Lebohang Publicado 29 Setembro 2025 Luís Mata Spoiler “Um jogador mesmo à FC Porto era o Sérgio Oliveira. Começava o treino e os miúdos tinham que andar, senão levavas uma dura dele” Luís Mata, de 28 anos, que esteve recentemente em Alvalade num jogo da Liga dos Campeões pelo Kairat, do Cazaquistão, revela nesta parte I do Casa às Costas como foi fazer toda a formação no clube do coração, o FC Porto. Conta como passou de extremo a lateral, fala dos empréstimos ao Portimonense, onde foi campeão da II Liga sob o comando do mítico Vítor Oliveira, e revive o momento em que Sérgio Conceição o levou a Liverpool, embora não tenha cumprido o sonho de estrear pela equipa principal dos Dragões Nasceu do Porto. Comece por nos apresentar a família. Nasci no Porto, mas vivi sempre com os meus pais em Vila Nova de Gaia. A minha mãe é professora de português na escola de Vila d’Eeste, e o meu pai continua ligado ao imobiliário, à venda de casas e terrenos. Tenho um irmão três anos mais velho, o Pedro Mata, que é dentista e por hobby faz espetáculos de stand-up comedy. Era bem-comportado em criança? O meu irmão era a calmaria, eu já era muito ativo. Gostava de desporto, de futebol, era sempre eu que brincava mais com os meus primos e os filhos dos casais amigos dos meus pais. Eu era aquele que não parava. Mas, por outro lado, como a minha mãe é professora, na escola era muito calmo, porque ela sempre me incutiu que me tinha de portar bem na escola. Sempre disse que queria ser futebolista? Sempre. Entrei cedo no futebol, com seis anos, e até queria ter entrado mais cedo, mas não podia. Tinha alguém na família ligado ao futebol? Ninguém. O meu pai não foi profissional, mas chegou a jogar andebol. A minha mãe tem 10 irmãos, mas nenhum fez desporto profissional, portanto, sou o primeiro da família a ser profissional de um desporto. Em casa torciam pelo Futebol Clube do Porto? Sim. Luis Mata em bebé, ao colo da mãe, com o pai e o irmão D.R. Quem eram os seus ídolos? As minhas primeiras memórias são do FC Porto a ganhar a Liga dos Campeões, em 2004, por isso eu adorava o Deco e aquela equipa. Mas não tenho nenhum ídolo, que me lembre. Cresci a ver o Cristiano Ronaldo a brilhar, ele é a maior referência. Disse que começou a jogar futebol aos seis anos. Onde? Comecei no Clube de Futebol Oliveira do Douro. Queria mais cedo, lembro-me de ver o meu irmão a treinar e dizer à minha mãe: "eu quero ir, eu quero ir" [risos]. Mas eles não permitiam antes dos seis anos. Foi para o FC Porto com nove anos. Alguém o descobriu ou foi às captações? Eu já tinha um talento maior que os outros, tinha um bocadinho mais de qualidade. O presidente do Oliveira do Douro era o antigo capitão do FC Porto, João Pinto, que foi campeão europeu. Ele levou-me, e a mais dois colegas, ao FC Porto, o campo na Constituição ainda era em terra. E pronto, fiquei. O meu pai teve sempre muita disponibilidade para me levar aos treinos. Por volta dos 15/16 anos, com o que sonhava e como se projetava no futuro? A minha mãe sempre me obrigou a ter boas notas, a ter um segundo plano, mas a verdade é que sempre sonhei ser jogador. Como comecei nas seleções nacionais aos 14 anos, nesse período começas mesmo a achar que aquilo é possível, porque estás nos melhores do teu país. O meu sonho era chegar à equipa principal do FC Porto e jogar na seleção A. Luís começou a jogar com seis anos no Clube de Futebol de Oliveira do Douro D.R. Começou logo como lateral esquerdo? Sempre fui extremo, tanto esquerdo como direito. Jogava com o número 11. Só fui para defesa esquerdo ou lateral esquerdo, onde estou agora, no último ano de júnior, mesmo antes de me tornar profissional. Como isso aconteceu? Quem o mudou de posição? Faltavam seis ou sete meses para acabar a temporada, mais ou menos em dezembro, fui fazer uns treinos à equipa B, onde estava o mister Luís Castro como treinador. Ele teve uma conversa comigo, eu já não estava a render tanto nos treinos. Disse-me que com as minhas características eu podia dar um muito bom lateral e podia fazer melhor carreira nessa posição. A partir dessa conversa fui para a equipa de juniores e o mister António Folha começou a usar-me como lateral. Foi aí que as coisas começaram outra vez a correr bem. Tive uma formação muito boa até aos juniores, sempre a ir às seleções, mas a partir dos sub-18 e sub-19, o rendimento como extremo já não estava a ser tão bom e essa mudança de posição foi muito boa para a minha carreira. O rendimento como extremo já não estava a ser tão bom porquê? Como extremo fazia muitos golos, muitas assistências e era imprevisível. Mas senti que naquela posição do ter que fintar e do um para um já não estava a fazer tanta diferença como fazia nos escalões inferiores. Eles também viram que o rendimento não estava a ser tão bom, porque perdi um pouco da imprevisibilidade que tinha no um para um. A posição de lateral era boa para mim porque fisicamente tinha muita capacidade e também tinha as noções de extremo, mesmo para defender já sabes muito bem o que os extremos vão fazer. Foi uma questão de ganhar rotinas. A verdade é que muitos laterais começaram como extremos. Aos nove anos o ainda extremo foi para a formação do FC Porto D.R. Lembra-se da primeira saída à noite? Lembro que cheguei a sair à noite, mas pouquíssimo. Até aos meus vinte e poucos anos devo ter saído umas cinco, seis vezes à noite. Comecei a namorar aos 14 anos e tive um relacionamento de nove anos e a verdade é que isso, com a educação que os meus pais me deram, de acordo com o futebol, nunca fui de sair muito. Quando começou a ganhar dinheiro com o futebol? O meu primeiro contrato de formação acho que foi de €50 euros, estava nos sub-15. Só três de nós assinámos esse contrato de formação, eu o Paulo Alves e o Rúben Neves. O primeiro contrato profissional já estava nos sub-17 e ganhava €1100 ou €1200 euros. O que fez com o primeiro ordenado profissional? Nada de especial, comecei a não pedir dinheiro à minha mãe para os almoços. Gostava de PlayStation e comecei a comprar as minhas coisas, um telemóvel melhor, esse tipo de coisas. Viveu em casa dos pais até quando? Só saí pela primeira vez de casa, no primeiro ano de sénior, quando fui viver para Portimão e tive a passagem no Portimonense. Tinha 19 anos. Fui bicampeão nacional de juniores com o mister António Folha e na altura cheguei a fazer alguns treinos pela equipa B, com o mister Luís Castro. Curiosamente é só nesse ano de estreia como sénior que faço meio ano até janeiro na equipa B e depois o outro meio ano com o mister Vítor Oliveira, no Portimonense, em que fomos campeões da II Liga. O lateral num jogo internacional das camadas jovens do FC Porto D.R. Antes de irmos ao Portimonense, quais foram os momentos mais marcantes da formação no FC Porto? Ser campeão nacional de sub-15, não com a minha geração, mas com a dos mais velhos um ano. Recordo-me bem disso porque antes jogava os distritais e estava habituado a ganhar, éramos sempre melhores que os outros, mas quando comecei a disputar o campeonato nacional, com o Benfica e com o Sporting, é que comecei a ter as memórias mais fortes porque fui campeão do meu país, não só do distrito. E nos juniores, fui duas vezes campeão nacional. Quem foram os treinadores que mais o marcaram na formação? No FC Porto, o treinador que mais me marcou logo no início foi o mister Carlos Alberto, que apanhei ainda na altura do pelado, na Constituição. Ele acreditava muito em mim. Era uma pessoa mais velha e passava muitos bons ensinamentos, tanto de futebol como de vida. Depois, um treinador que me marcou muito, para além do mister António Folha, com quem trabalhei mais anos, nos sub-15, sub-14, sub-19 e na equipa B, é o mister Pepijn Linjders, que hoje é adjunto do Pep Guardiola no City, e que eu apanhei quando tinha 11, 12 anos. Foi muito importante. Porquê? Porque foi contratado para dar treinos só técnicos, ou seja, tínhamos treinos com ele só sobre como fazer fintas, o desenvolvimento do remate, e assim. Para o desenvolvimento da parte técnica de um miúdo é muito importante. Luís começou a representar Portugal aos 14 anos D.R. Quais são as maiores amizades que fez na formação? Falo com todos, mas o melhor amigo que ficou do FC Porto é o João Cardoso. Ele foi o nosso melhor marcador, era médio e capitão nos sub-19, mas infelizmente a carreira dele, por uma lesão ou outra, não foi o que se esperava. Agora está a recuperar de uma lesão e a jogar a Liga 3. Na altura havia jogadores que percebeu serem diferenciados e que iam ter grande sucesso? Sim, o Rúben Neves. É a maior referência. Quando cheguei com nove anos ele já estava lá e já era muito bom. A verdade é que antes dos treinos ele já estava no campo a fazer remates, sozinho. E já tinha qualidade. Era muito focado. Foi o meu capitão durante muitos anos. Nos sub-17 ele subiu diretamente para a equipa A e fez logo o golo na 1.ª jornada. Foi uma surpresa ele passar dos sub-17 logo para a equipa A. Mas não foi uma surpresa o caminho que fez e o sucesso que tem. O que é para si a mística do FC Porto? É algo único mesmo. Sou portista desde sempre, foi algo que cresceu comigo. É difícil de explicar. Como jogador, acima de tudo é teres de jogar com muita raça, muita determinação, sem medo e com muita paixão pelo clube. Quem vai ao estádio, quem usa a camisola do FC Porto, sabe o que o portista sente. É algo único. Por exemplo, sou pai agora e é difícil explicar o que é a sensação de ser pai, mas é algo único. Lembro-me de ir ver os jogos do FC Porto com o meu pai ao estádio, depois jogar no FC Porto, a estreia na equipa B... É difícil explicar. Tu tens que ter a raça do Dragão e as pessoas do Porto têm essa força, são pessoas que não desistem. Mesmo na formação, temos de mostrar o que é ser FC Porto. É ir à luta, é raça, é essa vontade de ganhar, sempre. Num jogo pela seleção nacional de Sub 15 D.R. Alguma vez foi chamado para treinar com a equipa principal, antes de ir para o Algarve? Sim. Os mister Nuno Espírito Santo foi o primeiro a chamar-me, quando eu já estava na equipa B. Lembro-me que estava bastante nervoso, mas quando o treino começa tudo passa. Cheguei a estar num jogo no banco da equipa principal, contra o Liverpool, mas isso foi mais tarde, já com o mister Sérgio Conceição. Nesse primeiro treino houve algum jogador que tenha sido mais simpático, ou pelo contrário, mais carrancudo e mais seco? O Rúben Neves já lá estava, por isso ajudou nesse impacto. Lembro-me mais tarde de um jogador que era mesmo jogador à FC Porto, era muito simpático, mas, ao mesmo tempo, muito exigente: o Sérgio Oliveira. Ele fora de campo era tranquilo, mas quando começava o treino, os miúdos tinham que andar se não levavas uma dura dele [risos]. Do que se recorda do Nuno Espírito Santo enquanto treinador? Recebia muito, muito bem, deixava-te muito à vontade, o que é importante. Quando vens da equipa B, se tens um treinador que é mais duro vai ser mais complicado; ele não, era exigente, mas era uma exigência de uma forma que dava confiança. O Sérgio Conceição também é assim. É muito exigente, mas com os jogadores que vêm da equipa B ele falava, deixava-te à vontade. Durante o treino é aquilo que ele é no campo, ou seja, exigência máxima, mas depois falavam na boa, ou seja, não havia aquele espaço de muita distância entre o jogador e o treinador. Recorda-se da estreia na II Liga? Sim, foi com mister Luís Castro, em 2016/17, na 1.ª jornada, em casa do Desportivo das Aves. Não me recordo do resultado final, mas lembro-me bem da data porque o meu pai fazia anos nesse dia, 14 de Agosto. Joguei a titular os 90 minutos, era a minha estreia como profissional, eu era o número 55 e o meu pai fazia 55 anos e dei-lhe a camisola nessa dia. O lateral com o troféu de campeão nacional de juniores D.R. Em janeiro acabou então por ir para o Portimonense. Porquê? Estava a jogar na equipa B, as coisas estavam a correr bem, mas surgiu essa oportunidade porque o mister Vítor Oliveira precisava de um defesa esquerdo e eles estavam em 1.º lugar na II Liga. O meu agente era o Deco, ele disse-me que ia ser bom para mim, porque podia subir e se calhar ficar lá para a I Liga. Ia ser bom para mim ser campeão nacional da II Liga, e ia jogar, porque na altura saiu o defesa esquerdo Lumor Agbenyenu, que foi para a Alemanha. Foi viver sozinho para o Algarve? Fui com a minha namorada da altura. Foi a primeira experiência a viver sozinho, a ter que ter mais responsabilidades. Já tinha carro, felizmente, que facilitava muito para a deslocação, mas lembro-me que adaptei-me bem. Já estava habituado a estar longe dos meus pais, porque às vezes ficava um mês com as seleções, quando eram os europeus. Lembro-me que nesse ano tinha entrado na universidade, em Gestão Desportiva, mas congelei a matrícula por causa do profissional. Os primeiros seis meses foram de adaptação ao futebol profissional na equipa B e quando fui para o Portimonense, em janeiro, tive outras coisas, o viver sozinho, ter outras responsabilidades. Luís a cumprimentar o guarda-redes e colega de equipa Diogo Costa D.R. Quando foi chamado para representar Portugal pela primeira vez? A primeira experiência foi na seleção do Porto, no ano antes dos sub-15. Fiz o torneio das seleções distritais e, basicamente, era a minha equipa mais quatro ou cinco jogadores de outros clubes. No ano seguinte, começo na seleção de sub-15. Lembro-me que no primeiro estágio éramos 40 e tal jogadores, no segundo já somos 20 e tal, e quando vamos aos primeiros jogos, estava nos selecionados. Desde aí, fiz 50 ou 52 jogos pelas seleções. A minha estreia na seleção foi pelos sub-16, nessa altura andava um escalão acima, com o mister Filipe Ramos. Falei com ele agora antes do jogo com o Sporting porque fiz questão de dar-lhe a minha camisola do Kairat. Fiquei com uma ligação forte com ele. Foi um treinador que me marcou muito, trabalhava muito bem com os jovens, acreditava muito em mim. Dos sub-15 aos sub-18, não falhei uma convocatória. Depois há aquela fase em que baixei de produtividade e mudei de posição. Nos sub-21 cheguei a estrear-me já como lateral esquerdo com o mister Rui Jorge, mas só fui a dois jogos. Acalentava a esperança de jogar na seleção A? Sem dúvida. E hoje também. Estou a jogar a Liga dos Campeões, sei que é muito difícil, mas a verdade é que o futebol muda rápido, e se fizeres bons jogos na Liga dos Campeões e em janeiro conseguires ir para um grande europeu, estás dentro. Embora a nossa seleção seja das mais difíceis de entrar, porque temos uma das melhores seleções do mundo. Se fosse aqui a do Cazaquistão era eu e mais 10 [risos]. Quem se tornou a sua referência como lateral esquerdo? O Marcelo, sem dúvida, do Real Madrid. A forma como ele jogava, a qualidade de passe, de cruzamento... Mas há um jogador que sempre gostei muito quando era mais novo: o Gareth Bale. Sempre gostei muito do estilo de jogo dele, no Tottenham, por ser muito rápido, meter a bola para um lado e buscar pelo outro, via muitas parecenças comigo, cheguei a publicar coisas quando era miúdo com 12/13 anos no Facebook dele. E claro, o Cristiano Ronaldo é a referência máxima. O jovem lateral fez toda a formação no FCP D.R. Chega ao Portimonense, vindo da equipa B do FC Porto. O balneário era de certeza bem diferente, com homens feitos, pais de família e um treinador também mais antigo, mítico. Foi um choque grande ou adaptou-se bem? A adaptação foi boa porque cheguei para jogar. Quando estás a jogar, a adaptação ao clube é muito mais fácil do que quando chegas e tens de esperar no banco, não és logo convocado. Agora, é verdade que estava habituado a ter companheiros da minha idade, de certa forma ainda somos muitos miúdos, e ali levei com jogadores como o Pires, que já tinha 35/36 anos, o Ricardo Pessoa, que hoje é treinador e também tinha 30 e tal. O mister Vítor Oliveira, com muita experiência, com muitas subidas no currículo. Tu és miúdo e já entras no balneário com mais cuidado, enquanto nos outros és tu que falas, ali tens muito respeito, estás no teu cantinho, vais ganhando confiança semana a semana e foi muito assim. Fizeram-lhe alguma praxe, alguma partida? Não, não fizeram aquelas praxes de cantar, nem nada. Na equipa B do FC Porto a praxe desse ano foi rapar o cabelo na pré-temporada; também fiz isso nos anos a seguir aos miúdos [risos]. Lembro-me que levei uma carecada logo no estágio em Espanha que fizemos perto de Valência, mas no Portimonense, não. O que pode dizer sobre o Vítor Oliveira? Era uma enciclopédia do futebol. Muito exigente, mas quando terminava o treino e ficávamos a alongar ele passava pelos jogadores um por um e perguntava pela família, o cão, o gato, perguntava tudo. Tinha esse lado humano. Não é só pelo conhecimento do futebol que ele é o rei das subidas. Ele era como o Nuno Espírito Santo e o Sérgio Conceição, que são treinadores que falam contigo e metem-te de uma forma confortável dentro do grupo. Dois ou três dias antes do jogo, o mister Vítor Oliveira sabia o que o adversário ia fazer, dizia-nos: "O guarda-redes é este, faz isto, lateral é este, faz aquilo...". Falava de cada jogador que ia jogar, que ele conhecia bem. Tinha muito conhecimento. Luís (à esquerda) durante um jogo pela seleção de Sub 17 Getty Images Tem alguma história para contar com ele? Tive uma situação num dos jogos, que não me correu tão bem. Fomos jogar ao Braga B e perdemos. Não estive tão bem nesse jogo, no dia seguinte tivemos treino e ele foi muito sério comigo no balneário. A verdade é que depois quis vir falar comigo à parte, e nessa conversa disse: "Isto é para o teu bem, tu tens muito potencial, mas tens de melhorar, não podias ter feito isto e aquilo." Recordo-me que na altura caíram-me lágrimas, acho que foi a única vez que chorei à frente de um treinador na minha carreira. Eu era miúdo, e ele foi super compreensivo, pôs-me a jogar na mesma e as coisas correram bem, mas esse jogo e esse lado do Vítor Oliveira humano também marcou-me muito. Ele era um treinador de outra geração, mais antigo, notava-se isso nos treinos e na forma de jogar? Sim, notava-se. Porque no FC Porto há sempre aquela questão de o importante é formar para a equipa A e podemos arriscar mais. O importante é sempre a posse de bola, no Portimonense já não, tens a tua tática, mas há passes que se calhar no FC Porto podia fazer e que ali já não podia arriscar tanto, porque o importante é o resultado. Senti a diferença nisso e nos treinos também. Se calhar os treinos do FC Porto eram exercícios mais para o desenvolvimento técnico, e ali era mais a parte tática, eram mais peladas, muito focado na tática, na pressão, na forma como queríamos sair a jogar. No FC havia muito mais liberdade para a criatividade, para os jogadores se desenvolverem ainda mais na equipa B. A meio da época 2016/17, o lateral foi emprestado ao Portimonense D.R. Como foi a sensação de ser campeão da II Liga? Foi incrível, lembro-me perfeitamente que fomos recebidos pelo presidente da Câmara Municipal e estavam lá os adeptos todos, foi uma grande festa. Depois fomos todos festejar para um hotel ligado ao clube. Foi muito bom ter ido, em vez de ter ficado na equipa B. Deu-me bagagem. Levou-o a pensar que ao regressar ao FC Porto podia ir para a equipa principal? Fez-me pensar que ia ficar no Portimonense, na I Liga, porque na minha última conversa com o mister Vítor Oliveira ele queria que eu ficasse. A verdade é que na altura não se concretizou. Porquê? É curioso. O defesa esquerdo, o brasileiro Inácio, que hoje já nem joga futebol se não me engano, estava na equipa B do FC Porto e só começou a jogar quando eu saí para o Portimonense, mas acabou por ser ele a ir para o Portimonense, no ano a seguir, porque o empresário dele, o Theo, era o investidor do Portimonense. Coisas do futebol. Ficou muito desiludido? Não é desiludido, mas na minha última conversa antes de viajar para o FC Porto o treinador disse-me que contava comigo. Mas, por outro lado, voltei ao FC Porto e pronto, continuei a minha carreira. Voltou a viver em casa dos pais? Fiquei um ou dois meses em cada dos pais, mas depois comprei a minha casa e comecei a viver com a minha namorada da altura. Luis com João Cardoso e a Taça da Premier League Internacional que conquistou com a equipa B do FCP D.R. Sabia que voltava para a equipa B ou tinha esperança de ir para a equipa principal? A ideia aí era mesmo a equipa B, embora nesse ano tenha feito bastantes treinos com a equipa principal e é nessa época que sou convocado em março ou abril para a Champions, para o tal jogo com o Liverpool. Estava o Alex Telles na equipa A, que tinha o lugar de cadeira dele e eu sabia disso. A não ser que acontecesse alguma coisa com o Alex, era difícil ter oportunidades na equipa A. Em novembro, antes das minhas lesões desse ano começarem, que foi isso que me prejudicou nesse ano, tive quase a estrear-me na Taça de Portugal. Mas num treino com a equipa A, contra os juniores, faço a minha primeira lesão, rasguei-me e perdi essa primeira oportunidade. Rasgou o quê e como? Foi no posterior da coxa. Tive um ano terrível, mas que foi uma aprendizagem para a vida. Percebes que não basta só treinares no campo, tens de fazer trabalho de reforço. Esse ano prejudiquei-me muito por não ter aquele cuidado extra de exercícios que hoje em dia tenho. Rasguei três vezes, atrás, nos posteriores, nesse ano e em timings importantes. Alguém do FC Porto teve uma conversa consigo sobre essas lesões? Quando tive a terceira lesão, o mister António Folha perguntou-me o que andava a fazer fora do futebol. Eu não fazia nada que me prejudicasse a vida, mas tinha que fazer esse trabalho extra para não ter esse tipo de lesões, e na altura não tinha essa consciência. Tive a terceira lesão depois de ter ido com a equipa A, a Liverpool, onde infelizmente não me estreei na Champions, mas depois dessa lesão percebi que cortou ali para mim. No final dessa temporada, depois desses percalços, senti que precisava de um desafio diferente. Entretanto, o mister Folha foi embora e veio o mister Rui Barros. Luís (2º à direita) esteve no banco da equipa A do FC Porto, no jogo com o Liverpool para a Liga do Campeões, em 2017/18 D.R. O Rui Barros é muito diferente do António Folha como treinador? Sim, o mister Rui Barros é muito calmo, muito tranquilo, é muito diferente; o mister António Folha é mais de emoções. Senti que ia perder um pouco de espaço, por isso quando comecei o terceiro ano de sénior, tomei a decisão de sair. O seu empresário ainda era o Deco? Sim, depois é que deixei de trabalhar com ele. No final de agosto decidi ir para Cartagena. O mister queria que eu ficasse, mas como não joguei nas três primeiras jornadas, senti mesmo que precisava de algo diferente. E foi essa a oportunidade que me apareceu, o Cartagena. Estava lá o João Costa, o guarda-redes, ele tinha-me falado que precisavam de um defesa esquerdo, o empresário dele falou comigo, e pronto. Também queria sair de Portugal, e foi para o Cartagena que tive a oportunidade de ir. Foi sozinho? Fui com a namorada também. Sempre que fiz essas deslocações nunca fui sozinho, mesmo depois para a Polónia também fui com a namorada. Como foi o primeiro impacto em Espanha? Como foi recebido no balneário? Pensava que pelo facto de ir da equipa B do FC Porto, ia ser muito mais fácil de jogar e a verdade é que não. Para conquistar os espanhóis é bem complicado. Ninguém me conhecia, cheguei, e primeiro que tivesse a minha oportunidade tive de esperar bastante tempo. Gostava da vida que levava na Espanha, no balneário eram simpáticos, mas para jogar foi muito complicado. Ninguém te conhece ali, eles não querem saber se vens do FC Porto. Na altura o meu treinador era um ex-jogador do Deportivo da Corunha, o Gustavo Munúa. Eu treinava bem, vinha de formação do FC Porto sempre a jogar, e foi a primeira vez que precisei de quase meia época para começar a jogar. Mas quando comecei a jogar, depois joguei sempre. Era uma equipa que estava a lutar para subir à La Liga 2. Na época 2018/19 o lateral foi emprestado ao Cartagena, da Espanha D.R. Estar tanto tempo sem jogar deitou-o abaixo psicologicamente? Fui um pouco abaixo, mas sem desistir nos treinos. Os espanhóis têm a personalidade deles, também não é bom encarares o treinador e perguntares muita coisa, portanto foi difícil, mas em janeiro, quando tive as primeiras oportunidades, agarrei-as. O futebol às vezes é assim. O estilo de jogo na Espanha era muito diferente do que estava habituado? Era muito mais tático. Apesar daquilo ser a segunda B deles, tem o mesmo nível de dificuldade da II Liga portuguesa. Só que enquanto na nossa II Liga o futebol é mais direto, os espanhóis gostam muito de ter posse de bola, é um futebol muito agradável, de que gosto muito. Os campos são muito bons, mesmo na III Liga, é uma liga muito profissional. Tem histórias para contar desse período no Cartagena? No primeiro treino, todos os jogadores foram chutar penáltis. Cada jogador tinha que chutar dois penáltis. E quando eu ia marcar o primeiro penálti, chutei com o pé esquerdo. Tudo bem. O segundo penálti chutei com o pé direito e marquei golo. O treinador-adjunto virou-se para mim e perguntou: “Luis, es zurdo?”. Em espanhol, significa “és esquerdino?”. Mas como eu ainda não conhecia bem o espanhol, respondi: “Não, ouço bem.” Vi que ele ficou a olhar para mim com ar meio estranho. Fui ter com os meus amigos e comentei: “O gajo está a perguntar-me se sou surdo, será que não gostou de eu ter chutado os penaltis com os dois pés?”, e eles: “Não, zurdo aqui é esquerdino, ele perguntou se chutas com o pé esquerdo” [risos]. Luís (à direita), em jogo pelo Cartagena D.R. Quais eram as suas expectativas após essa experiência? Tinha a intenção, como no Portimonense, de ficar na La Liga 2 se subíssemos e estivemos muito perto. A partir do momento que vamos aos play-offs foi muito difícil. Passámos com o Real Madrid B e depois perdemos com outra equipa no acesso à La Liga 2. E já não queria ficar naquele nível. Havia um acordo com o clube para ficar, mas como não subi voltava ao FC Porto, não tinha sentido ficar lá. Falei com o meu empresário antes de falar com o FC Porto, porque queria sair, achava que não fazia sentido ficar o quarto ano de sénior na equipa B. Quem o convenceu a ficar? O mister Rui Barros continuava lá, chamaram-me para renovar mais um ano, estava no último ano de contrato. Ele disse-me: "Este ano, com toda a bagagem que tens, vais ser o capitão de equipa." Pensei que não era aquilo que queria, já estava um bocado desgastado da equipa B, queria ter outras experiências, mas falei com o meu empresário, que já era o Hélio Martins, e achámos que seria bom para mim. Acabei por renovar mais um ano no FC Porto, melhorei o meu contrato financeiramente, o que me ajudou a ficar um bocado mais tranquilo. Estava em casa, perto da família e amigos, ia ser capitão, sabia que ia jogar sempre... Em 2019/20, o lateral regressou ao FCP B D.R. Entretanto, veio a covid-19. Sim, joguei os jogos todos até março, altura em que o campeonato parou. Não tive lesão nenhuma, estava sempre a jogar, mas não tive oportunidade de me estrear na equipa A. Nessa altura era o capitão do Vitinha, do Fábio Vieira, de bons jogadores. O confinamento foi muito difícil? Foi. Gosto muito de sair de casa, gosto de fazer desporto e nessa altura só saía mesmo para ir ao supermercado e para dar uma corrida ou outra. Foi difícil porque ficava o dia todo em casa, a jogar Playstation, não tinha horários, fazia os meus treinos em casa, mas ficava acordado até às tantas da manhã. Não sou muito caseiro, tenho alergia a estar em casa, adoro estar fora de casa, gostava de sair do treino e ir almoçar com os meus colegas, ficar na conversa e foi um período complicado esse. Mas pronto, foram dois meses. Essa época foi interrompida pela covid-19, mas ainda tinha mais um ano de contrato com o FC Porto, certo? Sim. Em maio retomámos os treinos da equipa B e entretanto saiu a decisão que a II Liga já não retomava o campeonato e íamos então entrar num período de férias. Antes desse período de férias falei com o empresário e disse-lhe que não fazia sentido continuar no clube e ficar a quinta temporada na equipa B. Tenho uma conversa com o mister Rui Barros, ele foi muito tranquilo. O meu empresário já me tinha dito que o Pogon, da Polónia, estava interessado em mim, apresentou um projeto, falei com as pessoas do clube e gostei muito. Era aquilo que eu precisava, ir para uma I Liga, para um clube com uma boa estrutura. Sabia que não ia haver problema com o FC Porto. Fizemos uma rescisão amigável. Spoiler “Transformo a adrenalina em algo positivo. Fico mais nervoso no campeonato do Cazaquistão do que fiquei no jogo com o Sporting” Nesta parte II do Casa às Costas, Luís Mata fala sobre o seu percurso fora de Portugal, que começou na Polónia, onde jogou em duas equipas da primeira divisão, com ambições muito diferentes e conta como, de repente, casou e foi pai. Confessa estar a viver o melhor momento da carreira num clube do Cazaquistão, que está à beira de ser campeão e de receber o Real Madrid, na Liga dos Campeões. A preparar o futuro com a família, não esconde ter esperança de ainda jogar na I Liga portuguesa Como foi o primeiro impacto quando chegou ao Pogon Szczecin, da Polónia? O Tomás Podstawski estava lá, já tinha falado com ele, deu-me feedback sobre o clube, sobre a cidade, sobre tudo. Estávamos bem perto de Berlim. Cheguei ainda em época de covid-19, ainda se usava máscara e tive de ficar de quarentena 15 dias no hotel. Depois fomos para estágio, e passado uns dias alguém ficou com covid-19 e tivemos de ficar todos de quarentena. Mais 15 dias fechado no hotel, com treinos online, colocaram-nos uma bicicleta no quarto. Nessa altura a minha namorada estava comigo. O seu inglês era bom? Era muito básico, hoje ainda não é perfeito gramaticalmente, mas já consigo não pensar ao falar em inglês, sinto-me confortável a dar uma entrevista em inglês e no dia a dia. Quando cheguei o treinador era alemão, só falava inglês, o que ajudou a desenvolver a língua. Com que opinião ficou dos polacos? Muito frios, como se diz? Sim, no início é difícil arrancar um sorriso de um polaco, mas com o tempo eles soltam-se e também são muito simpáticos e acolhedores. Mas no primeiro impacto percebes que não são como nós, que gostamos de receber bem as pessoas. Eles não se importam muito com isso. Têm a personalidade deles. Estão mais no canto deles. A partir do segundo mês já havia brincadeiras e o normal do futebol. Depois chegou o Luka Zahovic, que fala bem português, e dávamo-nos bem os três: eu, o Tomás e o Luka. Na época 2020/21, Luís Mata assinou pelo Pogon Szcecin, da Polónia D.R. Como foi estrear numa I Liga? Foi um ano diferente porque não havia adeptos no estádio. A Polónia tem condições incríveis, grandes estádios, foi uma surpresa muito grande, têm boas infraestruturas, mas os estádios estavam vazios. Mas ao nível de adeptos, tirando os três grandes de Portugal, eles dão mil a zero, enchem os estádios, como pude comprovar nos anos seguintes em que lá estive. O espetáculo em si é muito bom, mas nesse primeiro ano, não. Torna-se mais difícil para um jogador jogar sem adeptos? É muito diferente a adrenalina do jogo. Tens que te concentrar, mas, ao mesmo tempo, parece que estás num treino, é esquisito. Hoje se vais para um estádio e não tem adeptos é muito esquisito, mas nessa altura acabámos por nos habituar àquele silêncio e quando os adeptos voltaram aos estádios, até estranhamos os gritos, os cânticos [risos]. Nesse primeiro ano, só na última jornada é que abriram pela primeira vez o estádio. Jogou a época toda? Não, sofri uma entorse em agosto que me fez perder espaço mais ou menos até setembro. Perdi as primeiras jornadas, só comecei a jogar a 100% em dezembro/janeiro. Depois joguei a titular os jogos todos. Mas no início foi duro. Teres uma lesão logo na pré-época, perdes o comboio e a equipa estava muito bem, era difícil mudar, fui entrando num jogo ou outro, joguei também para a taça, mas custou até estar a 100%. O que achou do campeonato polaco? Este ano tens quatro equipas que vão jogar a Conference League, na altura não. Eles estão a investir muito, estão a levar muitos jogadores. Se olharmos com atenção vemos que têm muitos jogadores que passaram pelo campeonato português, mais de 30 seguramente, não só portugueses, porque estão a reconhecer onde há qualidade e sabem que o nosso país tem muita. O extra dos polacos é que para além das infraestruturas que têm, o espetáculo deles é muito bom, os estádios estão cheios. Estive lá de 2020 até ao ano passado e sinto que vai continuar a crescer no ranking. Foi ganhar mais do que ganhava no FC Porto? Sim. No meu segundo contrato com o FC Porto já tinha valores acima de quase todos os jogadores da I Liga, mas pela primeira vez na Polónia ultrapassei a fasquia dos €10.000. E têm outra coisa que não é tão normal, eles pagam bastante por prémio, por ponto; cerca de €500 por cada ponto, algo que não acontece na I Liga. Do que falei com colegas portugueses, por exemplo, no V. Guimarães ganhavam um jogo fora e pagavam €100 ou €200. Na Polónia tens outra motivação. Se estás no FC Porto, Benfica ou Sporting não estás preocupado com essas coisas, mas se estás nos restantes clubes da I Liga, para além da parte desportiva, também queres construir o teu futuro e tudo é importante. O lateral com a medalha de 3º classificado a liga polaca, pelo Pogon Szczecin D.R. Na época 2021/22 jogou pela primeira vez em competições europeias, estreou-se na qualificação da Liga Conferência. Certo, mas a minha verdadeira experiência foi agora, contra o Sporting. Mas sim, as qualificações também contam. O Pogon tinha uma equipa fantástica, disputámos o título até ao fim, acabámos por ficar em 3.º lugar e jogámos as primeiras qualificações para a Conference League. Entrámos na segunda eliminatória, perdemos na Croácia por uma bola, mas já foi uma experiência top. Fiquei com o bichinho de querer jogar a fase de grupos das competições europeias. Felizmente foi uma época em que não tive nenhuma lesão, fiz os jogos todos e correu-me bastante. Completamente diferente do meu primeiro ano, mas faltou a pontinha de sorte para sermos campeões. Nos anos seguintes da minha carreira na Polónia já não tenho tão boas memórias, mas esse ano foi incrível. Na temporada seguinte ainda começou no Pogon Szczecin, mas acabou por mudar de clube e foi para o Zaglebie Lubin. Porque mudou? Estava no meu último ano de contrato, comecei a jogar a titular também, jogámos as qualificações da Conference League, conseguimos passar duas eliminatórias, acabámos por ser eliminados na Dinamarca. E a verdade é que mudou o treinador. Tinha um treinador alemão, o Kosta Runjaic, que apostava muito em mim, e quando veio o treinador sueco, comecei por jogar, mas com o tempo senti que não tinha tanta confiança em mim. Estava no último ano de contrato, tive uma pausa muito grande sem jogar. Esse é o ano do campeonato do mundo e na Polónia jogámos até novembro. Dezembro foi só treinar e a minha mulher já estava grávida. Em 2022/23, Luís mudou para o Zaglebie Lubin, também da Polónia D.R. A sua mulher é a namorada de que falou? Não. Terminei o relacionamento com a minha primeira namorada em maio ou junho de 2021 e logo a seguir conheci a minha mulher, na Alemanha, porque eu ia muitas vezes a Berlim, e uma das vezes cruzámos, eu estava lá com amigos, ela também e ficámos em contacto. Chama-se Kelly Aguiar, na altura estudava alemão, tinha lá uma tia. Mas não ia ficar na Alemanha muito tempo e acabámos por arriscar muito um no outro. Ela veio logo viver comigo e graças a Deus, passado estes quatro anos, posso dizer que foi a melhor decisão que fizemos. Com a minha ex-namorada fiz tudo muito devagar, começámos a namorar aos 14 anos, ficámos juntos nove anos, chegámos a ter casa juntos, a estar noivos e depois terminámos. Nunca tive certezas de muita coisa e acho que foi mesmo isso que também nos levou a terminar. Com a Kelly foi completamente diferente, muito mais intenso. Não esperámos tanto tempo para viver juntos, para casar e decidir ter o nosso primeiro filho, porque queríamos ser pais logo a seguir ao casamento. E vamos em breve ter o segundo. Ela tem uma relação incrível com os meus pais, de filha mesmo. Casámos em março de 2022, em Copenhaga, os dois sozinhos, numa folga da paragem das seleções. Como se chama o vosso primeiro filho e quando nasceu? O Benjamim nasceu em janeiro de 2023, em Portugal. Consegui assistir ao parto porque estava na mudança de clube. Como já tinha definido que ia sair, estava à espera de uma equipa. Ainda tinha contrato com o Pogon de mais meio ano, mas queria arranjar uma solução para ir embora. Quando estou para viajar de volta, ainda com dúvidas para onde vou, acabo por ter a proposta da equipa do Zaglebie Lubin, no início de fevereiro. O lateral no dia do casamento, em Copenhaga, com Kelly Aguiar D.R. Ficar na Polónia aconteceu pela força das circunstâncias ou queria mesmo permanecer naquele campeonato? Sinceramente, não, preferia ter saído, mas o empresário não me trouxe mais nenhuma proposta. Eu estava aberto a ir para diferentes países, inclusive fora da Europa, mas o que apareceu foi da Polónia e tens de pensar na tua carreira, incluindo a parte financeira. Aceitei a proposta porque melhorei o meu contrato, mas em termos desportivos não era tão bom e a verdade é que não foi a melhor solução para a minha carreira. Um clube e cidade muito diferentes dos anteriores? Lubin é uma cidade pequeníssima, que fica a uma hora de Wrocław. Mas acabou por ser bom por um lado, porque era muito mais barata, o que nos permitiu ter uma casa gigante, com jardim, o que foi ótimo para o crescimento do Benjamim. Tenho boas memórias, inclusive hoje eu e a minha mulher estamos aqui no Cazaquistão, uma cidade muito confusa, e às vezes sentimos saudade daquela calmaria que tínhamos em Lubin. Desportivamente, no Zaglebie Lubin, joguei, mas não foi tão bom, não estive tão bem, a equipa não esteve tão bem. Chegou a jogar na equipa B deles, porquê? Eles têm a política de que quando não jogas um jogo ou outro, tens de ir à equipa B e para mim é algo que me faz confusão. Mas pronto, tens de fazer o que o clube quer, tens contrato. Assinei em fevereiro, joguei três jogos e tenho a lesão mais complicada da carreira. Luís em ação pelo Zaglebie Lubin D.R. Que lesão foi essa e como a fez? Não fiz pré-temporada, cheguei e demorei três ou quatro jogos para o treinador me pôr a jogar na equipa B e fazer assim a minha pré-temporada. Depois pôs-me a jogar, e no terceiro jogo levei uma cotovelada que me deslocou o nariz. Inclusive nesse jogo, além da cotovelada, levei com uma bola no nariz, estava destinado [risos]. Tinha de fazer uma pequena cirurgia para pôr o nariz no sítio. Pude treinar antes de operar o nariz e um dia antes dessa cirurgia, num treino fiz uma lesão mais séria. Ia chutar uma bola, chutei com demasiada força e senti algo na parte da frente da coxa, achei que tinha sido o músculo, mas foi o ligamento. Foi uma lesão um bocado mais complicada que se arrastou desde abril até mais ou menos setembro, já na época seguinte. O clube tinha boas condições, mas na parte médica não senti o melhor apoio e cheguei a pedir ajuda em Portugal. Ainda não explicou bem porque não gostou de jogar no Zeglebie Lubin. Cheguei a um clube em que a ambição, sinceramente, não era a melhor. É um clube onde as pessoas estão muito estáveis, os jogadores e os treinadores têm bons salários e não sentes uma grande ambição. Andas sempre nos lugares do meio da tabela para baixo. E parece que contagia, quando a mentalidade não é a melhor. Depois tive essa lesão, voltei em setembro/outubro, tenho a minha primeira oportunidade e fiz os jogos todos até abril. Não passávamos do meio da tabela. Um treinador, o mister Fornalik, muito antigo, íamos para um ginásio dar cambalhotas num colchão e coisas que nunca vi. Ele tinha sido campeão há uns anos na Polónia e nunca mudou a mentalidade dele. Só me tirou de campo nas últimas cinco jornadas. A cunhada, o irmão, os pais e a mulher de Luís (à direita), no dia em que este informou que ia ser pai D.R. Na época seguinte, 2024/25, ainda começou no Zaglebie Lubin? Sim, começámos com esse mesmo treinador, jogámos 10 jornadas e ele é despedido. Quando veio o novo treinador mudámos a tática e não tive mais nenhuma oportunidade até o campeonato ter a paragem de inverno. O treinador que veio acabou por ser despedido também, mas eu já não estava com vontade de continuar. Falou com o empresário para procurar alternativa? Entretanto, mudei outra vez de empresário, fiquei com o Pedro Neto. Quando chegou essa altura em que estava no último ano de contrato e estava a começar a ficar preocupado, tentei arranjar solução, falei com o clube, disse-lhes que queria sair. Fiquei com esse empresário até fevereiro e ele não arranjou clube. Já estava a contar ficar sem jogar, até que terminei a ligação com ele e comecei a fazer por mim. A verdade é que encontrei o meu empresário atual, que é o Eldon Maquemba. Falei com ele e surgiu esta oportunidade de vir para o Kairat. Posso dizer que hoje estou a viver o melhor momento da minha carreira, de longe. Mas em janeiro e fevereiro a minha carreira podia ter ido por outros caminhos, podia ter ido parar à II Divisão da Polónia, à II Liga portuguesa, podia ter ido por muitos caminhos diferentes se não tivesse tido esta oportunidade. Quando o empresário falou-lhe no Kairat, do Cazaquistão, não torceu o nariz? Quando falei com ele foi tudo muito rápido. Tinha acabado de terminar com o meu outro agente, mandei mensagem para poucos e o primeiro a responder foi ele. Fiz logo uma chamada de uma hora com ele, a explicar o meu historial, ele viu a minha ficha e disse que ia ver. A meio de fevereiro eram poucos os mercados abertos. Na minha cabeça pensava que ia ficar aqueles meses todos a treinar com a equipa B, porque quando disse ao clube que queria sair, eles concordaram, mas passei a treinar com a equipa B até encontrar solução. Ia jogar na III Divisão, num sintético, com miúdos, psicologicamente estava em baixo. Vinha para casa, a minha mulher já com as malas feitas para ir para qualquer país, e lembro-me que chorámos diversas vezes os dois; o meu filho também já estava a sentir que os pais estavam tristes. Eu só queria sair, ir jogar para outro lado. janeiro e fevereiro foram os dois meses mais difíceis da minha carreira, mas de longe. Havia algum português na equipa? Sim, o Jorginho. Falei com ele antes de vir. A verdade é que me apareceu a melhor equipa do Cazaquistão, foi um achado eles precisarem de um defesa esquerdo e eu encaixar que nem uma luva no perfil que queriam. O facto do meu empresário já ter contactos aqui ajudou muito. O lateral com o filho Benjamim D.R. Como são as infraestruturas? O centro de treino é do nível do Olival, do FC Porto, por exemplo. É a única equipa do Cazaquistão que tem um centro de treinos tão bom. A cidade é muito grande, é uma cidade moderna. E para as crianças é muito boa, cheia de parques, tem as montanhas aqui à beira, lindíssimas. Foi um sonho ter vindo para esta cidade e para este clube. E o nível do campeonato? O nível do futebol, como podemos comprovar, o da nossa equipa é muito bom, por isso é que nos qualificámos para a Champions. O campeonato não é do nível do polaco, tem seis equipas com um excelente nível e as outras seis um pouco abaixo, mas não há aquele nível amador. É um campeonato curto, somos 14 equipas, com um calendário diferente de Portugal e da Polónia. Aqui começamos no início de março e terminamos em outubro, por causa do frio. O que compensa muito ter vindo para aqui foi poder jogar competições europeias. Qual é o objetivo na Champions? Tendo sido o clube campeão, sabíamos que a probabilidade de jogar uma fase de grupos da Conference League ia ser muito alta e a verdade é que eliminatória a eliminatória fomos acreditando. Se me dissessem, em janeiro, a treinar com a segunda equipa do Zaglebie Lubin, que eu ia estar hoje a jogar a fase de grupos da Liga dos Campeões, não acreditava. Mesmo confiando nas minhas capacidades. Foi passar do pior momento da minha carreira para o melhor. Joguei os jogos todos até agora. Faltam três jornadas para o final do campeonato, estamos em 1.º com mais dois pontos e podemos muito bem ser campeões, que era um objetivo para mim, porque nunca fui campeão nacional, só na II Liga, pelo Portimonense. Quais foram os momentos mais marcantes neste caminho da Champions e quando começaram a acreditar que era possível entrar na fase de grupos? A nossa primeira eliminatória foi com o Olimpija Ljubljana da Eslovénia, cujo treinador era o português Jorge Simão, que até foi despedido. Empatámos lá 1-1 e depois ganhámos 2-0 aqui no Cazaquistão; a segunda eliminatória foi com o campeão da Finlândia, a partir daí começámos a acreditar porque tínhamos eliminado duas equipas que o ano passado jogaram a fase de grupos de competições europeias. A nossa terceira eliminatória é com o Slovan Bratislava, que o ano passado jogou Liga dos Campeões, e a última com o Celtic. Eliminatória a eliminatória fomos acreditando cada vez mais. O primeiro jogo na fase de grupos foi com o Sporting. Estava à espera que o Sporting conseguisse uma vitória folgada? Primeiro, era um jogo especial para mim, por ser em Portugal, ser a minha estreia na Liga dos Campeões, tive 60 pessoas da minha família a ver o jogo no estádio. Nós já mostrámos que temos qualidade. A verdade é que foi um jogo em que estivemos com 1-0 até aos 64 minutos, tivemos duas oportunidades isoladas para fazer o 1-1, não fizemos. E depois, em cinco minutos, o Sporting faz três golos. Isso também revela um pouco a experiência que o Sporting tem. Mas deixámos uma excelente imagem. Os pais de Luís, a mulher e o filho Benjamim D.R. O facto de terem feito uma viagem de quase sete mil quilómetros para jogar contra o Sporting, em Lisboa, a maior da história da Champions League, prejudicou muito a vossa equipa? Nós temos uma conversa aqui que é: "Para jogar a Champions, se fosse preciso dar a volta ao mundo, eu dava." Nunca vai ser por aí. Agora, esta foi de facto a maior viagem de sempre na história da Champions. Estamos a cento e tal quilómetros da China, são quatro horas de diferença para Portugal, claro que tudo pesa. Quando começámos o jogo não estamos a pensar nisso, mas, na verdade, são fatores também importantes. Estava nervoso quando começou o jogo? Fico mais nervoso num jogo mais simples do que nestes jogos. Neste tipo de jogos num estádio gigante de uma competição gigante, em que estás a ser observado por todo o mundo do futebol, reajo de forma diferente. Aqui no campeonato do Cazaquistão fico mais nervoso do que no jogo com o Sporting. Consegue explicar porquê? Devido à minha mentalidade. Eu transformo a adrenalina em algo positivo. Se entro nervoso num jogo desses, a experiência pode ser fatal. Os meus melhores jogos estão a ser na Europa, porque estou a fazer da adrenalina algo positivo. Sempre foi assim ou tem vindo a ser trabalhado? Tem vindo a ser trabalhado porque só comecei a jogar em estádios a sério quando fui para a Polónia. Em Portugal, na II Liga, há jogos que nem 500 pessoas estão no estádio, a verdade é essa. É um trabalho seu, solitário, ou recorreu a algum tipo de ajuda? Em 2023, tive um problema pessoal que não quero desenvolver muito, e comecei a trabalhar com uma psicóloga do Porto e ela ajuda-me também muito nisso, na questão da mentalidade. Já sei lidar melhor com o erro. Fazia-me sempre muita confusão quando era mais jovem e falavam do jogador experiente, ficava a pensar "um jovem não consegue?". Na verdade, alguns jovens não conseguem. É muito fácil tu seres jovem e as coisas estarem a correr bem, mas quando cometes um erro grosseiro, quando tens um momento difícil, aí as coisas podem complicar-se muito. Quando estão todos a bater palmas, a dizer que tu és um grande jogador, é fácil, agora, quando tens aqueles erros que deixam o estádio todo a falar de ti, aí é que é difícil. O trabalho que fiz com a psicóloga ajudou-me muito para hoje aceitar os erros. Claro que cometendo um erro sei que não vou estar tão feliz, porque quero fazer bons jogos, mas já sei lidar melhor com isso. O lateral português tem contrato com o Kairat até dezembro de 2026 D.R. Quais são as expectativas para o jogo com o Real Madrid? O Real Madrid é a melhor equipa do mundo, se formos ver a nível individual, e a equipa com mais história na Liga dos Campeões. Mas é o Real Madrid que vai ter de fazer a viagem, porque vamos jogar em casa. Como estamos perto das montanhas, o ar aqui é muito diferente. Muitas equipas que vêm aqui jogar sentem dificuldades porque o ar é mais seco. Adaptou-se bem a essa atmosfera? Senti um pouco de dificuldades no início, mas até me adaptei bem. Há muita gente que quando chega aqui começa a sangrar um pouco do nariz. A mim não me aconteceu, mas o meu filho quando chegou ficou um bocadinho mais doente, a minha mulher também sentia-se bastante constipada. As montanhas aqui à volta não são pequenas, têm para cima de três mil metros e há outras um pouco mais distantes que já têm mais de cinco mil metros, ou seja, o ar não circula tão bem. Depois, Almaty é uma cidade muito grande, se calhar com um bocado de poluição, o que também não ajuda. Por isso, é diferente jogar aqui. Mas isso não retira o favoritismo ao Real Madrid. Claro, o Real é totalmente favorito, como o Sporting era, mas em casa, até agora, ganhámos os jogos todos das eliminatórias. Em casa jogamos melhor e sentimo-nos mais cómodos. Mas, repito, vamos jogar contra a melhor equipa do mundo. Acho que vai ser o jogo mais importante da minha vida, porque é a Liga dos Campeões, contra o Real Madrid, a equipa com mais história na competição. Sei que vamos ter o mundo de olhos em nós e sei que se criarmos impacto, se tivermos uma vitória, vai ser histórico para o país, para o clube, para a cidade e para nós, jogadores. Kenda e Luís (à direita) durante o jogo Sporting-Kairat, da Liga dos Campeões Gualter Fatia Tem contrato até quando? Até dezembro de 2026. Ganha mais do que na Polónia? Sim. Desde que comecei o meu processo profissional, felizmente, mesmo passando por algumas dificuldades pelo caminho, consegui sempre ir melhorando o meu contrato. Fui melhorando o meu contrato à medida que me fui afastando mais de casa [risos]. Vai voltar a ser pai quando? Está previsto para fevereiro, é outro rapaz, que se vai chamar Tomás. Gostava de continuar a jogar no estrangeiro? Quais são os seus objetivos a médio prazo? Após o jogo com o Sporting, na flash interview, perguntaram-me se penso voltar a Portugal, para a I Liga. Penso nisso, mas, por outro lado, também estou naqueles anos da minha vida em que acho que isso vai acontecer, mas se calhar não já em dois, três anos. Estou a gostar de ter experiências fora. Mas se, em janeiro, tiver uma boa proposta de Portugal, com um bom projeto desportivo, se calhar aceito. Sou muito aberto, já vou no quarto país fora de Portugal. Sabemos que estes são anos importantes para fazermos a nossa vida e estamos muito abertos a novas aventuras. Jogar no Brasil, onde estão as origens da sua mulher, não o seduz? Não é algo que queremos porque lá vivem o futebol de uma forma não muito positiva. Os adeptos brasileiros são bem complicados. Fazem ameaças, podem tornar-se perigosos e por isso não me atrai nada. A minha mulher também me apoia nisso, porque não gosta de ver o futebol dessa forma. Gosto que me exijam no campo, mas fora do campo gosto de ter a minha vida privada, e no Brasil é difícil. Já falei com vários colegas que jogam lá, e o que me dizem é: se ganhas e jogas bem, és o rei, mas basta perderes um jogo e já estão à porta da tua casa e com ameaças à família. Para mim não dá. Tem alguma meta para deixar de jogar? Gostava de chegar aos 40 anos como o Cristiano. Nunca mais tive uma lesão grave, aquelas lesões que falámos foram sempre lesões musculares, tenho um maior cuidado comigo. Hoje as carreiras são muito diferentes de há 20 anos, em que terminavam mais cedo. De acordo com a minha condição física e o que o futebol me permitir, quero jogar até onde conseguir. Luís com o filho Benjamim, a mulher e a gata Lucky D.R. Já sabe o que quer fazer no dia em que tiver mesmo de pendurar as chuteiras? Atualmente tento ganhar conforto para a minha vida futura, a fazer os meus investimentos, que me permitam ter uma vida confortável. Mas não quero ficar sem fazer nada. Tanto eu, como a minha mulher. Ela também tem os objetivos dela. Gostávamos muito de ter um negócio próprio e temos algumas ideias. Já estamos no mercado imobiliário, para garantirmos boas rendas, mas gostávamos de abrir uma loja. Ela é muito boa na parte do design e da moda. Falando de mim, gostava muito de ficar ligado ao futebol. Em que papel? Não como treinador, mas se calhar como empresário porque sei muito bem lidar com as emoções dos jogadores. Não me vejo tanto como treinador, sinceramente. Pode acontecer, mas hoje, aos 28 anos, vejo-me mais a ser empresário. Neste momento estou a construir a família que sempre quis e estamos muito felizes. Acho que tanto eu como a minha mulher temos feito um trabalho excelente e vejo o amor que o Benjamim tem e a pessoa que se começa a formar. O Tomás também vai nascer em Portugal? Sim, e felizmente devo conseguir estar presente outra vez porque aqui no Cazaquistão o campeonato só começa em março. Onde ganhou mais dinheiro até agora? No Cazaquistão. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprei um Range Rover Evoque. Quem está a usufruir dele é o meu pai, é algo que me deixa orgulhoso. Tem algum hobby? Nas férias adoro jogar ténis e padel. É um homem de fé? A minha mulher é muito crente, eu ainda não desenvolvi muito bem essa parte. Superstições? Tenho. Lá está, isto também é um bocado da parte da fé. Eu, por exemplo, no dia do jogo faço sempre as mesmas coisas e quando entro em campo benzo-me. Mas não penso em Deus, penso na minha família. Mas a crença em Deus é algo que sinto que vou desenvolver com o tempo. João Cardoso e Luís gostam de jogar padel nas férias D.R. Tem tatuagens? Não. Acompanha outras modalidades? Ténis. Atualmente gosto muito do Alcaraz, mas o melhor de sempre, sem dúvida, é o Roger Federer. Qual a maior frustração que tem na carreira? Não gosto da palavra frustração, mas entendo a pergunta e é não me ter estreado pelo FC Porto. E o maior arrependimento? Talvez a ida do Pogon para o Zaglebie Lubin, da Polónia. O momento mais feliz na carreira? Sem dúvida este, a qualificação para a Liga dos Campeões e jogar a Liga dos Campeões. O objetivo que está por cumprir? Jogar pela seleção de Portugal. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? O FC Porto. Quais são as principais amizades que fez no futebol? João Cardoso e o Luka Zahovic. Tem ou teve alguma alcunha? Quando era pequenino chamavam-me o "balizas", porque tinha os dentes do meio muito separados. Tem algum talento escondido? Não. Sinto que sou muito bom em tudo que esteja ligado ao Desporto. E há algum talento que gostasse de ter, que não esteja relacionado com o futebol? Ter mais facilidade para aprender línguas. Falo muito bem o português, o espanhol e o inglês, mas custou-me o polaco e está a custar o russo aqui, que é a língua mais falada. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? Lukas Podolski. Há alguma regra do futebol que alterava ou bania? Os treinadores e o banco, em geral, são muito chatos com os árbitros. Acho que isso condiciona muito, portanto era algo a ver com isso. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Sem dúvida alguma profissão ligada ao Desporto. Ia ser professor de Educação Física ou personal trainer, não sei. Tem alguma frase inspiradora? Tenho uma: “It's always possible as long as there's a chance.” Ou seja, vai ser sempre possível sempre que houver uma chance. Essa frase fez-me chegar à Liga dos Campeões porque fui acreditando sempre. Com que jogador gostaria de ter jogado na mesma equipa, e contra? Na mesma equipa, com o Cristiano Ronaldo, e contra, o Messi. Como gostaria de ser lembrado no futebol? Como a pessoa que nunca teve problemas com ninguém na carreira e que era um bom jogador. Luís com Luka Zahovic no carro a beber chá D.R. Para terminar, não tem mais nenhuma história que possa partilhar? Tenho uma de quando estava no Pogon, da Polónia. Uma vez, numa folga, em novembro de 2021 fui até Berlim, que fica a cerca de duas horas, com o Luka Zahovic e a família dele. Ficámos lá a dormir e no dia do regresso saímos os dois, a horas diferentes. Ele ia no carro dele e eu no meu. Ele saiu antes de mim. A estrada para a Polónia não tinha tantas bombas de gasolina como estamos habituados e a verdade é que estava distraído e quando olhei para o painel vejo que já só tenho pouco mais de 30 quilómetros de autonomia. Eu ainda não estava dentro de território polaco, faltavam alguns quilómetros para a fronteira. Andei bastantes minutos, a ver o nível da gasolina a descer e não encontrava nenhuma bomba. Resolvi sair na primeira saída que encontrei, quando estava a chegar a zero. Saí no meio do nada, tudo escuro, parecia uma floresta. No Google Maps não aparecia nenhuma bomba de gasolina. Encostei o carro e liguei ao Luka. Ele já tinha chegado à Polónia. Tive de ficar duas horas à espera dele, já quase sem bateria no telemóvel também. Só que, com a minha inexperiência de condutor, deixei as luzes do carro ligadas e fiquei sem bateria no carro [risos]. Está ele a chegar com os bidões de gasolina, e eu a dizer que temos de ligar ao reboque da Polónia, para nos vir ajudar porque estava sem bateria. Claro que ele me chamou vários nomes [risos]. Mas pronto, ficámos os dois mais uma hora e tal dentro do carro, a beber um chá que ele trouxe. Tenho fotos disso. Vou enviar. 2 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 5 Outubro 2025 Pedro Machado Spoiler “Joguei com o Rui Borges no Mirandela, já ele era carcaça velha, com qualidade e gostava de dar indicações e conselhos aos mais novos” O trajeto que Pedro Machado fez para conseguir viver o sonho de ser jogador profissional de futebol reflete o que a maioria dos seus colegas passa ou passou para cumprir um sonho de criança. Longe dos holofotes, este é um caso de persistência e nesta parte I do Casa às Costas, o central de 29 anos, conta como tudo começou no Quarteirense, revela muitos pormenores sobre os meandros das divisões inferiores, como chegou a trabalhar na Zara e na Uber, antes de partir para a Roménia e estrear-se numa I Liga Nasceu na Amadora. É filho e irmão de quem? Tenho um irmão, dois anos mais novo. A minha mãe teve várias profissões, quando nasci trabalhava no Auchan, mas depois teve oportunidade de trabalhar num cartório em Lisboa. Ela destacou-se no trabalho e como abriram um cartório no Algarve foi convidada para fazer parte dessa equipa. Após muita reflexão em família, decidimos ir viver para Quarteira. Eu tinha eu uns nove, dez anos. O meu pai sempre foi eletricista. Houve uma altura, quando rebentou a crise em 2008, que ele esteve seis meses emigrado na França, foi uma fase difícil que me marcou bastante. Antes de irem para o Algarve onde vivia? Cresci na Reboleira, morava mesmo em frente ao campo do Estrela da Amadora, da minha janela via o estádio do outro lado da rua. Em criança o que dizia querer ser quando fosse grande? Comecei por dizer que queria ser veterinário, mas sempre tive a paixão da bola, sempre quis ser jogador de futebol também. Eu passava muito tempo com a minha avó, em vez de ir para os ATL, e as nossas brincadeiras eram todas à volta desses meus desejos. Fazíamos muitos jogos de futebol em casa, a baliza era a entrada da cozinha. E torcia por algum clube? O meu pai é benfiquista e influenciou-me. A minha mãe não tinha clube. Gostava da escola? Gostava de ir para a escola, principalmente quando era criança, para me divertir. A mudança para o Algarve foi difícil, na fase inicial, porque deixei os meus amigos e já estava habituado à escola da Reboleira. Quem eram os seus ídolos? Sempre gostei muito do Cristiano Ronaldo. A partir do momento em que apareceu foi sempre uma grande inspiração. Também gostava muito do Puyol, do Barcelona, das características que tinha. Pedro Machado em bebé D.R. Quando e como começou a jogar futebol num clube? Essa é uma história curiosa porque eu gostava muito de jogar à bola, jogava na rua com os meus amigos e chateava muito a cabeça, principalmente do meu pai, para meter-me a jogar no Estrela. Um dia o meu pai levou-me para tentar inscrever-me no Estrela, mas eles não aceitaram a minha inscrição. Eu era uma criança gordinha e não sei se foi por causa disso, mas recordo-me que eles olharam para mim e disseram que não tinha condições para ir para o Estrela. Aquilo marcou-me, ficou-me na cabeça, fiquei triste. Entretanto, os meus pais colocaram-me noutros desportos, natação, basquete, fiz muita natação principalmente. Então o futebol só surgiu no Algarve? Sim, quando fui para o Algarve, como já era um estilo de vida diferente, mais tranquilo, sem a azáfama de Lisboa, havia maior disponibilidade dos meus pais. Mas a minha mãe não queria, ela era um bocado contra, tinha receio, porque eu tinha de ir sozinho para o treino, apesar de ficar muito perto. Entretanto, houve um torneio na escola, entre as turmas todas, a professora perguntou quem queria fazer parte da equipa. Claro que toda a gente levantou a mão. Ela fez uma seleção, primeiro entraram os que já jogavam federados, e eu fiquei de fora. Mas os meus colegas pressionaram-na a meter-me no torneio, porque gostavam de jogar comigo, achavam que eu tinha jeito. Ela acabou por ceder. O torneio correu-me bem, joguei sempre, fiz alguns golos, aquilo foi muito marcante para a nossa turma, a professora ficou agradada, e numa das reuniões de pais tocou nesse assunto com a minha mãe. Disse que eu tinha jeito e perguntou-lhe porque não me inscrevia no Quarteirense. A minha mãe ainda ficou um bocado reticente, mas os meus colegas andavam sempre comigo a dizer “vem, vem fazer parte da equipa, vem, vem, vem”. Foram eles que convenceram a sua mãe? Não. Eu, às escondidas da minha mãe, fui aos treinos no Quarteirense. Eram às quatro e meia da tarde, ainda era pelado, peguei no meu irmão, que ficava em casa comigo, e fomos os dois fazer um treino às escondidas. Equipámo-nos, calçámos uns ténis, não tínhamos chuteiras. Falei com o senhor Amílcar, o meu primeiro treinador, perguntei se podia treinar, ele disse: “Claro que sim”. De um lado treinava a equipa dos federados, e do outro os meninos que não podiam ser inscritos e que iam aparecendo, como eu. Fizemos um jogo, correu-me bem, o Sr. Amilcar ficou entusiasmado e disse para voltar no dia seguinte. Fiz isso durante uma semana. Sempre sem o conhecimento dos seus pais? [Risos] Sim. Tinha uns nove, dez anos. Chegávamos a casa e tínhamos de esconder a roupa. A vontade de jogar era minha, o meu irmão foi um bocado arrastado. Ele jogava futebol por minha influência. Mas, claro, depois tive de contar à minha mãe, porque deram umas fichas para me inscrever na equipa. Como ela reagiu? Não reagiu mal, porque tinha havido aquela conversa com a professora. E foi assim que comecei no Quarteirense. Atrás, da esquerda para a direita: a avó, a mãe, o pai e uma tia. Em baixo: Pedro e o Irmão D.R. Aos 15 anos mudou-se para o Louletano. Porquê? Essa também é uma história engraçada. Eles dividiam as equipas em A e B, em todos os escalões, e eu fazia sempre parte da equipa A. Sempre fui um menino grande e com alguma força, comparado com os outros, então acabava sempre por jogar. Nos iniciados, quando começámos a jogar futebol de 11, jogava também com os mais velhos, o que começou a gerar algum interesse no Algarve. As pessoas viam em mim algum talento. Sempre que chegava o final da época, havia um clube ou outro que de uma maneira mais informal tentava convencer-me. Nunca quis sair do Quarteirense, gostava de jogar ali com os meus amigos. Até que certo dia, o filho do Sr. Amílcar, o Cristiano Duarte, que foi meu treinador durante alguns anos, saiu para o Louletano, para treinar as equipas de juvenis, no campeonato nacional. Falou comigo, para eu ir também. Fiquei reticente, porque tinha de regressar à noite, na carrinha, chegava tarde a casa... Até que falei com o meu pai. Isso foi antes ou depois do seu pai ter ido para França? Foi depois. Ele foi quando eu tinha 12 anos e só lá esteve seis meses. Mas nunca mais me esqueço do dia em que tivemos de nos despedir dele. Ainda hoje me custa fazer despedidas. Na altura foi muito duro para nós, mesmo para a minha mãe. Quando o meu pai saiu ela chorou bastante, eu e o meu irmão tentámos confortá-la, agarrámo-nos os três, foi um momento marcante. Eu era o irmão mais velho, e apesar de só ter 12 anos, senti que tinha de ser um bocado o “homem” da casa. Não foi algo que alguém me tivesse incumbido, foi algo que senti. Pensava, o meu pai está fora, está a fazer este esforço pela família, tenho que ajudar de certa forma. Pedro (4º atrás a partir da direita) começou a jogar futebol no Quateirense D.R. Voltando ao Louletano. O que o levou a decidir ir para lá, foi a tal conversa com o seu pai? O treinador falou com os meus pais, disse que queria contar comigo, achava que era um passo importante para mim, se realmente quisesse ser jogador de futebol. E um dia o meu pai chegou-se ao pé de mim e perguntou-me: “Queres mesmo ser jogador de futebol? Queres levar isso mais a sério”; “Quero, quero jogar em equipas maiores. Quero ser como o Ronaldo”; “Estás no Quarteirense, é um bom clube, deu-te tudo, gostas muito de estar ali, mas vais jogar a distrital e estás na tua zona de conforto. Pensa nisto como uma montra, em que no Quarteirense estás dentro da loja, e há muita gente à frente da vitrine da montra, mas pouca gente vai entrar dentro da loja, no Louletano, que vai jogar campeonato nacional com equipas mais fortes, que é o que tu queres, tu estás mesmo na montra da loja, o vidro da vitrine está ali mesmo, é muito fraquinho, é só alguém bater no vidro e tu consegues sair”. Esta conversa marcou-me bastante. Foi o impulso que precisava para trocar de clube? Sim, pensei, o meu pai tem razão, se quero algo mais do futebol, vou ter de arriscar. E naquele momento, praticamente tomei a minha decisão. Depois houve outras situações que ajudaram ainda mais a ir para o Louletano. Que situações? Não quero falar muito sobre isso, ficou para trás, mas... Eu era miúdo, levava tudo muito na desportiva, na brincadeira, ia para me divertir. Mas as pessoas já viam em mim um produto e como havia rivalidades entre clubes não se via com bons olhos a minha saída. A partir do momento que tomei a decisão, uns diretores do clube tentaram fazer-me a cabeça para eu não ir. Os meus pais ficaram chateados, disseram que eles não tinham que ter aquele tipo de abordagem, eu era um miúdo e, se tinham alguma coisa para dizer, tinham que falar com eles, não era comigo. Mas pronto, fui mesmo para o Louletano. O Sr. Luís José, que infelizmente já faleceu, foi cinco estrelas com a minha família, falou sempre com o meu pai, mostrou qual era a intenção e o projeto para mim, enquanto jogador. Nessa altura começou a ganhar dinheiro com o futebol? Não. Mas o Louletano teve que pagar para eu poder ir para lá. Os treinos eram por volta das seis da tarde, porque eu estudava, e ia com dois amigos ingleses que também trocaram o Quarteirense pelo Louletano no ano anterior. O pai deles levava-nos e traziam-nos. Só nos juniores é que deixei de ter essa boleia e aí já tinha que ir na carrinha do clube. Pedro (à esquerda) com o irmão D.R. Jogou sempre como central? No Quarteirense joguei sempre como central, mas quando passámos para o futebol de 11 ainda me tentaram colocar a médio defensivo, neste caso a 6, à frente da defesa. No Louletano, no primeiro treino que fiz nos seniores, ainda sendo júnior de 1.º ano, o treinador meteu-me a médio direito, a 8, quase a fazer o box-to-box, mas a minha formação foi muito de central e número 6. Quais passaram a ser as suas referências como central? O Puyol, como já disse, e depois, quando o Ronaldo vai para Manchester comecei a acompanhar o Vidic e o Rio Ferdinand, gostava muito desses jogadores. Desde muito novo que tinha a rotina de antes de ir para os jogos ver vídeos desses jogadores para me motivar. Como às vezes sabia que iria jogar a médio defensivo, a 6, gostava de ver o Pirlo também. Quando começaram as primeiras saídas à noite e namoros mais sérios? Nunca fui muito de sair à noite. A partir do momento que tomei a decisão de trocar de clube e a conversa que tive com o meu pai, meti na cabeça que agora ia ter de dar. Quando comecei a jogar o campeonato nacional, pensei para mim que tinha mesmo de agarrar a oportunidade. Mas não deixei de me divertir. Desde muito cedo, e também com a influência dos meus pais, tive algumas regras que tinha de seguir, mas diria que começar a sair à noite foi por volta dos 18 anos, e não aconteceu muitas vezes. Também não é um ambiente que gostava muito, não me sentia muito confortável. Aos 17 anos comecei a fazer parte da equipa sénior do Louletano e ainda estudava. Concluiu o 12.º ano? Sim. O central (3º atrás a partir da esquerda) com a sua equipa do Louletano, em 2013/14 D.R. Em que altura passou a acreditar que podia fazer do futebol a sua vida? Fazer do futebol a minha vida foi mais tarde, mas que poderia ir atrás do meu sonho foi quando o Louletano me permitiu, ainda sendo júnior, fazer parte do plantel sénior. Como se projetava no futuro? Quais eram as suas ambições? Sonhava o mais alto possível, via-me na Liga dos Campeões... Era um miúdo... Ainda por cima foi na altura em que o Ronaldo explodiu, por isso ia atrás do máximo, pensava que ia chegar ao topo do futebol, que era uma questão de trabalhar. As expectativas eram mesmo muito altas. Disse que aos 17 anos começou a trabalhar com os seniores. Estava muito nervoso no primeiro treino? Estava. Estava a treinar com os juniores e um dia vêm falar comigo e dizem-me que o treinador dos seniores queria que eu fosse lá treinar. Cheguei a casa super contente, nessa noite nem consegui dormir bem, porque sentia que estava ali uma oportunidade incrível. Estava super nervoso, não conhecia ninguém, mas deixaram-me muito à-vontade. O treinador faz um jogo-treino, diz que vou jogar a 8, não conhecia a posição, ainda mais nervoso fiquei, mas pensei: não tenho pressão nenhuma, vou dar o meu melhor e logo se vê. Pelos vistos correu bem. Sim, no final os meus colegas mais velhos vieram dizer-me: “Epá, tu tens garra e tens qualidade. Que idades tens?”. Caí um bocado em graça e no dia seguinte quiseram que fosse treinar outra vez. Passados dois dias, surgiu a oportunidade de ir à experiência aos juniores do Belenenses. O Belém é uma equipa grande, com história, para mim era um fascínio enorme e fez-me lembrar a altura que troquei o Quarteirense pelo Louletano e a conversa que tive com o meu pai, sobre a montra. Mas não ficou no Belenenses. Porquê? As coisas até correram bem durante aqueles três dias, mas o treinador dos seniores do Louletano ligou-me, queria que eu fosse fazer o jogo da final da Taça do Algarve. Contei-lhe a situação e ele disse que ia falar com o diretor. O diretor ligou-me a dizer que o treinador queria mesmo que eu fosse jogar a titular. Acabei por voltar ao Louletano. Pedro com a bola, durante um jogo pelo Louletano D.R. Aos 18 anos já estava na equipa principal do Louletano. É nessa altura que assina contrato? Sim, não era um contrato profissional, nem era de formação, era um acordo, em que eles pagavam €100. Naquela altura €100 era fantástico, nunca tinha recebido. Lembro-me que cheguei a casa, fui ter com os meus pais e disse: “Isto é para vocês”. Claro que não aceitaram, disseram que era dinheiro meu, para as minhas coisas. Acabou por ficar só essa temporada no Louletano, na seguinte vai para o Mirandela, certo? Não fui direto para o Mirandela. Quando saí era suposto ir para o Vitória de Guimarães. Estive seis meses no Vitória de Guimarães, na equipa B. No início foi uma experiência. Nem me equipava com eles, equipava-me com os que iam aparecendo à experiência, noutro balneário. O treinador era o Vítor Campelos e o adjunto o Marco Alves. Foi viver para onde? Para um apartamento cedido pelo Vitória onde também estavam outros dois colegas. Custou-lhe deixar o ninho? Acho que custou mais aos meus pais. Claro que senti a falta dos amigos, da família, mas estava a ir atrás de um sonho. Estive lá até janeiro, as coisas correram bem. Assinou contrato? Não consegui assinar contrato, por causa dos direitos de formação. Estive sem receber, até que me pagaram €500, porque souberam que já estava lá há algum tempo sem receber. Mas tinha tudo pago, a casa, a alimentação. Fiquei esse tempo todo na equipa B, eles tentaram resolver a parte dos direitos de formação, foram falar com os clubes por onde tinha passado, para tentar chegar a acordo, mas os clubes pediram o máximo que podiam pedir. Foi só esse o motivo? O que me foi dito é que o Vitória estava a tentar entrar na Liga Europa, tinham um jogo em casa com uma equipa austríaca, algo assim, toda a gente pensava que o Vitória ia entrar na fase de grupos da Europa e o certo é que perderam 4-0. Eu estava no estádio nesse dia, aquilo foi um choque enorme para o clube, para toda a gente. Não conseguem apurar-se e não recebem aquele dinheiro extra que pensavam ir receber. E pronto, não tiveram capacidade de chegar a acordo com os clubes da minha formação. Falaram com os meus representantes e arranjaram a solução de eu ir para o Fafe. Cheguei a treinar no Fafe, mas já era uma realidade completamente diferente. Torceu o nariz a essa proposta de ficar em Fafe? Sim. Eles queriam que eu ficasse no Fafe para depois tentarem novamente a minha contratação para o Vitória, com outro tipo de acordo. Mas eu não quis. Voltei ao Vitória, disse que preferia ficar o ano todo a treinar com a equipa B, porque sentia que precisava daquele estímulo. O mister Vítor Campelos e o mister Marco foram cinco estrelas, fizeram-me sempre sentir parte da equipa, os meus colegas também, apesar de ser uma situação um pouco estranha. Até que chegou uma altura que nem era benéfico para mim, nem para eles. Os meus representantes vieram falar comigo, disseram-me que estar um ano sem jogar não podia ser opção, eu era muito jovem, precisava jogar, de estar em contexto competitivo. E é aí que surge o Mirandela. Já não teve como recusar. Percebi que estava a chegar a um beco, que tinha de tomar uma decisão e confiava no representante que estava comigo na altura. Ele achou que era bom para mim e que me iria dar outro tipo de projeção. Na época 2015/16, Pedro Machado jogou no Mirandela D.R. Foi sozinho para Mirandela? Sim. Foi duro deixar o Vitória e continuar muito longe da família. No Vitória eu estava a viver um sonho, estava num plantel de II liga. No Mirandela sentia que estava a dar um passo atrás, porque estava a jogar na mesma divisão que o Louletano e estava sozinho. Mirandela é uma cidade muito boa, pessoas incríveis, mas quando fui para lá fui inserido numa casa que, quando entrei nela, pousei as minhas coisas e saí porta fora a chorar. Liguei para o meu pai e disse-lhe que não tinha condições nenhumas e que não ia ficar ali. Porque estava tão desesperado? Como era a casa? Era muito má. Fui inserido numa casa com jogadores africanos, que eram cinco estrelas, mas que tinham rotinas muito diferentes das minhas. A casa não tinha condições nenhumas para eu viver. O meu quarto nem janela tinha, era só uma cama e um armário. Os meus colegas eram muçulmanos, acordavam de madrugada para rezar, um deles fazia da sala o quarto dele, fechava as janelas, fechava tudo, até para fazer o chá, era ali que fazia. Senti que tinha de fazer um esforço, porque queria ser jogador de futebol, mas não daquela forma. Eu tinha o conforto da casa dos meus pais, vou para o Vitória, divido casa com outros colegas, não é a minha casa, mas tinha condições, ali deparo-me com aquilo e caiu-me tudo. Foi o seu pai que o convenceu a ficar? Falei com os meus pais, eles disseram-me que iam apoiar-me sempre nas minhas decisões, mas antes de desistir tinha de ver se não havia uma solução. Perguntaram-me se já tinha falado com o clube e explicado a situação, porque se calhar até me mudavam de casa. Entretanto, falei com o meu representante, e eles trataram diretamente com o presidente. O presidente veio falar comigo, mostrou total abertura para me colocarem noutra casa. Fui para uma casa totalmente diferente, com colegas portugueses, conheci pessoas incríveis, tinha direito às minhas refeições no restaurante da Dona Irene, que me tratou praticamente como um filho. Ainda partilhou balneário com o Rui Borges, hoje treinador do Sporting. Como ele era enquanto jogador? Estava na fase final da carreira, mas era bom jogador. Na gíria do futebol, era aquela carcaça velha, que tinha qualidade. Nessa altura ele já manifestava vontade de ser treinador? A mim, diretamente, nunca me disse, mas era o capitão de equipa, já se via nele aquela vontade de, principalmente connosco, os miúdos, ajudar com indicações, com alguns conselhos. Eu já tinha atenção a determinadas coisas, tive algumas conversas com ele e tentou sempre ajudar-me naquilo que sentia que eu podia melhorar. Ficou surpreendido quando foi escolhido para ser treinador do Sporting? Não foi aí que me surpreendeu, porque ele passou do Vitória para o Sporting e eu já lhe reconhecia muita qualidade. Surpreendeu-me quando começou a carreira no Mirandela e o trajeto que fez no Académico de Viseu. Fui sempre acompanhando a trajetória dele e comecei a perceber que as equipas dele tinham algo de especial. A minha mulher é sportinguista e com a saída do Rubén Amorim chegámos a conversar que o Rui Borges seria o treinador ideal pelo trabalho que estava a fazer no Vitória e por aquilo que conhecia enquanto colega. Fiquei muito feliz por ver que o escolhido foi mesmo ele, com o Ricardo Chaves, que já fazia parte da equipa técnica. O central (à esquerda) com os pais e o irmão D.R. Só esteve seis meses no Mirandela. E depois? No mercado de verão surgiram algumas oportunidades, estive perto de ir à experiência ao Moreirense porque tiveram um problema com um jogador, mas depois não se concretizou e acabou por aparecer o Sertanense. Era um projeto que tinha muitos jogadores dos meus representantes, era uma equipa para tentar o acesso à II Liga, numa de potenciar o clube e os jogadores. Que memórias tem dessa época no Sertanense? São boas. Começámos muito bem o campeonato, fizemos sete vitórias seguidas, houve logo muito entusiasmo à volta da equipa, tínhamos um grupo muito alegre, muitos deles já se conheciam. Mas as coisas não foram sempre maravilhosas, estávamos a jogar contra equipas que tinham outro tipo de orçamento, outra estaleca. Fiz bastantes jogos, mas no final da época segui com a minha vida, à procura de algo melhor. Falou-se de duas possibilidades, o Olhanense e o Farense, dois históricos da minha zona, com dois projetos de subida. Fiquei a aguardar, a ver qual dos dois poderia ser solução para mim. O Olhanense foi aquele que chegou mais à frente e integrei o plantel. Mas não esteve lá muito tempo. Faço a pré-época toda no Olhanense, joguei, tudo normal. Vou para o banco no primeiro jogo, não entrei. Depois vieram falar comigo e disseram-me que tinha de procurar uma solução porque tinham muitos centrais. Foi um choque. Eu queria fazer parte daquele contexto e na altura o mercado estava praticamente fechado. Custou-me imenso. Tinha trabalhado bastante para aquilo durante a pré-época. Mas pensei: não vou permitir que o meu sonho acabe assim, tenho de fazer alguma coisa por mim. O presidente do Louletano tem um stand de carros, fui até lá, expliquei-lhe a situação, ele disse que tinha de falar com o treinador, mas como eu era um miúdo da formação, só mesmo se não pudessem é que não iria fazer parte do plantel. Ainda mantinha as ambições que tinha aos 16/17 anos? Quando vou para o Olhanense vou com a ambição de subir de divisão, senti que era um passo em frente da minha carreira e de um momento para o outro caiu-me tudo, tiraram-me o tapete. Inclusive comecei a trabalhar em part-time na Zara e pensei: “Vou continuar a ir à luta, o futebol ainda pode dar, mas se calhar não posso fazer disto a minha prioridade”. Foi uma altura difícil para mim, mas nunca deixei de acreditar. Como conseguiu na época 2018/19 jogar nos sub-23 da B SAD e no Casa Pia AC? Essa também é uma história curiosa que pouca gente sabe. Sempre fui muito dedicado, muito focado, os meus amigos gozavam comigo, porque comecei a levar muito a sério a parte da nutrição, do treino fora do futebol, etc. Não me identificava com o part-time na Zara e os meus colegas do trabalho diziam mesmo: “Tu és porreiro, mas isto não é a tua praia”. Cheguei a uma fase que decidi voltar a apostar as fichas todas no futebol. Larguei o part-time, na fase final da época, nos meses de verão normalmente ia para a praia, mas peguei nas minhas coisas e fui para Lisboa. Fazer o quê? Fiquei a viver na casa da minha avó e passei a treinar com um preparador físico que treinava jogadores de futebol. Comecei a trabalhar a minha parte mental com a Susana Torres. Ela estava no começo, foi ainda antes daquele boom com o Éder. Foi-me ajudando a ter as ferramentas que os outros jogadores que estão num patamar acima têm. Qual foi o maior ensinamento que ela lhe deu ou a melhor ferramenta? Nunca desistir, nunca virar a cara à luta e arranjar sempre uma solução para aquilo que são os meus problemas. Porque existe sempre uma solução e tenho de tentar descobri-la. Um dia estou em casa e vejo que o Sindicato dos Jogadores ia organizar o estágio para os jogadores que não tinham contrato. Aquilo fez-me um clique. Percebi que iam treinar num pavilhão em Odivelas e fui para lá, para a bancada, ver o treino. Era a única pessoa a ver o treino. O treinador era o Silas. Ganhei coragem, desci lá abaixo, perguntei se podia fazer parte do estágio. Ele disse: “Claro que sim. Amanhã vamos treinar no Jamor, às seis horas aparece, não tem problema nenhum.” Foi através do estágio do Sindicato que foi parar à B SAD? Comecei a treinar com o Sindicato, à espera de colocação. Entretanto, o Silas vai treinar o Belenenses, na altura em que houve aquela divisão no Belém. Ele era para começar na equipa de sub-23, identificou vários jovens para fazerem parte dessa equipa, eu era um deles. Entraram em contacto comigo, chegámos a acordo, vou assinar o meu contrato com o Belenenses para os próximos três anos e o Silas passa a ser o treinador da equipa principal, o Neca e o mister Wilson são os treinadores dos sub-23. E não ficou lá a época toda. Porquê? Comecei a jogar, era um dos capitães de equipa, as coisas estavam a correr muito bem, o mercado estava a fechar quando surgiu o interesse de uma equipa que ia jogar I Liga, em Chipre. Disse que não queria, que o objetivo era mesmo chegar à equipa principal do Belém, queria lutar por isso. O Zé Luís, que era o diretor-desportivo da equipa principal, chegou a falar comigo, o Silas também, perceberam a minha intenção, que estava bastante focado em fazer parte da equipa principal da SAD do Belém. Fiquei ali pelos sub-23, sempre a espreitar a equipa principal. Fazíamos vários jogos com a equipa principal, as coisas estavam a correr muito bem, até que um dia um dos meus colegas apanha uma virose, leva-a para o balneário e eu fui um dos que apanhou essa virose. Fiquei de fora um jogo, a equipa acabou por perder e, de repente, parece que houve uma autêntica revolução, vinda de cima, com ordens que os mais velhos não podiam jogar, iam dar oportunidades aos mais novos. Nós inclusive começámos a treinar à parte na equipa dos sub-23, sempre muito bem acompanhados pelo mister Neca e o mister Wilson, que foram incansáveis connosco. Como saiu dessa situação? Surgiram algumas opções para mim, mas que não me faziam sentido nenhum, porque ia ter mais gastos do que aqueles que tinha no Belenenses. Tinha aquela época toda, mais dois anos de contrato e sentia que tinha capacidade para fazer parte da equipa principal e que o que me estava a acontecer, não era algo derivado do meu trabalho, do meu profissionalismo, ou da minha qualidade, mas vindo de terceiros. Até que certo dia disseram-me que queriam rescindir e que a partir daquele momento não treinava mais ali. Aquilo chocou-me imenso porque sempre fui muito profissional e dei o meu melhor. Os próprios treinadores não percebiam e não achavam que fosse a forma correta de me tratarem. Naquele dia a história chegou aos ouvidos do Silas e cinco minutos depois de começar o treino da equipa principal o mesmo diretor veio ter comigo: “Pedro, tenho uma excelente notícia, o Silas quer que vás treinar na equipa principal porque tem falta de um central”. Passei do pesadelo para o sonho novamente. O sonho durou pouco, certo? Sim. O Silas deu-me uma mão, não permitiu que eu não treinasse naquele dia, integrou-me na equipa principal da B SAD, fiz o meu treino, correu muito bem, mas no final do treino continuava tudo na mesma. Depois, apresentaram-me um papel como se eu tivesse que aceitar aquilo e eu disse que as coisas não eram assim tão simples. Não vim embora de mãos a abanar, tive de defender aquilo que são os meus direitos. Pedro com a Taça d Campeonato de Portugal, que levou subida do Casa Pia AC à II Liga, em 2019 D.R. Depois é que surgiu o Casa Pia AC? Entretanto, um novo empresário vem ter comigo com a perspetiva de ir ao Luxemburgo tentar arranjar um clube lá. Vou com esse dito empresário e mais outro jogador, pagando as viagens do nosso bolso, fazemos um jogo de apresentação numa equipa que devia ser a do sindicato de lá, contra uma equipa que disputava a I Divisão no Luxemburgo, para eles poderem observar os jogadores. As coisas correram bem mais uma vez, a outra equipa queria ficar comigo, mas o empresário já tinha apalavrado com uma outra equipa, houve um bocado de confusão e no final, nem uma equipa, nem a outra e fiquei de mãos a abanar, tive de voltar para Portugal. Esse empresário nunca mais deu à costa. O que fez? Tinha aberto há pouco tempo uma empresa Uber e comecei a trabalhar como Uber, a conduzir o meu carro. Fiz de motorista na minha empresa. Entretanto, surgiu um outro empresário, com uma situação da Itália. Eu estava disponível para tudo, queria voltar a jogar. Vendeu-me o peixe que estava ali uma grande oportunidade para eu abrir mercado em Itália. Cheguei a Itália, apresentou-me uma casa horrível, sem condições absolutamente nenhumas, liguei logo para ele. Disse que era só aquela noite. Nem dormi nada nessa noite. No dia seguinte vou para o treino sem descansar, era um treino ligeiro porque a equipa ia ter jogo no dia seguinte, e encaram-me como se eu fosse à experiência, quando me tinham dito que já estava certo no clube. Tenho uma conversa com os treinadores, estes dizem que eu ia fazer parte da equipa, o diretor é que não queria, mas lá fui treinar. Mas não ficou em Itália. Não. Já explico. Um colega cabo-verdiano apercebeu-se da minha situação e convidou-me para ir para casa dele. Passei a noite na casa dele, estava lá também um colega português, no dia seguinte vou ver o jogo de uma equipa que fazia parte do campeonato deles e em conversa pergunto qual é a divisão e eles dizem que é a quarta divisão italiana. Eu comento: “Então é uma divisão abaixo da nossa equipa” e eles: “Não, esta é uma divisão acima da nossa”. Ou seja, tinha-me vendido que eu ia para a III Divisão italiana e afinal era a V. Confrontei as pessoas em questão com a mentira e disse que queria ir embora, que não ia assinar nada. No clube foram corretos comigo, perceberam que tinha sido enganado, deixaram-me voltar para casa. O central em jogo pelo Casa Pia AC D.R. Voltou a trabalhar na sua empresa de Uber? Venho para Portugal, sem clube, sem nada e vejo-me novamente numa situação difícil. Mas aquele trabalho psicológico que tinha feito levou a que, para mim, desistir não era opção. Entretanto, como já tinha feito uma pen com os meus melhores momentos em vídeo, fui bater à porta do Casa Pia. Consegui chegar à fala com o diretor Carlos Pires, nessa altura também estava lá o Ruben Amorim. Expliquei a minha situação, entreguei-lhe a minha pen e ele disse que ia falar com o treinador. Vim embora pensando que nunca mais iriam lembrar-se de mim. Mas chamaram-no. Entretanto, fui tentar os sub-23 do Cova da Piedade. Fui lá ver o treino, consegui falar com o diretor-desportivo, expliquei a minha situação, disse que ia falar com o treinador. O treinador sabia quem eu era e a minha história, disseram-me para voltar no dia seguinte. Lá fui eu novamente, treinei, fizemos um jogo entre nós, fiz um golo, mas não me deram a certeza se conseguiriam ficar comigo, porque tinha um orçamento muito apertado. Vou para casa, almoço, e liga-me o Carlos Pires, do Casa Pia, a dizer que o central deles tinha ido para o Sacavenense e que tinham um lugar em aberto para mim, só tinha que ir treinar com eles para verem se não tinha nenhuma lesão. Falámos logo de valores e tudo mais, e pronto, no dia seguinte apresentei-me. O Ruben Amorim já tinha saído devido à polémica do curso de treinador e quem entra é o mister Gonçalo Monteiro, que esteve comigo no Sertanense. E foi assim que entrei no Casa Pia, fiz das tripas coração para aquilo dar certo. O grupo era incrível, foi um dos melhores grupos de jogadores que já tive. A energia era muito boa. Quando refleti em casa senti que tinha passado do inferno ao sonho novamente porque o Casa Pia estava em 1.º lugar, a jogar um futebol incrível, a dominar tudo. Assinou por quanto tempo? Assinei até ao final da época. Subiram à II Liga e renovou. É curiosa essa história, porque eu faço os 23 anos, tinha feito poucos jogos no Casa Pia, apenas seis jogos e não tinham sido completos. Mas eu fazia os treinos como se fossem jogos. Tinha uma atitude competitiva muito boa e isso caiu em graça. O mister Luís Loureiro, que tinha substituído o mister Gonçalo Monteiro, gostava de mim, um dos capitães, o Abel Pereira, tratou-me como um filho, era da mesma posição que eu, deu-me sempre muita confiança e as coisas acabaram por acontecer, ofereceram-me três anos de contrato. Mas essa época não correu bem ao clube, veio a covid-19 e o campeonato não chegou ao fim. Ainda vivia em casa da sua avó? Sim, porque ela morava em Lisboa, mas passava muito tempo no Alentejo, na terra. Foi difícil passar o confinamento sozinho? Foi. Estava a ter uma época de sonho e depois aconteceu aquilo, aquela incerteza se o campeonato iria voltar ou não. Estava a fazer muitos jogos na fase final, fazia parte do grupo de capitães, queria dar sequência ao trabalho que estava a fazer, por isso treinava em casa, tentava dar uma corrida na rua e ia treinar com o meu preparador físico, com as precauções todas. Muitas vezes ele abria a porta do ginásio para eu treinar sozinho e poder manter-me em forma. E nos tempos mais mortos, o que fazia em casa? Eu não passava muito tempo em casa porque como ainda tinha a empresa Uber, às vezes pegava no carro e ia trabalhar, para fazer uma coisa diferente e não ficar tanto tempo em casa. Por que razão não continuou no Casa Pia, na época 2020/21 e acabou na UD Oliveirense? A Oliveirense surge de uma necessidade, porque não sabia o que iria acontecer no Casa Pia, se ia descer ou não. Com a época que tinha feito na II Liga, sentia que tinha de aproveitar o facto de me ter estreado nas ligas profissionais e o interesse que se andava a gerar à minha volta. Os outros clubes não paravam, davam seguimento às coisas porque sabiam que iam ficar na II Liga e o Casa Pia não. Alguns projetos sondaram-me e através do empresário surgiu a Oliveirense. Tive de tomar a minha decisão e segui para a Oliveirense. Era um clube com boas condições, gente muito competente, muito apaixonada pelo clube e surpreendeu-me bastante. É nessa época que conhece a sua mulher? Sim, conheci a Vanessa através do Instagram. Eu andava embeiçado por uma rapariga, mas houve um momento que percebi que tinha de seguir noutra direção. Eu já era amigo dela no Facebook, já a tinha visto. Identificava-me com aquilo que ela escrevia e postava, mas não a conhecia de lado nenhum. Fui começando a seguir mais, a ver mais. E, não sei se é energia, ela começou a seguir-me no Instagram. Eu sigo-a de volta. Ela canta muito bem, fazia uns stories a cantar, eu reajo a essas histórias, e a partir daí começamos a ter uma conversa diária… Até hoje [risos]. Ela morava em Lisboa, era rececionista numa clínica e tinha a casa dela. Tem histórias para contar dos tempos que jogou no Casa Pia AC? Recordo-me de uma após a época da subida. Há uma altura em que as minhas botas estragam-se e tenho de comprar umas novas. Eu costumava usar as Adidas Predator, e para o meu tamanho só havia as de cor de rosa. Tive de comprar essas. Fui para o treino, ainda não tinha feito muitos jogos, estava a ganhar o meu espaço numa época nova e como era rotina, antes do treino começar o mister juntou o plantel para dizer umas palavras. Estamos ali todos, até que a dada altura ele olha para a minha cara e diz: “Não, não. Pelo amor de Deus. Isto não pode ser verdade”. Ficamos todos a olhar uns para os outros, sem perceber o que se passava. E ele: “O meu central com umas botas cor de rosa. Desculpa lá, mas não”. Foi a risota total. Ele insistiu: “Vai lá trocar essas botas”. Eu não tinha outras botas e disse-lhe. “Um central meu com botas cor de rosa não pode ser, vai buscar uns ténis, uma coisa qualquer”. Eu não tinha nada. O grupo numa risota dizia-me: “Não, não. Mostra personalidade, vai com as botas até ao fim”. No dia seguinte íamos jogar com o Boavista para a Taça da Liga e eu tinha de jogar com aquelas botas. Com um bocadinho de pressão do grupo lá treinei com as botas, o mister a fazer um bocado cara feia, mas em tom de brincadeira. À tantas disse-lhe: “Mister, amanhã vai-me pôr a jogar, eu vou ter de jogar com estas botas e nós vamos ganhar o jogo”; “Se jogares com as botas cor de rosa e as coisas não correrem bem, nunca mais jogas na minha equipa”. O certo é que ganhámos 1-0, contra o Boavista. No final fiz sinal ao mister, apontei para as botas cor de rosa e aí ele riu-se. Pedro com a mulher, Vanessa D.R. Voltando ao futebol. A época na Oliveirense também não correu muito bem. Não, acabamos por descer de divisão. Mas passado dois, três dias surgiu um interesse muito forte, através de um ex-colega do Casa Pia, vindo da Roménia, do Craiova. Foi uma coisa muito rápida. Já era algo que ambicionava, jogar no estrangeiro? Só me passou pela cabeça nessa altura da Oliveirense. No mercado de janeiro surgiram algumas abordagens, mas mantive-me sempre firme porque tinha uma vontade enorme de chegar à I Liga e não estava no futebol pelo dinheiro. Jogava pelo prazer e com o objetivo de jogar uma I Liga, era aquela expectativa que falei no início da conversa, de chegar ao mais alto possível e àqueles patamares grandes. O dinheiro era para eu sobreviver. Quem o levou para a Roménia? Foi o Jorge Ribeiro. Antes da Roménia, há um dia em que ele me contacta e diz que tinha uma situação para a Índia. Disse logo que não ia porque estava a jogar na II Liga. Ele disse que também tinha sido jogador e entendia perfeitamente a minha posição, mas que tinha de pensar que um dia ia acabar por deixar de jogar futebol e nessa altura não ia comer taças, nem medalhas. Aquilo fez um clique dentro de mim, mexeu comigo. OK, é muito importante a parte do prestígio, de ganhar taças, medalhas, mas também tenho de olhar para a questão salarial, porque um dia vou deixar de jogar e vou ter que seguir com a minha vida. Ainda assim, na altura, insisti que ia continuar a fazer o meu trabalho na Oliveirense. Só que, comecei a pensar naquilo que ele me tinha dito. Por isso, no final da época, quando surgiu essa questão da Roménia, pesou ir jogar uma I Liga, na Europa, e a questão salarial, que era bem melhor do que aquilo que eu ganhava. Foi ganhar quantas vezes mais? Seis vezes mais. Foi sozinho para a Roménia? Não, já vou com a minha mulher. Só nos conhecíamos há seis meses, mas estávamos a identificarmos tanto um com o outro, tínhamos uma relação tão bonita, que ela felizmente decidiu ir comigo. Foi um passo de coragem. Largou as coisas dela para viver aquilo que era o meu sonho, e estar ao meu lado. Spoiler “Houve uma altura em que a minha mulher me disse: 'Tu estás com a mania que deves ser o Ronaldo'. Foi quase uma chapada que me deu” Nesta parte II do Casa às Costas, Pedro Machado continua a desfiar o fio da sua carreira a partir do momento em que viajou para a Roménia, onde a experiência futebolística acabou por ser curta, regressando novamente a Portugal, para jogar no Torreense. Sagrou-se campeão da Liga 3, ainda passou pelo V. Setúbal, mas voltou a tentar a sorte fora de portas, primeiro na Finlândia, depois no Canadá e agora no Kuwait. Uma entrevista que é quase um relato dos sonhos e das dificuldades de quem luta para chegar à ribalta do futebol Quando chegou à Roménia para jogar no Universitatea Craiova, em 2021, havia outros portugueses na equipa? Não. Como era o seu inglês? Não era espetacular, mas dava para desenrascar. Os romenos são muito diferentes dos portugueses no balneário? São. Até na forma como viam o futebol. Eles vão muito pela emoção do jogo, aquilo que estão a sentir no jogo; nós, portugueses, somos mais ponderados, a forma como olhamos para o jogo é numa vertente mais tática. Os treinos eram diferentes do que estava habituado? Não, porque o Adrian Mutu foi um grande jogador, portanto a forma como ele programava os treinos era muito com bola, não senti uma grande diferença, foi uma agradável surpresa. Quais foram as primeiras impressões da Roménia? Ficávamos num hotel nos primeiros tempos e era tudo desorganizado, era diferente dos hotéis que vemos em Portugal. No trânsito havia muitas desavenças, muita gritaria, mas de resto é um país bonito, consegui adaptar-me, não me faltava nada. Chegou a estrear-se na I Liga romena? Sim, mas só fiz dois jogos. Essa foi a parte da Roménia que mais me entristeceu. Na pré-época senti que estava a assumir um lugar de destaque, que o treinador via em mim qualidade, alguém em quem ele confiava, porque fiz essa pré-época toda a jogar como titular. Por isso, em teoria, iria fazer o primeiro jogo também como titular, estava tudo a ser preparado para isso. O primeiro jogo era com o Cluj, uma equipa grande na Roménia, que vinha de quatro títulos seguidos, eu estava a preparar-me para viver o sonho da I Liga, e acabei por ter uma deceção enorme. Porquê? Vou com a equipa, estou a ser preparado para jogar a titular, e quando cheguei ao balneário para ver onde é o meu lugar, não encontro a minha camisola. Vou ter com o adjunto, eu e mais dois colegas e ele diz que a nossa inscrição não tinha chegado a tempo e não poderíamos ser opção para aquele jogo. Fiquei com uma azia. Tinha uma vontade enorme de jogar aquele jogo porque era contra a melhor equipa da Roménia da altura. Falei com quem me estava a representar, ele disse que tinha havido alguns problemas, mas que no próximo jogo já estaria disponível para jogar. Fui assistir ao jogo da bancada, um ambiente incrível. Em 2021, Pedro Machado (no meio, atrás) assinou pelo Universitatea Craiova, da Roménia D.R. Jogou no fim de semana seguinte? Fui novamente preparado para jogar a titular até que na sexta-feira o diretor da equipa veio ter comigo e questiona se a minha ex-equipa em Portugal, a Oliveirense, existia, porque não lhe aparecia nos registos. Respondi: “Desculpa lá, estamos a 24 horas de um jogo e tu agora é que me vens com essa conversa? Estou aqui há quase mês e meio, vocês tinham de tratar disso mais cedo”. Entretanto, mostrei-lhe nas plataformas que a Oliveirense exista. Acabei por chegar um pouco atrasado ao treino com aquela conversa, o Mutu viu que estava um pouco alterado e questionou-me, em tom de brincadeira, para ver como era a minha reação: “Então estás com a mania que és estrela? Até já chegas atrasado?”. Expliquei-lhe que estava a tratar de uma situação com o diretor e que pelos vistos não podia ser novamente opção para o jogo, porque não encontravam a minha equipa em Portugal. Como ele reagiu? Disse para ficar tranquilo e foi falar com o diretor. Quando voltou, perguntou-me: “Então, não queres jogar este jogo, é isso?”; “Não é nada disso, eu quero jogar”; “Então há aqui qualquer coisa que não está a bater certo”. E ficou assim a conversa. Com as histórias que já ia ouvido da Roménia, percebi que alguma coisa se estava a passar. Decidi tomar a responsabilidade do assunto e perceber o que era preciso no processo todo. Falei com o Sindicato de Jogadores em Portugal para tratar da minha inscrição. Comecei a mexer-me, tinha de ir à polícia e tudo mais. Quando o clube soube que eu estava a fazer essas coisas, a minha inscrição foi muito rápida. E fiquei disponível para o terceiro jogo. Estreou-se finalmente? Nesse terceiro, não sei se devido a não ter jogado nos outros dois, eu iria começar no banco. Só que, no dia do jogo, o colega que ia jogar na minha posição sentiu-se mal, e por isso joguei. As coisas correram bem, a equipa acabou por ganhar. O presidente estava à porta do balneário, todo contente, uma grande festa, uma satisfação enorme. Pensei, as coisas se calhar começaram com o pé esquerdo, mas agora vão encarrilar. Tivemos a primeira vitória, no jogo seguinte, em casa, jogo a titular novamente, empatamos a zero, o que acabou por ser um bom resultado naquele caso e está novamente o presidente a cumprimentar-me e a dizer “grande jogo”. Pensei: “Isto encarrilou, já ganhei (entre aspas) o meu lugar e, se Deus quiser, agora vai ser sempre a subir, depois de tanta luta que tive ao longo da carreira. Está aqui a minha oportunidade, tenho de aproveitar.” A partir daí as coisas correram sempre bem? Não. Após uma semana normal de treinos, estou em casa com a minha mulher, a equipa ia fazer uma viagem longa e digo-lhe: “Vais ficar sozinha porque devo ser convocado”. E ela, na brincadeira, responde: “Nem vais ser convocado”. Passados cinco minutos metem a convocatória no grupo, abro, vejo o meu nome e mostro-lhe: “Estás a ver? Estavas aí a rogar uma praga, estou convocado, vais ter que ficar sozinha uns dois ou três dias”. E nisto, eles apagam do grupo aquela mensagem da convocatória e metem outra logo a seguir. Abro a mensagem, vou ver os nomes e o único nome que trocaram foi o meu. Achei estranho e comecei a entrar em contacto com os meus representantes, eles nunca me conseguiram dar uma resposta, nem dizer o porquê daquilo estar a passar-se comigo. O certo é que nunca mais joguei. Treinava, treinava, mas nunca mais joguei. O centra com a mulher no estádio do Craiova D.R. O que fez perante essa situação? Em novembro, já lá estava também outro português, o Hugo Vieira, que estava a jogar, e sou informado pelo clube que iam retirar a minha inscrição da liga e que ia fazer parte de uma lista B, ou algo assim, mas que a partir daquele momento só podia fazer jogos da taça. Com as atitudes que eles já tinham tido já estava à espera. OK, tudo bem. Fazem isso comigo e com o Hugo também, e ele estava a jogar e a fazer a diferença. Entretanto, falei com as pessoas que me tinham levado para lá, digo que não quero estar ali naquelas condições e quero arranjar uma solução para a minha carreira. Dizem-me que vamos ter de esperar até janeiro e ver o que acontece no clube. Eu estava desconfortável com a minha situação, a equipa técnica também, porque eu treinava, dava o melhor de mim nos treinos, até que certo dia, o treinador adjunto do Mutu, um bocado à socapa, no final do treino, faz-me o sinal que precisava de conversar comigo. Levantei-me para ir atrás dele, e ele faz-me o sinal: “Calma, calma, deixa-me ir, e depois vens atrás de mim”. Achei aquilo muito estranho. O que lhe disse? Teve uma conversa comigo, para dizer que estava muito envergonhado com a situação que eu estava a passar, não era por ele que as coisas eram assim, porque via em mim alguém com qualidade para se assumir na equipa, e que as ordens vinham de cima, do lado presidencial. Ou seja, estava meio que a avisar que se tivesse uma oportunidade em janeiro de seguir por outro caminho para o fazer, porque a minha vida ali não estava fácil, mas no que pudessem iam tentar ajudar-me ali na Roménia, porque gostavam de mim e viam que eu até estava num nível mais acima. Disse que preferia voltar para Portugal. Eles, entretanto, acabaram por sair, assumiram outros treinadores, a situação foi sempre piorando, até que consegui sair do clube, o caso acabou na FIFA e segui com a minha vida. Ficou quanto tempo sem jogar depois? Fiquei alguns meses porque só fui para o Torreense em janeiro de 2022. Só teve o interesse do Torreense? Quem me tinha levado para a Roménia falou comigo da hipótese do União de Leiria, que também era da Liga 3, mas estava em 1.º lugar. Eu comentava com a minha mulher: “Saí de Portugal na II Liga, agora no mínimo, tem que ser a II Liga. E por que não I Liga? Joguei a I Liga na Roménia, porque não? Acho que tenho nível”. A Vanessa disse-me que era melhor meter os pés na terra, sempre a tentar tirar-me um bocado a euforia, no bom sentido, até que surgiu o Vilafranquense, que estava na II Liga, numa posição difícil, a lutar para não descer, e passado um dia ou dois surgiu também o Torreense. O que o levou a optar pelo Torreense que estava na Liga 3? Contactei algumas pessoas para obter mais informações sobre os clubes e os projetos, tenho uma conversa com a minha mulher, digo-lhe que sou jogador da II Liga, e é quando ela me diz: “Tu estás com a mania que deves ser o Ronaldo, já que és assim tão bom, porque não vais para o Torreense demonstrar toda essa qualidade? Já que és um jogador da II Liga, se fores para a Liga 3 vais ser muito melhor que os outros. Acho que, no teu contexto de jogador, faz mais sentido ir para um projeto de subida do que lutar para não descer”. Aquilo foi quase como uma chapada que ela me deu e um desafio que me criou. Depois, o interesse do Vilafranquense também esfriou um bocado, o Torreense demonstrou desde o primeiro dia uma vontade enorme que eu fizesse parte do plantel. A juntar àquilo que a minha mulher me disse, optei por ir para o Torreense, para subir de divisão e provar-lhe que sou bom [risos]. Está arrependido dessa decisão? Nada. O Torreense foi uma altura fantástica para mim. Na forma como terminou, não foi tanto, mas aquilo que vivi em Torres Vedras foi incrível. Voltou a trabalhar como Uber? Não. Já tinha deixado. Mas continuava a ter a empresa, embora tenha sido um dos últimos anos em que a tive. Como foi recebido no balneário do Torreense? O primeiro dia tem logo uma história entre mim e a minha mulher, porque ela vai comigo para assinar o contrato, vamos a picar-nos um ao outro, eu dizia-lhe: “Vais ver, no final vais ver-me a levantar a taça, vamos subir de divisão”. Ela ficou no parque à minha espera. Fui para assinar o contrato, com a pessoa que me representava, estava o diretor-geral do clube, o Bruno Vitorino, entretanto veio o treinador, o mister Nuno Manta Santos, e antes dele entrar, estamos ali a conversar com o diretor, que nos diz que as intenções do clube é tentar subir de divisão, explica o projeto, eu digo-lhe diretamente que no final não só vamos subir de divisão, como vamos ser campeões. Assinamos o contrato, e quando chego ao carro, a minha mulher está toda entusiasmada e diz-me: “Nem sabes o que aconteceu. Tu quando saíste do carro, do nada começou a tocar a música 'We Are The Champions', dos Queen. É um sinal”. Não sei se foi sinal, mas isto das energias faz-me algum sentido e a verdade é que o caminho que fizemos levou-nos a ser os primeiros campeões da Liga 3. O central i campeão da Liga 3 pelo Torreense. Na foto com o troféu e a família atrás D.R. Continuou no Torreense na II Liga? Sim. Tive algumas abordagens para sair, através das pessoas que me estavam a representar, coisas interessantes, mas na altura a minha mulher estava grávida do nosso menino, e ir para o estrangeiro implicava se calhar que ela ficasse em Portugal e eu não pudesse assistir ao nascimento do meu filho. Ou então teria que nascer no país onde estivéssemos e, como era o primeiro, ela também não se sentia muito confortável com isso. Disse aos meus representantes que eventualmente em janeiro, depois do menino nascer, ou mesmo no final da época, caso fizesse uma boa II Liga, provavelmente haveria outros interessados e melhores. Mas a sua história no Torreense não acabou bem. O que aconteceu e como foi parar ao V. Setúbal que estava na Liga 3? Nem eu sei muito bem o que aconteceu. Certo é que não joguei no Torreense, tive algum tempo também afastado. Porquê? Nunca tive uma explicação, sinceramente. Foi algo que aconteceu do dia para a noite. Disseram-me que tinha sido uma opção, mas acho que as coisas podiam ter sido feitas de forma diferente. Não senti que estava a ser afastado por vontade do treinador, acho que teve a ver muito com o que é o futebol profissional. Há coisas que nós jogadores não conseguimos explicar, coisas de bastidores que não se consegue explicar, e acho que mais uma vez foi isso que aconteceu comigo. Mas vou sempre guardar as memórias positivas do Torreense. Pedro Machado com o troféu de campeão da Liga 3, pelo Torreense D.R. Como acaba por sair? Eles dizem-lhe que não contam mais consigo e que tem de procurar clube? Chegou uma fase em que vêm falar comigo através do diretor-desportivo da altura, o João Tomás, para dizer que querem resolver a situação, que nem é bom para eles, nem para mim. Temos uma conversa direta, um com o outro, em que exponho o meu ponto de vista, o que tinha acontecido. Nada mudou. Chegamos a um acordo e pronto. Mas ninguém teve uma conversa consigo antes, quando começou a ser posto de lado? Tive uma primeira conversa quando o mister Manta Santos saiu, foi um treinador que me tinha marcado, porque fui campeão e ele deu-me a oportunidade de ir para o Torreense. Foi uma conversa de treinador e jogador, mas sem nunca justificar o motivo. A minha situação com a chegada do mister Pedro Moreira também não mudou, mantém-se igual e aí percebo que não pode ser só algo desportivo, tem de haver algo mais, uma decisão mais forte. O treinador Pedro Moreira falou consigo? Quando chegou falou comigo, deu-me a entender que estávamos todos ali por igual, incentivou-me a dar o meu melhor, que íamos ver o que acontecia depois. Mas nada mudou. Ele ainda teve o cuidado de ir falando de vez em quando comigo, sempre senti que ele via em mim qualidade, mas que havia sempre algum motivo que não permitia que eu jogasse mais tempo. Senti-me sempre com condições de jogar e de dar seguimento à época e à importância que tinha na equipa, mas nunca soube o motivo. Também não fui escarafunchar muito, fui sempre fazendo o meu trabalho, sendo profissional, para deixar a melhor imagem possível sobre a minha pessoa, porque sabia que não tinham nada para me apontar. Se foi como está a contar, é muito estranho. Qual foi o desfecho dessa situação? Chegámos a acordo. Tive a tal conversa, expus os meus pensamentos e a minha visão das coisas. Até que há um dia, em que estava a treinar num horário diferente da equipa, explodi um pouco mais. Disse que não dava mais para mim e que achava que merecia outro respeito por ter ajudado o clube, por ter sido campeão naquele clube. O diretor-geral, Bruno Vitorino, sentiu o meu desabafo, porque estava a sair daquele momento do treino, e no dia seguinte tomou as rédeas da situação, conversámos, chegámos a um acordo. Aquilo que guardo do Torreense são os bons momentos, é um clube muito especial para mim. Veio embora sem ter clube? Sim. Na época 2022/23 Pedro assinou pelo V. Setubal. Na foto com a mulher e o filho recém nascido D.R. Quando e como surgiu o Vitória de Setúbal? Surgiu pouco tempo depois, numa conversa com quem estava a trabalhar comigo, o Jorge Ribeiro. Falou-me da hipótese do Vitória de Setúbal, como de outras. Mas no Vitória de Setúbal estava o mister Luís Loureiro, que me tinha dado a oportunidade no Casa Pia. O Vitória não estava a ter uma época fácil, queriam aproveitar de janeiro para a frente para puxar o clube para cima, para dignificar aquilo que realmente o Vitória merecia. O mister falou comigo, explicou o projeto e fui para o Vitória. Assinou só até final da época? Sim. Entretanto, o seu filho nasceu, certo? O Francisco nasceu enquanto eu estava no Torreense. Assisti ao parto, foi um momento especial para mim. Em Setúbal, não conseguem cumprir os objetivos do clube. Não, mas pessoalmente foi uma experiência boa, dei tudo de mim. Acho que dignifiquei a camisola que vesti e sentia isso na rua pela forma como os adeptos me abordavam. Gostei muito de morar em Setúbal, e o Vitória é um clube enorme, com uma massa adepta enorme, foi um prazer enorme jogar por aquele clube. É algo que não consigo meter em palavras, só sente quem joga por aquele clube. E ficou a espinha encravada na garganta pela forma como a época acabou. O central em ação pelo V. Setúbal D.R. Nessa altura quais eram as suas opções? Como foi parar à Finlândia? A Finlândia surgiu muito mais à frente. Quando a época acabou, houve, não sei se lhe posso chamar um luto por aquilo que tinha acontecido, mas custou-me imenso o desfecho, foi uma semana difícil para mim, para a família também, sentia-se na cidade. Houve várias situações após isso, do Azerbaijão, da Arménia, vários convites do estrangeiro de forma informal. Até que há uma situação forte de poder ir para o Nacional, na II Liga, num projeto a pensar nos próximos dois anos, em que iam entrar investidores no clube. Durante muito tempo aquilo que me foi dito é que ia ser ali o meu futuro, as condições que me estavam a oferecer eram muito boas para mim, para a minha família. Mas as coisas acabaram por não se concretizar. Porquê? Não sei qual foi o motivo, acho que os investidores não chegaram a entrar, aquilo não chegou a ir para a frente. Só que isso já aconteceu numa fase muito avançada do mercado, em que a I e II Liga já tinham começado, a Liga 3 estava a começar. E eu não tinha grandes soluções. A confiança que me tinha sido passada de que ia para o Nacional era tão grande, que tudo o resto, apesar de terem aparecido coisas interessantes, declinei. Depois vi-me numa situação em que tive algum tempo sem jogar. Como fez para sobreviver nesse período. Foi às poupanças? Sim, fomos às poupanças, tivemos ajudas da família da minha mulher e também da minha família. Ainda não tínhamos casa. Tivemos de ficar numa segunda casa da família da minha mulher, em Samora Correia. Voltou a trabalhar? Eu não, a minha mulher sim. Acreditei sempre que alguma coisa iria surgir, que não podia acabar daquela forma, continuei a fazer os meus treinos. Mas houve momentos difíceis. Em 2024, Pedro voltou a sair do país, para jogar no IFK Mariehamn, da Finlândia D.R. Quando em janeiro lhe surgiu a proposta do IFK Mariehamn, da Finlândia, ficou indeciso ou aceitou logo? Praticamente aceitei logo. Tive oportunidade de falar com o mister Bruno Romão que também tinha assinado com o clube na altura, percebi que era alguém sério, muito competente, e que estava ali uma energia diferente. A partir do momento que as coisas começaram a ser mais formais, comecei a falar com a minha mulher e a parte difícil foi que tanto a minha mulher como o meu filho tiveram de ficar em Portugal e eu tinha de ir sozinho. Mas sentia que tinha de aceitar aquele convite. Para além de ser uma I Liga, tinha de mostrar acima de tudo a mim próprio que estava capaz e que tinha mais do que qualidade para estar num nível bom. Chegou à Finlândia no início de 2024, numa altura de muito frio. O choque foi grande? Estava a nevar imenso. Foi logo um choque. Mas senti uma energia muito boa. Eu estava muito motivado para as coisas darem certo. Não achei o futebol assim tão fraquinho, acho que em Portugal é que se calhar não acompanhamos aquele futebol. É um futebol com qualidade, diferente do nosso, o nosso é mais organizado, mais pautado, mais pensado. Mas eles lá têm muitos jogadores jovens, com qualidade. Eles vão sempre atrás da vitória e isso faz com que às vezes o jogo parta, mas para mim foi uma agradável surpresa o campeonato na Finlândia. E dos finlandeses, com que opinião ficou? São pessoas muito humildes, dão tudo a treinar. Treinam como jogam. Não sei se era por ser um treinador novo, mas davam tudo. As pessoas são tranquilas, humildes, não gostam muito de stress, nem de chatices. O balneário é muito diferente do português? No início não são muito calorosos como nós em Portugal. Em Portugal tentamos logo colocar à vontade um estrangeiro que chega. Eles não são tanto assim. Dão-te liberdade para tu falares, para estares à vontade, entre aspas, mas é aos poucos. Vais ganhando a confiança deles e a partir do momento em que se quebra o gelo percebes que são pessoas alegres. O que mais lhe custou nesse meio ano em que esteve na Finlândia? Estar longe do meu filho e da minha mulher. Ela vinha sempre comigo desde a Roménia, o meu filho ainda nem sequer tinha seis meses, foram os primeiros meses de vida dele e eu longe, a saber que estava a perder algumas coisas. Mas, ao mesmo tempo, deu-me força, porque sabia que estava a fazer o sacrifício por um motivo maior. A sair do campo do clube finlandês com o filho pela mão D.R. Quais eram os seus objetivos na altura? Tinham já mais a ver com o querer ganhar dinheiro para dar estabilidade à família, ou ainda tinha ambições de jogar na I Liga portuguesa? Quando cheguei à Finlândia tinha acima de tudo a ambição de provar que merecia mais do que aquele tempo que estive parado, mais do que o que se tinha passado no Torreense, e do que foi o desfecho no Vitória. Sentia que merecia e tinha que ter mais naquilo que era a minha carreira em termos desportivos. Tinha ali uma oportunidade de mostrar que tinha capacidade para jogar numa I Liga na Europa e perceber que portas é que se poderiam abrir. Mas aos poucos, depois da Finlândia fui para o Canadá, agora estou no Kuwait, fui redefinindo os meus objetivos. Com que objetivo foi então para o Pacific FC do Canadá já este ano? Após uma época muito boa na Finlândia, em que tive um destaque grande na equipa e fiz muitos jogos, foram surgindo algumas abordagens. Mas o campeonato na Finlândia acaba um pouco ao contrário do que é o normal na Europa, ou seja, quando estamos livres é quase o mercado de inverno na Europa. Quando surgiu o interesse do Canadá, já numa parte mais adiantada do mercado, não era o ideal para mim, eu estava à procura de uma coisa diferente, mas senti que era um bom desafio por ser o país onde se vai jogar o campeonato do mundo e por estar próximo da MLS, dos EUA. E acima de tudo porque é um país onde toda a gente diz que a qualidade de vida é boa. Eu tinha vindo daquele tempo na Finlândia, sem a família e acho que com a idade que tenho podia ser uma aventura interessante. O facto do Armando Sá ser treinador-adjunto do Pacific FC teve alguma coisa a ver com a sua ida para lá? Sim, ajudou. Quem me levou para lá também tinha contacto com ele. O Armando Sá explicou-me várias coisas sobre o país, sobre o clube, passou-me confiança, e sabendo que estava lá um português, que tinha uma boa relação com o Bruno Basto, senti que era um bom passo na minha carreira. A família também foi? Sim. Foi ganhar mais do que ganhava na Finlândia? Sim, o dobro. No início de 2025, o central (à direita) atravessou o Atlântico para jogar no Pacific FC, do Canadá D.R. Quais foram as primeiras impressões do Canadá? Estive lá do início de fevereiro até julho, mais ou menos. Quando cheguei ao país, pareceu-me um país organizado, as instalações do clube um pouco diferentes, é um bocado americanizado, a forma do estádio… É tudo muito grande, mesmo os carros. Fui recebido de uma forma calorosa por todo o staff e pessoas que trabalhavam no clube, são muito calorosos. Deixaram-me muito à-vontade, deram-me moral, por isso, a primeira impressão foi boa. E o campeonato? O campeonato é diferente de todos aqueles onde estive. É um campeonato muito mais para o show. Vou dar um exemplo. Em Portugal, as pessoas gostam de ver futebol, eles também gostam de ver futebol como é óbvio, mas é tudo programado como se fosse um show, há o jogo, mas há muito entretenimento à volta do jogo. É um campeonato que tem potencial, há jogadores muito interessantes, acredito que tem muita margem para crescer e se calhar daqui a alguns anos vai ser muito maior do que aquilo que é agora. Começou a jogar assim que chegou? Sim, desde o início, marquei logo a minha posição. As coisas começaram a correr bem depois houve ali alguma instabilidade que acho que tem a ver também com o desenvolvimento da liga, dos clubes. Não continuou no Canadá porquê? Não me estava a sentir confortável. Acho que não estavam a dar-me o valor que eu merecia. O Armando Sá foi uma peça muito importante, foi alguém que me ajudou a manter-me muito equilibrado e a tentar mostrar sempre o melhor de mim. É uma pessoa que vou guardar. Mas o contexto tornou-se um bocado difícil porque a minha mentalidade é diferente. O que quer dizer com isso? Eles vivem para o show do jogo, e nós, europeus, o que nos interessa é o jogo em si, controlar o jogo, as situações do jogo, os momentos do jogo, não deixar que a emoção se apodere sobre a parte racional. Lá, às vezes, como é mais bonito um toque de calcanhar, dão mais ênfase a isso do que se calhar meter a bola fora para acabar com jogada porque é isso que o jogo está a pedir naquele momento. Quando aceitei o projeto no Canadá foi para tentar lutar pelo título, foi isso que me foi passado pelo clube, era essa a mensagem que vinha desde a pré-época, mas depois vamo-nos apercebendo que há coisas que têm que melhorar no dia a dia, mesmo na maneira como os jogadores olham para o que é a preparação de um atleta, que há algumas decisões que têm de ser tomadas… Ainda estavam a uma distância grande para que pudessem pensar em ser campeões no Canadá, porque há equipas melhor preparadas e que já têm outro tipo de mentalidade, que ali ainda não havia. Em jogo, no Canadá D.R. A mudança para o Al-Tadhamon, do Kuwait, há mês e meio teve muito mais a ver com a questão financeira? Também teve a ver com a questão financeira, claro. Já desde a Finlândia que queria explorar estes mercados aqui. Para o ano faço 30 anos, portanto, agora sim estou na altura certa para além da parte desportiva também começar a pensar na parte salarial e fazer um pé de meia para mim e para a minha família, porque o futebol não vai durar para sempre e estes mercados aqui é que estão na berra. E que tal o futebol? Daquilo que tenho visto existe qualidade também e se puder aliar a parte desportiva com a parte salarial, porque não? A família está consigo no Kuwait? Sim. A partir daquele momento que estive afastado do meu filho, da minha mulher, na Finlândia, nunca mais quis ficar longe deles. Lembro-me que regressei a Portugal durante dois dias e foi um choque enorme ver a evolução que o meu filho teve. A partir dali disse que para onde fosse a minha família tinha que vir comigo. Nem que isso implicasse seguir outro rumo na minha carreira. Claro que não posso falar com 100% de certeza, porque nunca sabemos o dia de amanhã, mas irei fazer sempre de tudo para que nunca esteja afastado da minha família. Quais são as primeiras impressões do Kuwait? São boas. É diferente do que estamos habituados. Eles separam muito os profissionais dos não profissionais. Os jogadores têm vontade em jogar, têm boas condições, é pena não ter mais adeptos. Há jogadores aqui que são muito interessantes, têm muita qualidade, tanto kuwaitianos, como estrangeiros. Está a ser uma experiência interessante. Já fiz quatro jogos. E como é o futebol aí? Aqui, todas as equipas podem ter no máximo cinco estrangeiros. Tirando se calhar as equipas top, como o Kuwait SC e o Al-Arabi, que conseguem captar os melhores kuwaitianos porque têm outro tipo de orçamento, em todas as outras nota-se uma diferença entre os estrangeiros e os kuwaitianos. Agora, é um campeonato exigente, com um estilo de jogo que não é tão tático. Não dão tanto ênfase à parte tática. O treinador da minha equipa também é português, é o Miguel Leal. Ele tenta passar muitas informações táticas, sinto que a equipa tem crescido bastante nesse aspeto. No Al-Arabi está o mister Marco Alves e também já se nota em termos táticos e pela forma como gira a bola que tem o dedo dele. Pedro com mulher e filho vestidos a rigor com as cores do Pacific FC D.R. Já tem histórias para contar do Kuwait? Não é bem história, mas algo diferente para mim. Na Europa, em dia de jogo, perfilamos ainda dentro do túnel, vamos para o campo com a equipa de arbitragem e depois há aqueles cumprimentos, apertos de mão. Aqui no Kuwait não pode existir muito contacto entre homens e mulheres, mas entre homens quando existe uma certa aproximação, uma certa amizade, eles cumprimentam-se com beijinhos na cara. Eu já tinha visto os meus colegas. Mas é muito engraçado antes dos jogos, quando estamos no túnel, ver os jogadores da minha equipa com os da outra equipa aos beijinhos. Ao início confesso que estranhei. [risos] Só quando o árbitro diz que é para entrar é que eles se perfilam e vamos embora. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no Canadá? Quatro vezes mais. Tem contrato até quando? Até ao final da época. Quais são ainda os seus objetivos profissionais? Neste momento é aliar a parte desportiva com a parte salarial. Se tiver um projeto em que possa lutar por um título, uma subida de divisão, vai sempre me chamar a atenção. Quero abrir este mercado árabe, nestes países, mas não descarto, claro, um eventual regresso a Portugal, isso nunca, nem à Europa. Tem alguma meta para deixar de jogar? Acho que isso vai acontecer com naturalidade. Vai chegar um momento que a própria envolvência vai dizer que é para parar. Começo a preparar-me para isso. Estou inscrito na universidade, a tirar o curso de Gestão, à distância. Também tenho o objetivo de começar a tirar os cursos de treinador. Agora, a minha meta é jogar até o mais longe possível. O central assinou há quase dois meses com o Al-Tadhamon, do Kuwait D.R. Quer ser treinador depois de pendurar as chuteiras? Neste momento, estou com esse bichinho. Queria explorar esse caminho, não começar como treinador principal, mas tirar os cursos, integrar uma equipa técnica, talvez como adjunto, para perceber como são as rotinas, as dinâmicas, os próprios treinadores, no ambiente deles, como olham para o jogo, para a outra equipa. O papel de preparador físico, por exemplo, também é algo que me fascina. Onde ganhou mais dinheiro até agora? No Kuwait. O que ganhou já deu para investir? Sim, em imobiliário, ações e na empresa Uber, que neste momento está com atividade suspensa. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Uma viagem à República Dominicana. Tem algum hobby? Gosto de ler, passar tempo com a minha família, estudar assuntos que me despertam atenção, como investimento, por exemplo. É um homem de fé, acredita em Deus? Sou um homem de fé, não sei se Deus é a melhor palavra, acredito que há algo superior a nós. Superstições tem ou teve? Tenho uma superstição que é entrar sempre com o pé direito em campo. Tatuagens? Não. Em ação pela equipa do Al-Tadhamon D.R. Acompanha ou pratica outra modalidade sem ser o futebol? Não. Faço só o meu trabalho de ginásio, que é um complemento ao futebol. Qual a maior frustração que tens na carreira até hoje? Aquele período que tive sem jogar, a descida no Vitória, a situação que se passou também no Torreense, porque senti que podia ter jogado e ajudado mais quando subimos à II Liga, e mesmo a própria situação na Roménia. E qual o maior arrependimento que tem? Nenhum. O momento mais feliz na carreira? Ser campeão pelo Torreense. O objetivo que ainda está por cumprir? Ser campeão no estrangeiro. Se pudesses escolher, qual o clube de sonho onde um dia gostava de jogar? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha? Tive a alcunha de "panquecas" quando era pequenino, porque era gordinho e tinha um colega na escola que dizia que a minha barriga parecia uma panqueca. Hoje tenho 1,94 m [risos]. Pedro com a família D.R. Há alguma lei do futebol que, se pudesse, alterava ou banias? À primeira vista, não estou a ver nenhuma. Tem algum talento escondido? Acho que invisto bem. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Tinha um emprego normal. Qual o jogador com quem gostava de ter jogado na mesma equipa e qual aquele contra quem gostava de jogar? Gostava de ter jogado na minha equipa com o meu irmão e gostava de ter jogado contra o Ronaldo. Tem uma última história que possa partilhar? Recentemente, a certa hora do dia começo a receber muitas mensagens, muitas chamadas e eu sem perceber o que se passava. Foi porquê? O Mourinho tinha assinado com o Benfica, um dos adjuntos chama-se Pedro Machado, e alguém associou-me e comecei a receber muitas mensagens, a perguntar se realmente era o Pedro Machado, adjunto do Mourinho, para pedirem entrevistas. Tive de contar a verdade, claro [risos] 2 Compartilhar este post Link para o post
