Lebohang Publicado Fevereiro 23 Pedro Nuno Spoiler “Fui treinar aos juniores e descontraí. O Sérgio Conceição viu, escondido. Voltei aos seniores e deu-me um raspanete, foi um abre-olhos” Pedro Nuno, benfiquista de coração, viu o sonho ganhar forma aos 15 anos, altura em que entrou na Academia do Seixal, após seis anos de formação inicial na Naval. A ilusão do médio ofensivo durou apenas dois anos. Terminou a formação na Académica, onde se estreou na I Liga, assinou novamente pelo Benfica, mas para ser emprestado ao CD Tondela, jogou três anos no Moreirense e um na B SAD, antes de tentar a sorte lá fora, a pensar na vertente financeira Nasceu na Figueira da Foz. É filho de quem? Os maus pais ainda trabalham. A minha mãe é carteira na Figueira. Se forem lá e perguntarem pela “Lena carteira“, acho que toda a gente vai conhecer. O meu pai trabalha nas Águas da Figueira. Foi jogador quando era mais novo, jogou na equipa B do Benfica e na Naval. Mas não jogou profissionalmente em nenhum clube. Ele foi emprestado a um clube, teve uma lesão grave e teve de optar pelo trabalho. Tem irmãos? Tenho uma irmã mais nova que é dentista, está a dar os primeiros passos. Cresceu em que zona da Figueira da Foz? Em Buarcos, junto à praia. Nunca se aventurou por nenhum desporto ligado ao mar? Não, curiosamente a primeira vez que tentei fazer surf foi há dois ou três anos. Mais novo ainda conciliei o futebol com a natação, mas o meu primeiro desporto foi sempre futebol. Só estive um ano ou dois na natação porque só queria o futebol. Os professores quando perguntavam o que queria ser eu dizia sempre que queria ser profissional de futebol. Pedro Nuno com o pai e a irmã bebé D.R. Torcia por algum clube? Pelo Benfica. Quem eram os seus ídolos? Tive algumas referências. Obviamente, o Ronaldo, o Messi, mas ídolo sempre foi o meu pai. Quando e como foi jogador para um clube pela primeira vez? Penso que foi com 6 anos. Ainda não podia jogar oficialmente, mas o meu pai conhecia o treinador na Rosa Náutica, uma escolinha de futebol ligada à Associação Desportiva de Buarcos, que hoje já não existe, só tem futebol de praia. Ele falou com o meu pai, disse para eu ir lá, para começar aos pouquinhos. Era pequeno, jogava com crianças dois anos mais velhas e nessa fase sente-se um bocado a diferença. Depois comecei a jogar no Buarcos e passado dois ou três anos, o Buarcos terminou com o futebol e quem estava na Rosa Náutica foi para a Naval. Esteve seis anos na Naval? Sim, fiz escolinhas, infantis e iniciados lá. Pedro Nuno (atrás, no meio), jogou 6 anos na Naval D.R. E da escola, gostava? Essa parte foi um bocado mais complicada. Era bom aluno, só que, obviamente, o futebol estava primeiro na minha cabeça. A minha mãe estava sempre em cima de mim. Só quando fui para o Benfica é que desliguei um bocadinho da escola, o que se calhar não devia ter feito. Não consegui acabar o 12º ano na altura por causa da Matemática e Físico-química, mas terminei recentemente através das Novas Oportunidades. Como foi parar ao Benfica aos 15 anos? Antes dessa chamada para um torneio do Benfica eu já tinha feito cerca de cinco ou sete treinos de captação e cheguei a fazer dois no Sporting também. No Benfica sempre me disseram que era um jogador acima da média, mas como era de longe e era novo não podia ficar na academia. O tempo foi passando e, nos iniciados, tive um jogo contra o Leiria Marrazes, salvo erro. Julgo que ganhámos 2-1, com golos meus. O senhor Jaime Graça, que infelizmente já faleceu, estava lá e foi perguntar na bancada a uma pessoa se sabia quem eu era. Curiosamente, foi falar com a minha mãe, perguntou quem era o número 7 da Naval e ela disse que era a minha mãe. Disse-lhe que estavam interessados que eu fosse participar num torneio no mês seguinte. Vou fazer o tal torneio em Vila Franca do Rosário e acabei por ser o melhor marcador pelo Benfica. Decidiram que queriam assinar comigo e assinei quatro anos de contrato de formação. Pedro começou a jogar pelo Benfica com 15 anos D.R. Como reagiram os seus pais, uma vez que tinha de ir viver para a Academia do Seixal? O meu pai reagiu melhor, a minha mãe é mais galinha, gosta de nos ter por perto. Ainda hoje. Mas ela percebeu que era o meu sonho. A verdade é que não foi fácil para ninguém. Houve noites em que chorei muito, mas acabamos por adaptar-nos rápido, porque há muitos miúdos da nossa idade e vamos criando amizades. A parte mais dura foram as saudades, sem dúvida, porque de resto não nos falta nada, tínhamos sempre apoio das pessoas que geriam o centro de estágio e aquilo basicamente é como se vivêssemos num hotel, temos tudo, comida, cama e roupa lavada, levam-nos e trazem-nos da escola, há todas as condições para treinar. Com quem partilhou quarto? Do primeiro jogador já não me lembro do nome. Ele depois foi embora. Veio outro de Macau, penso eu, e foi embora também. Acabei por ficar com um colega da minha equipa, o Miguel Miguel. Quando chegou notou muita diferença ao nível dos treinos? Foi onde senti a diferença maior, porque trabalhava aspetos do jogo que nunca tinha ouvido falar na Naval. Mas os treinadores do Benfica trabalham só naquilo, na Naval as pessoas têm outro trabalho e o futebol é como se fosse um hobby. Como foi lidar com o treinador Renato Paiva? Fez sempre um excelente trabalho e é um treinador pelo qual tenho um carinho grande. Ajudou-me muito, sentia-me muito bem a jogar com ele. Aprendi muito. Fiz uma grande época, apesar de ter fraturado a clavícula que me deixou cerca de três meses fora. Pedro Nuno em ação pelo Benfica D.R. Fraturou a clavícula como? Num jogo, curiosamente acho que tinha feito golo e passado uns minutos, um jogador da equipa adversária, vinha a correr atrás de mim, toca-me no pé, eu caio e ele cai sobre mim. Como não caí direito, ao levar com ele em cima de mim, acabei por fraturar e tive que ser operado. Depois a cicatriz não cicatrizava bem porque a pele é muito fininha nesta zona, abriu algumas vezes e tive de ser operado só à cicatriz. Só depois consegui voltar. No ano seguinte teve Bruno Lage como treinador. Muito diferente do Renato Paiva? Senti diferença, pelo menos individualmente. Também aprendi muito com ele. Eram estilos diferentes. O Renato Paiva se calhar acreditava mais em mim, no que eu poderia fazer e dar. Tanto que, depois dessa época com o mister Bruno Lage, disseram-me que não contavam comigo na época seguinte, quando tinha acabado bem, fomos à fase final. Eram seis jogos, éramos nós o FC Porto, o V. Guimarães e o Sporting. No primeiro jogo ganhamos 1-0 ao V. Guimarães, faço o golo. No segundo jogo vamos ao Porto, faço assistência para o golo, apesar de termos perdido 2-1 ou 3-1. A partir daí, nunca mais joguei e não fui mais convocado. Sem razão aparente, nunca falou comigo. Quem era a sua concorrência? O Gonçalo Guedes, o Romário Baldé e o Rochinha. Eram obviamente jogadores muito bons, mas eu sentia que também estava muito bem e que podia ajudar a equipa. Ainda chegou a jogar pelos juniores A? Fui a um jogo, curiosamente contra a Naval. Aconteceu porque muitos juniores não estavam, julgo que devido a compromissos da seleção. Foi especial por ser contra a Naval, que tinha representado anteriormente e foi bom. O médio ofensivo esteva apenas dois anos no Benfica D.R. Quais foram as maiores amizades que fez na formação do Benfica? Felizmente, fiz muitas. Dava-me muito bem com o [Rafael] Guzzo, o [Pedro] Rebocho, o Rony Lopes, os irmãos Alfaiate, o Nélson Monte. Houve algum jogador com quem jogou que percebeu logo ia ser um grande jogador? O Rony. Ele até acabou por ir para o Manchester City na altura. Já jogava num nível acima, notava-se que era diferente. O Bernardo Silva e o Ricardo Horta também vinham muitas vezes à nossa equipa porque não jogavam na equipa da idade deles, e notava-se que havia ali algo diferente como se veio a comprovar. Quando o Benfica lhe diz que não conta mais consigo, foi um golpe duro? Não estava mesmo à espera? Senti um misto de revolta com desilusão, porque acho que merecia ter tido uma oportunidade. Sempre tive bons números e fiz bons jogos. Mas ali é um mundo muito competitivo. A aposta deles acabou por ser mais no Gonçalo Guedes e no Romário. O que lhe disseram em concreto? Fui com o meu pai lá e propuseram um empréstimo para uma equipa que eu quisesse, em Portugal, porque tinha contrato de formação. Em conjunto com o meu pai decidimos que o melhor seria rescindir e procurar outro clube. Com 16, 17 anos, quando pensava no futuro, o que ambicionava? O meu sonho sempre foi representar o Benfica. Jogar no Estádio da Luz pelo Benfica. Mas, infelizmente, as coisas não aconteceram. Ficou uma mágoa? Sim, porque acredito que com uma pontinha de sorte, que também é importante aqui ou ali em certos momentos da carreira, poderia acontecer; até mesmo num FC Porto, num Sporting, porque são clubes que acho que qualquer jogador de futebol quer representar. Samaris (Benfica) e Pedro Nuno (Académica) disputam a bola, num jogo de 2013 Gualter Fatia Como surgiu então a Académica em 2012/13? Surgiu porque na altura da Naval eu ia à seleção de Coimbra, jogava com muitos jogadores da Académica e criámos uma ligação boa. Essa ligação manteve-se, o meu pai também conheceu o Miguel Ribeiro que era o diretor e chegou a ser presidente da Académica. E foi ele que me convidou para ir para lá. Como era perto de casa e eu queria voltar para casa, fez todo o sentido. As primeiras saídas à noite e os primeiros namoros mais sérios começaram quando? Eu já tinha namorada antes de ir para o Benfica, mas terminámos depois. Nessa fase em Coimbra, um lugar apetecível para sair, saí uma ou outra vez, mas só em momentos específicos porque não gosto de sair à noite. Quando assinou o primeiro contrato profissional? Penso que a meio do meu último ano de júnior, na Académica. Fui sem contrato, mas as coisas começaram a correr bem, fui treinar algumas vezes aos seniores na altura do Pedro Emanuel. Faço a pré-época seguinte com os seniores, já era Sérgio Conceição o treinador. Que tal lidar com Sérgio Conceição? Para mim, como miúdo, acabou por ser fácil, porque eu dava sempre tudo no treino e quando assim é, não há nada a apontar. Ele teve alguma conversa individual consigo? Houve um raspanete que me deu durante a época. Eu ia treinar algumas vezes com os seniores de manhã e, no treino dos juniores à tarde, como o nível de exigência não era tão grande, se calhar eu desligava mais a ficha, estava com o pessoal da minha idade, havia mais uma brincadeira ou outra. Um dia, eu se calhar descontraí mais, curiosamente o mister Sérgio Conceição estava a ver esse treino, escondido, nem reparei nele. No dia seguinte de manhã, chamam-me para ir treinar aos seniores. Ele juntou o pessoal todo no balneário, eu fiquei no meu cantinho, pensava que não era nada comigo e de repente virou-se para mim e disse-me que se voltasse a treinar daquela maneira como treinava nos juniores, nunca mais punha ali os pés, nos seniores. Foi um abre-olhos. Era miúdo e estar ali à frente de toda a gente a levar uma dura do mister Sérgio Conceição [risos]. Em 2016/17, Pedro Nuno mudou-se para o CD Trondela. Na foto, num jogo com o FCP, tenta passar por Brahimi D.R. Qual era o valor do seu primeiro ordenado profissional? Não sei se chegava a €800. Lembra-se do que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Eu já tinha recebido dinheiro quando rescindi com o Benfica, porque eles deram-me algum valor do contrato. Sempre fui poupado. Na altura em que tirei a carta, a primeira coisa que fiz foi comprar um carro, um Mini Cooper. Quando iniciou a época 2014/15, como sénior, o treinador da equipa principal já não era Sérgio Conceição, mas Paulo Sérgio. Muito mais calmo? Mais calmo, também exigente à sua maneira, não podíamos facilitar em nada, mas sem dúvida um feitio diferente. Ajudou-me muito apesar de não ter jogado muitos minutos. Mas foi com ele que me estreei logo na primeira jornada com o Sporting. Que tal foi essa estreia na I Liga? Tremeram-lhe as pernas? Não. Claro que era tudo novo para mim, jogar num estádio cheio, contra o Sporting, com televisão, um mundo completamente diferente do que estava habituado. Mas a partir do momento em que entrei em campo foi só desfrutar. Foi uma boa sensação que guardo até hoje. A primeira vez que entrou no balneário sénior foi praxado? Não. Eu respeitava bastante os mais velhos, eles sentiam e acabavam por me respeitar. Sempre me deixaram muito à vontade. O Marinho, o Nuno Piloto, foram jogadores que me motivaram; o Ivanildo, que era um jogador da frente, dizia para não ter medo de errar, dava-me muita confiança. Ele sabia como era complicado, porque eu era miúdo, queria dar tudo e mostrar que conseguia fazer tudo bem. O médio ofensivo com os pais, no último jogo do campeonato em que o CD Tondela conseguiu a manutenção D.R. Nessa época o Paulo Sérgio acabou por dar lugar ao José Viterbo, que supostamente não era para ficar muito tempo. Sim, ele entrou numa fase em que as coisas não estavam a correr bem, supostamente para orientar os treinos uns dias ou uma semana e acabou por correr bem à equipa, porque ganhámos jogos. Ele foi ficando e iniciou a época seguinte. Um treinador também muito diferente do Paulo Sérgio e do Sérgio Conceição? Sim. Obviamente, em termos de competências, com todo o respeito, não havia comparação. Acho que não estava preparado para aqueles patamares porque veio de uma competição não profissional. Acabou por sentir-se isso, mas felizmente as coisas acabaram por correr bem. Curiosamente faço o meu primeiro jogo como titular e acabo por fazer golo ao Vitória de Guimarães e acho que é isso que me faz continuar na época seguinte. No início dessa época [2015/16], tivemos quatro ou cinco derrotas e o mister Viterbo acabou por ir embora e veio o mister Filipe Gouveia. Jogou mais com ele? Sim, passei a jogar mais vezes. Um treinador muito exigente, infelizmente não conseguimos a manutenção, mas é com ele que faço muitos jogos e dou nas vistas. Quando desceram de divisão pensou que a sua carreira estava a andar para trás? Era miúdo e como tinha feito golos ao FC Porto e ao Benfica, que chamaram a atenção, venderam-me muitos sonhos. Queriam vender-me, saía nos jornais a dizer que eu ia para aqui e para ali; obviamente, isso acabou por mexer com a cabeça. Durante o verão não me deixaram jogar, na altura em que já estava o mister Costinha. Não era ele, porque a vontade dele era meter-me em campo, a direção é que não me deixava ir a jogo com receio que me pudesse lesionar e não ser vendido. A verdade é que acabei por ter uma pré-época menos exigente com esse receio de lesão, perdi o ritmo dos jogos e no fim não fui para lado nenhum e fiquei na Académica. Em 2018/19, Pedro Nuno assinou pelo Moreirense Carlos Rodrigues Mas ainda fez alguns jogos com Costinha no início de 2016/17. O que achou dele enquanto treinador? Gostei muito. Um futebol positivo, que se adaptava ao meu estilo de jogo, gosto de ter bola e do jogo do passe, positivo. Ele confiava muito em mim. Mas não trabalhei muito tempo com ele. Porque entretanto acabou por ser comprado novamente pelo Benfica, para ser emprestado. Um bocado estranho, não? No final de novembro, início de dezembro, o presidente do Tondela veio falar comigo, disse que havia muito interesse em mim e depois não sei o que se passou, apareceu o interesse também do Benfica, que acaba por me contratar e eu vou emprestado para o Tondela. Quem era o seu empresário da altura? Gaspar Freire. Não achou estranho fazer contrato com o Benfica para ser emprestado ao Tondela? Há muita coisa que se calhar não posso contar. Foi envolvido num negócio de outras transferências? O primeiro interesse surgiu diretamente por parte do presidente do Tondela e eu acabei por reunir com ele, mais tarde é que surgiu o interesse do Benfica. Não sei dizer mais nada. Mas sabia que assinava para ser emprestado ao Tondela por ano e meio. Teve esperança de um dia voltar ao Benfica? Obviamente que gostaria, nem que fosse fazer a pré-época. O médio em ação pelo Moreirense D.R. Ao mudar para o Tondela passou a viver sozinho? Sim, é a minha estreia. Não foi fácil porque eu nem sequer sabia cozinhar. Muitas vezes ia ao restaurante ou ligava a minha mãe para me ensinar, ou ia ver à net algumas coisas. Foi um ano complicado, Tondela não é longe, mas na altura parecia que ficava a horas de distância. Nos primeiros dias fiquei em casa de um casal que tem uma gelataria na Figueira; como tinham casa em Viseu, facilitaram-me. E a nível desportivo, como foi esse ano? Fui muito bem recebido. Na altura o treinador era o Petit, sentia confiança por parte de toda a gente. Mas foi um ano difícil porque acabámos por nos salvar por um golo. O que pode dizer sobre o treinador Petit? Gostei muito. Voltei a trabalhar com ele no B SAD. No Tondela, ele acabou por não ficar muito tempo. Em janeiro acabou por ir embora e veio o mister Pepa. Já o conhecia do Benfica. É um treinador exigente, foi o seu primeiro projeto a nível profissional, salvo erro, e acabámos por atingir os objetivos, foi muito bom. E histórias para contar da Académica? Geralmente, nos clubes, os roupeiros são quem sofre mais. Eu, como era miúdo, não abusava tanto, mas gostava de ver e de me rir. Lembro-me de um central brasileiro, o Iago, com quem voltei a jogar no Moreirense, que era meio maluco e ele juntamente com dois ou três pegavam no roupeiro, metiam-no num carrinho onde púnhamos a roupa suja, começavam às voltas com o carrinho, de um lado para o outro com o homem lá dentro. São coisas que ficam e que nos divertem no momento. Também é uma forma de mostrarmos o carinho que temos por eles, se não gostássemos não fazíamos isso. Também me lembro de outra desse tal Iago, que apanhou o roupeiro no campo, despiu o homem e deixou-o lá todo nu. E há outra história na Académica que foi comigo. Força. Eu dava-me muito bem com o Hugo Seco, era como um irmão mais velho, e um dia, num jogo amigável no Entroncamento, ele passou o creme para as massagens, que arde imenso, nos meus boxers. Eu vesti a roupa e senti algo diferente, tirei logo, só que já não fui a tempo e passei mal. [risos] Na época 2020/21, Pedro Nuno sofreu uma lesão no joelho e teve de ser operado D.R. No fim da segunda época no Tondela terminava contrato com o Benfica? Não. Como foi parar então ao Moreirense, em 2018/19? Sou envolvido em algum negócio pelo meu empresário, entre o Benfica e o Moreirense, e assinei três anos no Moreirense. Fui viver para Guimarães sozinho. Na altura tinha uma namorada que chegou a viver comigo durante uns tempos. Gostou de trabalhar com o Ivo Vieira? Sim, foi sempre um treinador que queria que atacássemos e jogássemos para a frente. Preferia ganhar 5-4 do que 1-0. Acho que era bom para nós, os jogadores da frente, porque gosto de atacar, gosto de rematar. Continuava a jogar como avançado? Não, aí já jogava como um médio ofensivo. Mudei na Académica. Nos juniores da Académica jogava muitas vezes atrás do ponta de lança. Havia um outro jogo que podia jogar na frente. Adaptei-me sempre bem às posições que me foram postas. Em qual se sente mais confortável? Sem dúvida atrás do ponta de lança, como médio ofensivo. É onde me sinto melhor e se calhar consigo fazer mais a diferença. Mas a verdade é que joguei noutras posições. Nesse ano, com o mister Ivo Vieira, houve uma altura em que não tínhamos ponta de lança e joguei a ponta de lança em alguns jogos. Curiosamente, fiz um golo de cabeça no Nacional; joguei também a maior parte da temporada a extremo esquerdo mais para dentro, não tanto colado à linha e também me sentia bem. Pedro Nuno a entrar em campo pelo Moreirense e a agradecer aos adeptos D.R. Ivo Vieira já não inicia a época seguinte. Começaram a época 2019/20 com Vítor Campelos, mas acabou por chegar depois Ricardo Soares. Entre um e outro qual preferiu? Se calhar o mister Ricardo Soares. Também porque sentia mais a confiança dele. Obviamente que os treinadores têm de fazer escolhas e nós só temos de dar o nosso máximo. Mas apesar de ter jogado muito com o mister Campelos acabei por jogar bastante com o mister Ricardo Soares. E na época em que me lesiono é com ele que iniciei a época. Nessa altura, o que pensava da sua carreira, que perspetiva tinha e com o que ambicionava? Na verdade é nesse ano em que me lesiono, inicio a época no Moreirense muito bem. Senti que poderia ser um bom ano, se calhar outro ano de afirmação. Ainda sonhava com o Benfica? Sendo realista, era difícil um Benfica, mas não era impossível. As ambições também passavam por ir para o estrangeiro e melhorar a parte financeira. Tinha alguma preferência? Alguma liga que gostasse de experimentar? Sempre quis jogar na liga espanhola, acho que me adaptaria facilmente, tendo em conta o meu estilo de jogo e acho que tinha condições para isso. Mas melhorar a parte financeira e ter um projeto bom no estrangeiro era isso que eu queria. O seu empresário ainda era mesmo? Não, já estava com a equipa do Rui Cardoso, Paulo Madeira e Bruno Bastos. Mudei quando estava no Moreirense. O médio ofensivo em ação pelo Moreirense D.R. A última época no Moreirense ficou marcada pela sua