com ninguém. Nunca fui muito capaz de falar dos meus problemas. Por isso se calhar ainda hoje tenho a mágoa que tenho, porque as coisas deviam ter sido diferentes, sou o jogador que sou e sei o talento que tenho.

O avançado foi emprestado ao Boavista em 2017/18
O avançado foi emprestado ao Boavista em 2017/18
D.R.

Após o empréstimo de um ano ao Boavista, regressa para fazer pré-época com o FC Porto e mais uma vez acaba emprestado, mas desta vez para o Varzim, que estava na II Liga. Como acabou por descer mais um patamar?
Nem eu sei. Não consigo explicar. Não consigo arranjar uma justificação. Um jogador que é uma promessa do melhor clube em Portugal e vai parar à II Liga, num clube quase a descer de divisão... Alguma coisa estranha estava a passar-se ali dentro.

Sentiu serem "guerras" de empresários, ou no clube, que o prejudicavam?
Como disse, não posso nem quero falar do assunto. O que posso dizer é que fui completamente alheio ao que aconteceu. As coisas aconteciam sem eu saber e perceber. Dizia-me que ia para ali sem eu saber o porquê.

Não perguntava a razão de ir para aquele clube?
Já não me recordo bem. Sinceramente, essa fase foi passada a mil na minha cabeça. Por acaso a época correu bem, porque apanhei dois treinadores que foram muito bons para mim e que gostavam muito de mim, mas foi passada a mil mesmo. Não reagi bem de certeza, não era só um passo atrás, eram três passos atrás.

Ainda iniciou essa época 2018/19 no FC Porto B, com Rui Barros.
Sim. Mas depois passou-se muita coisa lá dentro. O FC Porto chegou ao ponto de meter-me a treinar à parte. Tem noção do que isso é para um jogador da formação desde os 14 anos? Treinar à parte?

Mas continua a afirmar que não teve culpa direta em todo esse processo.
Exatamente. Pode ser que quando acabar a carreira eu dê uma entrevista para explicar algumas coisas que se passaram.

Não se recorda nada dessa época no Varzim?
Foi uma época difícil, de resiliência, de um grupo com jogadores muito bons. Não sabia que os jogadores eram tão bons, surpreenderam-me mesmo muito, foram incríveis comigo. Ao nível dos jogadores, em todos os clubes que passei, fui sempre recebido de uma forma incrível, porque eles sabem o que sou, sou verdadeiro, sou frontal.

Notou grande diferença da I para a II Liga?
Sim, claro. Na altura tinhas mais espaço na I do que na II Liga, mas eu também estava a jogar numa equipa mais inferior, acabámos por conseguir a manutenção, mas foi uma época difícil.

Dizia há pouco que era um verdadeiro ponta de lança, um número 9…
...No FC Porto, sim, mas depois comecei a perder muito a referência ponta de lança. Acho que sempre tive faro para o golo e continuo a ter, mas um ponta de lança como antigamente eu era, já não sou. Evoluí noutros sentidos, devido às equipas por onde passei e ao que o treinador nessas equipas precisava de mim, para outras posições.

 

Spoiler

“Sou muito esquisito com os cheiros. Tenho a alcunha de 'princesa' porque sou muito cuidadoso com a higiene e gosto de me perfumar”

Nesta Parte II do Casa às Costas, Rui Pedro continua a abordar a saída do FC Porto e os empréstimos ao Granada B e Leixões, antes de assinar pelo FC Penafiel, onde jogou duas épocas. Falamos também das conquistas do campeonato e da Taça da Eslovénia e dos últimos dois anos no Hatayspor, da Turquia. Pai há cinco meses, o avançado confessa ainda que o seu maior talento “é fingir que está tudo bem”

Inicia a época 2019/20 no Granada B, da Espanha. Já fazia parte dos planos sair do país?
Nada do que me tinha acontecido até ao momento me passava pela cabeça. Mas pronto, fui para o Granada B e até foi bom para mim, porque adorei estar lá.

A sua namorada, a Bárbara, foi consigo?
Não, na altura ela ainda estudava. Tirou o curso de cabeleireira e ainda trabalhou muitos anos como cabeleireira.

Foi bem recebido em Granada?
Sim, ambientei-me muito rápido. Estava lá o Rui Silva, que me ajudou muito. Treinei algumas vezes com a equipa A, mas jogava sempre na equipa B. Foi bom, gostei muito de estar em Granada, adorei a Espanha.

Só ficou seis meses porquê?
Mais uma vez, não posso contar agora o porquê de ter vindo embora.

Em 2019/20, Rui Pedro foi emprestado ao Leixões
Em 2019/20, Rui Pedro foi emprestado ao Leixões
D.R.

Veio de Granada para ser emprestado ao Leixões, onde jogou época e meia, certo?
Sim. Gostei do Leixões, é um bom clube, mas, claro, a II Liga é muito difícil, há jogadores muito bons, as pessoas não têm noção, mas há muita qualidade. Existe muita qualidade em todos os escalões de Portugal, a realidade é essa. Hoje em dia vejo jogadores a sair de escalões muito inferiores para I e II Ligas e dão-se bem. Tens o caso do Jota Silva, que jogou comigo no Leixões.

Teve seis treinador nessa época e meia, no Leixões. Algum que o tenha marcado mais?
O Manuel Cajuda. É incrível. Todos os dias acontecia alguma coisa diferente com ele.

Recorda-se de alguma história com ele?
Epá, sim, mas não posso contar [risos]. É um homem 10 estrelas, devíamos ter mais gente desta. E atenção que ele percebe de futebol. Ele tinha uma ideia muito clara do que é o jogo e do que é a vida dentro do futebol. Adorava-me e falava muito comigo. Era incrível.

Rui Pedro esteve época e meia no Leixões
Rui Pedro esteve época e meia no Leixões
D.R.

Em 2021 acabou por assinar com o FC Penafiel e deixou definitivamente de estar ligado ao FC Porto. Foi a única proposta que teve?
Pelo que soube, foi o único clube que fez mesmo uma oferta.

O que lhe passava pela cabeça, e pelo coração, ao perceber que o vínculo com o seu amado FC Porto estava desfeito? Pensou que nunca mais iria jogar num grande?
Sim. Nunca ia jogar num grande, a não ser no FC Porto, porque sei o que o FC Porto significou e significa para mim. Agora, regressar ao FC Porto, claramente que estava fora dos planos.

Foi ganhar muito menos do que ganhava no FC Porto?
Sim, foi significativo. Notava bem a diferença.

O que pode contar dessas duas épocas no Penafiel? Alguma coisa que tenha marcado mais?
O mister Pedro Ribeiro. Até a saída dele estávamos bem. Marcou-me pela pessoa e pela vontade que tinha de ser treinador num nível alto. Depois dele sair, nem sei explicar... foi diferente, não posso dizer mais.

No final dessa época e meia o FC Penafiel não quis renovar?
Acabou o contrato e eu não queria ficar lá, mas também não tive ninguém que me dissesse: "Olha queremos que fiques aqui." Mesmo que dissessem, eu não queria ficar.

Que propostas teve na altura?
Que me lembre, foi só do Olimpija Ljubljana, da Eslovénia. Fui para lá em agosto.

Como foi o primeiro impacto?
Já estava lá um português que jogou comigo no FC Porto durante alguns anos, o David Sualehe. No início não fomos recebidos de uma forma extraordinária porque têm uma cultura diferente, são mais frios, mas com o tempo fomos ganhando o nosso espaço e depois já éramos vistos de uma forma diferente pelas pessoas do clube, pelos adeptos.

O seu inglês era bom?
Entendia, mas para falar era muito fraco.

Que tal era o clube?
Não nos faltava nada, tinha condições e ainda poderia ser melhor. Não eram pessoas calorosas, nem de afetos.

Foi sozinho ou com a namorada?
Ela foi comigo e adorou. O país é fantástico, super limpo, muito bom mesmo.

Em 2022/23, Rui Pedro foi jogar para o Olimpija Ljubljana, da Eslovénia
Em 2022/23, Rui Pedro foi jogar para o Olimpija Ljubljana, da Eslovénia
D.R.

O balneário era muito diferente do que estava habituado?
Sim, não têm aquela coisa de fazer almoços, de saírem, das brincadeiras. No segundo ano já tínhamos uma moral diferente, já olhavam para nós de uma maneira diferente, já entravam mais nas nossas brincadeiras.

A primeira época correu bem, ganharam a Taça e o título. Qual foi a sensação de ser campeão pela primeira vez?
Foi muito bom. Foi aí que comecei a sentir novamente o amor que tinha pelo futebol.

Começou a conseguir esquecer o FC Porto?
Não. Não vou mentir. Mas comecei a sentir outra vez a paixão pelo futebol, a vontade de fazer golos e de querer fazer sempre mais. No segundo ano, entrar numa competição europeia, meteu-me num patamar altíssimo. Trouxe o melhor de mim. Com o João Henrique foi muito bom.

O futebol praticado na Eslovénia é muito diferente do português?
O nível é mais fraco. É mais à base do físico. Mas o João Henrique implementou coisas diferentes e foi muito por aí que conseguimos entrar numa competição europeia.

Assinou dois anos e meio com o Olimpija, mas só ficou ano e meio. Porquê?
Eles queriam renovar comigo, se eu não renovasse não jogava. Aqueles problemas normais dos clubes. Tens de arranjar um clube que traga dinheiro, senão não sais. Em janeiro estive muito tempo a treinar à parte, foram de estágio de pré-época no inverno e nem fui com a equipa.

Por que razão não queria renovar?
Porque a época estava a correr-me muito bem e iam aparecer coisas melhores de certeza, eu queria ir para um patamar diferente. Até que apareceu o Hatayspor, da Turquia, em janeiro, e fui.

A agradecer por mais um golo marcado ao serviço do Olimpija Ljubljana
A agradecer por mais um golo marcado ao serviço do Olimpija Ljubljana
D.R.

O Hatayspor foi um dos clubes mais afetados pelo sismo que atingiu a Turquia e a Síria em 2023. Várias pessoas ligadas ao clube, incluindo jogadores e funcionários, perderam a vida no terramoto. Não teve receio de ir para lá?
Eu vivo um dia de cada vez. Neste mundo somos o quê? Pode acontecer a qualquer um, a qualquer momento, em qualquer sítio do mundo.

Quando chegou à Turquia quais foram as primeiras impressões?
Cultura diferente, comidas diferentes, maneiras de estar diferentes, treinos diferentes. A primeira coisa que me fez mais confusão foi ninguém em Istambul falar inglês. Ainda não consegui perceber como num dos maiores aeroportos do mundo ninguém fala inglês. Se precisas de ajuda para alguma coisa, tens que desenrascar com o tradutor no telemóvel, senão não tens hipótese. E depois as pessoas não te ajudam em nada. Esse foi o primeiro choque. Depois tens o choque do clube, que é um clube médio-baixo, que luta para se manter. Acabámos por descer de divisão esta época.

Na primeira época, o que achou da Superliga turca?
É uma liga boa e agora ninguém consegue perceber bem o que está a acontecer na Superliga. Acho que é o efeito Mourinho e de jogadores com o nível do Icardi, Osimhen, Tadic a virem para aqui. Mudaram o estigma do futebol turco. Acho que vai ser cada vez melhor por causa dos jogadores e dos treinadores europeus que estão a vir para cá. Porque o treinador turco tem um fundamento de treino completamente diferente do europeu.

Em que aspetos?
Em todos os aspetos. Não há grandes bases de treino, é tudo muito para a parte física, pouco trabalho com bola, há poucos registos de nuances de bolas paradas.

Rui Pedro segura na Taça do campeonato conquistado em 2022/23, pelo Olimpija Ljubljana
Rui Pedro segura na Taça do campeonato conquistado em 2022/23, pelo Olimpija Ljubljana
Damjan Zibert Photography

Acha que pode beneficiar do facto do mercado na Turquia estar a mexer tanto?
Não. O futebol é um jogo coletivo. Não há nenhum jogador no mundo, a não ser o Messi, que possa resolver um jogo sozinho. Ou seja, precisas dos teus colegas, precisas de um bom projeto, precisas de um clube estável e aqui na Turquia tudo o que possas imaginar de estável, não há. Não há estabilidade nenhuma. Os jogadores ficam um, dois meses sem receber. Recebes um e estás outra vez dois meses sem receber, seja em que clube for. Se estás num clube de topo na Turquia, estar dois meses sem receber se calhar não te faz grande diferença.

Já esteve quanto tempo sem receber?
Dois meses e meio.

Deve ter muitas histórias para contar da Turquia. Pode partilhar uma ou duas?
Assim, de repente, não me lembro. Tirando o cheiro a tabaco constante, em todo o sítio por onde andas. Sou muito esquisito com os cheiros. As pessoas tratam-me por "princesa" porque sou muito cuidadoso com a higiene e gosto de me perfumar.

Entretanto, foi pai. Conseguiu assistir ao parto?
A Elara nasceu em fevereiro, em Portugal, e consegui assistir ao parto sim.

Mudou muita coisa desde que foi pai?
Mudou tudo. Não sei explicar. Ainda estou à procura de arranjar o significado. Mal nasceu, não há palavras para descrever o sentimento, é muito incrível. É mais difícil agora ficar longe. A minha filha e a minha mulher são as pessoas mais importantes da minha vida e é muito difícil estar sem elas. Não gosto de estar sozinho. Odeio estar sozinho.

O que faz para se entreter no dia a dia, quando não está no clube?
Estou no computador, jogo PlayStation, vejo séries, filmes. Antes era viciado em reality shows. Cozinho para mim, porque não gosto nada de comidas com molhos e aqui é tudo com molhos. Sou mesmo português, da aldeia, gosto da comida típica portuguesa, do arroz, da carne, da batata, do peixe. Tive de aprender a cozinhar para fazer essas coisas para mim.

Algum prato em que seja especialista?
[Risos] Isso não há. Só cozinho para mim, porque sei que vou comer. [risos]. Faço massa, bife, arroz, meto um salmão no forno, coisas simples.

Já fez amizade com algum jogador na Turquia?
O ano passado estava aqui o Calvo, capitão da seleção da Costa Rica. Adorei conhecê-lo. O Joelson Fernandes também está aqui comigo, é um bom miúdo.

Então não tem histórias para contar da Turquia.
Lembrei-me de uma. Tivemos uns dias livres e fomos à Capadócia, a Bárbara já estava grávida e ela queria muito andar de balão. Marcámos tudo direitinho, no dia do balão chegámos lá e a senhora: "Você está grávida, não pode andar" [risos]. Fiquei todo contente. Éramos quatro, fomos com uma amiga e a minha cunhada, irmã dela, e decidimos então que estávamos todos juntos, vivemos muito como um clã, por isso ninguém ia andar de balão. Claro que fingi que ficava triste, mas estava todo contente porque eu não queria andar de balão [risos].

Rui Pedro com a mulher, Bárbara, grávida da filha Elara
Rui Pedro com a mulher, Bárbara, grávida da filha Elara
D.R.

Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Não.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Quero jogar o mais possível.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Turquia.

Deu para investir?
Investi na minha casa no Canidelo, tenho a minha casa em Pedorido também, tenho três carros, mas não investi em mais nada, por enquanto.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Fui às Maldivas com a minha mulher.

Tem algum hobby?
Passar tempo com a minha família.

É um homem de fé?
Já fui.

Superstições tem ou teve?
Não.

Com a filha recém nascida
Com a filha recém nascida
D.R.

Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez?
Curiosamente foi o Pai Nosso, no braço, tinha 16 anos. Mas a mais importante é a data da morte do meu pai.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Acompanho futsal, ténis e NBA. Praticar, não podemos.

Qual a maior frustração que tem na tua carreira?
Ter saído do FC Porto.

E o maior arrependimento?
Não tenho.

O momento mais feliz na carreira?
Marcar aquele golo contra o SC Braga.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
FC Porto e Barcelona.

Tem ou teve alguma alcunha?
Princesa. Já a tinha no Penafiel, por causa dos perfumes.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Acho que as substituições devem ser feitas em andamento, sem parar o jogo. As regras estão um bocadinho estranhas porque há foras de jogo num campeonato, que no outro não são marcados e é exatamente o mesmo lance.

O VAR não o convence?
Tornou o futebol mais justo, não o tirava.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou até hoje?
O Rúben Dias.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Teria sido jogador de futebol amador [risos]. Honestamente não consigo imaginar outra profissão.

Tens algum talento escondido?
Finjo que está tudo bem.

Qual foi o momento da carreira em que se sentiu mais realizado?
Foi o meu pai ter visto eu ser profissional pelo FC Porto.

@silentz

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Rafael Ramos

Spoiler

“No Sporting, aos 17 anos, disseram-me que não ia continuar e que, na opinião deles, nunca chegaria a profissional. Não se faz”

Rafael Ramos, de 30 anos, vestiu durante sete anos a camisola do Sporting, mas, à beira de tornar-se profissional, foi obrigado a sair de Alvalade, tendo um ano depois passado para o clube do outro lado da 2.ª Circular. Após jogar pelos encarnados, foi tentar a sorte nos EUA, onde durante cinco épocas jogou ao lado de figuras como Kaká e Schweinsteiger. Seguiu-se uma experiência nos Países Baixos, antes de regressar ao futebol português

Nasceu em Seia. Pode começar por dizer o que faziam os seus pais profissionalmente e se tem irmãos?
Os meus pais trabalham numa fábrica têxtil e tenho um irmão, o Fábio, mais velho sete anos. Cresci em Santa Marinha, uma aldeia muito pequena da Serra da Estrela.

Deu muitas dores de cabeça aos seus pais em criança?
A minha mãe diz que dei muito trabalho, que tinha de andar sempre a correr atrás de mim, nunca parava quieto no mesmo lugar; que era muito complicado ir a casamentos comigo, chegava muito cansada a casa [risos].

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Foi sempre futebolista.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
O meu pai jogou, mas não foi profissional. Jogava nos clubes das terrinhas, nunca chegou a um nível alto, por isso não sei se veio daí a minha paixão. Acho que se calhar eu tinha mesmo um dom.

Em pequeno torcia porque clube?
Pelo Sporting. Lá em casa o meu pai e irmão eram do Sporting e aprendi a gostar do clube.

Tinha ídolos?
Desde que me lembro é o Cristiano Ronaldo. Foi sempre o meu ídolo.

Rafael Ramos começou a formação no Sporting aos 10 anos
Rafael Ramos começou a formação no Sporting aos 10 anos
D.R.

Gostava da escola?
Gostava da escola, não gostava das aulas. Como todos os miúdos que gostam de jogar futebol, que gostam de andar na rua, não adorava as aulas, mas nunca tive problemas, nunca chumbei, sempre me safei.

Quando e como vai jogar pela primeira vez para um clube?
Eu jogava num clube muito pequeno, em Vila Nova de Tazem, em que só íamos treinar aos sábados, e o meu professor de educação física viu que eu era um pouco diferente dos meus colegas, enviou uma carta ao Sporting a perguntar se eu poderia ir lá fazer treinos. Entretanto, fui jogar para a Fundação Laura Santos, tinha nove ou dez anos, e um dia o Sporting chamou-me para ir lá treinar.

Como correu?
Eles gostaram de mim e durante um ano fui para lá treinar alguns fins de semana. Ia e voltava. Nessa altura não me mudei para Lisboa. Aos 11 anos é que eles decidiram continuar comigo, mas queriam fazer um acompanhamento mais próximo e diário.

Foi viver para a Academia?
Sim, mas só estive um mês na Academia porque o meu pai largou a vida dele toda e mudou-se para Lisboa comigo. Foi morar comigo para lá.

Em ação pelo Sporting
Em ação pelo Sporting
D.R.

Quando ingressou na Academia, custou-lhe muito deixar o ninho?
Custou-me muito. A vida na aldeia não tem nada a ver com a vida em Lisboa. O ficar na rua até tarde com os meus amigos, acabou-se; o estar longe de toda a minha família, dos meus avós, dos meus pais, foi muito difícil no início. Mas, por outro lado, ia cumprir um sonho. Ia jogar no Sporting, que era o meu clube de infância. Claro que achei que a partir dali poderia ter muito mais hipóteses de cumprir o sonho de ser jogador.

Foi viver para onde depois, com o seu pai?
Morámos em Benfica muito tempo e, curiosamente, o primeiro trabalho que o meu pai conseguiu foi no Estádio da Luz [risos]. Foi trabalhar para o restaurante A Catedral. Eu passava os meus dias no Estádio da Luz com o meu pai, quando não estava a treinar ou na escola.

Notou muita diferença no ambiente escolar também?
Um pouco. É diferente crescer numa cidade ou numa aldeia. Cruzei-me na escola com o Rúben Dias, lembro-me de jogar muitas vezes com ele no ringue. Ele é um ano mais novo, mas estivemos na mesma escola durante quatro ou cinco anos.

Rafael Ramos vestiu a camisola do Sporting até aos 17 anos
Rafael Ramos vestiu a camisola do Sporting até aos 17 anos
D.R.

Esteve sete anos na formação do Sporting, dos 10 aos 17. Quais as principais memórias que tem desses anos?
O que mais me marcou foi a aprendizagem, as experiências que vivi. As primeiras chuteiras oficiais que tive foi o Abel Ferreira que me deu quando ele jogava lá. Ele também era lateral direito e uma vez cruzei-me com ele, acho que foi no departamento médico, conversámos um bocadinho. Ele era um ídolo para nós. Depois chegou a dar-me dois pares de chuteiras da Puma. Foram as primeiras chuteiras oficiais que tive.

Como se definiu a sua posição em campo? Jogou sempre na defesa?
Eu jogava a extremo, jogava mais na frente, sempre pela ala. Acho que, como sou muito aguerrido, muito convicto, eles achavam que eu poderia ter muitas capacidades defensivas e experimentaram. Eu jogava a lateral na altura. Eu e o Mauro Riquicho, éramos os únicos laterais. Ainda hoje, se for preciso, posso fazer de extremo, posso jogar um pouco mais à frente.

Quem foram os treinadores que mais o marcaram no Sporting?
O primeiro que me lembro sempre é o Tiago Capaz. Foi o primeiro treinador que tive na Academia, porque ainda antes de passarmos para a Academia, treinávamos no campo do Casa Pia. Antigamente as escolinhas do Sporting, dos 13, 14 anos, treinavam nos campos do Casa Pia.

A sua mãe e irmão nunca se juntaram a si e ao seu pai em Lisboa?
A minha mãe ficou na aldeia porque o meu irmão estava a terminar os estudos. Ela ficou lá com ele por dois ou três anos. Depois é que vieram para baixo.

O lateral direito mudou-se para o Benfica aos 18 anos
O lateral direito mudou-se para o Benfica aos 18 anos
D.R.

Chegou a assinar contrato e a ganhar dinheiro no Sporting?
No Sporting nunca ganhei dinheiro. Aos 17 anos tive a pior notícia da minha vida, quando disseram que não iria ter continuidade nas escolas do clube e que, na opinião deles, ia ser difícil eu chegar a profissional. Marcou-me muito pela negativa, a maneira como saí.

Chorou muito?
Muito. Essa viagem de Alcochete a Lisboa não me sai da cabeça, foi a pior viagem da minha vida, atravessar aquela ponte para voltar para Lisboa, com a minha mãe. Pouco depois da minha mãe ir viver para Lisboa, o meu pai teve uma proposta de trabalho para Angola e foi, por isso ele nem estava lá nesse momento. Foi o momento mais marcante da minha infância, pela negativa.

Antes de o dispensarem, como imaginava o futuro e qual era a sua maior ambição?
Era chegar a profissional no Sporting, era o meu sonho, sempre foi, um dia poder jogar pela equipa principal. Sabia que era difícil. Enquanto lá estive vi o difícil que era ficar e estar entre os escolhidos em cada ano. Muitos colegas foram abandonando, uns foram para outros clubes, alguns deixaram de jogar; eu via a dificuldade que era. Mas estava tão perto, tinha chegado praticamente a júnior.

Durante um jogo pelo Benfica
Durante um jogo pelo Benfica
D.R.

Alguma vez chegou a ser chamado para treinar com a equipa principal?
Não. Mas cheguei tão perto e acreditava cada vez mais, até que me disseram aquilo. A maneira como foi, o que me disseram, custou-me muito. Foi de uma forma muito fria para um miúdo de 17 anos, não é a maneira correta, muito menos dizer daquela forma: "Estivemos a avaliar e a nossa opinião é que tu não vais chegar a profissional, não tens essas condições." Não se faz. E não deram uma explicação. Eu também na altura fiquei tão em choque que não tive cabeça fria para fazer perguntas.

Tinha empresário?
Não, sempre foram os meus pais a tratar das minhas coisas.

A partir daí acreditou que não ia conseguir?
Nunca pensei em fazer outra coisa, mas achei que ia ficar muito difícil a partir dali.

Qual foi a reação dos seus pais? O que lhe disseram?
Custou muito, porque era um sonho meu e deles. Nunca foi um sonho só meu. Aliás, o meu pai mudou a vida, arriscou a vida dele por esse meu sonho, nosso sonho. Acredito que aquilo que me custou, custou-lhe a ele também. Mas sendo da aldeia, nunca se deita a toalha ao chão, uma pessoa tem que lutar, tem que ir atrás da vida.

Rafael (2º à esquerda) com os pais e irmão
Rafael (2º à esquerda) com os pais e irmão
D.R.

Como surgiu o Real Massamá?
Como disse, o meu pai trabalhou no Estádio da Luz, ele tinha contactos, conheceu muita gente ao longo dos anos em que trabalhou lá e perguntou se não havia oportunidade de eu ir treinar. Nunca pediu favores, nunca pediu para me darem um contrato, pediu apenas para me deixarem treinar, fazer um teste e avaliarem. Fui, e na equipa de juniores estava o [João] Cancelo, se não me engano. Mas tive logo uma lesão um bocado grave no tornozelo, estive um mês e meio, quase dois meses a tratar da lesão até voltar a treinar. Quando regressei disseram que já tinham a equipa de juniores fechada e que apesar de terem gostado muito de mim não havia espaço. O treinador, o João Tralhão, alguém que foi muito importante na minha vida e na minha carreira, disse que tinha um amigo que era treinador no Real Massamá e que de certeza que me iam receber de braços abertos. Ele indicou-me e aceitaram-me no Real.

Fez contrato?
Fiz um contrato de formação de um ano. Mas não correu assim tão bem o ano no Real Massamá, para ser sincero.

Porquê?
Não joguei tanto como queria, não tive as oportunidades que queria e achava que merecia. Foi um ano um pouco atribulado também na escola. Mas, no ano seguinte, voltei ao Benfica.

Como?
Após as férias regressei ao Real Massamá para treinar porque eles perguntaram-me se queria ficar mais um ano. Apesar do Benfica ter-me dito que ia acompanhar-me, não houve mais nenhum contacto oficial, por isso aceitei ficar no Real Massamá. Fui lá sozinho e assinei um papel para ficar mais um ano. Ao fim de uma ou duas semanas a treinar no Real, o diretor chamou-me: "Ligaram do Benfica, querem que voltes lá para ires fazer um torneio com eles." Fui fazer esse torneio à Holanda, se não estou em erro, e correu-me super bem, joguei muito bem e foi aí que eles me ofereceram contrato de formação, de um ano, no Benfica.

Quanto ganhava?
Ganhava €50. Já tinha 18 anos.

Rafael com Estrela, no autocarro do Benfica
Rafael com Estrela, no autocarro do Benfica
D.R.

Recorda-se da primeira saída à noite?
Comecei a sair naquele ano em que estive no Real Massamá. As coisas não estavam a correr muito bem, sempre fui muito empenhado no futebol e nessa vida de atleta, mas comecei a sair mais à noite, comecei a ter outras experiências que não tinha tido até então. Primeiro porque não tinha idade e depois porque queria muito dedicar a minha vida ao futebol e à vida de atleta. Esse ano no Real foi mais atribulado até por conta disso, das saídas à noite, também tive a viagem de finalistas do 12.º ano.

Concluiu o 12.º ano?
Não, porque chumbei no exame final de matemática. No ano seguinte, regressei ao Benfica, começámos a jogar a Youth League, a viajar muito, faltei muito e não terminei. Ainda tentei acabar matemática à noite, mas andava super cansado, ainda me lembro que adormecia na escola, além de que o ambiente da escola à noite é diferente.

Correu-lhe bem essa época 2013/14 no Benfica?
Começou mais ou menos, não estava a ter tantas oportunidades como isso, mas eles próprios disseram-me que apesar de gostarem de mim, não ia ter tantos jogos como imaginava, mas que tinha de trabalhar e lutar pelo meu lugar. Foi o senhor Armando que teve essa conversa comigo, no aeroporto, no regresso do torneio na Holanda. Depois de dizer-me isso, perguntou-me se eu queria ficar à mesma no Benfica ou se preferia voltar ao Real Massamá.

O que respondeu?
Disse logo de olhos fechados que queria ficar no Benfica. Era uma nova oportunidade de voltar a um clube grande, apesar de ser o rival do meu Sporting. Nessa altura também comecei a ver as coisas de outra forma, começou a passar-me mais ao lado essa questão de ser o clube rival.

Fez-lhe impressão a primeira vez que vestiu a camisola do Benfica?
Epá, sim e não. Nunca imaginei vestir aquela camisola, mas, ao mesmo tempo, estava a reacender o sonho, que já estava um pouco acabado. Por isso, quando me chamaram de novo ao Benfica foi uma surpresa, não estava à espera, achei que já se tinham esquecido. Também não tinha feito uma época espetacular no Real Massamá para me chamarem de volta, mas os irmãos, João e Luís Tralhão, lembraram-se do meu nome, chamaram-me e correu super bem aquele torneio. Como dizia no início, não joguei tanto, como eles disseram, mas sempre trabalhei muito, esforcei-me bastante. Afinal, era a minha oportunidade de chegar a profissional, já era júnior do 2.º ano. Ou conseguia ficar ali, ou tinha de procurar ser profissional noutro clube. Pensei: é agora ou não é nunca.

A verdade é que acabou por não ficar no Benfica. O que aconteceu?
Não estava a ter muitas oportunidades no Benfica, até que houve a suspensão de um colega e o João deu-me duas oportunidades seguidas, em dois jogos. Uma já foi praticamente na fase final de juniores, no Campeonato Nacional; mas iria ter a minha maior oportunidade contra o PSG, na fase de grupos da Youth League. Joguei esse jogo, que era o último da fase de grupos, já estávamos quase em dezembro, faltava meio ano para acabar a época, eu não tinha contrato profissional, não tinha nada. Correu-me super bem e a partir daí joguei os jogos todos até ao fim do campeonato e da Youth League. Foi aí que a minha vida começou a mudar.

Explique melhor o que quer dizer.
Começaram a aparecer empresários e começou a ficar mais perto o sonho de ser profissional. Antes da final da Youth League, o Manuel Damásio, que era empresário de alguns jogadores do Benfica e filho do ex-presidente do clube, conversou comigo no hotel. Disse gostar bastante de mim, sabia que eu não tinha empresário, nem contrato profissional e perguntou-me se eu lhe dava autorização para ele falar com o presidente do Benfica sobre a possibilidade de fazerem um contrato profissional comigo. Obviamente, aceitei. Adorei a abordagem dele, porque não foi do género, faz um contrato comigo e eu depois vou falar com as pessoas. Nunca foi assim. Foi uma pessoa que apareceu na minha vida, sem esperar, foi super tranquilo, super aberto. E foi assim que tive o meu primeiro contrato com o Benfica. Assinei por seis anos.

Em 2014 o lateral direito assinou com Orlando City, dos EUA
Em 2014 o lateral direito assinou com Orlando City, dos EUA
D.R.

Quando assinou já sabia que ia para a equipa B?
Não. Assinei com o Benfica. Só depois me disseram que ia para a equipa B. Raramente alguém da minha idade assinava contrato para ir direto para a equipa principal.

Qual foi o valor do seu primeiro ordenado como profissional?
Julgo que eram €1300.

Recorda-se do que fez com o primeiro dinheiro?
Lembro-me, comprei o meu filho, um pinscher miniatura chamado Hatchi. É o meu melhor amigo desde essa altura. Estava de férias, fui à feira de Viseu e vi-o lá, quis comprá-lo logo, mas quando fui ao multibanco vi que ainda não tinham depositado o dinheiro do primeiro ordenado. No dia seguinte já lá tinha o dinheiro, voltei à feira e o Hatchi ainda lá estava, comprei-o. Tenho a noção de que o contrato que recebi não foi dos melhores, mas para mim era uma loucura. Os meus pais, por exemplo, nunca ganharam esse dinheiro na vida. Sempre fomos uma família muito humilde, apesar de nunca me ter faltado nada. Por isso, nem reclamei, não pedi mais, para mim era um sonho ser profissional e ter a oportunidade de jogar no Benfica.

Como foi quando ingressou na equipa B do Benfica?
Quando cheguei lá as coisas mudaram de repente.

O que aconteceu?
Primeiro, tinha 'só' o Nélson Semedo e 'só' o João Cancelo como laterais na equipa B. A ideia era um deles subir para a equipa principal, mas como na equipa A não estavam a ter oportunidade, ficaram os dois na equipa B, à espera de uma chance. Ou seja, éramos três laterais. Como deve calcular, a minha vida ficou muito difícil. São dois nomes que chegaram a ser dos melhores laterais direitos dos últimos anos da nossa seleção. Foi muito complicado no início.

É por isso que vai para o Orlando City, nos EUA?
Sim. O Benfica fez uma parceria com o Orlando City. O presidente e o treinador do Orlando City estavam em Lisboa quando começamos a pré-época. Estivemos um mês a treinar, a fazer jogos amigáveis, até que o meu último jogo foi contra a equipa B do Ajax. A equipa principal foi jogar a Eusébio Cup contra o Benfica, mas levaram a equipa B para fazer uma espécie de mini Eusébio Cup connosco. Foi o meu último jogo no Benfica.

Rafael Ramos com o brasileiro Kaká
Rafael Ramos com o brasileiro Kaká
D.R.

Quem lhe propôs a ida para os EUA?
O treinador, o Hélder Cristóvão, chamou-me e disse-me que ia ser muito complicado para mim na equipa B, porque havia aqueles dois laterais à minha frente, falou-me da parceria, disse que os dirigentes e o treinador do Orlando City gostaram bastante de ver-me treinar e dos jogos que fiz. O Benfica abriu mão, disse: "OK, se calhar não vamos utilizar tanto este jogador, pode ser interessante para vocês, levá-lo".

Como reagiu?
Foi difícil de aceitar, porque o Benfica deu a entender que era melhor eu ir, porque não ia ter muitas oportunidades. Mas eu acabara de assinar um contrato profissional de seis anos com o Benfica. Não esperava ficar seis anos no Benfica, mas pensava que pelo menos um ou dois anos ia ficar. Tinha isso muito claro na minha cabeça. De repente, estava a mudar tudo, para os Estados Unidos, um país super longe que não conhecia. Assustou-me bastante, muito mesmo.

O que disse o seu empresário?
Foi muito importante nesse processo, porque até para os meus pais foi assustador, principalmente para a minha mãe. Ela também tinha mudado a vida dela para estar perto de mim, e de repente, eu ia embora. O Manuel Damásio ajudou-me bastante e à minha família. Foi um intermediário e um conselheiro. Fez-me ver quais seriam as coisas boas e os contras que teria em ir para os Orlando City. Confesso que, no início, não queria nada. Mas ele disse que não tinha de ter receio de mudar porque é um país espetacular; que o Orlando era uma equipa que ainda não estava na primeira divisão, mas já tinha vaga garantida para jogar a MLS. Ou seja, no contrato que me ofereceram era para jogar na MLS, mas primeiro tinha de jogar seis meses na segunda divisão com eles. Foi nessa altura que eles assinaram também com o Kaká, mas ele só ia chegar mesmo para jogar na MLS.

O fato de poder jogar ao lado do Kaká ajudou-o a encarar melhor a ida para os EUA?
Sem dúvida. Ajudou bastante. Tinha sido o melhor jogador do mundo antes do Messi e do Ronaldo. O Manuel também disse: "O projeto deles é de certeza interessante, senão não estariam a contratar um jogador deste tamanho. É um clube sério, que quer crescer, vai ser um clube grande nos EUA. E se ficares no Benfica não vais jogar. Tens o Nélson e o João, vai ser complicado. E um jogador precisa de jogar, Rafa." E é verdade. É melhor estar a jogar num nível inferior, mas estar a jogar e a mostrar o teu serviço, o teu futebol e a ganhar ritmo, do que estares num lugar que é supostamente de melhor nível, mas não estás a jogar. Muitas vezes um jogador dá um passo atrás para depois dar dois à frente. Acontece com muitos e foi nisso que acreditei e aceitei a aventura.

Foi sozinho para os EUA?
Sim. Quer dizer, fui com um companheiro do Benfica, o Estrela, nesse processo fomos os dois.

Como foi o primeiro impacto nos EUA e com os americanos?
Fiquei a amar o país. Adorei a cultura, o país, principalmente Orlando, com todos os parques temáticos, a Disney, a Universal, os parques aquáticos. Visitei tudo. Uma realidade muito diferente, mas adorei.

O seu inglês era bom?
Dava para me safar, mas melhorei muito lá. Hoje falo inglês perfeito.

O clube e o futebol?
Cheguei e comecei logo a jogar. Marquei um golo no meu primeiro jogo. Nem estava habituado a marcar golos, porque jogo lá atrás. Eles adoraram, estava a ser um sonho, no início.

O lateral direito com Estrela, no Orlando City
O lateral direito com Estrela, no Orlando City
D.R.

Como foi jogar ao lado do Kaká?
Só o conheci seis meses depois, quando ele veio para a MLS. Tivemos uma relação espetacular, ainda hoje tenho contacto com ele. Ambos falávamos português, só aí já nos aproximamos um do outro. Uma das melhores pessoas que conheci no futebol, a todos os níveis. De parceria, de rir no balneário, mas, ao mesmo tempo, de ensinamento, ensinou-me muito, ajudou-me bastante dentro do campo, fora do campo, na maneira de ver a vida, de ver o futebol e de viver o futebol. Foi uma pessoa super importante nos meus primeiros anos como profissional.

Foi ganhar o mesmo ou mais do que ganhava no Benfica?
Fui ganhar duas vezes mais. Mas não era uma loucura, uma exorbitância. Eram uns €3000 com direito a casa e às refeições todas. Também tinha muitos extras, cada jogo que eu fazia ganhava um extra, cada assistência, por exemplo, coisas assim. Quando terminou esse primeiro ano, eles deram-me um contrato mais a sério, já tinha jogado muitos jogos, já me tinha afirmado na MLS e havia equipas europeias interessadas.

Quais equipas?
Tive a chance de ir para o Copenhaga, na Dinamarca, que jogava a Liga dos Campeões, e falou-se noutros nomes.

Não foi para Copenhaga porquê?
Porque acabei por ter uma lesão no posterior da coxa, mesmo antes de concretizar a proposta. Perante a lesão eles quiseram esperar. Demorei um bocadinho a voltar da lesão. Mas estava super bem no Orlando, a jogar bastante.

Kaká abraça Rafael Ramos
Kaká abraça Rafael Ramos
D.R.

Gostou de jogar a MLS?
Gostei. Na altura não tinha o nível atual, mas estava a crescer, via-se que tinha muito futuro. As condições que davam aos jogadores eram espetaculares.

Mas os americanos têm uma forma diferente de encarar o futebol e os jogos.
Sim, ir aos jogos é uma festa para eles. É estar com amigos, fazer um churrasco à porta do estádio. Não há aqueles adeptos fervorosos como nós temos, o que é bom e mau. Por um lado não tem a parte negativa quando se perde ou quando as coisas estão a correr mal, mas também não há aquele ambiente no estádio que os jogadores mais gostam. Era um ambiente muito mais tranquilo. Quando perdíamos não havia negatividade nas pessoas. Esperavam por nós à porta para tirar fotografias, sorriam da mesma maneira. Veem o futebol como um desporto em si, não o veem como algo de vida ou morte, como em alguns países.

Do que gostou mais e menos dos EUA?
Menos nem sei, sinceramente. Não me importava de morar nos EUA. Adorei tudo. Vivem de uma forma muito mais tranquila. A única coisa negativa, lembrei-me agora, é a questão do porte de arma. Praticamente toda a gente pode ter arma. Nunca senti insegurança ou perigo, mas às vezes vemos nas notícias tiroteios... Acho que isso era a única coisa que me deixava um pouco com o pé atrás.

Tem alguma história caricata?
Uma vez estava numa loja de eletrónicos usados. Estava à procura de uma televisão. Como a casa não era minha, era alugada, não queria gastar muito dinheiro em coisas que faltavam. Estava a olhar para a montra, a ver as televisões, e de repente baixo os olhos para a bancada onde eu estava e havia armas à venda. Foi quando me bateu mais a realidade de que as pessoas têm acesso às armas de uma forma fácil, assim, no meio da cidade. Quando vi as armas no parapeito à minha frente, bateu-me essa realidade, foi estranho e assustador.