Chaplin Publicado 6 Outubro 2025 Citação de Lebohang, há 21 horas: Pedro Machado Mostrar conteúdo oculto “Joguei com o Rui Borges no Mirandela, já ele era carcaça velha, com qualidade e gostava de dar indicações e conselhos aos mais novos” O trajeto que Pedro Machado fez para conseguir viver o sonho de ser jogador profissional de futebol reflete o que a maioria dos seus colegas passa ou passou para cumprir um sonho de criança. Longe dos holofotes, este é um caso de persistência e nesta parte I do Casa às Costas, o central de 29 anos, conta como tudo começou no Quarteirense, revela muitos pormenores sobre os meandros das divisões inferiores, como chegou a trabalhar na Zara e na Uber, antes de partir para a Roménia e estrear-se numa I Liga Nasceu na Amadora. É filho e irmão de quem? Tenho um irmão, dois anos mais novo. A minha mãe teve várias profissões, quando nasci trabalhava no Auchan, mas depois teve oportunidade de trabalhar num cartório em Lisboa. Ela destacou-se no trabalho e como abriram um cartório no Algarve foi convidada para fazer parte dessa equipa. Após muita reflexão em família, decidimos ir viver para Quarteira. Eu tinha eu uns nove, dez anos. O meu pai sempre foi eletricista. Houve uma altura, quando rebentou a crise em 2008, que ele esteve seis meses emigrado na França, foi uma fase difícil que me marcou bastante. Antes de irem para o Algarve onde vivia? Cresci na Reboleira, morava mesmo em frente ao campo do Estrela da Amadora, da minha janela via o estádio do outro lado da rua. Em criança o que dizia querer ser quando fosse grande? Comecei por dizer que queria ser veterinário, mas sempre tive a paixão da bola, sempre quis ser jogador de futebol também. Eu passava muito tempo com a minha avó, em vez de ir para os ATL, e as nossas brincadeiras eram todas à volta desses meus desejos. Fazíamos muitos jogos de futebol em casa, a baliza era a entrada da cozinha. E torcia por algum clube? O meu pai é benfiquista e influenciou-me. A minha mãe não tinha clube. Gostava da escola? Gostava de ir para a escola, principalmente quando era criança, para me divertir. A mudança para o Algarve foi difícil, na fase inicial, porque deixei os meus amigos e já estava habituado à escola da Reboleira. Quem eram os seus ídolos? Sempre gostei muito do Cristiano Ronaldo. A partir do momento em que apareceu foi sempre uma grande inspiração. Também gostava muito do Puyol, do Barcelona, das características que tinha. Pedro Machado em bebé D.R. Quando e como começou a jogar futebol num clube? Essa é uma história curiosa porque eu gostava muito de jogar à bola, jogava na rua com os meus amigos e chateava muito a cabeça, principalmente do meu pai, para meter-me a jogar no Estrela. Um dia o meu pai levou-me para tentar inscrever-me no Estrela, mas eles não aceitaram a minha inscrição. Eu era uma criança gordinha e não sei se foi por causa disso, mas recordo-me que eles olharam para mim e disseram que não tinha condições para ir para o Estrela. Aquilo marcou-me, ficou-me na cabeça, fiquei triste. Entretanto, os meus pais colocaram-me noutros desportos, natação, basquete, fiz muita natação principalmente. Então o futebol só surgiu no Algarve? Sim, quando fui para o Algarve, como já era um estilo de vida diferente, mais tranquilo, sem a azáfama de Lisboa, havia maior disponibilidade dos meus pais. Mas a minha mãe não queria, ela era um bocado contra, tinha receio, porque eu tinha de ir sozinho para o treino, apesar de ficar muito perto. Entretanto, houve um torneio na escola, entre as turmas todas, a professora perguntou quem queria fazer parte da equipa. Claro que toda a gente levantou a mão. Ela fez uma seleção, primeiro entraram os que já jogavam federados, e eu fiquei de fora. Mas os meus colegas pressionaram-na a meter-me no torneio, porque gostavam de jogar comigo, achavam que eu tinha jeito. Ela acabou por ceder. O torneio correu-me bem, joguei sempre, fiz alguns golos, aquilo foi muito marcante para a nossa turma, a professora ficou agradada, e numa das reuniões de pais tocou nesse assunto com a minha mãe. Disse que eu tinha jeito e perguntou-lhe porque não me inscrevia no Quarteirense. A minha mãe ainda ficou um bocado reticente, mas os meus colegas andavam sempre comigo a dizer “vem, vem fazer parte da equipa, vem, vem, vem”. Foram eles que convenceram a sua mãe? Não. Eu, às escondidas da minha mãe, fui aos treinos no Quarteirense. Eram às quatro e meia da tarde, ainda era pelado, peguei no meu irmão, que ficava em casa comigo, e fomos os dois fazer um treino às escondidas. Equipámo-nos, calçámos uns ténis, não tínhamos chuteiras. Falei com o senhor Amílcar, o meu primeiro treinador, perguntei se podia treinar, ele disse: “Claro que sim”. De um lado treinava a equipa dos federados, e do outro os meninos que não podiam ser inscritos e que iam aparecendo, como eu. Fizemos um jogo, correu-me bem, o Sr. Amilcar ficou entusiasmado e disse para voltar no dia seguinte. Fiz isso durante uma semana. Sempre sem o conhecimento dos seus pais? [Risos] Sim. Tinha uns nove, dez anos. Chegávamos a casa e tínhamos de esconder a roupa. A vontade de jogar era minha, o meu irmão foi um bocado arrastado. Ele jogava futebol por minha influência. Mas, claro, depois tive de contar à minha mãe, porque deram umas fichas para me inscrever na equipa. Como ela reagiu? Não reagiu mal, porque tinha havido aquela conversa com a professora. E foi assim que comecei no Quarteirense. Atrás, da esquerda para a direita: a avó, a mãe, o pai e uma tia. Em baixo: Pedro e o Irmão D.R. Aos 15 anos mudou-se para o Louletano. Porquê? Essa também é uma história engraçada. Eles dividiam as equipas em A e B, em todos os escalões, e eu fazia sempre parte da equipa A. Sempre fui um menino grande e com alguma força, comparado com os outros, então acabava sempre por jogar. Nos iniciados, quando começámos a jogar futebol de 11, jogava também com os mais velhos, o que começou a gerar algum interesse no Algarve. As pessoas viam em mim algum talento. Sempre que chegava o final da época, havia um clube ou outro que de uma maneira mais informal tentava convencer-me. Nunca quis sair do Quarteirense, gostava de jogar ali com os meus amigos. Até que certo dia, o filho do Sr. Amílcar, o Cristiano Duarte, que foi meu treinador durante alguns anos, saiu para o Louletano, para treinar as equipas de juvenis, no campeonato nacional. Falou comigo, para eu ir também. Fiquei reticente, porque tinha de regressar à noite, na carrinha, chegava tarde a casa... Até que falei com o meu pai. Isso foi antes ou depois do seu pai ter ido para França? Foi depois. Ele foi quando eu tinha 12 anos e só lá esteve seis meses. Mas nunca mais me esqueço do dia em que tivemos de nos despedir dele. Ainda hoje me custa fazer despedidas. Na altura foi muito duro para nós, mesmo para a minha mãe. Quando o meu pai saiu ela chorou bastante, eu e o meu irmão tentámos confortá-la, agarrámo-nos os três, foi um momento marcante. Eu era o irmão mais velho, e apesar de só ter 12 anos, senti que tinha de ser um bocado o “homem” da casa. Não foi algo que alguém me tivesse incumbido, foi algo que senti. Pensava, o meu pai está fora, está a fazer este esforço pela família, tenho que ajudar de certa forma. Pedro (4º atrás a partir da direita) começou a jogar futebol no Quateirense D.R. Voltando ao Louletano. O que o levou a decidir ir para lá, foi a tal conversa com o seu pai? O treinador falou com os meus pais, disse que queria contar comigo, achava que era um passo importante para mim, se realmente quisesse ser jogador de futebol. E um dia o meu pai chegou-se ao pé de mim e perguntou-me: “Queres mesmo ser jogador de futebol? Queres levar isso mais a sério”; “Quero, quero jogar em equipas maiores. Quero ser como o Ronaldo”; “Estás no Quarteirense, é um bom clube, deu-te tudo, gostas muito de estar ali, mas vais jogar a distrital e estás na tua zona de conforto. Pensa nisto como uma montra, em que no Quarteirense estás dentro da loja, e há muita gente à frente da vitrine da montra, mas pouca gente vai entrar dentro da loja, no Louletano, que vai jogar campeonato nacional com equipas mais fortes, que é o que tu queres, tu estás mesmo na montra da loja, o vidro da vitrine está ali mesmo, é muito fraquinho, é só alguém bater no vidro e tu consegues sair”. Esta conversa marcou-me bastante. Foi o impulso que precisava para trocar de clube? Sim, pensei, o meu pai tem razão, se quero algo mais do futebol, vou ter de arriscar. E naquele momento, praticamente tomei a minha decisão. Depois houve outras situações que ajudaram ainda mais a ir para o Louletano. Que situações? Não quero falar muito sobre isso, ficou para trás, mas... Eu era miúdo, levava tudo muito na desportiva, na brincadeira, ia para me divertir. Mas as pessoas já viam em mim um produto e como havia rivalidades entre clubes não se via com bons olhos a minha saída. A partir do momento que tomei a decisão, uns diretores do clube tentaram fazer-me a cabeça para eu não ir. Os meus pais ficaram chateados, disseram que eles não tinham que ter aquele tipo de abordagem, eu era um miúdo e, se tinham alguma coisa para dizer, tinham que falar com eles, não era comigo. Mas pronto, fui mesmo para o Louletano. O Sr. Luís José, que infelizmente já faleceu, foi cinco estrelas com a minha família, falou sempre com o meu pai, mostrou qual era a intenção e o projeto para mim, enquanto jogador. Nessa altura começou a ganhar dinheiro com o futebol? Não. Mas o Louletano teve que pagar para eu poder ir para lá. Os treinos eram por volta das seis da tarde, porque eu estudava, e ia com dois amigos ingleses que também trocaram o Quarteirense pelo Louletano no ano anterior. O pai deles levava-nos e traziam-nos. Só nos juniores é que deixei de ter essa boleia e aí já tinha que ir na carrinha do clube. Pedro (à esquerda) com o irmão D.R. Jogou sempre como central? No Quarteirense joguei sempre como central, mas quando passámos para o futebol de 11 ainda me tentaram colocar a médio defensivo, neste caso a 6, à frente da defesa. No Louletano, no primeiro treino que fiz nos seniores, ainda sendo júnior de 1.º ano, o treinador meteu-me a médio direito, a 8, quase a fazer o box-to-box, mas a minha formação foi muito de central e número 6. Quais passaram a ser as suas referências como central? O Puyol, como já disse, e depois, quando o Ronaldo vai para Manchester comecei a acompanhar o Vidic e o Rio Ferdinand, gostava muito desses jogadores. Desde muito novo que tinha a rotina de antes de ir para os jogos ver vídeos desses jogadores para me motivar. Como às vezes sabia que iria jogar a médio defensivo, a 6, gostava de ver o Pirlo também. Quando começaram as primeiras saídas à noite e namoros mais sérios? Nunca fui muito de sair à noite. A partir do momento que tomei a decisão de trocar de clube e a conversa que tive com o meu pai, meti na cabeça que agora ia ter de dar. Quando comecei a jogar o campeonato nacional, pensei para mim que tinha mesmo de agarrar a oportunidade. Mas não deixei de me divertir. Desde muito cedo, e também com a influência dos meus pais, tive algumas regras que tinha de seguir, mas diria que começar a sair à noite foi por volta dos 18 anos, e não aconteceu muitas vezes. Também não é um ambiente que gostava muito, não me sentia muito confortável. Aos 17 anos comecei a fazer parte da equipa sénior do Louletano e ainda estudava. Concluiu o 12.º ano? Sim. O central (3º atrás a partir da esquerda) com a sua equipa do Louletano, em 2013/14 D.R. Em que altura passou a acreditar que podia fazer do futebol a sua vida? Fazer do futebol a minha vida foi mais tarde, mas que poderia ir atrás do meu sonho foi quando o Louletano me permitiu, ainda sendo júnior, fazer parte do plantel sénior. Como se projetava no futuro? Quais eram as suas ambições? Sonhava o mais alto possível, via-me na Liga dos Campeões... Era um miúdo... Ainda por cima foi na altura em que o Ronaldo explodiu, por isso ia atrás do máximo, pensava que ia chegar ao topo do futebol, que era uma questão de trabalhar. As expectativas eram mesmo muito altas. Disse que aos 17 anos começou a trabalhar com os seniores. Estava muito nervoso no primeiro treino? Estava. Estava a treinar com os juniores e um dia vêm falar comigo e dizem-me que o treinador dos seniores queria que eu fosse lá treinar. Cheguei a casa super contente, nessa noite nem consegui dormir bem, porque sentia que estava ali uma oportunidade incrível. Estava super nervoso, não conhecia ninguém, mas deixaram-me muito à-vontade. O treinador faz um jogo-treino, diz que vou jogar a 8, não conhecia a posição, ainda mais nervoso fiquei, mas pensei: não tenho pressão nenhuma, vou dar o meu melhor e logo se vê. Pelos vistos correu bem. Sim, no final os meus colegas mais velhos vieram dizer-me: “Epá, tu tens garra e tens qualidade. Que idades tens?”. Caí um bocado em graça e no dia seguinte quiseram que fosse treinar outra vez. Passados dois dias, surgiu a oportunidade de ir à experiência aos juniores do Belenenses. O Belém é uma equipa grande, com história, para mim era um fascínio enorme e fez-me lembrar a altura que troquei o Quarteirense pelo Louletano e a conversa que tive com o meu pai, sobre a montra. Mas não ficou no Belenenses. Porquê? As coisas até correram bem durante aqueles três dias, mas o treinador dos seniores do Louletano ligou-me, queria que eu fosse fazer o jogo da final da Taça do Algarve. Contei-lhe a situação e ele disse que ia falar com o diretor. O diretor ligou-me a dizer que o treinador queria mesmo que eu fosse jogar a titular. Acabei por voltar ao Louletano. Pedro com a bola, durante um jogo pelo Louletano D.R. Aos 18 anos já estava na equipa principal do Louletano. É nessa altura que assina contrato? Sim, não era um contrato profissional, nem era de formação, era um acordo, em que eles pagavam €100. Naquela altura €100 era fantástico, nunca tinha recebido. Lembro-me que cheguei a casa, fui ter com os meus pais e disse: “Isto é para vocês”. Claro que não aceitaram, disseram que era dinheiro meu, para as minhas coisas. Acabou por ficar só essa temporada no Louletano, na seguinte vai para o Mirandela, certo? Não fui direto para o Mirandela. Quando saí era suposto ir para o Vitória de Guimarães. Estive seis meses no Vitória de Guimarães, na equipa B. No início foi uma experiência. Nem me equipava com eles, equipava-me com os que iam aparecendo à experiência, noutro balneário. O treinador era o Vítor Campelos e o adjunto o Marco Alves. Foi viver para onde? Para um apartamento cedido pelo Vitória onde também estavam outros dois colegas. Custou-lhe deixar o ninho? Acho que custou mais aos meus pais. Claro que senti a falta dos amigos, da família, mas estava a ir atrás de um sonho. Estive lá até janeiro, as coisas correram bem. Assinou contrato? Não consegui assinar contrato, por causa dos direitos de formação. Estive sem receber, até que me pagaram €500, porque souberam que já estava lá há algum tempo sem receber. Mas tinha tudo pago, a casa, a alimentação. Fiquei esse tempo todo na equipa B, eles tentaram resolver a parte dos direitos de formação, foram falar com os clubes por onde tinha passado, para tentar chegar a acordo, mas os clubes pediram o máximo que podiam pedir. Foi só esse o motivo? O que me foi dito é que o Vitória estava a tentar entrar na Liga Europa, tinham um jogo em casa com uma equipa austríaca, algo assim, toda a gente pensava que o Vitória ia entrar na fase de grupos da Europa e o certo é que perderam 4-0. Eu estava no estádio nesse dia, aquilo foi um choque enorme para o clube, para toda a gente. Não conseguem apurar-se e não recebem aquele dinheiro extra que pensavam ir receber. E pronto, não tiveram capacidade de chegar a acordo com os clubes da minha formação. Falaram com os meus representantes e arranjaram a solução de eu ir para o Fafe. Cheguei a treinar no Fafe, mas já era uma realidade completamente diferente. Torceu o nariz a essa proposta de ficar em Fafe? Sim. Eles queriam que eu ficasse no Fafe para depois tentarem novamente a minha contratação para o Vitória, com outro tipo de acordo. Mas eu não quis. Voltei ao Vitória, disse que preferia ficar o ano todo a treinar com a equipa B, porque sentia que precisava daquele estímulo. O mister Vítor Campelos e o mister Marco foram cinco estrelas, fizeram-me sempre sentir parte da equipa, os meus colegas também, apesar de ser uma situação um pouco estranha. Até que chegou uma altura que nem era benéfico para mim, nem para eles. Os meus representantes vieram falar comigo, disseram-me que estar um ano sem jogar não podia ser opção, eu era muito jovem, precisava jogar, de estar em contexto competitivo. E é aí que surge o Mirandela. Já não teve como recusar. Percebi que estava a chegar a um beco, que tinha de tomar uma decisão e confiava no representante que estava comigo na altura. Ele achou que era bom para mim e que me iria dar outro tipo de projeção. Na época 2015/16, Pedro Machado jogou no Mirandela D.R. Foi sozinho para Mirandela? Sim. Foi duro deixar o Vitória e continuar muito longe da família. No Vitória eu estava a viver um sonho, estava num plantel de II liga. No Mirandela sentia que estava a dar um passo atrás, porque estava a jogar na mesma divisão que o Louletano e estava sozinho. Mirandela é uma cidade muito boa, pessoas incríveis, mas quando fui para lá fui inserido numa casa que, quando entrei nela, pousei as minhas coisas e saí porta fora a chorar. Liguei para o meu pai e disse-lhe que não tinha condições nenhumas e que não ia ficar ali. Porque estava tão desesperado? Como era a casa? Era muito má. Fui inserido numa casa com jogadores africanos, que eram cinco estrelas, mas que tinham rotinas muito diferentes das minhas. A casa não tinha condições nenhumas para eu viver. O meu quarto nem janela tinha, era só uma cama e um armário. Os meus colegas eram muçulmanos, acordavam de madrugada para rezar, um deles fazia da sala o quarto dele, fechava as janelas, fechava tudo, até para fazer o chá, era ali que fazia. Senti que tinha de fazer um esforço, porque queria ser jogador de futebol, mas não daquela forma. Eu tinha o conforto da casa dos meus pais, vou para o Vitória, divido casa com outros colegas, não é a minha casa, mas tinha condições, ali deparo-me com aquilo e caiu-me tudo. Foi o seu pai que o convenceu a ficar? Falei com os meus pais, eles disseram-me que iam apoiar-me sempre nas minhas decisões, mas antes de desistir tinha de ver se não havia uma solução. Perguntaram-me se já tinha falado com o clube e explicado a situação, porque se calhar até me mudavam de casa. Entretanto, falei com o meu representante, e eles trataram diretamente com o presidente. O presidente veio falar comigo, mostrou total abertura para me colocarem noutra casa. Fui para uma casa totalmente diferente, com colegas portugueses, conheci pessoas incríveis, tinha direito às minhas refeições no restaurante da Dona Irene, que me tratou praticamente como um filho. Ainda partilhou balneário com o Rui Borges, hoje treinador do Sporting. Como ele era enquanto jogador? Estava na fase final da carreira, mas era bom jogador. Na gíria do futebol, era aquela carcaça velha, que tinha qualidade. Nessa altura ele já manifestava vontade de ser treinador? A mim, diretamente, nunca me disse, mas era o capitão de equipa, já se via nele aquela vontade de, principalmente connosco, os miúdos, ajudar com indicações, com alguns conselhos. Eu já tinha atenção a determinadas coisas, tive algumas conversas com ele e tentou sempre ajudar-me naquilo que sentia que eu podia melhorar. Ficou surpreendido quando foi escolhido para ser treinador do Sporting? Não foi aí que me surpreendeu, porque ele passou do Vitória para o Sporting e eu já lhe reconhecia muita qualidade. Surpreendeu-me quando começou a carreira no Mirandela e o trajeto que fez no Académico de Viseu. Fui sempre acompanhando a trajetória dele e comecei a perceber que as equipas dele tinham algo de especial. A minha mulher é sportinguista e com a saída do Rubén Amorim chegámos a conversar que o Rui Borges seria o treinador ideal pelo trabalho que estava a fazer no Vitória e por aquilo que conhecia enquanto colega. Fiquei muito feliz por ver que o escolhido foi mesmo ele, com o Ricardo Chaves, que já fazia parte da equipa técnica. O central (à esquerda) com os pais e o irmão D.R. Só esteve seis meses no Mirandela. E depois? No mercado de verão surgiram algumas oportunidades, estive perto de ir à experiência ao Moreirense porque tiveram um problema com um jogador, mas depois não se concretizou e acabou por aparecer o Sertanense. Era um projeto que tinha muitos jogadores dos meus representantes, era uma equipa para tentar o acesso à II Liga, numa de potenciar o clube e os jogadores. Que memórias tem dessa época no Sertanense? São boas. Começámos muito bem o campeonato, fizemos sete vitórias seguidas, houve logo muito entusiasmo à volta da equipa, tínhamos um grupo muito alegre, muitos deles já se conheciam. Mas as coisas não foram sempre maravilhosas, estávamos a jogar contra equipas que tinham outro tipo de orçamento, outra estaleca. Fiz bastantes jogos, mas no final da época segui com a minha vida, à procura de algo melhor. Falou-se de duas possibilidades, o Olhanense e o Farense, dois históricos da minha zona, com dois projetos de subida. Fiquei a aguardar, a ver qual dos dois poderia ser solução para mim. O Olhanense foi aquele que chegou mais à frente e integrei o plantel. Mas não esteve lá muito tempo. Faço a pré-época toda no Olhanense, joguei, tudo normal. Vou para o banco no primeiro jogo, não entrei. Depois vieram falar comigo e disseram-me que tinha de procurar uma solução porque tinham muitos centrais. Foi um choque. Eu queria fazer parte daquele contexto e na altura o mercado estava praticamente fechado. Custou-me imenso. Tinha trabalhado bastante para aquilo durante a pré-época. Mas pensei: não vou permitir que o meu sonho acabe assim, tenho de fazer alguma coisa por mim. O presidente do Louletano tem um stand de carros, fui até lá, expliquei-lhe a situação, ele disse que tinha de falar com o treinador, mas como eu era um miúdo da formação, só mesmo se não pudessem é que não iria fazer parte do plantel. Ainda mantinha as ambições que tinha aos 16/17 anos? Quando vou para o Olhanense vou com a ambição de subir de divisão, senti que era um passo em frente da minha carreira e de um momento para o outro caiu-me tudo, tiraram-me o tapete. Inclusive comecei a trabalhar em part-time na Zara e pensei: “Vou continuar a ir à luta, o futebol ainda pode dar, mas se calhar não posso fazer disto a minha prioridade”. Foi uma altura difícil para mim, mas nunca deixei de acreditar. O central chegou ao Casa Pia AC na época 2018/19 Gualter Fatia Como conseguiu na época 2018/19 jogar nos sub-23 da B SAD e no Casa Pia AC? Essa também é uma história curiosa que pouca gente sabe. Sempre fui muito dedicado, muito focado, os meus amigos gozavam comigo, porque comecei a levar muito a sério a parte da nutrição, do treino fora do futebol, etc. Não me identificava com o part-time na Zara e os meus colegas do trabalho diziam mesmo: “Tu és porreiro, mas isto não é a tua praia”. Cheguei a uma fase que decidi voltar a apostar as fichas todas no futebol. Larguei o part-time, na fase final da época, nos meses de verão normalmente ia para a praia, mas peguei nas minhas coisas e fui para Lisboa. Fazer o quê? Fiquei a viver na casa da minha avó e passei a treinar com um preparador físico que treinava jogadores de futebol. Comecei a trabalhar a minha parte mental com a Susana Torres. Ela estava no começo, foi ainda antes daquele boom com o Éder. Foi-me ajudando a ter as ferramentas que os outros jogadores que estão num patamar acima têm. Qual foi o maior ensinamento que ela lhe deu ou a melhor ferramenta? Nunca desistir, nunca virar a cara à luta e arranjar sempre uma solução para aquilo que são os meus problemas. Porque existe sempre uma solução e tenho de tentar descobri-la. Um dia estou em casa e vejo que o Sindicato dos Jogadores ia organizar o estágio para os jogadores que não tinham contrato. Aquilo fez-me um clique. Percebi que iam treinar num pavilhão em Odivelas e fui para lá, para a bancada, ver o treino. Era a única pessoa a ver o treino. O treinador era o Silas. Ganhei coragem, desci lá abaixo, perguntei se podia fazer parte do estágio. Ele disse: “Claro que sim. Amanhã vamos treinar no Jamor, às seis horas aparece, não tem problema nenhum.” Pedro com a bola, durante um jogo pelo Casa Pia AC Gualter Fatia Foi através do estágio do Sindicato que foi parar à B SAD? Comecei a treinar com o Sindicato, à espera de colocação. Entretanto, o Silas vai treinar o Belenenses, na altura em que houve aquela divisão no Belém. Ele era para começar na equipa de sub-23, identificou vários jovens para fazerem parte dessa equipa, eu era um deles. Entraram em contacto comigo, chegámos a acordo, vou assinar o meu contrato com o Belenenses para os próximos três anos e o Silas passa a ser o treinador da equipa principal, o Neca e o mister Wilson são os treinadores dos sub-23. E não ficou lá a época toda. Porquê? Comecei a jogar, era um dos capitães de equipa, as coisas estavam a correr muito bem, o mercado estava a fechar quando surgiu o interesse de uma equipa que ia jogar I Liga, em Chipre. Disse que não queria, que o objetivo era mesmo chegar à equipa principal do Belém, queria lutar por isso. O Zé Luís, que era o diretor-desportivo da equipa principal, chegou a falar comigo, o Silas também, perceberam a minha intenção, que estava bastante focado em fazer parte da equipa principal da SAD do Belém. Fiquei ali pelos sub-23, sempre a espreitar a equipa principal. Fazíamos vários jogos com a equipa principal, as coisas estavam a correr muito bem, até que um dia um dos meus colegas apanha uma virose, leva-a para o balneário e eu fui um dos que apanhou essa virose. Fiquei de fora um jogo, a equipa acabou por perder e, de repente, parece que houve uma autêntica revolução, vinda de cima, com ordens que os mais velhos não podiam jogar, iam dar oportunidades aos mais novos. Nós inclusive começámos a treinar à parte na equipa dos sub-23, sempre muito bem acompanhados pelo mister Neca e o mister Wilson, que foram incansáveis connosco. Como saiu dessa situação? Surgiram algumas opções para mim, mas que não me faziam sentido nenhum, porque ia ter mais gastos do que aqueles que tinha no Belenenses. Tinha aquela época toda, mais dois anos de contrato e sentia que tinha capacidade para fazer parte da equipa principal e que o que me estava a acontecer, não era algo derivado do meu trabalho, do meu profissionalismo, ou da minha qualidade, mas vindo de terceiros. Até que certo dia disseram-me que queriam rescindir e que a partir daquele momento não treinava mais ali. Aquilo chocou-me imenso porque sempre fui muito profissional e dei o meu melhor. Os próprios treinadores não percebiam e não achavam que fosse a forma correta de me tratarem. Naquele dia a história chegou aos ouvidos do Silas e cinco minutos depois de começar o treino da equipa principal o mesmo diretor veio ter comigo: “Pedro, tenho uma excelente notícia, o Silas quer que vás treinar na equipa principal porque tem falta de um central”. Passei do pesadelo para o sonho novamente. O sonho durou pouco, certo? Sim. O Silas deu-me uma mão, não permitiu que eu não treinasse naquele dia, integrou-me na equipa principal da B SAD, fiz o meu treino, correu muito bem, mas no final do treino continuava tudo na mesma. Depois, apresentaram-me um papel como se eu tivesse que aceitar aquilo e eu disse que as coisas não eram assim tão simples. Não vim embora de mãos a abanar, tive de defender aquilo que são os meus direitos. Pedro com a Taça d Campeonato de Portugal, que levou subida do Casa Pia AC à II Liga, em 2019 D.R. Depois é que surgiu o Casa Pia AC? Entretanto, um novo empresário vem ter comigo com a perspetiva de ir ao Luxemburgo tentar arranjar um clube lá. Vou com esse dito empresário e mais outro jogador, pagando as viagens do nosso bolso, fazemos um jogo de apresentação numa equipa que devia ser a do sindicato de lá, contra uma equipa que disputava a I Divisão no Luxemburgo, para eles poderem observar os jogadores. As coisas correram bem mais uma vez, a outra equipa queria ficar comigo, mas o empresário já tinha apalavrado com uma outra equipa, houve um bocado de confusão e no final, nem uma equipa, nem a outra e fiquei de mãos a abanar, tive de voltar para Portugal. Esse empresário nunca mais deu à costa. O que fez? Tinha aberto há pouco tempo uma empresa Uber e comecei a trabalhar como Uber, a conduzir o meu carro. Fiz de motorista na minha empresa. Entretanto, surgiu um outro empresário, com uma situação da Itália. Eu estava disponível para tudo, queria voltar a jogar. Vendeu-me o peixe que estava ali uma grande oportunidade para eu abrir mercado em Itália. Cheguei a Itália, apresentou-me uma casa horrível, sem condições absolutamente nenhumas, liguei logo para ele. Disse que era só aquela noite. Nem dormi nada nessa noite. No dia seguinte vou para o treino sem descansar, era um treino ligeiro porque a equipa ia ter jogo no dia seguinte, e encaram-me como se eu fosse à experiência, quando me tinham dito que já estava certo no clube. Tenho uma conversa com os treinadores, estes dizem que eu ia fazer parte da equipa, o diretor é que não queria, mas lá fui treinar. Mas não ficou em Itália. Não. Já explico. Um colega cabo-verdiano apercebeu-se da minha situação e convidou-me para ir para casa dele. Passei a noite na casa dele, estava lá também um colega português, no dia seguinte vou ver o jogo de uma equipa que fazia parte do campeonato deles e em conversa pergunto qual é a divisão e eles dizem que é a quarta divisão italiana. Eu comento: “Então é uma divisão abaixo da nossa equipa” e eles: “Não, esta é uma divisão acima da nossa”. Ou seja, tinha-me vendido que eu ia para a III Divisão italiana e afinal era a V. Confrontei as pessoas em questão com a mentira e disse que queria ir embora, que não ia assinar nada. No clube foram corretos comigo, perceberam que tinha sido enganado, deixaram-me voltar para casa. O central em jogo pelo Casa Pia AC D.R. Voltou a trabalhar na sua empresa de Uber? Venho para Portugal, sem clube, sem nada e vejo-me novamente numa situação difícil. Mas aquele trabalho psicológico que tinha feito levou a que, para mim, desistir não era opção. Entretanto, como já tinha feito uma pen com os meus melhores momentos em vídeo, fui bater à porta do Casa Pia. Consegui chegar à fala com o diretor Carlos Pires, nessa altura também estava lá o Ruben Amorim. Expliquei a minha situação, entreguei-lhe a minha pen e ele disse que ia falar com o treinador. Vim embora pensando que nunca mais iriam lembrar-se de mim. Mas chamaram-no. Entretanto, fui tentar os sub-23 do Cova da Piedade. Fui lá ver o treino, consegui falar com o diretor-desportivo, expliquei a minha situação, disse que ia falar com o treinador. O treinador sabia quem eu era e a minha história, disseram-me para voltar no dia seguinte. Lá fui eu novamente, treinei, fizemos um jogo entre nós, fiz um golo, mas não me deram a certeza se conseguiriam ficar comigo, porque tinha um orçamento muito apertado. Vou para casa, almoço, e liga-me o Carlos Pires, do Casa Pia, a dizer que o central deles tinha ido para o Sacavenense e que tinham um lugar em aberto para mim, só tinha que ir treinar com eles para verem se não tinha nenhuma lesão. Falámos logo de valores e tudo mais, e pronto, no dia seguinte apresentei-me. O Ruben Amorim já tinha saído devido à polémica do curso de treinador e quem entra é o mister Gonçalo Monteiro, que esteve comigo no Sertanense. E foi assim que entrei no Casa Pia, fiz das tripas coração para aquilo dar certo. O grupo era incrível, foi um dos melhores grupos de jogadores que já tive. A energia era muito boa. Quando refleti em casa senti que tinha passado do inferno ao sonho novamente porque o Casa Pia estava em 1.º lugar, a jogar um futebol incrível, a dominar tudo. Assinou por quanto tempo? Assinei até ao final da época. Em 2020/21 Pedro Machado jogou pela UD Oliveirense Gualter Fatia Subiram à II Liga e renovou. É curiosa essa história, porque eu faço os 23 anos, tinha feito poucos jogos no Casa Pia, apenas seis jogos e não tinham sido completos. Mas eu fazia os treinos como se fossem jogos. Tinha uma atitude competitiva muito boa e isso caiu em graça. O mister Luís Loureiro, que tinha substituído o mister Gonçalo Monteiro, gostava de mim, um dos capitães, o Abel Pereira, tratou-me como um filho, era da mesma posição que eu, deu-me sempre muita confiança e as coisas acabaram por acontecer, ofereceram-me três anos de contrato. Mas essa época não correu bem ao clube, veio a covid-19 e o campeonato não chegou ao fim. Ainda vivia em casa da sua avó? Sim, porque ela morava em Lisboa, mas passava muito tempo no Alentejo, na terra. Foi difícil passar o confinamento sozinho? Foi. Estava a ter uma época de sonho e depois aconteceu aquilo, aquela incerteza se o campeonato iria voltar ou não. Estava a fazer muitos jogos na fase final, fazia parte do grupo de capitães, queria dar sequência ao trabalho que estava a fazer, por isso treinava em casa, tentava dar uma corrida na rua e ia treinar com o meu preparador físico, com as precauções todas. Muitas vezes ele abria a porta do ginásio para eu treinar sozinho e poder manter-me em forma. E nos tempos mais mortos, o que fazia em casa? Eu não passava muito tempo em casa porque como ainda tinha a empresa Uber, às vezes pegava no carro e ia trabalhar, para fazer uma coisa diferente e não ficar tanto tempo em casa. Em jogo pelo UD Oliveirense Gualter Fatia Por que razão não continuou no Casa Pia, na época 2020/21 e acabou na UD Oliveirense? A Oliveirense surge de uma necessidade, porque não sabia o que iria acontecer no Casa Pia, se ia descer ou não. Com a época que tinha feito na II Liga, sentia que tinha de aproveitar o facto de me ter estreado nas ligas profissionais e o interesse que se andava a gerar à minha volta. Os outros clubes não paravam, davam seguimento às coisas porque sabiam que iam ficar na II Liga e o Casa Pia não. Alguns projetos sondaram-me e através do empresário surgiu a Oliveirense. Tive de tomar a minha decisão e segui para a Oliveirense. Era um clube com boas condições, gente muito competente, muito apaixonada pelo clube e surpreendeu-me bastante. É nessa época que conhece a sua mulher? Sim, conheci a Vanessa através do Instagram. Eu andava embeiçado por uma rapariga, mas houve um momento que percebi que tinha de seguir noutra direção. Eu já era amigo dela no Facebook, já a tinha visto. Identificava-me com aquilo que ela escrevia e postava, mas não a conhecia de lado nenhum. Fui começando a seguir mais, a ver mais. E, não sei se é energia, ela começou a seguir-me no Instagram. Eu sigo-a de volta. Ela canta muito bem, fazia uns stories a cantar, eu reajo a essas histórias, e a partir daí começamos a ter uma conversa diária… Até hoje [risos]. Ela morava em Lisboa, era rececionista numa clínica e tinha a casa dela. Tem histórias para contar dos tempos que jogou no Casa Pia AC? Recordo-me de uma após a época da subida. Há uma altura em que as minhas botas estragam-se e tenho de comprar umas novas. Eu costumava usar as Adidas Predator, e para o meu tamanho só havia as de cor de rosa. Tive de comprar essas. Fui para o treino, ainda não tinha feito muitos jogos, estava a ganhar o meu espaço numa época nova e como era rotina, antes do treino começar o mister juntou o plantel para dizer umas palavras. Estamos ali todos, até que a dada altura ele olha para a minha cara e diz: “Não, não. Pelo amor de Deus. Isto não pode ser verdade”. Ficamos todos a olhar uns para os outros, sem perceber o que se passava. E ele: “O meu central com umas botas cor de rosa. Desculpa lá, mas não”. Foi a risota total. Ele insistiu: “Vai lá trocar essas botas”. Eu não tinha outras botas e disse-lhe. “Um central meu com botas cor de rosa não pode ser, vai buscar uns ténis, uma coisa qualquer”. Eu não tinha nada. O grupo numa risota dizia-me: “Não, não. Mostra personalidade, vai com as botas até ao fim”. No dia seguinte íamos jogar com o Boavista para a Taça da Liga e eu tinha de jogar com aquelas botas. Com um bocadinho de pressão do grupo lá treinei com as botas, o mister a fazer um bocado cara feia, mas em tom de brincadeira. À tantas disse-lhe: “Mister, amanhã vai-me pôr a jogar, eu vou ter de jogar com estas botas e nós vamos ganhar o jogo”; “Se jogares com as botas cor de rosa e as coisas não correrem bem, nunca mais jogas na minha equipa”. O certo é que ganhámos 1-0, contra o Boavista. No final fiz sinal ao mister, apontei para as botas cor de rosa e aí ele riu-se. Pedro com a mulher, Vanessa D.R. Voltando ao futebol. A época na Oliveirense também não correu muito bem. Não, acabamos por descer de divisão. Mas passado dois, três dias surgiu um interesse muito forte, através de um ex-colega do Casa Pia, vindo da Roménia, do Craiova. Foi uma coisa muito rápida. Já era algo que ambicionava, jogar no estrangeiro? Só me passou pela cabeça nessa altura da Oliveirense. No mercado de janeiro surgiram algumas abordagens, mas mantive-me sempre firme porque tinha uma vontade enorme de chegar à I Liga e não estava no futebol pelo dinheiro. Jogava pelo prazer e com o objetivo de jogar uma I Liga, era aquela expectativa que falei no início da conversa, de chegar ao mais alto possível e àqueles patamares grandes. O dinheiro era para eu sobreviver. Quem o levou para a Roménia? Foi o Jorge Ribeiro. Antes da Roménia, há um dia em que ele me contacta e diz que tinha uma situação para a Índia. Disse logo que não ia porque estava a jogar na II Liga. Ele disse que também tinha sido jogador e entendia perfeitamente a minha posição, mas que tinha de pensar que um dia ia acabar por deixar de jogar futebol e nessa altura não ia comer taças, nem medalhas. Aquilo fez um clique dentro de mim, mexeu comigo. OK, é muito importante a parte do prestígio, de ganhar taças, medalhas, mas também tenho de olhar para a questão salarial, porque um dia vou deixar de jogar e vou ter que seguir com a minha vida. Ainda assim, na altura, insisti que ia continuar a fazer o meu trabalho na Oliveirense. Só que, comecei a pensar naquilo que ele me tinha dito. Por isso, no final da época, quando surgiu essa questão da Roménia, pesou ir jogar uma I Liga, na Europa, e a questão salarial, que era bem melhor do que aquilo que eu ganhava. Foi ganhar quantas vezes mais? Seis vezes mais. Foi sozinho para a Roménia? Não, já vou com a minha mulher. Só nos conhecíamos há seis meses, mas estávamos a identificarmos tanto um com o outro, tínhamos uma relação tão bonita, que ela felizmente decidiu ir comigo. Foi um passo de coragem. Largou as coisas dela para viver aquilo que era o meu sonho, e estar ao meu lado. Mostrar conteúdo oculto “Houve uma altura em que a minha mulher me disse: 'Tu estás com a mania que deves ser o Ronaldo'. Foi quase uma chapada que me deu” Nesta parte II do Casa às Costas, Pedro Machado continua a desfiar o fio da sua carreira a partir do momento em que viajou para a Roménia, onde a experiência futebolística acabou por ser curta, regressando novamente a Portugal, para jogar no Torreense. Sagrou-se campeão da Liga 3, ainda passou pelo V. Setúbal, mas voltou a tentar a sorte fora de portas, primeiro na Finlândia, depois no Canadá e agora no Kuwait. Uma entrevista que é quase um relato dos sonhos e das dificuldades de quem luta para chegar à ribalta do futebol Quando chegou à Roménia para jogar no Universitatea Craiova, em 2021, havia outros portugueses na equipa? Não. Como era o seu inglês? Não era espetacular, mas dava para desenrascar. Os romenos são muito diferentes dos portugueses no balneário? São. Até na forma como viam o futebol. Eles vão muito pela emoção do jogo, aquilo que estão a sentir no jogo; nós, portugueses, somos mais ponderados, a forma como olhamos para o jogo é numa vertente mais tática. Os treinos eram diferentes do que estava habituado? Não, porque o Adrian Mutu foi um grande jogador, portanto a forma como ele programava os treinos era muito com bola, não senti uma grande diferença, foi uma agradável surpresa. Quais foram as primeiras impressões da Roménia? Ficávamos num hotel nos primeiros tempos e era tudo desorganizado, era diferente dos hotéis que vemos em Portugal. No trânsito havia muitas desavenças, muita gritaria, mas de resto é um país bonito, consegui adaptar-me, não me faltava nada. Chegou a estrear-se na I Liga romena? Sim, mas só fiz dois jogos. Essa foi a parte da Roménia que mais me entristeceu. Na pré-época senti que estava a assumir um lugar de destaque, que o treinador via em mim qualidade, alguém em quem ele confiava, porque fiz essa pré-época toda a jogar como titular. Por isso, em teoria, iria fazer o primeiro jogo também como titular, estava tudo a ser preparado para isso. O primeiro jogo era com o Cluj, uma equipa grande na Roménia, que vinha de quatro títulos seguidos, eu estava a preparar-me para viver o sonho da I Liga, e acabei por ter uma deceção enorme. Porquê? Vou com a equipa, estou a ser preparado para jogar a titular, e quando cheguei ao balneário para ver onde é o meu lugar, não encontro a minha camisola. Vou ter com o adjunto, eu e mais dois colegas e ele diz que a nossa inscrição não tinha chegado a tempo e não poderíamos ser opção para aquele jogo. Fiquei com uma azia. Tinha uma vontade enorme de jogar aquele jogo porque era contra a melhor equipa da Roménia da altura. Falei com quem me estava a representar, ele disse que tinha havido alguns problemas, mas que no próximo jogo já estaria disponível para jogar. Fui assistir ao jogo da bancada, um ambiente incrível. Em 2021, Pedro Machado (no meio, atrás) assinou pelo Universitatea Craiova, da Roménia D.R. Jogou no fim de semana seguinte? Fui novamente preparado para jogar a titular até que na sexta-feira o diretor da equipa veio ter comigo e questiona se a minha ex-equipa em Portugal, a Oliveirense, existia, porque não lhe aparecia nos registos. Respondi: “Desculpa lá, estamos a 24 horas de um jogo e tu agora é que me vens com essa conversa? Estou aqui há quase mês e meio, vocês tinham de tratar disso mais cedo”. Entretanto, mostrei-lhe nas plataformas que a Oliveirense exista. Acabei por chegar um pouco atrasado ao treino com aquela conversa, o Mutu viu que estava um pouco alterado e questionou-me, em tom de brincadeira, para ver como era a minha reação: “Então estás com a mania que és estrela? Até já chegas atrasado?”. Expliquei-lhe que estava a tratar de uma situação com o diretor e que pelos vistos não podia ser novamente opção para o jogo, porque não encontravam a minha equipa em Portugal. Como ele reagiu? Disse para ficar tranquilo e foi falar com o diretor. Quando voltou, perguntou-me: “Então, não queres jogar este jogo, é isso?”; “Não é nada disso, eu quero jogar”; “Então há aqui qualquer coisa que não está a bater certo”. E ficou assim a conversa. Com as histórias que já ia ouvido da Roménia, percebi que alguma coisa se estava a passar. Decidi tomar a responsabilidade do assunto e perceber o que era preciso no processo todo. Falei com o Sindicato de Jogadores em Portugal para tratar da minha inscrição. Comecei a mexer-me, tinha de ir à polícia e tudo mais. Quando o clube soube que eu estava a fazer essas coisas, a minha inscrição foi muito rápida. E fiquei disponível para o terceiro jogo. Estreou-se finalmente? Nesse terceiro, não sei se devido a não ter jogado nos outros dois, eu iria começar no banco. Só que, no dia do jogo, o colega que ia jogar na minha posição sentiu-se mal, e por isso joguei. As coisas correram bem, a equipa acabou por ganhar. O presidente estava à porta do balneário, todo contente, uma grande festa, uma satisfação enorme. Pensei, as coisas se calhar começaram com o pé esquerdo, mas agora vão encarrilar. Tivemos a primeira vitória, no jogo seguinte, em casa, jogo a titular novamente, empatamos a zero, o que acabou por ser um bom resultado naquele caso e está novamente o presidente a cumprimentar-me e a dizer “grande jogo”. Pensei: “Isto encarrilou, já ganhei (entre aspas) o meu lugar e, se Deus quiser, agora vai ser sempre a subir, depois de tanta luta que tive ao longo da carreira. Está aqui a minha oportunidade, tenho de aproveitar.” A partir daí as coisas correram sempre bem? Não. Após uma semana normal de treinos, estou em casa com a minha mulher, a equipa ia fazer uma viagem longa e digo-lhe: “Vais ficar sozinha porque devo ser convocado”. E ela, na brincadeira, responde: “Nem vais ser convocado”. Passados cinco minutos metem a convocatória no grupo, abro, vejo o meu nome e mostro-lhe: “Estás a ver? Estavas aí a rogar uma praga, estou convocado, vais ter que ficar sozinha uns dois ou três dias”. E nisto, eles apagam do grupo aquela mensagem da convocatória e metem outra logo a seguir. Abro a mensagem, vou ver os nomes e o único nome que trocaram foi o meu. Achei estranho e comecei a entrar em contacto com os meus representantes, eles nunca me conseguiram dar uma resposta, nem dizer o porquê daquilo estar a passar-se comigo. O certo é que nunca mais joguei. Treinava, treinava, mas nunca mais joguei. O centra com a mulher no estádio do Craiova D.R. O que fez perante essa situação? Em novembro, já lá estava também outro português, o Hugo Vieira, que estava a jogar, e sou informado pelo clube que iam retirar a minha inscrição da liga e que ia fazer parte de uma lista B, ou algo assim, mas que a partir daquele momento só podia fazer jogos da taça. Com as atitudes que eles já tinham tido já estava à espera. OK, tudo bem. Fazem isso comigo e com o Hugo também, e ele estava a jogar e a fazer a diferença. Entretanto, falei com as pessoas que me tinham levado para lá, digo que não quero estar ali naquelas condições e quero arranjar uma solução para a minha carreira. Dizem-me que vamos ter de esperar até janeiro e ver o que acontece no clube. Eu estava desconfortável com a minha situação, a equipa técnica também, porque eu treinava, dava o melhor de mim nos treinos, até que certo dia, o treinador adjunto do Mutu, um bocado à socapa, no final do treino, faz-me o sinal que precisava de conversar comigo. Levantei-me para ir atrás dele, e ele faz-me o sinal: “Calma, calma, deixa-me ir, e depois vens atrás de mim”. Achei aquilo muito estranho. O que lhe disse? Teve uma conversa comigo, para dizer que estava muito envergonhado com a situação que eu estava a passar, não era por ele que as coisas eram assim, porque via em mim alguém com qualidade para se assumir na equipa, e que as ordens vinham de cima, do lado presidencial. Ou seja, estava meio que a avisar que se tivesse uma oportunidade em janeiro de seguir por outro caminho para o fazer, porque a minha vida ali não estava fácil, mas no que pudessem iam tentar ajudar-me ali na Roménia, porque gostavam de mim e viam que eu até estava num nível mais acima. Disse que preferia voltar para Portugal. Eles, entretanto, acabaram por sair, assumiram outros treinadores, a situação foi sempre piorando, até que consegui sair do clube, o caso acabou na FIFA e segui com a minha vida. Ficou quanto tempo sem jogar depois? Fiquei alguns meses porque só fui para o Torreense em janeiro de 2022. Só teve o interesse do Torreense? Quem me tinha levado para a Roménia falou comigo da hipótese do União de Leiria, que também era da Liga 3, mas estava em 1.º lugar. Eu comentava com a minha mulher: “Saí de Portugal na II Liga, agora no mínimo, tem que ser a II Liga. E por que não I Liga? Joguei a I Liga na Roménia, porque não? Acho que tenho nível”. A Vanessa disse-me que era melhor meter os pés na terra, sempre a tentar tirar-me um bocado a euforia, no bom sentido, até que surgiu o Vilafranquense, que estava na II Liga, numa posição difícil, a lutar para não descer, e passado um dia ou dois surgiu também o Torreense. O que o levou a optar pelo Torreense que estava na Liga 3? Contactei algumas pessoas para obter mais informações sobre os clubes e os projetos, tenho uma conversa com a minha mulher, digo-lhe que sou jogador da II Liga, e é quando ela me diz: “Tu estás com a mania que deves ser o Ronaldo, já que és assim tão bom, porque não vais para o Torreense demonstrar toda essa qualidade? Já que és um jogador da II Liga, se fores para a Liga 3 vais ser muito melhor que os outros. Acho que, no teu contexto de jogador, faz mais sentido ir para um projeto de subida do que lutar para não descer”. Aquilo foi quase como uma chapada que ela me deu e um desafio que me criou. Depois, o interesse do Vilafranquense também esfriou um bocado, o Torreense demonstrou desde o primeiro dia uma vontade enorme que eu fizesse parte do plantel. A juntar àquilo que a minha mulher me disse, optei por ir para o Torreense, para subir de divisão e provar-lhe que sou bom [risos]. Está arrependido dessa decisão? Nada. O Torreense foi uma altura fantástica para mim. Na forma como terminou, não foi tanto, mas aquilo que vivi em Torres Vedras foi incrível. Voltou a trabalhar como Uber? Não. Já tinha deixado. Mas continuava a ter a empresa, embora tenha sido um dos últimos anos em que a tive. Como foi recebido no balneário do Torreense? O primeiro dia tem logo uma história entre mim e a minha mulher, porque ela vai comigo para assinar o contrato, vamos a picar-nos um ao outro, eu dizia-lhe: “Vais ver, no final vais ver-me a levantar a taça, vamos subir de divisão”. Ela ficou no parque à minha espera. Fui para assinar o contrato, com a pessoa que me representava, estava o diretor-geral do clube, o Bruno Vitorino, entretanto veio o treinador, o mister Nuno Manta Santos, e antes dele entrar, estamos ali a conversar com o diretor, que nos diz que as intenções do clube é tentar subir de divisão, explica o projeto, eu digo-lhe diretamente que no final não só vamos subir de divisão, como vamos ser campeões. Assinamos o contrato, e quando chego ao carro, a minha mulher está toda entusiasmada e diz-me: “Nem sabes o que aconteceu. Tu quando saíste do carro, do nada começou a tocar a música 'We Are The Champions', dos Queen. É um sinal”. Não sei se foi sinal, mas isto das energias faz-me algum sentido e a verdade é que o caminho que fizemos levou-nos a ser os primeiros campeões da Liga 3. O central i campeão da Liga 3 pelo Torreense. Na foto com o troféu e a família atrás D.R. Continuou no Torreense na II Liga? Sim. Tive algumas abordagens para sair, através das pessoas que me estavam a representar, coisas interessantes, mas na altura a minha mulher estava grávida do nosso menino, e ir para o estrangeiro implicava se calhar que ela ficasse em Portugal e eu não pudesse assistir ao nascimento do meu filho. Ou então teria que nascer no país onde estivéssemos e, como era o primeiro, ela também não se sentia muito confortável com isso. Disse aos meus representantes que eventualmente em janeiro, depois do menino nascer, ou mesmo no final da época, caso fizesse uma boa II Liga, provavelmente haveria outros interessados e melhores. Mas a sua história no Torreense não acabou bem. O que aconteceu e como foi parar ao V. Setúbal que estava na Liga 3? Nem eu sei muito bem o que aconteceu. Certo é que não joguei no Torreense, tive algum tempo também afastado. Porquê? Nunca tive uma explicação, sinceramente. Foi algo que aconteceu do dia para a noite. Disseram-me que tinha sido uma opção, mas acho que as coisas podiam ter sido feitas de forma diferente. Não senti que estava a ser afastado por vontade do treinador, acho que teve a ver muito com o que é o futebol profissional. Há coisas que nós jogadores não conseguimos explicar, coisas de bastidores que não se consegue explicar, e acho que mais uma vez foi isso que aconteceu comigo. Mas vou sempre guardar as memórias positivas do Torreense. Pedro Machado com o troféu de campeão da Liga 3, pelo Torreense D.R. Como acaba por sair? Eles dizem-lhe que não contam mais consigo e que tem de procurar clube? Chegou uma fase em que vêm falar comigo através do diretor-desportivo da altura, o João Tomás, para dizer que querem resolver a situação, que nem é bom para eles, nem para mim. Temos uma conversa direta, um com o outro, em que exponho o meu ponto de vista, o que tinha acontecido. Nada mudou. Chegamos a um acordo e pronto. Mas ninguém teve uma conversa consigo antes, quando começou a ser posto de lado? Tive uma primeira conversa quando o mister Manta Santos saiu, foi um treinador que me tinha marcado, porque fui campeão e ele deu-me a oportunidade de ir para o Torreense. Foi uma conversa de treinador e jogador, mas sem nunca justificar o motivo. A minha situação com a chegada do mister Pedro Moreira também não mudou, mantém-se igual e aí percebo que não pode ser só algo desportivo, tem de haver algo mais, uma decisão mais forte. O treinador Pedro Moreira falou consigo? Quando chegou falou comigo, deu-me a entender que estávamos todos ali por igual, incentivou-me a dar o meu melhor, que íamos ver o que acontecia depois. Mas nada mudou. Ele ainda teve o cuidado de ir falando de vez em quando comigo, sempre senti que ele via em mim qualidade, mas que havia sempre algum motivo que não permitia que eu jogasse mais tempo. Senti-me sempre com condições de jogar e de dar seguimento à época e à importância que tinha na equipa, mas nunca soube o motivo. Também não fui escarafunchar muito, fui sempre fazendo o meu trabalho, sendo profissional, para deixar a melhor imagem possível sobre a minha pessoa, porque sabia que não tinham nada para me apontar. Se foi como está a contar, é muito estranho. Qual foi o desfecho dessa situação? Chegámos a acordo. Tive a tal conversa, expus os meus pensamentos e a minha visão das coisas. Até que há um dia, em que estava a treinar num horário diferente da equipa, explodi um pouco mais. Disse que não dava mais para mim e que achava que merecia outro respeito por ter ajudado o clube, por ter sido campeão naquele clube. O diretor-geral, Bruno Vitorino, sentiu o meu desabafo, porque estava a sair daquele momento do treino, e no dia seguinte tomou as rédeas da situação, conversámos, chegámos a um acordo. Aquilo que guardo do Torreense são os bons momentos, é um clube muito especial para mim. Veio embora sem ter clube? Sim. Na época 2022/23 Pedro assinou pelo V. Setubal. Na foto com a mulher e o filho recém nascido D.R. Quando e como surgiu o Vitória de Setúbal? Surgiu pouco tempo depois, numa conversa com quem estava a trabalhar comigo, o Jorge Ribeiro. Falou-me da hipótese do Vitória de Setúbal, como de outras. Mas no Vitória de Setúbal estava o mister Luís Loureiro, que me tinha dado a oportunidade no Casa Pia. O Vitória não estava a ter uma época fácil, queriam aproveitar de janeiro para a frente para puxar o clube para cima, para dignificar aquilo que realmente o Vitória merecia. O mister falou comigo, explicou o projeto e fui para o Vitória. Assinou só até final da época? Sim. Entretanto, o seu filho nasceu, certo? O Francisco nasceu enquanto eu estava no Torreense. Assisti ao parto, foi um momento especial para mim. Em Setúbal, não conseguem cumprir os objetivos do clube. Não, mas pessoalmente foi uma experiência boa, dei tudo de mim. Acho que dignifiquei a camisola que vesti e sentia isso na rua pela forma como os adeptos me abordavam. Gostei muito de morar em Setúbal, e o Vitória é um clube enorme, com uma massa adepta enorme, foi um prazer enorme jogar por aquele clube. É algo que não consigo meter em palavras, só sente quem joga por aquele clube. E ficou a espinha encravada na garganta pela forma como a época acabou. O central em ação pelo V. Setúbal D.R. Nessa altura quais eram as suas opções? Como foi parar à Finlândia? A Finlândia surgiu muito mais à frente. Quando a época acabou, houve, não sei se lhe posso chamar um luto por aquilo que tinha acontecido, mas custou-me imenso o desfecho, foi uma semana difícil para mim, para a família também, sentia-se na cidade. Houve várias situações após isso, do Azerbaijão, da Arménia, vários convites do estrangeiro de forma informal. Até que há uma situação forte de poder ir para o Nacional, na II Liga, num projeto a pensar nos próximos dois anos, em que iam entrar investidores no clube. Durante muito tempo aquilo que me foi dito é que ia ser ali o meu futuro, as condições que me estavam a oferecer eram muito boas para mim, para a minha família. Mas as coisas acabaram por não se concretizar. Porquê? Não sei qual foi o motivo, acho que os investidores não chegaram a entrar, aquilo não chegou a ir para a frente. Só que isso já aconteceu numa fase muito avançada do mercado, em que a I e II Liga já tinham começado, a Liga 3 estava a começar. E eu não tinha grandes soluções. A confiança que me tinha sido passada de que ia para o Nacional era tão grande, que tudo o resto, apesar de terem aparecido coisas interessantes, declinei. Depois vi-me numa situação em que tive algum tempo sem jogar. Como fez para sobreviver nesse período. Foi às poupanças? Sim, fomos às poupanças, tivemos ajudas da família da minha mulher e também da minha família. Ainda não tínhamos casa. Tivemos de ficar numa segunda casa da família da minha mulher, em Samora Correia. Voltou a trabalhar? Eu não, a minha mulher sim. Acreditei sempre que alguma coisa iria surgir, que não podia acabar daquela forma, continuei a fazer os meus treinos. Mas houve momentos difíceis. Em 2024, Pedro voltou a sair do país, para jogar no IFK Mariehamn, da Finlândia D.R. Quando em janeiro lhe surgiu a proposta do IFK Mariehamn, da Finlândia, ficou indeciso ou aceitou logo? Praticamente aceitei logo. Tive oportunidade de falar com o mister Bruno Romão que também tinha assinado com o clube na altura, percebi que era alguém sério, muito competente, e que estava ali uma energia diferente. A partir do momento que as coisas começaram a ser mais formais, comecei a falar com a minha mulher e a parte difícil foi que tanto a minha mulher como o meu filho tiveram de ficar em Portugal e eu tinha de ir sozinho. Mas sentia que tinha de aceitar aquele convite. Para além de ser uma I Liga, tinha de mostrar acima de tudo a mim próprio que estava capaz e que tinha mais do que qualidade para estar num nível bom. Chegou à Finlândia no início de 2024, numa altura de muito frio. O choque foi grande? Estava a nevar imenso. Foi logo um choque. Mas senti uma energia muito boa. Eu estava muito motivado para as coisas darem certo. Não achei o futebol assim tão fraquinho, acho que em Portugal é que se calhar não acompanhamos aquele futebol. É um futebol com qualidade, diferente do nosso, o nosso é mais organizado, mais pautado, mais pensado. Mas eles lá têm muitos jogadores jovens, com qualidade. Eles vão sempre atrás da vitória e isso faz com que às vezes o jogo parta, mas para mim foi uma agradável surpresa o campeonato na Finlândia. E dos finlandeses, com que opinião ficou? São pessoas muito humildes, dão tudo a treinar. Treinam como jogam. Não sei se era por ser um treinador novo, mas davam tudo. As pessoas são tranquilas, humildes, não gostam muito de stress, nem de chatices. O balneário é muito diferente do português? No início não são muito calorosos como nós em Portugal. Em Portugal tentamos logo colocar à vontade um estrangeiro que chega. Eles não são tanto assim. Dão-te liberdade para tu falares, para estares à vontade, entre aspas, mas é aos poucos. Vais ganhando a confiança deles e a partir do momento em que se quebra o gelo percebes que são pessoas alegres. O que mais lhe custou nesse meio ano em que esteve na Finlândia? Estar longe do meu filho e da minha mulher. Ela vinha sempre comigo desde a Roménia, o meu filho ainda nem sequer tinha seis meses, foram os primeiros meses de vida dele e eu longe, a saber que estava a perder algumas coisas. Mas, ao mesmo tempo, deu-me força, porque sabia que estava a fazer o sacrifício por um motivo maior. A sair do campo do clube finlandês com o filho pela mão D.R. Quais eram os seus objetivos na altura? Tinham já mais a ver com o querer ganhar dinheiro para dar estabilidade à família, ou ainda tinha ambições de jogar na I Liga portuguesa? Quando cheguei à Finlândia tinha acima de tudo a ambição de provar que merecia mais do que aquele tempo que estive parado, mais do que o que se tinha passado no Torreense, e do que foi o desfecho no Vitória. Sentia que merecia e tinha que ter mais naquilo que era a minha carreira em termos desportivos. Tinha ali uma oportunidade de mostrar que tinha capacidade para jogar numa I Liga na Europa e perceber que portas é que se poderiam abrir. Mas aos poucos, depois da Finlândia fui para o Canadá, agora estou no Kuwait, fui redefinindo os meus objetivos. Com que objetivo foi então para o Pacific FC do Canadá já este ano? Após uma época muito boa na Finlândia, em que tive um destaque grande na equipa e fiz muitos jogos, foram surgindo algumas abordagens. Mas o campeonato na Finlândia acaba um pouco ao contrário do que é o normal na Europa, ou seja, quando estamos livres é quase o mercado de inverno na Europa. Quando surgiu o interesse do Canadá, já numa parte mais adiantada do mercado, não era o ideal para mim, eu estava à procura de uma coisa diferente, mas senti que era um bom desafio por ser o país onde se vai jogar o campeonato do mundo e por estar próximo da MLS, dos EUA. E acima de tudo porque é um país onde toda a gente diz que a qualidade de vida é boa. Eu tinha vindo daquele tempo na Finlândia, sem a família e acho que com a idade que tenho podia ser uma aventura interessante. O facto do Armando Sá ser treinador-adjunto do Pacific FC teve alguma coisa a ver com a sua ida para lá? Sim, ajudou. Quem me levou para lá também tinha contacto com ele. O Armando Sá explicou-me várias coisas sobre o país, sobre o clube, passou-me confiança, e sabendo que estava lá um português, que tinha uma boa relação com o Bruno Basto, senti que era um bom passo na minha carreira. A família também foi? Sim. Foi ganhar mais do que ganhava na Finlândia? Sim, o dobro. No início de 2025, o central (à direita) atravessou o Atlântico para jogar no Pacific FC, do Canadá D.R. Quais foram as primeiras impressões do Canadá? Estive lá do início de fevereiro até julho, mais ou menos. Quando cheguei ao país, pareceu-me um país organizado, as instalações do clube um pouco diferentes, é um bocado americanizado, a forma do estádio… É tudo muito grande, mesmo os carros. Fui recebido de uma forma calorosa por todo o staff e pessoas que trabalhavam no clube, são muito calorosos. Deixaram-me muito à-vontade, deram-me moral, por isso, a primeira impressão foi boa. E o campeonato? O campeonato é diferente de todos aqueles onde estive. É um campeonato muito mais para o show. Vou dar um exemplo. Em Portugal, as pessoas gostam de ver futebol, eles também gostam de ver futebol como é óbvio, mas é tudo programado como se fosse um show, há o jogo, mas há muito entretenimento à volta do jogo. É um campeonato que tem potencial, há jogadores muito interessantes, acredito que tem muita margem para crescer e se calhar daqui a alguns anos vai ser muito maior do que aquilo que é agora. Começou a jogar assim que chegou? Sim, desde o início, marquei logo a minha posição. As coisas começaram a correr bem depois houve ali alguma instabilidade que acho que tem a ver também com o desenvolvimento da liga, dos clubes. Não continuou no Canadá porquê? Não me estava a sentir confortável. Acho que não estavam a dar-me o valor que eu merecia. O Armando Sá foi uma peça muito importante, foi alguém que me ajudou a manter-me muito equilibrado e a tentar mostrar sempre o melhor de mim. É uma pessoa que vou guardar. Mas o contexto tornou-se um bocado difícil porque a minha mentalidade é diferente. O que quer dizer com isso? Eles vivem para o show do jogo, e nós, europeus, o que nos interessa é o jogo em si, controlar o jogo, as situações do jogo, os momentos do jogo, não deixar que a emoção se apodere sobre a parte racional. Lá, às vezes, como é mais bonito um toque de calcanhar, dão mais ênfase a isso do que se calhar meter a bola fora para acabar com jogada porque é isso que o jogo está a pedir naquele momento. Quando aceitei o projeto no Canadá foi para tentar lutar pelo título, foi isso que me foi passado pelo clube, era essa a mensagem que vinha desde a pré-época, mas depois vamo-nos apercebendo que há coisas que têm que melhorar no dia a dia, mesmo na maneira como os jogadores olham para o que é a preparação de um atleta, que há algumas decisões que têm de ser tomadas… Ainda estavam a uma distância grande para que pudessem pensar em ser campeões no Canadá, porque há equipas melhor preparadas e que já têm outro tipo de mentalidade, que ali ainda não havia. Em jogo, no Canadá D.R. A mudança para o Al-Tadhamon, do Kuwait, há mês e meio teve muito mais a ver com a questão financeira? Também teve a ver com a questão financeira, claro. Já desde a Finlândia que queria explorar estes mercados aqui. Para o ano faço 30 anos, portanto, agora sim estou na altura certa para além da parte desportiva também começar a pensar na parte salarial e fazer um pé de meia para mim e para a minha família, porque o futebol não vai durar para sempre e estes mercados aqui é que estão na berra. E que tal o futebol? Daquilo que tenho visto existe qualidade também e se puder aliar a parte desportiva com a parte salarial, porque não? A família está consigo no Kuwait? Sim. A partir daquele momento que estive afastado do meu filho, da minha mulher, na Finlândia, nunca mais quis ficar longe deles. Lembro-me que regressei a Portugal durante dois dias e foi um choque enorme ver a evolução que o meu filho teve. A partir dali disse que para onde fosse a minha família tinha que vir comigo. Nem que isso implicasse seguir outro rumo na minha carreira. Claro que não posso falar com 100% de certeza, porque nunca sabemos o dia de amanhã, mas irei fazer sempre de tudo para que nunca esteja afastado da minha família. Quais são as primeiras impressões do Kuwait? São boas. É diferente do que estamos habituados. Eles separam muito os profissionais dos não profissionais. Os jogadores têm vontade em jogar, têm boas condições, é pena não ter mais adeptos. Há jogadores aqui que são muito interessantes, têm muita qualidade, tanto kuwaitianos, como estrangeiros. Está a ser uma experiência interessante. Já fiz quatro jogos. E como é o futebol aí? Aqui, todas as equipas podem ter no máximo cinco estrangeiros. Tirando se calhar as equipas top, como o Kuwait SC e o Al-Arabi, que conseguem captar os melhores kuwaitianos porque têm outro tipo de orçamento, em todas as outras nota-se uma diferença entre os estrangeiros e os kuwaitianos. Agora, é um campeonato exigente, com um estilo de jogo que não é tão tático. Não dão tanto ênfase à parte tática. O treinador da minha equipa também é português, é o Miguel Leal. Ele tenta passar muitas informações táticas, sinto que a equipa tem crescido bastante nesse aspeto. No Al-Arabi está o mister Marco Alves e também já se nota em termos táticos e pela forma como gira a bola que tem o dedo dele. Pedro com mulher e filho vestidos a rigor com as cores do Pacific FC D.R. Já tem histórias para contar do Kuwait? Não é bem história, mas algo diferente para mim. Na Europa, em dia de jogo, perfilamos ainda dentro do túnel, vamos para o campo com a equipa de arbitragem e depois há aqueles cumprimentos, apertos de mão. Aqui no Kuwait não pode existir muito contacto entre homens e mulheres, mas entre homens quando existe uma certa aproximação, uma certa amizade, eles cumprimentam-se com beijinhos na cara. Eu já tinha visto os meus colegas. Mas é muito engraçado antes dos jogos, quando estamos no túnel, ver os jogadores da minha equipa com os da outra equipa aos beijinhos. Ao início confesso que estranhei. [risos] Só quando o árbitro diz que é para entrar é que eles se perfilam e vamos embora. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no Canadá? Quatro vezes mais. Tem contrato até quando? Até ao final da época. Quais são ainda os seus objetivos profissionais? Neste momento é aliar a parte desportiva com a parte salarial. Se tiver um projeto em que possa lutar por um título, uma subida de divisão, vai sempre me chamar a atenção. Quero abrir este mercado árabe, nestes países, mas não descarto, claro, um eventual regresso a Portugal, isso nunca, nem à Europa. Tem alguma meta para deixar de jogar? Acho que isso vai acontecer com naturalidade. Vai chegar um momento que a própria envolvência vai dizer que é para parar. Começo a preparar-me para isso. Estou inscrito na universidade, a tirar o curso de Gestão, à distância. Também tenho o objetivo de começar a tirar os cursos de treinador. Agora, a minha meta é jogar até o mais longe possível. O central assinou há quase dois meses com o Al-Tadhamon, do Kuwait D.R. Quer ser treinador depois de pendurar as chuteiras? Neste momento, estou com esse bichinho. Queria explorar esse caminho, não começar como treinador principal, mas tirar os cursos, integrar uma equipa técnica, talvez como adjunto, para perceber como são as rotinas, as dinâmicas, os próprios treinadores, no ambiente deles, como olham para o jogo, para a outra equipa. O papel de preparador físico, por exemplo, também é algo que me fascina. Onde ganhou mais dinheiro até agora? No Kuwait. O que ganhou já deu para investir? Sim, em imobiliário, ações e na empresa Uber, que neste momento está com atividade suspensa. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Uma viagem à República Dominicana. Tem algum hobby? Gosto de ler, passar tempo com a minha família, estudar assuntos que me despertam atenção, como investimento, por exemplo. É um homem de fé, acredita em Deus? Sou um homem de fé, não sei se Deus é a melhor palavra, acredito que há algo superior a nós. Superstições tem ou teve? Tenho uma superstição que é entrar sempre com o pé direito em campo. Tatuagens? Não. Em ação pela equipa do Al-Tadhamon D.R. Acompanha ou pratica outra modalidade sem ser o futebol? Não. Faço só o meu trabalho de ginásio, que é um complemento ao futebol. Qual a maior frustração que tens na carreira até hoje? Aquele período que tive sem jogar, a descida no Vitória, a situação que se passou também no Torreense, porque senti que podia ter jogado e ajudado mais quando subimos à II Liga, e mesmo a própria situação na Roménia. E qual o maior arrependimento que tem? Nenhum. O momento mais feliz na carreira? Ser campeão pelo Torreense. O objetivo que ainda está por cumprir? Ser campeão no estrangeiro. Se pudesses escolher, qual o clube de sonho onde um dia gostava de jogar? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha? Tive a alcunha de "panquecas" quando era pequenino, porque era gordinho e tinha um colega na escola que dizia que a minha barriga parecia uma panqueca. Hoje tenho 1,94 m [risos]. Pedro com a família D.R. Há alguma lei do futebol que, se pudesse, alterava ou banias? À primeira vista, não estou a ver nenhuma. Tem algum talento escondido? Acho que invisto bem. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Tinha um emprego normal. Qual o jogador com quem gostava de ter jogado na mesma equipa e qual aquele contra quem gostava de jogar? Gostava de ter jogado na minha equipa com o meu irmão e gostava de ter jogado contra o Ronaldo. Tem uma última história que possa partilhar? Recentemente, a certa hora do dia começo a receber muitas mensagens, muitas chamadas e eu sem perceber o que se passava. Foi porquê? O Mourinho tinha assinado com o Benfica, um dos adjuntos chama-se Pedro Machado, e alguém associou-me e comecei a receber muitas mensagens, a perguntar se realmente era o Pedro Machado, adjunto do Mourinho, para pedirem entrevistas. Tive de contar a verdade, claro [risos] Estranho, foi dispensado sem contexto prévio na maioria dos clubes por onde passou. É preciso ter muito azar. Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 13 Outubro 2025 Rodrigo Escoval Spoiler “Na Croácia uma vez deixei cair o telemóvel no banho frio para o mister não ver. Acabei por pagar mais pelo arranjo que pela multa” Rodrigo Escoval, de 28 anos, fez toda a formação no Benfica, de onde guarda fortes memórias, a primeira logo aos 10 anos. Sonhou vestir a camisola da equipa A, mas aos 20 anos percebeu que teria de seguir outro rumo. Foi sozinho para a Croácia, onde passou por dois clubes e conquistou duas taças, antes de sair para Chipre e continuar o seu percurso pela Grécia, Portugal e Rússia. Sobre estes últimos três destinos falaremos na parte II deste Casa às Costas, entre muitas outras histórias Nasceu em Lisboa. Fale da sua família. Sou filho de pai alentejano e de mãe nortenha, que se conheceram em Lisboa. O meu pai trabalhou a vida praticamente toda na Yamaha, a empresa de motos bem conhecida em todo o mundo. Ultimamente, fazia distribuição por todo o país, viajava bastante. A minha mãe trabalhou numa loja de fotocópias até à altura da crise, a loja fechou, e atualmente é esteticista. E tenho uma irmã três anos mais nova, que é assistente social. Em que zona cresceu? Sacavém. Deu muitas dores de cabeça aos pais? Não. O meu pai sempre me meteu na linha e fui sempre muito compreensível e respeitador. Ele impunha limites, tanto que quando fui para o futebol, tinha que ter boas notas na escola e portar-me bem. Claro que em casa parti algumas coisas porque jogava muito à bola sozinho. Sempre quis ser jogador de futebol? Não tinha esse objetivo em pequeno. As coisas aconteceram muito naturalmente. Comecei a jogar na rua, com os vizinhos, todos mais velhos que eu. Houve um dia em que disseram ao meu pai que tinha de me meter a jogar no Sacavenense porque eu jogava bem. Eu tinha acabado de entrar para o 1.º ano e o meu pai disse-lhes que se eu passasse de ano, ele inscrevia-me. Assim foi, passei e esses meus vizinhos trouxeram o papel para o meu pai e obrigaram-no a cumprir a promessa. Entrei com sete anos, se não estou em erro. Rodrigo (em pé junto do pai) com os pais e a irmã D.R. Quem eram os seus ídolos? Adorava o Di María. Em casa torcia-se pelo Benfica? Sim, o meu pai era benfiquista ferrenho. Sócio há muitos anos. Naturalmente influenciou-me. Como estava a contar, fui para o Sacavenense e depois um scout do Benfica entrou em contacto com o meu pai. Fui fazer os testes e acabei por passar muitos anos da minha vida no Benfica. Fez toda a formação no Benfica. Quais os momentos mais marcantes desses anos? Lembro-me que no Benfica, logo no início, apesar de termos nove ou dez anos, já nos exigiam ganhar. Eu vinha do Sacavenense, claro que se joga sempre para ganhar, mas somos crianças, estamos ali para nos divertirmos. Recordo que no Benfica, sobretudo quando chegava à fase final, exigiam-nos ganhar, já havia aquela pressãozinha, mesmo sendo crianças, isso foi algo que me ficou muito marcado. Eram os próprios treinadores que faziam essa pressão? Sim. Não sei se ainda têm o mesmo lema, acredito que sim, que era: formar a ganhar. Acho que é uma boa lição, porque na vida, se não lutarmos para ganhar, seja em que campo for, no mundo em que estamos, vai ser muito difícil sobreviver. Rodrigo (o mais alto) começou a jogar futebol no Sacavenense D.R. Por volta dos 15/16 anos, com o que sonhava? Como se projetava mais adiante? Quais eram as suas ambições? Aí é quando comecei a sentir que queria ser jogador de futebol. Comecei a sentir que as coisas podiam acontecer e que tudo começava a tornar-se mais sério. Na minha cabeça, pelo menos. Dei tudo, trabalhei muito, não tinha tempo para nada. Lembro-me de ir para a escola com duas malas, uma para o treino, outra para a escola, sair da escola nos Olivais a correr para ir treinar no Seixal. Ia sozinho? Nessa altura, sim. Saía da escola a correr para apanhar aquele autocarro da Carris, para chegar ao metro, e só tinha a possibilidade de dois metros, senão já não conseguia apanhar aquele barco para chegar a tempo ao treino. O meu pai preparava-me o lanche de manhã, levava uma sandes e um iogurte na mala, comia durante a viagem e andava sempre a correr, do autocarro para o metro, do metro para o barco, para chegar ao treino a horas. Eles sabiam que o horário não me possibilitava chegar mesmo a horas, chegava um pouquinho atrasado. Depois saía do treino e era o processo todo outra vez para trás. Barco, metro, autocarro, chegava a casa às dez e meia, onze horas, era jantar e dormir. A maior parte da minha adolescência foi assim. O central acabou por fazer toda a formação no Benfica D.R. A meio desse percurso, antes de chegar à equipa B, há uma altura em que vai para o Casa Pia AC. Porquê? Foi no meu primeiro ano de júnior. O Benfica fez um acordo com o Casa Pia, como tinha muitos jogadores e só havia uma equipa de juniores, emprestavam alguns jogadores ao Casa Pia para eles jogarem o campeonato nacional de juniores, e tínhamos rodagem, não ficávamos parados. Acabei a época de juvenis bem, a jogar a fase final e não fui logo emprestado para o Casa Pia. Mas como nos três primeiros jogos de juniores não joguei nenhum minuto, resolvi falar com o mister. Disse que queria ir para o Casa Pia, porque tinham ido muitos colegas da minha geração de 1997 e eu queria jogar. O mister João Tralhão tentou convencer-me a ficar, disse que eu ia ter os meus minutos, mas eu achava que não ia ser tão fácil e ele acabou por aceitar. Arrependeu-se dessa decisão? Não, porque joguei muito no Casa Pia, cheguei a ser convocado para a seleção nacional da minha idade, por isso não me arrependo, foi uma experiência diferente que também me fez crescer. Quem foram as pessoas que mais o marcaram até chegar à equipa B do Benfica? É difícil dizer, há muita gente. De treinadores, o Bruno Maruta, que foi quem falou com os meus pais para eu ir treinar ao Benfica, e acompanhou-me, voltei a apanhá-lo na equipa B. Mas também o mister Luís Araújo, o mister Renato Paiva, o mister Tralhão, espero não me estar a esquecer de ninguém. Assim, de repente, são os nomes que me vêm à cabeça. Concluiu o 12.º ano? Não, faltam-me algumas disciplinas, infelizmente. Nos juniores já não consegui conciliar e falta-me matemática e inglês, que curiosamente hoje até é a minha segunda língua. Eu era bom aluno, gostava da escola, tirava muito boas notas, mas naquela fase já não deu mais para conciliar. Rodrigo com uma Taça que conquistou num Torneio Internacional, em Amesterdão D.R. Quando começou a ganhar dinheiro com o futebol? Com o meu primeiro contrato de formação, por volta dos 16 anos. Pagavam-me €300. O primeiro contrato profissional fiz com 18 anos, se não estou em erro, e recebia €1300 limpos. O que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Guardei no banco [risos]. Espere, acho que na altura comprei um telemóvel. Tinha uma namorada que era de uma classe social superior à minha, eu sempre fui muito poupadinho porque venho de uma família de classe média, e foi ela que me convenceu a comprar. Quando assinou o primeiro contrato profissional já devia ter algumas ambições futebolísticas. Com o que sonhava? Quando estamos na formação do Benfica, claro que o primeiro objetivo e sonho é estrear pela equipa principal, mas tinha outros sonhos como jogar a Liga dos Campeões e fazer parte da seleção nacional. Que percurso fez nas seleções? Só fui convocado para um estágio dos sub-18, nem cheguei a ser internacional. Rodrigo Escoval em ação pelo Benfica B D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite? Já estava na equipa B do Benfica, ou seja, tinha 18 ou 19 anos. Acho que a minha primeira saída à noite foi numa passagem de ano em que fui com a minha namorada e alguns amigos até ao Terreiro do Paço e depois fomos a uma discoteca, que nem me lembro o nome. Mas nunca fui muito de noitadas, não tinha tempo, ao fim de semana tínhamos os jogos e gostava de descansar. Regressou ao Benfica e, entretanto, começou a ser chamado para treinar com a equipa B. Alguma vez também foi chamado para treinar com a equipa principal? Várias vezes. Sempre com o mister Rui Vitória. Lembro-me que houve uma semana de paragem para as seleções, o Benfica estava a preparar um jogo contra o FC Porto e cheguei a treinar ao lado do Luisão. Foi uma experiência espetacular porque é daqueles jogadores que via jogar no Benfica desde pequeno. Poder treinar ao lado dele foi algo incrível. Tentava ver tudo o que ele fazia para buscar alguma coisa para mim. A comunicação dele era fantástica, falava muito, lia bem as jogadas. Como se definiu a sua posição em campo? Jogou sempre como central? Não. No Sacavenense era futebol de sete e eu fazia o corredor direito inteiro. Quando vou para o Benfica, nas escolas, já jogam de uma forma diferente, com dois atrás. Não sei se pela minha estatura física, meteram-me logo na posição atrás, a dois, ainda no futebol de sete. Quando transitámos para o futebol de 11, fiquei sempre aí, como defesa central. Mas cheguei a fazer alguns jogos a lateral. O central deixou o Benfica para jogar no NK Istra, da Croácia, em 2017 D.R. Quais passaram a ser as suas referências como central? Gostava muito do Garay, no Benfica, gostava muito do Sérgio Ramos e do Pepe, no Real Madrid. O Varane, quando apareceu, também gostava muito. Sentia-se parecido com algum deles na forma de jogar? Na formação do Benfica diziam que era parecido com o Varane, por ser um central rápido, pela estatura física, por ser alto e magro. Com que opinião ficou do Rui Vitória? Colocava-nos muito à-vontade, queria que nos sentíssemos confortáveis a treinar com eles. Ele deixava-nos à vontade para jogar o nosso futebol, tanto que alguns estrearam com ele. Houve algum jogador que o tivesse surpreendido mais nas vezes em que foi treinar com a equipa principal? O Pizzi. Gostava muito de ver o Pizzi a treinar, quando ele tocava na bola era diferente; o Pizzi e o Jonas, esses dois tinham muita qualidade, dava gosto vê-los treinar. E pelo contrário, houve algum que o tivesse desiludido, ou fosse mais antipático? Lembro-me de uma vez em que o Jardel, não era ser mais antipático, mas talvez não estivesse num dia tão bom; subimos para treinar, e num duelo o Mesaque Djú roubou-lhe a bola e a seguir o Jardel deu-lhe uma chegada bem forte [risos]. Rodrigo em ação pelo Istra D.R. Quais foram as maiores amizades que fez no Benfica? O Pedro Amaral, que entrou na mesma altura que eu e ficamos juntos até à equipa B. Ao longo dos anos fomos criando uma amizade muito forte e os nossos pais também se davam muito bem. Um pouco mais tarde o Aurélio Buta e o Miguel Borges. Subiu à equipa B do Benfica em 2016/17. Na época seguinte foi para a Croácia. Já tinha empresário? Sim, era a empresa do Fernando Meira, Pedro Mendes e Nuno Assis. Porque acabou por sair para o NK Istra, da Croácia? Faço a pré-época toda a titular na equipa B do Benfica. Eu e o Ferro. No final da pré-época chegou um central russo que já tinha estado na equipa e estava emprestado na I Liga: o Vitalii Lystsov. O Benfica queria que ele jogasse para tentar vendê-lo. Foi isso que me disseram. No primeiro jogo fiquei no banco, no segundo, estamos de estágio no Caixa Futebol Campus e o mister Maruta veio falar comigo e disse-me que o Benfica ia contratar um lateral-direito a uma equipa da Croácia, o NK Istra, da I liga, e que eles queriam um central e um médio ofensivo. O médio ofensivo era o Pipo Ferreira, que estava comigo na equipa B, com quem me dava muito bem aliás. Percebi que era a altura de sair, senti que não ia ser aposta e precisava de um desafio novo. Ainda na época 2017/18, Rodrigo trocou o Istra pelo HNK Rijeka, também da Croácia D.R. Como reagiram os seus pais à possibilidade de ir para fora? Apanhei-os de surpresa. Ninguém estava à espera, nem eu. Já tinha havido noutras alturas conversas sobre ir para o estrangeiro, mas nunca tinha sido assim tão sério. Acabei por decidir com eles, os meus pais perceberam, mas fui eu que tomei a decisão de ir para a Croácia, também porque ia ser I Liga. Assinei por dois anos. Foi ganhar mais? Sim. Isso foi uma exigência do presidente Luís Filipe Vieira. Quando fomos assinar, eu e o Pipo, ele disse-nos: "Vocês vão ganhar mais porque foi uma exigência minha. Disse-lhes que vocês só saem daqui se for para ganhar mais" Foi ganhar quantas vezes mais? Fui ganhar o dobro. Mas nem foi bem ganhar. Então? Chegámos lá e a pessoa que nos vai receber ao aeroporto diz: “Agora vamos arrendar uma casa para vocês. Querem com piscina, ou sem?”. Venderam-nos a banha da cobra, porque pagaram o primeiro mês, depois começámos a treinar, e nós que não entendíamos croata, vemos os jogadores sempre a falar, a discutir, e a dizer Benfica, Benfica. Ficámos a pensar que eles não tinham gostado da nossa chegada. Mas quando começámos a falar com um dos colegas que falava inglês, ele diz-nos que não era nada contra nós, o problema é que lhes tinham dito que quando vendessem o Milos para o Benfica iam pagar-lhes os salários. Havia jogadores com seis e sete meses de salário em atraso. Eu tinha 20 anos, era a primeira vez que saía do país, ficámos em choque quando ouvimos aquilo. Tomou alguma iniciativa? Não disse nada aos meus pais porque não queria preocupá-los. Chegámos em agosto, recebemos esse mês e ficámos em setembro, outubro, novembro e dezembro sem receber. O central (à direita) em ação pelo Rijeka D.R. Como fez para sobreviver nesses quatro meses? A renda da casa o clube pagava, com o primeiro ordenado fiz compras de supermercado e ia a um restaurante baratinho. Nunca pedi dinheiro aos meus pais até que os meus pais vão lá em novembro, vamos à casa do Pipo para eles conhecerem a filha e a mulher do Pipo, e ele não sabia que eu não tinha contado aos meus pais, do nada solta: “Pois, estes gajos agora nem nos pagam...” [risos]. Eu vivia sozinho, sempre fui muito poupado. Para os treinos um colega ia buscar e levar-me a casa. Vi o Breaking Bad, que é uma série longa, em pouco tempo. Só via séries, para ocupar o tempo. Mas pronto, nos primeiros seis meses joguei sempre, correu-me muito bem. Acabou por rescindir por falta de pagamento? Exatamente, como estava com quatro meses em atraso, meti os papéis na FIFA, e assinei pela equipa que tinha sido campeã no ano anterior, em janeiro. Tem alguma história para contar dessa época no NK Istra? Quando fui para lá, chegou novembro e começou a nevar durante uma viagem de mais de 400 km para um jogo fora. Parámos numa estação de serviço, já havia muita neve por todo o lado, e eu e o Pipo Ferreira, nunca tínhamos visto neve. Então, decidimos começar a fazer bolas de neve e atirar um ao outro. De repente, os croatas ficam a olhar para nós e dizem: “O que estão a fazer?” [risos]. E nós, parecíamos duas crianças, todos contentes, dissemos: “Nunca tínhamos visto neve”. Desataram todos a rir. Assinou com o HNK Rijeka por três anos. E também foi ganhar mais? Um pouquinho mais, eles diziam que não gostavam de dar muito dinheiro a jogadores jovens. Eu tinha 20 anos. Também fui pelo projeto e por ser uma equipa que tinha sido campeã na época anterior, tinha jogado competições europeias. Fiquei lá quatro anos, foi onde fiz a maior parte da minha carreira, até agora. O balneário croata é muito diferente do português? Um pouco. Quando cheguei ao Istra, após o primeiro jogo, o mister diz qualquer coisa enquanto nos estamos a despir e comecei a sentir cheiro a tabaco. Vou tomar banho, bem, uma fumarada lá dentro. Quando assinei por essa equipa, eles lutavam para não descer, era uma equipa que tinha muitos jogadores experientes... e estavam três ou quatro jogadores a fumar lá dentro. Esse foi o primeiro choque que tive. Tudo a fumar e nós ali a tomar banho. Mas em termos de balneário, os croatas são muito hospitaleiros. Só que, no início, como não entendemos a língua, parece uma língua agressiva, parecia que estavam sempre a discutir, mas não. Quando foi para o HNK Rijeka, na primeira época, não jogou muito. Eles disseram-me que eu chegava como segunda opção, para aprender com os centrais mais experientes e que jogaria quando surgisse a melhor oportunidade. Foi isso que aconteceu. Na época seguinte, alcancei o meu primeiro título, a Taça da Croácia, numa final contra o Dinamo Zagreb, na época em que eles vão ao Estádio da Luz, até aos quartos de final da Liga Europa. Tinham uma equipa muito boa. Entre eles o Dani Olmo, que agora está no Barcelona. Foi uma final muito especial para mim porque foi no estádio da minha primeira equipa na Croácia. O estádio estava cheio, metade adeptos do Dínamo e metade do Rijeka. Foi um dos momentos altos da minha carreira, de felicidade. Quando voltamos para a nossa cidade, havia um mar de gente, com fumos, a gritar os nossos nomes. Foi uma sensação incrível. Rrodigo com a primeira taça que consquistou na Croácia, ao lado do colega e amigo Maxwell Acosty e o filho deste D.R. Continuava a viver sozinho? Sim. Tenho vivido sozinho até agora. Ter ido para a Croácia não funcionou bem para o namoro que tinha na altura e depois disso nunca mais tive uma relação séria. Na época seguinte voltou a conquistar a Taça. Exatamente, sem dúvida as duas conquistas da taça e quando nos qualificámos para a fase de grupos da Liga Europa são os melhores momentos da minha passagem pela Croácia. Quando jogou pela primeira vez a fase de grupos das competições europeias? A qualificação para as competições europeias foi só em 2020/2021 e ficámos num grupo fantástico, com o AZ Alkmaar, Nápoles e Real Sociedad. Fomos a estádios top, contra equipas muito boas. Só tenho pena de ter tido Covid-19 quando a minha equipa foi jogar ao estádio do Nápoles, porque foi precisamente o primeiro jogo depois do Maradona ter falecido. Disseram que foi uma loucura de gente, era só homenagens a ele, tenho mesmo muita pena não ter vivido esse momento. Depois desses anos na Croácia, quais passaram a ser os seus objetivos e ambições? Era saltar para uma das cinco melhores ligas da Europa. Chegou a haver conversas com scouts da Serie A italiana e da Bundesliga, mas nunca chegou a acontecer. A homenagem pelo 100º jogo com a camisola do Rijeka D.R. Entretanto, renovou com o HNK Rijeka, certo? Sim, porque tinha um contrato ainda baixo, de jovem, e não sei precisar quando foi, mas já tinha conquistado a taça e era um jogador importante, titular, quando quiseram renovar e dar-me essa recompensa. Chegou a aprender a falar croata? Falo fluentemente croata e tento não esquecer porque tenho colegas sérvios e as línguas são praticamente iguais. Dá-me gosto saber outras línguas. Fiz muitos amigos lá, dava-me muito bem com eles, principalmente no Rijeka, onde passei mais tempo. Gostou de jogar o campeonato croata? Gostei e acho que está um pouco subvalorizado. É um campeonato que tem muita qualidade, lançam muitos jovens, vê-se que os jogadores croatas têm vontade de vingar. Quais foram os jogos mais marcantes que viveu no Rijeka? A primeira final da taça, no estádio do NK Istra. O jogo em casa contra a Real Sociedad, que foi o primeiro jogo da fase grupos da Liga Europa; ganhar acho que 4-0 em Split, no dérbi. Foram jogos que ficaram muito marcados na minha memória. O central com a segunda Taça que conquistou na Croácia, com o Rijeka D.R. Que histórias tem para contar da Croácia? Há uma que vem logo à cabeça. O meu primeiro treinador no Rijeka era um pouco como um general, era duro, odiava que usássemos os telemóveis no balneário, sempre que entrava no balneário e via alguém com o telemóvel gritava ao capitão: “Multa”. Um dia eu estava a fazer banho de gelo na mini piscina que tínhamos no balneário, estava só de cuecas com mais quatro ou cinco colegas e estava no telemóvel. Vejo o mister entrar e ele também me vê. Só que quando ele entra, cumprimenta logo um outro jogador e nessa altura encosto-me à parede do jacuzzi e meto o telemóvel entre as costas e a parede. Isso foi na altura em que disseram que o iPhone era à prova de água. Ele veio ter connosco e diz: "O teu telemóvel?"; "Não tenho, mister"; "Tens sim, que eu vi"; "Não tenho, mister"; "Então chega-te para a frente". Eu, armado em esperto, a pensar “o telemóvel é a prova de água”, cheguei-me para a frente e o telemóvel cai dentro de água. Ele diz: "Levanta-te e vira-te". Virei-me e, claro, ele não vê o telemóvel. Olho para a cara dos meus colegas, muito intrigados, tipo, onde é que este gajo meteu o telemóvel? O que aconteceu depois? O mister virou costas, os meus colegas todos a perguntar-me onde tinha metido o telemóvel e eu com aquele ar de grandão, de menino esperto, vou ao chão do jacuzzi, tiro o telemóvel e digo: "Está aqui, é à prova de água." O telemóvel estava a funcionar, só que eu tinha-me esquecido que estava meio partido num cantinho. Tomei banho, fui almoçar, e quando vou agarrar no telemóvel, não liga. Falo para o meu colega brasileiro, o Héber, que era o meu melhor amigo lá: "O telemóvel não está a funcionar”; “Eu não te falei. Pô, cara, essa porra diz que é a prova de água, não é verdade não." Resultado, tive que pôr o telemóvel a arranjar e em vez de pagar uma multa que seriam 20 ou 30 euros, gastei €350 para arranjar o telemóvel [risos]. Mais alguma? Na pré-época do Rijeka, íamos para uma zona de montanha na Eslovénia e como não havia nada para fazer, juntávamo-nos para jogar Playstation no quarto de um de nós. Havia aquela competitividade. Houve uma altura em que eu e um colega estávamos a ganhar sempre e começámos a gozar com outro colega. Ele, num acesso de raiva, agarrou no comando, foi em direção à televisão, para lhe dar com força, mas acabou por dar apenas um pequeno toque. Mais valia ter dado com força, porque a televisão estragou-se na mesma e nós partimo-nos a rir. Ele ficou ainda mais nervoso e acabou por atirar o comando da PlayStation pela janela. Nós ríamos que nem uns perdidos. Sei que vou sentir falta desses momentos, quando acabar a carreira. Rodrigo em ação pelo Rijeka, em 2021 Craig Foy - SNS Group Como é que na época 2021/22 acabou no Anorthosis, de Chipre? Estou nos últimos seis meses de contrato, foi a altura daquela segunda fase da covid-19 e nós na Croácia temos férias em dezembro porque o campeonato pára. Fui passar o ano novo ao Brasil com o Héber, que já tinha saído da Croácia para a MLS. Tinha de me apresentar por volta de 6 de janeiro. Tinha passagem de regresso marcada para dia 2 de janeiro, para chegar dia 3 a Portugal e ainda ficar uns dias com a família, antes de voltar para a Croácia. Mas na noite da passagem de ano testam-me para covid-19, era obrigatório para viajar. A meio da festa recebi um e-mail que dizia. Coronavírus detetado. O que fez? Mostrei ao Héber: “Estou positivo para a covid”. E eu no meio de muita, muita gente. Foi um erro, mas, ao mesmo tempo, não me arrependo porque a vida são dois dias e temos que ser felizes. Digo ao Héber: “Tenho de sair daqui” e ele: “Que se f..., aqui está todo mundo positivo. Vamos ficar aqui, vamos nos divertir” [risos]. Entretanto, mandei mensagem para o meu team manager a dizer que estou positivo para a covid e não vou conseguir viajar. Ele só me respondeu: "Amazing". Como acabou essa história? Fiquei lá mais uns dias até testar negativo, eles começam a pré-temporada. Viajo para Portugal, pego nas minhas coisas, vou para a Croácia a pensar que no dia a seguir ia integrar o estágio com eles. Mas não. Meteram-me a treinar à parte uns 10 dias, às seis da tarde, sozinho, com frio, sempre com um treinador diferente. Foi talvez para me castigar, talvez para me fazer ir embora. Mas não gostei das primeiras propostas que surgiram, até que surgiu uma proposta boa para mim, mas que eles não aceitaram. De onde? Do Slovan Bratislava, da Eslováquia, uma equipa que vai sempre às competições europeias e é campeã. Mas o diretor-desportivo, que era novo, uma pessoa do futebol de que não gostei e que ninguém gostava, chegou com a mania da superioridade porque vinha da Alemanha e disse que eu tinha de sair, porque queriam ter algum retorno financeiro comigo e não aceitaram essa proposta do Slovan Bratislava. Nos últimos dias chegou a proposta de Chipre e foi assim que fui até Chipre. Ainda na época 2021/22, o central assinou pelo Anorthosis, de Chipre D.R. Quando chegou a Larnaca, quais foram as primeiras impressões? Foi uma loucura, porque cheguei no último dia de transferências e fui direto para os escritórios. Mas trataram-me muito bem, meteram-me num hotel bom. Gostei muito de viver em Chipre, apesar de desportivamente não ter corrido bem. Por que razão não correu bem desportivamente? O mister via-me mais como lateral direito, treinei quase sempre como lateral, não treinei na minha posição. Fiz só cinco jogos e no final de março, ou abril, faço um jogo a lateral direito contra o Omónia, estou a jogar muito bem, mas lesiono-me aos 25 minutos, talvez porque não treinávamos tão bem. Lesionou-se onde e como? Foi nos isquiotibiais, na parte de trás da coxa, num sprint. Acho que foi mais por falta de preparação, do que outra coisa. Acabei por fazer só cinco jogos. E, para ser sincero, não tendo falsa humildade, acho que devia ter jogado muito mais. Assinou quanto tempo pelo Anorthosis? Ano e meio. Mas nessa primeira parte da época não joguei muito e quando chego para a pré-temporada seguinte aparece uma oferta do Volos NFC, da Grécia. Um campeonato que, a meu ver, é mais conhecido, tem mais competitividade, e a que se dá mais valor na Europa. A proposta em termos salariais era um pouco mais baixa, tentei que fosse pelo menos exatamente o mesmo valor, o clube disse que sim, acertei a rescisão e fui para a Grécia. Spoiler “Na Grécia, um colega meu foi acusado de violação. Provou a inocência, mas o clube rescindiu connosco. Não tinha culpa, fiquei revoltado” Rodrigo Escoval joga a segunda época na Rússia, mas confessa que gostava de vir para mais perto da família, sobretudo desde a morte repentina do seu pai, em dezembro passado, num acidente de mota. Nesta parte II do Casa às Costas conta pela primeira vez uma situação grave que viveu na Grécia, que meteu polícia e que levou o clube a rescindir o contrato com ele. Fala ainda sobre o FC Vizela e a descida de divisão, que considera ser a maior derrota da sua carreira. E revela muitas outras histórias Foi para o Volos NFC, da Grécia, em 2022/23. Encontrou o que esperava O clube era novo, tinha cinco anos. Foi um clube que o presidente comprou e começou a investir para levá-lo para a I Divisão, onde já estava há dois anos, se não me engano. Mas em termos de estrutura não tinha praticamente nada. Tinha um estádio, o que foi usado nos Jogos Olímpicos de 2004, tínhamos um campo de treino e pouco mais. Estrutura muito básica, mas ele contratava jogadores com qualidade. Tínhamos uma equipa muito boa e qualificámos-nos para o playoff das seis melhores equipas da Grécia. Tendo em conta que cinco delas são as grandes, foi uma época histórica. Que tal era o ambiente na equipa? Tinha muitos estrangeiros. Sim, era uma equipa cheia de nacionalidades, acho que umas 12 ou 13, o que é algo incrível e diferente. Depois do treino íamos sempre almoçar ou tomar café, éramos muito unidos e isso foi também a nossa força no campo. Assinou por duas épocas no Volos NFC, mas já não ficou para a segunda temporada. Porquê? Não fiquei porque aconteceu um episódio extra futebol horrível, que envolve polícia, e que só vou contar porque já passou tudo. É uma história que evitei contar porque as pessoas julgam sempre muito sem saber, e eu estava nessa história, apesar de não ter sido diretamente comigo. Em 2022/23, Rodrigo Escoval (com a bola), assinou pelo Volos NFC D.R. Conte então. Num dia de folga, um colega insistiu muito comigo para irmos até Atenas, para jantar e sair. Não me estava a apetecer, mas provavelmente seria a última vez que podíamos fazê-lo, uma vez que não faltava muito para a época terminar e ele lá convenceu-me. Era uma segunda-feira, jantámos, e só havia uma discoteca aberta. Vamos para essa discoteca e como éramos três, vamos para o que eles chamam de um privado. Nisto veio uma rapariga tentar fazer um brinde comigo e, nem sei porquê, nem sequer brindei com ela. Mas esse meu colega faz o brinde com ela e puxa-a para a nossa zona. Entretanto, vêm umas colegas dela, mas nisto surgem outros tipos e fica ali muita gente no privado. Eu peço para eles saírem, mas eles dizem que estão com elas também. Eu disse: “OK, mas o meu amigo é que chamou a tua amiga, se ela quer estar aqui tudo bem, mas vocês podem sair se faz favor?”: “Ah, nós se quisermos também pagamos...”. Respondi num tom mais sério: ”Se quiseres vai e paga”. Eles saíram? Passados uns 30/40 minutos eles vão todos embora, incluindo essa rapariga que esteve a falar com o meu colega. Mas, passado meia hora, os mesmos tipos voltam a descer até ao nosso privado, vêm em direção a mim e perguntam pelo meu colega. Ele, por acaso, tinha ido à casa de banho. Vi que eles estavam meio alterados, disse que ele não estava ali e perguntei porquê. Nisto o meu colega saiu da casa de banho, eles vão diretos a ele, mas os seguranças agarram neles e metem-nos lá fora. Nós não percebemos bem o porquê daquilo. Ficámos lá talvez mais uma hora, e quando abrimos a porta para sair, vimos seis gajos espalhados em zonas diferentes. Digo imediatamente para a mulher que estava a trabalhar na porta: “Eles estão à procura de problemas”. Ela diz que vai chamar os seguranças. Nisto, o meu colega vai direto a eles e pergunta o que querem. Eles começam a rodear-nos e a discutir, nós sem percebermos muito bem porquê e, às tantas, o meu colega diz: “Vamos embora”. Eles ainda me empurram, um outro meu colega tenta agredir um deles, e quando estamos a chegar mesmo à zona onde pedimos o táxi, chega a polícia. O que fez a polícia? A polícia vê-nos aos nove, eu, os meus dois colegas e os outros seis tipos e mandam-nos encostar todos à parede. Revistam-nos e um deles tinha uma faca. Eles não eram gregos, eram belgas. E esse diz: “No meu país podemos andar com uma faca da largura da mão”; “mas aqui na Grécia não podem”; “mas aqui o criminoso é ele” e aponta para o meu colega. “Ele é que violou a nossa amiga”. A polícia pergunta onde está a amiga, eles dizem que está num hotel e a polícia responde: “Então digam para ela vir, vai tudo para a esquadra”. Rodrigo com os pais e irmã D.R. O que aconteceu depois? Chegámos à esquadra e os polícias metem-nos a todos numa sala talvez de dois por três metros. Nós os três de um lado e os outros seis do outro, sem algemas. Aquilo podia ter dado uma confusão incrível. O meu colega começou a perguntar-lhes: “O que estão a fazer? Estão a mentir”. Começa a tentar falar com eles, mas eles começam num tom mais provocatório ainda. Entretanto, o meu colega começa a dizer aos polícias: “O problema é comigo, deixem os meus colegas ir embora”. Mas eles disseram que não saia ninguém até a rapariga ir lá para fazer o depoimento. Estivemos três ou quatro horas à espera da rapariga, à frente uns dos outros. Ela faz o depoimento e a seguir a polícia deixa-nos sair, a mim e a outro colega, mas o nosso terceiro colega tem de ficar porque foi feita uma queixa de violação. Qual foi o desfecho dessa situação? Quando saio da esquadra, 30 minutos depois o meu telemóvel e o do outro colega não parava de tocar. Já tinha saído na comunicação social. Estava o meu agente a ligar-me, o diretor-desportivo e, entretanto, o presidente solta logo uma nota a dizer que não se revê nos nossos atos e que estávamos fora da equipa. Sem falar com vocês ou com a polícia? Sim. Porque a notícia que circulava era: “Jogador da Superliga grega viola rapariga num quarto escuro de uma discoteca”. Só que era tudo mentira, eles os dois nunca saíram do nosso privado, onde estava muita gente, e nunca foram para outros espaços juntos. Foi a sorte do meu colega, que conseguiu provar a inocência dele. Foi tudo uma mentira gigante. Passados dois dias fui depor por ele, contei a história toda. A discoteca forneceu as imagens de videovigilância que comprovaram que eles nunca saíram do privado, onde estávamos todos. Ela fez exames e tudo, deu sempre negativo. O meu colega ainda ficou três ou quatro noites detido à conta daquilo. Passado um mês provou-se a inocência dele. O central (à esquerda) em ação pelo Volos NFC D.R. O clube retrocedeu na decisão de rescindir os contratos? Não. Passado um mês, quando se provou a inocência, a mãe da rapariga fartou-se de telefonar ao meu colega, a pedir por favor para não lhe colocar um processo, porque eram de classe baixa e não tinham dinheiro. Só que é difícil limpar a imagem, fica sempre uma dúvida, eu via as ameaças que lhe escreveram no Instagram, uma coisa incrível. A notícia chegou a sair no Daily Mail, não sei como não saiu em Portugal. Na Grécia teve tanta expressão como quando foi o caso do Rúben Semedo, em que também foi provada a inocência dele. Quis falar com o meu presidente, mas ele não quis. Era tempo de eleições, ele também era governador da cidade de Volos e não quis falar comigo. Falei com o diretor-desportivo e ele diz-me que chegaram a ter a minha transferência feita para o AEK de Atenas, porque eu tinha feito uma época espetacular, mas com tudo o que aconteceu, caiu por água abaixo. E fiquei sem contrato. O que sentiu nesse momento? Revolta, frustração, não tinha qualquer culpa naquilo, nem sequer tinha trocado uma palavra com a rapariga, e apanhei por tabela. Inclusive era uma noite em que eu nem me apetecia ir. Nunca mais deixei de seguir o meu instinto. Foi algo que me ficou para a vida. Se sinto que não devo fazer ou que não me apetece, não vou fazer. O que aconteceu a seguir? Fui para Portugal à procura de equipa. A rescisão foi em abril. Tive algumas propostas, mas até isso ficar clarificado os clubes ficaram com a impressão que eu era um jogador problemático porque tinha acontecido aquilo e as propostas eram baixas, diziam que não podiam investir muito dinheiro em mim. Só quando se provou a inocência dele é que começaram a voltar propostas melhores e acabei por assinar pelo FC Vizela. Não foi a melhor proposta financeira que tive, mas como sempre tive o objetivo de jogar na I Liga portuguesa, decidi voltar a Portugal. Na época 2023/24 Rodrigo assinou pelo FC Vizela D.R. Que outras propostas financeiramente melhores é que teve na altura? De Israel e da Polónia. Mas eu tinha esse objetivo/sonho, que ainda não tinha cumprido, de jogar na I Liga portuguesa. Recorda-se do jogo de estreia na I Liga portuguesa? Perfeitamente, foi contra o Vitória, em Guimarães. Antes do jogo há sempre aquele nervosismo, mas esse especialmente, porque é um dérbi ali da zona de Guimarães, e foi logo no início do campeonato, tinha muitos adeptos, aquele ambiente bom em Guimarães. Foi bem recebido no balneário ou estranhou? Eu já vinha de quatro ou cinco equipas diferentes, por isso foi fácil adaptar-me. Os balneários são diferentes, mas, ao mesmo tempo, são muito iguais, há sempre aqueles jogadores mais engraçados, os mais fechados, e habituas-te. A I Liga era o que imaginava ou mais forte do que contava? No primeiro jogo que fiz para a Taça da Liga, com o AFS, lesionei-me no tornozelo, fiz uma entorse, o que atrasou um pouco a minha adaptação. Mas sim, era o que estava à espera. Equipas com qualidade, os grandes com muita qualidade. O que me desapontou um pouco foi o jogo ser mais parado. Pára-se muito devido a pequenos toques, é tudo falta. Aqui na Rússia é totalmente diferente, deixam jogar. Assinou por uma ou duas épocas com o FC Vizela? Duas temporadas e depois renovei. Mas acabei por fazer só uma temporada porque descemos de divisão e eu tinha uma cláusula no contrato, podia sair em caso de descida. Em ação pelo FC Vizela Eurasia Sport Images A descida com o FC Vizela foi uma grande desilusão? Foi a maior derrota da minha carreira, especialmente porque as pessoas no clube eram fantásticas. Eu passava muito tempo no clube, gostava de estar com as pessoas, não só os jogadores. Principalmente com as pessoas do staff, os fisioterapeutas, roupeiros, quem lá trabalhava. Almoçava com eles e adorava mesmo aquelas pessoas, faziam-me sentir muito bem. Tenho mesmo muita pena de ter descido de divisão com o FC Vizela e tenho muita pena que no ano passado não tenham conseguido subir, mesmo tendo ido ao playoff e jogado muito bom futebol. Espero muito que voltem à I Liga. Quando a equipa desceu, o que lhe passava pela cabeça e que objetivos ainda tinha? Mesmo antes de descer, quando estás naquela situação, dás tudo no treino, a nossa equipa jogava bem, criava oportunidades, mas às vezes parecia que a bola não queria entrar. Há coisas no futebol que não dá para explicar. Estive noutras equipas em que treinávamos mal, não tínhamos metade da qualidade e as coisas corriam bem no campo. No caso do FC Vizela, tínhamos qualidade, treinávamos bem, fazíamos bons jogos, mas não conseguíamos os resultados, o mais importante no futebol. É algo que não consegues explicar. Depois quando começas a ver aquela situação, por mais que tentemos fazer cálculos e pensar, se ganhamos aqui, aqui, e as coisas não acontecem, vais para casa e não consegues parar de pensar naquilo, não encontras explicação, é algo que deixa um nó na garganta. Só teve a proposta do Akron Togliatti, da Rússia, entretanto? Não. Tive propostas da Holanda, da Grécia, estive muito perto de voltar à Grécia, porque adorei viver lá. Era uma equipa que na altura tinha subido e que voltou a subir este ano em Atenas: o Kifisias. O diretor-desportivo queria-me muito, dizia que ia ser um passo para eu voltar ao radar das equipas grandes na Grécia. Tive praticamente tudo acertado. Essa transferência não aconteceu porquê? A parte financeira aqui na Rússia era muito melhor. Embora, ao mesmo tempo, tivesse medo por causa da guerra. Estava disposto a perder dinheiro para não vir para cá, mas nisto falei com um ex-preparador físico meu do Rijeka, que agora trabalha no Zenit, e ele disse-me que se a proposta era boa para vir porque aqui não se sente nada da guerra, há bons restaurantes, vive-se uma vida totalmente normal. Eu tinha 27 anos, o lado financeiro começa a ter um peso maior do que quando somos mais jovens, por isso acabei por aceitar a proposta da Rússia. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no FC Vizela? Mais do dobro e em prémios de jogo 20 vezes mais. É uma diferença abismal. Como foi o primeiro contacto com a equipa? Foi na Turquia, onde faziam a pré-época, e o primeiro choque foi perceber que ninguém falava inglês. A percentagem dos que falam inglês é muito, muito baixa, o que torna mais difícil a comunicação. Foi a primeira vez na carreira em que tive um tradutor. O treinador fala e ele traduz em simultâneo, ou seja, sempre que tenho uma conversa com o treinador, ele tem de estar. A tradução é feita para português ou inglês? Para português, o nosso tradutor é cazaque, mas viveu uns anos no Brasil e fala português perfeitamente. Ele está diariamente connosco, em todos os treinos, em todos os estágios, em todas as viagens. Além de mim, temos o Gilson Benchimol, internacional por Cabo Verde, que vive em Portugal também. E depois temos dois bolivianos, portanto ele traduz para portuñol, meio espanhol, meio português, dependendo mais para que zona é que o treinador está a falar na altura. E depois temos outro tradutor que traduz para inglês e sérvio. Isso não cria confusão no balneário? [Risos] Um pouquinho porque geralmente quando o treinador fala toda a gente está calada, mas aqui quando ele fala tens um grupo do lado direito que é o nosso grupo espanhol/português e o outro sérvio/inglês a ouvir o tradutor. Mas eles aqui estão habituados e eu também já me habituei. Já aprendeu a falar russo? Já entendo muito, pelo facto de falar croata, há muitas coisas que são parecidas, mas falar é um pouco mais difícil. Num jogo do FC Vizela à chuva D.R. Disse que o primeiro choque foi não saberem inglês, mas ao menos tentaram ser calorosos consigo no balneário? São muito frios. Foi a equipa e talvez o país mais frio onde estive. Mas é deles, não é por maldade. Não há tantos sorrisos, nem aquela coisa que nós temos de dizer “bom dia” e sorrir. No meu prédio em Portugal passo por alguém e digo “bom dia”, no mínimo. Aqui os meus vizinhos às vezes não me dizem nada e isso deixa-me chateado, confesso, porque sou uma pessoa comunicativa e fico lixado quando as pessoas não me dizem “bom dia”. E que tal é a cidade de Togliatti? É má, não vou mentir. Há pouco para fazer, é um pouco depressiva, encontrei apenas duas, três pessoas que falam inglês, o que torna a comunicação e as relações com as pessoas mais difícil. O que acha do campeonato russo? Forte fisicamente, dão muito valor ao físico, ao ginásio. Também têm jogadores com muita qualidade, porque os clubes russos são fortes financeiramente, têm essa capacidade de trazer jogadores com muita qualidade. É um futebol mais corrido, em que os árbitros deixam jogar, há mais contacto físico; essas talvez sejam as maiores diferenças. Os estádios são melhores que os de Portugal, porque como houve aqui o Mundial, temos estádios a sério. E há muitos adeptos? Não há tantos porque eles criaram o FAN ID, em que as pessoas têm de se identificar e as claques organizadas detestam isso, o que faz com que a maior parte não venha aos jogos do campeonato. Mas vão aos jogos da taça, porque para os jogos da taça não é preciso FAN ID. Às vezes vêem-se os jogos da taça com estádios cheios. Rodrigo (à esquerda) confessa que a descida de divisão com o FC Vizela foi o pior momento da carreira, até agora D.R. Ao fim de tantos anos a viver sozinho em países diferentes, já aprendeu a cozinhar ou continua a preferir comer em restaurantes? Sei cozinhar. Houve um momento que virei vegan porque vi um documentário, mas só durou duas semanas [risos]. Sou muito preguiçoso para cozinhar. Aqui na Rússia temos sempre uma refeição no clube. Se treinamos de manhã, temos o almoço, se treinamos à tarde, temos o jantar. Só tenho de me preocupar com uma refeição, tirando o pequeno-almoço, que é mais básico. Mas, sim, vou ao restaurante, ou mando vir comida, porque sou muito preguiçoso para cozinhar. Sobretudo cozinhar sozinho e só para mim. Depois tens de limpar tudo, enquanto se mandares vir, desembrulhas, comes, embrulhas e lixo [risos]. Já se habituou à vida de solteiro ou pretende ainda ter uma relação e dividir a vida com alguém? Estou um bocado farto de estar sozinho, tenho 28 anos, tenho o sonho de ser pai e de ter a minha família. Mas quero ter filhos para criá-los e estar com a minha mulher. Tenho um sobrinho de dois anos e adoro estar com ele, adoro ver as pequenas evoluções dele, que quero acompanhar quando tiver o meu filho. Mas, ao mesmo tempo, é difícil conseguir encontrar alguém já porque estou num país que não é o meu e não sei se quero ficar com uma mulher que não seja portuguesa ou que não fale a minha língua. Por exemplo, a minha mãe não fala inglês... Começo a pensar um pouco mais à frente, como será o impacto, o choque de culturas, penso um pouco nisso. Vivo a minha vida na Rússia e quando vou de férias é difícil conhecer alguém em três, quatro semanas e dizer "vem viver comigo." Alguma vez sentiu os efeitos da guerra ou sentiu medo? Não. Às vezes recebemos mensagem, ainda hoje recebi, a dizer que há perigo de ataque de drones. Mas nunca senti nada. A única coisa que já vivi é, por exemplo, fecharem o aeroporto. Uma vez, estava a voltar do Dubai, porque tínhamos tido uma folga, fui lá dar uma volta e quando estávamos prestes a chegar a Moscovo, o piloto avisa que não podemos aterrar em Moscovo. Fomos aterrar noutro aeroporto mais pequeno onde estivemos umas seis, sete horas até podermos voar para Moscovo. Em 2024/25, o central mudou-se para o Akron Togliatti, da Rússia NurPhoto Tem algum episódio mais caricato que possa contar, da Rússia? Houve um jogo, com uma equipa em Voronej, que fica mais perto da Ucrânia e que coincidiu com uma altura em que a Ucrânia tinha entrado em território russo e tivemos o jogo à porta fechada com snipers nos telhado do estádio. Foi muito estranho. Já discutiu com colegas russos o assunto da guerra? Não. Evito abordar o assunto. Quando as pessoas me perguntam prefiro não aprofundar o assunto porque por mais que veja notícias, vou ser leigo nesse assunto, então não posso dar a minha opinião. A única coisa que posso dizer é que aqui se vive uma vida normal e que nunca senti nada. Nem sei se as pessoas estão contra ou a favor de Putin. Nunca abordaram esse assunto comigo. Pessoalmente, é contra a invasão russa na Ucrânia? Sou contra tudo o que sejam guerras no mundo. Acho que já passou esse tempo em que povos invadiam outros países e conquistavam terras. Hoje em dia as fronteiras estão formadas. Acho que não faz qualquer sentido. Cada país tem como viver com os seus recursos e não precisa invadir o espaço do outro. Sou uma pessoa muito da paz, que respeita o espaço do outro. A festejar um golo pelo Akron Togliatti, da Rússia D.R. Tem mais algum episódio da Rússia que possa contar? Na época passada ganhámos um dérbi contra o Samara, da cidade vizinha à nossa, com quem dividimos o estádio. Foi o primeiro jogo contra eles, ganhámos e decidimos celebrar. Jantámos e depois a equipa quase toda foi para um karaoke muito famoso aqui na cidade. Cantámos tudo e mais alguma coisa, divertimo-nos. Mas as celebrações puxam sempre bebida e álcool e houve um colega, que era meu vizinho, que estava mal. Eu disse que tomava conta dele e que o levava a casa. Chamo o táxi, vou com ele até casa. Tive de ajudá-lo a subir as escadas, quando estamos à porta de casa, ele procura nos bolsos, procura, e diz: “Acho que perdi as chaves”. Como ele estava mal, revistei-o, mas não encontrei as chaves. Eu estava cansado, tinha jogado os 90 minutos. Da casa dele para a minha eram cinco minutos a pé e não me apetecia carregá-lo. Liguei para o nosso tradutor, nisto quando olho para ele, estava deitado no chão à porta da casa dele, meio em conchinha, a dormir. Estava tão bêbedo que adormeceu. Sento-me à espera do tradutor, passado um pouco chegam uns vizinhos dele e convidam-nos para ir para casa deles. Eu sem falar russo, sem os conhecer, eles não falavam inglês. Entro na casa deles e senti um ambiente estranho. Estava uma criança com 12/13 anos a dormir sozinha. Sentei o meu colega no sofá, mas pensei, não podemos ficar aqui. Chegou o tradutor, que disse morar ali perto. Ele era um peso morto, mas lá o levámos. Ele ficou na casa do tradutor. Fui para minha casa e no dia seguinte o tradutor contou-me que quando o meu colega acordou, começou a andar pela casa, sem saber onde estava, mas lá encontrou o nosso tradutor a dormir no quarto e confessou que não se lembrava de absolutamente nada. [risos] Com o troféu de melhor em campo num jogo pelo Akron Trogliatti D.R. Tem contrato até quando? Até 2027. Que objetivo tem a seguir? Já estou há muitos anos fora e acho que pelo facto de, em dezembro passado, ter perdido o meu pai, quero estar mais perto da família. Como faleceu o seu pai? Foi de repente. Joguei a 7 de dezembro o último jogo da primeira parte da temporada, viajo durante essa noite, chego a Portugal dia 8, um domingo, os meus pais vão-me buscar ao aeroporto, passamos o dia todo juntos, porque sempre que chego a casa a família é a minha prioridade, sou muito chegado a ela. Na segunda-feira o meu pai saiu para trabalhar, eu estava a dormir ainda, nem o vi. Durante o dia, um amigo chamou-me para irmos à praia, a São João da Caparica e depois desafiou-me para ver o jogo do Estrela da Amadora. Estávamos no jogo e liga-me a minha irmã: “Mano, onde é que estás, onde é que estás? Vem já para casa, o pai teve um acidente”. E desliga o telemóvel. Começo a correr para o carro, a minha irmã liga-me outra vez: “Mano, o pai está deitado no chão, estão a tapar o pai”. Fui a acelerar desde a Amadora até Sacavém. O que encontrou quando lá chegou? O meu pai, como disse no início da entrevista, fazia distribuição de motos pelo país. Nesse dia tinha ido até Guimarães, depois fez umas entregas ali à volta, ou seja, devia ter mais de 700 quilómetros em cima, mas acabou por ter um acidente de mota a um quilómetro de casa, por culpa de uma pessoa que atravessou numa zona, que não tem passadeira, para ir comprar tabaco. Quando cheguei junto do local do acidente, vi a minha irmã de pijama, porque estava em casa, a minha mãe, deixei o carro no meio da estrada, comecei a correr em direção ao local, no preciso momento em que estão a levar o meu pai na maca, já completamente tapado. Comecei a gritar com os polícias "Sou o filho, deixem-me ver"; "Não, não pode ver, não pode ver"; "Mas como é que sabem que é o meu pai? Alguém tem de o identificar". Eu queria ver o meu pai e eles não me deixaram ver o meu pai. O que aconteceu com a pessoa que se atravessou? Vai começar agora o julgamento porque essa pessoa está a ser acusada de homicídio por negligência. Aquilo é uma zona lenta, a mota do meu pai fazia barulho e o que a polícia me disse, porque viu as gravações, que nós só devemos ver agora, é que o homem atravessou numa zona sem passadeira, porque ia comprar tabaco. O meu pai quando o vê tenta desviar-se, só que esse homem corre para o mesmo lado onde o meu pai desvia a mota. O meu pai acerta na perna dele, perde o controlo da mota, e o meu pai, que usava sempre as proteções, andava sempre bem equipado, foi contra o passeio e na pancada atingiu umas determinadas vértebras e morreu. Rodrigo Escoval com o sobrinho D.R. Pretende então voltar a Portugal em breve para estar junto da família. A partir desse momento o dinheiro para mim começou a fazer menos sentido e não sei se não quero voltar para Portugal. Estou um pouco cansado de estar tanto tempo fora e o dinheiro não vai comprar as vivências e as memórias que estou a perder com a minha família. Sendo muito ligado à minha família, não sei se depois da Rússia não quererei voltar a Portugal ou para mais perto, pelo menos, mais fácil de viajar para estar com eles. Tem alguma meta para deixar de jogar? Neste momento não. O meu corpo sente-se bem, nunca tive lesões graves, quero jogar até me sentir bem e tirar prazer disso. Mas gostava de ter a experiência de voltar a jogar no Sacavenense, onde tudo começou. Gostava de encerrar lá a carreira. Já sabe o que quer fazer no dia em que tiver mesmo de pendurar as chuteiras? Algo que estou a começar a fazer: entrar no mercado imobiliário. Já comprei um terreno, estou a construir para vender. Quero entrar nesse mercado, quero começar a fazer dinheiro não só do meu corpo, mas também do meu cérebro. Onde ganhou mais dinheiro na carreira até agora? Na Rússia. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Talvez comprar o meu carro, um BMW. Tem algum hobby? Gosto muito de tomar café com amigos, de conversar com as pessoas, gosto de passear e de cinema também. O central com a bola, em jogo pelo Akron Togliatti D.R. É um homem de fé, acredita em Deus? Essa é uma pergunta difícil para mim. Às vezes, sim, outras vezes não. Acho que sou mais de ver para querer. Superstições? Quando era mais jovem tinha muitas. Hoje já não. Quais eram as principais? Se fazia um jogo bom, no próximo queria fazer tudo igual ao que tinha feito antes do jogo anterior. Nos juniores do Benfica se comia três torradas antes do jogo, começava a vestir-me de um determinado lado, fazia tudo igual na semana seguinte. Hoje já não. Tatuagens, tem? Zero. Acompanha ou pratica outra modalidade sem ser o futebol? Acompanho ténis, mas não pratico. Qual a maior frustração que tem na carreira? Não ter chegado a palcos maiores. Não ter jogado ainda a Champions League. E o maior arrependimento? Ter saído à noite naquela noite, na Grécia. O momento mais feliz na carreira? Ter ganho a primeira taça na Croácia. O objetivo que está por cumprir? Jogar na Liga dos Campeões. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde um dia gostava de jogar? Manchester United ou Real Madrid. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Pedro Amaral, Maxwell Acosty e Héber. Tem ou teve alguma alcunha? Tive uma, que detestava, no Benfica: Fininho. Detestava. Mas eu era muito magro. Agora chamam-me Rodri, é um diminutivo. Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Não sei. Tem algum talento escondido? Há um jogo online que jogo muito bem, que é o PUBG Mobile, é no telefone. Mas estou a deixar de jogar. Quem foi o adversário mais difícil que enfrentou na carreira? O Isak do Liverpool, mas quando ele estava na Real Sociedad. Rodrigo Escoval com o pai D.R. Qual o jogador com quem gostava de ter jogado na mesma equipa, e qual o jogador contra o qual gostava de ter jogado? Adorava ter jogado com o Sérgio Ramos. Adorava ter jogado contra o Ronaldo e o Messi. Adorava ter jogado contra os melhores jogadores do mundo. Qual foi o treinador que mais o marcou até hoje? Renato Paiva, porque foi um treinador que apostou muito em mim. Mesmo quando eu não era aposta do Benfica, ele acreditou no meu trabalho e apostou em mim. Qual a liga onde mais gostou de jogar? Na Grécia. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Contabilista. Era bom de contas. Qual foi a pessoa que mais contribuiu para que se tornasse jogador de futebol? O meu pai. Vou contar uma história rapidinho. Quando comecei a treinar nos Pupilos do Exército, os treinos eram por volta das 17h/17h30. O meu pai só saía às seis do trabalho. Então o que ele fez? Como tinha muitas horas extra, falou com o patrão e perguntou-lhe se podia juntar as horas todas e sair três horas mais cedo diariamente, até as horas extra se esgotarem, para ir buscar-me à escola e poder levar-me aos treinos. Ou seja, o meu pai transferiu aquilo que seriam dias de férias, em horas, para poder acompanhar-me e isso nunca vou esquecer. Se não fosse ele, não teria hipótese de dar continuidade ao meu sonho, porque na altura era muito pequeno e os transportes públicos ainda eram algo fora do meu alcance. 2 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 19 Outubro 2025 Aurélio Buta Spoiler “Confesso que o sonho de voltar ao Benfica, à equipa principal, mantém-se” Aurélio Buta, de 28 anos, chegou a Portugal com quatro anos e assim que viu o estádio do Águeda avisou o pai que queria jogar ali. Foi lá que iniciou a formação, aos seis anos, mas é no Benfica que se faz lateral. Apesar de ter feito uma pré-época com a equipa principal, que lhe alimentou o sonho de vingar no clube da Luz, acabou por optar por seguir viagem para a Bélgica, onde jogou cinco anos no Royal Antwerp e conquistou uma taça. É sobre este período da sua vida que falamos nesta Parte I do Casa às Costas Nasceu em Luanda. É filho de quem? O meu pai trabalhava como taxista em Angola e a minha mãe fazia trabalho de escritório numa empresa. Eles vieram para Portugal à procura de uma vida melhor, eu tinha quatro anos. O meu irmão ainda não tinha nascido, ele nasceu em Portugal. Já em Portugal, o meu pai trabalhava numa empresa que fazia azulejos e a minha mãe é cozinheira. Tem alguma memória de Angola? Às vezes vêm imagens à cabeça, mas nada especial. A imagem que tenho devia ser da casa dos meus avós, porque tinha uma varanda super comprida e tenho imagens de estar lá a jogar à bola. São as únicas memórias que tenho. Quando chegou a Portugal foi viver para onde? Para Águeda. Que recordações tem dos primeiros tempos em Águeda? Lembro-me muito bem da nossa primeira casa e de começar a ir ao infantário. Basicamente é isso. Com cinco anos andei no infantário e com seis entrei para a escola. Tenho alguns colegas do infantário com quem ainda mantenho contacto. Aurélio Buta em criança D.R. O que dizia querer ser quando fosse grande? Não me lembro, mas sempre tive o gosto do futebol. Recordo-me bem que quando nos mudamos para Águeda, passámos pelo Estádio Municipal de Águeda e eu disse ao meu pai que queria jogar ali. Foi uma criança tranquila ou deu muitas dores de cabeça aos pais? Dei algumas [risos]. Eu jogava futebol em casa, em todo o lado e partia muitas coisas. Acho que a minha vizinha de baixo ficou com umas 10 ou 15 bolas minhas. A minha mãe nunca foi lá buscar nenhuma. Dizia que não ia, então ela ficava com as bolas. [risos] Foi uma infância feliz. Em casa torcia-se porque clube? Foi sempre pelo Benfica. Quando era pequenino quem eram os seus ídolos? Gostava muito do Cristiano Ronaldo e do Alexis Sánchez. Tinha alguém na família ligado ao futebol? Não. O meu pai tinha jogado em Angola, mas apenas futebol amador. Como foi parar ao Recreio Desportivo de Águeda, com oito anos? Como lhe disse, eu sempre disse que queria jogar naquele estádio, mas a minha mãe dizia que eu tinha de pensar nos estudos. Até que o meu pai acabou por inscrever-me. Fui lá fazer testes com seis anos, se não estou em erro, mas só aos oito anos é que comecei a ser federado. Treinava três vezes por semana e jogava aos fim de semana. No início jogava com os da minha idade, mas depois comecei a jogar com os do escalão dois anos mais velhos. Gostava da escola? Não muito. Buta (à esquerda) com o irmão, Leonardo D.R. Aos 12 anos foi para o Beira-Mar. Como aconteceu? Houve um contacto do diretor do Beira-Mar que falou com os meus pais. Aceitei e fui para lá. Quem o levava aos treinos? Ia na carrinha do clube. Eles tinham uma carrinha para os jogadores que viviam mais longe. Nessa altura eu já vivia na Aguada de Cima. Ficou dois anos no Beira-Mar. Já jogava como defesa direito? Não, eu jogava como extremo. Marcava muitos golos. Como aos 14 anos foi parar ao Benfica? Tinha empresário? Não tinha empresário. No meu primeiro ano do Beira-Mar eu jogava no meu escalão, mas no ano seguinte comecei a jogar no escalão acima, que já jogavam campeonato nacional e destaquei-me. Na altura houve o interesse do Sporting, do V. Guimarães, do FC Porto e do Benfica. Acabei por escolher o Benfica. Visitei o Caixa Futebol Campus e assinei. Ainda fui ao Sporting, mas escolhi com o coração. [risos] Teve de mudar-se para o Seixal e deixar o ninho. Foi muito difícil? Custou-me muito porque estava habituado a ver os meus pais e do nada deparo-me com a realidade de não os ter diariamente, ao início foi bastante complicado. Mas com o tempo habituas-te, a maior parte dos colegas que estão no centro de estágio estão na mesma situação e estão na mesma escola também. Dividiu quarto com quem? Com o Fábio Novo. Foi praxado pelos mais velhos? Por acaso não. O lateral (no centro em baixo) começou a jogar futebol no RD Águeda D.R. Quando aos 14 anos assinou pelo Benfica começou a ganhar dinheiro com o futebol? Sim, uns €300. Esse dinheiro ficava com os meus pais e sempre que precisava eles mandavam. Mas quase não precisava porque vivia no centro de estágio, tinha tudo e naquela altura não saía praticamente. Se saíssemos tínhamos de ter a autorização dos nossos pais e regressar até às oito da noite, e no fim de semana podíamos voltar até às onze. Quais eram as suas ambições e sonhos com 14/15 anos? Nessa altura eu só queria desfrutar ao máximo, estar ali para mim já era um sonho. Depois os anos passam e vais percebendo que o sonho é chegar à equipa principal do Benfica. Até chegar à equipa B, quais foram os momentos e as pessoas mais marcantes? A primeira foi ter ganho logo o campeonato de iniciados, no primeiro ano. Ter jogado a Youth League, ter chegado à seleção nacional das camadas jovens, ter jogado Europeus. Quando foi chamado pela primeira vez para representar Portugal? Tinha16 anos. Gostou do ambiente das seleções? Sim, o contexto não era muito diferente porque também tinha muitos colegas da minha equipa. Depois do RD Águeda, Buta (3º à direita, atrás) jogou no Beira-Mar D.R. Que histórias mais caricatas tem para contar dos tempos da formação? Por vezes pedíamos pizzas para as traseiras do centro de estágio, que era proibido. Andávamos sempre a fugir dos seguranças. Muitas vezes comíamos as pizzas no campo sintético, às vezes levávamos para o quarto, mas era tudo às escondidas. Já mais velho lembro-me de irmos jogar, à noite, para o campo onde treinava a equipa principal, também às escondidas, claro. Lá tinham de vir os seguranças tirar-nos de lá [risos]. Até onde levou os estudos? Até ao 11.º ano. Coincidiu com a ida para os juniores. Fui estudar à noite, porque começámos a treinar de manhã. No ano seguinte comecei a ir à equipa B e aí deixei de estudar. Recorda-se da sua primeira saída à noite e dos primeiros namoros mais sérios? A primeira saída foi durante as férias, quando ia para casa. O namoro mais sério foi com minha atual mulher. Conhecemo-nos eu tinha 18 anos e ela 17. Ela é de Vila do Conde. Conhecemo-nos pela internet, encontrámo-nos e passado um tempo começámos a namorar. Buta (no centro) ao lado de João Carvalho (à esquerda) e Hugo Santos (à direita), ingressou no Benfica com 14 anos D.R. Quem foram os treinadores que mais o marcaram na formação do Benfica? O Renato Paiva e o João Tralhão. Porquê esses dois? O Renato Paiva foi no meu ano juvenil e foi uma das melhores temporadas que fiz na formação. Ele ajudou-me bastante a evoluir. E o João Tralhão foi o treinador que me colocou a lateral, no 2.º ano de júnior. Por que razão o mudou de posição? Ele via muita capacidade em mim de atacar e defender e como queria laterais rápidos e eu embalado de trás era muito forte, decidiu apostar em mim como lateral. O que achou da ideia na altura? Não me caiu muito bem, porque tinha feito toda a minha formação a extremo, jogar a lateral era um bocado complicado para mim. Mas fiz a segunda época de juniores a lateral e saí-me muito bem. A seguir passei para a equipa B e comecei logo a jogar como lateral. Qual foi o primeiro treinador que o chamou para treinar com a equipa principal? O Jorge Jesus, mas fiz a pré-temporada com a equipa A na altura do Rui Vitória. O lateral em ação pelo Benfica Gualter Fatia Estava muito nervoso a primeira vez que foi treinar com os craques do Benfica? Há sempre aquele nervosismo, estás a treinar com a equipa principal e és miúdo, mas foi natural e correu bem. Eles sempre me acolheram bem na equipa principal e deixaram-me à vontade. Houve algum jogador que o tivesse surpreendido mais? O Jonas. Ele veio falar comigo, para estar à vontade, para treinar bem. Disse-me que tinha estado muito bem com eles na pré-temporada e foi uma pessoa que me marcou pelas palavras. Quando assinou o seu primeiro contrato profissional? Aos 17 anos. O primeiro ordenado que ganhei como profissional era €1200. Recorda-se do que fez com o primeiro ordenado? Não me lembro, devo ter comprado algumas coisas para mim e oferecido alguma coisa aos meus pais. Quando teve de deixar de viver na academia do Benfica? No meu 2.º ano de júnior, em que passo para a equipa B. Fiquei a viver no Seixal com mais três colegas: o João Carvalho, o Hugo Santos e o Hugo Neto. O que mais lhe custou quando se tornou independente e passou a viver com outros colegas? O ter de fazer a comida, lavar a roupa, mas muitas vezes comíamos no centro de estágio. Aurélio Buta chegou a representar a seleção nacional nas camadas jovens D.R. Fez a pré-temporada 2017/18 com a equipa principal do Benfica. O que achou do Rui Vitória e dessa pré-temporada? Foi uma pré-temporada muito boa. O mister Hélder Cristóvão da equipa B falou comigo, disse que eles estavam a precisar de um lateral porque o André Almeida tinha um toque e comecei a treinar com eles. Fizemos um jogo-treino no Algarve e a seguir viajámos para Inglaterra. Joguei contra o Arsenal lá. O Rui Vitória ia-me dizendo para estar calmo, tranquilo, deixou-me à vontade e incentivava-me bastante. No final dessa pré-temporada pensava que ia integrar a equipa principal? Na minha cabeça sim. Fiz uma boa pré-temporada, mas no final o mister veio falar comigo e disse que ia voltar à equipa B, mas que iam estar sempre atentos à minha situação. Foi uma grande desilusão? Não foi uma grande desilusão, porque levei a bem, era miúdo. Tinha na cabeça que podia voltar a trabalhar e a oportunidade poderia aparecer outra vez. Já tinha empresário? Sim, o Carlos Gonçalves da Proeleven. Voltou à equipa B? Voltei para a equipa B, mas passado umas semanas apareceu a proposta da Bélgica, do Antuérpia. Quando lhe falaram dessa proposta, qual foi a sua primeira reação? Eu não conhecia o clube, não acompanhava o campeonato belga, só conhecia o Anderlecht e o Standard Liège. O empresário disse-me que era um empréstimo, eles tinham acabado de subir da II Divisão e aceitei. Foi quase no final do mercado, viajei para lá nos últimos dias. Buta ficou no Benfica até aos 20 anos D.R. Acha que estava à altura de merecer uma oportunidade na equipa principal do Benfica? Acho que sim. Quando passou do Benfica para a Bélgica foi ganhar quantas vezes mais? Umas seis ou sete vezes mais. Primeiro fui de empréstimo, depois eles compraram-me ao Benfica e assinei por quatro anos, mais um de opção. Foi viver para onde e com quem? No início fiquei num hotel sozinho, e depois a minha mulher, a Catarina, na altura ainda namorada, veio viver comigo. No início não foi fácil porque foi a primeira experiência de ambos fora do país, ainda por cima a iniciar uma vida a dois. Estás habituado a estar com a tua família sempre, o primeiro ano foi um pouco difícil, mas depois correu bem. Têm filhos? Temos um, que nasceu a 11 de fevereiro de 2024. Eu faço anos a 10 de fevereiro. Qual foi o primeiro impacto quando se instalou em Antuérpia? Ui, eu nem sequer sabia falar bem inglês. Não sabia nada e então no início foi complicado. O que me valeu é que o treinador era o Laszlo Boloni que fala português e ajudou-me bastante. Ele por acaso gostava muito de mim, falávamos bastante. Ele dizia que eu tinha muito talento, que tinha de trabalhar sempre e que podia chegar longe. Foi ele que me ensinou mais em termos defensivos Aprendi bastante com ele. Viu que eu tinha potencial e poderia melhorar nesse aspeto, então trabalhou bastante comigo em termos defensivos. Como eram os treinos dele? Ele era muito old school. Tinha alturas em que nos punha a correr no bosque, tinha muitas coisas à moda antiga e custou-me um pouco a adaptar. Era uma realidade muito diferente do Benfica. Mas serviu para crescer. Na época 2017/18, Buta foi emprestado ao Royal Antwerp, da Bégica Isosport/MB Media O que achou do futebol belga? Um futebol totalmente diferente, mais agressivo, as equipas não jogavam tanto como em Portugal, não havia tanto aquele futebol técnico, é mais agressivo. Essa foi a grande diferença. Teve alguma lesão nessa primeira época? Sim, lesionei-me no final da época no quinto metatarso. Que memórias mais fortes tem da segunda época no Antuérpia? Foi uma época bastante positiva em que já estava como titular da equipa, só que voltei a lesionar-me em março ou abril. É a minha primeira lesão no joelho direito. Fui operado ao menisco. Fiquei de fora dois meses e meio. Entretanto, a época acabou e só voltei na seguinte, em 2019/20. Veio a Covid-19 e o campeonato parou, fomos de férias e no primeiro jogo da época seguinte foi a final da Taça que conquistámos. Jogou essa final? Joguei. Na altura não havia espectadores no estádio, nada. Foi uma final um pouco estranha, sem adeptos. Mas ganhámos, que é o mais importante. Como são os adeptos belgas? Os do Antuérpia são muito bons, são muito tranquilos, mas calorosos e vibram bastante. O lateral em ação pelo Royal Antwerp Photonews Custou-lhe passar a fase de confinamento em casa devido à Covid-19? Não, até foi tranquilo. Estava com a minha namorada, ficámos na Bélgica. Fazíamos desporto, inventávamos jogos. Fazia o plano que o clube mandava. Aproveitei para aprender a cozinhar, ela ensinava-me. Após o Boloni teve Ivan Leko e Franky Vercauteren como treinadores. Qual dos dois preferiu? O Ivan Leko. Em termos de futebol era muito bom. Fazia a equipa jogar bastante. Quando chegou foi quando começámos a jogar melhor futebol. A época 2020/21 ficou marcada por algo? Tive uma lesão no adutor, que me deixou de fora algum tempo. E quando voltei não estava ainda ao meu nível. Não jogava muito, mas no final da época, nos playoffs, comecei a jogar de novo. Ao fim de cinco anos na Bélgica o sonho de jogar na equipa principal do Benfica ainda se mantinha vivo? Na minha cabeça tinha sempre esse objetivo porque no primeiro ano fui para lá de empréstimo e se corresse bem podia ser que fizesse a pré-época com a equipa principal. Não aconteceu porque o Antuérpia quis comprar-me logo no final dessa temporada e a partir daí os meus objetivos passaram a ser fazer boas épocas e ir para outros campeonatos. O lateral (no centro) festeja com os colegas do Royal Antwerpa vitória sobre o Tottenham Hotspur, na Liga Europa, em 2020 Soccrates Images Que outros campeonatos ambicionava? Gostava de ir para a Premier League. Mas confesso que o sonho de voltar ao Benfica, à equipa principal, mantém-se. Quais os jogadores que mais o marcaram na Bélgica? Estive com um português, o Ivo Rodrigues, que me ajudou bastante. O avançado William Owuso também falava um bocado português e também foi uma pessoa que me marcou bastante quando cheguei a Antuérpia. Diria que foram esses dois os mais marcantes. Quais foram os jogos mais memoráveis? A final da taça contra o Bruges. Um jogo contra o Eupen, na fase de qualificação para os playoffs, em que fiz duas assistências e ganhámos. Há bastantes jogos que nos marcam, mas lembro-me mais desses dois. Que histórias tem para contar da Bélgica? Só me vem à cabeça uma vez em que estávamos a treinar num relvado externo, porque o campo principal estava em obras, e às tantas chegou um senhor que, de repente, enfiou o carro na valeta que havia à volta do campo [risos]. Em ação pelo Royal Antwerp BSR Agency Na sua última época na Bélgica voltou a lesionar-se. O que aconteceu? Foi outra vez no joelho direito, durante um treino. Ia fazer mudança de direção e o meu joelho saiu do lugar, foi muito estranho. Fui operado ao menisco lateral, lá na Bélgica. Mas esteve mais tempo afastado do que na primeira vez em que foi operado. Porquê? Porque tive uma infeção microbiana. Após a cirurgia, voltei para casa e passado um dia ou dois, comecei a sentir febre e o meu joelho ficou muito inchado. Fui visto pelo médico no dia seguinte que me tirou sangue e confirmou a infeção. Nesse mesmo momento fui direto para o hospital, fizeram a lavagem, tive de tomar antibióticos e depois comecei toda a recuperação. Isso foi já no final da temporada. Já tinha assinado com o Eintracht Frankfurt quando isso aconteceu? Já, porque assinei com o Eintracht Frankfurt em fevereiro e só tive a lesão em abril. Ainda fez a recuperação na Bélgica? Depois meteram-se as férias e fiz reabilitação em Portugal. Entretanto, comecei a fazer reabilitação em Frankfurt. Viajei para lá duas semanas antes da equipa. Que amizades maiores fez no balneário do Antuérpia? Tirando o Ivo, foi com o Manuel Benson, que agora joga no Championship, na Inglaterra. Spoiler “Tínhamos três nomes, mas estávamos indecisos. Foi o nosso cão que escolheu o nome do nosso filho Naël” Aurélio Buta esteve com um pé no Panathinaikos, mas aparentemente foi um joelho que o impediu de estrear no campeonato grego. A história da possível transferência que aqui conta gerou alguma polémica, mas o lateral seguiu no Eintacht Frankfurt, da Alemanha, onde já vai no quarto e último ano de contrato, com um empréstimo a um clube francês pelo meio. Aos 28 anos, Buta começa a pensar no futuro pós-futebol e revela que gostava de enveredar pela via do scouting Como foi o primeiro impacto quando chegou ao Eintracht Frankfurt em 2022/23? Foi uma situação estranha porque cheguei a um clube novo e estou lesionado. Mas aqui, em Frankfurt, todos me apoiaram bastante durante a reabilitação e agradeço muito porque foi um momento difícil e estiveram sempre lá para mim, esperaram que estivesse recuperado e pudesse integrar a equipa. Esteve afastado quanto tempo dos relvados? Só comecei a jogar em janeiro de 2023. Porquê tão tarde? Porque já estava a meio da recuperação quando tive nova infeção e tive de fazer segunda lavagem da bactéria. Tive os mesmos sintomas, febre e o joelho muito quente e inchado. Achou o futebol alemão muito diferente do belga? Sim, muito. Na Alemanha o futebol é muito intenso, não pára. Na Bundesliga há muitos golos, é um futebol mais de ataque e contra-ataque, mas mais tático que o belga. Gosta dos alemães? Creio que são um povo um pouco fechado. Mas em termos futebolísticos é um país que vibra mais com o futebol do que os belgas. Aurélio Buta entrou no Eintracht de Frankfurt na época 20022/23 max galys Na época 2022/23 chegou a estrear-se na Liga dos Campeões, contra o Nápoles. Estava muito nervoso? Por acaso estava um pouco. Era a minha estreia na Champions e era uma fase em que o Nápoles estava muito forte, ganhou o campeonato na altura e foi um jogo difícil. Perdemos as duas mãos, mas foi uma experiência única. Dos dois primeiros anos no Eintracht, o que mais o marcou? O primeiro jogo que fiz, porque estreei-me e marquei, contra o Schalke 04. O mais engraçado é que tinha falado com a minha mulher e tínhamos feito um vídeo a dizer que eu ia entrar e marcar. E aconteceu mesmo. Entretanto, a sua mulher engravidou, certo? Sim, fui pai do Naël em fevereiro de 2024. Porque escolheu um nome estrangeiro? Tínhamos três nomes, Naël, Noah e Nathan, mas estávamos indecisos. Como temos um buldogue francês desde 2018, chamado Bonnie, atirámos três bolas e foi ele que escolheu o nome do nosso filho [risos]. Assistiu ao parto? Sim. Foi incrível. Joguei no meu dia de anos, dia 10, e a seguir fui direto para o hospital, mas o Naël nasceu no dia seguinte. Já estamos a pensar em ter outro filho. Como foi a sua segunda época no Eintracht Frankfurt? Foi difícil. Fiz bastantes jogos, mas não foi uma época positiva. Porquê? Não foi de grande regularidade, não estava a jogar da maneira que costumava jogar. Apesar de ter feito bastantes jogos quando chegas ao final e fazes o balanço, creio que não foi uma época muito positiva, foi uma época mediana. É por isso que foi emprestado? Não sei. Na época a seguir chegou um lateral novo, o Rasmus Kristensen, falei com o treinador e ele disse-me que não ia ter tantas oportunidades para jogar porque via o Rasmus como o n.