lesão. Pode recordar o que aconteceu? Foi num jogo da Taça de Portugal, contra o Merelinense. Acabámos por ganhar 1-0, faço o golo e num lance perto de acabar o jogo, o campo não estava em perfeitas condições, estou a progredir com bola e ao pousar a ponta do pé direito torço e acabo por também torcer o joelho. Não ouvi nenhum estalo, sentia que conseguia continuar e acabar o jogo, mas quando cheguei ao balneário, estando mais frio, o joelho estava inchado, sentia muita dor, custava-me dobrar. Com os testes que o doutor me fez, disse logo que poderia ser ligamento. Infelizmente, foi mesmo. Só voltei passado oito meses e meio. Teve complicação pelo meio? Surgiram complicações, mas da parte do doutor do Moreirense porque não permitiu que me recuperasse no clube. Porquê? Porque eu quis ser operado pelo doutor Noronha, que me disseram ser o melhor, e o médico do Moreirense não gostou. Pus a minha saúde em primeiro lugar e fui em frente. Depois fui ao clube e não deixaram que os fisioterapeutas me tratassem. Através de contactos com o meu empresário, recuperei com o Tiago, um fisioterapeuta no Porto que me ajudou muito. Teve de pagar do seu bolso? Sim. Ainda estive numa clínica em Guimarães pelo seguro, mas, para ser sincero, não era uma clínica de reabilitação que se adaptasse às minhas condições, tendo em conta a minha profissão. Sem dúvida que o Tiago foi muito importante. Predo Nuno com o seu empresário Rui Cardoso no momento da assinatura pelo B SAD, em 2021/22 D.R. Terminava contrato com o Moreirense no final dessa época. Não quis renovar, ou foi o clube que não quis? Eles não quiseram renovar. Chegou-me aos ouvidos, não sei se é verdade, que o presidente queria dar-me mais um ano de contrato, tendo em conta o que me aconteceu e o que sempre dei ao clube, o profissional que fui. Mas se calhar o médico foi pôr coisas na cabeça dele que não eram verdade. O que me disseram é que ele disse ao presidente que eu não queria recuperar no clube, quando isso era mentira. A única coisa que eu queria era ser operado pelo Doutor Noronha e depois prosseguir a minha recuperação no clube, era o que faria sentido, tendo em conta que tinha contrato. Mas acabou por não acontecer assim. Felizmente, não tive nenhuma complicação. Depois, o meu empresário falou-me da B SAD. O treinador era o Petit, gostava de mim, sabia aquilo que eu podia render. Fiquei satisfeito porque melhorei bastante o contrato, tendo em conta a situação. E era a oportunidade de continuar na I Liga. Foi uma desilusão grande quando viu as condições da B SAD? Já me tinham falado que não eram as melhores. Obviamente que isso tem um impacto grande também no jogo e naquilo que queremos trabalhar, mas, era o que era; depois surgiu a complicação da covid-19 novamente. Foi um ano difícil também. Pedro Nuno em treino na B SAD, no Estádio Nacional, no Jamor D.R. Gostou de viver em Lisboa? Tirando o trânsito foi muito bom viver, porque há sempre algo para fazer na folga, um sítio novo onde ir, na maior parte dos dias está sempre bom tempo. Foi tranquilo. Continuava solteiro? Tinha namorada. Mas sobre as namoradas prefiro não falar. Tem filhos? Não, mas gostava já de ter. Essa época na B SAD não correu bem, desceram. Acho que essa época acaba por não correr bem por um aglomerado de situações. Pedro Nuno com os pais, em 2022, ano em que a mãe foi rainha do Carnaval da Figueira da Foz D.R. Que situações? As condições de trabalho que não eram fáceis; um investimento na equipa que não foi feito logo no início da época. Tinham saído da época anterior sete/oito jogadores que eram titulares e se bem me recordo, no verão, só eu e o Sandro é que assinámos. A equipa acabou por sentir. Durante a época, a situação da covid-19 também nos prejudicou bastante. E também aquele jogo com o Benfica, muito polémico. Recorde-nos o que aconteceu. Na altura tínhamos de fazer testes da covid-19 antes dos jogos. Nesse dia fizemos os testes, fomos para casa porque o jogo era só à noite e só nos podíamos reunir para o jogo no estádio. Alguns jogadores acusam positivo, eu não era um deles, e geralmente quem dava positivo não podia ir a jogo, e o resto ia. Mas não me deixaram ir a jogo e a maior parte que não estava positivo e tivemos de ir com com miúdos. A desculpa foi que tínhamos estado em contacto com esses colegas positivos. Mas a verdade é que alguns que jogaram também tiveram contacto. Não fez grande sentido. Acabámos por perder por muitos golos. Vamos com dois guarda-redes e um deles até joga à frente, como ponta de lança. Só aí dá para ver como foi. Quando desceram decidiu logo que não iria continuar, apesar de ter assinado por três anos? Acabámos por descer e não faria sentido continuar lá. Acabámos por negociar, porque também baixava significativamente o salário e rescindi. Spoiler “Na Turquia, vou à casa de banho no intervalo e sinto um cheiro a tabaco que não se aguentava. Eram três jogadores a fumar o seu cigarrinho” Aos 31 anos, Pedro Nuno está a jogar na Roménia, depois de várias experiências em Israel, na Turquia, Azerbaijão e Polónia. É sobre esta fase da carreira que falamos na parte II deste Casa às Costas. Entre várias histórias, revela que gosta de jogar futevolei e futebol de praia, tem saudades de casa, quer ser treinador - e que Buarcos é o melhor sítio do mundo Quando rescindiu com a B SAD no final da época 2021/22, já havia interesse de outros clubes? Na altura surgiu o interesse de uma equipa de Israel, o Maccabi Raina. Como reagiu quando lhe falaram na hipótese de ir jogar para Israel? Obviamente que sendo uma experiência nova para mim ir para o estrangeiro, ao dizerem-me que era o país mais seguro do mundo, na altura, foi impactante de ouvir. Decidi arriscar e fui. Que tal o primeiro impacto quando lá chegou? Tudo completamente novo, língua completamente diferente, um país com as questões religiosas que tem. O meu inglês não era grande coisa. Nos primeiros dias estive num hotel, depois mostraram-me uma casa grande, que seria boa para viver tendo em conta que me disseram que iam limpar e acabar de remodelar. A verdade é que isso não aconteceu. Quando me disseram para ir para a casa, cheguei e tinha só um sofá, não tinha internet, havia um buraco no teto de onde caía água. Pedro Nuno teve uma má experiência de um mês no Maccabi Haifa, de Israel D.R. O que fez? Passei mal, estava sozinho, num país completamente diferente de Portugal. Liguei aos meus empresários, disseram que iam falar com o clube. No clube disseram-me que iam tentar resolver a situação, mas que como eu já tinha dito que sim àquela casa, ia ser complicado. Ainda estive lá umas noites. Devem ter sido as piores noites da minha vida. A solução que arranjei foi alugar Airbnb's. A zona em que eu vivia era árabe, completamente diferente do que seria viver, por exemplo, em Haifa. Sentiu medo? Não me sentia seguro, nem confortável. Não era medo que me fossem assaltar a casa, ou que fossem entrar pela casa adentro, mas não me sentia confortável. E isso mexeu comigo porque, estando longe, ter uma casa boa é meio caminho andado para te sentires confortável e não foi isso que aconteceu. Que tal era o clube? Era o primeiro ano do clube na I Liga. Andávamos com a casa às costas, como na B SAD, embora na B SAD tivéssemos o Jamor e soubéssemos que era ali. Em Israel, treinávamos uma semana num campo, outra semana noutro. Não tinham academia, diziam que estavam a construir. Os colegas de equipa receberam-no bem? Acolheram-me bem, tentaram ajudar-me, mas não me sentia bem ali, só pensava em voltar para casa. Conversei com os meus empresários, que me arranjaram uma solução. Fiquei só um mês, mas foi um mês duro e intenso. Pedro com o pai, na praia D.R. Com que opinião ficou dos israelitas? Simpáticos. Cheguei a visitar Telavive, estive em Haifa e são sítios completamente diferentes, onde se calhar me adaptaria melhor. Nenhum colega o convidou para ir para a casa dele enquanto a situação da sua casa não se resolvia? Ainda estive uma ou duas noites em casa de um colega, o Sambinha, que falava português, antes de vir embora. Tínhamos ido fazer estágio para a Sérvia e, quando voltei, decidi que não aguentava mais. Entretanto, vai para o Adanaspor da Turquia. Também torceu o nariz? Um bocadinho, mas foi em último recurso, não tinha muito mais escolha, já era fim de agosto. O objetivo seria fazer ali uma boa época e abrir portas, mas não tive sorte porque em fevereiro de 2023 aconteceu o terramoto. Pedro Nuno assinou pelo Adanaspor, da Turquia, em 2022/23 D.R. Estava na Turquia na altura do sismo? Não. Tive muita sorte. Tivemos jogo numa sexta-feira, o treinador deu dois dias de folga, eu pedi mais um para ir a casa e ele deixou. Acabou o jogo, comprei os bilhetes e fui embora com a roupa do clube e tudo. Entretanto, em Portugal, na véspera de regressar à Turquia, estava a dormir e acordei com o telemóvel que não parava de tocar. Eram as pessoas do clube a perguntar se os jogadores estavam todos bem, se ninguém tinha sofrido nada, porque houve casas que caíram. Fiquei sem perceber. Depois é que me disseram que tinha havido um terramoto muito grave na Turquia e que davam mais informações quando fosse para voltar, porque os voos foram cancelados. Houve alguém do clube que tenha sido afetado diretamente? Felizmente, não. O tempo foi passando e só lá fui passado dois ou três meses para ir buscar as minhas coisas, mais nada. A federação decidiu que não haveria mais jogos da parte das equipas que foram mais afetadas e o Adanaspor foi uma delas. A nossa época terminou e acabei por ficar prejudicado porque já não podia ser inscrito em mais nenhuma equipa essa época. Estive de fevereiro a julho, sem competir. Antes de passarmos ao Azerbaijão, quando vai para a Turquia, como foi o primeiro embate com o país e com os turcos? São pessoas que não respeitam tanto o próximo, uma cultura diferente. O que quer dizer com “não respeitam o próximo”? Um exemplo básico: às vezes, ao ir para o treino de carro, numa faixa onde se calhar só cabia um carro, eles metiam dois, três; não há sinais vermelhos, não há nada, é cada um por si. E não são tão profissionais. O treino começa às 11h e muitos só chegam ao balneário às 10h55 para equipar e ir para o treino. Senti muita diferença nisso. Sendo um clube de II Liga há sempre mais turcos e ainda se sente mais. O médio ofensivo em ação pelo Adanaspor, na Turquia D.R. O que achou do futebol? Diferente do que estava habituado. O jogo chega a meio e parte muito, há muitos golos, muito jogo de transições, bola numa área, bola noutra, porque taticamente os turcos não são tão bons como nós. A escola em Portugal é diferente, somos mais evoluídos taticamente, é muito mais difícil o jogo. Lá senti que havia sempre mais espaço para poder jogar. E dos adeptos, gostou? São completamente loucos. Sempre a puxar pela equipa, não param de cantar. Se tiverem de mandar vir com um jogador da própria equipa, mandam vir. Quando vamos jogar fora sente-se mais, é um ambiente realmente difícil e hostil. Quando vamos aquecer, não querem saber, atiram tudo, cospem, chamam nomes e não param. Veio embora da Turquia com as contas todas acertadas? Foi complicado porque, na altura, tínhamos dois meses em atraso. E nos meses em que não houve competição por causa do terramoto, a FIFA considerou que eles não tinham obrigação de pagar. Tive que pôr na FIFA um processo para receber pelo menos aquilo que tinha atrasado. Só passado um ano é que vi esse dinheiro. Tem histórias para contar da Turquia? Da Turquia a única história é o facto deles fumarem muito. Penso que faz parte da educação deles, desde pequeninos começam logo a fumar. A primeira vez que fui para um jogo, no intervalo vou à casa de banho e sinto um cheiro a tabaco que não se aguentava. Quando fui ver eram dois, três jogadores que tinham acabado a primeira parte e foram diretamente para a casa de banho para ir fumar o seu cigarrinho. Para eles era uma coisa normal, mas a mim fez-me muita confusão. Na época 2023/24, Pedro Nuno assiniou pelo Sebail PFK, do Azerbaijão. Na foto com o empresário Pedro Marques D.R. Como surgiu o Sebail PFK, do Azerbaijão? Estive parado de fevereiro a julho, como disse. Tendo em conta a situação em que estive nos três últimos anos, o ano da lesão, o ano da B SAD que foi muito difícil, depois a Turquia e aqueles meses parado, acabou por só aparecer praticamente a opção do Azerbaijão. Não conhecia nada do país, não fazia a mínima ideia de como era. E tirando Baku, é um país pobre. Vê-se muita pobreza. Baku é um mundo à parte do resto do Azerbaijão. Eu vivia em Baku, felizmente. A língua parecida com o turco, apesar das pessoas serem muito mais respeitadoras, tentavam ajudar mais. A adaptação no Azerbaijão até foi fácil. Assinou por quanto tempo? Só um ano. O objetivo também era tentar entrar no mercado, melhorar a parte financeira e entrar num projeto bom. A verdade é que faço uma época muito boa, com 11 golos e sete assistências, pensei que fosse aparecer algo melhor pelo Azerbaijão, um clube maior, tendo em conta os números que fiz e a qualidade que tive durante os jogos, até mesmo por ter sido considerado o melhor jogador da liga, mas a verdade é que não surgiu nada que fosse do meu interesse. Acabo por ir para a Polónia. O que achou do futebol no Azerbaijão? Parecido com o da Turquia, mas mais intenso, tendo em conta que era I Liga, com jogadores com mais qualidade. Mas um campeonato em que taticamente a maior parte dos jogos não era tão evoluída, assim como os treinadores. Mas é um campeonato bom para os jogadores da frente, porque dá para fazer golos. Pedro Nuno a festejar um golo pelo Sebail PFK D.R. A ida para a Polónia já foi encarada com outros olhos? Para ser sincero, na altura queria voltar a Portugal, por ter sido difícil estar lá sozinho. A nível desportivo correu muito bem, mas a nível pessoal não me senti tão realizado e queria voltar. Mas, não surgiu nada de interesse e apareceu o Korona Kielce, da Polónia. Um campeonato muito bom, completamente diferente de todos que tinha jogado, super intenso, muitos duelos. A nível de infraestruturas completamente diferente, estádios modernos, sempre com muita gente. Os polacos são loucos pelo futebol, vão muito ao estádio, apoiam muito o clube da sua cidade. Apesar de não ter jogado na posição onde me sentia mais confortável, gostei. Em que posição jogou na Polónia? Jogava mais no lado direito, como extremo, uma posição que já não fazia há muito tempo e em que não me sinto tão confortável. Foi um ano em que joguei muitos jogos a titular, mas curiosamente não sentia muito a confiança por parte do treinador. Teve dois treinadores polacos. Com o segundo, o Zielinski, senti que ao mínimo erro era a primeira opção a sair. Falhando um passe, que outros jogadores falhavam e não lhes acontecia nada, eu saía logo da equipa. Isso acabou por me tirar confiança. Tinha assinado um ano com mais outro de opção por parte do clube. Eles não tinham intenção que eu continuasse e eu também não, chegámos a um acordo. Em 2024/25, Pedro nuno assinou pelo Korona Kielce, da Polónia D.R. O que estranhou mais na Polónia? Os polacos são muito frios. Não ajudam o jogador estrangeiro. Até mesmo na rua não se vê muitos estrangeiros. Estive em Kelsey e não vi, por exemplo, uma única pessoa negra. Nem na minha equipa, apesar de haver muitas nacionalidades. São muito frios, ajudam-se mais entre eles. Por exemplo, no início, quando cheguei, havia multas do balneário como há na maior parte dos clubes, mas nunca me mostraram o que poderia ser multa ou não, e havia uma coisa ou outra que eles faziam de propósito para que levássemos a multa. Como por exemplo? Tínhamos um sítio para deixar as botas, um armário, mas no nosso local onde nos sentávamos a equipar, por baixo, também havia espaço e dava para deixar as botas. Pensei, vou deixar aqui as botas. Deixei, não me disseram nada e no dia seguinte disseram que eu tinha de pagar multa porque tinha deixado ali as chuteiras e que havia um sítio próprio para as deixar. Eles não mostraram sequer a lista de multas e tentavam ao máximo, nessas coisinhas, pegar em tudo. Mais alguma que lembre? Houve um episódio. Nós tínhamos um fim de semana livre e dava para eu vir a Portugal. Mas o capitão decidiu que queria fazer um jantar de equipa e queria que fosse no sábado. Ou seja, assim já não conseguiria ir a Portugal e, para mim, fazia mais sentido ir a Portugal do que ir a um jantar de equipa onde se calhar eles aproveitam só para estar entre eles. Fui falar com o capitão, disse-lhe que não achava correto porque eles estavam no país deles e eu tinha a oportunidade de estar com a minha família e, por isso, não ia ao jantar. A resposta dele foi: “Estás na Polónia, tens que te adaptar ao país e às regras que temos.“ Foi ao jantar ou pagou multa? Houve mais gente a reclamar e acabou por não haver jantar. Se fosse só eu a dizer que não era correto, ia haver jantar e eu não podia ir a Portugal, eles não iam facilitar. O médio ofensivo em jogo pelo Korona Kielce D.R. Foi difícil jogar com temperaturas negativas e com neve? Foi. Não estava habituado a ver neve, aliás, acho que foi na Polónia que vi neve pela segunda ou terceira vez na vida. Era realmente muito frio e não é fácil adaptar porque queremos treinar e não sentimos os pés. No final da época não queria ficar, eles também não queriam ficar consigo. Foi fácil arranjar clube? Não. Queria voltar a Portugal. Pensei que aparecesse algum projeto em Portugal, mas não apareceu nada, o tempo foi passando. O FC Otelul já tinha entrado em contacto comigo em fins de maio, eu tinha dito que não. O contrato era bom. Só que os meses foram passando e mais tarde, em agosto, voltou a haver o interesse do FC Otelul já com outros valores, mais baixos. Era isso ou ficar uns meses sem jogar e não queria. Assinei dois anos. Vi que havia muitos portugueses na equipa, o investidor é moldavo, mas fala português e isso ajudou a tomar a decisão. Hoje damo-nos muito bem, os romenos são cinco estrelas, já tentam falar português, porque temos realmente muitos portugueses e brasileiros na equipa. No meu dia-a-dia acabo por falar mais português do que inglês. Está a gostar de viver na Roménia? A verdade é que a cidade onde estou não é nada de especial. Tem um shopping, um restaurante e pouco mais. O país em si não é muito bonito. Mas foi fácil a adaptação. A comida tem algumas diferenças e obviamente não há nada como a comida de Portugal. Comemos muitas vezes no clube. No dia-a-dia as pessoas são mais cuidadoras. Os adeptos apoiam-nos bastante, gostam muito de futebol. Felizmente, temos uma massa adepta boa, vai sempre muita gente ao estádio e estão sempre a apoiar a equipa. Diferente da Polónia, onde havia muito mais gente em todos os estádios, aqui já é diferente. Ainda assim, no meu clube, sobretudo quando jogamos em casa, vem muita gente ao estado. Pedro Nuno está a jogar esta época 2025/26, no FC Otelul, da Roménia D.R. O futebol é muito diferente do polaco? É um futebol que acaba por ser mais técnico do que na Polónia. Não tão intenso. Obviamente com equipas muito boas também. Mas é um campeonato onde dá para impor melhor o meu estilo de jogo. Tenho jogado sempre, as coisas estão a correr muito bem, a nível individual e coletivo. Sinto muito a confiança das pessoas e quando assim é, ajuda a termos mais confiança em nós e não ter aquele receio de errar. Isso é muito importante para mim. Tenho-me sentido muito bem aqui. Está com 31 anos, já pensou no que quer fazer quando tiver de pendurar as chuteiras? Penso estar ligado ao futebol, porque não me vejo a fazer outra coisa. De que forma é que pretende continuar ligado ao futebol? Ainda não pensei muito nisso, mas talvez como treinador, diretor ou até mesmo empresário. Se calhar gostaria mais de ser treinador para poder estar no campo a vivenciar o jogo. Já fez algum nível do curso de treinador? Não. É algo que gostava de fazer quando estivesse em Portugal. Pedro Nuno a festejar um golo do FC Otelul, ao lado de Paulinho FC Otelul Tem alguma meta para deixar de jogar? Não, ainda não pus uma meta na cabeça, acho que vai ser até o meu corpo permitir. Obviamente não quero andar a arrastar-me no campo e sentir que sou um estorvo, mas, até as minhas pernas permitirem, até sentir que sou útil para a equipa e para o jogo, vou continuar. Com 31 anos, sinto-me melhor do que quando era mais novo. Onde ganhou mais dinheiro na carreira? Polónia. Deu para investir? Sim. Principalmente no meu apartamento. E estou a ver aí algumas coisas. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Não sou de extravagâncias. Se calhar foi comprar uma peça de roupa mais cara. Tem algum hobby? Não tenho feito muito, mas gosto de passear à beira-mar quando estou de férias. Estar na esplanada com os meus amigos. Uma das paixões de Pedro Nuno é jogar futevolei D.R. Acredita em Deus? À minha maneira. Superstições? Tenho algumas. Calçar primeiro a bota do pé esquerdo, depois a direita, mas entrar com o pé direito no campo. Benzer-me. Sempre que marco um golo lembro-me dos meus avós que já partiram. Tatuagens, tem? Tenho algumas. A primeira fiz aos 18 anos, eu e dois amigos. Nessa altura não pensamos muito e atuamos uma frase nas costas: “We don't need to have the same blood to be brothers.“ Fiz mais. Fiz uma para a minha mãe, uma coroa, na altura em que lhe foi diagnosticado cancro da mama; estava a jogar na Académica, no meu segundo ano profissional. Era para lhe dar uma força extra e felizmente está tudo bem. Acompanha ou pratica outra modalidade? Experimentei padel recentemente e gostei. Jogo muitas vezes futevolei na praia e futebol de praia também. São modalidades que gosto e vejo. Pedro Nuno num gesto acrobático durante um torneio de futevolei D.R. Qual a maior frustração que tem na carreira? Talvez o momento da lesão. E o maior arrependimento? Ter ido para a Turquia. O momento mais feliz na carreira? Felizmente, já tive alguns. Estrear-me na I Liga contra o Sporting. O objetivo que ainda está por cumprir? Jogar competições europeias. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid ou o Benfica. Molly, a cadela que acompanha Pedro Nuno D.R. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Felizmente, tenho muitas. Posso dizer agora, mais recente, o Paulinho. Tem ou teve alguma alcunha? Tive. Na formação, no Benfica, chamavam-me Bula, porque tinha a cara mais redondinha, em formato de bolacha, então ficou. Até mesmo os amigos na Figueira, um ou outro, ainda me chamam isso. Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Talvez a do fora de jogo. Mesmo que o atacante estivesse à frente do defesa, seria a última parte do corpo que contava. Ou seja, se o atacante estivesse à frente do defensor, mas a parte de trás do pé estivesse na linha do defensor e o corpo estivesse todo à frente, não era fora de jogo. O médio-ofensivo defende que o melhor sítio do mundo é Buarcos D.R. Qual o adversário mais difícil que enfrentou até hoje? O Samaris. Qual o jogador com quem gostava de ter jogado na mesma equipa? Neymar. E contra o qual gostava de ter jogado? Sergio Ramos. Se não fosse jogador de futebol, o teria sido? Nunca pensei nisso . Qual o seu local preferido no mundo? Buarcos. 1 Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado Fevereiro 23 Porque entretanto acabou por ser comprado novamente pelo Benfica, para ser emprestado. Um bocado estranho, não? No final de novembro, início de dezembro, o presidente do Tondela veio falar comigo, disse que havia muito interesse em mim e depois não sei o que se passou, apareceu o interesse também do Benfica, que acaba por me contratar e eu vou emprestado para o Tondela. Não achou estranho fazer contrato com o Benfica para ser emprestado ao Tondela? Há muita coisa que se calhar não posso contar. Foi envolvido num negócio de outras transferências? O primeiro interesse surgiu diretamente por parte do presidente do Tondela e eu acabei por reunir com ele, mais tarde é que surgiu o interesse do Benfica. Não sei dizer mais nada. Mas sabia que assinava para ser emprestado ao Tondela por ano e meio. 🙃 @Tibraco consegues explicar isto? Compartilhar este post Link para o post