Levou o Hatchi para os EUA?
Levei e, entretanto, comprei outro lá, o Eddie, um Spitz anão, parece um mini-ursinho.

Johan Kappelhof, Rafael Ramos e Schweinsteiger, no Chicago Fire
Johan Kappelhof, Rafael Ramos e Schweinsteiger, no Chicago Fire
D.R.

E namoros?
Antes de ir para os EUA, namorava. Fui sozinho durante um tempo até que as coisas ficaram mais sérias, decidimos casar e ela foi comigo para os EUA. Estivemos juntos dos 19 aos 26 anos.

Esteve três épocas no Orlando City. Do que mais se recorda?
O primeiro ano na MLS foi espetacular. Praticamente todas as equipas da MLS contactaram o Orlando City porque me queriam. Lá é um pouco diferente, é mais por trocas, são os chamados trades, como há na NBA e noutras ligas, no futebol americano. Muitas equipas falaram com o diretor do Orlando City. Mas após aquela lesão na coxa, a partir daí começou uma fase difícil da minha vida. Comecei a ter muitas lesões, muitas reincidências.

Jogou muitas vezes em relvado sintético? Terá sido dessa mudança?
Não sei se foi disso. Até hoje ainda não encontrei uma resposta, mas foi uma fase muito difícil mesmo, porque tive muitas, muitas, muitas lesões seguidas e foi por isso também que decidi deixar os EUA. As coisas começaram a correr tão mal, tão mal, não conseguia fazer uma sequência de jogos. Lesionava-me, voltava, lesionava, voltava, jogava.

Antes de sair, ainda chegou a jogar um ano pelo Chicago Fire, certo?
Sim. Como dizia comecei a ter muitas lesões no segundo ou terceiro ano em Orlando. Sempre fui um jogador muito rápido, explosivo e nunca tinha tido problemas musculares. A partir daí comecei a ter muito mais cuidado com tudo, com a alimentação, com os alongamentos, a preparação para o jogo, para o treino e mesmo assim as lesões continuavam a aparecer. Custou-me bastante porque fazia tudo o que podia, e não podia, para estar bem e continuava a lesionar-me. Acabei por deixar de jogar como eu queria. Eu já não tinha confiança para fazer o que fazia, para fazer a ala toda a correr que nem um desalmado. Não conseguia fazer exatamente isso porque estava com medo de lesionar-me. A toda a hora tinha medo de lesionar-me. Até que falei com os responsáveis do Orlando City, fui super sincero, disse-lhes querer voltar para Portugal para ver se assentava a minha cabeça e tinha mais sorte com as lesões.

A festejar um golo pelo Chicago Fire
A festejar um golo pelo Chicago Fire
D.R.

Como reagiram os dirigentes do Orlando City?
Aceitaram, disseram que não iam prejudicar-me nem obstruir a minha vontade de mudar. Fui de férias para Portugal com essa ideia. Eu e o Manuel Damásio tínhamos na ideia conseguir um clube em Portugal, mais perto de casa, porque precisava de sentir o carinho da família, de estar perto. Estando tão longe e as coisas a correrem mal, era uma vontade que tinha. Mas, como disse, nos EUA eles funcionam mais por trocas e do Orlando City disseram-me que tinham tido uma oferta boa do Chicago Fire em que eles davam um jogador em troca, mais dinheiro.

Não podia recusar?
Eu tinha contrato com o Orlando, e os contratos que se fazem lá, tirando os DP [designated players], que são só três por equipa, todos os jogadores têm contrato com a liga e não com o clube exclusivamente. Então eles têm o direito de fazer isso, de trocar os jogadores, não é uma decisão minha, não posso dizer que não quero. O Orlando disse que gostava de aceitar a proposta, mas disseram-me que também tinham em conta a minha vontade. Foram super bacanos, dentro de não ter opção eles deram-me um bocado a possibilidade de escolher. Eu já conhecia Chicago, é uma cidade super bonita e como também não estava com muitas propostas melhores acabei por ir para Chicago.

Gostou mais de viver em Chicago do que em Orlando?
Não gostei mais, mas adorei também. É uma cidade espetacular, muito bonita, à imagem de Nova York, só que com menos confusão.

O clube, melhor do que o Orlando City?
Na época em que cheguei, estava um pouco melhor, sim, mas de um nível parecido. Cheguei a jogar com o Bastian Schweinsteiger. Foi mais uma experiência espetacular poder partilhar o balneário e o dia a dia com uma estrela mundial.

A vivência do balneário é muito diferente de cá?
Sim, não há tanto aquela coisa de juntarmo-nos fora do clube. E esses jogadores já tinham a vida deles feita, vinham da Europa, de outro ambiente, tinham família, não estavam tanto para essas coisas de jantar com a equipa, ou sair à noite.

 

Spoiler

“Os brasileiros não gostaram muito do Vítor Pereira porque ele é intenso, explosivo, e temos de mostrar diariamente que merecemos jogar”

Rafael Ramos, que está a jogar o Brasileirão pelo Ceará, conta nesta II parte do Casa às Costas como se desenrolou a carreira desde que saiu dos EUA. Fala da passagem pelos Países Baixos, onde subiu de divisão com o FC Twente, e da estreia na I Liga pelo Santa Clara, antes de atravessar o Atlântico para jogar no Corinthians. Aborda ainda o tema das recorrentes lesões e o episódio em que foi acusado de racismo e que se arrastou em tribunal até ser absolvido

Na época 2018/19 foi jogar para o FC Twente, dos Países Baixos. Como?
O meu azar com as lesões continuou. No Chicago Fire tive mais uma ou duas lesões, não joguei o que esperava. Disse ao Manuel Damásio que também não estava a correr bem e queria voltar para a Europa. Foi aí que surgiu o FC Twente, que estava em reconstrução. Tinham feito uma época super má, desceram de divisão e mudaram praticamente todo o plantel. Fui para o Twente de um dia para o outro.

Como foi passar da realidade do futebol dos EUA novamente para o europeu?
Gostei, era um clube grande, com um estádio super bonito que estava sempre cheio, com aquele ambiente mais fervoroso de que se calhar sentia falta. Adorei. As coisas correram melhor durante algum tempo, estava a jogar, a ganhar confiança. Também adorei o grupo, eram jogadores mais jovens e, aí sim, tive muito mais apego ao grupo, éramos uma equipa que se juntava para jantar, para passear na cidade e fazer outras coisas que já não fazia há algum tempo. Foi nessa altura que me separei, então apeguei-me muito mais aos meus colegas.

Mas o FC Twente estava na II Liga neerlandesa. O que achou do campeonato?
Tinha um nível bom, mas via-se que o Twente estava acima. Eles fizeram uma equipa super competitiva, estávamos acima do nível da II Liga, tanto que fomos campeões julgo que a quatro ou cinco jornadas do final da temporada. Ao nível de condições o clube é gigante ao nível de centro de treinos, do estádio e adeptos.

Só tinha assinado por uma época?
Sim, com mais uma de opção.

Não continuou porque o FC Twente não quis acionar a cláusula de opção?
Faltavam três, quatro meses para acabar a época, estava tudo encaminhado para lá ficar e comecei a ter lesões novamente. Infelizmente, esse foi o meu maior problema no futebol. Foram sempre as lesões. Novamente no mesmo sítio. Eles ainda fizeram uma proposta, mas já não era igual à inicial, as condições não eram o que eu imaginava ou queria.

Quando saiu dos EUA foi ganhar menos?
Não, fui ganhar mais. Mas não gostei da segunda proposta do FC Twente. Depois surgiram algumas equipas de Portugal, mas quem que se interessou mais foi o Santa Clara. Tinha um projeto bom, tinham feito a primeira época na I Liga e uma boa campanha. Estavam lá colegas com quem já tinha jogado. Aceitei por tudo isto, mas vim ganhar menos.

Que tal a adaptação a viver numa ilha?
Foi boa. Foi um lugar especial para mim. Ainda é. Não tem tudo o que uma cidade grande tem, mas a beleza natural é incrível.

A festejar a subida à I Liga da Holanda com o FC Twente
A festejar a subida à I Liga da Holanda com o FC Twente
D.R.

Soube bem voltar ao futebol português?
Foi espetacular, queria muito voltar.

Não sentiu dificuldade por ser um campeonato superior aos que tinha jogado nos últimos anos?
Não. E, curiosamente, as minhas lesões acabaram, não tive mais lesões graves, consegui recuperar a confiança e a minha maneira de jogar, que já há algum tempo não conseguia.

O que achou do treinador João Henriques?
Muito bom treinador, excelente pessoa. Fez um ótimo trabalho no Santa Clara. O grupo era incrível, havia sempre brincadeiras no balneário.

Sobretudo da parte do Ukra?
[Risos] Sim, mas não só. Ele é incrível no balneário. Ainda hoje somos amigos, é uma pessoa espetacular. O ambiente no Santa Clara era fantástico. Também voltei a encontrar o Fábio Cardoso, super divertido, saíamos muito para jantar todos juntos; almoçávamos juntos praticamente todos os dias, era um ambiente diferente.

Com a namorada Luciana e os dois cães Hatchi e Eddie
Com a namorada Luciana e os dois cães Hatchi e Eddie
D.R.

Assinou por três anos, mas só ficou duas épocas e meia. Como foram as primeiras duas épocas, ainda por cima em período de pandemia?
Na primeira época comecei a jogar mais a partir de dezembro. Foi aí que comecei a ter mais oportunidades. As coisas começaram a correr super bem. Entretanto, veio a pandemia. Antes do aeroporto fechar, viajei para Lisboa, porque estava a viver sozinho na ilha e não queria ficar fechado sozinho em casa. Voltei para a casa da minha mãe, na Amadora, estive dois meses com ela e com o meu irmão. Começámos a fazer treinos por Zoom de manhã, só para manter a forma. Ainda assim às vezes conseguia sair e correr. Depois voltámos para a ilha para treinar. Estive 15 dias fechado num quarto de hotel e aí é que custou.

O que fazia para se entreter?
O Santa Clara arranjou uma bicicleta, fazia aqueles treinos funcionais, bicicleta, um bocado de força, mas sem pesos, jogava Playstation, via televisão, séries, filmes, fazia tudo e o tempo não passava. Foi complicado.

Tinha a companhia dos seus cães?
Na altura não viajei com eles, até porque ia para o hotel. Mas estivemos pouco tempo na ilha porque depois acabámos por ir para a Cidade do Futebol, no continente.

Na época 2019/20, Rafael estreou-se na I Liga pelo Santa Clara
Na época 2019/20, Rafael estreou-se na I Liga pelo Santa Clara
D.R.

Nessa segunda época o treinador foi o Daniel Ramos. Muito diferente do João Henriques?
Sim, sobretudo na maneira de jogar, na tática. O Daniel Ramos tinha umas nuances táticas durante o próprio jogo, que para mim foi ótimo, adaptou-se muito bem ao meu jogo. Fiz um grande ano no Santa Clara. O meu melhor ano lá foi com ele. Os alas tinham mais liberdade para subir e não era aquela tática tão defensiva. Participei muito mais nos golos, com assistências.

Na terceira época acabou por sair.
Ele saiu porque julgo que teve uma proposta da Arábia. Estávamos a ter muito sucesso com ele, até nos classificámos para a Conference League. Depois nesse ano, a jogar a Conference League, até metade do ano as coisas não estavam a correr tão bem no campeonato, se calhar pela quantidade de jogos a que não estávamos tão habituados, ou também pela mudança de treinadores. Primeiro veio o Nuno Campos, que ficou pouco tempo, as coisas não correram tão bem, e veio o Mário Silva, que conseguiu fazer um excelente trabalho, recuperou a equipa, o nosso futebol, voltámos a ganhar confiança e a subir na tabela. Mas recordo-me que até dezembro, estávamos praticamente na zona de descida.

Numa pausa do  treino do Santa Clara
Numa pausa do treino do Santa Clara
D.R.

O Rafael não terminou o ano no Santa Clara, pois não?
Seis meses antes do contrato terminar os jogadores ficam livres. E nessa altura começaram algumas conversas para eu renovar contrato, mas também surgiram algumas possibilidades de outros clubes. Foi quando apareceu o Corinthians, em que o treinador era o Vítor Pereira, que tinha sido treinador no Santa Clara uns anos antes. Surgiu essa oportunidade de eu ir para lá livre. Mas acabei por não ir livre.

Como assim?
O meu contrato só acabava dois meses depois da data em que fui para lá. Eles queriam que eu chegasse rápido, para poderem inscrever-me no Brasileirão e na Libertadores. O Corinthians estava disposto a pagar uma certa quantia. O Santa Clara inicialmente não ia receber nada, porque eu ia sair livre. Já tinha praticamente acordado tudo com o Corinthians para ir para lá. Resumindo, eu tinha uma percentagem do meu passe e o Santa Clara ficou a dever-me o valor dessa percentagem.

Eram €30.000?
Exatamente. Mas depois chegámos a um acordo para eles pagarem por tranches. Na altura houve mudanças na direção do Santa Clara, daí também as confusões.

Acabou por ir para o Corinthians quando?
Em abril de 2022, mesmo antes de começar o Brasileirão.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Umas cinco ou seis vezes mais. Nunca fiz essa conta.

Jogadores do Santa Clara a festejar o carnaval
Jogadores do Santa Clara a festejar o carnaval
D.R.

Como foi o impacto no Brasil?
Foi incrível, adorei o ambiente, a paixão pelo jogo, estádio cheio, o barulho. A qualidade da equipa era excelente, tinha grandes nomes, o centro de treinos é um dos melhores que já frequentei.

Gostou de viver em São Paulo, uma cidade gigante, depois de viver dois anos e meio numa ilha?
[Risos] Gostei sim. Claro que esse embate foi forte. Vinha da realidade de uma ilha pequena que não tinha praticamente construção humana, era só natureza e de repente há prédios em todo o lado, trânsito a toda a hora. Demorava-se quase uma hora para chegar a qualquer lado, fosse ao shopping, ao estádio, uma loucura. Isso foi o que mais me custou.

Também foi sozinho para o Brasil?
Não, já estava e estou com a minha namorada, a Luciana. Ela é argentina, morou comigo na ilha no último ano.

Conheceram-se em São Miguel?
Não. Numa das férias em que fui para Ibiza tivemos o primeiro contacto, ela trabalhava num hotel em Ibiza. Depois ela foi visitar-me a São Miguel duas ou três vezes, até que decidimos que era para seguirmos a vida juntos e ela foi morar comigo.

Têm filhos?
Não. Só o Hatchi e o Eddie [risos].

O lateral direito (à esquerda) num jogo pelo Santa Clara
O lateral direito (à esquerda) num jogo pelo Santa Clara
D.R.

O futebol brasileiro é outra realidade. Muito acima do que esperava?
Sem dúvida. Uma qualidade incrível e a rivalidade entre as equipas é praticamente igual à rivalidade entre Benfica e Sporting, até acima. Acho que levam ainda mais a sério o futebol e as rivalidades. Em termos de qualidade técnica, a qualidade individual dos jogadores está muito acima daquilo que estava à espera.

E o Vítor Pereira, que tal?
Foi incrível trabalhar com ele. Um treinador super reconhecido mundialmente, que fez um excelente trabalho em praticamente todo o lado por onde passou e para mim foi também uma oportunidade muito boa aprender e conviver com um treinador conceituado.

Muitos jogadores brasileiros, quando chegam a Portugal, dizem não nos compreender, apesar de falarmos a mesma língua. Também lhe aconteceu com o brasileiro?
Aconteceu, mas no sentido de eu ter de adaptar a minha maneira de falar à deles, porque se eu falar o nosso português completamente fechado, eles não entendem muito. Sempre os percebi bem, talvez porque no Santa Clara convivi com muitos brasileiros. Nós, os portugueses, temos muita facilidade em adaptar-nos a outras culturas e línguas.

Rafael Ramos assinou pelo Corinthians em 2022
Rafael Ramos assinou pelo Corinthians em 2022
D.R.

Que memórias tem dessa primeira época no Corinthians?
Foi muito intensa. Eu vinha de uma época inteira a jogar e tive de fazer mais uma época. Mais para o fim do ano começou a ficar complicado fisicamente porque não tive férias. Foi pouco mais de ano e meio sempre a treinar, jogar, treinar, jogar, sem parar. Mas não estava preocupado com férias, estava a receber muito melhor, num clube melhor, numa liga muito competitiva, por isso não foi algo que me preocupou no início. No final da época é que começou a pesar mais nas pernas.

Chegou a jogar a final da taça, com o Flamengo?
Sim. Também joguei a Libertadores, uma experiência espetacular. Nunca me esqueço do jogo que fomos jogar à La Bombonera, em que eliminámos o Boca Juniors nos oitavos de final da Libertadores. É uma experiência e uma memória que vai ficar marcada para sempre; assim como jogar no Maracanã, jogar a final da taça, também lutámos pelo campeonato praticamente até ao fim e no final demos uma queda, mas estivemos em primeiro e segundo até praticamente às últimas cinco, seis jornadas.

O lateral um jogo pelo Corinthians com o treinador Vitor Pereira em fundo
O lateral um jogo pelo Corinthians com o treinador Vitor Pereira em fundo
D.R.

Como é Vítor Pereira no balneário e como reagiam os brasileiros a ele?
Eles não gostaram muito dele, eu conseguia perceber pela relação que tinha com os dois lados. Eu tinha uma excelente relação com ele, também tinha uma ótima relação com os meus colegas, e não gostaram assim tanto.

Porquê?
Porque ele é intenso, vive muito, seja os treinos, os jogos, é uma pessoa muito explosiva. Não deixa o jogador relaxado e tranquilo no sentido de pensar que tem a posição garantida. Com ele não existia isso, era sempre no máximo, fosse nos treinos, nos jogos. Quem está a treinar melhor é quem vai jogar, quem está a jogar melhor é quem vai continuar a jogar, com ele temos de mostrar diariamente que merecemos jogar.

Fugia ao padrão daquilo a que os jogadores brasileiros estavam habituados?
Eu acho. Eles estão habituados a ter um bocado dessa tranquilidade de pensar, tenho nome e se calhar não preciso de esforçar-me tanto, essa semana posso recuperar mais, ficar mais tempo no departamento médico porque vou jogar na mesma. Com o Vítor Pereira não era assim. Acho que foi mais esse choque que sentiram e não lidaram tão bem. Eu, como sempre estive habituado a trabalhar para construir a minha sorte, adorei a maneira dele trabalhar, aprendi muito com ele. Fora do campo também é uma excelente pessoa, dá para conversar, partilhámos muito do que é viver no Brasil, as diferenças. Ele também comentou comigo que adorou morar nos Açores.

A equipa do Corinthians. Rafale está no centro inclinado no meio de dois colegas
A equipa do Corinthians. Rafale está no centro inclinado no meio de dois colegas
D.R.

Foi um ano em que protagonizou um episódio marcante. É verdade que foi detido no final de um jogo por chamar "macaco" a um adversário?
Para já, não fui detido, não sei onde na altura foram buscar isso. Houve um mal-entendido com um jogador do Internacional, em que ele acusou-me de racismo. Numa disputa de bola entrámos os dois numa discussão, com aquelas ofensas normais de jogo. Fui conversar com ele no final do jogo e comentei: "Não sei se é por causa do meu português, mas entendeste mal porque em momento algum chamei-te o que pensas, nunca fui racista, nem antes de ter aqui chegado, muito menos agora.“ Na altura tivemos uma conversa tranquila, ele aceitou, mas, ao mesmo tempo, disse: "Então eu agora passo por mentiroso?"; ao que respondi: "Não passas por mentiroso, foi um mal entendido. Tu entendeste mal. Toda a gente tem direito a errar e a enganar-se e neste caso garanto-te que estás enganado." Depois, no balneário, disseram-me que o Inter e o jogador em causa acabaram por fazer um boletim de ocorrência e fizeram queixa por racismo.

O que aconteceu a seguir?
Perguntaram-me se estava disponível para prestar declarações ou até para falar à imprensa e desde o primeiro momento disse que sim, não tenho problema nenhum, não tenho motivo nenhum para fugir. No estádio há uma sala da Polícia e fui logo prestar declarações, voluntariamente, para explicar o ocorrido. Segui a minha vida, continuei a jogar, continuei a viver, mas foi um episódio que me marcou bastante porque os media fizeram disto um caso, uma coisa louca e recebi muitas mensagens negativas. Quando ia jogar fora, cheguei a ouvir alguns insultos da bancada por causa dessa situação e custou-me bastante. Mas também recebi muitas mensagens de pessoas a apoiarem-me.

Como terminou essa história?
Acabou por ser resolvido em tribunal e fui absolvido de tudo. Mas foi difícil porque durante um ano tive de fazer audiências online, algumas presenciais também. Voltei a ter algumas lesões, não sei se pelo facto emocional, por estar mais frágil, mas felizmente acabei por ser absolvido de tudo no tribunal do desporto e no tribunal judicial. Podia ter tido uma multa e uma suspensão grande e não tive nada.

Rafael cabisbaixo com a medalha de vice-campeão da Taça do Brasil, pelo Corinthians
Rafael cabisbaixo com a medalha de vice-campeão da Taça do Brasil, pelo Corinthians
D.R.

Esse processo afetou a época seguinte?
Tenho a certeza. Mesmo em campo, durante algum tempo, eu não me encontrava. Sentia um peso extra e parecia que tinha de provar a toda a gente dentro de campo. Coisas da minha cabeça. Mas as coisas não correram bem a partir daí.

Também foi uma época em que teve quatro treinadores, o que não ajudou, certo?
Sim, foi uma época extremamente difícil para o Corinthians, não só para mim. Foi uma das épocas mais difíceis da história do clube, teve mudanças na direção, mudança de presidente, muitas mudanças de treinador e eu não tive tantas oportunidades, estava no meio desse processo também, das audiências.

Saiu do Corinthians como?
Não estava a ter oportunidade e um jogador tem de jogar. Já não tinha aquilo que queria, precisava de um lugar novo para recomeçar a minha história. E surgiu a oportunidade do Ceará, através do diretor, o Lucas. Ele conversou comigo, com o Manuel Damásio, com o Corinthians e chegámos a um acordo que foi bom para todos. Ainda tinha seis meses de contrato com o Corinthians, mas chegámos a um acordo.

Como foi recebido em Fortaleza? O Ceará é um clube diferente do Corinthians, outra realidade.
Sim, é outra realidade, apesar de ser um clube gigante também no Nordeste, com uma massa adepta enorme e isso surpreendeu-me, não estava à espera que fosse tão grande. Adorei a cidade, é um lugar muito bonito, gosto mais do que a confusão de São Paulo, moramos num condomínio incrível mesmo junto à praia. Já vieram várias pessoas da minha família visitar-nos e todos adoraram.

Rafael assinou pelo Ceará, do Brasil, em 2024
Rafael assinou pelo Ceará, do Brasil, em 2024
D.R.

Em 2024 não jogou o Brasileirão, pois não?
Não. Joguei a Série B, e correu super bem, tanto pessoalmente como ao Ceará. Eles já queriam voltar à Série A e é um clube que merece estar na Série A. Fizeram essa reformulação no ano passado, de treinador, de elenco, de tudo, e correu bem. Foi um ano espetacular para mim, voltei a recuperar a confiança, já não tinha uma sequência tão grande de jogos há algum tempo e o Ceará conseguiu voltar à Série A.

E este ano?
Este ano tive uma lesão no início, tive de passar por uma cirurgia pequena, nada muito importante.

No tornozelo?
Exatamente. Estive dois meses e meio fora, o que alterou um pouco o início da minha temporada, porque vinha de uma sequência muito boa, sempre a jogar. Tive aquela quebra. Fiquei praticamente três meses sem jogar, apesar de não ser muito, faz diferença, porque aqui há muitos jogos. É jogo quarta-feira e domingo, quarta-feira e domingo, quinta-feira e sábado. Perdi muitos jogos no início da época, mas estou a retomar, a ter oportunidades agora e a recuperar a minha forma também.

Tem contrato até quando?
Vim com contrato de um ano, até final da época passada, com o acordo com o Corinthians. Até metade do ano ainda era o Corinthians que me pagava também. No resto do ano eu já era do Ceará. O contrato terminou no final do ano e como subimos para a Série A, eles queriam muito que eu continuasse. Eu era um jogador livre em dezembro e fizeram força para negociar uma renovação de contrato. Renovei por dois anos. Queria renovar, estou super feliz aqui.

O lateral português a entrar em campo pelo Ceará
O lateral português a entrar em campo pelo Ceará
Felipe

Ganha menos do que no Corinthians?
No início sim, agora na Série A é ela por ela.

Não passa pela cabeça voltar a Portugal?
Claro que sim. Portugal está sempre na minha cabeça, mas, presentemente, não. Depois do contrato acabar, não sei, Portugal é sempre um lugar onde gostaria de voltar para jogar. Também não me importava de jogar novamente nos EUA.

Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Não, e prefiro não pensar, gosto de adiar o máximo possível a ideia de ter de parar de jogar.

Alguma vez foi chamado a representar Portugal?
Sim, nos sub-19 e sub-20, mas apenas para jogos particulares. Foi um sonho que ficou por realizar, representar a seleção nacional. Não me queixo de nada, tive algum azar com lesões. Se não tivesse lesões, acredito que a minha carreira poderia ter sido outra coisa, mas nunca vou saber. Tive muita sorte em tudo o que tive. Mas uma das únicas coisas que me custa é nunca ter representado a seleção nacional A. Seria um sonho incrível, se calhar o sonho máximo dentro do futebol.

Rafael a treinar força no ginásio
Rafael a treinar força no ginásio
D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No Corinthians.

Deu para investir em algum negócio ou em imobiliário?
Sim. Tenho algumas aplicações bancárias.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Viajar. Acabei de fazer uma viagem incrível à Tanzânia, nesta paragem do Mundial de Clubes.

Tem algum hobby?
Adoro ver Fórmula 1.

Qual o seu piloto favorito?
É o Hamilton. Até tenho um simulador em casa e adoro brincar um bocadinho a ser piloto de Fórmula 1.

É um homem de fé, acredita em Deus?
Sim. Aqui não tanto, mas em Portugal ia sempre à igreja.

Superstições?
Não, não sou nada agarrado a isso.

Quando fez a primeira tatuagem e o que é?
Tinha 18 anos e foi a data de nascimento dos meus pais.

Rafael com a taça de campeão cearense
Rafael com a taça de campeão cearense
D.R.

Acompanha ou pratica outra modalidade sem ser futebol e F1?
Moro num condomínio que tem campos de golfe e gosto de jogar golfe.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
As lesões.

E o maior arrependimento?
Não é um arrependimento porque não passou tanto por mim, mas se calhar não ter tentado a minha sorte mais tempo no Benfica. Mas, como disse, não dependeu só de mim.

O momento mais feliz na carreira?
Quando assinei o primeiro contrato profissional.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Real Madrid.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Tenho várias. A maioria do grupo do Santa Clara, o Ukra, o Fábio, o Nené, o Marco, não me quero esquecer de nenhum, mas não é fácil, e também tive duas amizades marcantes aqui no Brasil, o Bruno Méndez e o Matías Rojas.

O lateral direito com a namorada e o troféu de campeã cearense
O lateral direito com a namorada e o troféu de campeã cearense
D.R.

Tem ou teve alguma alcunha?
Rambo”, desde o Sporting, porque sempre gostei de fazer ginásio, dedico-me muito à parte física e também porque o meu nome Ramos é um pouco parecido [risos].

Alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Alterava o castigo das simulações, para ser expulsão direta cada vez que houvesse uma simulação. É uma coisa que me irrita, as simulações.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
Um jogador que me deu muito trabalho foi o Sebastian Giovinco, do Toronto FC.

Tem algum talento escondido?
Além de jogar "Call of Duty" na Playstation, só se for pilotar no simulador da Fórmula 1. Acho que tenho jeito.

Se não fosse jogador de futebol, o que seria?
Piloto de Fórmula 1? [risos]. Não sei se teria sido, mas gostava.

 

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Citação de Lebohang, Em 31/07/2025 at 12:28:

Rui Pedro

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“A mágoa da saída do FC Porto vai estar sempre comigo. Não foi correta a forma de tratar um jogador formado na casa e que ama o clube”

Rui Pedro, de 27 anos, foi uma jovem promessa do FC Porto, mas acabou por não vingar no clube do coração, onde fez toda a formação dos 14 aos 18 anos. Sublinha que não foi por falta de vontade ou de talento que saiu do Dragão, mas devido a acontecimentos “estranhos”, aos quais, garante, foi alheio. O avançado, que está na Turquia há dois anos, revela pormenores da sua ascensão e queda no FC Porto, fala dos primeiros empréstimos ao Boavista e Varzim, antes de sair para Espanha, e da morte repentina do pai

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A casa às costas

“A mágoa da saída do FC Porto vai estar sempre comigo. Não foi correta a forma de tratar um jogador formado na casa e que ama o clube”

“A mágoa da saída do FC Porto vai estar sempre comigo. Não foi correta a forma de tratar um jogador formado na casa e que ama o clube”
Carlos Rodrigues

Rui Pedro, de 27 anos, foi uma jovem promessa do FC Porto, mas acabou por não vingar no clube do coração, onde fez toda a formação dos 14 aos 18 anos. Sublinha que não foi por falta de vontade ou de talento que saiu do Dragão, mas devido a acontecimentos “estranhos”, aos quais, garante, foi alheio. O avançado, que está na Turquia há dois anos, revela pormenores da sua ascensão e queda no FC Porto, fala dos primeiros empréstimos ao Boavista e Varzim, antes de sair para Espanha, e da morte repentina do pai

 
26 julho 2025 08:30

Nasceu em Paredes. O que faziam os seus pais profissionalmente?
Nasci em Paredes, mas sou de Pedorido. Os meus pais trabalhavam ambos numa fábrica. Eram operadores fabris.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais novo que vai fazer 19 anos.

Foi uma criança tranquila ou deu algumas dores de cabeça?
Era uma criança difícil, mas acima de tudo bem-educada. Não estava em casa cinco horas pegado a um tablet ou telemóvel como hoje, porque nem sequer tínhamos acesso a isso. Estava sempre na rua, com os amigos, a jogar futebol, a fazer mil e uma coisas.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Porque tive noção muito cedo das dificuldades que os meus pais passavam, o que eu ambicionava mesmo era tirar os meus pais daquele, não digo miséria porque miséria é outra coisa, mas daquele aperto enorme em que vivíamos. Foi difícil fazer o meu pai acreditar que eu poderia ser jogador de futebol. Na escola tirava boas notas, mas tinha mau comportamento e os professores por mais que dissessem ao meu pai que tinha de meter-me no futebol, o meu pai não deixava devido ao meu comportamento. Isto para dizer que eu não posso dizer que queria ser jogador de futebol, o meu objetivo principal era mesmo tirar os meus pais do aperto em que estavam naquele momento. Só que o futebol era a única coisa que eu sabia fazer.

Quando diz que tinha mau comportamento, o que quer dizer?
Nunca fui criança de fazer birras. Só que, se os meus pais diziam que não podia ir, eu ia na mesma, se diziam que tinha de estar em casa às seis e meia, sete horas para jantar, porque nas aldeias jantava-se cedo, eu nunca chegava a horas. E o meu pai era muito rigoroso.

Rui Pedro em bebé
Rui Pedro em bebé
D.R.

Torcia por algum clube em criança?
Sempre fui do FC Porto.

Quem eram os teus ídolos?
Tinha uma referência, o Falcão, mas não tinha um ídolo. Eu olhava para o meu pai como um ídolo. Na formação eu era ponta de lança, fixo, era um nove puro e a referência era o Falcão.

Quando e como foi jogar para um clube pela primeira vez?
Comecei a jogar futsal na escola com os mais velhos, tinha uns 11 anos. Na escola sempre fui uma referência, por causa dos recreios, jogávamos futebol no ringue e antigamente toda a gente ficava à volta do campo a ver-nos jogar. No início parecia ser um passatempo, mas depois o professor de Educação Física começou a perceber que podíamos fazer alguma coisa em condições, também muito devido ao meu talento, modéstia à parte. Realmente eu era diferente, não só pelo jogo, mas também pela raça, pela determinação. Nesse mesmo ano o professor conseguiu organizar um torneio com equipas federadas de futsal e defrontámos o Paços de Ferreira, o Académico, Nogueirense, e a verdade é que ficamos em 1.º lugar, fui o melhor jogador e o melhor marcador. Isto contra equipas federadas que treinavam diariamente enquanto nós só treinávamos à quarta-feira.

Como se deu a passagem para o futebol?
Ainda tive uma curta passagem no futebol 7, no Paivense. Mas devido ao mau comportamento na escola, acabei por sair. Na altura não sei se foi mesmo por comportamento ou se foi porque o meu pai não tinha posses, tínhamos de pagar equipamento, fato de treino e essas coisas. Acho que foi um bocadinho por aí. Depois estive um ano e meio sem jogar, até que voltei a jogar no Paivense. Eles vieram ter comigo e fizeram uma reunião com o meu pai, em que disseram que financiavam tudo, davam-me botas, para eu ir jogar futebol de 11. Tinha 13 anos.

Com os pais
Com os pais
D.R.

E a ida para o FC Porto, aconteceu como?
Um empresário amigo da família, o Armando Silva, veio falar connosco lá a casa. Na altura ele trabalhava com o Jorge Mendes e queria muito que eu fosse fazer testes a algumas equipas. Acabei por ir ao Benfica, ao Chelsea, ao FC Porto, ao West Ham e a outra equipa inglesa cujo nome não me recordo. O primeiro treino que fiz, no FC Porto, foi péssimo, correu-me mesmo muito mal. Até chorei ao vir embora. Era uma realidade completamente diferente. No Benfica já foi diferente, fui uma semana com eles para um torneio, em que fui o melhor jogador e o melhor marcador do torneio. Eles queriam muito que eu ficasse, mas acabei por ir para o FC Porto. Não foi o coração que falou mais alto, mas foi o que eles fizeram pelo meu pai, porque o meu pai estava desempregado, a minha mãe também, e eles arranjaram emprego para o meu pai e iam pagando umas parcelas, por objetivos. Foi a melhor decisão que podia ter tomado porque foram sem dúvida os melhores anos da minha vida aqueles que vivi no FC Porto.

Foi viver para a Casa do Dragão?
Sim, com 14 anos.

A adaptação foi difícil para um menino que vinha da aldeia?
Adapto-me muito rápido. Tenho um talento que é: fazer-me de forte. É um dos meus maiores talentos. E um gajo a fazer-se de forte acaba por não ligar tanto, ou as pessoas não te veem tanto como uma pessoa saudosa, carente, que também precisa e necessita de receber carinho e apoio.

Era daqueles que durante o dia era um durão, mas à noite chorava de saudades, com a cabeça enfiada na almofada?
Ainda sou assim. Agora não com saudades dos pais, infelizmente perdi o meu pai, mas tenho uma filha com cinco meses, tenho a minha mulher e tenho muitas saudades delas. Mas também são por elas os sacrifícios.

Rui Pedro com o irmão ao colo
Rui Pedro com o irmão ao colo
D.R.

Como foram as primeiras aventuras na Casa do Dragão?
Fui muito bem recebido por todos. Quase todos os miúdos da minha equipa estavam lá. Partilhei o quarto com o Rui Pires que ainda hoje é um dos meus melhores amigos e com o João Bola e o Fábio Ferreira, o guarda-redes. Depois veio o Bruno Pereira, lateral esquerdo, que também é um dos meus melhores amigos. A adaptação foi muito rápida, foi muito fácil. Foi tudo muito precoce. A minha vida no FC Porto, como hei de explicar, um ano passava em cinco meses, praticamente.

Porquê?
Porque nunca fiquei estagnado num escalão, tirando nos sub-15, em que fiz o ano todo. Depois, foi sempre a saltar de patamar, dois ou três patamares. Descia para jogar com os da minha idade, mas ia treinar e jogar outra vez em cima. Respeitavam-me muito por isso e na Casa do Dragão fui tratado como um filho pelas pessoas que lá estavam. Segundo as pessoas, tenho personalidade e eles gostavam, por isso foi tudo perfeito.

Quando diz que tem uma personalidade diferente, consegue explicar melhor o que quer dizer?
Definindo-me um bocadinho como pessoa, acho que preencho muito o espaço onde estou inserido. A minha alegria é contagiante, a minha forma de estar na vida é contagiante. A proteção para com as minhas pessoas é enorme. Costumo dizer que dou a vida pelas minhas pessoas. E eles sabem disso. Todas as pessoas que entram na minha casa e jantam comigo na minha mesa são pessoas em quem realmente confio muito, senão não o faria.

A propósito de saltar patamares no FC Porto, chegou à equipa B aos 16 anos. Subiu pela mão de Luís Castro?
Sim. Por incrível, quem fez o meu primeiro contrato no FC Porto, quando entrei aos 14 anos, foi o Luis Castro, ainda trabalhava na SAD. Depois, quando ele já estava na equipa B, fui chamado por ele, depois de um jogo-treino que fizemos contra eles.

Quando assinou o primeiro contrato profissional, qual o valor do seu primeiro ordenado e o que fez ao primeiro dinheiro que ganhou?
O ordenado do meu primeiro contrato profissional era de €3500, mas só tive acesso à minha conta com 19 anos. Fiz questão que os meus pais primeiro tratassem do que tinham para tratar, que era muita coisa, e só depois comecei a fazer a minha vida também.

As primeiras saídas à noite, os primeiros namoros, surgiram quando?
Não gosto muito de sair à noite, prefiro conviver com os amigos em casa. Também só comecei a beber álcool aos 20/21 anos. Vim de um meio diferente, o regime de educação dos nossos pais numa aldeia não era igual ao dos meus colegas, não tem nada a ver com uma educação dada numa cidade. Eu próprio também era muito fechado. Não era fechado no sentido de não me dar, era mais fechado naquele sentido de não querer fazer as coisas para não desiludir os meus pais, também com algum receio do meu pai. Ele era muito exigente no sentido de não querer que eu fosse igual a ele. Não tenho nada contra as pessoas que trabalham numa fábrica, mas naturalmente ele queria que tivesse uma vida melhor que a dele. Por isso ele ficava muito chateado com o meu comportamento na escola. Não que eu fosse mal-educado com alguém, mas era daquele género de meter toda a gente a rir na sala, e se havia alguma coisa, o culpado acabava por ser sempre eu.

A propósito da escola, concluiu os estudos em que ano?
Fiz o 12.º ano no Porto.

Em criança
Em criança
D.R.

Quais são os momentos mais marcantes na formação do FC Porto?
São todos. O mais marcante, já depois daquele primeiro treino que correu muito mal, foi o primeiro treino com os sub-15, com o António Folha, o meu treinador. Foi um dos treinadores mais importantes porque acreditou sempre em mim de uma maneira que nem tenho palavras. Esse primeiro treino nos sub-15, em que ia começar a época no FC Porto, correu-me mal também. Eu achava que não tinha feito o que devia ter feito.

Estava muito nervoso?
Não. Era mesmo uma fase de adaptação que somos obrigados a ter. Tens de estar num nível de concentração bom, porque já não é uma brincadeira. O mister sentou-nos no chão no final do treino e perguntou a alguns jogadores se treinaram bem e o que achavam do treino. Perguntou-me se achava que correu bem, eu disse que não e até chorei no banho. Fiquei um bocadinho mal, mas queria tanto aquilo naquele momento que a partir daí foi mesmo tudo muito rápido. Torneios fora, acabei a época com 52 golos. Na época seguinte fiz logo a pré-época na equipa B.

O Luís Castro é muito diferente do Folha?
O FC Porto trabalhava muito da mesma forma. Claro que individualmente cada treinador é diferente, mas dentro daquele esquema tático que tinha o FC Porto do 4x3x3 sólido, ou seja, não havia ainda estas nuances de um 3x4x3 ou de um 5x2x3. Mas eram os dois muito chegados aos jogadores, gostavam de falar com os jogadores, saber como estão pessoalmente. O Folha é mais novo, era assim mais irreverente, mais impulsivo às vezes. O Luís Castro tinha uma maturidade já diferente, outro pulso, nós olhávamos para ele de uma maneira diferente, mas era um homem extraordinário, brincava connosco quando tinha de brincar e quando era para trabalhar, era um trabalho mesmo sério. Evoluí muito com ele.

Aos 14 anos, o avançado concretizou o sonho de jogar no FC Porto, onde fez a formação
Aos 14 anos, o avançado concretizou o sonho de jogar no FC Porto, onde fez a formação
D.R.

Como se projetava no futuro? Qual era a sua maior ambição?
Tendo em conta a minha rápida evolução e ascensão e como as pessoas me tratavam, comecei a ambicionar estrear-me pela equipa principal. Não pensava que ia ser tão rápido, mas ambicionava um dia chegar à equipa principal do FC Porto. Nunca vi o FC Porto como um clube de relançamento, como um meio para chegar a um fim, do género, vou fazer um ano bom no FC Porto e vou para o United ou para o Chelsea. Não. Na minha cabeça naquele momento só existia o FC Porto e era muito claro o objetivo. Eu lutava tanto e pensava tanto naquilo que acabou por acontecer mais rápido do que eu ou a minha família pensava.