º 1. Entretanto, no final do mercado de verão, surgiu a proposta do Stade de Reims, para empréstimo, e decidi ir. Essa proposta veio do clube ou do seu empresário? Do empresário. O projeto agradou-me, era importante para mim jogar e acabei por aceitar. Era um empréstimo de um ano. Foi para França com a família? Sim. Quais foram as primeiras impressões? Até foi bom, eles acolheram-me muito bem, fui bem recebido. O treinador Luka Elsner já me conhecia da altura da Bélgica, porque tinha treinado o Standard de Liège. Mas foi uma época difícil. Porquê? No geral joguei bastantes jogos e estive bem, mas em termos coletivos o clube acabou por descer para a II Divisão. Começámos muito bem, depois houve complicações durante a temporada, tivemos muitos jogadores importantes lesionados, houve jogadores que saíram no mercado de janeiro, o treinador também acabou por ser despedido, ficámos com o treinador-adjunto nos seis meses seguintes e foi complicado. O lateral (à esquerda) a festejar após ter marcado golo pelo Eintracht de Frankfurt picture alliance Gostou do campeonato? É um campeonato que gostei bastante. Um campeonato com muitos jovens talentos, na minha posição apanhei sempre extremos que gostam de um para um. Gostei bastante. Houve alguma equipa e/ou jogador contra o qual gostou particularmente de jogar? Gostei de jogar contra o PSG, que no ano passado estava muito forte. No final da época 2024/25 teve a proposta do Panathinaikos, para quatro anos, mas não se concretizou. Pode contar a sua versão sobre o que aconteceu? No final, nem eu percebi também muito bem. Foi uma história um bocado estranha porque vou para lá, faço todos os exames médicos, eles já sabem do meu historial das lesões no joelho, não era nada novo, e no fim, dizem que não querem assinar por causa disso. O que alegaram? Disseram que eu podia ser uma contratação de alto risco. Passou nos exames médicos, ou não? Passei nos exames. Estava tudo certo. Só que, no final, eles ligam ao meu empresário e dizem que querem falar antes de eu assinar o contrato e vêm com essa história. Foi muito estranho porque desde que voltei a jogar, após o último problema no joelho, nunca mais tive complicações e nunca mais me lesionei. É estranho terem vindo com essa história. Acha que era uma forma de tentar baixar valores? Pode ser, sim. Queriam mexer em coisas contratuais. Na época 2024/25 Buta foi emprestado ao Stade de Reims, da França D.R. O Panathinaikos continuava interessado em si, desde que os valores fossem outros. É isso? Creio que foi isso... Estávamos num hotel, veio o diretor-desportivo deles e o médico. O médico deles falou com o nosso médico que às tantas lhe disse: "Se está indeciso em contratar o Aurélio, digo-lhe já que não é uma contratação de alto risco, nós conhecemos o historial do Aurélio e até agora ele tem sido um jogador fácil de lidar, nunca teve lesões depois disso". Por isso, não compreendi o que se passou, foi uma sensação um bocado estranha. O Panathinaikos cancelou a negociação? Sim. Tendo em conta a proposta inicial, iria ganhar quantas vezes mais no Panathinaikos do que ganha no Eintracht Frankfurt? Muito mais. Ficou revoltado, frustrado, o que sentiu? Deixou-me um bocado frustrado porque penso que foram desculpas que deram. Nunca vi algo do género, foi muito estranho, mas deixou-me triste, até porque levei logo a família comigo para a Grécia. Como reagiu o Eintracht Frankfurt perante esse desfecho? Ajudaram-me bastante. Viajei de Atenas para Portugal e passado uns dias viajei aqui para Frankfurt e comecei a treinar com a equipa. Eles disseram que iam ajudar-me em tudo o que fosse preciso. E no final, disseram que contavam comigo para o grupo. Em ação pelo Stade de Reims Icon Sport Para já tem sido opção nesta época. Sim. Joguei recentemente como titular contra o Bayern. Pensa que isso só está a acontecer porque o seu rival de posição, o Rasmus, está lesionado? A verdade é que eles não contavam comigo para esta temporada, já tinham o plantel montado e eu acabei por ficar. Mas julgo que o treinador também conta comigo para a temporada, sou mais um para ajudar. Tem contrato até quando? Este é o último ano de contrato. Para onde gostava de ir a seguir? Neste momento há que pensar em tudo. Se aparecer uma proposta financeiramente muito boa, aceito, porque já vou fazer 29 anos. Mas claro que depende dos projetos que aparecerem aqui na Europa também. Depende de muita coisa. Tem alguma meta para deixar de jogar? Sim, gostava de jogar até aos 36 anos, creio que para a minha posição e para o estilo de jogador que sou deve ser a altura ideal. Mas depende do corpo, de como me sentir. Que estilo de jogador considera ser? Sou um lateral que ataca muito, que corre bastante. Buta no dia do casamento com Catarina Momento Cativo Qual foi o lateral direito que se tornou uma referência para si? João Cancelo. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras? Gostava de trabalhar no scouting, ver jogadores jovens. Onde ganhou mais dinheiro até agora? No Eintracht Frankfurt. Já deu para investir? Sim, em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Compra dois relógios Rolex. Tem algum hobby? Gosto de jogar pingue-pongue. É um homem de fé, acredita em Deus? Acredito em Deus, mas não sou uma pessoa muito religiosa. Tem ou teve superstições? Não. O lateral com o filho ao colo, acompanhado dos pais, do irmão e da mulher, Catarina Momento Cativo Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? A primeira fiz em 2018 e é o nome do meu cão. Mas já tenho umas 10. Quais as mais importantes? Tenho duas nas pernas, que dizem resiliência e proteção. Acompanha ou pratica outra modalidade? Gosto de ver basquete. Mas é raro. Eu vejo muito futebol. Qual é a liga que mais gosta de ver? A inglesa. E a que mais gostou de jogar? A liga alemã. Qual a maior frustração que tem na carreira? As lesões que tive. E o maior arrependimento? Não tenho nenhum. O momento mais feliz? Ter jogado a Champions League. Buta a festejar um golo pelo Eintracht de Frankfurt IMAGO/nordphoto GmbH / Bratic Qual foi o momento mais difícil porque passou na vida? A altura em que estive lesionado. O objetivo profissional que ainda está por cumprir? É muito difícil, mas gostava de jogar na seleção nacional portuguesa. Já foi convocado para a seleção de Angola? Não. Eles já me ligaram algumas vezes, sei que ir à seleção de Portugal é um bocado difícil, por isso é algo que ando a pensar... Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha? “Zambes”. Foi o Valdomiro Lameira quem começou a chamar-me “Zambes”, na altura em que estava na formação do Benfica, mas não sei como surgiu. Quais são as maiores amizades que fez no futebol? Os colegas com quem partilhei casa na formação do Benfica e os dois colegas daqui do Frankfurt, um que esteve cá e foi embora esta temporada, o Tuta, e o Kauã Santos que ainda está aqui. São ambos brasileiros. Buta com o seu cão, um buldogue francês, chamado Bonnie D.R. Há alguma regra do futebol que alterava ou bania? Tirava o VAR. Não veio acrescentar nada. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O PSG. E o jogador que mais dores de cabeça lhe deu? O Bradley Barcolá e Moses Simon, que estava o ano passado no Nantes. Qual o jogador com quem gostava de jogar na mesma equipa e aquele contra quem gostava de jogar? Gostava de jogar na mesma equipa com o meu irmão Leonardo, que está no Eibar, na Espanha. E gostava de jogar contra Cristiano Ronaldo ou Messi. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Acho que trabalhava com algo ligado ao desporto. Tem algum talento escondido? Não sei. E qual o talento que gostava de ter? Gostava de saber cantar. Que género de música prefere? Gosto de música africana, de Reggaeton, RAP, um pouco de tudo. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 26 Outubro 2025 Pedro Amaral Spoiler “Após uma saída à noite, o jogo correu-me mal. O meu pai disse-me que para fazer aquelas figuras não contava mais com ele. Deixei de sair” Pedro Amaral, de 28 anos, formou-se no Benfica, onde entrou com nove anos e saiu mais de uma década depois. Pelo caminho perdeu o pai e ganhou maturidade. O sonho de jogar pela equipa principal esbateu-se quando foi emprestado a um clube grego, antes de assinar cinco anos pelo Rio Ave. Viveu uma descida e uma subida de divisão seguidas. A seguir voou para as arábias impulsionado pelo dinheiro e o efeito Ronaldo, mas sobre estas aventuras falamos na parte II deste Casa às Costas Nasceu em Sintra, foi criado no Lourel. É filho e irmão de quem? Sou filho do meu pai João, que infelizmente já não está entre nós, a minha mãe chama-se Laurinda e tenho um irmão sete anos mais velho, que se chama Daniel. O que faziam os seus pais profissionalmente? Sempre tivemos um negócio de família, que vem dos meus avós paternos, na área da restauração, na zona de Sintra, o restaurante Amaral. Os meus pais, aliás, conheceram-se no restaurante. Em criança deu muitas dores de cabeça ou era calmo? Sempre fui um puto calmo. Os meus pais nunca perceberam muito bem de futebol, mas eu andava sempre agarrado a uma bola. O meu irmão, curiosamente, era mais adepto do automobilismo, ou seja, dois campos totalmente diferentes. Lembro-me que às tantas, no mesmo fim de semana, o meu pai estava num sítio comigo e a minha mãe noutro local com o meu irmão. Foi uma infância gira. Quando era pequeno já dizia querer ser jogador de futebol? Não, não me lembro de dizer isso, até porque o meu pai nunca fez muita pressão para eu ser jogador de futebol, simplesmente levava-me aos treinos quando saía da escola, como uma criança que vai para uma atividade qualquer. Comecei com seis anos a treinar no Lourel. Lembro-me do meu pai dizer que o Bruno Maruta tinha falado com ele para eu ir para o Benfica pouco depois, mas o meu pai disse: “Não. Deixa estar aqui o miúdo, porque ele está aqui para se divertir”. Só fui para o Benfica aos nove anos. Pedro em criança com o pai D.R. Em casa havia simpatia por algum clube? Acho que sempre simpatizei com o Benfica. Desde miúdo. Mas era uma família de sportinguistas. Lembro-me do meu avô paterno torcer pelo Sporting. Mas não havia muita rivalidade, porque a minha família nunca foi muito de futebol. Gostava da escola? Gostava, sim. Sempre fui um aluno presente. Quando começou a competição mais a sério confesso que havia menos tempo para estudar, mas em miúdo sempre muito esforçado. Os meus pais também me incutiram que estudasse, sempre estive em boas escolas. Quais eram os seus ídolos? Gostava do Fábio Coentrão, achava que tinha alguma coisa especial. Quem o levava aos treinos no Benfica? Até aos 14 anos treinávamos nos Pupilos do Exército e aí a minha mãe e o meu pai alternavam muito. Na fase do Seixal, começou a ser diferente, a minha mãe ia buscar-me à escola e seguíamos para o Seixal. Eu comia durante a viagem, da marmita que a minha mãe fazia. Sempre foi a minha mãe a acompanhar-me e, mais tarde, quando o meu pai adoeceu, foi o meu irmão que passou a levar-me ao Seixal e a esperar por mim no carro, como fazia a minha mãe. Recorda-se do primeiro jogo pelo Benfica? Do jogo não tenho memória, mas tenho uma imagem muito presente de jogar nos Pupilos do Exército. Pedro no primeiro jogo que fez pelo Benfica, aos nove anos, num torneio em Fátima D.R. Até chegar à equipa B, quais foram os treinadores que mais o marcaram? Há muito aquele estereótipo de dizer que todos são importantes e não fujo à regra, acho que todos, mesmo, são importantes. Mas há treinadores que nos marcam também pelo lado humano e eu levo muito isso comigo. Um deles é o Luís Nascimento. Foi um dos meus primeiros treinadores no Benfica, a posteriori voltei a apanhá-lo nos sub-15. Inclusive tive-o há uns anos no Rio Ave, como treinador-adjunto do Carlos Carvalhal. Acho que foi um treinador que me marcou bastante, que me ajudou a dar aquele passo para me tornar um jogador diferente. Nesse ano consegui ir à seleção nacional, no primeiro ano de sub-15. Ainda hoje mantenho contacto com ele. Com 15 anos, com o que sonhava? O que ambicionava? Quando estamos naquela fase de sub-10, eu particularmente, como nunca sofri a pressão em casa de ter que ser jogador, jogava simplesmente para me divertir. Estava no Benfica, mas levava as coisas de uma forma natural. Depois comecei a olhar para as coisas de forma diferente. Sobretudo quando comecei a ir à seleção. Os treinos eram já em relva natural, as marcas já começavam a mandar um par de chuteiras e comecei a perceber que talvez as coisas tivessem pernas para andar. Acho que foi aí que comecei a perceber que isto podia tornar-se uma coisa séria e a partir daí comecei a focar-me muito mais. Mas tinha um objetivo, um sonho? Não vou mentir, estando nós na academia do Seixal, acho que todos os miúdos que lá passam têm o sonho de chegar à equipa principal até saírem do Benfica e percebem que esse sonho não vai acontecer. Pedro com o pai D.R. Como se definiu a sua posição em campo? Jogou sempre como defesa? Lembro-me que fizemos o último treino de futebol de 7, antes de passar para sub-14, no Estádio da Luz, naquele sintético, e que no primeiro treino de futebol de 11 fui logo posto a defesa esquerdo. Ficou chateado com a posição? Não. Houve depois alguns momentos em sub-14 em que joguei a médio centro, mas sempre fui direcionado para a linha. A determinada altura foi para o Casa Pia AC. Porquê? O Benfica fez um protocolo com o Casa Pia para alguns dos jogadores que transitavam dos sub-17 para os sub-18 e 19. Porque o Benfica juntava os sub-18 com os sub-19 nos juniores. Normalmente ficávamos dois anos nos juniores no campeonato nacional. Com esse protocolo os jogadores que iam para o Casa Pia jogavam o campeonato nacional de juniores, era como se estivéssemos a jogar um escalão acima. Lembro-me que fomos uns seis ou sete, inclusive o Ferro que está aqui comigo no Estoril Praia. Eu e o Ferro fomos os únicos que estivemos lá apenas cinco meses. Começámos a jogar lá e em janeiro acabámos a jogar a fase final pelo Benfica. Quando é que passou para a equipa B? Com 18/19 anos. Faço a minha estreia com o mister Hélder Cristóvão. Já tinha deixado os estudos? Foi nessa altura que deixei. Estudava num externato, em Lisboa, à noite. Foi também no ano em que tirei a carta de condução. Passámos a treinar da parte da manhã, as aulas eram à noite e confesso que começou a ser cansativo. Fiquei com o 10.º ano, apesar de já estar a fazer disciplinas do 11.º e 12.º anos, porque podíamos fazer por módulos, mas entretanto não acabei. O defesa esquerdo fez toda a formação no Benfica D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios? As primeiras saídas à noite deixaram-me traumatizado [risos]. Hoje em dia não saio à noite. Não tenho esse hábito. Prefiro estar em casa e convidar os meus amigos próximos. Por que razão ficou traumatizado? Naquela idade de 15/16 anos, a idade parva de miúdo adolescente que quer sair à noite, quer divertir-se e pronto, sabemos o que isso dá. Ia muito para um barzito na Praia das Maçãs, com colegas da escola e há uma determinada altura em que percebemos que as coisas não são compatíveis. Foi algum treinador que lhe puxou as orelhas porque percebeu que andava mais cansado? Um treinador, não, o meu próprio pai. Uma conversa dele uma vez espoletou qualquer coisa cá dentro e passei a sair menos, ou a deixar de sair [risos]. O que ele lhe disse? Foi muito simples. Um colega da escola fazia anos numa sexta-feira e eu tinha jogo no sábado, às 11 da manhã. Implorei aos meus pais que queria ir, gostava de estar presente na festa de anos. Fui, o meu pai foi buscar-me por volta da uma ou duas da manhã. Dormi pouco. Fui para o jogo, que acabou por me correr mal. Saí ao intervalo, as coisas não estavam a sair-me bem, e lembro-me que os meus pais não me esperaram à saída da academia, como faziam sempre, esperaram dentro do carro. Percebi que o clima estava tenso pelo que tinha acontecido. O meu pai iniciou a viagem de regresso a casa, calado. Assim que cheguei, o meu pai deu-me uma lição de vida e disse que se fosse para eu continuar a fazer aquelas figuras e a ter este tipo de escolhas que deixava de contar com ele e com o apoio dele para me levar aos treinos, de fazer esses sacrifícios por mim, porque se eu quisesse mesmo seguir essa vida, as duas coisas não iam ser compatíveis. Aquilo marcou-me, levei isso para o resto da minha vida. Pedro foi chamado para a seleção de Sub 15 e fez todos os escalões até aos Sub 21 D.R. Disse no início da entrevista que o seu pai já não está entre nós, ficou doente e que passou a ser o seu irmão a levá-lo aos treinos. Pode contar o que aconteceu? Quando eu tinha 15 anos o meu pai teve um problema intestinal, teve algumas complicações, entretanto foi operado e aí não era definitivamente cancro. No ano seguinte, ele ia fazer uma reestruturação dos intestinos, mas houve uma noite que quis levantar-se da cama para ir à casa de banho e sentiu uma dor muito forte nas costas. A minha mãe chamou a ambulância e como infelizmente para se ter saúde às vezes é preciso ter dinheiro, foi para um hospital privado. O meu pai esteve uma semana internado, a fazer todo o tipo de exames. Perceberam que quando ele se levantou da cama foi uma vértebra que cedeu, porque já estava a ser comida, entre aspas, pelo bicho. Foi aí que ficámos a saber que ele tinha um cancro nos ossos. Como soube da notícia? Lembro-me de estar em casa e a minha mãe chegar com o meu pai do hospital de uma consulta. Tiveram ambos uma conversa um pouco fria, que também serviu para crescer e aprender que as coisas, quando têm de ser ditas, têm de ser ditas. Explicaram-me que com o passar do tempo poderia haver muitas complicações, um simples abraço podia tornar-se impossível, coisas que vieram a manifestar-se já mais perto do fim. Ele acabou por falecer quando eu estava no meu segundo ano de equipa B, durante a pré-época. Eu tinha 19 anos, amadureci rápido. O que o ajudou a aguentar tanto foi o facto dele ter uma estrutura física muito forte, além da força de viver que tinha. Quem lhe comunicou a morte do seu pai? No último mês antes de falecer, o meu pai esteve internado, já não tinha condições para estar em casa. Quando passámos a treinar de manhã, eu saía do treino do Seixal e estava o dia todo no hospital com ele, até à noite. Os médicos abriram exceções para eu ficar mais tempo com ele. Eu estava na pré-época, tinha treino bidiário nesse dia, e no dia anterior muita gente, muitos amigos quiseram ir vê-lo. Parecia o destino. Pessoas do Alentejo, pessoas do Norte, que vieram a Lisboa de propósito, sem ninguém comentar nada, sem ninguém convidar, apareceram para ver o meu pai. Nesse dia à noite, eu e a minha mãe fomos os últimos a sair do hospital e o meu pai teve um episódio de ameaça profunda de que iria ficar ali. Foi a minha mãe que o ajudou a estabilizar, conseguiu acalmá-lo. Nesse dia quando saímos do hospital a minha mãe disse-me: “Pedro, ou muito me engano, ou o teu pai não dura muito mais tempo e acho que esta noite vão-me ligar.” O que aconteceu depois? No dia seguinte tinha o tal treino bidiário e, mal cheguei ao centro de estágio, fui bater à porta do Bruno Maruta, contei-lhe o sucedido na noite anterior, dei-lhe o contacto da minha mãe e do meu irmão, pedi-lhe que, se acontecesse alguma coisa enquanto estivesse no treino, ele me dissesse. Tive o treino de manhã, saí do treino, nós descansávamos nos quartos da academia. Almocei, vou ao ginásio, faço as minhas coisas, chego ao balneário para o treino da tarde, calço as botas e quando me levanto para ir para o relvado, olho para a porta e está o Bruno Maruta a olhar para mim, com as mãos agarradas uma à outra. Não me diz nada, e eu: “Mister, é para eu me ir embora, não é?”; “É Pedro, mas vai com cuidado”. Despachei-me rápido, liguei à minha mãe e percebi que já tudo tinha acontecido. Guga Rodrigues e Pedro Amaral amigos até hoje, que se conheceram no Benfica D.R. Na época de 2016/17 ingressou na equipa B. Gostou do Hélder Cristóvão enquanto treinador? Gostei muito. Como foi jogador, percebia muito o nosso lado e ajudava-nos com a sua experiência. Ainda por cima foi defesa central, percebia bem de linhas defensivas e dava-me algumas dicas de como poderia antecipar um lance. Foi importante essa proximidade com ele. Quando assinou o primeiro contrato profissional? Aos 18 anos, ainda era júnior. Ganhava €2000 brutos por mês. O que fez com o primeiro ordenado? Guardei-o [risos]. O meu pai sempre me incutiu a importância de poupar e guardar no saco azul, entre aspas, como ele chamava. No segundo ano de equipa B, estava convencido de que iria subir à equipa principal? Acreditava nisso, ou já percebia que seria difícil lá chegar? Acho que sempre acreditei, porque é isso que nos move, são esses sonhos, esses objetivos. Quando foi chamado para treinar com a equipa principal? Ainda nos sub-17 e nos juniores éramos muitas vezes chamados. Não me lembro da primeira vez, mas lembro-me de apanhar o Luisão, o Gaitán e Salvio, acho que ainda era juvenil. O treinador era o Rui Vitória. Aliás, foi o mister Rui Vitória quem me levou numa convocatória da equipa principal, para um jogo da Taça de Portugal, no Estádio de Coimbra. Não me lembro da equipa adversária. Houve algum jogador que o tivesse impressionado mais? O Salvio era fora de série. Era uma dor de cabeça tremenda. Mas lembro-me da chegada do Taarabt, estava presente nesse treino. Na altura houve muita polémica sobre estar com peso a mais, mas quando vi o primeiro treino dele, pensei: “O que é isto? Este homem vai rebentar com a liga portuguesa”. Se ele treinava assim, fora de forma como diziam, nem quero imaginar como foram os anos em que ele estava completamente bem. Foi um jogador que, em treino, marcou-me, era craque. O defesa esquerdo em ação pelo Benfica B Gualter Fatia A época 2018-19 iniciou ainda na equipa B, mas acabou por sair para a Grécia. Já tinha empresário? Sim, na altura estava com a GestiFute. Porque saiu da equipa B para o Panetolikos? Era o meu último ano na equipa B. Lembro-me que falaram comigo sobre a possibilidade de jogar numa I Liga, ganhando experiência com isso. Foi uma parceria que fizeram com esse clube, aliás fui eu e o Guga para a Grécia. Até aí já lhe tinha passado pela cabeça sair do país para jogar? Não. Como reagiu então? Fiquei com um bocado de incerteza. Para onde é que vou? Quem vou encontrar? Era a primeira experiência fora da minha zona de conforto. Mas como o Guga, que conhecia desde os sub-11, ia comigo, obviamente custou menos. O primeiro impacto quando lá chegou? O meu inglês já dava para safar. Correu bastante bem a nível individual, joguei sempre. Mas senti as diferenças de ter saído da equipa B, que estava a jogar a II Liga, para jogar numa I Liga. Que diferenças foram essas? As diferenças de jogar com jogadores e equipas grandes, como o Olympiacos, o PAOK, Panathinaikos, o AEK. Apanhar essas equipas com jogadores que já jogavam competições europeias, que decidem mais rápido, que pensam antes da bola chegar. Ficou a viver onde e com quem? Fiquei a viver na mesma casa com o Guga. Como eram só seis meses, achámos por bem ficar a viver juntos. Custou-lhe muito deixar o ninho? Confesso que não. Acho que mais tarde ou mais cedo, se não continuasse no Benfica, era uma solução tentar jogar no estrangeiro. Em 2018/19, Pedro foi emprestado ao Panetolikos da Grécia D.R. Quando foi para lá, sabendo serem seis meses, foi na perspetiva de que regressaria ao Benfica, para a equipa principal, ou já ia com outro mindset? Pensei que aquilo tinha surgido porque provavelmente não iria continuar e preferi mentalizar-me para isso do que criar falsas expectativas. Quando regressei percebi a minha situação em termos de clube e arranjei uma solução. Foi o Benfica que disse não contar consigo? Sim, também através dos meus agentes. Não se tratava de não contar comigo: simplesmente, acaba-se um ciclo. Terminava contrato com o Benfica? Acho que ainda tinha o contrato com o Benfica. Mas é uma situação natural, ou seja, a equipa principal está montada, o projeto que o Benfica tinha não contava comigo, portanto, arranjei uma solução. Ficou muito desiludido? Acho que desiludido é uma palavra forte. Mas sendo um jogador que veio da formação, temos sempre esse sonho e objetivo. A vida é mesmo assim. Se não dá no Benfica, vai dar noutro clube e há inúmeras formas de seguirmos o nosso caminho. Que propostas teve na altura? Tive a possibilidade de continuar no estrangeiro, na Croácia; ainda estava na Grécia e falaram comigo da II Liga alemã, mas acabou por não se concretizar. Regressei a Portugal e uma chamada do Luís Nascimento, que tinha sido meu treinador nos sub-15, convenceu-me a ir para o Rio Ave. Em jogo pelo Panetolikos D.R. Encontrou uma I Liga portuguesa muito diferente da liga grega? Sim, muito diferente. Na velocidade da bola, no ritmo de jogo, na qualidade dos jogadores, nas equipas, acho que em tudo estamos alguns passos acima. Organização dos clubes, tudo. Mas foi uma fase muito importante na minha vida. Recorda-se do jogo de estreia? Foi em setembro contra o Paços de Ferreira, fora. Estava muito nervoso? Confesso que estava um pouco nervoso, por ser a equipa e o mister [Carlos Carvalhal] que era. A exigência do mister e dos próprios jogadores era grande, inclusive nessa época conseguimos apuramento para a Liga Europa, o que levava a estarmos num nível acima. Sendo a primeira vez para mim na I Liga, com 20 anos, sentia que não era tão experiente como os meus colegas e isso fez-me estar ainda mais alerta. Gostou de trabalhar com Carlos Carvalhal? Excelente. Adorei. Obviamente que houve momentos em que joguei menos e que, como miúdo, queria e exigia jogar mais, porque nós queremos jogar... Exigia jogar mais significa que ia falar com o treinador quando não jogava? Tive muitas conversas com o mister, por acaso, numa altura em que não jogava tanto, mas a equipa também estava bem, portanto, não havia nada para mudar. Mas foram importantes as conversas que tive com ele. O que ele lhe dizia? Dizia que se calhar ainda não era o meu momento, para continuar como estava. Eu era já aquilo que me define: cuidar-me, trabalhar sempre no limite, quer jogue ou não jogue. Ele sabia com o que podia contar, tanto que após surgir a covid, tive muitos mais minutos até ao fim da época. Na época 2019/20, o defesa esquerdo assinou pelo Rio Ave Gualter Fatia Vivia sozinho em Vila do Conde? Não, já vivia com a Teresa, a minha atual mulher. Como e quando se conheceram? A Teresa era atleta de salto em comprimento do Benfica. Conhecemo-nos no estádio, começámos a falar, demorou até me dar oportunidade de estar com ela, porque ela também estudava. Mas estamos juntos já há sete anos, com dois de casados. Ela ia e vinha a Vila do Conde, na altura, porque também competia. Durante o confinamento, ficou em Vila do Conde? Não, voltei para a minha casa de Lisboa. Antes de sair a convocatória para um jogo, começou a ser falado nas notícias a possibilidade do confinamento. O jogo nesse fim de semana foi cancelado e o mister disse: “Podem ir para casa, fim de semana de folga e depois logo vemos como se desenrolam os acontecimentos”. Fiz uma mochila só para o fim de semana a pensar que na segunda-feira estava de volta, mas no dia seguinte o mister ligou-me: “Pedro, isto vai parar uns tempos, confio em ti, o preparador físico vai falar contigo, manda-te o plano, eu sei que tu fazes tudo, fica aí na tua casa”. E acabei por ficar três meses em Lisboa. Deu-me a oportunidade de construir o meu ginásio em casa, que foi uma boa ferramenta para me ajudar no regresso. Passavam os vossos dias basicamente a treinar? Sim, literalmente isso. Vivemos num condomínio, que tem mais cinco casas, e fazíamos muitas coisas com os meus vizinhos também, tipo jantares ou cinema em casa. Acabávamos por ter um convívio de confinamento dentro do nosso próprio condomínio muito engraçado. Tem algum outro momento a destacar na primeira época no Rio Ave? A minha estreia pelos sub-21. Acho que foi o momento em que senti, nas seleções, que já estava num nível alto, porque vemos o estádio cheio. Cantar o hino nos sub-21 é sentir de forma diferente dos outros escalões, não desvalorizando. Fiz todas as camadas até aos sub-21. O meu primeiro jogo nos sub-21 foi em Chaves, contra o País de Gales, num jogo de apuramento para o Europeu. Em festejos com o treinador Luís Freire D.R. Gostou do ambiente de seleção? Adorava. São sempre 10 dias em que saímos do clube, estamos num contexto diferente, conseguimos estar próximos dos colegas que às vezes só vemos ao fim de semana, durante os jogos. Era incrível. Após essa primeira época no Rio Ave, em que terminam no 5.º lugar e garantem acesso à Europa, vão do céu ao inferno na temporada seguinte. Acabam por descer de divisão. O que aconteceu? É futebol. Tínhamos muita expectativa, começámos muito bem o apuramento a eliminar o Besiktas, depois tivemos aquele mítico jogo do AC Milan, em que estivemos muito perto de eliminar o AC Milan e estar na fase de grupos da Liga Europa. Olhando para trás, isso claramente pode ter muita influência porque estávamos com essa expectativa e depois daquele jogo, animicamente, toda a gente sentiu. Foi um momento difícil nessa época, muita incerteza, muita instabilidade com os resultados a não sair. O mister Carlos Carvalhal tinha saído, houve toda uma adaptação nova a um treinador, o mister Mário Silva. Depois subiu o mister dos sub-23, o Pedro Cunha, e por fim o mister Miguel Cardoso. Dos três, com qual gostou mais de trabalhar? Não conhecia nenhum dos três. O mister Miguel Cardoso tinha uma ideia de jogo bastante atrativa. Se calhar naquela fase da época em que as coisas não correm tão bem e que se está num momento menos bom, mesmo até em níveis de confiança, acho que não conseguiu tirar o melhor dos jogadores, mas pela ideia de jogo, eu diria o Miguel Cardoso. Com a mãe e a medalha de campeão da II Liga, em 2021/22 D.R. O que mudou dentro do balneário nessa época? Passou a haver mais discussões, menos brincadeiras, ou nada mudou? Há um sentimento de frustração. Mas em que isso se reflete na relação uns com os outros? Pode gerar alguma desconfiança, do género, será que vamos entrar para o jogo e vai correr bem? Será que a bola entra? Não entra? São coisas que acontecem no futebol e levo essa época também como uma lição e de aprendizagem. Mas só estivemos uma época na II Liga, subimos logo, e sobre essa época tenho uma história que posso partilhar. Força. Tivemos uma derrota pesada em casa com o Feirense. Em conversa com o Guga, que é um dos meus grandes amigos, falámos como podíamos não deixar que aquilo nos afetasse. Metemos uma mensagem no grupo dos jogadores a combinar um almoço, nada obrigatório, ia só quem queria. No primeiro dia foram oito, mas como nos dois dias a seguir só se falava do ambiente que tinha sido esse almoço, na semana a seguir voltamos a repetir a mesma mensagem e foi a equipa toda. A partir desse dia até ao último jogo da época fizemos almoços todas as quartas-feiras no mesmo restaurante. Acabámos por ser campeões e levar o Rio Ave de volta à I Liga. Tinha assinado por quanto tempo com o Rio Ave? Cinco anos. Pedro com a taça de campeão que levou o Rio Ave de novo à I Liga D.R. Havia alguma cláusula no contrato que o libertasse, com a descida? Não. As coisas acontecem por algum motivo. Nessa época da descida até surgiram propostas para sair, depois chegou o Mr. Luís Freire, uma peça-chave na minha vida. Nesse momento difícil de jogar a II Liga, foi uma pessoa muito importante. Subimos logo nesse ano. O que teve ele de especial? A relação que criei com ele. Foi num momento em que eu próprio estava desconfortável, tinha acabado de descer de divisão, não me passava pela cabeça jogar II Liga naquela fase da minha vida. Ele teve uma conversa comigo. Sentou-se e disse: “Eu jogo neste sistema”. Era um sistema que eu nunca tinha jogado, com os três atrás. “E vou meter-te a jogar como terceiro central”; “Mister, você é maluco, não vou jogar aí”. Eu estava desconfiado daquilo. “Mister, passei a minha formação no Benfica a jogar em cima da linha, a chegar à linha e cruzar e agora jogar por dentro, como terceiro central, não vou conseguir”. Era tudo uma confusão na minha cabeça. Ele concluiu: “Fica descansado, vai ser uma das melhores épocas da tua carreira”. E a verdade é que, até agora, em termos de números, foi a melhor época da minha carreira. Levou muito tempo a adaptar-se? Esta conversa foi antes da época começar. Levei algum tempo na pré-época a tentar perceber, porque era tudo novo, o espaço, a própria imagem visual; o estar mais dentro e olhar para o jogo de outra forma levou-me algum tempo a adaptar. Mas depois de começar e perceber a ideia dele, as coisas andaram. O defesa esquerdo, no centro, a festejar uma vitória do Rio Ave D.R. Apanhou o Ukra como colega de balneário no Rio Ave. Qual a história mais hilariante que tem dele ou com ele? Fartava-me de rir com o que fazia aos outros. Mas o importante é que, além das brincadeiras, o Ukra é um ser humano incrível. Um amigo a quem sei que posso ligar e ele vai atender, passe o tempo que passar sem falar com ele. Não sei se tenho uma história exata para contar, porque todos os dias havia algo, por mais simples que fosse; o pessoal sabia que poderia esperar alguma coisa do Ukra. Mas sempre que era o momento de trabalhar, o Ukra era o primeiro a alertar o pessoal. E era sempre uma alegria enorme. Tínhamos um grupo mais próximo, a nossa mesa de pequeno-almoço, que era eu, o Guga, o Pedro Mendes, o Vítor Gomes e o Ukra. Em 99% dos dias, éramos os primeiros a chegar ao pequeno-almoço. Muitas vezes o pessoal chega com sono ou está numa mesa mais calada e o Ukra nunca deixava a energia em baixo muito tempo. Ele sacava sempre alguma coisa para às oito e meia da manhã já estarmos a rir e a falar sobre esse tema o resto do dia. Lembrei-me de uma que ele costumava fazer. Conte. Estamos a subir as escadas para ir para o auditório para ver o vídeo, e, por exemplo, à frente dele estava o Costinha. Ele deixava o Costinha subir uns três degraus acima e depois metia-lhe a mão por baixo, apertava-lhe os... [risos]. O Costinha: “Larga-me, car...”. Claro, metia toda a gente a rir. Entretanto, teve uma oferta da Rússia, não teve? Tive. Porque que não aconteceu? Esteve para acontecer, eu estava tentado a ir, sou sincero, inclusive tivemos reuniões no clube, mas acabou por não acontecer porque houve uma reflexão familiar. Naquele momento ir para a Rússia não era a melhor escolha, devido a todos os motivos, no caso, a guerra. Foi a minha família que me alertou e fez-me descer um pouco à terra. Por vezes, estamos focados nos valores que podemos receber e nem sempre o dinheiro é tudo ou traz outras coisas. O mister Freire também teve um papel fundamental, teve várias conversas comigo nessa altura. Essa proposta surgiu ainda na II Liga? Não. Foi antes do mítico jogo contra o FC Porto em que ganhámos em casa e fiz um golo e uma assistência. Foi em agosto, quase no fecho do mercado, já estávamos na I Liga de novo. Spoiler “Na Arábia fui comprar móveis para casa, cheguei à caixa e o cartão europeu não funcionava. Um árabe atrás de mim na fila pagou tudo” Pedro Amaral assume estar feliz no Estoril Praia, mas não esconde que ainda gostaria de experimentar outras ligas. O defesa esquerdo fala sobre a sua passagem pela Arábia Saudita, onde queria ter ficado mais tempo, e do regresso à Grécia, num período difícil da sua vida. Confessa que pretende continuar ligado ao futebol e revela a insólita pergunta que lhe fizeram quando decidiu casar em Riade Acabou por sair em janeiro de 2023 para a Arábia Saudita. Continuava agenciado pela Gestifute? Quando fui para Arábia Saudita mudei de empresário. O que leva um jogador a mudar de empresário? Depende, às vezes, devido a situações de mercado, ou de objetivos que tenhamos, em que se calhar uma agência é mais forte num mercado do que outra. Ou simplesmente por acabar o contrato com a agência. Depois tens reuniões com outras e decides outra traz aquilo que tu queres para a tua vida e para a tua carreira. Pode haver várias razões. Na altura, quais eram os seus objetivos e ambições? Tive uma conversa com o mister Luís Freire, ele queria que eu ficasse até ao fim da época no Rio Ave porque me via a jogar na Espanha. Mas eu gostava também de crescer na minha vida financeira, não escondo. Surgiu essa possibilidade e surgiram outras, nomeadamente de uma equipa do top 6 de Portugal, mas aquela falou mais alto. Não aceitou ficar na I Liga portuguesa só porque a proposta da Arábia Saudita era financeiramente mais atrativa? E não só. Como já tinha estado fora, sentia que tinha capacidade e que estava preparado para um desafio no estrangeiro, numa cultura totalmente diferente, achava que era capaz de me adaptar a qualquer contexto. Isso também foi um desafio para mim. Era uma liga para onde tinha ido o Cristiano, ou seja, estava muito valorizada, mesmo para o jogador português, isso foi também foi um fator-chave. Pedro Amaral com a mulher Teresa Vaz Carvalho D.R. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no Rio Ave? Não fiz essas contas, mas muitas vezes [risos]. Mais de dez. Assinou por quantos anos com o Al-Khaleej? Só até ao final da época. Fui eu e o Fábio Martins. O facto do treinador ser o Pedro Emanuel ajudou na decisão de ir? Também. Ele já estava desde o início da época. Explicou-me como era o dia a dia, as rotinas, os objetivos, como era o clube, a cidade, Al Khobar, uma cidade bastante evoluída, tínhamos praia, tínhamos tudo. Foi sozinho ou com a sua mulher? A Teresa foi comigo. Como foi o primeiro impacto, o primeiro choque? O primeiro choque foi mesmo a minha vida passar literalmente do dia para a noite. Eu treinava a partir das seis da tarde, as minhas rotinas mudaram completamente. O meu dia começava às três ou quatro da tarde, para ir treinar às seis, chegar a casa às dez, onze, e jantar à meia-noite. Quando começou o Ramadão, os treinos eram só às dez da noite. Chegava a casa para jantar às duas, três da manhã. Adaptou-se bem? Adaptei-me rápido. Também foi tudo muito rápido. Cheguei e joguei logo. Fui-me adaptando. Obviamente, fui tentando encontrar um equilíbrio também para o meu corpo, porque inicialmente temos de nos adaptar à humidade, ao calor. Lembrei-me de um episódio engraçado que aconteceu logo quando chegámos. Vamos lá. Eu e a Teresa fomos a uma loja fazer algumas compras para mobilar a nossa casa e quando fomos pagar à caixa, já com os sacos todos no carrinho, os nossos cartões europeus não funcionavam lá. Um senhor saudita que estava na fila atrás de nós apercebeu-se e ofereceu-se para pagar as nossas compras todas. Ainda dissemos que não era preciso, que íamos tentar levantar dinheiro num ATM próximo, mas ele insistiu, falou em árabe ao senhor da caixa, pagou as compras e disse-nos: “Sejam bem vindos ao meu país, isto é um presente de boas-vindas, não se preocupem.” Em 2022/23 Pedro Amaral assinou pelo Al-Khaleej, da Arábia Saudita D.R. O futebol correspondeu às expectativas? Quando, por exemplo, o mister Jorge Jesus diz que a liga é melhor do que a portuguesa, eu percebo a visão que todos nós na Europa temos. Mas aquilo é realmente uma liga muito competitiva. Eu não tinha completa ideia do que iria apanhar. Assim que cheguei, fiz o primeiro jogo, que por acaso ganhámos, apanhei talvez um dos extremos mais difíceis na minha carreira, o argelino Amir Sayoud. E quando acabei o jogo pensei, tenho de começar a ver os jogos das outras equipas e perceber o nível disto. Porque sou defesa e normalmente os estrangeiros estão do meio-campo para a frente, ou seja, os melhores jogadores vão estar sempre no meio-campo para a frente, por isso ia apanhar jogadores da seleção da Argélia, da seleção de Marrocos e o próprio Cristiano. O que achou dos jogadores árabes? Os da seleção árabe jogariam em Portugal facilmente num clube de top 4. Apanhei jogadores árabes, por exemplo, do Al-Hilal e do Al-Nassr, mesmo muito bons. E não tinha essa ideia. Acho que acaba por ser ainda muito mais desafiante para nós estrangeiros devido à temperatura, aos horários. Taticamente é muito diferente, é um jogo muito mais partido, mas também há mais espetáculo porque existem muitas mais oportunidades de golo. Não me lembro de um jogo acabar empatado a zero na Liga Saudita. Sem dúvida foi uma experiência incrível. Culturalmente, o que mais gostou e o que achou menos positivo? Vamos ser sinceros, o futebol ao nível da sociedade está inserido numa bolha e lá não foge à regra. Há coisas simples, como uma mulher conduzir um carro, que só é válido de há três anos para cá. Há muito a nível cultural que nos faz confusão, mas temos de, como em todo o lado, respeitar a religião. Foi isso que fiz. Por outro lado, eles também percebiam sermos estrangeiros e respeitavam-nos de igual forma. Cristiano Ronaldo e Pedro Amaral, durante um jogo da liga árabe D.R. Gostou da gastronomia? Sim. Inclusive fizemos muitos jantares típicos, após o treino, de comer no chão, comer com a mão, etc. Isso, por exemplo, não me fazia confusão nenhuma. Tenho facilidade em adaptar-me e gostava de perceber como se fazia, para nós era uma experiência diferente. O ambiente de balneário é muito diferente do português? Sim, muito diferente. Por exemplo, esses jantares aconteciam porque o presidente nos convidava. Não havia muito aquela coisa de, vamos fazer um jantar de equipa com as multas. Não, não acontecia. É cultural. O jogador árabe comunica bem com os colegas estrangeiros ou há tendência para o balneário estar dividido? No dia a dia, os estrangeiros apoiam-se muito. Mas, da experiência que tive, senti que os árabes estavam muito próximos de nós, inclusive adoravam aprender como é aqui na Europa, tanto a nível de infraestruturas, a níveis de performance, como é a rotina. Como têm a possibilidade financeira de implementar essas coisas nos clubes, procuravam muito saber esse tipo de coisa. E os adeptos? Lembro-me de jogar, por exemplo, no Al-Nassr e estar completamente cheio. Os jogos com o Al-Hilal, também sempre cheio, sempre muita gente. Os estádios com um ambiente diferente, mas foi muito bom. São muito de cobrar aos estrangeiros? No balneário não, mas sentimos que o estrangeiro está ali para ter rendimento e ajudar. Fábio Martins e Pedro Amaral jogaram juntos no l-Khaleej D.R. A dinâmica dos jogos é muito diferente da nossa? Sim. Basta dizer que, por exemplo, se jogássemos contra o Al-Hilal, o jogo começava às nove ou dez e acabava perto da meia-noite. Tínhamos o nosso voo preparado às três da manhã. Chegava a minha casa às seis da manhã, de direta. Lembro-me de olhar para o relógio e pensar, isto é complexo, estava a jogar em Riad há cinco horas, estou a chegar agora à casa sem dormir, após 90 minutos de jogo. E nesse dia ficava o dia quase todo a dormir para no dia seguinte ter treino outra vez. Como reagiu a sua mulher perante uma rotina tão diferente? A Teresa sempre foi uma pessoa bastante compreensiva e também de mentalidade aberta para uma experiência nova. A Teresa, entretanto, deixou de competir no salto em comprimento. O que faz hoje profissionalmente? É assistente de bordo. Ela deixou de competir também porque foi operada ao tendão rotuliano enquanto atleta do Benfica, entretanto recuperou e acabou por terminar a carreira no ano da covid. Jogou contra Cristiano Ronaldo. Conversaram? Sim, mas após esse jogo com o Al Nassr tive de esperar duas horas pelo Cristiano, depois do jogo terminar, porque estava a fazer o seu ritual de recuperação pós-jogo. Mas falámos e tirámos uma foto. O defesa esquerdo (à direita) em jogo pelo Al-Khaeej D.R. O que aconteceu no final da época? Posso dizer que quando acabou a época recebi uma carta do clube com €3.000 para pagar de multas de trânsito. Talvez tenha levado uma multa todos os dias a caminho do treino por alguma infração que não tenha reparado, mas até hoje não consegui perceber o porquê. [risos] O que queria saber é como foi parar novamente à Grécia. Há coisas que acontecem no futebol que não controlamos e essa é a parte mais difícil. Eu queria muito ter ficado na Arábia Saudita. Às vezes o futebol é injusto no que nós não controlamos, porque senti que as coisas correram-me muito bem a nível individual. Estava completamente adaptado ao clube, à cidade, às pessoas. Sempre foram impecáveis comigo e com a minha família, nunca nos faltou nada. Por uma razão, ou outra, as coisas acabaram por não ter essa continuidade. Fico triste, mas é o futebol. Aprendi outras coisas depois de sair de lá. O clube queria que ficasse? Aí já vamos entrar na história do processo e há coisas que não posso mesmo falar. O que posso dizer é que fiquei frustrado e foram tempos difíceis após ter sabido que não iria continuar. Gostava de ter continuado. Com Cristiano Ronaldo após o jogo entre Al-Nassr e o Al-Khaleej D.R. Teve outras propostas da Arábia da Saudita? Que eu saiba, não. E teve outras propostas sem ser do Lamia, da Grécia? Tive. De onde? Da Espanha. Não podia voltar a Portugal, devido a questões fiscais. E acho que fui parar ao Lamia literalmente devido à infelicidade de um jogador que lá estava, que teve uma lesão prolongada no joelho. A verdade é que era a minha última opção, até porque já tinha estado na Grécia. Porque o negócio da Espanha não se concretizou? Espanha não se concretizou porque foi numa altura em que eu tinha acabado de saber que não iria continuar no Al-Khaleej e achava que iria conseguir algo melhor, devido à temporada que tinha feito, tanto a primeira metade no Rio Ave, como depois na Arábia Saudita. Mas o tempo foi passando. O Lamia foi a minha última opção, vou para lá em setembro, o campeonato já estava a decorrer. Fui também graças a uma pessoa a quem dou muito valor ter conhecido, o Carlitos, um jogador espanhol, que ajudou muito no processo da minha ida para lá. Inclusive falou com o meu agente [Pedro Neto], quando soube da infelicidade do outro colega. Como foi essa época? Acabou por ser uma época fantástica para o clube, porque nunca tinha estado no play-off de campeão, lá o campeonato divide-se, e acabámos por garantir esse play-off e foi uma época ótima. Após a passagem pela Arábia, o defesa esquerdo assinou pelo Lamia, da Grécia D.R. Gostou mais dessa passagem pela Grécia do que da anterior? São em fases diferentes da carreira. Da primeira vez, era um miúdo que tinha acabado de sair do Benfica; nesta fase, já com outras vivências, com outras experiências e formas diferentes até de ver o jogo, acabou por correr melhor. Só tinha assinado até final da temporada? Sim. Ficaria livre no verão do ano passado. Nessa altura os seus objetivos eram continuar a tentar o mercado árabe, ou pretendia voltar a um campeonato europeu? Na altura em que estive na Arábia, lembro-me perfeitamente de, em março, ter uma conversa com o meu agente, porque surgiram coisas da Turquia e nós tínhamos o objetivo que era a manutenção na Arábia Saudita. Lembro-me de dizer-lhe: "Independentemente do que possa acontecer, gostava mesmo de ficar aqui." Estava a gostar bastante. Não só da parte financeira, mas também do nível do campeonato, dos jogadores contra quem jogava, o facto do Cristiano estar na liga aumenta a visibilidade em 1000%. A festejar um golo pelo Lamia, com o espanhol Carlos Lopez D.R. Depois de Lamia, quais passaram a ser os seus objetivos e que propostas teve? Tive um tempo de reflexão depois da Arábia Saudita até chegar ao Lamia e pós-Lamia. Percebi que precisava de voltar a sentir-me feliz a jogar futebol, a ter as minhas rotinas, a sentir-me valorizado e decidi que era o momento de voltar à minha zona de conforto e procurar essa felicidade. Graças a Deus, o Estoril Praia abriu-me essa porta. Estou muito feliz, sou mesmo grato e a verdade é que foi uma escolha acertada. Quando falou no momento de reflexão e no lado pessoal, refere-se em concreto a quê? O nosso trabalho influencia muito a nossa vida pessoal, a nossa forma de pensar, a nossa forma de estar, a nossa felicidade. A moeda tem os dois lados. Se estamos felizes na nossa vida pessoal, obviamente vamos jogar melhor e acredito muito nisso, mas ao contrário também acontece. Se as coisas não estão bem no lado profissional, automaticamente transportamos isso para a nossa vida pessoal. E a verdade é que passei tempos difíceis e preferi olhar para mim. Olhar para essa felicidade e voltar a Portugal, ao Estoril Praia, ainda para mais um clube tão familiar como é. E voltei a sentir essa felicidade. Na época 2024/25, Pedro Amaral (na foto com a mãe e o irmão) assinou pelo Estoril Praia Pedro Zenkl Como tem sido a experiência no Estoril Praia e como foi o regresso à I Liga? Notei que o campeonato está competitivo, as equipas não grandes, por assim dizer, têm facilidade em contratar bons jogadores, coisa que se calhar há uns anos poderia não ser tão fácil. O campeonato está muito competitivo, tem bastante qualidade. Relativamente ao mister Ian Cathro, é uma lufada de ar fresco, pela mentalidade e só tenho bem a dizer do mister. É uma pessoa fantástica, sempre de porta aberta. E por ele falar tão bem português, achamos que tem a mesma cultura que nós, a mesma personalidade, mas é uma pessoa escocesa para todos os efeitos. Tem a sua personalidade, temos que respeitar isso. O que quer dizer com "é uma pessoa escocesa para todos os efeitos"? Uma pessoa se calhar mais fria, não demonstra tanto os sentimentos. Ou seja, à medida que vamos estando com ele mais tempo, conhecendo-o, sabemos quando é que está bem disposto, ou mal disposto, coisas que, se calhar, quem o vê uma vez ou outra não vai conseguir perceber. No ano passado conseguiram o 8.º lugar. Este ano as coisas não parecem tão bem… O ano passado também não começámos bem, e acabámos bem. Futebol é isto, hoje estamos mal, amanhã estamos bem. Acima de tudo é um clube que nos dá condições incríveis para trabalhar. Sabemos a ideia do mister, sabemos as exigências que nós próprios criamos aqui dentro e obviamente que vejo um grupo completamente unido, um grupo fantástico de trabalho, que não se nega a nada. É um fator bom termos transitado com o mesmo treinador, com a mesma ideia. Coisa que há uns anos, se calhar, não acontecia e mudavam muitos jogadores de um ano para o outro, inclusive o treinador. O clima de estabilidade é notório. As coisas hoje podem não estar tão bem como nós queremos, mas acredito que com o que temos feito aqui as coisas vão rolar bem. A festejar um golo do Estoril Praia Pedro Zenkl Quando saiu da Arábia Saudita para o Lamia foi ganhar quantas vezes menos? A vida tem que ser um equilíbrio e obviamente que fui receber muito menos, não fiz as contas, obviamente ficámos desiludidos por isso acontecer, mas são coisas que acontecem na vida. Como já tinha passado pela doença do meu pai, são momentos que aprendemos a lidar com eles e a mentalizar-nos que a vida é um equilíbrio. Do Lamia para o Estoril Praia, veio ganhar menos ou mais? Vim ganhar mais. Está com 28 anos, tem alguma meta para deixar de jogar? Não, para já não penso nisso. Diria até que fisicamente sinto-me muito bem, inclusive se calhar melhor que antes. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver mesmo de pendurar as chuteiras? Quero ficar ligado ao Desporto com os meus investimentos. Gosto muito da área do scout, de estar perto dos jogadores, por isso, ser diretor-desportivo ou agente também não está fora de questão. Tem contrato com o Estoril Praia até junho. Qual é o seu objetivo a seguir? Estou aberto a várias coisas, tanto aqui do Estoril, como fora. Gostava de voltar a sair do país? Gostava. Sinto-me preparado caso tenha essa oportunidade. Mas gosto de estar em Portugal, gosto de estar na minha casa, gosto de estar no Estoril Praia. Sou uma pessoa e um jogador muito feliz neste clube. Mas se surgir a oportunidade de voltar a ir para fora, sendo bom para o Estoril Praia e para mim, porque não? Pedro com a mulher, a mãe e irmão D.R. Entretanto, falou-se de um eventual interesse da MLS. Não se concretizou porquê? Porque há coisas no futebol que não controlamos. Tem filhos? Ainda não. A sua referência como defesa esquerdo ainda é o Fábio Coentrão? Desde miúdo que via o Fábio, na época em que jogou no Benfica e Real Madrid, e inclusive partilhei balneário com ele no Rio Ave, já numa fase diferente da carreira dele. Mas diria que atualmente é impossível não olhar para o Nuno Mendes, porque é uma referência não só em Portugal como no mundo. É impossível não olhar. Onde ganhou mais dinheiro até agora? Na Arábia Saudita. Já deu para investir? Sim, em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprar a minha casa, aos 18 anos. Apesar de ser a minha habitação, consegui-o aos 18 anos. Olho muito para o lado humano e a sociedade e acho que hoje, infelizmente, para um miúdo normal de 18 anos, não é se calhar tão fácil comprar uma casa. Depois do meu pai ter falecido, era um objetivo que tinha e consegui alcançá-lo com 18 anos, acho que é um motivo de orgulho. Ian Cathro, treinador do Estoril Praia, com Pedro Amaral Pedro Zenkl Tem algum hobby? Adoro fazer Pilates. Tenho uma professora particular. E gosto de jogar ténis de mesa. É um homem de fé? Tenho fé, mas não vou todos os domingos à missa. Acredito muito mais que, por exemplo, o meu pai e o meu avô falam comigo. Se precisar de alguma coisa num momento mais difícil, eu sei que eles me estão a ouvir e que me vão dar essa energia e força para enfrentar esses desafios. Superstições? Não. Mas é inevitável entrar com o pé direito no campo [risos]. Calha sempre o direito. Qual foi a primeira tatuagem que fez e o que é? A primeira foi a rubrica do meu pai, antes dele falecer, tinha 17 ou 18 anos. Tenho num braço a minha história de família. Tenho o meu pai, tenho o olho da minha mãe, tenho a espada que estava presente no santo que o meu pai mais acreditava, tenho uma bússola com o horário em que o meu pai nasceu, tenho a data de nascimento da minha mãe em numeração romana e tenho o lema de vida do meu pai: “Nunca deixes para amanhã o que podes fazer hoje.” Tenho a data de nascimento do meu pai, 1966. Tenho uma frase do meu irmão e tenho aquilo que o meu pai me disse no dia antes de falecer: "Tu é que tens de ser forte." Não escrevi o resto da frase porque já não cabia, mas ele ainda acrescentou: "Infelizmente já não vou conseguir ver mais nenhum jogo teu." Mas eu sei que ele vê porque está sempre comigo e disputa cada lance comigo. Acompanha ou pratica outra modalidade? Acompanho Fórmula 1 e às vezes ténis. E acompanho os Ralis por causa do meu irmão Daniel, ele é copiloto. O defesa esquerdo com o irmão copiloto de rallies D.R. Qual a maior frustração que tem na carreira? Não ter eliminado o AC Milan. E o maior arrependimento? Talvez ter esperado demais antes de sair do Benfica. O momento mais feliz na carreira? A estreia pelos sub-21. O objetivo que ainda está por cumprir? Jogar pela seleção nacional A. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid. Quais foram as maiores amizades que fez no futebol? O Guga, o Rúben Dias e o Florentino. Estes são aqueles com quem tenho maior afinidade. Tem ou já teve alguma alcunha? "Cabeças." Foi o Renato Sanches que me chamou, porque quando entrei para o Benfica, os meus pais rapavam-me o cabelo e como sempre tive uma estrutura larga, achavam que eu tinha a cabeça grande, então chamavam-me "Cabeças". Se não me engano, o meu contacto no telefone do Guga ainda é Amaral Cabeças [risos]. Há alguma regra do futebol, que se pudesse, alterava ou bania? Não? Tem algum talento escondido? O meu irmão diz que tenho jeito para o automobilismo. Tenho jeito para o ténis de mesa. Qual o adversário mais difícil que enfrentou até hoje? O [Jesús] Corona. O jogador com quem gostava de jogar na mesma equipa e o jogador contra o qual gostava de jogar. Gostava de ter jogado com o Cristiano, só joguei contra. Gostava de ter jogado contra o Salah. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Não sei se não estaria na cozinha do restaurante. Qual foi a liga que mais gostou de jogar? A portuguesa. Onde ainda gostava de jogar? Na MLS. Assim como na altura fui para a Arábia Saudita e achava que a liga ia crescer muito com a visibilidade que o Cristiano deu, acho que a MLS também no futuro vai estar no top de ligas mundiais. E sendo um ano de mundial, o próximo ano, acho que vai dar uma visibilidade enorme. Tem uma última história que possa partilhar? Tenho. Casei-me com a Teresa na embaixada portuguesa em Riade e quando estávamos a preencher a certidão de casamento perguntaram-me se queria optar pela lei portuguesa ou a lei árabe. Perguntei as diferenças porque não estava familiarizado e disseram-me que se optasse pela árabe podia ter três mulheres. A Teresa olhou para mim e disse: “Nem pensar!” [risos] Foi um momento engraçado. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 2 Novembro 2025 Nuno Presume Spoiler “Na debandada houve logo 'amigos' a oferecer jogadores ao Sporting, mas Peseiro exigiu regresso dos que saíram. Adeptos deviam estar gratos” Nuno Presume, de 56 anos, assumiu recentemente o comando técnico do Amora FC e aceitou falar de todo o seu percurso profissional, e também pessoal, até chegar aqui. Tentou ser guarda-redes, mas percebeu que o seu caminho era outro e foi estudar para a faculdade, ao mesmo tempo que começou a dar aulas, foi pai e treinava miúdos da formação. Foi treinador na distrital até aceitar ser adjunto de Daúto Faquirá, primeiro no Olhanense e depois em Angola, onde viveu várias aventuras que aqui conta, antes de se tornar um dos braços direitos de José Peseiro Nasceu no Pombalinho, Golegã. Quais as primeiras memórias de infância? Nasci e cresci numa zona conhecida sobretudo pelas cheias, quando o Tejo e o Alviela transbordam. Eu vivia no centro da aldeia e praticamente todos os invernos sabíamos o que era poder andar de barco nas ruas do Pombalinho, como se estivéssemos em Veneza. Aquilo que para quem estava de fora representava dificuldade, para nós era alegria. Com exceção das cheias de 1979, as maiores cheias, em que vi algumas casas a desmoronarem. Foi uma situação diferente de todos os outros anos. Mas sem dúvida uma infância com muitos atropelos, confesso. Que tipo de atropelos? Perdi o meu pai, tinha cinco anos, por doença e tive a felicidade de ter uma super mãe. Tenho uma irmã cinco anos mais nova, que tinha 10 meses quando o meu pai morreu. O meu pai era designer. A minha mãe estava na aldeia porque os meus avós tinham um café. O primeiro café da aldeia. O meu avô também era topógrafo e a minha mãe acabou por ficar ali com a morte do meu pai, com a cobertura total dos meus avós maternos, peças determinantes no meu crescimento. Quando falo em alguns atropelos passa pelo facto de ter perdido também o meu avô materno, tinha 10 anos, e a minha avó materna, tinha 17 anos. Foi uma infância e uma juventude atribulada nesse aspeto, com muitas perdas muito cedo Mas hoje olho para trás e foi uma fonte de crescimento tremenda. Também perdi os meus avós paternos durante todo esse caminho. No meio desse turbilhão, deu muitas dores de cabeça à sua mãe, ou não? Dei algumas porque passei a estar no café com os meus avós, na primária era irrequieto e o campo de futebol da aldeia está a cerca de 150 metros da minha casa. Passava a vida no campo de futebol. A minha mãe tinha de ir constantemente chamar-me. Na aldeia o que fazíamos era andar de bicicleta e jogar futebol. Felizmente, antes do meu avô materno falecer, como tinha uma dedicação extrema a mim, na parte de trás da casa fez-me um campo com uma rede de vólei, feita de rede de pesca, um aro para lançar bola ao cesto, embora sem a tabela; como gostava de patinar, ele conseguia fazer uns sticks em madeira... Foi de uma dedicação extrema, é um avô que, sinceramente, ainda me emociono quando falo dele. Depois tive um período mais difícil, no início da minha juventude, aí dei muito trabalho à minha mãe. Em que aspetos? Sobretudo em alguns hábitos, desfasados da educação que me era transmitida. A minha mãe colocou-nos num colégio, eu e a minha irmã estávamos em regime de externato, mas o colégio era interno, em Torres Novas. Deparei-me com o mundo novo e na altura era muito malandreco, comecei a fumar, gostava de estar com os amigos até tarde, mas felizmente durou pouco, dois, três anos. Tinha os meus 13, 14 anos, foi na transição do segundo ciclo para o terceiro ciclo. Valeram os princípios que me foram incutidos. Nuno com a mãe e a irmã D.R. Em pequeno o que dizia querer ser? Cresci no café com pessoas muito mais velhas. Com muita gente apaixonada pelo Benfica e pelo Sporting. Sendo uma zona tauromáquica, tinha em redor demasiados toureiros, a cavalo, a pé, a quadrilha Manuel dos Santos, o Ricardo Chibanga, e apesar de ser muito amigo deles, foi algo a que nunca liguei muito. Mas tinha algumas referências do futebol, na minha zona, como o guarda-redes Manuel Galrinho Bento, nascido na Golegã. Comecei a jogar futebol na Golegã. Até tinha algum jeito para jogar à frente, mas como a minha referência era o Bento, quis ir para a baliza. Começou a jogar futebol com que idade? Com 10 anos. Joguei no Futebol Clube Goleganense até aos meus 16/17 anos. Tinha uma paixão imensa por treinar e jogar. Mas o meu pai era completamente louco por automobilismo e tinha as revistas da época, tinha caixotes e caixotes que a minha mãe fez questão de guardar até eu entrar na faculdade. Mas depois perdi um pouco o gosto pelo automobilismo. Torcia por algum clube? No café do meu avô havia um núcleo muito grande de benfiquistas e de um núcleo muito grande de sportinguistas. O meu avô conseguia rentabilizar aquilo, dizia-lhes: “Se levarem o meu neto ao Benfica, pago-vos aqui o café”. Então eu ia ver o Benfica à Luz, numa carrinha de nove lugares completamente cheia de adeptos benfiquistas, parávamos para lanchar na Cruz do Campo, uma terrinha entre o Cartaxo e a Azambuja, e depois seguíamos para ver as noites europeias. Só que também aconteceu com os sportinguistas. Faziam o mesmo, portanto, eu andava sempre dividido. Confesso que na altura caía mais para o lado do Benfica, até porque a minha madrinha vivia na Rua dos Soeiros, junto ao Estádio da Luz e quando ia de férias para a casa da minha madrinha era muito fácil ver os treinos do Benfica. Via o Toni, o Carlos Manuel que hoje são amigos e bons amigos. Tinha ídolos ou só tinha como referência o Bento? Divido isto em várias etapas. A equipa do Eriksson, do Benfica, era uma equipa recheada de jogadores fantásticos. O Carlos Manuel para mim era um jogador fantástico, lembro-me de ver um Benfica-Bétis na Luz, tinha 11 anos, em que ele foi fantástico. Olhava também para o Chalana e via uma magia tremenda. Mas recordo quando passei também a ir a Alvalade, em que vi o Oliveira, o Jordão, o Manuel Fernandes, ou seja, vivi essas gerações. Eu olhava para o Bento na baliza, mas quando olhava para a estética do Damas na baliza, quer dizer, era impossível não gostar. Nuno Presume, em criança, num Buggy de onde assistia aos treinos do Benfica D.R. Mas escolheu ser guarda-redes devido ao Bento. Por causa do Bento e de dois rapazes altos e louros que acompanhei já era guarda-redes: o alemão Schumacher e o belga Jean-Marie Pfaff. Porque eram louros e tinham caracóis como eu na altura, tinham uma grande estampa na baliza e eram meio malucos também. Depois veio o Mlynarczyk, no FC Porto, que eu achava um guarda-redes fantástico, porque não tinha que cair na relva para segurar as bolas. Essas foram as minhas referências. Na frente, a partir do momento em que entrei na minha juventude, ver o Maradona era... Não sei se foi o melhor jogador do mundo, mas foi a estrela maior do futebol. Adorava o Maradona. Como adorei a melhor seleção de todos os tempos do Brasil, de 1982. Costumo dizer que não foi campeã do mundo, mas foi a melhor seleção do mundo, “sem” um guarda-redes, porque na altura era o Waldir Peres que comprometeu muito. E o Serginho, o ponta de lança, também comprometeu muito. Mas conseguiram mesmo assim mostrar um futebol muito bom. Depois, tenho ainda hoje em VHS todo o Euro de 88, quando o Van Basten conseguiu fazer o que fez. O Van Basten, o Gullit, o Rijkaard, o Koeman, o irmão do Koeman, o Van Breukelen na baliza, o Vanenburg a partir da direita… Lembro-me da equipa toda e o Van Basten era a elegância pura como atacante. Já na idade adulta, confesso que o Ronaldo Fenómeno encheu-me as medidas porque tive a oportunidade de o ver ao vivo, quando ele estava no Barcelona e não fossem aqueles joelhos, tinha sido o maior jogador da história, sem dúvida, e mesmo assim acho que foi dos melhores jogadores da história. Saiu do FC Goleganense e foi jogar para o União de Santarém, com 16 anos. Nessa altura quais eram os seus sonhos? Eu sabia que tinha algumas condições, mas também sabia que não tinha muitas condições. Vou para Santarém porque quis entrar em Desporto. Era mais fácil para mim, por uma questão de transportes e tudo. Como na altura não havia Desporto na secundária de Torres Novas, optei por ir para Santarém, porque tinha a estação de comboio a quilómetro e meio. Passava ali o dia e acabava por treinar à noite em Santarém. Era campeonato nacional. Julgo que é a melhor época da história do União de Santarém no campeonato nacional, fizemos um brilharete na altura contra a equipa da Académica de Coimbra, que na altura tinha o Pedro Roma, o Dimas, esses jogadores. Foram dois anos, um ano de júnior e outro ano de sénior, como terceiro guarda-redes. Ou seja, praticamente não jogava. Depois vai para o CRD Moreirense, a seguir para o Atlético Riachense e termina a carreira de guarda-redes no Azinhaga AC. Quando começou a ganhar dinheiro com o futebol? No União de Santarém, no primeiro ano de sénior. Na altura, era simbólico, obviamente. Se não estou em erro eram 10 contos, ou seja, 10 mil escudos. No CRD Moreirense comprei o meu Peugeot 205 XAD, uma grande bomba de dois lugares, porque nos davam luvas, era o prémio de assinatura, e ganhava 25 contos por mês [risos]. Foi um bom incentivo para comprar o carro. No ano seguinte fui para o Riachense, um clube pelo qual ainda hoje tenho uma estima imensa, onde fui feliz como jogador, já meio na faculdade, meio a jogar. Nuno, no Buggy em frente ao Estádio da Luz D.R. Entrou em que faculdade e curso? Entrei na Lusófona em Educação Física e Desporto, com a opção Futebol. Já tinha saído de casa da mãe? Essa é uma história muito gira. Entrei na Lusófona, na geração do Luís Sénica, o presidente da Federação Portuguesa de Patinagem, e do Tomaz Morais, somos todos do 1.º ano da Lusófona. Quando fui para o 10.º ano conheci a minha mulher, Ana Guimarães, professora de Educação Física e treinadora de tumbling. Ela tem mais sucesso que eu, porque tem muitos mais títulos. Leva todos os anos atletas ao Campeonato do Mundo de tumbling. Começamos a namorar ainda no Liceu de Santarém, eu tinha 17 anos. Ela entretanto entra na FMH e eu entro na Lusófona. E começámos a viver juntos nessa altura. A minha mulher ficou grávida no primeiro ano de faculdade e nasceu a minha primeira filha, a Catarina, que tem hoje 33 anos, já sou avô. Conseguimos fazer a faculdade, eu e ela, com muito esforço, muito sacrifício. Após dois anos em Lisboa, decidimos ir viver para o Cartaxo porque tínhamos ali algum apoio familiar. Comecei a dar treinos ao Sport Lisboa e Cartaxo. Foi praticamente aí que iniciei a minha caminhada como treinador. Tinha três atividades. Recordo que para fazer a faculdade eu pegava no meu 205 XAD, ia dar aulas a Pernes, de manhã, vinha para Lisboa ter aulas na faculdade, por vezes regressava a Pernes e depois ia para os treinos de futebol, que eram à noite. Deixou de jogar com quantos anos? Com 23 anos, no Azinhaga. E começou a dar treinos aos miúdos do SL Cartaxo? Sim, comecei a dar treinos, no meu 2.º ano de faculdade, sendo adjunto também da equipa sénior. Mas o meu primeiro ano como treinador é na minha terra, no campeonato do Inatel, no Pombalinho, em que eu treinava à sexta-feira à noite, com um único foco aceso no campo. Só se via até à linha lateral da grande área e era ali que fazíamos o treino. Era treinador com 22 anos. No ano seguinte é que vou treinar os escalões de formação do SL Cartaxo. Tenho que relevar aqui alguém que foi muito importante para mim no futebol, Avelar Marques, que me abriu as portas no Cartaxo, que me possibilitou sair, mas quando algo me corria mal noutro qualquer clube, tinha sempre as portas abertas para eu regressar. Foi alguém muito importante. Tirou logo os cursos de treinador? Sim, nunca facilitei nisso. Antes do novo milénio fiz o UEFA B. Isso foi muito importante para mim porque consegui sempre conjugar com outras tarefas, nomeadamente lecionar nas associações de futebol o curso de treinador, que gosto muito, e desde 2003 que o faço. Nuno, (no centro, atrás, com camisola mais clara), com a sua equipa do Goleganense D.R. Deu aulas de Educação Física nas escolas até muito tarde? Lecionei durante muito tempo e ainda há bem pouco tempo lecionei, porque não tenho problemas com isso. Estou no futebol, mas se tiver que voltar à escola, volto à escola e os miúdos gostam muito da relação que têm comigo. Quando comecei era mais difícil porque treinávamos ao final da tarde. Lembro-me que um dos dias da semana eu tinha um horário na escola até às seis e meia da tarde e o treino no Fátima começava às seis. Tive de ajustar horários com o diretor para conseguir ir para Fátima, que foi um salto muito importante porque saí de um campeonato distrital. E como surgiu a oportunidade de treinar o CD Fátima, em 2001? O Fátima a meio do ano estava em 4.º lugar, tinha um plantel muito curto, a IIB na altura era com 20 equipas, era muito extensa, havia jogo a meio da semana e ao fim de semana. O treinador que lá estava fazia um grande trabalho e foi convidado pelo Barreirense, que era um clube grande daquela divisão, e não olhou para trás. É por isso que fui contratado para o CD Fátima. A seguir faço um ano no Riachense e depois regresso ao Fátima. O Fátima vivia sempre com alguma instabilidade. A minha equipa técnica foi das poucas que começou e acabou fruto de uma liderança de um senhor que felizmente ainda é vivo e que é uma referência no Fátima, o Padre Pereira, um louco por futebol. Depois esteve dois anos no GS Loures. Sim, na primeira época ficámos a um ponto da subida. Mas há um clube que tenho de falar, porque foi o que mais me marcou enquanto treinador: o Riachense. Já me tinha dito muito na minha passagem como jogador. É um contexto meio rural, de gente com uma vontade e entreajuda extraordinária, e tive no Riachense a possibilidade de perceber o que era a liderança de balneário, através de um grande capitão de equipa, Miguel Cunha, que infelizmente faleceu este ano, com 50 anos, mas que foi uma referência para mim. Só o treinei um ano, mas nos cursos, quando se fala do protótipo de capitão, o exemplo que tenho, e já tive muitos capitães, inclusive na I Liga portuguesa, é o dele. Foi um clube que adorei, desportivamente foi um sucesso, eles vinham do campeonato distrital e entramos na III Divisão apenas com 14 jogadores inscritos. Ficamos a um golo da subida. Um golo. Mas a época foi tão extraordinária. Tinha jogadores loucos na equipa, tenho algumas histórias giras. Pode partilhar uma ou duas? Posso dizer que as nossas quartas-feiras eram passadas na discoteca, em Torres Novas. Na quinta-feira os jogadores iam para o treino e ninguém fazia referência à noite anterior. Todos sabiam que o espaço dentro das quatro linhas era um espaço de trabalho, de evolução, e que o que acontecia fora das quatro linhas ficava fora das quatro linhas. Mas as quartas-feiras eram duras [risos], num contexto amador, com dois ou três profissionais apenas. E aquela gente sofria e tinha uma paixão pelo clube, nós tínhamos sempre a bancada central completamente cheia, um dos topos praticamente cheio e a bancada do lado oposto com meia casa, ou seja, garantíamos sempre 1.500 adeptos num jogo da III Divisão. Rivalizávamos muito com o Torres Novas. Nuno Presume (à esquerda) com alguns colegas dos juniores do União de Santarém, em 1986/87 D.R. É muito diferente treinar homens que têm que ter outra fonte de rendimento e que só vão treinar no final do dia, com um dia de trabalho em cima? É completamente diferente, mas isso não significa que o empenho seja menor. Na altura não tinha conhecimento da realidade profissional, por isso hoje entenderia de outra forma, provavelmente iria agir de forma completamente diferente, porque nós agimos no futebol amador muitas das vezes fazendo uma cópia do futebol profissional e não adequamos. E a adequação é um elemento determinante para ter sucesso. Só que eu vivi no nascimento do José Mourinho, todos tínhamos a referência Mourinho e eu tive a facilidade e felicidade de conhecer o trabalho do José Mourinho e do José Peseiro, com quem trabalhei depois. Eram duas referências, o José Peseiro é praticamente meu vizinho. Em 1996 eu já tinha estado uma semana em Camp Nou, em La Masia, num estágio com ele. Era natural que quiséssemos replicar aquilo que eles faziam. Agora, as condições eram outras. Lembro-me que treinei o Portomosense, em 2005/06, com jogadores que trabalhavam nas pedreiras, e iam treinar à noite. Por vezes até me esquecia que eles vinham de oito ou nove horas a trabalhar na pedreira. Já vinham completamente fatigados. No meio disso, a família foi crescendo. Cresceu muito. Em 1996 nasceu o meu segundo filho, o Henrique, ainda eu estava na faculdade; em 2003 nasceu o terceiro filho, o Afonso. A quarta filha é mais recente. Tem agora 10 anos e chama-se Carlota. E são todos da mesma mulher [risos]. Há uma mudança na sua vida profissional quando vai para o Olhanense, como preparador físico. É o primeiro contacto com a I liga, através do treinador Daúto Faquirá, certo? É com o grande Daúto Faquirá. Até lá, muito rapidamente, a passagem por equipas como o GS Loures, também correu muito bem desportivamente, o Portomosense correu muito bem desportivamente, depois, 1.º Dezembro, o Rui Cunha, um dos sócios da Piriquita, era uma referência para mim, também já faleceu, alguém por quem eu tinha uma amizade extraordinária, e isto para justificar as minhas três passagens pelo 1.º Dezembro. Deveu-se muito a ele e a um outro senhor, o Sr. Vítor, duas pessoas que muito estimo. Conseguiram seduzir-me a voltar mais duas vezes ao 1.º Dezembro. Uma delas já após a experiência com o Daúto Faquirá, que tinha sido meu colega da faculdade também. Em 2010/11 mudou-se então para Olhão, para ser adjunto de Daúto Faquirá. A família foi consigo? Não. Foi o meu primeiro momento fora do contexto familiar. Foi muito difícil num primeiro momento e depois vamos percebendo que a distância não é assim tão grande, porque todas as semanas tinha caráter obrigatório eu estar com a família. Hoje se tiver que treinar em qualquer ponto de Portugal para mim é como estar em casa. Mas, curiosamente, essa distância provocou alguma ausência da parte desportiva no meu terceiro filho, contrastando com os dois primeiros, mas felizmente a relação é extraordinária e ele seguiu um caminho muito bom. Está já a fazer o estágio do curso de Direito no Rio de Janeiro. Já agora, a minha filha mais velha é assistente de bordo e o meu segundo filho é um rapaz do empreendedorismo, que se dedicou ao ramo imobiliário, é ele que compra, constrói e vende. A mais pequenina joga futebol, não é? É verdade, tem uma paixão enorme, acho que ela já sabe mais de futebol que eu [risos]. Começou a jogar muito cedo, obriga-me a acompanhá-la. Joga nas sub-11 do Sporting e vou com ela para cada sessão de treino com tanta vontade quanto ela para ver treinar. Os quatro filhos torcem todos pelo mesmo clube? Não. As duas raparigas são doentes pelo Sporting, o meu Henrique pelo Benfica, o meu Afonso não liga muito, pode gostar um pouco do Benfica, mas não dá muito ênfase ao futebol. Mudou muita coisa quando passou a ser preparador físico e treinador-adjunto? Tive de fazer uma transformação muito grande na minha forma de estar, porque entendo que um adjunto é alguém que suporta todas as dores do treinador principal. E é alguém que tem que estar atento a todos os fatores. Se me perguntarem hoje se eu estava preparado para ser adjunto, não estava. Porque a transformação que promovi em mim próprio foi demasiada. Ou seja, nesse início de carreira, enquanto adjunto, podia ter sido um adjunto mais atrevido, mas tive sempre muito receio do que os outros pudessem pensar, que ao ser mais atrevido na relação com os jogadores ou nas dinâmicas de treino, estava a querer "roubar" o lugar. Sempre tive muito cuidado com isso. Acho que por vezes até um cuidado excessivo. Isso prejudicou o seu percurso? Prejudicou-me no meu percurso como adjunto numa fase inicial. Sobretudo nos anos do Olhanense. De que forma é que o prejudicou? Prejudica porque o impacto que podia ter enquanto adjunto, num momento em que os adjuntos passaram a ser vistos não só como os carregadores de pinos, mas como alguém que dá ênfase ao treino, que constrói, lidera e operacionaliza o exercício, podia ter sido bem maior. Eu já gostava muito de construir e operacionalizar o exercício, mas ficava sempre um pouco inibido, com medo, inclusive em contexto de equipa técnica, em gabinete. Joguei sempre mais à defesa do que propriamente ao ataque. Mas na segunda experiência com o Daúto já não foi assim. Nuno (atrás à direita) com a equipa de seniores do União de Santarém em 1987/88 D.R. Está a falar da experiência no 1.º de Agosto, em Angola, em 2013 e 2014? Sim. Aí o Daúto tinha plena confiança em mim e eu já conseguia gerir com grande à-vontade e na relação com os jogadores. Antes de irmos a Angola. Quais foram as primeiras sensações quando entrou num plantel profissional? Era o que esperava e imaginava? Eu já tinha conhecimento da dinâmica do futebol profissional, do que era um jogador profissional porque enquanto aluno da faculdade aproveitava e ia fazer estágios aqui e acolá. Via comportamentos, atitudes, observava. Acho que consegui decifrar um pouco o que é o jogador profissional e encontrei no Olhanense essas referências. Com a equipa técnica via aqueles que podiam chegar mais longe. E que jogadores foram esses que chegaram mais longe? No Olhanense, o Jardel apareceu para central, começou a treinar semana e meia antes do primeiro jogo do campeonato, contra o Vitória de Guimarães, e o Daúto viu logo que ele era muito melhor que os outros, apesar de estar a treinar há pouco tempo. A verdade é que em janeiro foi vendido ao Benfica. Recordo um outro menino, o Ismaily, que depois foi para o SC Braga e para o Shakthar Donetsk e acabou o ano passado no Lyon. Fez uma carreira muito grande com Luís Castro e Paulo Fonseca. Nunca consegui ouvir a voz do Ismaily, porque ele simplesmente não falava. Tinha um remate de sonho e tinha vergonha de bater livres. Eu dizia que ele podia ser o Roberto Carlos a bater livres e ele inibia-se, era um miúdo muito inibido, felizmente conseguiu fazer uma carreira extraordinária. Estes são dois exemplos que nos passaram no Olhanense. Mas há mais. Quem? Um guarda-redes, o Fabiano, que depois foi para o FC Porto e infelizmente teve uma lesão. Quando o Fabiano chegou, recordo que perguntei ao Figueiredo, que é hoje o treinador de guarda-redes do Sérgio Conceição: achas que vamos estar bem na baliza? E ele deu-me uma dura: "Não te admito isso, nós vamos ter um guarda-redes imenso". O Fabiano chegou com muitas dificuldades, sobretudo nos cruzamentos, apesar dos seus quase dois metros de altura, mas dois, três meses depois estava a defender como nunca, a meio da época foi para o Futebol Clube do Porto e chegou a jogar como titular. Acho que a experiência maior depois está relacionada com os atos de gestão. Aí é que há uma diferença acentuada porque começamos a trabalhar em estruturas maiores, onde passa a existir um número superior de influências. Costumo dizer que um clube que é gerido de dentro para fora está próximo do sucesso. A influência externa foi decisiva para que o Olhanense esteja agora onde está. Era mais que óbvio que muita gente queria ter protagonismo no clube e mostrar que liderava, que punha e dispunha. Foi terrível para um presidente que até tinha uma visão correta. As influências externas acabaram por prejudicá-lo e ao clube. Acabou o Olhanense por descer ao ponto de hoje estar na distrital do Algarve. A equipa do Riachense que Nuno Presume (de polo branco à esquerda, na fila do meio) treinou D.R. E a nível de balneário, é muito diferente um balneário profissional de um balneário de um clube distrital? É mais profissional, o termo é esse. É mais profissional porque há tempo para chegar, há tempo para fazer o trabalho preventivo, há tempo para uma preparação mental para a tarefa, há tempo e disponibilidade para a tarefa e há tempo no pós-treino para voltar a estabilizar, para fazer um trabalho complementar no fim. Resumindo: há tempo. E no futebol amador não há. E os egos, são maiores no futebol profissional? Isso tem a ver com educação, tem a ver com formação, tem a ver com princípios, tem a ver com valores. E isso não escolhe a liga onde nós estamos a jogar. Esses egos encontrei em todo o lado. Já cheguei a treinar um dos melhores jogadores do mundo e não tem ego algum. Tem uma capacidade de trabalho excecional. Falo do Bruno Fernandes. O Bruno Fernandes e o Raphinha, que está no Barcelona, são dois exemplos do que é ter capacidade de trabalho para se atingir um determinado nível. Acho que os egos, quem os tem, é quem julga que é mais do que aquilo que realmente é. Esses, sim, também já apanhei alguns, confesso. Tive a possibilidade de estar no Bahia e eles tinham uma expressão muito gira para esses egos, que é "o todólogo" ou "o professor de Deus", porque sabem mais que Deus, e todólogo, obviamente, porque sabem tudo. Histórias para contar do Olhanense, tem muitas? As histórias de relevo maior foi conseguir ver chegar os jogadores a um nível superior. As histórias menos engraçadas, o facto de nós, em cada microciclo, por vezes treinarmos em quatro pisos diferentes. Tínhamos de andar de autocarro por todo o Algarve para encontrar um relevado para treinar e isso é extremamente desgastante. Lembro que o primeiro ano foi uma época muito positiva, no segundo foi mais difícil e tivemos que sair sensivelmente a meio. E foi mais difícil porquê? Porque a expectativa aumentou, e porque pensamos que íamos anular aqueles que tinham importância de fora para dentro. Estavam fora, mas afinal não estavam fora. Sempre que acontecia uma ou duas derrotas, lá estavam eles preparados para desestabilizar o grupo de trabalho e conseguiram-no com maior ou menor dificuldade. Mas também saliento que quando isso acontece, há muita responsabilidade da nossa parte, não é só de quem está de fora, obviamente. Quando as coisas não correm bem, o treinador tem sempre responsabilidade também. Nuno Presume, José Mourinho e Luis Queiroz, em 1996 D.R. Quando o Daúto Faquirá o convida para ir para o 1.º de Agosto, em Angola, como reagiu? Aí foi duro, porque a distância para a família aumentou significativamente. O primeiro mês só não foi tão duro porque fomos estagiar na Namíbia, em Windhoek, que é adorável. Aterrar na Namíbia não é aterrar em África, é aterrar numa cidade fabulosa. Estivemos três semanas e meia em estágio em Windhoek. Foi o meu primeiro aniversário fora da família e custou um bocadinho. A sua mulher como reagiu quando falou em ir para Angola? A minha mulher é das pessoas que mais me motivou ao longo da vida para que arriscasse nesta atividade. Na altura, disse-me: "Vai, eu aguento." Já tínhamos três filhos, foi duro sobretudo pelos miúdos. Felizmente, houve sempre um espírito de grupo muito bom lá em casa para que todos pudessem ter tarefas e ajudar e isso dava-me alguma tranquilidade. Mas foi muito difícil para mim, os miúdos acham que eu sou um pai galo, estou sempre em cima, e gosto muito, talvez devido ao meu passado. Mas a minha mulher deu-me sempre muita força para eu ir, e acabou por ser uma experiência fantástica. Como foi o primeiro impacto quando chegou a Angola? Confesso que quando estamos a aterrar em Luanda e vemos a quantidade de barracas e de musseques ali colocados é um impacto imenso. Minha nossa, para onde é que eu venho? Mas nós acabamos por ter uma realidade diferente. Ficamos os três primeiros meses num hotel que tinha condições extraordinárias e víamos tudo o que havia de bom e de menos bom em Luanda quando saíamos do hotel para o R20, o centro de treinos que era dentro da base militar, ou seja, estávamos protegidos. Depois desses meses no hotel, fomos viver para um apartamento, e é uma história fantástica. Conte. Estive num apartamento que era um luxo por dentro, mas quando estacionaram o carro pela primeira veze e disseram: "O seu apartamento é aqui", eu pensei: "Não, vou já embora". Porquê? Não havia sequer porta de entrada no prédio. As caixas de correio estavam todas desativadas, o elevador mais parecia um submarino afundado, tínhamos que subir pelas escadas, e quando não havia gerador, obviamente não havia luz. "Não, vocês estão a brincar comigo, isto não é para mim". Mas quando abri a porta do apartamento, como é possível? Um luxo, um imenso apartamento, com tudo. Vivi lá muito bem, ficava entre a Maianga e Alvalade, que é uma zona até tranquila, uma zona boa. E foi fantástica a experiência em Luanda, as histórias aí são mais que muitas. Em 2010/11, Nuno (à esquerda) tornou-se adjunto de Daúto Faquirá (no centro) D.R. Pode abrir o livro. Se saíssemos de autocarro para um jogo fora de Luanda, tínhamos sempre militares numa carrinha à frente e atrás do autocarro, todos armados, porque o clube era militar, podia haver algum problema. Mas dentro do autocarro era uma festa imensa, a dançar, a cantar, não havia sossego. De noite era impossível viajar, se tivéssemos que ir jogar a qualquer lado longe, ficávamos no hotel que havia na zona e só regressávamos na manhã seguinte. A primeira história alucinante que tive foi quando fomos jogar ao Huambo. Vamos para a parte militar do aeroporto e pensei que fossemos viajar num avião normal. Aparece um senhor que devia ter os seus 70 e tal anos, que era piloto russo da Segunda Guerra Mundial. Isto foi autêntico. Até aí, OK. Mas quando me disseram qual era o avião, aí eu disse: "Eu não vou, não me levem a mal, eu não vou." [risos]. Então porquê? O avião era muito, muito velho, era também da Segunda Guerra Mundial, e quando entrei no avião, tinha aqueles bancos laterais dos aviões de guerra, mas as cadeiras eram de plástico, cadeiras de esplanada, com um cadeado a passar entre todas de um lado ao outro. O mais giro é que nós tínhamos estatuto VIP, porque éramos da equipa do 1.º de Agosto, e só depois de estarmos todos sentados é que abria a porta nas traseiras do avião. Quando isso aconteceu, começou a entrar o povo angolano, com as galinhas, com os animais todos, lá atrás, juntamente connosco. [risos]. Eu nem queria acreditar. Depois habituei-me. Mais algum momento que possa partilhar? Outra experiência fantástica foi a ida ao Congo, talvez o país que teve mais impacto negativo de todos onde estive. Levámos cozinheiro connosco, porque a macumba e o feitiço e as crenças é algo que está instituído, e quando chegamos ao Congo o hotel era horrível. Estivemos quatro dias, três noites, e eu só tinha um balde de água no hotel para a minha higiene. Eles já estavam rotinados naquilo. Levavam a alimentação de Angola, o nutricionista, cozinheiro, porque de outra forma já sabiam que quando fosse dia de jogo não estávamos em condições físicas para poder jogar, porque é prática corrente fazerem algo que nos indispunha, digamos assim. Quando chegamos para o treino de adaptação ao relvado, estavam 10/15 adeptos da outra equipa, a colocar tochas dentro da boca e a fazer aquelas labaredas. No dia seguinte vamos para o jogo e a história de cortar o pescoço às galinhas é mesmo verdade. E aquilo assusta mesmo. É uma questão cultural. Os jogadores ficam mesmo assustados. Nem nos equipámos no balneário, porque eles espalham o sangue da galinha no balneário e deixam lá os pescoços. Perdemos o jogo. Como de vez em quando tenho alguma pancada também, no jogo da segunda volta, eu e o treinador de guarda-redes, que era cabo-verdiano, replicámos da mesma forma. Entrámos para o aquecimento e pensei, vou entrar no meio-campo onde eles estão a aquecer e vou correr um pouco por lá. Quando entrei no meio-campo da equipa visitante, saltaram todos para o nosso meio-campo a correr também, como que a ripostar o meu gesto. Têm mesmo pancada [risos]. A verdade é que passei a ter um respeito enorme por essas crenças, até porque depois estive noutros contextos onde as crenças também são algo muito, muito importante, quer na Venezuela, quer no Brasil. Em 2018, Nuno (à esquerda) foi adjunto de José Peseiro (no centro) no V. Guimarães D.R. Com que opinião ficou do jogador angolano? Um potencial extraordinário. Em qualquer parte da rua eles estão a jogar. Qualquer um destes países onde estive podia ser um país riquíssimo e toda aquela população podia viver tranquilamente, o potencial é muito, mas transformar isso em qualidade não acontece. E o jogador angolano tem esse problema. Um jogador com uma capacidade de trabalho enorme, recetivo à aprendizagem, com alguma dificuldade nessa aprendizagem quando o grau de dificuldade aumenta um pouco, sobretudo na interpretação dos conteúdos que são transmitidos, mas é um jogador adorável. Criei uma relação de amizade imensa e um dos jogadores que cresceu muito e que veio para Portugal depois para o Sporting foi o Gelson Dala. Foi um menino que encontrei com 16 anos e na altura disse ao Daúto, estou apaixonado por este ponta de lança, acho que ele tem um potencial extraordinário. Não me enganei. Ele veio para Portugal, chega no início da segunda volta da Liga 2 para o Sporting B e é o melhor marcador da equipa. Na altura o treinador da equipa principal era o Jorge Jesus, portanto a probabilidade de ele jogar na equipa principal era reduzida, porque o Sporting tinha a equipa formada. Mas se ele tem tido alguém que apostasse realmente nele, tenho a certeza que tinha sido um ponta de lança de referência e ainda hoje é o melhor finalizador da seleção de Angola. Joga no Catar. Era um miúdo com muito potencial e há muitos Gelsons Dalas, em Angola. Desses dois anos em Angola, o que ficou mais marcado na memória? Uma fonte de crescimento imenso, deu-nos uma experiência para olhar o mundo de outra forma. Angola deu-me uma perceção de vida que me fez crescer muito. Esteve quatro anos com o Daúto Faquirá, de 2010 a 2014. Sentiu que ele também evoluiu enquanto treinador? Senti. O Daúto dá muita liberdade a quem trabalha com ele. Gostava muito que ele tivesse sucesso. Infelizmente, os critérios de seleção hoje são substancialmente diferentes para podermos treinar a um nível elevado. E o Daúto acabou por ser um pouco engolido pelo sistema, na minha opinião. Com as responsabilidades que também possa ter, obviamente. Mas o Daúto tem uma vantagem imensa, além de ser um treinador com uma cultura acima da média, um domínio para lá do futebol, um domínio extraordinário nas artes, é um artista, ele observa e consegue discernir se o jogador, para o jogo dele, tem ou não tem impacto, se é bom ou não. E esse conhecimento dos jogadores que nos chegavam à experiência, que eu num primeiro momento podia dizer, não vejo nada de jeito, ele descobria o potencial no jogador e rentabilizava esse potencial. Depois, é um treinador muito calmo, muito sereno, precisa trabalhar numa estrutura também serena que lhe dê esse palco. Nuno foi adjunto de José Peseiro, no Sporting, em 2018 D.R. Entretanto, ficou três anos sem treinar, até 2017. O que fez nesse período? Aí há uma mudança que me dá alguma tranquilidade na vida. A Sport TV convence-me a ir para comentador. Mas tudo começou em 2008. Na altura, dois ribatejanos que estão na comunicação social convenceram-me a ir fazer o comentário de um Estrela da Amadora-SC Braga, na Rádio Renascença. São eles o Valter Madureira e o Paulo Cintrão. Experimentei e eles gostaram. Na semana seguinte há novamente um Estrela da Amadora-SC Braga para a Taça, voltaram a convidar-me, voltei a ir. Entretanto, não me disseram mais nada, e há um Benfica-Getafe, isto em 2008, e faltava um comentador para a Renascença. Fui a custo zero. Preparei muito bem o Benfica-Getafe. Ainda hoje não consigo ir para um jogo sem preparar a equipa toda adversária. E há no Getafe um jogador que se chama Rubén de la Red, que foi só, em 2010, campeão do mundo pela seleção espanhola. Ele era um n.º 10 de excelência, vi que tinha impacto na equipa. Na antevisão ao jogo, faço referência ao De La Red como o jogador determinante naquela equipa. Conclusão, o Cardoso é expulso no primeiro minuto de jogo, e o De La Red a jogar contra 10 foi uma festa, tinha espaço para brilhar, e brilhou mesmo. Eles ficaram admirados. Ele foi mesmo o melhor jogador, no ano seguinte até foi para o Real Madrid. A partir daí, o Ribeiro Cristóvão, depois o Pedro Sousa, o Pedro Azevedo, o Carlos Dias, e agora o Luís Aresta, sempre que eu não tenho clube, o telefonema surge no dia seguinte para que eu vá fazer um jogo na Renascença. E para se perceber, hoje, se vou fazer um jogo à Renascença, o valor que vou auferir ainda é o mesmo que em 2008. Digo sempre à Renascença, o não não existe. Só se eu não puder mesmo, obviamente. Daí o convite da Sport TV, em 2014? Exatamente. Com a estabilidade da escola, da Sport TV, da Renascença e os cursos de treinadores, travei um pouco a minha ambição na vertente do treino. Não sei se fiz bem, se fiz mal, tive muitos convites para poder assumir, mas acabei por travar, porque estava confortável. Acabei por acomodar-me, confesso, pela estabilidade da família, ia todas as noites dormir a casa. Até que, em 2017, surge a hipótese do 1.º Dezembro, novamente. O treinador do 1.º Dezembro iria ser João Henriques, mas ele abdicou para ir para o Leixões, como treinador-adjunto, na II Liga, e o 1.º Dezembro ficou sem treinador. O Rui Cunha ligou-me, aflito, apelou à amizade que tínhamos, disse que tinha um projeto bom, tinha investidores sérios, e aceitei. Tinha uma saudade do treino imensa. Foi aí que reiniciei a atividade como treinador principal. Foi estranho ao fim de três anos parado? Não, porque eu gosto muito do treino. Agora, aqui no Amora, pareço uma criança dentro das quatro linhas. Gosto muito de estar envolvido nas tarefas. Nesse ano, no 1.º Dezembro, conseguimos construir uma equipa com experiência e com muitos meninos que vinham maioritariamente do Belenenses, que tinha sido vice-campeão nacional de juniores na temporada anterior. Gosto muito de lançar quem vem da formação, porque vejo o crescimento, vejo o potencial e a conjugação perfeita é ter jogadores experientes com jogadores mais novos. Aquilo estava a correr muito bem, até que surgiu um problema, estávamos em 2.º lugar no campeonato, isto aí à 7ª jornada, mas o problema surge antes e eu não podia deixar que a amizade superasse as competências e as tarefas de cada um. Que problema? Os investidores abandonaram o projeto, porque não ficaram com a maioria da SAD. Eu sabia que aquilo, sem aqueles investidores, iria por água abaixo, e fui embora. Eles ficaram muito chateados, mas eu sabia que estava correto, porque já tinha tido duas passagens por lá. Infelizmente acabei por estar certo, porque o resto da época foi duro para eles. Foi uma pena, porque naquele ano fomos buscar o Pedro Amador aos juniores do Belenenses, que foi vendido para o SC Braga em dezembro e em março estava a jogar na equipa titular do SC Braga. E, não tivesse sido a lesão no joelho... Ele hoje está a jogar na MLS. Quando saí, voltei à Sport TV, mas é aí que aparece o José Peseiro e convida-me para ir para o V. Guimarães. Ainda na mesma época? Sim, eu saí em novembro e em janeiro o Peseiro ligou-me. Volto a ser adjunto. Com Paulinho, roupeiro do Sporting D.R. Como é trabalhar com Peseiro e como foi trabalhar em Guimarães? Tudo o que eu disse do Riachense, transporto para a I Liga e o Vitória é o meu rosto. Porquê? Porque a paixão que as gentes de Riachos tinham pelo clube é a paixão, noutra dimensão, que as gentes de Guimarães têm pelo Vitória. Ainda hoje, se digo ao meu filho Henrique que vou a Guimarães ver um jogo, ele larga tudo para ir comigo ver o jogo. A cidade é fabulosa, a qualidade de vida é fabulosa, os adeptos são fabulosos, estou a falar nisto, nem sei o meu futuro, ainda vai algum rival pensar que eu gosto muito de Guimarães e não me convida para ir para outro lado qualquer ali próximo de Guimarães [risos]; mas a verdade é que adorei ter estado em Guimarães, foi muito, muito bom. Mas durou pouco. Sim, porque o Zé Peseiro entendeu não ficar. Na altura o Zé Peseiro assumiu aquela tarefa como uma tarefa a curto prazo. Ou seja, o Zé Peseiro tinha vindo dos Emirados, estava em casa sem trabalhar e pediram-lhe por tudo para ele estabilizar o grupo em Guimarães. Ele aceitou. Só que, se olharmos para o passado, o Zé Peseiro passou por clubes de grande dimensão até então, e com orçamentos obviamente muito superiores, para ele ficar teria que ter um orçamento muito superior e isso em Guimarães não era possível na altura. Por mim não era questão de orçamento, porque estava tudo bem comigo, eu queria era lá estar, mas ele acabou por não querer ficar. Foi a primeira vez que trabalhou com ele? Foi, mas eu conheci o Zé Peseiro há 30 anos, ele é ribatejano, estávamos muitas vezes juntos e na altura em que ele ainda era treinador do Oriental e professor na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, convidou-me para que eu fosse assistente dele em Rio Maior. Acabei por lhe dizer que não, porque teria de baixar um escalão na escola, ia receber menos, e com dois filhos, a diferença tinha impacto na dinâmica familiar. Mas tivemos sempre uma relação muito próxima. O que pode dizer sobre ele enquanto treinador? O Zé Peseiro, em questões de treino, é o oposto de Daúto Faquirá. É um treinador intenso no planeamento das tarefas de treino e participativo a tempo inteiro na dinâmica de treino, é um treinador que quer controlar todos os aspetos. Nos oito anos de vivência mais próxima com o Zé Peseiro, ele começou a delegar aos poucos. Quando me perguntam sobre o Zé Peseiro de hoje, este é o melhor Zé Peseiro precisamente porque delega mais. Mas consegue ainda ser hiperativo. Apesar dos seus 65 anos, eu digo que ele tem 50, porque tem uma disponibilidade, uma capacidade de trabalho, que é uma raridade. É um treinador que ao delegar, também passou a ouvir mais. E isso é extraordinário nas últimas experiências que tivemos com ele. De 2018 para cá foi adorável trabalhar com ele, porque ganhou essa capacidade de distribuir tarefas, de planear connosco. Na última experiência no Egito, com todos os contornos que teve, foi adorável ver a dinâmica da equipa técnica. Após o Vitória, o Peseiro foi fazer novamente de bombeiro de serviço, mas ao Sporting, e leva-o também. Como foi essa experiência? É literalmente bombeiro de serviço, com consciência disso. Foi no pós-invasão à academia de Alcochete. Foi uma luta hercúlea porque ao chegarmos não tínhamos nada. Não tínhamos sequer direção, ou seja, o Sousa Cintra decidiu pegar naquilo, o grande Manuel Fernandes também decidiu dar uma ajuda, e foi importante, numa estrutura que estava, fruto do que tinha acontecido, desfeita. Ao ponto de irmos para estágio na Suíça, supostamente com jogos marcados, inclusive para serem televisionados, e quando lá chegamos ninguém sabia que jogos eram, absolutamente nada. As pessoas não fazem ideia da importância do Zé Peseiro nessa época. Não sonham. Posso contar algumas histórias. Assim que se deu a debandada de jogadores, ditos determinantes, os supostos “amigos” do Sporting tinham muitos jogadores para oferecer ao clube. A troco, obviamente, de dinheiro para eles. Acho que os adeptos do Sporting deviam estar gratos ao Zé Peseiro para a vida inteira, porque ele, junto do Sousa Cintra, apenas lhe disse: “Não quero jogador nenhum até que aqueles que saíram possam estar aqui, porque são esses que sentem o clube e são esses que vão dar vitórias ao Sporting”. Jogadores como Coates, Bruno Fernandes, Marcos Acuña, Bas Dost, poderá estar aqui a faltar um ou outro jogador, estes jogadores regressaram devido ao José Peseiro, de outra forma, não estariam. Nuno ao lado dos filhos Afonso, Catarina, a sua mulher Ana, Henrique e Carlota D.R. Como conseguiu que voltassem? Ele simplesmente exigiu ao Sousa Cintra: “Resolva o problema, eu quero estes jogadores cá. Estes têm que voltar, depois pensamos nos reforços”. Tanto que quem entrou na equipa foi o Nani. Escolha de Peseiro? Sim, porque o Nani começou a jogar no Sporting pela mão do Peseiro. E o Nani tinha o sonho de voltar a jogar no Sporting e acabou por vir. Mas foi o Nani e o Diaby. O Raphinha já estava contratado antes de chegarmos. Veio também o sérvio, Nemanja Gudelj, que era fantástico, uma dimensão humana extraordinária e depois foi para o Sevilha. Foram praticamente as nossas contratações. Mas com muita gente a querer pôr muitos jogadores. E depois acabamos por não ter tempo para fazer uma avaliação correta do plantel e tínhamos ali situações às quais estávamos obrigados, de manter alguns jogadores, por outras razões. Lembro-me de jogadores como o Palhinha, que tinha vindo de um ano duro com Jesus; do Matheus Pereira, do miúdo turco central que agora está a jogar na Arábia, Merih Demiral, o Domingos Duarte, jogadores que se o contexto tivesse permitido e se tivéssemos tido a estabilidade necessária, teríamos aproveitado e provavelmente não teriam sido dispensados. Mas há aqui um dado curioso. Nas quatro primeiras jornadas éramos os primeiros classificados do campeonato. Tínhamos três vitórias e um empate na Luz. Foi quando se deu a mudança, houve eleições e entrou o Varandas, que está a fazer um trabalho muito bom. E, obviamente, quem entra tem uma ideia diferente e está no seu direito. Perceberam logo que não iriam continuar? Sim, a partir daí percebemos que o nosso espaço de intervenção era diminuto e mais cedo ou mais tarde iríamos sair. E acabamos por sair. Mas foram quatro meses de muito sacrifício. A preparação da época foi difícil porque estávamos no nível -1 ou -2, por tudo o que aconteceu. Quer nos materiais, quer na preparação do estágio, quer nas lideranças dos vários departamentos. Sabíamos que estava tudo para mudar e isso proporciona sempre intranquilidade. No início foi bom porque essa intranquilidade não era sobreposta pela superação, ou seja, a superação foi elemento determinante para conseguirmos naquela fase inicial catapultar a equipa para ser competitiva, numa lógica de jogo muito diferente até do que o Peseiro tinha e que lhe é reconhecido que é um jogo muito ofensivo. Sabíamos que naquele momento não podíamos ter esse jogo, por tudo aquilo que tinha acontecido, porque fomos jogar a 1.ª jornada em Moreira de Cónegos com duas semanas e meia de treino. Não estavam preparados para a competição. Era um apelo à superação de forma constante. E conseguimos corresponder, acho eu, só que... Sentiu haver medo entre os jogadores? Sim, sim. Há uma história engraçada de um jogador que tinha que dormir sempre na academia, não ia a casa dormir no dia que antecedia o jogo. Às vezes, para jogos em casa, o estágio era feito no próprio dia. E o jogador queria ficar fechado na academia. Sentimos por parte de alguns jogadores algum lado traumático e alguns problemas de relação, sobretudo a relação com os adeptos, em contexto de jogo, que era tremenda, era dura. Lembro-me que nas primeiras jornadas os jogadores não queriam deslocar-se junto da baliza onde estava o Sporting, para agradecerem após uma vitória. Não queriam ir, depois lá se conseguiu que fossem. Mesmo quando o presidente Varandas pegou no clube, como é sabido, tinha alguns atritos com parte da massa adepta e gerava sempre muita preocupação. Por muito que conseguíssemos controlar os fatores internos, era impossível controlar os fatores externos. E isso foi evidente até na nossa saída. Esse lado bombeiro do Peseiro, acabou, infelizmente, de uma forma que não foi muito correta. Acredito que as pessoas percebem hoje que não foi muito correta, apesar de compreender a decisão. Na altura disse isso ao Zé Peseiro, compreendo muito bem a decisão, mas podia ter sido de outra forma. Sente que ficou uma mágoa? Não, porque o Zé Peseiro... Por muito que os adeptos do Sporting não queiram, o Sporting tem duas finais europeias na sua história: uma que ganhou, a Taça das Taças, e tem uma final que é com o José Peseiro. Isto é a história. Poderão dizer que o José Peseiro esteve quase, mas foi o único, além da vitória na Taça das Taças, que esteve quase. Ele esteve a uma semana de poder ganhar o título e uma Liga Europa pelo Sporting. O Sporting a cada 20 anos ganhava um campeonato. Essa é a realidade. Ele foi dos que esteve mais próximo. Era um clube que também era muito gerido de fora para dentro... Aí está. Hoje, com algumas opções nas escolhas para liderar os departamentos, essa é a grande vantagem do Sporting. É um clube muito mais fechado, é mérito do presidente, é um clube que não permite que existam muitas infiltrações e que tem as lideranças por departamento bem definidas, sobretudo no futebol profissional. E no futebol de formação, com a entrada do Paulo Gomes, do Tomaz Morais, as coisas também correm bem, embora acredito que o Sporting tenha em mente valorizar e potencializar o que tem em Alcochete para melhorar e colocar-se, sobretudo na estrutura material e estrutural, ao nível do Sporting de Braga e do Benfica. Quais os jogadores que o impressionaram mais no Sporting? Claramente o Bruno Fernandes. A preocupação que coloca em todos os aspetos que envolvem o treino e o conhecimento que ele tem do jogo... O Bruno talvez seja das pessoas mais intuitivas e inteligentes. Aliás, não é muito normal a facilidade com que um jogador daqueles aprenda a falar línguas. E depois tinha uma perceção e um conhecimento do jogo para a idade dele que não era muito normal. E era o exemplo de trabalho. Por vezes, muito emotivo, porque tem essa obsessão por ganhar, que não é positiva em determinados momentos, é verdade, mas ele e o Raphinha são dois exemplos de uma capacidade de trabalho fora do vulgar. Um outro jogador que eu adorava é o Coates. Se o Bruno era tudo isso, eu chamava o Coates o líder silencioso. Há capitães que não precisam de falar. São líderes porque são líderes. O Coates tinha o respeito de toda a gente sem ter que falar. Eu achava isso adorável. Era um excelente jogador e, sobretudo, era uma excelente pessoa. Um respeito imenso. Podia falar de outros jogadores. O Bruno Fernandes daria um bom treinador? O Bruno tem tudo para dar treinador. Acho que a gestão emocional do Bruno vai acontecer, mais cedo ou mais tarde, com a maturidade. Muito se fala do João Moutinho, que pode dar um grande treinador pelo conhecimento que tem do jogo. Eu acho que o Bruno tem tudo. A paixão que tem pelo treino, o conhecimento que tem do jogo, do treino, não tenho dúvida nenhuma, se quiser, é treinador. O grande rival do Sporting continua a ser o Benfica ou sentiu que o FC Porto tornou-se no principal alvo a abater? O grande rival é, sem dúvida, o Benfica. Sentia-se, inclusive, nos corredores de Alcochete. Sentia-se a vitória, o empate e a derrota do Benfica. Esse foi sempre um “Calcanhar de Aquiles”, digamos assim, do Sporting? Não sei. Mas acho que um clube e uma estrutura para crescerem é fundamental que olhem mais vezes de cima para baixo, porque quando a preocupação é superior com os outros do que connosco, olhamos mais de baixo para cima. E acho que o Sporting também deu esse passo. Está mais sólido, mais consistente. O Sporting já não é só o candidato de papel. Saiu do Sporting com Peseiro e ficou uns bons meses sem voltar aos relvados. O que fez profissionalmente? Na altura apareceu-me um projeto que me apaixonou. Além da rádio que continuou, aparece-me o convite do Canal 11, numa estrutura fabulosa, da federação, que me envolveu muito. Fui o primeiro comentador de um jogo passado pelo Canal 11, em streaming, ainda, o canal não estava no ar. Foi um Portugal-Irlanda em sub-17 feminino, na Pampilhosa da Serra. Ainda bem que fui a esse jogo, porque vi aí, em 2019, algumas das meninas que hoje jogam na seleção principal. E passei a acompanhar o futebol feminino com outros olhos. Spoiler “Estive 9 dias em coma, perdi 15 kg, todos os grupos musculares ficaram reduzidos a nada. A minha filha Carlota foi uma fonte de inspiração” O treinador Nuno Presume conta-nos na parte II do Casa às Costas várias histórias que viveu enquanto adjunto de José Peseiro na seleção da Venezuela e mais tarde no Zamalek, do Egito. Fala também sobre a passagem pelo Bahia, como adjunto de Renato Paiva, e confessa querer voltar a treinar no Brasil. Relata, com pormenores, o período em que quase perdeu a vida, devido à covid-19, e fala das suas referências e ambições Quando surgiu o convite para ir para a Venezuela com José Peseiro torceu o nariz? Não torci por uma razão. Para já, tínhamos uma vantagem, o contexto de seleção é um contexto facilitador, em que se trabalha muito, mas em que não temos de ficar lá. Vamos lá e regressamos. O que dá mais trabalho num contexto de seleção? A preparação de um estágio de seleção para uma data FIFA é a análise e a observação de todos os jogadores maioritariamente selecionados e em paralelo todos os jogadores pré-selecionados; e depois o trabalho na descoberta de outros jogadores que possam integrar as dinâmicas da equipa. Na seleção da Venezuela era relativamente fácil porque os alvos estavam praticamente todos identificados e no exterior da Venezuela não existia assim tanta massa humana. Mesmo assim, ainda descobrimos alguns talentos que hoje são referência da seleção da Venezuela. Como, por exemplo? O José Andrés Martínez, que joga no Corinthians e que jogava no Philadelphia Union, campeão da MLS, um jogador que foi titular pela primeira vez connosco. O Cristian Cáceres, que está no Toulouse e que era do grupo da Red Bull. Era um menino de 19 anos que vimos a jogar e dissemos logo: este miúdo tem que vir à seleção. Hoje é um dos indiscutíveis da seleção. Porque depois os outros eram, em grande parte, o aproveitamento de uma seleção sub-17 que foi vice-campeã mundial. Que era aquela geração que tem o Sotelo, o Yangel Herrera, que era um craque, infelizmente as lesões na tibio-társica são mais que muitas. A experiência foi fantástica. Iam vê-los ao vivo? Antes de irmos para lá, mas já depois de assumir o compromisso, o Peseiro fez um périplo por Itália, Alemanha e EUA. O trabalho meritório do José Peseiro na Venezuela é que, com a covid-19, o campeonato também estava parado, e ele fazia estágios internos; chamávamos jogadores que aparentemente tinham pouco potencial, dos clubes da Venezuela, e fazíamos torneios com eles. Isso foi extraordinariamente positivo porque, quando fomos disputar a Copa América, tivemos a quase totalidade dos jogadores da seleção principal, os titulares, fechados no hotel com covid-19, e se não tivéssemos feito esses estágios, não tínhamos jogadores para levar. E corresponderam bem? Sim. Nós conhecíamos os jogadores. Eram jogadores com muita dificuldade, a ganharem muito pouco, e não esqueço que jogámos o primeiro jogo com o Brasil, perdemos 3-0 para a Copa América, mas foram aguerridos. Depois empatamos a zero com a super Colômbia, em Goiânia, e ficou tudo admirado. Foi uma festa na Venezuela. A seguir empatámos com o Perú, e do nada, também com esses jogadores, porque os outros ainda estavam isolados no hotel, a Venezuela estava em festa a pensar que com os miúdos que jogavam no campeonato interno podíamos passar para a fase seguinte da prova. Mas não aconteceu. Que razões encontrou? Os outros retornaram no pós-Covid, mas não estavam em condições de jogar. Foi um erro irmos jogar com eles no último jogo. Acabámos por perder e se tivéssemos jogado com a malta da liga interna provavelmente teríamos passado, o que seria épico, seria um milagre. Optámos por confiar mais no talento do que na superação e acabamos por ficar na fase de grupos, foi pena. Em 2020, Nuno Presume (à esquerda) é adjunto de Peseiro (à direita) na seleção da Venezuela D.R. Gostou dos venezuelanos? É um povo fantástico. É um povo maioritariamente culto, com um nível escolar muito bom. Aliás, a Universidade de Caracas é uma referência. Hoje acaba por ter pouco impacto, enfim, pela crise que o país atravessa. O povo é obrigado a cometer crimes para poder ter algo para oferecer à família, porque de outra forma não iria cometer crimes. Basta ver a quantidade de imigrantes, alguns deles também luso-descendentes, que vêm para Portugal. Estavam sempre de mão estendida porque têm de estar de mão estendida. Ponto final. As histórias da Venezuela são muitas, sobretudo se não andarmos num carro, com vidros duplos e se quem vai ao nosso lado não tem uma malinha à frente do peito com uma pistola lá dentro, arrisca-se a poder ser baleado e não ter como se defender. Na porta de qualquer restaurante, são muitas as placas a proibir a entrada de armas, pedem para as deixarmos na porta do restaurante. Às cinco e tal da tarde os hotéis em tempo de covid trancavam as portas, pela insegurança. Um país lindo, fabuloso, com praias deslumbrantes. Até a ditadura entrar ali de forma muito, muito agressiva. E a melhor história é que construíram o centro de treinos na ilha Margarita. Não faz muito sentido, pois não? [Risos] É como se se construísse aqui o centro de treinos no Funchal ou em São Miguel, para poderem usufruir de outras coisas. Não os jogadores ou treinadores, mas a estrutura toda, porque assim estão fora de Caracas. Para jogadores que chegam da Europa ou da Ásia para uma data FIFA, têm que aterrar em Caracas, voltar a entrar no avião para ir mais uma hora para Margarita. Não tem muito fundamento. Mas é um centro de treinos muito bom, fantástico, numa zona que é muito ventosa, com hotéis espetaculares. Estamos a falar de hotéis de 5 estrelas, lindíssimos, mas o cheiro é horrível, porque os hotéis não são abertos, porque não tem ninguém. Se há 25 anos ou há 20 anos aterravam por dia 10 aviões na Margarita, agora aterra um avião por semana. Tudo isto tem um impacto enorme na economia. Depois teria de falar de política e não falo de política. A nível de jogadores, muito diferentes do africano, por exemplo? A escola sul-americana é muito forte. E sobretudo, tudo o que é referência da Argentina, ou do Uruguai, são muito válidas. Não é por acaso que os treinadores argentinos têm um impacto enorme em toda a América do Sul. A melhor escola de treinadores na América do Sul é a Argentina. Os treinadores são mesmo bons, com uma ambição extraordinária. Conjuga-se tudo. Os uruguaios também. E os venezuelanos acabam por beber muito daquilo que são os argentinos e os uruguaios. Nesse aspeto, relacionam-se bem com o entendimento do jogo, é uma vantagem imensa. Agora, em menor número, porque o basquetebol é muito forte na Venezuela, assim como o futebol americano. Mas os jogadores são bons, sem dúvida alguma. São resilientes. Quanto maior é a dificuldade no dia a dia, mais eles se tornam resilientes, sofredores, capazes de superar. É o normal. Também connosco aqui é assim. Nuno Batista, Vítor Peseiro, Nuno, Peseiro e Daniel Correia, na Venezuela D.R. Da Venezuela, em termos desportivos, ficou algum espinho atravessado? Ficou a impossibilidade de darmos continuidade a uma coisa que gostávamos muito, mas era impossível, por uma razão: quando saímos, no pós-Copa América, tínhamos 14 meses de salário em atraso. Daí eu ter continuado, quando estava cá, a ir ao Canal 11. Já recuperaram esse dinheiro? Felizmente, e essa é uma vantagem de quem trabalha em contas de seleção, é que quando se rescinde o contrato com justa causa, a FIFA resolve-nos o problema também de forma mais célere. Lembrei-me de uma história gira. Força. Estávamos já com sete ou oito meses em atraso e fomos num jato particular da República Dominicana para Caracas, para aterrar não no aeroporto internacional, mas no aeroporto que é mesmo no centro de Caracas, onde tudo o que é correio de droga passa. Confesso, aí tive medo, porque pensei: para eles é indiferente que o piloto morra e com tanto dinheiro que têm de dívida para connosco, se o avião também for à vida não deve haver stress nenhum para eles [risos]. Era de noite ainda por cima, mas fomos e correu tudo bem, felizmente. O que mais ficou marcado dos anos que passou com José Peseiro? O que bebeu dele? O Zé Peseiro é um amigo para a vida. Um amigo com quem me dá um prazer imenso discutir sobre futebol. Confesso que brinco muito com a columbófilia dele, digo que ele dá muito milho aos pombos para que possam ganhar, e ele zanga-se muito comigo, diz que não tenho respeito pelos pombos dele [risos]. Ele é alguém que me liga e diz: "Viste aquilo? E agora? Não jogaram nada, tínhamos de jogar bem" e farto-me de rir. E depois foi uma aprendizagem imensa. Que eu chegue aos 65 anos com a energia, a vontade de planear, de organizar, de treinar, de se dedicar à tarefa que o Zé Peseiro tem. Qual acha ser a mais-valia dele enquanto treinador? A capacidade de trabalho é a referência maior. Capacidade de análise, agora, muito melhor, daí ter dito que hoje, para mim, é mais treinador do que era quando o conheci. E depois, o envolvimento de toda a comunidade em prol do objetivo. Quando digo toda a comunidade, não estou a falar dos jogadores, estou a falar do departamento médico, do departamento de comunicação. Acho isso extraordinário porque coloca todos no mesmo patamar. É uma pessoa que consegue ter essa humildade para congregar. É muito intenso, o que por vezes pode não ser um fator positivo. Em seleção é extremamente positivo. Daí o grande trabalho que fez na Venezuela e depois o grande trabalho que fez na Nigéria. Ele consegue estar 15 dias, três semanas a decifrar tudo, a massacrar os jogadores com tudo, sabendo de antemão que após as três semanas os jogadores estão libertos dele. Os jogadores gostam muito de trabalhar com ele, senti isso na Venezuela, pelo feedback que me é dado, na Nigéria foi precisamente o mesmo. Não continuou com ele porquê? Teve a ver com o facto de ter ficado com covid-19 e em coma? Sim. Eu fui para a Copa América com dois meses de recuperação da covid-19. O médico, na altura, chamou-me alucinado. A data FIFA anterior à Copa América era uma ida à Bolívia e um jogo em casa com o Uruguai. Jogo esse em que o Coates me deixou a sua camisola, na Venezuela, eu não estava presente, e fiquei muito grato. Para ir à Bolívia o médico disse-me: "Nem pensar em ir para 3.600 metros de altitude, a não ser que queira lá ficar e encomenda-se já uma campa". E não fui, claro. Ficou combinado que eu iria ter a Brasília. Jogávamos primeiro em Brasília com o Brasil, depois íamos para a Goiânia jogar com a Colômbia. E de Brasília a Goiânia de autocarro são duas horas e tal. Não fiz voo. Fui de autocarro com outra parte da equipa, porque depois tínhamos os que tinham covid-19, os que não tinham Covid-19, os que podiam ter covid-19, enfim. Fiz essa viagem de autocarro, depois viajamos para o Rio, de avião. Do Rio voltamos a Brasília também de avião e, confesso, custou-me um bocadinho na altura porque estava muito frágil mesmo. Mas afinal quando apanhou covid-19? Ainda na Venezuela. O primeiro a ser detetado com covid-19 foi o Nuno Batista, que está agora na equipa técnica do Luís Castro, que veio muito mal para Portugal, e nós percebemos todos que o mais provável era estarmos também positivos e resolvemos vir embora. Porque lá não tínhamos hipótese, era mau demais, as pessoas morriam. Isto foi em 2021, em Portugal as coisas estavam mais tranquilas. Quando viemos, no imediato fui para São Martinho do Porto, tenho lá casa, a minha mulher e os meus filhos ficaram no Cartaxo. O Zé Peseiro detetou logo que tinha covid-19, passou ali um bocadinho mal, todos os outros tinham, e eu piorei, não sei porquê, de dia para dia. A determinada altura o oxímetro marcava 86/87, sentia dificuldade em respirar. E perde-se a noção, sobretudo, porque não há oxigenação do cérebro. Começamos a perder a lucidez. Não temos dor. A minha mulher foi ter comigo, fomos ao hospital, a Caldas. Estive lá uma tarde inteira, melhorei um pouco e mandaram-me para casa. Mas eu disse à minha mulher que queria ir para o Cartaxo. Enfim, intuição. No dia seguinte, só disse: leva-me já para o hospital. Não tenho condições. O que sentia? Não é o que sentia, é o que não sentia. Já não sentia absolutamente nada. Não tinha referência nenhuma. Estava completamente sem força. Eu acho que respirava, mas já nem percebia que estava a respirar. A minha mulher ligou para o 112, disseram-lhe: coloque já o seu marido no carro, abra os vidros atrás e venha de imediato para o hospital, para a ala covid. Foi a minha sorte. Fui visto logo por uma médica nossa amiga, que estava no hospital de Santarém, e colocaram-me em coma. Não havia solução. Depois fui para Abrantes e passei a ser abrantino também. Fiquei cerca de nove dias em coma. No terceiro dia, disseram praticamente à minha mulher que não havia nada a fazer, era uma questão de tempo. O técnico com a mulher e a filha mais nova, Carlota D.R. Deve ter sido muito duro para a sua mulher e filhos… A minha mulher estava noutro mundo já. O meu filho Henrique foi fabuloso. Assumiu as tarefas todas caseiras. E a minha filha mais velha, a minha filha mais nova. E o meu filho Afonso, sempre com o rigor dele, a não querer dar o lado fraco, mas tinha que dar. Nove dias depois acordei. E felizmente correu tudo bem. Qual foi a primeira imagem que teve quando abriu os olhos e o que pensou? A primeira imagem é de desconhecimento total sobre o mundo. Percebi que estava deitado numa cama, vi uma algália… Para quem sempre achou que foi muito saudável e que fazia tudo… O que é isto? Entretanto, nessa ala, não estava só. Estavam três pessoas, um senhor de idade em coma, a senhora que estava ao meu lado já tinha saído de coma, e passou felizmente para outro bloco e recuperou. Comecei a ter fisioterapeuta, a ter enfermeira. A primeira vez, não fazia ideia e quando tentei levantar-me caí na cama. Quando dei os primeiros cinco passos, parecia que tinha feito uma maratona. Em nove dias os grupos musculares ficam reduzidos a nada. Perdi 15 ou 16 quilos, fiquei em modo esqueleto. Mas felizmente comecei a recuperar. O que vem à mente após uma situação dessas? A partir dali acho que tive capacidade de superação, porque me lembrei muito do que passei por não ter tido pai. Disse à médica, talvez a 7 ou 8 de abril: no dia 25 de abril vou estar nos anos da minha filha Carlota. "Você é maluco"; "vou, pode ter a certeza". Porque os outros são mais velhos, estavam criados. E quando falo da Carlota… é uma "guerra" para mim [emociona-se]. Acho que foi a minha fonte de inspiração para eu passar tudo aquilo. É a caçula da família e eu já estou um pouco em modo avô com ela. Temos uma relação fantástica e eu fazia tudo a pensar nela. Vou conseguir, vou conseguir. Os enfermeiros já não me aturavam, porque eu só queria andar no corredor, e eles estavam com aqueles fatos, e se cruzassem comigo tinham de trocar os fatos. Só me pediam: "Professor, não venha para aqui."; "Não, não. Quero andar, quero andar". Terminava "morto". Mas consegui recuperar muito bem. Mas também tenho histórias engraçadas desse período. Vamos ouvir. Um maluco de um enfermeiro de Torres Novas, que faz triatlo, perguntava-me: "Então, professor, você gosta de música, o que quer ouvir?". Estava só eu e o senhor ainda em coma. Gosto muito de Pink Floyd. Pode passar o Comfortably Numb 40 vezes que nunca me canso. E gosto muito de música brasileira, dos Caetanos, das Bethânias. E ele foi fantástico. Pôs aquilo todos os dias, e não é que o senhor acordou do coma? Isto pode parecer ridículo, mas o poder da música é fascinante. Chegou a ir aos anos da filha Carlota? Fui. A doutora disse-me que se o resultado de um determinado teste fosse o pretendido, deixava-me ir aos anos da minha filha. Veio um enfermeiro, coitado, tive tanta pena dele. Ele põe a agulha e não detetava veia. Começou a tremer e disse: Não posso fazer o teste"; "Não. Você vai fazer-me o teste"; "Mas eu não encontro veia"; "Encontre, se faz favor"; "Epá, mas eu não posso agredi-lo desta forma"; "Agredida à vontade, onde quiser". O meu braço estava completamente preto de tantos dias a levar com medicação e a fazer testes. Ele não fez o teste nesse dia, veio a médica no dia seguinte fazer o teste. E deixaram-me ir aos anos da minha filha. Depois recuperei em casa. Fiz um trabalho fabuloso nos dois meses até ir para a Copa América. Comecei a fazer a ativação de todos os grupos musculares, também pelo conhecimento que tenho, não facilitei. Nuno Presume faz comentários de futebol para o Canal 11 sempre que pode D.R. Veio embora da Venezuela no final de 2021. A seguir não foi com o José Peseiro para a Nigéria porquê? Por opção. Falei com ele, disse que não tinha muito fundamento sair da Venezuela, estar no estado em que eu estava, sem saber o que me podia acontecer, e ir para um país que podia não oferecer as condições de saúde e higiene necessárias para eu estar bem. E porque, por outro lado, queria estar junto da família. Apareceu no imediato convites para ir com o Renato Paiva para o México e também lhe disse que não. Tinha a tal estabilidade do Canal 11, para fazer uma coisa que também gosto muito que é comentar e falar sobre futebol. E no final de 2022, surgiu a hipótese, novamente pelo Renato Paiva, de ir para o Bahia. Tive sorte nos contextos em que estive, com as coisas boas, menos boas, mas a paixão pelo Brasil passou a ser uma evidência. Então considera que correu bem essa experiência no Bahia? Foi muito boa, foi muito boa em todos os aspetos, porque o Grupo City entra no clube quando vamos para lá e tem uma intenção clara de profissionalizar aquilo ao mais alto nível. No Brasil, se um treinador estiver três meses já fez um bom trabalho, mas o Bahia possibilita que possa estar anos. Eles davam-nos essa tranquilidade, infelizmente o Renato Paiva decidiu que não queria continuar. A pressão, é verdade, era alguma, mas aquilo que a SAF (SAD em Portugal) nos exigia era apenas a manutenção, coisa que achávamos ia ser alcançada. Em grupos como o Grupo City ou do Red Bull Bragantino, que também tem essa perspetiva, e o Palmeiras, não permitem que haja influências externas, independentemente do que os loucos dos adeptos possam pensar ou fazer. Foi no Bahia que o Renato do Paiva teve bate-boca com os jornalistas, certo? Teve. Mas uma coisa é ver o Renato Gaúcho a ter um bate-boca com o jornalista ou o Abel, depois de conquistar o que já conquistou, no caso concreto connosco as coisas eram um pouco diferentes. Essa gestão foi feita da forma que o Renato entendeu que deveria fazer… Não concordou com a atitude dele? Acho que o Renato pode crescer muito como treinador. Ele trabalha muito bem dentro de campo. Pensa bem o treino. E acho que a aprendizagem no Bahia foi muito importante para o Renato, para não voltar a cometer os mesmos erros. A época agora também não foi muito positiva, quer ao serviço do Botafogo, quer ao serviço do Fortaleza, mas pelo menos não foi ele a promover a rescisão, foi o clube a concretizá-la. No Bahia foi ele quem quis sair? Sim, foi ele que quis vir embora, com uma agravante, sem comunicar ou sem pelo menos tentar sentir o que os adjuntos pensavam. E isso promoveu uma rutura entre nós. Ele segue o percurso dele, eu sigo o meu. Mas tinha tudo para ainda hoje estar no Bahia, tal como está o Rogério Céni, independentemente dos resultados. Em 2023, Presume foi adjunto do Bahia. Na foto com o jogador Cauly D.R. O jogador brasileiro é muito diferente do africano e do venezuelano? Tivemos a felicidade dos jogadores perceberem o investimento do Grupo City. Isso tornou-os, no imediato, mais responsáveis, percebendo que o clube era muito apelativo. Aliás, é evidente, o Everton Ribeiro saiu do Flamengo para ir para o Bahia e é referência. E quando há essa liderança, quando há um conjunto de orientações que eles sabem que têm de cumprir, mas também sabem que são muito valorizados por aquilo, eles dão tudo. A partir do segundo mês e meio, quando perceberam que iríamos passar a ter os aviões fretados, que iríamos passar a ter bons prémios de jogo, iríamos ter um departamento de performance ao melhor nível, quando viram realmente que o clube se iria reestruturar e ter uma dimensão muito boa, eles perceberam, vamos ficar aqui porque temos que aproveitar isto. Nem todos os clubes brasileiros dão-nos esta estabilidade. As pessoas do Bahia trabalharam muito, aquelas que estavam em ligação com o Grupo City, nos vários departamentos, e fizeram crescer o clube. Hoje é quinto e sexto classificado, já foi apurado no ano passado para a Libertadores. Este ano tudo leva a crer que volta a ser apurado para a Libertadores. Mas é um contexto completamente diferente do português, a carga de jogos é imensa, é um país enorme, as distâncias são grandes... Para que se perceba, o nosso dérbi era com o Fortaleza, que ficava a uma hora de avião, no nordeste. Ou seja, joga-se o dérbi a uma distância de uma hora de avião, não é do outro lado da segunda circular. Ir para Porto Alegre falamos de três horas e meia a quatro, se vamos para Manaus estamos a falar de quatro horas e meia, se vamos para o Rio falamos de hora e meia, para São Paulo duas horas, tudo avião, nada de autocarro. Não tivemos no Brasileirão uma única viagem de autocarro, foi tudo de avião. E há jogos ao domingo, à quarta e ao domingo. Quando começamos o campeonato tínhamos 28 jogos oficiais feitos. Baianão e Copa Nordeste. Ou seja, tínhamos praticamente um campeonato português em cima das pernas, em quatro meses. Isso obriga-nos a ter uma perspetiva de planeamento completamente diferente, ter um plantel amplo, algo que um treinador não gosta muito, mas ali é obrigado a ter. Temos de perspetivar vários onze sob pena do jogador entrar em fadiga. Felizmente tínhamos um departamento de performance que analisava logo os níveis de fadiga, e mesmo assim tivemos muitas lesões, é normal, ali toda a gente tem muitas lesões. Mas é muito aliciante, não há tempo para pensar. Teve pena de deixar o Brasil? Tive muita pena de deixar o Brasil. Estive há um mês no Rio, porque o meu filho Afonso está lá a estudar Direito, e fui logo ao Ninho do Urubu, passei lá à tarde, estive com o Bahia no hotel, porque iam jogar ao Botafogo, e foi uma festa muito grande, adorei. E fui ao Maracanã ver o Flamengo-Cruzeiro, estava cheio, fui ver o Leonardo Jardim, e foi fantástico. E é um país do agrado do mundo inteiro. Toda a gente vive com um espírito positivo extraordinário, o samba existe em cada esquina, mesmo para aqueles que vivem menos bem, a alegria está sempre presente. Nuno Presume festeja com jogadores do Bahia a vitória obre o Palmeiras, no último minuto, em jogo do Brasileirão D.R. Entretanto, acabou por ir para o Zamalek SC, do Egito, novamente com José Peseiro. Porquê? Quando venho para Portugal em setembro/outubro de 2023, pensei no que queria fazer. Regressei, mais uma vez, ao Canal 11, às atividades normais que tinha sempre. E em 2024, só o vou dizer porque é público, o Gonçalo Santos, na altura treinador do Casa Pia, não tinha o Nível 4, o UEFA Pro, e chateou-me muito para ir com ele. Disse-lhe: "Estou a dar cursos e contesto sempre aqueles que vão por terem o UEFA Pro, como é que eu me vou expor agora num banco só por ter o UEFA Pro?" Ele é uma pessoa fantástica, insistiu, disse que não me queria só por ter o UEFA Pro, que aproveitava o facto de eu ter sim, mas que ia para ajudá-lo. Mas não consegui dar esse passo. Era um passo até muito tranquilo. Tive um convite da Académica para a Liga 3 e não fui. E tive dois convites para o estrangeiro, que não vou dizer que foram bons, foram excecionais. De onde? Da Coreia do Sul e da Arábia Saudita. Dois convites, um para o futebol juvenil na Arábia Saudita, um para o futebol sénior na Coreia do Sul. Pensei, pensei, pensei e a família voltou a estar à frente do resto, porque a minha filha ia casar, eu fui avô, e depois do que me aconteceu não queria perder esses momentos. E os convites foram num espaço de 15 dias, entre esse momento do casamento e do batizado do meu neto. Por dinheiro nenhum eu ia perder aqueles momentos. E não fui. Mas, entretanto, uns meses antes, o Zé Peseiro perguntou-me se eu queria voltar a trabalhar com ele. "Sabes que contigo não vou dizer que não" E assim foi. Disse não a esses projetos e esperei por ele, mas infelizmente, o mercado por vezes não tem muito critério. Ele rejeitou logo a seguir à CAN um projeto muito bom, que provavelmente hoje não o rejeitaria. E depois surgiu o Zamalek. É o segundo ou terceiro maior clube da África. E que tal? Posso dizer que a nível de condições estava pior do que o meu 1.