Tibraco Publicado Fevereiro 23 Citação de Jimpo, há 39 minutos: Porque entretanto acabou por ser comprado novamente pelo Benfica, para ser emprestado. Um bocado estranho, não? No final de novembro, início de dezembro, o presidente do Tondela veio falar comigo, disse que havia muito interesse em mim e depois não sei o que se passou, apareceu o interesse também do Benfica, que acaba por me contratar e eu vou emprestado para o Tondela. Não achou estranho fazer contrato com o Benfica para ser emprestado ao Tondela? Há muita coisa que se calhar não posso contar. Foi envolvido num negócio de outras transferências? O primeiro interesse surgiu diretamente por parte do presidente do Tondela e eu acabei por reunir com ele, mais tarde é que surgiu o interesse do Benfica. Não sei dizer mais nada. Mas sabia que assinava para ser emprestado ao Tondela por ano e meio. 🙃 @Tibraco consegues explicar isto? Assim que vi a notificação pensei "bem, mais alguma m*rda do Chega, dos fachos ou do c*brão do Ventura". Confesso que não estava à espera disto. O que queres que explique? É que não estou mesmo a perceber onde queres chegar. Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado Fevereiro 23 Citação de Tibraco, há 1 hora: O que queres que explique? É que não estou mesmo a perceber onde queres chegar. Porque é que o clube 1 quer um jogador, o presidente fala com esse jogador e depois aparece o clube 2 que contrata esse jogador de proposito para o emprestar durante 2 anos ao clube 2. é normal isto? ano e meio, correcçao. Compartilhar este post Link para o post
Tibraco Publicado Fevereiro 23 Citação de Jimpo, há 7 minutos: Porque é que o clube 1 quer um jogador, o presidente fala com esse jogador e depois aparece o clube 2 que contrata esse jogador de proposito para o emprestar durante 2 anos ao clube 2. é normal isto? ano e meio, correcçao. Não acharia assim tão estranho se o Pedro Nuno fosse um jovem com potencial e essa situação visasse acautelar um eventual desenvolvimento do jogador nesse ano e meio. Naturalmente, que o Benfica (e não só, mas siga, senão aparece a brigada do what about) de Vieira era pródigo nessas situações o que alimenta as teorias da conspiração acerca do "controlo dos clubes pequenos". Até aqui parece-me tudo óbvio, o porquê de requisitares a minha opinião é que é um mistério 😄 Compartilhar este post Link para o post
Jamarcus Publicado Fevereiro 23 Citação de Tibraco, há 58 minutos: Não acharia assim tão estranho se o Pedro Nuno fosse um jovem com potencial e essa situação visasse acautelar um eventual desenvolvimento do jogador nesse ano e meio. Naturalmente, que o Benfica (e não só, mas siga, senão aparece a brigada do what about) de Vieira era pródigo nessas situações o que alimenta as teorias da conspiração acerca do "controlo dos clubes pequenos". Até aqui parece-me tudo óbvio, o porquê de requisitares a minha opinião é que é um mistério 😄 Não é teoria da conspiração. "Nós tínhamos um planeamento para empréstimos", começou por explicar Luís Filipe Vieira. "Naquela altura estava na moda podermos emprestar três/quatro jogadores aos clubes. E nós tínhamos de fazer o que os outros faziam também... depois esses jogadores jogavam ou não contra o Benfica. Dependia de quem fosse", disse o ex-presidente do Benfica e candidato às próximas eleições. Compartilhar este post Link para o post
Tibraco Publicado Fevereiro 23 Citação de Jamarcus, há 4 minutos: Não é teoria da conspiração. "Nós tínhamos um planeamento para empréstimos", começou por explicar Luís Filipe Vieira. "Naquela altura estava na moda podermos emprestar três/quatro jogadores aos clubes. E nós tínhamos de fazer o que os outros faziam também... depois esses jogadores jogavam ou não contra o Benfica. Dependia de quem fosse", disse o ex-presidente do Benfica e candidato às próximas eleições. Exato. A definição de "controlo dos clubes pequenos" é que depois dá margem para alimentar as tais teorias da conspiração. Não percebo é a surpresa do Jimpo com as palavras do Pedro Nuno. Quem fala desse, pode falar também do Agra, por exemplo. Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado Fevereiro 23 Citação de Tibraco, há 35 minutos: Exato. A definição de "controlo dos clubes pequenos" é que depois dá margem para alimentar as tais teorias da conspiração. Não percebo é a surpresa do Jimpo com as palavras do Pedro Nuno. Quem fala desse, pode falar também do Agra, por exemplo. Mas é normal ter de "controlar os clubes pequenos"? Compartilhar este post Link para o post
Tibraco Publicado Fevereiro 23 Citação de Jimpo, há 20 minutos: Mas é normal ter de "controlar os clubes pequenos"? Claro que não. Mas quem disse que era normal? Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Março 8 Frédéric Maciel Spoiler “Nos juniores do FC Porto recebi a bola na linha, o mister Capucho gritou ‘vai para cima dele‘, mas parei, passei para trás e ele: ‘Cagão‘“ Frédéric Maciel está prestes a completar 32 anos e garante estar na sua melhor forma se sempre. A jogar nos CSKA da Bulgária, aceitou o desafio de rever a sua carreira e contou muitos pormenores de um percurso muito marcado, até certo momento, por lesões nos pés. Nascido em Grenoble, França, veio com 5 anos para Portugal, onde se formou enquanto jogador, tendo passado pelas escolas do SC Braga, Sporting e FC Porto Nasceu em Grenoble, França. O que faziam lá os seus pais? O meu pai tinha uma empresa de construção em França. E a minha mãe ficou em casa a tomar conta dos filhos, éramos três. Tenho duas irmãs mais velhas. Deu muitas dores de cabeça? Acho que não, só quando vim para Portugal é que passei a estar mais tempo fora de casa. A minha mãe tinha um café em Esposende, onde vivo, cresci ali nas ruas, a brincar. De vez em quando havia uns vidros partidos, outras vezes a minha mãe dizia para estar em casa às sete horas e às oito andava à minha procura no meio da cidade. Veio para Portugal com que idade? Com 5 anos. Tem muitas memórias de Grenoble? Poucas. Tenho da casa onde vivíamos, da creche, da piscina municipal que ficava frente à nossa casa. Basicamente é isso. Recorda-se se sentiu um choque grande por ter de deixar França para viver em Portugal? Não, porque para mim Portugal era sinónimo de férias de verão, de Natal, por isso, quando os nossos pais disseram que vínhamos para Portugal de vez, foi uma alegria e gostei da ideia. Agora, acredito que para as minhas irmãs, que estavam na escola, tenha sido um pouco mais complicado. Frederic Maciel nasceu em Grenoble (França) e aos 5 anos mudou-se para Portugal com os pais e irmãs D.R. O que dizia querer ser quando fosse grande? Futebolista ou como meu pai. Se o futebol não desse, ia ser como o meu pai. Em casa torciam por algum clube? Joguei sete anos no FC Porto, por isso é complicado [risos]. Como era imigrante, nos anos 2000 pouco se falava do FC Porto e em França toda a gente era do Benfica, então em casa é tudo mais benfiquista. Gostava da escola? Nunca vi a escola como futuro em termos de profissão. Dizia sempre que ia ser jogador ou ia seguir o ramo do meu pai. Agora, também nunca fui para a escola contrariado e fiz o 12º ano. Era um bocado distraído, brincalhão, mas não era mau aluno. Quando e como começou a jogar futebol num clube? Em França ainda joguei num clubezinho em Grenoble. Tenho umas fotos que os meus pais me mostraram, mas nem me recordo bem. Depois viemos para Portugal. Aos 7 anos inscreveram-me nas escolinhas em Esposende. Depois, nos infantis, fui para o Varzim. Mudou porquê? Fui sempre à busca de algo melhor. Na altura, o meu primo, o Campino, jogava no Varzim. Ele falou lá e fui às captações. Foi com o mister Caixeira, cheguei como lateral direito do Esposende em futebol 7 e fui fazer captações no futebol 11. No primeiro dia, a meio do treino, o mister chamou-me e eu pensei, pronto, já fui, já fiz alguma asneira, não passei a bola a ninguém, alguma coisa assim. Mas ele disse-me: “Amanhã traz duas fotos e o bilhete de identidade. Vais ficar aqui.“ No fim de semana tiveram um jogo amigável e meteram-me logo na equipa titular, a meio-campo. Foi ele também que no ano seguinte passou-me para extremo direito. Em 2006/07 Fredric jogou pelo Varzim D.R. Como surgiu o SC Braga, aos 13 anos? Havia olheiros que iam ao Varzim. Já me tinham chegado contactos para ir treinar aos três grandes, mas ainda era muito novo, tinha 12 anos e para os meus pais deixarem-me ir para longe era complicado. O meu pai conhecia o Vital, treinador de guarda-redes do SC Braga, que lhe disse que, se ele quisesse, falava no SC Braga para eu ir fazer uns treinos. Quando cheguei para as captações os da minha idade não estavam. Tive de ir treinar com os do ano acima. O mister deles foi muito simpático e disse-me: “Para tu ficares tens de ser melhor do que os jogadores que temos aqui, se fores igual prefiro ficar com os que tenho.“ Treinei uma semana e no final disseram para eu ficar. Mas só ficou um ano em Braga, porquê? Estava muito bem, comecei a jogar com os mais velhos e comecei a ter muita pressão para assinar um contrato de formação. Nessa altura já tinha o Sporting e o FC Porto interessados. Fui ao Olival e a Alcochete. No SC Braga estavam a fazer muita pressão para eu assinar, eu não queria, porque queria ir para um dos três grandes. Na Páscoa, o Sporting propôs-me ir logo para lá porque iam ter uns torneios de final de época que eu podia jogar e podia habituar-me a viver na academia em Alcochete, para no ano seguinte começar logo um passo à frente. Acabei por ceder e fui para o Sporting. Na altura já tinha 13/14 anos. Foi muito difícil deixar o ninho? No início estava muito feliz porque ia para a Academia, fui muito bem recebido. Foi o Aurélio Pereira quem me foi buscar, porque me viu naqueles torneios do distrito de Braga e, como qualquer criança, para mim era um sonho ir para a Academia onde esteve Ronaldo, Quaresma, todos esses jogadores, era um sonho. Mas depois de estar lá foi um bocado mais complicado porque cresci num ambiente em que estava todos os dias a brincar na rua, lidava com muita gente, as pessoas iam ao café, toda a gente me conhecia na cidade... Por isso foi um choque de realidades, ir morar numa academia, sair só para ir à escola, treinávamos na Academia, tudo acontecia na Academia. Quando somos mais novos, pouco saímos da Academia. Não há nada à volta, só o Freeport, mas era preciso autorização para sair e pagava-se na altura €20 de táxi mais ou menos. Da equipa e dos treinos, o que achou? Tínhamos uma equipa muito boa, com o Bruma, o Iuri Medeiros, os irmãos Ié, o Alexandre Guedes, muitos jogadores bons. Ganhávamos sempre, havia jogos em que eu fazia golo e no fim de semana seguinte jogava o Carlos Mané; o Mané marcava dois ou três golos e na semana a seguir jogava o Bruma. Comecei a chatear-me porque queremos sempre jogar, eu estava habituado a jogar sempre e ali havia muita rotação. Frederic chegou ao FC Porto com 16 anos D.R. Foi por isso que não quis continuar no Sporting, ou foi o clube que o dispensou? Eles não queriam deixar-me ir embora porque eu tinha contrato de formação de quatro anos, mas o Sr. Aurélio Pereira tinha dado a palavra aos meus pais, quando assinei, que se algum dia me quisessem tirar dali, deixava-me sair. No início rejeitaram a minha saída, até que surgiu a conversa do Sr. Aurélio Pereira com o meu pai e o Sr. Aurélio Pereira, como um grande homem que sempre foi, disse que me deixava ir, com a única condição de não poder assinar nem pelo FC Porto, nem pelo Benfica. Assinou pelo Padroense, um satélite do FC Porto. [Risos] Era o meu ano de juvenis, assinei no Padroense, fiz uma época e depois fui transferido para o FC Porto. Foi viver para a Casa do Dragão? Sim. Mas a Casa Dragão é no meio da cidade, íamos para a escola a pé, tínhamos cafés, tínhamos McDonald's, tínhamos todas as pequenas coisas de um dia-a-dia normal. Entrou no FC Porto com 16 anos. Com o que sonhava na altura? Quais eram as suas ambições? Estrear-me na equipa principal do FC Porto, mas o meu grande sonho era jogar a Premier League, o que não consegui. Quando entrou no FC Porto o ambiente era muito diferente do Sporting e de Alcochete? Não. Em termos de ambiente é um pouco igual, agora o dia-a-dia dos jogadores é diferente, porque no FC Porto vivemos mais como pessoas normais. Estamos numa casa no centro do Porto, vamos para a escola a pé, apanhamos o autocarro para ir para o treino e voltamos. Um dia livre no Sporting ficava na Academia o dia todo. Saía do quarto e ia para os campos chutar a bola. A única coisa boa é que dava para treinar imenso, porque era a única coisa que tínhamos para fazer ali. O extremo jogou cinco anos no FC Porto D.R. Foi treinado por quem no FC Porto? Recordo que nos juniores do primeiro ano eu já ia jogar ao FC Porto B. No segundo ano passei o ano todo na equipa B e só voltei aos juniores para fazer a fase final. Na equipa B o treinador era o Luís Castro. Ainda apanhei o José Guilherme na equipa B, quando o Luís Castro subiu à equipa A. No meu último ano no FC Porto estive muito bem e já foi novamente com o Luís Castro. Evoluiu bastante taticamente. O Luís Castro é muito bom. Os treinos são bons, são intensos. É boa pessoa, quando é para trabalhar, é para trabalhar. Esteve cinco anos no FC Porto. Que memórias mais fortes tem desses anos? Tive muitas coisas boas. Na Casa do Dragão tínhamos psicólogos que estavam sempre connosco, eram os nossos tutores e criámos ligações muito fortes. No meu primeiro ano de FC Porto havia uma festinha no final do ano, em que havia o prémio do jogador revelação da Casa de Dragão, que era uma camisola entregue pelo presidente Pinto da Costa e eu fui o jogador revelação logo no primeiro ano que estive lá. Sentiu-se intimidado quando conheceu o Pinto da Costa? Não é bem intimidado, agora, era uma pessoa de poder, nota-se que havia muito respeito à sua volta, só com a presença, não era preciso falar. Engraçado que mais tarde até morei no mesmo prédio que o presidente, na Alameda. Com quantos anos assinou o primeiro contrato profissional? No meu último ano de júnior, tinha 17, 18 anos. Julgo que assinei por três anos. Frédéric jogou nas camadas jovens da seleção John Walton - EMPICS Qual o valor do seu primeiro ordenado? €5000. O que fez ao primeiro dinheiro que ganhou? Fui ao Mar Shopping, à loja do Antony Morato, trouxe imensas peças e gastei talvez €700 ou €800. Foi uma loucura, uma estupidez. Depois comprei o carro. Qual foi o seu primeiro carro? Um BMW X1. Tinha 19 anos. Mas, entretanto, tive uma lesão no pé. Foi a sua primeira grande lesão? As minhas lesões foram todas basicamente em ossos. Sempre fui um jogador que me cuidei muito bem. Não saía muito à noite, raramente bebia álcool, nunca fumei, alimentava-me bem, nunca tive uma lesão muscular. Agora, parti o quinto metatarso do dedo do pé, duas vezes em cada pé. A primeira de cada lado optaram por só deixar crescer de novo, sem ser operado. Mas, na segunda vez, acabei por ser operado. Esse foi o meu Calcanhar de Aquiles da carreira. A primeira vez que aconteceu ainda era júnior do FC Porto? Sim, estava na equipa B, estava mesmo muito bem. Fui jogar oito jogos pelos juniores e tinha 12 golos marcados, como extremo. Houve um jogo, até fiz uma entrevista depois, com o Bibota [Fernando Gomes], porque ganhámos 7-0 e eu fiz cinco golos e duas assistências. Fomos à Madeira, marquei dois golos e parti a primeira vez o dedo do pé. Levou muitas duras no FC Porto? Uma vez levei um raspanete porque estava na moda aquele rapaz, o Rémi Gaillard, um humorista que pegava na bola e chutava contra as coisas, coisas assim... E, no Olival, houve uma vez que peguei na bola, chutei contra as três paredes do balneário e a bola caiu dentro do caixote de lixo direitinho. Pusemos na internet e naquela altura apareceu nos três jornais desportivos: “O novo Rémi Gaillard do Futebol Clube do Porto.“ Passado uma hora o meu telemóvel estava cheio de mensagens e chamadas do diretor. Era proibido filmar as instalações do clube. Queriam multar-me. Mas acabou por passar tranquilo. De todos os treinadores que teve no FC Porto, com qual gostou mais de trabalhar? É um bocado ingrato escolher. O Rui Gomes dava-me toda a liberdade, confiava bastante em mim, tínhamos uma boa relação. O Capucho é uma pessoa incrível e para mim, que sou um jogador técnico, que gosta de assumir, pegar na bola e fazer coisas diferentes, trivelas, letras, cuecas, ele dava muita liberdade para isso. Ainda me incentivava. Lembro de uma vez, num jogo, recebi a bola na linha, estava um contra um, depois chegou uma cobertura, ele veio atrás de mim a correr pela linha a dizer “vai para cima dele, vai para cima dele“, optei por parar a bola e passar para trás, e ele: “Cagão.