Quando foi chamado pela primeira vez para representar Portugal?
A minha primeira internacionalização foi com 15 anos. Como dizia há bocado foi tudo muito precoce, porque eu saí do Paivense, fui para o FC Porto e passado três jogos fui chamado para a seleção. Foi tudo muito rápido.

Quais os melhores momentos que guarda dos vários escalões da seleção portuguesa onde jogou?
Todos os momentos com o treinador Filipe Ramos, que é um treinador especial, porque não é só um treinador, nenhum jogador o via só como treinador. Todos os momentos com o mister Hélio foram fantásticos. É também uma pessoa 10 estrelas e acreditava muito nas ideias dele, era incrível connosco. Tínhamos um grupo muito forte e dávamos-nos todos muito bem. Por isso é que conseguimos fazer muitas coisas bonitas nas seleções.

Rui com Bruno Costa a festejar um golo na Youth League, em 2016
Rui com Bruno Costa a festejar um golo na Youth League, em 2016
Carlos Rodrigues

Quando foi chamado para treinar pela primeira vez com a equipa principal?
Foi logo aos 16 anos, pelo Lopetegui.

Estava nervoso por ir treinar com as grandes figuras do clube?
Nervoso não, estava ansioso para que o treino começasse. Mas tive azar porque torci logo o pé. Chutei a bola e o Opare chegou tarde e torceu-me o pé. Os treinos eram intensos, a qualidade já era fora do normal porque o FC Porto na altura era muito forte.

Qual foi o jogador que mais o surpreendeu?
Nesse primeiro treino não me recordo, só me lembro de estar ansioso, entrar e torcer o pé, estive pouco tempo a treinar. Mas foram todos impecáveis comigo. Mais para a frente, o jogador que mais me surpreendeu foi o Corona. Na parte técnica, era absurdo. E o Herrera, naquilo que é o entendimento do jogo. O mister era impecável comigo. Brincava muito comigo, os jogadores também, receberam-me de uma forma incrível. Com o tempo começas a sentir-te mais jogador porque o entendimento deles contigo é diferente, o jogo é mais rápido, é mais fluido, percebes que se eles fazem, também tens de fazer, se tiveres talento e vontade, as coisas acabam por acontecer.

Acabou por estrear-se na equipa principal já com Nuno Espírito Santo como treinador. Recorda-se do jogo?
O meu jogo de estreia foi para a Taça com o Belenenses. Entrei bem no jogo, mas acabámos por empatar 0-0. Havia muita pressão naquela altura no FC Porto, porque a equipa já não marcava há muitos jogos. Íamos enfrentar o SC Braga dias depois, eu não contava ser chamado porque havia jogadores que voltaram de lesão, mas acabei por ser convocado. E no dia do jogo, senti que se entrasse ia fazer golo.

Foi um pressentimento?
Sim, porque sonhei muito com isso no dia anterior. Não é bem sonhado, antes de adormecer, pensei e visualizei mesmo muito as formas que poderia fazer o golo e acabou por acontecer.

Tinha 18 anos. Recorda-se do que o Nuno Espírito Santo disse-lhe antes de entrar em campo?
Disse só para eu desfrutar. Ele dizia-me sempre que eu tinha muita, muita qualidade, mas do que gostava mais em mim, era a alegria com que eu treinava, a forma com que eu estava no treino. Nunca mais me esqueço a maneira como ele disse: “Vamos entrar, desfruta do jogo com a tua alegria e vai correr tudo bem.”

Consegue lembrar-se do que sentiu quando marcou aquele golo contra o SC Braga?
Não consigo expressar o sentimento por palavras. Quando fiquei sozinho com o guarda-redes à minha frente, estava muito claro na minha cabeça o que queria fazer. O estádio naquele momento, não digo que foi por ser o meu golo, viveu aquele momento de uma forma diferente, porque já não marcávamos há muito tempo. Foi o desbloquear da situação em que estávamos, sob pressão, toda a gente.

A partir daí pensou e sentiu que havia agarrado o seu lugar na equipa principal?
Não. Havia muita qualidade, sabia que tinha de ser aos poucos. Claro que se as coisas tivessem sido feitas de outra forma, eu poderia estar noutra situação, acredito que sim, mas as coisas são como são.

O avançado estreou-se na I Liga, a marcar pelo FC Porto, em 2016
O avançado estreou-se na I Liga, a marcar pelo FC Porto, em 2016
NurPhoto

Explique então o que aconteceu para ter ido parar ao Boavista na época 2017/18.
Não quero falar sobre isso. As pessoas que fizeram o que fizeram já não estão lá, felizmente. Já foi tudo mandado embora. Eu também não consegui perceber muita coisa. Estava no europeu sub-19, em que fomos à final contra a Inglaterra, e eu, o Dalot e um jogador inglês fomos eleitos os melhores jogadores do Europeu. Voltámos ao FC Porto. Depois tivemos outra vez um estágio com a seleção, para fazer dois jogos contra a Suíça. Nesse estágio estava no quarto com o Rui Pires e vejo no rodapé da TV que eu tinha sido emprestado ao Boavista.

Não sabia de nada?
Pois. Eu, que era o jogador, não sabia o que estava a acontecer.

Quem era o seu empresário?
Prefiro não dizer.

Mas deve ter falado com ele depois, não lhe perguntou o que se passou?
Como disse, não quero falar ainda sobre o assunto. O que posso dizer é que senti um misto de sensações. Tudo começou a desenrolar-se porque deixei o empresário que tinha e passar para um novo, o mesmo que tenho agora, e a partir daí foi o desmoronar de tudo. Não posso dizer mais nada por agora, não é o momento certo.

A passagem pelo Boavista não correu muito bem. Porquê?
Eu era apenas um miúdo que ia emprestado pelo FC Porto. Mas aconteceram muitas coisas, muitas polémicas e confusões, saíram notícias sobre mim que não correspondiam à realidade.

Que tipo de notícias?
Que eu saía à noite, que fazia isto e aquilo, que andava não sei onde. Coisas que não faziam mesmo sentido nenhum, que não existiam e que não eram verdade. Acho que o meu exterior, talvez a forma como me expresso, faz parecer às pessoas uma coisa que não sou.

Não se defendeu?
Não, não tinha a maturidade que tenho agora, não tinha o acesso às coisas que tenho agora, eram tempos completamente diferentes. O que posso dizer é que até o Pinto da Costa disse: "O Rui Pedro vai ser um jogador de grande utilidade". E, de repente, parece que passei de bestial a besta.

Rui Pedro a festejar o golo que marcou ao SC Braga, em dezembro de 2016
Rui Pedro a festejar o golo que marcou ao SC Braga, em dezembro de 2016
NurPhoto

Sente que teve alguma responsabilidade na mudança de atitude do FC Porto para consigo?
Não, é completamente alheio a mim. A mágoa ainda está comigo, não minto, e vai estar sempre, porque não foi a forma correta de tratar um jogador que ama o clube e que é formado na casa. A partir do momento em que fui para o Boavista e para todos os outros clubes porque passei, antes de sair do país, a minha cabeça esteve sempre no FC Porto. Nunca consegui desvincular-me totalmente do FC Porto, nunca consegui ser um jogador das equipas onde estava inserido, nunca consegui. Depois de estar inserido nos clubes, eu queria tanto voltar para o FC Porto que em vez de lutar e fazer algo para voltar, deixava que o tempo fosse passando e só desejava que chegasse rápido o final da época.

Chegou a fazer pré-época com Sérgio Conceição, antes de ir para o Boavista?
Eu fiz duas pré-épocas com o Sérgio Conceição, antes de ir e depois de vir do Boavista.

Tinha esperança de ficar no FC Porto depois do Sérgio Conceição o ver treinar?
Lá está, foi tudo muito estranho.

Durante a primeira pré-época com o Sérgio Conceição, que indicações é que ele foi dando? Mostrava estar satisfeito com o seu trabalho?
Não conseguia entender bem, porque o Sérgio era um treinador mesmo para a equipa toda. As pessoas sabem perfeitamente que o Sérgio é um treinador diferente. É um treinador especial. Não há nenhum treinador no mundo como o Sérgio.

Porque diz isso?
A maneira de ele ser, a maneira como ele trabalha, nunca vi nada igual. A maneira como os treinos são tratados, nunca vi nada igual, a intensidade do treino, nunca vi nada igual e depois podem dizer assim, ele berra, faz não sei quê, mas, no fundo, vais colher os frutos daquilo tudo. É impressionante. Eu não guardo mágoa do mister, porque aquilo foi tudo muito estranho. Queria, não queria, queria, não queria... O que me chegava eram informações sem base, contraditórias. Diziam que estava a gostar muito, depois já não queria, estava a gostar muito, depois já era, se calhar é melhor saíres para jogar...

Quem lhe dava essas informações?
Pessoas do clube. O que fizeram comigo não se faz. Na altura não tinha noção do impacto que tive naquele momento, hoje consigo ter mais noção do que realmente foi, do que foi comentado, do que foi falado e acho que foi mesmo muito mal gerido, sinceramente.

O avançado começou a ser chamado para representar Portugal aos 15 anos
O avançado começou a ser chamado para representar Portugal aos 15 anos
D.R.

Já tinha deixado de viver na Casa do Dragão?
Sim, fui viver para os apartamentos por cima do Dolce Vita, para onde ia a maioria dos jogadores que saiam da Casa do Dragão. Fui para lá com o Rui Pires.

E namoro sério ainda não havia?
Sim, estou com a minha mulher desde os 16 anos. Conheci a Bárbara na escola. Ela é irmã de um dos meus melhores amigos na altura. Eu gostava muito dela, mas nunca a tinha visto com outros olhos, porque era a irmã de um dos meus melhores amigos, mas as coisas foram evoluindo. O pai deles, o meu sogro, teve muita influência também na minha carreira, porque me levou muitas vezes aos treinos. Mas quando fui para o Boavista já tinha comprado casa em Canidelo. E depois a Bárbara foi viver comigo. Já faço vida de casado há muitos anos.

Disse no início da entrevista que já perdeu o seu pai. Quando e como aconteceu?
Ele faleceu há seis ou sete anos. Foi repentino. Eu estava na minha casa com a Bárbara e o meu irmão, que tinha 13 anos, ligou-me a chorar, aos berros, a dizer que eu tinha de ir rápido para casa, que o pai não estava bem. Fui para lá a correr, ainda estive de volta dele algum tempo com os bombeiros, mas já não deu. Foi um ataque cardíaco fulminante.

A estreia na Liga dos Campeões contra o Leicester City, em 2016
A estreia na Liga dos Campeões contra o Leicester City, em 2016
Carlos Rodrigues

Como foi a sua estreia no Boavista?
Até correu bem, fiz logo golo contra o Estoril Praia, com assistência do Fábio. Fui porque era o mister Miguel Leal que supostamente me queria, mas, entretanto, foi despedido e veio o mister Jorge Simão. A minha estreia lá já foi com ele. Mas o jogo a seguir era como FC Porto, no Bessa, e o jogador que jogava na minha posição fez um jogo muito bem conseguido, muito bom e senti logo que as coisas iam começar a desmoronar. Eu era miúdo, não tinha a autoridade que tenho agora, depois falava-se muito, muitas coisinhas daqui e dali. Eu não tinha muita paciência para essas coisas. As pessoas se quisessem saber a verdade que viessem falar comigo.

Nunca tentou defender-se de alguma maneira?
Como é que te vais defender de um boato? Houve 20 boatos. É impossível. Eu posso inventar uma coisa sobre ti, falar 10 vezes essa coisa, pedir a mais pessoas que falem... Para que me ia expor mais do que o que já estava a ser exposto? Eu até podia defender-me, mas para quê, sinceramente? As pessoas que estiveram comigo desde os meus 15 anos é que tinham de confiar e perguntar-me, se queriam saber a verdade. Não era acreditarem em coisas que chegavam, não sei de onde.

Está de consciência tranquila em relação aos seus comportamentos?
Completamente.

Como foi a relação com o Jorge Simão e o que achou dele enquanto treinador?
Não tenho muito o que dizer, sinceramente. Se calhar, não foi a melhor versão de mim para ser treinada por ele. Acho que não estávamos no mesmo enfiamento. Ele até pode ter puxado para mim, já não me recordo, mas eu não estava com a cabeça lá. O grupo era bom, fiz boas amizades boas, mas...

Sentiu que tinha baixado um patamar e não sabia lidar com isso?
Sim. Baixei um patamar quando não o merecia e em vez de lutar para sair fui muito abaixo psicologicamente.

Não pediu ajuda? Desabafava apenas com a sua namorada?
Não sou muito de desabafar, nunca desabafei nada, com ninguém. Nunca fui muito capaz de falar dos meus problemas. Por isso se calhar ainda hoje tenho a mágoa que tenho, porque as coisas deviam ter sido diferentes, sou o jogador que sou e sei o talento que tenho.

O avançado foi emprestado ao Boavista em 2017/18
O avançado foi emprestado ao Boavista em 2017/18
D.R.

Após o empréstimo de um ano ao Boavista, regressa para fazer pré-época com o FC Porto e mais uma vez acaba emprestado, mas desta vez para o Varzim, que estava na II Liga. Como acabou por descer mais um patamar?
Nem eu sei. Não consigo explicar. Não consigo arranjar uma justificação. Um jogador que é uma promessa do melhor clube em Portugal e vai parar à II Liga, num clube quase a descer de divisão... Alguma coisa estranha estava a passar-se ali dentro.

Sentiu serem "guerras" de empresários, ou no clube, que o prejudicavam?
Como disse, não posso nem quero falar do assunto. O que posso dizer é que fui completamente alheio ao que aconteceu. As coisas aconteciam sem eu saber e perceber. Dizia-me que ia para ali sem eu saber o porquê.

Não perguntava a razão de ir para aquele clube?
Já não me recordo bem. Sinceramente, essa fase foi passada a mil na minha cabeça. Por acaso a época correu bem, porque apanhei dois treinadores que foram muito bons para mim e que gostavam muito de mim, mas foi passada a mil mesmo. Não reagi bem de certeza, não era só um passo atrás, eram três passos atrás.

Rui Pedro (à esquerda) em luta com o argentino Franco Cervi, do Benfica, em 2018
Rui Pedro (à esquerda) em luta com o argentino Franco Cervi, do Benfica, em 2018
NurPhoto

Ainda iniciou essa época 2018/19 no FC Porto B, com Rui Barros.
Sim. Mas depois passou-se muita coisa lá dentro. O FC Porto chegou ao ponto de meter-me a treinar à parte. Tem noção do que isso é para um jogador da formação desde os 14 anos? Treinar à parte?

Mas continua a afirmar que não teve culpa direta em todo esse processo.
Exatamente. Pode ser que quando acabar a carreira eu dê uma entrevista para explicar algumas coisas que se passaram.

Não se recorda nada dessa época no Varzim?
Foi uma época difícil, de resiliência, de um grupo com jogadores muito bons. Não sabia que os jogadores eram tão bons, surpreenderam-me mesmo muito, foram incríveis comigo. Ao nível dos jogadores, em todos os clubes que passei, fui sempre recebido de uma forma incrível, porque eles sabem o que sou, sou verdadeiro, sou frontal.

Notou grande diferença da I para a II Liga?
Sim, claro. Na altura tinhas mais espaço na I do que na II Liga, mas eu também estava a jogar numa equipa mais inferior, acabámos por conseguir a manutenção, mas foi uma época difícil.

Dizia há pouco que era um verdadeiro ponta de lança, um número 9…
...No FC Porto, sim, mas depois comecei a perder muito a referência ponta de lança. Acho que sempre tive faro para o golo e continuo a ter, mas um ponta de lança como antigamente eu era, já não sou. Evoluí noutros sentidos, devido às equipas por onde passei e ao que o treinador nessas equipas precisava de mim, para outras posições.

 

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“Sou muito esquisito com os cheiros. Tenho a alcunha de 'princesa' porque sou muito cuidadoso com a higiene e gosto de me perfumar”

Nesta Parte II do Casa às Costas, Rui Pedro continua a abordar a saída do FC Porto e os empréstimos ao Granada B e Leixões, antes de assinar pelo FC Penafiel, onde jogou duas épocas. Falamos também das conquistas do campeonato e da Taça da Eslovénia e dos últimos dois anos no Hatayspor, da Turquia. Pai há cinco meses, o avançado confessa ainda que o seu maior talento “é fingir que está tudo bem”

Inicia a época 2019/20 no Granada B, da Espanha. Já fazia parte dos planos sair do país?
Nada do que me tinha acontecido até ao momento me passava pela cabeça. Mas pronto, fui para o Granada B e até foi bom para mim, porque adorei estar lá.

A sua namorada, a Bárbara, foi consigo?
Não, na altura ela ainda estudava. Tirou o curso de cabeleireira e ainda trabalhou muitos anos como cabeleireira.

Foi bem recebido em Granada?
Sim, ambientei-me muito rápido. Estava lá o Rui Silva, que me ajudou muito. Treinei algumas vezes com a equipa A, mas jogava sempre na equipa B. Foi bom, gostei muito de estar em Granada, adorei a Espanha.

Só ficou seis meses porquê?
Mais uma vez, não posso contar agora o porquê de ter vindo embora.

Em 2019/20, Rui Pedro foi emprestado ao Leixões
Em 2019/20, Rui Pedro foi emprestado ao Leixões
D.R.

Veio de Granada para ser emprestado ao Leixões, onde jogou época e meia, certo?
Sim. Gostei do Leixões, é um bom clube, mas, claro, a II Liga é muito difícil, há jogadores muito bons, as pessoas não têm noção, mas há muita qualidade. Existe muita qualidade em todos os escalões de Portugal, a realidade é essa. Hoje em dia vejo jogadores a sair de escalões muito inferiores para I e II Ligas e dão-se bem. Tens o caso do Jota Silva, que jogou comigo no Leixões.

Teve seis treinador nessa época e meia, no Leixões. Algum que o tenha marcado mais?
O Manuel Cajuda. É incrível. Todos os dias acontecia alguma coisa diferente com ele.

Recorda-se de alguma história com ele?
Epá, sim, mas não posso contar [risos]. É um homem 10 estrelas, devíamos ter mais gente desta. E atenção que ele percebe de futebol. Ele tinha uma ideia muito clara do que é o jogo e do que é a vida dentro do futebol. Adorava-me e falava muito comigo. Era incrível.

Rui Pedro esteve época e meia no Leixões
Rui Pedro esteve época e meia no Leixões
D.R.

Em 2021 acabou por assinar com o FC Penafiel e deixou definitivamente de estar ligado ao FC Porto. Foi a única proposta que teve?
Pelo que soube, foi o único clube que fez mesmo uma oferta.

O que lhe passava pela cabeça, e pelo coração, ao perceber que o vínculo com o seu amado FC Porto estava desfeito? Pensou que nunca mais iria jogar num grande?
Sim. Nunca ia jogar num grande, a não ser no FC Porto, porque sei o que o FC Porto significou e significa para mim. Agora, regressar ao FC Porto, claramente que estava fora dos planos.

Foi ganhar muito menos do que ganhava no FC Porto?
Sim, foi significativo. Notava bem a diferença.

O que pode contar dessas duas épocas no Penafiel? Alguma coisa que tenha marcado mais?
O mister Pedro Ribeiro. Até a saída dele estávamos bem. Marcou-me pela pessoa e pela vontade que tinha de ser treinador num nível alto. Depois dele sair, nem sei explicar... foi diferente, não posso dizer mais.

No final dessa época e meia o FC Penafiel não quis renovar?
Acabou o contrato e eu não queria ficar lá, mas também não tive ninguém que me dissesse: "Olha queremos que fiques aqui." Mesmo que dissessem, eu não queria ficar.

O avançado que assinou com o FC Penafiel em 2020/21, a tentar proteger a bola de Fábio Batista, do Benfica B
O avançado que assinou com o FC Penafiel em 2020/21, a tentar proteger a bola de Fábio Batista, do Benfica B
Gualter Fatia

Que propostas teve na altura?
Que me lembre, foi só do Olimpija Ljubljana, da Eslovénia. Fui para lá em agosto.

Como foi o primeiro impacto?
Já estava lá um português que jogou comigo no FC Porto durante alguns anos, o David Sualehe. No início não fomos recebidos de uma forma extraordinária porque têm uma cultura diferente, são mais frios, mas com o tempo fomos ganhando o nosso espaço e depois já éramos vistos de uma forma diferente pelas pessoas do clube, pelos adeptos.

O seu inglês era bom?
Entendia, mas para falar era muito fraco.

Que tal era o clube?
Não nos faltava nada, tinha condições e ainda poderia ser melhor. Não eram pessoas calorosas, nem de afetos.

Foi sozinho ou com a namorada?
Ela foi comigo e adorou. O país é fantástico, super limpo, muito bom mesmo.

Em 2022/23, Rui Pedro foi jogar para o Olimpija Ljubljana, da Eslovénia
Em 2022/23, Rui Pedro foi jogar para o Olimpija Ljubljana, da Eslovénia
D.R.

O balneário era muito diferente do que estava habituado?
Sim, não têm aquela coisa de fazer almoços, de saírem, das brincadeiras. No segundo ano já tínhamos uma moral diferente, já olhavam para nós de uma maneira diferente, já entravam mais nas nossas brincadeiras.

A primeira época correu bem, ganharam a Taça e o título. Qual foi a sensação de ser campeão pela primeira vez?
Foi muito bom. Foi aí que comecei a sentir novamente o amor que tinha pelo futebol.

Começou a conseguir esquecer o FC Porto?
Não. Não vou mentir. Mas comecei a sentir outra vez a paixão pelo futebol, a vontade de fazer golos e de querer fazer sempre mais. No segundo ano, entrar numa competição europeia, meteu-me num patamar altíssimo. Trouxe o melhor de mim. Com o João Henrique foi muito bom.

O futebol praticado na Eslovénia é muito diferente do português?
O nível é mais fraco. É mais à base do físico. Mas o João Henrique implementou coisas diferentes e foi muito por aí que conseguimos entrar numa competição europeia.

Assinou dois anos e meio com o Olimpija, mas só ficou ano e meio. Porquê?
Eles queriam renovar comigo, se eu não renovasse não jogava. Aqueles problemas normais dos clubes. Tens de arranjar um clube que traga dinheiro, senão não sais. Em janeiro estive muito tempo a treinar à parte, foram de estágio de pré-época no inverno e nem fui com a equipa.

Por que razão não queria renovar?
Porque a época estava a correr-me muito bem e iam aparecer coisas melhores de certeza, eu queria ir para um patamar diferente. Até que apareceu o Hatayspor, da Turquia, em janeiro, e fui.

A agradecer por mais um golo marcado ao serviço do Olimpija Ljubljana
A agradecer por mais um golo marcado ao serviço do Olimpija Ljubljana
D.R.

O Hatayspor foi um dos clubes mais afetados pelo sismo que atingiu a Turquia e a Síria em 2023. Várias pessoas ligadas ao clube, incluindo jogadores e funcionários, perderam a vida no terramoto. Não teve receio de ir para lá?
Eu vivo um dia de cada vez. Neste mundo somos o quê? Pode acontecer a qualquer um, a qualquer momento, em qualquer sítio do mundo.

Quando chegou à Turquia quais foram as primeiras impressões?
Cultura diferente, comidas diferentes, maneiras de estar diferentes, treinos diferentes. A primeira coisa que me fez mais confusão foi ninguém em Istambul falar inglês. Ainda não consegui perceber como num dos maiores aeroportos do mundo ninguém fala inglês. Se precisas de ajuda para alguma coisa, tens que desenrascar com o tradutor no telemóvel, senão não tens hipótese. E depois as pessoas não te ajudam em nada. Esse foi o primeiro choque. Depois tens o choque do clube, que é um clube médio-baixo, que luta para se manter. Acabámos por descer de divisão esta época.

Na primeira época, o que achou da Superliga turca?
É uma liga boa e agora ninguém consegue perceber bem o que está a acontecer na Superliga. Acho que é o efeito Mourinho e de jogadores com o nível do Icardi, Osimhen, Tadic a virem para aqui. Mudaram o estigma do futebol turco. Acho que vai ser cada vez melhor por causa dos jogadores e dos treinadores europeus que estão a vir para cá. Porque o treinador turco tem um fundamento de treino completamente diferente do europeu.

Em que aspetos?
Em todos os aspetos. Não há grandes bases de treino, é tudo muito para a parte física, pouco trabalho com bola, há poucos registos de nuances de bolas paradas.

Rui Pedro segura na Taça do campeonato conquistado em 2022/23, pelo Olimpija Ljubljana
Rui Pedro segura na Taça do campeonato conquistado em 2022/23, pelo Olimpija Ljubljana
Damjan Zibert Photography

Acha que pode beneficiar do facto do mercado na Turquia estar a mexer tanto?
Não. O futebol é um jogo coletivo. Não há nenhum jogador no mundo, a não ser o Messi, que possa resolver um jogo sozinho. Ou seja, precisas dos teus colegas, precisas de um bom projeto, precisas de um clube estável e aqui na Turquia tudo o que possas imaginar de estável, não há. Não há estabilidade nenhuma. Os jogadores ficam um, dois meses sem receber. Recebes um e estás outra vez dois meses sem receber, seja em que clube for. Se estás num clube de topo na Turquia, estar dois meses sem receber se calhar não te faz grande diferença.

Já esteve quanto tempo sem receber?
Dois meses e meio.

Deve ter muitas histórias para contar da Turquia. Pode partilhar uma ou duas?
Assim, de repente, não me lembro. Tirando o cheiro a tabaco constante, em todo o sítio por onde andas. Sou muito esquisito com os cheiros. As pessoas tratam-me por "princesa" porque sou muito cuidadoso com a higiene e gosto de me perfumar.

Entretanto, foi pai. Conseguiu assistir ao parto?
A Elara nasceu em fevereiro, em Portugal, e consegui assistir ao parto sim.

Mudou muita coisa desde que foi pai?
Mudou tudo. Não sei explicar. Ainda estou à procura de arranjar o significado. Mal nasceu, não há palavras para descrever o sentimento, é muito incrível. É mais difícil agora ficar longe. A minha filha e a minha mulher são as pessoas mais importantes da minha vida e é muito difícil estar sem elas. Não gosto de estar sozinho. Odeio estar sozinho.

Em 2023/24, o avançado assinou pelo Hatayspor, da Turquia
Em 2023/24, o avançado assinou pelo Hatayspor, da Turquia
DeFodi Images

O que faz para se entreter no dia a dia, quando não está no clube?
Estou no computador, jogo PlayStation, vejo séries, filmes. Antes era viciado em reality shows. Cozinho para mim, porque não gosto nada de comidas com molhos e aqui é tudo com molhos. Sou mesmo português, da aldeia, gosto da comida típica portuguesa, do arroz, da carne, da batata, do peixe. Tive de aprender a cozinhar para fazer essas coisas para mim.

Algum prato em que seja especialista?
[Risos] Isso não há. Só cozinho para mim, porque sei que vou comer. [risos]. Faço massa, bife, arroz, meto um salmão no forno, coisas simples.

Já fez amizade com algum jogador na Turquia?
O ano passado estava aqui o Calvo, capitão da seleção da Costa Rica. Adorei conhecê-lo. O Joelson Fernandes também está aqui comigo, é um bom miúdo.

Então não tem histórias para contar da Turquia.
Lembrei-me de uma. Tivemos uns dias livres e fomos à Capadócia, a Bárbara já estava grávida e ela queria muito andar de balão. Marcámos tudo direitinho, no dia do balão chegámos lá e a senhora: "Você está grávida, não pode andar" [risos]. Fiquei todo contente. Éramos quatro, fomos com uma amiga e a minha cunhada, irmã dela, e decidimos então que estávamos todos juntos, vivemos muito como um clã, por isso ninguém ia andar de balão. Claro que fingi que ficava triste, mas estava todo contente porque eu não queria andar de balão [risos].

Rui Pedro com a mulher, Bárbara, grávida da filha Elara
Rui Pedro com a mulher, Bárbara, grávida da filha Elara
D.R.

Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Não.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Quero jogar o mais possível.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Turquia.

Deu para investir?
Investi na minha casa no Canidelo, tenho a minha casa em Pedorido também, tenho três carros, mas não investi em mais nada, por enquanto.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Fui às Maldivas com a minha mulher.

Tem algum hobby?
Passar tempo com a minha família.

É um homem de fé?
Já fui.

Superstições tem ou teve?
Não.

Com a filha recém nascida
Com a filha recém nascida
D.R.

Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez?
Curiosamente foi o Pai Nosso, no braço, tinha 16 anos. Mas a mais importante é a data da morte do meu pai.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Acompanho futsal, ténis e NBA. Praticar, não podemos.

Qual a maior frustração que tem na tua carreira?
Ter saído do FC Porto.

E o maior arrependimento?
Não tenho.

O momento mais feliz na carreira?
Marcar aquele golo contra o SC Braga.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
FC Porto e Barcelona.

Tem ou teve alguma alcunha?
Princesa. Já a tinha no Penafiel, por causa dos perfumes.

O avançado (à direita) a fugir de Caglar Soyuncu do Fenerbahce
O avançado (à direita) a fugir de Caglar Soyuncu do Fenerbahce
Anadolu

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Acho que as substituições devem ser feitas em andamento, sem parar o jogo. As regras estão um bocadinho estranhas porque há foras de jogo num campeonato, que no outro não são marcados e é exatamente o mesmo lance.

O VAR não o convence?
Tornou o futebol mais justo, não o tirava.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou até hoje?
O Rúben Dias.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Teria sido jogador de futebol amador [risos]. Honestamente não consigo imaginar outra profissão.

Tens algum talento escondido?
Finjo que está tudo bem.

Qual foi o momento da carreira em que se sentiu mais realizado?
Foi o meu pai ter visto eu ser profissional pelo FC Porto.

@silentz

Passou por aqui com a mesma vontade que eu tenho ao regressar das férias, mas foi uma vitima.

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Ronaldo Tavares

Spoiler

“O norte é diferente de Lisboa. No Penafiel diziam muitas asneiras no treino, não estava habituado. Ficava muito amuado”

Ronaldo Tavares deve o seu nome ao "Fenómeno" brasileiro, cujas jogadas começou a ver e a memorizar desde pequeno. O avançado, que agora joga no Brasil, revela como iniciou o seu percurso no futebol, às escondidas do pai. Fala dos tempos de formação no Sporting, onde Jorge Jesus o passou para a equipa principal durante um jogo-treino, e também das passagens pelo Cova da Piedade, Penafiel e Estrela da Amadora, que ajudou a subir à I Liga, antes de partir para o estrangeiro

Nasceu em Almada. Comece por nos apresentar a família.
Os meus pais são de São Tomé e Príncipe. A minha mãe é cozinheira, o meu pai, quando nasci, trabalhava numa empresa em Sines, agora é condutor de uma instituição na Marisol. Tenho um irmão mais novo de pai e de mãe e um mais velho que é filho do meu pai.

Qual a primeira memória de infância que tem?
Cresci no Fogueteiro e desde criança que gosto de jogar futebol, por isso acho que jogar à bola é o que está mais presente. Sempre quis ser jogador.

Tinha alguém na família que jogasse futebol?
Não. O meu pai foi atleta, do atletismo, em São Tomé.

Ronaldo Tavares em criança
Ronaldo Tavares em criança
D.R.

Deu muitas dores de cabeça aos seus pais em criança?
Quando era pequeno a minha mãe dizia que eu era uma bênção, mas quando fui para o 7.º ano começou aquela altura da rebeldia, da independência. Ainda por cima fui para uma escola onde a minha mãe não tinha tanto controlo em mim. Aí já saí um pouco mais da linha, mas nunca fui problemático. Levava algumas queixas da escola, mas nada de especial.

Quem eram os seus ídolos?
O Cristiano, mas, devido ao meu nome, fui também acompanhando vídeos do Ronaldo "O Fenómeno", porque o meu nome é devido a ele. Por isso sempre acompanhei os "Ronaldos" e os brasileiros Adriano e Robinho.

Torcia por que clube?
Quando era pequeno, como o Benfica ganhava mais vezes, se calhar tinha uma costela do Benfica, mas como fui para a academia do Sporting, ganhei gosto pelo Sporting. Hoje não consigo dizer que sou adepto, mas se calhar sou mais simpatizante do Sporting, visto que tive uma história no clube.

O avançado (no centro) começou a jogar no Paio Pires com 14 anos
O avançado (no centro) começou a jogar no Paio Pires com 14 anos
D.R.

Como e quando começou a jogar futebol num clube?
Essa é a parte mais chata. O meu pai, quando eu era mais novo, queria que eu estudasse. A mente africana é que os filhos sejam melhores que os pais, que sejam médicos, empresários, que tenham profissões boas; querem sempre que os filhos sejam melhores que eles. Por isso, o meu pai exigia muito que eu estudasse e não me deixava jogar futebol, proibia-me mesmo, dizia que não é profissão ou se fosse é só por uns tempos. Foi complicado, por isso comecei a jogar tarde. Comecei a jogar futsal numa equipa chamada Cariocas e a minha mãe tinha de esconder do meu pai.

Quem o levou para os Cariocas?
Aos 12 anos comecei a fazer uns torneios de futsal com um amigo de infância, o Ben Albuquerque, foi ele que me levou para o futebol. Mas a minha mãe escondia do meu pai que eu estava lá. O meu pai ia trabalhar e a minha mãe dizia que eu estava aqui ou ali, mas eu estava a praticar futebol.

Esteve quanto tempo nos Cariocas?
Dois verões, creio. Depois, com outro amigo da escola, o Paulo Leite, fui tentar a minha sorte no Seixal. Só que, como cheguei lá no final do campeonato, só estive a treinar. Entretanto, como o campo era pelado e o meu amigo Rúben jogava no Paio Pires, que já tinha sintético, optei por iniciar a nova época em Paio Pires. As condições eram um bocado melhores que as do Seixal. Fiquei lá dois anos, mas no meio da segunda época comecei a ir treinar ao Sporting.

O avançado ingressou no Sporting com 15 anos
O avançado ingressou no Sporting com 15 anos
D.R.

Como isso aconteceu? Foi alguém ligado ao Sporting que o descobriu?
Como explicava, comecei a jogar tarde, com 12/13 anos e ninguém me conhecia, mas as coisas começaram a correr bem. Nessa altura o meu pai já sabia que eu estava a jogar, ainda que continuasse a ser exigente. Mas já havia mais equilíbrio, respeitou o meu gosto e a minha mãe sempre me deu força para seguir o que gostava. Eu não era mau aluno, só a partir do 7.º ano é que, como a minha mãe dizia, entrou-me diabo no corpo e se calhar tive algumas falhas na escola, chumbei esse ano, mas depois consegui fazer as coisas corretamente.

Estava a contar como surgiu o Sporting.
A minha equipa estava bastante bem, eu também, e um dia um dos diretores chegou ao treino e disse para ficarmos focados, porque estavam pessoas de clubes importantes a observar-nos. Eu pensava que era por causa de um colega meu chamado Marcelo, que já não joga, mas na altura era um fora de série. Eu marcava os golos, mas ele é que me entregava quase todas as bolas. Achava mesmo que era por ele. Portanto, o Sporting veio assim um bocado aleatório. Quando surgiu a oportunidade de ir para o Sporting, fiquei muito feliz.

Qual foi a reação do seu pai?
Para o meu pai, sendo sportinguista, foi a melhor notícia que podia ter. Ele não era muito apoiante de eu ser jogador, mas já que estava no clube dele… A partir daí ele deu-me o suporte máximo, até hoje. Foi incansável, ia comigo para cima e para baixo.

Felício, Jefferson Encada e Ronaldo, no Sporting
Felício, Jefferson Encada e Ronaldo, no Sporting
D.R.

Ingressou no Sporting com 15 anos?
Comecei a treinar com 15 anos, mas só fiz o meu primeiro campeonato com 16 anos.

Mas logo a seguir foi para o Oeiras. Porquê?
Fiz 17 anos no Sporting, comecei a época de juniores no Sporting, estava bem e, entretanto, houve troca de treinadores. O mister Lima creio que foi para Angola, ficámos com o Luís Boa Morte e comecei a jogar menos. O Sporting tinha um protocolo com o Oeiras e fui para lá, para dar continuidade ao meu percurso. Vendo agora, acho que me fez bem.

Chegou a completar o 12.º ano?
Sim, à noite.

Entretanto, regressou ao Sporting.
Antes de começar a época recebi uma mensagem de uma pessoa com quem mantenho contacto, o Tiago Fernandes. Foi um dos treinadores mais importantes que tive porque foi com ele que fiz uma época muito boa no Sporting e consegui assinar o meu contrato profissional. Antes de pensar que voltaria para o Sporting, ele fez questão de enviar-me uma mensagem e preparar-me mentalmente; disse que contava comigo, que eu ia regressar e certamente ia fazer o que fiz, como ele tinha estipulado na sua cabeça. Correu muito bem, podia ser um bocadinho melhor, podíamos ter ganhado o campeonato, mas em termos individuais foi bastante positivo.

Nesse mesmo ano, chegou a estrear-se pelo Sporting B, não foi?
Exato. Com o mister João de Deus.

Recorda-se do jogo de estreia na II Liga?
Sim, estava numa boa fase nos juniores e tive a oportunidade de ir para a equipa B. Acho que tenho até o vídeo dos meus melhores momentos nesse jogo, em Santa Maria da Feira, se não me engano. Entrei, sei que dei uma arrancada muito boa e fiz um golo, mas estava em fora de jogo. Acho que fiz uma boa exibição.

Ronaldo num abraço com Tiago Fernandes seu treinador no Sporting
Ronaldo num abraço com Tiago Fernandes seu treinador no Sporting
D.R.

Qual foi o valor do seu primeiro ordenado?
O meu primeiro ordenado profissional era €1200.

O que fez com o primeiro dinheiro?
Era um miúdo, quis ir comprar roupa, ténis, quis mimar-me. É aquele luxo que os jovens jogadores da minha idade tinham.

Após essa estreia na equipa B, na época seguinte passou a integrar mesmo a equipa B. Lembra-se da primeira chamada à equipa principal?
Sim. Inclusive, lembro-me no primeiro jogo-treino que fizemos contra a equipa principal, fiz o golo da equipa B e a meio do treino o Jorge Jesus trocou-me de equipa. Meteu-me na equipa principal e fiquei a jogar pela equipa principal. Senti-me muito feliz.

E nervoso, não?
[Risos] Também. Não vou mentir. Já estava nervoso em jogar contra eles e depois ainda mais nervoso já daquele lado.

Houve algum jogador do Sporting que o tenha impressionado mais?
As minhas referências são sempre atacantes, por isso, foi o Slimani. Depois veio o Bas Dost. O jogador que mais mexeu com a minha cabeça, eu até dizia "esse gajo é batota", foi o Matheus Pereira. Eu até comentava com alguns fisioterapeutas, que ele era "batota".

Porque dizia isso?
Ele fazia as coisas com muita naturalidade, não se esforçava. Era daqueles jogadores que eu pensava que ia jogar no Real Madrid, Barcelona. Era mesmo absurdo o que ele fazia em campo, com facilidade. Acho que era o único jogador que eu via a jogar com facilidade.

Como eram os treinos com o Jorge Jesus?
Ah, muito intensos. Lembro-me que na minha segunda época na equipa B, fiquei um mês a treinar com a equipa principal e fui com eles para um jogo da Liga Europa porque o Bas Dost estava lesionado, julgo que também o Gelson Dala, e tive a oportunidade de ser convocado. Mas não entrei no jogo. De qualquer maneira esse foi o meu mês de sonho no Sporting. Infelizmente não consegui concretizar o sonho principal que era estrear-me pelo meu clube de formação.

E o Jorge Jesus como lidou consigo?
Era muito exigente, mas gostava de ensinar, pelo menos senti que ele se preocupava com os jogadores que vinham da formação; ensinava mesmo como um professor e é o que levo, os ensinamentos dele.

Que tipo de ensinamentos? Consegue dar exemplos?
Como finalizar com classe, finalizar com mais eficácia. A maioria das vezes era o adjunto que exemplificava no campo, mas ele é que dava as coordenadas. E também chegou algumas vezes a exemplificar como queria que fizéssemos; a maneira de bater na bola.

Ronaldo chegou a ser chamado à seleção do Sub 21
Ronaldo chegou a ser chamado à seleção do Sub 21
D.R.