º de Agosto, em 2013/14. Neste momento pensam em mudar o nome do clube, a crise é acentuada. Foi pena porque nós em 17 jogos perdemos um, levamos a equipa à final da Taça do Egito, reentrámos na luta pelo campeonato, o trabalho estava a ser muito bem desenvolvido, mas já íamos em três meses e meio sem saber o que era um vencimento. Acabámos por vir embora porque estavam a entrar muitos processos na FIFA de dinheiros em atraso, inclusive alguns treinadores portugueses, que iam receber cinco ou seis anos depois aquele valor. Ou seja, para eles estarem a receber de há cinco ou seis anos, nós, se temos ficado para acionar o contrato por mais um ano, eles não nos pagavam o que estava em dívida e iríamos receber daqui a sete ou oito anos. Como é o jogador egípcio? Ao contrário de grande parte do norte de África, o jogador egípcio é o que menos galga para outros países, sobretudo para os países europeus, porque tem uma cultura muito peculiar, tem características muito peculiares. Não é habituado a ser um bom profissional, e isso cria dificuldade. Não é habituado a cumprir horário em todos os clubes. As condições de trabalho são precárias, e prefere estar naquele meio porque em muitos clubes até se recebe bem e não arrisca a ida para fora. O Salah e mais um ou outro são uma exceção. Em 2024/25, Presume esteve com José Peseiro no Zamalek SC, do Egito D.R. Depois dessa aventura veio parar ao Amora FC, que está na Liga 3. Aceitou logo? Não. Pensei durante dia e meio, até porque tinha questões de fundo para resolver. A equipa técnica era uma questão para resolver. A conversa com o José Peseiro era outra questão para resolver. A conversa com o José Peseiro porquê? Porque vim do Egito com o José Peseiro, era até o momento o meu líder e obviamente não ia assumir um projeto sem falar com ele. É uma questão de respeito para com ele. Disse-lhe: "Vou arriscar, vou à luta." Ele deu abertura e aceitei este desafio. E que tipo de desafio é este? É difícil, mas é ambicioso e é aliciante. Conheço a Liga 3 do Canal 11, porque fazia muitos jogos, conheço a maioria dos jogadores. O campeonato é muito competitivo, se analisarmos a quantidade de treinadores que têm trepado da Liga 3 para a II Liga, inclusive para a I Liga, tem sido uma evidência. Por outro lado, estar no ativo é um argumento maior. Eu diria até, é o critério maior. Porque se fizermos uma análise do critério para deteção e seleção de treinadores, vamos perceber que não há aqui uma grande estruturação dos itens que fazem promover treinadores. E depois, porque eu acho que a equipa tem potencial para sair da situação em que está, que é periclitante, sem dúvida alguma. Mas pode fazer melhor se estivermos todos a caminhar no mesmo sentido. Há muita gente lesionada ainda, mas se o grupo estiver todo apto, é um grupo com potencial. Como são as condições de trabalho? Em vários departamentos há a intenção de melhorar muito, os relevados são bons, dá para desenvolver o que pretendemos. Mas quais foram as principais lacunas que encontrou e tentou alterar? Volto à velha história, do clube ter de ser gerido de dentro para fora. Ou seja, os canais de comunicação deverão ser em número mínimo. A estrutura hierárquica, se num clube de I Liga, quando funciona, tem dois ou três elementos importantes, nestes clubes pode ter só um ou dois, não é preciso ter mais. Esse é um aspeto para mim determinante para este clube ter sucesso. Depois, o reforço material e humano dos vários departamentos. Como, por exemplo? O departamento de Performance é inexistente. É preciso criar condições, porque há aqui um investidor. Ora, se há um investidor, ele quer rentabilizar os seus ativos. Para rentabilizar os seus ativos, não pode ter jogadores parados por lesão quatro ou cinco meses, porque isso não é rentabilizar, é castrar o ativo no imediato. Ponto final. Esse é um aspeto. Depois, departamento de Análise. Não há. É fundamental criar, por uma razão simples. O Amora quer ter ativos para poder vender e fazer dinheiro, então tem que ir buscar jogadores a custo inferior para poder ganhar dinheiro com esses jogadores. Tem que detetar talento para o fazer crescer e poder vender. Sobretudo estes dois departamentos são fulcrais. Já estão a funcionar? Estão a começar a funcionar. Com todo o respeito, também por quem saiu, já estavam a funcionar. Eles têm essa perceção clara de que é preciso. Depois as questões de materiais, relativamente ao treino, o material não é o perfeito, mas é o suficiente neste momento. Nuno Presume com a equipa técnica do Flamengo D.R. Que objetivos lhe traçaram ou que se impôs a si próprio? O objetivo que traço a mim é poder construir algo que faça com que quem aqui está, tenha confiança total em mim, e acredite que é possível elevar os níveis deste clube. E depois, obviamente, a médio prazo, poder ter um enquadramento que me seja amplamente favorável para chegar onde desejo chegar. E onde deseja chegar? Gostaria muito de chegar à I Liga, como é óbvio. É algo que me confunde um pouco, como é que a quantidade de vivências que vamos tendo ao longo da vida, a partir de determinada idade, passam a ser vistas pelos outros, não como um fator de aporte ou de experiência, e são vistas como um fator regressivo quase. Ou seja, já foi. Quando acho que nós estamos na plenitude das nossas capacidades para demonstrar todo o nosso conhecimento e pôr os outros a aprender. O seu modelo de jogo foi-se alterando ao longo dos anos? Nós temos sempre referências relativamente ao nosso jogo. Exemplo: quando eu vejo um Mourinho em 2002/03, no FC Porto, a trazer a agressividade, a impor a agressividade no momento da perda da bola, nos momentos de transição, todos eles direcionados para a baliza adversária, a ter jogadores de referência como Costinha, Deco ou Maniche, que são jogadores que para mim representam o que é o triângulo perfeito num meio-campo... Passamos a ter essas referências durante anos. Dir-me-ão, mas não gostas do tiki-taka? Gosto. Gosto de um jogo, confesso, um pouco mais vertiginoso. Provavelmente o Klopp quando aparece em grande, eu olho para o jogo dele e vejo muito andamento naquilo e eu gosto de ter andamento naquilo. Acho que a minha essência está um pouco aí, no passe, e obrigatoriamente ter de progredir para criar desequilíbrio e não no passe para suster ou para dar segurança a quem tem a bola a seguir. Acho que o risco compensa um pouco. E gosto desse jogo atrevido. Perante o que disse, o Mourinho continua a ser a referência máxima? Sim. Porque ele não perdeu os princípios, sobretudo os princípios defensivos. Mas agarrou-se demasiado a esses, não? Talvez. Acho que a geração de treinadores, mesmo esta nova geração de treinadores, devia perceber que hoje só tem algum impacto no futebol atual, porque alguém trabalhou para que eles pudessem ser vistos com tenra idade, como alguém que pode chegar rapidamente a uma I Liga. E isso deve-se ao Mourinho, na quase totalidade. Mas tenho algumas referências no futebol português, muito rapidamente, se olharmos para a década de 80, o professor Jesualdo Ferreira construiu, elaborou, planeou e decidiu como treinar em Portugal, com Carlos Queiroz e Nelo Vingada, ponto. Até aí o treino era completamente fracionado e descontextualizado. Essas três referências devem ser vistas como determinantes para a evolução do futebol em Portugal, para a organização do treino e do jogo. Depois aparece o Mourinho, e por tudo o que conquistou, o que representou para o treinador português, pela importância também na transformação do treino, na transformação da análise do jogo, na transformação de uma série de fatores que levaram o futebol português e catapultaram para outro nível, será sempre a referência maior. O técnico com a filha mais nova, Calota, que joga futebol no Sporting D.R. Depois do Mourinho, há um vazio? Obviamente não referenciar o Guardiola, não me ficaria nada bem. Porque até muito dos títulos da seleção espanhola foram baseados numa ideia muito bem sustentada que foi o tiki-taka. Não me referia a treinadores estrangeiros, mas a portugueses. Não era fácil alguém voltar a ter o impacto do Mourinho. Por muito que queiramos e por muito que consigamos dizer que a escola portuguesa é excecional, nós não temos uma escola com uma vertente muito direcionada para um modelo de jogo. Cada treinador que temos e que estão aí nos campeonatos e a ter bons desempenhos, não podemos dizer que todos eles olham para o jogo da mesma forma. Olhamos para a Espanha, para a quase totalidade dos jogadores espanhóis e sentimos que há princípios que estão vinculados a uma ideia. Em Portugal, esses princípios diferem de treinador para treinador. Os princípios do Abel até poderão ter alguma semelhança com os do Leonardo Jardim, no rigor que colocam nas suas ações defensivas, mas olhamos para outros treinadores como o Paulo Fonseca, tem uma ideia completamente diferente. Olhamos para o Zé Peseiro e quando olha para o jogo, olha primeiro para o lado ofensivo e depois vai buscar o lado defensivo. O Ruben Amorim faz um trabalho fantástico no Sporting, gostávamos muito que ele pudesse fazer no Manchester United, mas não sabemos se o vai fazer. Porque está muito focado apenas num modelo de jogo? Porque acredita que consegue vencer com algumas ideias semelhantes às que tinha no Sporting. Não sei se é só por aí. É um treinador que eu muito aprecio, a dificuldade em treinar o United é imensa. Não há milagres. Nós pensamos que é só chegar dentro das quatro linhas, pôr a rolar e sai tudo bem; se o enquadramento não for favorável, está tudo mal, por muito bem que se treine lá dentro. É essa a sensação que eu tenho. E todos nós gostaríamos de ter outra referência como o Mourinho. Temos? Não temos. E não perdemos o Mourinho vencedor assim há tanto tempo. Porque chegar a duas finais em dois anos consecutivos com a Roma parece coisa fácil, mas não temos um treinador português na Europa que o tenha feito. Temos o Abel, obviamente, na Libertadores, na Ásia também o conseguimos fazer, mas na Europa não temos. Ele foi o último a ganhar a sério pelo Manchester United. Como chegou uma final com o Tottenham, que era coisa que o Tottenham também já não conhecia há muito tempo, e é despedido uma semana antes dessa final. Nuno Presume é treinador do Amora FC desde outubro 2025 Nuno Botelho Onde ganhou mais dinheiro em toda a carreira? Na seleção da Venezuelana. Investiu o dinheiro que ganhou? Sim, na educação dos filhos, imobiliário e aplicação financeira. Tem algum hóbi? Corrida, padel, concertos, viajar. É um homem de fé? Sim. Praticante quanto baste. Superstições? As normais: na entrada em campo não pisar linhas, entrar com pé direito, colocar algumas peças nas mesmas posições. Acompanha e/ou pratica outra modalidade além de futebol? Acompanho todas. Qual a maior frustração que tem na carreira? Enquanto treinador adjunto não termos ficado no Vitória de Guimarães para a época seguinte. Perder duas subidas de divisão (uma por um golo e outra por um ponto) enquanto treinador principal. E o maior arrependimento? Não ter ficado na estrutura do Bahia após convite para integrar o grupo City. Qual o momento mais feliz da carreira? Ter sido convidado a renovar ou regressar por 90% dos clubes que representei e ter no CV uma Copa América e ter sido assistente no Bahia na Serie A do Brasil. Nuno Presume com a mulher, os filhos, genro, nora e neto D.R. Qual o objetivo que ficou por cumprir na carreira? Muitos. Irei cumprir o regresso ao Brasil para disputar Serie A e irei treinar I Liga em Portugal. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que gostava de treinar? Tendo já treinado como adjunto o Sporting, adoraria treinar Benfica e Porto em Portugal. Tem ou teve alguma alcunha? “Ucraniano”. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Seria injusto destacar quem ainda está entre nós. Dos que infelizmente faleceram: Miguel Cunha (Riachense) e Rui Cunha (1.º Dezembro) Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Tal como nas outras modalidades coletivas, as substituições seriam feitas sem “paragens”. O que pensa do VAR? Elemento imprescindível na redução do erro e promotor da verdade desportiva. Tem algum talento escondido? Não. Que talento gostaria de ter? Adoraria ser um Gilmour ou Jimmy Page desta vida. Se não tivesse sido jogador/treinador de futebol, o que teria sido? Estaria com toda a certeza na área da comunicação. Qual seria a felicidade maior para os próximos 30 anos? Realização pessoal, familiar e profissional de cada um dos meus quatro filhos, comigo e a minha mulher a assistir. 2 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 23 Novembro 2025 Iuri Tavares Spoiler “Vivi anos difíceis. O meu irmão foi preso, a minha mãe estava grávida e desempregada. No Benfica não sabiam, eu guardava tudo para mim” Iuri Tavares, 24 anos, joga na Croácia, mas confessa que ainda sonha com o Benfica, o clube do coração, que o tirou do bairro e, diz ele, o ensinou a ser homem, mostrando que a vida é feita de regras e objetivos. Forçado a ser o ganha-pão da família, revela pormenores duros da sua adolescência, explica como os problemas influenciaram o seu rendimento no Benfica de onde acabou por sair para jogar no Vitória de Guimarães e depois no Estoril Praia, antes de se aventurar pelo estrangeiro Nasceu em Lisboa. É filho e irmão de quem? A minha mãe teve vários trabalhos, sobretudo como cozinheira e atualmente vive nos EUA. Tenho cinco irmãos. A Joana, o Rúben, o Henrique e a Vitória, da parte da mãe, mas só a Joana é que é filha do meu pai também. Depois tenho a Érica, a minha irmã mais velha, da parte do pai. Eu estou no meio. Quando nasci o meu pai já não trabalhava há muitos anos porque teve um acidente de mota quando eu tinha 2 anos, e ficou com partes do corpo que não funcionam. Não está paraplégico, graças a Deus, mas partes do corpo que não funcionam a 100%. Cresceu onde? Cresci no Bairro dos Navegadores, em Talaíde, Oeiras. Qual é a primeira memória de infância que tem? O que me vem logo à cabeça são os meus amigos, porque cresci a fazer tudo e mais alguma coisa com eles e com a minha família. Passava mais horas fora de casa do que propriamente em casa. O que dizia querer ser quando fosse grande? Sempre foi jogador de futebol. Com 3/4 anos já saía de casa para ir jogar à bola. O futebol estava enraizado na família, porque o meu pai jogou, mas não levou a sério, não quis. Tive um tio, o Zé António Borges Tavares, que foi jogador profissional, jogou nas camadas jovens do Boavista e com o Nuno Gomes. Chegou a representar a seleção nas camadas jovens. Também tenho um primo, o Sandro Borges, que jogou no Boavista, mas entretanto, perdeu a perna num acidente. Iuri com 10 anos, de mãos na cintura, acabado de chegar ao Benfica D.R. Quem eram os seus ídolos? Tinha vários, admirava muito o Cristiano Ronaldo, que jogava no Manchester na altura, gostava do Quaresma, do Nani, principalmente de jogadores portugueses. Em casa torcia-se por qual clube? Benfica, sempre. Todos da minha família são do Benfica. Gostava da escola? Sim, sempre gostei. Sobretudo por causa dos meus amigos, das brincadeiras que fazíamos. Já estudar, só estudávamos porque éramos obrigados [risos]. Deu muitas dores de cabeça aos seus pais? Algumas. Por volta dos 14/15 anos, com o Mário Ferreira, que também jogou comigo no Benfica, fingíamos que íamos para a escola, mas não íamos. Ficámos o primeiro e um pouco do segundo período sem ir às aulas. Simulávamos tudo, até que um dia os professores começaram a estranhar tantas faltas e ligaram aos nossos pais. Quando cheguei a casa estava o meu pai sentado à minha espera. O meu pai não me bateu, ele nunca me bateu, mas a conversa que teve comigo, lembro-me dela até hoje. Desde aquela conversa, nunca mais faltei. Quais foram as palavras que ficaram mais marcadas? O meu pai é uma pessoa muito respeitada, só a presença dele já mete medo. Nós sempre respeitámos o meu pai, principalmente eu. O tom da conversa que ele teve comigo, eu preferia mil vezes que me tivesse batido naquele dia, do que ter falado comigo como falou. A maneira como falou e as palavras duras que me disse fez com que eu acordasse para a vida. Mas era mais a postura dele e a presença dele que metiam medo do que as próprias palavras. Basicamente ele disse que eu não ia voltar a faltar, porque se o fizesse ia conhecer o outro lado dele. Até hoje, felizmente, nunca conheci esse lado. Nunca mais ultrapassei a linha. Faltavam às aulas para ir fazer o quê? Jogar à bola, fazer outros desportos. Na altura jogávamos muito pingue-pongue numa associação em Oeiras, onde também podíamos jogar computador, PlayStation, andar de skate... Iuri com 16 anos e um troféu ganho pelo Benfica D.R. Quando começou a jogar futebol pela primeira vez num clube? Comecei a jogar federado com 8 anos, no Valejas. Era futsal. Fui para lá através de um amigo, ele e vários rapazes mais velhos do bairro jogavam lá. Falei com a minha mãe, ela concordou e fui. Mas não estive lá nem um ano. Fui chamado para o Benfica poucos meses depois. Como isso aconteceu? Num torneio de futsal estavam vários olheiros, entre eles um do Benfica que gostou de mim e entraram em contacto. Na altura havia um senhor no Bairro dos Navegadores, o senhor Manel, que tinha uma equipa de atletismo e era ele que, entre aspas, agenciava a malta do bairro quando havia interesses de clubes maiores como o Sporting e o Benfica. Esses clubes entravam em contacto com ele, porque todos frequentávamos a equipa de atletismo dele. Também havia equipas de xadrez e de outros desportos. Quando entravam em contacto, ele entrava em contacto com os nossos pais e fazia-se tudo em conjunto. O jovem extremo esteve 10 anos no Benfica D.R. Recorda-se de alguém do Benfica ir a casa falar com os seus pais? É uma história engraçada. Eu estava na escola e se os pais não dessem autorização para sair da escola não podíamos sair. Na altura esse senhor Manel foi à escola com um representante do Benfica buscar-me para ir treinar ao Benfica, mas a diretora disse que eu não podia sair enquanto a minha mãe não atendesse o telefone. A minha mãe não atendia, estava a trabalhar, mas a diretora da escola, como conhecia o Sr. Manel, e tinha uma boa relação com a minha mãe, lá me deixou sair com o Sr. Manuel, com o coração nas mãos com medo que acontecesse alguma coisa, porque a responsabilidade era dela. Fui ao treino e depois o motorista do Benfica levou-me a casa. Normalmente, quando se faz captações no Benfica demora-se quase duas semanas até ter uma resposta, só que aquilo correu tão bem que, no mesmo dia, eles quiseram fazer contrato comigo. Ficaram muito impressionados e disseram que eu não podia sair sem assinar. E a minha mãe sem saber de nada [risos]. O que aconteceu depois? Como ela reagiu? Quando entrei em casa com o senhor, a minha mãe ficou espantada. Entretanto, contámos a história, e a minha mãe, toda emocionada, nem sequer quis ouvir mais, só queria assinar o contrato porque o filho ia representar o Benfica [risos]. Ela ficou tão emocionada que nem sequer leu o contrato, tanto que no contrato perguntavam se eu precisava de transporte para me levar ao treino e ela nem viu. Na altura os meus pais não tinham condições para me levar ao treino. Só passado uma semana ou duas é que a minha mãe disse ao Benfica que se não me viessem buscar eu não podia ir mais aos treinos. Mas a determinada altura acabou mesmo por ir viver para a academia, no Seixal. Porquê? Os jogadores que vão para a academia normalmente são jogadores que vêm do Norte ou de outros locais do país, só que eles depositavam muita confiança em mim e sabiam que eu vivia num bairro problemático. É muito fácil um jovem distrair-se com várias tentações num bairro daqueles, porque num bairro não há regras, nós fazemos as nossas próprias regras. E acabava por ser muito mais difícil eles terem um controlo sobre mim, por isso, basicamente quiseram tirar-me do bairro. Iuri (à direita) a festejar um golo sob o olhar e a alegria de Sandro Cruz D.R. Sentiram que naquela altura, com 13 anos, já estava ser “desencaminhado” pelo bairro? Não, não estava a ser desencaminhado, mas eles conheciam a minha realidade, não gostavam muito do que ouviam falar. Sempre fui um rapaz respeitador e nunca dei problemas. Mas pelo facto de estar no ambiente onde estava, eles tinham medo e quiseram prevenir. Não foi remediar, foi prevenção porque diziam acreditar muito no meu talento. Quiseram que eu estivesse ao pé deles num local onde não me distraísse e onde podiam controlar melhor. Os seus pais não se opuseram? Não. Os meus pais ficaram muito contentes. E eu também. Ia deixar os amigos no bairro. Não lhe custou? Não pesou na minha decisão porque eu queria tanto ser jogador profissional que fazia tudo por isso. Fui para a academia porque já tinha essa mentalidade. Só pensava: tenho de ser jogador profissional e para isso tenho de fazer sacrifícios. Por isso não me custou, mas também porque estava perto de casa. Se vivesse no norte ou no sul, se calhar iria custar muito mais. A minha mãe ansiava por eu sair do bairro, era o que ela mais queria e sabia que só conseguiria ser jogador profissional se saísse do bairro. As mães têm sempre medo que os filhos se metam por outros caminhos. Aconteceu com algum dos seus irmãos? Algum deles meteu-se em problemas? Sim, o meu irmão mais velho teve a mesma oportunidade que eu, também era um craque, melhor que eu até, e acabou por seguir caminhos que não queríamos e que não lhe fizeram bem. Foi preso com 18 anos. Iuri com 17 anos a festejar um golo com Hugo Nunes, Jair Tavares e Tiago Gouveia D.R. Qual foi a situação mais difícil que viveu no bairro? Sinceramente, não passei por dificuldades, nunca me faltou nada, nunca me faltou de comer, de vestir, nunca me faltou nada mesmo, sempre que quis umas chuteiras a minha mãe dava-me; as dificuldades que passávamos era a realidade em si, dentro do bairro. Víamos tudo a acontecer. Aconteciam muitas coisas boas, mas também aconteciam muitas coisas más. Vi, por exemplo, os polícias várias vezes a entrarem no bairro e a disparar para tudo o que é sítio, vi pessoas quase a morrerem à minha frente, vi guerras gravíssimas no próprio bairro, onde houve tiros, facas, tudo e mais alguma coisa. Mas o mais complicado para mim foi o dia em que o meu irmão foi detido. Foi o dia mais difícil. Foi detido por que motivo? Por roubos, assaltos. Entretanto, graças a Deus, endireitou-se, hoje está bem, tem a família dele, tem uma filha. As coisas estão muito bem. Disse no início da entrevista que a sua mãe vive atualmente nos EUA. Quando e por que razão ela foi para lá? Ela foi em 2020 porque a família dela quase toda vive em Boston. Tem uma vida melhor, as condições e as oportunidades são bem melhores. O meu pai ficou em Portugal. O jovem extremo (à direita)foi emprestado ao Belenenses quando era júnior D.R. Como foram os primeiros tempos de vida na academia do Seixal? Os primeiros tempos até ao final foram maravilhosos. Foi das melhores experiências na minha vida e foi muito importante para mim. Fazíamos muitas malandrices. Encomendávamos pizzas, porque eles não nos deixavam comer esse tipo de comida; jogávamos no campo à noite, ao fim de semana íamos “assaltar” a cozinha, comíamos tudo e mais alguma coisa da comida para a equipa principal. Claro, no dia seguinte havia reunião no piso 1, quem foi, quem não foi, ninguém se acusava. Qual o castigo que sofriam? Uma semana sem luz. Ou seja, normalmente, a partir das 22h tínhamos de estar todos no quarto e às 23h as luzes desligavam. Mas naquela semana sem luz, não havia mesmo luz no nosso piso. Não podias fazer nada, não podias ligar a televisão, não podias estar muito tempo no telemóvel, porque ficava sem bateria e depois não tinhas como carregar. Era muito complicado. O João Monteiro era do meu quarto e passou muito mal comigo porque o meu quarto ficava sempre sem luz, de castigo [risos]. Ele era uma pessoa que estudava muito, era muito focado nos seus deveres, então entrávamos muito em guerra, ele ficava furioso por ficar sem luz à minha conta, tivemos muitos problemas por causa disso [risos]. Iuri em mais um momento de jogo pelo Benfica D.R. Jogou sempre como extremo? Como se definiu a sua posição em campo? Joguei em todas as posições do meio-campo para a frente. Joguei a 8, a 9, a 10, joguei a extremo esquerdo e a extremo direito. Onde se sente mais confortável? Na altura sentia-me muito confortável a extremo, mas quando comecei a jogar a 10 apaixonei-me pela posição. Hoje é a posição em que mais gosto de jogar. Sempre fui polivalente. Quando fui para o Vitória de Guimarães joguei muito mais a 9, a ponta de lança; quando fui para o Charlotte FC nos EUA é que comecei a jogar mais a 10. Quais são os momentos altos da sua passagem pelo Benfica? O ano em que ganhámos o campeonato em sub-17, com o mister Renato Paiva. Na verdade, tive vários momentos bons no Benfica, porque ganhávamos quase tudo, torneios fora também, mas o ano em que ganhámos o campeonato de sub-17, quando falavam que o FC Porto é que ia ser o campeão, que tinha melhor equipa que nós, foi especial. Espetámos 5-0 ao FC Porto no jogo do título. O FC Porto estava em 1º lugar, só precisava do empate. Mas ganhámos. Nesse jogo faço um golaço ao FC Porto. Quais foram os treinadores que mais o marcaram? Tive vários, vou ser injusto com alguns, tive muitos bons treinadores. Com os que gostei mais de trabalhar foram o mister Diogo Teixeira, Luís Nascimento e Renato Paiva. Recorda-se de alguma dura em particular? O ano em que levei mais duras foi o de sub-15, com o mister Luís Nascimento. Levei muitas duras. Porquê? O ano em si não me correu muito bem a nível profissional e a nível pessoal. Foi um ano muito difícil para mim. Coincidiu com problemas familiares que começaram quando o meu irmão foi preso. Aquele ano desestabilizou-me muito. Os meus pais já estavam separados, separaram-se quando eu tinha 6 anos, se não me engano. Não tive um ano bom, não me destaquei, não me valorizei. Aquelas coisas mexeram muito comigo. Só que na altura o pessoal do Benfica não sabia de nada porque eu não falava, guardava tudo para mim. Nunca souberam o porquê de eu não ter o rendimento esperado. Foram muitos problemas pessoais, muita pressão com que tive de lidar desde muito novo e fez com que não atingisse o máximo potencial. As duras que levou aconteceram por responder mal ou ser refilão? Nunca fui refilão, sempre fui uma pessoa respeitadora, que ouve. Foi mais pelos meus desempenhos e o mister Luís Nascimento é conhecido por ser um treinador muito rigoroso. Mas foi dos treinadores com quem mais gostei de trabalhar, porque era sincero com todos, tratava todos de igual, ninguém era especial, independentemente do nome que tivessem. Eu não tive o rendimento que deveria ter e por isso muitas das vezes levei duras. Não era só comigo, houve muitos que levaram duras. E a escola no meio disso? Desisti da escola nos sub-17 se não estou em erro, estava no 9º ano. Vim de uma realidade muito difícil, a prisão do irmão aos 18 anos levou a que as coisas começassem a descambar, a minha mãe estava desempregada, grávida da minha irmã Vitória e entrou em depressão. Com 14/15 anos, fui eu quem assumiu a responsabilidade toda dentro de casa. Não podia deixar faltar nada. A entrar em campo pelo Vitória D.R. Ganhava quanto no futebol? Tinha contrato de formação, ganhava €600/€650. Já ajudava muito em casa, tinha uma irmã mais nova, a minha mãe grávida, desempregada, tinha a minha avó, o meu irmão estava preso e eu não sabia o que iria acontecer com ele no futuro… Porque ele era um miúdo que tinha acabado de fazer 18 anos e estava preso com assassinos, violadores, etc., quando só tinha feito roubos. Foi tudo isto que me desestabilizou durante muitos anos, quando estava no Benfica. Tinha essa responsabilidade. Deixava o dinheiro todo em casa e ficava em último lugar. Pus-me muitas vezes em último lugar e acabei por sofrer consequências a nível profissional, porque não me destacava tanto como era suposto. Chegou uma altura em que comecei a jogar menos. Não estava bem física nem psicologicamente. Não desabafou com ninguém no Benfica? Comecei a desabafar, mas já foi mais tarde, com 17/18 anos, mas mesmo assim não falava muito. Todos os dias acordava com medo que acontecesse alguma coisa ao meu irmão na cadeia e a pensar no que a minha irmã e mãe precisavam, porque não podia deixar faltar nada. Houve momentos no Benfica em que fingia que ia para a escola, mas ia para casa para ver se estava tudo bem. Havia alturas na academia em que os meus colegas diziam “vamos ao outlet” ou “vamos ao Rio Sul”, vamos aqui, acolá e muitas vezes não ia, porque o dinheiro não chegava. Eu tirava uns €30 por mês para mim. Como se aguentava com tão pouco dinheiro? Tinha que me aguentar. Mas estando na academia sempre fui um miúdo feliz, nunca me faltou nada. Costumo dizer que nunca fui infeliz, porque o meu maior sonho sempre foi ajudar a família, que trabalhou durante muitos anos, e deixá-la confortável, sem precisarem de trabalhar ou a terem os seus próprios negócios. Esse foi sempre o meu objetivo. Por isso, aos 13/14 anos, quando comecei a conseguir ajudar a minha família, senti-me orgulhoso. Fez-me crescer ir para a academia, porque no bairro não temos regras e não tendo regras não tens disciplina, não tens objetivos a alcançar. No Benfica aprendi a ser homem, a ter regras. Iuri não chegou a cumprir as três épocas no Vitória D.R. Qual era o seu maior objetivo profissional? Como se projetava no futuro, onde se via a jogar? O meu sonho sempre foi jogar pela equipa principal do Benfica no Estádio da Luz. A determinada altura foi emprestado ao Belenenses. Porquê? Porque fiquei sem espaço. Era júnior de primeiro ano e normalmente estes nunca tinham muito espaço porque havia os do segundo ano, que eram da geração 2000, eu sou de 2001. Ficou triste por ir para o Belenenses? Sentiu medo de já não voltar ao Benfica? Não, sempre gostei de desafios e naquela altura eu precisava mesmo de voltar a ter os minutos que desejava e fez-me bem. Depois voltei aos juniores do Benfica, mas no ano seguinte fui embora. Quem eram os seus rivais no Benfica, com quem tinha de competir pelo lugar? Na verdade, tinha rivais em todo o lado porque eu jogava a 8, a 9, a 10, e os jogadores, fosse qual fosse a posição, eram todos craques. Para ter uma noção, o nosso banco nos juvenis A eram os titulares na seleção nacional. E havia titulares na nossa equipa que eram banco na seleção mais acima, para ver o tamanho e a qualidade. A extremo tinha o Jair Tavares, o Mariano Baló, o Tiago Gouveia, o Hugo Nunes; a médio tinha o Henrique Jocu, Rafael Brito, Ronaldo Camará, o Zé Gata; na frente, o Gonçalo Oliveira, o Gonçalo Gomes, o Gonçalo Ramos. O Ramos também era um jogador que fazia tudo, jogava a 8, a 9 e a 10, só não jogava a extremo. Houve algum momento em que, com essa concorrência, duvidou de si e das suas capacidades para chegar mais longe? Nunca duvidei das minhas capacidades, porque estava ao nível deles todos. Só que, na altura, não me destaquei muito, os problemas pessoais que tinha afetaram-me muito psicológica e fisicamente e não consegui atingir o patamar que poderia ter atingido. Claro que também não posso pôr as culpas só nisso. Também tive momentos onde poderia ter feito melhor, mas olhava para um lado e para o outro, via os jogadores que tinha e percebia que tinha muito a percorrer, porque eram jogadores talentosos. Em 2022/23, Iuri mudou-se para o Estoril Praia Sergio Martins Ficou a viver na academia do Seixal até quando? Até aos 18 anos, se não me engano, até ir para o Vitória de Guimarães. Alguma vez foi convocado para treinar com a equipa principal? Treinei várias vezes com a equipa principal, com o Rui Vitória. Houve algum jogador da equipa principal que o tenha impressionado mais? O jogador que estava a aparecer era o João Félix, mas os jogadores que mais me impressionaram foram o Rafa Silva e o Gedson Fernandes. O Gedson foi o que mais me impressionou. Houve uma altura em que vivi com ele na casa de acolhimento do Benfica. Então não viveu sempre no Seixal, porquê? Foi um ano em que me armei em atrevido e pedi para sair, não queria viver mais na academia, porque na casa de acolhimento tinha mais liberdade. E foi aí que vivi com o Gedson uns meses, eu já o conhecia desde os meus 8/9 anos, desde os Pupilos, tanto ele como ao Jota, o Florentino... Mas na equipa principal, quando é a sério, é onde se vê o valor e quem aguenta a pressão e as vezes que fui lá treinar o Gedson foi sempre impressionante. Era um jogador que fazia a diferença, não perdia a bola. Dos treinos em que estive ele era sempre o que se destacava mais. Quando começam as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios? Começou muito cedo, aos 14 anos mais ou menos. Saía com os amigos do bairro. Íamos a discotecas várias vezes. Mas se começou cedo, também acabou cedo, graças a Deus. Porque chegou uma fase em que comecei a perceber que não faria muito bem para os objetivos que eu tinha. As saídas duraram até aos 18 anos. Alguma vez aconteceu à conta de uma dessas saídas faltar a um treino ou chegar atrasado? Nunca faltei a um treino por causa de saídas à noite, até porque foram raras as vezes que saí com treino no dia seguinte. Se o fiz quatro vezes, foi muito. E sempre fui uma pessoa que gostava de treinar, fui sempre comprometido com os treinos. Até ir para o Vitória, alguma vez tinha sido chamado a alguma das seleções? Fui chamado pela seleção de Cabo Verde, na altura dos sub-19, e defrontei a seleção portuguesa. Quando recebeu a convocatória hesitou em aceitar, pensando que um dia podia chegar à seleção portuguesa? Não duvidei, porque a minha família toda vem de Cabo Verde. Claro que sempre tive desejo de jogar pela seleção nacional portuguesa, mas quando comecei a crescer e comecei a viver a vida, a perceber mais sobre a minha cultura também de Cabo Verde, comecei a sentir-me mais identificado. Para a minha família é um orgulho enorme ter-me a representar Cabo Verde, porque é a terra deles. E para mim é uma honra, um privilégio e um orgulho representar uma nação como Cabo Verde. Como acabou por ir parar ao Vitória de Guimarães? Foi o Benfica que disse não contar mais consigo? Comecei a perceber que não iria ter muitas oportunidades no Benfica. A decisão foi minha. O Benfica nunca quis que eu saísse. Mesmo não estando no meu nível máximo, nunca quiseram que eu saísse e fizeram tudo para que eu ficasse. Mas no último ano acabei por passar por algumas injustiças e achei que era melhor eu sair. Que tipo de injustiças? Eu merecia jogar mais do que estava a jogar e nem sequer era opção. Merecia as oportunidades pelo que estava a mostrar. Tinha mais do que capacidades para jogar naquele ano, só que as coisas não correram da maneira que eu queria. Comecei a entender também que as coisas não estavam boas para o meu lado. Já tinha empresário? Sim, mas a decisão foi minha. Iuri só esteve alguns meses no Estoril Praia Pedro Zenkl Não lhe custou sair do Benfica? Sinceramente quando saí não me custou muito, porque já era um homem e já tinha passado por tantas adversidades. Eu tinha o sonho de ser jogador profissional, mas sempre gostei de ser valorizado e na altura não estava a sentir que estava a ser valorizado no Benfica. Sentiu-se valorizado pelo Vitória? Claramente, porque saí do Benfica, um dos maiores clubes do mundo, com a melhor formação do mundo. Saí no mercado de janeiro de 2020, ainda tinha contrato até 2021. Assinei por três anos. Foi ganhar mais ou menos do que ganhava no Benfica? Mais. Foi sozinho para Guimarães? Sim. Eu estava num relacionamento, que estava no início. Como foi o embate com uma cidade e gentes diferentes? Adorei viver os anos que vivi em Guimarães, foram anos maravilhosos. Foi um clube onde me respeitaram muito, não me deixaram faltar nada, sempre preocupados comigo. As pessoas de Guimarães são muito família, são muito unidos e vivem mesmo a sério o futebol. Acho que em Portugal não há clube que viva mais o futebol do que o Vitória. Foi dividir casa com alguém? No início vivia com o guarda-redes Celton Biai, com quem joguei também no Benfica. Entretanto, ele arranjou a casa dele e acabei por ficar a viver sozinho. Sentia muitas saudades do barulho, porque na minha família sempre fomos muitos em casa. Mas uma pessoa acaba por se habituar. Com a irmã Joana Pedro Zenkl Como foram esses três anos no Vitória? Foram de altos e baixos porque quando vou para o Vitória um mês depois veio a Covid-19 e fechou tudo. Ficou em Guimarães durante o confinamento? Fiquei. Na altura a minha namorada estava comigo, então não foi muito difícil. Jogava PlayStation, víamos séries e filmes. Qual o momento mais marcante que viveu no Vitória? Foi o clube que me deu a oportunidade de estrear-me como profissional e foi o momento mais alto. Foi contra o Moreirense, era Pepa o treinador. No início a barriga estava às voltas, mas quando entrei, com o jogo a decorrer, o nervosismo foi logo embora. Foi um choque jogar na I liga? Sim, porque saltei dos sub-23 para a equipa principal. Na altura em que surgiu a Covid-19, ia estrear-me pela equipa B, mas tudo se alterou e saltei diretamente da Liga Revelação para a equipa principal. E só passado uma semana é que me estreei pela equipa B, que estava na Liga 3. Lembro-me que os dois pontas de lança, o Estupiñán e o Bruno Duarte, apanharam Covid-19, ia ser a minha oportunidade de jogar a titular, mas passado uns dias, quando vamos fazer os testes para o jogo, também testei positivo. Mais 14 dias dentro de casa e nesse período havia outros colegas a trabalhar; o azar de uns, era a sorte de outros. Com que opinião ficou do Pepa? O Pepa é um grande treinador. Não trabalhei muito tempo com o Pepa, porque acabou por ir embora, mas foi ele que me estreou. Sempre me tratou bem e deu confiança total. Com o pai D.R. Por que razão não cumpriu os três anos de contrato e acabou por ir para o Estoril Praia? Saí do Vitória quando veio novo presidente, nova direção. Nessa altura informaram-me que não contavam comigo. O que lhe passou pela cabeça? Temeu pelo futuro? Fiquei um pouco triste porque era um clube de que gostava, tínhamos um bom ambiente, um bom grupo, mas a gestão do clube não era tão boa e acabou por dificultar. O Vitória é um clube muito grande, muito bonito, gostei muito dos anos que passei lá, mas se fosse um clube bem gerido chegaria mais longe e estaria muito mais alto do que está hoje. O que quer dizer ao insinuar má gestão? Por exemplo, certos jogadores serem aposta quando há outros que merecem mais. Só quem vive no futebol sabe do que falo. Há coisas que não fazem sentido, mas temos de aceitar e trabalhar. Eles comunicaram que não contavam comigo e o empresário depois apresentou-me a proposta do Estoril Praia. Ficava a 10 minutos da minha casa. Iuri Tavares deixou o Estoril Praia para ir jogar nos EUA Pedro Zenkl Sabia que ia para a equipa dos sub-23 ou contava ir para a equipa principal? Sabia. O projeto era começar com a equipa dos sub-23 e depois saltar para a equipa principal. Não tinha muitas opções, acabei por ir para o Estoril e foi das melhores decisões que tomei. Receberam-me muito bem, estive lá só três ou quatro meses, mas foi mesmo top. Adorei o grupo, as pessoas eram humildes e boas. Por isso o Estoril hoje é o clube que é, está a crescer financeiramente, está a melhorar as condições; é devido ao trabalho e à gestão que tem tido nos últimos anos. Acredito que nos próximos anos vai estar melhor ainda, porque é um clube bem gerido. Quando voltou ao Estoril, quem é que vivia na sua casa? O meu irmão mais velho ainda estava preso, a minha mãe já não estava, mas estava a minha avó. Há pouco não disse, mas as minhas duas irmãs são ambas jogadoras de andebol. Já jogaram juntas pela seleção nacional portuguesa. São profissionais mesmo. É a Joana Rafaela Pires e Érica Tavares. Agora uma joga na Grécia e a outra em França. Spoiler “Tive duelos com o Messi e só consegui roubar-lhe a bola uma vez. É forte, bati na coxa dele e parecia que tinha batido contra uma parede” Iuri Tavares conta nesta Parte II do Casa às Costas como foi sair do país pela primeira vez para jogar na MLS, onde defrontou o argentino Messi. Confessa não ter gostado do “show off” dos EUA, mas que foi importante provar ser capaz jogar numa liga tão física. Agora ao serviço do NK Varazdin, da liga croata, o extremo revela ter levado uma chapada de luva branca e diz que já começa a pensar no futuro pós-carreira, embora ainda queira jogar muitos anos Em 2023 acabou por sair para o Crown Legacy, a equipa B dos Charlotte FC, dos EUA. Como surgiu essa oportunidade? Os meus empresários vieram com essa proposta porque o treinador era o José Tavares, que agora é o diretor da formação do FC Porto. Desde o ano em que fiz aquele golaço ao FC Porto, quando estava no Benfica, que ele ganhou interesse em mim. Quando estava no Estoril ele foi para os EUA, para o Charlotte FC. Entraram em contato com a minha agência e surgiu a oportunidade de ir para a equipa B, Crown Legacy. Sabia que era para jogar na equipa B? Sabia. No início não estava muito para lá virado. Tive uma conversa com o José Tavares e com o pessoal do clube, mostraram-me o projeto e convenceram-me. Mas o que mais me convenceu foi o poder estar perto da minha família. Tendo lá a minha mãe e a família dela foi uma ajuda, teve peso na decisão. Já tinha pensado sair do país antes? Na verdade tive várias oportunidades para sair do país, mas as coisas não aconteceram. Teve oportunidade de ir para onde? Principalmente para França, várias vezes. Iuri com a mãe D.R. Foi sozinho para os EUA? Sim. Como foi o primeiro impacto? Sabia inglês? Só o básico, que não era suficiente. Foi difícil nos primeiros meses. Mas aprendi rápido. No primeiro ano já conseguia comunicar, já me desenrascava. Quando cheguei, como o país é completamente diferente e tens de ter certos documentos para poderes ter casa, estive a viver com colegas, porque não tinha os documentos todos, só tinha o visto. Vivi com três colegas numa casa enorme. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no Estoril Praia? Cinco ou seis vezes mais. O que inicialmente o fascinou na cultura americana e, pelo contrário, do que não gostou? A cidade onde vivi, Charlotte, é maravilhosa, calma, sem problemas, sem stress, sem confusão. Mas, sinceramente, os EUA a mim não me fascinaram muito. É um país muito de show off, de aparências, prefiro a Europa, é mais simples, mais seguro. O extremo (o mais alto) chegou ao Crown Legacy, em 2023 TAYLOR BANNER Foi fácil garantir o seu lugar quando passou a integrar a equipa principal do Charlotte FC? Sim, não tive dificuldades. Quando cheguei para a segunda equipa, foi o ano em que joguei mais. Fui o melhor marcador da minha equipa, um dos melhores jogadores do campeonato, fui eleito algumas vezes melhor jogador do mês. Quando saltei para a equipa principal agarrei logo o meu lugar na pré-época. O primeiro mês foi maravilhoso. Mas depois as coisas começaram a não correr tão bem, não por minha culpa, porque eu estava muito bem. Na pré-época faço o primeiro jogo a titular, no segundo sou o melhor em campo e faço golo. Mas depois contrataram um jogador por milhões para a minha posição e comecei a perder espaço. Qual foi o jogador contratado? Liel Abada, que jogava no Celtic. Contrataram-no para ser titular e comecei a ir para o banco, não porque merecia, foi meramente opção do treinador. Questionou o treinador? Nunca questionei os meus treinadores. Se há coisa que tenho noção é que sempre que vou treinar, saio do treino de consciência tranquila. Sempre provei o meu valor. Os treinadores têm de tomar decisões, eu tenho de fazer o meu trabalho dentro de campo. Que diferenças maiores sentiu do futebol praticado na MLS para o praticado nos campeonatos europeus? É mais partido e mais tático. Os jogos não são tão bonitos de ver, porque o futebol não é tão evoluído como na Europa. Mas penso que a MLS vai crescer. Tem alguns bons jogadores, porque têm dinheiro para contratar na Europa. Mas ao nível da sabedoria, tendo em conta o nível de treinadores e jogadores, na generalidade, a Europa está muito mais à frente. Com a irmã Érica D.R. Assistiu à chegada de Messi aos EUA. O que ganhou a MLS com ele? Ganhou visibilidade, qualidade, atraiu mais jogadores da Europa. Onde o Messi joga, o estádio fica lotado. A liga ganhou com a chegada dele. Lembro-me que quando jogámos contra a equipa dele no nosso estádio, que tem capacidade para mais de 70 mil, a parte de cima do estádio, que normalmente estava fechada, abriu e o estádio lotou. O povo americano gosta do show off, de ter os melhores, as melhores condições, a mentalidade americana é essa: temos de ter os melhores. Quando cheguei a MLS não tinha tanta visibilidade e quando o Messi chegou a diferença foi brutal. O mundo inteiro começou a falar da MLS. Jogou contra o Messi? Joguei duas vezes contra o Messi. Comecei no banco e depois entrei. Mas quando estava no banco disse para mim: “Só de estar a ver o Messi a jogar à minha frente, já nem preciso de entrar”. Estava tão emocionado. E ele realmente... Ele não é humano. É difícil descrever um jogador como ele. E estou a falar do Messi de agora, da MLS, nem quero imaginar o Messi quando estava no Barcelona. Esquece. É muito diferente, ele com um passe acaba com uma equipa. Passou muitas vezes por si? Tive o privilégio de lhe tirar a bola, uma vez [risos]. Tive uns quatro ou cinco duelos com ele, mas só consegui tirar-lhe a bola uma vez. Entrei para extremo esquerdo, ele joga livre, mas procura muito o lado direito para vir para dentro e fazer aquele golo que costuma fazer. A nossa equipa nos últimos 10/15 minutos só defendia, foi quando o Messi acordou, quando ele quis jogar, porque até aos últimos 20/30 minutos o Messi estava a passear em campo. Quando ele acorda, faz um golaço. Ele ainda é muito rápido? Muito rápido e muito forte. Lembro-me que quando lhe tirei a bola, bati com a minha coxa na dele, parecia que estava a bater contra uma parede. Só que, como estava quente, não senti nada a não ser que tinha batido numa parede. No final do jogo, quando o meu corpo ficou frio fiquei cheio de dores. Não é só questão de habilidade, ele é muito forte mesmo. Por isso ele consegue fazer as mudanças de aceleração e os golos que faz. Tem muita força. Entretanto, foi pai. Sim, fui pai do Rodrigo no ano passado. Mas já não estou com a mãe do meu filho, por isso prefiro não falar do assunto. Assisti à gestação toda, ao parto, mas ele hoje vive em Portugal com a mãe. Estar longe do meu filho custa muito, mas o mais importante é ele estar bem, saudável, está feliz, sempre a rir. Falo com ele diariamente por videochamada, quando a mãe menciona o pai ele vem logo para o telefone para falar comigo. Assinou três anos com os Charlotte FC, mas só ficou dois anos e meio. Porquê? Comecei a ter menos minutos, a não jogar como pretendia e merecia. Tive uma conversa com um dirigente, que me disse que eu ia jogar. Só que, na pré-época, eles contrataram o Wilfried Zaha, um nome grande na Europa, jogou muitos anos na Premier League, no Crystal Palace, no Galatasaray, no Lyon, é um jogador com nome, com história e acabei por perder espaço. Já não estava a jogar como gostaria e quando ele veio comecei a ficar ainda mais no banco, sem entrar. Conversei com o clube, disse que não estava satisfeito, que precisava ter minutos e que se tivesse que sair, nem que fosse emprestado, que me deixassem sair porque sempre respeitei o clube e todas as decisões, nunca tiveram problemas comigo. Chegámos a um acordo e vim para a Croácia. Entretanto, mudei de empresário e assinei com a ProEleven. Como reagiu quando lhe falaram da possibilidade de ir para o NK Varazdin, da Croácia? Na verdade, eu queria voltar para a Europa. Houve algumas hipóteses em Portugal, não posso dizer de onde, algumas conversas com os clubes da I Liga, mas surgiu a proposta da Croácia que acabou por se concretizar. Assinei por três anos. Com o irmão Ruben D.R. Que tal o primeiro impacto na Croácia? São um pouco mais frios, as pessoas são mais duras. Quando cheguei tive de ganhar a confiança das pessoas, dos meus colegas. Ninguém me conhecia, eu também não conhecia ninguém. O primeiro mês foi meio complicado. Estava habituado a um tipo de futebol nos EUA que é completamente diferente do de cá. Quais as principais diferenças? O jogo jogado aqui é muito mais cerebral, muito mais pensado, os jogadores são muito mais inteligentes. Nos EUA estava habituado a um jogo de correria, mais de luta, muito físico em que tens de estar sempre em jogo porque há muitos contra-ataques, não é um jogo de muita qualidade, mas tens de estar muito bem preparado fisicamente para aguentar os 90 minutos. Na Europa é completamente diferente, seja na Croácia, na Polónia, ou em Portugal, os jogos são muito mais pensados, os jogadores têm muito mais inteligência e experiência também. E depois estava habituado a um tipo de tática, a uma maneira de defender que aqui é completamente diferente. Mas já me adaptei a tudo. Continua a viver sozinho? Sim. O que está a achar do campeonato comparativamente com o português? Vou continuar a dizer porque é uma realidade: Portugal é dos países que tem os maiores talentos no mundo, em todos os níveis, na Liga Revelação, na Liga 3, na II Liga, na I Liga, tem jogadores com muita qualidade. Mas a liga croata também é muito forte, mais do que pensava quando vim para cá há uns meses. Levei uma chapada de luva branca porque estou realmente impressionado com a qualidade, com o talento que os jogadores têm aqui, todas as equipas são fortes. Temos o Rijeka, que foi campeão nacional no ano passado e este ano está lá em baixo, não está a conseguir ter bons resultados. Vais jogar contra o último e não sabes se vais ganhar, porque a equipa é muito forte também. A minha equipa faz parte das três melhores equipas do campeonato, somos capazes de ganhar ao Rijeka, ao Hadjuk Split, mas empatámos com o Dinamo Zagreb e perdemos com o Slaven. Jogou pela primeira vez competições europeias, com uma equipa portuguesa, o Santa Clara. Foi uma emoção diferente? Tínhamos grandes possibilidades de passar essa fase, sinceramente. A nossa equipa era melhor, só que o futebol não é sobre ser o melhor, é sobre demonstrar em todos os jogos. Em casa fomos melhores em todos os níveis contra o Santa Clara, mas nos Açores não jogámos bem e o Santa Clara acabou por nos eliminar. Mas acredito que se tivéssemos tido um bom jogo, não digo um jogo perfeito, o Santa Clara não passaria. Há muitas diferenças entre o balneário português, o croata e o americano? Não. Acho que no mundo do futebol acaba por ser quase tudo igual nas vivências no balneário. Claro que há sempre grupos mais unidos que outros, mas todos os grupos que apanhei eram bons. O que vivo agora na Croácia, vivi no Benfica, no Estoril, no Belém, há jantares de grupo, há saídas, às vezes o clube organiza um dia para fazermos paintball, ou bowling, não há grandes diferenças. Quais são os seus objetivos presentemente? Ajudar o clube que represento com golos, assistências, lutar pelo campeonato e dar um salto para o meu grande objetivo que é jogar numa das melhores ligas do mundo, a de Espanha, de Inglaterra, de França, de Itália, da Alemanha e a portuguesa obviamente. Ainda mantém o sonho de jogar no Benfica? Tenho o sonho que vai permanecer até o final da minha carreira de representar o Benfica, porque é o meu clube de coração, que me deu tudo, que me formou como homem, como jogador, que me deu a oportunidade de ser a pessoa que sou hoje e de estar a ter a carreira de jogador. Se eles não me tivessem tirado do bairro e se não me tivessem dado a oportunidade de vir para a academia, não sei se seria jogador. Formaram-me como pessoa, impuseram regras na minha vida e foi através dessas regras, dessa disciplina, que cresci como pessoa, como homem e percebi que a vida é feita à base de regras que têm de ser seguidas. Então, claro, esse sonho de representar o Benfica vai permanecer sempre. Mais um pormenor de um jogo em que Iuri Tavares participou na MLS D.R. Tem alguma meta para deixar de jogar? Não, quantos mais anos puder jogar, melhor. Isto é a minha vida, tenho que aproveitar ao máximo, terei de trabalhar muito e cuidar muito de mim para poder jogar muitos anos. Quando passou a ter mais cuidados com a sua alimentação e condição física? No Vitória. Foi uma grande mudança em todos os níveis. Quando somos jovens e talentosos acabamos por relaxar um pouco e quando saí do Benfica percebi que só o talento não chegava porque eu era um dos jogadores mais talentosos, se não o mais talentoso na minha equipa, mas acabei por não chegar à equipa principal e não concretizar o meu sonho. A partir daí comecei a entender que o futebol e a vida é mais do que só ter qualidade. Temos de trabalhar para as coisas acontecerem e estar preparados sempre para quando surgir a oportunidade corresponder da melhor maneira. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver mesmo de pendurar as chuteiras? Gostaria de ser treinador ou empresário. Já estive a pesquisar que cursos são precisos, mas ainda não comecei a estudar. Tive dois ou três treinadores que me perguntaram se não gostaria de ser treinador porque tenho muita inteligência e percebo muito do jogo. Um foi no Estoril e os outros dois foram no Vitória. Disseram-me que entendo muito do jogo, estou sempre ligado. Continua a ter de ajudar a família financeiramente? Hoje já não muito porque, graças a Deus, todos são independentes, têm a vida deles. Entre os irmãos Vitória e Henrique D.R. Onde ganhou mais dinheiro? Nos EUA. O que ganhou já deu para investir? Sim, mas ainda não investi. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Nunca fiz extravagâncias. Comprei o meu primeiro carro, em 2019, um Audi A1 Sport, e mantenho-o. Nem comprei casa ainda. Tem algum hobby? Estar em família e com os amigos, no meu bairro, com as pessoas com quem cresci. Continua a ir ao bairro? Continuo. É um homem de fé, acredita em Deus? Não sigo nenhuma religião, mas acredito em Deus. Superstições? Benzo-me sempre que entro no campo, mas isso é o normal, não só dentro do campo, mas todos os dias benzo-me e todos os dias peço a Deus para me livrar de todo o mal. Acho que é o normal. Iuri (de costas) com Messi, durante um jogo da MLS Taylor Banner Qual foi a primeira tatuagem que fez e tinha quantos anos? Tinha 15 anos. Fiz um terço no peito. Depois fiz uma no braço, completa, com um miúdo, uma bola e o bairro à frente. Depois um terço em duas mãos juntas a rezar; tenho a cara do meu melhor amigo, que faleceu em 2022 num acidente de carro, tatuada na costela; também tenho uma no pescoço a dizer “abençoado” em inglês. Tenho na coxa uma frase que diz: “A luz que me guia é mais forte do que os olhos que me cercam”. E depois tenho no joelho o número 38, que é o número utilizado pela nossa família, mais pelo meu primo, que acabou por falecer em 2024. Eu considerava-o como um irmão mais velho. Ele gostava muito do 38 e acabou por nos influenciar. Tornou-se uma espécie de número da sorte. E na canela, tenho uma fénix. Acompanha ou pratica outra modalidade? Não pratico, mas gosto de basquetebol, de ténis, de ténis de mesa e de andebol. Qual a maior frustração que tem na carreira? Sair do Benfica. E o maior arrependimento? Não tenho. Iuri Tavares fez questão de cumprimentar Messi, no final do jogo Taylor Banner O momento mais feliz na carreira até hoje? Quando joguei o meu primeiro jogo nos EUA e quando me estreei pelo Vitória. Mas o impacto que teve ter jogado nos EUA, pelo facto de não acreditarem muito que conseguiria jogar na MLS, foi importante. Quem não acreditava que seria capaz? Algumas pessoas do próprio clube. Achavam que não iria aguentar, porque o jogo era muito físico. Houve uma pessoa que me disse diretamente e houve outras que comentaram que ia ser difícil. Acabei por me estrear e ser um dos melhores em campo, perante mais de 70 mil pessoas, no estádio cheio. Acho que foi um dos dias mais felizes. Se pudesse escolher, qual o clube onde gostava de jogar? Benfica e Barcelona. Tem ou teve alguma alcunha? Não. Iuri, que hoje joga na Croácia, durante um jogo pelo Charlotte FC, na MLS Taylor Banner Quais as maiores amizades que fez no futebol? Estaria a ser muito injusto se nomeasse. Tenho várias. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O adversário mais difícil de ultrapassar, se não estiver a ser injusto, foi Adilson Malanda, defesa central do Charlotte. É muito difícil passar por ele. Tem algum talento escondido? Sou muito forte a jogar andebol. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Treinador, tenho certeza. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 2 Dezembro 2025 João Aroso Spoiler “No Sporting senti alguma pressão do Pedro Barbosa. Dizia coisas do género: ‘Temos de levar agora com estes professores de ginástica’” João Aroso, de 53 anos, treinador-adjunto principal da seleção da Coreia do Sul que já garantiu presença no Mundial de 2026, conta neste Casa às Costas como foi desenhando o seu caminho no futebol, a paixão que não esmoreceu quando percebeu que não seria jogador profissional. A dedicação ao estudo do treino deu frutos e apesar de ter começado como preparador físico, depressa se afirmou com uma mais valia polivalente nas equipas técnicas por onde tem passado. E conta muitas histórias das suas passagens pelo Sporting e pela seleção nacional Nasceu em Vilar do Pinheiro, Vila do Conde. É filho de quem? A minha mãe era professora primária e o meu pai contabilista. Tem irmãos? Tenho uma irmã cinco anos mais nova. O que dizia querer ser quando fosse grande? Como a maioria dos miúdos queria ser jogador de futebol. Quando vejo fotografias minhas de muito pequeno a bola estava quase sempre presente. Há coisas que nascem connosco. Qual a primeira memória de futebol que tem? Ir com o meu pai ao Estádio da Antas. Eu deveria ter por volta de 5, 6 ou 7 anos, o meu pai ia frequentemente ao estádio das Antas e eu ia com ele. Mas eu não entrava com ele, entrava com um amigo do meu pai que ia para a zona dos cativos, porque os lugares eram melhores. O meu pai ia para uma zona mais barata e de maior confusão. A maior recordação fotográfica que tenho na memória é o verde do relvado. Quando eu via o verde do relvado era um fascínio incrível. Quem eram os seus ídolos em criança? Um dos ídolos foi naturalmente o Fernando Gomes, porque marcava muitos golos e eu era influenciado clubisticamente pelo meu pai. Mais tarde, gostava muito do Futre e do Madjer, mas depois fui estendendo a outros clubes e gostava muito do João Pinto, que mais tarde acabei por encontrar como jogador no Sporting. Gostava da escola? Não gostava especialmente. A parte que mais gostava era do recreio, porque jogávamos à bola e eu fazia o registo de tudo, dos nossos jogos, dos golos, tomava notas de tudo. João Aroso em criança D.R. Chegou a jogar futebol federado? Joguei a um nível baixo. Comecei por volta dos 14/15 anos, no Vilar do Pinheiro, o clube do local onde eu morava. Nessa altura ainda tinha a ambição de ser jogador de futebol? Ainda tinha ambição, mas depois vamos percebendo que temos de nos agarrar aos livros. Admito que se calhar tive uma pequenina frustração por pensar que não ia ser jogador profissional, porque não tinha qualidade suficiente para isso, mas acabei por me conformar. Só que, naquela altura, imaginar que podia vir a trabalhar no futebol era uma miragem completa, porque os caminhos eram muito mais difíceis e não conhecia ninguém na área, nem a um nível superior que nos pudesse, enfim, facilitar a entrada. Fez o seu percurso académico em que área? Estava na área de economia, fui sempre um aluno razoavelmente bom, mas nos anos em que deveria ter melhores notas, porque contavam para média, foi quando me descuidei um bocado. Foram anos mais de diversão do que de estudo e paguei a fatura não tendo notas para entrar nas melhores faculdades. Acabei por entrar no ISCAP, Instituto de Contabilidade e Administração do Porto. Não gostava daquilo que estudava, mas lá fui fazendo as cadeiras todas e com 20 anos tinha o bacharelato em contabilidade. Continuava a ir ver jogos de futebol às Antas? Sim. Eu gostava acima de tudo de futebol, muito mais do que a questão clubística. Lembro-me que havia muitos colegas que andavam com jornais de especialidade, económicos, debaixo do braço, e eu só queria jornais desportivos, porque do que realmente gostava era de futebol. João Aroso recorda-se de andar sempre agarrado a uma bola D.R. Ainda jogava na altura do curso de contabilidade? Sim, fui fazendo os campeonatos universitários. Quando terminei o bacharelato, havia a expectativa dos meus pais que pudesse fazer mais um ou dois anos e tivesse a licenciatura em Gestão ou Economia, mas acabei por tomar a decisão de mudar radicalmente de área. Estive um ano a trabalhar com o meu pai em contabilidade e a dar aulas de cálculo financeiro e contabilidade analítica, percebi que gostava de dar aulas, mas não daquelas matérias. Decidi então que queria mudar. Mudou logo para Desporto? Havia duas possibilidades que estavam na minha cabeça. Uma delas era jornalismo, porque eu tinha jeito para escrever e pensava que era uma forma de poder estar perto do mundo do futebol, como jornalista desportivo; mas como também não conhecia ninguém no mundo do jornalismo, tive receio de fazer o curso e ir para o desemprego. Isso levou-me a optar por Ciências do Desporto, na altura chamava-se Educação Física e Desporto. Apesar de não ser propriamente o que eu queria, pelo menos tinha emprego garantido como professor de Educação Física e depois podia tentar ser treinador de formação, ou preparador físico. Qual foi a reação dos seus pais quando disse que queria mudar de curso e ir para Desporto? Não ficaram muito satisfeitos, porque me imaginavam a seguir na área da Economia, mas depois deram-me total apoio. O meu pai acabou por me confessar que já tinha percebido que eu não tinha jeito para a área da contabilidade, porque para sermos bons naquilo que fazemos, precisamos de gostar muito. Como eu não gostava, tinha muita dificuldade em estar concentrado no trabalho que fazia. Após realizar o curso onde começou a trabalhar? Logo no segundo ano do curso tive um convite para colaborar, a custo zero, num clube, o Pedras Rubras, que ficava muito perto da casa dos meus pais. Tiveram conhecimento que eu estava a estudar Educação Física e Desporto e convidaram-me para ser treinador-adjunto/preparador físico do escalão de sub-15. Um contexto de nível relativamente baixo, a ganhar zero, e fui com uma satisfação enorme pelo prazer que sabia ia ter por estar a trabalhar no futebol. Depois há um outro momento, quando tenho oportunidade de fazer o estágio de licenciatura e, dentro do que me foi apresentado, opto por ir para o Boavista. Após o estágio, acabei por ser convidado para fazer parte dos treinadores da formação do Boavista. Isto foi mais ou menos em 1998/99. Nessa altura já tinha saído de casa dos pais e constituído família? Casei em 2003. Mas, confesso que prefiro continuar a preservar a minha vida familiar, como sempre o fiz, e não desenvolver esse lado. João Aroso com os pais e a irmã (ao colo) D.R. Como foi o primeiro contacto com o futebol num clube da dimensão do Boavista? Estamos a falar de um Boavista que naquele tempo era o quarto grande do futebol português, e também o era ao nível da formação, apesar de em termos de infraestruturas, estar longe daquilo que a dimensão do clube exigia. A sensação que tinha era: já consegui estar num patamar muito acima daquilo que consegui como jogador. Isso já me dava alguma recompensa do ponto de vista da aposta que tinha feito, mas, obviamente, queria continuar a evoluir. Estamos a falar de um tempo em que era difícil a um não ex-jogador profissional afirmar-se como treinador. É um tempo em que essas portas estavam a ser abertas graças a Carlos Queiroz, que tinha, algum tempo antes, feito aqueles trabalhos de excelência nas seleções jovens portuguesas; e depois há uma figura extremamente marcante no futebol português, o José Mourinho, que estava prestes a aparecer também e que viria a dar um contributo decisivo para que muitos como eu se pudessem afirmar de outra forma. A esta minha ida para o Boavista, junto um outro aspeto que foi importante: o convite que tive para ser professor de futebol no Instituto Superior da Maia, quando terminei o curso. Quando terminou o curso, qual era o seu maior sonho, a sua maior ambição? Nessa fase, o meu objetivo era claramente ser professor universitário na área de futebol. Era algo que me seduzia. Mas queria obviamente evoluir como treinador da formação, eventualmente poder trabalhar num patamar superior em termos de clube, ainda superior ao Boavista, ou poder trabalhar no futebol profissional como preparador físico. João Aroso (2º atrás à direita) estagiou no Boavista, onde foi treinado da equipa de sub 12, na foto D.R. Esteve cinco anos no Boavista. Que escalões treinou? Trabalhei em todos os escalões até aos sub-13, mais os sub-16. Como surgiu o convite para ser preparador físico da equipa principal do Sporting, em 2003/04? A dada altura fui fazer o mestrado na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e acabei por direcionar o meu trabalho de investigação para a área da fisiologia do treino. Os professores da Faculdade do Porto puseram-me em contacto com o doutor Gomes Pereira, que era professor na Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa e também médico do Sporting. A Academia de Alcochete ainda não estava pronta e o Sporting estava a estagiar em Rio Maior, desloquei-me a Rio Maior para me encontrar com o Dr. Gomes Pereira e mostrar a minha ideia em termos de trabalho de investigação. Ele gostou bastante da ideia, tinha muito a ver com um trabalho que já tinha realizado nesse âmbito da fisiologia do treino. Disse que me ajudava, que me orientava. Longe estava de pensar que este contacto acabaria por constituir uma oportunidade incrível na minha carreira. Fomos tendo várias conversas relacionadas com o trabalho e há um momento em que o doutor Gomes Pereira me pergunta se tinha interesse em ir trabalhar para a Academia do Sporting, sem ser num escalão etário em concreto, mas como treinador da formação na Academia Sporting. Isso já de si era fantástico, porque nessa altura o Sporting era de longe o melhor clube na formação, em Portugal. Mas não chegou a exercer essas funções. Porquê? Recusou? Obviamente que disse que estava interessado. A esta ideia ficou no ar, depois seria sujeito a entrevista, nomeadamente com o diretor da academia, que era o professor Pedro Mil Homens. Até que, um dia, estou no intervalo das aulas no Instituto Superior da Maia e toca o telefone. Era o doutor Gomes Pereira: "João, nunca falámos sobre esta possibilidade, mas via-se a trabalhar como preparador físico?" Pensei que ele provavelmente estava a falar de um escalão de sub-19, quanto muito equipa B. Disse que admitia essa possibilidade dependendo das ideias do treinador. E ele diz-me: "É que o Boloni vai sair, e toda a equipa técnica, e fiquei incumbido de escolher a pessoa que vai trabalhar na equipa técnica, em ligação comigo, na área da fisiologia do treino." Em 2003/04, João Aroso foi convidado para ser preparador f D.R. Nessa altura informou-o logo que o próximo treinador seria o Fernando Santos? Ainda não. Isso veio pouco depois. Fiquei, como pode imaginar, com um misto de emoções. E ele diz: "João, competência eu sei que tem, a questão é se se imagina a lidar com os jogadores que você conhece da televisão." Vários desses jogadores eram mais velhos do que eu, um deles era o tal ídolo João Pinto, e muitos outros, que não sendo exatamente ídolos, eram jogadores que admirava. Como por exemplo? O Paulo Bento, o Rui Jorge, entre muitos outros. Pensei, "bem, tenho de dizer que me sinto preparado porque se disser que não vou andar a vida toda a dar cabeçadas na parede" [risos]. E foi um pouco isto. Houve ainda duas entrevistas de validação. A primeira com o Fernando Santos, que entretanto foi escolhido para treinador. Desloquei-me com o doutor Gomes Pereira a casa do Fernando Santos para ele me conhecer, fazer-me algumas perguntas e de certa forma validar a minha entrada. Houve alguma pergunta que não estivesse à espera? Recordo-me que me disse algo como: "Eu identifico-me mais com a linha de treino do FC Porto comparativamente à do Boavista." E eu pensei, bem, já fui [risos]. Mas não me recordo das questões em concreto. Lembro-me que, na altura, eu gostava tanto de dar aulas no ensino superior que perguntei se haveria alguma possibilidade de vir uma vez por semana ao norte dar aulas ao Instituto Superior da Maia. E ele responde: "Pá, isso é perto do impossível." Fiquei um pouco apreensivo e ele concluiu: "Pensa lá, porque o comboio só passa uma vez." Realmente, não havia hesitação possível. Era impossível não aceitar aquele convite. Como foi o primeiro contacto com a equipa do Sporting? Em primeiro lugar, lembro-me de estar no gabinete dos adjuntos na Academia de Alcochete e ver os tais jogadores que conhecia da televisão a chegar. Senti aquelas borboletas na barriga. O facto de ir cumprimentando os jogadores à medida que me iam sendo apresentados, era um misto de emoções tremenda, fiz um esforço enorme para parecer estar o mais tranquilo possível [risos]. Aroso (à direita) fez parte da equipa técnica de Fernando Santos do AEK de Atenas em 2005 D.R. Consegue explicar de forma simples e objetiva qual é o papel de um preparador físico numa grande equipa? As coisas mudaram muito desde aquele tempo. Naquela altura havia um preparador físico na equipa técnica, hoje, existem vários elementos. As funções estão muito mais especializadas. Obviamente, dependia muito de com quem trabalhávamos. O Fernando Santos, neste aspeto, colocou uma exigência muito grande sobre mim, colocou-me desafios de enorme dimensão. Desafios de que género? Estou a falar daquilo que ele queria da minha parte. Ele já tinha uma experiência enorme e o desafio que me colocava era de não me cingir àquilo que tradicionalmente era atribuído ao preparador físico, que era a parte inicial do treino, vulgo, aquecimento e os exercícios apenas físicos. Ele queria que lhe fizesse propostas de treino, na sua globalidade; colocava-me esta responsabilidade. Mas constituiu um desafio enorme e fez-me evoluir muito para procurar corresponder. Acho que houve uma primeira fase em que ele quis perceber o que vinha de mim, dizendo-me muito pouca coisa e depois, naturalmente, é um processo de interação em que vamos conversando, vou conhecendo as ideias dele e vou procurando ir ao encontro daquilo que sabia que ele gostaria. O Fernando Santos é assim tão mal humorado como aparenta e como se diz? [Risos] Ele próprio assume que de manhã não é propriamente muito bem disposto. E isso colocava, é verdade, uma tensão muito grande, ainda por cima a mim, acabadinho de chegar. Eu muito tenrinho, entre aspas, naquelas andanças, às vezes era difícil lidar com o temperamento dele. Mas isso entroncava também na exigência muito grande que ele colocava e que me fez crescer muito, não só do ponto de vista profissional, mas também daquilo que é o saber estar. O que quer dizer com o ‘saber estar’? Como lidar com as situações a vários níveis, como me posicionar no relacionamento com os jogadores, no relacionamento com o staff, porque ao mínimo descuido o mau humor do Fernando Santos fazia-se sentir de forma agreste. Tudo isso acabou por ser de grande aprendizagem para mim. João Aroso regressou ao Sporting na época 2005/06, para fazer parte da equipa técnica de Paulo Bento, no Sporting D.R. Era a primeira vez que lidava com jogadores profissionais ao nível do treino. Superou as expectativas ou esperava mais deles? Superou. A sensação que tinha é que tudo era muito fácil, porque a qualidade técnica, a inteligência e a experiência deles fazia com que interpretassem tudo aquilo que era proposto com uma facilidade que naquela fase ainda não estava habituado. Era um salto gigante que eu estava a dar. Nessa altura, quem eram as suas fontes de inspiração? Eu ia a todo o lado onde podia. É evidente que estamos a falar de um tempo em que havia muito menos informação à disposição, mas procurava tudo o que podia. Entrevistas de treinadores, de metodólogos do treino, recordo-me de ver cassetes de vídeo de treinos de outros clubes, tudo o que houvesse que me permitisse preparar-me mais para aquele desafio, eu buscava. Quase todo o meu tempo era dedicado a procurar aprender cada vez mais. Acabou por não dizer que era o papel do preparador físico. Era montar todo o treino de acordo com a perspetiva do treinador ou com o aval do treinador? O que posso dizer daquele tempo é que apesar de ficar durante alguns anos com esse rótulo de preparador físico, porque foi assim que entrei no Sporting, a verdade é que a minha participação no contexto da equipa técnica, nomeadamente com o Fernando Santos e depois também com o Paulo Bento, foi para além daquilo que era habitual atribuir-se ao preparador físico. Tinha algumas funções tradicionalmente atribuídas ao preparador físico, como o da preocupação dos aspetos mais físicos do treino, o controlo do treino, o aquecimento, mas também aspetos que estão tradicionalmente associados ao treinador-adjunto e que têm a ver com a forma de jogar, com o modelo de jogo, com componente estratégica. O meu papel foi sendo direcionado para uma participação mais global naquilo que é a preparação da equipa no contexto do trabalho da equipa técnica. João Moutinho (com a bola) é o jogador que João Aroso (atrás) mais destaca na sua passagem pelo Sporting D.R. Houve algum jogador que nesse primeiro ano o tenha surpreendido bastante, seja pela capacidade de trabalho, seja pela técnica ou índices físicos? O Sporting tinha um grupo de jogadores fantásticos, excelentes profissionais e de jogadores de enorme qualidade. Já nomeei alguns, o Paulo Bento, o Rui Jorge, o Rui Bento, mas há um jogador que, antes de o conhecer, não tinha uma impressão muito positiva sobre ele, achava que provavelmente tinha um feitio difícil, que não devia ser fácil lidar com ele, e, no entanto, acabei por mudar completamente a minha opinião. Estou a falar do Pedro Barbosa. O primeiro contacto com ele não foi bom? Nos primeiros tempos senti alguma pressão dele. Eu, mais novo do que ele, acabado de chegar àqueles patamares, pensei, isto não vai ser fácil, ainda por cima o capitão de equipa, mas aguentei-me sempre e respondia-lhe de uma forma serena. Que tipo de pressão é que ele lhe exercia? Dizia coisas do género "temos de levar agora com estes professores de ginástica...". A expressão professor de ginástica era uma expressão depreciativa, mas ele atirava aquilo para o ar e eu não sabia bem o alcance que queria ter com aquilo, embora fosse uma referência claramente provocatória. Mas aguentava-me sempre. Lembro-me que também me perguntava se eu era da Foz. Quem conhece o Porto, a Foz é uma zona chique da cidade do Porto, e portanto eu via tudo aquilo como algo de provocatório, mas ele dizia-o de uma maneira que não era demasiado ostensiva, era discreta, e eu ficava na dúvida sobre o que queria com aquilo, mas respondia-lhe sempre de forma firme e serena. Até que, há um momento menos bom, em que o Pedro Barbosa tem uma lesão muscular logo no primeiro jogo treino na pré-época; vou ter com ele para perguntar como estava e já no posto médico, ele diz: "Acabaste comigo" ou "rebentaste comigo", qualquer coisa assim. Como reagiu a isso? Procurei mais uma vez reagir de forma serena e firme. Entretanto, no primeiro dia de treino após o primeiro jogo que fez depois da recuperação, ofereceu-me a camisola dele com uma dedicatória. Fiquei muito surpreendido e a sensação que tive foi: este tipo estava-me a testar e com isto está a dizer-me que passei no teste. Desde essa altura tive sempre uma relação muito boa com o Pedro Barbosa, que se estende até hoje. Paulo Bento, Leonel Pontes e João Aroso, na seleção A, em 2010 D.R. O benfiquismo do Fernando Santos nunca foi um problema no Sporting? Absolutamente nada. Houve um momento, já depois de ter passado pelo Benfica, que ele me disse: "Eu estava no FC Porto e diziam que eu era benfiquista. Estava no Sporting e diziam que eu era benfiquista, mas também com fortes ligações ao FC Porto; e quando fui para o Benfica, associavam-me ao FC Porto e ao Sporting." Acaba por ser ingrato, mas o sentimento clubístico não tem razão de ser para quem trabalha no futebol profissional. Na época seguinte trabalhou com José Peseiro no Sporting. Foi uma experiência muito diferente? Sim, a vários níveis. Foi um turbilhão de emoções, porque estivemos muito próximos de ganhar tudo e acabámos muito perto do final por não conseguir vencer. Deveu-se sobretudo a falta de sorte ou a outros motivos? Obviamente houve alguma falta de sorte, mas houve outras coisas também naquela época que tornariam muito difícil conseguir conquistar grandes objetivos. Num ano em que, é bom lembrar, FC Porto e Benfica estavam também muito abaixo do normal. Foi um ano, particularmente para mim, do ponto de vista profissional e pessoal, que foi difícil, por questões que prefiro guardar para mim. Depois acabei por, fruto de tudo isso, aceitar o convite do Fernando Santos e saí do Sporting para ir trabalhar com ele no AEK de Atenas. Reencontrou o mesmo Fernando Santos ou com ligeiras mudanças por estar no estrangeiro? A questão é muito interessante. A minha relação com o Fernando Santos foi muito boa nesse período, muito mais próxima, talvez porque a situação fosse diferente. Foi um convite dele, muitas vezes reforçado para que me juntasse a ele, enquanto para o Sporting ele deu o aval. E portanto houve uma relação de grande proximidade no plano profissional e pessoal, que acabou por não durar muito tempo. Diria que é talvez a decisão profissional de que não me orgulho de ter tomado, o ter voltado ao Sporting. Arrependeu-se de a ter tomado? Não digo que me arrependo, não me orgulho de ter tomado. Ou seja, reconheço que o certo na altura era ter ficado no AEK de Atenas. Foi sobretudo o lado emocional que me fez querer voltar ao Sporting, pelo Sporting, pela família, porque na altura a minha mulher e a minha filha, muito bebé, estavam em Alcochete. Esse foi um fator relevante na minha decisão, mas também o facto de ter saído do Sporting não da forma que gostaria. Sem querer explorar muito essa questão, mas a época anterior tinha sido difícil para mim e ter a oportunidade de voltar ao Sporting de uma forma muito positiva, através de um convite e uma manifestação de vontade enorme do clube e do Paulo Bento para que voltasse, foi algo que teve um impacto muito grande sobre mim. O Fernando Santos compreendeu ou ficou chateado consigo? Não ficou chateado, mas obviamente terá ficado triste e seguramente desapontado porque gostaria que eu tivesse tido outro tipo de decisão. Procurou obviamente dissuadir-me, mas não colocou qualquer entrave e poderia tê-lo feito. João Aroso e Paulo Bento durante um treino da seleção A D.R. O que ganhou em termos pessoais e profissionais com a estadia, embora curta, no AEK de Atenas? O facto de viver sozinho, de estar pela primeira vez a trabalhar fora do meu país, sairmos da nossa zona de conforto, isto apesar de ter um envolvimento muito grande com o Fernando Santos, mesmo no plano pessoal. Foi uma experiência num grande clube, com adeptos incríveis. Gostei muito do país também, mas realçava o facto de as minhas funções serem muito mais globais, com um âmbito muito maior do que apenas o estritamente associado ao preparador físico e permitiu-me evoluir bastante. O Fernando Santos, sendo um treinador mais antigo, percebia de metodologia de treino ou entregava aos elementos da equipa especialistas nessa matéria e era mais um homem da tática? Ele é uma pessoa bastante experiente e obviamente que percebia de metodologia também. Tinha trabalhado já com muita gente da minha área, estava sempre interessado em receber o que havia de mais recente, de mais moderno nesse âmbito. Notei mais do que nunca uma receptividade muitíssimo grande da parte dele. Penso que, no fundo, era o reconhecimento do trabalho que eu tinha feito no Sporting, da confiança que tinha em mim. Quem trabalhava com ele não tinha qualquer dificuldade porque do ponto de vista disciplinar ele tinha uma capacidade de gerir e de fazer exercer a sua autoridade que tornava as coisas muito fáceis àqueles que estavam com ele como colaboradores. Entretanto, regressou ao Sporting, onde esteve quatro anos com Paulo Bento. Como foi lidar com o Paulo Bento treinador? O Paulo Bento é alguém com quem é muito fácil lidar. É uma pessoa muito acessível, muito simples. Já tínhamos muito boa relação quando ele era jogador. Ele já gostava de fazer questões sobre treino, percebia-se que estava ali um futuro treinador na forja. Lembro-me dele um dia me ter dito: "João, um dia ainda vamos trabalhar juntos." A equipa técnica já vinha com ele da equipa júnior e juntou-se depois o Carlos Pereira. Sentiu que por ser um treinador bastante mais novo e inexperiente do que Fernando Santos, teria de ser mais interventivo e trazer um maior aporte ao treino? Não. O Paulo já tinha ideias muito bem definidas. Naturalmente que havia questões no âmbito da metodologia do treino em que ainda estava numa fase inicial e, portanto, suportou-se bastante em mim e no Leonel Pontes. Mas o Paulo tinha ideias muito convictas, nomeadamente sobre gestão do grupo, dos jogadores, sobre questões táticas. Havia um nível de participação na preparação do treino e dos jogos em que o Paulo nos dava a liberdade para darmos a nossa opinião e no fundo crescemos todos uns com os outros. João Aroso com Cristiano Ronaldo D.R. Quais foram os momentos mais complicados, mais difíceis e, pelo contrário, os melhores momentos desses quatro anos? O momento mais especial foi a conquista da primeira Taça de Portugal, frente ao Belenenses do Jorge Jesus. O momento mais difícil é o momento da saída. Foram quatro anos, em que a dada altura há aquela célebre frase: "Paulo Bento Forever." E havia de facto um envolvimento e uma ligação muito grande entre a direção do Sporting e o Paulo Bento. Mas a partir daí não durou muito e esse foi talvez o momento mais difícil, o de percebermos que de facto a saída era a melhor solução. Recordo-me que nessa fase as coisas não estavam fáceis, a equipa não estava a ter o rendimento que gostaríamos e havia uma sensação... Por vezes no futebol há resultados que mudam tudo, também houve alguma infelicidade num ou outro jogo e depois gera-se um ciclo vicioso, quebram-se os níveis de confiança porque os resultados não estão a ser positivos e isso tem repercussão no jogo. Estava a ser difícil sair desse ciclo. Olhando às condições e recursos da altura, foram anos bastante positivos, com quatro presenças na Liga dos Campeões, duas Taças de Portugal e duas Supertaças. O que quer dizer com "olhando aos recursos da altura"? O facto do Sporting não ter condições financeiras para ir ao mercado ao nível dos rivais. O Sporting tinha de recorrer sistematicamente à qualidade dos jogadores da formação, que era muita e foi aí a fase em que mais jogadores foram lançados na equipa principal. Qual o jogador da formação que mais o surpreendeu? Não há como não falar do João Moutinho. Embora já tivesse sido lançado na época do José Peseiro, mas com o Paulo Bento reforçou a sua preponderância, diria até o estatuto de um dos jogadores mais importantes, se não o mais importante da equipa do Sporting. Na altura era muito difícil imaginar a equipa sem o João Moutinho. Lembro-me do Paulo Bento dizer sobre o João Moutinho: "Se pudesse, levava-o no bolso para todo o lado." Felizmente, e foi assim toda a sua carreira, é muito difícil o João lesionar-se. Foi um dos melhores jogadores com quem trabalhei, porque a sua excelência reside não só na sua qualidade como jogador, mas no seu profissionalismo, na pessoa em si. Isso deve-se sobretudo à genética, ou ao trabalho que ele faz? Tem a ver com tudo. Tem a ver com questões intrínsecas do jogador, do seu organismo, das questões físicas e fisiológicas, mas tem a ver também com o lado do bom profissional que é, a forma como treina, a forma como se cuida, está tudo relacionado. Aroso a dar indicações durante um treino da seleção A D.R. Que outras memórias e histórias tem para contar desse período? Uma das que me lembro tem a ver com o Cristiano Ronaldo, porque ainda trabalhei com ele no Sporting antes de ir para o Manchester United. Lembro-me de exercícios de coordenação em que o Cristiano parecia um desenho animado, tal a velocidade com que fazia esses exercícios. Foi algo que me impressionou. Depois há outras memórias, menos boas, houve uma época em que houve coisas francamente negativas, até do ponto de vista disciplinar, mas não seria muito correto da minha parte estar a mencionar. O Cristiano Ronaldo é sobretudo fruto de muito trabalho? O Cristiano que conheci no Sporting é completamente diferente da ideia que as pessoas têm dele nos últimos anos. Quando ouço dizer que o Cristiano é um produto do trabalho, às vezes quase me incomoda porque as pessoas não se lembram ou não têm ideia do que era o Cristiano. É também obviamente um produto do trabalho, mas ele era um jogador de um virtuosismo, de uma criatividade absolutamente notável, só que as pessoas já não se lembram desse Cristiano do Sporting. O que posso dizer a propósito da questão física é que o célebre jogo contra o Manchester United, de inauguração do estádio de Alvalade, em agosto de 2003, é determinante para ter sido antecipada a sua ida para o United. Fez um grande jogo, sem dúvida? O Cristiano faz seguramente um dos melhores jogos da carreira, a jogar como extremo nato, driblador nato, e ao minuto 90 tem uma ação defensiva, em que vai fazer a dobra do lateral esquerdo. O Cristiano era isto. Mesmo o Cristiano no seu apogeu, que será talvez o período do Real Madrid, já era um Cristiano de quem se dizia ser muito mais um produto do trabalho do que de talento... Se bem que o talento é muito discutível. O que é o talento? Porque talento também é mentalidade e também é disponibilidade para o trabalho. Mas muito se comprara com Messi e diz-se que Messi é mais talento e menos trabalho, ao contrário de Cristiano Ronaldo. É quase ridícula a comparação sistemática com o Messi. Muitas vezes era dito que o Cristiano era um produto do trabalho, mas o Cristiano, sobretudo nesse tempo de Sporting, era um jogador com características diferentes daquelas que foi manifestando progressiva e posteriormente de ser essencialmente um finalizador. Ele era um jogador extremamente criativo, de drible, fazia dribles incríveis e para aqueles que entendem que o talento é isto, o Cristiano tinha estas dimensões de talento também. Leonel Pontes, Paulo Bento e João Aroso D.R. O Liedson, cuja alcunha era o "Levezinho", tinha uma estrutura física frágil, ou não? Não, o Liedson era impressionante, de uma resistência notável. Acho que muitos se lembram ainda de ver a forma como o Liedson corria a pressionar os defesas adversários. Ele tinha de facto um morfotipo e condições fisiológicas que se assemelhavam àqueles atletas de meio-fundo, muito leve e muito resistente. Tinha uma capacidade de colocar intensidade na pressão o jogo todo. Chegou a ter também o Abel Ferreira na equipa do Sporting. Já se vislumbrava que pudesse vir a ser treinador? Sinceramente, não o imaginava neste patamar. Dou-me muito bem com o Abel. Um jogador extremamente humilde, bom profissional. O Abel gostava de me fazer muitas perguntas sobre treino. Ainda me lembro de conversarmos sobre os treinos da pré-época, porque ele e o Tonel, com quem andava sempre, disseram-me que nunca tinham feito uma pré-época assim, ou seja, em que os exercícios eram predominantemente de futebol, com a bola presente, com complemento tático, a romper com aquilo que era muito vigente até então, que era pré-época muito focada na condição física. Lembro-me dele comentar uma vez que se imaginava um dia a ser treinador de formação. O Abel passou depois por uma transformação muito grande como treinador, com uma liderança fortíssima, com um perfil que se diferencia muito daquele Abel que conheci como jogador no Sporting. Entre a saída do Sporting e o convite para ser treinador-adjunto da seleção nacional, o que fez profissionalmente? Foi um ano em que essencialmente continuei a preparar-me, a ler, a estudar. Já tinha feito algum nível do curso de treinador? Tinha feito o 3º nível, portanto o UEFA A, mas não pensava muito se iria ser treinador principal, ou não. Na altura o meu foco era continuar a colaborar com o Paulo Bento e não passava pela cabeça outro tipo de objetivo. Ia fazendo as formações porque achava que as devia fazer sem ter em vista qualquer questão em concreto do ponto de vista profissional. João Aroso com Paulo Bento durante o Mundial do Brasil, em 2014 D.R. Adaptou-se bem ao trabalho numa seleção? Não sentiu falta do trabalho diário com os jogadores? É muito diferente, é verdade, mas gosto muito também. Gosto muito do dia a dia do trabalho nos clubes, e para quem gosta muito de treino, na seleção falta bastante isso. Mas tem outras coisas que são muito interessantes, que é a possibilidade de acompanharmos os jogadores da base, os jogadores convocáveis que normalmente constituem o alvo das observações da equipa técnica. Permite-nos observar jogadores que jogam em realidades diferentes, observar outras equipas, viajar e estar em contacto direto com esses jogadores. São vivências enriquecedoras e que, particularmente, quando estamos ao serviço da seleção do nosso país, é algo muito especial. É muito gratificante termos as quinas ao peito, a bandeira nacional connosco, ouvirmos o hino nacional e sentirmos que estamos a contribuir com o nosso trabalho em prol do nosso país, é uma sensação absolutamente incrível. Mas, de resto, são realidades diferentes. Também ao nível de treino? Por vezes, quando olhávamos para o leque dos jogadores que tínhamos à nossa disposição, e se calhar hoje o patamar aumentou bastante relativamente àquele tempo, dizíamos: provavelmente nunca vamos ter uma equipa de nível tão elevado como temos agora. Qual foi o jogador com quem nunca tinha estado até aí e que mais o impressionou na seleção? Vou falar de um jogador, com quem já tinha trabalhado, mas é justo fazer-lhe uma referência: o Nani. O Nani já se tinha afirmado no Sporting connosco, na vigência do Paulo Bento, mas na seleção foi um jogador de uma importância muito grande, sobretudo até por isto: o Cristiano era um jogador que tinha um impacto fortíssimo naquilo que era a força da seleção, do ponto de vista ofensivo era um jogador que dava um contributo enormíssimo, mas defensivamente envolvia-se menos, como sabemos. O Nani tinha um papel extraordinário para compensar, porque nenhuma equipa hoje em dia consegue lidar com um jogador que participa pouco defensivamente, já nessa altura não era fácil, dois então era impossível. Portanto, o Nani para além da sua qualidade muito grande do ponto de vista ofensivo, porque também a tinha, era um jogador que também dava muito à equipa defensivamente e permitia equilibrar o facto de o Ronaldo não se envolver tanto nas tarefas defensivas. João Aroso e Cristiano Ronaldo, na seleção D.R. A saída extemporânea de Ricardo Carvalho do estágio da seleção, provocou muita convulsão no grupo? Foi algo muito surpreendente, mas não diria que teve um impacto muito grande no grupo. Do que eu me recordo, ficou toda a gente muito surpreendida com a situação. O momento alto dessa passagem pela seleção foi chegar à meia-final no Europeu de 2012, certo? Sim. É óbvio que depois do êxito de 2016, falar das meias-finais de 2012 parece menos especial. Mas foi um grande trajeto que fizemos. Jogámos as meias-finais contra a grande Espanha, que era campeã do mundo e viria a ser campeã da Europa. Era uma seleção de enorme qualidade e jogámos olhos nos olhos contra eles. E depois tudo se resumiu a uma decisão por penáltis, em que o Bruno Alves acerta na trave e a bola sai e o Fàbregas acerta no poste e a bola entra. Foi uma grande frustração para todos. E lembro-me bem dessa sensação de frustração. O João Pinto, diretor da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), já no aeroporto, disse-me: "Eu não estava preparado para isto." Ele estava convicto que íamos seguir em frente, íamos à final. Se vencessemos a Espanha, provavelmente seríamos campeões da Europa, porque éramos bastante melhores do que a Itália. A Espanha cilindrou a Itália na final. Se tivéssemos ganhado à Espanha, muito provavelmente teríamos sido campeões da Europa em 2012. Mas há que lembrar a forma como fomos recebidos no aeroporto de Lisboa, por milhares de pessoas, foi emocionante, foi a sensação de ter ajudado a conseguir algo de positivo para o nosso país, foi muito recompensador. José Mourinho com João Aroso D.R. Já o Mundial de 2014, no Brasil, correu muito mal. Tem alguma explicação? Quando as coisas correm mal nunca é um fator apenas. Em 2012, sentíamos que havia uma relação no grupo muito positiva. Aliás, a experiência no futebol diz-me que normalmente quando há êxitos associado a eles estão relações muito positivas dentro do grupo de trabalho; e quando as coisas não correm bem, normalmente essas relações também não são tão positivas. Sem querer entrar muito em detalhe nesta questão, sentia que havia um ambiente muito positivo em 2012, e não tanto em 2014. Mas depois houve uma questão que, tenho convicção, acabou por ter um contributo decisivo para a nossa prestação. Que questão? A esta distância posso abordar o tema com mais naturalidade, porque já lá vai muito tempo. Eu estava no Brasil e ia vendo o que saía na imprensa portuguesa, e foi algo até evocado na altura, e que para mim, de facto, teve peso, que foi o facto de não termos feito uma adaptação adequada às condições climatéricas que íamos encontrar. E isso aconteceu porquê? Não sei dizer, não estou por dentro dos detalhes todos. Recordo-me que não sendo eu fisiologista, procurei falar com pessoas que entendiam mais do assunto, passei o meu parecer sobre o tema, mas por razões que desconheço acabou por ser decidido montar o base camp numa zona que era de clima ameno, Campinas, e que não nos permitia uma adaptação às altas temperaturas e altas humidades que iríamos encontrar logo no primeiro jogo, em Salvador da Bahia, contra a Alemanha; e também no segundo jogo contra os EUA, em Manaus. Dois contextos com temperaturas e humidades extremamente elevadas. Os jogadores portugueses já tinham jogado com temperaturas elevadas na Europa, mas a combinação de temperatura elevada com altas humidades é algo que nunca tinham experienciado e que acabou por provocar dificuldades muito grandes na capacidade que tinham para expressarem o seu rendimento. Foi notório desde o início? Isso foi sentido logo no treino oficial, no dia anterior ao jogo com a Alemanha, por volta da uma da tarde. Havia uma sensação nos jogadores de dificuldade em respirar; quem já experienciou esses ambientes sabe que é muito difícil fazer exercício naquelas condições. A Alemanha, apenas a título de exemplo, que acabou por ser a campeã, ficou alojada na Bahia. É verdade que tinha recursos que não estão ao alcance de todos. Mas eles construíram o hotel na Bahia porque esse foi um dos fatores que foi tido em conta. Recentemente, por questões de preparação no âmbito da seleção da Coreia do Sul, para o próximo Mundial, falei com pessoas que trabalhavam na seleção alemã nessa altura e confirmaram-me isso mesmo. É da responsabilidade de quem definir esse tipo de coisas? Não faço ideia, não lhe sei dizer. Em 2016, Aroso assumiu a seleção nacional de sub15 D.R. Não perguntou ao Paulo Bento? Não falou com ele sobre isso? Transmiti aquela que era a minha opinião, fruto dos contactos que tinha feito e fruto de estudo que eu próprio realizei na altura. Mas não sei, nem quero explorar isso. Quem decidiu queria seguramente o melhor, apenas este aspecto não foi eventualmente considerado primordial, e para mim era primordial. É evidente que às vezes não é fácil considerar tudo, mas julgo que seria preferível abdicar, por exemplo, de um hotel tão bom, mas podermos estar num local que nos permitisse uma adaptação melhor ao clima que íamos encontrar. Para mim este foi um fator que contribuiu bastante para a fraca prestação que tivemos, obviamente entre outros. Lembrando o jogo com a Alemanha, aos cinco minutos sofremos um penálti e o Pepe é expulso. Eventualmente, se isto não tivesse acontecido, as coisas poderiam ter sido diferentes, nunca saberemos. Mas entrar no Mundial e aos cinco minutos estar a perder 1-0 fruto de um penálti e a jogar com 10 contra uma seleção poderosa como a Alemanha, tem um impacto marcadamente negativo só por si. Após a derrota frente à Albânia, após o Mundial, contavam com a saída? Não sei se estávamos à espera, mas a frustração foi muito grande. Sentíamos que as coisas tinham que correr bem e portanto tínhamos noção que um resultado daqueles, por uma questão de responsabilidade, adensava ainda mais o espectro negativo sobre a equipa técnica. Quando o Paulo Bento é demitido já tinha decido que não continuava com ele? Tinha para mim definido, por razões que o Paulo Bento sabe e que não quero tornar públicas, que quando terminasse o nosso trajeto na seleção, não continuaria a trabalhar com o Paulo Bento. Não por qualquer questão com ele, mantemos uma boa relação até hoje, mas tinha isso claro para mim. Transmiti-lhe isso na primeira oportunidade depois de termos saído. O técnico durante um treino da seleção de Sub15 D.R. Foi convidado para continuar no seio da FPF? Na verdade, tive um convite, que muito me honrou e orgulhou, por parte do presidente Fernando Gomes, para continuar na equipa técnica da FPF no momento de saída de Paulo Bento. Não estava resolvido quem seria o selecionador, pelo menos ele disse-me que não sabia quem seria o próximo selecionador, mas gostaria que eu continuasse. Apesar do convite honroso, disse ao presidente Fernando Gomes que não podia aceitar, porque tinha entrado na seleção, ou na federação, com o Paulo Bento, e entendia que devia sair com ele. Acabei por sair, apesar de ser uma decisão muito difícil, porque gostava muito de trabalhar na seleção nacional. Costumava dizer muitas vezes que, do ponto de vista profissional, não havia mais nada acima, porque é representar o nosso país. Custou-me muito, mas achei que era correto. Tem algum episódio, alguma história que possa partilhar da seleção? Lembro-me de um episódio engraçado e que tem a ver com aquilo que o Cristiano provoca nos outros à sua volta no querer ganhar, no querer vencer em tudo, inclusivamente nos jogos de diversão. Passou-se num estágio da seleção nacional em que estavam a jogar ténis de mesa e as duplas eram o Cristiano com o Fábio Coentrão, contra o Miguel Veloso e o Nani. Os quatro jogavam muito bem ténis de mesa. Mas o curioso é que o jogo estava muito renhido e começou a haver alguma tensão, alguma pressão, nessa disputa por quem ganhava. O Fábio Coentrão, para quem conhece, sabe que é alguém que não acusa pressão. Até era de certa forma um jogador irresponsável, por vezes, na forma como abordava o treino e o jogo. Muito descontraído, às vezes quase a roçar o desleixo. E, a dada altura, o Coentrão, que era o parceiro do Cristiano, sai-se com esta: "Epá, eu estou com muita pressão, com muita pressão..." [risos]. Eu nunca tinha visto o Coentrão num contexto de jogo pela Seleção A, ou pelo Benfica, ou pelo Real Madrid, com esta imagem de tensão e de pressão sobre ele, como quando estava naquele jogo de ténis de mesa, porque a toda hora, o Ronaldo dizia: "Foca Fábio. Atenção Fábio. Vamos, concentra." Foi muito engraçado para quem estava ali à volta a ver como aquilo produziu mais efeito no Coentrão do que jogar na Liga dos Campeões, no Real Madrid ou pela seleção nacional nas grandes competições. Na época 2016/17, Aroso assumiu a equipa B do SC Braga D.R. O que fez depois de deixar a seleção? Tive um convite para colaborar com o Sport TV como comentador. Gostei muito, aliás, depois tive várias outras colaborações em alguns momentos. A seguir, tive o convite para voltar à FPF para ser o selecionador dos sub-15. Aceitou sem hesitar? Sim, apesar de ser estranho para mim o escalão etário, porque já estava há muitos anos a trabalhar com jogadores profissionais ao mais alto nível. Mas foi uma experiência muito positiva. No início pensei, será que eu me vou adaptar a miúdos desta idade? Mas depois percebi que eram já jogadores bem treinados, jogadores de muito boa qualidade, tive um prazer muito grande em trabalhar com eles e alguns desses jogadores que vou encontrando são especiais. Para eles foi a primeira internacionalização, que é algo sempre marcante, e para mim, costumava dizer que eram quase como os meus meninos, acabou por ficar uma relação afetiva bastante grande. Como foi parar ao SC Braga B, em 2016/17? Eu já tinha saído da FPF, o contrato terminou e simplesmente não foi renovado, devido a detalhes que prefiro não especificar. Voltei a dar aulas na FMH e tive o convite para voltar a colaborar com a Sport TV. O convite para o Braga surgiu através do Hugo Vieira, diretor de toda a formação do SC Braga até à equipa B, alguém que me conhecia bem do tempo do Sporting, ele jogou no Sporting quando lá estive. O convite partiu dele, quando o Abel é promovido à equipa A. Apanhei o final da época 2016/17 e segui para a época 2017/18, mas entretanto sou demitido no final de janeiro de 2018. Porquê? O que aconteceu? Resultados. Foi uma decisão do presidente do SC Braga. Foi uma experiência bastante boa, na II Liga que é muito difícil para uma equipa B, como se vai percebendo, com raras exceções. Continuei a dar aulas na faculdade como professor de futebol e voltei à Sport TV. Senti que essa experiência na Sport TV ajudou-me em termos de comunicação, uma das dimensões importantes no âmbito das competências do treinador. E depois fui para Marrocos. O técnico a dar indicações aos jogadores durante um jogo da equipa B D.R. Antes de falarmos sobre Marrocos, não tem também nenhuma história, nenhum episódio que recorde dos tempos em Braga? Lembro-me do Trincão, no SC Braga. Ele ainda tinha idade de júnior, mas já era um jogador importante na equipa B do SC Barga, já se percebia a qualidade enorme, mas tinha por vezes alguns excessos quando tinha a bola. Em sentido figurado, por vezes ele era quase capaz de, depois de driblar um colega no treino, voltar para trás para o driblar outra vez. Exagerando um bocadinho, o Trincão era assim. Apesar da equipa B serem jogadores jovens, o Trincão era mais jovem do que todos os outros e por vezes criava algumas azias e acabava depois por levar com algumas entradas mais duras dos colegas que não gostavam disso. Esse foi um aspecto que procurei melhorar nele. Mas o episódio que quero contar tem a ver com o momento da perda da bola. Por vezes, o Trincão reagia e ia defender, mas muitas vezes isso não acontecia. E lembro-me que decidi fazer dois compactos, um com imagens positivas, em que ele perdia a bola e corria para defender, e outro em que ele perdia a bola e não reagia, ficava a passo. Como ele reagiu? Chamei-o uma vez após o treino, mostrei-lhe os dois compactos e disse: "Se tu fizeres como está aqui, tu vais jogar, porque és bom jogador e vais jogar muitas vezes. Mas se fizeres como está aqui, (o compacto menos bom) vais ter dificuldade em jogar." A verdade é que, muito mérito dele, porque é um jogador com muito boa cabeça, que queria muito chegar ao topo, ele focou-se em melhorar nesse aspecto. Ao ponto de, não muito tempo depois, fizemos um jogo de treino contra a equipa A, treinada pelo Abel Ferreira, e o Abel, que tinha treinado o Trincão na equipa B, veio ter comigo e disse-me: "Epá, o Trincão está impressionante. O que ele fazia com bola, eu já sabia. Mas sem bola, ele parece um cão" [risos]. Comentei com o Trincão este feedback importante do treinador da equipa A, para reforçar ainda mais esta mudança de comportamento dele, que acho foi muito positiva para a evolução da carreira dele. Spoiler “Será muito importante para o Cristiano, e diria que para todos nós, vê-lo a terminar a carreira ainda num nível de excelência” João Aroso assume querer ser treinador principal nesta parte II do Casa às Costas, onde falámos também sobre a experiência em Marrocos, como selecionador dos sub-20, a razão por que aceitou ser adjunto de Moreno, no Vitória, e o cargo de diretor-técnico no Famalicão. Abordámos ainda a evolução do treino, o papel que desempenha atualmente ao serviço da seleção da Coreia do Sul e as ambições para a carreira Como foi parar a Marrocos para treinar os sub-20, em 2020? Através de um concurso. Abriram candidaturas, concorri, fui lá para entrevistas e sessão prática, e acabei por ser convidado para assumir a seleção de sub-20, que era o contexto mais interessante daqueles que estavam sujeitos a concurso. O que achou dos jogadores marroquinos? Muito diferentes dos portugueses? Nas suas características futebolísticas, muito parecidos. Jogadores de enorme qualidade técnica, muito habilidosos, com uma paixão enorme por futebol. Isso é extensivo ao povo marroquino. Víamos por todo o lado gente a jogar futebol. Uma paixão muito grande, o que associada a condições que penso serem inatas para jogar futebol, e às condições proporcionadas pela federação marroquina, resultam em Marrocos ser neste momento o principal país de África em termos de capacidade futebolística. Essa experiência aconteceu em tempos de covid-19. Sim. Aliás, acaba por estar muito associado a isso o facto de ter interrompido, por minha decisão, esse trabalho. Apesar das condições proporcionadas pela federação serem muito boas, um dos melhores centros de treino que alguma vez vi, os tempos eram difíceis como sabemos e acabei por decidir voltar. Teve também a ver com questões familiares e o facto de estar em Marrocos, pensando nas questões de saúde, era algo que me deixava algo desconfortável. Mais uma vez voltei a dar aulas e a colaborar com a Sport TV. Em 2020, João Aroso foi o selecionador da seleção de sub 20 de Marrocos D.R. Até ser convidado para ser treinador-adjunto do Vitória de Guimarães, certo? Sim, foi um convite diretamente do Moreno. Não conhecia o Moreno pessoalmente. Ele não tinha a habilitação necessária para ser treinador principal, não tinha o UEFA Pro e, soube depois, que foram vários os treinadores colocados em cima da mesa como opção, com a habilitação que ele precisava, mas queria alguém que o pudesse ajudar verdadeiramente e ser de facto um colaborador importante para ele. Teve referências de algumas pessoas que me conhecem e meteu na cabeça que tinha de ser eu. Recusei sistematicamente o convite, até me ter conseguido vencer quase por cansaço. Como? Ele dizia-me: "João, tenho vários nomes em cima da mesa que vêm a correr com as habilitações que são necessárias, mas quero-te a ti." Foi algo que me sensibilizou, obviamente, ainda por cima não me conhecendo pessoalmente. Eu não queria porque não precisava, nem queria estar associado, a poder pensar-se que estava a fazer figura decorativa apenas por ter o UEFA Pro. Recusei por essa razão. Mas, como disse, ele insistiu muito, explicou-me aquilo que pretendia de mim e acabei por achar que podia valer a pena. Fizemos uma época inteira. Um ano que era visto como um ano de transição, um ano muito difícil, em que saíram muitos jogadores importantes, em que houve uma aposta muito grande nos jogadores que vinham da equipa B, e acabou por ser considerada internamente e reconhecida exteriormente, como uma época muito boa. Deu-me um prazer enorme. Não lhe custou voltar à condição de adjunto? Não. Tinha ali uma missão um bocado especial, porque durante os jogos era eu que estava com a missão de dirigir a equipa, entre aspas, porque a decisão final e a liderança eram do Moreno. Mas havia um envolvimento muito forte entre toda a equipa técnica e eu tinha toda a confiança do Moreno para dar as instruções que entendesse para dentro de campo. Ele por vezes instigava-me ainda mais a transmitir informação lá para dentro. Estava perfeitamente à vontade para intervir durante o jogo e tinha o momento do flash interview. Senti que fiz algo de positivo pelo clube nessa minha missão, nesse contexto, e senti esse apreço por parte do clube. Ainda iniciam a época seguinte… Sim, mas o Moreno tomou a decisão de sair associado à eliminação europeia. Tive convite para continuar, mas entendi que devia sair. Um bocadinho à imagem do que se tinha passado na seleção nacional, porque tinha ido para o Vitória por convite e uma insistência muito grande do Moreno. Fiz um jogo como interino contra o Gil Vicente e depois saí. Durante uma palestra com a seleção de sub 20 de Marrocos D.R. Que momentos mais marcantes guarda dessa passagem pelo Vitória? Gostei muito de trabalhar no Vitória, não é um clube fácil, a exigência é muitíssimo grande, houve momentos difíceis, lembro-me de um jogo para a Taça de Portugal em que estamos a vencer em Braga por 2-0, ao intervalo, com uma superioridade tremenda sobre o SC Braga. Jogávamos regularmente com metade da equipa que no ano anterior jogava na equipa B, na Liga 3. Depois de termos sido muitíssimo superiores ao SC Braga, na segunda parte, em cinco minutos, já perto do final do jogo, tudo virou, não sem que antes tivéssemos estado muito perto de fazer o 3-0. Se o tivéssemos feito, tenho a certeza que o SC Braga já não conseguia reerguer-se e venceríamos. Mas o SC Braga acabou por marcar três golos e virou o jogo. Senti aí que veio ao de cima a inexperiência da nossa equipa. Sentimos falta de ter mais jogadores com mais maturidade. Como se tornou diretor-técnico do Famalicão, na época 2024/25? Foi um convite do presidente que me surpreendeu muito. O que o aliciou no cargo? O que eu queria era treinar. Tinha tido várias possibilidades que acabaram por não acontecer, mas a minha expetativa era essa. Sempre que pode João Aroso volta a dar aulas na FMH D.R. Essas possibilidades para treinar eram em Portugal? Sim, nomeadamente de um clube da II Liga, com um projeto muito interessante. Mas não aconteceu, surgiu o convite do Famalicão por parte do seu presidente e fiquei surpreendido porque não estava à espera. Nunca tinha desempenhado funções de diretor-técnico. Mas já tinha tido um convite, que recusei, para ser diretor-técnico da Academia Sporting. Quando e por que recusou? Recusei porque preferia treinar, essencialmente por isso. Foi antes de assumir a seleção de sub-15, no início de 2015, depois de ter saído da seleção nacional A. Apesar do prestígio associado a ser diretor-técnico de uma academia como a do Sporting, queria treinar. Por isso, quando surgiu o convite do Miguel Ribeiro, presidente do Famalicão, a minha primeira reação também foi dizer-lhe: sou treinador, quero é treinar. Mas ele pediu para não excluir a hipótese e disse que queria exatamente um treinador para esta função. Tivemos algumas conversas, é uma pessoa de enorme visão e entendia ser importante haver alguém que tivesse conhecimentos semelhantes aos meus para definir e ajudar a colocar em prática a visão que o clube tinha para o futebol. Nada a ver com contratações, ou com direção desportiva, tudo o que tinha a ver com o mercado era com ele e com o André Vilas Boas, não o do FC Porto. Ele queria que exercesse funções desde a equipa de sub-16 até à equipa principal, que tinham a ver com a visão do futebol para o clube, alicerçada numa forma de jogar atrativa e no desenvolvimento dos jogadores. Deu-me algum tempo para pensar e acabei por aceitar. Porquê? Muito por aquilo que é a dimensão do clube e a dimensão para a qual o clube se está a projetar. Entendi que poderia ser uma experiência positiva. Só coloquei uma condição, que se me surgisse um convite interessante para treinar, ele me deixasse sair. Foi uma experiência curta, não chegou a dois meses. Sim, embora eu já estivesse a trabalhar antes, de forma oficiosa. Em 2022/23, João Aroso aceitou ser treinador-adjunto de Moreno, no Vitória de Guimarães D.R. Do que mais gostou, e menos, no papel de diretor-técnico no Famalicão? A única coisa difícil para mim era chegar ao momento do treino e estar de fora do campo [risos]. O que senti de positivo, em primeiro lugar, foi a relação com toda a gente no clube, que foi muitíssimo boa. Só tenho a dizer coisas boas, é um clube que está muito bem preparado a todos os níveis, em todos os seus departamentos, para vir a ser de excelência. Atualmente é treinador-adjunto principal da seleção da Coreia do Sul. Por que aceitou o cargo? Acima de tudo o poder voltar a treinar, associado a um contexto de nível elevado, com jogadores de muito bom nível, numa seleção que habitualmente está presente nos Campeonatos do Mundo. E felizmente concretizámos uma vez mais esse objetivo obrigatório. Mas o principal aspeto que me convenceu teve a ver com o papel que pretendiam de mim. Que papel é esse? Alguém com uma função especial na preparação da equipa. Ou seja, há um selecionador que obviamente é o líder principal coreano, mas pretendiam alguém que se assemelhava a ser um treinador de campo, que fosse responsável pela preparação do treino, pela organização de todo o processo de definição da forma de jogar, de liderança do processo e condução dos trabalhos durante o treino. No fundo, não sendo o principal responsável, tenho um envolvimento que em muito está relacionado com aquilo que são as incumbências de um treinador principal. Este aspeto foi decisivo para aceitar. Aroso (2º à esquerda) durante um treino do Vitória D.R. Como tem sido essa experiência, tanto a nível de condições, como de jogadores? Havia aqui uma dose de risco elevada que era o facto de ir trabalhar com um selecionador coreano que não conhecia. Ou melhor, eu já o tinha conhecido porque veio numa comitiva da federação coreana à Europa à procura desse treinador e foram entrevistados vários treinadores em Portugal e em Espanha. Mas obviamente que havia um mar de imprevisibilidades. Houve um processo de adaptação de ambos os lados, uma evolução progressiva daquilo que foi a relação de trabalho, uma confiança que se foi incrementando relativamente à minha pessoa, seja no âmbito pessoal, seja profissional. Sinto-me muito bem com o trabalho que desempenho e julgo que as coisas globalmente têm funcionado muito bem, a prova disso é que foi possível eu levar um analista de jogo, e foi-me solicitado que indicasse também um preparador físico e um treinador de guarda-redes. E recentemente juntou-se também um fisioterapeuta. No fundo, é selecionador sem o ser no papel. Não, não digo isso. De facto, a liderança é do selecionador coreano, mas tenho uma envolvência e um contributo significativo em todas as áreas da preparação. Quais são os objetivos traçados para o Mundial? Os objetivos ainda não foram assumidos formalmente pela federação, mas sinto que, apesar de termos alguns jogadores de muito boa qualidade, a quantidade em qualidade é muito distinta da seleção portuguesa, por exemplo, como é evidente. Por isso, algo que seja passar à segunda fase já seria positivo, a meu ver, sem que isso ainda tenha sido referido de forma oficial, ou para fora, em termos de comunicação. Sempre que está disponível João Aroso faz comentário para a Sport TV D.R. Em termos fisiológicos e endomorfos, o jogador coreano é muito diferente do português, ou do marroquino? Diria que há alguma tendência para o jogador português e marroquino ter mais alguma habilidade natural. O que distingo no jogador coreano é algo que não acontece tanto em Portugal, globalmente até noutros países, que é a capacidade de serem ambidestros. Muitos deles jogam quase com igual perícia com ambos os pés. Esta é uma característica muito interessante. Não sei se é extensível a mais jogadores asiáticos, não tive ainda a possibilidade de perceber. Se fossem mais talentosos tecnicamente, aliado à capacidade de serem ambidestros, ninguém os parava. Há jogadores bons, há jogadores talentosos, posso destacar um que tem uma habilidade incrível, o Kang-in, que joga no PSG. Mas se generalizar, diria que, normalmente, há mais jogadores portugueses e marroquinos mais habilidosos do que os coreanos. E depois, os jogadores mais genuinamente coreanos, que são os que jogam na Coreia, têm uma disponibilidade para colocar em prática aquilo que lhes é pedido que é absolutamente impressionante. A forma como procuram do ponto de vista das dinâmicas táticas corresponder àquilo que é pedido é de salientar. João Aroso na semana em que foi entrevistado por Tribuna RUI DUARTE SILVA O que mais o surpreendeu na cultura coreana? Em geral, o povo coreano é muito trabalhador e tem uma definição de hierarquia muito rígida. Receberam-me muito bem, tratam-me muito bem, mas também do ponto de vista hierárquico sou visto como alguém que está num patamar relativamente elevado e tudo se torna mais fácil dentro desse ponto de vista. Com o tempo vamos percebendo que não é só cortesia, conhecendo um pouco melhor as relações profissionais, percebemos que são um bocadinho mais rígidos e mais exigentes onde essa hierarquia é mais marcada. Obviamente que o futebol não é alheio à sociedade, percebe-se isso, essa questão hierárquica, mesmo na forma como se olha para o jogador em função do seu estatuto e como o próprio jogador em função do estatuto que tem, se posiciona no seio do grupo de trabalho, perante a equipa técnica, etc. Os jogadores mais jovens que jogam na Coreia são de uma humildade extrema. Isto tem muito a ver com a sociedade coreana e essa tal predisposição para cumprir, para fazer aquilo que lhes é dito para fazer. Tem contrato até quando? Até ao Mundial, com a possibilidade de ser prolongado mais seis meses, até à Taça Asiática, que é em janeiro de 2027. Quais são os seus objetivos profissionais agora? O que ainda ambiciona? Tendencialmente, o passo seguinte será ser realmente treinador principal. Gostava de reiniciar esse papel como treinador principal num clube, numa seleção, ou é-lhe indiferente? É-me praticamente indiferente. Depende do contexto, da dimensão do projeto, da qualidade dos jogadores, da qualidade da liga. Tem mais impacto isso do que o facto de ser seleção ou clube, sendo que a uma seleção tem algo inigualável, que é a possibilidade de combinar o lado profissional e pessoal como em nenhum outro contexto, porque nos permite, de facto, uma melhor gestão da nossa vida pessoal. Do ponto de vista profissional estou totalmente preparado e interessado em qualquer contexto, o que pesa sobretudo é a dimensão, a atratividade do mesmo. Em 2024/25, Aroso foi diretor-técnico do Famalicão durante dois mes D.R. Tendo em conta a sua experiência, o que mais mudou no treino de há 20 anos para cá? Isso dava para um livro… [risos]. Posso dizer que havia antes uma preocupação marcadamente física, de uma sobrevalorização da preparação física em detrimento das outras dimensões do rendimento, nomeadamente durante a pré-época. Diria que tudo começou a mudar significativamente no início dos anos 2000 e houve um contributo enorme do José Mourinho, não que já não se falasse da importância de mudar a forma como o treino deveria ser, mas o José Mourinho tem uma importância enorme pela dimensão que ele atinge e porque marcadamente, para onde ele ia, o seu registo do ponto de vista do treino era completamente diferente. Este foi um aspeto muito importante e que ajudou a mudar e a fazer evoluir o treino e o treinador português. Que caminhou em que sentido? De percebermos que podemos treinar em especificidade. Isso quer dizer o quê? É treinar em função da forma de jogar pretendida. Não se trata só de pôr a bola lá, isso já era uma coisa corrente na década de 90, treinar com bola, é muito além disso. É, na esmagadora maioria do tempo, realizar exercícios que têm a ver com o desenvolvimento da forma de jogar pretendida. Aqui com a dimensão tática do jogo que queremos jogar, a assumir, diria que, a referência, a liderança deste processo de treino. O selecionador da Coreia do Sul e João Aroso D.R. Entretanto, muita coisa mudou também com a especialização e a importância cada vez maior da ciência no treino. Sem dúvida. Esse é um aspeto que eu diria que sucede depois e que permite, no fundo, olhar para o jogador como... Como é que eu lhe hei de dizer? Não quer chamar máquina. Não, não quero mesmo chamar máquina, sou mesmo contra isso. O futebol é um jogo jogado por humanos, onde a dimensão humana tem uma importância enorme. Para mim, se calhar a mais importante no processo de treino. Olhar para o jogador como máquina é algo que recuso totalmente. O que trata é de preparar o jogador para poder treinar em especificidade. No fundo, do ponto de vista da prevenção de lesão, da potenciação ou maximização das suas capacidades físicas. É olhar para o jogador não apenas como um talento com boas condições físicas, mas como um todo, desde a componente física, fisiológica à psicológica, é isso? Concordo com isso, até porque para além da intervenção no âmbito da preparação física, em que acima de tudo a dimensão da prevenção da lesão desenvolveu-se muito nas últimas décadas, há toda essa questão importantíssima de olhar para o jogador como um todo e por isso os clubes estão dotados hoje de condições para individualizar do ponto de vista da nutrição; há intervenção também no âmbito da psicologia. No fundo, é isso, olhar para o jogador como um todo e procurar que estas outras dimensões sejam contempladas e permitam ao jogador ter, de base, condições para poder render a um nível top. Mas depois o foco essencial do treino coletivo é proporcionado pelo treinador, que vem nesta tendência de uma definição de como se quer jogar e em função disso direcionar a preparação do treino. A explicar um exercício aos jogadores da seleção coreana D.R. É devido a essa evolução que teremos certamente o Cristiano Ronaldo a jogar o Mundial, com 41 anos. Acha que vai conseguir fazer um bom Mundial? É muito difícil responder. Já me perguntaram até quando é que ele poderá jogar e mais não sei o quê… O que digo é o seguinte: obviamente que a idade vai deixando a sua marca e o próprio Cristiano tem referido ter noção disso. O Cristiano de hoje, como jogador, é um Cristiano diferente, nem poderia ser o mesmo que encontrei na seleção e muito menos aquele que vi no Sporting, quando tinha 18 anos, como é evidente. A equipa tem que se moldar a essa situação, porque as características do Cristiano hoje, continuando a ser um grande finalizador, não lhe permitem depois obviamente ajudar tanto a equipa na questão defensiva. A equipa tem que se moldar também e o selecionador tem que criar um contexto para que possa ter proveito das características melhores que o Ronaldo ainda tem e esconder um pouco algumas limitações que daí advêm. Sem ser uma lesão, o que pode levar Cristiano a abandonar os relvados, tendo em conta que ele parece continuar bastante motivado para jogar? Acredito que o que possa vir a ser determinante é a perceção dele de que já não consegue estar num patamar de excelência. Provavelmente nenhum jogador chegou à idade que ele tem a jogar ao nível a que ele joga. É algo de notável. O Cristiano esteve sempre num patamar de excelência e não conseguindo estar nesse patamar, acredito que ele próprio terá a perceção que é melhor terminar, porque será muito importante para o Cristiano e diria que para todos nós vê-lo a terminar ainda num nível de excelência. Acredito que tenha consciência disso. Mas o Mundial também é já para o ano... Se lhe dessem oportunidade de escolher, qual a liga onde gostaria de ser treinador? Gostava de trabalhar em Inglaterra. A minha preferência claramente é essa. Já esteve perto de acontecer, não na Premier League, como treinador principal. No balneário com o jogador coreano Son D.R. Qual o treinador com que gostava de ter trabalhado diretamente? Isso é uma pergunta difícil, porque há excelentes treinadores. Seria uma lista grande e corria o risco também de ferir algumas suscetibilidades. Prefiro dizer o seguinte, apesar de sentir-me preparadíssimo e de pretender no futuro ser treinador principal, já tomei a decisão no passado de ser treinador-adjunto com funções relevantes num patamar elevado. Ou seja, entre ser treinador principal num patamar não tão interessante, não tenho problemas em optar por trabalhar a um nível top como adjunto, se houver essa possibilidade. Por isso aceitei este projeto da seleção coreana. Posso dizer que tive pouco tempo antes a possibilidade de ser treinador principal numa outra liga e recusei. Em que liga? Pouco depois de entrar no Famalicão tive várias oportunidades, ou várias abordagens, uma delas aconteceu já eu tinha tido a entrevista para a federação coreana, mas não sabia no que ia dar. Foi de um clube da Liga Profissional da Arábia Saudita, o Al-Akhdoud, onde está agora o treinador Paulo Sérgio. Não tendo eu um currículo forte como treinador principal, ter a oportunidade de trabalhar na primeira liga da Arábia Saudita era interessante, tinha muitas coisas boas, e se não estivesse a trabalhar - eu estava no Famalicão -, seguramente teria ido. Mas depois de hesitar bastante acabei por recusar precisamente porque preferi estar num contexto onde me sentia bem, mesmo sem saber ainda se isto da Coreia iria acontecer, ou não. Mas financeiramente era atrativo o convite, ou não? Obviamente que financeiramente era bastante atrativo, mas percebi por informações que recolhi que do ponto de vista das condições do clube e do local onde iria viver, eu iria estar em sofrimento só para estar na Superliga da Arábia Saudita. Seguramente muitos treinadores teriam decidido de forma diferente. Entendi assim porque também pelo seguinte: há bocadinho perguntou-me qual o contexto onde gostaria um dia de estar a trabalhar. Se porventura o contexto de menos boas condições e de um local menos agradável para viver fosse em Inglaterra, eu teria ido. Porque Inglaterra é uma ambição, é um objetivo. A Arábia, apesar de toda a parte boa que sabemos que existe, de estarem lá grandes jogadores, grandes treinadores, não é, apesar de tudo, o meu objetivo de carreira. Por isso, na altura, acabou por não ser suficiente para pedir ao presidente Miguel Ribeiro, do Famalicão, para me deixar sair. O técnico português assume que se a Coreia do Sul passar à segunda fase no Mundial, já será positivo D.R. Onde ganhou mais dinheiro até hoje? Na situação onde estou atualmente. Já deu para investir? Sim, em imobiliário e algumas aplicações financeiras. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Gosto muito de férias, por isso diria em viagens. Qual o local ou o país que mais lhe encheu as medidas? É difícil dizer, são tantos, mas posso dizer que adoro o Brasil. Tem algum hobby? Muitas vezes o meu tempo livre é ocupado a ver futebol na perspetiva de desfrutar, sem estar relacionado diretamente com o meu trabalho. Só que é quase impossível, porque dou por mim a ver jogos de futebol de outras ligas e a parar, a puxar atrás para analisar dinâmicas táticas, portanto é quase impossível dissociar. Mas diria que dos melhores prazeres que tenho é ver um grande jogo de futebol ao mesmo tempo que saboreio um bom vinho tinto. Também gosto de ler, embora acabe por só o fazer praticamente em férias para desligar um bocadinho do ponto de vista mental. Alguma preferência do género de leituras? Gosto muito dos livros do José Rodrigues dos Santos, porque permitem, em forma de romance, conhecer mais sobre diversos temas porque ele tem sempre uma base científica. É um homem de fé, acredita em Deus? Tenho formação católica, mas não sou praticante e diria que não sou religioso. Superstições, tem ou teve? Não tenho, coisa que é muito difícil no futebol, onde as pessoas são muito supersticiosas. Em mais um momento de treino com a seleção da Coreia D.R. Acompanha ou pratica outra modalidade sem ser futebol? Gosto de ver outras modalidades, como andebol e basquetebol, mas o meu tempo é esmagadoramente dedicado ao futebol. Qual a maior frustração que tem na carreira? Não ter aproveitado o Mundial do Brasil para mostrar ao Brasil, que naquela altura não acreditava no treinador e no jogador português, as nossas capacidades. Agora as coisas mudaram muito, fruto da excelência do trabalho de alguns treinadores portugueses, mas na altura eu sentia que era uma oportunidade grande de marcar, num grande país do futebol, que sempre olhou para Portugal como um país menor. Mas, infelizmente, por razões que atrás toquei, acabou por não acontecer. E o maior arrependimento até hoje? Não tenho nenhum arrependimento. Como disse, não me senti orgulhoso da decisão que tomei de sair do AEK de Atenas, porque sinto que o meu dever era ter continuado, mas não me arrependo porque gostei muito de voltar ao Sporting e ao futebol português. O momento mais feliz na carreira? O momento da entrada na seleção nacional, talvez equiparado à sensação do apuramento para a primeira grande competição, que foi o Euro 2012. O entrar, a sensação de estar a representar a seleção nacional e depois ter conseguido esse apuramento. E depois o tal momento da chegada a Lisboa, após o Euro 2012, a forma como fomos recebidos em Lisboa, pelo povo português, foi uma sensação muito, muito boa. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que um dia gostaria de treinar? Não tenho. Gostaria obviamente de trabalhar em grandes clubes, felizmente já passei por grandes clubes, mas não tenho qualquer preferência. RUI DUARTE SILVA Há alguma regra, alguma lei do futebol que se pudesse alterava, ou bania? Toco em dois aspetos. Embora a carga de subjetividade seja muito grande, a capacidade de se interpretar o que é mão na bola e bola na mão, tem que melhorar. Muitas vezes tenho esta discussão com árbitros, tem de haver uma perceção melhor da parte dos árbitros daquilo que é o movimento humano, porque senão nós estamos a caminhar para algo impensável, que é os jogadores terem de jogar quase como se fossem matraquilhos, ou seja, com os braços esticados ao longo do corpo. Para quem tem noção do que é o movimento humano, por vezes é ridículo assistir a alguns penáltis marcados, mas, infelizmente para o público, para os adeptos, é mais aceitável que qualquer bola que toque na mão seja assinalado penálti do que ter esta capacidade de interpretar. E o outro aspeto? Tem a ver com a intervenção do VAR. Acho que o VAR intervém demasiado. Para quem é apaixonado por futebol, retira muito daquilo que é a emoção do jogo. Hoje muitos já não comemoram o golo da mesma maneira como antes porque fica sempre a dúvida, será que é mesmo o golo, ou não. Acho que se deveria restringir, mesmo correndo o risco de poder haver mais subjetividade e até mais erro nas análises. Para mim restringia a intervenção do VAR a decisões com impacto muito claro no jogo, mas não tanto como se vem assistindo, porque retira algo que não é substituível, a emoção do jogo de futebol, e assim estamos a empobrecer este jogo de que tanto gostamos. Quais foram as maiores amizades que fez no futebol? Corro o risco de, se esquecer de alguém, ser muito injusto. Mas, de ex-jogadores, vou distinguir uma das melhores pessoas que conheci no futebol, pela sua integridade, pelos seus valores, é alguém que gosto de ouvir por vezes quando tenho algumas dúvidas do ponto de vista de decisões profissionais... Falo do Rui Jorge. É um ex-jogador que se tornou um amigo. Tem algum talento escondido? Não. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 7 Dezembro 2025 David Sualehe Spoiler “Era júnior do FC Porto, tirei uma selfie com uma amiga que tinha cachecol do Benfica. Foi parar às redes, não joguei mais essa época” David Sualehe, 28 anos, filho do empresário de futebol Mohamed Afzal, começou a jogar futebol no CAC da Pontinha, mas até chegar a sénior passou pelas escolas do Sporting e do FC Porto. Nesta parte I do Casa às Costas revela como a família acabou por ir viver para a Invicta, onde diz ter feito as maiores amizades, fala da exigência do FC Porto e do ataque à Academia de Alcochete, entre outras histórias Nasceu em Lisboa. Tem irmãos? Tenho dois irmãos mais novos, o Nuno e a Sara. Quem são os seus pais e o que fazem profissionalmente? O meu pai é o Mohamed Afzal, trabalhou quase sempre no futebol, é empresário de jogadores e jogou, não num nível elevado. Jogou no Odivelas, se não estou em erro. Mas quando nasci ele não era nem uma coisa, nem outra, trabalhava no ramo farmacêutico, só depois se tornou empresário de jogadores. A minha mãe chama-se Cristina e foi professora de Educação Física, já não exerce. Tem dupla nacionalidade, certo? Não. Nasci em Portugal, sou só português. O meu pai é que nasceu em Moçambique e tem dupla nacionalidade. Mas já me ligaram da federação de Moçambique a saber se era possível representá-los, mas ainda não dei esse passo. Primeiro ainda tenho de tratar da dupla nacionalidade. Foi uma criança tranquila ou deu muitas dores de cabeça? Sempre fui um miúdo muito tranquilo. Sempre gostei muito do futebol, era o meu desporto favorito, apesar de ter feito outros desportos. A minha mãe gosta muito do mar, por isso tentei surf, bodyboard, sempre fiz muitos desportos de água. Pratiquei ténis também, mas preferi sempre o futebol e acabei por optar pelo futebol. David (em baixo à esquerda) com os pais e os irmãos D.R. Em pequeno já dizia que queria ser jogador? Jogador e astronauta [risos]. Quem eram os seus ídolos? Eu gostava muito do Nuno Gomes em criança. Tinha quase três anos quando o meu irmão nasceu e os meus pais perguntaram-me como gostava que o meu irmão se chamasse e respondi: Nuno Gomes [risos]. Acho que o meu irmão chama-se Nuno por causa disso. Em casa torcia-se por que clube? O meu pai sempre foi do Sporting. A minha mãe não ligava muito, mas acho que também simpatizava com o Sporting. Mas nunca fomos influenciados. Os meus pais sempre nos deram liberdade para escolher. Já tive algumas simpatias. Quando era pequeno era mais pelo Sporting, mas depois fui jogar para o FC Porto e fiquei mais fã do FC Porto. Gostava da escola? Gostava de brincar com os meus colegas, agora, estudar não era uma coisa que me deixava feliz. Quando começou a jogar futebol e em que clube? Os meus pais meteram-me no futebol muito cedo, aos 3 ou 4 anos fui para a Futescola do Carlos Xavier, em Alfragide. A seguir fui para o Odivelas onde estive dois ou três anos, mas comecei a desmotivar-me, não estava a gostar muito e quis parar. Durou pouco tempo, porque depois o bichinho voltou e quis ir para um clube. Como o CAC da Pontinha era perto de casa e sempre teve uma boa imagem em termos da formação, fui para lá. Estive lá quatro ou cinco anos, desde os sub-10 até aos sub-14 ou sub-15. David Sualehe com uma bola junto do irmão Nuno D.R. Altura em que ingressa no Sporting. Como aconteceu? No CAC sempre me destaquei, era um jogador muito importante para a minha equipa, estava feliz, jogava muito. Um olheiro do Sporting, o João Morais, que ainda hoje é amigo da família, observou-me nos jogos do CAC e andaram atrás de mim algum tempo. Mas eu não queria sair porque tinha lá os meus amigos. Às tantas, disse mesmo: "Só vou se um amigo que joga comigo for." Eles só me queriam a mim, e não fui [risos]. Isto nos sub-13. Acabei por ficar mais um ano no CAC. Até que no final desse ano, esse scout do Sporting veio a minha casa, insistiu com os meus pais, insistiu comigo, os meus pais perguntaram o que queria, deixaram-me escolher. Como era o Sporting, uma das melhores academias do mundo e era o meu clube, deu-me um clique e quis ir. Também começava a imaginar que queria e podia ser mesmo jogador. Nessa altura com o que sonhava? Para ser sincero, não pensava muito no que queria ser. Queria divertir-me. Estive um ano no Sporting, não foi nada especial em termos de futebol, porque era miúdo, queria divertir-me e não estava muito feliz. Porquê? A exigência era maior? Sobretudo porque morava em Odivelas, ia para a escola em Cascais, onde a minha mãe dava aulas, nos Salesianos de Manique, e depois ainda tinha que ir para os treinos, em Alcochete. O Sporting tinha várias carrinhas, eu apanhava uma para ir de Cascais a Alcochete. Acabava o treino muito tarde, chegava a casa ainda mais tarde e no dia seguinte era o mesmo, sempre o mesmo ritmo, um ritmo alucinante, que me fez ir um bocado abaixo e não estar muito contente. Quis sair do Sporting? Depois desse ano falei com os meus pais, disse que não estava muito contente. O Sporting queria que eu ficasse mais um ano, nos sub-15, que já era o campeonato nacional, mas eu também não me sentia uma grande aposta do Sporting, ou que era um jogador assim tão importante para eles, e pedi aos meus pais para sair. David a jogar à bola com o pai Afzal e o irmão Nuno ao fundo D.R. Jogava em que posição? Já jogava como lateral esquerdo ou extremo esquerdo. Fazia as duas posições. Os meus pais falaram com os responsáveis do Sporting e deixaram-me sair. Quis voltar para os meus amigos e para o CAC, onde fiz o campeonato nacional. Joguei muito bem e o Sporting voltou a mostrar interesse, o Benfica também e o FC Porto. Como acabou por ir parar ao Boavista? O meu pai já era empresário há algum tempo e trabalhava muito com a zona norte de Portugal, onde havia mais clubes. Os meus pais decidiram que toda a família ia viver para o Porto. Perguntaram-nos como víamos essa mudança, eu e os meus irmãos encarámos de uma forma tranquila, apesar do que isso acarretava. Deixar a infância, os amigos para trás, mudar de cidade, era uma mudança um bocado grande. Depois de lá estar, custou-lhe muito adaptar? Não. Acho que foi mais difícil para a minha irmã mais nova do que para mim, e para o meu irmão. Para mim foi muito tranquilo. Tinha a hipótese de ir para o FC Porto, mas como o meu pai era empresário e sempre gostei de ganhar as coisas por mim, pelo meu mérito e pelo que posso trazer de bom valor, decidi que queria começar por baixo. Se fosse para o FC Porto queria que houvesse um real interesse e que fosse um olheiro a observar-me. Não queria ser mais um. Então fui fazer uns treinos ao Boavista, para ver se me queriam. Eu era sub-16 e calhou fazer o treino com a equipa sub-17, não sei porquê. Quiseram logo ficar comigo e em vez de ir para a equipa dos sub-16, fiquei na equipa dos sub-17, o que me permitiu dar um salto, que me ajudou imenso. David Sualehe (1º à direita) começou a jogar futebol no CAC da Pontinha D.R. Ainda estudava? Sim, estudava no Porto. Adaptei-me muito facilmente ao Porto. Vivíamos na zona da Avenida da Boavista e tive uma coisa que nunca tive em Lisboa, que foi qualidade de vida. A minha escola era ao lado da minha casa. Isso deu-me uma liberdade e uma qualidade de vida muito grande, porque tinha os meus amigos sempre perto, não tinha que andar de um lado para o outro, a fazer viagens de uma hora ou mais. Treinava a 5 km, subia a avenida e estava no treino. Sentiu logo a rivalidade com o FC Porto quando entrou no Boavista? Sim. Quando íamos jogar contra eles já havia uma rivalidade muito latente. Esse ano correu-me muito bem, joguei sempre e no final da época surgiu o interesse do FC Porto. O Boavista queria renovar comigo para jogar nos juniores, mas avisei que tinha o interesse do FC Porto e que queria ir. Não foi visto com muito bons olhos da parte deles, devido a essa rivalidade, mas pronto, faz parte do futebol. Já ganhava dinheiro no Boavista? Não. Só comecei a ganhar quando assinei no FC Porto. Assinei por três anos. Comecei por ganhar à volta de €800. Recorda-se do que fez com o primeiro ordenado? Não, já não me recordo. Devo ter comprado roupa ou algo assim. Os jogadores do CAC Gonçalo, David, Alexandre e Salvador, foram chamados para fazer uns treinos no FC Porto D.R. Entrou no FC Porto na época 2013/14? Sim. Lembro-me que fui assinar antes das férias de verão. Fui à Casa do Dragão, fui ao Estádio Dragão e foi uma sensação única, porque estás a entrar num dos maiores estádios do país e o FC Porto na altura estava muito forte. Entrar naquele clube, daquela dimensão, era um orgulho. Tu entras ali e não estás só a assinar por um clube, estás a assinar por uma nação que vive aquilo de uma maneira fora do normal, é a mística do FC Porto. Não é à toa que toda a gente fala da mística e do que é representar aquele clube. É uma coisa mesmo... É diferente. Uma mentalidade ganhadora que não vi em mais lado nenhum. Que mudanças maiores é que sentiu relativamente, por exemplo, ao Boavista? Quando tu entras em campo com aquela camisola, tu és obrigado a ganhar, sim ou sim. Seja contra um clube da II Liga, da I Liga ou da Champions League. A única mentalidade é trabalhar e ganhar. Quais foram as primeiras amizades que fez no FC Porto? Um foi o Rui Varejão, nem sei se ainda está a jogar futebol. Também fiz amizade com o Sandro Fonseca, o André Mesquita, o Fernando Fonseca. Mas a primeira grande amizade, ainda hoje é um dos meus melhores amigos, foi com o Clever Jansen, que na altura era considerado uma das promessas do futebol, mas hoje já não joga. Era o nº10, capitão do FC Porto, da seleção; o futuro não foi muito feliz com ele, mas foi uma das pessoas mais importantes na minha passagem pelo FC Porto, ficámos logo muito amigos. David (4º atrás a partir da direita) com a sua equipa de sub13 do CAC D.R. Aos 16 anos sentia que ia concretizar o sonho de ser jogador de futebol? Já não tinha dúvidas? Não, sempre levei o futebol numa de divertir-me. Queria ser jogador, mas não era uma coisa de vida ou de morte. Era algo que ia levando. Ao assinar por um clube como o FC Porto, claro que pensas em objetivos e metas, mas sempre fui uma pessoa com os pés assentes na terra. Se fosse ali era para ser ali, se não desse, também pegava nas minhas coisas e ia para o outro lado, nunca tive problema. Mas sim, quando estás ali tens sempre o objetivo de chegar à equipa principal e já contava com isso. Até aconteceu uma coisa muito engraçada. Pode contar? Subi de sub-17 para júnior. Fui chamado para a seleção nacional de sub-18 logo no início e o treinador Luís Castro, que estava na equipa B, pediu para eu ir lá. Nessa altura não era muito normal chamar um miúdo do primeiro ano de júnior para começar a época com a equipa B. Comecei a fazer os estágios com a equipa B do FC Porto, que já tinha nomes muito sonantes, como André Silva e Gonçalo Paciência. Fiz a pré-época com eles e lembro-me que essa foi a primeira vez que pensei, estou a ir pelo caminho que quero, estou a conseguir evoluir. Porque aí já começamos a lidar com o futebol profissional, a ter um cheirinho do FC Porto no modo e no nível profissional e começas a ver que as coisas estão a tornar-se realidade. David Sualehe (em baixo) com os amigos Diogo Gomes e Ricardo Oliveira D.R. Mas nunca estreou pela equipa B, nem pela equipa principal do FC Porto, pois não? Não. Acabei por fazer dois anos bons nos juniores, com o campeonato de sub-19 e a Youth League. Fiz duas pré-épocas com a equipa B. Tive duas ou três chamadas à equipa B do FC Porto para jogos oficiais, mas nunca joguei. Nessa altura tive um colega que teve um salto muito grande, o Rúben Neves, que passou dos sub-17 para a equipa A. O Lopetegui chamou-o, ele correspondeu às expectativas e deu o salto. Nós todos tínhamos a imagem dele na cabeça; então se o Rúben que estava connosco este ano conseguiu, nós também podemos conseguir. Mas não foi possível. E não foi possível porquê? Como acabou por ir novamente para o Sporting? É uma história um pouco caricata que saiu em todos os jornais e revistas. Eu era jogador dos juniores do FC Porto e o meu pai era empresário do Rui Vitória, que na altura era treinador do Benfica. O meu campeonato estava a acabar. Nem é preciso dizer que entre FC Porto e Benfica há uma rivalidade de morte. Nesse ano a equipa A do Benfica foi campeã e no dia em que o Benfica foi jogar o jogo do título, eu estava a ir para Lisboa de carro com duas amigas. Desde que assinei pelo FC Porto torcia mesmo pelo FC Porto, era o FC Porto que queria que ganhasse, era o meu clube, na altura. Mas, como disse, estava no carro com duas amigas, ia levar uma delas para Lisboa. Ela ia ver o jogo e levava um cachecol do Benfica com ela. Acabei por ser um bocado ingénuo. Tiramos uma selfie, era uma coisa que ia ficar para nós, eu ainda disse, não metas isso em lado nenhum, porque sou jogador do FC Porto e não posso tirar estas fotos assim. Ela disse que era para guardar, que era para nós. Só que, entretanto, ela mandou a selfie para alguma amiga ou amigo e a foto começa a circular e a espalhar-se, sabemos todos como é que funcionam as redes sociais e o mundo da internet. Os responsáveis do FC Porto não gostaram de o ver ao lado de uma adepta do Benfica? Pois. Deu um problema muito grande, essa foto foi parar a todo o lado, aos adeptos, à estrutura, e as pessoas viram como uma falta de respeito. Eu sei o que aconteceu, não foi nada disso, foi uma situação infeliz. Mas a partir daí as coisas começaram a degradar-se muito no FC Porto. Acabei por ser afastado da equipa, não joguei mais até ao final da época, o meu treinador, o Folha, pediu aos responsáveis do FC Porto para eu acompanhar a equipa, porque era um jogador importante no grupo, mas não podia jogar, só treinar. Treinei com eles até ao final, fomos campeões. Estava em conversas para renovar com o FC Porto antes disso acontecer, mas devido à situação foi impensável. David jogou no FC Porto onde foi bi-campeão pelos juniores D.R. Olhando para trás, acha que o FC Porto foi justo consigo? Continua a compreender a atitude do clube, ou considera que foram demasiado duros? Para ser sincero, na altura compreendi, sempre com tristeza porque sabia que não o tinha feito por mal. Olhando para todas as partes, é uma situação perfeitamente compreensível da parte deles, porque, querendo ou não, há uma rivalidade muito forte entre o FC Porto e o Benfica. São os dois maiores rivais em Portugal. Hoje, sei que devia ter sido mais inteligente ou mais cuidado, bastava não tirar a foto. Mas, era uma coisa entre amigos, supostamente ia ficar para nós. Aprendemos com os erros e isso fez-me olhar para as redes sociais e para tudo o que é o mundo da internet de uma forma diferente. Deixou-me alguma mágoa porque acabei por não ficar no clube de que gostava e que podia permitir-me chegar a outros patamares. Mas a história que mais me impactou nessa época, e que me marcou para a vida, foi a morte do meu amigo Diogo Gomes, que faleceu num acidente de carro. Ele na altura era jogador do Vitória de Guimarães e estava emprestado ao Oliveirense. Concluiu o 12º ano? Sim. Tinha de concluir. Não foi uma imposição familiar, nem foi preciso, mesmo na minha cabeça eu sabia que tinha de acabar. Nunca lhe passou pela cabeça de ir para a faculdade? Passou. Os meus pais sempre me disseram para ter um plano B. Tudo bem que já estava num nível alto, fiz a formação em dois dos maiores clubes portugueses e das maiores formações do mundo, mas isso não significava nada. Só que nunca foi uma coisa que eu realmente quisesse muito. A minha mãe ainda hoje me diz para tirar um curso. Talvez acabe por tirar. O extremo foi chamado à seleção de Sub 18, quando jogava no FC Porto D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros? Sendo jogador, temos de saber dosear muito bem, a maior parte das vezes não vais poder sair com os teus amigos ou divertir-te como querias. Mas, havia vezes em que tinha uma folga e acabava por ir. Começou na altura em que fui viver no Porto, porque criei muitas ligações que não tinha em Lisboa. Em Lisboa tinha uma vida muito monótona, muito regrada, era casa-escola-treino-casa e dormir, não tinha uma vida social muito ativa, os meus amigos estavam todos espalhados. O Porto permitiu-me ter uma vida social mais ativa, as pessoas também são muito mais amáveis, é um mundo muito mais pequeno, consegues aproveitar muito mais o tempo de qualidade com os teus amigos. E quando entrei naquela fase de querer conhecer, experimentar as saídas à noite e a diversão com os amigos, esse mundo começou a abrir-se para mim. E às vezes sais quando não deves... Chegou atrasado ou falhou algum treino devido a algumas dessas saídas? Não, isso não. Mas fui chamado à atenção. Sendo um meio muito pequeno e jogando no FC Porto, as pessoas conhecem-te. Fui chamado a atenção numa altura em que saía mais, ali aos 18 anos. Às vezes esquecia-me que era jogador do FC Porto, via os meus amigos a sair e queria ir com eles. Houve até uma situação engraçada em que eu e o Clever fomos sair, tínhamos treino no dia seguinte. Tivemos jogo no fim de semana, jogámos os dois, jogámos bem e ganhámos o jogo. No final, o Folha veio falar connosco e disse-nos: "Eu sei que vocês foram sair neste dia. Tivemos treino e eu estava à espera de ver como é que vocês jogavam. Se jogassem mal, estavam lixados comigo, mas como jogaram bem, está tudo bem." [risos] Os seus pais davam-lhe rédea solta? Eles não tinham muita noção, porque muitas vezes quando ia sair ficava em casa de amigos. Mas também já era um adulto, as consequências ficavam para mim. A maior parte das vezes não sabiam. Se soubessem, claro que não iam gostar. Os meus pais nessa altura estavam tanto por Lisboa, como pelo Porto. Eu já ficava muitas vezes sozinho. Em 2016/17, David regressou ao Sporting, onde tinha estado em 2010/11 D.R. Há pouco contou como não renovou com o FC Porto, falta revelar como foi parar ao Sporting. Acabou a época no FC Porto, acabámos por não renovar e, entretanto, apareceu o interesse do Sporting. O treinador dos juniores era o Tiago Fernandes, que gostava muito de mim. Vi a oportunidade naturalmente com muito bons olhos. Acertámos os valores já com contrato profissional. Sabia que ia para a equipa B? Sim. Era para a equipa B, com objetivos de poder chegar à equipa A. Aliás, quando assinei, a cláusula de rescisão era de 30 a 45 milhões de euros. Era uma coisa absurda. O presidente era o Bruno Carvalho e o treinador da equipa A era o Jorge Jesus. O treinador da equipa B era o João de Deus. Ficou a viver sozinho em Lisboa ou em casa dos pais? As coisas já não estavam tão fortes com a empresa do meu pai lá no Norte. Quando recebi a proposta do Sporting decidimos voltar todos para Lisboa. Mas, como eu queria a minha independência, fui morar sozinho, aluguei um apartamento no Montijo. Fiquei cinco ou seis meses a morar sozinho, depois vi que não fazia sentido. Claro que é bom ter a minha independência, ter o meu espaço, mas ter a família em Lisboa e estar a morar sozinho, tendo uma despesa extra, não fazia sentido e acabei por voltar a morar com eles. O extremo em ação pela equipa B do Sporting D.R. Como foi regressar ao Sporting? Muito diferente do FC Porto na sua forma de estar? O principal é mesmo aquela mística, aquele incutir de responsabilidade que é diferente. Na altura a exigência era maior no FC Porto, foi o que senti. Sei que agora as coisas estão diferentes no Sporting, mas naquela altura o clube não estava a passar a melhor fase, estavam a tentar cortar muitas despesas. Isso foi outra coisa, em que senti diferença, as condições que davam os jogadores. No FC Porto tínhamos tudo, no Sporting não nos faltava nada, mas sentia-se uma diferença em termos de, por exemplo, com o FC Porto íamos para um melhor hotel. Lembro-me de, por exemplo, no Sporting houve um jogo em Guimarães às três da tarde e em vez de irmos para cima no dia anterior para descansarmos antes do jogo, saímos de Alcochete para Guimarães às sete da manhã para jogar às três ou às quatro desse dia. Eram essas coisas que não faziam muito sentido. Outra diferença, no ano anterior o FC Porto tinha sido campeão da equipa B, tinha sido campeão da II liga, com o Luís Castro. Mesmo estando na equipa B, eras obrigado a ganhar jogando contra equipas profissionais. No Sporting já era uma coisa mais de, ok, vamos jogar, vamos evoluir, era uma coisa mais tranquila. É no Sporting que estreia na II Liga. Recorda-se do jogo? Sim, foi em casa contra o Portimonense e foi um marco importante da minha carreira. Estava com aquela sensação, ok, agora sou profissional, agora vai começar. Joguei de início. Acho que perdemos 1-0, mas estava muito feliz porque era o meu primeiro jogo numa liga profissional. O João de Deus era muito diferente do António Folha? Sim, também eram contextos diferentes. Mas o Folha era um treinador muito aguerrido, com aquela mentalidade muito à FC Porto. O João Deus também queria mostrar a sua personalidade, queria muito as coisas à maneira dele, mantivemos na II Liga. No segundo ano já não foi tão bom e deixámos a equipa descer. David Sualehe com a familia Miguel Esteves No primeiro ano de equipa B, chegou a ser chamado para treinar com a equipa principal? Sim, fiz vários treinos com a equipa principal. Como foi lidar com Jorge Jesus? Ele tentava meter-nos à vontade, se o treino estivesse a correr bem, andava ali a brincar, mas se o treino não fosse ao encontro do que ele queria, já não estava tão calminho. Recordo um dia, antes de um jogo para a Taça, acho que era com a Arouca, estava o Fábio Coentrão a treinar e o Jorge Jesus chama-me. O Fábio disse-me: "Olha miúdo, prepara-te que amanhã podes jogar, eu não sei como vai ser que não estou muito bem." Fiquei todo contente. O treino começou, não estava a ir ao encontro do que o mister queria e ele acabou o treino a meio, estávamos a fazer um exercício de passe. Foi montar a estrela, que é um exercício de corrida que fazíamos geralmente nas pré-épocas. O pessoal todo ficou com as mãos na cabeça [risos]. Era uma equipa que tinha Bas Dost, William Carvalho, Bruno Fernandes, jogadores muito sonantes. O pessoal estava cego. Aquilo eram 10 voltas, um minuto cada volta. Acabámos por fazer todos a estrela. Mas ele não me chamou para esse jogo. Quais foram as maiores amizades que fez no Sporting? Já tinha vários amigos lá. No ano em que assinei foi para lá o Pedro Delgado, que veio do Inter de Milão; fiz uma amizade muito forte também com o Edu Pinheiro, o Stojkovic, o guarda-redes. Fiquei a dar-me muito bem com o Rafael Leão e o Rafael Barbosa. Tínhamos um grupo muito bom, éramos todos da mesma idade. Lembrei-me de uma história. Força. Como jogadores do Sporting e miúdos, gostávamos de aproveitar a vida. Alguns de nós, às vezes, a seguir aos jogos, quando tínhamos folga, saíamos para beber um copo. Não era uma regra, mas quando tínhamos folga o nosso grupo ía jantar ao Guilty, em Lisboa. Isso aconteceu algumas vezes. A seguir aos nossos jogos da equipa B, o clube metia sempre uma publicação no Instagram para dar o resultado do jogo. Nós não ganhámos muitas vezes esse ano, porque foi o ano que descemos de divisão. Houve um jogo que não ganhámos e o Sporting meteu no Instagram uma foto nossa com o resultado e houve um comentário que nos chamou a atenção. Na altura não achámos nada engraçado porque até o team manager veio perguntar o que se passava... Então, foi um adepto que me identificou e a três colegas, e escreveu: "Hoje ganharam já podem voltar para a vossa casa, para o Guilty" [risos]. Na altura não foi muito engraçado, mas pronto, é uma história que me recordo. David esteve 2 anos na equipa B do Sporting D.R. Entretanto, saiu João de Deus e chegou Luís Martins, certo? Muito diferentes? Sim. O Luís Martins é um treinador muito mais compreensivo, que te dá muito mais liberdade para fazer o teu jogo, é muito mais aberto a dares o teu ponto de vista. É muito boa pessoa. Acho que se calhar faltou-lhe um bocado mais de imposição para gerir o grupo porque as coisas não estavam a correr bem e faltava ali uma pessoa que batesse com a mão na mesa. O ataque à Academia aconteceu em maio desse ano, 2018. Estava em Alcochete na altura da invasão? Estava. Por acaso era um horário que nem era suposto eu estar lá, mas como estava lesionado tive de lá ir. Tinha acabado de chegar à academia, ia fazer tratamento, estacionei o carro e de repente olho pelo retrovisor e vejo gajos com máscaras a correr. Saí do carro, com um bocado de receio, vi-os a dirigirem-se para a parte da equipa A, que fica separada da equipa B. Comecei a ouvir barulhos de tochas a rebentar, fumo, entrei para o ginásio da equipa B. Eles entram pelo campo adentro, com tochas, máscaras, e nós: o que é isto? Não se aperceberam logo da dimensão dos acontecimentos? Não. Depois houve uma confusão, a equipa A estava no campo, voltaram todos a correr para dentro. Entretanto, não conseguimos ver mais nada pela janela. Aquilo era só barulho, batiam com paus, petardos a rebentar, uma confusão, todos sem percebermos o que se estava a passar. Nós, que estávamos na fisioterapia, ficámos lá a tentar perceber o que se passava. Até que vêm ter connosco e dizem para irmos embora. Depois vi tudo nas notícias. Mas foi uma coisa que nos deixou espantados e assustados porque não percebemos o que se passou ali. Só consegui ter a real dimensão daquilo quando vim embora e comecei a ver as notícias e as imagens. Na altura nem tive noção da dimensão que foi. Alan Benitez do Benfica B tenta roubar a bola a David Sualehe da equipa B do Sporting, em 2016 Gualter Fatia Enquanto esteve no Sporting, alguma vez teve esperança de estrear pela equipa A, ou não? Tinha esperança, nem que fosse um jogo da Taça da Liga ou um jogo da Taça de Portugal. Mas era muito difícil porque o Jorge Jesus não apostava muito na formação. Ele tinha uma ideia muito bem definida. O único jogador que ele lançou foi o Rafael Leão, que era quase uma certeza. Houve algum jogador do Sporting que o tivesse impressionado mais? Sim, o Matheus Pereira e o Rafael Leão. O Rafael jogava comigo, via-se que ele tinha ali alguma coisa mais e que era jogador para outros níveis, dava para perceber que ele ia chegar muito longe. Sempre teve aquele jeito dele molengão de fazer as coisas, mas via-se que era muito diferenciado. O Matheus Pereira e o Bruno Fernandes, no treino, via-se também que eram muito diferenciados. Quem sentiu serem os jogadores mais empáticos? O Rui Patrício e o Fábio Coentrão. O Fábio Coentrão jogou em todo o lado, nos melhores clubes do mundo e era muito, muito porreiro. O Rui Patrício também. Dava-me bem com o William Carvalho também. E o jogador mais carrancudo? Quem não sorria muito era o Acuña, o argentino. Não fazia muitos amigos, mas é a personalidade dele. Também não me chateava muito com isso. Estava lá para treinar. Spoiler “Durante a quarentena fui identificado pela polícia numa festa em casa de amigos e o Paços soube. Foi um ano para esquecer” David Sualehe está a jogar a Conference League pelo FC Noah, da Arménia, onde diz sentir-se feliz. Até chegar aqui passou por vários clubes após a formação no FC Porto e Sporting, entre eles o Vitória, o Farense e a Académica de Coimbra, num percurso marcado por alguns percalços. Entre lesões e castigos sobre os quais fala nesta parte II, acabou por sair para a Eslovénia, onde foi feliz no Olimpija Ljubljana, ao vencer dois campeonatos e uma taça No final de 2017/18 não continuou no Sporting porquê? A equipa B desceu de divisão, foi para o CNS, eu e alguns jogadores não queríamos ficar nessas condições, o Sporting também queria ter uma diminuição de custos porque no CNS não podiam ter a mesma folha salarial e acordámos que o Sporting me deixava sair se aparecesse alguma coisa. Apareceu a oportunidade de ir para o Vitória de Guimarães. Tinha empresário? Era o seu pai? Sim, nessa altura era o meu pai que tratava das minhas coisas e ainda agora se precisar de alguma coisa é ele que me ajuda. Sabia que era para jogar na equipa B também? Não assinei pela equipa principal ou equipa B, assinei pelo Vitória. A ideia era começar na equipa B com a possibilidade e com a visão de ir para a equipa A. Treinar na equipa A e jogar na equipa B. Foi isso que aconteceu? Aconteceu só na segunda parte da época, em que estava a treinar na equipa A e jogava na equipa B. Em 2018/19, David Sualehe assinou pelo Vitória de Guimarães D.R. Como foi voltar ao norte? Continuava sozinho? Sim. Quando assinei pelo Vitória fui viver sozinho para Guimarães. Sempre foi um clube, e uma cidade, de que gostei muito. Acabou emprestado ao Farense. Porquê? Acabei a época a jogar na equipa B e, novamente, acabámos por descer de divisão. Foi a minha segunda descida seguida. E, claro, não era um objetivo continuar na equipa B ou nos sub-23 e no CNS. Em termos coletivos não foi bom, mas individualmente fiz uma boa época. Jogava praticamente sempre e fiz bons jogos. A equipa, apesar de ter descido, jogava bom futebol. O Vitória disse-me que não ia ser aposta na equipa A, e apareceu a oportunidade do Farense. O Farense estava a fazer um projeto muito bom para subir da II para a I Liga, a ir buscar jogadores de alto nível. O treinador [Sérgio Vieira] ligou-me, estava eu de férias, sem saber ainda o que ia fazer. Nem pensou duas vezes? Disse logo que tinha interesse se os clubes chegassem a acordo para uma cedência. O Vitória aceitou emprestar-me ao Farense e fui. O lateral a preparar-se para chutar a bola em jogo da equipa B do Vitória D.R. Gostou de viver em Faro? Sim. É engraçado, não sei porquê, dizia sempre que dos únicos sítios em Portugal onde não queria viver era no Algarve, porque tinha a imagem do Algarve no verão, de muita gente, muito movimento, mas que no inverno ficava deserto. Gostava muito do Algarve no verão e não me imaginava a viver lá no inverno. Mas fui para lá e adorei viver no Algarve, porque é muito tranquilo, tens os dois lados, até setembro há aquela movimentação, está toda a gente no Algarve, a partir de setembro aquilo acalma, mas é um lugar muito bom para viver. Em dezembro, janeiro, que são meses muito frios, se não estiver a chover, andas tranquilo de t-shirt. Lembro-me de acabar o treino em pleno dezembro e ir a pé até à praia para almoçar com o pessoal da minha equipa. Também fiz boas amizades lá. Com quem? Com o Ryan Gauld, que agora está na MLS, com o Pedro Kadri, um brasileiro com quem acabei por viver de setembro a dezembro, ele foi embora em janeiro. Com o Miguel Bandarra, com o Fábio Nunes. Tínhamos um grupo muito interessante. O Mayambela, que agora está em Chipre. Custou-lhe adaptar-se a um clube com menos condições que o Sporting e o Vitória? As condições em termos de treinos e balneários não eram as melhores, não era o top dos tops, mas toda a gente queria ajudar-te, estávamos ali por um objetivo, estava num balneário de homens a sério, comecei a ver a outra parte do futebol, que não é só rosas. E isso ajudou-me muito a crescer como pessoa e como jogador. Fez-me abrir os olhos para a realidade do futebol. Sou muito grato ao Farense. Afzal, André Geraldes, David e João Rodrigues, no dia em que o lateral esquerdo assinou pelo Farense D.R. E do Sérgio Vieira, gostou? Gostei, ajudou-me muito também como treinador. Falava muito, muito exigente, talvez o treinador mais exigente que apanhei até hoje. Muito parecido com o Jorge Jesus no sentido de querer as coisas ao milímetro. Fazíamos reuniões para analisar o adversário três, quatro vezes por semana. Também fiz uma muito boa época com ele. Essa foi a época em que surgiu a Covid-19. Passou o confinamento onde? Fui para casa, para Lisboa, para junto dos meus pais. Ficámos fechados em março e abril, em maio houve um bocadinho de abertura e acabámos por voltar a treinar no Algarve. O meu melhor amigo, o Cleber, veio comigo para o Algarve, fiquei numa casa com piscina para treinar e poder aproveitar um bocado do sol do Algarve. Entretanto, saiu a decisão que a Liga não ia retomar e acabámos a época em 2.º lugar. Acabámos por subir de divisão porque a II Liga não retomou. Foi engraçado porque fizemos a festa no estádio, entraram alguns adeptos, e fizemos a festa à nossa maneira. Teve de se apresentar no Vitória depois? Tinha de me apresentar no Vitória, mas com a época que fiz no Farense, disse que, ou ficava na equipa A ,ou não queria ficar nos sub-23. Tinha esperança, o treinador já tinha mudado, já não era o Luís Castro, era o Tiago Mendes, que foi jogador. Estava à espera que ele me chamasse pelo menos para fazer para a pré-época, mas acabou por não acontecer. Quando soube da decisão dele também já não havia a hipótese de ficar no Farense, já tinham ido buscar um outro lateral esquerdo, entretanto, surgiu o interesse do Paços de Ferreira, clube da I Liga, era a minha oportunidade de me estrear na I Liga e assinei pelo Paços. David Sualehe (à direita) em jogo pelo Farense D.R. Mas não jogou nessa época. O que aconteceu? Foi uma época muito caricata. Aconteceram situações menos felizes. O treinador era o Pepa, no dia em que assino, faço o teste à covid-19 e dou positivo. Fiquei duas semanas de quarentena no Porto, à espera de treinar. Começou logo mal. Entretanto, tenho a luz verde para voltar, apresento-me, primeiro treino: jogo com o SC Braga. Jogo, sem ter feito nenhum treino, vindo de férias. Não estou na melhor forma. O Pepa veio falar comigo, disse-me que não ia ser titular, mas achava que se conseguisse jogar algum tempo era bom. Não ia dizer que não logo no primeiro treino. Mas pensei que ele ia meter-me a jogar uns 15/20 minutos. No intervalo, veio falar comigo: “Aquece que vais entrar”. Fui aquecer rápido, jogo a segunda parte, jogo bem, mas faço um esforço que não estava preparado para fazer naquela altura, porque tinha tido covid, tinha vindo de férias e não tinha feito nenhum treino com a equipa. No primeiro treino que fiz após esse jogo, senti uma picada na perna, mas continuei. O segundo treino era mais tranquilo, porque no dia a seguir íamos ter outro jogo amigável, com o Rio Ave. Eu tinha 23 anos, não era muito experiente. Faço a primeira parte, e logo no início, no sprint, senti uma pontada muito forte na perna e aí já tinha rasgado. Só que em vez de pedir para sair, não quis dar parte fraca e continuei, forcei, forcei, forcei até o intervalo, altura em que já estou quase sem conseguir andar nem esticar a perna. O que fez? Fui ter com o médico, digo-lhe que não consigo mais e que estou a sentir uma dor muito forte. Fiz um exame e tinha uma rotura gigante na coxa. Essa rotura fez-me ficar de fora quase três meses. Ou seja, perdi todo o início de época. Só voltei a treinar no final de outubro, início de novembro. Treinei muito bem, houve um jogo em que senti que podia ter oportunidade para jogar, para a Taça; pensei que ele ia meter-me, já estava a treinar há duas semanas, mas nem me convocou. Confesso que fiquei chateado, o treinador percebeu e houve ali um desentendimento. David com André Geraldes a festejar a subida do Farense à I Liga, em 2020 D.R. Teve um bate-boca com o treinador? Não, não. O que aconteceu foi que fui fazer o treino dos não convocados, senti uma dorzinha na perna e disse ao preparador físico que se calhar era melhor não fazer um exercício. Acho que eles levaram aquilo a mal e pensaram que eu não queria treinar porque não fui para o jogo. No primeiro treino da semana a seguir ao jogo, o preparador veio falar comigo, disse que o treinador tinha ficado chateado, mas eu argumentei que estava a proteger-me porque senti a dor; ele disse que o treinador levou a mal, pensou que não queria treinar e a partir daí a relação começou a não ficar muito boa. Treinei até janeiro, estive dois ou três meses sempre a treinar sem ser chamado para a equipa, em fevereiro senti uma dor no joelho. O terreno estava muito pesado, sinto a dor no joelho, mas continuei. Avisei que me doía, fui fazer exames, tinha uma rotura do menisco. Assim, do nada? Sim. Foi um ano para esquecer. Fui operado ao menisco no final de fevereiro. Entretanto, aconteceu outra história menos feliz. Fui apanhado numa festa, numa altura em que o país estava em quarentena. Estava numa casa com amigos, a polícia foi lá porque havia barulho; eu tinha mesmo acabado de chegar. Fomos identificados e no dia a seguir estavam os nossos nomes no jornal, a dizer que tínhamos sido apanhados numa festa. O Paços acabou por saber, meteu-nos um processo e fomos suspensos durante duas semanas. Estive o ano todo sem jogar. Está arrependido de ter ido para a festa, naturalmente. Claro que não é uma coisa bonita, mas tudo acontece por algum motivo. Se eu o fiz era porque sentia que tinha de fazer. Aprendi. Se não tivesse aprendido nessa altura, se calhar estava a fazer agora. Claro que é fácil hoje dizer algo do género, se soubesse o que sei hoje, não fazia nada disso. Mas não é assim que aprendemos. Acho genuinamente que só aprendemos quando passamos pelas situações. Agora tenho a consciência e tenho a experiência que jamais posso fazer alguma coisa parecida e não posso desiludir pessoas como, por exemplo, a minha família que quando soube ficou muito triste comigo. São coisas que jamais vou querer que a minha família passe outra vez. Não é desculpa, mas era mais jovem, estava na flor da idade, pensei, está toda a gente a fazer... Talvez metade dos jovens da nossa idade fazia isso, convivia com amigos em casa na quarentena. Na época 2020/21 David foi jogador do Paços de Ferreira, mas não chegou a jogou D.R. Foi por isso que acabou emprestado à Académica de Coimbra? Sim. O treinador do Paços já era o Jorge Simão, que me disse logo no início da época que não contava comigo, para eu arranjar clube. Sabia que não ia ser fácil, porque estive o ano todo parado. No último dia de mercado apareceu a Académica e eu sem opções, aceitei. Foi um ano também com muitas dificuldades. Como tinha contrato com o Paços e estava emprestado não vivia na pele, mas vi o que os meus colegas passaram porque tiveram muitos salários em atraso. Mas a Académica é um clube mítico, parecido com o Vitória em termos de massa associativa, com adeptos de paixão, tínhamos uma exigência muito grande por parte dos adeptos, porque a equipa não estava bem. Só que eles não sabiam o que se estava a passar dentro do clube. Continuava solteiro? Nessa altura eu estava com a minha ex-namorada. Ela não morava comigo, mas estava lá muitas vezes. Esse ano na Académica teve muitos treinadores também. Sim, quatro treinadores. Começamos com o Rui Borges, foi ele que quis que eu fosse para a Académica. Muito boa pessoa, bom treinador, os treinos muito intensos, muito dinâmicos. Gostei muito, mas esteve lá pouco tempo. Os jogadores todos gostavam muito dele. Depois dele acho que veio o João Carlos Pereira, um estilo completamente diferente que até hoje não percebo muito bem, não falava muito, mas também não esteve lá há muito tempo. Depois veio o Pedro Duarte, mais jovem, mais moderno. A equipa tentava tudo o que podia, mas foi muito difícil, as coisas não saíam. Por fim, chegou o José Gomes que trouxe o Hugo Almeida como adjunto. Mas nessa altura já estávamos cá em baixo com alguns pontos de atraso. Em 2021, o lateral foi emprestado à Académica de Coimbra D.R. Ainda tinha contrato com o Paços quando terminou a época 2021/22? Tinha mais um ano de contrato. Até que, nas férias, apareceu do nada o Olimpija Ljubljana da Eslovénia. Eu já tinha na cabeça há algum tempo que queria sair de Portugal, porque já sentia que o que pudesse vir de Portugal era mais do mesmo. Precisava de uma experiência nova. Já tinha falado com o meu pai e com o pessoal da empresa sobre essa minha vontade de sair. Mas não aparecia nada. Até que um dia o meu pai me liga a dizer que o Olimpija Ljubljana estava interessado em mim. Conhecia o clube? Nunca tinha ouvido falar do Olimpija, não conhecia mesmo nada. O único clube que conhecia da liga eslovena era o Maribor. Por isso disse logo que não queria ir [risos]. Mas insistiram muito, o treinador, o ex-jogador Alberto Riera, queria que eu fosse. Comecei a estudar mais, vi que estavam a jogar as eliminatórias das competições europeias, meti tudo na balança, pensei durante dois, três dias e decidi: vou, é o tudo ou nada. Em Portugal era mais do mesmo, não andava nem desandava, ia ficar à espera do quê? Pensei: vou fazer o meu trabalho e o resto vai acabar por aparecer. Em jogo pela Académica de Coimbra D.R. Como foi o primeiro impacto quando chegou à Ljubljana? A cidade surpreendeu-me pela positiva. Moderna, muito confortável, com muito espaço verde, gostei muito. O clube também. As pessoas um bocado estranhas, não é uma cultura que receba muito bem as pessoas de fora, por isso o início não foi fácil. Fui sozinho, mas estava lá o Samu, que é português, e passado duas ou três semanas ligou-me um grande amigo, com quem joguei no FC Porto, o Rui Pedro, a perguntar-me como eram as coisas ali. Ele estava mais ou menos na mesma situação que eu. Disse-lhe logo: “Mano, vem. Isto aqui é bom, o treinador é bom, vai ajudar-te e pode potenciar muito as tuas qualidades”. Ele acabou por ir, acho que nos ajudámos mutuamente, até porque nos meus primeiros 5, 6 meses não estava contente. Porquê? Não estava contente com os minutos de jogo. Mas houve a paragem de inverno, fizemos a pré-época em janeiro e depois disso, tudo mudou. O treinador começou a ver-me com outros olhos, começou a apostar em mim. O que mudou? Houve alguma mudança sua de comportamento? Não. Aliás, quando voltei para a segunda parte da época, em janeiro, vinha muito desmotivado, não queria voltar, só dizia que iria embora. Não sei, houve uma mudança em tudo, o treinador começou a apostar em mim, a meter-me em todos os jogos e fomos campeões de uma maneira muito especial. Acho que foi o melhor momento da minha carreira: fui eu quem marcou o golo contra o Maribor que nos deu o título. Estávamos em 1.º lugar e se ganhássemos o Maribor em casa éramos campeões. Estádio cheio, 18 mil pessoas, e acabei por fazer o golo que nos dá o título. Foi um momento de alegria. Foi um boost que me deu e que me fez ver que tudo o que passei até ali tinha valido a pena só por aquele momento. Foi uma alegria muito grande para a cidade porque a rivalidade é mais ou menos como o Benfica-FC Porto, numa dimensão menor. Mas a paixão e a maneira como eles vibram e vivem o dérbi é imensa. Renovou contrato? Sim, ainda tinha mais um ano, mas quiseram renovar comigo mais dois anos. Na época 2022/23, David (no centro) assinou pelo Olimpija Ljubljana, da Eslovénia D.R. Chegou a jogar competições europeias na primeira época? Cheguei a fazer uma eliminatória. Mas na época seguinte entrámos nas qualificações para a Champions, já com o João Henriques como treinador. Ganhámos as primeiras duas eliminatórias, uma mais fácil contra um clube da Letónia e a segunda contra o Ludogorets. O jogo em casa foi uma loucura, empatámos fora e em casa no último minuto eles tiveram um penalti para eles. Se marcassem, passavam. O nosso guarda-redes defendeu e nós marcámos no último minuto o golo da vitória e afastámos o Ludogorets na segunda eliminatória da qualificação. Na terceira eliminatória fomos jogar contra o Galatasaray. Esse jogo com o Galatasaray marcou-me porque foi onde realmente me senti jogador. Porquê? Foi com estádio cheio, 60 mil pessoas. Foi uma coisa louca. Foi aí que me senti jogador e pensei: estes são os palcos onde quero jogar, estes são os sítios onde quero estar. Mas perdemos, fomos eliminados. Vamos à última eliminatória da Europa League contra o Qarabag. Entrámos na Conference League e fizemos a fase de grupos. É quando jogas a Europa que te sentes valorizado. Um clube sobre o qual eu não sabia nada, foi o clube que me devolveu a alegria de jogar futebol e o sonho de poder estar nos grandes palcos. O que achou do treinador João Henriques? Muito boa pessoa, teve azar porque é difícil entrar no clube, ele também já deu uma entrevista a falar sobre o Olimpija. Querem a coisa à maneira deles e ele acabou por ser despedido em outubro. Não é um clube fácil. Não é um clube fácil em que aspeto? As pessoas que estão à frente do clube são pessoas muito difíceis de lidar. Ou as coisas são à maneira deles, ou não vale a pena estar ali. Ele não teve uma vida fácil, tinha imposições atrás de imposições que o fizeram ir embora mais cedo do que o previsto. O lateral português marcou o golo que deu o titulo ao Olimpija em 2023 D.R. Na sua última época no Olimpija voltou a ser campeão, com o treinador espanhol Víctor Sánchez. Como foi essa época? Superou todas as expectativas, porque no ano anterior tínhamos ficado em 3.º lugar. Entrámos na primeira eliminatória da Conference League sem expectativas nenhumas. O treinador estava muito motivado, mas nós já tínhamos jogado e sabíamos que era difícil entrar, precisávamos ganhar as três eliminatórias para poder entrar na Conference e na nossa cabeça era quase impossível, porque bastava apanhar uma equipa mais ou menos que saíamos. Fomos sem expectativas, mas as coisas começaram logo a correr bem. Eliminámos primeiro um clube da Ucrânia, o Polissya, a seguir eliminámos o Sheriff, e na terceira eliminatória da Conference eliminámos o Rijeka, um clube que em termos de nome, de história, de orçamento, é bastante superior a nós. No primeiro jogo empatámos na casa deles e no segundo ganhámos 5-0. O estádio cheio, também foi uma alegria imensa. A partir daí, percebemos que íamos jogar outra vez a fase de grupos da Conference League e que podíamos fazer história novamente. Foi um ano que correu muito bem. Fomos campeões, joguei sempre, era um dos capitães, foi talvez dos melhores anos da minha carreira. O que achou do futebol esloveno? Está num patamar muito inferior ao português? Está a evoluir muito. Não tem o nível do português e acho muito difícil que algum dia chegue ao nível do futebol português. Mas dá para ver pela seleção que têm bons jogadores. Não continuou na Eslovénia porquê? Eles tinham proposta para renovar, andámos a conversar durante muito tempo, mas não chegámos a acordo de valores. Eu sabia que tinha lá um lugar garantido e que era um dos capitães, mas também procurava uma recompensa justa. Não continuei maioritariamente devido a esse aspeto. Aldair Djaló, Rui Pedro, David e o argentino Doffo, no balneário a festejar o título do Olimpija D.R. Ainda não tinha surgido o interesse do FC Noah? Não. Tinha conversas com vários clubes interessados, da Grécia, da Turquia, mas ainda não tinha nada do Noah. O Noah apareceu no verão, do nada, já tinha havido um interesse no início da época anterior, mas acabamos por não concretizar porque o Olimpija pedia dinheiro. Este ano surgiu novamente o Noah, não estava à espera. Contactaram-me, disse que para lá só ia por X e no dia seguinte disseram: “Ok, damos-te X”. Foi um processo muito simples, na verdade. Está satisfeito? Está a gostar da Arménia e do clube? Sim. Muito surpreendido pela positiva. Pensei que vinha para o fim do mundo, mas a capital Yerevan é muito, muito movimentada, com bons restaurantes, muito boas condições, não estava nada à espera. O clube também está a crescer, as pessoas já vão conhecendo, vão ouvindo falar por causa das competições europeias, mas tenho a certeza que daqui a 4, 5 anos vai ser um clube bastante conhecido a nível internacional porque o presidente está a investir muito e está empenhado em ter este clube num patamar muito alto. E o futebol na Arménia? Ainda está mais longe da qualidade do futebol português. Tem muitos aspetos para melhorar. Este clube é fantástico, mas o campeonato tem muitas limitações em termos de estádios, de arbitragem, há muitas limitações. Tem clubes bons, mas em termos de liga está muito, muito longe do futebol português. David com a taça da Eslovénia e a taça do título, em 2023 Luka Kotnik Até onde o FC Noah pode chegar nas competições europeias? Acho que vamos conseguir passar aos play-offs pelo menos. É o objetivo. Assinou por dois anos. Quais são as suas ambições? Estou a jogar as competições europeias, estou feliz aqui. Vamos ver. Continua solteiro? Tenho uma namorada, do Porto, que está a viver comigo, mas prefiro não desenvolver este assunto. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver que pendurar as chuteiras? Quero continuar sobretudo com a empresa de agenciamento do meu pai e do meu irmão. É uma empresa que está montada, agora está mais parada, mas é algo que sei fazer. Não me vejo nada a ser treinador, conheço muita gente neste meio, por isso acho que é uma coisa que me pode acrescentar e pode dar boas perspetivas para o futuro. Onde ganhou mais dinheiro até hoje? Aqui no FC Noah. Já deu para investir em imobiliário ou em algum negócio? Já tenho um apartamento, mas estou a fazer um bom pé de meia para começar a investir. Rui Pedro e Sualehe D.R. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Estava na República Dominicana há uma semana, estava a gostar bastante, eram umas férias com a minha ex-namorada, e na semana seguinte uns amigos tinham viagem marcada também para a República Dominicana. O que fiz? Marquei a mesma viagem que eles, de uma semana para a outra. Ou seja, apanhei o voo para Portugal e no dia seguinte apanhei outra vez o voo para a República Dominicana, para ir com eles [risos]. Tem algum hobby? Gosto muito de jogar padel. É um homem de fé, acredita em Deus? Em Deus não, mas acredito que há algo mais forte do que nós. Superstições? Não, só aquelas coisas básicas, por exemplo, se faço um golo e me lembro de alguma coisa que fiz nesse dia, vou tentar fazer no jogo seguinte. Mas a maior parte das vezes esqueço-me [risos]. Tem tatuagens? Zero. Acompanha alguma outra modalidade sem ser futebol? Neste momento, não. Vejo ténis de vez em quando. Nesta época 2025/26, David assinou pelo FC Noah, da Arménia Nelli Qual a maior frustração que tem na carreira? Não digo frustração, mas talvez um objetivo que está por cumprir: estrear-me na I liga portuguesa. E o maior arrependimento? Não tenho nenhum arrependimento. O momento mais feliz? Ter marcado o golo contra o Maribor, que nos deu o título. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid. Qual foi o adversário mais difícil que encontrou em campo? O Zhegrova, quando joguei contra o Lille. Muito bom jogador. Um jogador com quem gostava de jogar na mesma equipa? O Cristiano. E um jogador contra quem gostava de jogar? Neymar. O lateral em jogo pelo FC Noah Nelli Quais as maiores amizades que fez no futebol? O Cleber, o Ricardo Oliveira, o João Pedro, o Pedro Delgado, o Stojkovic, o Evandro Gomes, o argentino Doffo, que estava comigo no Olimpija, tenho muitos amigos que fiz no futebol. Tem alguma alcunha? A minha família chama-me Dudu. Alguma regra, alguma lei no futebol que se tu pudesse, alterava ou bania? Acaba com o VAR. Tirou a autenticidade do futebol, a espontaneidade do festejo. Alguma frase de um treinador, ou de um colega que tenha ficado na memória? Uma vez, numa conversa nos juniores do FC Porto, o treinador Folha disse algo que ficou marcado: “A única coisa na vida que não tem solução é a morte”. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Boa pergunta. Talvez DJ. Tem algum género de música preferido? Gosto um bocadinho de tudo. Tem algum talento escondido? Talvez jogar padel. Foi chamado à seleção nacional nas camadas jovens. Em que escalões? Fui chamado para os sub-18, sub-19 e sub-20. Teve esperança de estrear pela equipa A? Tive o objetivo e o sonho, mas a esperança real nunca tive, porque nunca estive numa fase da minha carreira que sentisse que poderia ser uma possibilidade. Algum jogador que se tenha tornado a sua referência? O Marcelo, do Real Madrid. Quem é ou foi o seu maior ídolo? O meu pai. 1 Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 8 Dezembro 2025 A mae dele foi minha prof e so agora descobri que ele é filho dela. Sempre tive ideia que so jogou onde jogou por causa do pai. Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 16 Dezembro 2025 Ricardo Matos Spoiler “O Benfica é uma bolha. Lá sempre estive habituado a jogar com bola e a partir do momento em que saí, praticamente foi sempre o contrário” Ricardo Matos, de 25 anos, entrou no Benfica aos 7 e só de lá saiu aos 19, mas sem ter conseguido cumprir o sonho de criança de estrear pela equipa principal do clube do coração. Deixou a “bolha” Benfica, como lhe chama, para tentar a sorte em Itália, onde também não conseguiu afirmar-se, como explica o avançado nesta parte I do Casa às Costas. Regressou a Portugal, estreou na I Liga mas, entretanto, já voltou ao estrangeiro Nasceu em Vale de Figueira, concelho de Loures. O que fazem os seus pais profissionalmente? O meu pai trabalha nos combustíveis e a minha mãe é administrativa no centro de saúde. Tem irmãos? Tenho uma irmã quatro anos mais velha que é fisioterapeuta e vive em Paris. Foi uma criança tranquila? Na escola era tranquilo, bastava darem-me uma bola que já ficava contente. Acho que só dei mais chatices à minha irmã, porque passávamos muito tempo juntos e eu chateava-lhe o juízo [risos]. O que dizia querer ser quando fosse grande? Futebolista, sempre. Houve uma altura em que fui à Kidzania numa festa de anos, experimentei várias profissões na brincadeira e cheguei a casa a dizer que tinha gostado de ser pintor, porque adorei pintar uma casa lá [risos]. Mas não era que o quisesse ser mesmo. Sabe de onde veio essa paixão pelo futebol? Há relativamente pouco tempo descobri que o meu bisavô materno chegou a ser jogador, no clube da terra. Mas, é assim, toda a família é apaixonada por futebol. São adeptos de algum clube? Praticamente toda a família é do Benfica, exceto três ovelhas ranhosas. O meu tio fez com que a minha irmã fosse do Sporting. A minha irmã foi comprada por um fato de treino. A filha do meu tio também é do Sporting. Ricardo em criança D.R. Quais as primeiras memórias que tem de jogar futebol? Lembro-me de levar o meu avô para o jardim, para ele jogar à bola comigo. Mas o primeiro impacto mesmo com o futebol foi numa festa da minha irmã, na escola dela. A minha avó estava lá e reparou que eu tinha jeito. Ela dizia que olhava para mim e para os outros rapazes, que eram mais velhos, os colegas da minha irmã, e eu fazia coisas que eles não faziam. Ela acabou por falar à minha mãe para me meter a jogar num clube. A minha mãe pensou logo no Benfica, mas era muito caro e não era compatível com o trabalho dos meus pais, não conseguiam levar-me aos treinos. Acabei por ir para o clube da minha terra, o Santa Iria. Inscreveram-me lá com 6 anos. Quanto tempo lá ficou? Um ano. No início foi engraçado porque eu tinha acabado de chegar das férias de verão, em que estive na praia, então, passava muito tempo no campo do Santa Iria a fazer montinhos de terra, como na praia. O treinador dizia ao meu pai que eu tinha talento para o futebol e o meu pai respondia-lhe: mas como é que tu dizes uma coisa dessas se ele passa o tempo a fazer montinhos de areia?” [risos]. A verdade é que houve um torneio na Páscoa em que jogámos contra o Benfica, estive muito bem todo o torneio e um prospetor foi falar com o meu pai. Perguntou-lhe se eu podia ir fazer uns testes ao Benfica. Fui, gostaram e quiseram ficar logo comigo. Entrei no Benfica com 7 anos e saí aos 19. Quem eram os seus ídolos em criança? O Messi e o Agüero. Sendo benfiquista, não tinha nenhum ídolo no Benfica? Do Benfica havia jogadores que eu gostava, mas não eram assim os ídolos. Para ser ídolos eu pegava nos grandes, aqueles mesmo de topo [risos]. Gostava da escola? Gostava da escola, por causa dos intervalos e dos recreios [risos]. De resto, era algo que era necessário, como é óbvio, mas tendo eu a paixão do futebol, tudo o que desse para meter futebol lá no meio, já seria bom. Os pais de Ricardo Matos Toby Tande Até chegar à idade de júnior, quais os momentos que recorda com mais carinho? Com 13 ou 14 anos é quando passamos a ser mesmo do Benfica SAD e começámos a treinar no Seixal e aí já se percebia que era uma coisa mais séria. Até porque no Seixal acabámos por ter mais contacto com os jogadores mais velhos. Muitas vezes até víamos mesmo os seniores. Mas em todas as fases houve coisas marcantes, porque estando no Benfica vamos a muitos torneios. Desde miúdo sempre tive a possibilidade de viajar pelo mundo, através do Benfica. Não é que conheça muito, mas a verdade é que passei por muitos sítios. E é sempre uma coisa boa e marcante. Houve algum treinador que o tivesse marcado mais nessa fase inicial? Numa fase muito inicial houve um treinador, o Diogo Teixeira, que me marcou muito porque acreditava e gostava muito de mim. Lembra-se quando começou a sentir que o sonho de ser jogador seria mesmo alcançável? Não sei ao certo. Assinei o primeiro contrato profissional com 17 anos, se calhar na altura até poderia ter pensado que... Hoje sei que não é assim tão fácil. Há muitos casos de jogadores que assinam contrato profissional, entretanto o contrato acaba e por uma ou outra razão, acabam por sair do Benfica. O Benfica é uma bolha. É um clube tão grande, tão grande, que ficamos meio limitados porque não conhecemos a realidade do futebol. A verdade é que é muito difícil ser jogador profissional ou chegar à equipa principal do Benfica. Enquanto lá estamos esse é sempre o nosso objetivo. No Benfica somos sempre melhores do que 90 a 95% das equipas contra quem jogamos e a partir do momento em que saímos do Benfica é que começamos a conhecer a realidade e a perceber que o futebol real não é bem aquilo, há muitas dificuldades, nem todos os clubes jogam da mesma forma e têm aquelas condições. Lá sempre estive habituado a jogar com bola e a partir do momento em que saí, praticamente foi sempre o contrário. É um choque quando se sai do Benfica e há muitos jogadores que acabam por se perder um pouco, não têm a capacidade de se reinventar ou de encarar a realidade. Recorda-se do valor do primeiro ordenado? Eram mil e poucos euros. O que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? A minha mãe disse-me que sempre lhe disseram que o primeiro salário tem de ser para gastar. Então, meio que me obrigaram a oferecer uma prenda a praticamente cada membro da família. Comprei um relógio para a minha mãe, um relógio para a minha irmã, para o meu pai não tenho a certeza do que foi, mas sei que como já tinha gastado tanto dinheiro, nem para mim comprei nada [risos]. O avançado começou por jogar futebol no Santa iria D.R. Quando começaram os primeiros namoros mais sérios e as primeiras saídas à noite? Amor sério tive só um na altura em que saí do Benfica para Itália. Nunca fui muito de sair à noite. Só muito de vez em quando, com amigos, nas férias. Mas nunca foi muito algo que me apelasse, talvez também pelo facto de estar no Benfica e nos ser incutido muitas regras e valores. Estudou até que ano? Terminei o 12º ano. Quais foram as maiores amizades que fez no Benfica? O Capitão, o Dantas, o Baldé, o Celton, tenho várias. Que outros treinadores o marcaram já na fase de júnior? O Renato Paiva. Marcou-me da mesma forma que o Diogo Teixeira, no sentido em que senti uma confiança muito grande da parte dele em mim. Com ele tenho se calhar a minha melhor época no Benfica. No ano seguinte, em 2017/18, passa à equipa de juniores do João Tralhão e acaba por fazer apenas dois jogos e é emprestado ao Belenenses. O que aconteceu? Não estava a ter muito tempo de jogo, praticamente nenhum. Entretanto, acabou por vir a fase final do campeonato e vieram o Félix, o Jota, o Florentino, que já estavam na equipa B, fazer a fase final dos juniores. Sabia que se já jogava pouco, com a chegada deles então de pouco ia passar a nada. Acabou por surgir a oportunidade de ser emprestado ao Belenenses, num contexto em que ia jogar, que era importante para o meu crescimento e aproveitei. Mas é um pouco estranho que numa época faça 23 golos e na seguinte acabe emprestado. Não conseguia render o mesmo, ou era apenas uma opção do treinador? Nunca há só um culpado. Pode ser um pouco dos dois. Lembro-me que no início da época cheguei confiante e a verdade é que as coisas não começaram da forma que esperava e depois acabou por ser uma bola de neve. Se calhar também muito pelo facto de ser o primeiro ano em que se juntam duas idades, ou seja, neste caso a geração de 1999 com a de 2000. Talvez isso tenha influenciado um pouco, mas acaba por ser muito a decisão do treinador, que tinha escolhas diferentes. Com um troféu ganho pelo Santa Iria D.R. O impacto no Belenenses foi um primeiro choque com a outra realidade do futebol? Mais ou menos. As condições não são as mesmas, os colegas não são os mesmos, a forma como eu via o jogo era diferente deles, e por aí foi um choque, mas só tinha de adaptar-me o mais rapidamente possível. Era um empréstimo de seis meses. Entretanto, regressou ao Benfica. Já tinha empresário? Sim. Desde os sub-15 que tenho empresário. O primeiro foi o ex-jogador Abel Silva, depois foi o Diogo Henriques, e por fim passei para os atuais da empresa Prodigy. Na sua última época no Benfica, em 2018/19, foi convocado para treinar com a equipa A? Sim. Sobretudo para aqueles treinos com os jogadores da equipa principal menos utilizados. Normalmente quem dava esses treinos eram os adjuntos do treinador principal. Aos 7 anos, Ricardo foi para o Benfica D.R. Que mais histórias tem para contar do Benfica? Uma vez tivemos um torneio, penso que no Catar, uma viagem longa em que acabámos por chegar já de manhã e não tínhamos dormido. Tínhamos ficado de dormir duas, três horas e depois tínhamos o almoço. O meu companheiro de quarto era o [Tiago] Dantas e tivemos a brilhante ideia de, em vez de meter o alarme no telemóvel, meter num relógio de pulso, que mal se ouvia. Quando acordei vejo que já tinha passado uma hora e meia da hora do almoço. Ficámos muito aflitos, começámos a telefonar, não me lembro se para colegas ou se para o treinador, e a parte engraçada é que ninguém tinha dado pela nossa falta. Como assim? Porque foram duas ou três equipas do Benfica, portanto, no meio de tanta gente, ninguém tinha dado pela nossa falta. Aquilo era um complexo tão, tão grande, a Aspire Academy, que quando descemos nem sabíamos onde era a receção, não sabíamos nada [risos]. Não levaram uma dura por terem falhado o almoço? Sinceramente foi uma “durinha”, uma coisa mais leve. Eles entenderam que, por causa da viagem, estávamos completamente “mortos”. Mas um ou dois dias depois aconteceu o mesmo a outros colegas em termos de horários e já não tiveram assim tanta sorte. Lembrei-me de outro episódio caricato. Força. Quando era muito mais novo, num torneio em Monte Gordo, resolvemos telefonar, não fui eu, à polícia. A receção do hotel soube e falou com o nosso treinador. Lembro-me que o treinador foi ao quarto e pregou-nos um susto valente. Disse que sabia que tínhamos telefonado para a polícia e que a polícia estava a caminho do hotel para nos prender. Éramos muito miúdos, começámos a chorar, a dizer que não queríamos ir para a cadeia [risos]. Houve algum craque da equipa principal com quem tenha treinado e que tenha sido mais simpático? Não da equipa principal, mas lembro-me que havia um jogador, o Hildeberto Pereira, de 1996, que por alguma razão gostava muito de mim e eu nunca tinha tido grande contacto com ele. Ele é quatro anos mais velho do que eu e quando nos encontrávamos no centro de estágio ele vinha falar comigo, abraçava-me, até me deu umas chuteiras e eu ficava assim, meio... Porque não o conhecia e por alguma razão ele gostava muito de mim como jogador. Com os avós e a faixa de campeão distrital de juniores de 2009/10, pelo Benfica D.R. Quando finalizou o percurso de júnior sentia que tinha hipótese de chegar à equipa A, ou não? Sabia que não era uma grande aposta, mas aproveitei o máximo de tempo enquanto lá estive para aprender e para evoluir. Quando chegou o final dessa época, a opção do Benfica era continuar comigo e eu iria para a equipa B, mas para sair da minha zona de conforto, crescer pessoalmente, sair da casa dos meus pais, preferi ir para fora. Por isso vi com bons olhos quando os empresários me falaram da Itália. A verdade é que ficando no Benfica, na equipa B, também iria estar a competir na II Liga, e se formos comparar a II Liga de Portugal com a II Liga italiana, esta acaba por ser muito mais competitiva. Mas não foi logo para a equipa principal do Ascoli. Vou para lá com 19 anos e sabia de antemão qual era o projeto do clube para mim. Sabia que nos primeiros um, dois meses iria estar na equipa Primavera, que é como se fosse os sub-23 de cá, para fazer uma adaptação, tanto ao país como ao clube e ao futebol. Mas desde o início que fiz sempre os treinos com a equipa principal. Ou seja, eu era jogador da equipa principal, mas fiz dois ou três jogos pela equipa Primavera. Em novembro já tinha 10 golos no campeonato da Primavera, falaram comigo e passei a estar só na equipa principal. Indo um pouco atrás, como foi o primeiro impacto quando chegou a Itália? Não sabia falar italiano, mas como é muito parecido com o espanhol, desde início sempre percebi praticamente tudo. Falar era mais complicado, mas entender era relativamente fácil. De resto, a adaptação até acabou por ser relativamente fácil, o que mais complicou foi o impacto de estar sozinho. Deixei a minha namorada, os meus pais, a minha casa e estava num país novo, completamente sozinho. Viveu sempre sozinho? No primeiro mês fiquei num apartamento com vários quartos onde estavam muitos colegas da equipa Primavera. Mas depois fui viver sozinho. Tive de aprender a cozinhar, lavar roupa, lavar louça, tudo tarefas que não estava habituado a fazer. Ligou muitas vezes à mãe a perguntar como se fazia isto ou aquilo? [Risos] Até para lavar roupa eu ligava a perguntar qual era o programa que devia usar e em que sítio tinha de pôr o amaciador ou o detergente. Faz parte. O avançado com Rui Costa ao lado D.R. Havia algum português na equipa? Estive seis meses sozinho e em janeiro chegou o Diogo Pinto, que tinha estado comigo no Benfica, em júnior. Como foi recebido pelos italianos e como era o clube? O clube tinha boas condições, um centro de estágio e entre os colegas fui muito bem recebido. Como tinha acabado de sair do Benfica, e penso que nesse ano o Félix acabou por ser vendido ao Atlético de Madrid, vinham ter comigo a perguntar se eu tinha jogado com o Félix. Quando jogou com ele, sentia que ele se diferenciava? Sim, muito. Sobretudo na qualidade técnica e na decisão. Não coincidi muito com ele porque ele foi cedo para a equipa B e quando veio para jogar a fase final nos juniores eu, entretanto, sou emprestado, mas já na altura ele era algo fora do normal. Praticamente ele ganha esse campeonato dos juniores sozinho, se calhar fez tantos ou mais golos do que jogos. Aos 20 anos, quem era o seu avançado de referência? Sempre olhei muito para o Agüero como a minha referência. Tem a ver também com as características físicas, porque as pessoas diziam que eu era parecido com ele, não só pela forma de jogar, o penteado, o não ser um avançado tão alto, pela qualidade técnica, as movimentações, tínhamos umas certas semelhanças. Em 2019/20, Ricardo assinou pelo Ascoli da Série B talianai D.R. Quando deixou a equipa Primavera e começou a jogar a Serie B italiana, quais as principais diferenças que sentiu? A velocidade do jogo e o facto de ser mais físico e mais tático. A filosofia italiana incute alguma agressividade e todos os jogadores eram muito agressivos, essa foi a diferença maior. Assinou por três anos com o Ascoli. Quando terminou a primeira época sentia-se aposta do clube? Sentia. Foi algo falado, que seria aposta, que iria jogar. Fui para lá através de um diretor e treinador que gostavam muito das minhas características. Havia todo um projeto para mim, mas depois houve muita instabilidade, coincidiu também com a altura da covid-19 e acabámos por ter três ou quatro treinadores diferentes. Também mudaram muitas vezes de diretor. Cada treinador tem a sua ideia, cada diretor acaba por ter também as suas ideias e tudo acabou por ser perder e já não sentia a mesma confiança em mim que sentia antes. Quando e como se apercebeu da pandemia, uma vez que já estava em Itália, considerado o epicentro da covid-19 na Europa? O nosso jogo foi o primeiro a ser adiado devido à covid-19. Íamos jogar contra uma equipa da região norte da Itália, a 8 ou 10 de março, onde já se sabia que havia casos. Como um familiar de um jogador deu positivo, o jogo foi cancelado. Já não houve mesmo essa jornada. Depois foi tudo muito, muito rápido. No primeiro dia da semana tínhamos ido para lá para treinar normalmente, entretanto, avisam que o país vai praticamente parar. A partir daí foi complicado, parecia um filme de terror. Quando fomos para a quarentena, disseram-nos que eram duas semanas. Como Itália estava com muitos caos, Portugal já não aceitava voos vindos da Itália, e não consegui ir para casa. Depois desses 15 dias, afinal já eram mais 15 dias, foi sempre um adiar, um adiar, um adiar. O avançado no meio de colegas do Ascoli D.R. O que fez para manter a forma, treinos por Zoom? Estive um mês inteiro em que não saí de casa, porque havia polícias com megafones a falar, a avisar que era mesmo estritamente proibido sair de casa, que quem saísse era multado. Tanto que o clube organizou as coisas de forma à comida ser-nos entregue por um supermercado. Só descia as escadas para deixar o lixo à porta de casa e acabou. Por isso, manter a forma foi engraçado, até porque nunca tivemos treinos online. Havia muitas equipas e amigos que tinham treinos via Zoom e nós, nada. Inicialmente, cada um fazia o que queria. A minha casa era relativamente pequena, não tinha espaço para praticamente nada, fazia só umas flexões e abdominais, nada de mais, às vezes inventava fazer skippings em casa, mas fazia tanto barulho que o vizinho de baixo chegou a ir ter comigo. Acabei por subir e descer as escadas do prédio, meio que a correr. Ainda foi cerca de um mês e meio a dois nisto. Como se distraia? Via séries, filmes, jogava PlayStation? Nessa altura os meus horários estavam completamente fora do normal. Entre jogar Playstation, ver Netflix, falar com os amigos e com a namorada... Por um lado, até parecia que gostava porque estava toda a gente disponível, ninguém tinha nada para fazer [risos]. Nessa altura jogava tudo e como não havia treinos, ficava a jogar até às cinco ou seis da manhã. Do nada, começava a luz a entrar no quarto, e eu só pensava, é impossível, é impossível que ainda estou acordado a esta hora. Ia dormir e acordava às quatro da tarde. Os meus horários eram completamente... Nem quero pensar. Quando foi chamado a regressar aos treinos deve ter custado. Não, porque foi uma coisa gradual. Começámos a poder sair de casa num raio de um ou dois quilómetros, e ia correr, dar a volta ao quarteirão. Depois já podíamos circular mais, mas não podíamos treinar todos por ser uma atividade de grupo. Nunca furou o cerco? Como lá foi tudo tão dramático, havia pessoas a morrer em todo o lado, nem sequer havia espaço nos hospitais para ter pessoas mortas, havia muito medo. Lembro que colegas meus chegaram a enviar-me imagens de corpos amontoados à espera para serem enterrados. Tudo isso acabava por dar medo e ninguém tinha muita vontade de furar o cerco. O máximo que fazíamos era eu, com o Diogo Pinto e um outro brasileiro, encontrar-nos para ir correr juntos. Às vezes levávamos uma bola e íamos jogar para um campo de basquete. Era a única coisa mais fora da lei, entre aspas, que fazia. Ricardo fez época e meia no Ascoli Giuseppe Bellini Ainda iniciou a época seguinte no Ascoli, mas acabou por ser emprestado ao Casertana FC. Porquê? Comecei a época bem, sentia-me muito bem, mas nos últimos dias de mercado chegou muita, muita gente. Disseram-me que viam as minhas capacidades, que tinha qualidade, mas diziam que eu não tinha experiência. Não estava errado, porque a minha experiência era de sub-19. E, de acordo com a filosofia deles, que sempre privilegiaram jogadores mais experientes, fazia sentido o que eles me apontavam. Mas era o que eu respondia: “Se não me derem a oportunidade de jogar, como vou ganhar mais experiência? A experiência ganha-se jogando.” Também da parte deles deviam correr o risco. Eu tenho de estar lá dentro, para ganhar experiência. Mas pronto, começou a chegar muita gente para a equipa, é-me dito que não iria ter espaço e como foi tão em cima do final do mercado… Tenho a possibilidade de ir para a Casertana, mas quando fui assinar os papéis para oficializar os contratos, já tinha passado da hora, por segundos. Acabou por não ser possível naquela altura, em outubro. Fiquei lá dois, três meses, em que praticamente não contava e estava um pouco à parte da equipa. Praticamente só treinava quando era mesmo necessário ou porque faltava alguém. Estava desejoso que voltasse a abrir o mercado para eu poder ir para o Casertana. Acabou por só ir em janeiro. A Serie C era mais fácil de jogar? Sim, claramente. Era muito mais fácil em todos os aspetos, os jogadores contra quem jogava não tinham a mesma qualidade, a mesma intensidade. Acontece que aí acabou por haver um outro problema. Só me disseram depois que, na Serie C, a federação paga para os clubes meterem a jogar jovens italianos. Dá-lhes um certo valor para valorizarem os jovens jogadores italianos e dar-lhes oportunidades. O avançado da minha equipa estava nessa situação. Lembro-me que falei muitas vezes com o treinador, comentava, como é possível? Sei das minhas capacidades, o mister também sabe... Mas não conseguia ter muito tempo de jogo. O que lhe respondia o treinador? “Matos, provavelmente, tu és o único jogador que vejo com capacidade de poder chegar à Série A”; “Mas por que é que não jogo?” Não saíamos disto. E pronto, por tudo isto, meti na cabeça que era o meu último ano em Itália. Porque sair do Benfica, onde sempre joguei, para ir para um contexto em que cabo por jogar muito pouco, numa fase tão inicial da carreira, em que o importante é jogar, não estava a ser nada daquilo que pretendia. Preferia voltar para Portugal. Em 2021, Ricardo Matos foi emprestado ao Casertana FC, da Itália D.R. Entre Ascoli e Casertana viveu em duas cidades completamente diferentes uma da outra. Em qual delas gostou mais de viver? Gostei mais de Ascoli, porque era muito perto da praia, que eu adorava, com água mesmo quente. Como também tinha lá o Diogo Pinto, acabávamos por passar muito tempo juntos. Ainda por cima, mudei de casa e fui viver no prédio dele, no andar dele, na porta ao lado. Era eu no lado direito, ele no centro e o brasileiro no esquerdo. Muitas vezes estávamos com as portas abertas para falarmos uns com os outros, cada um na sua casa [risos]. Em Casertana estive dois meses e meio, três, e só fui a Nápoles uma vez. Ascoli era muito mais calma. Em Nápoles e Casertana, as pessoas são completamente diferentes, mesmo em termos de condução e trânsito aquilo era caótico. Mas posso dizer que os tempos de Itália foram importantes para mudar o chip, porque me tornei independente e, nesse sentido, acabei por não me arrepender de ter ido para lá. Tem histórias para contar da Itália? No meu primeiro ano conseguimos a manutenção mesmo no último jogo. Estava sentado no banco e comecei a ver o fisioterapeuta a andar à volta do campo, a meter sal. Perguntei a um colega porque ele estava fazer aquilo e ele disse-me que era para proteger o jogo, para que nada de mal acontecesse. Nunca tinha visto. Spoiler “No meu primeiro treino na Roménia, quando cheguei ao campo estava todo desnivelado e tinha lá dentro um cavalo a pastar” O avançado Ricardo Matos, que esta época veste a camisola do Arges Pitesti, explica nesta Parte II do Casa às Costas como foi parar à Roménia, que dificuldades sentiu na adaptação e quais os seus objetivos daqui para a frente. Antes, conta como foi o ano em que jogou no Olhanense, relata a estreia na I Liga, pelo Portimonense, e como foi regressar ao Belenenses, onde jogou por empréstimo, aos 18 anos Como foi parar ao Olhanense, que estava no Campeonato de Portugal, em 2021/22? Desde muito cedo tinha dito aos meus representantes que não queria continuar em Itália. Inicialmente o clube não me deixava sair, só consegui rescindir praticamente a meio de agosto. Os clubes de I e II liga em Portugal diziam que reconheciam a minha capacidade, mas a verdade é que eu estava há dois anos praticamente sem jogar. Esse foi o primeiro ano da Liga 3, os plantéis já estavam fechados, os principais campeonatos já tinham começado. O Olhanense tinha uma certa relação com Itália, os investidores da altura eram italianos, e chegaram a um acordo. A partir daí o meu objetivo era fazer 10 golos e conseguir ir para a II liga. Porquê 10 golos? Porque tinha visto um jogador, já não me recordo o nome, que tinha feito oito golos na Liga 3 e tinha conseguido ir para a II Liga. Meti na cabeça: vou ter de fazer 10 golos até final da época e provavelmente também consigo ir para a II Liga. Entretanto, começou o campeonato, as coisas começaram a correr-me muito bem e os objetivos tiveram de ser um pouco alterados. Faço os 10 golos antes de dezembro, antes do campeonato parar, e sabia que muito provavelmente teria propostas de outros clubes. Fui para o Portimonense em janeiro, mas acabou por ser toda uma história. Pode contar? Desde muito cedo que recebi propostas da Liga 3 até à I Liga. A qualidade da equipa também ia aumentando. Entretanto, foi passando o tempo, temos a paragem do Natal e Ano Novo, voltamos dia 5 e passado dois ou três dias apanho Covid-19. Tive de ficar uma semana em casa. Eu era o único da equipa com Covid-19. Falava com o meu empresário e ele ia dizendo: “Tens esta equipa”. Depois já falava também com o presidente do clube, porque queria sair, até porque na altura já não estavam a pagar salários, o investidor tinha saído, e não queria continuar naquela situação. Mas a verdade é que as equipas tinham de pagar para eu sair, logo aí a maior parte acabou por saltar fora do barco, porque não tinham essa capacidade financeira. Praticamente até o final do mercado foi quase um género de leilão, para ver quem pagava mais. O Portimonense foi aquele que acabou por chegar a acordo com o Olhanense, para me libertar. Saí diretamente da quarta divisão para a I Liga. Em 2021/22, Ricardo Matos regressou a Portugal para jogar no Olhanense Karl Jensen Teve ordenados em atraso no Olhanense? Sim. Até tenho uma história sobre a altura em que não recebemos ordenado. Andavam sempre com promessas e toda a gente decidiu fazer greve. Falámos com o mister, ninguém treinava. Mas como já lá estávamos, quisemos fazer qualquer coisa, só que o roupeiro nem roupa nos deu, também estava em greve [risos]. O que fizemos? Tirámos as nossas roupas, fomos para o ginásio todos de boxers. Nessa semana não treinámos, mas fomos jogar e ganhámos. Quem o quis no Portimonense, foi o treinador Paulo Sérgio? Não lhe sei dizer, sei que o treinador gostava muito de mim. Pedi sempre aos meus empresários para estar um pouco fora de negociações e praticamente só quando é para dar a palavra final é que me meto. Quando chegou a mim, foi tudo rápido, tanto que, penso que no penúltimo dia do mercado, ainda joguei pelo Olhanense. Falei com o treinador porque sabia que iria embora e tinha medo de me magoar. Eu mal tinha começado a treinar. Ele pediu-me para jogar 5 ou 10 minutos porque a equipa precisava. Disse-lhe que jogava, mas que se houvesse lances divididos não ia meter o pé porque tinha receio de me lesionar. Muito diferente o Portimonense do Olhanense? Sim. Desde logo as condições. O Portimonense tem condições muito boas. Uma coisa que me marcou foi o relvado do estádio, era incrível. Era o melhor relvado da I Liga. Mesmo o centro de estágio e as condições que nos davam, de comermos no hotel, até à própria cidade de Portimão, eu vivia a 100 metros da praia. O avançado estreou-se na I Liga pelo Portimonense, na época 2021/22 CVIDIGAL Recorda-se da estreia na I Liga? Perfeitamente. Assinei dia 31 e ainda treinei de tarde, com aqueles que tinham jogado menos tempo. Nos dias seguintes fui fazer os exames médicos, lembro-me que tinha dito aos meus pais que duvidava que fosse logo convocado e que provavelmente poderia ir jogar aos sub-23. A verdade é que no penúltimo dia da semana, no meu terceiro dia, treinámos no estádio e foi a primeira vez que tive contacto com toda a equipa. Lembro-me de sentir e pensar: eu não sou diferente deles, eu consigo jogar aqui. No dia seguinte, véspera do jogo, temos treino de manhã e um colega, da minha posição, dá positivo para Covid-19. Logo nesse treino, o mister acabou por meter-me na equipa que teoricamente era a titular, para fazer esquemas táticos. Entretanto, os meus colegas na brincadeira até disseram: “Epá, és mesmo um filho do mister, acabaste de chegar e vais já jogar”. Pensei: deve ser treta. Mas depois do treino saiu a convocatória e estava convocado. Liguei logo aos meus pais, todo contente. Contra quem era o jogo? Contra o Paços de Ferreira, lá. Os meus pais e a minha namorada da altura foram lá ver o jogo. Mas só tive a certeza que ia mesmo jogar no dia seguinte. De manhã temos o vídeo para ver a equipa e lembro-me que a conversa do mister foi praticamente só para mim. Estava toda a equipa, mas o mister explicava o que pretendia de mim. O jogo era de noite, passei o resto do dia no quarto e só pensava como é que ainda há 4 ou 5 dias estava a jogar no Campeonato de Portugal e naquele momento ia ser titular na I Liga? Estava nervoso. Muito nervoso. Falei com o meu empresário, tentei dormir, não conseguia dormir, então pus-me a ver filmes atrás de filmes a tarde toda, só para não pensar. Fui para o jogo e no aquecimento ainda sentia o nervosismo porque vi os meus pais na bancada. Regressámos ao balneário e quando volto para o jogo, aí todo aquele nervosismo saiu, desapareceu completamente e foi um jogo normal. Joguei praticamente os 90 minutos. Nesse momento senti: realmente tenho qualidade para estar aqui, não tenho nada a menos do que eles. Ricardo, ao fundo, levanta os braços para a bancada onde estavam os pais, no festejo do primeiro golo que marcou pelo Portimonense CVIDIGAL Como foi o impacto de jogar na I Liga? Foi enorme, até porque eu saí da quarta divisão. Senti mais a intensidade e o tempo que temos para pensar, que é mínimo, é tudo muito rápido. Mas, por outro lado, os meus colegas eram melhores, acabava por facilitar um pouco. Sempre fui um jogador inteligente e tinha principalmente o Nakajima, que era muito inteligente, decidia muito bem e dávamos-nos muito bem no campo. Quando se está numa equipa melhor, com colegas melhores, tu próprio tornas-te melhor. Gostou de trabalhar com Paulo Sérgio? Gostava dele. A única coisa... Fui para lá quando saiu o ponta de lança Beto, com características completamente diferentes das minhas. Muito alto, muito forte no choque. Tínhamos um jogo que acabava por ser muito virado para aí e eu acabava por ter dificuldades nesse sentido. Lembro-me de ter uma conversa um pouco mais para a frente com o treinador, em que ele me disse que em termos de movimentação, de finalização, não podia pedir nada mais porque eu correspondia, era bom. Na conferência de imprensa de um jogo contra o Benfica ele chegou praticamente a dizer que a diferença de mim para o Ramos era que ele estava no Benfica e eu estava no Portimonense, uma equipa que lutava praticamente sempre para não descer; logo, as oportunidades que um avançado tem são completamente diferentes das oportunidades que um avançado de uma equipa grande acaba por ter. Não marcou muitos golos. Nem nessa época, nem na seguinte. Nessa época, faço o primeiro jogo como titular, no segundo jogo novamente e faço golo, e no terceiro vamos jogar contra o Santa Clara e tenho uma rotura no posterior que me afasta dois meses. Quando voltei já era o final do campeonato. Por isso nesse primeiro ano fiz apenas cinco golos. Na temporada seguinte, em que tinha aquela ilusão de que as coisas iam voltar a ser as mesmas, acabaram por vir jogadores com outras características, que no momento seriam mais apreciadas para aquele tipo de equipa. Sou um jogador de equipa grande, nas equipas mais pequenas que lutam pelo ponto, que por norma estão sempre a defender, só no contra-ataque é que o avançado está lá praticamente para bater, e eu não sou esse tipo de ponta de lança. Está a dizer que não é aquele finalizador nato? Não, sou, obviamente que sou. O que digo é que uma equipa que está para descer praticamente está sempre a defender e depois é muito pontapé para a frente e bola no ar para disputar com os centrais e essas não são as minhas características. O meu problema nunca foi o fazer golo, agora até chegar ao golo, tinha muita dificuldade comparado aos outros porque estava a jogar um jogo que não ia de acordo com as minhas características, porque no Benfica sempre me habituei a um futebol apoiado, futebol no pé, de combinações, sempre com bola, nunca tinha estado nessa posição de não ser eu a ter a bola. Acabava por ser uma das minhas fraquezas e por isso não joguei tanto. O avançado (à direita) com a camisola do Portimonense, em jogo contra o Benfica Gualter Fatia Na época seguinte foi emprestado ao Belenenses. Foi a seu pedido? Tendo em conta aquele ano, acabei por decidir que queria ir para um contexto diferente, em que jogasse. Teria de ser emprestado, porque para ser vendido, eram valores que ninguém dava, tendo em conta que tinha jogado muito pouco. Não dava para ser emprestado para a I Liga, só para a II Liga; entretanto, em termos de negociação com um ou outro clube, também não sei dizer o porquê, mas não aconteceu, e acabei por ir para o Belenenses, que tinha muita vontade em contar comigo. Mas, para ser sincero, não era a minha primeira opção. Voltou para Lisboa. Continuava a viver sozinho? Nessa altura, como era empréstimo de um ano, não fazia sentido gastar dinheiro em alugar casa, quando tinha a casa dos meus pais. Voltei novamente para a casa dos meus pais. Como foi recebido em Belém? Era um grupo acolhedor e o Belenenses, como costumo dizer, tem tudo para estar na I Liga e ser um bom clube porque tem a localização, tem os adeptos, tem o nome, tem a história, tem tudo, mas a verdade é que falta sempre alguma coisa. E tivemos praticamente tudo para ficar na II Liga, mas acabámos por descer, foi um ano conturbado com vários treinadores. Entre Bruno Dias, Vasco Faísca e Mariano Barreto, com qual gostou mais de trabalhar? Adorei trabalhar com o Vasco Faísca. Quando fui para o Portimonense, ele era o treinador do Farense, da II Liga, e já nessa altura havia interesse. Quando chegou ao Belenenses senti logo da parte dele muita confiança nas minhas capacidades. Em termos de treino, da pessoa em si, do que pretendia de nós, era um treinador para outros níveis. Aquilo que estávamos a fazer com ele não era para uma equipa que estava a lutar para não descer. Tinha ideias muito boas, adorei. Mas como são os resultados que ditam tudo... Mas foi a altura em que jogávamos melhor. A festejar mais um golo pelo Portimonense CVIDIGAL Tem histórias para contar dessa época no Belenenses? Tenho uma história que me lembro do nosso último treinador. Acho que foi o primeiro jogo com ele. Fomos jogar contra o Marítimo, na Madeira, fizemos a viagem de tarde, chegámos ao hotel e pediram-nos para descermos dos quartos. Estávamos com as nossas roupas normais, fato de treino. Disseram-nos que íamos para o parque. Não tínhamos treinado nesse dia de manhã. Vamos para o parque e do nada o treinador disse-nos que tínhamos de dar umas corridinhas no parque. Nós, de fato treino, de noite, com gente no parque, a olhar para nós a fazer corridinhas à volta do parque, foi surreal. Porque não regressou ao Portimonense? Terminava contrato? O Portimonense acabou por descer também para a II Liga e não pretendia estar mais um ano na II Liga. Como tive a proposta de ir para a Roménia, para a I Liga, que era o que queria para valorizar-me e tentar dar um salto diferente, aceitei. Foi ganhar quantas vezes mais no Gloria Buzau? Já não me lembro, mas tinha de compensar para sair de Portugal. Como foi o primeiro impacto na Roménia? Foi complicado, embora já o esperasse. Na minha cabeça tinha de fazer o meu melhor, estava aqui por um propósito, jogar, fazer golos e ir embora. Por isso meio que me sujeitei, por um bem maior. Desde o início notei que as condições do clube eram as piores condições que já tinha tido, em todos os aspetos. Pode explicar melhor? Em termos de campo de treinos, de organização, o estádio. Não tínhamos um campo de treinos, treinávamos um dia aqui, um dia ali, tínhamos de fazer 20 minutos de autocarro para um lado, 20 minutos de autocarro para o outro. Quando cheguei, passado dois dias, fomos de estágio para a Eslovénia e aí, tudo bem, tudo normal. Os romenos receberam-me bem, mas no início era complicado ter uma certa ligação porque não havia tanta gente a falar inglês. Havia um brasileiro que me ajudou muito, o Diego, e depois acabou por se juntar a mim, nesse estágio, um colega que tinha estado comigo no Belenenses, o Moha Keita. A partir daí foi muito mais fácil, estávamos sempre juntos. Quando voltámos para a Roménia houve todo esse impacto com o clube, e o primeiro treino é num campo todo desnivelado em quem quando chegamos estava um cavalo dentro do campo a pastar. Só pensei, mas onde é que eu estou? [risos] Felizmente, acabou por chegar outro colega que jogou comigo no Benfica, o David Tavares. Motivavamo-nos mutuamente, dizíamos que tínhamos um propósito, que tínhamos de fechar os olhos e fazer o nosso melhor, para poder dar um passo em frente. Em 2023/24, Ricardo (à esquerda) a festejar ao lado de Tiago Manso, é empresatdo ao Belenenses D.R. Os adeptos romenos, que tal são? Muito emotivos. O primeiro jogo foi fora, até num bom estádio, com um bom relvado e com muitos adeptos. A forma como eles vivem o futebol aqui é mesmo muito apaixonante, são muito emotivos. Estavam 8000 pessoas, uma coisa assim, e no meu primeiro jogo em casa, estavam 10.000. Acabava por me sentir jogador, porque mesmo na rua abordavam-me e pediam para tirar fotos. A sua ideia era ficar só um ano na Roménia? Sim. A ideia era dar logo o salto. As coisas começaram bem, tanto que em dezembro já tinha seis golos marcados, mas tive uma lesão em janeiro. Fazemos a paragem de inverno, faço a pré-época na Turquia, havia muitas equipas que me queriam, mas estava a ser difícil chegar a um entendimento com o clube, dificultaram-me a vida, fiquei stressado. Uns dias depois do campeonato recomeçar tenho uma lesão no gémeo que me deixou de fora dois meses. Quando já estava recuperado e queria voltar, descobri haver um limite de vagas na equipa para estrangeiros e como eu estive lesionado, eles acabaram por retirar-me para poderem inscrever outro jogador. Devido a isso fiquei esse resto de época sem jogar. Antes do final da época acabei por rescindir com o Buzau. Mas como não joguei aquela resto de época, foi isso que ficou na mente das pessoas. Fica aquele receio, será que ele está bem? Será que recuperou bem? Porque, na verdade, não tinha voltado a jogar. Isso complicou muito a minha vida em termos de propostas e acabei por voltar para a Roménia, porque era o contexto em que mais me conheciam nesse ano. Cada vez que marca golo o avançado faz um gesto como se fosse um sniper a disparar Gualter Fatia E o Arges Pitesti é muito diferente do Glória Buzau? Muito, em todos os aspectos. Em termos de organização do clube, da gestão, das condições que nos proporcionam, as próprias pessoas do clube, sempre disponíveis para nos ajudar. Nesse sentido, nada a apontar. Continua a viver sozinho? Sim. Tem contrato até quando? Ainda falta ano e meio. Gosta mais de viver em Pitesti? Mil vezes. A distância para Bucareste é praticamente a mesma, a diferença é que de Buzau a Bucareste as estradas são horríveis, como andar no monte de alguém, enquanto daqui é autoestrada. Buzau é uma cidade pouco desenvolvida, muito velha, nem tinha praticamente shopping, não tinha praticamente nada, Pitesti já é uma cidade maior, tem mais pessoas, tem shopping, em uma hora estás em Bucareste, em Craiova. Qual é o seu grande objetivo? É voltar a jogar na I liga portuguesa? Não meto as coisas assim. O meu objetivo é sempre chegar o mais longe ou o mais alto possível. Agora, se é em Portugal, sinceramente, não tenho algo determinado. O que pretendo é melhorar todas as minhas condições e ir para campeonatos com maior expressão. Há algum campeonato onde gostasse mais de jogar? O meu campeonato de sonho é a liga espanhola, tem um jogo que me atrai e vai muito ao encontro das minhas características. É o meu campeonato de eleição. Na época passada, 2024/25, Ricardo jogou pelo Gloria Buzau, da Roménia D.R. Tem alguma meta para deixar de jogar? Não. Ainda não pensei nisso, não. Quero jogar até me sentir bem para isso e enquanto tiver motivação. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras? A minha ideia passa por investir de modo a que, chegando ao final da carreira, tenha um certo rendimento. E já investiu? Sim, em imobiliário. Gosto muito e tenho interesse. Mas, por outro lado, não gostava de ficar completamente fora do futebol. Gostava também de ser um intermediário, ou empresário, algo do género. Neste momento não me vejo ligado a um clube. Treinador, fora de questão, porque sinceramente não quero ter essa responsabilidade numa equipa. Onde ganhou mais dinheiro até agora? Aqui na Roménia. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Não sou muito de extravagâncias. De certeza absoluta que já gastei dinheiro à toa que depois me arrependo, mas neste momento não me lembro de nada. Tem algum hobby? Uma coisa que gosto muito de fazer mesmo é ver a Fórmula 1. Qual o seu piloto favorito? O Lewis Hamilton. Esta temporada, o avançado veste a camisola do Arges Pitesti, da Roménia D.R. Acredita em Deus? Tenho a minha fé, não digo que é Deus, mas tenho a minha fé. E superstições? Antes de entrar em campo faço uma reza e gosto de ouvir a minha música. Ultimamente eram músicas que tinham passado em Mundiais ou competições relacionadas com futebol. Mas, entretanto, mudei de playlist e esta nova já tem um pouco de tudo. Tatuagens, tem? Tenho duas, feitas ao mesmo tempo. Num braço em numeração romana a data de nascimento do meu pai e no outro a da minha mãe. Gosta de praticar outra modalidade sem ser futebol? A única modalidade que pratico nas férias é padel. Também gosto de ver ténis, aqueles jogadores mesmo de topo, como Alcaraz, o Sinner, o Djokovic. Qual a maior frustração que tem na carreira? Adorava ser jogador da equipa principal do Benfica, o meu clube do coração. Sempre foi o meu sonho. E o maior arrependimento? Não guardo arrependimentos. Num momento até posso ficar meio-arrependido, mas acredito que tudo o que acontece na vida tem o seu porquê e coisas melhores virão. O momento mais feliz na carreira até agora? O primeiro golo que marquei na I Liga em Portugal, foi contra o Boavista. E os momentos em que deixei as pessoas de quem mais gosto orgulhosas de mim e felizes. Ricardo joga no Arges Pitesti com o objetivo de ar o salto para um clube maior Marius Ciurcu Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde um dia gostava de jogar? O sonho de criança é no Benfica. Mas de todos, o Barcelona. Quem são as maiores amizades que fez no futebol? Dantas, Diogo Capitão, Diogo Pinto, Fábio Balde e Celton, acabam por ser várias. Tem ou teve alguma alcunha? Um amigo meu chamava-me Mogli, por causa do meu cabelo. Aguero também, por ser parecido com ele e Matigolo, uma junção de Matos com golo. Há alguma regra do futebol que alterava ou bania? Podermos tirar a camisola quando festejamos um golo, sem levar cartão, porque isso impossibilita muito mostrar a minha felicidade [risos]. Mas tem outra forma de festejar. Quer explicar? Sim, como se fosse um sniper. Gosto muito de jogos de tiros na PlayStation, é a forma que tenho de me desligar do futebol. Adoro jogar como sniper e acabou por surgir entre amigos a ideia que tinha de inventar um festejo e devido a esse gosto acabou por surgir essa ideia. Tem algum talento escondido? Não é talento, mas sei que se caprichar tenho uma certa capacidade para cozinhar, mas depende também do meu mood. Faz parte dos seus sonhos casar e constituir família? Claramente. Qual o jogador com quem gostava de jogar na mesma equipa? Kevin de Bruyne. Alguém que me metesse as bolas, que me assistisse e eu só tivesse mesmo de encostar lá para dentro. Ia facilitar-me muito a vida [risos]. E o jogador contra quem gostava de jogar um dia? O Messi. Não por mim, porque eu queria que ele estivesse bem longe de mim, mas partilhar o campo com ele. Algum defesa, algum central que tenha sido a maior dor de cabeça para si? Talvez o Otamendi. Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 21 Dezembro 2025 Filipe Chaby Spoiler “O Vítor Oliveira fez uma tripla substituição, saí louco e atirei umas bocas. Os três que entraram decidem o jogo. Enfiei a viola no saco” Filipe Chaby, de 31 anos, está à espera que o telefone toque após ter regressado recentemente da Indonésia, onde jogava no Semen Padang. O médio formado no Sporting desfia nesta parte I do Casa às Costas como foram os primeiros anos de um percurso que nunca chegou a atingir a glória esperada. Fala do deslumbramento, das lesões, dos treinadores que mais o marcaram e conta pormenores da sua história que há um ano ficou mais rica com o nascimento da filha Francisca Nasceu em Setúbal. É filho de quem? Sou filho do Carlos Chaby, que além de professor de educação física, sempre esteve ligado ao futebol, maioritariamente no Vitória Futebol Clube. Começou como treinador das camadas jovens, passou por vários escalões e acabou como coordenador técnico da formação. Agora já não desempenha essas funções. E sou filho da Alexandra Chaby, que começou por trabalhar no secretariado das piscinas do IPS de Setúbal, mas acabou por se desempregar para cuidar de mim e da minha irmã, seis anos mais nova. Deu muitas dores de cabeça aos seus pais? Dei. Os meus pais dizem que hoje sou uma sombra daquilo que fui em criança, sou uma pessoa completamente diferente. Agora sou muito relaxado, muito calmo, mas quando era miúdo era o terror autêntico. Tiveram bastantes problemas comigo no 1º ciclo, levava bolas vermelhas todos os dias para casa [risos]. Porquê? O que fazia? Saltava janelas, por exemplo, porque queria sair para ir jogar à bola. A minha mãe conta que uma vez fui passear com a minha avó junto ao nosso bairro e, ao atravessar uma ponte por cima de uma estrada, vi um pacote de leite grande no chão e a primeira reação foi dar um grande chuto no pacote, que rebentou, era leite por tudo o que é sítio e afinal o pacote era de um senhor que estava a voltar a subir as escadas porque o deixou cair [risos]. Foi ali uma confusão com a minha avó... Mas há muitas histórias, quando tocava para o recreio em vez de sair pela porta da sala, saltava a janela. Era um miúdo muito irrequieto, mas fui acalmando ao longo dos anos. Filipe Chaby com os pais D.R. O que dizia querer ser quando fosse grande? Não faço ideia. Sei que comecei a jogar futebol muito cedo. Se me perguntassem se queria ser jogador, obviamente diria que sim, mas não sei se realmente tinha isso em mente. Os meus pais sempre me incutiram que tinha de estudar. E gostava da escola? Gostava porque adorava brincar com os meus amigos, mas não gostava de estar fechado numa sala de aula. Se me dissessem que não era obrigatório estudar e podíamos arranjar um trabalho ou ser jogador de futebol, não teria ido à escola [risos]. Mas sabia que era importante para o nosso conhecimento, para o nosso futuro, e adorava o ambiente da escola. Começou a jogar futebol onde e quando? Comecei no Vitória Futebol Clube, não me recordo a idade. Sei que comecei um bocadinho mais cedo, porque o meu pai era treinador das camadas jovens do Vitória. Ele colocou-me num torneio, sem ninguém saber, porque estava a jogar com miúdos três ou quatro anos mais velhos. Depois passei por aquilo que todos os miúdos passavam, que foi um período de captações, em que o Vitória escolhia aqueles que tinham mais capacidades para fazer parte dos escalões jovens. Acredito que comecei com 6, 7 anos. Aos 12 anos acabou por ir para o Sporting. Como? O Vitória Futebol Clube sempre foi conhecido por ter uma boa escola de formação, por isso éramos convidados para “n” torneios de futebol e em muitos deles jogávamos contra o Sporting, o Benfica, o FC Porto. Lembro-me de irmos ao Torneio da Pontinha, por exemplo, e acredito que comecei a entrar no radar dos grandes clubes por essa altura. Entretanto, houve quem desse por certo a minha ida para o Benfica, sem falar com o meu pai. O meu pai não gostou e disse que eu não ia. Depois apareceu o Sporting. Falaram com os meus pais e como a minha família é toda sportinguista, e eu tenho uma costela do Sporting e outra do Vitória, sempre tive o sonho de jogar no Sporting. Via o Sá Pinto, o Jardel, o João Vieira Pinto e sonhava um dia ser como eles. A nega do seu pai ao Benfica foi pelo facto de ser sportinguista? Não. Essa não foi a questão, até porque os responsáveis do Benfica eram aqui de Setúbal, era o Bruno Lage. Acho que foi devido ao processo, porque o meu pai não estava muito envolvido, aquilo foi num negócio do Moreto, um guarda-redes, em que o Benfica dava mais um X ou dava mais material para as camadas jovens e o Vitória meteu-me nesse pacote. O meu pai cancelou tudo, disse que não fazia sentido que eu e ele não soubéssemos e que não era assim que as coisas se faziam. Acabei mais tarde por ir para o Sporting. Filipe com um dos primeiros troféus que ganhou no Sporting ainda em criança D.R. No segundo ano de Sporting, acabou por ter um problema sério em casa e o Sporting deu uma boa ajuda. Pode contar o que aconteceu? Houve uma explosão de gás no 11º andar, o andar por cima do nosso. O quarto dos meus pais foi completamente destruído. O meu pai ficou ferido nas costas, na cervical, mas podia ter sido bem pior. Ele estava no quarto e recebeu um telefonema da mãe de um jogador, que queria explicações do meu pai sobre porque o filho não jogava. O meu pai saiu do quarto para atender o telefone e quando atende é quando acontece a explosão. A parede que separa a sala do meu quarto caiu-lhe em cima das costas e do pescoço. O que aconteceu depois? Tivemos de sair de casa durante um ano. Ainda houve a hipótese dos últimos três andares do prédio, incluindo o nosso, serem derrubados. Passámos os primeiros dias na casa da minha avó, no Estoril, a seguir fomos para um hotel em Setúbal, um, dois dias, porque eu e a minha irmã tínhamos escola; depois uma amiga de família, que tinha um apartamento vago em Setúbal, emprestou-nos sem custos e, por fim, acabámos por ir para a casa da minha tia, que estava a viver em Moçambique. A casa dela era muito perto do nosso apartamento, assim possibilitou aos meus pais irem acompanhando as obras. Até nos mudarmos de novo para a nossa casa, demorou mais de um ano. Conseguiram recuperar as vossas coisas? Inicialmente ficámos sem nada, ninguém podia entrar no apartamento, porque estava em risco de ser derrubado. Foi o Sporting que me ajudou. Nos primeiros dias de treino, logo a seguir ao acidente, o Paulinho apareceu no balneário com uma mala do Sporting cheia de material para mim, inclusive com uma bola assinada por todo o plantel principal. A malta do Sporting mostrou logo disponibilidade para ajudar no que fosse preciso. Na escola, a minha turma também se juntou e ofereceu-me uns ténis e roupa. Depois, aos poucos, fomos recuperando as coisas do apartamento através dos bombeiros. No quarto dos meus pais é que não se conseguiu salvar nada, perdemos cassetes, por exemplo, da minha infância e da minha irmã, coisas que têm muito valor sentimental. O médio fez toda a formação no Sporting D.R. Quais foram os momentos e as pessoas mais marcantes até chegar a júnior? Acredito que todas as pessoas foram marcantes, cresci com todas elas. Mas há pessoas pelas quais guardamos um carinho especial, como o mister Aurélio Pereira, pela relação que sempre tive com ele e que ele tinha com o meu pai, por tudo o que fez por mim, por tudo o que ajudou; o mister Tiago Capaz, um treinador que me marcou bastante acima de tudo pelo lado pessoal. Foi o meu treinador nos iniciados de 1º ano. Parecia um treinador muito rezingão, muito duro e foi alguém muito importante na minha formação. O mister Ricardo Sá Pinto e o mister Tiago Moutinho, que faziam parte da equipa técnica dos juniores do Sporting em que tivemos um ano de ouro, ganhámos praticamente tudo e acabei por assinar o primeiro contrato profissional, na transição de 17 para 18 anos. Foi aí que senti ser possível realmente fazer vida disto, ser profissional de futebol. Quando começaram os namoros mais sérios e as primeiras saídas à noite? As primeiras saídas à noite começaram cedo, com 15, 16 anos, mas sempre de uma forma responsável, depois dos jogos, até à meia-noite, uma da manhã, porque os meus pais eram super exigentes e protetores. Comecei a namorar aos 15 anos com a Patrícia, com quem ainda estou. Casámos e tivemos uma bebé que fez agora um ano. Como se conheceram? Conhecemo-nos num parque de campismo em Fernão Ferro, onde tenho uma casinha e ainda hoje vou passar lá as férias. Foi lá que conheci o meu grupo de melhores amigos, onde conheci os meus padrinhos de casamento, a minha mulher. Ainda demorou a conquistá-la, não foi fácil. O que ela faz profissionalmente? Ela teve azar porque casou com um jogador de futebol [risos]. Tenho tido uma carreira em que estou sempre de um lado para o outro e a minha mulher, graças a Deus, sempre quis e acompanhou-me. Quando estivemos na Covilhã ela começou a trabalhar numa loja para não ficar o dia todo em casa e ganhar algum dinheiro para ela. No ano seguinte, quando viemos para o Belenenses, ela acabou por conseguir um trabalho numa academia de estudos, onde fazia tudo, recursos humanos, tratava dos miúdos, etc. Quando fui para o Azerbaijão, foi a única vez que não me acompanhou, porque arranjou um trabalho na área onde se sente realizada. Começou a trabalhar na Cáritas de Setúbal como assistente social. Entretanto, acabou por ir para a Indonésia comigo, mas infelizmente viemos mais cedo do que o esperado, e agora está em casa, com a Francisca, a nossa bebé. Mas tem a ambição de continuar a trabalhar, mais dia menos dia irá tentar arranjar um trabalho na área dela. Voltando ao Sporting. Assinou o primeiro contrato profissional com 18 anos, ainda estava nos juniores, certo? Sim, nesse primeiro ano de juniores comecei a ser chamado muitas vezes à equipa A, na altura em que o Domingos Paciência era treinador. O Domingos acabou por sair e assumiu o mister Ricardo Sá Pinto, que estava a treinar os juniores e continuei a ir muitas vezes à equipa A, mas sem nunca me estrear oficialmente. Domingos Paciência e Sá Pinto muito diferentes um do outro? Cada treinador tem os seus ideais, a sua filosofia, a sua maneira de ver o futebol. Na altura não tive tanto relacionamento com o Domingos, porque era treinador da equipa principal e não me aproximava muito, tinha algum respeito e medo [risos]. Mas foi um treinador que me deu a oportunidade de poder estar nesse patamar, de poder experimentar o que era estar na equipa principal. Foi bem recebido pelo balneário sénior? Fui sempre bem recebido. O Sporting sempre teve muitos jogadores vindos da formação, eles sabiam o que era estar do nosso lado e acabavam por tentar fazer com que nos sentíssemos bem. O Adrien e o Cédric eram fantásticos, o Ricky van Wolfswinkel e o [Diego] Capel parecia que tinham sido jogadores da formação do Sporting, também eram fantásticos, o [André] Carrillo, o Jefferson, defesa esquerdo, eram também incríveis. Simpatias à parte, houve algum jogador que o tivesse impressionado mais nos treinos? Sim, o Matías Fernández era absurdo. E o Rui Patrício também, na baliza, era surreal. Eram foras de série. O Rui, era difícil marcar-lhe golo quando saía no um para um, ele fechava a baliza completamente e o Matías era extraordinário, acho que só treinava de vez em quando, não sei se tinha problemas físicos, mas quando treinava era absurdo. Qual o valor do seu primeiro ordenado e o que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Penso que estava entre os €1100 e €1200. O meu pai sempre tentou incutir-me valores e que fosse responsável com o dinheiro, só que somos miúdos. Acho também que me fez bem passar por toda essa fase porque me fez a pessoa que sou hoje e dar valor ao dinheiro. Mas, na altura, como ainda recebi um prémio de assinatura, quis comprar logo um BMW Série 1, em segunda mão. Uma pessoa é jogador, vê os colegas com BMW's, qual comprar Citroëns, qual quê [risos]. Acho importante haver mais acompanhamento, principalmente nas academias do Benfica, do FC Porto, do Sporting e do SC Braga, porque hoje vejo miúdos a assinar contratos profissionais com 15 anos e é complicado quando és miúdo e vês-te com bom dinheiro. Começas a gastar em roupa, em relógios, em carros, em porcarias e depois chegas aos 25, 26 anos, a tua carreira toma outro rumo, olhas para a tua conta bancária, para o teu património e não tens nada. Não sei se as academias já têm esse acompanhamento, mas era importante. Se soubesse o que sei hoje, estava muito melhor do que estou. Em treino nos juniores do Sporting D.R. Chegou a estrear pelo Sporting? Oficialmente, não. Só fiz jogos amigáveis. Quando o Ricardo Sá Pinto foi treinar a equipa principal, foi Abel Ferreira quem ficou no comando dos juniores? Sim, o Abel finalizou a nossa temporada, porque estava a recuperar de uma lesão no joelho, mas já estava a tirar os cursos de treinador e acabou por entrar na equipa técnica do Sá Pinto para estagiar. Por isso, quando o Sá Pinto deu o salto era óbvio que tinha de ser o Abel a assumir, já estava dentro da dinâmica da equipa. Na altura já se vislumbrava que pudesse tornar-se o treinador de sucesso em que se tornou? Foi o primeiro impacto do Abel como líder de um grupo de trabalho. Apanhei-o depois na equipa B e ao fim de duas épocas já era muito melhor treinador do que no primeiro ano. Em que aspetos? Na maneira de estar com os jogadores, na liderança, no discurso, os treinos eram também mais fluídos. Por isso é que existem cursos de treinador. Ser jogador de futebol não quer dizer que vá ser bom treinador. É para isso que existem os cursos. Acho que o Abel aproveitou a oportunidade e foi melhorando dia após dia, ano após ano e hoje é o treinador que é. Se já via potencial e capacidade no Abel na equipa B? Já via e acabou por se tornar realidade. Mas o Sá Pinto também era um treinador que sempre pensei que fosse ter uma carreira muito melhor do que tem tido. Não é que tenha uma má carreira, mas pensei que poderia ser melhor tendo em conta os treinos dele, a maneira como lidava com os jogadores, o seu conhecimento, a sua liderança. Já vi muita competência e capacidade noutros treinadores que acabaram não fazer a carreira que queriam, às vezes é uma questão de oportunidade. O médio nunca chegou a estrear pela equipa principal do Sporting D.R. Em 2012/13 subiu à equipa B? Em 2012/13 era júnior do último ano, comecei a época a treinar nos juniores, entretanto dou o salto para a equipa B, comecei o campeonato a titular da equipa B com o Dominguez e o Oceano. Depois, numa ida à seleção nacional a um torneio em Itália, por volta do 6º, 7º jogo do campeonato português, acabei por fazer uma rutura do cruzado anterior e fiquei de fora praticamente o resto da época. Como fez essa rutura? Foi um lance um bocadinho esquisito. Há uma bola que vai para a linha lateral, fui à bola, entretanto vieram dois jogadores da Itália em sentidos opostos, fui ensanduichado e ao tentar fazer a rotação para sair da pressão eles impactaram comigo e o meu joelho ficou preso. Passou-lhe pela cabeça que a carreira pudesse estar em risco? Não me passou pela cabeça porque não existia a informação que existe hoje. Tinha 18 anos e não sabia que havia lesões. Não sabia que era possível um jogador lesionar-se porque nunca tinha tido uma lesão e os meus colegas também não. Uma das primeiras pessoas que me mandou mensagem a dizer que se precisasse de ajuda, ele estaria disponível, foi o Gonçalo Paciência, que era meu colega na seleção nacional e também estava a recuperar do cruzado anterior, e eu não fazia ideia. Quando o médico da seleção veio com o exame e diz: "Tens uma rutura do cruzado anterior." Respondi: “OK, quando é que posso jogar? Daqui a dois, três dias?” Depois é que ele me diz que era uma paragem de seis meses. Não fazia a mínima ideia. Foi-se muito abaixo psicologicamente? Acho que não, porque sempre tive uma estrutura familiar que me apoiou, amigos que me apoiaram, o Sporting também foi impecável. O chato foi estar fora do futebol, não poder treinar, não poder jogar, não poder estar com os meus colegas e perder oportunidades; ver jogadores a aparecer na equipa, coincidiu com um ano em que o Sporting fez a pior época de sempre e houve uma data de jogadores que se estrearam, o Fabrice, o Zezinho, o Bruma, o João Mário, e naquela altura eu sentia que estava muito bem, era júnior do último ano, já era titular na equipa B, se calhar poderia ter dado para mim. Entretanto, na época seguinte regressou para a equipa B, também com o Abel, certo? Sim, aí já era sénior, a única hipótese era pertencer à equipa B ou ser emprestado. As coisas começaram muito bem, sou chamado à pré-época com o Leonardo Jardim, provavelmente porque os jogadores de 1993, o João Mário e o Esgaio tinham ido para a seleção e foram buscar outros jogadores à equipa B e fui um dos chamados. A pré-época correu muito, muito bem, o Leonardo gostou bastante de mim e integrei a equipa principal. Comecei a treinar com a equipa principal e só ao fim de semana é que descia para jogar pela equipa B. Aí acreditava que iria estrear-se na equipa principal? Exatamente. E quase tive essa oportunidade. Nos primeiros dois jogos fui convocado, fui para o banco contra o Arouca, fiquei de fora contra a Académica. Entretanto, deixei de ser convocado porque foi contratado o Vítor Silva e perdi espaço. Depois, se calhar por ser jovem, em vez de pensar, "vou continuar a trabalhar para poder jogar na equipa A", não. Comecei com o pensamento, "já não estou aqui a fazer nada, mais vale ir para a equipa B treinar e jogar, porque nem jogo na equipa B, nem jogo na equipa A". Isto porque estava numa fase em que já não fazia o treino todo com a equipa A; como éramos muitos jogadores, ficava várias vezes de fora, tinha de esperar que algum jogador saísse para poder entrar. Pediu para voltar à equipa B? Não, o clube é que decidiu que eu devia ir para baixo, se calhar porque me viu deslumbrado e já não tinha o rendimento que estava a ter no início da época. Baixei, comecei a treinar e a jogar regularmente outra vez na equipa B. Entretanto, o Francisco Barão assumiu a equipa porque o Abel saiu do Sporting e depois veio o João de Deus e com ele quase não joguei. A seguir sou emprestado ao União da Madeira. Chegou a treinar na equipa principal com o Marco Silva? Isso foi a seguir ao Leonardo Jardim. Acabei a época na equipa B e sou chamado outra vez à pré-época com o Marco Silva. Muito diferente do Leonardo Jardim? Não tive muita oportunidade de perceber porque foi só uma semana de estágio e nas primeiras semanas há muito pouco trabalho tático, a prioridade é o trabalho físico. Eu, o Iuri [Medeiros] e o Wallysson, que fomos chamados da equipa B, quase não jogámos os jogos amigáveis do estágio. Fizemos 10, 15 minutos no primeiro jogo e os outros dois ficámos na bancada. Acho que foi mais para dar um prémio individual aos jogadores do que propriamente dizer: precisamos de vocês. Retornei à equipa B e fiquei lá. Isto para dizer que não tive oportunidade de trabalhar com o Marco, então não faço ideia. Na época 2017/18, Chaby assinou pelo Belenenses MB Media Pediu para ser emprestado ao União da Madeira? Não. Na altura o Bruno Carvalho tem uma conversa comigo e com o meu empresário, a GestiFute, em que diz que achava ser importante eu sair da zona de conforto, que estava um bocadinho estagnado na equipa B, que não estava a jogar e achavam que seria importante para mim ir para a União da Madeira. Como reagiu? Reagi um bocadinho mal porque ia sair da equipa B do Sporting para continuar a jogar na II Liga. Pensava, eu tenho é de estar na I Liga. Lembro-me que a GestiFute ainda falou do Penafiel, que era o último classificado da I Liga, mas acabou por não se concretizar. E fui para o União da Madeira porque sabia que era importante para o meu crescimento sair da equipa B. Ficar na equipa B não era uma hipótese, porque eu não era opção. Agora, na minha cabeça, achava que a minha qualidade e capacidades eram de I Liga. Pensava que era muito fácil por ser jogador do Sporting ir para uma I Liga. Foi sozinho para a Madeira? Inicialmente fui sozinho, mas depois a Patrícia foi ter comigo. Que tal era o clube? Nunca fui uma pessoa muito esquisita. Desde que os clubes tenham bons relvados, está top. Se tiverem relvados todos esburacados, para mim é que complica um bocadinho, porque sou um jogador que gosta de ter bola, de fugir ao impacto. Por isso, foi bastante positivo, encontrei um clube com dois bons relvados de treino, tinha uma academia, não fazia ideia, os balneários eram muito porreiros, tinham uma zona de massagens, de banho quente, de banho de gelo, um ginásio que como é óbvio não era como o do Sporting, mas dava para fazer um trabalhinho. Como foi lidar com o mítico Vítor Oliveira? Não fazia ideia quem era o Vítor Oliveira, o estatuto que tinha, as subidas que tinha. Foi um choque em termos de balneário porque passei de um contexto formativo em que o importante não são os resultados, mas sim formar e jogar bem, para um contexto em que o importante é o resultado. Eles não querem saber se tu tens 18 ou 19 anos, se és bonito, ou se és feio. Querem é que chegues ao campo e rendas. Não existe período de adaptação, não existe nada. Tens de chegar, ver e vencer. Significa que a adaptação à forma de jogar e ao balneário foi difícil? Não, até foi bastante tranquila. Não vou dizer que foi tudo muito fácil e que me dei às mil maravilhas com o Vítor Oliveira. Houve períodos em que joguei muito, houve períodos em que deixei de jogar, houve períodos em que fui muito importante. Levou muitas duras dele? Levei. Eu era muito jovem, achava que ia para ali e era eu e mais 10. Apesar de nunca ter sido dos melhores jogadores da minha equipa na formação, sempre fui um jogador importante, com muita regularidade e quando cheguei à União da Madeira não fui titular. Tive ali um período em que o mister Vítor foi-me colocando a jogar aos poucos, aos poucos, até eu realmente merecer a titularidade. E isso ao início para mim foi impactante. Então eu não estava a jogar na equipa B, vou para a União da Madeira e ando a jogar, desculpe a expressão, às mijadinhas? Às vezes ainda levava duras e como é óbvio mostrava uma carinha feia. Quando somos miúdos achamos que por não rirmos para o treinador que vamos jogar no jogo seguinte. São tudo dores de crescimento. Mas tive sorte por ter tido o treinador que tive. O médio durante um jogo pelo Belenenses D.R. O ambiente no balneário também era muito diferente daquilo a que estava habituado, com homens mais velhos, casados, com filhos. Era fantástico. O mister Vítor Oliveira não dava muita prioridade ao trabalho tático, mas dava muito valor ao lado humano, ao grupo de trabalho, àqueles jogadores que trabalhavam bem e que faziam um bom ambiente no balneário. Tendo isso e a qualidade individual dos jogadores, aquilo acabava por resultar. E foi o melhor treinador que apanhei a ler o jogo. Ele fazia substituições certeiras mesmo. Tenho até uma história sobre isso. Conte. Há um jogo com o Leixões em que eu achava que estava a ser dos melhores jogadores em campo e de repente ele faz uma tripla substituição. Do nada. A placa é levantada e está lá o meu número. Saio doido, louco, atirei umas boquinhas do banco para o mister ouvir e, de repente, é a tripla substituição que acaba por decidir o jogo. Aí, meti a viola no saco. Ele tinha muitas coisas dessas, substituições que olhavas e dizias, mas isto não faz sentido, o que isto vem trazer ao jogo? E, de repente, mudava o jogo todo. E depois era a crença, o discurso dele era fantástico. Tem mais histórias que se recorde dessa época 2014/15? Era um grupo muito engraçado, havia três jogadores que era a risada completa com eles, o Élio Martins, que depois foi treinador do Machico; o Miguel Fidalgo e o Ricardo Campos. Os três faziam o balneário. Estavam sempre a meter-se uns com os outros, depois havia aquela brincadeira típica do futebol da pomada Finalgon nas cuecas; o cortar as meias, em que vais vestir a meia e o teu dedo sai de fora, essas coisas normais. Por isso, a adaptação foi fantástica, não posso queixar-me de nada, fui muito bem recebido e não foi por acaso que acabámos por subir de divisão, além de bons jogadores tínhamos um ambiente incrível. Foi uma festa essa subida? Foi pena o União não ter muitos adeptos, não era um Nacional, não era um Marítimo, era uma equipa um bocadinho mais pequenina, houve aquela festa no autocarro em que vamos lá em cima, mas na maior parte do caminho não estava ninguém na rua [risos]. Mas foi a minha primeira conquista a nível profissional e foi espetacular. Acabou por não estrear na I Liga com o União da Madeira. Antes de acabar a época, o Edgar Rodrigues, que era o diretor-desportivo do União, já me tinha informado que independentemente de ficarmos na II ou na I Liga, queria muito contar comigo. Como a experiência foi tão boa e adorei viver na Madeira, foi também a minha primeira experiência a viver longe dos meus pais, eu queria muito continuar no clube, ainda para mais na I Liga. Se as coisas corressem bem podia dar o salto para outra equipa da I Liga. Podendo ter a primeira experiência da I Liga num grupo que já conheço e que me conhece, sabe aquilo que posso oferecer à equipa, era o contexto ideal. Continuou no União da Madeira, mas ficou pouco tempo, porquê? A história é longa. Acabou a época, o Edgar disse, vens para a equipa na próxima temporada. Entretanto, o tempo foi passando, as férias foram passando, eu ligava ao Edgar, falava com os meus empresários, e a conversa era sempre a mesma: "Chaby, estamos só a tentar resolver uma coisa, tu vens, não te preocupes". O meu pai achou logo estranhíssimo e disse-me: "Eles não contam contigo, é melhor esqueceres, não vale a pena." Só que, eu tinha aquela esperança, e queria ir para lá. Tinha propostas de outros clubes? Não fazia ideia. Dois anos mais tarde vim a saber pela boca de um treinador, cujo nome não vou dizer, que o Vitória Futebol Clube teve uma reunião com o Sporting por causa de mim quando vou para a I Liga no União da Madeira; no ano seguinte, quando fui para o SC Covilhã, o clube foi novamente ter uma reunião porque me queria e quando fui para o Belenenses também me quiseram. Mas assinei com o Belenenses muito prematuramente, logo em janeiro. Entretanto, no final dessa época, esse treinador veio ter comigo e disse: "Chaby, estás sempre a dar-me negas, o Vitória já te quer faz um tempo e estás sempre a dizer que não, o que se passa?" E eu sem saber de nada. Se há clube onde um dia gostava de jogar era no Vitória. Se soubesse mais cedo eu já tinha ido, até porque fui para a II Liga, para o SC Covilhã, quando já podia estar na I Liga. Entretanto, acabou mesmo por ir para o União da Madeira, na I Liga. Sim, acabei por ir para o União da Madeira. Mas comecei a época na equipa B do Sporting, era João de Deus o treinador. Ele adiou, adiou, adiou, não faço os primeiros dois jogos, não estava inscrito para poder ser emprestado. E um dia o João Deus fecha-me num gabinete e diz: "Já chega, estás aqui a treinar, estás incluído no plantel, daquilo que estou a ver não vais sair, eu vou inscrever-te e vou colocar-te a jogar, depois se tiveres de sair, sais, paciência." Se eu jogasse no Sporting B e fosse para o União da Madeira, caso alguma coisa corresse mal, só podia voltar para o Sporting B, não podia ir para outro clube. Ele acabou por inscrever-me, faço um jogo e no final desse jogo o Edgar Rodrigues liga-me a dizer que já tinha falado com o Sporting e que eu ia para o União da Madeira, que já estava tudo acordado. Fui um bocado inocente e se calhar devia ter tentado perceber um bocadinho as coisas. Porque diz isso? Porque, na altura, o treinador do União da Madeira não me queria. Era o Norton Matos. Exatamente. Ele queria o Rafael Guzzo, acabei por saber depois, e o Edgar Rodrigues queria o Filipe Chaby. Como o União da Madeira não começou muito bem à época, o Edgar tinha algum peso e foi buscar-me. Como percebeu que o treinador não o queria? Desde cedo senti que alguma coisa não estava bem. Quando cheguei ao União não fui convocado no primeiro jogo. Eu estava com ritmo de jogo do Sporting B, não existia essa desculpa. A desculpa foi, acabaste de chegar, era injusto para os outros jogadores seres convocado. Fiquei logo de pé atrás. É por isso que existem reforços, vêm para jogar, para ajudar, se eu estou bem, tenho de ser convocado. Achei um bocadinho estranho, mas era miúdo. Depois tive uma oportunidade que achei um pouco um presente envenenado. Porquê? Foi num jogo da Taça de Portugal ou da Taça da Liga, contra o Paços de Ferreira, em que sou colocado a titular. Senti que foi um bocadinho um presente envenenado porque fomos jogar com o Paços, que na altura era incrível, tinha o Diogo Jota, o André Leal, estava muito bem. Eles vieram com a melhor equipa e nós fomos com a segunda equipa, com os jogadores que não jogavam, mudou a equipa toda. Acabámos por perder 1-0 e eu como n.º 10 acabei por fazer um jogo muito aquém das minhas expectativas. Depois desse jogo nunca mais joguei. Por isso é que digo que foi um presente envenenado. Filipe com a mulher e a filha no carrinho D.R. Esteve no União da Madeira quanto tempo sem jogar? Desde o início da época até janeiro. Fui o único jogador em todo o plantel que não se estreou na I Liga. Depois tive uns minutos contra o Aves, num jogo da Taça de Portugal e mais nada. Em dezembro tive uma conversa com o Edgar e disse-lhe que alguma coisa tinha de mudar e que se não tivesse oportunidades era melhor voltar para o Sporting para poder acabar a época a jogar. Não estávamos com bons resultados e o Edgar disse: "É muito simples, se o mister Norton ficar, vais ter poucas possibilidades de jogar, percebo que queiras sair. Se ele sair, se calhar já entras nas contas e vais ter oportunidades". O que aconteceu? Ele disse que o mister Norton tinha dois jogos para pontuar, se não conseguisse estavam a equacionar fazer uma troca. Eu ia esperar por esses dois jogos e depois logo se via. Esses dois jogos foram contra o Sporting e o Benfica. Por um lado, como é óbvio, torço para que a minha equipa tenha sucesso e ganhe os dois jogos, mas, por outro lado, sabia que se o União ganhasse esses dois jogos eu ia ter poucas oportunidades e teria de sair. Ganhámos penso que ao Benfica e pontuámos com o Sporting, as coisas começaram a correr bem ao União, e ainda bem, e acabei por regressar ao Sporting B para acabar a temporada. Quando terminava o contrato com o Sporting? Renovei o contrato com o Sporting na altura do Bruno Carvalho, com o Leonardo Jardim, e penso que assinei por quatro ou cinco anos, portanto, ainda devia ter mais dois anos. Como foi parar ao SC Covilhã em 2016/17? Acabou essa época, fui de férias na perspetiva de voltar à pré-época no Sporting B, de saber o que ia acontecer à minha vida, e acabou por aparecer o SC Covilhã. Eu não queria ir porque sentia que não era o contexto certo para mim. Porquê? Já tinha ido jogar à Covilhã diversas vezes pela equipa B de Sporting, sempre foi um campo muito complicado de se jogar, com equipas muito fortes fisicamente, que jogavam segunda bola e eu sentia que não ia ajudar o SC Covilhã porque era um jogador que precisava de um futebol apoiado, precisava de ter uma equipa com maior preponderância ofensiva, uma equipa que estivesse mais tempo a atacar, sentia que se fosse ia estar a ver o jogo a passar, tipo pingue-pongue. Só que, pelo que depois percebi, o Sporting estava interessado num jogador do SC Covilhã, o Bilel, e como não queria pagar um valor de transferência por ele faziam a troca de dois jogadores por empréstimo. O SC Covilhã escolheu-me e o Cristian Ponde. E lá fui contrariado para o SC Covilhã. Em 2018, o médio saiu de maca após sofrer lesão num jogo entre o Belenenses e o Estoril-Praia Gualter Fatia A experiência no SC Covilhã foi muito diferente da do União na Madeira? Muito diferente. Foi o melhor balneário que tive na carreira. Encontrei um grupo de pessoas fantásticos. Dava-me muito bem com o Cristian, trouxe da SC Covilhã um dos meus melhores amigos, o Hugo Marques, que está na Angola. Ainda hoje falo algumas vezes com o Gilberto, com o Joel, o Harramiz, que tirou o agora o nível I do curso de treinador comigo. Eles recebiam os jogadores muito bem, era um balneário diferente, e acabou por coincidir com a melhor época profissional que tive. Quando as coisas nos correm bem profissionalmente tudo é mais fácil e foi tudo perfeito nessa época. Estive contrariado nos primeiros sete jogos da época porque só tinha cerca de 50 minutos de jogo; ligava ao meu empresário todos os dias a dizer que queria ir embora. Entretanto, as coisas viraram de um dia para o outro. Houve uma semana em que joguei e nunca mais saí. Como explica essa mudança? Começámos a época muito mal, com derrotas, sempre a perder jogos. Nos primeiros sete jogos tínhamos um ponto, que foi contra o Olhanense, que estava em último connosco. Eu não jogava, a equipa não estava bem, não estávamos a praticar um bom futebol. Nas poucas oportunidades que tive, não consegui mostrar o meu futebol. Via o tal pingue-pongue de que falei. Entretanto, jogámos para a Taça, acabei por entrar no intervalo, estávamos a perder 1-0, se não estou em erro, com uma equipa da distrital ou do CP [Campeonato de Portugal]. Nesse jogo, quando entrei, as coisas acabaram por me correr bem, damos a volta ao marcador, passamos a eliminatória e, no jogo seguinte, o mister deu-me oportunidade de jogar a titular. Foi aí que deu o clique. Não só a mim, como à equipa toda. Houve ali umas alterações que deram certo. Ponto final. Acabámos por fazer uma sequência gigante sem perder jogos e éramos das equipas que praticava melhor futebol na II Liga. Tem histórias para contar desses tempos na Covilhã? Tenho uma engraçada. No SC Covilhã tinha uma relação muito especial com um colega que não estava a passar uma fase positiva desportivamente. Não estava ter o tempo de utilização que pretendia, andava mais cabisbaixo e, no último treino da semana em que sai a convocatória, que todos os jogadores têm de ler e assinar, mal acabou o treino ele saiu disparado para casa, provavelmente a pensar que não seria convocado. Só que o nome dele estava lá. Fui logo ter com os capitães de equipa, o Joel e o Gilberto, para lhes dizer que ele tinha saído. O Cunha, que era e é o diretor-desportivo do SC Covilhã, estava no balneário para recolher a convocatória no final do treino. Disse-lhes que podia dar problemas porque ele ia ver que o nosso colega não tinha assinado a convocatória e eles dizem-me para tentar contactar o colega que tinha ido embora. Peguei no telefone, comecei a chamada: “Estou?”; e do outro lado: “Estou, sim?”; “Estou, mano? Tens de vir o mais rápido possível ao balneário porque foste convocado, tens de assinar, o ‘macaco’ do Cunha está aqui à caça”. E a resposta do outro lado foi: “Estou, Chaby? É o Cunha”. Desliguei logo o telemóvel, em pânico. Ou seja, o nome do Cunha estava tanto na minha cabeça que em vez de ligar ao jogador, fui ligar ao diretor [risos]. Fui a correr, em pânico, contar aos capitães, e eles, claro, partiram-se a rir e começaram a contar aos outros jogadores. De repente, lá do fundo, aparece o Cunha: “Então, Chaby, sou macaco é?” [risos]. Felizmente ele percebeu a situação, conhecia-me bem e não levou a mal. Em 2018/19, Chaby (a conduzir a bola) foi emprestado pelo Sporting ao Estoril-Praia Gualter Fatia Acabou por sair do Sporting em 2017 e foi para o Belenenses. Como e porquê? Quando fui contrariado do Sporting para o SC Covilhã, disse aos meus empresários: aconteça o que acontecer, não quero voltar para o Sporting na próxima época. Vou fazer esta época no SC Covilhã e vão ter de arranjar-me outra solução.” Ainda estava com a GestiFute. Em janeiro começaram logo a aparecer clubes e o Belenenses foi um deles. Assinei muito prematuramente, se calhar podia ter esperado por propostas do estrangeiro, financeiramente mais vantajosas, mas naquela altura era o que me fazia sentido. Queria estrear-me na I Liga e poder fazê-lo num histórico como o Belenenses, que na altura tinha uma visibilidade gigante... Recordo-me que quando ia buscar os bilhetes ao Belenenses, via a lista dos olheiros que iam ver os jogos e era assustador, era um clube que tinha muita visibilidade. Ainda por cima o treinador era o Domingos Paciência, que me estreou na equipa A do Sporting, As condições estavam todas reunidas para ter sucesso. E como correu essa época? A época estava a ser bastante positiva, houve períodos com o Domingos em que fui importante. Houve outros que, também devido à instabilidade da equipa, acabei por não jogar tanto. Entretanto, o Domingos saiu do Belenenses devido a maus resultados, entrou o Silas, e acabei por descobrir que me adorava como jogador. Gostou de trabalhar com ele? Muito. Fui realmente aposta. O Silas chegou e passei a jogar os 90 minutos, coisa que era difícil de acontecer na minha carreira. As coisas começaram a correr muito bem, apesar dos resultados às vezes não serem os melhores. Até ao dia que num jogo com o Estoril-Praia lesionei-me. Há imagens vídeo na Internet dessa lesão onde se vê o seu pé a dobrar. Pode recordar como e o que aconteceu? Fiz uma rutura nos três ligamentos do tornozelo. Duas parciais e uma total. Foi a pior lesão que tive até hoje. Foi muito difícil recuperar da lesão, foi muito sofrida. Já tinha feito lesão no cruzado anterior e para mim esta foi pior. Foi horrível, porque sentia dores. Foi um lance em que vou fazer um passe, cheguei primeiro à bola, o jogador adversário que veio atrasado, entrou de sola e calcou o meu tornozelo, que ficou todo de lado. O jogador foi expulso diretamente e eu fui diretamente para o hospital. Estive três meses parado, mas acabei a época a jogar. O Belenenses já estava safo e o Silas deu-me uns minutinhos para me ir adaptando e ver como é que estava o tornozelo. Mas ainda não estava bem, comecei a época seguinte muito mal. Filipe Chaby em Setúbal, na semana em que foi entrevistado por Tribuna Matilde Fieschi Época seguinte essa que já é na B SAD. Sim. Coincidiu com esse período horrível, em que houve o conflito entre os presidentes, nós vamos para a B SAD com a casa às costas, os campos do Jamor eram terríveis. Tinha acabado de recuperar de um tornozelo, vou para aqueles campos e quase não conseguia fazer um treino completo. Chorei imensas vezes em casa, porque não me sentia jogador de futebol. Doía-me tudo. Doía-me o tornozelo, depois tive uma lombalgia, fui a um médico que me disse que se calhar devia escolher outra profissão porque tinha um problema na lombar. É aí que o Sporting acabou por entrar novamente, mais tarde. Eu não conseguia jogar, não conseguia ter consistência, não conseguia treinar. Em janeiro, o Belenenses possivelmente já estava farto de mim e como o Sporting tinha uma percentagem do passe meteu-se ao barulho. Tentou perceber o que se passava, pediram uma avaliação, fui visto pelo departamento médico do Sporting. O que lhe disseram na reavaliação? Disseram que tinha um problema genético chamado espondilolistese e que o César Peixoto também tinha, em grau 3, enquanto eu só tinha grau 1. E ele fez a carreira que fez. Eu só precisava de fazer muito reforço. O que espoletou aqueles problemas foi o meu tornozelo; não estava preparado e comecei a sobrecarregar as outras zonas do corpo até que chegou às costas. Depois recebi uma chamada do Hugo Viana a dizer que sabiam que eu não estava numa situação fácil, que iam ajudar-me, tirar-me do Belenenses e oferecer-me um contrato para ir para lá recuperar fisicamente, ainda com a esperança de que pudesse ter uma carreira no Sporting. Por muito que quisesse acreditar que viam potencial em mim para poder chegar ainda à equipa A do Sporting, acredito que tenha sido mais para me ajudar. O Hugo Viana tinha trabalhado comigo no Belenenses, o presidente Varandas sempre teve uma ligação muito especial comigo porque foi meu médico naquela época das equipas B e de júnior. Só que eu não podia ser inscrito na equipa B do Sporting e fui emprestado ao Estoril de Praia, que também tinha um departamento médico fantástico e que mostrou interesse em contar comigo. Estoril-Praia onde ainda fez jogos pela equipa de sub-23, na Liga Revelação, em 2018/19. Exatamente. Não era o Chaby que eles queriam receber, basicamente aquilo foi para eu poder recuperar. E foi o que aconteceu, acabei por recuperar e na época seguinte, quando fui para a Académica, já era o Chaby que as pessoas estavam habituadas. Spoiler “Sei que em muitos momentos podia ter sido mais profissional, houve algum deslumbre e muitas das vezes facilitismo da minha parte” Filipe Chaby fala sobre as épocas em que jogou ao serviço da Académica de Coimbra, a quem deixa vários elogios, e do Nacional da Madeira, antes de partir para a primeira aventura no estrangeiro, no Azerbaijão. Abordamos ainda o regresso ao Belenenses e a ida para a Indonésia onde reencontrou o prazer de jogar futebol. Nesta parte II do Casa às Costas, o médio fala ainda sobre o futuro pós-carreira, os receios que tem, os investimentos que fez e sobre literacia financeira Como foi parar à Académica de Coimbra, em 2019/20? Ainda comecei a pré-época no Sporting com o Keizer, que deve ter feito uma avaliação naquela primeira semana. Dizem-me que podia procurar solução para ser emprestado. O César Peixoto ligou-me diretamente, disse que me conhecia perfeitamente como jogador, sabia dos meus problemas, conhecia as minhas características. A que tipo de problemas se referia o César Peixoto? Físicos? Futebolísticos. Sempre fui muito pouco agressivo defensivamente, nunca fui um jogador muito forte na reação à perda da bola, não sou um jogador de contacto. Ofensivamente tenho as minhas coisas boas, mas defensivamente tenho alguns problemas. Mas nenhum jogador é perfeito, tirando o Ronaldo e o Messi [risos]. Disse-me na cara todos os problemas que eu tinha, tudo o que tinha de melhorar, convenceu-me logo porque me enviou vídeos da maneira como as equipas dele jogavam e como queria que eu jogasse. Nunca tinha recebido uma abordagem assim. Acabei por ir para a Académica. As coisas começaram a correr bem, mas tive uma recidiva no tornozelo, tive de parar uns tempos. Depois voltei bem e foi uma época espetacular, que foi travada pela Covid-19. Também um dos melhores grupos que apanhei na carreira. Passou o período de confinamento em Coimbra? Comecei o confinamento em Coimbra porque ainda não sabíamos se voltaríamos a jogar. Só quando saiu a decisão de que o campeonato da II Liga não iria continuar é que voltei para Setúbal, onde já tinha comprado casa. Ainda fez mais uma época na Académica. Não tinha outra opção? A estabilidade para mim conta muito. A Académica é um clube completamente diferenciado, foi dos sítios onde mais gostei de jogar, os adeptos são fanáticos, o estádio era muito bem composto, a cidade é incrível. Sentes-te jogador porque vais ao shopping, ao restaurante, as pessoas conhecem-te, abordam-te, tratam-te bem. Nunca mais me esqueço que na primeira semana que estou na Académica, num almoço com colegas, o Leandro, que saía da Académica e voltava, saía e voltava, tinha prescindido de um contrato onde estava, naquela altura, para voltar para a Académica a receber muito menos dinheiro. Chamei-o de doido e ele disse: “Mano, tu vais perceber o quão especial é jogar neste clube. No final da época falamos”. Não me pergunte, mas a Académica é diferente, é um clube especial. Não sei se é o encanto da cidade, se as condições do clube, se são as pessoas que trabalham no clube, que são incríveis, não sei se foi a equipa que apanhei, estávamos sempre juntos. Íamos muitas vezes almoçar e jantar fora. Fiquei com aquela sensação de que a história não tinha terminado, alguma coisa tinha ficado por fazer. Teve propostas de outros clubes? Tive. Tive treinadores de outros clubes a ligarem-me. Na altura recebi um convite do Vitória Futebol Clube, mas, entretanto saiu aquela decisão de que o Vitória ia descer para os campeonatos não profissionais. Acabaram por ligar-me da estrutura da Académica. Gostavam que voltasse e disse logo que sim. Fui ganhar menos dinheiro do que na primeira temporada, mas só queria ir para Coimbra. É uma época coletivamente excecional, estivemos até a última jornada a lutar pela subida de divisão, merecíamos mais pela qualidade que tínhamos e por aquilo que fizemos, mas acabámos por não conseguir. Agora, foi uma época dura individualmente, porque se na primeira época na Académica sentia que era um dos jogadores mais importantes, jogava quase sempre, sentia que podia ajudar; quando voltei fiquei mais num papel secundário, não jogava tanto. Era Rui Borges o treinador. Sim. Eu era visto como um jogador com um papel mais importante a partir do banco, de tentar entrar para mexer com o jogo. Muitas das vezes acabava por ser um bocadinho frustrante porque quando começávamos a ganhar eu já não entrava. Como era um jogador que defensivamente não era tão competente, já não era útil para jogar. Era mais um jogador que entrava quando estávamos a perder, ou empatados, para tentar mudar o jogo ofensivamente. Foi uma época difícil nesse sentido, porque sentia que podia ser titular e não conseguia. Mas gostou do Rui Borges enquanto treinador? Sim. É assim, no fundo, gostamos mais dos treinadores que nos metem a jogar. Ponto final. Há muita gente que diz, e é verdade, que os melhores empresários que temos são os treinadores. Um empresário não faz milagres se tu não estiveres a jogar. Aquele que te pode valorizar mais é o treinador, se te meter a jogar e num sistema de jogo que acabe por te beneficiar. Agora, o mister Rui Borges tinha coisas fantásticas e não é por acaso que está onde está. Que coisas fantásticas eram essas? Os treinos dele eram muito bem organizados, muito bons. Em termos de intensidade de treino e no jogo, nunca tinha visto nada assim. Se calhar era também por isso que não jogava, os jogadores eram muito intensos, a equipa era muito intensa a pressionar, defensivamente éramos muito fortes, éramos muito coesos, e era muito complicado baterem-nos. Sentia que podia ser mais importante na equipa porque se jogasse podíamos ser muito mais fortes ofensivamente. Mas são decisões e temos que as respeitar. O médio confessou na entrevista à Tribuna que adorou jogar e viver em Coimbra D.R. A seguir foi para o Nacional da Madeira, na II Liga também. De quem partiu o convite? Do Costinha, que me ligou. Conhecia-me muito bem da época no SC Covilhã porque ele treinava a Académica e gostava bastante da minha maneira de jogar. As coisas até começaram a correr bem com o Costinha. Entretanto, mais uma vez, tenho um problema físico. O que aconteceu? Fiz um estiramento do lateral interno, uma lesão que não é grave, mas que obrigada a parar por um mês. Quando estou quase a regressar, o Costinha é despedido e veio o mister Rui Borges. E pronto, voltei a ter o mesmo papel que tinha na Académica, mas ainda menos preponderante. O plantel do Nacional individualmente era muito forte, joguei muito pouco no Nacional da Madeira. Entretanto, estava em fim de contrato com o Sporting? Julgo que ainda tinha mais um ano de contrato. Mas senti que era o momento ideal para sair para o estrangeiro e experimentar outra coisa. Estava na idade e queria abrir portas para começar a ganhar dinheiro, porque a minha ambição até então nunca tinha sido o dinheiro, era poder voltar à I Liga, ser importante em Portugal. Mas a idade começou a passar e tinha de começar a ganhar dinheiro a sério para estabilizar a minha vida. E também porque estava exausto do futebol português. Porquê? O futebol tinha mudado muito, estava muito mais defensivo, muito mais agressivo, muito mais tático. As últimas duas épocas não foram nada fáceis para mim, com pouco tempo de jogo, por isso senti que era o momento. Só que não foi no timing certo. As condições estavam reunidas, fui para um clube fantástico em termos de condições, o Sumqayit FK, do Azerbeijão. Tinha um estádio novo a ser inaugurado, dois campos de treino, onde treinávamos e jogávamos mais era na melhor relva do Azerbaijão. Aquilo era incrível, o balneário era fantástico, o ginásio era muito bom, condições incríveis. Foi ganhar quantas vezes mais? Não fui ganhar nada. Fui lá para abrir portas. Tinha mais um ano de contrato com o Sporting, recebi alguma parte desse contrato e recebi o salário do Azerbaijão, que não sendo muito, acabava por ser bom porque juntava ao do Sporting e acabava por ser um bocadinho mais do que ganhava em Portugal na altura, por exemplo, no Nacional. Mas se fosse só pelo contrato do Azerbaijão, nunca tinha ido. Fui porque sentia ser um campeonato que estava muito perto da Turquia, tínhamos ali o Qarabag, uma equipa que ia sempre à Champions, ouvia-se que pagavam bom dinheiro. Foi sozinho? Fui. E foi o timing errado. Porquê? Porque é a primeira vez que imigro para outro país, numa realidade e cultura completamente diferentes. Não sabia cozinhar, não tinha companhia, coincidiu com o facto da minha mulher ter começado a trabalhar e foi difícil estar longe dela, da família, dos amigos. Se profissionalmente as coisas não correrem bem, a vida pessoal desaba. E eu não estava feliz, não me sentia realizado por estar longe da família e a vida profissional não estava a conseguir acompanhar, a equipa não jogava nada, éramos o saco de pancada do Azerbaijão, perdíamos os jogos todos. A liga era muito fraca? Hoje está muito melhor do que na minha altura. Mas já era uma liga boa. Taticamente não era tão forte como em Portugal, a intensidade não era tão grande, mas isso era bom para mim. Os jogadores não eram tão evoluídos taticamente. Para mim era bom porque havia mais espaço para decidir. O ambiente no balneário era muito diferente do português? Era. Em Portugal acabamos os treinos e é muito usual os jogadores irem jantar fora, conhecerem as mulheres uns dos outros. O futebol não pára dentro do balneário, depois temos uma vida social. No Azerbaijão, a minha vida era acordar às 10 da manhã, ir para o restaurante, almoçar às 11 e tal com um colega, e ir para o treino, porque treinávamos às duas da tarde. Naquele período em que treinava eu era feliz, esquecia tudo. Mas às quatro da tarde o treino acabava, eu ia para casa e ficava sozinho. Nos primeiros dois meses não levei nada porque ia na expectativa, quando voltei a casa passado dois meses disse logo: tenho de levar um computador porque senão vou-me matar no Azerbaijão. Chaby prepara-se para chutar a bola m jogo da Académica com o Casa Pia AC Gualter Fatia O que mais o chocou culturalmente? Em Portugal estamos habituados a tomar banho nus. No Azerbaijão os chuveiros são individuais, tens de estar sempre tapado. Depois, as horas para rezar. Às vezes os jogos começam atrasados porque os jogadores estão a rezar. De resto, as pessoas são incríveis, acolhedoras, embora no plantel só dois jogadores do Azerbaijão é que falavam inglês. Em novembro comecei a falar com o presidente, porque queria vir embora em janeiro. Ele teve imensas conversas comigo, dizia que eu estava a tornar-me importante no clube, que a equipa ia dar a volta, pedia-me para ficar... Mas eu já estava com a decisão tomada. Em dezembro apanhei o avião e nunca mais voltei. A malta ligava-me a dizer para marcar a viagem, eu dizia que não ia apanhar o avião e acabámos por chegar a acordo. Também não vale a pena teres um jogador que não quer estar no clube. Ficou sem clube durante quanto tempo? Um mês. Só consegui terminar a ligação com o clube em meados de janeiro. Entretanto, apareceu o Belenenses e comecei a integrar o clube no final de janeiro. E o Belenenses apareceu através de quem? Na altura voltei a mudar de empresários. Um dos meus melhores amigos, que conheci no União da Madeira, começou uma empresa de agenciamento, a Health Sports, e ligou-me, perguntou como era a minha vida. Disse-lhe que queria ficar perto de casa, perto de Setúbal, porque a Patrícia continuava a trabalhar e tinha vivido um momento difícil da minha carreira. Aliás, no Belenenses foi muito complicado porque fisicamente estava de rastos e sentia que a minha carreira estava a terminar. Quando vim do Azerbaijão senti-me destruído mentalmente. Tudo mexeu comigo, não sei explicar porquê, mas não estava bem, não estava bem mentalmente, não desfrutava do futebol, não estava a divertir-me e sentia que precisava fazer um reset. Chegámos a acordo, se ele conseguisse arranjar clube perto de casa eu ficava a trabalhar com a empresa dele. Foi assim que surgiu o Belenenses. Não sei como ele conseguiu, mas chegámos a acordo e fui. Belenenses que na altura estava na Liga 3. Sim, mas não me importava. Não sei o que aconteceu na minha cabeça, naquela fase estava-me um bocadinho a marimbar para aquilo que poderia acontecer à minha carreira, só queria estar em casa e poder voltar a desfrutar do futebol, mesmo que fosse a jogar uma Liga 3 ou um Campeonato de Portugal. Infelizmente as coisas não correram bem durante esse ano e meio. Nos primeiros cinco meses foi fantástico porque subimos da Liga 3 para a II Liga, mas individualmente nunca correu bem, tive inúmeros problemas físicos, estava sempre condicionado e não conseguia ajudar da maneira que queria. É uma das mágoas que trago na minha carreira, porque o Belenenses é um clube especial para mim, é o clube do meu avô, o clube com que me estreei na I Liga, um clube histórico. Não consegui ajudar dentro do campo, nunca consegui estar a 100% para jogar, parecia que estava sempre atrás do comboio. Quando saí, estive cinco meses desempregado porque não existia interesse no Chaby. Em 2021/22, Chaby jogou pelo Nacional da Madeira Gualter Fatia Como acabou por surgir a Indonésia? Em outubro o mister Eduardo Almeida, que era treinador do Semen Padang, mandou-me uma mensagem a dizer que gostava que eu fosse para lá. A primeira resposta que lhe dei foi, esqueça, vou ser pai em dezembro e está fora de questão eu ir para o outro lado do mundo. Ele disse: “Não tem problema, mas vou mandar-te uma proposta de contrato, tu pensas e dás-me uma resposta.” A proposta veio e não tinha como dizer que não. Numa altura da vida em que precisávamos de estabilidade, era um balão de oxigénio importante. Foi ganhar quantas vezes mais? Talvez três vezes e meia mais. Tendo em conta que estava desempregado, que ia ser pai, só via dinheiro a sair da conta, para consultas, coisas para o bebé, roupas, produtos farmacêuticos... Na altura só ganhava o subsídio de desemprego, que era uma vergonha. Pensei, a proposta é realmente boa e são seis meses, passa rápido. Disse a minha mulher que sabia que ia ser difícil para ela, mas ia ter o apoio da minha mãe e da mãe dela naquele período. Eram dois meses e meio, depois havia o Ramadão, vinha a casa e voltava para fazer os últimos dois meses. Os seis meses prolongaram-se. O que aconteceu? O objetivo era fazer seis meses e tentar desfrutar do futebol. As coisas correram muito melhor do que esperava. Embora, no primeiro impacto, quis apanhar um avião para voltar para Portugal. Porquê? É uma realidade completamente diferente. Não aterrei em Bali, ou em Jacarta, a Indonésia é incrível, mas há certas ilhas que estão muito mais atrasadas. Não temos noção da sorte que temos de viver em Portugal, apesar de hoje não ser fácil viver em Portugal porque o custo de vida está uma estupidez. Mas temos um país fantástico no que toca a infraestruturas e boas condições de vida. Aterrei em Padang e só via floresta à minha frente. Só via barracas, o comércio no meio das estradas estragadas, não havia apartamentos de luxo, aquilo foi um choque. Mas o pensamento foi: vens para jogar futebol, ponto final. Luís Lopes, do Benfica B, e Filipe Chaby, do Nacional em jogo da II Liga, em 2021 Gualter Fatia Ficou a viver onde e com quem? Na altura o clube dava umas casinhas, mas quando entrei com o Marco Baixinho numa dessas casinhas disse logo: não fico aqui, nem que me paguem. O clube acabou por arranjar-nos outra casa um bocadinho melhor. O que tinha a primeira casa que o fez recusar? Não tinha nada, o problema era esse, não tinha nada. Não existia um sofá, por exemplo. É normal eles comerem no chão em cima de um tapete. Nós estamos habituados a um estilo de vida diferente, a condições diferentes. A casa tinha um monte de bichos, de lagartos, a mesa de jantar era redonda com uma cadeira desconfortável, não tinha nada na cozinha, a cozinha era miserável, nem dava vontade de estar lá dentro, se bem que isso para mim não era preocupação, porque eu ia almoçar e jantar fora todos os dias. Mas sempre fui uma pessoa caseira, adoro estar em casa, e ali só queria estar fora daquela casa. Viveu com o Marco Baixinho? Sim. Foi uma pessoa super importante para mim nessa adaptação, se tivesse o Marco Baixinho no Azerbaijão se calhar as coisas teriam sido completamente diferentes. Houve duas ou três vezes que desabafei com o Marco sobre estar a ser difícil e estar a pensar em vir embora e o Marco sempre me aguentou. Ele já tinha 35 anos, mulher e três filhos, a mulher estava sozinha em Portugal e ele ali a aguentar-se. Foi muito importante nesse sentido. Acabámos por ir para uma casinha que era tipo uma guest house, mais parecida com aquilo a que estamos habituados. Não tinha cozinha, fazíamos as refeições fora, mas tinha sofás que eram confortáveis para podermos ver televisão, os quartos eram bons, com ar condicionados, com uma cama boa. O Bruno Gomes, enquanto não veio a família, também esteve lá connosco. Para mim foi muito bom porque nunca estava sozinho, não tinha tempo para pensar na minha mulher e na minha filha. Mas quando ia para a cama tinha dificuldades em dormir. Chegou a assistir ao parto da sua filha? Sim, a Francisca nasceu a 13 de dezembro e só fui para a Indonésia dia 1 de janeiro. Assisti ao parto e tive tempo para estar com ela nos primeiros dias de vida. Mas não ficou só os seis meses. Porquê? Os primeiros cinco meses excederam as minhas expectativas, fiz os jogos todos, as coisas correram muito bem individualmente e coletivamente. Chegámos num momento terrível, era preciso um milagre para salvar a equipa da despromoção e conseguimos salvar. Fomos talvez a quinta ou sexta melhor equipa em termos de pontuação na segunda volta e por tudo isso quis permanecer na Indonésia e naquele clube. Para esta época já levei a minha mulher e a minha filha. Foi um choque muito grande para a minha mulher, porque nós ainda temos o futebol para nos distrair, ela com uma bebé recém-nascida na Indonésia, não foi fácil. A responsabilidade cai toda sobre ela porque vive 24 horas para mim e para a Francisca, sem apoio. Infelizmente, enquanto na época anterior tive um papel muito preponderante, sentia-me uma das estrelas da equipa, este ano não tive tanto tempo de jogo. Mas o treinador é o mesmo, certo? Era, sim. Mas pronto, se calhar eu não estava a treinar tão bem, não estava com o mesmo rendimento, não sei. Todos os treinadores vão escolher a equipa que lhes dá mais garantias de vencer. E se o treinador sentia que eu não era importante o suficiente para estar no 11, só tinha de respeitar e continuar a trabalhar. Tentei, tentei, tentei que as coisas se alterassem, houve um jogo inclusive em que entrei e acabei por resolver o jogo, faço o golo, estou no segundo golo, acabamos por vencer, e no jogo seguinte voltei para o banco. Entretanto, coletivamente as coisas também não correram bem, o mister Eduardo acabou por ser despedido, e aí foi a gota de água. Pensei logo: se o mister Eduardo vai ser despedido, em janeiro vou seguir o mesmo caminho, porque na Indonésia é assim que funciona. Se a equipa está mal, os cinco que vieram no início da época são os cinco que vão logo embora, porque a responsabilidade é toda dos estrangeiros, nós estamos ali para decidir. Chegou a jogar com o novo treinador? Sim. Faço um jogo com o novo treinador, sou titular, ele tira-me no intervalo, no jogo seguinte não entro porque a equipa ficou reduzida a 10 muito cedo e foi praticamente defender o jogo todo. No jogo seguinte acabei por entrar no intervalo, acho que entrei muito bem, julgo que fui dos melhores jogadores da minha equipa. A seguir voltei para o banco, entrei cerca de 20 minutos, acho que voltei a entrar muito bem, não tive nenhuma ação negativa no jogo, não perdi uma única bola e passado dois dias recebo uma chamada do meu empresário a dizer que o clube queria mandar-me embora. Ou seja, era uma decisão que possivelmente já estava tomada desde que o novo treinador chegou. Quando é assim não vale a pena estar a lutar. O clube sempre me tratou muito bem. Respeitei a decisão e chegámos a um acordo. A minha mulher também não estava feliz lá, eu já não estava lá a fazer nada, mais valia vir embora. Está em Portugal desde quando? Cheguei no final de novembro. Quais as perspetivas que tem agora para o mercado de janeiro? Não faço ideia. Há um ano eu estava seriamente a ponderar terminar a carreira ou jogar num nível mais amador. Porque o ano no Belenenses foi muito complicado, tive conversas com o presidente, com o Patrick, com o Taira, porque não conseguia perceber o que se passava comigo. Eu fazia tudo bem, descansava, estava muito tempo em casa, não conseguia perceber como não estava bem fisicamente, como estava sempre condicionado. Não apareceu nenhum clube depois e comecei a ponderar. Acabou por aparecer a oportunidade na Indonésia. E se há um ano estava a ponderar terminar a carreira, nesta altura estou com perspetivas completamente diferentes, porque o ano na Indonésia foi muito positivo para mim. Não tive nenhum problema físico, consegui fazer os jogos todos, senti-me bem, sinto que posso voltar a ser importante, fiz jogos muito bons. Gostava bastante de continuar a jogar. Não faço ideia o que poderá acontecer, não sei se a minha carreira irá continuar no estrangeiro ou se em Portugal. Estou à espera que o telefone toque e, consoante aquilo que aparecer, tomarei a melhor decisão acima de tudo para a minha família, porque agora tenho duas pessoas pelas quais sou responsável, a minha mulher e a minha filha. Já pensou no que quer fazer quando pendurar as chuteiras? Infelizmente nunca dei ouvidos ao meu pai, que sempre me aconselhou a inscrever-me na faculdade quando acabasse o 12.