“ [risos]. Frédéric em jogo pela seleção sub-17 D.R. Tem mais histórias para contar do FC Porto? Nós tínhamos na equipa um treinador de elite, o holandês Pepijn Linjders, e eles escolhiam três, quatro jogadores de cada escalão, sub-16, sub-17, para termos um ou dois treinos por semana com ele. Fui chamado para um treino com o Pepijn e o mister Capucho tinha-me dito para não ir, que precisava de mim para o fim de semana. Já estávamos na fase final do campeonato e o treino era muito perto do jogo. Ficou chateado, até me disse que me punha no banco se eu fosse ao treino, qualquer coisa assim. Fomos para o treino que foi fazer pontapés de bicicleta o tempo todo. No fim de semana acabei por jogar a titular, fiz um golo de bicicleta e o mister Capucho não festejou o golo, talvez um bocado ainda chateado comigo. [risos] Quando começaram as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios? A primeira vez que saí à noite talvez tenha sido em Esposende, a uma discoteca grande que se chama Pacha. Não me lembro se foi com as minhas irmãs. Mas nunca fui muito de sair, na verdade. Não danço muito bem, não bebia álcool e estava muito focado no futebol. Até podia deitar-me tarde por ir com os amigos jogar umas setas, snooker, mas ir para o meio da noite e chegar a casa com cheiro a cigarro, nunca gostei. Quanto a namoros, tive poucos relacionamentos. Foi quando conheci a minha mulher, a Diana, que percebi o que era realmente amar. Quando saiu da Casa do Dragão foi difícil passar a viver sozinho? Não, já estava habituado a fazer tudo porque saí de casa cedo, aos 13/14 anos. No Sporting, por exemplo, se não fizéssemos a cama de manhã, não treinávamos à tarde. Acabamos por ganhar outra maturidade porque crescemos longe da família, quando temos problemas temos que os resolver... Frederic Maciel com os pais e irmãs D.R. Quem era o seu empresário quando estava no FC Porto? Na altura era a equipa do Jorge Mendes e quem tratava de mim era o Carlos Viana, tio do Hugo Viana. Quando estava para assinar contrato de formação, sabia que havia jogadores que ganhavam bem na equipa B e o Carlos Viana/Jorge Mendes estavam mais preocupados em que eu fizesse um ano bom para me tirarem de lá para “uma coisa muito boa“, como diziam. Só que entretanto apareceu o Pini Zahavi que me disse: “Se não receberes mais de €5000 rasgamos o contrato.” Eu era jovem, estava bem, porque ia assinar um contrato a ganhar menos se podia ganhar mais? Acabei por assinar contrato com o Pini Zahavi. Foi a equipa dele que tratou das contratações do João Moutinho do Sporting para o FC Porto e conseguiu-me um bom contrato. Foi ganhar os tais €5000? Sim, já era um contrato muito bom, era um orgulho. Passado duas semanas lesionei-me, parti o quinto metatarso num jogo, eles optaram por não me operar, fiz a recuperação toda, mas já não consegui voltar até ao final da época. Comecei a fazer a pré-época na equipa B, treinei 15 dias e parti de novo, no mesmo sítio. Aí sim, fui operado. Voltei talvez em novembro desse ano, tinha ficado bastante tempo parado porque foram duas lesões juntas e acabei por não conseguir ganhar o meu lugar até ao final da época. Joguei ainda uns jogos, mas não ganhei o meu lugar. No ano seguinte [2014/15], é o ano que me imponho. Fiz 14 golos durante a época, a jogar extremo. Foi uma época muito boa e estava confiante que ia fazer a pré-época seguinte na equipa A. Hoje, um jogador da equipa B com 18 ou 19 anos, que marca 14 golos é vendido para o Barcelona ou para o Manchester ou algo assim. Mas o Lopetegui teve a infeliz ideia de não me convocar para a pré-época. Ficou revoltado? Sim, fiquei um bocado chateado. Pensei, se fiz 14 golos e não sou chamado, o que tenho de fazer para ser chamado à equipa A? Tenho que marcar 30? Talvez tenha sido um erro da minha parte, fui um pouco imaturo, mas chateei-me e disse que não voltava à equipa B. Na altura estive quase a ir para o Reading, do Championship, mas a negociação acabou por cair. Também se falou no Marselha, mas não sucedeu. O tempo foi passando, eu não quis voltar à equipa B. Na altura, o Pini Zahabi era investidor do RE Mouscron, da Bélgica, e fui para lá. O FC Porto ficou com 40% do meu passe. Ele disse-me: “Vens para aqui, fazes um ano numa I Liga e metemos-te noutro sítio.” Spoiler “Muitas vezes estávamos a treinar e o Manuel Machado na bancada, em chamadas. Ou estava a dar uma palestra no treino e o telemóvel tocava“ O extremo Frédéric Maciel saiu de Portugal para jogar no estrangeiro aos 21 anos. Após uma curta passagem no RE Mouscron, da Bélgica, regressou ao futebol português, estreou-se na I Liga, jogou na II, na Liga 3 e até no Campeonato de Portugal, antes de voltar a sair para a Roménia e a Bulgária. Assume que pensa cada vez mais na vertente financeira e em aumentar a família, confessa não gostar da evolução para um futebol robotizado e revela um talento, no mínimo, curioso Como foi o primeiro impacto na Bélgica? Quando cheguei foi um bocado complicado porque pensei que ia ter uma receção incrível, ia ter pessoas na bancada e, aterrei, tinha uma chamada do diretor a dizer que ia mandar um amigo buscar-me. Ao chegar ao estádio, as pessoas nem sequer sabiam que eu ia chegar. A senhora que tratava dos contratos, disse-me: “Não está aqui o presidente, volta amanhã.“ Pegaram em mim, deixaram-me no hotel e disseram-me: “Amanhã às sete da manhã estamos aqui para te buscar.” Fui lá abaixo para jantar, não havia jantar no hotel. Tive que sair à rua para comer. Pelo menos não tinha o problema da língua, uma vez que falava francês. Sim, na zona em que eu estava falava-se francês, por isso essa parte foi fácil para mim. Assinou por quanto tempo? Três anos. Foi ganhar mais ou menos do que ganhava no FC Porto? Fui ganhar o dobro. Frédéric Maciel assinou pelo RE Mouscron da Bélgica em 2015/16 D.R. Como foi recebido depois no clube? Pensei que iam estar à minha espera para assinar, mas disseram-me: “Vai treinar que à tarde tratamos da papelada”; “Então eu vou treinar, imagine que me lesiono no treino ou alguma coisa assim?”; “Porquê? Tens alguma dor?“; “Não tenho dor nenhuma, mas não é muito profissional.“ Lá acabei por ir treinar, mas não entrei em confrontos, tirei o pé, porque era arriscado. À tarde, chamaram-me e fui assinar. Penso que nesse dia nem tirei foto com a camisola. Só dois ou três dias depois é que veio a camisola para eu tirar umas fotos. E a equipa como reagiu à sua chegada? Havia outros portugueses na equipa? Fui o primeiro português. Depois chegou o brasileiro Vágner Silva, guarda-redes que foi do Estoril. Ainda joguei com o Vágner de novo no Torreense. Também veio o Tozé Marreco, eram as pessoas com quem lidava mais. Mas fui bem recebido, sou uma pessoa social, gosto de ser extrovertido. Falo cinco línguas, na altura falava quatro. Agora também falo romeno. Não tive qualquer tipo de problema. Com que opinião ficou do futebol na Bélgica? Muito mais físico. Para mim que era um miúdo que vinha do FC Porto, onde tinha mais bola, chegar ali e ser tudo contra-ataques e físico, não foi uma época muito bem conseguida da minha parte. E quando ganhei o meu lugar, trocaram de treinador, chegou um belga que me encostou completamente, não joguei mais com ele. Estávamos a lutar pela manutenção e ele disse que ia apostar nos jogadores que conhecia. Ainda assim, gostou de viver na Bélgica e dos belgas? Não gostei muito, na verdade. Também vivia numa cidade pequena, mais aldeia. Às 17h30/18h fechava tudo. Algumas vezes estava a lanchar às seis da tarde e via os meus vizinhos à mesa a jantar. É uma cultura de acordar cedo, passear o cãozinho, trabalhar, voltar e às seis, seis e meia estão a jantar para se deitarem cedo. Até o shopping, a primeira vez que fui lá numa tarde de livre, às cinco e meia estava fechado. Tive de voltar para trás [risos]. Em 2016/17, o extremo regressou ao futebol português através do Moreirense D.R. Só ficou uma época porquê? Comecei a pré-época seguinte com o mesmo treinador. Fiz uma pré-época muito boa, com muitos golos. O treinador veio falar comigo e disse: “Desculpa, no ano passado não te pus a jogar porque não te conhecia. Realmente tens qualidade.“ Primeiro jogo da época, não convocado. Eu joguei os jogos todos da pré-época. Não sou muito de reclamar ou de perguntar por que não jogo. Continuei a treinar. No jogo seguinte, não convocado de novo. O mister chamou-me e diz: “Vais começar a treinar na equipa B.“ O que se passou? O Pini Zahabi era investidor do clube, tinha que pagar umas tranches que não pagou e todos os jogadores dele foram encostados. Tive ali um momento difícil, fui para a equipa B e depois lá chegámos a acordo no último dia de transferência e vim para o Moreirense. Como foi estrear na I Liga portuguesa em 2016/17? Foi bom. Eles já tinham começado o campeonato. O treinador era o Pepa, mas depois foi despedido. A verdade é que no Moreirense não joguei muito. O meu primeiro jogo foi para a Taça da Liga, contra o Estoril e fiz golo. Ganhámos 1-0. Até ganhámos a Taça da Liga esse ano. Depois o Pepa saiu. E veio o Augusto Inácio. Como correu? Não correu muito bem. Não foi uma pessoa que eu tenha gostado muito. Não me identifiquei. Talvez ele também não tenha gostado do meu estilo de jogo. Ele acabou por ir embora e veio o Petit, nas últimas jornadas. Consegui jogar um bocado no final, ainda fiz uma assistência no jogo contra o SC Braga, que ganhámos, e no último jogo da época fui titular contra o FC Porto. Precisávamos ganhar ao FC Porto para conseguir a manutenção, joguei e marquei golo ao FC Porto. Frédéric (à esquerda) em ação pelo Moreirense D.R. Que tal era o balneário do Moreirense? Era bom, tinha o Daniel Podence, o Francisco Geraldes, Pedro Rebocho... . No Moreirense o que me prejudicou bastante é que começou a surgir uma dor no tendão de Aquiles. Pensava-se que era uma tendinite, fiz ondas de choque, imensos tratamentos para curar a tendinite e a dor voltava sempre. Devia ter parado porque não estava a jogar no meu máximo, treinava a mancar; houve semanas em que tomei Voltaren todos os dias para treinar com um bocado menos de dor. Todos os jogos que fiz no Moreirense foram com Voltaren para ter menos dor. Isso prejudicou-me imenso porque não estava a ser eu, não estava na minha melhor performance. Mas acabei em grande porque fiz golo ao FC Porto. Entretanto, como tinha essa dor no calcanhar, fui fazer um raio-x e descobriram que o meu quinto metatarso do pé esquerdo, eu tinha partido o direito no FC Porto, também estava fraturado. Tive de parar, usei a bota mas não fui operado. Quando voltei o treinador era o Manuel Machado. Uma figura do futebol português. Que tal? Uma figura não pelos bons motivos, mas uma figura. Havia treinos em que estávamos a treinar e ele na bancada, em chamadas, ou ele a dar uma palestra no meio do treino e o telemóvel tocava. Os titulares jogavam, havia treino dos suplentes no sintético e ele não espreitava o treino sequer. Ou se espreitava, era do parque de estacionamento lá em cima, pegava no carro e ia embora. Na altura queria trazer o Zizo do Nacional, o extremo. O clube disse-lhe que tinha extremos. Voltei da lesão, entrei num jogo contra o FC Porto, no Dragão, perdemos 2-0 ou 3-0. E, quase sem treino nenhum, sem ninguém me perguntar se estava bem, fui titular no jogo da Liga contra o Tondela. Não ia dizer que não queria ser titular, não é? Fui para o jogo, estava a jogar normal, o Tondela fez um golo na primeira parte e aos 35 minutos há substituição, olho para a placa e tinha o meu número. Tirou-me, não joguei mais e o Zizo foi contratado. Frédéric com a Taça da Liga conquistada pelo Moreirense, em 2017 D.R. Foi esse o motivo que o levou ao Gil Vicente a seguir? Sim. Não estava a jogar, o Gil Vicente ofereceu-me um contrato de dois anos e meio para jogar o resto que faltava do ano na II Liga e depois, porque estavam convencidos que subiam devido ao caso Mateus, jogava na I Liga. Pensei, vou para ali três, quatro meses, vou ganhar o meu lugar e no ano seguinte estou outra vez na I Liga. As pessoas não estavam muito preocupadas no Gil Vicente, perdia-se jogos e ninguém dizia nada. Ninguém se importava porque a equipa ia subir, não é? Mas acabou por descer e veio a notícia de que a subida foi adiada um ano. Ou seja, o Gil Vicente ficou no Campeonato de Portugal, os pontos não contavam e fiquei encravado. Obviamente queria sair. Foi fácil sair do Gil Vicente? Sim, disse ao presidente que ia tentar sair. Estive para ir para o Zurique, da Suíça, fiquei à espera, atrasaram, atrasaram e fechou o mercado de transferência. Fiquei um bocado preso porque tinha contrato com o Gil Vicente, mas eles iam jogar Campeonato de Portugal e sem contar os pontos. Ainda por cima vim a descobrir que a dor do tendão de Aquiles era provocada por um espigão no calcanhar e teria que ser operado para raspar um bocado de osso. Falei com o presidente Francisco, expliquei-lhe que no ano anterior já tinha sido injetado para poder jogar os últimos jogos de campeonato e que por isso era melhor ser operado em dezembro. Ele disse OK e nunca mais me respondeu às chamadas. Pedi para ser operado, não me deixaram ser operado, disseram que eu tinha ido para clube só para ser operado. Que sentido é que fazia ir da I para II Liga para ser operado? Nenhum. Tive uma guerra com o presidente, que não me deixou ser operado. Como resolveu a situação? Já íamos em dezembro, não queria ser operado sem autorização do clube porque podiam rescindir o contrato por justa causa. Tive de meter um advogado para pedir, por favor, que me deixassem ser operado. O meu pai chegou a ir à fábrica do Sr. Francisco Dias pedir-lhe, por favor, para me deixar ser operado. Ele disse: “Deixe só passar agora as festas e assino os papeis para ser operado.“ Nunca mais respondeu às chamadas de novo. Fingiu que eu não existia. O que fez? Acabei por pagar a operação do meu próprio bolso, fui operado, passando 15 dias voltei às instalações do Gil Vicente para ser tratado e os fisioterapeutas, quase com a lágrima no olho, disseram-me: “Desculpa Fred, mas estamos proibidos de tratar-te.“ Durante a minha lesão fui todos os dias de manhã aos treinos do Gil Vicente, ninguém me tratou, ficava sentado numa maca à espera que acabassem o treino, para não poderem dizer que eu faltava aos treinos e me despedissem por justa causa. No final do treino ia para casa, almoçava e ia a uma clínica para ser tratado, pago pelo meu bolso. Em 2019/20, Frédéric assinou pelo Varzim SC D.R. O que aconteceu no final dessa época 2017/18? Começou a seguinte com o mister Vítor Oliveira, na I Liga. Falei com o mister, ele disse que me conhecia e que se estivesse bem, por ele, ficava na equipa. Agradeci-lhe, fui falar com o presidente de novo e ele: “O mister Vitor Oliveira não te quer.“ Eu tinha acabado de falar com o mister [risos]. Não me deixaram treinar, puseram-me a equipar num balneário à parte, sozinho. No último dia do mercado, rescindimos, tinham de pagar-me durante 10 meses um valor e não me pagaram, tive de ir para tribunal. Fizeram de tudo para perder tempo até o último dia em que tinham de pagar, depois pagaram tudo de uma vez. O objetivo foi só complicar-me a vida. Então assinou pelo Varzim no último dia do mercado de inverno? Deixe-me só dizer que já joguei em alguns clubes, conheci muitas pessoas e a única pessoa mesmo má para a minha carreira foi o presidente Francisco Dias. Não se faz a ninguém o que ele me fez. E pronto, fui novamente para o Varzim muitos anos depois. O mister Paulo Alves era o treinador. Logo no primeiro jogo fui convocado. Entrei, estava 1-1 e fiz o 2-1. Já não jogava um jogo oficial há 14 meses e entrar no jogo e fazer golo foi incrível, nem sabia o que fazer, como festejar, fiquei um pouco emocionado. No jogo a seguir ao intervalo estávamos a perder 1-0 contra o Mafra, empatámos 1-1, fiz a assistência. Na semana seguinte ia ser titular no jogo da Taça e, no treino antes do jogo, numa peladinha, num lance aéreo, partiram-me o nariz. Só azares. Mesmo. Estive um mês e tal sem jogar, voltei a jogar com máscara. Foi difícil, a equipa estava bem, demorei outra vez para conseguir ganhar o meu lugar. Lá consegui, comecei a jogar de novo, estava a jogar a titular, estava bem, veio a covid-19 e a II Liga não retomou. Frédéric jogou no Campeonato de Portgual pelo Lusitânia de Lourosa, em 2020/21 D.R. Os tempos de confinamento foram muito difíceis de suportar? Para mim não porque os meus pais têm uma casa com jardim. Uma das minhas irmãs que tem dois filhos acabou por ir para lá, éramos muitos em casa. Era um bocadinho chato não poder sair e estávamos um bocado assustados com o mundo, agora o tempo foi bem passado porque conseguíamos brincar, jogávamos às cartas, íamos para o campo jogar futebol, coisas assim. Só tinha assinado um ano com o Varzim? Sim. Depois não surgiu nada. Apareceu uma outra equipa a dar-me €1000 e a dizer: “É para te mostrares.“. Eu já com 25/26 anos. Em Portugal, infelizmente, acontece muito. Eu não queria ir para o Campeonato de Portugal, pensava que ia conseguir algo na II Liga, mas o tempo foi passando e acabei por aceitar ir para o Lusitânia de Lourosa, que já tinha começado a época. Foi aquela época em que eles até vieram a pé de um jogo. Recorde-nos essa história. Eles perderam contra o São João de Ver. O presidente chateou-se porque Lourosa é perto São João de Ver e disse ao motorista para ir embora. Então os jogadores começaram a ir embora a pé. Depois o presidente arrependeu-se, mandou-os para trás, mas os jogadores disseram: “Agora vamos a pé.“ Foi um erro do presidente, mas o presidente é boa pessoa, cumpridor, paga certinho e merece todo o sucesso que está a ter, fico muito feliz pelo Lourosa. Cheguei ao Lourosa e o treinador era o Rui Quintas, eu tinha-o apanhado como adjunto no FC Porto. O extremo em ação pelo Lusitânia de Lourosa Jose de Oliveira Foi ganhar mais do que os €1000? Sim, €2000. Cheguei lá, primeiro jogo, não fui titular, claro. Entrei, perdemos 2-1, o mister Rui Quintas foi despedido, veio o mister Henrique Nunes, treinámos duas semanas, penso, porque era uma paragem de seleção, e antes do jogo chamou-me e disse: “Ó miúdo, anda aqui. Opá gostei muito de te ver treinarm és muito bom, gosto muito de ti, mas não te conheço. Só conheço mais os jogadores daqui de baixo, não os lá de cima. Por isso não vais jogar neste jogo. Vão jogar os jogadores que conheço do Campeonato de Portugal.“ [Risos]. Um bocado caricato. Como reagiu? Disse: “OK, não há problema.“ Nesse jogo entrei no intervalo, fiz duas assistências, estive muito bem e comecei a jogar. Joguei sempre no Lourosa. Foi muito importante na minha carreira porque para mim, que tinha jogado I Liga no estrangeiro e em Portugal, tinha feito golo ao FC Porto, de repente estava a jogar no Campeonato de Portugal. Foi uma queda grande. Supostamente fui um dos melhores da formação da minha geração e depois ver onde eu estava. Para quem não me conhece foi só falta de capacidade minha. A verdade é que nem sequer eram lesões musculares, porque se fosse uma lesão muscular podemos dizer que preparou-se mal, não descansou bem, não comeu bem, agora o que posso fazer se um osso partir? Chegou a representar Portugal? Sim, fui à seleção dos sub-17 até aos sub-20. Depois começaram as lesões e não fui mais. Ainda fiz 42 jogos. Em 2021/22 Frédéric Maciel assinou pelo Torreense D.R. Entretanto conheceu a sua mulher, certo? Sim, conheci-na enquanto estava no Lourosa. A mulher de um dos colegas, o Paulo Tavares, era amiga da minha mulher. Quando vi a Diana disse que ela é muito linda e que gostava de a conhecer. Mas ela deu-me para trás durante muito tempo. O Paulo deu uma forcinha, disse-lhe: “Vai lá só conhecer o rapaz, só um jantarzinho e pronto.“ Ela acabou por ceder, fomos jantar, correu bem e a partir daí pronto... O que fazia a Diana profissionalmente? Trabalhava numa editora, no Porto. Como saiu do Lusitânia de Lourosa para o Torreense, em 2021/22? O Lourosa queria renovar comigo, mas tinha trocado de treinador, tinha vindo o Filipe Moreira, que jogava com cinco defesas e não havia extremos. Eu tinha feito uma grande época, estava muito bem, o clube queria continuar comigo, mas também não me queriam subir muito o salário, o mister nunca me ligou, nunca me disse nada. Do outro lado tinha o Torreense, com o diretor Marco Couto, que foi meu diretor no Moreirense, interessado; e o mister Daúto Faquirá, que me ligou duas, três vezes. Senti-me desejado de um lado e do outro não muito desejado pelo mister. Acabei por ir. Fui ganhar mais também. Gostou de trabalhar com Daúto Faquirá? Gostei muito. Gosto muito dele como pessoa. Acabou por ser despedido, precocemente, e veio o Nuno Manta Santos. Começou o ano e no segundo treino parti o quinto metatarso. Aquele do Moreirense que estava partido e que só tinha recuperado. Desta vez tive de ser operado, acabou a época para mim. Foi talvez a única vez que dentro do azar tive sorte na carreira porque a equipa do Torrense subiu, então fui para a II Liga, subi o meu salário, fiz uma época muito boa, adaptei-me melhor ao jogo do Pedro Moreira quando ele chegou, embora quando voltei ainda era o Nuno Manta Santos. Em ação pelo Torreense Torreense Ainda tinha o mesmo empresário? Não. Depois fiquei sem empresário. Quando fui para o Lourosa e Torreense estava sozinho. As pessoas ligavam diretamente para mim. Foi para o FC Otelul da Roménia, em 2023/24, também sem empresário? Não. Alguns empresários ligavam-me, eu dizia-lhes: “Já tive algumas histórias com empresários que não correram bem, por isso, se me trouxer um contrato, eu assino com o clube e assino o contrato consigo.“ Apareceu-me um empresário turco no Instagram que viu uns vídeos meus. “Como é que está aí se tens tanta qualidade?“ Pensei, mais um. Infelizmente há muitas promessas que encravam muitos jogadores. Eu tinha uma equipa interessada em Israel e ele diz-me: “Não vás para Israel, dá-me uma semana, vou-te apresentar aqui no Azerbaijão e na Turquia, na I Liga.“ Disse-lhe que esperava uns dias. Passado quatro, cinco dias, estava nas compras e recebi uma chamada do turco. “Já fizeste as malas? Vamos para a Roménia.“ Ele disse que ia apresentar-me no Azerbaijão e na Turquia [risos]. O que lhe disse? Como reagiu? Fiquei um bocado em pânico, porque tinha uma ideia completamente diferente da Roménia. Que ideia tinha? De um país e pessoas completamente diferentes. Infelizmente as pessoas associam muito Roménia a ciganos e por isso fui um bocado assustado. Eles queriam assinar um ano, com mais um de opção, eu disse que só queria um ano. Frédéric com o troféu de campeão da Liga 3 que conquistou pelo Torreense D.R. Foi para a Roménia sozinho? Esqueci-me de dizer que no Torreense, quando me lesionei, a Diana deixou o trabalho para vir cuidar de mim. O objetivo era cuidar de mim e depois voltar a trabalhar, mas depois de morarmos juntos nunca mais nos deixámos [risos.]