Tem alguma história com ele ou algum episódio a que tenha assistido e que possa contar?
Ele tinha umas saídas um bocado agressivas. Posso contar dois episódios que não foram comigo, por isso não vou dizer o nome dos jogadores envolvidos. Ainda na equipa B, houve um jogo contra a equipa principal que ficou bem tenso. A equipa B estava motivada a jogar contra a equipa A. Estávamos a jogar equilibrado, de igual para igual. E os jogadores da equipa principal quando sentem que estão a ser "feridos", começam a ser mais durinhos. Às tantas, um jogador da equipa principal foi mais durinho no meu colega e deu para o torto porque o meu colega virou-se contra ele. O Jorge Jesus interrompeu, foi lá e disse ao meu colega que ele nunca mais pisava aquele campo. Do que me lembro ele nunca mais foi lá treinar.

E o outro episódio?
Foi mais ou menos semelhante. Mas dessa vez, antes do jogo, o nosso treinador João de Deus avisou previamente para termos cuidado com as entradas. E logo no primeiro lance, não sei o que deu num meu colega, deu um carrinho e varreu completamente um jogador da equipa principal. O Jorge Jesus ficou doido, começou aos gritos para o João de Deus [risos]. O João de Deus ficou com vergonha e disse a esse colega: "Tu fazes-me passar vergonha." E ele também nunca mais foi treinar com a equipa principal.

Com Rafael Barbosa, num estágio da seleção de Sub21
Com Rafael Barbosa, num estágio da seleção de Sub21
D.R.

Com 18, 19 anos qual era a sua maior ambição? Como se projetava no futuro?
Se calhar, naquela altura vivia mais o momento, mas ambicionava chegar à I Liga o mais rápido possível.

E ambicionava jogar na equipa principal do Sporting, calculo.
Claro, como qualquer jogador da formação.

Quando começaram as saídas à noite e os namoros mais sérios? Gostava de sair?
Nunca tive problemas com as saídas à noite porque durante a época resguardo-me muito. Em termos de namoro, comecei a namorar cedo a mãe da minha filha. Atualmente já não estamos juntos, mas tivemos uma relação de oito anos. A minha filha, a Luana vai fazer sete anos, em outubro.

Conseguiu assistir ao parto dela?
Tentei. Mas depois comecei a ter uns calafrios e a avó da Luana substituiu-me, porque eu não consegui. Comecei a ficar com calor, em pleno outubro suava como se fosse agosto [risos].

Saiu de casa dos pais com quantos anos?
Com 19 anos. Vivia no Montijo, devido aos treinos no Sporting.

Acabou por ser emprestado ao Cova da Piedade após dois anos na equipa B.
Na altura houve aquela situação da invasão à Academia. Eu não estava lá e não quero pronunciar-me sobre isso. Eu e mais alguns colegas que faziam a mesma transição que eu, fomos avisados uns dias antes por alguém da equipa técnica, para não comparecer na Academia, que estávamos dispensados dos treinos da equipa principal. Eu e mais dois colegas. Por isso não estava lá.

Quando soube que o iam emprestar ao Cova da Piedade, como reagiu?
Nesse ano fui chamado à seleção de sub-21. Por isso, vivia uma fase agridoce, porque deixei de jogar com o Luís Martins, não jogava com a equipa B, mas fui convocado para a seleção de sub-21.

O avançado com o amigo Thabo Cele, no Cova da Piedade
O avançado com o amigo Thabo Cele, no Cova da Piedade
D.R.

Percebeu porque deixou de jogar na equipa B?
Ele tinha as suas preferências e uma vez disse-me estar enganado em relação à minha pessoa. Não sei o que lhe havia chegado sobre mim, mas antes dele chegar eu tinha seis ou sete golos, era dos melhores marcadores da equipa e terminei a época exatamente com os mesmos golos. Deixei de jogar. A minha confiança baixou. Não sei explicar os motivos reais, mas vou acreditar que foram preferências por outros jogadores.

O que fez com a seleção de sub-21?
Era a qualificação para um Europeu, não cheguei a jogar nesses dois jogos. Fui substituir o falecido Diogo Jota, que na altura tinha-se lesionado. Não tive oportunidade de jogar, mas estive entre os melhores da geração 96 e 97 e senti-me feliz, senti-me honrado. Mas claro que gostava de ter minutos. Só que o treinador já tinha a equipa base, eu vinha fora do contexto, mas gostei do ambiente, jogadores de grande qualidade.

Ronaldo rumou ao FC Penafiel, em 2020
Ronaldo rumou ao FC Penafiel, em 2020
D.R.

O Luís Martins alguma vez teve uma conversa consigo sobre o porquê de não jogar tanto?
Falava mais com o adjunto dele, o Barão. Ele dizia-me para trabalhar, para acreditar e sempre me deu boas indicações. Mas com o Luís Martins... Nós não tínhamos uma ligação, porque a partir do momento que um treinador chega e do nada faz as mudanças que ele fez… E as mudanças que ele fez, a meu ver, não surtiram efeito porque acabámos por descer divisão no ano seguinte com ele. Fiquei um bocado magoado porque acho que podia ter dado mais nessas duas épocas no Sporting e podia ter sido diferente. Por isso quando surgiu a hipótese do Cova da Piedade não vi com maus olhos. A equipa B tinha descido de divisão e eu, ou ficava nos sub-23, que era uma nova competição, ou tentava a minha sorte no mesmo campeonato em que estava, a II Liga, que era mais competitivo e tinha mais visibilidade que o dos sub-23.

Já tinha empresário?
Sim, trabalhava com a ProEleven. Na altura surgiram alguns clubes da II Liga, não me recordo bem quais, por isso não vou lançar nomes sem ter certeza. O Cova da Piedade era mesmo perto da minha casa e decidi ir para lá, ficava em casa. Naquela altura a minha mentalidade para sair de casa não era tão aberta, queria estar perto dos meus pais.

Mas ainda chegou a fazer alguns jogos na Liga Revelação.
Exato, fui para a Cova da Piedade, apanhei um treinador um bocado difícil de lidar. Cheguei lá supostamente para jogar na equipa principal, só que ele também tinha uma maneira de ver o futebol que não se enquadrava muito à equipa, nem a mim, individualmente. Ele mandou-me e a um colega que veio do Benfica fazer um jogo na Liga Revelação, porque dizia que não estávamos preparados para jogar a II Liga. Nós assim fizemos, até ajudámos num jogo bastante difícil contra o Vitória de Setúbal. Ele é que fez a assistência para o golo e acho que a partir daí jogámos sempre na II Liga no Cova da Piedade. Esse treinador também saiu, ficou o preparador físico/treinador e também não correu muito bem e, entretanto, veio o Miguel Leal, foi quando demos estabilidade à equipa.

No Penafiel, com o troféu de Homem do Jogo
No Penafiel, com o troféu de Homem do Jogo
D.R.

Entretanto, terminava contrato com o Sporting?
Não, quando saí para o Cova da Piedade eles renovaram por mais um ano.

Então quando saiu do Cova da Piedade para o Penafiel ainda tinha contrato com o Sporting?
Não, aí rescindi com o Sporting, que ficou com uma percentagem do meu passe.

Tomou essa decisão porquê?
Tinha de tomar um rumo. O Miguel Leal, que terminou a época no Cova da Piedade, gostava do meu perfil, mal saiu do Cova da Piedade falou comigo na possibilidade de eu ir com ele para uma equipa da II Liga e aconteceu. Um pouco mais tarde do que eu pensava, mas acabei por ir mesmo para o Penafiel.

Foi sozinho para Penafiel?
Não, na altura fui com a minha filha e a mãe dela.

Como foi a adaptação ao clube e à cidade?
Foi algo fora do normal para mim. Senti dificuldade na fase inicial.

Porquê?
Porque nunca tinha saído de casa. Ou melhor, já tinha saído de casa, mas estava no Montijo, era como se estivesse em casa. E o norte, como toda a gente sabe, é diferente de Lisboa. Senti um pouco o impacto da maneira como eles falavam, em termos de treino, diziam muitas asneiras e eu não estava habituado a dizer asneiras [risos]. Nos meus primeiros treinos eu ficava realmente muito amuado com a maneira como falavam comigo. Mas fui-me habituando e percebendo que as asneiras são uma coisa normal, assim como a dureza com que falavam. Eu estava ainda no meu mundo de menino e lá, cresci. Tive de aprender a cozinhar, fazer compras para casa, porque no Montijo basicamente só ficava lá durante a semana e depois ia para a casa dos meus pais.

Na época 2022/23, Ronaldo ajudou o Estrela da Amadora a subir à I Liga
Na época 2022/23, Ronaldo ajudou o Estrela da Amadora a subir à I Liga
D.R.

Era um balneário de homens feitos a que não estava habituado.
Sim, eu era um dos mais novos.

Fizeram-lhe alguma praxe ou algumas partidas?
Não. Eu também quando não conheço o espaço, sou mais reservado. Como não dava muita abertura, não chegaram a essas situações comigo. Mas vi fazerem com colegas meus. Se calhar pelo meu porte físico [1,94 metros] eles ficavam com mais receio [risos].

Como correu essa primeira época com o Miguel Leal?
Foi bastante satisfatória. Encontrei uma equipa madura e também um grande oponente de posição, que era o jogador com mais golos na II Liga, o Pires. Foi bom competir com ele por um lugar, visto que ele era bastante experiente, bastante cotado. Fui apanhando algumas manhas dele. Nesse meu primeiro ano em Penafiel consegui a meia da época ganhar a titularidade e fazer bons golos.

A época seguinte ainda lhe correu melhor. Fez mais jogos e golos, já com o Pedro Ribeiro como treinador.
Sim, foi a sequência do meu trabalho da primeira época. A primeira época acabou devido à covid-19. Eu já levava sete ou oito golos, se o campeonato continuasse, possivelmente chegaria aos 10 golos, mas, no ano seguinte, felizmente consegui ter novamente os índices de finalização acertados. Fiz 10 golos e cinco ou seis assistências, se não me engano. Foi uma época bastante positiva.

Em jogo pelo Estrela da Amadora
Em jogo pelo Estrela da Amadora
D.R.

Onde passou o período de confinamento inicial?
Passei em Penafiel a recuperar de uma mini-cirurgia que fiz no menisco. Algo pequeno. O campeonato encerrou numa sexta-feira se não estou em erro e na segunda-feira anterior tive a lesão no menisco e tive de ficar um mês a recuperar em Penafiel, mas nunca mais senti problema qualquer no meu joelho, graças a Deus.

Como passava o tempo em casa na altura do confinamento?
Tivemos de arranjar soluções, fazer jogos em casa, como tinha a minha filha, a atenção era quase toda para ela. Também jogava Playstation, mas ficava mais entretido entre a família. Estive a recuperar da lesão em Penafiel com o meu irmão, mas depois desci e fiquei com a minha família.

Gaspar, Ronaldo, Kikas (em cima), Régis, Johnstone, Capita e Mário Balbúrdia, o balneário do Estrela da Amadora
Gaspar, Ronaldo, Kikas (em cima), Régis, Johnstone, Capita e Mário Balbúrdia, o balneário do Estrela da Amadora
D.R.

No final da terceira época no Penafiel, como acabou por ir parar ao Estrela da Amadora?
O Penafiel quis renovar, mas achei que era altura de mudar para um clube com mais ambição e no Estrela dispunham de um treinador, o Sérgio Vieira, que tinha ambições que batiam com as minhas, de chegar o mais rápido possível à I Liga.

Presumo que tenha gostado de trabalhar com ele.
Sem dúvida, ensinou-me também bastante. É um dos treinadores mais importantes que tive na minha carreira porque conseguiu espremer o máximo de rendimento meu. Senti que evoluí bastante com ele em termos profissionais e pessoais, porque além de treinador, tem um lado pedagógico e ajudou-me bastante. Sou eternamente agradecido ao Sérgio Vieira.

 O avançado com o irmão mais novo quando este foi campeão pelos Sub23 do Estrela da Amadora
O avançado com o irmão mais novo quando este foi campeão pelos Sub23 do Estrela da Amadora
D.R.

Quando chegou ao Estrela da Amadora, que tipo de avançado era e qual eram as suas mais-valias?
Sempre gostei de correr com a bola. Desde pequeno. As pessoas, às vezes, pela minha envergadura física, pensam que se calhar sou um jogador mais posicional, gosto de atacar o espaço, gosto de ir no um contra um, gosto de movimentar-me, não gosto muito de ficar estático, porque parece que o jogo não passa. As minhas virtudes é mesmo atacar o espaço, ir no um contra um; também posso jogar de costas, mas não é o tipo de jogo que gosto muito. Gosto de jogar mais de frente e atacar a defesa adversária. Se calhar como o meu ídolo, Ronaldo "O Fenómeno".

Costumava ver vídeos dele?
Sim. Eu acho que vi todos os lances bons que ele teve. Todos os lances bons. Ainda vejo hoje em dia. Até já tenho algumas jogadas decoradas na cabeça.

Ajudou o Estrela da Amadora a subir à I Liga nessa época [2022/23], certo?
Sim. Finalmente consegui o que tanto desejava. Cheguei à equipa e encontrei o meu espaço, consegui dar o meu contributo também para conseguirmos atingir os objetivos coletivos. Em termos individuais foi bastante positivo. Houve um mês em que fui eleito, pelo Sindicato, o melhor jogador. Também tivemos aquela fase final que foi uma preparação muito boa que fizemos contra o Marítimo para aceder à I Liga. Foram os jogos, em casa e na Madeira, em que senti mais pressão. O jogo na Madeira mais ainda porque era mesmo a final, tínhamos de ganhar de qualquer jeito.

Nos momentos de maior pressão, o que faz para tentar acalmar-se?
Fico ansioso só nos primeiros minutos, ao entrar em campo. Depois liberto-me rápido. Ponho na cabeça que estou a jogar no ringue azul, que era onde jogava à bola com os meus amigos perto de casa. Penso sempre que estou a jogar na desportiva, sem compromisso para relaxar o meu corpo.

Recorda-se do jogo de estreia na I Liga?
Foi contra o Vitória de Guimarães, se não estou em erro. Tivemos expulsão logo no primeiro jogo. Mas tivemos antes um jogo da Taça da Liga. Como já tinha jogado contra o Vitória de Guimarães quando estávamos na II Liga, já conhecia alguns jogadores. Nesse jogo na I Liga, senti-me completamente confortável.

Notou grandes diferenças da II para a I Liga?
Só mesmo em termos de qualidade. De resto, acho que vai dar tudo ao mesmo. Se calhar a I Liga tem mais qualidade, não é um jogo tão combativo, é um jogo mais pensado.

Dos dois anos que esteve no Estrela da Amadora, quais as recordações mais marcantes?
O jogo da subida. Na I Liga foi o jogo contra o Casa Pia em que fiz o golo nos últimos minutos, tirei a camisola, atirei-a para a bancada e fiquei sem ela [risos].

 

Spoiler

“Na Coreia, ao segundo jogo faço um golo e uma assistência. Dei não sei quantas entrevistas para a televisão. E depois nunca mais joguei”

Ronaldo Tavares, de 28 anos, experimentou pela primeira vez o futebol fora de Portugal em 2024 e já vai no terceiro clube. Após uma aventura de seis meses na Coreia do Sul, onde sentiu dificuldades com a gastronomia local, o avançado mudou-se para o frio da Suíça, mas a falta de minutos de jogo levou-o a optar por outras paragens. No Brasil, desde julho deste ano, já marcou cinco golos e fez duas assistências. Na parte II do Casa às Costas, fala destes últimos meses da sua carreira

Porque saiu do E. Amadora, em 2024, para o FC Seoul da Coreia do Sul?
Ainda tinha mais dois anos de contrato. Mas era uma oportunidade financeiramente bastante melhor.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Mais do dobro.

Ir para fora já estava nos seus planos?
Já tinha pensado em experimentar algo no exterior, visto que Portugal é bom em termos futebolísticos, mas no estrangeiro os níveis de pagamento são sempre superiores. Se conseguisse conjugar o lado competitivo com o lado financeiro, seria sempre melhor.

Neste caso, a ida para o FC Seoul teve mais a ver com a questão financeira, uma vez que o campeonato coreano não é propriamente o mais competitivo, certo?
É aí que se engana. Só estando lá é que se percebe que afinal o futebol não é só Europa. Encontrei equipas bastante bem organizadas na Coreia que, se jogassem em Portugal, possivelmente competiriam para o título, se tirassem os três grandes.

Ronaldo com a filha, Luana
Ronaldo com a filha, Luana
D.R.

Como foi o primeiro embate com a Coreia e os coreanos e como era o seu inglês?
Entendo bastante bem inglês, mas como pratico pouco tenho mais dificuldade em falar. Mas o primeiro impacto foi logo no avião. Sem querer ser mal interpretado, olhar para o lado e ver as caras todas muito parecidas, fez-me uma grande confusão [risos]. Nas primeiras semanas tive inclusive certa dificuldade em identificar os meus colegas. Após algum tempo é que comecei a perceber as diferenças e consegui “apanhar” as caras e os nomes de cada um. Mas no início foi muito difícil [risos].

O que mais gostou na cultura coreana?
Da educação que têm. São um povo bastante educado mesmo. Tanto no comportamento para com as pessoas mais velhas, que é exímio, como para as pessoas mais novas. Eles têm maneiras diferentes de saudar as pessoas mais velhas e as pessoas mais novas. Quando se cumprimenta alguém da mesma faixa etária ou mais velho diz-se "annyeonghseyo", mas tem de se baixar a cabeça, fazer a vénia. Para os mais novos não é preciso baixar a cabeça e basta dizer "annyeongh".

O avançado assinou pelo FC Seoul da Coreia do Sul, em 2024
O avançado assinou pelo FC Seoul da Coreia do Sul, em 2024
D.R.

Foi sozinho para a Coreia?
Sim. Dessa vez fui sozinho. Inicialmente foi um pouco complicado, mas depois adaptei-me.

O que foi mais complicado?
É uma realidade e uma cidade completamente diferentes e costumes completamente diferentes. Era tudo o que nunca vivi. Cheguei lá estavam 40 graus e nós treinávamos às quatro da tarde. Foi o primeiro impacto grande no futebol. Depois, nem todos falam inglês e em termos de treino a comunicação entre mim e eles era um bocado difícil.

Ronaldo com o pai
Ronaldo com o pai
D.R.

Os treinos eram semelhantes aos que teve em Portugal?
Eram diferentes. Lá é muito físico, muita correria. E eles não suam, fiquei impressionado. Eu corria cinco minutos e ficava a suar como se não houvesse amanhã e eles secos, secos, e super disponíveis para correr. Tive um bocado de dificuldade nessa fase inicial.

Sentiu que o facto de ser um negro, ainda por cima grande, criava impacto nas pessoas?
As crianças são mais inocentes, elas é que ficavam bastante impressionadas a olhar para mim [risos]. Logo na primeira semana, senti-me bastante observado no meu prédio e condomínio, mas passou. Via que eles comentavam, eu não entendia o que diziam, mas que eu desse por isso, nunca fui alvo de nenhum comentário racista, pelo contrário, depois de saberem que eu era atleta do FC Seoul, paravam na rua para me saudar e pedir para tirar fotografias. Acho que foi onde me senti mais “estrela”. O FC Seoul é um clube muito, muito grande na Coreia e tem muitos adeptos, os nossos jogos tinham entre 20 a 30 mil pessoas e era meia casa.

A festejar um golo marcado ao serviço do  FC Seoul
A festejar um golo marcado ao serviço do FC Seoul
D.R.

Como correu o seu primeiro jogo?
Fizeram uma cerimónia comigo no estádio. No segundo jogo faço um golo e uma assistência e acho que é o jogo mais marcante que tive na Coreia em termos individuais. Nessa semana foram lá não sei quantos canais para fazer entrevistas comigo. A seguir entrei num jogo contra uma equipa de uma ilha da Coreia e depois nunca mais joguei.

Porquê?
Não sei explicar.

Notou alguma mudança de comportamento da parte do treinador para consigo, ou mesmo dos seus colegas?
Vou acreditar que foi opção, visto que ele tinha outro avançado que trabalhou com ele na outra equipa onde tinha estado, o Pohang. Ele estava bem, a equipa também estava bem com ele, e não joguei muito. Mas acredito que podia ter jogado mais, pelo menos entrar, dar o meu contributo e lutar pela titularidade, e nem tive hipótese disso. Não jogava mesmo, nem entrava, aquecia, aquecia, e não entrava de jeito nenhum.

Como reagiu a isso?
Inicialmente fui pensando, se calhar é porque ele quer preparar-me, mas o tempo foi passando, fui vendo e sentindo que as coisas não estavam a ir ao encontro do que tinham conversado comigo, então, no final dos seis meses senti necessidade de mudar de ares.

Quis sair?
Em parte sim. Eles não queriam que eu saísse. O clube gostava muito de mim, mas o treinador tinha outros pensamentos. E pronto.

O avançado a dar uma entrevista na Coreia do Sul
O avançado a dar uma entrevista na Coreia do Sul
D.R.

O treinador alguma vez o chamou para lhe dar algum tipo de explicação?
Na altura não tive noção, mas após aquele golo e assistência e as televisões estarem lá todas para me entrevistar, tivemos uma conversa, na qual esteve o tradutor para português, um rapaz com quem falo até hoje, uma pessoa espetacular, que me ajudou bastante. O treinador chamou-me, felicitou-me pelo golo e a assistência, mas disse que eu não podia achar que agora ia jogar sempre. E foi mesmo o que aconteceu, entrei no jogo a seguir e não joguei mais.

É possível ter dito alguma coisa nessa conversa que o possa ter ofendido ou criado algum mal-entendido?
Não. Ele é que me chamou, visto que nessa semana as televisões estavam todas lá, porque eu estava a ser a sensação na Coreia. Tinha acabado de chegar e a equipa consegue golear num jogo bastante difícil contra o Gangwon, um rival direto do FC Seoul. Hoje, se calhar, sinto que o senhor não gostou muito da minha vinda para o clube. Serviu-me de aviso para não achar que era o maior. Mas respondi-lhe que só estava lá para ajudar, que queria ajudar o clube a atingir os objetivos, e que já só estava a pensar no próximo jogo.

Com a mãe e a filha
Com a mãe e a filha
D.R.

O que fazia nos dias de folga?
Ganhei empatia com o [Jesse] Lingard, entretanto também chegou o Yazan, da Jordânia. Dava-me bem com os estrangeiros. Com os brasileiros William e Lucas Silva. Tínhamos uma boa ligação entre nós. Até com o Ilyuchenko, o avançado russo. Fazíamos jantares, tínhamos uma boa energia entre nós. Havia alguns coreanos que também se juntavam e não me sentia só.

Gostou da gastronomia coreana?
Vou ser sincero, a comida típica, típica deles, eu não conseguia comer.

Porquê?
Sou uma pessoa esquisita para comer, não vou mentir. Gosto de comer o básico, arroz, massa, carne, e as comidas típicas deles faziam-me um bocado de confusão. Chegamos com ideias na cabeça que eles comem cães, gatos, isto e aquilo, então eu evitava comer as comidas típicas. Não sei se comem essas coisas, mas evitava, fazia-me confusão tudo o que era carnes moídas ou aos cubinhos. Preferia pedir outra coisa [risos]. Em estágios comíamos sempre bife de frango, massa, o normal para que não houvesse problemas. Era sempre algo diferente para nós, os estrangeiros.

Voltando à sua saída do FC Seoul. O que aconteceu então?
Não pedi para sair, mas já mostrava a minha insatisfação e decidimos que o melhor era mesmo sair, mesmo que eles não quisessem. Eles iam continuar com aquele treinador e seria melhor abandonar o clube.

Deu alguma indicação ao seu empresário para onde gostava de ir a seguir ou ficou só à espera que as oportunidades surgissem?
Eles estavam a par das coisas e fizeram a parte deles.

Ronaldo (no centro) durante um jogo na Coreia do Sul
Ronaldo (no centro) durante um jogo na Coreia do Sul
D.R.

Quando lhe propuseram o Yverdon da Suíça, ficou satisfeito?
Na altura surgiram duas equipas na Europa, da I Liga, para onde era suposto ir. Julgo que eram da Polónia e da Roménia. Estava de férias em Portugal, quando me contactaram, até falei com os diretores-desportivos e com os scouts, mas depois veio essa situação do Yverdon e como era na Suíça, tinha mais portugueses, preferi ir para lá. Estava na Europa, podia tentar realçar a minha carreira novamente. E com portugueses fico mais ambientando, não tenho a dificuldade da língua. Mas foi um "casamento" parecido à Coreia.

Como assim?
Fiz o meu golo, até foi na estreia, e não joguei mais.

Novamente? Porquê?
Pois, não sei. Não sei explicar. São perguntas que até hoje faço a mim próprio. Chego aos clubes, consigo causar um bom impacto e depois não jogo. Nem entro. Não tenho oportunidade. Foi o que aconteceu também na Suíça.

Nunca conseguiu perceber o porquê ou o que podia levar a isso?
Nesse caso o treinador era italiano e, pá, não sei, ele também devia ter a preferência no outro avançado, vou acreditar que era também devido a preferências. Mas que cheguei e fiz a minha parte, fiz. Só que não me concederam mais tempo de jogo para continuar.

Ainda fez seis jogos.
Mas em seis meses, fazer seis jogos...E nem fiz 90 minutos em nenhum deles... É complicado para fazer o nosso trabalho.

Após a Coreia, Ronaldo foi jogar para o Yverdon, da Suíça
Após a Coreia, Ronaldo foi jogar para o Yverdon, da Suíça
D.R.

Num dos jogos contra o Grasshoppers acabou expulso. O que aconteceu?
Começou num lance em que fui isolado contra o guarda-redes, ele chuta, aliás, nós dois chutamos, ele fica no chão não sei porquê, e levei o meu primeiro amarelo. Entretanto, num segundo lance, a bola vai pingada para as costas, eu levanto a perna para dominar e o jogador da equipa deles baixa a cabeça para meter a cabeça. Abalroei-o e levei o segundo amarelo. Acho que foi o meu primeiro vermelho como profissional. Fiquei bastante triste mesmo.

Com que opinião ficou da Suíça e dos suíços?
Onde eu estava havia muitos portugueses. Os suíços em si são pessoas um pouco fechadas. São educadas, se te veem na rua conseguem dizer “bom dia”, mas são pessoas frias, não têm alegria. Se calhar tem a ver com o estado do tempo, que está sempre mais frio.

Também viveu sozinho na Suíça?
Não, lá já estive com a minha namorada, a Lara. Conhecemo-nos em Lisboa, ela trabalhava numa loja do El Corte Inglês. Estamos juntos há um ano.

O campeonato na Suíça é mais forte do que o da Coreia?
O campeonato da Suíça é mais físico, mais de contacto. Se calhar não há tanta qualidade. Na Coreia acho que o jogo é mais rápido e com mais qualidade. Na Suíça é mais pausado e físico.

Ronaldo em campo pelo Yverdon, da Suíça
Ronaldo em campo pelo Yverdon, da Suíça
D.R.

Como acabou por sair para o Athletic-MG, do Brasil?
Tinha acabado a época na Suíça e surgiu logo essa oportunidade. Mal tive férias. O meu empresário já estava a trabalhar a situação visto que eu não jogava muito. Eles queriam que eu resolvesse a minha vida o quanto antes, só que, eu não sabia que seria assim tão rápido. Pensei que ia ter férias e não consegui quase gozar férias, mas estou bastante feliz em estar aqui no Brasil. Voltei a sentir-me feliz a jogar futebol, passado um ano.

O treinador é o português Rui Duarte?
Sim, bom treinador.

Como foi recebido em Minas Gerais?
Não tenho nada a apontar. Os meus colegas são profissionais top, como pessoas. Até hoje não tenho queixas, são super amáveis, receberam-me muito bem. Cheguei há dois meses e parece que já aqui estou há um ano, dois anos, sei lá. Parece que estou desde sempre. Nunca me fizeram sentir diferente. Temos um grupo que posso considerar família e quando cheguei começamos a ter bons resultados. Claro que bons resultados trazem boa energia. A adaptação foi bastante rápida.

Que tal a Série B brasileira?
Do que tenho visto e jogado é um campeonato bastante competitivo. Os de cima ganham aos de baixo, mas não há nenhum jogo fácil. Estou a achar um campeonato bastante competitivo, não tinha noção. Dizem que os campeonatos brasileiros são parados, paradinhos, mas não, são bastante intensos.

Com a namorada Lara
Com a namorada Lara
D.R.

Comparativamente com o da Suíça, da Coreia e de Portugal, em que nível está?
O Brasil é o país do futebol, individualmente são muito bons, a qualidade é muito forte, muito forte. Não se pode comparar com a Suíça e a Coreia ao nível da qualidade, porque o Brasil tem muito mais qualidade. Comparando com Portugal, acho que a qualidade individual também é superior, mas em termos de organização Portugal está mais evoluído.

Assinou quanto tempo com o Athletic-MG?
Ano e meio. Após o final da época, que será em dezembro, tenho mais um ano.

Que ambições profissionais ainda tem?
Tenho ainda a “chama” de jogar ligas importantes na Europa. Tenho o sonho de jogar a Premier League, liga italiana, liga espanhola. É um sonho. Tenho 28 anos. Mantenho esse sonho.

Como tem vivido e superado o facto de, desde há três, estar mais longe da sua filha?
É o saber gerir. Hoje, com as videochamadas, já dá para matar um pouco a saudade. Não é igual, mas já não é como há 20, 30 anos, já consigo vê-la e acompanhar o crescimento. E ela veio sempre ter comigo nas férias.

O avançado português está no Ahletic-MG, do Brasil, desde julho de 2025
O avançado português está no Ahletic-MG, do Brasil, desde julho de 2025
D.R.

Já pensou no que quer fazer no dia em que for obrigado a pendurar as chuteiras?
Ainda não pensei, mas tenho de começar a pensar.

Gostava de voltar ao futebol português enquanto jogador?
Ambições a curto prazo, não. Mas se calhar daqui a cinco, seis anos, para terminar a carreira.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Coreia.

Deu para investir?
Sim, em imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Não sou muito extravagante, mas com o meu primeiro ordenado como profissional gastei mais de metade em roupa e não era necessário, foi mesmo aquela coisa de miúdo.

Ronaldo, de joelhos, a festejar um golo com os colegas do clube brasileiro
Ronaldo, de joelhos, a festejar um golo com os colegas do clube brasileiro
D.R.

Tem algum hobby?
O que mais gosto de fazer é jogar futebol. Sem ser futebol, gosto de estar relaxado, de apanhar sol nas férias, dos momentos em família.

Acredita em Deus?
Sim. E estou mais praticante, já vou com mais frequência à igreja.

Que igreja?
Católica.

Superstições, tem ou teve?
Tenho. Quando faço um golo com uma bota, já não quero trocar essa bota.

Tem tatuagens?
Não.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Não.

Num momento de concentração
Num momento de concentração
D.R.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Ter jogado pouco o ano passado.

E o maior arrependimento?
Acho que não tenho.

O momento mais feliz na carreira?
A subida de divisão com o Estrela da Amadora.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Real Madrid.

O objetivo que continua por cumprir?
Sempre sonhei com a seleção portuguesa, mas com 28 anos tenho de ter os pés assentes no chão.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Jefferson Encada, Thabo Cele, o Rafael Leão eu já conheci antes do futebol, lá do bairro. As nossas famílias, os nossos pais conhecem-se.

Quando jogou com ele conseguia prever que teria o sucesso que tem?
Ele era diferenciado, já dava para ver que ele era diferente dos outros.

Ronaldo tem contrato com o Athletic-MG, até final de 2026
Ronaldo tem contrato com o Athletic-MG, até final de 2026
D.R.

Tem ou teve alguma alcunha?
Rony.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Alterava a regra de só apitarem o fora de jogo quando a jogada acaba. Acho que não vale a pena, é só perder tempo e fazer uma pessoa cansar-se. Devia ser marcado na hora.

Tem algum talento escondido?
Acho que não.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou até hoje?
O Pepe e Otamendi.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Grande pergunta. Nunca imaginei ser outra coisa. Quando era mais novo gostava de pintar, de desenhar, tinha jeito para grafites e fazer letras bonitas e desenhos para casas. Mas deixei de desenhar.

 

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Aldair Djaló

Spoiler

“Aos 12 anos, os meus pais foram para Penafiel e decidi ficar com a minha família adotiva, só com eles poderia ser jogador de futebol”

Aldair Djaló nasceu na Guiné-Bissau, mas tem o sotaque acentuado das gentes do norte, fruto da criação em Amarante, onde foi adotado por uma família portuguesa com o consentimento dos pais biológicos que, entretanto, foram viver para Penafiel. Foi precisamente por lá que o extremo iniciou o seu percurso como jogador e onde se tornou profissional. Aos 33 anos e atualmente sem clube, conta como tudo se desencadeou desde que chegou a Portugal, com três anos e o que viveu antes de sair do país pela primeira vez

Nasceu em Amarante?
Ao contrário do que muita gente pensa, nasci na Guiné. Vim para Portugal, para a Vila Meã, com três anos, porque o meu pai era jogador de futebol e teve oportunidade de vir para cá jogar no Amarante. Quando pôde, mandou vir a família.

Que era constituída por mais quem?
Pela minha mãe, que era doméstica e cuidava dos filhos pequenos. A minha irmã que tinha seis anos, eu tinha três e o meu irmão que tinha acabado de fazer um ano.

Tem memórias da Guiné?
Não, tenho poucas recordações. Os meus pais contam histórias, mas não me recordo vivamente das coisas. Eles tinham a tradição de fazer as comidas típicas da Guiné e falar crioulo em casa, vivi isso tudo já em Portugal. O mais engraçado é que por causa da escola e por crescer aqui em Vila Meã, tenho o sotaque do norte muito carregado [risos].

Aldair em criança
Aldair em criança
D.R.

Quais as primeiras recordações que tem de Portugal?
O frio e jogar à bola num terreno ao lado da minha casa. Havia muitos miúdos, vizinhos, e como naquele tempo podíamos andar na rua à vontade, as minhas recordações são essas, brincar na rua e sobretudo jogar à bola com os vizinhos.

Ainda se recorda de ver o seu pai jogar?
Pouquinho. Ele levava-nos ao estádio e recordo-me que era um campo de terra, pelado, onde está agora o Pingo Doce. Lembro-me de ver muita gente na bancada e de serem jogos muito fervorosos.

O seu pai jogava em que posição?
Na mesma em que jogo, era extremo também.

Sempre disse querer ser jogador de futebol?
Sim.

Deu muitas dores de cabeça aos seus pais, em criança?
Não. Fazia as minhas asneiras como é óbvio, como sair de casa e só aparecer à noite para jogar ou ir andar de bicicleta com os amigos e perdia a noção do tempo. Mas nunca me meti em nenhuma confusão. Crescer numa aldeia é diferente, toda a gente se conhece e as nossas brincadeiras não eram maldosas.

E da escola, gostava?
Para ser sincero, não. Cumpria, conclui o 12.º ano, fiz o curso profissional de informática e gestão, mas a minha prioridade sempre foi o futebol.

Em pequeno torcia porque que clube?
O meu pai era do Benfica e toda a gente falava do Benfica, mas depois comecei a ver futebol, comecei a gostar de futebol e como tive uma família portuguesa que também cuidou de mim e adotou-me, quando eles me levaram ao Estádio das Antas a primeira vez a partir desse dia fiquei portista.

Depois de já estar a jogar no Penafiel, Aldair chegou a treinar no Sporting
Depois de já estar a jogar no Penafiel, Aldair chegou a treinar no Sporting
D.R.

Pode explicar que família é essa e como o adotou?
O meu pai jogava no Vila Meã e tinha um companheiro de equipa, o Miguel Miranda, que era muito amigo dele e gostava muito de mim. Eu era muito pequenito, andava por ali e um dia ele perguntou ao meu pai se podia levar-me para casa dele. O meu pai disse sim. Comecei a ir a casa dele, conheci a família dele e os laços começaram a crescer. Comecei a passar o fim de semana, depois já me iam levar à escola e com o tempo tornou-se realmente a minha família.

Isso com quantos anos?
Comecei a ir para casa deles pouco depois de chegar a Portugal. Com quatro anos já ficava em casa deles muitas vezes.

A sua mãe não se importava?
Não, porque era uma família muito amiga do meu pai e da minha mãe que nos ajudava, porque aqueles primeiros tempos em Portugal, sozinhos, a minha mãe era muito nova, sem familiares aqui, não foram fáceis. Chegámos praticamente em pleno inverno, tivemos de adaptar-nos a um tempo e cultura diferentes e eles ajudaram-nos muito.

Ficou a viver com essa família adotiva de forma permanente?
Sim. Considero o Miguel meu irmão. Ele apresentou-me à mãe, a D. Antónia, que já faleceu, ao pai, o Sr. Miranda, às irmãs, Sara e Francisca, e consecutivamente aos cunhados e todos os que vieram posteriormente. Tenho sobrinhos também. Mas sempre tive um mix familiar. Inicialmente, ia só de vez em quando e voltava sempre para os meus pais, até para ir à escola e tudo. O meu crescimento foi dividido entre as duas casas. Entretanto, aos oito anos a família Miranda levou-me ao Penafiel.

Começou logo a jogar?
Não, porque tive problemas de documentação. O primeiro ano foi um bocado complicado porque fiquei o ano inteiro sem jogar, só treinava. Via os outros miúdos a jogar e ficava um bocado triste. No ano seguinte chegaram os meus documentos e no outro ano já pude jogar e participar nos torneios. Quando tinha 12 anos o meu pai decidiu ir viver para Penafiel, a minha mãe também foi com os meus irmãos e tive de decidir se ia com eles ou se ficava com esta família adotiva. Decidi ficar com a família adotiva.

Os pais biológicos de Aldair
Os pais biológicos de Aldair
D.R.

O que levou-o a tomar essa decisão?
Naquela altura eu já tinha bem claro o que queria. Sabia que queria ser jogador de futebol e percebia que só poderia ser se continuasse com esta família, porque eram eles que me levavam aos treinos, o meu pai biológico não tinha essa possibilidade porque trabalhava até tarde. Depois, o facto de ter criado um vínculo emocional forte nessa família também ajudou muito. Eles estavam sempre disponíveis e preocupados comigo, levavam-me sempre com eles. E houve esse lado de ser adotado por eles oficialmente, porque os meus pais iam para outro local, apesar de tudo eu tinha pais, tinha de ir com eles, por isso tudo tinha de ser feito como deve ser.

Essa decisão não criou nenhum tipo de conflito com os seus pais biológicos?
Não. Foi tudo falado com eles. Eles também percebiam que esta família ajudava-me e também os ajudava. Fomos a tribunal e tudo, com testemunhas de pessoas para darem o seu parecer da relação que tinha com eles, e também tive de ir falar. Sabia perfeitamente o que queria e o que eles significavam para mim. Mas nunca perdi o contacto com a minha família biológica, muitas vezes aos fins de semana ficava com eles, nas férias grandes também ficava com eles em Penafiel.

Quem eram os seus ídolos?
Inicialmente era o meu pai. Apesar de não ter sido ele a levar-me para o futebol, nem aos treinos, porque era o Sr. Miranda que me levava. Depois comecei a ver futebol, a perceber um bocado de futebol e despertaram-me outros jogadores. Mas o meu pai foi o primeiro. Eu dizia que queria ser como ele, porque ouvia histórias de pessoas que jogaram com ele e falavam muito bem dele, que era grande jogador, jogava bem.

O que fez o seu pai profissionalmente após deixar de jogar?
O meu pai é uma pessoa muito versátil, já teve todo o tipo de trabalho e fez de tudo um pouco na vida. Primeiro começou a trabalhar num café, em Vila Meã, trabalhava e jogava. Entretanto, tirou um curso de treinador e treinava os mais jovens, depois abriu um café por conta dele; depois lembro-me que deixou de ter o café e acho que foi trabalhar para as obras um tempo, depois saiu das obras e foi trabalhar como mecânico, nunca ficou parado.

O extremo também foi alvo de interesse por parte do Benfica, onde também treinou uns dias
O extremo também foi alvo de interesse por parte do Benfica, onde também treinou uns dias
D.R.

Fez toda a formação no Penafiel. Quando começou a treinar com os seniores?
Com 18 anos já fazia muitos treinos com eles e jogava nos juniores.

Por essa altura já tinham começado as saídas à noite, os primeiros namoros?
Sim, sim. Mas muito pouco. A primeira vez que saí à noite já tinha 17 ou 18 anos e foi com hora marcada para regressar. Saí para a discoteca, mais um amigo, às onze da noite, e acho que à meia-noite e meia tive de vir embora. Tinha regras também no clube. Se alguém fosse apanhado fora de casa a partir das dez e meia, ou algo assim, já não jogava. Sempre tive a família que nunca me largou.

Como se projetava no futuro, com o que sonhava?
O meu primeiro objetivo era ser jogador profissional. Não tinha aquela coisa de vou ser profissional ali ou ali. Até porque já tinha ido fazer captações ao FC Porto e eles queriam ficar comigo, mas a dona Antónia decidiu dizer que não, porque eu tinha de ficar a viver sozinho na Casa do Dragão e mudar de escola.