º ano, para ter um plano B. Eu, anjinho, miúdo, a treinar na equipa B do Sporting com um contrato profissional, treinava de manhã, tinha a tarde toda livre e à tarde queria era descansar na cama, ver Netflix e não sei o quê. Quando tomei a decisão de me inscrever na faculdade, inscrevi-me em Desporto no IPS e, de repente, vou para a Madeira. Já não tirei o curso. Não sou licenciado, mas tenho duas pernas, tenho dois braços, vou ter que ir trabalhar como é óbvio porque não ganhei dinheiro o suficiente para poder ficar deitado no sofá o dia todo. Mas realmente do que gostava era continuar ligado ao futebol. Já fez alguma coisa para isso? Tirei a parte teórica de nível 1 do curso de treinador na Associação de Setúbal. Não consegui fazer ainda o estágio porque fui para a Indonésia. Tenho também a pós-graduação de diretor desportivo feita na Universidade Europeia. São as duas funções onde me vejo a trabalhar no futebol. Gosto bastante de falar de futebol, do desenvolvimento pessoal e profissional do jogador, de tentar evoluir o jogador, da parte tática, de tentar achar formas de ludibriar o adversário. Só que é um mundo cão. Já é difícil um jovem tornar-se profissional de futebol, ainda é mais difícil ser treinador de futebol. Infelizmente em Portugal hoje é difícil viveres do futebol, a não ser que estejas talvez nas equipas de subida do CP, nas equipas de Liga 3, I e II Ligas. Estar a treinar uma equipa na distrital por €200 ou €300 não te vai pagar contas. Quero muito estar no futebol, mas sei que se as coisas não correrem bem tenho de ir trabalhar. Assusta-o o futuro pós-carreira? Sim, é algo que me assusta, honestamente, estou bastante ansioso naquilo que poderá ser o meu futuro. Por isso é que quis ir para a Indonésia, tentar garantir o máximo de estabilidade financeira para poder, pelo menos nestes primeiros anos pós-carreira, dedicar-me à faculdade e tirar um curso que goste. Flipe Chaby (2º em baixo à direita) com a sua equipa do Belenenses, em 2023 Gualter Fatia Onde ganhou mais dinheiro até hoje? Na Indonésia. Deu para investir em alguma coisa? Por acaso inscrevi-me agora no curso do MoneyLab da Bárbara Barroso. Enquanto estudantes devia haver pelo menos uma disciplina de literacia financeira, porque andei a estudar coisas que não uso na minha vida e aquilo que realmente importa não existe na escola. Hoje tenho 31 anos e não sei fazer o meu IRS, tenho de pagar uma pessoa para fazer o meu IRS, é uma estupidez. Portanto, tenho muito receio naquilo que são investimentos. Investi no meu apartamento e numa empresa de Taxi-Boats, em Setúbal, com um dos meus melhores amigos, mas infelizmente não nos tem dado o que queríamos e não é o suficiente para poder viver daquilo. De resto, o meu dinheiro está todo em Certificados de Aforro, porque é a única coisa que conheço e sei que está seguro. Mas quero aprender para poder investir. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Terá que ser os carros. Quando comprei o meu primeiro carro devia ter comprado um carrinho mais pequenino. Comprei um carro, passado um ano renovo contrato com o Sporting, tenho um aumento salarial, o que faço? “Pai, estás com o carro estragado? Então fazemos assim, eu vendo o teu carro, dou-te o meu e vou buscar um novo.” E fui buscar o novo modelo do BMW Série 1. Hoje quando olho para trás penso, quem era o Chaby? Tem algum hobby? Sempre gostei muito da comunicação e sempre gostei muito de videojogos. Cheguei a ter um canal na Twitch, na altura do Covid-19, onde falava sobre futebol, onde jogava Football Manager. Sempre fui uma pessoa muito caseira, então sempre dediquei grande parte da minha vida a treinar, descansar e jogar videojogos com os meus amigos. D.R. É um homem de fé, acredita em Deus? Não sou católico praticante. Acredito que existe um ser superior lá em cima e quero acreditar em Deus, tanto que quando me deito acabo por rezar ao anjinho da guarda, que a minha mãe me ensinou. Acredito que existe qualquer coisa, mas nunca tive nada na vida, nenhuma experiência que me fizesse acreditar nisso. Superstições? Já tive. Por exemplo, ir com um boxers para o jogo, as coisas correrem bem e eu pedia à minha mãe para me guardar aqueles boxers para o jogo seguinte. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? A primeira foi aos 18 anos e fiquei de castigo uma semana [risos]. Foi o nome dos meus pais num pulso e o nome da minha irmã no outro. De lá para cá tatuei a frase que o meu pai usa sempre na vida: “O sonho comanda a vida”. Tenho a pata do meu cão de família que já faleceu, no tornozelo esquerdo. Tenho uma cruz no tornozelo esquerdo, que supostamente quer dizer proteção. Pus no esquerdo porque estava tão farto de ter entorses, e a verdade é que nunca mais tive uma. Tenho o nome da minha filha tatuado com a data de nascimento e tenho o retrato do meu cão atual, um beagle chamado Bart, no braço. Acompanha ou pratica outra modalidade? Acompanho sempre os últimos jogos do futsal, aquelas cinco finais. Qual a maior frustração que tem na carreira? Acho que poderia ter tido condições para fazer uma carreira muito melhor do que fiz. Se calhar por falta de algumas oportunidades, por algum azar no que toca a lesões, mas acima de tudo por algum deslumbre e muitas das vezes facilitismo da minha parte, porque sei que em muitos momentos podia ter sido mais profissional, podia ter treinado muito melhor, nunca treinei se calhar a 100%, às vezes treinava o q.b. Mas se calhar a maior frustração é nunca ter conseguido estrear-me no Sporting. Senti que poderia ter acontecido e poderia ter mudado o rumo da minha vida. D.R. O maior arrependimento? Não considero arrependimento ter ido para o Azerbaijão porque sentia que era o momento ideal, mas não foi o timing ideal. Não estava com as condições psicológicas ideais para o ter feito, mas não me arrependo da decisão. Talvez o maior arrependimento foi ter voltado para o União da Madeira. O momento mais feliz na carreira? A assinatura do primeiro contrato profissional com o Sporting porque é o culminar do teu trabalho na formação. É quando mudas o chip e pensas, se calhar vou conseguir viver disto e viver o meu sonho. E a subida da divisão com o União da Madeira. Foi um marco importante na minha carreira, foi uma conquista e não é fácil subir de divisão. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Adoro o Vitória Futebol Clube, é o meu clube de criança, sempre tive e ainda tenho o sonho de poder jogar no Vitória, mesmo que seja nesta situação que eles se encontram. Mas toda a minha vida fui sportinguista, a minha família é toda sportinguista, o João Vieira Pinto e o Ricardo Sá Pinto eram as minhas referências. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Não gosto muito de dar nomes porque tive alguns amigos e colegas que levo para a vida, e infelizmente tive outros que acabei por perder o contacto pelo caminho, porque sempre fui uma pessoa que se desliga um bocadinho. Teria de escolher de entre aqueles amigos com quem hoje ainda falo regularmente, por exemplo, o Diogo Coelho, que é uma das pessoas que trata da minha carreira, o Tiago Queiroz, do Belenenses, o Hugo Marques, da Covilhã, o Nuno Tomás, do Belenenses, o próprio Silvério Júnior e o João Traquina da Académica. Teria muitos outros nomes, mas estas são as relações mais especiais. Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania? A única que talvez neste momento alterava é a regra das substituições. Por exemplo, quando já se fez as cinco substituições, se existir o infortúnio de um jogador partir uma perna ou rasgar um cruzado anterior, um problema físico grave, a equipa devia poder alterar o jogador e não ficar a jogar com menos um. Tem algum talento escondido? Não. Se não fosse jogador, o que teria sido? Teria seguido fisioterapia, era o meu plano B quando estava na escola. D.R. Tem ou teve alguma alcunha? Em pequenino chamavam-me Pinóquio por ter o nariz grande. Houve alturas em que me chamavam Mesut por causa do Ozil. Qual o jogador com o qual gostava de ter jogado na mesma equipa? Vou sair um bocadinho fora da caixa para não estar a dizer o Ronaldo e o Messi, porque são os dois extraterrestres. Tendo em conta a minha posição, gostava de ter jogado com o Xavi ou com o Iniesta. E o jogador contra o qual gostava de ter jogado? Contra o Messi ou contra o Ronaldo. Nem que fosse para ter a camisola deles. Quem foi o melhor jogador com quem jogou? O Iuri Medeiros. Já joguei com muito bons jogadores, mas o Iuri foi aquele que me marcou mais. Porquê? Gosto muito de canhotos, porque sou canhoto. Joguei com o Bernardo Silva, com o João Cancelo, o William Carvalho, o João Mário, mas o Iuri tirava-me do sério, ele fazia coisas que só me lembrava do Messi na altura. Acho honestamente que o Iuri podia ter tido uma carreira muito melhor do que a que teve porque era sem dúvida um jogador fora do normal. Era um jogador que às vezes dava-me misto de emoções, irritava-me profundamente porque havia jogos que parecia que não queria nada que aquilo, estava ali a pastar, só fazia porcaria e, de repente, passavas-lhe a bola e ele tirava um coelho da cartola e decidia o jogo. O Iuri era talvez um dos poucos jogadores que tinha a capacidade de, sozinho, resolver o jogo, era fenomenal. 3 Compartilhar este post Link para o post
O Pastel Publicado 22 Dezembro 2025 Citação de Lebohang, há 11 horas: Filipe Chaby Mostrar conteúdo oculto “O Vítor Oliveira fez uma tripla substituição, saí louco e atirei umas bocas. Os três que entraram decidem o jogo. Enfiei a viola no saco” Filipe Chaby, de 31 anos, está à espera que o telefone toque após ter regressado recentemente da Indonésia, onde jogava no Semen Padang. O médio formado no Sporting desfia nesta parte I do Casa às Costas como foram os primeiros anos de um percurso que nunca chegou a atingir a glória esperada. Fala do deslumbramento, das lesões, dos treinadores que mais o marcaram e conta pormenores da sua história que há um ano ficou mais rica com o nascimento da filha Francisca Nasceu em Setúbal. É filho de quem? Sou filho do Carlos Chaby, que além de professor de educação física, sempre esteve ligado ao futebol, maioritariamente no Vitória Futebol Clube. Começou como treinador das camadas jovens, passou por vários escalões e acabou como coordenador técnico da formação. Agora já não desempenha essas funções. E sou filho da Alexandra Chaby, que começou por trabalhar no secretariado das piscinas do IPS de Setúbal, mas acabou por se desempregar para cuidar de mim e da minha irmã, seis anos mais nova. Deu muitas dores de cabeça aos seus pais? Dei. Os meus pais dizem que hoje sou uma sombra daquilo que fui em criança, sou uma pessoa completamente diferente. Agora sou muito relaxado, muito calmo, mas quando era miúdo era o terror autêntico. Tiveram bastantes problemas comigo no 1º ciclo, levava bolas vermelhas todos os dias para casa [risos]. Porquê? O que fazia? Saltava janelas, por exemplo, porque queria sair para ir jogar à bola. A minha mãe conta que uma vez fui passear com a minha avó junto ao nosso bairro e, ao atravessar uma ponte por cima de uma estrada, vi um pacote de leite grande no chão e a primeira reação foi dar um grande chuto no pacote, que rebentou, era leite por tudo o que é sítio e afinal o pacote era de um senhor que estava a voltar a subir as escadas porque o deixou cair [risos]. Foi ali uma confusão com a minha avó... Mas há muitas histórias, quando tocava para o recreio em vez de sair pela porta da sala, saltava a janela. Era um miúdo muito irrequieto, mas fui acalmando ao longo dos anos. Filipe Chaby com os pais D.R. O que dizia querer ser quando fosse grande? Não faço ideia. Sei que comecei a jogar futebol muito cedo. Se me perguntassem se queria ser jogador, obviamente diria que sim, mas não sei se realmente tinha isso em mente. Os meus pais sempre me incutiram que tinha de estudar. E gostava da escola? Gostava porque adorava brincar com os meus amigos, mas não gostava de estar fechado numa sala de aula. Se me dissessem que não era obrigatório estudar e podíamos arranjar um trabalho ou ser jogador de futebol, não teria ido à escola [risos]. Mas sabia que era importante para o nosso conhecimento, para o nosso futuro, e adorava o ambiente da escola. Começou a jogar futebol onde e quando? Comecei no Vitória Futebol Clube, não me recordo a idade. Sei que comecei um bocadinho mais cedo, porque o meu pai era treinador das camadas jovens do Vitória. Ele colocou-me num torneio, sem ninguém saber, porque estava a jogar com miúdos três ou quatro anos mais velhos. Depois passei por aquilo que todos os miúdos passavam, que foi um período de captações, em que o Vitória escolhia aqueles que tinham mais capacidades para fazer parte dos escalões jovens. Acredito que comecei com 6, 7 anos. Aos 12 anos acabou por ir para o Sporting. Como? O Vitória Futebol Clube sempre foi conhecido por ter uma boa escola de formação, por isso éramos convidados para “n” torneios de futebol e em muitos deles jogávamos contra o Sporting, o Benfica, o FC Porto. Lembro-me de irmos ao Torneio da Pontinha, por exemplo, e acredito que comecei a entrar no radar dos grandes clubes por essa altura. Entretanto, houve quem desse por certo a minha ida para o Benfica, sem falar com o meu pai. O meu pai não gostou e disse que eu não ia. Depois apareceu o Sporting. Falaram com os meus pais e como a minha família é toda sportinguista, e eu tenho uma costela do Sporting e outra do Vitória, sempre tive o sonho de jogar no Sporting. Via o Sá Pinto, o Jardel, o João Vieira Pinto e sonhava um dia ser como eles. A nega do seu pai ao Benfica foi pelo facto de ser sportinguista? Não. Essa não foi a questão, até porque os responsáveis do Benfica eram aqui de Setúbal, era o Bruno Lage. Acho que foi devido ao processo, porque o meu pai não estava muito envolvido, aquilo foi num negócio do Moreto, um guarda-redes, em que o Benfica dava mais um X ou dava mais material para as camadas jovens e o Vitória meteu-me nesse pacote. O meu pai cancelou tudo, disse que não fazia sentido que eu e ele não soubéssemos e que não era assim que as coisas se faziam. Acabei mais tarde por ir para o Sporting. Filipe com um dos primeiros troféus que ganhou no Sporting ainda em criança D.R. No segundo ano de Sporting, acabou por ter um problema sério em casa e o Sporting deu uma boa ajuda. Pode contar o que aconteceu? Houve uma explosão de gás no 11º andar, o andar por cima do nosso. O quarto dos meus pais foi completamente destruído. O meu pai ficou ferido nas costas, na cervical, mas podia ter sido bem pior. Ele estava no quarto e recebeu um telefonema da mãe de um jogador, que queria explicações do meu pai sobre porque o filho não jogava. O meu pai saiu do quarto para atender o telefone e quando atende é quando acontece a explosão. A parede que separa a sala do meu quarto caiu-lhe em cima das costas e do pescoço. O que aconteceu depois? Tivemos de sair de casa durante um ano. Ainda houve a hipótese dos últimos três andares do prédio, incluindo o nosso, serem derrubados. Passámos os primeiros dias na casa da minha avó, no Estoril, a seguir fomos para um hotel em Setúbal, um, dois dias, porque eu e a minha irmã tínhamos escola; depois uma amiga de família, que tinha um apartamento vago em Setúbal, emprestou-nos sem custos e, por fim, acabámos por ir para a casa da minha tia, que estava a viver em Moçambique. A casa dela era muito perto do nosso apartamento, assim possibilitou aos meus pais irem acompanhando as obras. Até nos mudarmos de novo para a nossa casa, demorou mais de um ano. Conseguiram recuperar as vossas coisas? Inicialmente ficámos sem nada, ninguém podia entrar no apartamento, porque estava em risco de ser derrubado. Foi o Sporting que me ajudou. Nos primeiros dias de treino, logo a seguir ao acidente, o Paulinho apareceu no balneário com uma mala do Sporting cheia de material para mim, inclusive com uma bola assinada por todo o plantel principal. A malta do Sporting mostrou logo disponibilidade para ajudar no que fosse preciso. Na escola, a minha turma também se juntou e ofereceu-me uns ténis e roupa. Depois, aos poucos, fomos recuperando as coisas do apartamento através dos bombeiros. No quarto dos meus pais é que não se conseguiu salvar nada, perdemos cassetes, por exemplo, da minha infância e da minha irmã, coisas que têm muito valor sentimental. O médio fez toda a formação no Sporting D.R. Quais foram os momentos e as pessoas mais marcantes até chegar a júnior? Acredito que todas as pessoas foram marcantes, cresci com todas elas. Mas há pessoas pelas quais guardamos um carinho especial, como o mister Aurélio Pereira, pela relação que sempre tive com ele e que ele tinha com o meu pai, por tudo o que fez por mim, por tudo o que ajudou; o mister Tiago Capaz, um treinador que me marcou bastante acima de tudo pelo lado pessoal. Foi o meu treinador nos iniciados de 1º ano. Parecia um treinador muito rezingão, muito duro e foi alguém muito importante na minha formação. O mister Ricardo Sá Pinto e o mister Tiago Moutinho, que faziam parte da equipa técnica dos juniores do Sporting em que tivemos um ano de ouro, ganhámos praticamente tudo e acabei por assinar o primeiro contrato profissional, na transição de 17 para 18 anos. Foi aí que senti ser possível realmente fazer vida disto, ser profissional de futebol. Quando começaram os namoros mais sérios e as primeiras saídas à noite? As primeiras saídas à noite começaram cedo, com 15, 16 anos, mas sempre de uma forma responsável, depois dos jogos, até à meia-noite, uma da manhã, porque os meus pais eram super exigentes e protetores. Comecei a namorar aos 15 anos com a Patrícia, com quem ainda estou. Casámos e tivemos uma bebé que fez agora um ano. Como se conheceram? Conhecemo-nos num parque de campismo em Fernão Ferro, onde tenho uma casinha e ainda hoje vou passar lá as férias. Foi lá que conheci o meu grupo de melhores amigos, onde conheci os meus padrinhos de casamento, a minha mulher. Ainda demorou a conquistá-la, não foi fácil. O que ela faz profissionalmente? Ela teve azar porque casou com um jogador de futebol [risos]. Tenho tido uma carreira em que estou sempre de um lado para o outro e a minha mulher, graças a Deus, sempre quis e acompanhou-me. Quando estivemos na Covilhã ela começou a trabalhar numa loja para não ficar o dia todo em casa e ganhar algum dinheiro para ela. No ano seguinte, quando viemos para o Belenenses, ela acabou por conseguir um trabalho numa academia de estudos, onde fazia tudo, recursos humanos, tratava dos miúdos, etc. Quando fui para o Azerbaijão, foi a única vez que não me acompanhou, porque arranjou um trabalho na área onde se sente realizada. Começou a trabalhar na Cáritas de Setúbal como assistente social. Entretanto, acabou por ir para a Indonésia comigo, mas infelizmente viemos mais cedo do que o esperado, e agora está em casa, com a Francisca, a nossa bebé. Mas tem a ambição de continuar a trabalhar, mais dia menos dia irá tentar arranjar um trabalho na área dela. Matilde Fieschi Voltando ao Sporting. Assinou o primeiro contrato profissional com 18 anos, ainda estava nos juniores, certo? Sim, nesse primeiro ano de juniores comecei a ser chamado muitas vezes à equipa A, na altura em que o Domingos Paciência era treinador. O Domingos acabou por sair e assumiu o mister Ricardo Sá Pinto, que estava a treinar os juniores e continuei a ir muitas vezes à equipa A, mas sem nunca me estrear oficialmente. Domingos Paciência e Sá Pinto muito diferentes um do outro? Cada treinador tem os seus ideais, a sua filosofia, a sua maneira de ver o futebol. Na altura não tive tanto relacionamento com o Domingos, porque era treinador da equipa principal e não me aproximava muito, tinha algum respeito e medo [risos]. Mas foi um treinador que me deu a oportunidade de poder estar nesse patamar, de poder experimentar o que era estar na equipa principal. Foi bem recebido pelo balneário sénior? Fui sempre bem recebido. O Sporting sempre teve muitos jogadores vindos da formação, eles sabiam o que era estar do nosso lado e acabavam por tentar fazer com que nos sentíssemos bem. O Adrien e o Cédric eram fantásticos, o Ricky van Wolfswinkel e o [Diego] Capel parecia que tinham sido jogadores da formação do Sporting, também eram fantásticos, o [André] Carrillo, o Jefferson, defesa esquerdo, eram também incríveis. Simpatias à parte, houve algum jogador que o tivesse impressionado mais nos treinos? Sim, o Matías Fernández era absurdo. E o Rui Patrício também, na baliza, era surreal. Eram foras de série. O Rui, era difícil marcar-lhe golo quando saía no um para um, ele fechava a baliza completamente e o Matías era extraordinário, acho que só treinava de vez em quando, não sei se tinha problemas físicos, mas quando treinava era absurdo. Qual o valor do seu primeiro ordenado e o que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Penso que estava entre os €1100 e €1200. O meu pai sempre tentou incutir-me valores e que fosse responsável com o dinheiro, só que somos miúdos. Acho também que me fez bem passar por toda essa fase porque me fez a pessoa que sou hoje e dar valor ao dinheiro. Mas, na altura, como ainda recebi um prémio de assinatura, quis comprar logo um BMW Série 1, em segunda mão. Uma pessoa é jogador, vê os colegas com BMW's, qual comprar Citroëns, qual quê [risos]. Acho importante haver mais acompanhamento, principalmente nas academias do Benfica, do FC Porto, do Sporting e do SC Braga, porque hoje vejo miúdos a assinar contratos profissionais com 15 anos e é complicado quando és miúdo e vês-te com bom dinheiro. Começas a gastar em roupa, em relógios, em carros, em porcarias e depois chegas aos 25, 26 anos, a tua carreira toma outro rumo, olhas para a tua conta bancária, para o teu património e não tens nada. Não sei se as academias já têm esse acompanhamento, mas era importante. Se soubesse o que sei hoje, estava muito melhor do que estou. Em treino nos juniores do Sporting D.R. Chegou a estrear pelo Sporting? Oficialmente, não. Só fiz jogos amigáveis. Quando o Ricardo Sá Pinto foi treinar a equipa principal, foi Abel Ferreira quem ficou no comando dos juniores? Sim, o Abel finalizou a nossa temporada, porque estava a recuperar de uma lesão no joelho, mas já estava a tirar os cursos de treinador e acabou por entrar na equipa técnica do Sá Pinto para estagiar. Por isso, quando o Sá Pinto deu o salto era óbvio que tinha de ser o Abel a assumir, já estava dentro da dinâmica da equipa. Na altura já se vislumbrava que pudesse tornar-se o treinador de sucesso em que se tornou? Foi o primeiro impacto do Abel como líder de um grupo de trabalho. Apanhei-o depois na equipa B e ao fim de duas épocas já era muito melhor treinador do que no primeiro ano. Em que aspetos? Na maneira de estar com os jogadores, na liderança, no discurso, os treinos eram também mais fluídos. Por isso é que existem cursos de treinador. Ser jogador de futebol não quer dizer que vá ser bom treinador. É para isso que existem os cursos. Acho que o Abel aproveitou a oportunidade e foi melhorando dia após dia, ano após ano e hoje é o treinador que é. Se já via potencial e capacidade no Abel na equipa B? Já via e acabou por se tornar realidade. Mas o Sá Pinto também era um treinador que sempre pensei que fosse ter uma carreira muito melhor do que tem tido. Não é que tenha uma má carreira, mas pensei que poderia ser melhor tendo em conta os treinos dele, a maneira como lidava com os jogadores, o seu conhecimento, a sua liderança. Já vi muita competência e capacidade noutros treinadores que acabaram não fazer a carreira que queriam, às vezes é uma questão de oportunidade. O médio nunca chegou a estrear pela equipa principal do Sporting D.R. Em 2012/13 subiu à equipa B? Em 2012/13 era júnior do último ano, comecei a época a treinar nos juniores, entretanto dou o salto para a equipa B, comecei o campeonato a titular da equipa B com o Dominguez e o Oceano. Depois, numa ida à seleção nacional a um torneio em Itália, por volta do 6º, 7º jogo do campeonato português, acabei por fazer uma rutura do cruzado anterior e fiquei de fora praticamente o resto da época. Como fez essa rutura? Foi um lance um bocadinho esquisito. Há uma bola que vai para a linha lateral, fui à bola, entretanto vieram dois jogadores da Itália em sentidos opostos, fui ensanduichado e ao tentar fazer a rotação para sair da pressão eles impactaram comigo e o meu joelho ficou preso. Passou-lhe pela cabeça que a carreira pudesse estar em risco? Não me passou pela cabeça porque não existia a informação que existe hoje. Tinha 18 anos e não sabia que havia lesões. Não sabia que era possível um jogador lesionar-se porque nunca tinha tido uma lesão e os meus colegas também não. Uma das primeiras pessoas que me mandou mensagem a dizer que se precisasse de ajuda, ele estaria disponível, foi o Gonçalo Paciência, que era meu colega na seleção nacional e também estava a recuperar do cruzado anterior, e eu não fazia ideia. Quando o médico da seleção veio com o exame e diz: "Tens uma rutura do cruzado anterior." Respondi: “OK, quando é que posso jogar? Daqui a dois, três dias?” Depois é que ele me diz que era uma paragem de seis meses. Não fazia a mínima ideia. Foi-se muito abaixo psicologicamente? Acho que não, porque sempre tive uma estrutura familiar que me apoiou, amigos que me apoiaram, o Sporting também foi impecável. O chato foi estar fora do futebol, não poder treinar, não poder jogar, não poder estar com os meus colegas e perder oportunidades; ver jogadores a aparecer na equipa, coincidiu com um ano em que o Sporting fez a pior época de sempre e houve uma data de jogadores que se estrearam, o Fabrice, o Zezinho, o Bruma, o João Mário, e naquela altura eu sentia que estava muito bem, era júnior do último ano, já era titular na equipa B, se calhar poderia ter dado para mim. Filipe fotografado junto ao rio Sado, na semana em que foi entrevistado para a Tribuna Matilde Fieschi Entretanto, na época seguinte regressou para a equipa B, também com o Abel, certo? Sim, aí já era sénior, a única hipótese era pertencer à equipa B ou ser emprestado. As coisas começaram muito bem, sou chamado à pré-época com o Leonardo Jardim, provavelmente porque os jogadores de 1993, o João Mário e o Esgaio tinham ido para a seleção e foram buscar outros jogadores à equipa B e fui um dos chamados. A pré-época correu muito, muito bem, o Leonardo gostou bastante de mim e integrei a equipa principal. Comecei a treinar com a equipa principal e só ao fim de semana é que descia para jogar pela equipa B. Aí acreditava que iria estrear-se na equipa principal? Exatamente. E quase tive essa oportunidade. Nos primeiros dois jogos fui convocado, fui para o banco contra o Arouca, fiquei de fora contra a Académica. Entretanto, deixei de ser convocado porque foi contratado o Vítor Silva e perdi espaço. Depois, se calhar por ser jovem, em vez de pensar, "vou continuar a trabalhar para poder jogar na equipa A", não. Comecei com o pensamento, "já não estou aqui a fazer nada, mais vale ir para a equipa B treinar e jogar, porque nem jogo na equipa B, nem jogo na equipa A". Isto porque estava numa fase em que já não fazia o treino todo com a equipa A; como éramos muitos jogadores, ficava várias vezes de fora, tinha de esperar que algum jogador saísse para poder entrar. Pediu para voltar à equipa B? Não, o clube é que decidiu que eu devia ir para baixo, se calhar porque me viu deslumbrado e já não tinha o rendimento que estava a ter no início da época. Baixei, comecei a treinar e a jogar regularmente outra vez na equipa B. Entretanto, o Francisco Barão assumiu a equipa porque o Abel saiu do Sporting e depois veio o João de Deus e com ele quase não joguei. A seguir sou emprestado ao União da Madeira. Chegou a treinar na equipa principal com o Marco Silva? Isso foi a seguir ao Leonardo Jardim. Acabei a época na equipa B e sou chamado outra vez à pré-época com o Marco Silva. Muito diferente do Leonardo Jardim? Não tive muita oportunidade de perceber porque foi só uma semana de estágio e nas primeiras semanas há muito pouco trabalho tático, a prioridade é o trabalho físico. Eu, o Iuri [Medeiros] e o Wallysson, que fomos chamados da equipa B, quase não jogámos os jogos amigáveis do estágio. Fizemos 10, 15 minutos no primeiro jogo e os outros dois ficámos na bancada. Acho que foi mais para dar um prémio individual aos jogadores do que propriamente dizer: precisamos de vocês. Retornei à equipa B e fiquei lá. Isto para dizer que não tive oportunidade de trabalhar com o Marco, então não faço ideia. Na época 2017/18, Chaby assinou pelo Belenenses MB Media Pediu para ser emprestado ao União da Madeira? Não. Na altura o Bruno Carvalho tem uma conversa comigo e com o meu empresário, a GestiFute, em que diz que achava ser importante eu sair da zona de conforto, que estava um bocadinho estagnado na equipa B, que não estava a jogar e achavam que seria importante para mim ir para a União da Madeira. Como reagiu? Reagi um bocadinho mal porque ia sair da equipa B do Sporting para continuar a jogar na II Liga. Pensava, eu tenho é de estar na I Liga. Lembro-me que a GestiFute ainda falou do Penafiel, que era o último classificado da I Liga, mas acabou por não se concretizar. E fui para o União da Madeira porque sabia que era importante para o meu crescimento sair da equipa B. Ficar na equipa B não era uma hipótese, porque eu não era opção. Agora, na minha cabeça, achava que a minha qualidade e capacidades eram de I Liga. Pensava que era muito fácil por ser jogador do Sporting ir para uma I Liga. Foi sozinho para a Madeira? Inicialmente fui sozinho, mas depois a Patrícia foi ter comigo. Que tal era o clube? Nunca fui uma pessoa muito esquisita. Desde que os clubes tenham bons relvados, está top. Se tiverem relvados todos esburacados, para mim é que complica um bocadinho, porque sou um jogador que gosta de ter bola, de fugir ao impacto. Por isso, foi bastante positivo, encontrei um clube com dois bons relvados de treino, tinha uma academia, não fazia ideia, os balneários eram muito porreiros, tinham uma zona de massagens, de banho quente, de banho de gelo, um ginásio que como é óbvio não era como o do Sporting, mas dava para fazer um trabalhinho. Como foi lidar com o mítico Vítor Oliveira? Não fazia ideia quem era o Vítor Oliveira, o estatuto que tinha, as subidas que tinha. Foi um choque em termos de balneário porque passei de um contexto formativo em que o importante não são os resultados, mas sim formar e jogar bem, para um contexto em que o importante é o resultado. Eles não querem saber se tu tens 18 ou 19 anos, se és bonito, ou se és feio. Querem é que chegues ao campo e rendas. Não existe período de adaptação, não existe nada. Tens de chegar, ver e vencer. Significa que a adaptação à forma de jogar e ao balneário foi difícil? Não, até foi bastante tranquila. Não vou dizer que foi tudo muito fácil e que me dei às mil maravilhas com o Vítor Oliveira. Houve períodos em que joguei muito, houve períodos em que deixei de jogar, houve períodos em que fui muito importante. Levou muitas duras dele? Levei. Eu era muito jovem, achava que ia para ali e era eu e mais 10. Apesar de nunca ter sido dos melhores jogadores da minha equipa na formação, sempre fui um jogador importante, com muita regularidade e quando cheguei à União da Madeira não fui titular. Tive ali um período em que o mister Vítor foi-me colocando a jogar aos poucos, aos poucos, até eu realmente merecer a titularidade. E isso ao início para mim foi impactante. Então eu não estava a jogar na equipa B, vou para a União da Madeira e ando a jogar, desculpe a expressão, às mijadinhas? Às vezes ainda levava duras e como é óbvio mostrava uma carinha feia. Quando somos miúdos achamos que por não rirmos para o treinador que vamos jogar no jogo seguinte. São tudo dores de crescimento. Mas tive sorte por ter tido o treinador que tive. O médio durante um jogo pelo Belenenses D.R. O ambiente no balneário também era muito diferente daquilo a que estava habituado, com homens mais velhos, casados, com filhos. Era fantástico. O mister Vítor Oliveira não dava muita prioridade ao trabalho tático, mas dava muito valor ao lado humano, ao grupo de trabalho, àqueles jogadores que trabalhavam bem e que faziam um bom ambiente no balneário. Tendo isso e a qualidade individual dos jogadores, aquilo acabava por resultar. E foi o melhor treinador que apanhei a ler o jogo. Ele fazia substituições certeiras mesmo. Tenho até uma história sobre isso. Conte. Há um jogo com o Leixões em que eu achava que estava a ser dos melhores jogadores em campo e de repente ele faz uma tripla substituição. Do nada. A placa é levantada e está lá o meu número. Saio doido, louco, atirei umas boquinhas do banco para o mister ouvir e, de repente, é a tripla substituição que acaba por decidir o jogo. Aí, meti a viola no saco. Ele tinha muitas coisas dessas, substituições que olhavas e dizias, mas isto não faz sentido, o que isto vem trazer ao jogo? E, de repente, mudava o jogo todo. E depois era a crença, o discurso dele era fantástico. Tem mais histórias que se recorde dessa época 2014/15? Era um grupo muito engraçado, havia três jogadores que era a risada completa com eles, o Élio Martins, que depois foi treinador do Machico; o Miguel Fidalgo e o Ricardo Campos. Os três faziam o balneário. Estavam sempre a meter-se uns com os outros, depois havia aquela brincadeira típica do futebol da pomada Finalgon nas cuecas; o cortar as meias, em que vais vestir a meia e o teu dedo sai de fora, essas coisas normais. Por isso, a adaptação foi fantástica, não posso queixar-me de nada, fui muito bem recebido e não foi por acaso que acabámos por subir de divisão, além de bons jogadores tínhamos um ambiente incrível. Foi uma festa essa subida? Foi pena o União não ter muitos adeptos, não era um Nacional, não era um Marítimo, era uma equipa um bocadinho mais pequenina, houve aquela festa no autocarro em que vamos lá em cima, mas na maior parte do caminho não estava ninguém na rua [risos]. Mas foi a minha primeira conquista a nível profissional e foi espetacular. Acabou por não estrear na I Liga com o União da Madeira. Antes de acabar a época, o Edgar Rodrigues, que era o diretor-desportivo do União, já me tinha informado que independentemente de ficarmos na II ou na I Liga, queria muito contar comigo. Como a experiência foi tão boa e adorei viver na Madeira, foi também a minha primeira experiência a viver longe dos meus pais, eu queria muito continuar no clube, ainda para mais na I Liga. Se as coisas corressem bem podia dar o salto para outra equipa da I Liga. Podendo ter a primeira experiência da I Liga num grupo que já conheço e que me conhece, sabe aquilo que posso oferecer à equipa, era o contexto ideal. Tiago Morgado do Real SC atrás de Filipe Chaby do Belenenses, em 2017 Gualter Fatia Continuou no União da Madeira, mas ficou pouco tempo, porquê? A história é longa. Acabou a época, o Edgar disse, vens para a equipa na próxima temporada. Entretanto, o tempo foi passando, as férias foram passando, eu ligava ao Edgar, falava com os meus empresários, e a conversa era sempre a mesma: "Chaby, estamos só a tentar resolver uma coisa, tu vens, não te preocupes". O meu pai achou logo estranhíssimo e disse-me: "Eles não contam contigo, é melhor esqueceres, não vale a pena." Só que, eu tinha aquela esperança, e queria ir para lá. Tinha propostas de outros clubes? Não fazia ideia. Dois anos mais tarde vim a saber pela boca de um treinador, cujo nome não vou dizer, que o Vitória Futebol Clube teve uma reunião com o Sporting por causa de mim quando vou para a I Liga no União da Madeira; no ano seguinte, quando fui para o SC Covilhã, o clube foi novamente ter uma reunião porque me queria e quando fui para o Belenenses também me quiseram. Mas assinei com o Belenenses muito prematuramente, logo em janeiro. Entretanto, no final dessa época, esse treinador veio ter comigo e disse: "Chaby, estás sempre a dar-me negas, o Vitória já te quer faz um tempo e estás sempre a dizer que não, o que se passa?" E eu sem saber de nada. Se há clube onde um dia gostava de jogar era no Vitória. Se soubesse mais cedo eu já tinha ido, até porque fui para a II Liga, para o SC Covilhã, quando já podia estar na I Liga. Entretanto, acabou mesmo por ir para o União da Madeira, na I Liga. Sim, acabei por ir para o União da Madeira. Mas comecei a época na equipa B do Sporting, era João de Deus o treinador. Ele adiou, adiou, adiou, não faço os primeiros dois jogos, não estava inscrito para poder ser emprestado. E um dia o João Deus fecha-me num gabinete e diz: "Já chega, estás aqui a treinar, estás incluído no plantel, daquilo que estou a ver não vais sair, eu vou inscrever-te e vou colocar-te a jogar, depois se tiveres de sair, sais, paciência." Se eu jogasse no Sporting B e fosse para o União da Madeira, caso alguma coisa corresse mal, só podia voltar para o Sporting B, não podia ir para outro clube. Ele acabou por inscrever-me, faço um jogo e no final desse jogo o Edgar Rodrigues liga-me a dizer que já tinha falado com o Sporting e que eu ia para o União da Madeira, que já estava tudo acordado. Fui um bocado inocente e se calhar devia ter tentado perceber um bocadinho as coisas. Porque diz isso? Porque, na altura, o treinador do União da Madeira não me queria. Era o Norton Matos. Exatamente. Ele queria o Rafael Guzzo, acabei por saber depois, e o Edgar Rodrigues queria o Filipe Chaby. Como o União da Madeira não começou muito bem à época, o Edgar tinha algum peso e foi buscar-me. Como percebeu que o treinador não o queria? Desde cedo senti que alguma coisa não estava bem. Quando cheguei ao União não fui convocado no primeiro jogo. Eu estava com ritmo de jogo do Sporting B, não existia essa desculpa. A desculpa foi, acabaste de chegar, era injusto para os outros jogadores seres convocado. Fiquei logo de pé atrás. É por isso que existem reforços, vêm para jogar, para ajudar, se eu estou bem, tenho de ser convocado. Achei um bocadinho estranho, mas era miúdo. Depois tive uma oportunidade que achei um pouco um presente envenenado. Porquê? Foi num jogo da Taça de Portugal ou da Taça da Liga, contra o Paços de Ferreira, em que sou colocado a titular. Senti que foi um bocadinho um presente envenenado porque fomos jogar com o Paços, que na altura era incrível, tinha o Diogo Jota, o André Leal, estava muito bem. Eles vieram com a melhor equipa e nós fomos com a segunda equipa, com os jogadores que não jogavam, mudou a equipa toda. Acabámos por perder 1-0 e eu como n.º 10 acabei por fazer um jogo muito aquém das minhas expectativas. Depois desse jogo nunca mais joguei. Por isso é que digo que foi um presente envenenado. Filipe com a mulher e a filha no carrinho D.R. Esteve no União da Madeira quanto tempo sem jogar? Desde o início da época até janeiro. Fui o único jogador em todo o plantel que não se estreou na I Liga. Depois tive uns minutos contra o Aves, num jogo da Taça de Portugal e mais nada. Em dezembro tive uma conversa com o Edgar e disse-lhe que alguma coisa tinha de mudar e que se não tivesse oportunidades era melhor voltar para o Sporting para poder acabar a época a jogar. Não estávamos com bons resultados e o Edgar disse: "É muito simples, se o mister Norton ficar, vais ter poucas possibilidades de jogar, percebo que queiras sair. Se ele sair, se calhar já entras nas contas e vais ter oportunidades". O que aconteceu? Ele disse que o mister Norton tinha dois jogos para pontuar, se não conseguisse estavam a equacionar fazer uma troca. Eu ia esperar por esses dois jogos e depois logo se via. Esses dois jogos foram contra o Sporting e o Benfica. Por um lado, como é óbvio, torço para que a minha equipa tenha sucesso e ganhe os dois jogos, mas, por outro lado, sabia que se o União ganhasse esses dois jogos eu ia ter poucas oportunidades e teria de sair. Ganhámos penso que ao Benfica e pontuámos com o Sporting, as coisas começaram a correr bem ao União, e ainda bem, e acabei por regressar ao Sporting B para acabar a temporada. Quando terminava o contrato com o Sporting? Renovei o contrato com o Sporting na altura do Bruno Carvalho, com o Leonardo Jardim, e penso que assinei por quatro ou cinco anos, portanto, ainda devia ter mais dois anos. Como foi parar ao SC Covilhã em 2016/17? Acabou essa época, fui de férias na perspetiva de voltar à pré-época no Sporting B, de saber o que ia acontecer à minha vida, e acabou por aparecer o SC Covilhã. Eu não queria ir porque sentia que não era o contexto certo para mim. Porquê? Já tinha ido jogar à Covilhã diversas vezes pela equipa B de Sporting, sempre foi um campo muito complicado de se jogar, com equipas muito fortes fisicamente, que jogavam segunda bola e eu sentia que não ia ajudar o SC Covilhã porque era um jogador que precisava de um futebol apoiado, precisava de ter uma equipa com maior preponderância ofensiva, uma equipa que estivesse mais tempo a atacar, sentia que se fosse ia estar a ver o jogo a passar, tipo pingue-pongue. Só que, pelo que depois percebi, o Sporting estava interessado num jogador do SC Covilhã, o Bilel, e como não queria pagar um valor de transferência por ele faziam a troca de dois jogadores por empréstimo. O SC Covilhã escolheu-me e o Cristian Ponde. E lá fui contrariado para o SC Covilhã. Em 2018, o médio saiu de maca após sofrer lesão num jogo entre o Belenenses e o Estoril-Praia Gualter Fatia A experiência no SC Covilhã foi muito diferente da do União na Madeira? Muito diferente. Foi o melhor balneário que tive na carreira. Encontrei um grupo de pessoas fantásticos. Dava-me muito bem com o Cristian, trouxe da SC Covilhã um dos meus melhores amigos, o Hugo Marques, que está na Angola. Ainda hoje falo algumas vezes com o Gilberto, com o Joel, o Harramiz, que tirou o agora o nível I do curso de treinador comigo. Eles recebiam os jogadores muito bem, era um balneário diferente, e acabou por coincidir com a melhor época profissional que tive. Quando as coisas nos correm bem profissionalmente tudo é mais fácil e foi tudo perfeito nessa época. Estive contrariado nos primeiros sete jogos da época porque só tinha cerca de 50 minutos de jogo; ligava ao meu empresário todos os dias a dizer que queria ir embora. Entretanto, as coisas viraram de um dia para o outro. Houve uma semana em que joguei e nunca mais saí. Como explica essa mudança? Começámos a época muito mal, com derrotas, sempre a perder jogos. Nos primeiros sete jogos tínhamos um ponto, que foi contra o Olhanense, que estava em último connosco. Eu não jogava, a equipa não estava bem, não estávamos a praticar um bom futebol. Nas poucas oportunidades que tive, não consegui mostrar o meu futebol. Via o tal pingue-pongue de que falei. Entretanto, jogámos para a Taça, acabei por entrar no intervalo, estávamos a perder 1-0, se não estou em erro, com uma equipa da distrital ou do CP [Campeonato de Portugal]. Nesse jogo, quando entrei, as coisas acabaram por me correr bem, damos a volta ao marcador, passamos a eliminatória e, no jogo seguinte, o mister deu-me oportunidade de jogar a titular. Foi aí que deu o clique. Não só a mim, como à equipa toda. Houve ali umas alterações que deram certo. Ponto final. Acabámos por fazer uma sequência gigante sem perder jogos e éramos das equipas que praticava melhor futebol na II Liga. Tem histórias para contar desses tempos na Covilhã? Tenho uma engraçada. No SC Covilhã tinha uma relação muito especial com um colega que não estava a passar uma fase positiva desportivamente. Não estava ter o tempo de utilização que pretendia, andava mais cabisbaixo e, no último treino da semana em que sai a convocatória, que todos os jogadores têm de ler e assinar, mal acabou o treino ele saiu disparado para casa, provavelmente a pensar que não seria convocado. Só que o nome dele estava lá. Fui logo ter com os capitães de equipa, o Joel e o Gilberto, para lhes dizer que ele tinha saído. O Cunha, que era e é o diretor-desportivo do SC Covilhã, estava no balneário para recolher a convocatória no final do treino. Disse-lhes que podia dar problemas porque ele ia ver que o nosso colega não tinha assinado a convocatória e eles dizem-me para tentar contactar o colega que tinha ido embora. Peguei no telefone, comecei a chamada: “Estou?”; e do outro lado: “Estou, sim?”; “Estou, mano? Tens de vir o mais rápido possível ao balneário porque foste convocado, tens de assinar, o ‘macaco’ do Cunha está aqui à caça”. E a resposta do outro lado foi: “Estou, Chaby? É o Cunha”. Desliguei logo o telemóvel, em pânico. Ou seja, o nome do Cunha estava tanto na minha cabeça que em vez de ligar ao jogador, fui ligar ao diretor [risos]. Fui a correr, em pânico, contar aos capitães, e eles, claro, partiram-se a rir e começaram a contar aos outros jogadores. De repente, lá do fundo, aparece o Cunha: “Então, Chaby, sou macaco é?” [risos]. Felizmente ele percebeu a situação, conhecia-me bem e não levou a mal. Em 2018/19, Chaby (a conduzir a bola) foi emprestado pelo Sporting ao Estoril-Praia Gualter Fatia Acabou por sair do Sporting em 2017 e foi para o Belenenses. Como e porquê? Quando fui contrariado do Sporting para o SC Covilhã, disse aos meus empresários: aconteça o que acontecer, não quero voltar para o Sporting na próxima época. Vou fazer esta época no SC Covilhã e vão ter de arranjar-me outra solução.” Ainda estava com a GestiFute. Em janeiro começaram logo a aparecer clubes e o Belenenses foi um deles. Assinei muito prematuramente, se calhar podia ter esperado por propostas do estrangeiro, financeiramente mais vantajosas, mas naquela altura era o que me fazia sentido. Queria estrear-me na I Liga e poder fazê-lo num histórico como o Belenenses, que na altura tinha uma visibilidade gigante... Recordo-me que quando ia buscar os bilhetes ao Belenenses, via a lista dos olheiros que iam ver os jogos e era assustador, era um clube que tinha muita visibilidade. Ainda por cima o treinador era o Domingos Paciência, que me estreou na equipa A do Sporting, As condições estavam todas reunidas para ter sucesso. E como correu essa época? A época estava a ser bastante positiva, houve períodos com o Domingos em que fui importante. Houve outros que, também devido à instabilidade da equipa, acabei por não jogar tanto. Entretanto, o Domingos saiu do Belenenses devido a maus resultados, entrou o Silas, e acabei por descobrir que me adorava como jogador. Gostou de trabalhar com ele? Muito. Fui realmente aposta. O Silas chegou e passei a jogar os 90 minutos, coisa que era difícil de acontecer na minha carreira. As coisas começaram a correr muito bem, apesar dos resultados às vezes não serem os melhores. Até ao dia que num jogo com o Estoril-Praia lesionei-me. Há imagens vídeo na Internet dessa lesão onde se vê o seu pé a dobrar. Pode recordar como e o que aconteceu? Fiz uma rutura nos três ligamentos do tornozelo. Duas parciais e uma total. Foi a pior lesão que tive até hoje. Foi muito difícil recuperar da lesão, foi muito sofrida. Já tinha feito lesão no cruzado anterior e para mim esta foi pior. Foi horrível, porque sentia dores. Foi um lance em que vou fazer um passe, cheguei primeiro à bola, o jogador adversário que veio atrasado, entrou de sola e calcou o meu tornozelo, que ficou todo de lado. O jogador foi expulso diretamente e eu fui diretamente para o hospital. Estive três meses parado, mas acabei a época a jogar. O Belenenses já estava safo e o Silas deu-me uns minutinhos para me ir adaptando e ver como é que estava o tornozelo. Mas ainda não estava bem, comecei a época seguinte muito mal. Filipe Chaby em Setúbal, na semana em que foi entrevistado por Tribuna Matilde Fieschi Época seguinte essa que já é na B SAD. Sim. Coincidiu com esse período horrível, em que houve o conflito entre os presidentes, nós vamos para a B SAD com a casa às costas, os campos do Jamor eram terríveis. Tinha acabado de recuperar de um tornozelo, vou para aqueles campos e quase não conseguia fazer um treino completo. Chorei imensas vezes em casa, porque não me sentia jogador de futebol. Doía-me tudo. Doía-me o tornozelo, depois tive uma lombalgia, fui a um médico que me disse que se calhar devia escolher outra profissão porque tinha um problema na lombar. É aí que o Sporting acabou por entrar novamente, mais tarde. Eu não conseguia jogar, não conseguia ter consistência, não conseguia treinar. Em janeiro, o Belenenses possivelmente já estava farto de mim e como o Sporting tinha uma percentagem do passe meteu-se ao barulho. Tentou perceber o que se passava, pediram uma avaliação, fui visto pelo departamento médico do Sporting. O que lhe disseram na reavaliação? Disseram que tinha um problema genético chamado espondilolistese e que o César Peixoto também tinha, em grau 3, enquanto eu só tinha grau 1. E ele fez a carreira que fez. Eu só precisava de fazer muito reforço. O que espoletou aqueles problemas foi o meu tornozelo; não estava preparado e comecei a sobrecarregar as outras zonas do corpo até que chegou às costas. Depois recebi uma chamada do Hugo Viana a dizer que sabiam que eu não estava numa situação fácil, que iam ajudar-me, tirar-me do Belenenses e oferecer-me um contrato para ir para lá recuperar fisicamente, ainda com a esperança de que pudesse ter uma carreira no Sporting. Por muito que quisesse acreditar que viam potencial em mim para poder chegar ainda à equipa A do Sporting, acredito que tenha sido mais para me ajudar. O Hugo Viana tinha trabalhado comigo no Belenenses, o presidente Varandas sempre teve uma ligação muito especial comigo porque foi meu médico naquela época das equipas B e de júnior. Só que eu não podia ser inscrito na equipa B do Sporting e fui emprestado ao Estoril de Praia, que também tinha um departamento médico fantástico e que mostrou interesse em contar comigo. Estoril-Praia onde ainda fez jogos pela equipa de sub-23, na Liga Revelação, em 2018/19. Exatamente. Não era o Chaby que eles queriam receber, basicamente aquilo foi para eu poder recuperar. E foi o que aconteceu, acabei por recuperar e na época seguinte, quando fui para a Académica, já era o Chaby que as pessoas estavam habituadas. Mostrar conteúdo oculto “Sei que em muitos momentos podia ter sido mais profissional, houve algum deslumbre e muitas das vezes facilitismo da minha parte” Filipe Chaby fala sobre as épocas em que jogou ao serviço da Académica de Coimbra, a quem deixa vários elogios, e do Nacional da Madeira, antes de partir para a primeira aventura no estrangeiro, no Azerbaijão. Abordamos ainda o regresso ao Belenenses e a ida para a Indonésia onde reencontrou o prazer de jogar futebol. Nesta parte II do Casa às Costas, o médio fala ainda sobre o futuro pós-carreira, os receios que tem, os investimentos que fez e sobre literacia financeira Como foi parar à Académica de Coimbra, em 2019/20? Ainda comecei a pré-época no Sporting com o Keizer, que deve ter feito uma avaliação naquela primeira semana. Dizem-me que podia procurar solução para ser emprestado. O César Peixoto ligou-me diretamente, disse que me conhecia perfeitamente como jogador, sabia dos meus problemas, conhecia as minhas características. A que tipo de problemas se referia o César Peixoto? Físicos? Futebolísticos. Sempre fui muito pouco agressivo defensivamente, nunca fui um jogador muito forte na reação à perda da bola, não sou um jogador de contacto. Ofensivamente tenho as minhas coisas boas, mas defensivamente tenho alguns problemas. Mas nenhum jogador é perfeito, tirando o Ronaldo e o Messi [risos]. Disse-me na cara todos os problemas que eu tinha, tudo o que tinha de melhorar, convenceu-me logo porque me enviou vídeos da maneira como as equipas dele jogavam e como queria que eu jogasse. Nunca tinha recebido uma abordagem assim. Acabei por ir para a Académica. As coisas começaram a correr bem, mas tive uma recidiva no tornozelo, tive de parar uns tempos. Depois voltei bem e foi uma época espetacular, que foi travada pela Covid-19. Também um dos melhores grupos que apanhei na carreira. Passou o período de confinamento em Coimbra? Comecei o confinamento em Coimbra porque ainda não sabíamos se voltaríamos a jogar. Só quando saiu a decisão de que o campeonato da II Liga não iria continuar é que voltei para Setúbal, onde já tinha comprado casa. Em 2019/20, Filipe Chaby assinou pela Académica de Coimbra Gualter Fatia Ainda fez mais uma época na Académica. Não tinha outra opção? A estabilidade para mim conta muito. A Académica é um clube completamente diferenciado, foi dos sítios onde mais gostei de jogar, os adeptos são fanáticos, o estádio era muito bem composto, a cidade é incrível. Sentes-te jogador porque vais ao shopping, ao restaurante, as pessoas conhecem-te, abordam-te, tratam-te bem. Nunca mais me esqueço que na primeira semana que estou na Académica, num almoço com colegas, o Leandro, que saía da Académica e voltava, saía e voltava, tinha prescindido de um contrato onde estava, naquela altura, para voltar para a Académica a receber muito menos dinheiro. Chamei-o de doido e ele disse: “Mano, tu vais perceber o quão especial é jogar neste clube. No final da época falamos”. Não me pergunte, mas a Académica é diferente, é um clube especial. Não sei se é o encanto da cidade, se as condições do clube, se são as pessoas que trabalham no clube, que são incríveis, não sei se foi a equipa que apanhei, estávamos sempre juntos. Íamos muitas vezes almoçar e jantar fora. Fiquei com aquela sensação de que a história não tinha terminado, alguma coisa tinha ficado por fazer. Teve propostas de outros clubes? Tive. Tive treinadores de outros clubes a ligarem-me. Na altura recebi um convite do Vitória Futebol Clube, mas, entretanto saiu aquela decisão de que o Vitória ia descer para os campeonatos não profissionais. Acabaram por ligar-me da estrutura da Académica. Gostavam que voltasse e disse logo que sim. Fui ganhar menos dinheiro do que na primeira temporada, mas só queria ir para Coimbra. É uma época coletivamente excecional, estivemos até a última jornada a lutar pela subida de divisão, merecíamos mais pela qualidade que tínhamos e por aquilo que fizemos, mas acabámos por não conseguir. Agora, foi uma época dura individualmente, porque se na primeira época na Académica sentia que era um dos jogadores mais importantes, jogava quase sempre, sentia que podia ajudar; quando voltei fiquei mais num papel secundário, não jogava tanto. Era Rui Borges o treinador. Sim. Eu era visto como um jogador com um papel mais importante a partir do banco, de tentar entrar para mexer com o jogo. Muitas das vezes acabava por ser um bocadinho frustrante porque quando começávamos a ganhar eu já não entrava. Como era um jogador que defensivamente não era tão competente, já não era útil para jogar. Era mais um jogador que entrava quando estávamos a perder, ou empatados, para tentar mudar o jogo ofensivamente. Foi uma época difícil nesse sentido, porque sentia que podia ser titular e não conseguia. Mas gostou do Rui Borges enquanto treinador? Sim. É assim, no fundo, gostamos mais dos treinadores que nos metem a jogar. Ponto final. Há muita gente que diz, e é verdade, que os melhores empresários que temos são os treinadores. Um empresário não faz milagres se tu não estiveres a jogar. Aquele que te pode valorizar mais é o treinador, se te meter a jogar e num sistema de jogo que acabe por te beneficiar. Agora, o mister Rui Borges tinha coisas fantásticas e não é por acaso que está onde está. Que coisas fantásticas eram essas? Os treinos dele eram muito bem organizados, muito bons. Em termos de intensidade de treino e no jogo, nunca tinha visto nada assim. Se calhar era também por isso que não jogava, os jogadores eram muito intensos, a equipa era muito intensa a pressionar, defensivamente éramos muito fortes, éramos muito coesos, e era muito complicado baterem-nos. Sentia que podia ser mais importante na equipa porque se jogasse podíamos ser muito mais fortes ofensivamente. Mas são decisões e temos que as respeitar. O médio confessou na entrevista à Tribuna que adorou jogar e viver em Coimbra D.R. A seguir foi para o Nacional da Madeira, na II Liga também. De quem partiu o convite? Do Costinha, que me ligou. Conhecia-me muito bem da época no SC Covilhã porque ele treinava a Académica e gostava bastante da minha maneira de jogar. As coisas até começaram a correr bem com o Costinha. Entretanto, mais uma vez, tenho um problema físico. O que aconteceu? Fiz um estiramento do lateral interno, uma lesão que não é grave, mas que obrigada a parar por um mês. Quando estou quase a regressar, o Costinha é despedido e veio o mister Rui Borges. E pronto, voltei a ter o mesmo papel que tinha na Académica, mas ainda menos preponderante. O plantel do Nacional individualmente era muito forte, joguei muito pouco no Nacional da Madeira. Entretanto, estava em fim de contrato com o Sporting? Julgo que ainda tinha mais um ano de contrato. Mas senti que era o momento ideal para sair para o estrangeiro e experimentar outra coisa. Estava na idade e queria abrir portas para começar a ganhar dinheiro, porque a minha ambição até então nunca tinha sido o dinheiro, era poder voltar à I Liga, ser importante em Portugal. Mas a idade começou a passar e tinha de começar a ganhar dinheiro a sério para estabilizar a minha vida. E também porque estava exausto do futebol português. Porquê? O futebol tinha mudado muito, estava muito mais defensivo, muito mais agressivo, muito mais tático. As últimas duas épocas não foram nada fáceis para mim, com pouco tempo de jogo, por isso senti que era o momento. Só que não foi no timing certo. As condições estavam reunidas, fui para um clube fantástico em termos de condições, o Sumqayit FK, do Azerbeijão. Tinha um estádio novo a ser inaugurado, dois campos de treino, onde treinávamos e jogávamos mais era na melhor relva do Azerbaijão. Aquilo era incrível, o balneário era fantástico, o ginásio era muito bom, condições incríveis. Filipe Chabyem jogo pela Académica de Coimbra Gualter Fatia Foi ganhar quantas vezes mais? Não fui ganhar nada. Fui lá para abrir portas. Tinha mais um ano de contrato com o Sporting, recebi alguma parte desse contrato e recebi o salário do Azerbaijão, que não sendo muito, acabava por ser bom porque juntava ao do Sporting e acabava por ser um bocadinho mais do que ganhava em Portugal na altura, por exemplo, no Nacional. Mas se fosse só pelo contrato do Azerbaijão, nunca tinha ido. Fui porque sentia ser um campeonato que estava muito perto da Turquia, tínhamos ali o Qarabag, uma equipa que ia sempre à Champions, ouvia-se que pagavam bom dinheiro. Foi sozinho? Fui. E foi o timing errado. Porquê? Porque é a primeira vez que imigro para outro país, numa realidade e cultura completamente diferentes. Não sabia cozinhar, não tinha companhia, coincidiu com o facto da minha mulher ter começado a trabalhar e foi difícil estar longe dela, da família, dos amigos. Se profissionalmente as coisas não correrem bem, a vida pessoal desaba. E eu não estava feliz, não me sentia realizado por estar longe da família e a vida profissional não estava a conseguir acompanhar, a equipa não jogava nada, éramos o saco de pancada do Azerbaijão, perdíamos os jogos todos. A liga era muito fraca? Hoje está muito melhor do que na minha altura. Mas já era uma liga boa. Taticamente não era tão forte como em Portugal, a intensidade não era tão grande, mas isso era bom para mim. Os jogadores não eram tão evoluídos taticamente. Para mim era bom porque havia mais espaço para decidir. O ambiente no balneário era muito diferente do português? Era. Em Portugal acabamos os treinos e é muito usual os jogadores irem jantar fora, conhecerem as mulheres uns dos outros. O futebol não pára dentro do balneário, depois temos uma vida social. No Azerbaijão, a minha vida era acordar às 10 da manhã, ir para o restaurante, almoçar às 11 e tal com um colega, e ir para o treino, porque treinávamos às duas da tarde. Naquele período em que treinava eu era feliz, esquecia tudo. Mas às quatro da tarde o treino acabava, eu ia para casa e ficava sozinho. Nos primeiros dois meses não levei nada porque ia na expectativa, quando voltei a casa passado dois meses disse logo: tenho de levar um computador porque senão vou-me matar no Azerbaijão. Chaby prepara-se para chutar a bola m jogo da Académica com o Casa Pia AC Gualter Fatia O que mais o chocou culturalmente? Em Portugal estamos habituados a tomar banho nus. No Azerbaijão os chuveiros são individuais, tens de estar sempre tapado. Depois, as horas para rezar. Às vezes os jogos começam atrasados porque os jogadores estão a rezar. De resto, as pessoas são incríveis, acolhedoras, embora no plantel só dois jogadores do Azerbaijão é que falavam inglês. Em novembro comecei a falar com o presidente, porque queria vir embora em janeiro. Ele teve imensas conversas comigo, dizia que eu estava a tornar-me importante no clube, que a equipa ia dar a volta, pedia-me para ficar... Mas eu já estava com a decisão tomada. Em dezembro apanhei o avião e nunca mais voltei. A malta ligava-me a dizer para marcar a viagem, eu dizia que não ia apanhar o avião e acabámos por chegar a acordo. Também não vale a pena teres um jogador que não quer estar no clube. Ficou sem clube durante quanto tempo? Um mês. Só consegui terminar a ligação com o clube em meados de janeiro. Entretanto, apareceu o Belenenses e comecei a integrar o clube no final de janeiro. E o Belenenses apareceu através de quem? Na altura voltei a mudar de empresários. Um dos meus melhores amigos, que conheci no União da Madeira, começou uma empresa de agenciamento, a Health Sports, e ligou-me, perguntou como era a minha vida. Disse-lhe que queria ficar perto de casa, perto de Setúbal, porque a Patrícia continuava a trabalhar e tinha vivido um momento difícil da minha carreira. Aliás, no Belenenses foi muito complicado porque fisicamente estava de rastos e sentia que a minha carreira estava a terminar. Quando vim do Azerbaijão senti-me destruído mentalmente. Tudo mexeu comigo, não sei explicar porquê, mas não estava bem, não estava bem mentalmente, não desfrutava do futebol, não estava a divertir-me e sentia que precisava fazer um reset. Chegámos a acordo, se ele conseguisse arranjar clube perto de casa eu ficava a trabalhar com a empresa dele. Foi assim que surgiu o Belenenses. Não sei como ele conseguiu, mas chegámos a acordo e fui. Belenenses que na altura estava na Liga 3. Sim, mas não me importava. Não sei o que aconteceu na minha cabeça, naquela fase estava-me um bocadinho a marimbar para aquilo que poderia acontecer à minha carreira, só queria estar em casa e poder voltar a desfrutar do futebol, mesmo que fosse a jogar uma Liga 3 ou um Campeonato de Portugal. Infelizmente as coisas não correram bem durante esse ano e meio. Nos primeiros cinco meses foi fantástico porque subimos da Liga 3 para a II Liga, mas individualmente nunca correu bem, tive inúmeros problemas físicos, estava sempre condicionado e não conseguia ajudar da maneira que queria. É uma das mágoas que trago na minha carreira, porque o Belenenses é um clube especial para mim, é o clube do meu avô, o clube com que me estreei na I Liga, um clube histórico. Não consegui ajudar dentro do campo, nunca consegui estar a 100% para jogar, parecia que estava sempre atrás do comboio. Quando saí, estive cinco meses desempregado porque não existia interesse no Chaby. Em 2021/22, Chaby jogou pelo Nacional da Madeira Gualter Fatia Como acabou por surgir a Indonésia? Em outubro o mister Eduardo Almeida, que era treinador do Semen Padang, mandou-me uma mensagem a dizer que gostava que eu fosse para lá. A primeira resposta que lhe dei foi, esqueça, vou ser pai em dezembro e está fora de questão eu ir para o outro lado do mundo. Ele disse: “Não tem problema, mas vou mandar-te uma proposta de contrato, tu pensas e dás-me uma resposta.” A proposta veio e não tinha como dizer que não. Numa altura da vida em que precisávamos de estabilidade, era um balão de oxigénio importante. Foi ganhar quantas vezes mais? Talvez três vezes e meia mais. Tendo em conta que estava desempregado, que ia ser pai, só via dinheiro a sair da conta, para consultas, coisas para o bebé, roupas, produtos farmacêuticos... Na altura só ganhava o subsídio de desemprego, que era uma vergonha. Pensei, a proposta é realmente boa e são seis meses, passa rápido. Disse a minha mulher que sabia que ia ser difícil para ela, mas ia ter o apoio da minha mãe e da mãe dela naquele período. Eram dois meses e meio, depois havia o Ramadão, vinha a casa e voltava para fazer os últimos dois meses. Os seis meses prolongaram-se. O que aconteceu? O objetivo era fazer seis meses e tentar desfrutar do futebol. As coisas correram muito melhor do que esperava. Embora, no primeiro impacto, quis apanhar um avião para voltar para Portugal. Porquê? É uma realidade completamente diferente. Não aterrei em Bali, ou em Jacarta, a Indonésia é incrível, mas há certas ilhas que estão muito mais atrasadas. Não temos noção da sorte que temos de viver em Portugal, apesar de hoje não ser fácil viver em Portugal porque o custo de vida está uma estupidez. Mas temos um país fantástico no que toca a infraestruturas e boas condições de vida. Aterrei em Padang e só via floresta à minha frente. Só via barracas, o comércio no meio das estradas estragadas, não havia apartamentos de luxo, aquilo foi um choque. Mas o pensamento foi: vens para jogar futebol, ponto final. Luís Lopes, do Benfica B, e Filipe Chaby, do Nacional em jogo da II Liga, em 2021 Gualter Fatia Ficou a viver onde e com quem? Na altura o clube dava umas casinhas, mas quando entrei com o Marco Baixinho numa dessas casinhas disse logo: não fico aqui, nem que me paguem. O clube acabou por arranjar-nos outra casa um bocadinho melhor. O que tinha a primeira casa que o fez recusar? Não tinha nada, o problema era esse, não tinha nada. Não existia um sofá, por exemplo. É normal eles comerem no chão em cima de um tapete. Nós estamos habituados a um estilo de vida diferente, a condições diferentes. A casa tinha um monte de bichos, de lagartos, a mesa de jantar era redonda com uma cadeira desconfortável, não tinha nada na cozinha, a cozinha era miserável, nem dava vontade de estar lá dentro, se bem que isso para mim não era preocupação, porque eu ia almoçar e jantar fora todos os dias. Mas sempre fui uma pessoa caseira, adoro estar em casa, e ali só queria estar fora daquela casa. Viveu com o Marco Baixinho? Sim. Foi uma pessoa super importante para mim nessa adaptação, se tivesse o Marco Baixinho no Azerbaijão se calhar as coisas teriam sido completamente diferentes. Houve duas ou três vezes que desabafei com o Marco sobre estar a ser difícil e estar a pensar em vir embora e o Marco sempre me aguentou. Ele já tinha 35 anos, mulher e três filhos, a mulher estava sozinha em Portugal e ele ali a aguentar-se. Foi muito importante nesse sentido. Acabámos por ir para uma casinha que era tipo uma guest house, mais parecida com aquilo a que estamos habituados. Não tinha cozinha, fazíamos as refeições fora, mas tinha sofás que eram confortáveis para podermos ver televisão, os quartos eram bons, com ar condicionados, com uma cama boa. O Bruno Gomes, enquanto não veio a família, também esteve lá connosco. Para mim foi muito bom porque nunca estava sozinho, não tinha tempo para pensar na minha mulher e na minha filha. Mas quando ia para a cama tinha dificuldades em dormir. Filipe Chaby em Setúbal, na semana em que foi entrevistado por Tribuna Matilde Fieschi Chegou a assistir ao parto da sua filha? Sim, a Francisca nasceu a 13 de dezembro e só fui para a Indonésia dia 1 de janeiro. Assisti ao parto e tive tempo para estar com ela nos primeiros dias de vida. Mas não ficou só os seis meses. Porquê? Os primeiros cinco meses excederam as minhas expectativas, fiz os jogos todos, as coisas correram muito bem individualmente e coletivamente. Chegámos num momento terrível, era preciso um milagre para salvar a equipa da despromoção e conseguimos salvar. Fomos talvez a quinta ou sexta melhor equipa em termos de pontuação na segunda volta e por tudo isso quis permanecer na Indonésia e naquele clube. Para esta época já levei a minha mulher e a minha filha. Foi um choque muito grande para a minha mulher, porque nós ainda temos o futebol para nos distrair, ela com uma bebé recém-nascida na Indonésia, não foi fácil. A responsabilidade cai toda sobre ela porque vive 24 horas para mim e para a Francisca, sem apoio. Infelizmente, enquanto na época anterior tive um papel muito preponderante, sentia-me uma das estrelas da equipa, este ano não tive tanto tempo de jogo. Mas o treinador é o mesmo, certo? Era, sim. Mas pronto, se calhar eu não estava a treinar tão bem, não estava com o mesmo rendimento, não sei. Todos os treinadores vão escolher a equipa que lhes dá mais garantias de vencer. E se o treinador sentia que eu não era importante o suficiente para estar no 11, só tinha de respeitar e continuar a trabalhar. Tentei, tentei, tentei que as coisas se alterassem, houve um jogo inclusive em que entrei e acabei por resolver o jogo, faço o golo, estou no segundo golo, acabamos por vencer, e no jogo seguinte voltei para o banco. Entretanto, coletivamente as coisas também não correram bem, o mister Eduardo acabou por ser despedido, e aí foi a gota de água. Pensei logo: se o mister Eduardo vai ser despedido, em janeiro vou seguir o mesmo caminho, porque na Indonésia é assim que funciona. Se a equipa está mal, os cinco que vieram no início da época são os cinco que vão logo embora, porque a responsabilidade é toda dos estrangeiros, nós estamos ali para decidir. Chegou a jogar com o novo treinador? Sim. Faço um jogo com o novo treinador, sou titular, ele tira-me no intervalo, no jogo seguinte não entro porque a equipa ficou reduzida a 10 muito cedo e foi praticamente defender o jogo todo. No jogo seguinte acabei por entrar no intervalo, acho que entrei muito bem, julgo que fui dos melhores jogadores da minha equipa. A seguir voltei para o banco, entrei cerca de 20 minutos, acho que voltei a entrar muito bem, não tive nenhuma ação negativa no jogo, não perdi uma única bola e passado dois dias recebo uma chamada do meu empresário a dizer que o clube queria mandar-me embora. Ou seja, era uma decisão que possivelmente já estava tomada desde que o novo treinador chegou. Quando é assim não vale a pena estar a lutar. O clube sempre me tratou muito bem. Respeitei a decisão e chegámos a um acordo. A minha mulher também não estava feliz lá, eu já não estava lá a fazer nada, mais valia vir embora. O médio regressou ao Belenenses em 2022/23 Gualter Fatia Está em Portugal desde quando? Cheguei no final de novembro. Quais as perspetivas que tem agora para o mercado de janeiro? Não faço ideia. Há um ano eu estava seriamente a ponderar terminar a carreira ou jogar num nível mais amador. Porque o ano no Belenenses foi muito complicado, tive conversas com o presidente, com o Patrick, com o Taira, porque não conseguia perceber o que se passava comigo. Eu fazia tudo bem, descansava, estava muito tempo em casa, não conseguia perceber como não estava bem fisicamente, como estava sempre condicionado. Não apareceu nenhum clube depois e comecei a ponderar. Acabou por aparecer a oportunidade na Indonésia. E se há um ano estava a ponderar terminar a carreira, nesta altura estou com perspetivas completamente diferentes, porque o ano na Indonésia foi muito positivo para mim. Não tive nenhum problema físico, consegui fazer os jogos todos, senti-me bem, sinto que posso voltar a ser importante, fiz jogos muito bons. Gostava bastante de continuar a jogar. Não faço ideia o que poderá acontecer, não sei se a minha carreira irá continuar no estrangeiro ou se em Portugal. Estou à espera que o telefone toque e, consoante aquilo que aparecer, tomarei a melhor decisão acima de tudo para a minha família, porque agora tenho duas pessoas pelas quais sou responsável, a minha mulher e a minha filha. Já pensou no que quer fazer quando pendurar as chuteiras? Infelizmente nunca dei ouvidos ao meu pai, que sempre me aconselhou a inscrever-me na faculdade quando acabasse o 12.º ano, para ter um plano B. Eu, anjinho, miúdo, a treinar na equipa B do Sporting com um contrato profissional, treinava de manhã, tinha a tarde toda livre e à tarde queria era descansar na cama, ver Netflix e não sei o quê. Quando tomei a decisão de me inscrever na faculdade, inscrevi-me em Desporto no IPS e, de repente, vou para a Madeira. Já não tirei o curso. Não sou licenciado, mas tenho duas pernas, tenho dois braços, vou ter que ir trabalhar como é óbvio porque não ganhei dinheiro o suficiente para poder ficar deitado no sofá o dia todo. Mas realmente do que gostava era continuar ligado ao futebol. Já fez alguma coisa para isso? Tirei a parte teórica de nível 1 do curso de treinador na Associação de Setúbal. Não consegui fazer ainda o estágio porque fui para a Indonésia. Tenho também a pós-graduação de diretor desportivo feita na Universidade Europeia. São as duas funções onde me vejo a trabalhar no futebol. Gosto bastante de falar de futebol, do desenvolvimento pessoal e profissional do jogador, de tentar evoluir o jogador, da parte tática, de tentar achar formas de ludibriar o adversário. Só que é um mundo cão. Já é difícil um jovem tornar-se profissional de futebol, ainda é mais difícil ser treinador de futebol. Infelizmente em Portugal hoje é difícil viveres do futebol, a não ser que estejas talvez nas equipas de subida do CP, nas equipas de Liga 3, I e II Ligas. Estar a treinar uma equipa na distrital por €200 ou €300 não te vai pagar contas. Quero muito estar no futebol, mas sei que se as coisas não correrem bem tenho de ir trabalhar. Assusta-o o futuro pós-carreira? Sim, é algo que me assusta, honestamente, estou bastante ansioso naquilo que poderá ser o meu futuro. Por isso é que quis ir para a Indonésia, tentar garantir o máximo de estabilidade financeira para poder, pelo menos nestes primeiros anos pós-carreira, dedicar-me à faculdade e tirar um curso que goste. Flipe Chaby (2º em baixo à direita) com a sua equipa do Belenenses, em 2023 Gualter Fatia Onde ganhou mais dinheiro até hoje? Na Indonésia. Deu para investir em alguma coisa? Por acaso inscrevi-me agora no curso do MoneyLab da Bárbara Barroso. Enquanto estudantes devia haver pelo menos uma disciplina de literacia financeira, porque andei a estudar coisas que não uso na minha vida e aquilo que realmente importa não existe na escola. Hoje tenho 31 anos e não sei fazer o meu IRS, tenho de pagar uma pessoa para fazer o meu IRS, é uma estupidez. Portanto, tenho muito receio naquilo que são investimentos. Investi no meu apartamento e numa empresa de Taxi-Boats, em Setúbal, com um dos meus melhores amigos, mas infelizmente não nos tem dado o que queríamos e não é o suficiente para poder viver daquilo. De resto, o meu dinheiro está todo em Certificados de Aforro, porque é a única coisa que conheço e sei que está seguro. Mas quero aprender para poder investir. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Terá que ser os carros. Quando comprei o meu primeiro carro devia ter comprado um carrinho mais pequenino. Comprei um carro, passado um ano renovo contrato com o Sporting, tenho um aumento salarial, o que faço? “Pai, estás com o carro estragado? Então fazemos assim, eu vendo o teu carro, dou-te o meu e vou buscar um novo.” E fui buscar o novo modelo do BMW Série 1. Hoje quando olho para trás penso, quem era o Chaby? Tem algum hobby? Sempre gostei muito da comunicação e sempre gostei muito de videojogos. Cheguei a ter um canal na Twitch, na altura do Covid-19, onde falava sobre futebol, onde jogava Football Manager. Sempre fui uma pessoa muito caseira, então sempre dediquei grande parte da minha vida a treinar, descansar e jogar videojogos com os meus amigos. D.R. É um homem de fé, acredita em Deus? Não sou católico praticante. Acredito que existe um ser superior lá em cima e quero acreditar em Deus, tanto que quando me deito acabo por rezar ao anjinho da guarda, que a minha mãe me ensinou. Acredito que existe qualquer coisa, mas nunca tive nada na vida, nenhuma experiência que me fizesse acreditar nisso. Superstições? Já tive. Por exemplo, ir com um boxers para o jogo, as coisas correrem bem e eu pedia à minha mãe para me guardar aqueles boxers para o jogo seguinte. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? A primeira foi aos 18 anos e fiquei de castigo uma semana [risos]. Foi o nome dos meus pais num pulso e o nome da minha irmã no outro. De lá para cá tatuei a frase que o meu pai usa sempre na vida: “O sonho comanda a vida”. Tenho a pata do meu cão de família que já faleceu, no tornozelo esquerdo. Tenho uma cruz no tornozelo esquerdo, que supostamente quer dizer proteção. Pus no esquerdo porque estava tão farto de ter entorses, e a verdade é que nunca mais tive uma. Tenho o nome da minha filha tatuado com a data de nascimento e tenho o retrato do meu cão atual, um beagle chamado Bart, no braço. Acompanha ou pratica outra modalidade? Acompanho sempre os últimos jogos do futsal, aquelas cinco finais. Qual a maior frustração que tem na carreira? Acho que poderia ter tido condições para fazer uma carreira muito melhor do que fiz. Se calhar por falta de algumas oportunidades, por algum azar no que toca a lesões, mas acima de tudo por algum deslumbre e muitas das vezes facilitismo da minha parte, porque sei que em muitos momentos podia ter sido mais profissional, podia ter treinado muito melhor, nunca treinei se calhar a 100%, às vezes treinava o q.b. Mas se calhar a maior frustração é nunca ter conseguido estrear-me no Sporting. Senti que poderia ter acontecido e poderia ter mudado o rumo da minha vida. D.R. O maior arrependimento? Não considero arrependimento ter ido para o Azerbaijão porque sentia que era o momento ideal, mas não foi o timing ideal. Não estava com as condições psicológicas ideais para o ter feito, mas não me arrependo da decisão. Talvez o maior arrependimento foi ter voltado para o União da Madeira. O momento mais feliz na carreira? A assinatura do primeiro contrato profissional com o Sporting porque é o culminar do teu trabalho na formação. É quando mudas o chip e pensas, se calhar vou conseguir viver disto e viver o meu sonho. E a subida da divisão com o União da Madeira. Foi um marco importante na minha carreira, foi uma conquista e não é fácil subir de divisão. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Adoro o Vitória Futebol Clube, é o meu clube de criança, sempre tive e ainda tenho o sonho de poder jogar no Vitória, mesmo que seja nesta situação que eles se encontram. Mas toda a minha vida fui sportinguista, a minha família é toda sportinguista, o João Vieira Pinto e o Ricardo Sá Pinto eram as minhas referências. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Não gosto muito de dar nomes porque tive alguns amigos e colegas que levo para a vida, e infelizmente tive outros que acabei por perder o contacto pelo caminho, porque sempre fui uma pessoa que se desliga um bocadinho. Teria de escolher de entre aqueles amigos com quem hoje ainda falo regularmente, por exemplo, o Diogo Coelho, que é uma das pessoas que trata da minha carreira, o Tiago Queiroz, do Belenenses, o Hugo Marques, da Covilhã, o Nuno Tomás, do Belenenses, o próprio Silvério Júnior e o João Traquina da Académica. Teria muitos outros nomes, mas estas são as relações mais especiais. Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania? A única que talvez neste momento alterava é a regra das substituições. Por exemplo, quando já se fez as cinco substituições, se existir o infortúnio de um jogador partir uma perna ou rasgar um cruzado anterior, um problema físico grave, a equipa devia poder alterar o jogador e não ficar a jogar com menos um. Tem algum talento escondido? Não. Se não fosse jogador, o que teria sido? Teria seguido fisioterapia, era o meu plano B quando estava na escola. D.R. Tem ou teve alguma alcunha? Em pequenino chamavam-me Pinóquio por ter o nariz grande. Houve alturas em que me chamavam Mesut por causa do Ozil. Qual o jogador com o qual gostava de ter jogado na mesma equipa? Vou sair um bocadinho fora da caixa para não estar a dizer o Ronaldo e o Messi, porque são os dois extraterrestres. Tendo em conta a minha posição, gostava de ter jogado com o Xavi ou com o Iniesta. E o jogador contra o qual gostava de ter jogado? Contra o Messi ou contra o Ronaldo. Nem que fosse para ter a camisola deles. Quem foi o melhor jogador com quem jogou? O Iuri Medeiros. Já joguei com muito bons jogadores, mas o Iuri foi aquele que me marcou mais. Porquê? Gosto muito de canhotos, porque sou canhoto. Joguei com o Bernardo Silva, com o João Cancelo, o William Carvalho, o João Mário, mas o Iuri tirava-me do sério, ele fazia coisas que só me lembrava do Messi na altura. Acho honestamente que o Iuri podia ter tido uma carreira muito melhor do que a que teve porque era sem dúvida um jogador fora do normal. Era um jogador que às vezes dava-me misto de emoções, irritava-me profundamente porque havia jogos que parecia que não queria nada que aquilo, estava ali a pastar, só fazia porcaria e, de repente, passavas-lhe a bola e ele tirava um coelho da cartola e decidia o jogo. O Iuri era talvez um dos poucos jogadores que tinha a capacidade de, sozinho, resolver o jogo, era fenomenal. A primeira passagem pelo Belenenses já tinha sido marcada por algumas lesões, mas a segunda foi desesperante. Acho que se lhe pedissem para subir as escadas do estádio, ele não estava em condições. Compartilhar este post Link para o post
saidex Publicado 22 Dezembro 2025 Citação de Lebohang, há 18 horas: Filipe Chaby Mostrar conteúdo oculto “O Vítor Oliveira fez uma tripla substituição, saí louco e atirei umas bocas. Os três que entraram decidem o jogo. Enfiei a viola no saco” Filipe Chaby, de 31 anos, está à espera que o telefone toque após ter regressado recentemente da Indonésia, onde jogava no Semen Padang. O médio formado no Sporting desfia nesta parte I do Casa às Costas como foram os primeiros anos de um percurso que nunca chegou a atingir a glória esperada. Fala do deslumbramento, das lesões, dos treinadores que mais o marcaram e conta pormenores da sua história que há um ano ficou mais rica com o nascimento da filha Francisca Nasceu em Setúbal. É filho de quem? Sou filho do Carlos Chaby, que além de professor de educação física, sempre esteve ligado ao futebol, maioritariamente no Vitória Futebol Clube. Começou como treinador das camadas jovens, passou por vários escalões e acabou como coordenador técnico da formação. Agora já não desempenha essas funções. E sou filho da Alexandra Chaby, que começou por trabalhar no secretariado das piscinas do IPS de Setúbal, mas acabou por se desempregar para cuidar de mim e da minha irmã, seis anos mais nova. Deu muitas dores de cabeça aos seus pais? Dei. Os meus pais dizem que hoje sou uma sombra daquilo que fui em criança, sou uma pessoa completamente diferente. Agora sou muito relaxado, muito calmo, mas quando era miúdo era o terror autêntico. Tiveram bastantes problemas comigo no 1º ciclo, levava bolas vermelhas todos os dias para casa [risos]. Porquê? O que fazia? Saltava janelas, por exemplo, porque queria sair para ir jogar à bola. A minha mãe conta que uma vez fui passear com a minha avó junto ao nosso bairro e, ao atravessar uma ponte por cima de uma estrada, vi um pacote de leite grande no chão e a primeira reação foi dar um grande chuto no pacote, que rebentou, era leite por tudo o que é sítio e afinal o pacote era de um senhor que estava a voltar a subir as escadas porque o deixou cair [risos]. Foi ali uma confusão com a minha avó... Mas há muitas histórias, quando tocava para o recreio em vez de sair pela porta da sala, saltava a janela. Era um miúdo muito irrequieto, mas fui acalmando ao longo dos anos. Filipe Chaby com os pais D.R. O que dizia querer ser quando fosse grande? Não faço ideia. Sei que comecei a jogar futebol muito cedo. Se me perguntassem se queria ser jogador, obviamente diria que sim, mas não sei se realmente tinha isso em mente. Os meus pais sempre me incutiram que tinha de estudar. E gostava da escola? Gostava porque adorava brincar com os meus amigos, mas não gostava de estar fechado numa sala de aula. Se me dissessem que não era obrigatório estudar e podíamos arranjar um trabalho ou ser jogador de futebol, não teria ido à escola [risos]. Mas sabia que era importante para o nosso conhecimento, para o nosso futuro, e adorava o ambiente da escola. Começou a jogar futebol onde e quando? Comecei no Vitória Futebol Clube, não me recordo a idade. Sei que comecei um bocadinho mais cedo, porque o meu pai era treinador das camadas jovens do Vitória. Ele colocou-me num torneio, sem ninguém saber, porque estava a jogar com miúdos três ou quatro anos mais velhos. Depois passei por aquilo que todos os miúdos passavam, que foi um período de captações, em que o Vitória escolhia aqueles que tinham mais capacidades para fazer parte dos escalões jovens. Acredito que comecei com 6, 7 anos. Aos 12 anos acabou por ir para o Sporting. Como? O Vitória Futebol Clube sempre foi conhecido por ter uma boa escola de formação, por isso éramos convidados para “n” torneios de futebol e em muitos deles jogávamos contra o Sporting, o Benfica, o FC Porto. Lembro-me de irmos ao Torneio da Pontinha, por exemplo, e acredito que comecei a entrar no radar dos grandes clubes por essa altura. Entretanto, houve quem desse por certo a minha ida para o Benfica, sem falar com o meu pai. O meu pai não gostou e disse que eu não ia. Depois apareceu o Sporting. Falaram com os meus pais e como a minha família é toda sportinguista, e eu tenho uma costela do Sporting e outra do Vitória, sempre tive o sonho de jogar no Sporting. Via o Sá Pinto, o Jardel, o João Vieira Pinto e sonhava um dia ser como eles. A nega do seu pai ao Benfica foi pelo facto de ser sportinguista? Não. Essa não foi a questão, até porque os responsáveis do Benfica eram aqui de Setúbal, era o Bruno Lage. Acho que foi devido ao processo, porque o meu pai não estava muito envolvido, aquilo foi num negócio do Moreto, um guarda-redes, em que o Benfica dava mais um X ou dava mais material para as camadas jovens e o Vitória meteu-me nesse pacote. O meu pai cancelou tudo, disse que não fazia sentido que eu e ele não soubéssemos e que não era assim que as coisas se faziam. Acabei mais tarde por ir para o Sporting. Filipe com um dos primeiros troféus que ganhou no Sporting ainda em criança D.R. No segundo ano de Sporting, acabou por ter um problema sério em casa e o Sporting deu uma boa ajuda. Pode contar o que aconteceu? Houve uma explosão de gás no 11º andar, o andar por cima do nosso. O quarto dos meus pais foi completamente destruído. O meu pai ficou ferido nas costas, na cervical, mas podia ter sido bem pior. Ele estava no quarto e recebeu um telefonema da mãe de um jogador, que queria explicações do meu pai sobre porque o filho não jogava. O meu pai saiu do quarto para atender o telefone e quando atende é quando acontece a explosão. A parede que separa a sala do meu quarto caiu-lhe em cima das costas e do pescoço. O que aconteceu depois? Tivemos de sair de casa durante um ano. Ainda houve a hipótese dos últimos três andares do prédio, incluindo o nosso, serem derrubados. Passámos os primeiros dias na casa da minha avó, no Estoril, a seguir fomos para um hotel em Setúbal, um, dois dias, porque eu e a minha irmã tínhamos escola; depois uma amiga de família, que tinha um apartamento vago em Setúbal, emprestou-nos sem custos e, por fim, acabámos por ir para a casa da minha tia, que estava a viver em Moçambique. A casa dela era muito perto do nosso apartamento, assim possibilitou aos meus pais irem acompanhando as obras. Até nos mudarmos de novo para a nossa casa, demorou mais de um ano. Conseguiram recuperar as vossas coisas? Inicialmente ficámos sem nada, ninguém podia entrar no apartamento, porque estava em risco de ser derrubado. Foi o Sporting que me ajudou. Nos primeiros dias de treino, logo a seguir ao acidente, o Paulinho apareceu no balneário com uma mala do Sporting cheia de material para mim, inclusive com uma bola assinada por todo o plantel principal. A malta do Sporting mostrou logo disponibilidade para ajudar no que fosse preciso. Na escola, a minha turma também se juntou e ofereceu-me uns ténis e roupa. Depois, aos poucos, fomos recuperando as coisas do apartamento através dos bombeiros. No quarto dos meus pais é que não se conseguiu salvar nada, perdemos cassetes, por exemplo, da minha infância e da minha irmã, coisas que têm muito valor sentimental. O médio fez toda a formação no Sporting D.R. Quais foram os momentos e as pessoas mais marcantes até chegar a júnior? Acredito que todas as pessoas foram marcantes, cresci com todas elas. Mas há pessoas pelas quais guardamos um carinho especial, como o mister Aurélio Pereira, pela relação que sempre tive com ele e que ele tinha com o meu pai, por tudo o que fez por mim, por tudo o que ajudou; o mister Tiago Capaz, um treinador que me marcou bastante acima de tudo pelo lado pessoal. Foi o meu treinador nos iniciados de 1º ano. Parecia um treinador muito rezingão, muito duro e foi alguém muito importante na minha formação. O mister Ricardo Sá Pinto e o mister Tiago Moutinho, que faziam parte da equipa técnica dos juniores do Sporting em que tivemos um ano de ouro, ganhámos praticamente tudo e acabei por assinar o primeiro contrato profissional, na transição de 17 para 18 anos. Foi aí que senti ser possível realmente fazer vida disto, ser profissional de futebol. Quando começaram os namoros mais sérios e as primeiras saídas à noite? As primeiras saídas à noite começaram cedo, com 15, 16 anos, mas sempre de uma forma responsável, depois dos jogos, até à meia-noite, uma da manhã, porque os meus pais eram super exigentes e protetores. Comecei a namorar aos 15 anos com a Patrícia, com quem ainda estou. Casámos e tivemos uma bebé que fez agora um ano. Como se conheceram? Conhecemo-nos num parque de campismo em Fernão Ferro, onde tenho uma casinha e ainda hoje vou passar lá as férias. Foi lá que conheci o meu grupo de melhores amigos, onde conheci os meus padrinhos de casamento, a minha mulher. Ainda demorou a conquistá-la, não foi fácil. O que ela faz profissionalmente? Ela teve azar porque casou com um jogador de futebol [risos]. Tenho tido uma carreira em que estou sempre de um lado para o outro e a minha mulher, graças a Deus, sempre quis e acompanhou-me. Quando estivemos na Covilhã ela começou a trabalhar numa loja para não ficar o dia todo em casa e ganhar algum dinheiro para ela. No ano seguinte, quando viemos para o Belenenses, ela acabou por conseguir um trabalho numa academia de estudos, onde fazia tudo, recursos humanos, tratava dos miúdos, etc. Quando fui para o Azerbaijão, foi a única vez que não me acompanhou, porque arranjou um trabalho na área onde se sente realizada. Começou a trabalhar na Cáritas de Setúbal como assistente social. Entretanto, acabou por ir para a Indonésia comigo, mas infelizmente viemos mais cedo do que o esperado, e agora está em casa, com a Francisca, a nossa bebé. Mas tem a ambição de continuar a trabalhar, mais dia menos dia irá tentar arranjar um trabalho na área dela. Matilde Fieschi Voltando ao Sporting. Assinou o primeiro contrato profissional com 18 anos, ainda estava nos juniores, certo? Sim, nesse primeiro ano de juniores comecei a ser chamado muitas vezes à equipa A, na altura em que o Domingos Paciência era treinador. O Domingos acabou por sair e assumiu o mister Ricardo Sá Pinto, que estava a treinar os juniores e continuei a ir muitas vezes à equipa A, mas sem nunca me estrear oficialmente. Domingos Paciência e Sá Pinto muito diferentes um do outro? Cada treinador tem os seus ideais, a sua filosofia, a sua maneira de ver o futebol. Na altura não tive tanto relacionamento com o Domingos, porque era treinador da equipa principal e não me aproximava muito, tinha algum respeito e medo [risos]. Mas foi um treinador que me deu a oportunidade de poder estar nesse patamar, de poder experimentar o que era estar na equipa principal. Foi bem recebido pelo balneário sénior? Fui sempre bem recebido. O Sporting sempre teve muitos jogadores vindos da formação, eles sabiam o que era estar do nosso lado e acabavam por tentar fazer com que nos sentíssemos bem. O Adrien e o Cédric eram fantásticos, o Ricky van Wolfswinkel e o [Diego] Capel parecia que tinham sido jogadores da formação do Sporting, também eram fantásticos, o [André] Carrillo, o Jefferson, defesa esquerdo, eram também incríveis. Simpatias à parte, houve algum jogador que o tivesse impressionado mais nos treinos? Sim, o Matías Fernández era absurdo. E o Rui Patrício também, na baliza, era surreal. Eram foras de série. O Rui, era difícil marcar-lhe golo quando saía no um para um, ele fechava a baliza completamente e o Matías era extraordinário, acho que só treinava de vez em quando, não sei se tinha problemas físicos, mas quando treinava era absurdo. Qual o valor do seu primeiro ordenado e o que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Penso que estava entre os €1100 e €1200. O meu pai sempre tentou incutir-me valores e que fosse responsável com o dinheiro, só que somos miúdos. Acho também que me fez bem passar por toda essa fase porque me fez a pessoa que sou hoje e dar valor ao dinheiro. Mas, na altura, como ainda recebi um prémio de assinatura, quis comprar logo um BMW Série 1, em segunda mão. Uma pessoa é jogador, vê os colegas com BMW's, qual comprar Citroëns, qual quê [risos]. Acho importante haver mais acompanhamento, principalmente nas academias do Benfica, do FC Porto, do Sporting e do SC Braga, porque hoje vejo miúdos a assinar contratos profissionais com 15 anos e é complicado quando és miúdo e vês-te com bom dinheiro. Começas a gastar em roupa, em relógios, em carros, em porcarias e depois chegas aos 25, 26 anos, a tua carreira toma outro rumo, olhas para a tua conta bancária, para o teu património e não tens nada. Não sei se as academias já têm esse acompanhamento, mas era importante. Se soubesse o que sei hoje, estava muito melhor do que estou. Em treino nos juniores do Sporting D.R. Chegou a estrear pelo Sporting? Oficialmente, não. Só fiz jogos amigáveis. Quando o Ricardo Sá Pinto foi treinar a equipa principal, foi Abel Ferreira quem ficou no comando dos juniores? Sim, o Abel finalizou a nossa temporada, porque estava a recuperar de uma lesão no joelho, mas já estava a tirar os cursos de treinador e acabou por entrar na equipa técnica do Sá Pinto para estagiar. Por isso, quando o Sá Pinto deu o salto era óbvio que tinha de ser o Abel a assumir, já estava dentro da dinâmica da equipa. Na altura já se vislumbrava que pudesse tornar-se o treinador de sucesso em que se tornou? Foi o primeiro impacto do Abel como líder de um grupo de trabalho. Apanhei-o depois na equipa B e ao fim de duas épocas já era muito melhor treinador do que no primeiro ano. Em que aspetos? Na maneira de estar com os jogadores, na liderança, no discurso, os treinos eram também mais fluídos. Por isso é que existem cursos de treinador. Ser jogador de futebol não quer dizer que vá ser bom treinador. É para isso que existem os cursos. Acho que o Abel aproveitou a oportunidade e foi melhorando dia após dia, ano após ano e hoje é o treinador que é. Se já via potencial e capacidade no Abel na equipa B? Já via e acabou por se tornar realidade. Mas o Sá Pinto também era um treinador que sempre pensei que fosse ter uma carreira muito melhor do que tem tido. Não é que tenha uma má carreira, mas pensei que poderia ser melhor tendo em conta os treinos dele, a maneira como lidava com os jogadores, o seu conhecimento, a sua liderança. Já vi muita competência e capacidade noutros treinadores que acabaram não fazer a carreira que queriam, às vezes é uma questão de oportunidade. O médio nunca chegou a estrear pela equipa principal do Sporting D.R. Em 2012/13 subiu à equipa B? Em 2012/13 era júnior do último ano, comecei a época a treinar nos juniores, entretanto dou o salto para a equipa B, comecei o campeonato a titular da equipa B com o Dominguez e o Oceano. Depois, numa ida à seleção nacional a um torneio em Itália, por volta do 6º, 7º jogo do campeonato português, acabei por fazer uma rutura do cruzado anterior e fiquei de fora praticamente o resto da época. Como fez essa rutura? Foi um lance um bocadinho esquisito. Há uma bola que vai para a linha lateral, fui à bola, entretanto vieram dois jogadores da Itália em sentidos opostos, fui ensanduichado e ao tentar fazer a rotação para sair da pressão eles impactaram comigo e o meu joelho ficou preso. Passou-lhe pela cabeça que a carreira pudesse estar em risco? Não me passou pela cabeça porque não existia a informação que existe hoje. Tinha 18 anos e não sabia que havia lesões. Não sabia que era possível um jogador lesionar-se porque nunca tinha tido uma lesão e os meus colegas também não. Uma das primeiras pessoas que me mandou mensagem a dizer que se precisasse de ajuda, ele estaria disponível, foi o Gonçalo Paciência, que era meu colega na seleção nacional e também estava a recuperar do cruzado anterior, e eu não fazia ideia. Quando o médico da seleção veio com o exame e diz: "Tens uma rutura do cruzado anterior." Respondi: “OK, quando é que posso jogar? Daqui a dois, três dias?” Depois é que ele me diz que era uma paragem de seis meses. Não fazia a mínima ideia. Foi-se muito abaixo psicologicamente? Acho que não, porque sempre tive uma estrutura familiar que me apoiou, amigos que me apoiaram, o Sporting também foi impecável. O chato foi estar fora do futebol, não poder treinar, não poder jogar, não poder estar com os meus colegas e perder oportunidades; ver jogadores a aparecer na equipa, coincidiu com um ano em que o Sporting fez a pior época de sempre e houve uma data de jogadores que se estrearam, o Fabrice, o Zezinho, o Bruma, o João Mário, e naquela altura eu sentia que estava muito bem, era júnior do último ano, já era titular na equipa B, se calhar poderia ter dado para mim. Filipe fotografado junto ao rio Sado, na semana em que foi entrevistado para a Tribuna Matilde Fieschi Entretanto, na época seguinte regressou para a equipa B, também com o Abel, certo? Sim, aí já era sénior, a única hipótese era pertencer à equipa B ou ser emprestado. As coisas começaram muito bem, sou chamado à pré-época com o Leonardo Jardim, provavelmente porque os jogadores de 1993, o João Mário e o Esgaio tinham ido para a seleção e foram buscar outros jogadores à equipa B e fui um dos chamados. A pré-época correu muito, muito bem, o Leonardo gostou bastante de mim e integrei a equipa principal. Comecei a treinar com a equipa principal e só ao fim de semana é que descia para jogar pela equipa B. Aí acreditava que iria estrear-se na equipa principal? Exatamente. E quase tive essa oportunidade. Nos primeiros dois jogos fui convocado, fui para o banco contra o Arouca, fiquei de fora contra a Académica. Entretanto, deixei de ser convocado porque foi contratado o Vítor Silva e perdi espaço. Depois, se calhar por ser jovem, em vez de pensar, "vou continuar a trabalhar para poder jogar na equipa A", não. Comecei com o pensamento, "já não estou aqui a fazer nada, mais vale ir para a equipa B treinar e jogar, porque nem jogo na equipa B, nem jogo na equipa A". Isto porque estava numa fase em que já não fazia o treino todo com a equipa A; como éramos muitos jogadores, ficava várias vezes de fora, tinha de esperar que algum jogador saísse para poder entrar. Pediu para voltar à equipa B? Não, o clube é que decidiu que eu devia ir para baixo, se calhar porque me viu deslumbrado e já não tinha o rendimento que estava a ter no início da época. Baixei, comecei a treinar e a jogar regularmente outra vez na equipa B. Entretanto, o Francisco Barão assumiu a equipa porque o Abel saiu do Sporting e depois veio o João de Deus e com ele quase não joguei. A seguir sou emprestado ao União da Madeira. Chegou a treinar na equipa principal com o Marco Silva? Isso foi a seguir ao Leonardo Jardim. Acabei a época na equipa B e sou chamado outra vez à pré-época com o Marco Silva. Muito diferente do Leonardo Jardim? Não tive muita oportunidade de perceber porque foi só uma semana de estágio e nas primeiras semanas há muito pouco trabalho tático, a prioridade é o trabalho físico. Eu, o Iuri [Medeiros] e o Wallysson, que fomos chamados da equipa B, quase não jogámos os jogos amigáveis do estágio. Fizemos 10, 15 minutos no primeiro jogo e os outros dois ficámos na bancada. Acho que foi mais para dar um prémio individual aos jogadores do que propriamente dizer: precisamos de vocês. Retornei à equipa B e fiquei lá. Isto para dizer que não tive oportunidade de trabalhar com o Marco, então não faço ideia. Na época 2017/18, Chaby assinou pelo Belenenses MB Media Pediu para ser emprestado ao União da Madeira? Não. Na altura o Bruno Carvalho tem uma conversa comigo e com o meu empresário, a GestiFute, em que diz que achava ser importante eu sair da zona de conforto, que estava um bocadinho estagnado na equipa B, que não estava a jogar e achavam que seria importante para mim ir para a União da Madeira. Como reagiu? Reagi um bocadinho mal porque ia sair da equipa B do Sporting para continuar a jogar na II Liga. Pensava, eu tenho é de estar na I Liga. Lembro-me que a GestiFute ainda falou do Penafiel, que era o último classificado da I Liga, mas acabou por não se concretizar. E fui para o União da Madeira porque sabia que era importante para o meu crescimento sair da equipa B. Ficar na equipa B não era uma hipótese, porque eu não era opção. Agora, na minha cabeça, achava que a minha qualidade e capacidades eram de I Liga. Pensava que era muito fácil por ser jogador do Sporting ir para uma I Liga. Foi sozinho para a Madeira? Inicialmente fui sozinho, mas depois a Patrícia foi ter comigo. Que tal era o clube? Nunca fui uma pessoa muito esquisita. Desde que os clubes tenham bons relvados, está top. Se tiverem relvados todos esburacados, para mim é que complica um bocadinho, porque sou um jogador que gosta de ter bola, de fugir ao impacto. Por isso, foi bastante positivo, encontrei um clube com dois bons relvados de treino, tinha uma academia, não fazia ideia, os balneários eram muito porreiros, tinham uma zona de massagens, de banho quente, de banho de gelo, um ginásio que como é óbvio não era como o do Sporting, mas dava para fazer um trabalhinho. Como foi lidar com o mítico Vítor Oliveira? Não fazia ideia quem era o Vítor Oliveira, o estatuto que tinha, as subidas que tinha. Foi um choque em termos de balneário porque passei de um contexto formativo em que o importante não são os resultados, mas sim formar e jogar bem, para um contexto em que o importante é o resultado. Eles não querem saber se tu tens 18 ou 19 anos, se és bonito, ou se és feio. Querem é que chegues ao campo e rendas. Não existe período de adaptação, não existe nada. Tens de chegar, ver e vencer. Significa que a adaptação à forma de jogar e ao balneário foi difícil? Não, até foi bastante tranquila. Não vou dizer que foi tudo muito fácil e que me dei às mil maravilhas com o Vítor Oliveira. Houve períodos em que joguei muito, houve períodos em que deixei de jogar, houve períodos em que fui muito importante. Levou muitas duras dele? Levei. Eu era muito jovem, achava que ia para ali e era eu e mais 10. Apesar de nunca ter sido dos melhores jogadores da minha equipa na formação, sempre fui um jogador importante, com muita regularidade e quando cheguei à União da Madeira não fui titular. Tive ali um período em que o mister Vítor foi-me colocando a jogar aos poucos, aos poucos, até eu realmente merecer a titularidade. E isso ao início para mim foi impactante. Então eu não estava a jogar na equipa B, vou para a União da Madeira e ando a jogar, desculpe a expressão, às mijadinhas? Às vezes ainda levava duras e como é óbvio mostrava uma carinha feia. Quando somos miúdos achamos que por não rirmos para o treinador que vamos jogar no jogo seguinte. São tudo dores de crescimento. Mas tive sorte por ter tido o treinador que tive. O médio durante um jogo pelo Belenenses D.R. O ambiente no balneário também era muito diferente daquilo a que estava habituado, com homens mais velhos, casados, com filhos. Era fantástico. O mister Vítor Oliveira não dava muita prioridade ao trabalho tático, mas dava muito valor ao lado humano, ao grupo de trabalho, àqueles jogadores que trabalhavam bem e que faziam um bom ambiente no balneário. Tendo isso e a qualidade individual dos jogadores, aquilo acabava por resultar. E foi o melhor treinador que apanhei a ler o jogo. Ele fazia substituições certeiras mesmo. Tenho até uma história sobre isso. Conte. Há um jogo com o Leixões em que eu achava que estava a ser dos melhores jogadores em campo e de repente ele faz uma tripla substituição. Do nada. A placa é levantada e está lá o meu número. Saio doido, louco, atirei umas boquinhas do banco para o mister ouvir e, de repente, é a tripla substituição que acaba por decidir o jogo. Aí, meti a viola no saco. Ele tinha muitas coisas dessas, substituições que olhavas e dizias, mas isto não faz sentido, o que isto vem trazer ao jogo? E, de repente, mudava o jogo todo. E depois era a crença, o discurso dele era fantástico. Tem mais histórias que se recorde dessa época 2014/15? Era um grupo muito engraçado, havia três jogadores que era a risada completa com eles, o Élio Martins, que depois foi treinador do Machico; o Miguel Fidalgo e o Ricardo Campos. Os três faziam o balneário. Estavam sempre a meter-se uns com os outros, depois havia aquela brincadeira típica do futebol da pomada Finalgon nas cuecas; o cortar as meias, em que vais vestir a meia e o teu dedo sai de fora, essas coisas normais. Por isso, a adaptação foi fantástica, não posso queixar-me de nada, fui muito bem recebido e não foi por acaso que acabámos por subir de divisão, além de bons jogadores tínhamos um ambiente incrível. Foi uma festa essa subida? Foi pena o União não ter muitos adeptos, não era um Nacional, não era um Marítimo, era uma equipa um bocadinho mais pequenina, houve aquela festa no autocarro em que vamos lá em cima, mas na maior parte do caminho não estava ninguém na rua [risos]. Mas foi a minha primeira conquista a nível profissional e foi espetacular. Acabou por não estrear na I Liga com o União da Madeira. Antes de acabar a época, o Edgar Rodrigues, que era o diretor-desportivo do União, já me tinha informado que independentemente de ficarmos na II ou na I Liga, queria muito contar comigo. Como a experiência foi tão boa e adorei viver na Madeira, foi também a minha primeira experiência a viver longe dos meus pais, eu queria muito continuar no clube, ainda para mais na I Liga. Se as coisas corressem bem podia dar o salto para outra equipa da I Liga. Podendo ter a primeira experiência da I Liga num grupo que já conheço e que me conhece, sabe aquilo que posso oferecer à equipa, era o contexto ideal. Tiago Morgado do Real SC atrás de Filipe Chaby do Belenenses, em 2017 Gualter Fatia Continuou no União da Madeira, mas ficou pouco tempo, porquê? A história é longa. Acabou a época, o Edgar disse, vens para a equipa na próxima temporada. Entretanto, o tempo foi passando, as férias foram passando, eu ligava ao Edgar, falava com os meus empresários, e a conversa era sempre a mesma: "Chaby, estamos só a tentar resolver uma coisa, tu vens, não te preocupes". O meu pai achou logo estranhíssimo e disse-me: "Eles não contam contigo, é melhor esqueceres, não vale a pena." Só que, eu tinha aquela esperança, e queria ir para lá. Tinha propostas de outros clubes? Não fazia ideia. Dois anos mais tarde vim a saber pela boca de um treinador, cujo nome não vou dizer, que o Vitória Futebol Clube teve uma reunião com o Sporting por causa de mim quando vou para a I Liga no União da Madeira; no ano seguinte, quando fui para o SC Covilhã, o clube foi novamente ter uma reunião porque me queria e quando fui para o Belenenses também me quiseram. Mas assinei com o Belenenses muito prematuramente, logo em janeiro. Entretanto, no final dessa época, esse treinador veio ter comigo e disse: "Chaby, estás sempre a dar-me negas, o Vitória já te quer faz um tempo e estás sempre a dizer que não, o que se passa?" E eu sem saber de nada. Se há clube onde um dia gostava de jogar era no Vitória. Se soubesse mais cedo eu já tinha ido, até porque fui para a II Liga, para o SC Covilhã, quando já podia estar na I Liga. Entretanto, acabou mesmo por ir para o União da Madeira, na I Liga. Sim, acabei por ir para o União da Madeira. Mas comecei a época na equipa B do Sporting, era João de Deus o treinador. Ele adiou, adiou, adiou, não faço os primeiros dois jogos, não estava inscrito para poder ser emprestado. E um dia o João Deus fecha-me num gabinete e diz: "Já chega, estás aqui a treinar, estás incluído no plantel, daquilo que estou a ver não vais sair, eu vou inscrever-te e vou colocar-te a jogar, depois se tiveres de sair, sais, paciência." Se eu jogasse no Sporting B e fosse para o União da Madeira, caso alguma coisa corresse mal, só podia voltar para o Sporting B, não podia ir para outro clube. Ele acabou por inscrever-me, faço um jogo e no final desse jogo o Edgar Rodrigues liga-me a dizer que já tinha falado com o Sporting e que eu ia para o União da Madeira, que já estava tudo acordado. Fui um bocado inocente e se calhar devia ter tentado perceber um bocadinho as coisas. Porque diz isso? Porque, na altura, o treinador do União da Madeira não me queria. Era o Norton Matos. Exatamente. Ele queria o Rafael Guzzo, acabei por saber depois, e o Edgar Rodrigues queria o Filipe Chaby. Como o União da Madeira não começou muito bem à época, o Edgar tinha algum peso e foi buscar-me. Como percebeu que o treinador não o queria? Desde cedo senti que alguma coisa não estava bem. Quando cheguei ao União não fui convocado no primeiro jogo. Eu estava com ritmo de jogo do Sporting B, não existia essa desculpa. A desculpa foi, acabaste de chegar, era injusto para os outros jogadores seres convocado. Fiquei logo de pé atrás. É por isso que existem reforços, vêm para jogar, para ajudar, se eu estou bem, tenho de ser convocado. Achei um bocadinho estranho, mas era miúdo. Depois tive uma oportunidade que achei um pouco um presente envenenado. Porquê? Foi num jogo da Taça de Portugal ou da Taça da Liga, contra o Paços de Ferreira, em que sou colocado a titular. Senti que foi um bocadinho um presente envenenado porque fomos jogar com o Paços, que na altura era incrível, tinha o Diogo Jota, o André Leal, estava muito bem. Eles vieram com a melhor equipa e nós fomos com a segunda equipa, com os jogadores que não jogavam, mudou a equipa toda. Acabámos por perder 1-0 e eu como n.