. Ela foi comigo para a Roménia. Qual foi o primeiro impacto quando chegou à Roménia? Tinha um senhor com um papelzinho com o nome da equipa. Era um senhor muito engraçado. Ele disse que falava um bocadinho de italiano e espanhol. Fiz-lhe uma pergunta em espanhol e descobri logo que afinal só dizia hola e gracias [risos]. Ele era taxista e pai de um dos roupeiros do clube. Estavam 30 e tal graus e ele veio num carro um bocado estragado, o ar condicionado não estava a funcionar, eu tinha dormido mal, estava ali todo amassado, cheio de calor. Na Roménia há partes em que há auto-estradas, mas há outras que são só nacionais e não são muito boas. Ele optou por um caminho mais curto, mas que era todo às curvas, em vez de ir pela estrada melhor. Só via caminhos com carroças com cavalos e pensava, onde é que me vim meter? E quando chegou ao clube? Tive sorte que já tinha lá dois portugueses, o João Serrão e o Samuel Teles, e as coisas correram maravilhosamente. Gostei imenso da Roménia, as pessoas são muito simpáticas, a comida é excelente, o campeonato é bom, a liga é incrível, muito vistosa. Frédéric Maciel assinou pelo FC Otelul, a Roménia, em 2023/24 Octavian Cocolos E o futebol em si? Há muitos contra-ataques, algumas vezes não é muito organizado, é muito intenso, mas o nível é bom, ainda agora o Craiova estava na Liga Conferência. A única coisa menos boa da Roménia é que há algumas equipas que atrasam o pagamento. É normal atrasarem dois, três meses. A minha cidade, Galati, tem 300 mil habitantes e as pessoas adoram futebol. Jogava sempre com um mínimo de 7000/8000 pessoas. Quando enchia tinha 12.000/13.000 no estádio. Ia ao Lidl e as pessoas conheciam-me. Ia na estrada, as pessoas apitavam. Na Roménia somos jogadores a sério, somos conhecidos, damos autógrafos e tudo mais. Aprendi a falar romeno. No segundo ano até já dava entrevistas em romeno. A minha mulher veio logo comigo e gostávamos muito da vida na Roménia. Deve ter histórias para contar de lá… A verdade é que quando cheguei tínhamos um treinador, o Dorinel Munteanu, que é uma pessoa um bocado quente. No primeiro jogo que joguei pelo FC Otelul, contra o Craiova, entrei na segunda parte e passei a bola de calcanhar, perdemos a bola e levamos com um contra-ataque. No final do jogo o mister não parou de gritar comigo a dizer para eu ir dar calcanhares para Portugal, que ali isso não existia. Às vezes, chegávamos ao intervalo e ele era capaz de dizer: “Tu estás a jogar por eles ou estás a jogar por nós?“ [risos]. Começava um jogo, aos dois minutos do jogo, se perdia uma bola, ele era capaz de me chamar e dizer: “Queres voltar para Portugal?“ [risos]. Mas dávamo-nos bem, apesar do temperamento dele. Tanto é que a contratação do Lameira, no mercado de inverno, decorre do facto do mister chamar-me para avaliar dois ou três jogadores portugueses. O que aconteceu? Disse-lhe: “Ó mister, conheço-os mais ou menos, não joguei com eles, mas acho que não são o perfil para o nosso clube.“ Depois liguei ao Lameira, perguntei-lhe como estava a dar-se na Rússia. Eu tinha jogado com o Lameira no Torreense. Ele disse que não estava a jogar, talvez fosse emprestado. Perguntei-lhe se ele ia para o FC Otelul se pagassem o valor. Ele disse que sim. Então liguei para o meu diretor: “Este jogador da I Liga russa pode vir para aqui, mas não digas ao mister que fui eu.“ O diretor mandou o perfil ao mister que avaliou, disse que era muito bom jogador e no espaço de 48 horas eu indiretamente contratei o Lameira [risos]. Frédéric (2º em baixo, à direita) com a equipa do FC Otelul, da Roménia NurPhoto Mais histórias da Roménia, tem? Sou muito mau para me lembrar. Havia uma coisa que me fazia alguma confusão. Eles são ortodoxos, mas sempre que o autocarro passava em frente a uma igreja eles benziam-se umas quatro ou cinco vezes seguidas. Outra coisa, na véspera dos jogos, íamos no autocarro e quando parávamos numa estação de serviço eles saáam de lá com chocolates, Coca-Colas, podem comer o que quiserem. Até nos ríamos porque estávamos a ganhar jogos, estávamos muito bem e a nossa sobremesa no jantar antes do dia do jogo era sempre crepes com Nutella. Também se podia beber um copo de vinho às refeições Não se podia exagerar, claro. Os jogadores romenos dão-se bem com os estrangeiros? São muito boas pessoas. São muito abertos. Não há aquela coisa de não quererem estrangeiros. A Roménia, na minha carreira, foi a maior surpresa. Quem está em Portugal olha para a Roménia como um campeonato fraco, pessoas feias ou ciganas. Não é nada disso. As pessoas são bonitas, são arranjadas, muito simpáticas, o campeonato é muito bom. Os salários são muito melhores. Por exemplo, no meu segundo ano da Roménia ganhava €10.000. Em Portugal para ganhar isso na II Liga é muito difícil, ainda para mais sendo português. Infelizmente não se valoriza o produto português. Nós, portugueses, vamos para qualquer país, jogamos, as pessoas gostam de nós, ganhamos o nosso lugar e salários bons. Em Portugal, ou porque é novo, ou porque é velho, ou porque isto, por aquilo. Se eu falar com uma equipa da II Liga ou Liga 3 agora, dizem que estou velho. Tenho 31 anos e, sinceramente, estou no auge da minha carreira. Em termos salariais e em termos físicos. Com 23 anos não tinha metade da qualidade que tenho hoje no campo. A maneira como vejo o jogo, mesmo a maneira de correr, de aguentar o jogo 90 minutos, saber gerir o esforço. Porque saiu do FC Otelul no final de 2024/25? Acabei o segundo ano no FC Otelul, eles queriam renovar mas eu tinha três salários em atraso, disse que não renovava, porque tinha feito duas grandes épocas e queria receber mais. É importante nesta fase da minha vida olhar também para o lado financeiro. Tinha propostas do Azerbaijão, de outras equipas da Roménia, da Grécia, mas surgiu esta hipótese do CSKA 1948, da Bulgária, e vim por causa dos valores. O extremo com a bola debaixo da camisola, após marcar um golo pelo FC Otelul, numa homenagem à mulher que estava grávida, em 2025 D.R. Já foi pai? Sim, a minha filha bebé foi feita na Roménia, nasceu em Portugal em maio do ano passado e agora está a viver na Bulgária. Chama-se Benedita, assisti ao parto. Tive sorte, porque ela nasceu prematura um mês e eu estava em Portugal, a pré-época ainda não tinha começado, então consegui estar com ela nas duas primeiras semanas. Depois vim para a Bulgária e elas vieram ter comigo quando a bebé fez três meses. Como foi a receção na Bulgária. Foi um choque maior do que a Roménia? A Bulgária foi mais um choque em termos futebolísticos. Vivo no centro da cidade, em Sófia, a 15 minutos do aeroporto. Há muitas equipas perto de Sófia, as deslocações são curtas. Agora, o campeonato não tem muitos adeptos, os estádios não são tão bons, as pessoas não são tão fanáticas, os búlgaros são pessoas mais frias. Pensei que na Roménia e na Bulgária seriam parecidos, mas somos muito mais parecidos com os romenos do que com os búlgaros. Tem contrato até quando? Assinei três anos, por isso tenho mais dois anos e meio de contrato. Tem alguma meta para deixar de jogar ou nunca pensou nisso? Sinceramente não vejo o fim perto porque com 31 anos não é fácil estar no bom momento físico em que estou agora. Se chegar aos 37/38 anos e me sentir bem fisicamente não vejo por que parar. Sempre fui cuidadoso com a parte física, alimentação e acredito que vou chegar a essa idade bem fisicamente. Por agora gostava de continuar pelo estrangeiro, porque financeiramente é muito melhor para mim. Talvez daqui de a 4/5 anos então voltar a Portugal e terminar a carreira em Portugal. O extremo com a mulher, Diana, e a filha Benedita, recém-nascida D.R. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras? Não gosto muito de pensar nisso porque ainda está longe. Neste momento não penso ser treinador ou estar ligado completamente ao futebol ou a uma equipa. Vivi isto desde os meus 7, 8 anos, nunca tive fins de semana, nunca estive presente nos anos da minha família, perdemos muito. Gostava de, quando acabar a carreira, ter um tempo para aproveitar a família, gostávamos de ter dois ou três filhos, tenho quatro sobrinhos. É difícil ver os meus sobrinhos e os meus pais 20 dias por ano, somos uma família muito unida e gostaria de aproveitar melhor essa parte. Onde ganhou mais dinheiro até agora? Aqui, na Bulgária. Deu para investir? Tenho três negócios imobiliários, dois apartamentos e um pavilhão, e um franchising de uma loja. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Arrependido, mas carros [risos]. Já tive três BMW. Primeiro o X1, depois tive o série 4/420. Vinha da minha lesão no FC Porto B, tinha tido um acidente com o X1 e pronto, comprei esse. Se fosse hoje não o compraria, mas foi a minha maior extravagância, sem dúvida. Que acidente foi esse? Tive sorte. O carro capotou e foi para a sucata. Era dia 13 de maio, ia para Fátima e adormeci ao volante. Tinha 20 anos. Saí da auto-estrada e capotei. Felizmente ia sozinho. É um homem de fé, portanto. Acredita em Deus. É uma pergunta difícil. Até aos 25 anos era católico praticante, bastante. Depois mudei um pouco e passei a acreditar numa energia maior. Houve algum episódio em específico que o tivesse levado a duvidar da sua fé? Todos estes factos que falámos da minha vida, que não foi fácil, porque passei muito para estar onde estou hoje. Se calhar para as pessoas de fora foi só falta de capacidade minha, mas para o que passei, recuperar foi uma grande vitória. Frédéric assinou esta época 2025/26 pelo CSKA da Bulgária D.R. E superstições, tem? Entrar em campo pé direito. Se marcar golo com uma chuteira, tenho que jogar com ela no jogo seguinte. Tem algum hobby? Quando estou de férias gosto de jogar Padel. Gosto muito de ir ao cinema com a minha mulher, mas agora estamos no estrangeiro e temos uma bebé, por isso não será tão fácil voltar a essa rotina. Sou uma pessoa que nasceu perto do mar, tudo o que sejam atividades perto do mar, um lanche perto do mar, uma caminhada, é sempre bom. Tatuagens, tem? Não tenho tatuagens, não tenho brincos, não tenho nada dessas coisas, porque tive um pai que não me incutiu nada dessas coisas. Acompanha ou pratica outra modalidade? Gostava muito de acompanhar ténis, gostava muito do Federer. Ainda vejo ténis, mas houve uma fase que via mais. E gosto de ver a Fórmula 1. Qual a maior frustração que tem na carreira? Talvez não ter conseguido chegar à Premier League, que era o meu sonho. E o maior arrependimento? As extravagâncias dos carros. Agora que tenho uma mente muito mais investidora e crescida, teria mais investimentos hoje em dia se tivesse sido diferente. O extremo assinou por três anos com o CSKA de Sofia (Bulgária) Ivan S. Ivanov O momento mais feliz na carreira? A subida de divisão no Torreense foi muito boa, mas como não tinha jogado parte da época, foi também dolorosa essa parte. Ganhei a final da Taça da Liga, no Moreirense e também não joguei por causa do Augusto Inácio. Perdi a final da Taça da Roménia. Por isso, vou dizer o meu golo ao FC Porto. Foi o meu primeiro golo na I Liga, logo contra o FC Porto e a garantir uma manutenção. O objetivo que está por cumprir? Não sou muito de pôr as coisas a longo prazo. Gosto de pensar nesta época, atingir os meus objetivos nesta época, para o próximo ano ser ainda melhor. Tudo o que faço no futebol é para quando acabar a carreira ter uma família bonita, que não precise de trabalhar tanto como eu tive de trabalhar; e ter uma família unida perto de mim. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Manchester United. Quais as maiores amizades que fez no futebol? O Rafael Floro que jogou comigo no Sporting e no FC Porto, o Ricardo Miranda que joga na Roménia. Tem ou teve alguma alcunha? Só o diminutivo do meu nome: Fredy. Frédéric Maciel com a mulher e a filha D.R. Qual o jogador com o qual gostava de ter jogado na mesma equipa? Com o Cristiano Ronaldo. E contra o qual gostava de ter jogado? O Ronaldinho Gaúcho, para poder assistir à magia dele em campo. Há alguma lei do futebol que se pudesse alterava ou bania? Já vi darem um amarelo ao Neymar por dar um “cabrito“ [passar a bola por cima do adversário] e cada vez mais essas coisas são encaradas como gestos provocadores, é mal visto, mas para mim o futebol é alegria, é imaginação. Hoje o futebol está cada vez mais feio, mais robotizado, uma criança de 6 ou 7 anos é instruída a só passar a bola e diz-se-lhe que não tem de fintar. Essa é a parte que me está a custar mais na evolução do futebol. Ver nos 90 minutos que não há uma pessoa que finte um jogador. Tem algum talento escondido? Consigo imitar na perfeição o som de uma galinha. Não sei se conta como talento. [risos] Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado Março 8 Como era imigrante, nos anos 2000 pouco se falava do FC Porto Hein? Compartilhar este post Link para o post
Jamarcus Publicado Março 9 Que ideia tinha? De um país e pessoas completamente diferentes. Infelizmente as pessoas associam muito Roménia a ciganos e por isso fui um bocado assustado. Os jogadores romenos dão-se bem com os estrangeiros? São muito boas pessoas. São muito abertos. Não há aquela coisa de não quererem estrangeiros. A Roménia, na minha carreira, foi a maior surpresa. Quem está em Portugal olha para a Roménia como um campeonato fraco, pessoas feias ou ciganas. Não é nada disso. As pessoas são bonitas, são arranjadas, muito simpáticas, o campeonato é muito bom. Tatuagens, tem? Não tenho tatuagens, não tenho brincos, não tenho nada dessas coisas, porque tive um pai que não me incutiu nada dessas coisas. Gostei deste trabalho de investigação 2 4 Compartilhar este post Link para o post
Hidden Publicado Março 9 Je pense que if je parle jai un grand problemme Compartilhar este post Link para o post
Lleyton Publicado Março 9 Estou a sentir-me validado por ter sido o meu ódio de estimação quando jogou no Torreense. Compartilhar este post Link para o post
Vimaranes1922 Publicado Março 9 Grande rei na barriga, sim senhor. Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Março 23 Luquinhas Spoiler “Com 13 anos fui viver para a casa de um agente, em São Paulo. Foi o pior momento da minha vida. Chorei muito. E afinal, ele não era agente“ O brasileiro Luquinhas, que no início deste ano deixou o Santa Clara para voltar a jogar na Polónia, revela como foi conquistando o sonho de ser jogador profissional de futebol desde que saiu de casa dos pais, aos 13 anos. Casado e pai de um menino, o extremo conta como estranhou a língua assim que aterrou em Portugal, fala da temporada em que jogou no Benfica B, da estreia na I Liga, pelo Desportivo das Aves e explica como a mulher lhe deu o empurrão de que precisava para ir jogar no Légia de Varsóvia Nasceu em Brasília, no Brasil. O que faziam os seu pais profissionalmente? A minha mãe trabalhava em casa, cuidava de criança para as outras mães. Já o meu pai trabalhava numa barraquinha que vendia frutas, na cidade de Samambaia. Tem irmãos? Tenho dois irmãos e duas irmãs. Sou o caçula. Em criança deu muitas dores de cabeça? Praticamente não dei dores de cabeça aos meus pais porque saí muito cedo de casa, atrás de ser jogador de futebol. E de onde surgiu essa paixão pelo futebol? Em Brasília o futebol não é muito famoso, não tem nenhuma equipa que disputa, por exemplo, nem a quarta divisão. Era muito difícil para quem nascia em Brasília poder tornar-se jogador. Só que, no Brasil, como toda a gente sabe, quando uma criança nasce já quer ir para a rua jogar à bola. Naquele tempo era assim. Só queríamos andar na rua a jogar futebol, descalços mesmo. Comecei muito novo, o meu irmão tentou ser jogador e fui no mesmo destino. Saí de casa tinha de 13 para 14 anos. Já lá vamos. Torcia por algum clube? Sou flamenguista. Luquinhas (1º à esquerda) com 14 anos, quando jogava no Pro Vida, clube da sua cidade no Brasil D.R. Quem eram os seus ídolos? Cresci a ver Ronaldinho, o Robinho, o Kaká, jogadores da seleção que estavam sempre no auge. Da escola, gostava? Gostava mais das aulas de educação física, porque era futebol [risos]. Das outras, eu desenrascava, mas não era nada de especial. Quando e como começou a jogar futebol pela primeira vez num clube? Tinha 12 anos e fui jogar na capital, em Brasília. No Brasil é muito assim, você joga no bairro, sempre tem alguém vendo que acaba por pedir autorização aos pais e levam-nos para jogar. Rodei alguns clubes em Brasília, fazendo testes. Acabei por ouvir uns nãos. E sempre que recebia um não, por exemplo, em São Paulo, voltava para Brasília e tentava algum clubezinho lá, que faziam os campeonatos que não eram oficiais. Disse que aos 13/14 anos acabou mesmo por sair de casa. O que aconteceu? Nem gosto muito de lembrar. Um tipo, que dizia ser agente, tinha uma casa em São Paulo e convidou-me para ir para lá. Eu fui. Tinha lá mais de 15 meninos de outros Estados do Brasil. Fiquei lá quase dois anos. Treinávamos na cidadezinha de Itararé, onde era a casa dele e ele dizia sempre que ia arranjar um clube para nós. Os nossos pais pagavam por mês uma quantia para poder manter-nos lá. Mas acabámos por descobrir que era tudo mentira dele. Ele ficava com o dinheiro para ele e não procurava nada. Luquinhas a jogar pelo Capital, com 16 anos D.R. Custou-lhe muito deixar a casa dos pais? Sair do conforto da nossa casa e ir para uma casa onde não conhecia ninguém foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Nas duas ou três primeiras semanas chorava todos os dias à noite. Pediu para voltar para casa? Pedi. Mas a minha mãe dizia-me sempre: “Não. Tenta, tenta, que tu vai conseguir.“ Quase todos os dias eu pedia para ir embora. Lembro que era uma casa muito grande, e estávamos separados por idade. No meu tinha sete ou oito atletas, todos de 1996. Íamos para a escola a pé e o positivo é que convivíamos com meninos da nossa idade, que também estavam atrás do sonho e era brincadeira todos os dias. Treinávamos no campo municipal da cidade e quem nos dava os treinos era o tal suposto agente e o pai dele. Como descobriram que era tudo mentira e que ele vos enganava? Havia atletas mais velhos na casa e ele pediu uma quantia muito elevada para um deles e alguns documentos, dizendo que o ia profissionalizar. E houve um fim de semana em que ele saiu de casa e esse jogador mais velho acabou por entrar no quarto dele. Viu que os papéis estavam em cima da mesa, quando ele tinha dito que já tinha enviado para a federação. Quando ele voltou os mais velhos sentaram-no, começaram a fazer-lhe perguntas, ele começou a enrolar e foi aí que descobrimos que era tudo mentira. Luquinhas veio para Portugal e foi campeão distrital pelo Vilafranquense em 2015/16 D.R. Voltou para casa dos seus pais? Exatamente. Voltei para Brasília e joguei o meu último campeonato pelo Capital. Era o meu último tiro. Já tinha dito aos meus pais que era o meu último campeonato e ia parar, ia entregar currículo e ia querer trabalhar. Tinha 16 para 17 anos. Ia trabalhar para onde? Ia entregar currículo no mercado, na padaria, essas cenas. Chegou a fazê-lo? Não, porque como disse joguei o campeonato de Brasília pelo Capital, chegámos à meia-final e um senhor que estava a assistir conversou comigo, disse que tinha uma oportunidade para mim, que conhecia uns agentes em Portugal e podia fazer essa ponte. Depois disse-me que eu ia fazer um teste no Vitória de Guimarães, durante duas semanas, nos sub-19. Foi isso que aconteceu? Sim. Fiz o teste, mas acabei por só ficar quatro ou cinco dias porque ele falou que disse que havia uma oportunidade no Vilafranquense, que estava na distrital. Luquinhas mudou-se para o Benfica B, em 2016/17 D.R. Antes de continuarmos, como foi o primeiro impacto quando chegou a Portugal? Foi a primeira vez que saí do país. Quando cheguei estranhei a língua, realmente não entendia nada [risos]. Essa foi a principal dificuldade. Recorda-se de algumas palavras que achou mais engraçadas ou estranhas? Era o fo**-se. Porque no Brasil o fo**-se é mesmo muito ofensivo, já em Portugal não é tanto. Ficou a viver onde e com quem? Quando cheguei a Guimarães fiquei no centro de estágios. Gostei da estrutura do V. Guimarães, era uma realidade muito diferente da que tinha na minha cidade, no Brasil. Já o Vilafranquense era muito diferente. Ainda por cima eu não podia jogar na equipa principal porque ainda não tinha 18 anos. Tive de ficar só a treinar cinco ou seis meses. O dono do Vilafranquense é o meu empresário hoje. Eles tinham uma casa que alojava jogadores e no início fiquei nessa casa. Como foi a adaptação? Não foi muito difícil porque já tinha lá dois jogadores que eram de Brasília. Luiquinhas com Igor e Heriberto Tavares na equipa B do Benfica D.R. Só começou a jogar então na época seguinte 2015/16? Não me recordo. Lembro que tive como treinadores o Luís Brás, o Filipe Coelho e que subimos de divisão. E logo a seguir fui para o Benfica B. Que surgiu como? Como eu disse, o dono do Vilafranquense