Ficou muito chateado com ela?
Não, até porque estava bem, a minha família era bem estruturada, também tinha os meus amigos, eu era muito novo, tinha 11 ou 12 anos. Como é óbvio era um sonho e gostava muito de ter ido para o FC Porto, mas não fiquei chateado. Mais tarde, tive o convite do Sporting, fiquei lá três dias, mas esbarrou um bocado no mesmo; perguntaram se eu tinha algum familiar lá perto que pudesse ficar comigo, para não ocupar uma vaga de alguém que viesse de fora, mas como não tinha ninguém, regressei ao Penafiel. Desde que comecei a jogar tive destaque e tinha sempre alguém a ver, mas o Penafiel também não deixava que eu saísse.

Os pais adotivos de Aldair
Os pais adotivos de Aldair
D.R.

Olhando para trás, sente que a sua carreira teria sido diferente, para melhor, se tivesse tido a oportunidade de ir para o FC Porto ou para o Sporting?
Diferente seria porque ter a formação de um FC Porto, ou de um Sporting, é totalmente diferente. Teria esse vínculo de ter passado pela formação do Sporting ou do FC Porto.

Não ficou com nenhum tipo de mágoa?
Não. Nunca fui capaz de criar essas mágoas e ficar com elas para sempre. O que é, é, e o que tem de acontecer, tem de acontecer e sigo em frente, busco outra forma, porque não existe só aquele caminho. Às vezes achamos que é só por ali e não é. E na altura a formação do Penafiel era bem vista também. Tinha sempre boas equipas, jogávamos nos campeonatos nacionais, tínhamos bons confrontos, jogávamos contra as melhores equipas. Nunca pensei em desistir ou fiquei a pensar que não ia conseguir vingar, sinceramente. Também estive no Benfica uma semana a treinar e não foi por isso que desisti. Fui fazendo o meu caminho. Vi muitos que estiveram nesses grandes clubes, que se calhar eram muito bons e não jogaram. Claro que, na altura, somos miúdos e ficamos tristes porque são os melhores clubes de Portugal, mas nunca me revoltei.

Acabou por não dizer quem foram as suas referências.
Como via muito os jogos do FC Porto, gostava muito do Deco. Também via muita liga inglesa, gostava do Thierry Henry; gostava do Ronaldinho. Via o campeonato italiano também, gostava muito de ver o [Francesco] Totti.

Quando assinou o primeiro contrato profissional?
Primeiro foi-me proposto assinar o contrato de formação pelo Penafiel, mas nunca assinei. O presidente do Penafiel que me deu o meu primeiro contrato foi o Sr. Gomes, da “Recauchutagem Nortenho”. Na transição dos juniores para os seniores, o treinador principal na pré-época é que decidia quem ficava e da minha geração fui o único que já foi com contrato assinado e com a certeza que ia ficar no plantel.

Esse primeiro contrato era de quantos anos e qual o valor do primeiro ordenado?
Foi de cinco anos e o meu primeiro ordenado foi €500.

O que fez com esse dinheiro?
O primeiro dinheiro que ganhei, peguei e fui dar à minha mãe adotiva, à D. Antónia. Ela, como é óbvio, não aceitou: "Não, não, filho, pega no dinheiro e ajuda os teus pais, que eles é que precisam." E assim fiz. Fui até aos meus pais e dei-lhes o dinheiro. Acho que fomos fazer as compras de casa para o mês.

Não comprou nada para si? Não havia nada que quisesse muito?
Não.

Aldair (à direita) no 1º ano de sénior, a jogar pelo Fc Penafiel
Aldair (à direita) no 1º ano de sénior, a jogar pelo Fc Penafiel
D.R.

Lembra-se da primeira época com a equipa sénior?
Lembro. O treinador, Francisco Chaló, gostava muito de mim e os primeiros tempos foram de adaptação, porque era tudo diferente, tudo muito mais rápido, jogadores com uma experiência incrível.

De repente estava num balneário de homens feitos. Fizeram-lhe muitas partidas?
Era quase todos os dias. Escondiam a roupa, pegavam no carro e escondiam. Eu chegava, não via o carro e ficava à procura do carro, era esse tipo de brincadeiras. Na altura havia uma praxe a quem ficava no plantel sénior que era: eles faziam um corte de cabelo radical e esquisito e tinhas de treinar assim, só no final do treino é que rapavam o cabelo [risos].

E o jogo de estreia na II Liga, foi contra quem e como se sentiu?
Entrei no jogo, acho. Não me recordo contra quem foi. Sei que entrei na 2.ª parte e que estava ansioso.

Jogou sempre como extremo?
Não. Na formação comecei como avançado e só a partir dos juvenis, ou iniciados, é que tive um treinador que começou a pôr-me como extremo. Na altura ficava chateado, queria jogar a avançado, porque marcava muitos golos e gostava sempre de marcar golos. Naquela altura, não compreendia porque é que me queria pôr a extremo.

Hoje já compreende.
Compreendo, porque as minhas características são boas para jogar a extremo. Podia jogar a extremo como atrás do avançado. Era rápido, forte no um contra um, sempre gostei de fintar e de driblar. Só que, como avançado, tinha aquela coisa de marcar golos, queria marcar golos, e como era muito rápido tinha sempre muita vantagem sobre a defesa, bola na profundidade e fazia muitos golos assim. A equipa também jogava para mim dessa forma. Depois comecei a ir para extremo, comecei a adaptar-me a assistir mais, a fazer jogadas, a driblar. Quando comecei a jogar regularmente a extremo, comecei a gostar de ir para cima, do um contra um, driblar, fazer golo, assistências. Uma equipa que quisesse jogar no contra-ataque para mim era bom porque tinha velocidade, conseguia ir buscar as bolas na profundidade, sempre tive técnica, sabia jogar com a bola no pé. Sempre gostei desse jogo curto e apoiado, dá-me vantagem.

Aldair (à esquerda), os irmãos e a mãe biológica mais a irmã adotiva em cima, com o cunhado (atrás)
Aldair (à esquerda), os irmãos e a mãe biológica mais a irmã adotiva em cima, com o cunhado (atrás)
D.R.

Estreia-se com Francisco Chaló, em 2011/12, mas a seguir tem duas épocas com o Miguel Leal, na segunda sobem de divisão. O que pode contar sobre essas épocas e o Miguel Leal?
O Miguel Leal veio da formação, acho que foi campeão com os juniores. A primeira época foi de adaptação para ele e para o plantel, porque saíram jogadores e entraram outros. A segunda época com ele foi a nossa melhor porque já tínhamos uma base de jogadores que jogavam juntos há três anos. Com o acréscimo de um jogador ou outro, ficámos com um plantel de qualidade. Claro que a nossa prioridade não era subir de divisão naquele ano, era manter.

Quando começaram a perceber que podiam subir?
Com o tempo, porque começámos a ganhar jogos, era difícil bater-nos, tínhamos uma equipa muito bem organizada, defendíamos muito bem, taticamente éramos muito fortes, tínhamos jogadores experientes que tinham subido de divisão noutras equipas. As coisas foram andando. Nesse ano, o Moreirense foi campeão, o FC Porto B segundo e nós em terceiro. Como o FC Porto B não podia subir, subimos nós.

E chegaram aos quartos de final da Taça de Portugal.
Foi um ano incrível. Chegámos aos quartos de final porque tínhamos realmente uma equipa muito boa.

Há algum jogo mais marcante para si?
Esse em que jogámos contra o Marítimo, na Madeira, e que nos deu o acesso aos quartos de final da Taça. Foi um jogo incrível, fiz um golo e uma assistência, o golo foi de chapéu ao José Sá, lembro-me perfeitamente. E o Marítimo tinha uma equipa muito boa, tinha o Danilo, o Samu…

Com a subida à I Liga renovou contrato?
Não.

O seu ordenado não se alterou?
Alterou porque automaticamente tinha de alterar.

Ainda vivia em casa dos pais?
Sim.

A equipa do FC Penafiel a festejar a subida à I Liga, em 2014
A equipa do FC Penafiel a festejar a subida à I Liga, em 2014
D.R.

Como foi a estreia na I Liga?
Foi o realizar de um sonho. Desde miúdo sonhamos com isso, jogar contra as melhores equipas e os melhores jogadores. É tudo diferente. Apesar da II Liga já ser uma liga muito competitiva e com jogadores com muita qualidade, experientes, muitos vindos da I Liga, o patamar é outro.

Iniciam a época já sem o Miguel Leal, certo?
Sim, porque ele vai para o Moreirense e nós ficámos com o Ricardo Chéu.

Muito diferente do Miguel?
Sim. Era um treinador que queria um estilo mais atrativo de jogar, enquanto o Miguel era mais pragmático, era mais estudioso, não dava muitas brechas às outras equipas, tínhamos um plano de jogo muito bem estruturado. Com o Miguel não era fácil fazerem-nos golo e se fizéssemos primeiro era muito difícil a outra equipa fazer golo, porque taticamente estávamos muito bem estruturados; o nosso treinador-adjunto era o Álvaro Pacheco e já se notavam coisas boas nele também. O Miguel Leal tinha as ideias, mas o Álvaro Pacheco dava-nos um boost de energia. O Chéu queria um jogo mais aberto, extremos mais abertos, equipa também mais aberta.

E não deu bom resultado.
Claro, torna-se complicado se jogas com equipas a quem não podes dar muitas brechas porque qualquer milímetro é suficiente para sofrer golo.

Depois veio o Rui Quinta, mas também esteve pouco tempo, não foi?
Sim. Esse ano começou logo mal e quando começa mal, não tem como terminar bem.

Começou mal porquê?
Toda a organização do ano, toda a estrutura também... Como não estávamos à espera de subir de divisão, o clube não estava preparado. Não começando bem, não estando bem estruturado, torna-se mais complicado. Foi tudo junto. Foi também culpa dos jogadores porque não conseguimos ganhar, fazer pontos e, de fora, porque não nos conseguiram dar a estabilidade para podermos fazer uma época bem conseguida. Tivemos trocas de treinadores, depois saem jogadores e entram outros. Tivemos muitas, muitas dificuldades.

O extremo representou a seleção portuguesa  de Sub 20
O extremo representou a seleção portuguesa de Sub 20
D.R.

Terminam a época já com Carlos Brito, que não foi capaz de impedir a descida. Com que opinião ficou dele?
Ele veio trazer um pouco mais de serenidade. Ele veio porque havia muita turbulência, mesmo muito ruído de fora e aconteceram muitas coisas que não eram normais.

Como por exemplo?
Entre jogadores. Vieram jogadores que, por exemplo, não jogavam há não sei quanto tempo e não tinham clube e, de repente, vêm e já jogam e quem estava de início já não joga. Nunca conseguimos ser um grupo, estávamos afastados uns dos outros. Os jogadores que entraram não davam muita abertura, e quem já estava também não dava muita abertura aos de fora, porque, como disse, começou tudo mal desde início. Na pré-época estávamos a construir um grupo bom, mas até começar o campeonato houve muita mudança, já não queriam este jogador, depois queriam outro, depois o treinador já não servia e os resultados, não aparecendo, começa tudo ali à volta a ser mau. Fiz alguns jogos na I Liga, mas não tive estabilidade para poder mostrar realmente o meu valor e dar sequência a continuar na I Liga. Sempre tive o sonho de jogar nos melhores estádios, contra os melhores jogadores e o único estádio dos três grandes em que nunca joguei foi o do Sporting. Tenho essa, não vou dizer mágoa, mas fiquei um bocado triste. E não joguei por opção do treinador Rui Quinta, que não me quis levar.

Aldair e Sérgio Oliveira a festejar um golo pela seleção portuguesa de Sub 21
Aldair e Sérgio Oliveira a festejar um golo pela seleção portuguesa de Sub 21
D.R.

Em 2015/16 regressa à II Liga com o Penafiel, primeiro com Carlos Brito e depois com Paulo Alves no comando da equipa. O que recorda dessa temporada?
Eu já estava mais afirmado no plantel, era a minha quarta época no clube. Nesse ano o Carlos Brito até nos deu alguma segurança, por ser um treinador que conhecia bem a II Liga, mas os resultados não estavam a sair e veio o Paulo Alves, que conseguiu dar uma ajuda forte e mudar o chip de muitos jogadores, inclusive o meu.

Mudar o chip de que forma?
Falava muito comigo, dizia: "Tu és muito bom jogador, concentra-te a jogar, foca-te em jogar, que ainda tens muito tempo para fazer muitas coisas boas." Como estava ali há muito tempo e vi sempre negada a minha saída, cheguei a uma fase que já estava muito triste no clube.

Tinha empresário?
Tinha, era o Cátio Baldé. Ele tentou de várias formas tirar-me do clube, mas esbarrou sempre na negação do clube. Era o que eu ouvia dele, porque da parte do Penafiel nunca me disseram: "Olha, está aqui isto, vamos tentar fazer alguma coisa, vamos tentar ajudar-te." Era sempre o meu empresário que me dizia: “Há esta possibilidade, mas o Penafiel não deixa.”

A ida para o Olhanense, em 2016/17, aconteceu porque terminou contrato com o Penafiel.
Exatamente. Mas saio para o Olhanense algum tempo depois do mercado de transferências, porque tinha quase tudo certo para ir para a II Liga da Turquia, para o Manisaspor. Fiquei bastante tempo a aguardar a possibilidade de ir e por isso não fui para outras equipas.

Era algo que já ambicionava, jogar fora?
Sempre quis jogar no estrangeiro, experimentar outras coisas, sempre fui aberto a isso. O diretor-desportivo queria, o treinador não queria e fiquei no meio desse entrave. E depois surgiu a possibilidade de ir para o Olhanense, através de um jogador, o Tiago Barros, com quem tinha jogado no Penafiel. Ficámos com uma relação muito boa, entendíamos-nos muito bem em campo também. Ele falou comigo e quando soube que ainda estava sem clube, disse logo: "Vou falar com o treinador, vens para cá, para o Olhanense." O treinador era o Cristiano Bacci, italiano. No ano anterior tinha jogado contra o Olhanense e fiz um jogo muito bom. O treinador disse que me conhecia, que gostava muito das minhas características, que não percebia porque eu ainda não tinha arranjado clube e que fazia todo o gosto que fosse para o Olhanense. Resolveu-se rápido. O diretor-desportivo era o Américo e fui para o Algarve.

Foi viver sozinho para o Algarve, a sua primeira aventura fora de Penafiel e da casa dos pais?
Na altura tinha uma namorada e fui com ela, por isso foi tranquilo. Claro que ia estar longe da família, mas não custou tanto também porque entrei num grupo em que conheci logo pessoal que estava na mesma situação que eu. Tinha o Kiki, o Carlos, o Edgar Abreu, o Carlos Freitas, e criei uma ligação muito boa com eles, o que amenizou tudo. Estávamos quase sempre juntos, num lugar onde a vida é muito top, é dos sítios onde mais gostei de viver e tive pena de estar apenas um ano.

Assinou só por uma época?
Não, assinei dois anos, mas a época não correu de feição, acabámos por descer de divisão. Foi a mesma situação que aconteceu na I Liga com o Penafiel. Muita troca dos jogadores, o treinador acabou por criar muitos atritos com a direção, o não termos resultados, ficámos muito tempo sem ganhar, acho que uns 10 jogos seguidos sem ganhar e o treinador continuou, não houve mudança. Tudo isso acabou por afetar o resto da época.

Depois do Cristiano Bacci entrou o Bruno Baltazar.
Sim, conseguimos fazer bons resultados. Em dezembro, sou convocado para a seleção da Guiné, tive a possibilidade de jogar a primeira CAN da história da Guiné.

O extremo estreou-se na CAN com a seleção da Guiné
O extremo estreou-se na CAN com a seleção da Guiné
D.R.

Ficou surpreso com a convocatória para a seleção da Guiné?
Não me surpreendeu porque eles já vinham a falar comigo há algum tempo.

Já tinha sido chamado para representar Portugal?
Sim. Logo no primeiro ano de sénior, fui chamado para os sub-20. Fui convocado pelo Ilídio Vale. Do Penafiel fui eu e o Paulo Oliveira que estava emprestado pelo Vitória de Guimarães na nossa equipa. Joguei amigáveis, eram jogos de preparação. O primeiro jogo foi contra a Finlândia e fiz golo. Acho que a minha primeira internacionalização foi essa. No ano seguinte, fui convocado pelo Rui Jorge para os sub-21 e também fui a bastantes jogos de preparação. Mas já não fui chamado para a seleção A.

Por isso não hesitou representar a equipa principal da Guiné?
Sim. Era uma boa oportunidade para mim, eles faziam questão que eu fosse, ligaram-me, o selecionador falou comigo.

Foi a primeira vez que regressou à Guiné?
Foi e foi um choque grande em todos os aspetos, porque não tinha recordação nenhuma, para mim ia ser tudo novo. Havia muitas pessoas, meus familiares, que só conhecia de falar ao telemóvel e que não me viam há anos, só pela Internet. Eu não tinha recordações de ninguém. Foi tudo começar do zero e foi incrível. Cheguei lá e recebi logo um bafo de calor, meu Deus. Mas senti-me totalmente em casa porque as pessoas recebem-te com um carinho imenso, de braços abertos, toda a gente, uma alegria contagiante. Um país incrível, apesar de todas as dificuldades que tem, dos níveis de pobreza. Adorei desde o primeiro até ao último dia.

Que tal foi jogar a CAN?
Ah, é a maior competição em África. Foi incrível. Lembro-me da festa que era de ir para o jogo, do ambiente no estádio sempre incrível, sempre muito barulho, os tambores, essas coisas todas, um ambiente mesmo festivo, muitas cores, sempre muita música, muita alegria, muitos sorrisos, foi incrível mesmo. Foi uma experiência enriquecedora a todos os níveis, a ligação que tínhamos como seleção, o estarmos ali todos para o mesmo, um ambiente de seleção incrível, estarmos nos quartos uns dos outros.

Depois do Penafiel, Aldair jogou pelo Olhanense
Depois do Penafiel, Aldair jogou pelo Olhanense
D.R.

Quando chegou da CAN já sabia que ia para Chipre?
Não, não tinha a menor ideia. Não passámos a fase de grupos, por isso quando cheguei ainda estava o Bruno Baltazar. Joguei contra o FC Porto B, empatámos, marquei golo de penálti e o Baltazar decide ir embora porque o clube não tinha a organização necessária. Ele não se sentia ajudado, estávamos a remar contra a descida e parecia que estava tudo bem, mas não estava. Decidiu abandonar e antes de ir embora falou com alguns jogadores com quem tinha mais proximidade, entre eles eu, agradeceu e disse-me: "Ó baixinho, para onde eu for, vou levar-te." E a verdade é que ele cumpriu mesmo. Ele assinou no AEL Limassol e forçou tudo para eu ir para a equipa.

O Olhanense não colocou entraves à sua saída?
Colocou. Tinha mais um ano de contrato, não queriam que eu saísse, diziam que tinham problemas financeiros, só saía se pagassem, mas não havia essa possibilidade, foi uma 'guerra'. O Baltazar lá fez força com eles para me libertarem, o meu empresário também. Tive de deixar dois salários, se não estou em erro, e o empresário financeiramente também ajudou a desbloquear a minha saída.

Foi ganhar quantas vezes mais para o AEL Limassol?
Três vezes mais.

Foi sozinho para o Chipre ou com a mesma namorada?
Fui sozinho nos primeiros tempos, porque essa minha ex-namorada já estava grávida do meu primeiro filho, o Aldair Júnior.

Assistiu ao parto dele?
Não, tive jogo. Pedi, mas o Baltazar disse que precisava de mim porque era um jogo importante.

 

Spoiler

“Em Chipre tive de me habituar a conduzir do lado oposto. Às vezes ia na estrada, esquecia-me e fazia as rotundas ao contrário”

Aldair Djaló, de 33 anos, quer continuar a jogar futebol e diz não se importar de permanecer em Portugal, caso surja algum contacto, o que não tem acontecido. Nesta Parte II do Casa às Costas, o extremo conta algumas peripécias da experiência além-fronteiras e fala do momento em que teve receio que a sua carreira fosse por água abaixo, numa altura em foi parar ao Campeonato de Portugal, apenas seis meses depois de estar a jogar numa I Liga e ter feito qualificação para a Liga Europa

Como era o seu inglês quando chegou a Chipre, em 2018, para o AEL Limassol?
O meu inglês era muito fraco. Mas como tinha outros portugueses na equipa, o André Teixeira, o Leandro Silva, o Vozinha, o Marco Soares, o Marco Airosa, além do treinador Bruno Baltazar, falávamos em português, o que ajudou.

Que tal o primeiro contacto com o futebol cipriota?
Foi bom. Tinha 26 anos, já tinha alguma experiência, estava mais jogador. Nos primeiros tempos, ainda tive de me habituar a uma série de coisas, como conduzir o carro do lado oposto. Às vezes ia na estrada e esquecia-me de fazer as rotundas pelo lado esquerdo e fazia a rotunda ao contrário [risos].

Apanhou muitos sustos?
Claro, nos primeiros tempos tinha de estar muito concentrado, de vez em quando distraía-me, quando dava por mim já estava do outro lado e tinha de guinar rapidamente para ir para o lado certo da estrada. [risos].

O que achou do campeonato?
Muito bom. De um nível entre a nossa II e I ligas. Já tem equipas que jogam competições europeias e estão bem estruturadas, com jogadores experientes e salários bons. É um país que vive muito o futebol. O clube tinha bastantes adeptos e muito bons, fervorosos, é um clube grande no Chipre. Os jogos têm muita correria, muita luta. Nos primeiros tempos tive de me adaptar a isso e à temperatura, porque fazia muito calor.

Na época 2017/18, Aldair Djalo foi jogar para o AEL Limassol, do Chipre
Na época 2017/18, Aldair Djalo foi jogar para o AEL Limassol, do Chipre
D.R.

Jogou competições europeias?
Joguei a qualificação da Liga Europa. Fizemos duas eliminatórias. Como eu tinha chegado mais tarde, não joguei o primeiro jogo, não estava inscrito ainda. A seguir jogamos com uma equipa do Luxemburgo, fiquei no banco e a seguir em casa já entrei no jogo. Passámos a eliminatória e fomos jogar contra o Áustria de Viena. Em casa deles fiz golo de livre, com um bocadinho de ajuda do guarda-redes, que meteu a bola para dentro [risos]. Mas ficámos por ali.

Acabou por não fazer a época toda. Porquê?
Assinei por dois anos, mas só fiquei meia época porque o meu filho tinha acabado de nascer, a minha adaptação tinha sido boa, estava a começar a jogar, a ganhar o meu espaço, o Baltazar apostava em mim, mas uma questão familiar fez-me regressar a Portugal.

Que estão foi essa, pode contar?
Teve a ver com a minha ex-namorada. Ela também não falava inglês e não se ambientou a Chipre, nem àquela realidade. Entretanto, o Paulo Alves veio falar comigo, disse que estava no Gil Vicente, o clube estava naquela fase de decisão se ia voltar à I Liga novamente. Assinei contrato com o Gil Vicente, após falar com o Baltazar.

Está arrependido dessa decisão?
Estou. Hoje estou. Acho que devia ter ficado em Chipre porque ia dar-me outra visibilidade. Não foi uma decisão boa para mim, mas pensei sobretudo na questão familiar e decidi voltar. Também vim pelo Paulo Alves, que era um treinador que já me conhecia, sabia das minhas características.

O extremo (à esquerda) em ação pelo AEL Limassol
O extremo (à esquerda) em ação pelo AEL Limassol
D.R.

Assinou apenas por uma época com o Gil Vicente?
Assinei meio ano mais dois, mas só estive meio ano porque depois o clube teve aquele ano zero que jogou sem contar os pontos. E nesse ano fui emprestado ao União da Madeira.

Foi com a família para a Madeira?
Não, fui sozinho, já tinha havido a rutura da minha relação.

O União da Madeira jogava o Campeonato de Portugal. Esta competição superou as expectativas, ou não?
Gostei muito de viver na Madeira, mas o campeonato foi um choque de realidade. Seis meses antes estava na I liga de Chipre a jogar a qualificação de competições europeias e de repente estou no Campeonato de Portugal, em alguns campos sem condições nenhumas, balneários não muito bons, foi um choque.

Temeu pelo futuro da carreira?
Sim, aí sim. Sem tirar o mérito daquela divisão, mas foi uma descida muito grande na minha carreira. Senti, caraças, será que agora vou só ficar por aqui? Tive receio.

Ainda na época 2017/18, Aldair assina com o Gil Vicente
Ainda na época 2017/18, Aldair assina com o Gil Vicente
D.R.

Arrependeu-se logo da decisão ou mais tarde?
Arrependi-me logo pelo facto de ter sido o Baltazar a dar-me a oportunidade de ter ido para Chipre, ter feito um esforço muito grande para eu ir, dar-me a oportunidade de jogar pela primeira vez fora, num campeonato bom, que me ia dar uma visibilidade grande, ele inclusive saiu para o APOEL, e se calhar ter-me-ia ajudado de outra maneira. E eu quebrei uma ligação que se criou entre mim e ele.

Ele entendeu a sua saída, ou disse-lhe que fazia uma asneira?
Ficou surpreendido. Ele não contava que fosse falar com ele para lhe dizer que queria sair. Eu nunca tinha falado em sair ou mostrado qualquer tipo de descontentamento. Ele não sabia dos problemas de adaptação da minha ex-namorada. Quando o confrontei com isso, para ele foi um bocado um choque. Ele disse que ia falar com a direção para saber se me deixavam sair. Mas senti logo naquela conversa que tinha quebrado a confiança dele em mim, uma confiança e ligação que tínhamos construído desde o Olhanense. Arrependo-me de não ter ficado e ter lutado mais para ter ficado.

Com os dois filhos, Aldair Júnior e Naomi
Com os dois filhos, Aldair Júnior e Naomi
D.R.

Voltando à Madeira como decorreu essa época? Foi uma época triste para si?
Foi, até porque tinha sofrido recentemente o falecimento da minha mãe adotiva e juntou-se tudo nessa fase, a separação, ficar longe do meu filho... Foi uma fase de andar um bocado à deriva e tentar perceber o que estava a acontecer à minha volta.

Recorreu a algum tipo de ajuda?
Não, porque sempre tive conversas com a minha família, sempre tiveram a preocupação de falar comigo e saber o que se passava e fui passando percebendo que se era uma decisão que tinha tomado, também tinha que ser eu a tomar a responsabilidade e mudar isso. Foi uma época complicada porque o União da Madeira não pagava os ordenados.

Só recebia do União da Madeira?
Não, como fui emprestado, o meu ordenado era pago a meias com o Gil Vicente. Mas o União da Madeira só pagou nos primeiros tempos.

Calculo que tenha vindo ganhar muito menos quando saiu de Chipre para o Gil Vicente.
Sim. Não tem nada a ver. Foi por ser o Paulo Alves, por ter a perspetiva de mais tarde voltar à I Liga, que era o meu objetivo. Mas correu tudo mal nessa época ao Gil Vicente. Eles também se estruturam mal logo de início. Tiveram um treinador, depois mudaram para o Paulo Alves, que também não conseguiu dar o rumo certo à equipa, que entrou naquela espiral só de derrotas, derrotas. Não conseguimos ganhar os pontos, o Paulo Alves também acabou por sair, um jogo ou dois após eu ter chegado, e foi tudo por água abaixo. Logo aí começou mal a minha chegada.

Marco Freitas, Aldair (que em 2018/19 jogou pelo União da Madeira) e o empresário Eusébio Mango
Marco Freitas, Aldair (que em 2018/19 jogou pelo União da Madeira) e o empresário Eusébio Mango
D.R.

Como acabou por sair do União da Madeira depois?
Ficaram sem pagar não sei quanto tempo. Eu tinha algumas economias do Chipre e sempre tive o apoio da minha família adotiva, foi a minha sorte, porque estavam sempre disponíveis para me apoiar, o que me dava alguma estabilidade, que outros não tinham. Lembro-me de haver jogadores que passaram mal, não tinham comida. Dei dinheiro a alguns, porque para comer nunca se empresta, não é? Às vezes convidava-os para almoçar. O presidente inventava histórias, dizia que ia pagar na data X e não pagava. Estivemos assim bastante tempo. E, claro, isso afeta o rendimento tanto no campo, como fora, porque foste para ali para jogar, para ser visto, para tentar dar o salto para outra liga. O diretor era o Marco Freitas que também tinha sido jogador e ele é que me ajudou a voltar para o Chipre, conhecia lá um empresário.

É através desse empresário que assina pelo Onisilos, da II liga?
Exatamente. A II Liga também é boa, apesar de já encontrares uns campos mais manhosos. Fui sozinho, fiquei a dividir casa e carro com o meu companheiro de equipa, que também tinha jogado no União da Madeira, o Luizinho. Como já nos conhecíamos, foi fácil.

Entretanto, surgiu a pandemia. Passou onde o primeiro confinamento?
Lá, em Chipre, porque não podíamos sair. Estivemos três meses fechados.

O que fazia para se entreter?
Nessa altura comecei a jogar o "Call of Duty" na PlayStation e a jogar com o pessoal online. Ficava acordado até tarde, já não havia horários, não havia nada.

O clube não promoveu treinos online?
Não, não tinha estrutura para isso. Depois a comunidade de portugueses juntou-se, para tentar perceber se podíamos sair do país através da embaixada, ligações para aqui e para ali, lembro-me de ninguém saber o que se podia fazer, ou não, foi um caos.

Custaram-lhe muito a passar estes três meses?
Custou. Mas o Luizinho, entretanto, tinha levado a família dele e juntámos ali um pessoal porreiro, porque do outro lado da rua vivia o Luís Nuno Silva, mais a namorada e estávamos sempre juntos. Fazíamos uns treinos fora de casa. O Luizinho era quem dava os treinos, nós dizíamos que ele era o nosso personal trainer, porque gostava muito de treinar. Na altura comecei a falar mais com a minha atual namorada, a Diana Lemos, que já conhecia da escola.

O que ela fazia profissionalmente na altura?
Ela tinha uma loja de roupa e estética. Ela é daqui, da Trovoada, Amarante. Noutros tempos já tínhamos andado juntos e ficou sempre uma chama, apesar de cada um ter seguido o seu caminho.

Ela casou e teve filhos?
Não. Teve outros relacionamentos, mas nunca quis ter filhos. Depois de começarmos a nossa relação, aos poucos fomos falando sobre essa possibilidade e agora temos uma filha, a Naomi, que vai fazer dois anos.

Na época 2020/21, Aldair Djalo assinou com o NK Tabor Sezana, da Eslovénia
Na época 2020/21, Aldair Djalo assinou com o NK Tabor Sezana, da Eslovénia
D.R.

Como acabou por sair do Chipre para a Eslovénia?
É uma história caricata. Venho do Chipre sem qualquer tipo de expectativa, à espera de perceber qual seria o próximo passo. Estou cá e recebo uma mensagem no Facebook de um empresário, Igor Djordjevic, a falar-me de uma equipa da Eslovénia e a perguntar se estava aberto a essa possibilidade. Porquê não?

Aposto que nunca tinha estado atento ao futebol da Eslovénia…
Não [risos], mas fui logo pesquisar, que equipas é que tinham e inclusive vi um jogo do Maribor, porque tinha jogado contra o Sporting há uns anos. Mas estávamos numa fase de Covid-19 e ele disse-me que a equipa ainda estava a ver se ficava na I Liga, ou não, porque tinha sido o primeiro ano deles nesse escalão. Se a equipa se mantivesse, contavam comigo. O treinador era o Mauro Camoranesi, ex-jogador muito conhecido, campeão do mundo. Era uma oportunidade boa. Eles conseguiram manter-se na I Liga, ele voltou a contactar-me e pronto.

Aldair a festejar com colegas do NK Tabor Sezana
Aldair a festejar com colegas do NK Tabor Sezana
D.R.

E lá foi para o NK Tabor Sezana.
Sim. Antes de ir, falei com a Diana: "Tem de ser desta. Vou fazer um bom campeonato e alguém vai-me comprar este ano". Ela disse que se estava com esse feeling, para ir. Fui para a Eslovénia sozinho, porque ainda estávamos no início da relação e ela tinha a loja dela.

Como era o clube?
Era um clube bastante modesto, uma cidade também modesta, tranquila, toda a gente se conhecia no clube e na cidade, foi uma experiência mesmo top. As pessoas eram muito simpáticas, um ambiente muito acolhedor. Como fica na fronteira com a Itália, tinham um espírito muito aberto. Incrível. Receberam-me muito bem, ajudaram-me em tudo, tive logo a minha casa, ambientei-me mesmo bem, apesar de não ter nenhum português na equipa. Também já tinha mais maturidade e experiência. Gostei muito, muito de ter jogado e vivido ali.

E que tal o campeonato?
Surpreendeu-me pela positiva. Não tinha nenhum conhecimento e adorei. Assinei por dois anos também.

Foi uma época em que tiveram quatro treinadores. Não foi atribulada?
Até não. O Mauro fez a pré-época. No primeiro jogo do campeonato eu não joguei. Ele sai, é comprado pelo Maribor. Entra outro treinador, o Goran Stankovic. Entra e põe-me no jogo a seguir, a titular. Jogo, faço golo, sofro penalti, um jogo incrível para mim. A equipa começou bem. Ganhámos bastantes jogos contra as equipas grandes, ganhámos ao Maribor em casa, ganhámos contra o Olimpija Ljubljana, em casa. Nos jogos mais difíceis fizemos sempre boas exibições e grandes resultados. Entretanto, o Stankovic sai em dezembro, o Olimpija Ljubljana veio buscá-lo. Até à paragem, estávamos em 3.º ou 4.º lugar, algo inédito. Estávamos a fazer um campeonato muito bom para aquilo que eram as expectativas do clube.

Terminam em 6.º lugar.
Sim, e no final dessa época, saio eu comprado pelo Olimpija Ljubljana, por 75 mil euros e saiu o Antoine Makoumbou, um jogador do Congo. No ano seguinte, tiveram dificuldades, os melhores jogadores saíram e acabaram por descer de divisão, já eu estava no Olímpija Ljubljana.

Um clube bem diferente.
Sim, clube grande que luta para ser campeão, com outra estrutura, outra visibilidade. A equipa estava a passar por uma fase de reestruturação, queriam voltar a ser campeões e fazer bons trabalhos na Europa.

Jogou na Liga Conferência?
Joguei. Quando cheguei ao clube, tenho um treinador mundialmente conhecido, o Savo Milosevic, que jogou no Celta de Vigo e na Premier League. Muito bom em termos de conhecimento e experiência de futebol; mesmo sendo de outra era, já era moderno. Veio passar-nos muito a experiência do que é estar numa equipa grande, os comportamentos de um jogador, todas essas coisas...

O que isso significa? O comportamento dos jogadores.
É a confiança com que vais para o jogo, a confiança que transmites às pessoas de fora. O jogares, por exemplo, um dérbi e teres que te impor nesse jogo, mostrar que também somos uma equipa grande, que estamos aqui para ganhar o jogo... Essas pequenas coisas, o que transmites para as outras equipas, teres uma atitude de vencedor, porque quando jogas nessas equipas tens de jogar todos os jogos para ganhar. Claro que nas outras equipas também jogas para ganhar sempre, mas tens outros objetivos, se não ganhas um jogo não acontece nada de mal, enquanto ali, tens de ganhar sempre e se não ganhas um jogo sentes logo uma pressão diferente, até de fora. Quando ganhas o dérbi, sentes a diferença, parece que ganhaste o campeonato. É diferente.

Sentiu-se mais jogador, digamos assim?
Sim. Sentes um acarinhar também diferente, porque já tens muitos mais adeptos, toda a gente te conhece e tem um respeito por ti diferente, pelo jogador que és, pelo facto de jogares na equipa em que jogas, todas essas coisas. É muito gratificante quando tens esse reconhecimento pelo teu trabalho, pela equipa que representas.

Assinou também por dois anos com o Olimpija. Foi ganhar quantas vezes mais?
Duas ou três vezes.

Na Eslovenia, Aldair (a segurar o cachecol) foi campeão pelo Olimpja Ljuljana, em 2022/23
Na Eslovenia, Aldair (a segurar o cachecol) foi campeão pelo Olimpja Ljuljana, em 2022/23
D.R.

A sua última época no Olimpija Ljubljana não podia ter corrido melhor. Sagrou-se campeão e venceu a taça da Eslovénia. Quais foram os momentos mais altos dessa época?
A vitória em casa no dérbi contra o Maribor, que praticamente nos deu o título. Foi jogo em casa, ganhámos, fiz a assistência para o golo do David Sualehe, vencemos por 2-1 e fomos campeões nesse dia. Foi um marco importante. E depois o jogo da taça que também foi contra o Maribor. Joguei a titular, um jogo incrível, há uma chuva torrencial que quebra um bocado o jogo, mas quase a acabar temos situações a acontecer incríveis; penalti para o Maribor, o jogador faz um paninho, o nosso guarda-redes defende, passam dois minutos, penalti para nós, mesmo em cima do apito, o nosso capitão faz golo e vencemos a taça. Foi um jogo de emoções incríveis.

Teve pena de não continuar no Olimpija Ljubljana?
Tive. Eles não quiseram renovar porque tinham um projeto diferente em vista. Eu também já tinha entrado ali nos 31 anos, eles queriam ir buscar malta mais jovem, estavam com outro tipo de projeto. Senti que já tinha terminado o meu ciclo ali e que terminou em beleza, não valia a pena estar a forçar algo que ia ser difícil de repetir. Decidi ir por outro caminho.

No mesmo ano, Aldair (à direita) conquistou a Taça da Eslovénia
No mesmo ano, Aldair (à direita) conquistou a Taça da Eslovénia
D.R.

Acabou por ir parar à II liga da Turquia, mas de certeza que esperava ter oportunidades numa I liga, ou não?
Sim, tinha essa ambição porque tinha acabado de ser campeão e ganhado a taça, achei que poderia surgir algo numa I liga, noutro país, mas não surgiu. Surgiu apenas o Bodrumspor, da Turquia. O diretor mostrou que me queria muito e decidi arriscar. Gostei muito de Bodrum.

Sentiu o choque cultural?
Sim, muito grande. Logo no primeiro dia. Cheguei ao aeroporto, meteram-me numa carrinha que vai levar-me ao centro de estágio do Fenerbahçe, onde a equipa estava. Durante a viagem o condutor pergunta-me se quero parar para comer e descansar um bocadinho. Quando paramos digo-lhe que tenho de ir à casa de banho. Ele diz para contornar o restaurante e que era à esquerda. Assim fiz. Quando dei a volta, vi uma fila interminável de pessoas, de todos os tipos e aspetos diferentes. Resolvi espreitar a casa de banho para ver se realmente estava cheia e deparo-me com gente com os pés dentro do lavatório a lavar os pés, a lavar a cara, tudo e mais alguma coisa. A casa de banho estava completamente cheia de água, suja, uma confusão. Nunca tinha vivido nada daquilo e fiquei em choque. Passou-me logo a vontade de ir à casa de banho e liguei à minha namorada a contar.

Ela chegou a viver consigo na Eslovénia?
Sim, logo no primeiro ano foi ter comigo.

Quando foi para a Turquia, a sua filha já tinha nascido?
Não, ela nasceu em setembro, mas desta vez fiz questão de assistir, até porque já não tinha assistido ao do Aldair Júnior. O diretor entendeu perfeitamente, a família em primeiro lugar, disse: "Vai, está com a tua família e depois logo regressas". O treinador também não pôs entraves. Vim no dia anterior, ela nasceu e fiquei mais um dia. Passado um mês e meio elas foram ter comigo.

O extremo com os troféus da Taça e do Campeonato da Eslovénia
O extremo com os troféus da Taça e do Campeonato da Eslovénia
Damjan Zibert Photography

Que outras histórias de Bodrum tem para contar?
Não tenho histórias, mas recordo-me de ter ido à Marina de Bodrum e ter experienciado algo incrível em termos de ver luxo. Nunca pensei que tivesse tanto luxo aquela zona, desde lojas de marcas, pessoas famosas que iam de férias para lá, tudo e mais alguma coisa, surpreendeu-me bastante. É um local muito bonito, onde gostei de viver. Mas em dezembro mudei para outra equipa da Turquia.

Porquê? O que o levou a mudar para o Sanliurfaspor?
Não estava a ter o tempo de jogo que achava que devia ter. Inclusive tinha falado já com os responsáveis do clube, batido nessa tecla. Apesar do treinador dizer que contava comigo e que eu era muito bom jogador, depois passou a ter outras opções e achei que devia sair, porque não me sentia valorizado. Queria jogar, insisti que tinha de jogar, o diretor dizia-me para não falar com o treinador, não queria que eu falasse com ele, mas eu já estava saturado e fui falar com o treinador, para perguntar o porquê de não jogar.