º 10 acabei por fazer um jogo muito aquém das minhas expectativas. Depois desse jogo nunca mais joguei. Por isso é que digo que foi um presente envenenado. Filipe com a mulher e a filha no carrinho D.R. Esteve no União da Madeira quanto tempo sem jogar? Desde o início da época até janeiro. Fui o único jogador em todo o plantel que não se estreou na I Liga. Depois tive uns minutos contra o Aves, num jogo da Taça de Portugal e mais nada. Em dezembro tive uma conversa com o Edgar e disse-lhe que alguma coisa tinha de mudar e que se não tivesse oportunidades era melhor voltar para o Sporting para poder acabar a época a jogar. Não estávamos com bons resultados e o Edgar disse: "É muito simples, se o mister Norton ficar, vais ter poucas possibilidades de jogar, percebo que queiras sair. Se ele sair, se calhar já entras nas contas e vais ter oportunidades". O que aconteceu? Ele disse que o mister Norton tinha dois jogos para pontuar, se não conseguisse estavam a equacionar fazer uma troca. Eu ia esperar por esses dois jogos e depois logo se via. Esses dois jogos foram contra o Sporting e o Benfica. Por um lado, como é óbvio, torço para que a minha equipa tenha sucesso e ganhe os dois jogos, mas, por outro lado, sabia que se o União ganhasse esses dois jogos eu ia ter poucas oportunidades e teria de sair. Ganhámos penso que ao Benfica e pontuámos com o Sporting, as coisas começaram a correr bem ao União, e ainda bem, e acabei por regressar ao Sporting B para acabar a temporada. Quando terminava o contrato com o Sporting? Renovei o contrato com o Sporting na altura do Bruno Carvalho, com o Leonardo Jardim, e penso que assinei por quatro ou cinco anos, portanto, ainda devia ter mais dois anos. Como foi parar ao SC Covilhã em 2016/17? Acabou essa época, fui de férias na perspetiva de voltar à pré-época no Sporting B, de saber o que ia acontecer à minha vida, e acabou por aparecer o SC Covilhã. Eu não queria ir porque sentia que não era o contexto certo para mim. Porquê? Já tinha ido jogar à Covilhã diversas vezes pela equipa B de Sporting, sempre foi um campo muito complicado de se jogar, com equipas muito fortes fisicamente, que jogavam segunda bola e eu sentia que não ia ajudar o SC Covilhã porque era um jogador que precisava de um futebol apoiado, precisava de ter uma equipa com maior preponderância ofensiva, uma equipa que estivesse mais tempo a atacar, sentia que se fosse ia estar a ver o jogo a passar, tipo pingue-pongue. Só que, pelo que depois percebi, o Sporting estava interessado num jogador do SC Covilhã, o Bilel, e como não queria pagar um valor de transferência por ele faziam a troca de dois jogadores por empréstimo. O SC Covilhã escolheu-me e o Cristian Ponde. E lá fui contrariado para o SC Covilhã. Em 2018, o médio saiu de maca após sofrer lesão num jogo entre o Belenenses e o Estoril-Praia Gualter Fatia A experiência no SC Covilhã foi muito diferente da do União na Madeira? Muito diferente. Foi o melhor balneário que tive na carreira. Encontrei um grupo de pessoas fantásticos. Dava-me muito bem com o Cristian, trouxe da SC Covilhã um dos meus melhores amigos, o Hugo Marques, que está na Angola. Ainda hoje falo algumas vezes com o Gilberto, com o Joel, o Harramiz, que tirou o agora o nível I do curso de treinador comigo. Eles recebiam os jogadores muito bem, era um balneário diferente, e acabou por coincidir com a melhor época profissional que tive. Quando as coisas nos correm bem profissionalmente tudo é mais fácil e foi tudo perfeito nessa época. Estive contrariado nos primeiros sete jogos da época porque só tinha cerca de 50 minutos de jogo; ligava ao meu empresário todos os dias a dizer que queria ir embora. Entretanto, as coisas viraram de um dia para o outro. Houve uma semana em que joguei e nunca mais saí. Como explica essa mudança? Começámos a época muito mal, com derrotas, sempre a perder jogos. Nos primeiros sete jogos tínhamos um ponto, que foi contra o Olhanense, que estava em último connosco. Eu não jogava, a equipa não estava bem, não estávamos a praticar um bom futebol. Nas poucas oportunidades que tive, não consegui mostrar o meu futebol. Via o tal pingue-pongue de que falei. Entretanto, jogámos para a Taça, acabei por entrar no intervalo, estávamos a perder 1-0, se não estou em erro, com uma equipa da distrital ou do CP [Campeonato de Portugal]. Nesse jogo, quando entrei, as coisas acabaram por me correr bem, damos a volta ao marcador, passamos a eliminatória e, no jogo seguinte, o mister deu-me oportunidade de jogar a titular. Foi aí que deu o clique. Não só a mim, como à equipa toda. Houve ali umas alterações que deram certo. Ponto final. Acabámos por fazer uma sequência gigante sem perder jogos e éramos das equipas que praticava melhor futebol na II Liga. Tem histórias para contar desses tempos na Covilhã? Tenho uma engraçada. No SC Covilhã tinha uma relação muito especial com um colega que não estava a passar uma fase positiva desportivamente. Não estava ter o tempo de utilização que pretendia, andava mais cabisbaixo e, no último treino da semana em que sai a convocatória, que todos os jogadores têm de ler e assinar, mal acabou o treino ele saiu disparado para casa, provavelmente a pensar que não seria convocado. Só que o nome dele estava lá. Fui logo ter com os capitães de equipa, o Joel e o Gilberto, para lhes dizer que ele tinha saído. O Cunha, que era e é o diretor-desportivo do SC Covilhã, estava no balneário para recolher a convocatória no final do treino. Disse-lhes que podia dar problemas porque ele ia ver que o nosso colega não tinha assinado a convocatória e eles dizem-me para tentar contactar o colega que tinha ido embora. Peguei no telefone, comecei a chamada: “Estou?”; e do outro lado: “Estou, sim?”; “Estou, mano? Tens de vir o mais rápido possível ao balneário porque foste convocado, tens de assinar, o ‘macaco’ do Cunha está aqui à caça”. E a resposta do outro lado foi: “Estou, Chaby? É o Cunha”. Desliguei logo o telemóvel, em pânico. Ou seja, o nome do Cunha estava tanto na minha cabeça que em vez de ligar ao jogador, fui ligar ao diretor [risos]. Fui a correr, em pânico, contar aos capitães, e eles, claro, partiram-se a rir e começaram a contar aos outros jogadores. De repente, lá do fundo, aparece o Cunha: “Então, Chaby, sou macaco é?” [risos]. Felizmente ele percebeu a situação, conhecia-me bem e não levou a mal. Em 2018/19, Chaby (a conduzir a bola) foi emprestado pelo Sporting ao Estoril-Praia Gualter Fatia Acabou por sair do Sporting em 2017 e foi para o Belenenses. Como e porquê? Quando fui contrariado do Sporting para o SC Covilhã, disse aos meus empresários: aconteça o que acontecer, não quero voltar para o Sporting na próxima época. Vou fazer esta época no SC Covilhã e vão ter de arranjar-me outra solução.” Ainda estava com a GestiFute. Em janeiro começaram logo a aparecer clubes e o Belenenses foi um deles. Assinei muito prematuramente, se calhar podia ter esperado por propostas do estrangeiro, financeiramente mais vantajosas, mas naquela altura era o que me fazia sentido. Queria estrear-me na I Liga e poder fazê-lo num histórico como o Belenenses, que na altura tinha uma visibilidade gigante... Recordo-me que quando ia buscar os bilhetes ao Belenenses, via a lista dos olheiros que iam ver os jogos e era assustador, era um clube que tinha muita visibilidade. Ainda por cima o treinador era o Domingos Paciência, que me estreou na equipa A do Sporting, As condições estavam todas reunidas para ter sucesso. E como correu essa época? A época estava a ser bastante positiva, houve períodos com o Domingos em que fui importante. Houve outros que, também devido à instabilidade da equipa, acabei por não jogar tanto. Entretanto, o Domingos saiu do Belenenses devido a maus resultados, entrou o Silas, e acabei por descobrir que me adorava como jogador. Gostou de trabalhar com ele? Muito. Fui realmente aposta. O Silas chegou e passei a jogar os 90 minutos, coisa que era difícil de acontecer na minha carreira. As coisas começaram a correr muito bem, apesar dos resultados às vezes não serem os melhores. Até ao dia que num jogo com o Estoril-Praia lesionei-me. Há imagens vídeo na Internet dessa lesão onde se vê o seu pé a dobrar. Pode recordar como e o que aconteceu? Fiz uma rutura nos três ligamentos do tornozelo. Duas parciais e uma total. Foi a pior lesão que tive até hoje. Foi muito difícil recuperar da lesão, foi muito sofrida. Já tinha feito lesão no cruzado anterior e para mim esta foi pior. Foi horrível, porque sentia dores. Foi um lance em que vou fazer um passe, cheguei primeiro à bola, o jogador adversário que veio atrasado, entrou de sola e calcou o meu tornozelo, que ficou todo de lado. O jogador foi expulso diretamente e eu fui diretamente para o hospital. Estive três meses parado, mas acabei a época a jogar. O Belenenses já estava safo e o Silas deu-me uns minutinhos para me ir adaptando e ver como é que estava o tornozelo. Mas ainda não estava bem, comecei a época seguinte muito mal. Filipe Chaby em Setúbal, na semana em que foi entrevistado por Tribuna Matilde Fieschi Época seguinte essa que já é na B SAD. Sim. Coincidiu com esse período horrível, em que houve o conflito entre os presidentes, nós vamos para a B SAD com a casa às costas, os campos do Jamor eram terríveis. Tinha acabado de recuperar de um tornozelo, vou para aqueles campos e quase não conseguia fazer um treino completo. Chorei imensas vezes em casa, porque não me sentia jogador de futebol. Doía-me tudo. Doía-me o tornozelo, depois tive uma lombalgia, fui a um médico que me disse que se calhar devia escolher outra profissão porque tinha um problema na lombar. É aí que o Sporting acabou por entrar novamente, mais tarde. Eu não conseguia jogar, não conseguia ter consistência, não conseguia treinar. Em janeiro, o Belenenses possivelmente já estava farto de mim e como o Sporting tinha uma percentagem do passe meteu-se ao barulho. Tentou perceber o que se passava, pediram uma avaliação, fui visto pelo departamento médico do Sporting. O que lhe disseram na reavaliação? Disseram que tinha um problema genético chamado espondilolistese e que o César Peixoto também tinha, em grau 3, enquanto eu só tinha grau 1. E ele fez a carreira que fez. Eu só precisava de fazer muito reforço. O que espoletou aqueles problemas foi o meu tornozelo; não estava preparado e comecei a sobrecarregar as outras zonas do corpo até que chegou às costas. Depois recebi uma chamada do Hugo Viana a dizer que sabiam que eu não estava numa situação fácil, que iam ajudar-me, tirar-me do Belenenses e oferecer-me um contrato para ir para lá recuperar fisicamente, ainda com a esperança de que pudesse ter uma carreira no Sporting. Por muito que quisesse acreditar que viam potencial em mim para poder chegar ainda à equipa A do Sporting, acredito que tenha sido mais para me ajudar. O Hugo Viana tinha trabalhado comigo no Belenenses, o presidente Varandas sempre teve uma ligação muito especial comigo porque foi meu médico naquela época das equipas B e de júnior. Só que eu não podia ser inscrito na equipa B do Sporting e fui emprestado ao Estoril de Praia, que também tinha um departamento médico fantástico e que mostrou interesse em contar comigo. Estoril-Praia onde ainda fez jogos pela equipa de sub-23, na Liga Revelação, em 2018/19. Exatamente. Não era o Chaby que eles queriam receber, basicamente aquilo foi para eu poder recuperar. E foi o que aconteceu, acabei por recuperar e na época seguinte, quando fui para a Académica, já era o Chaby que as pessoas estavam habituadas. Mostrar conteúdo oculto “Sei que em muitos momentos podia ter sido mais profissional, houve algum deslumbre e muitas das vezes facilitismo da minha parte” Filipe Chaby fala sobre as épocas em que jogou ao serviço da Académica de Coimbra, a quem deixa vários elogios, e do Nacional da Madeira, antes de partir para a primeira aventura no estrangeiro, no Azerbaijão. Abordamos ainda o regresso ao Belenenses e a ida para a Indonésia onde reencontrou o prazer de jogar futebol. Nesta parte II do Casa às Costas, o médio fala ainda sobre o futuro pós-carreira, os receios que tem, os investimentos que fez e sobre literacia financeira Como foi parar à Académica de Coimbra, em 2019/20? Ainda comecei a pré-época no Sporting com o Keizer, que deve ter feito uma avaliação naquela primeira semana. Dizem-me que podia procurar solução para ser emprestado. O César Peixoto ligou-me diretamente, disse que me conhecia perfeitamente como jogador, sabia dos meus problemas, conhecia as minhas características. A que tipo de problemas se referia o César Peixoto? Físicos? Futebolísticos. Sempre fui muito pouco agressivo defensivamente, nunca fui um jogador muito forte na reação à perda da bola, não sou um jogador de contacto. Ofensivamente tenho as minhas coisas boas, mas defensivamente tenho alguns problemas. Mas nenhum jogador é perfeito, tirando o Ronaldo e o Messi [risos]. Disse-me na cara todos os problemas que eu tinha, tudo o que tinha de melhorar, convenceu-me logo porque me enviou vídeos da maneira como as equipas dele jogavam e como queria que eu jogasse. Nunca tinha recebido uma abordagem assim. Acabei por ir para a Académica. As coisas começaram a correr bem, mas tive uma recidiva no tornozelo, tive de parar uns tempos. Depois voltei bem e foi uma época espetacular, que foi travada pela Covid-19. Também um dos melhores grupos que apanhei na carreira. Passou o período de confinamento em Coimbra? Comecei o confinamento em Coimbra porque ainda não sabíamos se voltaríamos a jogar. Só quando saiu a decisão de que o campeonato da II Liga não iria continuar é que voltei para Setúbal, onde já tinha comprado casa. Em 2019/20, Filipe Chaby assinou pela Académica de Coimbra Gualter Fatia Ainda fez mais uma época na Académica. Não tinha outra opção? A estabilidade para mim conta muito. A Académica é um clube completamente diferenciado, foi dos sítios onde mais gostei de jogar, os adeptos são fanáticos, o estádio era muito bem composto, a cidade é incrível. Sentes-te jogador porque vais ao shopping, ao restaurante, as pessoas conhecem-te, abordam-te, tratam-te bem. Nunca mais me esqueço que na primeira semana que estou na Académica, num almoço com colegas, o Leandro, que saía da Académica e voltava, saía e voltava, tinha prescindido de um contrato onde estava, naquela altura, para voltar para a Académica a receber muito menos dinheiro. Chamei-o de doido e ele disse: “Mano, tu vais perceber o quão especial é jogar neste clube. No final da época falamos”. Não me pergunte, mas a Académica é diferente, é um clube especial. Não sei se é o encanto da cidade, se as condições do clube, se são as pessoas que trabalham no clube, que são incríveis, não sei se foi a equipa que apanhei, estávamos sempre juntos. Íamos muitas vezes almoçar e jantar fora. Fiquei com aquela sensação de que a história não tinha terminado, alguma coisa tinha ficado por fazer. Teve propostas de outros clubes? Tive. Tive treinadores de outros clubes a ligarem-me. Na altura recebi um convite do Vitória Futebol Clube, mas, entretanto saiu aquela decisão de que o Vitória ia descer para os campeonatos não profissionais. Acabaram por ligar-me da estrutura da Académica. Gostavam que voltasse e disse logo que sim. Fui ganhar menos dinheiro do que na primeira temporada, mas só queria ir para Coimbra. É uma época coletivamente excecional, estivemos até a última jornada a lutar pela subida de divisão, merecíamos mais pela qualidade que tínhamos e por aquilo que fizemos, mas acabámos por não conseguir. Agora, foi uma época dura individualmente, porque se na primeira época na Académica sentia que era um dos jogadores mais importantes, jogava quase sempre, sentia que podia ajudar; quando voltei fiquei mais num papel secundário, não jogava tanto. Era Rui Borges o treinador. Sim. Eu era visto como um jogador com um papel mais importante a partir do banco, de tentar entrar para mexer com o jogo. Muitas das vezes acabava por ser um bocadinho frustrante porque quando começávamos a ganhar eu já não entrava. Como era um jogador que defensivamente não era tão competente, já não era útil para jogar. Era mais um jogador que entrava quando estávamos a perder, ou empatados, para tentar mudar o jogo ofensivamente. Foi uma época difícil nesse sentido, porque sentia que podia ser titular e não conseguia. Mas gostou do Rui Borges enquanto treinador? Sim. É assim, no fundo, gostamos mais dos treinadores que nos metem a jogar. Ponto final. Há muita gente que diz, e é verdade, que os melhores empresários que temos são os treinadores. Um empresário não faz milagres se tu não estiveres a jogar. Aquele que te pode valorizar mais é o treinador, se te meter a jogar e num sistema de jogo que acabe por te beneficiar. Agora, o mister Rui Borges tinha coisas fantásticas e não é por acaso que está onde está. Que coisas fantásticas eram essas? Os treinos dele eram muito bem organizados, muito bons. Em termos de intensidade de treino e no jogo, nunca tinha visto nada assim. Se calhar era também por isso que não jogava, os jogadores eram muito intensos, a equipa era muito intensa a pressionar, defensivamente éramos muito fortes, éramos muito coesos, e era muito complicado baterem-nos. Sentia que podia ser mais importante na equipa porque se jogasse podíamos ser muito mais fortes ofensivamente. Mas são decisões e temos que as respeitar. O médio confessou na entrevista à Tribuna que adorou jogar e viver em Coimbra D.R. A seguir foi para o Nacional da Madeira, na II Liga também. De quem partiu o convite? Do Costinha, que me ligou. Conhecia-me muito bem da época no SC Covilhã porque ele treinava a Académica e gostava bastante da minha maneira de jogar. As coisas até começaram a correr bem com o Costinha. Entretanto, mais uma vez, tenho um problema físico. O que aconteceu? Fiz um estiramento do lateral interno, uma lesão que não é grave, mas que obrigada a parar por um mês. Quando estou quase a regressar, o Costinha é despedido e veio o mister Rui Borges. E pronto, voltei a ter o mesmo papel que tinha na Académica, mas ainda menos preponderante. O plantel do Nacional individualmente era muito forte, joguei muito pouco no Nacional da Madeira. Entretanto, estava em fim de contrato com o Sporting? Julgo que ainda tinha mais um ano de contrato. Mas senti que era o momento ideal para sair para o estrangeiro e experimentar outra coisa. Estava na idade e queria abrir portas para começar a ganhar dinheiro, porque a minha ambição até então nunca tinha sido o dinheiro, era poder voltar à I Liga, ser importante em Portugal. Mas a idade começou a passar e tinha de começar a ganhar dinheiro a sério para estabilizar a minha vida. E também porque estava exausto do futebol português. Porquê? O futebol tinha mudado muito, estava muito mais defensivo, muito mais agressivo, muito mais tático. As últimas duas épocas não foram nada fáceis para mim, com pouco tempo de jogo, por isso senti que era o momento. Só que não foi no timing certo. As condições estavam reunidas, fui para um clube fantástico em termos de condições, o Sumqayit FK, do Azerbeijão. Tinha um estádio novo a ser inaugurado, dois campos de treino, onde treinávamos e jogávamos mais era na melhor relva do Azerbaijão. Aquilo era incrível, o balneário era fantástico, o ginásio era muito bom, condições incríveis. Filipe Chabyem jogo pela Académica de Coimbra Gualter Fatia Foi ganhar quantas vezes mais? Não fui ganhar nada. Fui lá para abrir portas. Tinha mais um ano de contrato com o Sporting, recebi alguma parte desse contrato e recebi o salário do Azerbaijão, que não sendo muito, acabava por ser bom porque juntava ao do Sporting e acabava por ser um bocadinho mais do que ganhava em Portugal na altura, por exemplo, no Nacional. Mas se fosse só pelo contrato do Azerbaijão, nunca tinha ido. Fui porque sentia ser um campeonato que estava muito perto da Turquia, tínhamos ali o Qarabag, uma equipa que ia sempre à Champions, ouvia-se que pagavam bom dinheiro. Foi sozinho? Fui. E foi o timing errado. Porquê? Porque é a primeira vez que imigro para outro país, numa realidade e cultura completamente diferentes. Não sabia cozinhar, não tinha companhia, coincidiu com o facto da minha mulher ter começado a trabalhar e foi difícil estar longe dela, da família, dos amigos. Se profissionalmente as coisas não correrem bem, a vida pessoal desaba. E eu não estava feliz, não me sentia realizado por estar longe da família e a vida profissional não estava a conseguir acompanhar, a equipa não jogava nada, éramos o saco de pancada do Azerbaijão, perdíamos os jogos todos. A liga era muito fraca? Hoje está muito melhor do que na minha altura. Mas já era uma liga boa. Taticamente não era tão forte como em Portugal, a intensidade não era tão grande, mas isso era bom para mim. Os jogadores não eram tão evoluídos taticamente. Para mim era bom porque havia mais espaço para decidir. O ambiente no balneário era muito diferente do português? Era. Em Portugal acabamos os treinos e é muito usual os jogadores irem jantar fora, conhecerem as mulheres uns dos outros. O futebol não pára dentro do balneário, depois temos uma vida social. No Azerbaijão, a minha vida era acordar às 10 da manhã, ir para o restaurante, almoçar às 11 e tal com um colega, e ir para o treino, porque treinávamos às duas da tarde. Naquele período em que treinava eu era feliz, esquecia tudo. Mas às quatro da tarde o treino acabava, eu ia para casa e ficava sozinho. Nos primeiros dois meses não levei nada porque ia na expectativa, quando voltei a casa passado dois meses disse logo: tenho de levar um computador porque senão vou-me matar no Azerbaijão. Chaby prepara-se para chutar a bola m jogo da Académica com o Casa Pia AC Gualter Fatia O que mais o chocou culturalmente? Em Portugal estamos habituados a tomar banho nus. No Azerbaijão os chuveiros são individuais, tens de estar sempre tapado. Depois, as horas para rezar. Às vezes os jogos começam atrasados porque os jogadores estão a rezar. De resto, as pessoas são incríveis, acolhedoras, embora no plantel só dois jogadores do Azerbaijão é que falavam inglês. Em novembro comecei a falar com o presidente, porque queria vir embora em janeiro. Ele teve imensas conversas comigo, dizia que eu estava a tornar-me importante no clube, que a equipa ia dar a volta, pedia-me para ficar... Mas eu já estava com a decisão tomada. Em dezembro apanhei o avião e nunca mais voltei. A malta ligava-me a dizer para marcar a viagem, eu dizia que não ia apanhar o avião e acabámos por chegar a acordo. Também não vale a pena teres um jogador que não quer estar no clube. Ficou sem clube durante quanto tempo? Um mês. Só consegui terminar a ligação com o clube em meados de janeiro. Entretanto, apareceu o Belenenses e comecei a integrar o clube no final de janeiro. E o Belenenses apareceu através de quem? Na altura voltei a mudar de empresários. Um dos meus melhores amigos, que conheci no União da Madeira, começou uma empresa de agenciamento, a Health Sports, e ligou-me, perguntou como era a minha vida. Disse-lhe que queria ficar perto de casa, perto de Setúbal, porque a Patrícia continuava a trabalhar e tinha vivido um momento difícil da minha carreira. Aliás, no Belenenses foi muito complicado porque fisicamente estava de rastos e sentia que a minha carreira estava a terminar. Quando vim do Azerbaijão senti-me destruído mentalmente. Tudo mexeu comigo, não sei explicar porquê, mas não estava bem, não estava bem mentalmente, não desfrutava do futebol, não estava a divertir-me e sentia que precisava fazer um reset. Chegámos a acordo, se ele conseguisse arranjar clube perto de casa eu ficava a trabalhar com a empresa dele. Foi assim que surgiu o Belenenses. Não sei como ele conseguiu, mas chegámos a acordo e fui. Belenenses que na altura estava na Liga 3. Sim, mas não me importava. Não sei o que aconteceu na minha cabeça, naquela fase estava-me um bocadinho a marimbar para aquilo que poderia acontecer à minha carreira, só queria estar em casa e poder voltar a desfrutar do futebol, mesmo que fosse a jogar uma Liga 3 ou um Campeonato de Portugal. Infelizmente as coisas não correram bem durante esse ano e meio. Nos primeiros cinco meses foi fantástico porque subimos da Liga 3 para a II Liga, mas individualmente nunca correu bem, tive inúmeros problemas físicos, estava sempre condicionado e não conseguia ajudar da maneira que queria. É uma das mágoas que trago na minha carreira, porque o Belenenses é um clube especial para mim, é o clube do meu avô, o clube com que me estreei na I Liga, um clube histórico. Não consegui ajudar dentro do campo, nunca consegui estar a 100% para jogar, parecia que estava sempre atrás do comboio. Quando saí, estive cinco meses desempregado porque não existia interesse no Chaby. Em 2021/22, Chaby jogou pelo Nacional da Madeira Gualter Fatia Como acabou por surgir a Indonésia? Em outubro o mister Eduardo Almeida, que era treinador do Semen Padang, mandou-me uma mensagem a dizer que gostava que eu fosse para lá. A primeira resposta que lhe dei foi, esqueça, vou ser pai em dezembro e está fora de questão eu ir para o outro lado do mundo. Ele disse: “Não tem problema, mas vou mandar-te uma proposta de contrato, tu pensas e dás-me uma resposta.” A proposta veio e não tinha como dizer que não. Numa altura da vida em que precisávamos de estabilidade, era um balão de oxigénio importante. Foi ganhar quantas vezes mais? Talvez três vezes e meia mais. Tendo em conta que estava desempregado, que ia ser pai, só via dinheiro a sair da conta, para consultas, coisas para o bebé, roupas, produtos farmacêuticos... Na altura só ganhava o subsídio de desemprego, que era uma vergonha. Pensei, a proposta é realmente boa e são seis meses, passa rápido. Disse a minha mulher que sabia que ia ser difícil para ela, mas ia ter o apoio da minha mãe e da mãe dela naquele período. Eram dois meses e meio, depois havia o Ramadão, vinha a casa e voltava para fazer os últimos dois meses. Os seis meses prolongaram-se. O que aconteceu? O objetivo era fazer seis meses e tentar desfrutar do futebol. As coisas correram muito melhor do que esperava. Embora, no primeiro impacto, quis apanhar um avião para voltar para Portugal. Porquê? É uma realidade completamente diferente. Não aterrei em Bali, ou em Jacarta, a Indonésia é incrível, mas há certas ilhas que estão muito mais atrasadas. Não temos noção da sorte que temos de viver em Portugal, apesar de hoje não ser fácil viver em Portugal porque o custo de vida está uma estupidez. Mas temos um país fantástico no que toca a infraestruturas e boas condições de vida. Aterrei em Padang e só via floresta à minha frente. Só via barracas, o comércio no meio das estradas estragadas, não havia apartamentos de luxo, aquilo foi um choque. Mas o pensamento foi: vens para jogar futebol, ponto final. Luís Lopes, do Benfica B, e Filipe Chaby, do Nacional em jogo da II Liga, em 2021 Gualter Fatia Ficou a viver onde e com quem? Na altura o clube dava umas casinhas, mas quando entrei com o Marco Baixinho numa dessas casinhas disse logo: não fico aqui, nem que me paguem. O clube acabou por arranjar-nos outra casa um bocadinho melhor. O que tinha a primeira casa que o fez recusar? Não tinha nada, o problema era esse, não tinha nada. Não existia um sofá, por exemplo. É normal eles comerem no chão em cima de um tapete. Nós estamos habituados a um estilo de vida diferente, a condições diferentes. A casa tinha um monte de bichos, de lagartos, a mesa de jantar era redonda com uma cadeira desconfortável, não tinha nada na cozinha, a cozinha era miserável, nem dava vontade de estar lá dentro, se bem que isso para mim não era preocupação, porque eu ia almoçar e jantar fora todos os dias. Mas sempre fui uma pessoa caseira, adoro estar em casa, e ali só queria estar fora daquela casa. Viveu com o Marco Baixinho? Sim. Foi uma pessoa super importante para mim nessa adaptação, se tivesse o Marco Baixinho no Azerbaijão se calhar as coisas teriam sido completamente diferentes. Houve duas ou três vezes que desabafei com o Marco sobre estar a ser difícil e estar a pensar em vir embora e o Marco sempre me aguentou. Ele já tinha 35 anos, mulher e três filhos, a mulher estava sozinha em Portugal e ele ali a aguentar-se. Foi muito importante nesse sentido. Acabámos por ir para uma casinha que era tipo uma guest house, mais parecida com aquilo a que estamos habituados. Não tinha cozinha, fazíamos as refeições fora, mas tinha sofás que eram confortáveis para podermos ver televisão, os quartos eram bons, com ar condicionados, com uma cama boa. O Bruno Gomes, enquanto não veio a família, também esteve lá connosco. Para mim foi muito bom porque nunca estava sozinho, não tinha tempo para pensar na minha mulher e na minha filha. Mas quando ia para a cama tinha dificuldades em dormir. Filipe Chaby em Setúbal, na semana em que foi entrevistado por Tribuna Matilde Fieschi Chegou a assistir ao parto da sua filha? Sim, a Francisca nasceu a 13 de dezembro e só fui para a Indonésia dia 1 de janeiro. Assisti ao parto e tive tempo para estar com ela nos primeiros dias de vida. Mas não ficou só os seis meses. Porquê? Os primeiros cinco meses excederam as minhas expectativas, fiz os jogos todos, as coisas correram muito bem individualmente e coletivamente. Chegámos num momento terrível, era preciso um milagre para salvar a equipa da despromoção e conseguimos salvar. Fomos talvez a quinta ou sexta melhor equipa em termos de pontuação na segunda volta e por tudo isso quis permanecer na Indonésia e naquele clube. Para esta época já levei a minha mulher e a minha filha. Foi um choque muito grande para a minha mulher, porque nós ainda temos o futebol para nos distrair, ela com uma bebé recém-nascida na Indonésia, não foi fácil. A responsabilidade cai toda sobre ela porque vive 24 horas para mim e para a Francisca, sem apoio. Infelizmente, enquanto na época anterior tive um papel muito preponderante, sentia-me uma das estrelas da equipa, este ano não tive tanto tempo de jogo. Mas o treinador é o mesmo, certo? Era, sim. Mas pronto, se calhar eu não estava a treinar tão bem, não estava com o mesmo rendimento, não sei. Todos os treinadores vão escolher a equipa que lhes dá mais garantias de vencer. E se o treinador sentia que eu não era importante o suficiente para estar no 11, só tinha de respeitar e continuar a trabalhar. Tentei, tentei, tentei que as coisas se alterassem, houve um jogo inclusive em que entrei e acabei por resolver o jogo, faço o golo, estou no segundo golo, acabamos por vencer, e no jogo seguinte voltei para o banco. Entretanto, coletivamente as coisas também não correram bem, o mister Eduardo acabou por ser despedido, e aí foi a gota de água. Pensei logo: se o mister Eduardo vai ser despedido, em janeiro vou seguir o mesmo caminho, porque na Indonésia é assim que funciona. Se a equipa está mal, os cinco que vieram no início da época são os cinco que vão logo embora, porque a responsabilidade é toda dos estrangeiros, nós estamos ali para decidir. Chegou a jogar com o novo treinador? Sim. Faço um jogo com o novo treinador, sou titular, ele tira-me no intervalo, no jogo seguinte não entro porque a equipa ficou reduzida a 10 muito cedo e foi praticamente defender o jogo todo. No jogo seguinte acabei por entrar no intervalo, acho que entrei muito bem, julgo que fui dos melhores jogadores da minha equipa. A seguir voltei para o banco, entrei cerca de 20 minutos, acho que voltei a entrar muito bem, não tive nenhuma ação negativa no jogo, não perdi uma única bola e passado dois dias recebo uma chamada do meu empresário a dizer que o clube queria mandar-me embora. Ou seja, era uma decisão que possivelmente já estava tomada desde que o novo treinador chegou. Quando é assim não vale a pena estar a lutar. O clube sempre me tratou muito bem. Respeitei a decisão e chegámos a um acordo. A minha mulher também não estava feliz lá, eu já não estava lá a fazer nada, mais valia vir embora. O médio regressou ao Belenenses em 2022/23 Gualter Fatia Está em Portugal desde quando? Cheguei no final de novembro. Quais as perspetivas que tem agora para o mercado de janeiro? Não faço ideia. Há um ano eu estava seriamente a ponderar terminar a carreira ou jogar num nível mais amador. Porque o ano no Belenenses foi muito complicado, tive conversas com o presidente, com o Patrick, com o Taira, porque não conseguia perceber o que se passava comigo. Eu fazia tudo bem, descansava, estava muito tempo em casa, não conseguia perceber como não estava bem fisicamente, como estava sempre condicionado. Não apareceu nenhum clube depois e comecei a ponderar. Acabou por aparecer a oportunidade na Indonésia. E se há um ano estava a ponderar terminar a carreira, nesta altura estou com perspetivas completamente diferentes, porque o ano na Indonésia foi muito positivo para mim. Não tive nenhum problema físico, consegui fazer os jogos todos, senti-me bem, sinto que posso voltar a ser importante, fiz jogos muito bons. Gostava bastante de continuar a jogar. Não faço ideia o que poderá acontecer, não sei se a minha carreira irá continuar no estrangeiro ou se em Portugal. Estou à espera que o telefone toque e, consoante aquilo que aparecer, tomarei a melhor decisão acima de tudo para a minha família, porque agora tenho duas pessoas pelas quais sou responsável, a minha mulher e a minha filha. Já pensou no que quer fazer quando pendurar as chuteiras? Infelizmente nunca dei ouvidos ao meu pai, que sempre me aconselhou a inscrever-me na faculdade quando acabasse o 12.º ano, para ter um plano B. Eu, anjinho, miúdo, a treinar na equipa B do Sporting com um contrato profissional, treinava de manhã, tinha a tarde toda livre e à tarde queria era descansar na cama, ver Netflix e não sei o quê. Quando tomei a decisão de me inscrever na faculdade, inscrevi-me em Desporto no IPS e, de repente, vou para a Madeira. Já não tirei o curso. Não sou licenciado, mas tenho duas pernas, tenho dois braços, vou ter que ir trabalhar como é óbvio porque não ganhei dinheiro o suficiente para poder ficar deitado no sofá o dia todo. Mas realmente do que gostava era continuar ligado ao futebol. Já fez alguma coisa para isso? Tirei a parte teórica de nível 1 do curso de treinador na Associação de Setúbal. Não consegui fazer ainda o estágio porque fui para a Indonésia. Tenho também a pós-graduação de diretor desportivo feita na Universidade Europeia. São as duas funções onde me vejo a trabalhar no futebol. Gosto bastante de falar de futebol, do desenvolvimento pessoal e profissional do jogador, de tentar evoluir o jogador, da parte tática, de tentar achar formas de ludibriar o adversário. Só que é um mundo cão. Já é difícil um jovem tornar-se profissional de futebol, ainda é mais difícil ser treinador de futebol. Infelizmente em Portugal hoje é difícil viveres do futebol, a não ser que estejas talvez nas equipas de subida do CP, nas equipas de Liga 3, I e II Ligas. Estar a treinar uma equipa na distrital por €200 ou €300 não te vai pagar contas. Quero muito estar no futebol, mas sei que se as coisas não correrem bem tenho de ir trabalhar. Assusta-o o futuro pós-carreira? Sim, é algo que me assusta, honestamente, estou bastante ansioso naquilo que poderá ser o meu futuro. Por isso é que quis ir para a Indonésia, tentar garantir o máximo de estabilidade financeira para poder, pelo menos nestes primeiros anos pós-carreira, dedicar-me à faculdade e tirar um curso que goste. Flipe Chaby (2º em baixo à direita) com a sua equipa do Belenenses, em 2023 Gualter Fatia Onde ganhou mais dinheiro até hoje? Na Indonésia. Deu para investir em alguma coisa? Por acaso inscrevi-me agora no curso do MoneyLab da Bárbara Barroso. Enquanto estudantes devia haver pelo menos uma disciplina de literacia financeira, porque andei a estudar coisas que não uso na minha vida e aquilo que realmente importa não existe na escola. Hoje tenho 31 anos e não sei fazer o meu IRS, tenho de pagar uma pessoa para fazer o meu IRS, é uma estupidez. Portanto, tenho muito receio naquilo que são investimentos. Investi no meu apartamento e numa empresa de Taxi-Boats, em Setúbal, com um dos meus melhores amigos, mas infelizmente não nos tem dado o que queríamos e não é o suficiente para poder viver daquilo. De resto, o meu dinheiro está todo em Certificados de Aforro, porque é a única coisa que conheço e sei que está seguro. Mas quero aprender para poder investir. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Terá que ser os carros. Quando comprei o meu primeiro carro devia ter comprado um carrinho mais pequenino. Comprei um carro, passado um ano renovo contrato com o Sporting, tenho um aumento salarial, o que faço? “Pai, estás com o carro estragado? Então fazemos assim, eu vendo o teu carro, dou-te o meu e vou buscar um novo.” E fui buscar o novo modelo do BMW Série 1. Hoje quando olho para trás penso, quem era o Chaby? Tem algum hobby? Sempre gostei muito da comunicação e sempre gostei muito de videojogos. Cheguei a ter um canal na Twitch, na altura do Covid-19, onde falava sobre futebol, onde jogava Football Manager. Sempre fui uma pessoa muito caseira, então sempre dediquei grande parte da minha vida a treinar, descansar e jogar videojogos com os meus amigos. D.R. É um homem de fé, acredita em Deus? Não sou católico praticante. Acredito que existe um ser superior lá em cima e quero acreditar em Deus, tanto que quando me deito acabo por rezar ao anjinho da guarda, que a minha mãe me ensinou. Acredito que existe qualquer coisa, mas nunca tive nada na vida, nenhuma experiência que me fizesse acreditar nisso. Superstições? Já tive. Por exemplo, ir com um boxers para o jogo, as coisas correrem bem e eu pedia à minha mãe para me guardar aqueles boxers para o jogo seguinte. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? A primeira foi aos 18 anos e fiquei de castigo uma semana [risos]. Foi o nome dos meus pais num pulso e o nome da minha irmã no outro. De lá para cá tatuei a frase que o meu pai usa sempre na vida: “O sonho comanda a vida”. Tenho a pata do meu cão de família que já faleceu, no tornozelo esquerdo. Tenho uma cruz no tornozelo esquerdo, que supostamente quer dizer proteção. Pus no esquerdo porque estava tão farto de ter entorses, e a verdade é que nunca mais tive uma. Tenho o nome da minha filha tatuado com a data de nascimento e tenho o retrato do meu cão atual, um beagle chamado Bart, no braço. Acompanha ou pratica outra modalidade? Acompanho sempre os últimos jogos do futsal, aquelas cinco finais. Qual a maior frustração que tem na carreira? Acho que poderia ter tido condições para fazer uma carreira muito melhor do que fiz. Se calhar por falta de algumas oportunidades, por algum azar no que toca a lesões, mas acima de tudo por algum deslumbre e muitas das vezes facilitismo da minha parte, porque sei que em muitos momentos podia ter sido mais profissional, podia ter treinado muito melhor, nunca treinei se calhar a 100%, às vezes treinava o q.b. Mas se calhar a maior frustração é nunca ter conseguido estrear-me no Sporting. Senti que poderia ter acontecido e poderia ter mudado o rumo da minha vida. D.R. O maior arrependimento? Não considero arrependimento ter ido para o Azerbaijão porque sentia que era o momento ideal, mas não foi o timing ideal. Não estava com as condições psicológicas ideais para o ter feito, mas não me arrependo da decisão. Talvez o maior arrependimento foi ter voltado para o União da Madeira. O momento mais feliz na carreira? A assinatura do primeiro contrato profissional com o Sporting porque é o culminar do teu trabalho na formação. É quando mudas o chip e pensas, se calhar vou conseguir viver disto e viver o meu sonho. E a subida da divisão com o União da Madeira. Foi um marco importante na minha carreira, foi uma conquista e não é fácil subir de divisão. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Adoro o Vitória Futebol Clube, é o meu clube de criança, sempre tive e ainda tenho o sonho de poder jogar no Vitória, mesmo que seja nesta situação que eles se encontram. Mas toda a minha vida fui sportinguista, a minha família é toda sportinguista, o João Vieira Pinto e o Ricardo Sá Pinto eram as minhas referências. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Não gosto muito de dar nomes porque tive alguns amigos e colegas que levo para a vida, e infelizmente tive outros que acabei por perder o contacto pelo caminho, porque sempre fui uma pessoa que se desliga um bocadinho. Teria de escolher de entre aqueles amigos com quem hoje ainda falo regularmente, por exemplo, o Diogo Coelho, que é uma das pessoas que trata da minha carreira, o Tiago Queiroz, do Belenenses, o Hugo Marques, da Covilhã, o Nuno Tomás, do Belenenses, o próprio Silvério Júnior e o João Traquina da Académica. Teria muitos outros nomes, mas estas são as relações mais especiais. Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania? A única que talvez neste momento alterava é a regra das substituições. Por exemplo, quando já se fez as cinco substituições, se existir o infortúnio de um jogador partir uma perna ou rasgar um cruzado anterior, um problema físico grave, a equipa devia poder alterar o jogador e não ficar a jogar com menos um. Tem algum talento escondido? Não. Se não fosse jogador, o que teria sido? Teria seguido fisioterapia, era o meu plano B quando estava na escola. D.R. Tem ou teve alguma alcunha? Em pequenino chamavam-me Pinóquio por ter o nariz grande. Houve alturas em que me chamavam Mesut por causa do Ozil. Qual o jogador com o qual gostava de ter jogado na mesma equipa? Vou sair um bocadinho fora da caixa para não estar a dizer o Ronaldo e o Messi, porque são os dois extraterrestres. Tendo em conta a minha posição, gostava de ter jogado com o Xavi ou com o Iniesta. E o jogador contra o qual gostava de ter jogado? Contra o Messi ou contra o Ronaldo. Nem que fosse para ter a camisola deles. Quem foi o melhor jogador com quem jogou? O Iuri Medeiros. Já joguei com muito bons jogadores, mas o Iuri foi aquele que me marcou mais. Porquê? Gosto muito de canhotos, porque sou canhoto. Joguei com o Bernardo Silva, com o João Cancelo, o William Carvalho, o João Mário, mas o Iuri tirava-me do sério, ele fazia coisas que só me lembrava do Messi na altura. Acho honestamente que o Iuri podia ter tido uma carreira muito melhor do que a que teve porque era sem dúvida um jogador fora do normal. Era um jogador que às vezes dava-me misto de emoções, irritava-me profundamente porque havia jogos que parecia que não queria nada que aquilo, estava ali a pastar, só fazia porcaria e, de repente, passavas-lhe a bola e ele tirava um coelho da cartola e decidia o jogo. O Iuri era talvez um dos poucos jogadores que tinha a capacidade de, sozinho, resolver o jogo, era fenomenal. Tinha muito talento mas a sua carreira ficou precocemente marcada pelas lesões, é pena. Não sabia que tinha sido treinado pelo Rui Borges. Do que vi na Twitch, parece-me ser um gajo porreiro e tal como nessa entrevista, também me lembro de o ouvir a elogiar o Messi açoreano por lá. Compartilhar este post Link para o post
Coiso Publicado 22 Dezembro 2025 (editado) Acho curioso e estranho que ele não fazia ideia de uma série de coisas, inclusive que é possível ter-se lesões longas em miúdos (apesar de o colega de Seleção Gonçalo Paciência também a ter, na mesma altura que ele, e ele também não fazia ideia), de pensar que se recupera de uma rotura de LCA em três dias, da carreira do Vítor Oliveira e de não saber se tem propostas quando está em fase de saída do Sporting. Editado 23 Dezembro 2025 por Coiso 1 Compartilhar este post Link para o post
Aiden Publicado 23 Dezembro 2025 É uma entrevista porreira, gosto sobretudo quando no final da leitura percebemos que a pessoa cresceu e amadureceu. Tem total noção que a culpa lhe pertenceu algumas vezes, porque é que não jogava, não começa a disparatar contra outros e a lavar roupa suja, como muitas vezes acontece nesta rubrica e de gente com 50/60 anos. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 29 Dezembro 2025 Hugo Firmino Spoiler “Em Angola dizem-me que tenho ‘as luvas’ para receber. E eu: ‘Mas aqui está sol, faz calor, não vou precisar de luvas.’ Nem sabia o que era” Hugo Firmino, de 37 anos, está a jogar na Liga 3, mas já passou por muitos campeonatos: foi campeão, jogou a Liga dos Campeões de África, competições europeias, mas nunca estreou na I Liga portuguesa, não por falta de oportunidades. Eis a história de vida deste extremo, natural de Torres Vedras, que começou por jogar hóquei em patins antes de descobrir o talento para o futebol Nasceu em Torres Vedras. O que fazem os seus pais profissionalmente? O meu pai trabalhou sempre como auxiliar de ação médica no hospital e a minha mãe foi doméstica enquanto viveu com o meu pai. Aos 7 anos viajei com a minha mãe para o Monte da Caparica, devido à separação dos meus pais, e depois ela começou a trabalhar como ajudante de cozinha. Tem irmãos? Tenho uma irmã mais nova da parte do pai. Em criança deu muitas dores de cabeça? Sempre fui um bocado traquina. Em Torres Vedras, morávamos no bairro do Castelo, com casas pequeninas e ruas apertadas, e sempre fui rebelde, aparecia em casa com as pernas todas lascadas ou com a cabeça partida, aleijava-me sempre na rua, fosse a andar de bicicleta ou a jogar futebol, o que fosse. Sempre quis ser jogador profissional de futebol? Nunca tive como primeira opção ser profissional de futebol. Como o meu pai trabalhava no hospital, eu queria ser médico. O futebol nunca foi a minha primeira opção, até porque o meu primeiro desporto, ainda em Torres Vedras, foi o hóquei em patins. Tinha 5 anos. Havia mais gente da minha família dentro do hóquei, então via com bons olhos. Praticou hóquei em patins até quando? Até aos 7 anos. Entretanto, os meus pais separam-se e fui viver para o Monte da Caparica, onde estava a minha avó materna. Hugo (à esquerda) em criança com as primas D.R. Tem dupla nacionalidade. Como e por que se tornou cidadão luso-angolano? O meu avô materno é cabo-verdiano e a minha avó é angolana. Eles viviam em Angola, onde a minha mãe nasceu. A minha dupla nacionalidade vem daí e do facto de ter ido jogar para Angola mais tarde. A mudança para o Monte da Caparica, aos 7 anos, foi traumática? Digamos que é uma fase em que estamos a começar a formar o nosso ciclo de amigos. Desde que me conhecia enquanto gente vivia em Torres Vedras, era ali que tinha o meu grupo de amigos. Quando cheguei ao Monte da Caparica não conhecia ninguém, não tinha amigos e não foi fácil. Claro que, com o decorrer do tempo, fui formando amizades e muitas delas ainda mantenho. A distância do seu pai, que calculo tenha ficado em Torres Vedras, também o marcou? Inicialmente não estava a perceber muito bem o que se estava a passar. O meu pai ainda teve uma fase em que falou algumas vezes com a minha mãe para ver se não havia separação, mas acabou por acontecer, só que eu muitas das vezes passava os fins de semana com o meu pai. Gostava da escola? Sim. Até ao 7º ano gostei da escola, a partir dali, não sei se por estar naquela fase mais rebelde da adolescência, perdi a vontade da escola. Mas terminei há um mês o 12º ano. Hugo (de camisola verde) com amigos de infância de Torres Vedras D.R. Como foi parar ao futebol? Quando estava em Almada vivia muito perto do campo de futebol do Almada Atlético Clube e muitas das vezes estava em casa e ouvia o apito do árbitro, as pessoas que iam ver os jogos, os próprios treinadores, ou seja, tudo aquilo que envolvia o futebol, aos fins de semana. Uma das vezes falei com a minha mãe e perguntei-lhe se ela me deixava ir lá treinar. Ela disse que sim, fui lá fazer captações e dispensaram-me. Comecei a jogar mais vezes à bola na rua e voltei lá um ano depois e aí já fiquei. Tinha 12 anos. Ficou lá quanto tempo? Faço dois anos no Almada Atlético Clube e quando chego aos juvenis do 1º ano mudo para o Beira-Mar de Almada porque grande parte dos jogadores que estava comigo no Almada AC foi para lá. Fui atrás daquelas amizades que fiz no futebol naqueles dois anos. Quando sentiu pela primeira vez que se calhar dava para fazer vida do futebol? Quando estava nos juniores, o treinador dos seniores via sempre os nossos treinos porque eram antes do dos seniores. E um dia ele chamou-me para treinar com eles. Comecei a treinar com eles, ele acabou por dizer que queria que eu ficasse na equipa sénior. Expliquei-lhe que o treino acabava muito tarde, que tinha escola no dia seguinte, e ele disse-me: "Não te preocupes que vou-te dar €120 por mês para comprares o passe, para te ajudar aqui nas coisas que possas vir a precisar." Tinha 16 ou 17 anos e aí comecei a achar que se calhar podia dar alguma coisa. Tinha algum ídolo no futebol? Gostava muito do Luís Figo. Mas quando o Cristiano Ronaldo vai da Inglaterra para Espanha comecei a segui-lo, porque, querendo ou não, era um jogador que vinha do nada e estava a conquistar o mundo. Um dos primeiros troféus de melhor marcador que o extremo ganhou, em 2006 Matilde Fieschi Quando começaram as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios? Fui pai do Diego, aos 18 anos. Não fiquei com ligação a essa namorada, ela acabou por ficar grávida, foi um período um bocado conturbado. Não assisti ao parto e não o conheci logo, mas depois as coisas ficaram normalizadas e acompanhei o crescimento dele até hoje, vai fazer 18 anos no próximo ano. As saídas foram mais intensas quando cheguei aos seniores do Beira-Mar de Almada, porque treinava à noite, tinha muitos amigos no Monte da Caparica, saía ao fim de semana e muitas das vezes durante a semana também. Ainda não era profissional, não era nada. É nessa altura que deixa a escola? Não, fiquei dois anos nos seniores do Beira-Mar de Almada e quando subimos à primeira distrital fui treinar ao Torreense que era o clube da minha terra, uma vez que sou de Torres Vedras. Foi ao Torreense por sua iniciativa? Não, foi porque houve alguém ligado ao clube que falou com o meu pai. Porque o meu pai quando percebeu que comecei a jogar futebol e tinha alguma aptidão, alguma qualidade, demonstrou-se sempre muito orgulhoso. E há alguém do clube que pede para eu ir treinar o Torreense, à experiência. Fui e fiquei. É quando assina o seu primeiro contrato profissional? Não, só no ano seguinte, porque quando fui para o Torreense, que estava na II B, alternava entre a equipa B e a equipa de seniores. Hugo, em casa, na semana em que foi entrevistado por Tribuna, mostra algumas das camisolas que vestiu Matilde Fieschi Voltou a viver com o seu pai em Torres Vedras? Sim e é aí que deixo a escola. Inicialmente fiz alguns jogos na equipa B, acabei por fazer jogos na antiga Liga Intercalar, à quarta-feira. Recebia €350. A época terminou, o Torreense desceu e fomos para a III Divisão. Fui emprestado ao Encarnacense, um clube que era mais ou menos uma filial do Torreense. Foi o treinador Paulo Torres que assumiu a liderança no Torreense e não contava comigo. Faço uma época muito boa, marquei vários golos, joguei sempre e acabei por ir para o Odivelas onde, aí sim, assinei o primeiro contrato profissional. Antes não esteve num clube de Chipre? Sim, nesse ano do Encarnacense fui ao Chipre através do amigo, o Cafú, futebolista também, que era do Monte da Caparica. Quando saí do Torreense para o Encarnacente, voltei a viver no Monte da Caparica. Como foi essa curta experiência em Chipre? O primeiro impacto foi perceber que estava a sair de Portugal para jogar futebol noutro país, onde ia ganhar muito mais dinheiro: €1500. Era uma equipa da II Divisão, Anagennisi Deryneia. O futebol era do nível de uma II B, em Portugal. Fiquei sempre em casa do Cafú, que me deu muitos conselhos. O irmão dele também vivia connosco e acabava por ser o meu “motorista”, porque eu ainda não tinha carta. Senti pela primeira vez a sério que podia ser jogador de futebol. Sempre que passeava na rua íamos almoçar ou jantar, as pessoas estavam constantemente a pedir para tirar fotos com o Cafú, a chamá-lo para dar autógrafos e aquilo deu-me o entusiasmo de perceber que se calhar podia conseguir vir a alcançar aquele nível. Mas aqueles seis meses em Chipre foram difíceis devido à distância, sobretudo do meu filho, e à barreira linguística, porque não falava inglês. Mas, fora isso, durante aquele tempo deu para aprender o inglês básico. Assinou por quanto tempo? Só tinha feito um contrato de seis meses. Nas férias voltei a Portugal e o treinador do Odivelas, o João Raimundo, ligou-me. Pagavam-me €1000 mil euros. Era uma diferença de €500, mas como tinha sido pai gostava de estar mais presente e acabei por ficar cá. É aí que assino o meu primeiro contrato profissional em Portugal. Em 2010, Hugo representou o Odivelas, da III Divisão D.R. Mas não ficou essa época toda no Odivelas, pois não? Fiquei até dezembro, depois o presidente do Odivelas chamou-me para me dizer que um presidente lhe ligou a pedir um ponta de lança e perguntou-me se gostava de ir para a Madeira. Porque não? Até me pagavam mais €250 euros. Pensei, vou viajar para fora do continente, vou ser profissional de futebol, vou treinar todos os dias, vou focar-me só no futebol. Na altura o Odivelas já estava em vias de acabar, ele avisou-me que estavam com alguns problemas e acabei por aceitar. Vai para o Portosantense, da III Divisão da série da Madeira. Gostou dessa experiência? Gostei muito. Tinha lá alguns amigos do futebol, nomeadamente o Hélder Tavares, do Tondela, que me ajudaram na adaptação. Vivíamos todos no prédio que o clube tinha, com três andares, e onde havia vários quartos distribuídos pelos pisos. Fiquei cinco meses e em 21 jogos acabei por fazer 12 golos. Começaram a abrir-se as portas. Eu já conhecia o atual presidente do Vitória de Guimarães, o António Miguel Cardoso, através de uns amigos, que também estava a entrar no ramo do futebol. Ele falou-me da hipótese de ir à experiência ao Independiente del Vale, do Equador. Perguntou-me se queria ir, disse que não me importava. E que tal? Era um futebol totalmente diferente, estamos a falar da América do Sul, era muito físico e agressivo. Fiquei três semanas. Fui para ganhar 7 mil dólares, mas como fui à experiência, após a minha jornada de treinos, apresentaram-me uma proposta mais baixa. Acabei por vir embora. Mas posso dizer que enquanto lá estive fiquei hospedado no hotel onde estava a seleção do Equador. Isto foi em 2011. Muitas vezes apanhava o elevador para ir almoçar ou jantar e cruzava-me, por exemplo, com o Antonio Valencia, do Manchester United. Depois até acabei por acompanhar muitos jogos da seleção do Equador. Firmino (à direita) ao lado do brasileiro Leonardo Oliveira, no Portosantense, em 2011 D.R. Regressou a Portugal e foi jogar para onde? Para o Moura Atlético Clube, que surgiu através de um empresário cabo-verdiano, que estava a formar a equipa no Moura e precisava de um extremo, um jogador versátil que fizesse as posições da frente. Como eu tinha apresentado bons números no Portosantense, ligou-me. Quando me ligou a primeira vez eu ainda estava no Equador. Disse-me que se voltasse para Portugal, tinha um clube interessado em mim. Quando voltei, ele foi ter comigo ao Monte da Caparica, diz-me que tem um clube da II B, que me pagava €750. Disse-lhe que por aquele valor não ia, ele acabou por discutir os valores com os responsáveis do clube e conseguiu €1000. Acabei por ir para o Moura, tivemos uma boa prestação na Taça de Portugal, jogámos com o Vitória de Guimarães e até ao minuto 90 estivémos a ganhar por 1-0. Fiz uma prestação muito boa. Na altura o treinador do V. Guimarães era o Rui Vitória. O Vitória acabou por marcar o golo do empate aos 90 minutos e depois marcou novamente no prolongamento, aos 119 minutos. No dia seguinte, tinha 20 empresários de todo o país a ligarem-me. Todos queriam trabalhar comigo. Acabou por regressar ao Torreense. Porquê? O Moura estava a fazer uma boa campanha na II B, onde o Torreense era o 1º classificado. Temos um jogo em casa com o Torreense e perdemos 5-0. Mesmo assim tenho uma prestação muito boa e o treinador do Torreense, o mister António Pereira, conhecido como o Mourinho dos pobres, contactou-me. Fui ganhar mais um pouco, cerca de €1300 e é aí que sinto aquela pressão de quem está nos primeiros lugares a lutar pela II Liga, que era o grande objetivo do Torreense. Ainda faço uns 15 jogos no Torreense. O extremo (1º em baixo à direita) no 11 do Portosantense D.R. Mas não conseguem subir. Infelizmente, não. Ficámos em 2º lugar, só subiu o Fátima. Entretanto, surge a primeira abordagem para eu ir para Angola, através do Nuno Martins, que estava a trabalhar diretamente com o Interclube de Angola. Tenho familiares angolanos e naquela altura os jogadores que iam para Angola eram todos descendentes da cidadania angolana, porque não eram considerados estrangeiros. O Nuno Martins diz-me que ia ganhar 3500 dólares. Era mais do dobro do que ganhava em Portugal. O mais engraçado é que antes de assinar falam-me de luvas. Ouvi: “Ele tem as luvas para receber também.” As luvas? Pensei, aqui está sol, está um calor enorme, não vou precisar de luvas. Eu não sabia o que eram as luvas [risos]. Acabaram por explicar-me que as luvas eram um prémio da assinatura. Percebi que ia ganhar dinheiro em Angola e já não ia querer sair de lá. Ainda por cima, quando saí do Torreense tinha sido pai novamente, do meu segundo filho, o Enzo. Hugo (à esquerda) jogou em Angola 4 anos. Aqui em ação pelo Recreativo de Caála D.R. Da mesma namorada e mãe do Diego? Não, de uma outra relação, que acabou por ficar muito desgastada pelo facto de ter estado quatro anos em Angola. Ela nunca viajou para lá. Em Angola ia ganhar 3500 dólares e receber 25.000 dólares de luvas. Tinha os meus filhos e tinha de ajudar a minha mãe, que entretanto viajou para Angola porque teve uma proposta de trabalho. Ficou a viver consigo? Não. Eu vivia num hotel e ela vivia numa casa com as minhas tias. Estávamos muitas vezes juntos, mas não vivia com ela. Como foi o primeiro embate com África? Já ia com uma ideia formada sobre Angola? Cheguei ao final da tarde e senti um cheiro a poeira, um bafo, o calor era muito grande. Eram umas seis da tarde e estavam 37 graus. Quando saio do aeroporto, deparo-me com um trânsito caótico. O primeiro impacto foi com um país caótico, um calor enorme. Depois, África é África. Ainda no aeroporto vieram logo várias pessoas pegar nas minhas malas para levar para o táxi, quando eu nem sequer tinha pedido táxi nenhum. Toda a gente a chamar "vem para aqui", "não, eu levo-te". A minha sorte foi que o Interclube é o clube da polícia, é gerido pelo Ministério do Interior e já tinha pessoas do clube caracterizadas como polícias, à minha espera. Foi um choque aquela chegada. Depois com os anos fui percebendo Angola. E o futebol? Tive a sorte de ser treinado pelo mister Bernardino Pedroto. Era português, o adjunto também era português, o que me ajudou muito na adaptação. Fiz alguns bons jogos, mas acho que eles esperavam um pouco mais de mim. Aqueles cinco, seis meses, foi um bocado a adaptação àquilo que era o futebol angolano, foi a primeira vez que joguei com o estádio cheio, com 10 mil pessoas e em que as bancadas são muito próximas do campo. Sentíamos muito o calor dos adeptos. Intimidava? Sim, intimidava. Passei a sentir a pressão de jogar num clube grande, num estádio cheio, de não poder falhar um passe, porque em Angola se falhas um passe és logo assobiado. A equipa do Recreativo de Caála em que Hugo (2º atrás à direita) jogou D.R. Deve ter muitas histórias para contar de Angola. Algumas. Posso dizer que, por exemplo, o Interclube está situado no meio do bairro do Morro Bento. Antigamente não existiam muros à volta do estádio, então muitas das vezes, quando saíamos do treino com o nosso lanche, tínhamos cerca de 20, 30 crianças, algumas delas bebés de fralda, a pedir a comida. Foi uma das coisas que mais me chocou. Claro que, com o tempo, fui-me adaptando, mas inicialmente eu tinha de dividir o lanche, tinha de dar um bocado de sumo a cada uma. Os meus colegas é que começaram a dizer-me para não fazer isso porque senão eles nunca mais me deixavam. A realidade é que já ninguém lhes dava, havia indiferença. Eu vinha de Portugal, não estava habituado àquilo e fazia-me muita confusão. Tinha pena. Acabou por vestir a capa da indiferença também? Com o passar do tempo, sim. Claro que se tivesse de dar, dava, mas já não dava a muitas das crianças porque percebia que aquilo era o normal. O anormal era eu dar. Segundo diziam, muitas das crianças pediam e estragavam, ou iam dar aos pais, porque havia muito mais facilidade de dar a uma criança do que ao adulto. Em Angola, Hugo e a sua equipa fizeram doação a um orfanato D.R. Do que mais gostou em Luanda? Gostava muito do clube porque senti a atmosfera de jogar com o estádio cheio, de sair do treino e as pessoas reconhecerem-me na rua. A Ilha do Mussulo, que é considerada paradisíaca, muita gente vai para lá passar os fins de semana. Comecei a fazer amizades, a conhecer mais a cidade, a frequentar algumas festas. O balneário, muito diferente do português? Nós estagiávamos no clube, o Interclube tinha duas salas grandes cheias de beliches. Cada um estava no seu beliche, mas estávamos todos nessas salas que eram consideradas balneários. Mesmo antes do jogo, equipávamos no beliche, algo totalmente diferente de Portugal. Quanto ao ambiente, fui bem recebido, mas havia… Não quero dizer inveja porque é uma palavra muito forte, mas acredito que havia ali alguma facilidade em achar que o jogador português ia para Angola para tirar o que era deles. Mas isso também senti na Arménia, na Roménia, em Chipre. Em 2014, Hugo Firmino começou a representar o Kabuscorp de Luanda D.R. Não continuou no Interclube e foi para o Recreativo de Caála porquê? Porque o mister Bernardinho Pedroso acabou por sair, eu acabava contrato e um dos jogos em que estive muito bem foi contra o Recreativo da Caála, que era gerido por portugueses. Fui para o Huambo, o mister era o Ricardo Formosinho. Viver no Huambo foi muito diferente de Luanda? Sim. Uma cidade mais tranquila, muito menos gente, quase não havia trânsito. Eu ia treinar sempre de mototáxi. Uma província muito mais parecida com o que estávamos habituados em Portugal, chovia mais, fazia frio, tinha muitos restaurantes portugueses, de imigrantes que estavam em Angola a melhorar a vida. Tive colegas como o Mangualde, o Jorge Vidigal, o Nuno Martins que hoje é empresário de futebol da JN Sport. E histórias para contar dessa época no Recreativo? Sempre que íamos para Luanda íamos de avião, mas quando regressávamos ao Huambo fazíamos 12 horas de viagem de autocarro. O avião era de hélices e aterrámos muitas vezes em campos de terra batida. Lembro-me de chegar a pousar numa zona que nem aeroporto tinha, era uma zona de terra batida. Como não tinha iluminação, para levantar voo tinha que estar de dia, porque à noite já não conseguíamos viajar. Sentiu no Huambo mais efeitos da guerra civil do que em Luanda? Sim. No Huambo vi prédios totalmente destruídos. Havia uma zona em que não se podia circular muito, era a zona da casa de Jonas Savimbi e estava tudo vedado. Hugo com várias crianças em Angola D.R. O clube era melhor ou pior que o Interclube? Não faltava nada, mas era diferente, não tinha estádio próprio, só teve no ano seguinte, treinávamos num estádio municipal e as pessoas iam todas ao estádio. Era um estádio cercado com rede, comecei a perceber que os taxistas que nos levavam para o treino eram adeptos e sentavam-se nas motas atrás da rede a ver os jogos [risos]. Todas as equipas em Angola têm muitos adeptos, não só em Luanda. O jogo estava sempre com muita gente. O clube era muito organizado. O facto de haver pessoas do futebol português em Angola fazia a diferença. É à conta da época que faz no Recreativo de Caála que vai para o Kabuscorp, de Luanda, em 2014? Exatamente. Na altura o Kabuscorp tinha um jogador português, o Hernâni Tomás, e o treinador era o búlgaro Edouard Antranik, que já tinha treinado algumas equipas em Chipre. No Recreativo da Caála eu tinha feito cinco golos e 19 assistências, é por esses números que vou para o Kabuscorp. Eles não sabiam que eu jogava como angolano, conheciam-me apenas como português e o facto de ser angolano facilitou muito a minha entrada no clube. Foi ganhar mais? Os dois anos que estive no Kabuscorp foram aqueles em que ganhei mais dinheiro no futebol. Posso dizer que fui ganhar 250 mil dólares por ano. Quando chegou conquistou logo a Supertaça. Sim. É o meu primeiro título no futebol. Ainda tinha contrato com o Recreativo de Caála, só que o presidente do Kabuscorp, como era uma pessoa muito influente no país, teve uma reunião com o presidente do Recreativo e acertaram a minha saída. Fiquei muito contente porque o Kabuscorp em vez de pagar mensalmente, pagava metade do ordenado quando assinávamos o contrato, e quando começava a segunda volta, pagava a outra metade. Fui viver com o Hernâni, o jogador português. Tínhamos uma casa perto da ilha de Luanda, pagávamos €5000 por mês, um valor exorbitante. Mas éramos três: eu, o Hernâni Tomás e o Cláudio Borges, da Boost Academy, uma empresa que agora faz o pré e o pós-época. Hugo na sua casa, em Fernão Ferro, no dia do seu aniversário Matilde Fieschi Nessa altura deslumbrou-se ou aplicou o dinheiro? Deslumbrei-me um bocadinho. Assinei no final da época, fui para Portugal de férias e gastei logo €30.000 nessas férias. Hoje jamais o faria, só que estava deslumbrado, ganhávamos muito dinheiro no Kabuscoorp, o prémio por jogo era de 7 mil dólares, conseguíamos viver só com os prémios de jogo. Mas dentro daquilo que foi o meu deslumbramento também consegui ajudar muita gente. Refere-se a familiares? Familiares, amigos, a realidade é que depois há muita gente a bater-te à porta. Cheguei a Portugal e comprei um Mercedes de €40.000. As pessoas percebem o nível de vida que estamos a conseguir atingir e a partir daí nascem os pedidos. Não só de familiares, porque de familiares foi uma ou duas pessoas que me acompanharam no meu crescimento e que depois me pagaram. Esteve duas épocas no Kabuscorp, mas na segunda não jogou muito, porquê? Porque o treinador foi embora. Em 2014, ganhámos a Supertaça... Agora me recordo que já tinha ganho uma Supertaça no Interclube, só que não joguei, porque tinha acabado de chegar ao clube, mas na Supertaça do Kabuscorp, joguei. Embora tivéssemos um jogador que era o abono de família, o Meyong. Ele fez muita diferença, a equipa jogava muito para ele. Entretanto, o treinador búlgaro foi embora em maio e entrou um treinador angolano, que levou alguns jogadores e acabou por não contar comigo. Cheguei a acordo, mas ficaram a dever-me 300.000 dólares. Já lhe pagaram? Não. O presidente do clube tinha muita influência, conseguia dar sempre a volta às situações. Ainda meti o acordo na FIFA, o clube foi sancionado depois, mas nunca recebi esses 300.000 dólares e provavelmente não vou receber. Depis de Angola, Hugo Firmino (à esquerda) regressou a Portugal onde jogou pelo Oriental Gualter Fatia Tem mais alguma história que possa partilhar antes de fecharmos este capítulo sobre Angola? Em todos os clubes onde estive jogámos sempre competições africanas. Por exemplo, com o Kabuscorp fui jogar ao Burundi, um país muito pequeno de África, e meteram-nos em hotéis que não tinham ar condicionado, um calor enorme, tínhamos de dormir no chão porque o azulejo é que estava fresco. Lembro-me de fazermos várias viagens de autocarro porque havia províncias que não tinham mesmo aeroporto e, muitas das vezes, o autocarro fazia paragens e em certas lugares onde víamos vários animais exóticos, macacos, zebras, girafas, elefantes, parecia que estávamos num safari. Joguei a Taça das Confederações CAF tanto no Interclube como no Recreativo e, no Kabuscorp, joguei Liga dos Campeões Africana. Como surgiu o Oriental em 2015/16? Vim para Portugal com uma vida financeira estável e fui para o Oriental através de um jogador que esteve comigo no Recreativo da Caála e que estava a dar os primeiros passos na vida de empresário. Fui ganhar €1150 euros na II Liga. O treinador João Barbosa gostava muito das minhas capacidades. Foi aí que comecei a jogar nos campeonatos profissionais em Portugal. Começámos bem a época, estamos a falar de uma II Liga muito competitiva, com 24 equipas, entre elas as equipas B do SC Braga, Vitória, Sporting, Benfica e FC Porto, que tinham sempre alguns dos jogadores da equipa principal que não tinham muitos minutos. A dado momento as coisas não estão a correr bem, o treinador saiu, assumiu o mister Litos, que também não conseguiu mudar as coisas, e veio o Jorge Andrade, o antigo internacional. O extremo (à direita) em jogo peloOriental Gualter Fatia O que achou dele enquanto treinador? Ser jogador de futebol é uma coisa, ser treinador é outra, mas gostava muito da sua frontalidade. Só que é nesse ano que existe aquela situação dos jogos combinados e o Oriental acabou por ser muito castigado por suspeitas de ter alguns jogadores envolvidos nisso. Apercebeu-se alguma vez de algo? Não. Nunca fui abordado, nunca percebi o que se estava a passar. Só houve um jogador que acabou por ficar preso, em prisão domiciliária, não vale a pena referir o nome, mas o clube acabou por ser muito prejudicado pelas suspeitas. Só tinha assinado por uma época? Sim. Fiz uma época muito boa, estava a crescer, a amadurecer e assinei com os meus empresários atuais da M&M Sport, do Fernando Meira. É quando surge uma oportunidade para o AEL Limassol, do Chipre. Voltei ao Chipre através de um colega do Oriental, o Bernardo Vasconcelos, que nessa altura largou o futebol e começou a carreira de empresário. Babanco, Hugo e Wellington Silva foram apresentados no AEL Limassol em 2016 D.R. Chegou a estrear na I liga cipriota pelo AEL Limassol? Não. Porquê? Quando cheguei ao Chipre ia com um contrato muito baixo. Estamos a falar de €4000. Percebi que os jogadores que lá estavam ganhavam mais do que eu, mas quem ia jogar era eu, o treinador confiava em mim. Fomos para o estágio de pré-época, joguei todos os jogos, fiz vários golos contra várias equipas da Grécia, da Bulgária, e senti que ia ter um papel preponderante na equipa. Estamos a falar de uma equipa recheada de qualidade, Marco Airosa, Marco Soares, o Babanco, o Vozinha, que está no Chaves, todos os jogadores que já tinham jogado em Portugal. Falei com o clube para haver uma renegociação do contrato, eles rejeitaram, disseram que o contrato já estava assinado e que apesar do treinador contar muito comigo tinha de demonstrar um pouco mais em campo. Percebi que ia ser muito mal pago relativamente aos outros jogadores e pedi para sair. Está arrependido dessa decisão? Estou. É das coisas que mais me arrependo, porque estamos a falar de um clube enorme, em que no primeiro treino de apresentação aos sócios estavam 3000 pessoas a assistir, com fumos, petardos. Era um grande clube de uma primeira liga europeia. O extremo na apresentação aos sócios do AEL Limassol D.R. Quando saiu não tinha clube? Não. Quando saí tive um problema com a minha segunda namorada, mãe do meu segundo filho. Ela queria terminar a relação, estava muito desgastada com o facto de eu estar sempre fora de Portugal, porque estive no Oriental naquele ano, foi bom, mas a realidade é que as pessoas habituam-se a estarmos sempre em casa, sempre presentes. Essa foi uma das razões que levou também a que eu acabasse por sair. Vim embora para Portugal sem nada. Mas a época que tinha feito no Oriental foi boa, com 44 jogos, alguns golos, várias assistências e por isso havia clubes que me tinham referenciado. Passado dois dias recebi uma chamada de um clube, porque saiu nos jornais que eu tinha rescindido. Do União da Madeira? Sim, que tinha descido da I para a II Liga. Foi uma segunda aventura na Ilha da Madeira. Só que, aí, já no Funchal. Um clube maior, com condições boas. Gostou mais de viver no Funchal? Muito mais. Apesar de não ser igual às grandes capitais da Europa, não faltava nada no Funchal, a comida era muito boa e o clima também. Em novembro ia à praia. Vivia num condomínio com boas condições. Um clube totalmente estruturado. Mas não ficou a época toda. Porquê? O clube começou a ter dificuldades financeiras, a falhar os pagamentos em novembro. Fiquei até ao último jogo de dezembro, voltei para Lisboa para passar o Natal já com a rescisão feita. O clube aceitou que saísse. Era muito bem pago, recebia €5000 e o União da Madeira estava com dificuldades, porque entre II Liga e a I Liga há uma grande diferença de orçamento. Os direitos televisivos na I Liga são totalmente diferentes dos da II Liga. Muitos clubes da I Liga são sustentados pelos direitos televisivos. Spoiler “Na Roménia, antes da apresentação, vejo os jogadores romenos a beber vinho ao almoço e jantar. Perdemos e vieram hooligans ao autocarro” O extremo Hugo Firmino conta nesta parte II do Casa às Costas como foram as experiências na Roménia, no Chipre e na Arménia, onde foi campeão e eleito melhor jogador do campeonato, entre outras passagens por clubes portugueses da II Liga, Liga 3 e Campeonato de Portugal. Pai de três filhos de relacionamentos diferentes, revela que já está a preparar-se para ser treinador ou diretor-desportivo, mas que só pensa em pendurar as chuteiras daqui a dois anos Como foi parar ao Gil Vicente em 2016/17? As minhas prestações tinham sido boas no União da Madeira e surgiu o Gil Vicente, um dos melhores clubes onde joguei. Que estava na II Liga. Sim, naquela situação de não saber se ia para a I Liga, devido ao caso Mateus. O treinador era o Álvaro Magalhães. Como foi trabalhar com Álvaro Magalhães? Foi muito simples. É um treinador à moda antiga, um treinador de muita gritaria, mas também de muita facilidade na passagem da mensagem. Tínhamos uma equipa muito boa. Encontrei na equipa o Vozinha e o Paulinho, jogador do Sporting, que agora está no México. Quando cheguei, peguei de estaca. Comecei logo a jogar, fiz alguns golos nos primeiros jogos. Aliás, no meu primeiro jogo fiz o golo da vitória por 1-0. Vivia sozinho em Barcelos? Não, vivia mais um colega, o Pedro Marques, numa casa com todas as condições, perto do estádio. Tem histórias para contar do Gil Vicente? Tínhamos aquelas histórias caricatas do António Fiúza, o mítico presidente do Gil Vicente. Lembro-me por exemplo dele não conseguir fazer o pagamento dos salários e de dizer-nos: "Não se preocupem que vou ao banco pedir um crédito pessoal, vou atravessar-me por vocês, gosto muito de vocês." Estamos a falar de uma pessoa que dava tudo pelo clube, quando não havia dinheiro fazia créditos pessoais. Tinha empresas e acabava sempre por pagar os créditos, mas não sabíamos como é que conseguia pagar o crédito mês após mês. Em 2016/17 Hugo Firmino (com a bola) assinou pelo Gil Vicente D.R. Chegou em janeiro e não ficou para a época seguinte. Porquê? Tinha assinado ano e meio, mas no final desse ano o mister João Barbosa, que estava no Cova da Piedade, que tinha subido à II Liga e tinha um investidor chinês, falou comigo. O clube tinha muitas condições financeiras e quando o Cova da Piedade foi jogar a Barcelos ganhámos 2-0, fiz um grande jogo, duas assistências e no final ele conversou comigo, perguntou-me se estava interessado em ir para lá. O Cova da Piedade era no centro da cidade de Almada, podia estar perto dos meus filhos e acompanhar a escola. A partir daí já só pensava em ir para o Cova de Piedade, mas tinha de me apresentar na nova época do Gil Vicente. Eu não queria lá ficar. O treinador era o Jorge Casquinha, com quem não me identifiquei muito naquilo que era o seu cunho pessoal, em termos futebolísticos. Porquê? Ele tinha boas ideias, mas um treinador não pode ser só um treinador, tem de ser um bom gestor de seres humanos, tem de ser boa pessoa. Há muitos treinadores que não têm grande qualidade como treinadores, mas o facto de serem boas pessoas conseguem meter os jogadores todos a correr para ele. Forcei ao máximo a saída para o Cova da Piedade, que acabou por entrar em acordo com o Gil Vicente, pagaram acho que 70 e tal mil euros. Como foram esses dois anos no Cova da Piedade? Muito bons. Estamos a falar de um clube que independentemente de não ser muito conhecido nas competições profissionais em Portugal, era um clube com muitos recursos financeiros. Fazíamos estágio quando jogávamos fora e em casa, tínhamos prémios de jogo muito bons; um dos diretores do clube era o Edgar Rodrigues, que tinha sido meu diretor-desportivo no União da Madeira. Hugo (2º atrás à esquerda) no 11 do Gil Vicente D.R. Em duas épocas teve seis treinadores. Com qual se entendeu melhor? Tive o João Barbosa e depois o Bruno Ribeiro. Entendi-me super bem com eles, jogava sempre. Na segunda época comecei com um antigo treinador, o Eurico Gomes. O que é que posso dizer? É um treinador com ideias muito antigas. O futebol está sempre em evolução e enquanto pessoas do futebol, tanto treinadores, como jogadores, temos de estar abertos a novas ideias. O adjunto dele era o Hugo Falcão, que acabou por ficar como principal quando o Eurico Gomes é despedido. Um treinador jovem, eu era mais velho que ele, mas com muita qualidade, boas ideias, não repetia um treino. Mas também não ficou muito tempo. Porque houve alguns jogos que não ganhámos, tivemos um jogo na Póvoa do Varzim em que por acaso até faço golo, mas perdemos 2-1 e na viagem já se falava que o Hugo ia acabar por ser despedido. Entrou o Miguel Leal e foi sem dúvida dos melhores treinadores que tive na carreira. Para além de treinador, era professor de psicologia, ouvia todos os jogadores, tinha conversas individuais, era bom ser humano. Já tinha muitas provas dadas no futebol português, já tinha treinado o Boavista, o Moreirense, o Penafiel… Estava muito bem acompanhado, tinha dois treinadores adjuntos, um deles tinha sido jogador dele no Penafiel, o Hélder Ferreira, que eram bons, pessoas interventivas no treino. O Miguel Leal acabou por ser uma lufada de ar fresco para o Cova da Piedade. Conseguiu o objetivo que era a manutenção, nunca houve outros objetivos mais além disso. Entretanto, terminava o contrato. Sim. Depois de ter feito o segundo ano no Cova da Piedade cheguei a ter sondagens da I Liga. De onde? Do Vitória de Setúbal, falou-se também do Tondela. Só que eu ganhava mais dinheiro na II Liga do que na I, por incrível que pareça. No segundo ano no Cova da Piedade eu ganhava €6500 euros e o Vitória de Setúbal só pagava €3000. Isto foi uma das coisas que fez com que não me estreasse na I Liga, um dos meus sonhos, jogar no campeonato principal do meu país. Mas sempre conduzi a minha carreira pela vertente financeira, todas as decisões que tomava eram em prol do dinheiro que poderia ganhar. Não cheguei a estrear na I Liga no Vitória de Setúbal exatamente por ter rejeitado a proposta. Em 2017, Firmino (à direita) vestiu a camisola do Cova da Piedade a primeira vez Gualter Fatia E como, no meio disso, foi parar à Roménia, em 2019? O Cova da Piedade queria renovar comigo, só que tive uma proposta de três anos de contrato, da Roménia, em que no acumulado desses três anos devia ganhar à volta de €300.000. Valores que em Portugal possivelmente nunca iria ganhar. Está a falar do Universitatea Cluj? Exatamente. Um clube histórico da Roménia que na altura foi relegado para a segunda liga devido a resultados de jogos combinados. Houve uns problemas quaisquer relativamente a isso no país e o clube foi para a segunda liga e, quando isso aconteceu, acabei por rescindir o contrato porque tinha feito um contrato alto, de primeira liga, supostamente era para jogar na primeira. Esteve na Roménia quanto tempo então? Dois meses. Chegou a jogar? Fiz um jogo. Posso dizer que a história mais caricata que tenho da Roménia é quando vamos para o estágio do primeiro jogo de apresentação, que perdemos com o PAOK do Abel Ferreira, vejo os jogadores romenos a beber vinho ao almoço e ao jantar. Algo impensável para nós. Fiz um jogo na segunda liga porque estava em processo de desvinculação. Perdemos 1-0. Quando chegámos a Cluj, o autocarro parou em frente ao estádio, íamos a sair para cada um ir para os seus carros, mas estavam adeptos do clube à nossa espera e entraram dentro do autocarro. O extremo (1º à esquerda) num 11do Cova da Piedade na época 2017/18 D.R. O que fizeram? Agrediram um jogador romeno, disseram que ele não tinha qualidade para vestir aquela camisola. Quando entraram no autocarro. olharam para mim e disseram "Tu não." Eles sabiam muito bem com quem queriam tirar satisfações. Acabámos por nos meter, pedimos calma porque as coisas não podem ser feitas assim, mas estamos a falar daqueles adeptos tipo hooligans, carecas, com 100 quilos, grandes. Pura e simplesmente mandaram o motorista parar o autocarro, entraram, tiraram as satisfações e saíram. Conseguiu a rescisão e depois? Antes de vir embora já estava a negociar com alguns clubes em Portugal. Que clubes? Com o Penafiel, porque o treinador era o Miguel Leal, e com o Estoril Praia, cujo diretor-desportivo era o Pedro Alves, que tinha sido meu colega no Torreense e tinha estado no Oriental. O valor do ordenado entre o Estoril e o Penafiel era muito idêntico, por isso preferi ficar no Estoril. Estava perto de casa, perto dos meus filhos. Em 2019/20, Hugo assinou pelo Universitatea Cluj, da Roménia D.R. O que pode dizer sobre o Estoril Praia? Um clube incrível. Acho que muita gente não tem noção daquilo que é o Estoril. O clube sobe de divisão e depois o Pedro Alves acabou por sair do Estoril, mas deixou aquele clube incrível. É um clube muito bem estruturado, instalações top, ginásios, não faltava nada. Sou contratado como extremo-direito, o mister é o Tiago Fernandes, mas entretanto os dois laterais direitos magoaram-se. Um acabou por ser operado e o outro tinha uma paragem longa. O mister perguntou-me se podia jogar a lateral direito. Disse que sim, porque lá atrás, no Almada Atlético Clube, quando fui treinar à experiência, fui como lateral direito. Praticamente todos os jogos que faço no Estoril é como lateral direito. Entretanto, surgiu a pandemia. Teve covid-19? Tive no pós-época, nas férias. Acabava o contrato com o Estoril Praia, porque só assinei um ano, tive uma proposta do Alverca, da Liga 3, mas não queria. Se não fosse para jogar a II Liga em Portugal, preferia ir para fora. Na altura em que estou em casa, o meu empresário ligou-me a perguntar se queria ir para o DOXA, de Chipre. Aí já estava a namorar com a minha atual mulher. Que se chama? Márcia. Conhecemo-nos através das redes sociais quando estava no Estoril Praia. O que ela faz profissionalmente? É influencer digital, trabalha com internet. Estamos juntos há quase sete anos e temos agora uma menina de três meses, a Serena. Mas, dizia eu, quando estou para a ir para Chipre, tive de fazer um teste covid-19 para poder viajar e descubro que tenho covid-19. Nem sabia. Tinha de ficar em casa. Eu tinha assinado o contrato em Portugal, mas o clube já estava a treinar há duas semanas e eu queria muito ir para lá. Só que estava sempre a testar positivo. Até que em conversa com amigos, um deles diz-me que cheirar vinagre antes de fazer o teste, fazia com que desse negativo. Não custava tentar. Marquei um teste do covid-19 e no carro, antes de fazer o teste cheirei vinagre preto balsâmico, fiz o teste e deu mesmo negativo. Consegui viajar para Chipre. O problema é que não sabia que à minha chegada fazia logo outro teste [risos]. Assim que fiz, acusou positivo. Fiquei 14 dias dias num hotel, vigiado por médicos em que fazíamos testes ao covid-19 dia sim, dia não. Como passava o tempo? A ver Netflix, na internet. Na altura chegou outro jogador português, o Gilson Costa, das escolas do Benfica, que também acusou positivo e ficou nesse hotel. Eu estava numa torre do hotel, ele estava na torre em frente e conversávamos pela janela. Em 2020, o extremo regressou a Portugal para jogar pelo Estoril-Praia D.R. Conseguiu estrear na I Liga cipriota? Sim, nesse ano, no DOXA, joguei. A Márcia foi ter comigo e ficou lá três meses. Eu fui contratado pelo Kostas Karavidas, o mesmo que me tinha contratado para o AEL de Limassol. Uma pessoa muito conhecida no Chipre por ter influência em todos os clubes. O treinador aceitou, porque o presidente mandou, ele é que contratava os jogadores e o treinador só estava ali para treinar. Joguei 14 ou 15 jogos, fiz alguns jogos sempre a entrar. Quando jogava a titular tinha uma boa prestação, mas no jogo a seguir ia para o banco e não conseguia perceber o que se passava. Foi isso que fez com que pedisse para sair. A sua mulher adaptou-se bem ao Chipre? Estava totalmente adaptada. O presidente disse-me que deixava-me sair, mas só no final de dezembro. Tínhamos um jogo a 22 de dezembro, dia dos meus anos, e outro a 26. A minha mulher já tinha viajado para Portugal e acabei por passar os anos e o Natal sozinho, em casa. Tinha perspetivado vir para Portugal antes do Natal, mas pronto. Passei a consoada sozinho. No dia 25 acabei por estar com alguns jogadores portugueses, no dia 26 tivemos o jogo e após o jogo fiz a rescisão do contrato e vim logo embora. Sem clube ainda? Quando venho embora já tenho tudo acertado com o Cova da Piedade. O treinador era o António Pereira, com quem ainda mantenho uma grande relação de amizade. Assinei até ao final da época 2020/21. Voltei a ter boas prestações, a jogar sempre, a fazer golos. E surgiu aquela que foi a minha última aventura no estrangeiro, na Arménia. Ainda em 2020, Hugo assinou pelo DOXA do Chipre D.R. Quando lhe falaram no Pyunik da Arménia, torceu o nariz? Não, porque quando acabei a época no Cova da Piedade tive algumas sondagens, mas não havia nada concreto. O tempo começou a passar e sou uma pessoa que gosto das coisas claras, e que fiquem logo tratadas. Gosto de iniciar a época no clube, gosto de me apresentar, de partir no mesmo grau de igualdade que os outros. E, na altura, um empresário português, com o qual nunca tive ligação, perguntou se eu estava livre. Disse que sim, e ele diz: "Tenho aqui um pedido de um ponta de lança para a Arménia. Sei que és extremo, mas sei que já jogaste a ponta de lança." Como foi o choque com a Arménia? Inicialmente, não foi fácil. Em Portugal, em julho estão 36, 37 graus, é verão, está toda a gente na rua. Na Arménia, estamos a falar de um país que viveu muitos anos de guerra, que fez parte da antiga União Soviética, um país onde os prédios não têm cor, porque na guerra as cores dos prédios eram uma forma de identificar onde estavam os inimigos. Prédios de cimento, tudo cinzento. Hoje já não é tanto assim, está a evoluir. Os arménios são um povo muito fechado, não são de grandes sorrisos. Por isso, a primeira reação foi, vou voltar já para Portugal. Quando fiz o caminho do aeroporto até ao hotel vi um país pobre, muito escuro. Fiz os exames médicos, o diretor do clube levou-me para onde a equipa estava em estágio, umas montanhas onde não víamos ninguém, só chovia e eu pensava onde é que me vim meter? E, quando cheguei à Arménia, tive uma proposta do Vilafranquense. Ainda forcei a saída, mas já tinha assinado o contrato e o clube não me deixou sair. E ainda bem, porque foi talvez a minha melhor época de sempre ao nível dos números. Tive um treinador, Eghishe Melikyan, que hoje é o treinador da seleção da Arménia. Foi fácil lidar com ele? Não, não era fácil lidar com ele, mas era boa pessoa, protegia muito os jogadores estrangeiros porque sabia que davam-lhe a qualidade que ele precisava. A equipa tinha quatro ou cinco brasileiros, três venezuelanos e um português, eu. Mais tarde acabou por chegar o Caló Oliveira que esteve comigo no Chipre, na altura do Doxa. O treinador perguntou-me se eu tinha algum amigo jogador que fosse extremo e falei-lhe no Caló. Firmino (à esquerda) em jogo pelo DOXA D.R. Como era o futebol? Não era muito evoluído. Havia quatro equipas diferenciadas que tinham contratado mais estrangeiros. O Pyunik é o clube mais titulado da Arménia. Só que passou por uma reestruturação muito grande e já não ganhava o campeonato há oito anos. Ganhámos nesse ano. Fui o melhor avançado do campeonato, fui o melhor jogador do campeonato, fui campeão, e tenho uma abordagem da equipa rival, o FC Ararat. Esteve na Arménia sozinho? A minha mulher esteve lá muitas vezes. Que histórias nos pode contar desse período? O Pyunik era uma equipa que tinha muitos adeptos, comecei logo a fazer golos, então quando acabava os jogos ficava 10 minutos a tirar fotos, 10 minutos a dar autógrafos, ia jantar a muitos restaurantes e não pagava as contas porque os donos reconheciam-me e ofereciam o jantar. Chegámos a jogar com muita neve e sete graus negativos. Tínhamos dois campos relvados e dois campos sintéticos para treinar, o clube estava a investir nas infraestruturas, estava a crescer, o presidente era russo, pagava sempre a horas, nós sabíamos que recebíamos porque recebíamos mensagem do banco no telemóvel. Em 2020/21, Hugo regressou ao Cova da Piedade D.R. Só assinou uma época pelo FC Ararat? Sim. O FC Ararat apareceu através de um empresário romeno. Eles queriam que eu assinasse o contrato logo, só que ainda não tinha sido campeão, o campeonato estava em curso e disse que só assinava depois de ser campeão. Assinei porque independentemente do Pyunik estar a crescer, não reconheceu devidamente aquilo que fiz pelo clube. Tenho uma época de 30 jogos, 18 golos e quatro assistências, fazem uma proposta de renovação, faço uma contraproposta e a proposta de renovação que me fazem é ganhar apenas mais 2000 dólares. Achei que não era reconhecimento de alguém que tinha ajudado praticamente o clube a ser campeão. Estava constantemente a fazer os golos da vitória. Assinei com o FC Ararat, antes de ir para Portugal. Deu-me um prémio de assinatura de €20.000. Pagou-me o dobro daquilo que ganhava no Pyunik. E há um pormenor caricato. Pode contar? Fiz o contrato não em dólares, mas na moeda arménia, o drame. Com a situação da guerra entre a Ucrânia e a Rússia o drame valorizou muito. Ou seja, inicialmente ia ganhar €12.000 e passei a ganhar 14.000, 15.000 dólares, devido à valorização da moeda. Se tivesse assinado em dólares, era dólares, ponto. Com a situação da guerra acabei sempre por ganhar 2000, 3000 dólares a mais do que aquilo que era o meu contrato. Na época 2021/22, Hugo assinou pelo Pyunik, da Arménia D.R. Jogou competições europeias? Sim, Liga Europa e Liga Conferência pelo Ararat, mas confesso que jogar CAF foi mais impactante, porque joguei em estádios com 40.000 pessoas Como veio parar ao FC Penafiel, em 2023/24? Acabou a época na Arménia e quando voltei para Portugal, vinha com a ideia fixa de ficar em Portugal. Tinha mais duas propostas no estrangeiro. Da Geórgia, de um clube que era gerido por arménios, e de outro clube arménio, o Alashkert FC, de um acionista russo. Só que a minha mulher já estava muito cansada de estar sempre longe, tínhamos feito alguns investimentos no ramo imobiliário e independentemente de eu achar que devia voltar a emigrar, porque em Portugal não pagam o mesmo que no estrangeiro, decidimos que já tínhamos alguma estabilidade para voltar a viver em Portugal com uma qualidade de vida muito boa. Surgiu o Penafiel porque o treinador do clube era o Hélder Cristóvão, que defrontei muitas vezes quando era treinador do Benfica B. Ele queria um ponta de lança com as minhas características e é assim que fui para o Penafiel. Quais são as suas características de ponta de lança? Um ponto de lança móvel, que consegue procurar a bola no pé e na profundidade. Um ponto de lança que consegue jogar de costas para a baliza e segurar a bola, um ponta do lança com golo, porque a realidade é que nas duas últimas épocas na Arménia fiz à volta de 30 golos. O Penafiel era uma equipa que estava em reestruturação e também precisava de jogadores mais experientes. Eu era o jogador mais velho da equipa, tinha 34 anos. Em campo pelo Pyunik D.R. Esteve em Penafiel sozinho ou com a sua mulher? Sozinho, a minha mulher ia lá muitas vezes. Foi uma época em que fiz muitos jogos, não fiz muitos golos, mas na fase mais crítica da época acabei por ser preponderante. E o que aconteceu no final da época? Um ponta de lança tem que ter golos e não foi uma época que a nível de números tenha corrido tão bem e acabei por sair. Tive outras situações, mas já estava cansado de estar fora de casa e fui para o Amora FC, que estava no Campeonato de Portugal. O diretor do Amora contactou-me. Tive algumas propostas de Liga 3, mas era tudo para a zona do Norte. No Amora podia estar perto de casa, perto dos meus filhos a acompanhar o dia a dia deles na fase da pré-adolescência que também era importante. Vivo em Fernão Ferro, estava a 15 minutos do treino. Independentemente de estar a ganhar minimamente bem, não fui por causa do dinheiro, o que queria mesmo era estar em casa. O treinador era o Miguel Valença. Muito boa pessoa. Jovem, com muita qualidade, muito potencial. Subimos de divisão. Só um ou outro jogador é que tinha jogado nas competições profissionais. Hugo foi campeão da Arménia em 2021/22, pelo Pyunik D.R. Ainda iniciou esta época 2025/26 no Amora FC, mas acabou por sair para Santa Maria da Feira, porquê? Acabei a época no Amora, subimos de divisão, começamos esta época com a antiga SAD e antigo proprietário do clube, o José Maria Gallego, espanhol que também é acionista no Real Betis. O 11 base ficou no clube, o coração forte do balneário tinha renovado, mas o clube é vendido a um fundo brasileiro e houve uma reestruturação muito grande. Trouxeram diretores brasileiros, e sentimos desde logo que eles iam estragar e meter a mão em muitas coisas que não deviam. Estamos a falar do facto de eles não quererem contar com muitos jogadores. O treinador ainda se opôs a muitas dessas coisas. Eu não me identifiquei com muitas das coisas que um diretor brasileiro queria fazer. Que tipo de coisas? Estamos a falar de um clube em que todas as semanas chegavam brasileiros, a equipa não tinha estabilidade nenhuma. Os investidores acabam por decidir e o treinador tem que se adaptar. Não me identifiquei, tive um confronto com esse diretor brasileiro, que no dia seguinte me disse que o clube não contava comigo. Expliquei que tinha contrato, que isto não é o Brasil e que se calhar não está habituado às regras do futebol português. Independentemente do clube não contar comigo, iria exigir o valor do contrato. O clube acabou por me pagar o valor do contrato, e saí. Quando saí, o treinador do Amora FC diz-me que o presidente do São João de Ver quer contar comigo. Em 2022/23, o extremo assinou pelo FC Ararat, da Arménia D.R. Tem contrato até ao final da época? Sim. Já tivemos uma mudança de treinador. Assumiu o mister João Nivea. Estamos completamente focados naquilo que é o objetivo do clube, a manutenção. Obviamente que se chegarmos ao final de janeiro e estivermos nos quatro primeiros, melhor. No final desta época qual é o seu objetivo? Quero ficar ligado ao futebol, acho que tenho aptidão para iniciar a carreira de treinador. Sou uma pessoa com personalidade forte, chato naquilo que é a exigência no treino e no jogo. Tirei algumas formações, a de team manager, a de scouting e de nutrição e já me inscrevi na Liga Portugal para o curso em gestão desportiva, para ser diretor-desportivo. Após esse curso, vou começar a tirar o nível 1 do curso de treinador. Espero aos 40 anos estar a treinar ou estar como diretor-desportivo. É difícil conseguir definir já aquilo que quero fazer porque identifico-me com os dois trabalhos. Alguns treinadores já me convidaram para trabalhar com eles, como treinador-adjunto. Então vai colocar um ponto final na carreira de futebolista? Não. Por enquanto quero continuar a jogar, pelo menos mais um ano. Sinto-me bem, só pretendo pendurar as chuteiras lá para os 39 anos para assim que acabar a carreira não fazer aquele luto que custa a todos, porque na realidade são muitos anos no futebol, muitos anos de rotina de treino, de jogos, de estágios, de inícios de época, de finais de época... Não quero sentir a falta do futebol. Em ação pelo FC Ararat D.R. Onde ganhou mais dinheiro em toda a carreira? Em Angola. Só investiu ainda em imobiliário? Sim. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? A compra de uma mala na Louis Vuitton. Tem algum hobby? Gosto de estar em casa com a família. É um homem de fé? Sou um homem de fé, acredito em Deus. Vou todos os anos a Fátima agradecer por cada época que passa no futebol. Superstições? Acabo sempre por me benzer antes do treino e rezo um Pai Nosso e uma Avé Maria antes de cada jogo. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quantos anos tinha? A primeira foi aos 18 anos, são duas letras em chinês que dizem fé. Mas já tenho o braço todo cheio, o peito, tenho à volta de umas dez. Há alguma que seja muito especial? São todas. Tenho desde o nome dos meus filhos, às iniciais da minha mulher, à foto da minha avó. A mais especial acaba por ser a foto da minha avó, que me criou também. Em 2024/25, Hugo (no centro) ajudou o Amora FC a subir do Campeonato de Portugal à Liga 3 D.R. Acompanha ou pratica outra modalidade? Gosto de ver futsal e gosto de jogar papel às vezes. Qual a maior frustração que tem na carreira? Não ter chegado à I Liga em Portugal. E o maior arrependimento? Ter saído do AEL de Limassol. O momento mais feliz na carreira? Quando fui coroado o melhor jogador e fui campeão na Arménia. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha? Não. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Hélder Tavares, Marco Soares, João Carvalho, Cafú, posso ter mais uma ou outra, mas estes são se calhar os mais chegados. Esta época 2025/26 o extremo está a jogar no S. João Ver, na Liga 3 D.R. Há alguma lei do futebol que se pudesse alteravas ou bania? Acho que o VAR é muito importante mas ainda continua a errar muito. Se calhar mudava alguma coisa no VAR para que não houvesse tantos erros. Podia haver uma maior rapidez na intervenção do VAR, porque passamos muito tempo parados à espera de uma decisão. Tem algum talento escondido? Acho que não. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Boa pergunta. Não sei. Mas acho que estava no ramo do futebol. Qual o jogador com quem gostava de ter jogado na mesma equipa? Com o Cristiano Ronaldo. E contra quem gostava de ter jogado? Lionel Messi. Quem se tornou a sua referência como avançado? Ronaldo Fenómeno. Porque acha que os clubes de I Liga não investiram em si quando diz ter tido épocas muito boas? Se calhar muitas das pessoas que gerem os clubes não estão habituadas a jogadores com personalidade forte. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Janeiro 11 Jorge Teixeira Spoiler “Quando cheguei à Bélgica para fazer testes médicos, disse logo: ‘Tenham atenção que ontem ganhei a Taça e hoje estou um bocado embriagado’” Jorge Teixeira, 39 anos, está a jogar no Belenenses e foi no Estádio do Restelo que nos desfiou o novelo da sua vida futebolística, que começou nas escolinhas do clube do bairro e passou pela formação do Sporting, onde esteve sete anos e chegou a jogar ao lado de Cristiano Ronaldo. Depois de iniciar o percurso profissional por clubes mais pequenos, acabou por amadurecer no estrangeiro, nos principais campeonatos de países como o Chipre, Israel, Suíça, Itália, Inglaterra e Bélgica Nasceu em Lisboa. O que faziam os seus pais profissionalmente? O meu pai é eletricista. A minha mãe trabalhava como empregada doméstica. Tem irmãos? Tenho uma irmã 10 anos mais velha. Onde cresceu? No bairro do Catujal, na zona de Loures. Um bairro social, mas não problemático. Tinha muitos amigos, alguns ainda mantenho. Estávamos sempre na rua, a jogar à bola. Gostava da escola? Gostava, mas chegou uma altura que tive de decidir entre o futebol e a escola, porque não era muito fácil conciliar as duas coisas e acabei por deixar os estudos no final do 10º ano. Deu muitas dores de cabeça aos seus pais? Um bocado porque adorava estar na rua e nunca chegava às horas marcadas, ainda levei uns bons açoites à conta disso. [risos] Na final do Torneio Internacional da Pontinha, que Jorge Teixeira ganhou nos infantis pelo Sporting e onde marcou o golo da vitória D.R. Em criança o que dizia querer ser quando fosse grande? Jogador de futebol, sempre. Tinha alguém na família ligado ao futebol? Não. Mas somos todos apaixonados por futebol. Quem eram os seus ídolos? O [Alessandro] Nesta, o John Terry, e dos portugueses era o Jorge Costa e o Fernando Couto. Em casa torcia-se porque clube? A minha família é portista. Eu estava entre o FC Porto e o Sporting, depois fiz a formação no Sporting, acabei por crescer no Sporting… Jorge Teixeira (1º em baixo à direita) foi chamado à equipa A de infantis, onde jogava Cristiano Ronaldo (5º atrás a partir da direita), para participar num torneio D.R. Como e onde começou a jogar futebol num clube? Comecei nas escolinhas do Catujalense. Como disse, jogava na rua com os amigos e um vizinho, que morava à nossa frente e era treinador das escolinhas, um dia disse-me para eu ir lá, achava que eu tinha jeito. Fui e fiquei no Catujalense dois anos. Até que nos infantis fizemos um jogo contra o Sporting, cujo treinador era o Oswaldo Silva. Na altura eu era avançado e marquei golo, eles gostaram da minha exibição, o mister Oswaldo Silva veio ter comigo e disse: "Gostamos de ti, vem fazer uns treinos connosco ao Sporting para vermos-te." E foi assim. Foi para o Sporting com 11 anos. Quem o levava aos treinos? No início, como a minha mãe trabalhava à tarde como empregada doméstica na zona do Lumiar, eu ia com ela e depois ela ia comigo aos treinos. Mas foi nos primeiros dias, depois tive de começar a ir sozinho, apanhava o autocarro. O meu pai, nos infantis, ia-me buscar depois dos treinos, treinávamos na Torre. Esteve sete anos no Sporting, onde fez toda a formação. Quais os momentos e as pessoas mais marcantes desse percurso? As pessoas que me marcaram foram o mister Leonel Pontes, porque foi o meu primeiro mister e acompanhou-me até aos juvenis praticamente. Sempre tive uma boa relação com ele e ajudou-me também como pessoa, como homem, ajudou-me a crescer. Quanto a momentos, lembro-me de um em particular, o primeiro treino do Cristiano Ronaldo na Torre, ele já fazia coisas fora do normal, ficámos todos: "Quem é este jogador?" Em 2005/06, o central foi emprestado pelo Sporting ao Casa Pia AC D.R. Como e quando passou de avançado para defesa? Nos infantis do 2º ano fomos fazer um torneio ao norte, com o mister Paulo Cardoso, os nossos centrais não estavam disponíveis e fui fazer essa posição. Acabei por fazer um bom torneio e o mister disse que ia começar a jogar a central. O que achou da ideia? Era pequeno, por mim tudo bem, desde que jogasse. Queria era jogar, não me importava se a avançado ou a defesa. Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser jogador profissional de futebol era possível de concretizar? Pelos 17, 18 anos, quando tive de decidir entre a escola e o futebol. Foi aí que decidi que tinha de trabalhar mais e empenhei-me mais no futebol. Falei com o mister Leonel Pontes e o mister Paulo Bento e disse-lhes isso mesmo, que ia arriscar tudo no futebol. Quando começaram os primeiros namoros mais sérios e as primeiras saídas à noite? Em Lisboa não era muito de sair à noite, gostava mais de estar com os amigos. Só comecei a sair mais à noite quando fui para o estrangeiro. Aos 18 anos ainda vivia com os meus pais e não era muito de sair. Quanto aos namoros, não havia nada sério ainda. Jorge Teixeira (à esquerda), assinou pelo Odivelas em 2006/07 D.R. Acabou por sair do Sporting para o Casa Pia, em 2005/06. Porquê? Eu era júnior de 2º ano, fomos campeões nacionais com o mister Paulo Bento, entretanto o Sporting chamou-me, disse que queria fazer um contrato profissional, mas que me ia emprestar ao Casa Pia. E fui. Fui eu, o Yannick Djaló, o Fernando Ferreira, e o Miguel Veloso foi para o Moscavide. Qual o valor do primeiro ordenado? €1500. O que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Comprei um Audi A3. Ainda está na família. Foi um choque grande sair de uma estrutura como a do Sporting para o Casa Pia AC? Por acaso não. Adaptei-me bem. O treinador era o mister Jorge Paixão, espetáculo de homem e de treinador; tive um grupo que me ajudou muito, ainda falo com alguns deles. Por isso foi fácil a adaptação. Quais eram as suas ambições com o que sonhava? O meu grande sonho era jogar num campeonato profissional de primeira linha. Não era só chegar lá acima, era conseguir ficar lá em cima. Não sonhava em jogar num clube em específico? Não. Queria chegar lá acima. Na época 2007/08, Jorge Teixeira vestiu a camisola do CD Fátima D.R. Quais foram as maiores amizades que fez no Sporting? Foram muitas. O Carlos Saleiro, o Miguel Veloso, João Moutinho, o Emídio Rafael, o Bruno Fernandes, o Nani... Sentia que estava no mesmo nível deles? Sinceramente, só a partir dos 16, 17 anos é que senti que dei o salto, que me transformei como jogador, fisicamente também. Foi nessa altura que senti que isto podia correr bem e que tinha de melhorar. Como foi a época no Casa Pia AC? Estava a correr bem, mas, entretanto, o mister saiu para o Real Massamá e levou cinco ou seis jogadores. Os que estávamos emprestados não podíamos ir, tivemos de ficar. A partir daí começámos a descer na tabela classificativa. No final da época, acabou por surgir a oportunidade do Odivelas, já não me recordo se ainda tinha contrato com o Sporting ou não, mas fiz contrato com o Odivelas. Apanhei um treinador [Rui Gregório] que adorei. Fomos longe na Taça. A época correu bem e acabei por ser chamado para o Fátima. Saltei mais um patamar. Quando vai para o CD Fátima deixa o ninho? Não. Continuei em casa dos meus pais. O clube tinha uma carrinha que o mister Rui Vitória e o mister Arnaldo Pereira conduziam. Eles iam buscar alguns jogadores a Alverca. Éramos seis, sete jogadores, o Veríssimo, o Duarte Machado, o Filipe Falardo... . Encontrávamo-nos em Alverca e dali íamos para a Fátima, era risada sempre. O mister às vezes deixava que um de nós guiasse a carrinha. Era só risada. Após meio ano no Atromitos do Chipre, o defesa português foi comprado pelo AEP de Pafos, onde jogou em 2009 D.R. Gostou de Rui Vitória como treinador? Gostei, e como pessoa também. Ele e o Arnaldo Pereira eram muito brincalhões. O contrato era só de um ano? Sim. Fizemos uma excelente Taça da Liga, eliminámos o FC Porto. Com o Sporting empatámos em casa e perdemos em Lisboa, o jogo até foi aqui no Estádio do Restelo. Entretanto, scouts do Chipre viram esses jogos e disseram que precisavam de um jogador com o meu perfil. Já tinha empresário? Sim, Nuno Rolo. Foi sempre o mesmo, é aliás o meu padrinho de casamento. Temos uma amizade forte. Quando lhe falou do Atromitos do Chipre, como reagiu? Sempre gostei de arriscar. Os meus pais é que ficaram um bocado hesitantes de eu ir para fora do país. Mas ia ter muitos portugueses na equipa. Acabei por ir. Na época 2009/10, Jorge Teixeira jogou em Israel, no Maccabi Haifa Adam Davy - EMPICS Como foi o primeiro impacto? Sabia falar inglês? Arranhava o inglês. Lembro-me que tive de recorrer muito ao tradutor do telemóvel. Mas fui bem recebido, os cipriotas são muito amáveis e prestáveis. Fiquei num hotel com outros portugueses. No início íamos todos juntos para o café. Passado duas semanas, fui viver sozinho. Foi fácil passar a viver sozinho? [Risos] Telefonava muitas vezes à minha mãe a perguntar como é que se faz isto, como é que se faz aquilo, como é que faço a massa, arroz, como é que faço carne. Foi a sua estreia na I Liga. Notou grande diferença? Não, porque o nível da I Liga do Chipre na altura era praticamente igual ao nível da II Liga portuguesa. Não estranhou nada? O futebol não era diferente? Não. O que estranhei foi a questão do tempo. A humidade, o calor, isso foi difícil. Treinar de manhãzinha cedo, por causa do calor. De resto, não, porque éramos uns seis portugueses e estávamos sempre juntos. Em 2010/11, o central assinou pelo FC Zurich, da Suíça Giuseppe Bellini Só ficou seis meses no Atromitos, porquê? Fiquei seis meses porque o Pafos, outra equipa da mesma cidade, maior, que gostou de mim, foi buscar-me. E lá, no Pafos tive um treinador israelita, o Nir Klinger, que acabou por me aconselhar ao Maccabi Haifa, que acabou por me contactar. Aí sim, fiquei indeciso. Porquê? Por tudo o que se falava de Israel, da guerra, na altura eu não sabia nada. Agora tenho uma ideia diferente, mas na altura não conhecia. Fiquei com dúvidas, ia sozinho, não havia portugueses na equipa. Fui lá com o empresário, estive uma semana a treinar com eles, para ver se gostavam de mim. Nessa semana fiquei no hotel com o Nuno. Entretanto, após uns treinos, como era muito quente e eu não estava habituado ao terreno, fiquei com umas bolhas enormes nos dedos dos pés. Tínhamos um jogo amigável e fiquei aflito porque tinha os dedos dos pés em sangue. Perguntei ao Nuno o que podia fazer e ele disse-me: "Vamos lá para cima para o rooftop do hotel, para meteres os pés ao ar." Lá fomos nós, a tarde toda a apanhar sol nos pés [risos]. No dia seguinte fomos ao jogo, correu bem e assinei. Quando saiu do CD Fátima para o Chipre, foi ganhar quantas vezes mais? Três vezes mais, talvez. E para Israel também aumentou o valor do contrato? Sim, talvez umas cinco vezes. Em Chipre, o primeiro contrato com o Atromitos não era nada de especial, mas com o Pafos já fiquei contente, apesar de ter ficado uns meses sem receber. Eles depois pagaram tudo. Em Israel foi um contrato ainda melhor. Jorge Teixeira (à direita) tenta impedir que Thomas Mueller do Bayern de Munique chegue à bola Christof Koepsel Como foi a experiência em Israel? Os primeiros meses não foram fáceis. Os costumes, a língua, eles não falam muito inglês, falam mais o hebraico. O fim de semana deles não é como o nosso. Depois também surgiu uma situação em que íamos de estágio para a Áustria e houve uma ameaça de bomba no aeroporto. Fiquei preocupado. Mas eles disseram logo: "Tranquilo, não te preocupes. É uma rotina." Em casa também ouvia as sirenes. A primeira vez liguei para o team manager a perguntar o que se passava. Estava lá sozinho. E ele: "Não te preocupes, são treinos da força militar." [risos]. Mas, de resto, adorei Israel. Do que mais gostou? Adorei as praias, a vida, as pessoas sempre na rua, bom ambiente, sempre a comunicar, a rir, gozam a vida porque sabem que de um momento para o outro pode haver guerra, por isso desfrutam muito da vida. Muitos restaurantes, muitos cafés, muita gente a correr e a jogar na praia. A família do treinador israelita que tive no Chipre chamou-me algumas vezes para ir jantar com eles, porque sabiam que eu estava lá sozinho. À sexta-feira ia sempre ao Shabat deles. Continuava solteiro? Conheci uma israelita com quem namorei durante três anos. Ela trabalhava num bar onde fui. Foi comigo para a Suíça e Itália, mas depois separámo-nos. É com o Maccabi Haifa que se estreia na Liga dos Campeões. Que tal a sensação? Incrível. De repente estou a jogar a Champions com o Bayern de Munique. Digo a toda a gente que, para nós, jogadores, é um objetivo de vida jogar a Liga dos Campeões, porque é uma emoção única. Tudo o que se passa ao redor da envolvência do jogo, os adeptos, as câmaras, os flashes, os jogadores de equipas de grande nível, a segurança, tudo à volta… Ouvir o hino da Liga dos Campeões, que é uma coisa que todos os miúdos ouvem na televisão. Lembro-me que quando comecei a ouvir o hino, comecei a sorrir e a pensar, estou aqui e há um ano estava no Fátima. Na fase de grupos apanhámos o Bayern de Munique, a Juventus e o Bordéus que tinha sido campeão da França. Em 2012/13, Jorge Teixeira foi emprestado ao AC Siena, da Itália Giuseppe Bellini Tem histórias para contar dessa época em Israel? Tive um problema com um árbitro, num jogo da Taça e apanhei quatro jogos de castigo, que coincidiu com o período dos play-offs. Pode contar o que aconteceu? Nesse jogo da Taça, estávamos a perder 1-0, fiz uma falta, o árbitro veio, marcou, eu disse que não tinha feito falta, começámos a falar, eu estava nervoso e acabei por empurrar o árbitro. Fui a tribunal. Tive de pedir desculpa no tribunal. Deram-me quatro jogos de castigo. Mas os adeptos adoraram a minha atitude, pela minha preocupação pelo clube, porque estávamos a ser roubados. Costumo ir a Israel de férias e ainda hoje sou conhecido e me adoram. Como acabou por ir parar ao FC Zurich, da Suíça na época seguinte se ainda tinha um ano de contrato com o Maccabi Haifa? Estava em casa, íamos começar a pré-época, ligou-me o Nuno a dizer que o presidente do Zurich estava “maluco” comigo, tinha gostado de mim na Liga dos Campeões e precisavam de um central como eu, forte. Pagaram a transferência ao Maccabi e lá fui. Fui ganhar bem e assinei por três anos. O central (à esquerda) em ação pelo AC Siena, em 2013 Gabriele Maltinti A Suíça é uma realidade muito diferente de Israel, do Chipre e de Portugal. Sim, aí já foi diferente. Mentalidade alemã. Foi onde comecei a ganhar disciplina comigo mesmo, com a minha vida e com ética de trabalho. Eram todos muito rigorosos, a disciplina está acima de tudo. Mesmo no dia a dia. Viveu alguma situação caricata à conta dessa mentalidade? A única coisa é que no primeiro mês fartei-me de “ganhar” multas de trânsito. Lá há radares nos semáforos e um centésimo de segundo dá logo flash. Mas como em Portugal estava habituado a ser sempre a andar apanhei umas quantas multas logo no primeiro mês [risos]. O treinador era o Urs Fischer, conhecido como 'O Pescador'. Gostou dele? Sim, gostei. Ele gostava muito de pescar, nos tempos livres ia sempre pescar, tanto na Suíça como na Áustria. E dos suíços também gostou? Tenho lá bons amigos. Tenho um grande amigo, locutor da rádio, que é suíço e judeu. Começámos a falar mais precisamente por ele ser judeu e saber que eu tinha jogado no Maccabi. Mas os suíços em geral são um bocado difíceis. São frios, parece que estão sempre tristes, zangados, com a cara fechada. Têm um país tão certinho, sem problemas, acho que é mesmo a mentalidade. Em 2013/14 Jorge Teixeira regressou ao FC Zurich, e ganhou a Taça da Suíça D.R. Futebolisticamente como correram os dois anos e meio que lá esteve? No primeiro ano fomos à Liga de Campeões, perdemos com o Bayern Munique e depois fomos para a Liga Europeia, onde apanhámos o Sporting e a Lazio no grupo. Ficámos em 2º lugar no campeonato, correu bem. No ano seguinte também correu bem. Depois o Fischer saiu e veio o Rolf Fringer e não comecei bem com ele. Porquê? Porque ele queria mudar tudo. Eu jogava, ele chegou, mudou tudo, deixei de ser titular, aliás, nem era convocado. Na altura reagi mal. Fui falar com ele, disse-lhe que tinha acabado de chegar e que eu não concordava com o que estava a fazer, porque estava a jogar, tinha feito boas épocas e do nada, sem sequer me dar uma palavra, tirou-me. Ele era daquele tipo suíço-alemão, disse logo: "Aqui quem manda sou eu, quem decide sou eu, quero pôr as minhas ideias e as minhas regras." Não dava muito para falar com ele. Mas passado um, dois meses, começou a pôr-me a jogar outra vez. Apesar da nossa relação não ser boa. É por causa dele que acabou por ser emprestado ao Siena, da Itália, em 2012/13? Não. Estávamos na Turquia, em estágio, o Luís Neto, que estava no Siena, saiu para a Rússia e eles queriam um central. O empresário que vendeu o Luís Neto conhecia-me e aconselhou-me ao clube. Saí do estágio na Turquia, para Zurique, onde cheguei no dia 30, fiz três malas e no dia seguinte apanhei o comboio para Milão, assinei no dia 31, à última hora. Passado uma semana estava ser convocado para jogar contra o Inter Milão. Jorge Teixeira (à direita) com o empresário Nuno Rolo (no meio), Toni, um amigo suíço, e a taça que conquistou pelo FC Zurich D.R. Que tal foi a experiência de jogar em Itália? Gostei. O futebol não tem nada a ver com o da Suíça. Os jogadores eram mais velhos, mais maduros. O ambiente no balneário também é mais alegre. Na Suíça era mais fechado, não se podia brincar muito. É chegar, treinar, ginásio, correr na mata, fisicamente era duro. Quando cheguei ao Siena, o [Antonio] Conte tinha acabado de sair para a Juventus, apanhei o mister Giuseppe Iachini, excelente, talvez um dos melhores treinadores taticamente. O clube estava a lutar para não descer. Nas últimas jornadas acabou por não correr bem e descemos. Mas ficou o prazer de jogar na Serie A, jogar na Juventus, na AS Roma, no Nápoles, contra o Milão. Houve algum jogador do futebol italiano que o tivesse impressionado? O Pirlo. Ele metia a bola em qualquer lugar. Lembro-me de uma situação, um livre lateral, no estádio da Juventus, era o Pirlo que ia meter a bola, eu tinha um avançado ao meu lado, dei algum espaço e disse para os meus colegas: “Ele não vai meter aqui a bola, é muito difícil”; “Ai não vai? Então espera”. A verdade é que ele meteu a bola na cabecinha do avançado. Por acaso não foi golo, mas fiquei, “fogo, o que foi isto”? Entretanto, regressou ao FC Zurich, tinha mais um ano de contrato? Sim. Era um treinador novo, o Urs Meier, que tinha vindo da formação. Iam começar com três centrais, em Itália também joguei com três centrais, e ele disse que precisava de mim. Ganhámos a Taça da Suíça, nesse ano, contra o Basileia. A festa foi grande, os adeptos são malucos, usam muita pirotecnia, fogo de artifício. O clube já não ganhava alguma coisa há algum tempo. Fomos sair à noite. Mas antes da final da Taça já tinha assinado um acordo com o Standard Liège, da Bélgica. Por isso, tive os festejos da conquista da taça e às seis da manhã tinha voo para a Bélgica, onde ia fazer testes médicos às 11h [risos]. Claro que quando lá cheguei, disse logo: "Tenham atenção que ontem ganhei a taça e hoje estou um bocado embriagado." [risos]. Estava muito preocupado. Mas disseram que era tranquilo, mera rotina. O central (à direita) com os amigos suíços Davide Mariani (à esquerda) e Jontsch (no meio) D.R. Não tem mais histórias para contar da Suíça? Lembro-me de um dérbi contra o Grasshoppers, que ganhámos e fomos sair à noite. Eu, a minha namorada da altura, o meu empresário e um jogador português que estava lá na II Liga. Bebi demais e quando sai com a minha ex-namorada da discoteca, sentámo-nos num banco na avenida e adormecemos. Quando acordámos, a mala dela tinha desaparecido. Entretanto, o Nuno ligou-me a perguntar onde estava o carro, eu não sabia. Isto aconteceu na primeira semana em que o Nuno esteve a passar uns dias comigo. Ele conhecia a minha casa, mas não sabia a morada. Voltou a ligar-me, mas como eu já estava a dormir não ouvi a chamada. Ele resolveu apanhar um táxi, porque lembrava-se que a casa era perto da fábrica de chocolates da Lindt. Ele e o tal jogador foram para aquela zona, até que o taxista, farto de andar às voltas, pára o carro e diz para eles saírem. Eles começaram a percorrer as ruas e lá encontraram a minha casa. Mas havia outro problema. Qual? Não tinham as chaves [risos]. Olharam para cima, viram que no primeiro andar havia uma janela semi-aberta. O Nuno meteu-se nos ombros do jogador, que era grande, lá conseguiram abrir a janela e foram dormir. Voltando a mim. Acordámos no banco e não tínhamos nada, tínhamos sido roubados. Fomos à polícia. Eu estava um pouco perdido. Não tinha chaves, não tinha nada. A polícia levou-nos a casa, mas tivemos de chamar um homem para vir abrir a porta. E os outros a dormir lá em cima. Sim, só que nós não sabíamos. O homem chegou com a máquina, começou a fazer barulho para abrir a fechadura, entretanto o jogador acordou com o barulho e foi ter ao quarto do Nuno para dizer que estava alguém a tentar assaltar a casa [risos]. O homem abriu a fechadura. Quando a porta abriu e o Nuno apareceu: "Ah, és tu, f...-se! Estávamos com medo". [risos] Chegou a aprender alemão? Na altura sabia, ainda percebo um bocadinho. Tínhamos aulas de alemão, o clube obrigava. Spoiler “No Standard Liège, os adeptos fizeram uma espera ao treinador com bastões. Ele saiu da academia escondido no banco de trás do meu carro” Jorge Teixeira assume que o seu grande objetivo é ajudar o Belenenses a subir à II Liga e não põe de parte jogar mais uma época, já com 40 anos. Nesta parte II do Casa às Costas, o central fala das suas aventuras na Bélgica, onde conheceu a sua mulher, confessa que o melhor campeonato onde atuou foi no Championship inglês e conta pormenores da passagem pelo AFS, com quem fez a festa da subida a I Liga sob o comando de Jorge Costa, de quem levou uma dura que nunca mais esqueceu Quando chegou ao Standard de Liège, em 2014/15, sabia alguma coisa de francês? Nada. [risos] Foi difícil a adaptação? Para a Bélgica já fui sozinho. A língua foi difícil, mas de resto, não. O clube era ambicioso, queria estar no topo. A massa associativa era enorme e fazia muita pressão. São ultras. Era um clube que queria ser campeão. O nível era mais alto. Tinha uma academia de excelente nível. Também tive aulas de francês no início. Teve três treinadores nessa primeira época. Sim, o primeiro, Guy Luzon, era israelita e tinha sido campeão no ano anterior. Depois veio um sérvio que ficou pouco tempo e a seguir veio o José Riga, belga. O futebol, comparado com o da Suíça, é mais intenso, mais físico, a bola não pára, jogo direto, muita luta. As pessoas são mais abertas, não tem nada a ver com a Suíça. E logo na primeira época conheci a minha esposa, que é belga. Como se conheceram? A Romane era gerente dos camarotes e da zona lounge do clube. Na festa de apresentação da equipa aos sócios e patrocinadores, ela estava lá, e, não fui só eu, mais alguns colegas também, tentámos, mas ela não deu para ninguém, nem a mim. Aliás, a mim deu porque o meu team manager, que era italiano, foi falar com ela, disse que eu era bom rapaz e ela deu-me o Facebook. Mas, entretanto, nunca mais falámos. Isto foi em junho. Começámos a falar outra vez só em outubro/novembro, porque uma amiga dela, que me tinha visto num café, comentou com ela, disse que eu era giro, mostrou-lhe a foto e ela disse que sabia quem eu era. Essa rapariga queria conhecer-me e arranjaram um encontro com mais um jogador. Só que eu não liguei muito à amiga [risos]. Comecei a falar mais com a Romane. A partir daí ela começou a ir lá a casa e começámos a ficar mais tempo juntos. Em dezembro, surgiu uma oportunidade de ir para o New York City FC, da MLS, era Patrick Vieira o treinador, tinha tudo acertado com uma equipa, avião marcado, mas à última hora o Standard Liège pediu mais dinheiro e acabei por ficar. Em 2014/15, Jorge Teixeira assinou pelo Standard de Liège Kaz Photography A ida para os EUA era mais pelo dinheiro, certo? Sim. E era mais uma aventura. Gosto de aventuras. Mas pronto, fiquei no Standard Liège e, na época seguinte, o presidente do Standard Liège, que era também presidente do Charlton Athletic, da Inglaterra, perguntou-me se eu queria ir para lá porque eles precisavam de um defesa. Disse logo que sim. Mesmo sabendo que era para jogar no Championship? Sim. Mas o Championship para mim foi o campeonato mais duro que apanhei, e o melhor, a todos os níveis. A Inglaterra não tem nada a ver com os outros países. Fui com a Romane. Gostou de viver em Londres? Gostei e não gostei. Gostei porque, pronto, é Londres, um outro mundo, onde há tudo. Mas não gosto de estar com muita multidão à volta e as ruas lá estão sempre cheias de gente. É muita confusão. A minha esposa gosta mais. O central português (à esquerda) em jogo pelo Standard de Liège Kaz Photography Como correu a aventura no Charlton e no Championship? Eles lutavam para não descer. Mas a primeira época até me correu bem, fiz os jogos todos, marquei golos. Entretanto, terminou a época, descemos, o treinador saiu e entrou um treinador inglês. E a League One não dá para jogar. Porquê? Aí tens de ter mentalidade inglesa, é só cotoveladas, jogo direto, murros, vale tudo. É mais para os ingleses, sinceramente. Ainda fez um jogo pelos sub-23. Porquê? Tive uma lesão na coxa, estive um mês parado e quando voltei fiz um jogo com eles para ganhar ritmo, até marquei dois golos. Fiz alguns jogos depois na League One, mas não quis mais. Falei com o presidente do clube, com quem me dava bem. Ele falou-me do Sint-Truiden, da Bélgica, que na altura era dele também. Primeiro disse-lhe que não queria porque ia perder dinheiro, mas ele disse-me que me dava o mesmo. A minha mulher ficou contente porque voltava para casa. Ficámos em Liège e assinei por dois ou três anos. Jorge Teixeira vestiu a camisola do Charlton Ahletic em 2016. Na foto, em luta com Dembelé, na altura jogador do Fulham Justin Setterfield Um clube muito diferente do Standard Liège? Nada a ver. Embora o presidente tenha saído e entraram investidores japoneses, que começaram a investir bem. O clube começou a subir, na segunda época ficámos a um lugar do play-off. Tínhamos uma boa equipa, o Kamada, o Tomiyasu, Wataru Endo, japoneses que estão na Premier League agora. Com que opinião ficou dos jogadores japoneses? Muito disciplinados, organizados. O Tomiyasu depois dos treinos ficava a fazer remates contra a parede. Estavam sempre a treinar. Iam para o ginásio trabalhar antes e depois do treino, muito focados e trabalhadores. Ficou seis anos no Sint-Truiden. O que o fez ficar tanto tempo no mesmo clube? A relação que tinha com o clube, com os adeptos, também o facto da minha esposa estar em casa. E fui pai lá. Em 2020 nasceu a Kiara e o Matteo nasceu em 2023, antes de regressar a Portugal. Entretanto, também me casei lá, no civil, e depois fiz uma grande festa em Lisboa. Jorge Teixeira na festa do seu casamento com a belga Romane TWANE.BE Alguma vez teve problemas com os adeptos belgas? Tive no Standard Liège. Uma vez perdemos 4-0 com o Club Brugge e, chegámos à academia, estavam os adeptos todos com máscaras de ski. O meu treinador era o alvo, mas ele morava um andar acima do meu e, para não sair com o carro dele, meteu-se no banco de trás do meu carro, tapou-se com uns cobertores e saímos pelo meio deles. Eles viram-me a conduzir, não viram mais ninguém e saímos tranquilos. Mas eles estavam lá de bastões e tudo. Qual foi a sua melhor época nesses anos todos? Praticamente todas. Só a última é que já não foi assim tão boa. Em 2020, quando surgiu o coronavírus, estava na Bélgica. Foi muito difícil o período do confinamento? Para mim até foi bom porque a minha filha nasceu em abril e pude estar mais tempo com ela. Tinha um programa de treinos através do Zoom, fazíamos muitas conferências e depois tínhamos um programa de treinos para ir correr perto de casa. Nos tempos mais mortos, o que fazia, jogava PlayStation? Não, comprei uma vez quando estava em Zurique e passado uma semana vendi. Não é para mim [risos]. O central (de costas) a festejar um golo que marcou pelo Charlton, com o treinador José Riga Daniel Hambury - EMPICS O que o fez vir embora da Bélgica para a II Liga portuguesa? Ia acabar contrato com o Sint-Truiden, eles ainda não tinham falado se eu ia continuar ou não. Eu também já estava a pensar no pós-carreira. A minha esposa adora Portugal. No verão, o Nuno ligou-me, com o Sereno, que era o presidente do Aves. O Sereno perguntou-me se queria vir para Portugal. Disse que estava a começar a pensar nisso. Ele diz para eu ir para lá, que tinham ambição de subir à I Liga. Falei com ele, gostei do projeto e vim para Portugal. Fui viver para a Póvoa de Varzim. Quando saiu da Bélgica e regressou a Portugal veio ganhar muito menos? Um bocado, umas quatro, cinco vezes menos. Mas já tinha a minha vida organizada. Após tantos anos fora, como foi o impacto de regressar a Portugal e ao futebol português? Não foi fácil. Mesmo para mim, nos treinos, estava habituado a falar em inglês e havia palavras que me saíam em inglês. Depois tive uma lesão logo no início, tive pubalgia, eu a querer jogar e não poder foi um bocado difícil. Só a partir de dezembro, depois de recuperar é que comecei a entrar mais no grupo e a partir daí é que comecei a adaptar-me melhor. Jorge com os pais e os dois filhos D.R. Teve Jorge Costa como treinador. Que tal? Excelente treinador, ainda levei umas duras dele. Então porquê? Uma vez, estava a regressar de lesão, tinha feito dois, três treinos na semana e tínhamos jogo para a Taça. Não fui convocado, naturalmente, nem estava à espera de ser. Fiquei em casa e no domingo de manhã ligaram-me de um número desconhecido. Não entendi. Era o nosso team manager, só que eu não tinha o número dele. Entretanto, eles perderam com uma equipa da quarta divisão. Na terça-feira, no primeiro treino da semana, ele entrou no balneário, só a presença dele intimidava, começou a cumprimentar, pôs-se à frente do grupo e virou-se para mim: "Jorge, não me olhas na cara."; "Então, porquê?"; "Tu sabes porquê. Comigo estás lixado. Não atendes o telemóvel é? O team manager ligou-te e tu não atendes? Comigo estás lixado, para entrares na equipa vais ter de dar muito ao cavalo, car****". Fiquei à toa, mas foi aí que percebi e disse que não atendia números desconhecidos, e ele: "Cala-te!" Foi uma dura mesmo à séria. Mesmo sem falar já tinhas medo dele, quando falava então... Como acabou essa história? Tive umas semaninhas a penar. Ele sabia o que tinha acontecido, mas não dava para falar com ele. Ele tem razão, tem razão. Os outros jogadores e o team manager sabiam, até mostrei a chamada no telemóvel para verem que aparecia número desconhecido. Mas como pessoa o Jorge Costa era muito boa gente. Depois dos jogos que ganhávamos era tudo a beber cerveja no autocarro, era queijo, era presunto, um ambiente de festa. Ele era muito deixa andar. Desde que os jogadores trabalhassem no jogo, ele deixava brincar, tudo. Agora, nos treinos era duro. Acabaram por subir à Liga. Sim. Duas ou três semanas antes do play-off, o Jorge Costa disse-nos que ia para o FC Porto. Mas também disse que ficava connosco até ao fim, de corpo e alma. Em 2017/18, Jorge Teixeira assinou pelo Sint-Truiden, da Bélgica Isosport/MB Media Na época seguinte teve quatro treinadores, Daniel Ramos, Vítor Campelos, Rui Ferreira e José Mota. Como é trabalhar com tantos treinadores numa mesma época? Não é fácil. Penso que o treinador mais humilde e mais trabalhador que tivemos foi o José Mota. O Campelos não esteve à altura para gerir o grupo. Bom treinador, mas penso que é mais importante saber gerir o grupo do que ser só treinador. O Daniel Ramos é boa pessoa, mas um pouco macio para o grupo. Do Rui Ferreira não tenho nada a dizer. Depois veio o José Mota, que soube agarrar o grupo. Fizemos churrascos, almoços, jantares e aí uniu-se o grupo. Nos últimos jogos fomos ganhar à Amadora, foi importante, e depois perdemos com o Moreirense em casa e fomos ao play-off. Apesar de termos descido, ele soube ganhar o grupo, fazíamos estágios, ele bebia vinho connosco, contava histórias, cantava connosco e o grupo uniu-se mais nessas três ou quatro semanas com ele, do que no resto da época. Como foi estrear na I Liga portuguesa? Foi bom. Foi contra o Gil Vicente, em Barcelos. E consegui cumprir o sonho de jogar no Dragão. A I Liga portuguesa correspondeu às suas expectativas? O futebol é muito diferente dos outros países. Enquanto lá fora é tudo mais naquela impulsão, no jogo direto, na luta, no físico, aqui é mais técnico, mais pensado, mais pausado. Acho que essa é a maior diferença. O central jogou seis anos no Sint-Truiden Photonews Tinha assinado por duas épocas. Não continuou no AFS e na I Liga, acabou por ir para o Belenenses. Porquê? Falei com o Nuno, o meu empresário, ainda não tinha acabado a época, e disse-lhe que queria vir para Lisboa, queria começar a pensar na minha vida familiar, nos meus filhos, na escola deles. Ele disse-me que em Lisboa só se fosse o Belenenses, que na altura estava a jogar o play-off. Era uma boa oportunidade, um clube grande e ambicioso. Começamos a falar com o Belenenses depois do play-off, mesmo sabendo que não tinham subido. E foi tudo rápido. Assinou por quanto tempo? Um ano. Quando entrou no Belenenses, quais foram as primeiras sensações? No primeiro dia que falei com o presidente e com o Taira e notei logo a ambição deles, a fome deles em querer subir o clube para os níveis mais profissionais e meter o clube lá em cima. Desde a minha infância que via o Belenense na I Liga. Já tinha a ideia que era um clube grande, mas ao chegar aqui e ver a dimensão dos adeptos, a interação com a equipa, mesmo estando na Liga 3 acompanham a equipa, vão atrás da equipa; as condições do clube, fiquei ainda com mais certeza que é um clube que não pode estar cá em baixo, tem de estar lá em cima e temos de ser nós este ano a tentar meter o clube lá em cima, com o apoio de todos os adeptos, da direção, de todos. Estamos confiantes, agora sabemos que não vai ser fácil. Temos um bom grupo, uma boa equipa técnica, um bom staff e temos todos os alicerces para o alcançar. Gostou do balneário então. Impecável. É o grupo do ano passado, praticamente. Um grupo sólido, de amigos, gostamos todos de brincar e apoiamo-nos uns aos outros. Penso que isso é muito importante se quisermos ficar lá em cima. O grupo é o mais importante de tudo. De regresso a Portugal em 2023/24, Jorge jogou essa época no AFS Eurasia Sport Images E a mudança de treinador, como foi encarada? Normal. O Nuno fez o seu trabalho, o mister Tiago Zorro está a fazer um excelente trabalho também. Houve a parte da adaptação, uma, duas semanas. E tem estado a correr bem até agora, o grupo está firme. Não pensam noutra coisa que não seja a subida? Sim. A minha vinda para aqui foi com esse objetivo, a subida de divisão. Esse é o objetivo de todos, não há que esconder, temos de ser realistas. Temos de saber lidar com essa pressão. Estava à espera de uma Liga 3 diferente? Já tinha feito alguns jogos amigáveis no Aves, com algumas equipas da Liga 3 e vi que tinha jogadores com qualidade e vontade também. Só não estão lá em cima porque não tiveram oportunidade ainda, por isso sabia que ia encontrar jogadores de grande qualidade. Comparando com as ligas em que jogou lá fora, como situa a Liga 3? Vou falar talvez do Chipre. Jorge Teixeira subiu com o AFS à I Liga, em 2024 D.R. Gostava de renovar com o Belenenses? Isso é uma questão a pensar, porque já tenho 39 anos e penso em tudo agora, no que posso fazer também depois. Tenho o curso de treinador UEFA B. Gostava de ser treinador, tirei o diploma para ter essa oportunidade. Gostava de continuar ligado ao futebol, talvez até como treinador-adjunto. Está a pensar em pendurar as chuteiras no final desta época? Estava a pensar nisso há três anos e estou aqui [risos]. Não sei o futuro. Se o clube decidir que quer renovar, ficaria muito contente. Fisicamente, sinto-me bem. Por sua vontade continuava a jogar mais um ano? Nesta altura respondo que sim. Daqui a cinco meses não sei se posso dizer isso. Mas, pelo que sinto agora, pelos treinos, penso que ainda posso dar mais um ano. Agora sei que cada vez fica mais difícil entrar na equipa, mas fisicamente sinto-me bem e sinto-me importante para o clube, até para dar o exemplo, para mostrar aos jogadores que têm de trabalhar muito, que não é só chegar e ir para o treino, têm de ouvir os mais velhos, ouvir os treinadores, têm de trabalhar forte nos treinos. Tento passar isso aos mais jovens e penso que nesse aspecto também sou importante. Em 2025/26, o defesa central assinou pelo Belenenses Nuno Fox Tem histórias caricatas que possa partilhar destes últimos anos passados em Portugal? Por exemplo, no Aves, metemos o fisioterapeuta a descer e a subir no elevador do hotel, em cuecas, todo amarrado. [risos]. Também agarrámos no nosso jardineiro e metemo-lo num poste, amarrado, e começámos a atirar-lhe mostarda para cima, ovos, farinha... [risos]. Mas essas brincadeiras são importantes. Quando cheguei aqui ao Belenenses e me perguntaram porque ainda estou no futebol, respondi que é pelo balneário. Sei que vou sentir muita falta do balneário. É a coisa mais importante como futebolista e de que vou sentir mais falta, mais do que o campo. O antes dos jogos, depois dos jogos, os churrascos, as festas… É mesmo dessa parte que vou sentir mais falta. Onde ganhou mais dinheiro em toda a carteira? Na Inglaterra. Deu para investir? Sim, em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Talvez a viagem em primeira classe para as Maldivas. Jorge com a mulher Romane e os filhos, Kiara e Matteo D.R. Tem algum hobby? Sauna. Faço sauna todos os dias. Tenho sauna em casa. É um homem de fé? Acredito mais no que possamos dar a nós mesmos. Sem trabalho, não se consegue nada. Superstições? Dou dois saltos com o pé direito e entro com o pé esquerdo nos campos. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? Foi em Israel, nas costas, um rosário. Quando saí para o Chipre, a minha mãe deu-me um rosário e uma Nossa Senhora de Fátima, e meti na minha mesa de cabeceira e ainda os tenho. Não sou praticante, mas acredito que nos acompanham. Também tatuei uma frase em italiano que diz: "Acredita em ti mesmo e vais encontrar o teu caminho." Tenho o braço direito todo tatuado. Tenho também as iniciais e nome dos meus filhos, a inicial da Romane. Tenho escrito “Ambição”, em hebraico. Acompanha ou pratica outra modalidade? Nada. O central (à direita) a festejar um golo pelo Belenenses, na Liga 3 D.R. Qual a maior frustração que tem na carreira? Termos perdido o campeonato em Israel, no último jogo. Precisávamos de uma vitória e empatámos. Já tínhamos tudo preparado para a festa, as garrafas e tudo. E o maior arrependimento? Nenhum. O momento mais feliz na carreira? Todos os momentos em que ganhei um troféu, a Taça da Bélgica e a da Suíça, a subida de divisão, e jogar a Liga dos Campeões. O objetivo que está por cumprir? Subir o Belenenses. Se pudesse escolher qual o clube do sonho onde gostava de ter jogado? Talvez o Real Madrid. Quais foram as maiores amizades que fez no futebol? Em todos os países fiz amizades, ainda falo com alguns. Os mais chegados são talvez o locutor de rádio de que falei, e um jogador italo-suíço que agora vive no Dubai, e é o padrinho do meu filho. Jorge Teixeira com o diploma do curso de treinador UEFA B D.R. Tem ou teve alguma alcunha? Em pequeno chamavam-me o Teletubby, porque tinha uma cabeça grande. Há alguma lei do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Acho que o fora de jogo só devia contar quando o corpo do jogador estivesse todo à frente e não partes do corpo. Ou seja, era preciso que todo o corpo do jogador estivesse avançado em relação ao adversário. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou? Na Inglaterra foi onde tive os jogos mais difíceis, contra adversários que se calhar ninguém aqui conhece. Já disse numa entrevista que lembro-me de jogar no estádio do Leeds United, completamente cheio, num ambiente de pressão enorme. Em Israel, a pressão dos adeptos também era grande. Mas gosto de jogar com pressão, gosto de tê-los a chamarem-me nomes, dá-me outra vontade para jogar. Kiara e Matteo, os filhos de Jorge Teixeira D.R. Houve algum jogador que o tenha surpreendido muito pela positiva? O [Ademola] Lookman e o Ezri Konsa, que apanhei no Charlton. Um está na seleção da Nigéria e o outro na da Inglaterra. Qual o jogador contra o qual gostava de um dia ter jogado? O Cristiano Ronaldo. E com quem gostava de ter jogado na mesma equipa? John Terry ou Jorge Costa. De todas as ligas onde jogou, de qual gostou mais? De jogar, gostei mais do Championship. Para viver, em Israel. Tem algum talento escondido? Sou um organizador. Gosto de ter as coisas bem arranjadas. Mesmo na minha vida gosto de tudo bem pensado e planeado. Algumas da camisolas que Jorge Teixeira foi colecionando ao longo da carreira D.R. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Provavelmente estava com os meus amigos de infância a trabalhar no aeroporto, na área das cargas. Houve alguma frase que tenha ouvido no futebol e que o tenha marcado? Há uma que é muito conhecida entre os jogadores da formação do Sporting, que é: "Camarão que não nada, a onda leva." Ou seja, se não trabalhares, se não fores rigoroso e te empenhares no dia a dia do futebol, não vais chegar lá. Uma vez que gostava de ser treinador, tem algum treinador que seja um referência e com quem gostava de ter trabalhado? O José Mourinho, o Antonio Conte e o Jorge Jesus. Qual é a sua mais valia enquanto jogador? A leitura de jogo. A minha comunicação para organizar. E aquele ponto que sempre percebeu que tinha de trabalhar mais? A velocidade. O central no Estádio do Restelo, no dia em que foi entrevistado por Tribuna Nuno Fox Qual foi o treinador com quem mais aprendeu? Taticamente, o italiano Iacchini. Chegávamos ao jogo e sabíamos o que os adversários iam fazer, sabíamos como devíamos estar posicionados, ele trabalha muito com a defesa e eu gosto muito de trabalhar a tática. Nunca foi chamado para representar Portugal? Não. Quando estava no Zurich ainda se chegou a falar, saiu nos jornais, mas nunca aconteceu. Não leva isso como uma frustração? Não. Como eu disse, não me arrependo de nada. Estou contente com a minha carreira. Podia ser melhor, podia ser pior, mas estou contente com o que alcancei. Sinto que trabalhei muito para chegar onde cheguei. Muitos sacrifícios, muitas amizades que se calhar deixei para trás. Os meus amigos são praticamente os da infância, porque fui para fora muito tempo e deixei muitos amigos para trás. 2 Compartilhar este post Link para o post