tornou-se meu empresário e ele tinha muita conexão com o pessoal do Benfica. Fui-me destacando e ele acabou por conseguir que eu fosse para o Benfica B. Entrou numa outra realidade. Sim, ali é o mundo da parte. Você sai de uma distrital e chega no centro de estágios do Benfica, que é um dos melhores do mundo, e fica encantado. Hoje digo a toda a gente que apanhei a melhor equipa B do Benfica. Não é à toa que muitos deles estão no topo. Rúben Dias, João Félix, Florentino Luís, Gedson Fernandes... todos eles eu apanhei naquela época. Qual se destacava mais? Naquela altura o Félix era juvenil ou junior de 1º ano, mas ia sempre treinar na equipa B. E, se pedíssemos a alguém de fora que estivesse a assistir ao treino para apontar um jogador dos juniores, não ia conseguir. Porque a qualidade que o Félix tinha já era acima do normal. Luquinhas (camisola 82) com a restante equipa do Benfica B após uma vitoria sobre o SC Braga B D.R. Quais as maiores diferenças que encontrou entre o Vilafranquense e o Benfica B? No Benfica senti que o nível era muito alto, então, a exigência tinha que ser muito alta. Para poder competir com eles, tinha que estar sempre no nível máximo. Tinha de aprimorar-me no trabalho e dedicar-me mais para poder jogar, porque havia muito, muito jogador talentoso. Estava com 20 anos, já tinha algum namoro sério? Comecei a namorar com a que é hoje minha esposa e mãe do meu filho quando tinha 15 anos e ela 14. Conhecemo-nos na escola. Só que vim para Portugal e ela continuou no Brasil a estudar. Chama-se Jéssica. Ela só veio para Portugal depois de eu sair do Benfica B para o Desportivo das Aves. Qual o valor do seu primeiro ordenado, lembra-se? No Vilafranquense recebia €400 por mês. Era meio apertado, mas como não pagava alojamento e comida, dava. Quando fui para o Benfica passei a receber €1800. O que fez com o primeiro dinheiro maior que ganhou? Mandei metade para a minha mãe. O extremo em jogo pelo Benfica B D.R. Só esteve uma época no Benfica B, porquê? O clube não mostrou interesse em continuar consigo, ou quis sair? Acho que ambas as partes estiveram de acordo. O meu empresário conversou comigo e disse que, como eu não estava a ter muita oportunidade para jogar, era melhor sair e ser emprestado. Naquela altura muitos jogadores que saíam do Benfica iam para o Desportivo das Aves. Como vi que era uma equipa que estava na I Liga, achei uma boa oportunidade. Mas acabou por ir para a equipa de sub-23. Pois. Por isso retornei ao Vilafranquense, por empréstimo. Os meus empresários ainda eram donos do Vilafranquense e tinham um projeto para subir à II Liga. Perguntaram-me se eu abraçava esse projeto e acabei por aceitar. Só voltei para as Aves na época seguinte. Voltou em 2018/19 ao Desportivo das Aves e fez a sua estreia na I Liga portuguesa. É isso? Com datas não sou muito bom. Mas sim, é nessa altura que me estreio na I Liga. Aliás, a minha estreia no Aves até foi num jogo da Taça. Lembro-me que o treinador era o José Mota e que a minha estreia foi o jogo da despedida dele, em que perdemos para o SC Braga. O Luquinhas estreou-se na I Liga pelo Desportivo das Aves, em 2018/19 D.R. Gostou do José Mota como treinador? Gostava muito porque quando voltei à Vila das Aves ainda fiquei nos sub-23, mas treinava a semana toda com a equipa principal. Só descia para jogar no sub-23 no fim de semana. E o Mota conversava muito comigo, falava: “Luquinhas, tu tens muita qualidade, és muito bom e no momento certo vais estrear.“ Eu já tinha essa confiança dele. Entretanto, ele chamou-me para o jogo da Taça contra o SC Braga e saí logo a seguir. Baixei a cabeça e pensei: “Fogo. Quando ele me leva para estrear, vai embora. Já vou voltar de novo para os sub-23.“ Só que chegou o Augusto Inácio e colocou-me logo na equipa principal. Até fiquei espantado, porque eu tinha acabado de estrear. Ele chegou junto de mim e disse: “Luquinhas, faz só o que tu sabes.“ Acho que ele já me estava a acompanhar de alguma forma, antes de assumir o Aves. Fui sempre titular com o Inácio. Muito diferente do José Mota? Muito, muito. Não consigo explicar com palavras... Mas, por exemplo, o Inácio deu-me muita liberdade. Ele sabia manusear a malta mais jovem. Ele dava muita liberdade. Foi um dos motivos porque fizemos uma boa época. Porque com o Inácio estreei eu, o Ricardo Mangas, o Lourenço, o Rodrigues. O extremo a dar uma entrevista depois de receber o trofeu de Homem do Jogo, pelo Desportivo das Aves D.R. Entretanto, a época terminou e saiu para a Polónia. Porquê? Quando acabou a época eles queriam renovar comigo. O diretor era o Quim Zé. Ele queria muito renovar comigo, mas não sei o que o contrato tinha de diferente que o meu empresário disse que só assinava se fosse de outro jeito. O Quim Zé disse que precisava de dois dias para ajeitar o que o meu empresário tinha falado, só que nesses dois dias, apareceu o Légia de Varsóvia. Como reagiu quando o seu empresário lhe falou em ir para a Polónia? Não vou omitir que fiquei meio assim... Eu não conhecia a liga polaca. Ninguém ia para a Polónia. Só conhecia a Polónia por causa da neve e do frio. Fiquei na dúvida. Estava bem nas Aves, toda a gente me conhecia, eu conhecia toda a gente. Mas a minha esposa falou: “Vamos, precisamos de algo novo. O salário é o dobro do que o Aves está a oferecer. Eu sei que o novo pode assustar, mas, e se der certo?“ Concordei e vim para a Polónia. Assinei por três anos. Spoiler “Na semana do jogo com Messi, nos outdoors da Time Square aparecia a foto dele junto com a minha. Quando entrou em campo só olhava para ele“ Luquinhas, 29 anos, joga na equipa polaca do Radomiak Radom, que há duas semanas ficou sem o treinador português Gonçalo Feio. O extremo brasileiro conta nesta II parte da entrevista Casa às Costas como foi para ao Légia de Varsóvia, onde foi campeão, e onde também foi agredido por um adepto. Falamos ainda da sua passagem pelos EUA e do regresso a Portugal para jogar no Santa Clara, entre outros pormenores que completam o seu caminho profissional e pessoal até aqui Chegou à Polónia em 2019/20. Como foi o primeiro impacto? Foi mais difícil do que o meu primeiro impacto em Portugal porque não sei falar inglês, não sei falar nada. Fiquei muito assustado. Quando cheguei ao hotel, o pessoal falava inglês e eu não entendia nada. O meu empresário é que me ajudou. Mas, graças a Deus, quando cheguei ao clube havia muitos portugueses. O André Martins, o Cafú, Salvador Agra. Ajudaram-me muito. Principalmente o André Martins. O clube é de uma dimensão diferente do Desportivo das. Aves... … Sem palavras. Costumo dizer que a estrutura do Légia é muito parecida com a do Benfica. O estádio não, porque o Estádio da Luz é muito mais bonito, mas a nível de estrutura, são muito, muito parecidos. E o futebol? O que achou do futebol polaco? É uma liga totalmente diferente da portuguesa. É mais de contacto, mais físico, mais de correria. A portuguesa é de mais talento, é um futebol mais pensado. Tendo em conta a sua estrutura física (1,69m), adaptou-se bem? Por incrível que pareça adaptei-me muito bem. Levava muitas porradas, mas adaptei-me muito, muito bem. Sou baixinho, mas sou rápido, quando eles achavam que iam chegar à bola, eu já estava lá. [risos] Luquinhas chegou ao Légia de Varsóvia na época 2019/20 SOPA Images Com que opinião ficou dos polacos e de Varsóvia? Surpreendeu-nos muito. A minha esposa apaixonou-se por Varsóvia. Os polacos que conhecemos no primeiro ano era tudo gente boa, que nos acolheu, tanto o pessoal do clube, como da cidade. O ambiente no balneário era idêntico ao que tinha vivido até aí? Era diferente porque o idioma às vezes trava muitas coisas. Por exemplo, no Aves, éramos praticamente metade brasileiros e metade portugueses. Dava muito certo. Na Polónia são idiomas diferentes, às vezes uns falam polaco, não entendemos, às vezes outros falam inglês e alguns polacos que não falam inglês não entendem. E brincadeiras de balneário? Viveu muitas em Portugal e na Polónia? Nas Aves, a malta pegava muito com o roupeiro, o Firmino, o anãozinho. No meio do balneário tinha um armário alto onde guardávamos as botas e, às vezes, colocavam o Firmino lá em cima, saía toda a gente para treinar e ele não conseguia descer. Tinha de esperar acabar o treino para alguém ir lá tirá-lo. Como foi ser campeão logo no primeiro ano, no Légia? Fantástico. No meu primeiro ano fui campeão e no final do ano, quando fazem aquela votação para os adeptos escolherem o melhor jogador da temporada, fui eleito. André Martins, Luís Rocha e Luquinhas com o trofeu de campeões da Polónia Gostou de trabalhar com Vukovic? Foi um dos treinadores que mais me ajudou. Mesmo não tendo muita comunicação, que eu não falo inglês, ele brincava, dizia que eu falo a língua do futebol, ele só mostrava por gesto e eu conseguia entender. Foi o treinador que me abriu as portas na Polónia, que me ajudou muito. Entretanto, ainda na sua primeira época no Légia surgiu a pandemia. Como foi atravessar esse período inicial, num país diferente, longe de casa? Foi muito difícil e um pouco de desespero, porque víamos as notícias dos aeroportos todos a fechar e eu olhava para a minha esposa e dizia-lhe: “A gente está lascado. Como é que vamos ficar num país em que não falamos inglês, está tudo fechado e não sabemos se isso vai acabar, se vai ficar assim para sempre?“ Foi muito difícil. Mas o pessoal do clube ajudou-nos bastante. Puseram uma bicicleta em casa para treinar. O que faziam para se distraírem? Como não podíamos mesmo sair de casa, víamos filmes e séries o dia quase todo. Vimos a Casa de Papel toda. Na segunda época no Légia, jogou as competições europeias e voltou a ser campeão. Como foi estrear em competições europeias? É outra coisa. É praticamente um sonho realizado. A semana, quando há jogo da Europa League, a cidade, os banners na cidade, os anúncios... É totalmente diferente, é outro ambiente. Os jogadores sentem-se mais jogadores. O extremo a festejar após marcar um golo pelo Légia de Varsóvia, em 2021 SOPA Images Quais os momentos mais marcantes nas duas primeiras épocas no Légia? O primeiro foi o meu primeiro golo, como profissional, no estádio do Légia, com os adeptos. O segundo momento é quando fomos campeões, a festa dos adeptos, nunca tinha vivido isso. E o terceiro momento foi ter jogado a Liga Europa. Ainda apanhámos uma equipa da Inglaterra e o meu sonho era um dia poder nem que fosse jogar contra uma equipa inglesa e acabámos por defrontar o Leicester na Inglaterra. Não chegou a terminar a terceira época no Légia, acabou por ir jogar na MLS, nos EUA. Quer contar o que aconteceu? Está relacionado com a agressão de que foi alvo por adeptos do Légia? Essa foi uma época muito difícil para mim, porque tive de tomar decisões devido a um fator que não era para ter acontecido, que foi esse, quando um dos adeptos entrou no nosso autocarro e acabou por me agredir. Como aconteceu? Estávamos bem nas competições europeias, mas muito mal no campeonato. Após um jogo contra o Wisla Plock, que perdemos por 1-0, fora de casa, estávamos a voltar para o centro de estágio do Légia que fica afastado da cidade, quando vejo o autocarro parar, no meio do nada, tudo escuro. Estava eu e o Josué sentados lado a lado. O Josué vai para o outro lado do autocarro. E quando eu olho, vejo mais de 30, 40 tipos a sair do mato e a baixar máscaras. Nisso o coração começou a disparar. Eu pulo para o lado da janela e fico de cabeça baixa. O motorista acaba por abrir a porta, entra o primeiro, eu coloco o capuz na cabeça, ele fala uma série de coisas que não entendi, em polaco, e vai para o fundo do autocarro. O segundo, quando passa por mim, olho com a cabeça meio de lado para ele, nesse momento ele dá-me um murro na cabeça e acabei por bater no vidro. Fiquei quieto. Depois entrou mais um. Mas de repente saíram a correr porque a polícia estava a chegar. O que fez depois? Cheguei ao centro de estágio e liguei para o meu empresário, que me diz para ficar calmo. Quando chego a casa e conto para a minha esposa, já tínhamos o nosso filho, e ela entrou em desespero. Queria fazer logo as malas e ir para o Brasil. Ela ligou para o meu empresário a dizer que ia embora. No outro dia, o dono do Légia foi lá a casa para conversar comigo. Disse para eu ficar, que colocava segurança lá em casa, mais isto e aquilo, mas já não nos sentíamos seguros. Foi quando apareceu a oportunidade do Red Bull, nos EUA, e aceitámos. Luquinhas durante o aquecimento antes de um jogo pelo Légia Plumb Images O seu filho nasceu quando e onde? Nasceu em maio de 2021, no Brasil, chama-se Miguel. Assistiu ao parto? Assisti. Eu tinha um prémio para receber no final da época e não fui receber porque queria ir para o Brasil assistir ao parto. O presidente e o treinador são seres humanos e sabem que esse é um dos melhores momentos na vida de um pai e de uma mãe e liberaram-me. O pior é que no Brasil podem entrar duas pessoas. Estava eu e a mãe dela e quando olho para o lado, a mãe dela está estirada no chão. Desmaiou. Tive que entrar sozinho. Voltando à agressão no Légia. Considera que quem o agrediu ia já com essa intenção? Não. Tem muitas histórias. Muitos dizem que ele não viu que era eu, porque eu estava com o capuz, estava tudo escuro. Há adeptos que dizem que eu era um dos melhores da equipa e têm a certeza que ele acertou-me por engano. Foi jogar para os New York Red Bulls, na MLS. Qual foi a sensação quando chegou aos EUA? Já sabia inglês? Eu, particularmente, gostei muito, minha esposa já não gostou muito de Nova Iorque. Ela prefere a Europa. Eu fiquei muito apaixonado pela cidade de Nova Iorque. Acho que ela se sentiu pouco segura na cidade. Porquê? Porque nos Estados Unidos acontece muito aquela cena de uma criança desaparecer e toda a gente recebe uma mensagem no telemóvel. Isso acontecia praticamente diariamente. Enquanto lá estivemos houve um tipo que entrou num mercado a fazer live e matou só gente preta. Isso acaba por assustar. Luquinhas com a mulher, Jéssica, e o filho Miguel D.R. Como foi jogar na MLS? É um campeonato e um futebol completamente diferente do europeu e do brasileiro. Totalmente diferente. Costumo dizer que na Europa você vive mesmo o futebol. Já nos Estados Unidos a vida é mais leve, porque o futebol não é o primeiro desporto do país, é só o 5º. Saímos à rua em qualquer cidade e ninguém te reconhece. Eles levam o futebol mais como diversão. Vamos aos jogos e vemos a senhorinha com a criancinha; podemos levar 5-0 que no final do jogo eles vão chamar-te à mesma para pedir foto e abraçar-te. E o futebol praticado em campo? Na Europa é mais organização, é mais intensidade, mais talento. Na MLS o jogo é mais aberto. Temos resultados de 6-1, 7-2. Não é tão organizado como na Europa. Como foi jogar contra o Lionel Messi? Um sonho realizado, poder jogar contra um ídolo. Foi um mix de emoção. Ainda por cima na semana do jogo, nos outdoors da Time Square quando anunciavam o jogo, aparecia a foto dele junto com a minha. Era um sonho. No momento que ele entrou na 2ª parte eu não conseguia parar de olhar para ele, pelo facto de estar ao lado de um dos melhores do mundo. Aprendeu finalmente a falar inglês? [Risos] Não. O inglês da minha esposa já era melhor. Tenho muitos amigos que me perguntam como é que eu, que já morei na Polónia e nos Estados Unidos, ainda não falo inglês, mas a verdade é que não falo. O que achou dos norte-americanos em geral? Top. Os que conhecemos, tanto no clube como na cidade, eram mesmo top. Trataram-nos muito bem. Gostei muito. Minha mulher é que… Às vezes íamos a Manhattan, à Times Square e ela dizia que preferia o centro de Varsóvia, na Polónia [risos]. No ano de 2022, o extremo brasileiro estreou-se na MLS pelos New York Red Bulls Icon Sportswire Assinou por quanto tempo com os New York Red Bulls? Três anos e mais um de opção. Foi ganhar mais do que ganhava no Légia? Fui ganhar mais do dobro. Acabou por só fazer dois anos na MLS. Porquê? Fiz as duas épocas e entretanto surgiu a proposta de ir para o Fortaleza. Um dos meus maiores sonhos era voltar ao Brasil para poder jogar um Brasileirão, poder jogar no Brasil. E correspondeu às expectativas? Não. Foi totalmente diferente do que imaginava. Só estive seis meses no Fortaleza. Não tinha muitas oportunidades para jogar, por isso pedi para sair emprestado. Tinha assinado dois anos pelo Fortaleza. Não tinha oportunidades de jogar porquê? Conseguiu compreender? Toda a gente me pergunta isso e eu não tenho resposta. É mesmo opção do treinador. Eu treinava bem, dedicava-me nos treinos, mas no final era mesmo a única decisão do treinador. Luquinhas corre atrás de Messi, no jogo entre o Inter Miami CF e o New York Red Bulls, em 2023 Howard Smith/ISI Photos Considerou o futebol muito diferente do que tinha jogado na Europa e nos EUA? Na Europa há muito mais intensidade. No Brasil é um jogo mais lento, é um jogo mais pensado. Não é parecido com a MLS, mas é um jogo mais aberto também. Na Europa é mais um tabuleiro de xadrez. É tudo mais organizado, mais intenso, um erro pode ser fatal. O que mais estranhou no regresso ao Brasil? O que mais me levou a querer ir para o Brasil foi poder estar mais perto da minha mãe, do meu pai, dos meus amigos. Foi um dos fatores que mais pesou na minha decisão. Para ser sério, eu estava muito bem nos Estados Unidos. Estava acomodado, todos no clube gostavam de mim. Foi uma decisão mais do coração. Quando cheguei ao Brasil e não foi da maneira que achava que ia ser, que ia jogar sempre, que ia ter muitas oportunidades, que ia poder desfrutar do futebol, isso acabou por me desiludir. É então que optei por sair. Voltei de empréstimo para o Légia. Onde teve pela primeira vez Gonçalo Feio como treinador. Como foi o primeiro embate com ele? Ele já me conhecia porque ele trabalhou no Rakow e eu já tinha jogado contra o Rakow nas duas passagens que tive pelo Légia. Não o conhecia pessoalmente. Mas, assim que cheguei, chamou-me e conversámos. Foi dos melhores treinadores que tive e com quem mais aprendi. Ele é muito inteligente. É o único treinador que conheço que vive mesmo no futebol 24 horas. Algumas vezes eu e o Rúben Vinagre dizíamos-lhe: “O mister vai ficar maluco. O mister não dorme. Acaba um jogo e o mister está sempre a visualizar o jogo; o que fez de errado, o que não fez...“ É muito obsessivo. Mas quem o escuta acaba por evoluir muito. Foi o que aconteceu comigo na época passada. Luquinhas e Messi lado a lado em campo D.R. Época em que ficaram em 5º lugar e ganharam a Taça. Mas foi também uma época muito conturbada com o treinador a ter vários problemas disciplinares. De que forma é que essas situações mexem com o balneário? Só me lembro da situação do gesto que ele fez para os adeptos do Brondby porque saiu em todas as páginas. No campo eu não vi. Só vi no WhatsApp depois. Ele teve sempre o balneário com ele. O plantel esteve sempre com ele e isso via-se até quando os polacos batiam no peito e defendiam que ele tinha de ficar. Isso é uma coisa muito rara, quando um plantel inteiro quer que o treinador fique. Não é à toa. É mesmo todos confiarem no trabalho dele. Ele blindava bem o balneário. É um treinador sempre muito exigente e muito intenso. Isso também não cansa os jogadores? Isso vai de cada pessoa. É coisa que não conseguimos mudar. Já apanhei treinadores mais calmos, mas gosto de treinadores que no momento certo são muito intensos. Tem que ser muito intenso porque se você tem um treinador calmo, vamos entrar no jogo calmos e acabamos por nos dar mal. O Gonçalo é aquele treinador que não quer tirar 100% de você, ele quer tirar 110% porque conhece o seu potencial, sabe onde você pode chegar e quer sempre o seu melhor. Muita gente acaba por se assustar porque ele tem uma forma de se expressar muito intensa, muito agressiva, entre aspas, mas não é agressivo. Quantas e quantas vezes na época passada ele gritou comigo, mas eu sabia que aquilo era para me melhorar. Em vez de levar isso na maldade, ficar com raiva dele, levava como sinal de que tinha de trabalhar mais e ver o que estava errando. Não é à toa que com o Gonçalo fiz a minha melhor época, ao nível de golos e assistência; porque ele dava-me na cabeça, que eu tinha que estar no segundo pau para fazer golo. Também é o estilo de pessoa que, se for preciso, depois pede desculpa? É. Às vezes ele age na emoção do momento, mas quando passam cinco minutos ele pára, pensa e diz “desta vez eu agi mal.“ Ele tem a humildade de chegar e pedir desculpa e dizer que esteve mal. O extremo com a mulher e o filho no estádio do Legia D.R. Acabou por não continuar no Légia e foi jogar para o Santa Clara, nos Açores, no início desta época (2025/26). Porquê? Quando estava no Légia mudaram muitas coisas lá dentro, na direção, scouting, tudo. Eu estava de empréstimo, era jogador do Fortaleza, tinha uma cláusula de um milhão e qualquer coisa. No final da época, a nova direção disse-me que infelizmente não ia poder pagar aquele valor por mim, por conta da idade, porque já estava perto dos 30 anos. Queriam investir esse dinheiro em jogadores jovens e que tinham futura venda. Compreendi, disse tanto aos diretores como ao presidente, que é muito meu amigo, que sou grato eternamente por tudo o que vivi e o clube me deu, já ganhei tudo que tinha para ganhar no Legia... E foi assim que terminou. Voltei para o Fortaleza, surgiram várias propostas e acabei por ir para o Santa Clara, porque havia essa cláusula que o Fortaleza não queria abrir mão. Como foi jogar e viver nos Açores? Foi uma experiência. Volto ao início da nossa conversa, se o idioma quando cheguei a Portugal era difícil, apesar de ser português, quando cheguei aos Açores eu achava que eles falavam francês. Quando aterrei e no aeroporto começaram a falar connosco, eu olho para a minha esposa e digo: “Acho que viemos para a ilha errada.