Que resposta teve?
Ele disse-me: "Já percebi que queres ir embora, já te tinha dito que ias acabar por jogar, mas neste momento tenho outros jogadores"; "Sim, mas qual é a razão para eu não jogar? Qual é o motivo?". Ele não soube explicar qual era o motivo para eu não jogar. Eu considerava que naquele momento merecia jogar e tinha mostrado qualidades para jogar. Ele acabou por dizer que podia ir embora, que podia falar com o diretor. O diretor ficou chateado comigo, porque queria que eu ficasse. Vim embora, passei o Natal em Portugal com a família, e só quase a meio de janeiro é que consegui a proposta do Saliunfaspor.

Aldair com a mulher Diana Lemos e a filha Naomi
Aldair com a mulher Diana Lemos e a filha Naomi
D.R.

Uma realidade diferente de Bodrum?
Não tem nada a ver. As pessoas são mais devotas ainda, mais viradas para a religião, muito complicados, com um aspecto diferente, uma forma diferente de estar. Eu sei que a cidade tinha sofrido há pouco tempo um sismo e ainda estava em reconstrução, mas havia muita pobreza, viam-se crianças pequenas muito sujas com roupas rasgadas, carros muito velhos, todos danificados a circular, crianças a fumar… Fez-me muita confusão mesmo.

Qual foi a situação mais caricata que viveu ou a que assistiu?
A minha namorada teve uma situação em que viu uma família, mãe e três ou quatro filhos, um deles recém-nascido, sentados na rua, debaixo de um calor descomunal, ela com aquela roupa tradicional, toda tapada, as crianças todas sujas, roupas sujas e rasgadas e a Diana sentiu um aperto no coração. Voltou para casa, comentou comigo e disse: "Aldair, tenho mesmo de ajudar aquela família, porque eles estão ali abandonados". Ela saiu de casa, às pressas, foi comprar comida e outras coisas para eles, e entregou-lhes em mão.

A II liga turca era melhor do que a II liga cipriota?
Sim, melhor. Na Turquia já tinham clubes que pagavam aos milhões aos jogadores, valores que em Portugal só os clubes grandes pagam, ali já se pagavam na II Liga.

O extremo mudou-se para a Turquia em 2023/24, onde começou por jogar no Bodrumspor
O extremo mudou-se para a Turquia em 2023/24, onde começou por jogar no Bodrumspor
D.R.

Pelos vistos não gostou mesmo da experiência turca.
O Sanliurfaspor foi o pior clube em que estive. Era impossível ficar naquele clube.

Porquê?
Por tudo. O centro de estágio estava completamente abandonado. Não tomavam conta das instalações como deve ser, o clube tinha muitos problemas de estrutura, não tinha organização, pagaram os primeiros dois meses, depois ficaram sem pagar, constantes mentiras, inclusive não me pagaram e depois puseram-me a treinar à parte sem qualquer tipo de explicação. Fiquei uma semana e tal a treinar à parte. Não sabiam dizer porquê. O treinador também não falava, não dizia porquê. Perguntei ao presidente qual foi o motivo de treinar à parte e disse que foi uma decisão deles e que já estava tomada. "Quer dizer, vocês foram buscar-me porque precisavam da minha ajuda e agora estão a tratar-me assim?". Fiquei saturado e também revoltado, quando não tinham motivo nenhum para me tratar assim.

Como desbloqueou essa situação?
Depois o treinador-adjunto veio falar comigo para dizer que o treinador queria que eu voltasse e perguntou se eu estava disponível para voltar. "Eu nunca quis ficar a treinar sozinho, vocês é que me puseram a treinar sozinho e estão a perguntar se quero voltar a treinar? Não faz sentido nenhum". Era um clube muito complicado, com alguns jogadores que não tinham um carácter muito bom e criou-se muita confusão. Entre os próprios turcos, numa reunião que fizemos, os turcos pegaram-se, quase iam andando à porrada entre eles, por causa dessa situação de dinheiros e de não saber quando é que vão pagar. Vim embora no final da época. Ainda ficaram sem pagar dois meses, só os recebi este ano.

Aldair entre Samet e Ali Aytemur, do Bodrumspor
Aldair entre Samet e Ali Aytemur, do Bodrumspor
D.R.

Foi para o KF Gostivari da Macedónia do Norte, quando?
Em junho ou julho do ano passado 2024. Começámos bem, depois da paragem de inverno é que os resultados começam a não ser os desejados, o presidente começa a entrar em paranóia, a dizer que os árbitros estavam todos contra nós, que havia jogadores vendidos, que isto e aquilo. Depois dizia ao treinador para não pôr a jogar um jogador, depois já podia jogar. Começámos a ficar distantes de ser campeões, até que há um jogo com um rival da cidade, que ganhou o jogo, e ele vem dizer que já não conta mais com os jogadores estrangeiros, acusa-nos de estarmos vendidos. Chamam os estrangeiros todos ao escritório, dizem que não nos dão dinheiro, para irmos embora porque se ficamos também não vamos receber nada. Tenho uma situação que me aconteceu nesse encontro e que ajudou à minha saída.

Que situação?
Estava a comentar com colegas de outro grupo no WhatsApp sobre esta situação e a dizer que me tinham mandado qualquer coisa do Trump. Mas coincidiu nessa altura em que estou a falar com o presidente, e na mensagem sobre o Trump digo: "Este gajo não é normal". Só que me enganei no grupo e mando para o grupo da equipa, sem dar por isso. A seguir o diretor e alguns jogadores avisam-me: "Já viste o que mandaste para o grupo? Apaga". Porque o presidente era mesmo conflituoso. Fui ver e verifiquei que realmente enganei-me e disse logo que a mensagem não era para aquele grupo, expliquei o que aconteceu. O diretor a seguir manda-me mensagem a dizer: "Amanhã passa no escritório que o presidente quer falar".

O que lhe disse?
Disse-me que o presidente pagava dois meses e que já podia ir embora. Preferi ir embora do que estar num sítio em que há problemas a toda a hora e em que o presidente culpa toda a gente menos ele. A minha saída foi exatamente assim, saí do clube por causa de uma mensagem que supostamente era para um grupo e mandei para outro.

Essa saída foi antes do jogo em que o presidente mandou sair a equipa de campo, após sofrer um golo, argumentando que os árbitros estavam contra a equipa?
Sim, foi antes desse jogo que aconteceu uma ou duas semanas após eu sair. E ele foi banido pela federação da Macedónia, o capitão também e o clube foi castigado.

Ainda na mesma época 2023/24, Aldair assina pelo Sanliurfaspor, da Turquia
Ainda na mesma época 2023/24, Aldair assina pelo Sanliurfaspor, da Turquia
D.R.

Ainda está sem clube. Quais são as suas perspetivas?
Tentar encontrar um clube que queira apostar em mim.

Gostava de ficar a jogar em Portugal?
Se tivesse essa possibilidade… Mas nunca tive essa possibilidade, nem abordagem porque toda a gente acha que eu recebia muito dinheiro e que não vou aceitar. Então, logo à partida não querem falar comigo e tentar perceber se há alguma possibilidade. Eu também não vou mendigar aos clubes. Estou livre, as pessoas se quiserem saber, é só pedir o contacto.

Já pensou no que quer fazer quando tiver de pendurar mesmo as chuteiras?
Ainda não pensei seriamente. Gostava de fazer algo ligado ao futebol, mas na parte da representação e agenciamento, algo assim.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
Na Turquia.

Deu para investir em algum negócio ou imobiliário?
Ainda não investi, só quando terminar a carreira.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Ter comprado um Rolex.

Tem algum hobby?
Gosto de jogar padel, futevolei e PlayStation.

O extremo com a mulher e a filha
O extremo com a mulher e a filha
D.R.

É um homem de fé?
Sou católico, mas não frequento a igreja.

Superstições?
Não.

Tem tatuagens?
Tenho. Fiz a primeira com 18, 19 anos. Foi uma carpa japonesa. De lá para cá completei o braço esquerdo.

Acompanha outras modalidades?
Vou acompanhado várias, mas não há nenhuma pela qual diga que sou apaixonado e siga tudo.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Talvez não ter jogado mais tempo na I liga.

E o maior arrependimento?
Ter saído de Chipre.

O momento mais feliz na carreira até ao momento?
Ter sido campeão e ter representado a seleção da Guiné.

O momento mais difícil porque passou na vida?
A morte da minha mãe adotiva. Foi um choque, porque foi a pessoa que cuidou de mim desde miúdo, esteve lá sempre comigo, durante os meus primeiros anos no futebol tomava conta das minhas coisas todas, do equipamento, etc.

Guilherme von Cupper, atual empresário de Aldair, no dia em que o jogador assinou pelo KF Gostivari, da Macedónia do Norte
Guilherme von Cupper, atual empresário de Aldair, no dia em que o jogador assinou pelo KF Gostivari, da Macedónia do Norte
D.R.

O objetivo que está por cumprir?
Acho que cumpri tudo aquilo com que sonhei em termos de futebol, mas gostava de ter jogado na Premier League ou na La Liga.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Real Madrid.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Paulo Roberto, com quem joguei no Penafiel, o Luizinho, o Frederico Maciel, o Kiki, o Ricardinho… Não posso estar aqui a nomear porque posso esquecer de alguém.

Tem ou teve alguma alcunha?
Sim, "Toró". "Torózinho". Quando comecei a treinar com o plantel principal do Penafiel, o brasileiro Michel pôs-me esse apelido porque dizia que eu era parecido com um jogador que se chamava Toró. E também me chamavam "baixinho", por eu ser de baixa estatura.

Qual o adversário mais difícil que enfrentou?
Alex Sandro.

O extremo em ação pelo KF Gostivari
O extremo em ação pelo KF Gostivari
D.R.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Acabava com o VAR. Veio tirar um bocado a emoção do futebol.

Qual a frase que ouviu no futebol que mais o marcou?
Recordo-me que no início da carreira os jogadores mais experientes diziam a todos para aproveitar o momento, para não deixar nada para depois, porque isto passa rápido.

Tem algum talento escondido?
Cozinho muito bem.

Qual a sua especialidade?
A minha mulher diz que é a Bolonhesa.

Se não fosse jogador ou que teria sido?
Essa é difícil. Não sei. Quando era mais novo dizia também que gostava de ser professor de educação física.

Sente-se realizado com a carreira que fez?
Sim, muito

 

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Joca

Spoiler

“Era muito de fazer o último passe, preferia fazer uma assistência do que um golo. Foi o Abel Ferreira que me ajudou a olhar para a baliza”

Joca nasceu em Braga e foi no clube da sua cidade, e coração, que se iniciou no futebol. Descoberto rapidamente pelos três grandes, aos 11 anos já jogava pelo Sporting, onde esteve até aos 15, altura em que regressou ao clube da terra natal. Foi pelo CD Tondela que se estreou na I Liga, mas é no Rio Ave que ganha nome. Ainda jogou no Leixões antes de regressar a Vila do Conde, para subir de divisão. Nesta entrevista fala da sua experiência com vários treinadores, entre eles Abel Ferreira, Paulo Fonseca, Pepa, Manuel Cajuda e Carlos Carvalhal e conta algumas histórias caricatas

Nasceu em Braga. Comece por apresentar a família onde cresceu.
Tenho um irmão, dois anos mais novo, que chegou a jogar futebol e foi comigo para o Sporting, mas não teve tanto querer como eu e desistiu. Quando nasci o meu pai era o diretor de uma multinacional em Portugal, a Konica Minolta, uma empresa de impressão, a minha mãe ficava em casa connosco.

Deu-lhes muitas dores de cabeça?
Não, era tranquilo, gostava de me portar bem. Na adolescência comecei a ficar um bocadinho mais traquina, mas em pequeno só era mais endiabrado dentro do campo.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Sempre jogador de futebol.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Não. Quer dizer, o meu pai jogou em divisões inferiores, jogou na III Nacional. Ele é que me passou o bichinho, deu-me a primeira bola, chuteiras, os equipamentos e jogava sempre comigo.

Lá em casa torciam por qual clube?
Sempre foi pelo SC Braga. Quando comecei a ver futebol, o SC Braga estava a começar a crescer, fui sempre ao estádio, também comecei lá e ganhei paixão pelo SC Braga desde muito cedo.

Joca em criança com o pai
Joca em criança com o pai
D.R.

Quem eram os seus ídolos?
Tive uma panca pelo Miguel Veloso porque eu tinha o cabelo grande e gostava de ser como ele. Quando comecei a ver futebol mais a sério, a tentar entender o jogo, a pessoa que eu mais gostava de ver jogar, e ainda hoje é, sem dúvida, o Messi.

Gostava da escola?
Gostava muito da escola. Mesmo.

Com que idade começou a jogar futebol num clube?
Entrei tarde no futebol, no SC Braga. Já tinha10 anos. O meu pai não me deixou entrar antes porque achava que era muito cedo e queria que me focasse na escola, além de que tinha outras atividades extracurriculares; gostava muito de natação, pratiquei sete anos. Aos 10 anos, o futebol começou a ser uma coisa mais séria para mim e foi a minha professora da escola que chamou os meus pais, porque havia muita gente que dizia que eu tinha muito jeito e que devia entrar para o futebol. O meu pai tentou sempre adiar, até que não conseguiu mais, porque eu só dizia que queria o futebol, o futebol. Ele então lá me inscreveu nas escolinhas do SC Braga.

Um ano depois vai logo parar ao Sporting. Como aconteceu?
Fiquei um ano a jogar nas escolinhas do SC Braga, tivemos vários torneios em Lisboa e fui sempre eleito melhor jogador. Nesses torneios havia sempre várias pessoas do scouting dos clubes grandes. Na altura o SC Braga não tinha a estrutura atual, era muito menos profissionalizada, jogávamos em pelado, algo que os grandes já não utilizavam. Houve o convite dos três e eu decidi optar pelo Sporting.

Porquê o Sporting?
Foi o clube que me apresentou as melhores condições. E na altura toda a gente falava da formação do Sporting, a nível mundial era muito reconhecida, apostavam muito nos jogadores da formação. Cheguei a ir ver as instalações do FC Porto, que não eram nada de especial comparado com as do Sporting e do Benfica, que já tinham as academias. O Sporting foi o que a mim e ao meu pai interessou-nos mais e como queriam o meu irmão também, tinha sentido ficar no Sporting.

Joca começou a jogar no SC Braga com 10 anos
Joca começou a jogar no SC Braga com 10 anos
D.R.

O seu irmão também jogava no SC Braga?
Sim, nos escalões inferiores. Tinha muito talento, fazia muita diferença no escalão dele, o Sporting ficou interessado e juntou-se o útil ao agradável.

Foram logo viver para a academia do Sporting?
Não. Nos dois primeiros anos treinámos numa academia de Braga, que tinha um protocolo com o Sporting. Às sextas-feiras, quando o meu pai saía do trabalho, fazíamos a viagem para Lisboa. No primeiro ano ficávamos num hotel perto do Estádio Universitário, em Lisboa, onde jogava o polo da formação do Sporting. No segundo ano já ficávamos na academia e jogávamos lá. Aos 13 anos é que fui viver para a academia.

Com o seu irmão?
O meu irmão só ficou aqueles dois anos no Sporting. Ele não gostava nada de fazer as viagens para Lisboa, não se adaptou. Para uma criança fazer uma viagem todos os fins de semana de quatro horas e meia para Alcochete e no final do jogo mais quatro horas e meia para Braga, não é fácil. Dentro do campo as coisas também não estavam a correr bem, então decidiu-se que era melhor ele ficar em Braga. As viagens também me chateavam, mas sempre tive muito presente na minha cabeça que era aquilo que eu queria e se aquele era o preço que eu tinha que pagar para tentar chegar o mais longe possível, tinha que ser. Estava sempre desejoso que o fim de semana chegasse para voltar a jogar.

De qualquer forma, sair de casa aos 13 anos para viver na Academia de Alcochete e mudar de escola, não deve ter sido fácil.
Não foi muito difícil porque lá nós encontrámos outro tipo de família. Somos todos jovens. Tem malta dos iniciados até aos juniores e os mais velhos tomavam conta de nós. Não é igual a ter os pais e os mesmos amigos, mas é outro tipo de família. Claro que nas primeiras semanas, ou talvez no primeiro mês, é estranho acordar e não dar bom dia ao pai e à mãe, falar com o nosso irmão e os amigos que sempre conhecemos. Mas depois do primeiro mês, aquela outra segunda família torna-se mais natural, assim como o dia a dia. No fundo, sabemos que estamos ali por um objetivo, e tornou-se mais fácil.

Após um ano no SC Braga, Joca (à frente) teve o interesse dos três grandes
Após um ano no SC Braga, Joca (à frente) teve o interesse dos três grandes
D.R.

Os mais velhos tomam conta dos mais novos, mas também fazem muitas partidas. Foi alvo de muitas?
[Risos] A minha praxe na academia foi: eles juntaram todos dos sub-14, fecharam-nos num quarto, apagaram as luzes e depois começaram a bater com almofadas e a dizer “Isto aqui é como na tropa, vocês vão crescer vão ficar homens. Depois dessa primeira iniciação obrigaram-nos a tirar fotografias com cara feia. Na altura os mais velhos eram o João Mário, o João Carlos Teixeira, o, Mateus Fonseca, Eric Dier, essa malta. A seguir mandaram-nos para um dos seis campos da academia e obrigaram-nos a fazer um percurso tipo da tropa, rastejar no chão, fazer saltos e coisas assim. Essa foi a nossa primeira noite na academia [risos]. Também muitas vezes as nossas mães compravam comida que tínhamos no nosso mini-frigorífico e eles iam lá e nós dávamos logo o que tínhamos, nem discutíamos, senão era pior [risos]. Eles já nem compravam nada. Outras vezes, estávamos ao telefone com alguma rapariga, eles pegavam no telemóvel e falavam por nós, coisas desse género.

A mudança de escola foi pacífica?
Sim, sempre fui uma criança muito sociável, dava-me bem logo com toda a gente. Claro que foi um bocadinho um choque, porque é mudar de cidade, as pessoas do sul são um bocado diferentes, a abertura não é instantânea; no norte uma pessoa que chega é logo acolhida e bem-vinda, no sul é um bocadinho mais complicado, mas no geral foi fácil, tirando um ou outro episódio. Às vezes o pessoal local, os alcochetanos, queriam meter-se connosco, mas aí entravam os mais velhos da academia, que nos protegiam. Quanto aos estudos, dava-me melhor em Braga, tinha notas excelentes mesmo, porque tinha os meus pais em cima de mim [risos].

Que diferenças maiores sentiu no dia a dia dos treinos?
No Sporting era uma coisa mais a sério, mesmo com 14 anos já era mais profissional, tínhamos ginásio, coisa que nunca tinha feito em Braga, por exemplo. No Sporting já faziam testes de velocidade, de força, de resistência, coisa que nunca tinha feito. Já tínhamos uma rotina quase de um profissional. O nível dos treinos era muito mais elevado. No SC Braga eu era o melhor e fui para um sítio em que eram todos como eu. Foi um choque de realidade, mas depois tornou-se parte da rotina. Braga era quase uma aldeia, o clube ainda estava a tentar chegar lá, mas as condições que tínhamos... Aliás, quando voltei ao SC Braga, em 2016, e fui campeão de juniores sub-19, treinávamos em sintético e tínhamos condições muito inferiores às do Benfica, FC Porto, Sporting e até do Vitória, que já tinha uma academia. A academia do SC Braga é muito recente.

Joca passou a jogar pelo Sporting, com 11 anos
Joca passou a jogar pelo Sporting, com 11 anos
D.R.

Com 14/15 anos com o que sonhava e como se projetava no futuro?
Ah, nessa altura as possibilidades eram infinitas. Passava-me pela cabeça poder ser o melhor do mundo, ganhar uma Bola d'Ouro. Nós víamos que o Sporting tinha criado dois Bolas d'Ouro, víamos a malta que era da formação a chegar à equipa principal e a singrar, como o João Moutinho, o Miguel Veloso, Yannick Djaló, Nani, por aí fora. A academia de Sporting era considerada a melhor do mundo, nós íamos aos torneios internacionais e ganhávamos sempre e um ou outro de nós era sempre o melhor jogador, por isso era na minha cabeça passava jogar na equipa principal do Sporting, ganhar a Liga dos Campeões e dar o salto para as melhores equipas do mundo.

Já ganhava algum dinheiro no Sporting?
Não, no Sporting nunca ganhei dinheiro.

Por que razão acabou por sair, após aqueles dois anos na Academia de Alcochete?
No meu ano de sub-15, quando começou a época, fraturei o cúbito do braço num treino. Caí mal e tive mês e meio de recuperação, em que o Sporting autorizou-me a voltar para casa. Como não podia treinar, não fazia sentido estar longe da família. Quando regressei, o mister Luís Gonçalves, dos sub-15, informou-me que ia começar nos sub-14, ou seja, com a malta um ano mais nova do que eu. Fiquei um pouco amargurado com a notícia, porque queria estar no meu nível e jogar no Campeonato Nacional.

Que justificação lhe deu? Que ainda não estava preparado?
Sim, que tinha gente à minha frente, que tinha perdido a pré-época, uma altura muito importante para ganhar o espaço. E que ia começar nos sub-14 para ganhar ritmo, para voltar aos treinos e à competição. Passei a maior parte do campeonato nos sub-14 até chegar à fase final do campeonato nacional, em que voltei a subir para os sub-15. O mister achou que eu estava pronto e fiz alguns jogos. Mas no final desse ano eu estava desmotivado porque tinha sido "despromovido" à equipa B do meu escalão e informei o Sr. Aurélio Pereira e o coordenador da formação, o Sr. Jean Paul, que queria regressar a casa, precisava de sentir o carinho da minha família, porque estava triste. Eles tentaram demover-me dessa ideia. Falaram-me de vários exemplos, do João Moutinho, do Simão Sabrosa que com a minha idade também não jogavam, porque nesses anos se houver miúdos que estejam mais desenvolvidos fisicamente, faz muita diferença, e eu sou baixinho. Também me disseram que acreditavam no processo, que quando se chega a júnior a qualidade é que sobressai. Só que, na altura, não quis saber disso e disse-lhes que a minha decisão final era voltar a casa.

Aos 12 anos, com o prémios de melhor jogador e melhor marcador do Torneio Ponte Frielas
Aos 12 anos, com o prémios de melhor jogador e melhor marcador do Torneio Ponte Frielas
D.R.

Está arrependido dessa decisão?
Não, não estou arrependido porque fiz o meu caminho no SC Braga e por incrível que pareça, passado dois anos fui campeão nacional e a minha geração do Sporting nunca foi campeã. Se me disserem assim: se calhar se tivesses ficado podias ter chegado a outro patamar, isso não sei, mas nem sequer penso nisso. Na altura fiquei feliz porque voltei a casa, voltei aos meus amigos. Nos quatro anos em que estive no Sporting, o SC Brga deu um grande salto qualitativo em termos do pessoal que contratou para trabalhar nas camadas jovens. Era o Agostinho Oliveira quem estava à frente, já tinha sido selecionador nacional e fez um grande trabalho, apesar de não termos ainda as infraestruturas como os grandes. Mas a metodologia de trabalho já era muito parecida, já havia o trabalho de ginásio, tinham contratado pessoas para estar à frente desses departamentos todos e notei um grande salto qualitativo.

Quando começam as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios?
As primeiras saídas à noite foram mais ou menos com 16/17 anos, em Braga, tanto com os amigos da escola, como do futebol. A primeira namorada também foi nessa altura. Mas nunca fui muito de sair à noite. Se ganhássemos um jogo grande, por exemplo, combinávamos todos, se fosse um sábado.

Concluiu o 12.º ano?
Sim, em Economia. Fiquei por aí porque depois subi à equipa B do SC Braga, com 17 anos já era profissional, jogava a II Liga.

O extremo regressou ao SC Braga com 15 anos
O extremo regressou ao SC Braga com 15 anos
D.R.

Qual foi o valor do seu primeiro ordenado profissional?
Acho que eram €1000 brutos, o que dava €710 limpos.

Recorda-se do que fez com o primeiro dinheiro que ganhou?
Não. Mas eu era muito controlado. Sempre disse ao meu pai, e isto ficou-me na memória, que não sabia como é que pessoas que têm um trabalho dito normal e que têm uma casa para pagar, têm filhos, têm de ir ao supermercado, conseguem viver com este dinheiro. Porque, com 18 anos, receber €700 euros, era muito, mas tinha noção que era pouco para uma pessoa com outras responsabilidades. Eu ainda não pagava contas nenhumas, vivia em casa dos pais, mas pensava muito nisto e sempre fui muito regrado. De vez em quando também fazia compras para mim. Lembro-me que uma vez comprei uma mochila da Antony Morato que me custou €100, eu achava que tinha perdido a cabeça e quando saí da loja quase que a quis ir devolver, só não devolvi por vergonha.

Por quem foi chamado à equipa B, pela primeira vez?
O meu primeiro campeonato na equipa B foi com o Fernando Pereira, que era padrinho do filho de Sérgio Conceição. Na altura em que Sérgio Conceição assinou o contrato no SC Braga, o Fernando Pereira assinou como treinador da equipa B. Em janeiro, salvo erro, o Fernando Pereira foi despedido e entrou o Abel Ferreira.

Teve o Abel Ferreira como treinador durante dois anos. Com que opinião ficou dele?
Continuo a dizer que foi o melhor treinador que tive. Ele potenciou as minhas virtudes e, por outro lado, ajudou-me a melhorar os meus defeitos.

Nessa altura já jogava como avançado?
Na formação sempre fui médio, um 8, ou um 10 e, na altura, ele viu potencial e meteu-me a jogar como extremo direito, por dentro, ou como segundo avançado. Foi o Abel que me ajudou e orientou-me para jogar mais à frente. Na altura foi um bocadinho estranho, não estava muito habituado.

Joca (à drieita) jogou na equipa B do SC Braga duas épocas e meia
Joca (à drieita) jogou na equipa B do SC Braga duas épocas e meia
D.R.

O que ele lhe disse quando o quis colocar nessas posições e como o convenceu?
Ele viu que eu tinha características para jogar naquelas posições. Tinha uma boa condição de bola, era um jogador inteligente, receção orientada sempre e depois ele ajudou-me a melhorar uma coisa que não tinha no meu jogo e que era olhar para a baliza. Eu era muito de fazer o último passe, de só querer fazer assistências, preferia fazer uma assistência do que um golo. O Abel ajudou-me a olhar para a baliza. Também tivemos o mister João Tomás como treinador de finalização, e os dois ajudaram-me a evoluir muito. Na minha segunda época com o Abel fiz 12 golos e 4 assistências na II Liga, com 21 anos. Nunca mais fiz nenhuma época com números parecidos. E há também o lado humano dele, a motivação, ele era muito forte a puxar pelo jogador, sabia tocar nos pontos certos.

De que forma?
Às vezes, por exemplo, eu precisava de uma dura para acordar, porque adormecia no jogo, o jogo estava a passar-me ao lado, e ele sabia que tinha de dar-me uma dura. Dava a dura, eu acordava e começava a jogar melhor. Fora de campo era muito forte no apelar ao espírito de equipa, à família, a o balneário ser sagrado, acho que é por isso que tem tido o sucesso que tem em todo o lado.

Quando foi chamado pela primeira vez à equipa principal e por quem?
Quando era júnior de 1.º ano e fui campeão nacional. Foi o mister Jorge Paixão.

Estava nervoso? Como o receberam na equipa principal?
Estava nervosíssimo. Sou natural de Braga, sempre fui ver os jogos no estádio, sou sócio desde que nasci. Os jogadores da equipa principal eram deuses. E estar ali no meio, tremia por todo o lado. Se eles falassem para mim, nem me saía nenhuma palavra [risos]. Acho que nos primeiros 10 minutos dentro do balneário fiquei calado, só a olhar e a admirar.

Joca (à esquerda) ficou no SC Braga até aos 21 anos
Joca (à esquerda) ficou no SC Braga até aos 21 anos
D.R.

Houve algum jogador que tivesse sido mais simpático, mais caloroso?
O Ricardo Horta, por exemplo, sempre foi muito simpático, é uma pessoa cinco estrelas, acolheu-me muito bem, o próprio Alan também; lembro-me que na altura pedi-lhe umas chuteiras e ele foi logo buscar um par. O Rui Fonte também cinco estrelas, uma pessoa fantástica, o Pedro Santos, o Rafa que eu admirava muito, queria ser como o Rafa, um jogador que tinha as minhas características. Chegou a dar-me vários pares de chuteiras, que eu era chato com ele [risos]. Foi esse grupo de jogadores que foi mais caloroso para mim. Também sabiam que eu era da formação, tinha começado ali, era um bocadinho especial.

Continuou a ser chamado à equipa principal enquanto esteve na equipa B?
O mister Jorge Paixão foi despedido e quem voltou a chamar-me foi o mister Paulo Fonseca, fui convocado para a Liga Europa nos jogos contra o Shakhtar.

E jogou?
Não. Não cheguei a estrear.

O Paulo Fonseca é muito diferente do Abel Ferreira?
Não. O mister Abel tinha muitas ideias táticas que tirava do jogo do mister Paulo, por isso era muito fácil para mim ir treinar com a equipa A. A nível pessoal, o mister Abel mostrava mais aquilo que sentia, tinha mais sangue quente, o mister Paulo era um pouco mais fechado, taticamente também mais frio, era mais de estudar o jogo em si. Mas não estive muito tempo com o mister Paulo. Foi só nos últimos dois meses da época que fui regularmente chamado à equipa principal. Mas eram parecidos em termos do estilo de jogo até porque o mister Abel e a estrutura do SC Braga queriam fazer o que fazem os clubes grandes, pôr a equipa B a jogar como a equipa principal. Nesse período, o único com quem não trabalhei foi com o mister Sérgio Conceição. Mas lembro de fazer jogos de equipa B contra a equipa A e o mister Sérgio, claro, dava os seus toques, falava connosco, dizia-nos aquilo que achava, que seria melhor para nós, mas nunca me chamou à equipa principal.

O extremo com a camisola do seu ídolo
O extremo com a camisola do seu ídolo
D.R.

Na época de 2016/17 fez o Torneio de Toulon. Quando foi chamado pela primeira vez para representar Portugal?
Foi quando estava nos sub-19. Primeiro fui ao torneio de La Manga. Depois fiz o Torneio de Toulon, no meu segundo ano de equipa B.

Gostou do ambiente da seleção?
Desde os sub-17 que almejava chegar à seleção, porque sentia que tinha hipóteses reais disso. No SC Braga era sempre uma referência, jogava contra as equipas grandes e fazia grandes jogos, golos e assistências, mas nunca tive oportunidade até aos sub-19. Recordo que quando fui campeão nacional de juniores e não fui chamado, fiquei amargurado, triste. Mas quando finalmente fui chamado fiquei felicíssimo porque era um objetivo alcançado.

No final da época 2016/17, que foi a última época no SC Braga B, tinha esperança de subir à equipa principal ou sabia que não ia acontecer?
No final dessa época já treinava sempre com a equipa A e já tinha renovado contrato com o SC Braga por mais três anos. O Abel tinha assumido a equipa principal e teve uma conversa comigo. Disse-me que eu ia treinar sempre na equipa A, mas que ia começar a época na equipa B. Eu considerava que o ciclo na equipa B se tinha fechado para mim, porque já tinha quase 100 jogos na II Liga e nessa última tinha feito 12 golos e 4 assistências como já disse, por isso achava que a I Liga era o passo certo. Ele disse-me claramente que as portas estavam abertas, que ia treinar sempre lá, mas que tinha o Ricardo Horta, o Pedro Santos à minha frente. Eram jogadores que tinham muitos anos de casa e muita moral. Achei que era pouco para mim, queria tentar a minha sorte na I Liga e decidi, em conjunto com o SC Braga, ser emprestado ao CD Tondela.

Joca com o pai, num jogo do SC Braga
Joca com o pai, num jogo do SC Braga
D.R.

Como foi a estreia na I Liga e a receção em Tondela?
A receção foi muito boa, o ambiente era muito bom, tínhamos um grupo fantástico com o Pité, o Pedro Nuno, Cláudio Ramos, o Joãozinho, lateral esquerdo, era a malta mais próxima que eu tinha. O mister Pepa teve uma conversa comigo, para me explicar o projeto, só que o grupo era fantástico, adorei, fora o futebol era incrível, mas dentro do campo aquilo que o mister Pepa me tinha falado da ideia de jogo, de futebol apoiado, de querer sair a jogar de trás, saiu um bocadinho ao lado, era era mais jogo direto e não me adaptei muito bem.

Ficou a viver em Tondela?
Vivia em Viseu. Foi a primeira vez que vivi sozinho. Mas fiz grandes amizades, o Pedro Nuno, o Pité, que também viviam em Viseu e também estavam sozinhos. Estávamos sempre juntos, íamos almoçar fora ou em casa uns dos outros e acabou por tornar-se mais fácil. O mais difícil foi em campo, porque foi uma diferença grande para o SC Braga.

Consegue explicar melhor essas diferenças?
No SC Braga era mais à base de sair sempre a jogar de trás, era um estilo de jogo muito técnico, já era um dos quatro grandes, tinha grandes condições. No Tondela, quando íamos jogar fora era jogar para o ponto, era um jogo mais cauteloso, muito na segunda bola e transição, por isso tive algumas dificuldades e demorei talvez uns seis meses a adaptar-me. Mas no final da época acabei por jogar mais.

A estreia na I Liga foi feita já ao serviço do CD Tondela na época 2017/18
A estreia na I Liga foi feita já ao serviço do CD Tondela na época 2017/18
D.R.

A competitividade também é muito diferente da II para a I Liga. Que diferenças maiores sentiu de um campeonato para o outro?
Principalmente ao nível da tomada de decisão. Os jogadores na I Liga não erram. Se uma equipa não pressionar bem, não há erros não forçados. A II Liga é muito homogénea, ou seja, o primeiro pode perder com o último e o penúltimo pode ganhar ao segundo, é uma liga em que todos são muito iguais e na I Liga não é tanto assim. Na I Liga há mais espaço e mais tempo para pensar o jogo, há mais qualidade técnica e para mim beneficiava-me porque as minhas características são mais essas do que as da II Liga.

Com que opinião ficou do Pepa?
O Pepa teve uma experiência anterior ao Tondela em que tentou aplicar as ideias de jogar a partir de trás, futebol apoiado, mais técnico, mas vim a descobrir mais à frente na minha carreira que isso não é possível porque a ideia em si é boa, mas, na prática, é difícil de aplicar porque o nível não é tão elevado. É difícil praticar esse tipo de futebol e ele teve que ser mais prático e apostar num jogo mais direto, de segundas bolas e senti algumas dificuldades.

Não continuou no Tondela porquê?
O que estava estipulado era que ia continuar, ou seja, ia rescindir contrato com o SC Braga, os clubes já tinham tudo acertado. Mas não quis continuar, não me adaptei muito bem à cidade, era muito pequenina e eu estava habituado a um estilo de vida diferente, gostava do mar, gostava de poder ir passear, Viseu era muito no interior, se quisesse ir a Coimbra, demorava uma hora, não havia autoestrada, era no IP3, se quisesse ir a Aveiro demorava uma hora e tal, era muito isolado. Já nem falo de Tondela que é mesmo muito pequenino, apesar das pessoas serem fantásticas. Entretanto, surgiu a oportunidade do Rio Ave, uma equipa com mais expressão no campeonato, tinha-se qualificado no ano anterior para a fase de qualificação da Liga Europa.

Esse interesse surgiu através de quem?
Do André Vilas Boas que era o diretor-desportivo, e do presidente, António Silva Campos. O SC Braga e o Rio Ave estavam também a fazer a transferência do João Novais, foi muito fácil fazer o acordo e, pessoalmente, jogar no Rio Ave era mais atrativo, a equipa tinha mais expressão no campeonato, tinham acabado de qualificar-se para a Liga Europa, era uma oportunidade de jogar competições europeias.

Quando chegou, quem era o treinador?
Era o José Gomes, que tinha acabado de assinar. O Rio Ave tinha vendido muitos jogadores, estavam a entrar jogadores novos. Para mim era uma oportunidade de apanhar o comboio logo no início e ganhar o meu espaço. O clube fica muito mais perto de casa, são 30 minutos até Braga, nem sequer tive de sair de casa dos meus pais.

Mas não correu como esperava. Lesionou-se. Quer contar o que aconteceu?
Comecei a treinar, fui convocado para o primeiro jogo contra o Feirense e na segunda semana contra o Marítimo. Mas durante essa segunda semana tive uma lesão grave no joelho, rompi o ligamento cruzado anterior e fiquei o resto da época toda fora. Lembro-me que estava a pressionar o Tarantini, ele simplesmente fez uma simulação, eu escorreguei e ao escorregar pus o peso todo do meu corpo em cima do joelho esquerdo e quando fui rodar senti um estalo.

Como reagiu? Temeu pelo futuro ou conseguiu manter a calma?
Nunca tinha tido uma lesão na formação, nem sequer coisas pequenas, nada, e a primeira lesão é logo a lesão que na cabeça do jogador é a mais grave que se pode ter. Quando cheguei ao carro pensei, isto não é possível, não vai ser isto. Ainda não tinha feito a ressonância magnética, tinha sido só o médico a dizer. Estava em negação, não pode ser, não pode ser. Quando fiz a ressonância e vi o resultado, só perguntava porquê eu, porquê a mim. Tive uma semana muito complicada. Mas depois dessa semana percebi que só havia um caminho, ficar forte, principalmente a nível psicológico. Estas lesões são muito difíceis a nível físico, mas o lado psicológico é o mais importante porque o processo de recuperação é muito longo. São seis meses em que todos os dias ia para o treino, tomava o pequeno-almoço com a malta, e depois eles iam treinar e eu para o posto médico. Aí é que é a parte difícil.

Em 2018/19, o extremo assina com o Rio Ave
Em 2018/19, o extremo assina com o Rio Ave
D.R.

Procurou ajuda psicológica?
Não achei necessário. Talvez hoje em dia, com a experiência que fui adquirindo, tivesse sido uma boa ajuda. Mas tive a sorte, o azar neste caso, do Nuno Santos, que está no Sporting, ter sofrido a mesma lesão um mês antes e a dele já ser a segunda. Foi uma pessoa muito importante na minha recuperação, porque já sabia tudo, todos os passos e também porque se um dia estava mais em baixo e não queria fazer o trabalho, porque é um trabalho chato, ele puxava por mim, e vice-versa. Ainda fiz três jogos essa época, e ele ainda fez seis ou sete, chegou a ser titular.

A época seguinte no Rio Ave já foi com o Carlos Carvalhal à frente da equipa. Gostou dele?
Achei os métodos de trabalho dele muito bons, ele vinha da Premier League, do Swansea, já tinha muita experiência em clubes com maior dimensão e era um bocadinho como o mister Abel, de mostrar a emoção, de apelar à união. Curiosamente, durante os treinos quem até estava à frente dos treinos era o adjunto dele, o irmão do mister Bruno Lage; ele ficava mais fora a ver o que se passava. Durante o jogo era uma pessoa que lia perfeitamente aquilo que o jogo pedia. Podíamos ter um plano de jogo, mas se não estivesse a funcionar, ele facilmente trocava as peças ou mudava alguma coisa na tática e as coisas começavam automaticamente a correr melhor.

Mas não jogou muito com ele, porquê?
O Rio Ave fez uma grande equipa, foi buscar o Taremi, por exemplo, foi buscar o Lucas Piazón ao Chelsea, que jogava na minha posição, tinha o Mané, o Diego Lopes, o Filipe Augusto, grandes nomes do futebol português, que já tinham passado por grandes clubes. Fiquei um bocadinho na sombra deles e as coisas não se deram, mas aprendi muito, apesar de só ter ficado até janeiro.

Joca sofreu uma lesão dos ligamentos cruzados e foi operado pelo Dr. Carlos Noronha. À esquerda, Margarida, a chefe do departamento e fisioterapia
Joca sofreu uma lesão dos ligamentos cruzados e foi operado pelo Dr. Carlos Noronha. À esquerda, Margarida, a chefe do departamento e fisioterapia
D.R.

Saiu em janeiro a seu pedido?
Sim. Não jogava muito e queria jogar, porque vinha de um ano de uma lesão grave. Após um ano de lesão voltar é muito difícil no início porque há sempre uma adaptação, há sempre o receio na cabeça de voltar a acontecer, o não meter o pé nos lances mais disputados, há sempre um período de adaptação até voltar a ter-se confiança no próprio corpo, na cabeça. Isso tudo também ajudou a que eu não jogasse. Em janeiro eu queria ter tempo de jogo e com o clube e o meu empresário, o António Teixeira, decidimos que o melhor era ser emprestado. O clube também não queria abdicar do meu passe, porque ainda acreditava em mim e que podia voltar ao plantel. Houve algumas propostas, mais de II Liga, claro, porque só tinha feito o ano de I Liga no Tondela e com a lesão e o estar parado as portas estavam um bocado fechadas. Voltei à II Liga pela porta do Leixões.