andre26 Publicado Janeiro 12 Citação de Coiso, Em 22/12/2025 at 18:34: Acho curioso e estranho que ele não fazia ideia de uma série de coisas, inclusive que é possível ter-se lesões longas em miúdos (apesar de o colega de Seleção Gonçalo Paciência também a ter, na mesma altura que ele, e ele também não fazia ideia), de pensar que se recupera de uma rotura de LCA em três dias, da carreira do Vítor Oliveira e de não saber se tem propostas quando está em fase de saída do Sporting. Eu acho que não era não saber que é possível ter lesões em miúdo, é teres 18 anos e achares que és invencível e que nada de mal te vai acontecer. E teres um lance parvo (como ele descreve) que te tira fora de campo e não acreditares que vais estar 6 meses sem poder jogar. E o Chaby segundo o zerozero não tinha uma presença tão assídua na seleção, podia perfeitamente não ter muita proximidade ao Gonçalo Paciência e não saber que estava lesionado e parado tanto tempo. É um campeonato onde o Sporting só apanha o Porto a partir de fevereiro, é perfeitamente normal que nem andasse a seguir resultados do Porto nem saber quem andava a jogar e não antes dessa altura. Tendo em conta que o Chaby é da minha idade e tinha um colega do secundário que jogava no nacional de juniores, não me surpreende muito grande parte das coisas que destacas. Mesmo eu que era mais rato de FM e saber estatísticas e assim conhecia mal o trabalho do Vítor Oliveira, acho que só ganhou um estatuto mais mítico e de mais destaque depois das 5 subidas seguidas entre 2013 e 2017. Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Janeiro 19 João Lameira Spoiler “Aos 13 anos joguei com o Rafael Leão no Sporting e via-se que era um jogador diferenciado, mas muito molengão. O estilo que ainda tem” João Lameira, 26 anos, começou por jogar no Feirense, foi descoberto pelo Sporting e depois pelo FC Porto, mas não conseguiu vingar em nenhum dos grandes. Passou a seguir por clubes como o UD Leiria, a Académica, o Real de Massamã e o Toreense, que ajudou a subir à II Liga. É sobre estes primeiros anos no futebol português que fala nesta parte I do Casa às Costas. A seguir, o médio defensivo aventurou-se além-fronteiras Nasceu em Santa Maria da Feira. Apresente-nos a família e o local onde cresceu. Os meus pais sempre trabalharam numa fábrica que faz móveis de madeira para criança e tenho um irmão nove anos mais velho. Cresci numa pequena aldeia que se chama Louredo, fica entre Santa Maria da Feira e Arouca. Qual a primeira memória de infância que tem? Lembro-me muito de quando os meus avós ainda eram vivos e nós, uma ou duas vezes por ano, nos juntávamos e íamos debulhar o milho no campo que eles tinham. A maior parte da família ia, fossem crianças ou adultos, e era muito engraçado. É algo que levo para a vida. O que dizia querer ser quando fosse grande? Sempre disse que queria ser jogador de futebol, como a maior parte dos rapazes quando são miúdos, dizem. Tinha alguém da família no futebol? Tive tios que jogaram futebol, mas nunca de forma profissional. João Lameira em criança D.R. Em pequeno, quem eram os seus ídolos? Sempre fui portista e na altura gostava muito do [Ricardo] Quaresma, apesar de não ser da minha posição. Mais para a frente apreciava o [Andrés] Iniesta. E da escola, gostava? Quando era pequeno gostava, a partir do 5º, 6º ano, já não tanto. Mas terminei o 12º ano. Praticou outra modalidade sem ser futebol? Antes de praticar futebol, pratiquei atletismo. Fazia barreiras, mas já não me lembro durante quanto tempo. E recorda-se de quando e como começou a jogar futebol num clube? Tinha 7 anos. Estava na escola e um clube da zona foi entregar panfletos sobre captações. Fiquei interessado, disse à minha mãe, que na altura não queria, mas acabei por ir a esse clube, o Caldas de S. Jorge Sport Clube. Fiquei lá um ano, depois o Feirense foi buscar-me. Falaram com os meus pais, falaram comigo, decidi arriscar e os meus pais apoiaram. João fez os primeiros anos de formação no Feirense onde foi campeão distrital em 2009/10. Na foto com um tio D.R. Nessa altura jogava em que posição? A defesa direito. Era uma escolha sua ou dos clubes? Acho que jogava nessa posição por ser rápido. Como fiz atletismo, era rápido e se calhar viam que eu jogava bem ali. Esteve quando tempo no Feirense? Estive três anos, depois o Sporting ficou interessado em mim. Foram ver-me, foram a minha casa e tudo. Decidi aceitar a oportunidade e mudei-me para o Sporting. Foi para Lisboa? Não. Os jogadores do Sporting ali da zona treinavam durante a semana no Sporting Clube de Arcozelo, em Gaia, com quem o Sporting tinha uma parceria. Ao fim de semana, aos sábados, vinha um autocarro buscar estes jogadores que treinavam na Zona Norte e íamos para Lisboa, porque tínhamos jogo nesse dia à tarde. Em ação pelo Feirense D.R. Notou diferença nos métodos de treino quando passou do Feirense para o Sporting? Um bocadinho. Tinham outros métodos de trabalho, mais específicos, treinávamos mais drible, o passe, enquanto no Feirense era tudo mais generalizado, não fazíamos algo específico. Chegou a jogar com o Rafael Leão e o Daniel Bragança no Sporting. Eles já se diferenciavam? O Leão via-se que era um jogador diferenciado, mas muito molengão. O estilo dele, que ainda hoje tem. Joguei também com o Nuno Moreira e via-se que era um jogador com qualidade, assim como o Bragança. Mas naquela altura não dava para se destacarem assim tanto de modo a perceber que iriam fazer a carreira que estão a fazer. Só ficou um ano no Sporting e regressou ao Feirense. Porquê? Disseram-me que não contavam mais comigo e decidi voltar ao sítio onde fui feliz. Mas também só lá estive um ano, porque o FC Porto foi buscar-me. Foi um ano que correu tudo bem. João Lameira (no centro) com Nuno Moreira (à esquerda) e Bruno Silva, na altura emq ue foi jogador do Sporting, 2011/12 D.R. Tinha 14 anos, o que sentiu quando o clube do coração mostrou interesse? Fiquei muito contente. E apesar de já ter estado num grande como o Sporting, ali era um bocadinho diferente, por isso, era o meu clube de coração, era perto de casa, as coisas iam ser diferentes em termos de apoio familiar. Já tinha empresário? Tive no final dessa época no FC Porto. É o mesmo com quem ainda estou hoje, o Bruno Carvalho da Team of Future. Quando chegou ao FC Porto partilhou balneário com João Félix e Diogo Dalot, por exemplo. Eles sobressaíam na equipa? O Dalot, nem por isso. Via-se que era um jogador bem desenvolvido, mas não era como é hoje. Foi evoluindo, ganhando outra maturidade, como é natural. O Félix era um jogador diferenciado, tinha muita qualidade. Mas era magrinho, mais pequenino, por isso nunca poderíamos saber o que ia sair dali. O médio defensivo com a faixa de campeão distrital juniores D, de 2011/12 Entrou no FC Porto e começou logo a ser chamado à seleção, certo? Sim, mas já tinha ido à seleção distrital, enquanto estive no Feirense. No FC Porto fui chamado àquela primeira fase da seleção nacional, onde vão muitos jogadores. Felizmente fui ficando sempre e joguei o Europeu de sub-17 no Azerbaijão, em que fomos campeões. Já lá vamos. Após um ano no FC Porto jogou pelo Padroense e só depois regressou ao FC Porto. Como correu o ano no Padroense? Foi um ano difícil para mim, porque íamos começar o campeonato, ia jogar no primeiro jogo, mas lesionei-me no aquecimento. Fiquei algum tempo de fora. Que lesão foi essa? Um problema nas costas, uma dor muito forte, não me conseguia virar, nem nada. Estive uns dois meses parado. O mister Mário Silva deixou de contar comigo. Por isso foi um ano complicado, porque não joguei tudo aquilo que queria. Perante essa lesão, temeu pelo seu futuro como futebolista? Fiquei com receio, sim. A maior parte dos clubes por onde tenho passado estou habituado a jogar e quando não jogo começo logo com receio de estar a fazer alguma coisa mal. E sim, tinha 16 anos, ia à seleção e tudo, comecei a ver a coisa mal parada. João Lameira (com o Nº16), jogou foi campeão europeu de sub-17, no Azerbaijão, em 2016 Getty Images Com 16/17 anos, qual era a sua maior ambição, como se projetava no futuro? Acho que o maior sonho era chegar à equipa principal. Julgo que é o sonho de qualquer jogador, principalmente quando jogamos nesses clubes. Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser jogador profissional de futebol era mesmo realizável? A partir dos sub-17. Voltei ao FC Porto, num campeonato competitivo, fiz o Europeu... A partir daí o meu mindset começou a mudar e percebi que realmente podia dar . O que mais o marcou no Europeu de sub-17, no Azerbaijão? Sem dúvida a final, apesar de não ter jogado. Estar no banco quando fomos aos penáltis foi... Eu quase nem queria ver os penáltis, é uma emoção e um medo muito grandes. Quando eles falharam no último penálti, a maior parte de nós ficou assim: "Mas já acabou? Ganhámos?” Depois alguns começaram a correr e a festejar, recordo muito bem e vou levar sempre para a vida. Quem eram os seus rivais de posição na seleção? Era o Florentino Luís, principalmente. O médio defensivo com os pais D.R. Deve ter histórias para contar desse Europeu. Eram muito jovens, costumavam fazer partidas uns aos outros? Não me lembro assim de histórias... Recordo que havia uma salinha com um monte de jogos, PlayStations, tudo, e lembro-me que um dia eles meteram aquilo para a malta e no outro já não havia lá nada [risos]. A malta já tinha pegado em tudo, tinha levado para os quartos, alguns iam levar para casa [risos]. Chamaram-nos a atenção por causa disso. Até parecia que não podíamos comprar aquilo. Fizemos essa pequena asneira, mas correu tudo bem. Quando assinou o primeiro contrato profissional? No meu 1º ano de júnior. Recebia €1250 brutos, se não me engano. Recorda-se do que fez com o primeiro ordenado? Não me recordo. Provavelmente meti de lado porque a minha mãe é que controlava sempre. João com o irmão D.R. E as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios, quando começaram? Com 15 anos já saía. Como tenho um irmão mais velho, andava muito com ele e com os amigos. O primeiro namoro mais sério, sério mesmo, dura até hoje. Tinha 17 ou 18 anos quando conheci a Jéssica. Como se conheceram? Já nos conhecíamos dos tempos da escola, da nossa terra, sempre gostei dela na escola, mas nunca tivemos contacto. Houve uma altura que soube que ela namorava, e quando soube depois que ela estava solteira, acabei por mandar-lhe mensagem no Instagram. Ela só respondeu passado uma semana. A partir daí começamos a falar e pronto. Ela estudava na altura? Sim. Chegou a ir à faculdade. Andava a tirar solicitadoria ou contabilidade, algo assim, depois mudou para gestão, mas viu que não era nada aquilo que queria também e como sempre teve jeito para o desenho e gostava de tatuagens, acabou por se tornar tatuadora. Em 2013/14, João Lameira (com a bola) foi jogar para o FC Porto D.R. Voltando ao FC Porto. Lembra-se de alguma dura que tenha levado? Lembro-me uma do mister Bino, nos sub-17. Estávamos no Vitalis Park a fazer um exercício de passe ou finalização, já não me lembro, ele disse-me qualquer coisa e eu não liguei nada, virei a cara para o outro lado. Deu-me uma dura, disse que quando estivesse a falar para mim, para eu olhar para ele, para não fingir que não estava ninguém a falar. Dessa nunca mais me esqueci. [risos] . E das brincadeiras de balneário, não tem nada para contar? Tenho poucas histórias. Mas, uma vez, eu e o Paulo Estrela gostávamos muito de meter-nos com o Rui Pedro; isto era equipa B, íamos jogar a Premier League International Cup, estávamos em Inglaterra, no hotel e o Paulo Estrela começou a picá-lo de tal forma que o Rui Pedro começou a correr atrás dele para lhe dar um cachaço. O Paulo escondeu-se na casa de banho do nosso quarto, o Rui Pedro deu um murro na porta e partiu a porta. Não dissemos nada, mas claro que descobriram. Vieram perguntar-nos quem tinha partido a porta, nós caladinhos, mas o Rui Pedro acabou por assumir e teve de ficar com o prejuízo [risos]. O jogador em ação pelo FC Porto D.R. Nos juniores teve António Folha como treinador e, na equipa B, foi treinado pelo Rui Barros. Entre um e outro, com qual gostou mais de trabalhar e lidar? O Rui Barros é uma pessoa 10 estrelas. Como treinador, não é que ele não perceba ou não entenda, mas acho que lhe falta um bocadinho mais de nervo, não está preparado, ele depois nem chegou a treinar muito mais. Sempre gostei muito do Folha, dos métodos de treino, como lidava com as coisas. Chegou a ser chamado pelo Nuno Espírito Santo para treinar com a equipa principal. Ficou nervoso? Estava contente e muito nervoso. Mas toda a gente me recebeu bem, não me posso queixar. Disseram-me para estar tranquilo. Houve algum jogador que tenha sido mais simpático ou, pelo contrário, algum que tenha mostrado cara fechada? A maior parte deles não falam, dizem “olá” e “bom dia”, mas depois não conversam muito contigo. Quem falou mais foi o André André e o João Carlos Teixeira. João (à direita) com o irmão D.R. Algum jogador que o tivesse impressionado durante os treinos? O que mais me impressionava era o [Iker] Casillas, por ser um jogador de topo mundial, que já tinha não sei quantas Champions League, jogou no Real Madrid. Era de outro nível, via-se que era muito respeitado. Qual foi o seu momento mais marcante no trajeto que fez no FC Porto? O que me vem à memória é a meia-final da Youth League, nos juniores. Saiu do FC Porto porque o clube já não contava mais consigo? Sim. Ao fim de cinco anos, mais o Padroense pelo meio, acabou o contrato e não contavam comigo. Sentiu-se triste, desiludido? Fiquei desiludido, sobretudo porque estava com uma expetativa alta do que me pudesse aparecer a nível de clubes e afinal não surgiu nada daquilo que queria. Que expectativas tinha? Pensava, no mínimo, em conseguir um clube de II Liga. Mas não chegou a aparecer. Também tinha feito poucos jogos no FC Porto. Tinha feito seis ou sete jogos na equipa B. João Lameira foi emprestado à Académica pelo UD Leiria, em 2019/20 D.R. Só teve o interesse do UD Leiria, que estava no Campeonato de Portugal? Devia ter também interesse de alguma equipa de sub-23, não me recordo, mas sei que surgiram mais um ou dois clubes, nada que fosse de muito interessante mesmo a nível monetário. Quando o FC Porto o dispensou, reconheceu que não estava ao nível de um grande equipa, ou sentiu-se injustiçado? Senti-me injustiçado, mais até durante a época, tanto que fui falar com o mister Rui, porque a equipa não estava bem, eu sentia-me bem, quando entrava, entrava bem e disse-lhe que a equipa perdia muitos jogos e ele nunca mudava nada; e que eu sentia-me bem e achava que merecia uma oportunidade. O que respondeu ele? Respondeu que ia ter oportunidade, que estava bem, para continuar. Mas, nesses clubes, também não sabemos o que está acima dos treinadores. Mas sim, senti-me um bocadinho injustiçado nessa parte. Em 2020/21, o médio assinou pelo Real SC de Massamá D.R. Quando foi para Leiria saiu do ninho. Foi viver sozinho ou com a namorada? Fui viver sozinho para um T1, em Leiria. Custou-lhe a adaptação? Custaram-me as saudades. Mas não estava muito longe da minha casa, que ficava a uma hora e meia, a minha namorada também ia a Leiria. Sempre gostei de cozinhar, desencarrascava-me bem, por isso não foi muito difícil. E o clube? Em Leiria tínhamos um estádio bom, o campo de treinos não era o melhor, ficava um bocadinho longe da cidade, mais junto à beira-mar, mas dava para treinar. O que mais me custou foi mesmo a nível salarial, porque nunca tinha estado numa situação de ordenados em atraso dois, três meses. Essa foi a pior parte. Em ação pelo Real SC de Massamá D.R. Foi ganhar menos ou mais do que ganhava no FC Porto? Ganhava pouco mais. Nesses meses em que não recebeu como fez? Foi às suas economias ou teve de pedir ajuda aos pais? Tinha algum dinheiro de lado, mas chegou uma altura que era insustentável porque eu tinha comprado carro no ano anterior, um BMW Série 1, e acabei por ter de pedir ajuda aos meus pais, para não ficar sem dinheiro nenhum. Ao nível do futebol praticado quer no Leiria, quer no Campeonato de Portugal, notou grandes diferenças? Em termos de campeonato notei, porque no FC Porto estávamos habituados a termos muito mais bola e ali era muito mais físico, mais sem bola, tínhamos de correr mais, foi nessa parte que senti um bocadinho de dificuldade. Já jogava como médio? No FC Porto joguei sempre a médio. Só houve uma altura, nos sub-19 em que joguei a central; jogávamos com três defesas e eu jogava a central do lado direito, mas, de resto, a minha posição sempre foi médio defensivo. Na época 2021/22, João assinou pelo Torreense Gualter Fatia Como foi parar à Academia de Coimbra no ano seguinte, 2019/20? Rescindi por justa causa com o Leiria, devido a salários em atraso e a única proposta boa de II Liga que tive foi a da Académica, apesar do valor monetário ser menor do que ganhava em Leiria. Quis arriscar e tentar a sorte na II Liga, onde já tinha jogado com o FC Porto B. Mas só fez jogos pela equipa de sub-23. Porquê? Treinava sempre com a equipa principal, mas como o mister João Carlos Pereira não me metia a jogar, fui ganhar ritmo para a equipa sub-23. Entretanto, parou tudo devido ao covid-19 e voltei para casa dos meus pais. Depois já não regressei à Academica porque o treinador mudou e disseram que não contavam comigo, mesmo sem o novo treinador me ver. Cheguei a acordo com eles e rescindi. Tem algum episódio relevante para contar da passagem pela Académica? Uma vez fomos jogar à Madeira, creio eu, tínhamos o Leandro Silva na equipa, que é muito brincalhão e havia muito aquelas brincadeiras de meter objetos sexuais na mala de algum jogador, para apitar e eles terem de abrir a mala. O Leandro Silva fez isso com o Sérgio Conceição e foi engraçado [risos]. Como reagiu o Sérgio Conceição? Riu-se. Eles davam-se bem, estavam sempre a meter-se um com o outro. Por isso já estava à espera. Mas o Sérgio é um bocadinho parecido com o pai, principalmente na azia. Qualquer coisa, ele azia muito rápido, fica chateado e nessa parte é totalmente o pai, pelo que eu vejo na televisão. João Lameira (sem camisola) festeja, após marcar o penalti decisivo que deu a vitória ao Torreense na final da Liga e frente à Oliveirense Andre Sanano O período do confinamento foi muito penoso para si? Não, porque na minha aldeia não precisávamos de estar fechados dentro de casa. Temos campo ou mato para passear, não é como numa cidade. Treinava, jogava Playstation, ia passear os cães, ajudava o meu pai ou a minha mãe em alguma coisa que precisassem. Na época 2020/21 assinou pelo Real SC de Massamá. Temeu pelo seu futuro no futebol? Sim e muito. Nada estava a correr bem. Os salários na Académica também estavam sempre em atraso e tudo o que me aparecia não era bom. Tive de me sujeitar ao Real Massamá, a um salário super baixo, a estar em Massamá. Vivia com um colega, o Marcos Barbeiro. Como foi a adaptação a Lisboa e ao Real? Muito difícil. Principalmente à cidade. Massamá em si tem muitas pessoas de outras etnias, eu não estava habituado, foi um bocadinho de choque para mim. E estar ainda mais longe da família, a receber pouco, fazia-me pensar, será que vai dar certo? Foi muito difícil. Tinha algum plano B, ou começou a pensar num? Não, sempre fui na base do risco. Depois vê-se [risos]. Sou muito assim, não devia ser, mas sou. O médio defensivo com o Troféu de Homem do Jogo, pelo Torreense D.R. Foi bem recebido pelo balneário do Real Massamá? Sim. A malta não era muito de sair ou de fazer isto ou aquilo, por isso andava quase sempre sozinho. Passava muito tempo em casa, também recebia pouco, não podia ir aqui ou ali. Jogava PlayStation, via séries, televisão. Como conseguiu dar o salto para o Torreense, que estava na Liga 3? A época no Real correu-me bem. No final da época o Real Massamá queria renovar mais um ano. Para mim não era interessante ficar ali mais um ano. Esperei, até que o diretor-desportivo do Torreense, o Marco, falou com o meu empresário. Disse que tinham interesse em mim, que iam fazer um projeto para subir à II Liga. O meu empresário já conhecia o Marco e decidi arriscar. O clube tinha umas instalações até boas. Assinei por dois anos. Foi viver também sozinho para Torres Vedras? Na altura fui para uma casa partilhada com mais três jogadores. Havia grandes diferenças do CP para a Liga 3? Notei diferenças principalmente ao nível da qualidade. Era o primeiro ano da Liga 3 e via-se que havia muito jogador com qualidade, percebia-se que ia ser uma liga boa para os jogadores crescerem, com qualidade e estrutura. Foi muito bom para mim. João com o troféu da Liga 3 D.R. Na primeira época teve três treinadores: Ricardo Ferreira, o Daúto Faquirá e Nuno Manta Santos. O que pode dizer sobre cada um deles? O Daúto Faquirá foi o nosso primeiro treinador. Muito boa pessoa, mas muito tranquilo. Não o via com perfil de treinador. Podia ter dado certo, mas a forma como ele lidava com as coisas... Era muito brando na maior parte das vezes. Quando tentava dar uma dura em alguém, tinhas dificuldade em aceitar, porque não era tão natural como noutros treinadores. Ou seja, ele era muito tranquilo e quando tentava dar uma dura ou dizer alguma coisa mais agressiva, o jogador não tinha receio, porque OK, era uma maneira agressiva, mas ele tinha a outra parte muito branda, então não sabíamos como havíamos de lidar com aquilo que estava a dizer. O Ricardo Ferreira, foi interino, esteve poucos jogos e veio o Manta Santos, um bom treinador, maluco, muito maluco. Maluco como? Em que aspecto? Sei lá, ele corria às seis da manhã, vinha da corrida direto para o treino e se não estivesse lá alguém àquela hora para tirar o peso, por exemplo, meu Deus, ele começava a gritar, a fazer um escarcéu logo às oito da manhã. Nós chegávamos, ouvíamos aquilo e dizíamos logo “parece um maluquinho”. João com os pais, o sobrinho e a Taça de Campeão da Liga 3 D.R. Acabaram por subir à II Liga. Quais foram os seus momentos mais impactantes dessa época? Foi mesmo o jogo em que subimos, contra o Vitória B, em casa, que ganhámos 3-0. Nunca tinha jogado num estádio tão cheio e com aquele ambiente. A malta toda a apoiar, foi um jogo que ganhámos tranquilamente. Depois vieram os festejos que se prolongaram pela noite, foi incrível. Deve ter sido dos melhores plantéis que apanhei, no geral. Tanto no primeiro, como no segundo ano. Tínhamos um grupo bastante unido e engraçado. Tem histórias para contar? A única coisa é que quando às vezes não havia água quente nos chuveiros, tínhamos lá uma bacia grande com uma torneira de água quente e íamos para lá todos tomar banho. Num sítio onde cabiam cinco ou seis, estavam sete ou oito gajos a tomar banho. Mas eram esses momentos que faziam a equipa também. Não continuou no Torreense porquê? Porque tive uma proposta melhor, da Rússia. Na altura estava a correr bem a época. Em janeiro, não me disseram nada, foi passando o tempo, em fevereiro ou março começaram a falar de renovação e de valores que não eram o que eu queria. E pronto, fui deixando andar. Disse-lhes: “Se for para ser aqui, depois vemos no final da época.” Ficava livre do contrato. Spoiler “Fui para a Rússia ganhar valores que nunca tinha ganhado e isso apagou um bocado a parte da guerra” João Lameira joga na I Liga da Roménia, depois de ter passado por um clube russo, onde não conseguiu mostrar todo o seu potencial. Aos 26 anos, o médio reconhece que tinha outra expectativa em relação à sua carreira e confessa que, agora, o objetivo é ganhar dinheiro o mais possível, não interessa onde. Sobre o futuro pós-carreira responde com um “depois logo se vê”, uma atitude que admite por vezes não ser a melhor, mas com a qual sempre encarou a vida e a carreira Quando o empresário lhe falou pela primeira vez do interesse do Baltika Kaliningrad, da Rússia, como reagiu? Fiquei contente porque até acompanhava alguns jogadores que estiveram lá e achava que era um campeonato com qualidade, com estrutura. E sabia que eles tinham dinheiro. O fator guerra não o fez recear? Muito pouco, porque eu ia ganhar valores que nunca tinha ganhado, e isso aí apagou um bocado a parte da guerra. Foi ganhar quantas vezes mais? Umas nove vezes mais. Além de que a cidade onde eu estava ficava completamente fora da grande Rússia. Kaliningrado é rodeada por países europeus, é mais tranquilo. E dado que a guerra também era na Ucrânia, nem era na Rússia... Viveu sozinho na Rússia? Sim. Antes de ir, pedi para ficar em Portugal mais dias porque a minha mulher estava grávida e a minha filha ia nascer. Estava previsto nascer em junho, quando começavam a pré-época. Atrasei uma semana, a minha filha nunca mais nascia e a determinada altura disseram-me que tinha de ir, eles iam de estágio para Moscovo. No final de junho fui direto para Moscovo. Estive com eles uma semana e no último dia de estágio vim direto para Portugal porque a minha filha ia nascer nesse dia. O diretor-desportivo do Baltika Kiliningrad com João Lameira, quando este assinou pelo clube russo, em 2023 D.R. Conseguiu assistir ao parto dela? Não, a Ariel nasceu de cesariana, mas estive lá depois de ela nascer. Cheguei às cinco da tarde e ela nasceu às nove e meia, foi tudo a correr. No avião, se pagássemos podíamos ter internet durante o voo, e eu paguei para vir sempre a falar com a minha namorada, a ver se estava tudo bem, e na esperança se ela aguentava mais um bocadinho até eu chegar. Quando foi ter com a equipa, foi diretamente para Moscovo. Como foi o primeiro impacto na Rússia? Apesar de eu me desenrascar no inglês, assim que cheguei, veio logo o tradutor, chamava-se André, era brasileiro. Foi buscar-me ao aeroporto. Na altura fui com o empresário. O treinador também não falava muito inglês, era tudo traduzido pelo tradutor. Os métodos de treino eram muito diferentes daquilo a que estava habituado? Não, até gostava bastante da forma como treinavam. O balneário é que era muito diferente. Em Portugal tinha apanhado bons balneários, principalmente no Torreense, alegres, e lá são muito frios, não são de brincadeiras. Tinha outros jogadores portugueses na equipa? Não. Tinha um boliviano, um chileno, falavam espanhol, eu entendia. Era com quem eu andava sempre. João (com a bola à frente) em ação pelo Baltika Kaliningrad D.R. Foi a sua estreia numa I Liga. Um mundo diferente daquela que conhecia em Portugal? Sim, no aspecto de que tudo o que eles tinham ao nível de logística e estrutura era tudo muito bem organizado, bons estádios, academias, tudo espetacular, e isso surpreendeu-me bastante. A estreia foi contra quem? Contra o Spartak, acho que entrei na 2ª parte, perdemos 2-1, creio eu. Um futebol de muito mais batalha e força do que o português. Menos técnico. Tem jogadores com qualidade, mas muito menos técnico que o português. Foi fácil a adaptação? Foi difícil. A minha filha tinha nascido, estive com a minha namorada e com a minha filha cinco dias e depois tive de voltar para a Rússia. Só para voltar para a Rússia era um monte de horas, porque tinha de ir para Gdansk, passar a fronteira da Polónia, passar a fronteira da Rússia, e só aí era um monte de horas. E, chegando à Rússia, sentia-me um bocadinho sozinho. Depois, não estava a jogar o que realmente queria. Tem explicação para isso? Provavelmente por causa do treinador. Sempre fui um jogador de ter bola, de qualidade com bola, não aquele jogador, como tínhamos na nossa equipa, de correr, bater, e acho que por isso o treinador não contava tanto comigo. Nos treinos o feedback dos meus colegas era espetacular, diziam que eu merecia jogar e não percebiam porque não jogava. Mesmo com a equipa a ter resultados negativos, ele nunca me metia. Chegou uma altura em que era complicado estar sozinho, longe da minha família e sem jogar. Sem nenhum português por perto, sendo que lá pouca gente fala inglês. O médio português num treino do Baltika D.R. O que mais estranhou na cultura russa? A cara trancada deles. Nós damos os “bons dias”, dizemos um “olá”, eles são frios, sempre de cara trancada, essa parte é o pior. De resto, a cidade era boa. Nas viagens que fez com a equipa para os jogos, nunca sentiu os efeitos da guerra? Não. Só uma vez demorámos mais a arrancar, porque o aeroporto estava fechado, disseram que estavam uns drones a sobrevoar o aeroporto, mas, de resto, nunca senti nada. As pessoas super tranquilas, como se não se passasse nada. Nunca falou com um jogador ou com alguém sobre o assunto? Não. Tentava nem sequer tocar nesse assunto. Não sei a opinião deles. Comentava às vezes com o nosso tradutor, mas com os jogadores não. E o que respondia o tradutor? Dizia que a maior parte dos russos concordava com o que eles estavam a fazer. Assinou por 3 anos, mas só ficou meia época, certo? Sim. Não estava a jogar o que queria, estava longe da minha família e em dezembro fui falar com o treinador. Ele disse que não contava muito comigo, que era melhor arranjar outro clube, foi o que fiz. O médio num treino do Baltika D.R. Como surgiu o FC Otelul, da Roménia? Foi engraçado porque o Frederic Maciel, que é o meu amigo, perguntou-me sobre outro jogador da mesma posição que eu. Como é que ele era, como é que não era. E eu disse-lhe que se precisassem eu estava disponível, podia ir. Ele falou com o pessoal do clube, viram os meus vídeos, gostaram de mim e acabei por assinar aqui, emprestado meio ano. Tive de reduzir o salário a metade para jogar meio ano. Mesmo assim era mais do que ganhava em Portugal. E que tal a Roménia? No início foi complicado, principalmente devido à viagem que tive. Cheguei à noite e apanhei logo uma manifestação dos agricultores, as estradas todas cortadas, só camiões e tratores na estrada. Onde é que me vim meter? [risos] As estradas são muito antigas, com buracos. Ainda foram três horas de Budapeste até Galati. Mas no outro dia foi melhor. Pelo menos encontrou um balneário recheado de portugueses. Sim, era eu e mais quatro portugueses. Também está a viver sozinho na Roménia? Estou. E o futebol? Não é que o nível não seja tão alto como o da Rússia, porque acho que eles têm qualidade, mas é um tipo de futebol mais fácil de jogar. Um campeonato que dá para jogar até termos uma idade mais elevada, porque não tem uma intensidade muito grande, tem alguma qualidade e está a crescer cada vez mais. João com a filha Ariel, ainda bebé D.R. No primeiro ano, em 2023/24, foi finalista da taça. Tinha sido emprestado por meia e acabou por ser emprestado mais meia época, certo? Sim, no final da época perguntei ao clube russo, eles continuavam a dizer que ali não ia jogar e que se calhar era melhor continuar emprestado. Fui emprestado mais uma época, aí subi o salário outra vez. Esta época já é jogador do FC Otelul? Sim, eu tinha mais um ano de contrato na Rússia, mas tanto eu como eles não tínhamos muito interesse, rescindi e assinei definitivamente aqui, por 2 anos. O que nos pode contar sobre momentos marcantes do primeiro ano e meio na Roménia? Foi a final da taça. Quando cheguei tínhamos um clube com qualidade, mas nunca pensei que íamos chegar à final da Taça. Eu por acaso tinha feito o golo contra o Craiova, que nos deu acesso à final. O segundo ano foi complicado porque na Roménia 80% dos clubes têm o mesmo problema: salários em atraso. Acho que desde que estou na Roménia nunca tive o salário em dia, mas acabam por ir pagando. Ainda tenho o prémio da manutenção para receber do ano passado. Mais tarde ou mais cedo têm de pagar. Esse é o maior problema. O ano passado começámos bem, depois fomos caindo, e em dezembro estávamos muito mal. Fomos para as festas de final de ano com dois ou três meses de salário em atraso. E foi complicado. O treinador em janeiro, despediu-se. Eu já tinha três meses e um prémio da assinatura para receber e também ameacei que ia embora se não pagassem no mínimo dois salários, e disse que já tinha outras propostas. O que aconteceu? Eles estavam aflitos, a tentar arranjar recursos para pagar, também não tinham dinheiro, mas lá conseguiram pagar dois salários. Alguns jogadores saíram, um ou outro foi vendido, outros rescindiram, eu acabei por ficar até o final da época. João com a namorada, a filha e os pais Jose Pereira MAQ1 Perante tudo o que contou, porque resolveu assinar com o FC Otelul por duas épocas? Porque entrou outro investidor que veio gerir o clube e as coisas mudaram um bocadinho em fevereiro. Tínhamos um treinador novo, fez um jogo, o investidor não gostou, mandou-o embora, chamou outro treinador e com esse, que é o mesmo de agora, conseguimos cinco ou seis vitórias seguidas, que nos fez manter na liga tranquilamente. O facto de estar sozinho é uma opção familiar ou tem a ver com a questão dos ordenados em atraso? Elas até costumam estar comigo, agora é que estou mais sozinho, porque a minha pequena está mais crescida e vai para a escola. Mas costumavam estar comigo dois ou três meses, depois vão a Portugal, voltam. Os romenos são muito diferentes dos russos? Totalmente. Muito mais parecidos connosco, muito mais prestáveis, não são tão frios, a maior parte das pessoas fala inglês, não tem nada a ver. O ambiente no balneário também é diferente? Sim, é muito melhor. No início foi um bocado complicado porque éramos muitos portugueses, muitos estrangeiros, e não gostam. Mas foi uma questão de hábito e acabámos todos a dar-nos uns com os outros. Agora é super tranquilo. Em 2024, João foi emprestado ao FC Otelul, da Roménia ASC Oțelul Galați Continua a ter uma vida caseira, a jogar Playstation e ver séries, ou vai mais vezes almoçar e jantar fora com os colegas? Desde que a minha filha nasceu praticamente deixei de jogar. Continuo a ser caseiro, mas gosto de ir almoçar e jantar fora. Depende da semana, se estou mais cansado, ou não. Gosto muito de comer fora, é uma das minhas coisas preferidas. Deve ter histórias para contar da Roménia. Pode partilhar uma ou duas? No primeiro treino com a equipa, quando cheguei, estávamos a fazer um exercício de organização defensiva. Ir a um lado, ir ao outro, e um miúdo fez um movimento mal; o treinador começa a andar em direção a ele com a mão levantada, ainda por cima o treinador tinha cara de bravo, a gritar com ele, e eu pensei: “Vai bater-lhe”. E bateu? [Risos] Não. Chegou à beira dele, ameaçou-o, levantou a mão e depois voltou para o sítio dele. Mas foi logo um choque para mim. Esse mesmo treinador, durante os jogos, se um estrangeiro falhava um passe, ele atirava a chiclete que estava sempre a mascar para cima do jogador, para dentro de campo, e dizia-lhe: “Fo...-se! Volta lá para a tua terra”. Outra coisa que me surpreendeu muito foi ver que nas refeições na véspera dos jogos, quem quisesse podia beber vinho e a sobremesa era sempre crepes com Nutella. Podias comer à vontade. Isso chocou-me, não estava à espera. João Lameira, Miguel Silva, Frederic Maciel e Samuel Teles jogam juntos no FC Otelul em 2024 Neste momento está com um jogo de castigo por ter levado quatro amarelos. Esses amarelos foram mostrados por entradas duras e/ou por refilar com o árbitro? A maior parte foram por entradas duras. De resto, raramente levo um amarelo por refilar com o árbitro. Ainda por cima sou capitão. Quando falo, tenho de falar mais tranquilamente. E eles aos capitães não costumam dar assim cartões. Essa dureza vem de onde? Não sei. Se calhar de família. Fui moldado assim, sempre fui assim, às vezes os treinadores chateiam-se comigo porque sou demasiado bravo nos treinos e sou muito competitivo. Já vem desde criança e percebi cada vez mais que, quando estamos fora do país temos de ser mesmo assim, porque senão calcam-nos. Sempre achei que era benéfico para mim. Ferve em pouca água? Depende. No jogo não tanto. Nos treinos, quando estamos em modo competitivo, fervo em pouca água [risos]. Chegou alguma vez a vias de facto com algum colega? Já houve situações em que houve uns empurrões aqui e ali, devido a uma porrada mais forte de que não gostaram, mas nunca passou disso. Discussões com o treinador também já aconteceram, mas no final está tudo bem porque já me conhecem e sabem como sou fora de campo, nunca faltei ao respeito. O médio com a namorada e a filha na praia D.R. Ao longo dos anos, quem se tornou a sua referência? Nunca tive um jogador... Aliás, eu só jogo futebol, mas não sou aquele gajo que vê futebol ou que adora ver futebol. Mas um jogador de que sempre gostei e em que me revia muito era o Toni Kroos. Quais são as suas mais valias enquanto jogador? Acho que tenho qualidade e agressividade. E aquele ponto em que sempre sentiu que tem de trabalhar mais? Ser mais resiliente, não desistir logo. Como é que explico? Se calhar quando alguma coisa me saía mal eu desistia ou desacreditava e esse aspecto é o que mais tenho vindo a trabalhar. Não ter medo de arriscar e se algo correr mal, estar tranquilo e tentar outra vez que vai correr bem. Tem alguma meta para deixar de jogar? Não, a minha meta é conseguir jogar o máximo possível, ganhar o mais dinheiro possível. João (à direita) em ação pelo FC Otelul SC Otelul Galati Não tem aquele sonho de querer jogar na equipa A ou na equipa B? Não, isso já passou. Agora é ganhar o mais dinheiro possível. Não importa onde. Está satisfeito com a carreira que está a fazer? Ambicionava mais, como é óbvio. Acho que a minha carreira é bonita, mas não é uma carreira como têm alguns jogadores e com que toda a gente sonha. Por que razão acha que não atingiu outro nível? Principalmente por minha causa. Quando era mais novo, se calhar não fui resiliente o suficiente, principalmente para ver os meus erros e perceber o que precisava de melhorar. Sorte também é preciso, quem disser que não, está a mentir. É preciso sorte e oportunidade. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras? Não, é como digo, sou muito de depois vê-se. Se calhar só quando chegar aos 30 é que começo a ver o que quero fazer depois. Não tem nenhuma ideia do que gostava de fazer? Não. Gostava de manter-se ligado ao futebol? Depende do que seja ligado ao futebol. Não tenho a ambição de ser treinador, por isso, só se for a nível administrativo, algo do género. Não o assusta o pós-carreira? Há dias que sim. Mas depois acalmo e digo: depois decido isso. O médio (à esquerda) a festejar um golo pelo FC Otelul SC Otelul Galati Qual foi o treinador que mais o marcou? Se calhar foi mesmo o Folha. Foi um treinador que apreciei, dado os métodos de treino, a maneira como falava, como explicava. A certa altura, quando eu era júnior, ele precisou de mim e joguei a central, ajudei-o, ele conversou comigo, disse que estava bem, para continuar, que tinha qualidade, para nunca desistir e isso marcou-me. Quem são as maiores amizades que fez no futebol? O Frederic Maciel, o Carlos, que conheci no Torreense, que era guarda-redes. De vez em quando falo com o Dalot também, mas não é que sejamos muito chegados. Depois tenho o Miguel Silva e o Teles aqui da Romena com quem falo muitas vezes, de resto, fiz muitos amigos e às vezes não falamos por um ano ou mais, mas quando estamos juntos é como se tivéssemos falado ontem. Onde ganhou mais dinheiro na carreira? Aqui na Roménia, apesar que ainda ter dinheiro para receber. Já deu para investir? Estou agora a investir na minha casa na zona onde cresci. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Isso não combina nada comigo. Não tenho extravagâncias. Tem algum hobby? Gosto de ver filmes e de brincar com a minha filha. A minha preferência é brincar com a minha filha quando estou com ela. João com a namorada e a filha Ariel Jose Pereira MAQ1 É um homem de fé? Acredita em Deus? Acredito. Mas não frequento a igreja. Superstições, tem ou teve? Já tive mais, agora nem tanto. A minha maior superstição, por exemplo, é meter sempre a foto da minha mulher, da minha filha e do meu sobrinho à beira da minha roupa no balneário, antes de ir para os jogos. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? A primeira foi com a minha namorada, em Leiria. Eu tenho o leme de um barco e ela tem uma âncora. Tenho mais de 30 tatuagens. São todas pequenas. Quais são as mais importantes? Uma que tenho na perna de um miúdo com uma bola. Sou eu. Também tenho as minhas duas taças: a do europeu sub-17 e a da Liga 3. Acompanha e/ou pratica outras modalidades? Às vezes gosto de ver luta UFC. Gosto de ver body building. João que na foto festeja um golo pelo FC Otelul, tem contrato com o clube da Roménia até final de 2027 SC Otelul Galati Qual a maior frustração que tem na carreira? Não conseguir ter mostrado mais de mim no ano em que estive na Rússia. E o maior arrependimento? Um comportamento que tive quando era menino, no FC Porto. No final de um jogo houve muita confusão, invasão de campo, entrou a polícia e um polícia começou a bater no meu irmão, e eu na altura dei um pontapé ao polícia. Quando vi o policia a bater no meu irmão foi como se tivesse apagado a luz. Depois fui para o balneário e acabei por ter de pedir desculpa ao polícia. O momento mais feliz na carreira? Quando bati o último penalti na Liga 3, que foi decisivo, e fomos campeões. O objetivo que ainda está por cumprir? Chegar a um patamar ainda melhor do que aqui na Roménia. Gostava de jogar na Arábia, porque lá há dinheiro, mas tirando esse lado monetário, gostava de jogar um dia em Portugal na I Liga. Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid. João Lameira com a filha Ariel, na praia D.R. Há alguma regra do futebol que se pudesse alterava ou bania? Acho que não se devia levar amarelo por tirar a camisola no festejo de um golo. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Gosto de carros, se calhar algo ligado a carros, vendedor, ou trabalhava numa oficina. Qual o jogador com quem gostava de ter jogado na mesma equipa? Cristiano Ronaldo E contra quem gostava de ter jogado? Messi. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Fevereiro 9 Leandro Silva Spoiler “No FC Porto, íamos à equipa principal, rematávamos e o Helton nem se atirava: só de olhar, pela postura, sabia onde íamos chutar” Leandro Silva, 31 anos, ingressou no FC Porto, clube pelo qual torce desde criança, com 12 anos, e só de lá saiu aos 21. Mas foi na Académica que o seu coração ficou preso, após uma descida de divisão que continua cravada no peito. O médio, pai de três filhos, que mais uma vez está a jogar em Coimbra, fala nesta I parte do Casa às Costas sobre o início de uma carreira que também saltou fronteiras Nasceu e cresceu em Castelo de Paiva. Recorda-se da tragédia da ponte de Entre-os-Rios, em 2001? Recordo. Tinha 7 anos. Graças a Deus nenhum familiar nem conhecido próximo estava lá. Nesse dia deixou de haver rede em Castelo Paiva, havia muita dificuldade para comunicar e lembro-me perfeitamente de entrar no carro com os meus pais, para ir à casa dos meus tios, ver se eles estavam lá e se estavam bem. Que profissão têm os seus pais? O meu pai é contabilista, a minha mãe sempre foi doméstica. Tem irmãos? Tenho um irmão 7 anos mais velho. Qual é a primeira memória de infância que tem? Jogar à bola com os meus amigos num monte em frente à minha casa. Nunca quis ser outra coisa na vida que não fosse jogador de futebol. O meu pai, irmãos e tios sempre foram ligados ao futebol, mas nunca em patamares mais elevados. O meu irmão chegou a jogar no Campeonato de Portugal, no Vila Real. Os meus tios jogaram na formação do FC Porto, até aos juniores. Leandro Silva em criança D.R. Gostava da escola? Não gostava muito. Sempre fui um pouco rebelde e gostava muito mais do futebol. Mas nunca descurei os estudos. Fiz o 12º ano. Em pequeno, quem eram os seus ídolos? Gostava muito do Deco e do Bruno Alves. Em casa torcia-se pelo FC Porto. Como surgiu o futebol num clube? O meu pai pertencia à direção do clube da terra, o Paivense. O meu irmão jogava lá e os meus tios também. A partir dos 5 anos ia para o campo do Paivense apanhar bolas nos treinos. Passava lá muito tempo. Aos 6, 7 anos comecei a treinar. Lembro-me que entrava no campo às seis horas, para o meu treino e só saía de lá às dez e meia ou onze da noite, quando acabava o treino do meu irmão. Ficava a apanhar as bolas. Ficou no Paivense até aos 12 anos, altura em que entrou na formação do FC Porto. Como aconteceu? No ano anterior já tinha ido às captações do Sporting e do Benfica, porque me tinham chamado, mas não fiquei. Entretanto, num jogo contra o Espinho, as coisas correram bem, fiz alguns golos e eles ligaram para eu ir às captações ao FC Porto. Na semana anterior tinha ido ao Boavista e não quiseram ficar comigo, mas quando souberam que o FC Porto estava interessado ligaram-me, mas aí já não quis ir, estava chateado. Acabou por correr bem porque fui às captações ao FC Porto e fiquei. Ia com um sentimento diferente por ser o clube de coração? Sim, ia um bocadinho mais nervoso que o habitual, por não ter ficado nos outros dois. Leandro começou por jogar futebol no Sport Clube Paivense D.R. Quando começou a treinar no FC Porto, quais as principais diferenças que sentiu? Quando fui para o FC Porto era o meu primeiro ano naquele escalão, que marcava o início do futebol 11, antes tinha sido futebol 7 e logo aí foi um bocadinho diferente. Mas, claro, a exigência era totalmente diferente, os treinos. As viagens, porque eu ia e vinha todos os dias de Castelo de Paiva para o Porto para treinar. Era a minha mãe que me levava. Fez amizade com algum jogador em particular? Sim. Uma amizade que mantenho, com o Gonçalo Paciência. Na altura ele vinha muitas vezes para a minha casa, eu ia muitas vezes para a casa dele, aos fins de semana. Acompanhámos a carreira um do outro, jogámos juntos até à equipa B do FC Porto; depois ele saiu para a Académica e nesse mesmo ano eu também venho para a Académica, emprestado. Também fiz logo amizade com o Bénio, um rapaz daqui de Coimbra, que acabou por ter uma lesão grave, mas ainda hoje mantemos o contacto. Até chegar aos juniores quais foram os momentos e as pessoas que mais o marcaram no FC Porto? A pessoa que mais me marcou no FC Porto foi o treinador Luís Castro. Na altura ele era coordenador da formação e fazia a ligação da escola para o clube. Aquela área toda do desporto ele acompanhava. Eu tinha um bocadinho a mania que era rebelde, gostava de fazer os outros rir nas aulas e ele puxou-me algumas vezes as orelhas, e bem. Acho que foi das pessoas mais importantes que encontrei no clube, porque também foi meu treinador. Quanto a momentos, tivemos um ano muito interessante nos sub-14, em que o treinador era o Vítor Pereira. Tem alguma história que possa contar desses tempos? Nos sub-14 jogávamos contra o sub-15 e nessas idades um ano faz diferença. Lembro-me que perdemos no Aves por 2-0 e, na semana seguinte, íamos ter o jogo que decidia o campeão. Nós tínhamos um bocadinho de receio de ir às bolas, eles eram muito maiores que nós, e o Vítor Pereira incutiu-nos aquilo que é o FC Porto. Lembro que nessa semana nem havia faltas no treino, ou seja, andávamos quase à porrada uns com os outros. Quando o Aves veio a nossa casa, ganhámos 4-1. Foi um momento marcante porque mostrou muito do que é a alma que tínhamos de ter no FC Porto. Leandro chegou ao FC Porto em 2006 e só de lá saiu em 2015 Tom Dulat Quando assinou o primeiro contrato profissional? Aos 17 anos. Ganhava €500. O que fez com o primeiro ordenado? Dava aos meus pais, era para o gasóleo, porque a minha mãe todos os dias levava-me ao FC Porto e esperava por mim no carro. Quando começaram as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros? A partir dos 17 anos. Sempre fui de estar por casa, com os meus amigos, por Castelo de Paiva, nunca fui muito sair para o Porto. Os meus amigos foram aqueles que começaram no 1º ano da escola comigo. Ainda hoje são meus amigos. Depois começámos a jogar juntos no Paivense, entretanto, quando fui para o FC Porto, eles foram para o Penafiel. Jogámos uns contra os outros no campeonato. Chegou a ser campeão pelo FC Porto em algum escalão? Não. A geração do Sporting e do Benfica da altura eram muito fortes. Da minha geração que chegou à I Liga, só eu e o Gonçalo Paciência. Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser jogador profissional de futebol era mesmo realizável? Temos sempre aquela ambição de chegar à equipa principal do FC Porto. Mas quando a época de juniores estava a terminar eu estava um bocadinho reticente, não sabia se me queriam para a equipa B. Sentia-me um bocadinho perdido. Era o segundo ano das equipas B e havia muita dúvida sobre o que o FC Porto ia fazer, até porque não tínhamos feito uma grande época. Lembro-me perfeitamente de ir para a reunião com o Luís Castro completamente assustado, sem saber muito bem o que esperar. Quando o Luís Castro me diz que era para ficar e que queriam renovar contrato, foi aí que me deu aquele clique: se calhar é possível. O que ambicionava era vir a ser jogador do FC Porto? Sim. Era o sonho de quase todos os jogadores que por lá passavam e eu não fugi à regra. Infelizmente não deu. Leandro começou a ser chamado para representar Portugal nos sub-14 John Walton - EMPICS Recorda-se de quando foi chamado pela primeira vez para treinar com a equipa principal? A primeira vez era júnior. Era Vítor Pereira o treinador, que me tinha apanhado nos sub-14. Nessa noite não dormi. Éramos uns cinco ou seis dos juniores e fazer aquele percurso até ao campo com eles todos, ao fundo, à espera... Era uma equipa recheada de grandes jogadores. Lembro-me que no ano em que estava na equipa B, quando ia lá, estava o Hulk, o [João] Moutinho, o Jackson Martínez, o Danilo, o Alex Sandro... . Algum que tivesse sido mais simpático? O Helton, o capitão. Uma pessoa completamente aberta, vinha ter connosco, deixava-nos à vontade, no final do treino levava-nos à escola. Naquela altura, quando íamos à equipa principal, nem falávamos, nem no telemóvel pegávamos. Outros tempos. Hoje os miúdos sentem-se logo à vontade. O que mais recorda desses treinos? Da intensidade? Sim. Era muito diferente da nossa. Estávamos a fazer finalização e eu e os meus colegas, quando rematávamos à baliza, o Helton e o Fabiano nem se atiravam. Só de olhar para nós, pela nossa postura corporal, sabiam para onde íamos chutar. Lembro-me que as primeiras três, quatro vezes era quase impossível marcarmos golo, eles estavam muito acima de nós. Sempre jogou como médio? Não, quando fui para o FC Porto eu era avançado. Mas era futebol de sete. No meu primeiro ano no FC Porto, o mister Álvaro puxou-me para central, já era maior que os outros, tinha força. Depois fui para a lateral direito, com o Vítor Pereira, nos sub-14. E nos sub-16, no Padroense, o mister Rui Gomes, puxou-me para médio e a partir daí nunca mais saí da posição. É onde me sinto mais confortável. Leandro celebra um golo marcado ao Fulham, na meia-final da U21 Premier League International Cup, em 2015 Tom Dulat Quando chegou à equipa B, já tinha grandes expectativas de vir a integrar o plantel principal? Sim, porque, contra as minhas expectativas, no primeiro ano de equipa B tínhamos grande equipa e acabei por fazer muitos jogos. No final desse ano, eu e o Gonçalo assumimos quase a liderança da equipa e acabei por fazer uma época muito boa também, tanto no campeonato como na Youth League, que na altura chamava-se Premier Cup. Titularíssimo na equipa B, capitão, sou o melhor marcador da Premier Cup, faço três golos na meia-final, um deles atrás do meio-campo, e senti que as coisas estavam a meu favor, que poderia ter oportunidade. Toda a gente falava de mim por causa da Premier Cup, que tinha boa visibilidade, e onde tinha feito três golos contra o Fulham, na meia-final. Mas acabou emprestado à Académica. Foi um grande balde de água fria? Foi estranho, porque o mister [Julen] Lopetegui apostou no Rúben Neves, que era um miúdo que nunca tinha jogado na equipa B, treinava às vezes connosco. Ele foi ver um treino, esteve lá 10 minutos, o Rúben Neves estava a treinar connosco e, no dia seguinte, o Rúben Neves integrou a equipa A. A partir daí foi o que foi. Mas nunca tive muito essa mágoa, até porque também vim para um grande clube, tinha oportunidade de jogar a I Liga e tinha à mesma contrato com o FC Porto. Ou seja, havia essa possibilidade depois de voltar. Quem lhe falou na possibilidade de ir para a Académica? Sentia que o meu ciclo na equipa B já tinha acabado. Tinha feito dois anos muito bons, 80 jogos e tinha de dar um passo em frente. O Gonçalo Paciência foi emprestado à Académica, e estava eu a fazer a pré-época com o FC Porto B quando ele me ligou e disse que o mister tinha perguntado por mim, se eu teria interesse. Falei com o meu empresário e passados três, quatro dias já estava em Coimbra. Sabíamos que havia um outro clube da I Liga interessado, mas entre estarem interessados até se concretizar ainda vai uma distância um bocadinho grande. O médio jogou dois anos na equipa B do FC Porto Tom Dulat Quem era o seu empresário? O Alexandre Pinto Costa. Já tinha deixado a casa dos pais antes de ir para Coimbra? Já. E já era pai do primeiro dos meus três filhos. Quando e como conheceu a sua mulher? Conheci a Sara no meu primeiro ano de equipa B. Começámos a falar através de amigos em comum. Foi tudo muito rápido, passado 10 meses estávamos a viver juntos e passado pouco tempo ela engravidou, estava no meu segundo ano de equipa B. A minha filha Carolina nasceu a 11 de janeiro de 2015. Assistiu ao parto? Não e vou contar porquê. Eu estava na equipa B e ia jogar contra o Benfica. Estava em estágio, em Lisboa, quando rebentaram as águas, de manhã. Fiquei preocupado, ela ligou-me, foi para o hospital e eu estava no hotel sem saber muito bem o que fazer. Ela ligou-me depois, disse que tinha falado com o médico, que ainda não tinha muita dilatação e apontavam o parto para a meia-noite, uma da manhã. Eu podia jogar e seguir depois. Acabou o jogo, perdemos 3-2, eu estava numa azia tão grande que me esqueci um bocadinho do parto. O que é que aconteceu? Chamam-me para o doping. Estou no doping com o João Teixeira do Benfica, estávamos a falar e foi quando a ficha me caiu. O que fez? Pedi ao roupeiro para ir buscar o meu telemóvel e quando olhei já tinha dezenas e dezenas de mensagens e fotos. Ou seja, já tinha nascido. Resumindo, não conseguia fazer as necessidades que tinha de fazer para o doping. Eu pedia por favor para me deixarem ir embora, mas não me podiam deixar ir sem fazer o teste. Foi uma ansiedade, não conseguia fazer, queria ir embora. O autocarro arrancou e fiquei com os roupeiros. Lá consegui fazer e fui na carrinha com os roupeiros sempre a abrir. Cheguei por volta da meia-noite ao hospital. Leandro com a primeria filha, Carolina, e a mulher Sara D.R. Antes de irmos à Académica, não tem histórias para contar do FC Porto? Tenho. Os roupeiros eram o Jardel e o Ricardo. E o Ricardo, volta e meia, reclamava com o pessoal da equipa B por causa dos equipamentos, tínhamos de meter tudo direito. Uma vez, já estávamos completamente fartos de o ouvir, eu, o Gonçalo, o Kléber e o Tozé, entrámos na rouparia como se fôssemos buscar a roupa para o treino; estava lá o Ricardo, e rebentámos três bombinhas de mau cheiro sem fazer barulho. Saímos, fechámos a porta e tirámos a chave, ou seja, trancámos o roupeiro. A rouparia ainda ficava a uma distância grande do nosso balneário e passado três, quatro minutos o cheiro era insuportável. E ele aos socos à porta. Quem foi abrir a porta foi o falecido Sr. Fernando, o segurança, e ele estava completamente maluco. Queria bater-nos [risos]. Mais alguma? Tenho outra história que acabou um bocadinho mal. Nos juniores, sempre que íamos à equipa B treinar tínhamos a praxe de rapar o cabelo. Resumindo, no último jogo da época da equipa B, na Madeira contra o Marítimo, vieram uns miúdos, entre eles um central dinamarquês, lourinho, de cabelo grande, que não queria rapar o cabelo. O nosso central Diego Carlos, era um animal; quando entrámos no quarto do dinamarquês, ele pegou-se com o Diego Carlos, aquilo foi uma confusão dos diabos, ele "não rapa, não rapa, não rapa". Nós compreendemos e não lhe rapámos o cabelo. Passado uma hora fomos para a reunião, íamos ter jogo. O Luís Castro começou a contar os jogadores. Faltava um. Quem? Esse jogador dinamarquês, chateado, chamou um táxi, comprou uma viagem e foi embora da Madeira para o Porto. [Risos] Faltou ao jogo. Ele ficou tão alterado que comprou a viagem, foi-se embora e não disse nada a ninguém. Tivemos sorte porque o Luís Castro disse: "É praxe, é praxe." Isto mostra também muito do que é o FC Porto; tínhamos aquela praxe e não havia volta a dar. Esse dinamarquês acabou a carreira muito cedo, para aí aos 23 anos. E ele ia jogar a titular. Em 2015/16, Leandro foi emprestado à Académica de Coimbra Carlos Rodrigues Foi bem recebido na Académica de Coimbra? Fui muito bem recebido, aqui sempre me senti em casa, tanto é que sempre que posso, volto. Agora, claro, estava habituado a estar naquele ninho do Porto, tive de me adaptar. As coisas até correram muito bem individualmente, infelizmente coletivamente, não. Quais foram as maiores diferenças que encontrou em Coimbra, comparando com o FC Porto? Acima de tudo a experiência que havia naquele grupo. Tinha malta com muita qualidade, com muita experiência. No FC Porto eram só miúdos, estávamos habituados àquela folia de andar o jogo todo a correr e aqui o jogo era um bocadinho mais pensado. Recorda-se do jogo de estreia na I Liga? Sim, não correu nada bem. Foi com o V. Setúbal, perdemos 4-0, em casa. Não foi um bom começo. Da I para a II Liga a diferença também era grande? Na II Liga havia muita qualidade, sem dúvida, mas na I, sobretudo naqueles jogos contra equipas mais fortes, um pequeno erro, que se calhar às vezes na II Liga não era tão punido, ali dava golo e não havia volta a dar. Como encarou a descida de divisão? Marcou-me muito. Muito mesmo. Como disse há bocado, estava habituado no FC Porto a ter muito mais bola que os outros, a ganhar quase sempre, ou muitas vezes e, chegar a um clube como uma Académica, histórico, com muitos adeptos, em primeiro ano de I Liga e descer de divisão, marcou a minha carreira toda. De que forma? A partir dessa época senti sempre que estava em dívida para com o clube. O clube abriu-me as portas da I Liga. Ok que individualmente a época correu bem, mas, infelizmente ao clube, não; e, mais importante que o individual, é o coletivo. Marcou-me de tal maneira que mais à frente muitas decisões que tomei, de voltar à Académica, foi muito mais do coração do que com a razão e prejudiquei-me algumas vezes porque tinha outras propostas. Mas não me arrependo porque o mais importante são as ligações que criamos e sei que a ligação que tenho com o clube é forte. O médio prepara-se para chutar a bola, na Académica de Coimbra Mxkita Na primeira época teve como treinadores o Filipe Gouveia e o José Viterbo. Muito díspares um do outro? Sim, o Viterbo era o treinador da casa que no ano anterior entrou na equipa com o clube numa situação muito difícil e acabou por salvar o clube da descida. Começou a época, mas infelizmente as coisas começaram muito mal para todos, tivemos cinco ou seis derrotas seguidas. Saiu e veio o mister Gouveia e houve uma resposta da equipa, mas como tínhamos começado muito mal a época era complicado. Como era o ambiente no balneário? A nível de ambiente sempre foi um ambiente saudável, mas infelizmente não conseguimos dar a volta por cima. A Académica desceu de divisão e acabou por sair para o Paços de Ferreira. Porquê? Tinha feito uma época muito boa na Académica e tinha imensos clubes da I Liga que me queriam. Que clubes? O Nacional, o CD Chaves, com quem tive tudo praticamente certo. Cheguei a reunir-me na sede do FC Porto com eles, mas entretanto ligou-me o Carlos Pinto, treinador do Paços e fez com que não assinasse pelo Chaves e fosse para o Paços. Como o convenceu? Eu tinha acabado de descer na Académica, o CD Chaves tinha acabado de subir e o Paços de Ferreira tinha ficado, salvo erro, a um ou dois pontos da Liga Europa. Pensei, não vou arriscar a meter-me noutra barca complicada porque senão ainda fico com duas descidas de divisão e a minha carreira acaba sem sequer ter começado. Por isso decidi ir para o Paços, o treinador também fez muita força para que eu fosse. Se bem que a minha vontade, por incrível que pareça, era ter continuado na Académica na II Liga. Só que o FC Porto tinha o poder da palavra, eu tinha de cumprir as ordens e eles queriam que eu fosse emprestado para um clube da I Liga. Leandro (à direita) que jogou pelo Paços de Ferreira, em 2016, tenta chegar primeiro à bola do que Gonçalo Guedes, do Benfica NurPhoto As coisas não correram muito bem no Paços. Pode contar o que aconteceu? Aquela descida de divisão marcou-me tanto que fui para o Paços, mas a minha cabeça continuava um bocadinho aqui, na Académica. Depois, tive uma lesão, rasguei o músculo, perdi a pré-época praticamente toda. Aliás, eu tinha sido convocado para os Jogos Olímpicos do Rio e não fui porque rasguei-me no dia que saiu a convocatória. Acabou por ir o Pité, que também tinha jogado comigo no FC Porto. As coisas começaram a correr-me mal dentro de campo, fora de campo, lembro-me de ser insultado, porque no Paços eles não gostavam muito de jogadores emprestados. Era aquela coisa, o jogador emprestado tem de chegar e tem de resolver, senão ficamos com os nossos. Lembro-me no primeiro jogo de estar a ser insultado pelos próprios adeptos do Paços e eu vinha de um sítio onde tinha sido bastante acarinhado. Acabou por sair por não se ter adaptado? Houve umas questões com o treinador, o Carlos Pinto. Ele tinha um bocadinho a mania de testar os jogadores, as atitudes, e muitas vezes entrava no balneário e começava a reclamar comigo, sem eu ter feito nada, para ver se me espicaçava. Era miúdo, em vez de levar isso para o lado que devia, levava para o lado errado. Ou seja, entrava um bocadinho em choque com ele e as coisas correram mal. Depois ele acabou por sair e ficou o mister Vasco Seabra, que queria que eu ficasse; só que a minha cabeça já não estava lá, eu queria voltar para a Académica, mesmo que fosse II Liga. Tanto é que fiz muita força com o FC Porto, com o Paços e voltei. Académica onde estava o Costinha, em 2016/17. Exatamente. Na altura em que estou para regressar à Académica, recebi uma proposta incrível do Aves, que praticamente já tinha subido de divisão. Queriam que eu fosse em definitivo. Pagavam-me exatamente o mesmo que recebia no FC Porto e davam-me três anos e meio de contrato. Não foi porquê? Por aquilo que lhe disse, criei uma ligação com a Académica que, na minha cabeça, se fosse para o Aves, um clube que estava na II Liga com a Académica, era quase como se estivesse a trair o clube, porque aquela descida marcou-me mesmo muito. Com que opinião ficou do Costinha enquanto treinador? É uma pessoa incrível, um treinador incrível. Sempre foi criada aquela imagem do Costinha, que era uma pessoa manienta, arrogante, essas coisas, mas criam-se rótulos sem se conhecer a pessoa. Só tenho coisas boas a dizer dele, adorei trabalhar com ele, é uma excelente pessoa. E nada do que se diz é verdade. Ele tem aquela imagem, sempre bem vestido, tem o Lamborghini, foi campeão europeu, e não tendo sucesso imediato como treinador às vezes as pessoas levam isso como falta de profissionalismo. Tenho outro exemplo, o César Peixoto, que acabou por passar um bocadinho pelos mesmos motivos que o Costinha. Adorei também o César Peixoto. São rótulos que as pessoas criam, muitas vezes também por inveja, acredito eu. Spoiler “Na viagem para o Chipre tive um ataque de ansiedade e liguei para o presidente da Académica. O que me pagasse eu aceitava. Ele não atendeu” Leandro Silva nunca tinha pensado sair do país quando surgiu a hipótese de ir jogar o AEL Limassol. Foi com receio, mas acabou por gostar de viver em Chipre, onde ainda no último verão foi passar férias. O médio passou ainda pelo FC Arouca, onde subiu da II para a I Liga, jogou em Israel, teve uma depressão, regressou a Porgual, voltou a sair para a Arábia Saudita e acabou por regressar ao clube que já se tornou a sua casa: a Académica de Coimbra No final da época 2016/17 acabou por ir para o Chipre. Já fazia parte dos seus planos sair do país? Nem de perto nem de longe. Tinha mais dois anos de contrato com o FC Porto, só que o clube queria voltar a emprestar-me, ou vender, porque eu tinha um salário bastante alto para a realidade em que estava. Respondi às expectativas no primeiro ano de I Liga, mas no segundo ano, não. O meu empresário ligou-me e falou da hipótese do Chipre. Eu nem sabia onde ficava o Chipre, não conhecia o clube, o AEL Limassol. Ele falou-me da proposta e eu quase como que a despachá-lo disse: "OK, aceito se forem essas condições." Nunca mais pensei, nem ouvi falar do assunto. Dei-lhe aquela resposta porque muitas vezes os clubes dizem coisas, mas depois não se concretizam. As condições eram muito melhores do que as do FC Porto? Eram melhores, porque também tinha a rescisão com o FC Porto, tinha dinheiro a receber e tudo junto eram melhores. Lembro que fui de estágio com a equipa B do FC Porto para Espanha, fizemos o check-in, estou a pousar as minhas malas no quarto e ligou-me o Alexandre Pinto da Costa: "Olha, não desfaças as malas, vais direto para o Chipre. Já está tudo certo." Foi aí que a ficha me caiu. O que lhe passou pela cabeça? Nem sei bem o que me passou. Foi uma angústia. Era a primeira vez que ia sair do país para jogar. A minha mulher sempre foi muito mais aberta em relação a isso. Ela disse logo: "é para ir, vamos, não há problema nenhum." Eu fiquei meia hora sentado na cama com as mãos na cabeça, do género: "E agora? Para onde é que vou? O que vou lá encontrar?" Tinha a minha filha pequena e era uma mudança muito grande, éramos dois miúdos com uma criança, que íamos sair do país sem saber bem o que íamos encontrar. Durante a viagem, na escala na Grécia, liguei para o presidente da Académica, porque tive um ataque de ansiedade, para lhe dizer que o que me oferecesse, eu aceitava. Comprava a viagem da Grécia para Portugal e ia deixá-los na mão. Ele não me atendeu porque era de madrugada e pronto, lá tive que ir. Leandro a receber o troféu de melhor golo da jornada, em Chipre, em 2017 D.R. Como foi o primeiro impacto em Chipre? Foi assustador, quando cheguei estava um calor infernal. O intermediário era cipriota, ainda hoje é meu amigo, levou-me para o escritório do presidente. Os cipriotas têm aquelas barbas grandes e lembro-me de estar sentado na secretária e, imagine, a conversa que estamos a ter agora, eles têm a mesma conversa num tom 10 vezes mais elevado. Metem-me o contrato à frente, o presidente está a falar com o intermediário, em grego, uma gritaria, eu a olhar para aquilo completamente assustado peguei no telemóvel e liguei para o meu empresário: "Eles estão aqui numa gritaria, não percebo o que estão para ali a dizer. Quero ir embora, não quero ficar aqui"; eles falavam e riam ao mesmo tempo. Passei o telemóvel ao intermediário, para ele lhe dizer que eu não queria ficar. O que aconteceu depois? Eles ficaram do género, o que se está a passar? Do que é que tu que precisas? Era de manhã, e eu disse: "Se a minha mulher e a minha filha não estiverem aqui hoje, amanhã já não estou aqui, vou para Portugal, não assino nada." À minha frente, compraram logo a viagem para a minha esposa, que teve de fazer a mala em duas horas. [risos]. Quando elas chegaram, a partir daí a adaptação correu bem? Foi incrível. No clube tinha um colega, o André Teixeira, que já tinha jogado comigo no FC Porto e havia muitos portugueses e brasileiros na equipa, éramos mais que os cipriotas, o treinador era português, o que ajudou ajudou muito na adaptação. Foi pai no Chipre. Sim, do Matteo. E também voltei a não assistir ao parto. Desta podia assistir, só que não consegui porque ia desmaiar e os médicos meteram-me fora da sala. Leandro foi pai de Matteo (ao seu colo na foto) enquanto jogava em Chipre D.R. O que achou da liga cipriota? Na altura havia aquela imagem de jogos vendidos, falava-se muito disso. Graças a Deus, nunca passei por nada disso e gostei bastante. O Chipre é a minha segunda casa, a minha esposa ficou de tal maneira ligada ao Chipre que no verão que passou tive de ir para lá de férias. Adorámos viver lá e fomos muito felizes. E os adeptos? Completamente loucos. No primeiro jogo tínhamos a eliminatória da Liga Europa contra o Áustria de Viena. Não pude jogar, tinha chegado há dois dias, estou no camarote e ainda hoje guardo a imagem na minha cabeça de quando o árbitro marcou um penálti, na altura não havia VAR. A falta tinha sido fora de área e ele expulsou o nosso jogador. Lembro de haver uma rede gigante atrás da baliza e de ver um adepto a subir, chegar lá acima e atirar-se para o campo. Resumindo, partiu as duas pernas, o jogo esteve interrompido porque houve invasão de campo, começaram a atirar coisas para o árbitro. Percebi logo que eram completamente loucos. Ainda guardo vários vídeos de porrada entre adeptos. E no dia a dia como era a abordagem aos jogadores? Se ganhássemos, tudo muito bem. Se não ganhássemos, nem saía de casa, para ser sincero. São mesmo fanáticos. Ganhámos a taça que o clube já não ganhava há 36 ou 37 anos e parecia que tínhamos ganhado a Liga dos Campeões. Foi assustador, no bom sentido, a festa que eles fizeram. Os adeptos também gostavam de mim; a Sara ia com a minha filha aos jogos e os adeptos tiravam a minha filha do colo da Sara, levavam-a lá para o meio deles e quando voltava vinha toda contente, chegava cheia de rebuçados, chupas, brinquedos. Fomos muito felizes lá. Chegou a jogar competições europeias? Não, porque fomos eliminados nesse jogo com o Viena. O médio com filho Matteo ao colo, a filha Carolina, a mulher e a Taça de Chipre, que ganhou pelo AEL Limassol D.R. Gostou do treinador Bruno Baltazar? Gostei. Ajudou-me bastante. A ligação que ele tinha com os portugueses era muito grande. Como disse, cheguei assustado e apesar das coisas até me correrem bem, tinha sempre saudades de casa, o que é normal, nunca tinha saído do país, e muitas vezes era ele que me chamava, falava comigo, íamos tomar um café e acalmava-me, fazia com que quisesse ficar. Tinha assinado por dois anos e na segunda época teve o sérvio Dusan Kerkez como treinador. Como correu? Não joguei tanto, mas acabei por ter muitos bons números. Fui o jogador que mais assistências fiz no campeonato. Não tive os minutos que gostava, porque esse treinador não gostava tanto do meu estilo de jogo, o que é legítimo. Ele acabou por ficar, o presidente adorava-me e fez uma coisa comigo que nunca deve ter feito com nenhum jogador, renovou-me o contrato por mais um ano e disse-me: "Jogas em Portugal, no clube que quiseres, eu pago-te, e quando o Kerkez for embora, tu voltas." Foi aí que vim emprestado para Portugal, para a Académica novamente. No final desse ano, o treinador continuou na equipa e o presidente voltou a renovar mais dois anos comigo. E voltou a dizer-me o mesmo. É quando vai para o FC Arouca. Exatamente. Antes disso, como foi o regresso à Académica e como foi trabalhar com César Peixoto e João Carlos Pereira? Tínhamos uma equipa muito forte, só que, no futebol, às vezes um bocadinho de sorte também faz falta, e nesse início da época não tivemos essa sorte. Jogávamos muito bem, mas não fazíamos golo. Também foi um ano muito complicado, porque supostamente ia entrar SAD e a Académica contratou a contar com isso, e depois acabou por não haver SAD, o César Peixoto saiu, veio o João Carlos Pereira, com ele começámos a ganhar jogos, as coisas começaram a sair, estávamos a ir por aí acima na tabela, mas surgiu a Covid-19 e acabou o campeonato. Leandro voltou à Académica em 2019/20 D.R. Passou o confinamento em Coimbra? Não. Eu morava em São Félix da Marinha e esse ano vinha e ia todos os dias. Custaram-lhe os tempos de confinamento? Foi muito difícil, principalmente aquele início, em que não sabíamos bem o que era e nessas coisas sou um bocadinho picuinhas. Eu, a Sara e os meus filhos estivemos três meses sem sair do apartamento. A minha mãe vinha de Castelo Paiva, eu atirava-lhe a chave da minha garagem, ela entrava com a carrinha na garagem, deixava lá as coisas e eu só ia lá passado dois dias. Chegou a apanhar Covid-19? Apanhei depois, no FC Arouca. E a propósito, porque não continuou na Académica e foi parar ao FC Arouca? Tinha tudo certo com o presidente da Académica para voltar, só que na altura eles assinaram com o treinador Rui Borges e ele preferia outro jogador, o João Oliveira, que está agora no Fafe. O presidente queria-me. Aquilo andou ali para trás, para a frente. Resumindo, o tempo foi passando, o João Oliveira acabou por assinar noutro clube e o treinador não me quis na mesma. O meu empresário ligou-me, disse que ia falar com o FC Arouca, que aceitou as condições que eu pedia, porque ia continuar emprestado pelo AEL. Arouca também é ao lado de Castelo de Paiva, um clube que tinha subido, tinha lá grandes amigos e fui. Subiram o FC Arouca nesse ano com Armando Evangelista. Gostou dele? Muito. Ainda hoje falo com os adjuntos dele bastantes vezes. Tenho muito boa ligação com ele e boas recordações. Mas, acabo por ir para o FC Arouca porque tinha lá dois grandes amigos meus. Quem? O Pedro Moreira e o Marco Soares, que tinha jogado comigo no Chipre. Contra todas as expetativas subimos de divisão. Leandro chegou ao FC Arouca em 2020/21, emprestado pelo AEL Limassol D.R. Acabou por assinar em definitivo pelo FC Arouca, já na I Liga, certo? Exato. A meio da época do ano da II Liga, o AEL Limassol deixou de me pagar. Eu mandava mensagem ao presidente, ele via e não me respondia. Um, dois, três meses, quando chegou o quarto mês sem me responderem meti a carta na FIFA, eles não pagaram, rescindi e fiquei livre. É quando assino no FC Arouca. Como correu a época na I Liga, em 2021/22? Correu muito bem, fiz os jogos todos, garantimos a manutenção, que na altura era o objetivo do clube, porque dois anos antes estava no Campeonato de Portugal. Histórias para contar desses tempos em Arouca, não há? Há. Eu tinha um colega que era muito bom jogador, o André Bukia, que precisava sempre de um incentivo extra. Estávamos ali numa fase em que as coisas não estavam a correr muito bem, cheguei à beira dele, antes de começarmos aquela série de 11 jogos, 11 vitórias seguidas, e disse-lhe: “Mano, se hoje rebentares com o lateral e ganharmos o jogo, dou-te umas chuteiras à tua escolha.” Ele jogou muito bem, ganhámos o jogo e tive de pagar-lhe as chuteiras. Aquilo foi pegando, foi pegando, até ao final da época, dei-lhe uns cinco pares de chuteiras. E ainda lhe dei um bocado do meu prémio de subida e paguei dois jantares de equipa. Foi a maneira que arranjei de o incentivar. Aquilo começou a correr bem, não deu para mexer muito. [Risos]. O médio em ação pelo FC Arouca D.R. Como foi parar a Israel na época seguinte, 2022/23? Não fazia parte dos meus planos sair do clube, porque tinha mais um ano de contrato, tinha um bom salário e o meu empresário propôs a renovação. Eu não queria mais dinheiro, só queria talvez mais um ou dois anos de contrato, para estar tranquilo, até porque tinha feito os jogos todos. Não quiseram falar de renovação e o meu empresário disse: "O Leandro está com 27 anos, é uma altura importante da carreira, se aparecer uma proposta deixam-no sair?" Disseram que sim. Apareceu a proposta do Hapoel Haifa, o treinador tinha sido treinador do meu empresário, que na altura já não era o Alexandre. Quem era? O Bernardo Vasconcelos. Acabei por aceitar e fui. Não teve receio de ir tendo em conta o conflito israelo-palestiniano? Não, porque na altura não estava muito ciente disso e ainda não tinha acontecido o 7 de outubro. Aliás, eu venho embora antes do ataque ter ocorrido. Tanto é que quando cheguei o país era bastante seguro, nunca senti nenhum desconforto. Só que foi uma fase também difícil para mim, porque a minha mãe tinha tido cancro da mama no ano que eu estava no FC Arouca. Como o Castelo do Paiva é à beira de Arouca, eu saí da minha casa e fui viver para a casa dela para também lhe dar o apoio e os meus filhos estarem presentes para ela se distrair. Entretanto, a minha mãe recuperou, graças a Deus. E foi quando me caiu a ficha. Cheguei a Israel e acabei por ter uma depressão. Passei um bocado mal. Em 2022, Leandro assinou pelo Hapoel Haifa, de Israel D.R. Que sintomas teve, como percebeu que estava com uma depressão? Sentia que tinha as doenças todas. Às duas, três da manhã, ia para o hospital porque cismava que tinha doenças. Metia a minha esposa a tocar-me no pescoço, sentia que tinha um caroço e entrava em parafuso. Eram coisas da minha cabeça, devido ao que a minha mãe tinha tido. Na altura em que ela passou por aquilo tive de ser forte para dar o apoio. Quando ela recuperou, foi quando a ficha me caiu. Foi ali um acumulado de situações. Depois acabei também por ter uma lesão e foi isso que me fez voltar a Portugal. Que lesão? Estava num treino e rasguei na inserção, abaixo do glúteo, um bocadinho do tendão. Como tinha sido uma contratação da I Liga de Portugal, o clube pagava-me bem, eles queriam que eu forçasse, ou seja, que em duas semanas ficasse bom. Enviei os resultados dos exames para os médicos em Portugal e eles disseram que para não acontecer pior, porque podia fazer o rompimento total e depois tinha de ser operado e parar seis, sete meses, eu teria de parar dois, três meses. Falei com o clube e disseram-me que se queria ficar tinha de ser tratado pelo clube e queriam que eu recuperasse em duas semanas. Não quis arriscar. Chegámos a um acordo e vim recuperar para Portugal. Esteve quanto tempo parado? Fiquei parado três meses e meio. Estava focado em recuperar, em ficar a 100%. Depois fiquei a ver o que aparecia. Antes de continuarmos, não tem nenhuma história de Israel que possa partilhar? Ainda hoje, ao pequeno-almoço, apareceu uma notícia de Israel e a minha filha falou-me disto que lhe vou dizer, que era o facto das pessoas lá andarem com armas no meio da rua. Lembro-me de estar no café com a minha família e entrar uma miudita, de 17/18 anos, devia estar na tropa, com uma metralhadora ao ombro, sentou-se, tomou o café e foi embora com a maior descontração. Ficámos a olhar para aquilo, meio assustados. Depois aquilo acabou por virar hábito. Eu chegava ao balneário e tinha colegas que iam fardados para o treino e com a arma. Chegavam lá, pousavam a farda, pousavam a arma no cabide e iam treinar. Mas nunca apanhei nenhum susto lá. O médio (à esquerda) jogou pouco tempo pelo Hapoel Haifa, de Israel D.R. Ao nível do clube, do futebol, do balneário, o que mais estranhou? Achava aquilo pouco profissional comparando com o que temos aqui. Quando os jogos eram fora, os jogadores iam ter ao estádio nos seus carros. Jogos a duas horas de distância e eles iam nas viaturas próprias. Para mim não faz sentido. No primeiro jogo fora, cheguei ao autocarro, estava eu e mais três estrangeiros e um ou dois israelitas. O futebol também é diferente, são muito técnicos, têm muita qualidade técnica, só que fazem o que querem, não há cultura tática. Eu tinha o meu extremo a ir buscar a bola, por exemplo, ao pé do central, ao guarda-redes. Não havia a cultura tática que temos cá em Portugal. Após recuperar só teve a proposta do União de Leiria, que estava na Liga 3? Eu ia tendo, só que como passei tão mal aquela fase, aquela depressão... Para ter uma ideia, quando saí do Hapoel Haifa, saí com a ideia: vou acabar a carreira. Não estava nas minhas intenções jogar mais futebol. Recorreu a ajuda psicológica? Sim. E eu era daqueles que pensava "psicólogos para quê?". Mas quando estamos nelas é que, desesperados, sentimos na pele a necessidade. Aos poucos aquela ideia de terminar a carreira foi desaparecendo. Quando comecei a melhorar, aquele bichinho do futebol, dos treinos, da competição, voltou. E para quem é competitivo como sou, estar três, quatro meses sem jogo, sem treino, sem o balneário principalmente… Começou a moer, a moer. Se tivesse de deixar o futebol já tinha a sua vida organizada e planeada para o futuro? Sempre fui muito daqueles de, ok, o dinheiro é importante, a estabilidade é importante, mas se tiver de trabalhar noutra área, sem problema nenhum. O mais importante para mim vai ser sempre estar feliz. No dia em que não me sentir feliz no futebol, apesar do futebol ter-me dado tudo o que tenho hoje, não tenho problema nenhum em ir trabalhar para outra área. Não tenho aquela coisa de fui jogador, tenho um estatuto... Não, porque esses jogadores estão noutros patamares em que eu não estou, nem nunca estive, por isso não me faz confusão nenhuma. Em 2023, Leandro foi jogar para o U. Leiria que estava na Liga 3 D.R. Mas dizia que teve outras propostas além do U. Leiria. O que recusou ou não se concretizou? Ia-me aparecendo uma ou outra coisa, do estrangeiro, de Portugal, ia-se falando em algumas hipóteses, até que um dia, estava em casa dos meus pais e ligou-me o presidente do U. Leiria. Eles iam ter jogo contra o V. Setúbal nesse dia. Pediu para eu ver o jogo, disse que tinham interesse em mim e que depois falava comigo. Sentei-me em casa a ver o jogo, eles na altura ganharam 3-0 ou 4-0. No dia seguinte ele ligou-me e veio ter comigo ao Porto. Foi um choque bastante grande, tanto para mim como para as pessoas mais próximas de mim. Sair da I Liga, onde fazia todos os jogos há seis meses, para uma realidade de Liga 3... Eu estava a sair para o Porto e a minha esposa, a Sara, disse-me: "Não te comprometas com nada." Porque ela sabe que eu sou do coração, do impulso, se sentir que as pessoas me querem e gostam de mim, não é por mais X ou menos X que não vou, ou pela divisão. Como o convenceram? Adorei a abordagem dele. Saí da reunião, liguei para a Sara e para o meu empresário e disse-lhes: "É para ali que eu vou." E eu sempre à espera neste tempo que a Académica me ligasse. Eu também não ia estar a ligar a perguntar se tinham interesse em mim. Mas o que o convenceu em concreto? Primeiro, o projeto que tinham, que principalmente o Armando tinha, e depois a abordagem que eles tiveram comigo de me fazerem sentir importante num clube. E aquele bichinho, vou para a Liga 3, tenho de subir, tenho de subir. Tenho de voltar por mérito meu. Se não me aparecia nenhuma proposta do meu agrado direta para a I ou II Liga, eu tinha de voltar pelo meu mérito. O empresário não tentou demovê-lo da ideia? Um bocadinho, porque estávamos no início do mercado, ainda estava tudo muito parado. Ele foi ter comigo no final de dezembro. Mas ele também sabia que eu metendo uma ideia na cabeça não havia volta a dar. Leandro com Ariana, a filha mais nova, recém-nascida D.R. Falou também com o treinador Vasco Botelho da Costa? Só falei depois. Gostei muito. Mas acho que ainda era muito jovem, cometeu alguns erros que acredito agora não cometa. Que tipo de erros? Na ligação com os jogadores, porque estamos ali todos para o mesmo. Sou muito pela ligação humana, o importar-se com o jogador, com o lado humano, com a família. Ele era 100% futebol, 100% treino, muito dedicado. Como treinador de campo, incrível. Dá-nos todas as ferramentas. Mas acho que lhe faltava um bocadinho esse lado da ligação humana. Como foi jogar a Liga 3? Vindo da I Liga, olhávamos para a Liga 3 como dois patamares abaixo e se calhar achávamos que vamos chegar lá e desequilibrar. E foi exatamente o contrário. Apanhei uma Liga 3 competitiva e tive de me adaptar. Na Liga 3 também há qualidade e nós tínhamos uma super equipa. Acabou por correr bem, subimos de divisão. Só tinha assinado meia época? No ano da Liga 3 só assinei meia época, mas em caso de subida renovava automaticamente dois anos. Já tinha voltado a ser pai? Sim, a minha terceira filha, a Ariana, nasceu no ano que subo no FC Arouca. E também não assisti ao parto. Vendo sangue, prefiro sair, para as enfermeiras estarem preocupadas com a Sara e não comigo. [risos] Leandro com a mulher e os três filhos no Estádio de Leiria, na festa da subida do U. Leiria à II Liga D.R. Tem algumas histórias para contar do U. Leiria? Nós tínhamos um roupeiro que era um bebé gigante. Tinha dois metros de altura e quase dois metros de largura. Só que ele era mesmo um bebé gigante. Eu e alguns colegas entrávamos pela rouparia, agarrávamos nos cestos, deitávamos tudo para o ar, virávamos a rouparia toda e ele em vez de nos dar uma lambada, ficava a olhar para nós, parado, a rir-se. Mais alguma? Eu e o Gonçalo Gregório ficámos com uma ligação muito forte. Depois de termos subido ficámos duas semanas parados, para a final, e ele de vez em quando ia à minha casa levar-me as cookies da Subway. Lembro de ele ligar: "Mano, estou a chegar." Vou à varanda e em frente à minha casa havia uns pinos de cimento. E ele, palhaço, abre o vidro, começa a fazer palhaçadas para mim ao mesmo tempo que está a fazer marcha atrás para estacionar. Resultado, deu uma panada nos pinos que meteu as duas portas da lateral contrária à dele todas para dentro [risos]. Se tivesse ali uma ribanceira ia por ela abaixo. Depois de um ano na II Liga com o U. Leiria, como surgiu o Al-Jandal da Arábia Saudita? Quando a época terminou ligou-me o treinador Filipe Cândido, que estava no U. Leiria, diz-me que tenho um salário alto e que o clube queria investir em jogadores mais novos. No futebol moderno, aos 28, 29 anos já olham para nós como se fôssemos velhos. Eu percebo. Avisou-me que se calhar não ia ter os minutos que queria. A partir daí comecei a procurar solução, sem problema nenhum. Fui falando com uma pessoa, com outra, o empresário também ia vendo, até que um colega meu, o Vitor Braga, que está na Arábia, tinha jogado comigo no FC Arouca, disse-me que ia falar com um empresário da Arábia para ver se aparecia alguma coisa para mim. Eu ia falando aqui com o David Caiado, diretor da Académica, porque ele ia perguntando-me por um outro jogador que estava no U. Leiria para vir para Coimbra. Em 2024, o médio assinou pelo Al-Jandal, da Arábia Saudita. Na foto com os diretores do clube D.R. Queria regressar à Académica mais uma vez? [Risos]. Numa dessas conversas pergunto-lhe: "Não tens espaço para um médio?"; "Para quem?"; "Para mim.”; "Esquece, és muito caro, não dá para a realidade do nosso clube."; "Não estou a falar de dinheiro. Estou-te a perguntar se tens espaço."; "Claro que tenho, mas querias vir?"; " Estou à espera de uma ou outra situação para fora. Se não me aparecer, é para aí que eu vou." Eu já nem queria saber de outros clubes que podiam aparecer em Portugal. Resumindo, o Vitor Braga ligou-me com a proposta do Al-Jandal. São valores completamente diferentes dos praticados em Portugal. Estamos a falar de ir ganhar quantas vezes mais? Para ter uma ideia, num mês normal, só em prémios ganhava o que ganhava no U. Leiria. Como foi o primeiro embate com a realidade saudita? Fui ter com eles ao Egito, estivemos lá um mês em estágio. Com as devidas diferenças eram quase como estar a jogar com os meus amigos. Era um amadorismo... Em que se refletia esse amadorismo? Em tudo. Não apareciam aos treinos; estávamos no hotel, era só motos a chegar com o McDonald's às três da manhã, porque eles não dormem de noite, dormem durante o dia por causa do calor. Queriam que eu levasse a roupa para casa para lavar. E tive o azar de o treinador ser árabe também, ou seja, a realidade era completamente diferente do que estava habituado. Fazíamos treinos de 11 contra cinco em campo inteiro, cinco a defender campo inteiro. Tinha miúdos a vir treinar com a camisola do Benzema, tinha colegas que, se jogássemos no sábado, folgavam domingo e só apareciam no treino de quarta ou quinta para jogar na sexta-feira. E jogavam. A primeira imagem que tenho, do primeiro jogo para o campeonato, nós perdemos, cheguei ao autocarro numa azia e estavam todos a rir, com música alto. O guarda-redes era o Emanuel Novo, português, e ele dizia: "Esquece mano, isto é normal, vai-te habituando." Só que para quem gosta de ganhar não dá para se habituar muito. Na Arábia Saudita, Leandro fez apenas quatro jogos D.R. Fez quatro jogos e veio embora. Foi devido a essas situações? Chateei-me com o treinador porque lá há limite de estrangeiros e eles começam a cobrar só aos estrangeiros. Eu dizia: "Ok, na pré-época fizemos seis jogos e agora já vamos em três jogos para o campeonato, só temos dois golos marcados, eu marquei um e fiz assistência no outro. E você disse que nós temos que ser mais defensivos? Vamos deixar de atacar?" Ele só queria defender. Tudo atrás, a defender, a chutar para a frente, isso nunca fez parte da minha maneira de jogar. Começámos a perder, a perder e acabei por me chatear com ele, porque a pressão vinha para nós, ele cobrava era de nós. Rescindi e vim para Portugal. Esteve com a família na Arábia Saudita? Sim. Estiveram comigo. A cidade onde eu estava era muito limitada, era muito fechada, não tinha nada, eram duas retas e deserto. Mas eles também acabaram por estar lá pouco tempo, estiveram duas ou três semanas. Depois falei com o Caiado, perguntei-lhe se ainda tinha interesse em mim, ele disse que sim, e vim para a Académica. Quando aterrei no Porto tinha chamadas e mensagens do André Teixeira, que é padrinho do meu filho e estava a jogar no Anorthosis de Chipre, e do Sérgio Conceição, lateral direito, que tinha jogado comigo também aqui na Académica, em 2019, a tentarem convencer-me a ir para lá. A proposta era muito boa. A Sara, que tinha adorado o Chipre e tinha uma relação muito boa com a mulher do André, disse logo: "Vamos, vamos, vamos." Mas como já tinha dado a minha palavra ao Caiado e à Académica, não podia falhar com eles. Chamaram-me maluco, claro. Está arrependido de ter vindo para a Académica? Não, de todo. Veio ganhar quantas vezes menos? Um prémio de uma vitória na Arábia era mais do que um salário na Académica, mas pronto. O médio com familia em Menorca, em 2023 D.R. Está a viver em Coimbra com a família? Eu estou aqui em Coimbra, mas a minha família está a viver no Porto, para não andar sempre a tirar os meus filhos da escola. Tem contrato até quando? Fiz dois anos de contrato este e outro, em que se subir em algum dos anos renova automaticamente mais dois. Portanto, aquela ideia de pendurar as chuteiras ainda está longe? Enquanto estiver feliz, a sentir-me bem, a sentir que sou útil, principalmente na Académica, vou estar aqui. Enquanto sentir que as pessoas me querem aqui, que posso ajudar, vou estar aqui. Quando as pessoas assim não entenderem, logo verei, não tenho muitos planos, mas também não tenciono jogar muitos mais anos. Acredita que é este ano que consegue ajudar a subir a Académica? As oito equipas têm todas hipótese. Queremos muito ir jogo a jogo e não é estar aqui a falar politicamente correto. Sabemos da dificuldade que é, é outro campeonato. Agora queremos ir jogo a jogo e é assim que vamos encarar esta fase de subida, com humildade e acima de tudo, trabalho. Que tal o balneário? Temos um grande grupo, muito bem liderado quer pela equipa técnica, quer pela direção e sinto que estamos fortes. Leandro regressou à Académica em 2024/25. Aqui a receber a camisola comemorativa dos 100 jogos feitos pelo clube D.R. Os ambientes nos balneários foram mudando muito ao longo dos anos? Foram. No início da minha carreira eu entrava num balneário de seniores, como entrei aqui na Académica a primeira vez, e limitava-me a estar no meu canto e sempre que falavam comigo, os mais velhos, eu ouvia. Isso foi mudando, é o futebol, os mais novos são muito valorizados e nada contra. Agora, não aceitam tão bem uma crítica ou outra que possam receber. Há menos convívio fora do balneário? Enquanto eu e alguns mais velhos estivermos aqui vamos ter sempre esses convívios, porque podemos ser muito bons dentro de campo, podemos ter uma grande equipa, se não houver aquele espírito que acho que tem de haver dentro de um plantel, não nos vai valer de nada a qualidade que a gente tem individualmente. Aqui fazemos muitos convívios, muitos jantares, procuramos estar muitas vezes juntos porque é assim que se vão criando laços, que se vai conhecendo a família, como é o colega, o que ele precisa, do que ele mais gosta, etc. Isso pode fazer a diferença de querer dar a vida pelo colega ou não dentro do campo. São convívios obrigatórios. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as botas? Ainda não. Sinto que vou querer continuar ligado ao futebol, porque gosto do dia-a-dia, gosto do treino, gosto da análise do jogo, mas ainda não é um assunto que tenho pensado. Tendo em conta as ambições que tinha no início, sente-se feliz com a carreira que fez? Acima de tudo sinto-me de consciência tranquila porque fui sempre fiel às minhas ideias e no mundo do futebol cada vez mais os valores vão-se perdendo. Tento ser fiel às minhas ideias, naquilo que eu acredito que é, acima de tudo, lealdade para com as pessoas, para com os clube. Podia ter sido um uma carreira diferente? Podia. Mas estou bem com o que fiz. Podia ter sido pior também. Estou bem com o que tenho feito. As amizades, o companheirismo, acho que isso vai ser sempre o mais importante. O médio com a familia na Serra de Montemuro D.R. Onde ganhou mais dinheiro até agora? Em Israel. Investiu? Comprei um apartamento e tenho uma quinta grande, com 21.000 m2, em frente ao rio, em Castelo de Paiva. Vou ter que fazer algumas remodelações para depois também tirar proveito disso. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Tenho 31 anos e já tive 21 carros [risos]. Já tive o Range Rover Sport, o Evoque, Mercedes, BMW... Tem algum hobby? Estar com os meus filhos. É um homem de fé? Acredita em Deus? Há momentos. Superstições, tem ou teve? Antigamente tinha algumas. Agora ando sempre com as minhas santinhas e terços, uma ou outra coisa que a minha avó me dá, numa nécessaire. Gosto muito de ir à Fátima. Volte e meia, acaba um jogo, corra bem ou mal, meto-me no carro e vou para lá e estou lá sentado sozinho. Tem momentos, tem dias. Qual foi a primeira tatuagem que fez quando a fez? Foi a data de nascimento da minha filha. Fiz em 2017. Leandro fotografado em Coimbra, na semana em que foi entrevistado pela Tribuna Expresso SERGIO AZENHA / NFACTOS Acompanha ou pratica outra modalidade? Não. Qual a maior frustração que tem na carreira? Ter descido na Académica. E o maior arrependimento? Não tenho. O momento mais feliz na carreira? A subida no FC Arouca. Um objectivo que ainda está por cumprir? Subir a Académica. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? AC Milan. O médio com a mulher e os filhos com a camisola da Académcia de Coimbra D.R. Qual o jogador com o qual gostava de ter jogado na mesma equipa? Deco. E contra o qual gostava de ter jogado? Ronaldo. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em toda a carreira? Jonas. Quais as maiores amizades que fez no futebol? O Gonçalo Paciência, o Vasco Gomes, o Pedro Moreira e o Marco Soares. Tem ou teve alguma alcunha? Leo. Foi o Cadú que me meteu no FC Porto e ficou. Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Tirava o VAR. Tem algum talento escondido? Pescar. Sobretudo em Rio. No verão, férias, vou às 6 da manhã, volto às vezes às 5 da tarde sozinho. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Eu não tinha outra hipótese. Não sei mesmo. 2 Compartilhar este post Link para o post
andriy pereplyotkin Publicado Fevereiro 10 É bonita a forma como um gajo sem ligação prévia ao clube lhe ganha tanto gosto e se torna uma figura, mesmo numa era mais triste da história. 1 Compartilhar este post Link para o post
silentz Publicado Fevereiro 15 alguém se faz favor? https://tribuna.expresso.pt/entrevistas-tribuna/2021-04-17-Carlos-Goncalves-Entrei-muitas-vezes-em-confronto-com-Bruno-de-Carvalho-pelo-Marco-Silva.-Quiseram-fazer-dele-uma-arma-de-arremesso-17075292 https://tribuna.expresso.pt/entrevistas-tribuna/2021-04-18-Carlos-Goncalves-Tive-um-jogador-no-Estoril-que-rejeitou-ir-para-os-LA-Galaxy-jogar-com-o-Zlatan-porque-preferia-a-margem-sul-a-LA-938da718 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Fevereiro 23 Citação de silentz, Em 15/02/2026 at 11:45: alguém se faz favor? https://tribuna.expresso.pt/entrevistas-tribuna/2021-04-17-Carlos-Goncalves-Entrei-muitas-vezes-em-confronto-com-Bruno-de-Carvalho-pelo-Marco-Silva.-Quiseram-fazer-dele-uma-arma-de-arremesso-17075292 https://tribuna.expresso.pt/entrevistas-tribuna/2021-04-18-Carlos-Goncalves-Tive-um-jogador-no-Estoril-que-rejeitou-ir-para-os-LA-Galaxy-jogar-com-o-Zlatan-porque-preferia-a-margem-sul-a-LA-938da718 Spoiler Carlos Gonçalves: “Entrei muitas vezes em confronto com Bruno de Carvalho, pelo Marco Silva. Quiseram fazer dele uma arma de arremesso” Nesta primeira parte o fundador da ProEleven, que raramente dá entrevistas, conta como se meteu no mundo dos negócios do futebol e como às vezes é difícil, mas fundamental, dizer a um jogador que não está no nível onde pensa estar. Na carteira, conta com mais de 80 jogadores, de Gonçalo Paciência ao jovem Tiago Tomás, e quatro treinadores, entre eles Marco Silva e André Villas-Boas Vem de uma família em que o negócio já era importante? Sim, o meu pai tinha lojas de pronto a vestir. Comecei muito novo a acompanhá-lo, ia para as lojas e gostava da área comercial. Aquilo que hoje sou devo muito ao meu pai. O gosto pelo negócio sem dúvida que veio dele. E o gosto pelo futebol surge de onde? Na família sempre fomos fãs de futebol, é uma paixão desde miúdo. Como nunca tive muita qualidade para jogar, nem sequer tentei carreira como profissional. Mas sempre acompanhei os jogos, as equipas e conhecia quase tudo do futebol. Não sendo uma área natural para mim, sempre foi algo que me fascinou e que estando por fora estava por dentro do mundo do futebol. Em casa torcia-se porque clube? A família era e é toda sportinguista, os meus filhos também. Mas é curioso que, quando se é profissional neste ramo, essa situação é completamente posta de lado. Como vivemos esse mundo de outra maneira a paixão do adepto acaba por se esbater. Estudou Economia. Quando resolveu tirar esse curso qual era o seu objetivo? Como sempre trabalhei com o meu pai, via-me, a mim e ao meu irmão, a trabalhar dentro dessa área. Ainda estive ligado à política, mas afastei-me. Esteve ligado à política de que forma? Fiz parte da juventude centrista, fui vice-presidente nacional desse órgão, mas houve uma altura em que a política deixou fazer sentido e afastei-me. Na altura, lancei com dois sócios, uma escola de idiomas chamada "Novas Gerações" que, além de organizar cursos linguísticos principalmente no estrangeiro, em escolas com quem fazíamos esses protocolos, organizava palestras com quadros internacionais. A área dos negócios familiar, depois a vertente linguística, e a minha paixão pelo futebol… Acabou por fazer sentido entrar neste mundo. Vítor Gonçalves, 48 anos. Diretor geral da empresa e irmão de Carlos Gonçalves. É formado em Economia, foi professor e formador. Está na ProEleven desde 2008 e é responsável pela parte financeira e administrativa, funções divididas com as de agente D.R. Quem o introduziu no agenciamento? Foi uma série de circunstâncias. Tinha duas ou três pessoas conhecidas no futebol, que me lançaram o repto de ir ao Brasil fazer alguns contactos com atletas brasileiros que estavam interessados em vir para a Europa. Foi a partir daí que comecei a achar que podia meter-me nesta área. Não foi propriamente uma coisa muito programada e organizada. Eu tinha 29 anos. Digamos que esse é o primeiro contato mais formal que tenho com o mundo do futebol. A primeira coisa que quis fazer foi tirar a licença de agente FIFA. Na altura não havia muitos com essa licença. Já que ia começar, queria fazê-lo "by de book". Era alguém que vinha de fora e para mim fazia sentido começar, sendo um agente já licenciado pela FIFA, era uma forma de credibilizar a minha entrada. Na altura, o que era preciso para ser um agente FIFA? Era preciso fazer um depósito na FIFA, de mais de 100 mil francos, depois passou para um seguro, mais tarde veio a questão dos exames. Foram vários processos. É preciso um investimento grande a vários níveis, sobretudo no início da atividade. Quando teve retorno pela primeira vez ? Os primeiros dois anos não foram fáceis. Atendendo a que eu não tinha nenhuma carteira de jogadores, nem conhecimento desse mundo, ia ter de começar com atletas de sub-16, sub-17, como foi no caso na altura o Eliseu, que foi dos primeiros jogadores com quem comecei a trabalhar. Só com algum tempo é que começou a haver algum retorno. Se não fosse a paixão e ter uma família que compreendeu que estava a fazer uma aposta de risco, seria mais difícil. Como é que se chega a um Eliseu? Na altura não havia tantos agentes e os principais estavam mais focados no futebol sénior, o de formação não era tão disputado como hoje. Foi-me relativamente fácil apresentar-me como alguém que já tinha uma licença, que na altura não era muito normal. Vi vários jogos da equipa do Belenenses, nessa altura agenciei três jogadores dessa equipa do Belenenses, o Eliseu, o Sandro Borges e o César. Depois de entender que tinham potencial, falei com eles, apresentei-me e como também não deviam ter muitas abordagens, acabaram por confiar. O que se diz a um jogador para o convencer a ser agenciado? Na altura o que lhe disse é que gostava de poder acompanhar a carreira dele e ajudá-lo em termos contratuais, em termos de clubes. Basicamente é isso que, quando estamos a falar de jogadores tão jovens, podemos fazer, principalmente alguém como eu que também está a começar. Ou seja, eu não fui lá a dizer “Já tenho um clube para ti se vieres comigo”. Foi mais na perspectiva de acompanhar uma carreira do que propriamente fazer um negócio. No contrato que se faz nessa altura já há verbas envolvidas? Não, estamos todos a fazer uma aposta. Eles em nós e vice-versa. É acreditar em alguém que o vai acompanhar, que vai trabalhar com os clubes e com os scouts, falar dele e promovê-lo e que, com o trabalho e a correspondência dentro do campo, ambas as partes vão ter retorno. Com uns aconteceu, com outros não. Simão Coutinho, 33 anos. Sports manager/agente. Responsável pela ProEleven Norte. Tem formação em Gestão de Desporto. Está na empresa desde 2015. Ex-futebolista, passou pela formação do Sporting. D.R. Começou sozinho. Quando sentiu necessidade de introduzir mais pessoas na engrenagem? Quando comecei entendi que era importante internacionalizar-me e não me restringir só ao mercado português. O mercado português seria sem dúvida o mercado de captação de atletas, mas não era com a ideia de ser apenas um agente local. Isso fez com que viajasse bastante, fizesse uma série de contactos com agentes e equipas estrangeiras no sentido de tentar intermediar negócios; saber de necessidades dos clubes e tentar apresentar algumas soluções, mesmo não sendo de alguém que eu acompanhasse. Foi isso que fui fazendo, algumas intermediações, que me foram alavancando à medida que fomos tendo mais agenciados. Nos primeiros quatro anos estive sozinho, mais tarde veio trabalhar comigo o Carlos Coelho, antigo internacional português, que ainda cá está. Passados seis, sete anos, veio trabalhar comigo o meu irmão Vitor. Quanto ganhou com o primeiro negócio que fez? O primeiro negócio foi de um jogador brasileiro para o Bahrein e ganhei dois ou três mil euros. Foi um negócio pequeno mas para mim era importante porque mais do que dinheiro era concretizar algo e ver que era possível. É trabalharmos mesmo sem termos ainda resultados, mas acreditando que estamos no caminho certo e que os resultados acabarão por vir. As percentagens vão-se alterando conforme os negócios ou são fixas? Variam. Fala-se muito nos 10%. É essa a realidade? Os 10% é o número que toda a gente aponta como meta, mas nem sempre esses números são possíveis. Não há um valor fixo. Depende do momento, do negócio, da forma de pagamento, depende de muita coisa. Os 10% digamos que era aquilo que estava institucionalizado no meio mas não quer dizer que seja sempre assim. Já fizemos muitos negócios, muitos, em que pura e simplesmente não ganhamos no imediato à espera que o jogador triunfasse e pudéssemos ganhar no futuro, porque acreditávamos na carreira dele e abdicamos de algo imediato para o colocar num patamar que entendemos que o podia potenciar para outros voos. E se calhar se estivéssemos a falar logo em dinheiro nessa altura acaba por não se concretizar. É uma questão de fazer apostas e por isso variam muito as percentagens. Mas também pode acontecer terem jogadores que esperavam vir a atingir determinados níveis para obter o tal retorno e afinal não acontece. Muitas vezes. Ao longo destes mais de 20 anos trabalhei com muitos atletas que infelizmente acabaram por não ter o sucesso que esperávamos. A linha entre o sucesso e o insucesso é muito ténue. E aquilo que dita um jogador ter sucesso não tem muitas vezes a ver com as qualidades técnicas, mas muito com a força mental que eles têm para ultrapassar as adversidades; e tem muito a ver também com sorte. Porque uma lesão num momento inoportuno pode fazer com que a carreira em vez de dar o salto para um determinado nível caia para outro e dificilmente se consiga voltar. Depende de muitos fatores. É muito importante a qualidade que têm mas nem só os jogadores com qualidade acabam por triunfar, tivemos casos de jogadores com menos qualidade mas que acabaram por ser mais resilientes e mais fortes psicologicamente e acabaram por chegar mais longe. Quando há casos que são um flop, o que fazem? Ficam com um "ativo tóxico", digamos assim? Evidente que há atletas que começamos a acompanhar e com quem deixamos de trabalhar mas não tem a ver com isso. Acima de tudo isto é uma relação de confiança. Temos ex-atletas que foram meus jogadores que estão neste momento a trabalhar na empresa, que a carreira deles acabou por não ser aquilo que toda a gente perspetivou, mas não quer dizer que os tivéssemos deixado de acompanhar. Tanto temos atletas que jogam em clubes de top europeu como outros que estão em escalões mais baixos. Não há propriamente "Já não estás aqui em cima, já não serves". Não fazemos isso. Evidentemente que o grau de acompanhamento e o dia a dia é diferente quando estamos a falar de uma transferência para Itália, Inglaterra, do que um acompanhamento para uma II divisão ou IIB. É completamente diferente. Agora, não abandonamos. Não fazemos isso. Carlos Coelho, 68 anos. Observador/scouter. Foi a primeira pessoa que se juntou a Carlos Gonçalves. Antigo jogador internacional A e treinador de futebol D.R. A Proeleven tem quantos agenciados? Temos 83/84 atletas que acompanhamos e mais 4/5 treinadores. Fazemos também muitas intermediações. Trabalhamos em muitos mercados. Desde China, Japão, Coreia, EUA, Rússia, acho que somos das empresas mais abrangentes. E quantas pessoas trabalham na empresa? 23. Quando sentiu que a Proeleven deu o salto? As coisas foram crescendo gradualmente. Há um momento que foi mais mediático e se calhar nos transportou para outro patamar em termos internacionais, que foi a transferência do André Villas-Boas para o Chelsea. Porque havia algum mito de que só algumas pessoas é que faziam esse tipo de transferências. O montante que esteve envolvido na ida dele para o Chelsea, se calhar colocou-nos enquanto empresa num patamar diferente. Mas já tínhamos feito muitas outras operações que pouco a pouco nos cimentaram para chegar onde chegamos. É um momento, mas não é “A” transferência, foram várias coisas que nos fizeram chegar aí. Como e quando conheceu o André Villas-Boas? Conheço o André numa pós-graduação do Johan Cruijff, onde estavam variadíssimas pessoas ligadas aos futebol. O André na altura era adjunto do Lima Pereira nos juvenis do FC Porto, era muito novo, estávamos longe de imaginar a carreira dele e a minha e que ficaríamos ligados. Foi uma empatia que tivemos. Falamos muitas vezes, fomos mantendo a relação ao longo dos anos até à altura em que o André decide que quer ser treinador principal e aí falou comigo e perguntou-me se queria ser agente dele. Ficou surpreendido? Fiquei entusiasmado. O André já era um amigo, para mim foi juntar o útil ao agradável e poder ajudá-lo na carreira. Sendo certo que na altura ele já trabalhava com o José Mourinho, mas se calhar ele também não imaginava que a carreira dele ia ter o impacto que teve. Foi uma coisa muito boa e da qual estou muito orgulhoso. Foi o primeiro treinador que comecei a agenciar e foi algo importante para mim sem dúvida, mas acho que acabou por ser natural. Porque é que nunca tinha tentado agenciar treinadores? Não era uma área ainda muito desenvolvida. Só nos últimos anos é que se tornou mais normal. A maior parte dos treinadores, tirando um ou dois, não tinha agentes. Com essa transferência passou a haver mais jogadores e treinadores a bater-vos à porta? Digamos que se tornou mais fácil termos acesso a atletas de maior nome, porque o facto de termos demonstrado que era possível fazermos esse tipo de transferências, fez com que fosse mais fácil acreditarem em nós. Mas acima de tudo pôs-nos em contacto quer com agentes, quer com clubes, de forma mais regular. Vasco Casquilho, 52 anos. Sports manager/agente. Responsável pelo mercado americano, asiático e polaco. Formado em Relações Públicas e Publicidade. Está na empresa desde 2016. Foi diretor geral da Nike em Portugal e do Estoril D.R. O mais normal é o agente ir ter com o jogador. Mas também acontece o contrário, jogadores que procuram ser agenciados por vocês? Também acontece. O mais normal é, visto que temos várias pessoas na empresa que fazem o acompanhamento dos atletas, vermos quais são os que têm mais potencial. Mas também acontece situações em que pelo nosso historial esses jogadores querem trabalhar connosco. Ou porque já ouviram falar ou porque têm um colega que é agenciado por nós. Trabalhamos também com clubes, vemos as necessidades desses clubes, se podemos levar-lhes informações que se calhar são importantes e que não teriam em relação a determinados aspetos do mercado e sobre determinados jogadores que podem estar disponíveis. Deu negas a jogadores? Já aconteceu. Neste momento estar ligado a alguém só por estar não faz muito sentido. Se entendermos que podemos ser uma mais valia para esse atletas e vice-versa, faz sentido. Se entendermos que é um retorno muito complicado e que se calhar agora parece uma situação boa, mas que daqui a dois três meses podemos ter algum tipo de problemas por causa do contexto, preferimos evitar. Já teve de dizer a algum jogador que não está no nível onde pensa, mas mais baixo? Muitas vezes. E não é fácil. Mas se queremos ser honestos e corretos temos de dizer a verdade. Todos os atletas têm a ideia de que são eles e mais 10. São poucos aqueles que fazem autocrítica. Normalmente entendem sempre que se não joga é por causa do treinador ou porque o colega tem isto ou aquilo, há sempre qualquer desculpa. E muitas vezes temos de dizer "Com aquilo que estás a fazer, se não melhoras este, este e este aspecto é difícil". E já dissemos muitas vezes a alguns "Estás aqui neste patamar e se não continuas a trabalhar e melhoras estas performances que estás a ter, o teu próximo passo vais ser para aqui [aponta para baixo]". Até que ponto é que a família influencia o rendimento de um jogador? Influencia muito. Felizmente nós temos muitíssimos casos de famílias bem estruturadas que são uma mais valia incrível para os atletas. Quando passam por momentos difíceis são eles que os puxam. Agora também há alguns casos em que são as famílias os maiores focos de complicação, com pressão desnecessária em momentos que não são próprios. São vocês que vão ter com os clubes para oferecer jogadores ou são os clubes que vos procuram para saber se têm jogadores com determinadas características? Numa primeira fase 99% são os agentes a contactar os clubes. Muitas vezes falamos dos atletas que agenciamos e com quem temos maior ligação. Propomos esses atletas se entendermos que são as soluções certas. Outras vezes temos noção, através de parceiros que representam outro tipo de atletas, que há uma oportunidade de negócio, que se calhar naquele clube, porque está para sair um atleta, está para terminar contrato, vai estar comprador e propomos algumas soluções. O que faz com que depois sejam os clubes a procurar os agentes tem a ver com a credibilidade que vamos tendo. Se um clube com quem já fizemos quatro, cinco, sete negócios confiou em nós e achou que correu tudo bem, é normal, principalmente em clubes estrangeiros, que nos procurem para validar essa mesma informação. Mas isso pode alterar-se rapidamente. Como? Porque hoje um diretor desportivo com quem nós temos uma relação mais próxima acaba por passar para outro clube e porque entra uma pessoa nova, tem de se reformular e refazer outra vez a relação com aquele clube. As coisas estão sempre em mutação. Nos clubes têm como interlocutores presidentes, diretores desportivos e treinadores. Com qual deles é mais difícil de lidar? Existem clubes completamente presidencialistas, em que tudo passa pelo presidente. Há outros em que é o diretor desportivo que tem uma preponderância maior. Noutros é o treinador. Depende das situações e até dos momentos porque no mesmo clube, com os mesmos interlocutores há momentos diferentes. Há momentos em que o treinador tem o poder total e põe e dispõe. Mas depois, porque os resultados acabam por não estar de feição, perde poder e vemos o diretor desportivo a ganhar peso. Vai dependendo. Temos de ir trabalhando com todos. E há situações nos próprios clubes que muitas vezes o treinador entende que tem uma necessidade para a equipa, o diretor desportivo tem outra, e o presidente é que acaba por decidir. O FC Porto continua a ser o mais presidencialista dos três grandes? Continua a ser presidencialista, mas o presidente sabe nos momentos certos a quem deve passar essa responsabilidade para tomar decisões. Muitas vezes mais para o treinador, outras para o diretor desportivo, já teve um diretor geral que também era uma pessoa muita ativa nessa área, vai-se alterando, mas sem dúvida que o presidente do FCP é a figura central no clube. Como no Benfica é Luís Filipe Vieira? Sem dúvida. E no Sporting? Foi variando porque também foi aquele que foi tendo mais presidentes ao longo dos anos. Acabou por lidar muito com Bruno de Carvalho, no Sporting? Como foi? Foi fácil e ao mesmo tempo difícil. O Bruno tinha as ideias dele. Muitas vezes entramos em confronto, o mais notório foi a situação do Marco Silva que foi pública. Mas tivemos outras situações como do Marcos Rojo, o Maurício menos. Há sempre em todas as situações momentos de maior tensão. Houve uma altura em que as relações estiveram mais complicadas mas mesmo nessas alturas acabamos por fazer operações. Há uma coisa que sempre soube e tentei fazer, quando estou a falar de uma situação não misturo com as outras. Sou capaz de em relação a um atleta, a um treinador, ter uma posição e em relação a outros ter outra completamente diferente, porque entendo que os interesses são diferentes e não é por o clube ser o mesmo que a minha postura tem de ser a mesma. Se um clube não está a ter o melhor comportamento para comigo eu não vou usar como reféns todos os outros atletas com quem eu trabalho por causa dessa situação. Não é justo. Eu já tive situações em que não renovamos com determinados atletas e com outros renovamos imediatamente porque entendíamos ser o melhor. A situação do Marco Silva foi complicada. Foi uma situação feia principalmente porque houve pessoas com muito má índole que tentaram ligar coisas que não tinham a mínima razão e tentaram fazer uma arma de arremesso para situações que não faziam sentido rigorosamente nenhum. Prejudicou a carreira do Marco Silva? Não. O Marco na altura foi o terceiro treinador português que foi para Inglaterra, tinha ido o Mourinho, o André e depois o Marco Silva. Portanto não me parece que alguém que chega à Premier League tenha sido afetado por essa situação. Se calhar com os adeptos do Sporting eventualmente, mas acho que a imagem do Marco não foi afetada. Até porque era fácil demonstrar que aquilo que estava a ser falado em relação ao Marco não fazia o mínimo sentido. Spoiler Carlos Gonçalves: “Tive um jogador no Estoril que rejeitou ir para os LA Galaxy, jogar com o Zlatan, porque preferia a margem sul a LA” Na segunda parte desta entrevista o CEO da ProEleven fala dos mercados, das comissões e das investigações ao mundo do futebol. Diz que nunca temeu que os Football Leaks apanhasse a sua empresa e garante que não foi nem é arguida em nenhum processo. Carlos Gonçalves aproveita também para criticar a FIFA e a sua forma de atuar em relação ao agenciamento. Revela também que houve um clube que já impôs num contrato que as botas do jogador, não podiam ser de uma determinada cor Existe a ideia de que a Proeleven é rival da Gestifute, de Jorge Mendes. É verdade? Tento não olhar muito para isso. É evidente que pode acontecer pontualmente. Muitas vezes tentamos trabalhar com os mesmos atletas ou fazer o mesmo tipo de operações. Se há alguém que está à procura de um lateral direito e nós tentamos colocar um jogador, a Gestifute também, ou outros, e o negócio é só para um. Essa concorrência é normal. Fazemos o nosso trabalho, eles fazem o deles. Falam um com o outro? Não. Eu tenho muitos agentes, com quem tenho situações de parceria, mas com a Gestifute nunca aconteceu. Rui Patrício andou a saltar de uma empresa para a outra. O que aconteceu? [risos] Isso terá de perguntar ao Rui. Acho que acaba por ser normal. Não é agradável, mas...Se as pessoas livremente entendem que aquilo é o melhor para a vida delas, acabam por tomar essa opção e nós continuamos o nosso caminho. Eu só consigo dominar aquilo que depende de mim. Aquilo que são as decisões das outras pessoas não consigo influenciar. A lealdade das situações, o facto de serem mais reconhecidos ou menos reconhecidos depende das pessoas, e depois há momentos; há momentos em que sentem que faz sentido e mais tarde até podem achar que não foi o melhor. Para quem entra nesta atividade acaba por ser normal esse tipo de situações. É verdade que os agentes de futebol tentam "comprar" ou convencer jogadores, oferecendo-lhes grandes carros? Há quem faça. Não acredito nisso. Não acredito em pagar para trabalhar. Quando alguém começa uma relação que se quer de confiança e o primeiro sinal é pagar para se ganhar essa confiança, não me parece que seja a melhor forma. Porque a primeira coisa que se vai fazer é tentar potenciar esse investimento, esse gasto que se teve. Eu não consigo entender as relações que temos com os nossos agenciados e com quem trabalhamos dessa maneira. Agora sei que há quem utilize esse meio. Neste momento qual é o mercado mais rentável? É difícil dizer. Vai-se alterando. Sem dúvida que toda a gente quer estar nos Big Five, as ligas inglesa, alemã, espanhola, Italiana e francesa, por causa de visibilidade que têm, o que não quer dizer que financeiramente sejam as melhores; em princípio sim, mas haverá outras mais periféricas como a Rússia, a China, as Arábias que podem ser financeiramente tão ou mais lucrativas em determinados momentos para determinados atletas ou treinadores. Mas isso varia também consoante os momentos que atravessamos. A China passou de pagar relativamente bem para um boom em termos financeiros, com uma aposta do governo chinês clara no futebol. E nestes últimos anos o clube que acabou de ser campeão na China pura e simplesmente fechou portas. Impuseram tetos salariais, o que afastou muito jogador. Mas os tetos salariais não são a mesma coisa do que numa MLS. São situações diferentes porque na China houve ideia do governo em investir no futebol, disseram aos donos dos clubes para fazer esse tipo de investimento, até ao momento em que acharam que já estavam a fazer demasiado e cortaram. E não podemos dissociar com o facto de vivermos uma pandemia mundial. Tudo aquilo que era há um, dois anos, alterou-se radicalmente. De que forma é que a pandemia prejudicou o mercado? Mexeu com tudo. Mexe com o facto de não haver adeptos no estádio, e o futebol é para mover paixões. Evidente que a televisão foi o que deu o boom e alavancou depois grandes investimentos, mas o futebol é um desporto de massas em que não haver adeptos no estádio tem uma influência brutal nos clubes e naquilo que é o futebol. Havendo uma pandemia, todas as atividades sofrem. A Proeleven ressentiu-se? Todos sem exceção. Se o número de negócios, a quantidade de transferências, o montante envolvido é menor, acaba por afetar todos, jogadores, treinadores, todos. Fizemos menos transferências e o seu valor também diminui. Felizmente não colocamos ninguém em layoff. Mas não estamos a trabalhar da maneira como o fazíamos antes. Não podemos viajar, o facto de estarmos mais confinados e haver tantas restrições prejudica, porque muito daquilo que fazemos é também um contacto com as pessoas, é tentar perceber determinadas coisas que só estando e indo aos locais, nos apercebemos. Foi transversal. Foi mais afetada a Ásia do que a Europa? Foi igual para todos. A Ásia neste momento é mais visível porque a China pura e simplesmente cortou com o investimento. As arábias também. Se o fluxo de receitas não é o mesmo temos de nos adaptar em termos de custos e isso está a passar-se na maior parte dos clubes. Aquilo que inicialmente se previa, que os clubes mais fortes não iriam ter tantos problemas, acabou por não ser real. Os clubes de topo mundial estão com fortíssimos problemas financeiros, com déficits enormes neste último ano e meio precisamente porque aquilo que lhes entrava no match day acabam por não fazer. Clubes como o Dortmund, o Manchester United, o Bayern de Munique, o Real Madrid, Barcelona, em que a parte televisiva é importante. Mas depois há tudo o resto, o merchandising, business seats, etc, toda uma série de meios para captar investimento e que neste momento não têm. E os custos fixos mantêm-se, tirando alguns variáveis. A duração dos contratos entre agente e agenciado é de dois anos na Europa, mas no Brasil é de três. Qual o tempo ideal para a duração dos contratos? O ideal seria o que as pessoas acertassem entre elas. O mercado seria ainda mais desregulado. Mas eu acho que a FIFA nunca quis regular muito bem a parte dos agentes. Houve uma altura em que não havia tantos agentes e as coisas estavam mais ou menos regulamentadas, mas a partir de determinada altura a FIFA lavou as mãos. E quando se diz que se quer impor a um agente dois anos, mas a um clube há uns que já fazem cinco de contrato e outros já fazem seis dependendo dos países, não há o mesmo peso e a mesma medida. E depois acusam os agentes de criarem focos de instabilidade, com a mudança rápida dos jogadores. Aquilo que pergunto é: se a FIFA atribuísse aos clubes um ou dois anos para fazerem contratos, não havia muito mais mexidas de jogadores? Acabava por acontecer. Portanto essas situações das mudanças de agente, tem muito a ver também com a precariedade, com o número mais limitado de contrato. Se calhar muitos mais anos também não faria sentido porque acho que as pessoas não devem ficar com alguém só porque cometeu o erro de em determinada altura assinar um contrato...Mas acho que se há uma situação de confiança deve dar-se algum tempo para se poder trabalhar. Qual seria a solução? Não faria muito sentido ser superior a quatro anos. Três, quatro anos, seria razoável. Mas também entendo que isso pudesse ser alterado consoante as idades em que se faz. Se calhar para um atleta de formação, o contrato podia ser um pouco maior até ao primeiro contrato profissional, e à medida dos anos essa duração ia diminuindo. Algo progressivo. Sendo certo que o mais importante disso tudo é a vontade das partes. Se não houver confiança não é pelo vinculo em si que as coisas acabam por funcionar. Disse numa entrevista que a Proeleven apresenta caminhos ao jogador, mas que a última palavra é sempre dele. Não acontece algumas vezes o jogador ser envolvido em negócios que não lhe dizem respeito diretamente? Eu falo naquilo em que participo. Em relação àqueles com quem trabalhamos, posso garantir 100% que a decisão final é sempre deles. Evidentemente que daremos sempre a nossa opinião, mas a decisão final é sempre do jogador, não é nossa. E há momentos, em termos da carreira, em que faz mais sentido olharmos mais para a parte desportiva e há outros, pela idade, em que já se começa a olhar mais para a parte financeira dos atletas. Acho que há etapas que não se devem queimar. Daí nunca termos feito transferências de atletas menores para o estrangeiro. Nunca participamos nisso. Se os agentes negociam tanto com clubes como jogadores, como é que cada um deles sabe que o agente está a fazer o melhor negócio para si e não para o outro? Acho que tudo isso passa pela transparência. Eu faço questão que as pessoas com quem eu trabalho saibam o que vou ganhar. Assim é fácil ver se se está a fazer em prol deles ou não. Jamais coloquei uma comissão à frente do interesse de alguém que estivesse a trabalhar. Não o faço. A primeira coisa que faço é discutir os valores salariais deles, a partir daí sim, então depois discutimos o resto. Está para vir o primeiro clube que diga "O Carlos primeiro perguntou-me quanto é que era de comissão e só depois é que se preocupou em saber quanto é que era o salário". Se há outros que fazem, não faço a mínima ideia. Se as coisas forem transparentes, houver clareza e toda a gente for informada não vejo que haja problema. O problema, esse sim, mesmo só trabalhando para umas das partes, é quando não se diz a verdade toda. Quem não deve não teme e as coisas têm de estar à vista. É possível o agente num mesmo negócio ganhar de vários lados? É possível. Há montantes que são pagos pela venda e outros que têm a ver propriamente com o agenciamento e com o salário. E aí são situações distintas. Qual é a mais valia do agente, porque é que o clube não contacta diretamente com o jogador? Se os clubes já falam que os atletas estão a ser constantemente assediados, imaginem o que era um atleta estar constantemente a receber chamadas de clubes. Depois há uma outra situação. Quem está disponível para vender não vai anunciar que está a vender. A maior parte dos clubes não anuncia, a não ser aqueles que de facto não contam e aí sim estão nos dispensados. Aqueles que são os principais ativos, os clubes normalmente não dizem que querem vender. Veja-se as cláusulas. É uma informação que quem está no meio, se a tem, passa-a e sabe muitas vezes em que moldes é que os negócios podem ser feitos. Fala-se muito na influência dos agentes junto dos clubes, dos treinadores, dos diretores desportivos, até que ponto é que vai essa influência? São os próprios clubes que fazem as escolhas. A maior parte dos clubes sabe o que quer. O que pode alterar ser a primeira, a segunda ou a terceira escolha é determinado tipo de informação que se calhar não tinham sobre os atletas. Se calhar um jogador era a terceira escolha porque provavelmente pensavam que o montante que pudesse estar envolvido fosse mais difícil chegar. Em todas as áreas há pessoas mais permeáveis do que outras, agora dizer que é o agente que influencia essa escolha, ele passa informação, mas a decisão final acaba por ser do clube. Eram conhecidas também as influências que alguns agentes tinham em determinados clubes. Há agentes que têm um relacionamento mais próximo com determinado tipo de clubes que se calhar quando passa uma informação é olhada de outra maneira do que se vier de alguém com quem tenham menos grau de contacto, mas quero acreditar que a decisão final passará sempre pelos clubes e não é por ser o A, B ou C a propor que as coisas passam a ser decididas assim. A Proeleven utiliza dados estatísticos. Que importância é isso tem para o vosso trabalho? Costumo dizer na brincadeira que os melhores atletas acabam por ter os melhores números em termos estatísticos. Mas não podemos olhar só para os dados estatísticos. Aquilo que tentamos utilizar é para confirmar o que já nos parece. Com factos concretos tentamos demonstrar a ideia que já temos. Utilizamos para propor atletas e às vezes para podermos comparar com outros, não é só propor e dizer "porque acho que sim", tentamos demonstrar. Mas também serve para ajudar os nossos próprios atletas a melhorar a sua performance, chamando a atenção para determinados parâmetros. Com dados estatísticos é mais fácil perceberem determinado tipo de situações que tem de melhorar. Fomos das primeiras empresas a recorrer a dados estatísticos. É um complemento importante para nos ajudar a filtrar. Como olha para Football Leaks. Temeu que pudesse chegar a si ou que pudesse prejudicar muito este tipo de negócio? Em relação a nós diretamente nunca nos preocupou. Em relação ao fenómeno futebolístico não é agradável. Mas se as coisas não estavam a funcionar bem acho que a justiça deve fazer o seu caminho. Agora, o Football Leaks é futebol, mas os Leaks não é só futebol, é transversal à sociedade. Há em todas as áreas de atividade bons e maus exemplos e se calhar estamos a falar dos maus exemplos que devem ser combatidos porque também existe concorrência desleal, mas é a justiça que cabe tomar rédeas. O que chama de concorrência desleal? Se estamos a falar de situações em que há claramente fluxos de dinheiros que não são os mais normais, não é bom para quem quer estar de forma correta nesta atividade. Mas deixo para a justiça, não é a minha área. A Proeleven é arguida na Operação Fora de Jogo? Não, nem nunca esteve como arguida rigorosamente em nada. Infelizmente saíram notícias em que o nosso nome esteve envolvido com outros, mas garanto que a Proeleven não está nem nunca esteve arguida em nada. Qual foi o negócio que mais lhe custou perder? Vários. Houve uma situação há muitos anos, estava a tratar da transferência do Robin van Persie do Feyenoord para o Sevilha e por momentos tivemos essa operação praticamente fechada. Tivemos a informação de que tinha havido alguns problemas entre o treinador do Feyenoord e o Robin van Persie; eu tinha uma boa relação com o Monchi, diretor desportivo do Sevilha, transmiti-lhe isso, fomos à Holanda, estivemos inclusive com o pai do Robin van Persie. O Feyenoord estava para fazer o negócio com o PSV, mas quando surgiu o Sevilha, para os adeptos deixou de ser exequível fazer a transferência de um ativo para um rival quando tinham um clube estrangeiro interessado. Tivemos as coisas praticamente acertadas, até que o Arsenal liga para ele e a coisa acabou por não se concretizar para nós. Já foi há muitos anos. Era uma operação importante que por umas horas acabou por cair. Mas também houve negócios que não estava a pensar fazer e que acabaram por se concretizar. Pode dar um exemplo? Há várias operações que pensamos que já não estão para acontecer e porque se lesionou uma atleta ou porque se calhar a primeira opção acabou por cair, acabamos por fazer negócio quando nem éramos a primeira escolha. Acontece também outros que trabalhamos durante muito tempo e quando pensamos que já não se vão fazer, eles concretizam-se. O vosso trabalho não é só a venda do jogador, fala muito no acompanhamento do jogador. Esse acompanhamento passa pelo quê em concreto? Temos pessoas dedicadas que podem estar 10/15 dias a acompanhar a integração de um jogador quando muda de clube e de país, seja a ajudar na procura de casa, como outros tipo de situações. Evidente que se é alguém que está na China é mais difícil o acompanhamento ser tão permanente do que aqui na Europa. Mas procuramos estar sempre presentes nos momentos chave, importantes, sejam bons ou maus. Conversamos com os clubes, queremos saber como as coisas estão a correr. O que fazem quando atletas que vão para países longínquos ou ligas muito diferentes daquelas a que estão habituados, não se adaptam e ao fim de uma semana, 15 dias dizem que querem vir embora? Já tivemos situações em que chegamos ao ponto dos atletas rescindirem o contrato, porque não se adaptaram mesmo. Tiveram de chegar a um entendimento com o clube, porque se não o têm, com um contrato assinado, é muito complicado. Aí a questão financeira é o menos importante, o que é importante é retirá-lo desse cenário e encontrar soluções para que rapidamente volte a estar feliz e motivado. Algumas vezes foi possível fazer imediatamente, outras vezes é preciso esperar seis meses pela janela seguinte. Há muito a ideia de que os agentes têm vidas de luxo, andam em jatos privados, só comem em bons restaurantes e por aí fora. Qual foi a maior extravagância que fez? Não sou uma pessoa de muitas extravagâncias. Procuro que a minha família esteja bem, mas não sou uma pessoa de grandes extravagâncias. Não falando do ano da pandemia que foi atípico. Num ano normal, quanto tempo está fora de casa? Já estive mais de 180 dias fora de casa num ano. E para isso foi muito importante a minha estrutura familiar. A minha mulher sempre me ajudou muito. Acompanha-me algumas vezes, ultimamente mais. Antigamente tinha mais receio de andar de avião do que agora. E tem sido fundamental porque não é fácil estarmos tanto tempo ausentes. Tenho dois rapazes que gostam de futebol, um deles já está a trabalhar connosco. Mas perde-se muito tempo com a família. Era muito raro passar um fim de semana em casa. Mesmo nas férias, tirava seis sete dias em setembro quando terminava o mercado. As férias de verão para os meus filhos eram uma semana antes de começar as aulas. Como pretende fortalecer a empresa no futuro e em novos mercados? Tínhamos uma ideia que, com a situação da pandemia, temos de ver o que se irá passar. Estamos com pessoas que trabalham diretamente com a empresa na Turquia, na Grécia. Era uma das áreas que estávamos a abrir, a Proeleven ter pessoas locais em determinados países. Estilo franchising? Era um pouco isso que estávamos a avançar. Com estas restrições todas que temos vamos ver como vamos adaptar-nos todos. O nosso objetivo é crescer sustentadamente, por isso temos de observar o que se vai passar para depois tomar algumas decisões estratégicas. Acha que o mercado de agenciamento está saturado? Quando comecei havia muito menos agentes, sem dúvida. Há uns anos as pessoas quando olhavam para o futebol, queriam se jogadores de futebol, passados uns anos já queria ser treinadores de futebol, ou seja, já há jovens a querer ser treinadores de futebol e outros que querem ser agentes de futebol. Acho que há sempre espaço para mais assim como haverá outras que irão deixar de trabalhar nesta área. Foi muito difícil negociar a saída do André Villas Boas do Marselha? Não. Neste momento, até porque o André ainda não falou dela, eu não queria falar muito sobre essa situação do Marselha. O André a seu tempo irá falar. Foi um processo que se ultrapassou. Como encara as limitações das comissões que a FIFA quer impôr? A FIFA acho que está, como sempre esteve em relação aos agentes, perdida. A FIFA regulou, depois deixou de regular, depois já quer regular outra vez. Mais uma vez acho que deve haver livre arbítrio entre as partes de negociar, porque num determinado negócio pode fazer sentido 2%, 3%, mas noutro pode fazer sentido 6% ou 7%, depende. A meu ver o que faz sentido é a transparência, não tenho nenhum problema que as comissões sejam públicas, que seja tudo transparente sobre quem cobra o quê. Essa limitação não faz sentido rigorosamente nenhum porque se a FIFA não impõe limites aos salários dos atletas, dos treinadores e dos próprios diretores, porque é que nesta situação vão impôr um limite se as partes que estão a negociar podem negociar mais ou menos? Em relação ao que se tem passado na FIFA não deixa de ser curioso que seja se calhar o principal organismo com mais problemas em termos de corrupção que esteja a querer pôr para cima dos agentes uma responsabilidade que eles têm muito mais com determinado tipo de coisas. Só totalmente aberto às casas de transferência e a todas as situações que sirvam para tornar o meio completamente claro e aberto para toda a gente. Mas não acho que faça sentido esses limites porque é a mesma coisa que dizer neste clube todos os jogadores têm de ganhar este montante, e nos próprios clubes há atletas que ganham 50 e outros que ganham 5 milhões. Porque é que só em relação aos agentes é que tem de haver essa limitação e em relação ao resto não há? Porque é que acha que a FIFA o quer fazer? Acho que a FIFA quis dar uma de que é popular, os agentes também se põe a jeito, mas acho que é popular bater nos agentes e dizer que são os principais culpados de todo o mal e de tudo o que está errado no futebol, porque houve comissões muito altas e os agentes estão a ganhar muito dinheiro. Não é verdade. Nem todos. Há uns que sim, mas nem todos ganham o mesmo montante. O que os clubes pagaram de comissões passou de X para Y. E em termos de salários, não se passou também de X para Y? E os montantes dos direitos televisivos, também não passaram? Tentam colocar só numa área os problemas de todo o futebol e isso não faz nenhum sentido. O que vão fazer é criar subterfúgios, que é errado, é preferível ser claro e que as regras sejam iguais para todos mas com transparência, depois cada uma das partes vai discutir se um atleta ganha 50, se ganha 100 ou 150. E mais tarde serão os diretores que perante os adeptos, perante os acionistas serão responsabilizados por aquilo que façam de bem ou de mal. E sobre as cláusulas de rescisão. Que opinião tem? Não percebo como é possível um atleta que ganhe 30 mil euros/ano ter uma cláusula de rescisão de 50 milhões. Não há proporcionalidade. Aí sim é que eu acho que devia haver regras para defender os atletas, mas aí já não se preocupam muito com os direitos dos atletas, porque os clubes não vão achar tanta piada e portanto é mais fácil atacar outras aéreas. A cláusula de rescisão é sempre o clube que impõe? O agente não tem uma palavra? Tem sido um cavalo de batalha que tenho tido com muitos clubes e muitos focos de tensão precisamente por causa disso. Porque o meio aceita. Dizem "aqui os avançados são todos 60 milhões, os médios são todos 40". Mas porquê? Se vocês acabaram de pagar por um atleta 15 milhões, que ganha dois milhões de salário, e tem uma cláusula de 60 milhões, porque é que há-de ter a mesma cláusula de rescisão alguém que ganha 50 mil euros e vem da formação? Não faz sentido. As coisas têm de ser proporcionais. Aí sim, deve haver mecanismos que digam, OK, não somos contra as cláusulas de rescisão altas mas contra salários baixos com cláusulas de rescisão altas. Muitas vezes chego aos clubes e digo a cláusula de rescisão é aquela que tu quiseres colocar desde que seja esta percentagem do salário que nos vais pagar. Se quiseres pagar pouco salário a cláusula de rescisão é baixa, se quiseres ter uma cláusula de rescisão mais alta, tens de pagar mais salário. E muitas vezes isso não é fácil. Nota que essa questão coloca-se mais com a chegada de cada vez mais jovens às equipas principais? Sim, mas em Portugal já assisti a vários ciclos desses, dos jogadores jovens chegarem cedo às equipas principais. Também tem a ver com o momento em que isso acontece. Em momentos de dificuldade aposta-se na formação, em momentos de abundância vão para os jogadores feitos. Isso é notório. É muito raro o clube que aposta na formação como uma estratégia, apesar de muitas vezes o dizerem, sabemos que à mínima oportunidade que têm acabam por compensar isso com um investimento num atleta feito. Há algum clube em Portugal que tenha sido mais coerente nesse aspecto? Não. Nós assistimos a vários exemplos de clubes que gastavam 20 milhões e com a mudança de um treinador ou diretor desportivo passaram a gastar 60 ou 70 milhões logo no ano seguinte, portanto, não é uma questão estratégica. Ou porque houve eleições, ou porque houve uma venda alta de algum jogador e a seguir esse dinheiro que entrou em vez de continuar a ser canalizado para a formação e promover outros já foi gasto com outro tipo de contratação. Os clubes nisso vão mudando muito. Não é só em Portugal. Evidente que em Portugal, sendo um país vendedor, o normal é promover para vender porque não somos fim de linha, vamos sempre obrigatoriamente ter de vender. É mais fácil para o Barcelona, Real Madrid, para os grandes clubes reterem talento. Para nós é mais difícil. Os jogadores do Barcelona daquela equipa do Pep Guardiola, se fossem jogadores do Sporting, Benfica ou FCP, ao fim de dois ou três anos estavam todos lá fora. Era impossível algum clube reter essa geração durante esse tempo todo. Acaba por ser normal que isso aconteça. Mas os clubes vão mudando. Houve uma determinada altura em que o Sporting era aquele que parecia apostar mais na formação, deixou de o ser, depois houve uma altura que era o FCP, o Benfica durante estes últimos anos parece que foi essa a aposta, de um momento para o outro já não é assim. Vai mudando. Já lhe aconteceu recusar um jogador que percebe ser um craque, mas que do ponto de vista mental vai trazer problemas ou que não vai vingar? Já. Há determinadas idades em que o talento só é suficiente, principalmente nos mais novos, até chegar aos três primeiros anos do futebol profissional. Mas a partir de determinada altura se não tem a força mental é um problema. Nos últimos anos tem-se notado muito isso porque a sociedade está muito mais mediatista. Queremos tudo para agora, rapidamente, num clique. Os atletas olham para as carreiras dele como um frame, não é como um filme de longa duração. Eu digo-lhes muitas vezes "Tu olhas para a tua carreira baseado naquilo que fizeste no último fim de semana. Isso é um erro". As decisões que se tomam ao longo de 15 ou 20 anos que possa durar a carreira de um atleta profissional, é importante que não se faça só um frame e se sinalize só com uma fotografia. Muitas vezes analisa-se a carreira de um atleta pela fotografia. Pelos menos eles ou o entorno familiar, as pessoas que lhes estão mais próximas, dizem logo "Não jogou este fim de semana, o treiandor...". As coisas não são assim. Muitas vezes passa-se por momentos menos bons para se chegar ao sucesso. Faz parte do agenciamento falar com o treinador quando existem essas situações de não jogarem? Nunca falamos com o treinador. Os treinadores é um espaço reservado para os atletas, eles é que têm de falar com os treinadores. Jamais ligo a um treinador para perguntar porque é que não joga. Nem aos treinadores com quem trabalhamos pergunto o que quer que seja. Já tivemos situações e dou um exemplo prático, o Paulo Bento foi treinador do Olympiakos, nós representávamos três jogadores da equipa o André Martins, o Pardo e o Gonçalo Paciência. Houve jogadores que ficaram fora da lista da Liga Europa, dois eram nossos. É a decisão deles. Jamais faço esse tipo de influências. Agora é evidente que depois temos de analisar aquilo que se passou durante um ano, dois anos, e se virmos que o caminho não é esse então sim, temos de falar com o diretor e tentar encontrar soluções. Deve acontecer muitas vezes, sentirem interferências de outros agentes a tentar minar o vosso trabalho. Qual foi a pior coisa que lhe fizeram? Isso acaba por ser normal. Muitas vezes acho que é o canto da sereia. Se estamos a negociar a renovação de um atleta e se dizemos o máximo que vamos conseguir chegar é X, mas há alguém que diz "Bom, porque eu tenho influência eu consigo pôr-te a ganhar Y". E em 99% dos casos é mentira. Porque senão não faz sentido porque é que um clube com um agente vai pagar mais e com outro pagava menos. O que acontece é que isso mete com a cabeça dos atletas. O facto de neste momento ser tão fácil chegar a eles através das redes sociais faz com que muitos agentes e contadores de histórias, venham com conversas de que eu coloco-te aqui ou ali. Onde é que se ganha mais dinheiro neste negócio? [risos]. Os agentes é tudo o dinheiro [risos]. A mim dá-me muito gozo perceber o grau de influência que enquanto empresa tivemos na carreira de alguns atletas e ver que os ajudamos desportiva e financeiramente. Ver que quando começaram tinham um carro X e ganhavam Y e passados uns anos ver onde é que chegaram. Isso é muito gratificante. Qual foi a situação mais caricata que viveu ao fazer uma transferência? Já tive situações engraçadas. Como uma vez num clube de uma liga importante, em que no último dia de mercado, o treinador precisava de três ou quatro contratações e o dono do clube às sete, quando o mercado fechava às 11, disse: "Vou ter de me ausentar porque vou dar comida ao gato". E ausentou-se durante duas horas porque tinha de dar comida ao gato e perdeu-se uma das transferências que estavam em cima da mesa, porque não se chegou a tempo. Já tive situações em que estava à mesa com o atleta e o diretor e outras pessoas e chega o dono do clube e pergunta "Então quem é o jogador" [risos]. Ou trocarem os nomes, também acontece, ou dizer que viu um jogo que o atleta fez num clube e o atleta nunca teve nesse clube [risos]. Muitas vezes, como não são eles que tratam, são os diretores desportivos, só vão lá para o ato solene e acabam por não estar tão inteirados das coisas todas. Lembro-me também da situação de um jogador que estava no Estoril e que recusou uma proposta do LA Galaxy, onde na altura jogava Ibrahimovic, porque não queria trocar a margem sul por Los Angeles. Qual foi a exigência mais estranha que lhe fizeram? Tivemos um caso em que nos contratos se impunha não jogar com determinada cor de botas. Há alguma altura do ano mais propensa para negociar? Os momentos são diferentes. Também depende de como o clube já esteja na tabela classificativa. Se está estável. Há determinados clubes que estão à espera de garantir lugar na Liga Europa ou na Liga dos Campeões, para fazer determinados investimentos. Até garantirem esse investimento não fazia muito sentido negociar. Se estão a pensar mudar de treinador se calhar não faz muito sentido estar a oferecer jogadores, porque estão à espera do novo para depois tomarem decisões. Temos de estar constantemente atualizados. A sua função mudou muito ao longo dos anos? Sim. Eu quando comecei via muitos jogos de formação, andava constantemente nos campos a ver os sub.17, sub-19 e agora não vejo tanto. O meu tempo agora é passado de uma forma diferente até porque ao termos pessoas responsáveis por varias áreas e determinados mercados, acabam por ser eles que fazem o primeiro filtro e eu tomo conta dos processos a partir de determinada altura. Foi variando ao longo dos tempos. Houve uma altura que eu passava muito mais tempo ao telefone do que agora, porque muitas coisas já me são filtradas. Nem todos os negócios passam por mim. Eu tenho conhecimento de todos os negócios, mas já tenho felizmente pessoas na empresa que são autónomas para fechar uma negociação. Qual foi o montante mais alto que ganhei até hoje? Espero que seja aquele que está para vir [risos]. 2 Compartilhar este post Link para o post