“ Não dava para entender nada. E o clube? Reencontrei o treinador que jogou comigo no Vilafranquense, o Vasco Matos. Mas acabou por não ser como eu esperava. Tive algumas oportunidades, mas não foram tantas assim. E decidi sair novamente para um clube onde pudesse jogar. Conversei com o meu empresário, a idade está a passar, vou fazer 30 anos em setembro, preciso estar num clube onde possa jogar muitos, muitos minutos. Apareceram muitas oportunidades aqui da Polónia. No início desta época 2025/26, Luquinhas jogou pelo Santa Clara, dos Açores Gualter Fatia Porque escolheu o Radomiak Radom, onde reencontrou o Gonçalo Feio como treinador? Exatamente por causa da equipa, do Gonçalo, do Ema [Emanuel Ribeiro], pelo trabalho do Gonçalo. Eu sabia que a exigência dele podia colocar o Radomiak muito, muito, muito lá em cima. Isso não aconteceu, o treinador acabou por ir embora no início da semana passada, porque foi alvo de uma agressão. O que ele vos disse? Assim que ele foi agredido ele disse que ia embora e nós fomos ter com ele. Da mesma forma que no Légia o plantel bateu no peito porque queria que ele ficasse, no Radomiak aconteceu o mesmo. Isso não é coincidência. Isso é fruto do trabalho e de todos reconhecerem que ele é bom. Pedimos para ele pensar um pouco e não nos abandonar agora. Só que cada um tem a sua decisão, não é fácil. Ele foi agredido na frente da esposa. É falta de respeito. Ele explicou em concreto o que o levou sair, se foi apenas devido à agressão? Ele disse que estava muito triste também pelo facto do clube não estar a mostrar respeito por ele. Porque o clube estava a falhar em muitas coisas que tinha prometido. Aquele episódio foi o estopim de tudo. O que ele exigiu que o clube não lhe dava? Não entrou nesse detalhe à frente de todos. O extremo brasileiro está a jogar no Radomiak Radom, da Polónia, desde janeiro de 2026 SOPA Images A equipa ficou muito desiludida? Ficou porque ele já estava a colocar na cabeça de cada um a metodologia de trabalho dele. É como se a equipa fosse uma máquina, ou seja, quando a máquina estava a ligar e a começar a andar é quando o motorista sai. Mesmo assim estamos muito focados e não é à toa que tivemos o jogo contra o Légia, em que toda a gente dizia que íamos levar três, quatro ou 5-0 e acabámos por empatar com eles. Isso mostra que o grupo está muito unido. Quem assumiu o lugar de Gonçalo Feio foi o espanhol Kiko Ramírez, que já fazia parte da equipa técnica. Isso ajudou? Ajudou muito. Quais são os vossos objetivos para esta temporada? Os nossos objetivos é tentar ficar um máximo lá em cima da tabela, mas o objetivo principal é tentar conquistar as competições europeias. Estamos muito unidos e dedicados para isso. Tem contrato até quando? Até final da próxima época. Tem alguma meta para deixar de jogar? A minha meta é jogar até os 35 anos. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras? Ainda não. Costumo dizer à minha esposa que vou querer voltar para o Brasil e passar pelo menos dois anos só a descansar perto da família e dos amigos. Luquinhas durante um jogo do Radomiak Radom D.R. Onde ganhou mais dinheiro até agora? Nos Estados Unidos. Investiu? Sim. Já tenho um conforto na vida. Investi em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Acho que foi ter comprado um apartamento em frente à praia, em Fortaleza. Tem algum hobby? Não. Acompanha ou pratica outra modalidade? Não. Nada. Só futebol. É um homem de fé? Sou cristão. Acredito muito em Deus. No Brasil vou praticamente todos os dias à igreja, mas fora, não, porque não falo inglês. Mas assisto a muitos vídeos de igreja, principalmente aos domingos. Superstições tem ou teve? Nenhuma. Tatuagens? Tenho um braço fechado e uma tatuagem na coxa. A primeira tatuagem fiz eu e a minha esposa, é a data em que nos conhecemos, no punho. Tenho uma no antebraço, que é um menininho olhando para a favela, e nas costas dele está o número 82, que é o número que eu carrego. Porquê o 82? Porque como um dos principais clubes onde joguei foi o Benfica e deram-me esse número, decidi que carregá-lo para o resto da minha carreira. No braço tenho também uma tatuagem de um leão com as cruzes em baixo, representando quando Jesus foi crucificado e ressuscitou. Tenho um relógio também, com a data do nascimento do meu filho. Luquinhas com os pais e o filho D.R. Qual é a maior frustração que tem na carreira? Não tenho nada que diga que é frustração. Onde estou hoje foi algo que sonhei quando tinha 13 anos. O que sonhava com essa idade, o que ambicionava? Jogar num clube profissional. Só isso. Vivi na minha vida mais do que sonhei. O meu único objetivo era apenas jogar num clube profissional, não importava qual. E o maior arrependimento? Fazer escolhas agindo com o coração. Não posso dizer arrependimento porque tudo acontece na vontade de Deus. Mas hoje, acho que optaria por outra escolha. Qual o momento mais feliz na vida e na carreira? O nascimento do meu filho, na vida. Na carreira, o meu primeiro título aqui na Polónia, com o Légia. Um objetivo que ainda está por cumprir? Ser campeão com o Radomiak da Polónia. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Flamengo. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Tem um que conheci no ano passado e que carrego como um irmão: o Ruben Vinagre. Tem ou teve alguma alcunha? Só no Brasil, fora ninguém conhece. “Boizinho”. Porque tenho um irmão mais velho que também jogava à bola e a alcunha dele é “Boi” porque só corria de cabeça baixa e não olhava para lado nenhum. Como sou o irmão mais novo dele, chamaram-me de “Boizinho”. Há alguma regra do futebol que se pudesse alterava, ou bania? Não. Tem algum talento escondido? Eu sei desenhar bem. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Chelsea na temporada passada. Se pudesse escolher com quem gostava de ter jogador na mesma equipa e contra qual jogador gostava de ter jogado? Gostava de ter jogado na mesma equipa com Messi e ter jogado contra o Cristiano Ronaldo. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Acho que estava a trabalhar no mercado. Está feliz? Estou. Estou muito feliz aqui na Polónia. 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Abril 7 Xeka Spoiler “No SC Covilhã fizemos um treino tipo militar na Serra da Estrela e quando cheguei lá acima senti uma dor. Fiz um pneumotórax espontâneo” Miguel Ângelo da Silva Rocha, mais conhecido por Xeka, revela à Tribuna Expresso como foi construíndo o seu percurso no futebol, cheio de altos e baixos. Entre muitas histórias curiosas, o médio conta como foram os tempos de formação no Paços de Ferreira e no Gondomar, fala da primeira experiência fora, no Valencia, aos 17 anos, e do facto de ter sido pai aos 20. Nesta Parte I do Casa às Costas, abordamos ainda os anos no SC Covilhã e no SC Braga, antes de ir para o Lille, onde se sagrou campeão de França É natural da Rebordosa. O que faziam os seus pais profissionalmente quando nasceu? A minha mãe tinha uma ourivesaria e o meu pai era empresário das festas populares, era ele quem organizava, contratava os cantores, etc. Tem irmãos? Tenho uma irmã cinco anos e meio mais velha. Deu muitas dores de cabeça em criança, era malandro? Um bocadinho. Cresci num ambiente com muitas pessoas, tínhamos várias casas juntas, dos meus avós, tios. Estive sempre rodeado de tios, primos. Não era o único, mas fazia bastante essas asneiras. Qual é aquela história que ainda hoje se conta nos almoços de família? Há algumas. Lembro-me de uma... A minha tia estava a construir a casa dela ao pé da nossa e estavam lá uns trolhas a trabalhar. Eu adorava ver aquilo. Eles já andavam chateados de eu andar para trás e para a frente com a minha bicicleta, até que um dos trolhas deu com um pau que tinha um prego na roda da minha bicicleta e furou-me o pneu. Chateado, peguei na bicicleta à mão, fui para casa e como o meu tio tinha uma fábrica de móveis em frente à minha casa, fui lá sem dizer nada a ninguém, peguei num prego e vim cá para fora. O que fez? Fui ao carro do trolha e risquei-lhe o carro toda à volta. Eu devia ter uns 6 ou 7 anos. Risquei o carro todo e ainda escrevi o meu nome atrás. Fui para casa, continuei a brincar, lembro-me de ir à loja das ferragens para ir buscar outra câmara de ar para tentar pôr na bicicleta. Depois do jantar o meu pai chegou de repente em casa e perguntou-me: “O que fizeste hoje?”; “Estive a brincar o dia todo”; “O que fizeste ao carro do trolha, ele disse que lhe riscaram o carro todo e que foste tu, porque está lá o teu nome”; “Sim, fui eu”; “Porquê?”; “Porque eu estava a andar de bicicleta e ele furou-me o pneu.” [risos] Como reagiu o seu pai? Por incrível que pareça o meu pai não ficou chateado, nem me pôs de castigo. O meu pai sempre me disse que se lhe contasse a verdade nunca teria um castigo grande, podia ter consequências mínimas, mas castigado a sério, nunca. Então, nunca consegui mentir aos meus pais e mesmo no meu dia-a-dia é muito difícil. Mais alguma história? Parti vidros na escola porque não queria ir para os passeios. Era preciso usar um lenço vermelho e eu não queria, tinha que ser um lenço azul, porque sendo do norte e sendo do Porto, era do FC Porto e o vermelho não dava para mim [risos]. Acabei por partir um vidro porque recusei ir ao passeio e aí fiquei de castigo porque era a minha mãe que estava lá. Não usei o lenço vermelho, ela levou-me para casa e fiquei de castigo o dia todo. Mas nunca fui pessoa de fazer coisas graves, nunca fui uma pessoa violenta. Xeka em bebé D.R. Gostava da escola? Não gostei da escola desde o primeiro ano. O meu pai, devido ao trabalho, chegava muitas vezes tarde a casa e lembro-me que ele dormia até mais tarde, descansava de manhã. Um dia, eram oito da manhã, acordei e disse: “Hoje não vou à escola.” A minha escola ficava a 200 metros de casa. Não vou, não vou, não vou e a minha mãe disse: “Olha que vou chamar o teu pai”. Eu tinha 5 ou 6 anos. Nunca pensei que ela fosse chamar mesmo o meu pai. Ele veio e só me lembro de estar a dois metros do carro, a porta estava aberta, senti um chuto no rabo que voei para dentro do carro. Ele disse: “Agora sou eu que te vou levar à escola”. Chegou lá contou o que se tinha passado e ainda disse: “Se ele se portar mal, dê-lhe com a régua na mão“. A partir daí chegava a casa três dias por semana com a mão toda vermelha. Ou por estar a falar, ou por estar em pé, ou por não querer estar ali, o que fosse. Mas depois tinha o lado doce da minha mãe. Ela, depois daquela confusão, à tarde, deixou-me vestir o equipamento do FC Porto. De onde veio a paixão pelo futebol? Tinha alguém da família no meio? Os primeiros jogos que vi foram do meu primo. Jogava nos juniores do FC Porto. Eu fui acompanhando. Por vezes ia ver os treinos. Só conhecia o futebol, para mim não havia mais nenhum desporto, nunca houve mais nada para além do futebol. Tenho cartas do primeiro ano, onde escrevi que queria ser jogador de futebol profissional. Quem eram os seus ídolos? O Zidane. Adorava ver. Lembro-me dos primeiros jogos de Champions League que vi na RTP e fiquei apaixonado. Lembro-me de ver o Real Madrid jogar, não sei contra quem, e aquele ambiente, a música, criei uma paixão enorme pela competição e também a magia que tinha a cidade na altura era incrível. Quando e como foi jogar pela primeira vez para um clube? Ia fazer 8 anos, queria entrar nas escolinhas. Só que no Rebordosa só havia os infantis, a partir dos 10 anos. Cheguei lá para treinar, eram uns 50 miúdos para os infantis e eu era dos mais pequenos. Andava lá no meio deles, que eram quase o dobro. De 8 para 10 ou 11 anos, é uma diferença muito grande. Mas, pronto, andava lá no meio, sempre fui muito competitivo em tudo que fiz até hoje. Acabou o treino, fui ver o jogo do Rebordosa no fim de semana e apanhei lá o treinador dos infantis. E ele diz: “Amanhã estás lá outra vez para treinar“; “Sim, sim“. No dia seguinte, o meu tio pegou em mim, de repente, e disse: “Vamos antes ali treinar ao Paços de Ferreira“. Cheguei lá e já eram miúdos da minha idade. Passei a jogar futebol 7, no sintético, no Paços. Era diferente. Gostei bastante e foi aí que começou a minha ligação ao Paços Ferreira. Fiquei lá. Esteve lá até aos 12 anos. Quais são as principais memórias desses quatro anos? Tive logo um papel muito importante, entre aspas, éramos miúdos, como líder. Era capitão todos os anos. Lembro-me que nos primeiros três anos jogava sempre, mas no meu segundo ano de infantil parece que não acompanhei o crescimento dos outros e estava mais pequenino. Comecei a defesa central. Acabei por fazer alguns jogos a lateral, mas também fiz um jogo ou outro a médio e foi a médio que gostei mais de jogar. Em infantil de segundo ano eu não estava feliz, não estava a jogar sempre e não sabia o que era não jogar, não conhecia essa frustração de ir para o banco. Estava sempre à espera de ouvir o meu nome e quando não ouvia ficava desiludido. Isso começou a afetar-me. Comecei a ficar chateado e frustrado. Fez alguma coisa, falou com alguém? Treinava cada vez mais, mas com 8 anos se chutasse com o pé esquerdo eu caía para trás de costas, porque não tinha força com o pé esquerdo. Só jogava com o pé direito e tinha muita força com esse pé. Nas escolinhas marcava golos antes do meio campo. Quando comecei a jogar menos procurei maneiras de melhorar. Então fazia só treinos em que não podia tocar na bola com o pé direito, só podia tocar com o esquerdo. Jogava sozinho em casa e fazia isso. A verdade é que melhorei muito o pé esquerdo. Xeka começou a jogar futebol no Paços de Ferreira D.R. Mas por que razão saiu do Paços para o Gondomar aos 13 anos? Eu participava sempre nos torneios de verão em Gandra, ao lado de Rebordosa e nesse torneio estava lá o treinador dos iniciados do Gondomar, que conheci. Eu não queria jogar mais a defesa central e era onde eu ia continuar a jogar no Paços de Ferreira. Ele disse-me para ir jogar para o Gondomar, que me punha a médio, e eu disse que queria ir. O meu pai: “És maluco, é muito longe“. Eu tanto insisti que fui mesmo. Como ia para os treinos? O meu pai levava-me até Valongo, onde vivia o treinador, e depois o treinador levava-me. Chegou uma altura em que já éramos três, quatro jogadores da mesma zona e uma vez por semana o pai de um de nós leváva-nos. E como foram esses quatro anos no Gondomar? Foi onde senti um crescimento maior, por jogar com jogadores mais velhos, jogava com os de um ano acima; cheguei a jogar no Campeonato Nacional nos juniores quando ainda era juvenil. Lembro-me desse final da época em que ainda fiz um treino ou outro com a equipa principal. Foi antes de ir para o Valencia. Jogava aos sábados pelos juniores e ao domingo pelos juvenis. Por volta dessa idade com o que sonhava? Como se projetava? Só ser jogador. Não tinha uma equipa ou um lugar a que quisesse chegar. Nunca quis colocar um limite ou uma ambição demasiado longe para não me desiludir. Sabia que queria ser jogador e trabalhava todos os dias para tentar ser jogador. O meu pai sempre foi muito realista. Ele dizia-me: “Aqui é muito fácil e com esta idade é normal que jogues sempre“. Sempre me deu um exemplo, que trago até hoje. Que exemplo? O exemplo do cone. Um cone é largo na base e vai estreitando até acima. Ele disse: “Vê isto como se fosse uma transformação. Quando chega cá acima, poucos conseguem sair neste estreito aqui. Portanto, primeiro tens de sair deste estreito para depois pensares numa coisa mais à frente“. Mas a verdade é que o futebol era a única coisa que eu sabia fazer e a escola nunca foi prioridade para mim. Fazia os mínimos. Não completei o 12º ano. Quando sentiu pela primeira vez que o sonho era realizável e estava garantido? Nunca, até ter acontecido. Se calhar foi só mesmo na segunda vez em que regressei ao SC Braga. Xeka (2ª criança atrás à esquerda) com a sua equipa do Paços de Ferreira Já lá vamos. Como vai parar a Valência? Já tinha um empresário, que ficou comigo até há uns anos. Era o Nelson Almeida. Ele conhecia o meu pai e o meu pai disse-lhe que se ele quisesse podia ir ver-me jogar. Um analista dele, o António Luís, viu-me jogar e ele quis ficar comigo. Foi ele que o levou para Valência? Eu só ia treinar a Valência. O meu pai deixou-me ir porque pensava que era só uma experiência. A realidade é que eles gostaram muito de mim. Comecei a treinar com os rapazes da minha idade, só que nessa fase eles já eram mais pequenos que eu e eu já estava mais confortável, tinha mais andamento do que eles. No dia seguinte levaram-me para a equipa acima, para os sub-19 e adaptei-me bem. Continuei a treinar com eles. Passaram 10 dias e eles propuseram um contrato de 2 anos. Depois tive complicações sobretudo com o certificado internacional, só pude começar a jogar a partir de janeiro. Entretanto tive um episódio um bocado infeliz com uma pessoa. Que episódio foi esse? Eu tinha 17 anos e o treinador foi um bocadinho... vou só dizer injusto, para não dizer mais. No final da época fui falar com a direção, perguntei se o treinador ia continuar, disseram que sim e pedi para vir embora. Disse que não ficava. Mas porquê, o que aconteceu? Não vale a pena explicar. Prefiro não entrar por aí. Vou só dizer que teve um comportamento que não foi correto. Nunca tentou sequer conhecer-me. Ele chegou mais tarde porque o nosso treinador foi transferido para outra equipa. Teve um comportamento xenófobo? Basicamente. O trabalho que cada um faz deve refletir onde chega. Obviamente que depois a sorte está sempre envolvida, ou o azar, neste caso. Eu já tive muito dos dois. Tinha 17 anos, foi a primeira experiência fora. Ficou a viver onde e com quem? A minha irmã foi para lá viver comigo, porque eu disse que não queria viver no centro de estágio. Porquê? Cresci numa liberdade incrível, saía de casa e voltava basicamente para jantar, com os joelhos e os cotovelos a sangrar, todo sujo cheio de terra, a minha mãe dava-me dois berros e eu começava a correr para ir tomar banho antes de jantar [risos]. Ia jogar à bola, havia uma floresta enorme em frente da minha casa, e eu ia para lá, fazia rampas, andava a descer em pranchas monte abaixo, sempre tive essa liberdade, sempre fui uma pessoa muito livre, muito, muito feliz. Não dava para ficar metido num centro de estágio. A minha irmã tinha acabado o curso de Direito, tinha feito muitos exames, estava cansada e queria parar um bocado. Eu disse que só ficava em Valência se ela fosse viver comigo [risos]. Xeka ficou no Paços de Ferreira até final da época 2006/07 D.R. Quanto lhe pagavam no Valencia? Era salário de formação ainda. Ganhava €1500. Dava para pagar a casa e as contas. Gostou de viver em Valência? Sim, uma cidade fantástica, adorei. Só que a experiência acaba um bocadinho manchada por coisas à volta, mas tudo é uma aprendizagem. Como foi recebido no balneário? Jogadores super tranquilos, entendi-me super bem com todos, sempre. Foi nessa altura que deixou os estudos? Eu fui inscrito na escola lá, estava a tirar um curso tecnológico de Desporto em Portugal e quando fui para lá meteram-me num curso de Física. Era só números com letras em cima, e mais letras, em espanhol, eu olhava para aquilo… Nos testes, chamava a professora e perguntava: “Sou obrigado a fazer?” [risos]. Entregava-lhe o teste em branco e ficava no telemóvel, enquanto os outros terminavam. Fui duas ou três semanas e depois fiquei em casa. Esteve no Valencia uma época. Muito diferente o futebol, comparativamente com o que estava habituado em Portugal? Muito diferente. Lá era bola, bola, bola. Era mesmo o tiki-taka. Só tocar, fluidez no jogo, velocidade de movimentos. Adorava. É fantástico. Para quem está na formação, é mesmo incrível. Porque lá, o errar, que acontecia obviamente, é normal. Se um profissional erra passes e controles de bola e recepções, orientações, imagine uma criança na formação. Mas o nível de exigência já era bastante elevado. Então fazia com que jogássemos muito bem à bola. Quando começaram as primeiras saídas à noite e namoros mais sérios? Por essa altura dos 17, 18 anos. Não me lembro da primeira saída à noite, mas foi em Portugal. Fui experimentar também como os outros faziam. Nunca me privei de nada. O futebol é extremamente importante para mim, mas nunca me privei de nada. Obviamente há limites para tudo, mas se tinha uma folga e era desafiado a ir, ia, aproveitava, sem problema nenhum. Acredito muito que fazendo o meu trabalho durante a semana, treinando sempre bem, dando tudo no jogo, temos de nos compensar de certa forma, porque fazer isto todas as semanas