Onde foi encontrar um treinador mítico: Manuel Cajuda. Que tal?
Eu pensava que por já ser uma pessoa com alguma idade, os métodos de trabalho iam estar um bocadinho ultrapassados, mas encontrei o oposto. Ele tinha uma equipa técnica, em que o adjunto era holandês, tinha uma ideia de jogo muito boa, os treinos eram bons, atualizados, com exercícios que a malta gostava. Ele começava o treino, falava para a equipa, depois o adjunto continuava e ele ficava mais à parte a observar, como fazia o mister Carlos Carvalhal, mais a ver e se alguma coisa não estivesse a correr parava o treino e era ele que dava a indicação do que tínhamos de fazer para melhorar.

O extremo (à direita) em ação pelo Rio Ave
O extremo (à direita) em ação pelo Rio Ave
D.R.

Deve ter histórias para contar dele. Recorda-se de alguma?
Ele é um homem cheio de histórias. Lembro-me uma altura que fomos jogar contra o Benfica B e estávamos em Lisboa. E no almoço, ou no jantar, já não me recordo, ele deixou a malta beber um copo de vinho, à refeição. Eu tinha 24 anos e para mim aquilo não fazia sentido, acho que nunca tinha bebido um copo de vinho à refeição. Os mais velhos estavam todos contentes e só diziam: Assim é que é, antigamente é que era, os jogadores nem se lesionavam, era por causa disto [risos]. Lembrei-me de uma história.

Força.
Ele dava palestras muito longas, a malta começou a fazer apostas, de quanto tempo é que ia demorar, e o mínimo era 45 minutos, começávamos sempre dos 45 minutos para cima. Uma altura, ele começou a dar a palestra, e aquilo já ia para aí numa hora e meia à vontade, já passava da hora de jantar e nós queríamos comer, e ele falava, falava, a malta começou a fazer caras, nós já fumegávamos, até que ele, que estava a contar uma história, a história do galo, do nada se põe-se de joelhos e começa a esfregar a cara no chão e a dizer que já comeu muita coisa má na vida. O pessoal começou a rir e ele levanta-se: Vá, vá, vamos lá jantar. E acabou assim a palestra, com ele de joelhos e a esfregar a cara no chão [risos].

Como era na relação com os jogadores?
Lembro-me que chegámos os dois na mesma semana, em janeiro, e na altura o Leixões estava com problemas financeiros, e acho que a malta já não recebia há dois ou três meses. Eu não tinha esse problema porque estava emprestado e estava a receber do Rio Ave. E só para falar um bocadinho do caráter do mister Manuel, porque é uma pessoa por quem tenho muito apreço, nós íamos jogar ao Nacional da Madeira, ele chamou o presidente ao balneário e disse que se no dia seguinte o dinheiro não estivesse na conta dos jogadores, ninguém ia a jogo. Bateu o pé e protegeu os jogadores. E no dia a seguir o presidente fez a transferência para toda a gente e fomos jogar à Madeira. Isto foi logo na primeira semana em que chegou. Não é qualquer treinador.

Na época 2019/20, Joca foi emprestado ao Leixões
Na época 2019/20, Joca foi emprestado ao Leixões
D.R.

A época seguinte [2020/21] começou com Tiago Fernandes. Que tal foi o início?
O mister Tiago tem uma paixão enorme pelo futebol e tem um amor muito grande pelo jogador, o jogador em si. Para ele, o jogador de futebol é um deus, talvez por o pai ter sido uma grande figura, ele respeita muito o jogador. As ideias eram boas, mas o futebol tem destas coisas. Há aqueles que à primeira conseguem fazer um grande trabalho, dão um salto muito rápido e as coisas acontecem logo, assim como acontece com alguns jogadores, e depois há outros que só aparecem mais tarde. O mister Tiago apareceu muito novo e o futebol, às vezes, deixa-nos humildes porque as coisas não correm bem, porque as nossas ideias não estão a ter grande efeito e temos que mudar. O mister Tiago tem boas ideias, tem boa intenção, é uma boa pessoa, é um apaixonado pelo futebol, mas ele ainda não deu o clique. A qualquer momento, se os astros se alinharem... Ele tem tudo para poder singrar.

Quando ele saiu, quem assumiu o comando da equipa foi João Eusébio, que era o coordenador da formação. Ficou mais tempo do que contavam?
Julgo que sim. O presidente passou a ser o André Castro, andava à procura de uma solução definitiva, mas tivemos alguns resultados positivos e decidiu mantê-lo como efetivo. Era uma escola mais antiga, métodos de trabalho um bocado ultrapassados, muito boa pessoa, atenção. Apesar de não se ter atualizado muito, era uma pessoa do futebol e as pessoas do futebol, com métodos mais antigos ou mais atualizados, têm olho e sabem tratar os jogadores, sabem o que é um balneário.

Com o troféu de MVP num jogo pelo Leixões, na II Liga
Com o troféu de MVP num jogo pelo Leixões, na II Liga
D.R.

Depois tiveram outro treinador também já com bastante experiência, o José Mota. Como foi lidar com ele?
É um treinador com muita experiência, é campeão da II Liga, é um homem forte, que exige muito respeito, que trata o treino como se fosse jogo, não há folgas, é para dar 100%. Com uma ideia de futebol mais direto, ganhar as segundas bolas, é um treinador que na II Liga tem currículo, já subiu duas ou três vezes, nem sei. No geral, essa época foi boa para mim. Joguei sempre, não tive nenhuma lesão. Tinha só um problema no ombro que tinha começado no Rio Ave, em que fiz uma luxação e depois foi recorrente. O ombro saía do sítio e eu voltava a meter e podia continuar a jogar [rios]. Só mais à frente é que fiz cirurgia.

Ainda tinha contrato com o Rio Ave?
Não. No primeiro ano no Leixões estive emprestado, mas depois rescindi com o Rio Ave e assinei pelo Leixões, um ano de contrato. O meu objetivo era jogar o máximo possível e ficar livre para poder dar o salto para a I Liga, ou, como foi o caso, assinar pelo Rio Ave para tentar ser campeão da II Liga e voltar à I Liga por esse meio.

Foi o Rio Ave que mostrou interesse novamente?
Sim, fiz cinco golos, alguns deles muito bonitos, na gala da Liga ganhei o golo do ano. Fiz um golo de letra contra o Benfica B, no Seixal. Eu tinha 25 anos, já estava a pensar se ia para fora, se ficava, por causa da parte financeira. Já era algo em que começava a pensar, mas o presidente António Silva Campos ligou.

Como é que o convenceu? O Rio Ave tinha descido de divisão.
É verdade. Uma época em que começou com o sonho da Liga Europa de eliminar o Besiktas e de perderem nos penaltis com o Milan e depois durante a época as coisas foram correndo cada vez pior até descerem. Ele disse que queria contar comigo, disse que tinha sido contra a minha saída, porque acreditava em mim, e queria voltar a contar comigo no plantel para ajudar a equipa a subir à I Liga. Aceitei de bom grado porque já conhecia a casa, eram pessoas de que gostava muito. Era uma equipa familiar, já conhecia toda a gente. E sentir que o presidente nos quer é uma força para nós. Foi o mister Luís Freire que assumiu a equipa técnica e eu sabia que as equipas dele gostavam de jogar o futebol de que gosto, as ideias dele eram as minhas ideias também. Mas também só assinei por um ano.

Joca com a namorada Bárbara, filha do treinador Artur Jorge
Joca com a namorada Bárbara, filha do treinador Artur Jorge
D.R.

Ainda não havia nenhum namoro sério?
Foi precisamente nessa pré-época que comecei a namorar a minha mulher. Já temos um filho e ela está grávida, outra vez.

Como se conheceram e o que ela fazia profissionalmente?
A Bárbara é filha do treinador Artur Jorge. Nós somos de Braga, o irmão dela era o meu melhor amigo, já nos conhecíamos da escola, mas nesse verão começámos a falar e depois começámos a namorar. Ela era médica dentista.

O regresso ao Rio Ave foi o que esperava?
A equipa era muito boa, para uma realidade de II Liga. Tinha o Santos, o Guga, o Gabrielzinho, o Pedro Mendes, o Amaral, o Aziz, o Zé Manel...

O Ukra…
[Risos]. Acho que não havia um dia que ele não fizesse alguma palhaçada, ou aparecia no ginásio todo nu, ou pedia para lhe fazerem a depilação no rabo, coisas assim à Ukra, maluquices. No Carnaval ele fez uma festa, obrigou-nos a ir todos mascarados, tive de mascarar-me de pirata porque ele me obrigou. Foi o melhor grupo que apanhei. Éramos mesmo uma família. Íamos pelo menos um dia da semana almoçar todos juntos. Coisa que nunca tinha feito, apesar de já ter apanhado grupos muito bons, como no SC Braga B, por exemplo.

A época correu como esperado e subiram à I Liga. Qual foi o segredo do sucesso?
Tínhamos muita pressão, toda a gente nos chamava os "Galácticos da II Liga", porque era um orçamento gigante, quase pornográfico para uma II Liga, mas a verdade é que foi um ano difícil, porque ainda tínhamos o Covid-19. Houve uma altura em que tivemos oito jogadores com Covid-19 e tivemos de fazer oito jogos em 30 dias. Jogámos sempre quarta, sábado, porque houve jogos em atraso. Foi um ano muito difícil, mas tínhamos uma grande família e a verdade é que as coisas correram bem e fomos campeões. Às vezes punhamos uma velinha para os outros empatarem ou perderem [risos]. Tínhamos o Syllá e o Aziz e dizíamos que eles eram feiticeiros e faziam magia. Eles punham lá a velinha acesa. Ao fim de um ano a lutar por um objetivo e ver esse objetivo concluído com sucesso, é muito gratificante.

Após jogar pelo Leixões, o extremo regressou ao Rio Ave, então na II Liga
Após jogar pelo Leixões, o extremo regressou ao Rio Ave, então na II Liga
D.R.

Renovou com o Rio Ave.
Sim. As coisas já estavam mais ou menos alinhavadas antes do campeonato acabar, mas primeiro queríamos ter o objetivo garantido para poder falar mais a sério sobre o assunto. E renovei por dois anos.

Como foi regressar à I Liga?
Foi um sentimento muito bom. Foi um início com um calendário difícil. O primeiro jogo em casa foi com o Vizela e empatámos, depois fomos a Alvalade e perdemos 3-0, empatámos com o Estoril Praia também. Quando apanhámos o FC Porto em casa já estava toda a gente desanimada por causa daqueles resultados, mas, de repente, ao intervalo estávamos a ganhar 3-0 ao FC Porto. Nem queríamos acreditar. Acabámos por ganhar 3-1. Eu já tinha ganhado ao Benfica na Luz, com o Tondela, mas não tinha jogado muito tempo, e ali joguei o jogo quase todo. Acho que demos ali o clique, a partir dali foi mais fácil.

Também jogou muito pouco nessa época. Porquê?
Vinha de jogar sempre e a titular. A seguir à semana do jogo com o Gil Vicente voltei a romper o cruzado, do mesmo joelho. A segunda vez estamos mais tempo de fora do que na primeira porque é uma revisão à ligamentoplastia, a cirurgia que se faz para corrigir o ligamento, e os médicos diziam sempre que o melhor era ficar um ano de fora. Foi muito difícil outra vez, principalmente porque na minha cabeça eu pensava: Porquê outra vez a mim?. Cheguei à I Liga, após tanto esforço e quando tenho a minha oportunidade, porque todos sabemos que com um ano bom na I Liga aos 27 anos podemos dar o salto para um SC Braga, ou mesmo para um grande, ou para outras ligas lá fora para ficar melhor na vida. E aconteceu-me outra vez isso.

Joca com o troféu de campeão da II Liga pelo Rio Ave, m 2021/22
Joca com o troféu de campeão da II Liga pelo Rio Ave, m 2021/22
D.R.

Foi-se muito abaixo psicologicamente?
Nos primeiros dois ou três dias fui muito abaixo, fiquei realmente muito abatido, porque além de ter de passar por tudo novamente, e ninguém quer uma cirurgia quando mais duas, decidimos que só regressaria aos treinos na próxima pré-época. Tinha de me mentalizar que aquele ano era para esquecer. Mas acho que já estava mais preparado psicologicamente, porque tinha a minha mulher, já vivia junto com ela e ela foi muito importante para mim. Na altura até ficou em casa comigo o primeiro mês, em que eu não podia conduzir e foi ela que tratou sempre de mim. Dava-me as injeções na barriga para evitar tromboses, fazia o pequeno-almoço, almoço, jantar, fazia tudo basicamente e foi o meu suporte. Ela, a minha família, claramente, e o departamento médico do Rio Ave, porque eles vinham de Vila do Conde para Braga para me fazer os tratamentos, para trocar o penso. Na época 23/24 voltei quase um mês antes da pré-época, fiz uma espécie de pré-pré-época. O meu primeiro jogo de treino foi contra o Moreirense e o primeiro jogo oficial foi com o Académico de Viseu para a Taça da Liga, em que entrei 20 minutos e fiz logo uma assistência para o Costinha.

Não voltou a ressentir-se do joelho?
Não, joguei quase sempre. Sé tive uma pequena lesão no aquecimento do jogo contra o Sporting, em Alvalade. O médico disse que foi por eu estar muito nervoso, porque o meu filho estava para nascer. Não dormi bem e estava preocupado porque estava mesmo a bater as 40 semanas e a qualquer momento a Bárbara podia ir para o hospital e eu queria estar presente. Lesionei-me e fiquei quatro semanas de fora, até brinco com ela, digo para ela que pôs uma velinha para eu me lesionar, para poder estar presente [risos].

Guga e Joca com as medalhas de campeões da II Liga
Guga e Joca com as medalhas de campeões da II Liga
D.R.

Quando nasceu o seu filho estava presente?
Sim, o meu filho, que se chama José, em tributo ao avô da Bárbara, nasceu no dia 30 de setembro de 2023.

O que sentiu quando teve o seu filho nos braços?
Não dá para pôr em palavras. É muito diferente para a mãe e para o pai, porque a mãe sente tudo, está com ele dentro dela. Para o pai é um sentimento que cresce, mas de fora. Acho que só quando ele nasceu e quando veio para os meus braços é que me apercebi que era pai, que ele estava aqui e só pensava: agora tenho aqui esta pessoa, que é dependente de mim para o resto da vida e eu nem o conheço, não sei o que fazer. Quando cheguei a casa e pousei o ovo no sofá, pensei: O que é suposto eu fazer agora com isto? Não estou sozinho nunca mais, este menino vai sempre depender de mim”. À medida que o tempo vai passando, aí sim, o sentimento cresce e é um amor infinito, que nem dá para pôr em palavras.

Entretanto, regressou ao Rio Ave e o resto da época correu-lhe muito bem, certo?
Sim, correu bastante bem, fiz golos bonitos, ganhei o golo do mês, na reta final fui MVP contra o V. Guimarães e contra o SC Braga. A reta final é muito importante porque é a imagem que fica, toda a gente se lembra do fim e não do início. Depois tive várias abordagens da I Liga, do Estrela da Amadora, por exemplo, falou-se do Casa Pia, o Rio Ave quis renovar contrato por mais dois anos. Mas com o nascimento do Zé e eu tendo já 28 anos, comecei a olhar muito para a vertente financeira.

 

Spoiler

“Em 6 meses na China ganhei o que ganharia em três anos em Portugal. Na Turquia pagavam €5.000 de prémios de jogo, em Portugal eram €400”

Joca, de 29 anos, conta nesta Parte II do Casa às Costas como tem sido o seu percurso desde que saiu de Portugal. Fala dos costumes que o impressionaram na China, da festa de campeão que teve apesar de ter ficado no 2.º lugar no Gençlerbirliği, na Turquia, e da surpresa boa que tem sido o campeonato grego e o próprio Volos, clube com o qual tem contrato até 2026. O extremo revela ainda as várias opções que está a estudar para o pós-carreira e como tinha um talento natural para jogar FIFA na PlayStation, entre muitas outras curiosidades

Porque escolheu ir para a China, em 2024?
Em Portugal, tirando os quatro grandes, em que se pode realmente fazer muito dinheiro e ter um futuro estável, as equipas não têm muito poder financeiro e os salários não são muito altos. Claro que, para a realidade de Portugal e de quem tem um trabalho comum, são salários muito altos, tenho essa noção, mas no futebol não são. Qualquer outra liga, uma II Liga de Espanha, da Polónia, por exemplo, pode pagar mais, e comecei a olhar muito para a vertente financeira. Na altura até se falou de um possível interesse do Vitória de Guimarães, aí seria diferente porque é um clube com muita expressão, mas não surgiu e comecei a olhar para os campeonatos de fora. A proposta que mais me agradou foi do Wuhan Three Towns, da China.

Essa decisão foi pacífica entre a família?
Foi uma decisão muito difícil porque a minha mulher, a Bárbara, não queria ir. É uma cultura muito diferente, são muitas horas de distância entre Portugal e China, o fuso horário para ela era muito difícil, porque na altura tinha o pai no Botafogo, no Brasil. Quase não podiam falar e ela é muito ligada à família. Mas a proposta da China era só de seis meses, período no qual fui ganhar seis vezes mais. Ou seja, em seis meses na China ganhei o que ganhava em três anos, em Portugal.

Em ação pelo clube chinês
Em ação pelo clube chinês
D.R.

Foi para a China sozinho?
Nos primeiros 20 dias fui sozinho porque não conhecia a realidade e tinha de tratar de tudo, documentação, casa, etc.

Como foi o primeiro impacto?
Fui diretamente para Pequim, porque a minha equipa, que é da cidade onde surgiu o Covid-19, ia jogar com o Beijing. Constatei logo que a China é realmente um país gigantesco, em que tudo é muito diferente. O que mais me chocou foi o povo.

Porquê?
Porque apesar das infraestruturas estarem 100 anos à frente de Portugal e ser um país que a nível tecnológico nem temos mesmo noção de quão à frente está, o povo, devido ao regime comunista, é muito fechado, não tem acesso a muita informação sobre o que se passa fora da China e é como se estivesse a viver 200 anos no passado. Queríamos ter uma conversa sobre, sei lá, na altura ainda era recente a guerra da Ucrânia com a Rússia, mas era impossível falar com eles porque não sabiam, não acompanhavam, poucas pessoas falam inglês. Depois, na minha cidade, por exemplo, quando a Bárbara foi lá ter com o meu filho, que é loiro, para eles era algo que nunca tinham visto e queriam tirar fotos, queriam tocar. Inclusive, tenho uma história que posso partilhar a propósito.

Conte.
Numa altura de paragem para a seleção, marquei quarto numa cadeia de hotéis internacional, um Hilton, para tirar uns dias, pensei: "Vai ser uma coisa mais ocidentalizada, uma coisa mais parecida com aquilo que conhecemos". Quando cheguei à receção ninguém sabia falar inglês, tiveram de chamar o supervisor para falar mais ou menos inglês. Depois, eles tinham um parque para crianças dentro do hotel e como chegámos antes do pequeno-almoço o meu filho quis ir brincar. Aquilo era tudo em vidro. Estava só eu, a Bárbara e o Zé a brincar lá dentro e quando olho à volta estão para aí 20 chineses com o telefone na mão a tirar fotos e a fazer vídeos. Parecia que nós estávamos num zoológico e eles estavam a ver os animais a brincar. No início é giro, é diferente, o meu filho estava a dormir no carrinho, eles queriam ver e tirar fotos, mas depois, no dia a dia, torna-se um bocadinho chato. Como fui com o objetivo de ganhar dinheiro, abstraí-me um bocado, mas para a minha mulher, que estava a viver o dia a dia da cidade, era muito complicado. Posso dar mais exemplos.

Força.
Íamos ao shopping, que lá são uma coisa do outro mundo, com mil lojas, mas, o elevador é para 10 pessoas e eles metem-se 20 lá dentro, a empurrar ao máximo. Lembro-me de ir a um restaurante mais ou menos internacional e vi-os a comer com as mãos e depois de comer uma perna de frango, deitavam os ossos para o chão. Era automático, não punham no prato, era para o chão e os guardanapos também. São coisas assim que fazem alguma impressão a quem está habituado a outro tipo de higiene, outro tipo de educação.

Com a mulher e o filho recém-nascido
Com a mulher e o filho recém-nascido
D.R.

E o futebol, melhor do que esperava, ou não?
Encontrei uma estrutura que só vi nos clubes grandes. O meu clube tinha uma academia, inaugurada no ano anterior, que custou 25 milhões de dólares. Só tinha visto algo parecido na academia do Sporting, que era bem mais antiga. Ali era tudo novo. Mas a competição em si é fraca. Os chineses são muito limitados, muito fraquinhos, apesar de terem poder económico. Lembro-me que o meu treinador era espanhol e ele teve uma conversa comigo, para eu manter a calma porque ia ver no treino que os meus colegas chineses não iam conseguir fazer uma tabela ou um passe na frente porque simplesmente não sabiam. Basicamente jogávamos entre nós, os estrangeiros.

Quem eram os estrangeiros que estavam lá consigo?
Tinha o Romário Baldé, que jogou comigo na seleção, que foi também uma pessoa importante porque já conhecia a realidade, e dois brasileiros, o Darlan Mendes e o Pedro Henrique. Basicamente jogávamos entre nós porque sabíamos que se passássemos a bola a um chinês, ele ia perder a bola.

Como os jogadores chineses reagiam a essa atitude?
Para eles também era passar a bola aos estrangeiros e os estrangeiros que resolvam. Por eles tanto melhor. O bom, era a quantidade de adeptos. São 15 milhões de habitantes na cidade e no estádio estavam sempre 30 ou 40 mil pessoas, coisa que em Portugal numa equipa pequena é impossível.

Joca com o amigo de infância e também profissional de futebol, Artur Jorge
Joca com o amigo de infância e também profissional de futebol, Artur Jorge
D.R.

E são adeptos fervorosos?
Eles são malucos pelo futebol. Íamos jogar fora e acompanhavam em grande número. No regresso, no aeroporto eles tinham ramos de flores, camisolas com a nossa foto, cromos para assinarmos. Tenho de admitir que senti-me verdadeiramente jogador quando cheguei lá porque tinha os estádios cheios, infraestruturas ótimas, os melhores hotéis, só o nível do futebol é que era fraco. E também tinha o lado em que o estrangeiro se jogasse bem era o melhor, mas se jogasse mal o chinês ia cobrar do estrangeiro.

Assistiu ou viveu alguma chatice por causa disso?
No último jogo, fomos jogar a uma das piores cidades da China das que tinham equipa na I liga e jogámos muito mal. Todos os estrangeiros jogaram mal e no treino a seguir tanto o treinador como os nossos colegas vieram pra cima de nós, disseram mesmo que era uma vergonha, que isto não podia voltar a acontecer, que era inadmissível os estrangeiros fazerem um jogo daqueles.

Foi realmente assim tão mau?
Sim, é verdade, tínhamos essa noção e sabíamos que não podia acontecer porque éramos contratados para fazer a diferença.

A sua mulher ficou lá sempre consigo?
Não, ela e o meu filho foram depois para o Brasil, onde estavam os pais dela, porque estava a ser muito difícil para eles viver na China. No verão, estão quase 50 graus, é difícil passear com o bebé e falar com alguém também era muito difícil. Uma vez, fomos a um restaurante no shopping, onde achávamos que serviam frango e quando começamos a traduzir o menu era tudo feito com rã, fomos logo embora [risos]. Estas coisas eram complicadas. Mas confesso que tinha continuado lá a jogar se não fosse pelo lado familiar.

O extremo foi para a Turquia em 2024/25 jogar pelo Gençlerbirliği
O extremo foi para a Turquia em 2024/25 jogar pelo Gençlerbirliği
Genclerbirligi

O clube quis renovar?
Sim. Depois entrou o mister Filipe Martins, ligou-me a perguntar como estava a minha situação e tive de explicar que era impossível continuar devido à família, porque percebi que a minha mulher e o meu filho não estavam felizes. O dinheiro é importante, mas, principalmente quando temos família e filhos, se eles não estiverem bem, o dinheiro não adianta para nada. Por isso tive de arranjar outra solução.

Qual foi a situação mais caricata que lhe aconteceu na China?
Uma altura, a minha mulher já não estava na China, fui com o Darlan e o Pedro Henrique comer fora após um jogo e como no dia seguinte tínhamos folga, ficámos até mais tarde. Quando saímos do restaurante/discoteca, eram mais ou menos uma ou duas da manhã e vimos cães e gatos à venda. Eles diziam que era para cozinhar. Foi muito estranho. Um dia também, na academia, fui tirar uma colher de sopa e saiu-me uma carapaça de tartaruga. Era sopa de tartaruga, uma especialidade na zona. Claro que não tive coragem de comer.

Que propostas teve no final da época?
Quando tomei a decisão de não ficar lá já era um bocadinho tarde. Pensava muito na vertente financeira, tinha o meu filho, estávamos a pensar ter o segundo e o dinheiro não é tudo, mas, na verdade, sem dinheiro não conseguimos fazer nada. Tentei ver as alternativas que existiam, equilibrando a balança. Na altura apareceu o Volos da Grécia, onde atualmente estou, o Gençlerbirligi, da II Liga da Turquia, que estava com um projeto de subida, um clube do Azerbaijão, da Arménia, da Coreia do Sul, da China e de Singapura, mas esta zona não queria porque sabia que a Bárbara não ia achar muita piada. Depois apareceu o Aves, o Casa Pia, o Estrela da Amadora da I Liga, fiquei até à última, volto a Portugal, não volto. Até que surgiu a proposta final do Gençlerbirligi, que era muito atrativa. O clube vinha de cinco vitórias seguidas, estava em 4.º lugar, a lutar para o playoff de subida à I Liga. Decidi, em conjunto com a Bárbara, ir para a Turquia, até porque o clube era de Ankara, a capital, que tinha muitas embaixadas, muitos restaurantes internacionais e escolas internacionais.

Joca com a mulher e filho na festa da subida do clube turco à I Liga
Joca com a mulher e filho na festa da subida do clube turco à I Liga
D.R.

Como foi o primeiro impacto?
Apesar de ser maioritariamente muçulmano e a cultura ser diferente, Ankara é muito ocidentalizada. Fui os primeiros dias sozinho para assinar contrato, ver casas e constatei que realmente era muito parecido à Europa, as pessoas muito similares, muito simpáticas, toda a gente fala inglês, o que ajuda muito. Fomos para um condomínio fechado, onde viviam maioritariamente pessoas das embaixadas e jogadores. A única coisa que fazia um pouco de confusão era ouvir o chamamento para as rezas nas mesquitas. Outra coisa que me fez confusão foi vê-los na academia a acompanhar as refeições com leite. Aquilo era para cortar o picante das comidas.

Como é a II Liga turca?
É uma liga que paga muito bem, um jogador lá ganha duas ou três vezes mais que um jogador na I Liga portuguesa e os prémios de jogo são na ordem dos €4000/€5000. No Rio Ave tinha prémios de €300/400 euros. Eles atrasam muito nos salários, é verdade, estar dois, três meses sem pagar para eles é normal. Ao fim do terceiro mês sem receber, os estrangeiros começaram a reunir-se e chegámos a não treinar. Mas, curiosamente, os prémios de jogo pagam na hora, ganhamos um jogo e no dia a seguir está na conta. Outro facto é que eles na II Liga têm muito bons jogadores estrangeiros, mas só podem ter treinadores turcos. Os treinadores turcos estão muito atrás dos espanhóis, dos portugueses, dos italianos, da nova escola de treinadores, são muito limitados e muito resultadistas. Vamos jogar fora, jogamos para o ponto. Por isso tive algumas dificuldades em adaptar-me, apesar de ter jogado quase sempre.

Assinou por quanto tempo?
Ano e meio. Mas tinha uma cláusula no meu contrato que se subíssemos, o meu salário dobrava. No final da época os outros estrangeiros avisaram-me que o mais provável era quererem mandar-nos a todos embora. Eles não querem saber se tu ajudaste a subir a equipa ou não. Vão ter muito dinheiro devido à subida à I Liga, porque o governo de Ankara dá muito dinheiro, e querem ir buscar jogadores com outro nome. Acabou a época, subimos de divisão, fomos campeões porque lá o 1.º e o 2.º são campeões. Até aconteceu um episódio engraçado à conta disso.

Pode contar?
Eu e a Bárbara estávamos a marcar a viagem para voltar a Portugal e queríamos ir logo no dia seguinte, falei com o tradutor e ele disse: "Não, não pode ser. Temos festa de campeão"; "Festa de campeão? Mas nós não fomos campeões, ficámos em 2º lugar."; "Aqui o 1º e o 2º são campeões, têm medalhas e fica no palmarés." E lá fomos para a festa.

Em ação pelo Gençlerbirliği
Em ação pelo Gençlerbirliği
Genclerbirligi

Mas acabou por não ficar na Turquia. O que aconteceu?
Vim embora de férias com quatro meses de salário, mais um bónus de subida em atraso. Era muito dinheiro. Estava chateado com o diretor, com o presidente, todos os dias perguntava-lhes pelo dinheiro. Como tinha aquela cláusula no contrato de dobrar o salário, eles disseram que eu seria um jogador muito caro para aquilo que achavam que eu ia produzir. Tive de meter os papéis na FIFA para me pagarem. Tinham 14 dias para pagar e pagaram tudo no 14.º dia. E depois, claro, disseram que não queriam contar comigo.

Abdicou do outro ano de contrato em que iria jogar na I Liga e ganhar o dobro?
Não, tínhamos de encontrar uma solução, porque não ia abdicar desse dinheiro todo. Era a I Liga, o que me agradava, jogar contra o Galatasaray, o Fenerbahçe, o Besiktas, era uma montra. Mas se eles não me queriam, eu também não queria que me pusessem a treinar à parte e ficar sem jogar porque não era bom para mim. Comecei a informar que ia estar disponível no mercado e começaram a surgir convites para voltar à I Liga noutros mercados, da Polónia, também surgiram propostas da II Liga turca, da China e Coreia novamente. Fui esperando, até que surgiu o convite do presidente do Volos. Já me tinha tentado contratar noutras duas janelas de transferência. Comecei a pesquisar a cidade, o país, a liga, a ver com olhos de ver, a sério, e comecei a ganhar interesse pela equipa. Voltou a aparecer uma hipótese forte de regressar a Portugal, do Casa Pia, estive tentado, porque era um salário que para a realidade de Portugal era muito elevado e já me fazia sentido.

Joca (à direita) com o pai e o irmão (no meio)
Joca (à direita) com o pai e o irmão (no meio)
D.R.

Não foi para o Casa Pia porquê?
Entretanto, essa hipótese caiu. O presidente do Volos ligou-me, insistiu, mostrou-me o projeto, falou-me do treinador, um espanhol muito novo. Falei com o treinador, que também me mostrou as suas ideias. O campeonato tem equipas como o Panathinaikos, Olympiacos, Aris, o PAOK, equipas grandes. Depois comecei a falar com malta que está aqui na Grécia, com o Costinha, que jogou comigo no Rio Ave e está no Olympiakos, disse-me maravilhas. O presidente fez-me uma proposta, recusei, porque o ano que tinha na Turquia era muito superior.

Qual era a opinião da sua mulher?
Falei com a Bárbara sobre a Grécia, perguntei-lhe a opinião. Ela não queria sair da Turquia porque gostava muito de viver em Ankara, estava grávida, já tínhamos médico lá. Mas começou a informar-se mais sobre a Grécia, a pesar os prós e contras e acabou por dar o aval dela. Também pesou o facto de ela perceber que na Turquia, o mais provável era eles meterem-me a treinar à parte e não jogar, portanto, eu não ia estar feliz. O presidente do Volos fez-me uma última proposta, ofereceu-me um valor que nunca deu a ninguém, diz ele, e pronto.

Conseguiu sair a bem do Gençlerbirligi e com algum dinheiro do contrato?
Fiz um acordo com o clube, pagaram-me quatro meses do resto do ano. Disse-lhes: "Ou vocês pagam-me quatro meses, ou então vão pagar-me 12 porque fico aqui, mas não vão contar comigo." No dia a seguir tivemos o acordo, assinei e viajei direto para Volos.

Este ano [2025], o extremo assinou pelo Volos, da Grécia
Este ano [2025], o extremo assinou pelo Volos, da Grécia
D.R.

O campeonato está a corresponder às expectativas?
Sinceramente, estão a ser superadas. O presidente contratou bons jogadores, ele disse que queria tentar ficar no top 5 da Grécia, o que é muito difícil, mas temos uma boa equipa, um bom treinador, as condições do clube são boas, temos o estádio olímpico da cidade, um campo de treinos top mesmo ao lado, tudo muito bem estruturado. O nosso presidente é uma figura muito conhecida aqui na Grécia porque é presidente do clube e da cidade. É um político muito respeitado e no futebol é uma figura muito conhecida por ser muito apaixonado. É conhecido por, quando a equipa ganha é tudo fantástico, mas quando perde… Há vários vídeos dele a gritar com os árbitros, com os jogadores, com todos, inclusive houve jogos amigáveis em que ele entrou no balneário a querer partir tudo e a dizer que ia mandar a equipa toda embora, e passado um minuto já estava tudo bem. [risos]

Fora do futebol, a família está adaptada?
A minha mulher está a adorar e eu também. O nosso filho entrou agora pela primeira vez na escolinha. Como disse, ela está grávida, já fizemos aqui as ecografias, vamos ter uma menina que se vai chamar Olivia e está prevista nascer a 28 de dezembro.

Quando terminar o contrato com o Volos, em 2026, pretende voltar a Portugal ou pensa continuar no estrangeiro?
Este ano tenho objetivos pessoais e coletivos. Queremos estar no playoff de campeão e se possível chegar à Europa. Se puder, gostaria de fazer um ano aqui e depois dar o salto para uma das equipas grandes da Grécia. Se não conseguir, não me importo de ficar aqui estes dois anos, porque estamos a adorar a cidade, as pessoas e o clube.

E depois disso?
Tenho um plano de fazer mais dois anos no estrangeiro e depois, aí, sim, aos 33/34 anos, voltar a Portugal, mais tranquilo, mais estável financeiramente. Sei que é difícil para a Bárbara estar longe da família e dos amigos e do próprio emprego que ela adorava, é um esforço que lhe peço. Também é um esforço para mim, mas faz muita diferença a nível financeiro. Quando chego a Portugal, noto que o meu padrão de vida aumentou. Em Portugal já não ia passar daquele patamar, não ia dar o salto de poder jogar Liga Europa ou Liga dos Campeões, há que ter essa noção. Estes cinco ou seis anos da nossa vida fora, podem mudar os 20/30 anos seguintes. Este dinheiro, se for bem investido, se tivermos cabeça, é uma base muito sólida para o futuro.

Joca com o filho
Joca com o filho
D.R.

Já sabe o que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Tenho começado a pensar nisso. O meu pai tem uma empresa na área do software, do printing, já com 20 anos e penso em dar continuidade, tenho falado com ele sobre isso. Ou então continuar na área do futebol.

Como treinador?
Não. Já assisti a muita coisa e sei que se apanhasse dois ou três jogadores como alguns que vi, ia passar-me logo e não ia conseguir gerir. O trabalho do treinador de futebol é a parte técnica e tática, claro, mas o mais importante é saber gerir um balneário e isso é o mais difícil, gerir 20 ou 30 personalidades diferentes. Acho que não tenho essa capacidade de gestão porque é preciso engolir uns sapos. Por ouro lado, um treinador tem que ser o primeiro a chegar, tem que ser o último a sair. O trabalho de treinador é 20 vezes pior que o de jogador. Mas já me via num cargo de diretor-desportivo, de team manager. Também gosto da parte de negócios, não sei se vou ingressar por aí, de criar uma empresa na área de investimentos, para ajudar outras pessoas a saber onde alocar o seu dinheiro. Ou então, invisto no imobiliário. O meu cunhado, o Artur, que está a jogar no Catar, já faz isso há muito tempo, investe no imobiliário e também tenho pensado muito nisso.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
O meu maior salário por mês foi na China.

Já investiu em algo?
Tenho alguns investimentos nas criptomoedas.

O extremo português (à esquerda) em ação pelo Volos
O extremo português (à esquerda) em ação pelo Volos
D.R.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Em termos de proporção tenho de admitir que foi um casaco que comprei numa altura em que ganhava pouco dinheiro. Comprei-o numa loja, em Braga, e custou 1200 euros, todo em pele. Mas a maior extravagância até agora, a mais cara, foi o anel de noivado que comprei para a minha mulher. Não digo que seja extravagância porque ela merece, mas foi bastante caro, é da Cartier. Queremos casar em breve.

Tem algum hobby?
Sou interessado por vários temas. Gosto muito de saber o que se passa no mundo, o que vem daqui para a frente. Leio bastante, vejo documentários e séries de podcast sobre vários temas, mas principalmente sobre política e investimentos. A minha mulher diz que o meu Twitter é uma seca porque é só política e finanças [risos]. Gosto de ver outros desportos, de ténis e basquetebol principalmente. Mas o que me dá mais prazer fora do futebol é estar com a minha família.

É um homem de fé?
Sim, principalmente nos últimos tempos. Não costumo ir à igreja, mas aqui na Grécia já tive curiosidade de entrar porque são quase todos ortodoxos. O meu avô foi acólito durante 25 anos, trabalhou no Bom Jesus de Braga, era a pessoa que tinha as chaves, abria e fechava a igreja todos os dias. Quando era miúdo ficava muito tempo com os meus avós, eles eram cristãos praticantes, todos os dias rezavam o terço. As raízes estão cá e, nos últimos seis meses, aproximei-me muito da minha fé. Houve ali uma altura em que me desliguei um pouco por causa das lesões, perguntava muito porquê, mas hoje estou mais próximo por todas as coisas boas que me estão a acontecer, pela minha família, houve um clique que me fez aproximar de Jesus e de Deus.

E superstições? Tem ou teve?
Sim, uso sempre os mesmos boxers no dia de jogo. Se um jogo me corre bem, tento replicar tudo o que fiz nesse dia, gosto de comer sempre as mesmas coisas, principalmente no dia de jogo. De manhã é sempre um café e torrada com doce, não gosto de comer muitas proteínas para não ficar muito pesado; ao almoço como sempre massa ou arroz. A carne também deixo de lado no dia de jogo, ou, se comer, é um bife pequenino de peru ou frango, com uma banana no fim. No lanche antes do jogo, como sempre papas de aveia, ou um pão com doce e uma cevada, e tomo tudo o que seja possível de suplementação que o doutor me possa dar. Meto sempre primeiro a caneleira esquerda, entro sempre com o pé direito e benzo-me.

Com a mulher e o filho
Com a mulher e o filho
D.R.

Tem tatuagens?
Sim, tenho algumas. A primeira fiz com 17 anos talvez e é uma frase. A minha mulher está sempre a gozar-me por causa disso.

Qual é a frase?
É uma frase de Bukowski que diz: "Some people never go crazy, what truly horrible lives they must live" [Algumas pessoas nunca enlouquecem, que vidas verdadeiramente horríveis elas devem viver]. Acho que não pensei muito bem na altura, mas confesso que continua a fazer-me um bocadinho de sentido, porque acho que se não corremos nenhum risco também nunca vamos ter uma grande recompensa. Há sempre momentos em que temos que cometer um bocadinho de loucura.

Pratica outras modalidades?
Agora não, porque não tenho muita gente para praticar, mas gostava muito de jogar ténis. Na formação do SC Braga, nos sub-17, tínhamos um grupo que costumava jogar ténis no clube de ténis da rodovia, em Braga. Vou começar a jogar novamente padel aqui em Volos porque tenho muitos colegas espanhóis e os espanhóis são malucos pelo padel. Também gosto muito de jogar basquete, jogava bastantes vezes com o Artur, o meu cunhado, quando acabava a época víamos sempre as finais da NBA juntos. E gosto muito também de jogar póquer.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
As lesões. E nunca me ter estreado na equipa principal do SC Braga. Isso é uma coisa que carrego comigo porque é o clube da minha terra e do meu coração. Mas tive aquela decisão de ter ido para o Tondela e não esperar pela minha oportunidade de poder estrear-me no SC Braga.

E o maior arrependimento?
Não tenho grandes arrependimentos. As coisas que aconteceram tinham de acontecer por algum motivo. As decisões que tomei foram porque achava que era o melhor.

Joca tem contrato com o Volos da Grécia até 2026
Joca tem contrato com o Volos da Grécia até 2026
D.R.

Qual o momento mais feliz na carreira?
Ter sido campeão na II Liga.

O objetivo que está por cumprir?
Estrear-me na equipa principal do SC Braga e jogar em qualquer equipa do top 5 da Europa.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Barcelona.

Quais são as maiores amizades que fez no futebol?
O meu cunhado Artur. A minha equipa do Rio Ave, o Guga o Fábio Ronaldo, o Zé Manel, o André Pereira, o João Graça, o Ukra.

Além de Joca, tem ou teve mais alguma alcunha?
Não.

Tem algum talento escondido?
O meu grande talento escondido, e quem jogou contra mim sabe, era jogar FIFA. Acho que podia ter sido do gamer porque ninguém me ganhava. Agora já não, porque com o meu filho é impossível. Já não pego na PlayStation há um ano e meio ou dois, desde que ele nasceu.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
Bruno Fernandes e o William Carvalho, essa dupla no meio-campo do Sporting era difícil.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Acho que teria seguido o negócio do meu pai. Teria sido empresário, de certeza.

Há alguma do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Não faz sentido levar amarelo por tirar a camisola, ou por exibir mensagens de apoio a um familiar, ou a uma causa.

 

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Pedro Ferreira

Spoiler

“A primeira vez que fui chamado para treinar com os seniores do Sporting coincidiu com a chegada do Fábio Coentrão. Dei-lhe logo um pisão”

Pedro Ferreira, de 27 anos, partiu para a Academia de Alcochete aos 13 anos, e apesar de ter feito toda a formação sempre nos escalões mais acima, não chegou a estrear na equipa principal do Sporting. Operado a ambas as tíbias, acabou emprestado ao CD Mafra na passagem a sénior. Após mudança de empresário e rescisão com o clube de Alvalade, assinou pelo Varzim, antes de rumar ao estrangeiro. É sobre esta fase inicial da carreira do hoje jogador do Santa Clara que falámos nesta parte I do Casa às Costas

É natural de Vieira de Leiria. Filho e irmão de quem?
A minha mãe trabalha na área farmacêutica e o meu pai numa fábrica de moldes. Tenho um irmão cinco anos mais velho, que também jogou futebol, embora nunca profissional.

Deu muitas dores de cabeça aos pais, em criança?
Os meus pais dizem que sim, que só fazia asneiras. Dizem que lutava muito com uma prima mais velha, por exemplo. Consta que normalmente eu é que a provocava, atazanava-lhe o juízo e ao meu irmão também, e depois, quando ficava sério, ia a correr para a minha mãe, pedir ajuda [risos].

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Sempre jogador de futebol. Acho que a maioria dos rapazes da turma diziam que queriam ser jogadores de futebol. Era o mais normal.

Torcia porque clube?
Pelo Benfica. Depois fui para a academia do Sporting e de jogar tantas vezes contra o Benfica, ficou aquela rivalidade e comecei a apoiar o Sporting. Agora não quero muito saber quem ganha ou quem perde, sinceramente.

Gostava da escola?
Nem por isso. Era um aluno intermédio quando estava em Leiria. Aos 13 anos, quando fui para a academia do Sporting e já não tinha a minha mãe em cima de mim, desliguei-me um bocado da escola e desisti no 10.º ano.

Pedro (à direita) com o irmão
Pedro (à direita) com o irmão
D.R.

Quando e como começou a jogar futebol num clube?
Comecei aos cinco anos no Instituto Nacional Desportivo Vieirense. Mas esse ano treinei pouco porque tive uma dor na virilha. Só comecei a treinar mais regularmente aos seis, sete anos.

Ficou no Vieirense até aos 11 anos e a seguir vai um ano para o União de Leiria. Como foi lá parar e porquê?
No Vieirense iam surgindo captações para ir ao Sporting, ao Benfica, ao FC Porto. Eu já me evidenciava um pouco, jogava com os mais velhos. Vieram falar com os meus pais e surgiu a possibilidade de ir para o U. Leiria.

Recorda-se da primeira vez que foi a captações num dos três grandes?
Lembro-me de todas, mas não me lembro qual foi a primeira. Quando ia lá treinar não me sentia confortável para mostrar o meu futebol. Sentia-me sempre um bocado acanhado, ficava no meu canto a fazer as minhas coisinhas e não me tentava evidenciar. Às vezes é preciso um bocado de rebeldia para sobressair nessas alturas, eu era envergonhado. Jogava como defesa central e ficava ali, não subia muito. Não me evidenciava muito. Mas também acho que não levava aquilo muito a sério, o ir treinar aos clubes grandes.

Aos 13 anos, Pedro Ferreira foi para a Academia do Alcochete
Aos 13 anos, Pedro Ferreira foi para a Academia do Alcochete
D.R.

Quando começou a treinar no U. Leiria já notou diferença para o Vieirense?
Sim, porque até aí só jogava futebol 7 e quando cheguei lá os da minha idade jogavam futebol 11 e ainda por cima fui para o escalão acima. Aliás, fui jogar dois anos acima, com os iniciados A. Comecei com eles no campeonato nacional e passado meio ano baixei para o ano acima de mim. Nunca joguei com os da minha idade.

E como foi parar ao Sporting?
O meu treinador dos iniciados B, de um ano acima, fazia scouting para o Sporting e ele é que me levou à academia. Nessa altura já levei mais a sério, as coisas acabaram por correr bem. Acho que fui em dezembro e soube logo que na época seguinte ia para o Sporting.

Como reagiram os seus pais?
Acho que não me quiseram cortar as pernas, a pensar no futuro, de modo que eu não penasse um dia que não fui jogador porque não me deixaram ir.

Aos 13 anos sai de casa para ir viver para a Academia de Alcochete. Custou-lhe muito?
Os primeiros seis meses foram muito complicados. Todas as semanas mandava mensagens a dizer que queria vir embora. Às vezes ia a casa e quando regressava nem desfazia as malas, a pensar sempre que queria voltar para casa.

Quem o convenceu a ficar?
Os meus pais tentavam que passasse mais uma semana, mais uma semana e foi passando. Em dezembro, pelo Natal, vou a casa com mais tempo e tenho uma conversa séria com a minha mãe. Falámos sobre se valia mesmo a pena estar a desistir do sonho, porque aquilo era apenas uma fase e no final se calhar já me estava a sentir melhor. E pronto, decidimos que ia continuar, que não valia a pena desistir e a partir daí as coisas correram muito bem.

O jovem médio fez praticamente toda a formação no Sporting
O jovem médio fez praticamente toda a formação no Sporting
D.R.

Na academia deve ter sido alvo de muitas brincadeiras por parte dos mais velhos. Que recordações tem desses momentos?
Lembro-me que os mais velhos levaram-nos à noite para o campo com pitons de alumínio, estava tudo escuro e nós tínhamos de atravessar o campo de uma ponta à outra com eles a tentar apanhar-nos de carrinho. Lembro-me de balões de água dentro do quarto, que atirávamos de janela para janela; às vezes apanhavam-nos de costas e molhavam-nos o quarto todo. Quando íamos a casa e regressávamos com a mala cheia de comida, de snacks, eles iam lá e tiravam-nos a comida. Lembro-me de ir à piscina à noite, ao jacuzzi, sem o segurança ver. Felizmente, nunca fui apanhado.

Quais foram as primeiras amizades que fez quando chegou à academia?
Os mais conhecidos são o Daniel Bragança, o Diogo Sousa, que agora está na Turquia, e o Jovane Cabral. São amizades que mantenho. Mas há muitos outros que não singraram tanto no futebol, com quem também mantenho contacto até hoje.

A mudança de escola foi fácil?
Senti dificuldades porque me vi um bocado livre. Em 20 alunos, 16 eram do Sporting. Então aquilo era um bocado caótico de vez em quando, porque estávamos naquela idade da rebeldia e já não estudava, só ia às aulas. As notas começaram a descer. Foi complicado nesse aspeto.

Quem eram os seus ídolos?
O Cristiano Ronaldo, talvez. Mas não tinha um grande ídolo que acompanhasse mesmo, porque também não via assim tanto futebol.

Como se definiu a sua posição em campo? Sempre jogou como médio?
Comecei como defesa central porque apesar dos colegas serem mais velhos, eu era maior que eles. Só que subia muito e fazia muitos golos. No Vieirense, tinha um treinador que era meu professor de Religião e Moral, que começou a puxar-me para médio. As coisas começaram a correr melhor ainda e, naturalmente, comecei a jogar a médio.

Na formação do Sporting também jogou sempre nos escalões acima?
Sim, no escalão imediatamente acima ou até dois acima.

Quando chegou não sentiu nenhum tipo de dificuldade de adaptação? Afinal de contas o nível era diferente.
Senti diferenças porque basicamente vivíamos para aquilo, enquanto no U. Leiria era uma coisa que eu gostava de fazer, uma espécie de hobby. No Sporting, não digo que era um trabalho porque somos muito novos, mas vive-se muito para o futebol. Mesmo quando não tínhamos treino, o que íamos fazer era jogar à bola, estávamos sempre a jogar à bola, por isso já levava um bocado mais a sério.

Pedro felicitado pelos colegas após marcar golo
Pedro felicitado pelos colegas após marcar golo
Carlos Rodrigues

Quando sentiu que o sonho de ser jogador profissional de futebol era realizável?
Tive duas fases. Tive uma fase, até se calhar aos juniores de 1.º ano, que parecia tudo um mar de rosas, ia à seleção nacional, jogava um, dois anos acima e as coisas corriam muito bem. Quando era juvenil já jogava com os juniores, depois fui para juniores e joguei sempre. No 2.º ano de júnior tenho a minha primeira lesão.

Que lesão foi essa?
Fui operado às duas tíbias, em simultâneo. Na formação treinávamos muito em sintético, eu era um jogador pesado, e o impacto acabou por fazer com que a tíbia rachasse com o passar do tempo. Houve uma altura em que já não conseguia mais jogar e fui operado às duas pernas, tinha 18 ou 19 anos.

Quando foi chamado pela primeira vez a uma seleção?
Foi aos sub-15. Antes já tinha ido à seleção distrital de Lisboa, de sub-14, no ano anterior já tinha ido à de Leiria. Quando pude ser chamado à seleção nacional, fui logo chamado.

Por volta dos 15, 16 anos, como se projetava no futuro? Com o que sonhava?
Sonhava em ser jogador na equipa principal do Sporting. Mas não era uma coisa que eu pensasse. Simplesmente estava a desfrutar do momento. O facto de jogar um ou dois anos acima não me levava a pensar que o futuro fosse mais fácil ou estivesse mais perto de acontecer tornar-me profissional. Não pensava dessa maneira.

O médio com os pais
O médio com os pais
D.R.

Quando começaram as primeiras saídas à noite e os primeiros namoros?
Se calhar aos 15 anos, mas não eram bem saídas à noite, ficava até à uma, ou duas da manhã, no máximo, e depois ia para casa. E era só nas férias. A minha mãe, fosse a hora que fosse, ou onde fosse, ia sempre buscar-me.

Quais os momentos mais marcantes na formação do Sporting, até chegar a júnior?
Quando fui campeão de iniciado A. Lembro-me que fiz golos ao FC Porto, em casa e fora, que ajudaram a sermos campeões nacionais. Foi um marco importante para mim. E quando fui campeão novamente em juniores de 2.º ano. Foram os momentos mais marcantes.

O facto de jogar sempre um ou dois anos acima não fazia com que crescesse dentro de si mais ambição e sonhos maiores?
Eu tinha ambições, mas não tinha um ego e uma confiança assim tão grandes. Sentia-me orgulhoso do percurso que estava a ter, mas sabia de histórias do passado, de jogadores que se calhar estiveram na mesma posição e nem sequer tinham chegado a jogar profissionalmente. Por isso era um misto de emoções de pés assentes no chão e de entusiasmo. Nunca me deslumbrei.

Em 2018/19, Pedro (à esquerda) foi emprestado pelo Sporting ao CD Mafra
Em 2018/19, Pedro (à esquerda) foi emprestado pelo Sporting ao CD Mafra
D.R.

Quando assinou o primeiro contrato?
Aos 16 anos assinei o contrato de formação, em que ganhava €250. O primeiro contrato profissional foi aos 18 anos, por volta disso. Assinei por três anos e ganhava €1200 ou €1400, não me lembro ao certo.

O que fez com o primeiro dinheiro que ganhou?
Acho que simplesmente guardei. A minha mãe sempre me incutiu aquela coisa de poupar para o futuro. Hoje já sou mais de investir.

Quando deixou de viver na academia?
Quando passei para a equipa B, aos 19 anos. Fui viver para o Montijo com o Gonçalo Vieira e o Diogo Sousa.

Não tem mais histórias para contar desses tempos na academia?
Com 16, 17 anos. Nós tínhamos uns senhores que tomavam conta de nós e que iam rodando. Um deles era novo. Eu e um colega, cada vez que ele ia lá ver se estávamos a dormir, começávamos a rir, achávamos graça e não conseguíamos parar de rir. Um dia, estávamos no quarto, começámos a ouvir portas a bater e tivemos a ideia de ir bater à porta dele com força, por volta da meia-noite e meia, e voltar a correr para o nosso quarto sem ninguém dar conta. Fizemos isso duas ou três vezes seguidas. Eles foram ver as câmaras de vídeo e fomos apanhados.

A receber instruções de Filipe Martins, antes de entrar e campo pelo CD Mafra
A receber instruções de Filipe Martins, antes de entrar e campo pelo CD Mafra
Gualter Fatia

Ainda não disse quando percebeu que podia fazer do futebol a sua profissão.
Quando falei há pouco que tive duas fases, a segunda fase é aquela em que percebo que tudo poderia ir por água abaixo, quando tive a primeira lesão, em que fiquei parado cerca de quatro, cinco meses. E no ano seguinte, no primeiro ano de equipa B, tenho outra lesão, parti o quinto metatarso do pé. Ou seja, foram praticamente dois anos seguidos quase sem jogar. Aí comecei a duvidar, não sabia como ia regressar, foi uma altura complicada. Entretanto, a época acabou, eu ainda estava lesionado e o clube decidiu emprestar-me ao CD Mafra, que tinha acabado de subir à II Divisão.

Como reagiu? Torceu o nariz?
Não, fui de bom grado, tendo em conta os dois últimos anos, jogar na II Divisão era algo que poderia vir a fazer-me bem. Ainda por cima era emprestado, ou seja, não tinha rescindido contrato, mantinha-me ligado ao Sporting, o que me dava alguma esperança de voltar. Achei o projeto bom para recomeçar.

Foi viver para a Mafra?
Não. Continuei a viver no Montijo, tinha um colega que também jogava no Mafra, o Mauro Antunes, que era do Alcochete e ia com ele até ao IKEA, lá enchíamos o carro com outros jogadores que vivam na zona de Lisboa e íamos todos para Mafra. Foi um ano um bocado, não digo stressante, mas eram muitos quilómetros todos os dias.

O médio (à direita) foi chamado pela primeira vez para representar Portugal, na seleção de sub 15
O médio (à direita) foi chamado pela primeira vez para representar Portugal, na seleção de sub 15
D.R.

Estreou-se na II Liga ou já se tinha estreado com a equipa B?
Não cheguei a estrear-me, só me estreei no Mafra.

Chegou a ser chamado alguma vez para treinar com a equipa principal do Sporting?
Sim, mas eram aqueles treinos com os não convocados, ou quando era preciso alguém para fazer número para alguma coisa. Recordo-me que a primeira vez que fui, coincidiu com a chegada do Fábio Coentrão, eram também os primeiros treinos dele e dei-lhe logo um pisão na primeira bola [risos].

Estava nervoso?
Muito. Ainda por cima o Fábio Coentrão vinha do Real Madrid, tem uma carreira extraordinária. É entusiasmante, mas estamos nervosos, claro.

Essa foi a altura de Jorge Jesus no Sporting. Como foi lidar com ele?
Só fiz jogos-treino contra ele, contra a equipa A, mas não cheguei a treinar com o grupo todo. Lembro-me que ele ficava na azia quando alguém entrava mais agressivo, nesses jogos amigáveis, porque podia alguém lesionar-se, e acho que chegou a haver lesões. Ele expulsou logo o jogador que tinha feito a entrada. Lembro-me também de uma dura gigante que ele deu ao Palhinha, porque ele fez um passe de um lado ao outro do campo, que no entendimento dele não era benéfico para o que queria. Parou o treino e deu-lhe um raspanete enorme.

Pedro (2º atrás à direita) na seleção
Pedro (2º atrás à direita) na seleção
D.R.

Houve algum treinador que o tenha marcado mais no Sporting?
Acho que todos os treinadores que tive ajudaram-me bastante. O Tiago Fernandes, se calhar quem me marcou mais porque era como um pai para mim, gostava muito de mim. Tínhamos uma boa relação, que se mantém. Também foi o treinador com quem estive mais tempo no Sporting, se não estou em erro. Era uma altura mais séria, dos juniores, em que via o futebol de maneira diferente, já pensava o porquê de fazer as coisas e se calhar também por isso foi o treinador que mais me marcou.

Como foi a estreia na II Liga, com o CD Mafra?
Há uma coisa que faço sempre. Quando fui internacional, quando joguei o primeiro jogo pela seleção, o árbitro apitou para começar o jogo e eu pensei: "Pronto, já está, fui internacional." Agora, quando estreei na Liga Conferência, pensei o mesmo. Quando joguei na I Liga pela primeira vez, o ano passado, aqui com o Santa Clara contra o Estoril Praia, pensei o mesmo: "Já está." Mas não me estou a lembrar contra quem joguei pelo CD Mafra na II Liga.

Adaptou-se bem à II Liga, quando chegou ao CD Mafra?
Sim. Fiz 29 jogos. Fiz mais ou menos metade a titular. O treinador era o Filipe Martins, que estava a fazer uma época muito boa até dezembro e depois recebeu uma proposta melhor. Estávamos em 6.º lugar ou alguma coisa assim, quando ele saiu, e a partir daí começámos a perder muitos jogos, estivemos até ao último jogo para ver se nos mantínhamos, ou não. A segunda volta começou com o Filipe Pedro e acabou com o Capucho a treinador.

Na época 2019/20, Pedro Ferreira (à direita) assinou pelo Varzim
Na época 2019/20, Pedro Ferreira (à direita) assinou pelo Varzim
Quality Sport Images

No CD Mafra encontrou um balneário muito diferente do que estava habituado, com homens feitos, alguns bem mais velhos. Também foi alvo de muitas partidas?
Não. Nunca achei que me vissem como um miúdo. Normalmente não me meto muito em brincadeiras, estou sempre no meu cantinho e tenho tido a sorte de ter apanhado sempre bons grupos, sem sentir uma diferença grande. Mas era diferente sobretudo porque os salários não eram muito altos, tinham acabado de subir da III para a II Liga, e se descemos de divisão, se calhar o salário baixa e pagar contas seria mais complicado, porque são homens casados, com filhos, com outras responsabilidades. Senti essa pressão. Via-se que eram jogadores humildes, que aquilo era o ganha-pão deles e tinham contas para pagar no final do mês. Se calhar houve mais pressão na fase final. Mas o grupo era muito bom e nunca houve confusões extremas.

No final dessa época tinha esperança de regressar ao Sporting?
Não. No decorrer da época fui vendo que provavelmente não ia ser possível voltar. Tinha mais um ano de contrato ainda e, provavelmente, ia ser novamente emprestado. Fiz uma época boa, mas não fiz uma época para voltar para o Sporting. Fiz metade dos jogos na II Liga a titular, outra metade a sair de banco, a nível individual foi um ano ok, não foi um ano excelente, e se calhar para voltar para o Sporting tinha que ter sido um ano muito bom.

Tinha empresário?
Sim, era o Luís Neves da GestiFute, mas nessa altura mudei para a ProEleven.

Porque mudou?
Porque sentia que não me acompanhavam muito, sentia-me um bocado desligado, se calhar também porque já não estava ao mais alto nível, nem a evidenciar-me como antes. Por isso, senti que o melhor passo era abandonar e tentar algo novo.

O médio (no chão), em ação pelo Varzim
O médio (no chão), em ação pelo Varzim
D.R.

É já através da ProEleven que vai para o Varzim, em 2019/20?
Sim. No Sporting comecei a treinar à parte, com os outros jogadores que também não contavam. A melhor opção foi rescindir e não olhar para trás, seguir um caminho novo. Sair do Sporting acho que me fez bem para dar um bocadinho mais.

Foi uma espécie de abre olhos?
Sim. Acho que foi importante. Vejo muito isso nos miúdos agora, se calhar estão muito presos ao passado porque jogaram aqui ou ali e depois chegam ao nível sénior e isso já não é assim tão importante, já não conta para nada.

Ainda não tinha nenhum namoro sério?
Foi nessa altura que comecei a namorar a Patrícia, a minha mulher.

Como se conheceram e o que ela fazia profissionalmente?
Fui sair com um grupo de amigos, no verão, ela estava lá, falámos a noite toda. No final ela agarrou no meu telemóvel e tirou-nos uma foto. Depois falei com um amigo que a conhecia, e pronto. Ela na altura trabalhava numa loja de roupa, no shopping de Leiria. Passado um mês foi comigo para a Póvoa de Varzim. Entretanto, adotámos um cão, um rafeiro, chamado Lupi.

Pedro com Lupi, o rafeiro que adotou
Pedro com Lupi, o rafeiro que adotou
D.R.

O Varzim era de um nível muito diferente do CD Mafra?
Sim, tinha mais adeptos e com isso mais exigência. A estrutura também era um pouco melhor.

O que lhe ficou na memória dessa época?
Foi quase perfeita a nível individual, como no coletivo. Nos primeiros dois jogos fui para o banco, depois um colega que estava a jogar na minha posição ficou doente e a partir daí nunca mais saí. Fiz um ano muito bom, que foi interrompido pela covid-19.

O confinamento foi um período difícil para si?
Estava com a minha namorada, fechados na Póvoa, mas como estávamos juntos não foi muito mau. Víamos séries que têm 300 episódios, numa semana, íamos às compras quando podíamos. Eu tinha de dar umas corridas também, para enviar para o clube e foi-se passando assim.

Quais eram as suas referências?
O Casemiro, que tinha um estilo de jogo parecido ao meu. E o Kanté também. Mas mais o Casemiro, na altura do Real.

Assinou por quanto tempo com o Varzim?
Dois ou três anos. Tinha feito uma boa época, ainda comecei a pré-época seguinte no Varzim, mas com a esperança de que poderia sair nessa janela de transferência.

Com a namorada e os pais
Com a namorada e os pais
D.R.

Já tinha manifestado vontade de sair para o estrangeiro?
Não. Tinha vontade de sair para melhorar a minha vida e ter um projeto novo, porque achava que era o momento ideal para sair da II Liga e tentar a I Liga. Mas com a covid-19 houve muitos cortes em equipas, em gastos, e o Varzim pedia 400 mil euros por mim; o Sporting tinha metade do passe. Sabia que dificilmente em Portugal um clube do meio tabela iria pagar isso por um jogador da II Liga. Mas, entretanto, surgiu a hipótese da Dinamarca.

Quando lhe falaram no Aalborg BK reagiu bem?
Mais ou menos, tive de ir pesquisar. Também sabia que corria o risco de ficar ali mais um ano, não tinha certeza do que poderia aparecer, então decidi ir para não ficar mais um ano na II Liga. Poderia o ano não ser igual e ter de ficar ali muito mais tempo.

Tinha algum conhecimento do futebol dinamarquês?
Nenhum. Fui-me informando e fui para lá um bocado às escuras.

 

Spoiler

“O Aalborg nunca tinha descido. Quando o árbitro apitou ficámos gelados, deitados no chão, as pessoas sem fazer barulho, parecia um velório”

Pedro Ferreira renovou contrato com o Santa Clara até 2028, apesar de, quando foi viver para a ilha, ir com muitas dúvidas. Antes, esteve dois anos e meio no Aalborg BK, da Dinamarca, onde desceu de divisão e conta como os dinamarqueses viveram o momento. A caminho de ser pai pela segunda vez, fala do sucesso do Santa Clara no ano em que subiu à I Liga e revela que, por enquanto, não se imagina ligado ao futebol quando um dia tiver de abandonar os relvados

Chegou ao Aalborg BK da Dinamarca em 2020/21. Como foi o primeiro impacto? Sabia falar inglês?
O meu inglês era mau. Percebia um bocadinho, mas era mau. O impacto foi o de ver um clube grande na Dinamarca com infraestruturas muito boas, nada a que estava acostumado. Estive no Sporting, mas nunca no nível da equipa principal. O estádio, os adeptos, era tudo bom.

Como foi recebido na equipa?
Vieram mais alguns jogadores novos, receberam-me todos bem. Era o único português, não havia brasileiros, não havia espanhóis. O dinamarquês Matías Rossi, que passado um ano e pouco foi para o Galatasaray, começou logo a falar comigo, é mais novo que eu. Depois começámos a ir beber café, foi muito simpático.

Foi sozinho para a Dinamarca?
No primeiro mês fui sozinho, depois a Patrícia foi ter comigo.

Os treinos eram muito diferentes dos que fazia em Portugal?
Mais exigentes, um bocadinho mais físicos. Comecei a usar o GPS no treino, era tudo mais ao detalhe, passei a fazer ginásio, era mais profissional. É um clube com história no futebol dinamarquês.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Umas quatro vezes mais.

Pedro Ferreira assinou pelo Aalborg BK, da Dinamarca, em 2020/21
Pedro Ferreira assinou pelo Aalborg BK, da Dinamarca, em 2020/21
D.R.

Com que opinião ficou do campeonato dinamarquês?
Surpreendeu-me pela positiva. Os estádios eram quase todos novos, as infraestruturas muito boas, sempre com 10 mil espetadores para cima. Vê-se que as famílias gostam de ir ao estádio, são mais fervorosos do que aqui em Portugal, tirando os grandes, como é óbvio. As equipas têm muita qualidade. Acho que é uma liga boa para os jovens que estão a aparecer e que depois querem ir para outros lados. Foi uma agradável surpresa.

A nível cultural, houve algo que lhe tivesse feito mais confusão, ou chocado?
Não houve nada que me tenha chocado. São muito rigorosos com os horários, por exemplo, nunca chegam atrasados. A cidade é muito limpa, muito silenciosa, não se ouvem gritos na rua. Não se vê cães abandonados, nem sem abrigo. Do que gostei menos foi do frio e do facto de no inverno ser muito escuro; às três e meia da tarde já é de noite, as coisas fecham cedo. Como ainda se viviam tempos de covid-19, passávamos muito tempo em casa, o primeiro ano foi meio solitário para os dois. Entretanto, no verão seguinte a Patrícia engravidou, estava eu a fazer a pré-época quando ela fez uma videochamada para dizer que estava grávida.

Assistiu ao parto da sua filha?
Assisti. Mas desmaiei no início [risos]. Na Dinamarca faz muito frio, mas os espaços interiores estão todos muito quentes. Não sei se foi disso, ainda antes de ver sangue, mesmo no início, disse que precisa de ir lá fora porque comecei a sentir-me esquisito, estiquei a mão para abrir a porta e só me lembro de acordar e ter as duas parteiras a tomar conta de mim e a Patrícia sozinha na maca. Mas depois consegui assistir ao nascimento da Martina e cortei o cordão umbilical. Em breve vai nascer a nossa segunda filha, que se vai chamar Caetana.

Pedro com a filha Martina, recém nascida
Pedro com a filha Martina, recém nascida
D.R.

O ambiente no balneário dinamarquês é muito diferente do português?
Acho que não, mas eles falavam muito em dinamarquês, eu não apanhava nada, só quando estava alguém estrangeiro envolvido na conversa é que falavam em inglês. São brincalhões também, mas, por exemplo, almoços de equipa era só uma vez por ano, enquanto em Portugal íamos mais vezes. Mas têm uma coisa engraçada. No final dos jogos, os jogadores jantam no estádio com as famílias, juntamo-nos todos com as famílias depois do jogo e convivemos, o que é bom.

Do que mais se recorda das três épocas e meia que esteve no Aalborg BK?
Os primeiros seis meses foram muito bons, houve interesse de equipas no mercado de janeiro.

Que equipas?
Não sei ao certo, sei que houve interesse de clubes da Rússia, por exemplo. Após aqueles seis meses, joguei até março/abril e nos últimos dois meses já não joguei.

Porquê?
O nível caiu um bocadinho, da equipa também. Veio um treinador novo. A segunda época também começou muito bem, foi um bocado parecida à primeira... Na Dinamarca foi uma montanha-russa, havia fases da época muito boas, depois caía um bocado e depois andava sempre ali um bocado cima-baixo, cima-baixo. Fomos à final da Taça, perdemos com o Copenhaga e, nesse mesmo ano, descemos de divisão. No início da época tínhamos uma equipa que se falava que podia ficar no top 5 do campeonato, mas começámos a perder os jogos e, quando a corda começou a apertar, já não fomos a tempo. É aquelas fases que parece que tudo corre mal.

Como era o ambiente no balneário nessa altura?
Nunca senti muita pressão entre jogadores, havia pressão dos adeptos, sim, mas são muito respeitadores.

O médio (à esquerda) em ação pelo Aalborg BK
O médio (à esquerda) em ação pelo Aalborg BK
D.R.

Na segunda época jogou bastante menos. Porquê?
Tive uma rutura na coxa e falhei dois ou três meses.

Ainda iniciou a temporada 2023/24 na II Divisão dinamarquesa?
Sim, até dezembro.

É um campeonato muito diferente da I Liga?
Muito. Sobretudo a nível de estruturas, de estádios, e jogadores com menos qualidade.

Ficou com vontade de vir embora?
Sim, só que não consegui vir embora logo. Não estava a jogar, já estava muito stressado de estar ali, até que rescindimos o contrato e surgiu a oportunidade do Santa Clara.

Tem histórias para contar da Dinamarca?
O Aalborg nunca tinha descido de divisão na história e nada previa que pudesse acontecer. Até ao final acreditamos que nos íamos safar. No último jogo, acabámos por descer em casa. Quando o árbitro apitou ficámos gelados, deitados no chão. As pessoas ficaram sem fazer muito barulho, mas ficaram todas no estádio, quase como se fosse um velório. Fomos para o balneário e, de repente, ouvimos um barulho enorme e vemos uma janela do balneário a partir-se. Eram os adeptos que estavam revoltados. Estivemos três ou quatro horas para conseguir sair do estádio e só saímos na condição de cada um de nós entregarmos as camisolas aos adeptos. Não sei para fazerem o quê, mas entregámos.

O Santa Clara só surgiu depois de já ter rescindido?
Sim, fiquei o mês de dezembro de férias, porque o campeonato acaba no final de novembro.

Pedro com os pais, o irmão e a filha
Pedro com os pais, o irmão e a filha
D.R.

Foi um alívio quando surgiu o convite do Santa Clara, ou torceu o nariz por também ser II Liga?
Confesso que torci um bocado o nariz por ser II Liga, até porque sabia que havia interessados da I Liga.

Quem?
Não posso dizer. Mas havia interessados, nada muito concreto, porque estavam sempre à espera que algum jogador saísse para fechar comigo. O Santa Clara, quando me quis, foi para o dia seguinte, demorei um dia a pensar, mas gostei do projeto e decidi aceitar.

Teve receio de ficar sem nada?
Não foi receio, mas não queria esperar mais, porque os campeonatos estavam a decorrer e estava a arriscar esperar e depois não se concretizarem os supostos interesses que havia.

Quais as primeiras impressões da ilha e do clube?
Confesso que não me via a viver numa ilha. Quando era mais novo e ouvia colegas a falar que tinham vivido nos Açores e na Madeira, não me via a viver aqui.

Porquê?
Não sei, olhamos à volta e é só o mar. Mas é agradável. Não me custou a adaptar. Também já estava saturado de estar na Dinamarca, longe da família, num sítio com uma língua diferente. Estar aqui foi meio que um alívio. A língua, os supermercados, os restaurantes iguais aos que estávamos habituados. E estamos a duas horas de casa e da família.

O clube que encontrou está à altura do que contava?
Eu sabia que o projeto era bom, mas que ainda estava a ser concretizado ao nível das infraestruturas. O estádio é totalmente diferente da Dinamarca, mas com o passar dos tempos estão a melhorar, já estão a construir a academia, os relvados estão quase prontos e é um clube para ter em conta nos próximos anos.

Pedro acabou por descer de divisão com o Aalborg BK
Pedro acabou por descer de divisão com o Aalborg BK
D.R.

O treinador Vasco Matos foi uma boa surpresa?
Sinceramente não vinha com expectativas em relação a ele porque não o conhecia, mas foi uma agradável surpresa porque é um treinador exigente que nos leva ao limite, não nos deixa relaxar. O estilo de jogo é como gosto, muito físico, muito pressionante e combativo. Fiquei feliz por ter um treinador que tem mais ou menos as mesmas ideias que tenho como jogador.

Que ideias são essas? Consegue explicar um bocadinho melhor?
Ele pede aos médios para ir na rutura, por exemplo. A maneira como pressionamos um médio e outro, ao início, não foi tão fácil para mim, mas quando a bola está do lado direito, por exemplo, o médio do lado direito sobe mais, para abrir espaço para o médio contrário poder rodar o jogo, coisas assim do género, que são pedidas aos médios, neste caso.

Começou logo a jogar?
Comecei no banco no primeiro jogo, o Serginho estava a jogar, mas teve uma lesão no treino e tendo em conta que eu tinha vindo porque o Adriano também se tinha aleijado no joelho, comecei logo a jogar. Acabei o ano a jogar sempre.

Foram campeões da II Liga. Quando perceberam iam subir de divisão?
Matematicamente, subimos e fizemos a festa no balneário, antes do penúltimo jogo. Mas queríamos ser campeões, por isso tínhamos de ganhar esse jogo. No último jogo em Leiria também tínhamos de ganhar porque o Nacional à partida ia ganhar o jogo deles e não estava fácil. Consegui fazer um golo, o único golo que fiz nessa época, e ajudei a equipa a ser campeã nacional.

Ficou diretamente ligado ao título.
Sim. Quando cheguei estávamos em zona de subida, com o Nacional e o Aves. Mas sim, ajudei em metade do processo, neste caso.

Pedro assinou pelo Santa Clara, em 2024
Pedro assinou pelo Santa Clara, em 2024
D.R.

Como foi a estreia na I Liga portuguesa?
Foi boa. Foi contra o Estoril Praia, no ano passado, ganhámos 4-1. Começámos a perder. Estávamos muito bem no jogo. Eles vão lá uma vez e fazem golo. Comecei a pensar que se calhar o ano ia ser complicado. Mas empatámos ainda na primeira parte e na segunda fizemos três golos. Foi uma boa experiência. Um bom jogo para estrear. Muitos dos meus colegas também nunca tinham jogado na I Liga.

No intervalo, a palestra do Vasco Matos foi diferente? Acha que ajudou para o resultado final?
Já foi há mais de um ano, não me lembro muito bem, mas tenho quase certeza que foi positiva porque estávamos a jogar muito bem, criávamos as oportunidades e tínhamos o controlo do jogo.

Que diferenças maiores encontrou entre a I Liga portuguesa e a dinamarquesa?
Principalmente nas equipas grandes, a diferença é maior. Na Dinamarca, o último pode ganhar ao primeiro, aqui é mais difícil. A diferença é um bocado maior.

Veio ganhar mais ou menos do que ganhava na Dinamarca?
Mais.

No ano em que o Santa Clara subiu, terminou em 5.º lugar na I Liga. Estavam à espera de alcançar tão boa classificação?
Não, o objetivo era a manutenção o mais rápido possível.

Como explica esse sucesso?
Não sei, acho que o facto de estarmos juntos desde a II Liga foi fundamental. Há uma base, já sabemos as ideias do treinador, o treinador já tem o grupo mais ou menos delineado para o que quer, já sabemos o que ele pede. Não haver muitas mudanças, às vezes, é a melhor contratação. Acho que isso foi o mais importante, manter o grupo.

Qual é o objetivo deste ano?
É a manutenção. Sabemos que este ano vai ser mais complicado.

Porquê?
Porque as equipas já nos conhecem. Não começámos tão bem e julgo que as equipas estão mais fortes também. Tanto os grandes como as equipas médias.

Notou alguma mudança nos métodos do Vasco Matos?
Não. As ideias estão sempre lá, depois varia a maneira como fazemos a pressão ou como saímos a jogar, mas sempre ligado ao nosso jogo, ao que estamos habituados.

Que ambições e objetivos ainda tem?
Renovei agora. Nunca se sabe se vou ficar aqui até aos 30 anos ou se vou renovar novamente e ficar até mais tempo. Não sei.

Gostava de voltar a sair para o estrangeiro?
Acho que gostava.

Para alguma liga em específico?
Gostava de jogar nos Estados Unidos da América. A minha namorada não adora a ideia, mas acho que é uma liga interessante. Nunca conheci o país e quando vejo a liga, aquilo é meio que um espetáculo, mais do que apenas futebol. Gostava de ter uma experiência de vida lá. Acho que ia ser interessante.

Pedro com o troféu de campeão da II Liga, pelo Santa Clara
Pedro com o troféu de campeão da II Liga, pelo Santa Clara
D.R.

Gostava de ainda jogar em Portugal noutros clubes?
Não vejo acontecer, honestamente. Só se saísse e depois voltasse. Mas agora, diretamente, não o vejo a acontecer. Mas gostava de terminar a carreira no U. Leiria, porque é o clube da minha cidade. Não é onde comecei, mas passei lá quando era miúdo e a minha namorada é de Leiria.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Não. É até sentir que o corpo e a cabeça já não querem mais. Vai ser gerir de ano para ano, os feelings que vou tendo, o que o corpo pede, ou não.

Já sabe o que quer fazer no dia em que tiver de pendurar mesmo as chuteiras?
Não penso muito nisso ainda. Gosto de imobiliário, compra e revenda de casas, tenho investido nisso, por isso, alguma coisa ligada a esse ramo. Não me vejo, sinceramente, a continuar ligado ao futebol. Acho que não tenho perfil para isso. Mas nunca se sabe. Ainda me faltam alguns anos e pode ser que a minha opinião mude.

Há algum jogador com quem gostava de ter jogado na mesma equipa?
Mais do que jogar na mesma equipa, gostava de ter jogado contra o Cristiano Ronaldo, o Messi, o Neymar. Se calhar seria mais fácil de concretizar, jogar contra do que jogar com.

Pedro Ferreira com a mulher, grávida da segunda filha
Pedro Ferreira com a mulher, grávida da segunda filha
D.R.

Alguma vez teve esperança de ser chamado à seleção A?
Tive, como tive a esperança de chegar à equipa principal do Sporting. Não digo esperança, tinha o sonho.

Como está esse sonho hoje?
Já não vai acontecer. Há sonho, mas não há tanta esperança.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira?
No Santa Clara.

Só investiu em imobiliário?
Sim.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
A minha mãe sempre me ensinou a ser muito poupado. Se calhar umas sapatilhas, que me custaram €300.

Tem algum hobby?
Gosto de jogar Playstation com os meus amigos, mas não tenho tempo agora.

Acompanha e/ou pratica outras modalidades?
Acompanho futebol, mas não vejo muito. Vejo os resultados de quem ganha na Fórmula 1 ao fim de semana, mas não gosto de ver as corridas. Acho um bocado secantes.

É um homem de fé?
Não.

Superstições tem ou teve?
De vez em quando, mas não é bem superstições. Por exemplo, se um jogo corre bem e se eu fiz alguma coisa na semana anterior, se calhar vou repetir.

Que tipo de coisas repete?
O ano passado houve uma altura, no início da época, em que me magoei na mão e tive de andar a jogar com o pulso ligado e a mão ligados. E depois andei com o pulso e a mão ligados, mesmo quando já não era preciso.

Tatuagens, tem?
Tenho uma. Fiz quando tinha 19 anos. É um olho, perto da axila, com uma espécie de foto minha a jogar futebol.

Qual é a maior frustração que tem na carreira?
Acho que as coisas poderiam ter sido diferentes no Sporting, tendo em conta as oportunidades que dão agora. Porque um miúdo que joga dois anos acima, durante tanto tempo na formação... Hoje seria diferente.

E arrependimentos?
Não tenho nenhum.

O momento mais feliz na carreira?
Se calhar o meu golo contra o U. Leiria que nos deu o título. Contra o Sporting também foi bom, mas não era tão importante.

Qual o objetivo que ainda está por cumprir?
Não sou de definir objetivos. Simplesmente as coisas acontecem, ou não.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Real Madrid.

Quais são as principais amizades que fez no futebol?
Daniel Bragança e Diogo Sousa.

Tem ou teve alguma alcunha?
Na formação do Sporting chamavam-me "Bicho", por ser forte e grande.

Quais são as suas mais-valias enquanto médio?
Recuperador de bolas, a intensidade.

Onde sente que ainda pode melhorar o seu jogo?
Se calhar a nível do passe, de receber a bola mais orientado para o jogo, melhorar os apoios, receber mais orientado, porque às vezes recebo de costas para o adversário.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
O Di María, no ano passado, deu muitas dores de cabeça.

Tem algum talento escondido?
Sei fazer arroz muito melhor que a minha namorada [risos],

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Alguma coisa ligada com o desporto, seguramente. Talvez professor de Educação Física.

Há alguma frase, algum conselho que o tenha marcado?
Não há uma frase, mas conselhos de manter os pés assentes no chão e não acharmos que somos mais do que realmente somos. Lembro-me de falar muitas vezes com o Sr. Aurélio Pereira e com treinadores.

Alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
A regra dos fora de jogo do VAR, alguém já falou dela, de ser só fora de jogo se o corpo estiver totalmente à frente do adversário. Agora, marcar fora de jogo por uns centímetros, dói.

 

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