não é fácil. Continuo com essa exigência aos 31 anos. Cada treino para mim é extremamente importante e tento sempre dar o exemplo, meter uma intensidade muito alta, como se fosse um jogo. Tem alguma história para contar desse ano em Valência? Tive o meu primeiro cão enquanto lá estava. Só meu mesmo. Foi-me oferecido. Era um Yorkshire anão, chamado Spartacus - era uma série que eu adorava. Partiu uma pata não sei como. Foi pacífica a rescisão com o Valencia? Sim. Na altura, o meu empresário falou-me do Vitória, SC Braga e Paços de Ferreira. E decidimos pelo Paços de Ferreira por conhecer, para voltar a casa e voltar à minha rotina. E por ter a possibilidade também de treinar com os seniores. Mas ainda fui como júnior para o Paços de Ferreira, o meu treinador era o meu diretor de turma na escola. Só que eu não aparecia na escola. A minha mãe deixava-me na escola e eu ia para o café tomar um bom pequeno almoço. Ficava a manhã toda a ver filmes no café. Até ao ponto de ele me ter levado os papéis de desistência da matrícula para o treino, porque eu já não aparecia à escola [risos]. Xeka fotografado no Estádio António Coimbra da Mota no dia em que foi entrevistado por Tribuna Expresso Nuno Botelho Chegou a treinar com a equipa principal do Paços, era Paulo Fonseca o treinador. Gostou dele? Top. Sim, foi o ano em que eles qualificam para a Champions. Foi uma experiência incrível. Sei que fiz alguns treinos com eles e lembro-me de sentir a diferença no nível de intensidade. Levou muitos calduços do mais velhos? Levei logo do [Filipe] Anunciação, foi o primeiro. Meu Deus, foi um logo um abre-olhos [risos]. Porquê? Entrou de nariz no ar? De todo. Sempre tive muito respeito pelos mais velhos. Aliás, a experiência que tenho é totalmente diferente do que vejo hoje. Na altura uma pessoa chegava, ficava em pé até ver onde é que se ia sentar, falava quando falavam para nós, senão estávamos no cantinho, não dizíamos nada. Totalmente diferente de hoje. Lembro-me que na altura ele também me testou no treino; deu-me uma chegada meio forte, eu caí no chão e ele: “Estás bem, não estás? Não te toquei”; “Não, não, estou bem, estou bem”, cheio de dores [risos]. Era um dos principais testes também para ver como reagiamos. O Paulo Fonseca teve alguma conversa consigo? Especial, que me lembre, não. Mas sei que é um treinador fantástico, era muito intenso, espaços muito curtos, bola muito rápida, pouco espaço. Não continuou no Paços porquê? Era para ter continuado e fazer parte do plantel principal no ano seguinte, mas achei que ia ser difícil ter tempo de jogo e eu precisava de jogar. Foi na altura das equipas B e como houve a possibilidade de ir para o SC Braga... Em família, decidimos que podia ir para o SC Braga B e ter à mesma a possibilidade de um dia mais tarde subir à equipa principal. Era melhor do que ficar no Paços e jogar pouco. Se não jogasse no Paços, onde ia jogar a seguir? Foi viver para Braga ou ficou na casa dos pais? No início fiquei em casa. Já tinha carro? Sim. Conduzo desde os 16 anos. O carro onde aprendi a conduzir foi um Fiat Cinquecento, azul esverdeado. Muito feio, muito feio [risos]. Lembro-me que a minha irmã às vezes ia buscar-me à escola com o carro para me envergonhar. Ela metia o carro em cima do passeio, em frente ao portão. Quando eu estava a subir a rampa para chegar ao portão e via aquele carro, queria voltar para trás [risos]. Depois desse comprei o meu primeiro carro, um Opel Astra. Mas em Braga, como depois me deram apartamento para partilhar com três colegas, acabei por ir para lá. Só que, no segundo treino em Braga, sofri uma entrada muito forte no tornozelo e fiz uma futura parcial dos ligamentos. Estive seis ou sete semanas parado. Depois disso parece que nunca mais consegui ter bom rendimento porque tive várias lesões. Até nem fui ao Torneio de Toulon devido a isso. Quando começou a ser chamado para representar Portugal? Foi precisamente nos sub-20, foi o único ano em que fui chamado. MIGUEL RIOPA Tinha assinado por quantos anos com o SC Braga? Três ou quatro anos. Nessa época em Braga, tive muitos altos e baixos, sempre que estava bem e disponível tinha um bom impacto, mas depois havia sempre alguma coisa que acontecia e que estava fora do meu controlo, o que me chateava e frustrava, porque não conseguia ter consistência. O SC Braga disse que para ganhar consistência queria emprestar-me ao Tirsense, que era Liga 3. Eu disse que não, sou jovem profissional, não quero baixar. E o meu empresário igual. Surgiu a possibilidade de ir para o SC Covilhã e o SC Braga deixou-me ir. Rescindi e fiz contrato com o SC Covilhã por 2 anos. Foi sozinho para a Covilhã? Fui com a minha namorada da altura. Foi a primeira vez que lidou com um balneário de homens feitos, como foi esse choque? Não tive um choque muito grande para ser sincero. Sempre fui exposto a todo tipo de ambientes e de pessoas. Sei que o ambiente do futebol é diferente mas sempre fui uma pessoa que me adaptei muito bem, sempre fui brincalhão e adapto-me facilmente ao que está à minha volta. Gostei de lá estar. Mas não fez muitos jogos nessa primeira época. Não. Tínhamos o Francisco Chaló como treinador e havia um dia de montanha, que era 24 horas com a GNR a subir a Serra da Estrela e a fazer atividades lá, corridas de não sei quantos quilómetros, com mochilas de 25 kg às costas, e mais não sei quê. Uma vez a subir a montanha, ao chegar lá acima, deu-me uma dor nas costas, que achei estranho. Uns dias depois e para tirarmos da cabeça se seria alguma coisa grave fui ao hospital: tinha um pneumotórax espontâneo. Em urgência tiveram de meter-me um tubo enorme pelo peito adentro, o que foi um alívio para mim. Fiquei todo contente porque parecia que eu estava maluco, que estava a queixar-me de coisas que ninguém sabia. No momento em que me disseram que eu tinha uma coisa que precisava ser operada de urgência, comecei a rir, porque pelo menos não estava maluco. O que aconteceu depois? Estive 10 dias com o tubo metido no peito, ainda tenho a cicatriz. Passado um mês, voltei a treinar, normal. Só que era uma pessoa de risco. Voltei a treinar, comecei a jogar, faço um jogo ou dois e rompo o tornozelo, aquele que me tinham lixado no segundo treino, em Braga. Faço a rotura de ligamentos completa no tornozelo, tenho que ser operado. Foi uma pancada outra vez. E é um bocadinho frustrante porque tive bastantes lesões e foram sempre coisas que nunca consegui controlar. Não posso dizer que devia ter feito mais este trabalho ou devia ter descansado mais aqui. Não, isso pode acontecer em lesões musculares, coisas pequenas que possam ter acontecido na minha carreira, mas as grandes lesões foram causadas por traumas. O que é complicado. Sou operado e quando volto já acabou a época. E na altura já era pai. Foi pai quando? Fui pai do Enzo em 2015. Assisti ao parto. Saí do treino e fui para lá, porque foi parto induzido. Sempre quis ser pai cedo. Tinha 20 anos ainda. Ajudou-me a crescer também. Na época seguinte já fez 35 jogos. Sim, fiz os jogos todos. No 35º jogo fomos jogar a Freamunde e na viagem para baixo, vinha a dormir todo torto, cheguei a casa e deu-me outra vez a dor nas costas. Pensei que foi por ter vindo todo torto. Às quatro da manhã vou para o hospital, digo: “Sou paciente aqui, tive um pneumotórax”. Nos primeiros dois anos, o risco de recidiva é muito, muito grande. Primeiro disseram-me que não tinha nada, que era só uma contratura, que não viam nada, não viam nada. Voltei para casa, passei o domingo a descansar, a fazer Voltaren e a meter quente nas costas. Mas sentia que não era normal porque quase não conseguia respirar. Na segunda-feira vou ao hospital com o meu filho às primeiras consultas de um recém-nascido e estava numa consulta de audição com ela quando entra a minha pneumologista pela porta adentro: “Tem um pneumotórax gigante outra vez, já lá para cima”. Como é que a médica soube? No sábado tinha-lhe mandado mensagem, mas ela não ia estar no hospital durante o fim de semana. Quando chegou foi ver o exame que fiz, o mesmo que levou a que me mandassem embora. Afinal, mandaram-me embora com o pneumotórax, o meu pulmão não conseguia abrir. Foi um bocado perturbante porque podia ter corrido mesmo muito mal. Podia ter morrido. Mas, quando soube foi mais o alívio de saber que estava certo outra vez. Eu fico mais aliviado de saber quando estou certo [risos]. Voltou a ser entubado? Desta vez meteram-me logo o tubo dos bebés porque tive de ir para Coimbra para ser operado. Um mês depois estava bom. Não treinei mais, ou se fiz algum treino, foram poucos. Não joguei mais. Xeka (3º atrás a partir da esquerda) no 11 do SC Braga que defontou o Sporting em dezembro de 2016 Gualter Fatia E a seguir regressou ao SC Braga B. Porquê? Acabo o meu contrato no Covilhã e o empresário falou-me do Portimonense, que tinha projeto de subida, com o Vítor Oliveira. Estávamos a falar e lembro-me que estava a escolher o fato de batizado do meu filho, quando recebo uma chamada de Abel Ferreira: “Quero-te em Braga, quero-te em Braga. Tens de vir para cá”. Ao falar com ele dá para sentir uma energia diferente e, sinceramente, fui pelo meu instinto, escolhi voltar a Braga, acreditava mesmo muito em mim. Que tal esse regresso? A pré-época foi super, super bem. Porque cheguei a Braga e não era o mesmo jogador de há três anos. Tenho muito mais experiência vivida nos clubes da II Liga, onde tive que cerrar os dentes muitas vezes. Cheguei ali a sentir que tinha mais bagagem e sabia o quanto era preciso trabalhar para estar num nível muito elevado. Era isso que eu queria, só queria trabalhar. Como foi o impacto com o Abel em campo? Melhor do que esperava. Não tenho uma coisa de mal a dizer. Uma pessoa tão apaixonada, tão envolvente naquilo que fazia e com ideias tão claras, que punha a equipa a executá-las. Pessoalmente tornei-me 10 vezes melhor jogador graças a ele, naqueles três ou quatro meses que estivemos juntos. Fizemos uns jogos contra a equipa principal, fui lá treinar meia dúzia de vezes e o José Peseiro quis levar-me para o jogo da Taça de Portugal. Estive bem e lembro-me que ele disse-me: “Nunca mais voltas à equipa B. Vais ficar connosco agora”. E joguei sempre com o Peseiro. Mas ele foi embora entretanto. Sim, ele é despedido. Perdemos 2-1 com o Covilhã. Mas só tenho coisas boas para dizer dele. É um ótimo treinador e uma pessoa fantástica. Preocupou-se com coisas que outros treinadores, outras pessoas, não pensariam. Tipo, ele sabia que eu vinha da equipa B, sabia a questão salarial, perguntava se estava bem, se não estava, se estava bem em casa, família, mulher, sabia que tinha um filho. Ele é preocupado com essas coisas também. Marcou-me pela diferença. Em termos futebolísticos, nem vale apena falar, toda a gente sabe. O médio saiu do SC Braga em 2017 NurPhoto Quando ele foi embora, veio Jorge Simão. Muito diferente? Não foi uma boa experiência para mim. De todo uma boa experiência. Eu estava a jogar sempre, trabalhava o máximo que conseguia. Depois de passar por aquela fase tão má, de tanta lesão junta, e de estar numa cama do hospital com os meus pais a chorarem a pedirem-me para não jogar mais à bola; depois disso, sempre tentei aproveitar todas as pequenas oportunidades que tivesse diariamente. Todo o treino é uma oportunidade para mim, para melhorar, para sentir que ainda sou capaz, mesmo nesta fase, que ainda tenho muito, muito, muito dentro de mim. Voltando ao Jorge Simão... ...continuei a jogar porque como não estava mal e era difícil tirar-me logo da equipa. Muitas vezes o que fazia era tirar-me ao intervalo. Eu ficava maluco. Mas isso não me desestabilizou, porque continuei a trabalhar igual. Ele teve uma conversa comigo em dezembro. Disse que ia buscar os médios que tinha no Chaves, o Assis e o Bataglia e que eu ia passar de primeiro médio para quarto. Eu disse: “OK. Tu é que sabes. Eu faço o meu trabalho todos os dias. Eu trabalho para jogar. Se jogo, ou não, isso é com o mister”. Mas, claro, cheguei a casa e liguei ao meu empresário. Não podia passar de primeiro para quarto médio só porque lhe dava na telha. Recordo-me que dia 30 de janeiro fui a casa dos meus pais jantar, estava stressado, e o meu pai diz-me: “Calma que ainda falta o dia de amanhã”. Explodi: “Estás a gozar comigo? Falta um dia e pensas que isto é um milagre da Nossa Senhora?” E fui embora. No dia seguinte, oito e um quarto da manhã, estava a ir para o treino, liga-me o meu empresário: “Estou a ir para Braga para reunir com o Salvador porque possivelmente vais sair. Prepara-te, faz as malas”; “Vou sair para onde?”. É quando ele me diz que tinha o Lille e o Hull City, do Marco Silva. Qual dos dois preferia? Eu só ouvi que ia sair, nem estava a pensar no clube. É tanta coisa para processar ao mesmo tempo às oito e um quarto da manhã [risos] Ainda nem tinha tomado o pequeno almoço, ainda estava a conduzir com um olho fechado e outro aberto. Mas quando a pessoa reflete e olha para trás, vejo a diferença que foi, o salto que foi, desde maio em que estava numa cama do hospital todo rebentado e seis ou sete meses depois estava a caminho de outra liga, para um clube do tamanho daqueles. Já lhe tinha passado pela cabeça sair do país? Era algo que ambicionava? Sim. Eu queria ir para Inglaterra. E para Espanha também. Mas na altura nem liguei. Foi tudo de repente. Continuei a ir para o treino, cheguei lá e a comida não entrava na boca, o pequeno almoço nem entrava. O Jorge Simão possivelmente soube que eu ia sair então convocou uma reunião com a equipa toda. Esteve a falar à toa, só a perder tempo, com pausas super longas, até que de repente entra o diretor: “Não dá para esperar mais. O Xeka que venha cá para fora”.. Nem me despedi de ninguém, porque cheguei cá fora e disseram-me para arrumar as coisas que ia viajar. Fui ao balneário, agarrei nas minhas coisas, fui para casa, peguei na mala, meti-me dentro do carro e fui para o aeroporto. Nessa altura já sabia que era para o Lille? Sim. Não conhecia pessoalmente o Luís Campos, mas já sabia que estava no Lille, assim como outros portugueses, o que me deu algum descanso tendo em conta o apoio que poderia ter. Por isso, tendo as duas opções possivelmente teria ido para o Lille à mesma. O meu inglês era zero. Aprendi inglês sozinho, em casa, a ver filmes. Em Lille, como tínhamos muitos portugueses, eu falava português. Só ouvia o francês. Só que o francês que eu ouvia era o dos bairros, e passado três ou quatro meses quando comecei a falar francês, era como o deles, do bairro [risos]. Spoiler “Estive oito meses sem clube. Isolei-me completamente. Foi duro. Antes de vir para o Estoril pensei que o futebol tinha acabado” Xeka, de 31 anos, reencontrou a alegria de jogar futebol no Estoril Praia e conta nesta Parte II do Casa às Costas como foram os anos no Lille, clube pelo qual foi campeão de França. Fala também da frustração de nunca ter representado a seleção A e do período difícil que passou e em que pensou que o futebol tinha acabado. Entre várias histórias, recorda um Lamborghini roxo e explica porque acabou por vendê-lo Chegou ao Lille em 2017. As primeiras impressões corresponderam ao que imaginava? Eu não conhecia muito de França. Sabia qual era o clube, mas não sabia a história do clube por inteiro. Sabia que o Hazard tinha jogado lá. Mas não tinha um grande conhecimento. Fui muito bem recebido no balneário. Muito bem recebido pelo Rony Lopes e o Éder. E o futebol? Cheguei e joguei passado dois dias. Não tive muito tempo para pensar. A adaptação foi logo assim. O campeonato era muito físico. A minha maneira de jogar teve de mudar para adaptar-me ao futebol francês. Hoje, depois da equipa Guardiola e dos tiki-taka, do sair a jogar, o futebol mudou um bocadinho, as pessoas esquecem-se que na altura o futebol francês era muito físico, se calhar quase como a Premier League ao nível de intensidade. No meu primeiro jogo apanhei logo com tipos de 1,90 e qualquer coisa à minha frente, metiam a bola na frente e vamos correr. Como foi a adaptação à cidade e aos franceses? Da cidade gostei, dos costumes não gostei muito, vou ser sincero. Dava-me muito bem com as pessoas que conhecia, mas integrar-me no dia-a-dia deles era difícil. Primeiro tenho de dizer que sou muito caseiro. Neste momento, para sair de casa, a minha mulher tem de me puxar por uma corda. Gosto de estar em casa durante o dia, gosto de estar na minha, vou brincando com o meu filho, agora com o mais pequenito. Os franceses acabam o trabalho às duas ou às três e depois vai tudo para os cafés, para os bares. Está tudo fechado ao domingo. Eu sou um tasqueiro, sou de Rebordosa, eu ia ao café às nove, dez da noite, para estar com os amigos, jogar matraquilhos, jogar setas, sou desses. E lá não há nada disso, portanto não me identifiquei. O que nos pode dizer da primeira época no Lille? Recordo-me que não estávamos muito bem no campeonato, foi um bocadinho corda no pescoço, mas conseguimos ficar em 11º lugar. A nível pessoal correu bem. Fui emprestado com opção de compra e eles exerceram a opção de compra no final da época. Assinei por quatro anos. Marc Ingla, diretor-geral do Lille, com o português Luís Campos, diretor desportivo do clube, na apresentação do médio Xeka, em fevereiro de 2017 DENIS CHARLET/GETTY Na segunda época veio o Bielsa. Como correu? Muito mal. Lunático, mesmo lunático. Ele quis fazer uma equipa muito jovem, eu era jovem, mas ele percebeu logo que sou uma pessoa com muita personalidade. Se eu não concordar com alguma coisa dou-lhe a minha opinião. Se explico uma coisa, gosto que as pessoas expliquem as decisões também. Posso ser considerado chato, às vezes. E ele tinha as coisas sempre muito organizadas, tudo dentro daquele quadrado, senão era o fim do mundo. Tivemos uma pré-época estranha, com treinos que nunca tinha feito. Não fazíamos um jogo, não fazíamos uma posse de bola, nada, era tudo exercícios esquisitos. Esquisitos como? Cada adjunto tinha um iPad. Cada um dos jogadores tinha um número. O campo estava cheio de bonecos, cones e estacas, nós íamos ao iPad víamos o que o nosso boneco ia fazer. Depois íamos para a posição, ele apitava e nós corríamos de uma estaca para a outra. Foi muito isso a pré-época dele. É por isso que saiu para o Dijon logo a seguir, em 2017/18? Não. Ele foi muito sincero comigo. Tive um episódio engraçado com ele. Ele disse que queria falar comigo, antes ou depois de um treino. Eu estava equipado mas estava com os chinelos, no balneário. O treinador de guarda-redes veio buscar-me para levar-me ao gabinete dele. Quando estou a chegar, o treinador de guarda-redes olha para mim e diz: “Não podes ir falar com ele assim”; “Como assim? Não estou a perceber”; “Ele não fala com ninguém que esteja de chinelos”. Comecei a rir-me. E ele: “Estou a falar a sério, tens de ir meter as sapatilhas, senão não podes falar com ele”. Eu tive de voltar ao balneário, tive de meter as sapatilhas para ir falar com ele. Tivemos uma ou duas confrontações em treino, devido às personalidades. Ele disse que não contava comigo, o Luís Campos já sabia disso e acabámos por achar melhor ser emprestado no final da temporada, fiquei mesmo até à última a ver se se ainda dava. Que tal o Dijon? Super bem recebido, cidade fantástica, adorei, bom tempo. Mas quis voltar em janeiro, e houve confusão porque o presidente não me queria deixar voltar. O Lille também queria que eu voltasse e o presidente do Dijon não deixava. Nós estávamos a três pontos da Europa, aliás, foi a melhor classificação na história do Dijon. Andámos ali numa luta, eu queria voltar, o Bielsa tinha deixado o Lille em posição de descida, é quando entra o [Christophe] Galtier. Eu disse que queria voltar, porque se eles descessem não queria jogar na II Liga. Tinha de voltar porque era no Lille que tinha contrato, estava só emprestado ao Dijon. Mas eles insistiram que o contrato de empréstimo era até junho e que tinha de ficar. O Lille safou-se, no ano seguinte voltou ao Lille, já com Galtier, com os irmãos Fonte e o Rafael Leão na equipa. Foi uma boa época? Gostou do Galtier? Época fantástica a todos os níveis. Só me lesionei quase no final da época. O Galtier era top. Grande treinador. Dos melhores treinadores que se pode ter, a nível de gestão do grupo ele consegue ter os 24 jogadores a treinar a 200%. Não sei como é que consegue. A maneira de ele ser, a maneira de falar, ele consegue gerir muito bem o grupo. Como foi jogar com Rafael Leão na equipa? O Rafael Leão é um jogador incrível. Quando ele domina a bola e está a rir, é dele, não é propositado. É o estilo do jogo dele, às vezes parece que está a correr devagarinho e vai a 35 ou 36 km por hora e passa pelos defensores todos. As pessoas esquecem que ele é muito alto e ter a agilidade que ele tem, a velocidade que ele tem, a capacidade de drible que ele tem, não é fácil. Xeka (de camisola vermelha) em ação pelo Lille, frente ao Olympique de Marseille, em 2017 Jean Catuffe O que reteve dessa época 2018/19, além do 2º lugar? Lembro-me que foi muito trabalhosa para toda a gente. Foi um ano de muita seriedade, que foi a base depois para o título. No final da época fui operado à anca. Uma coisa simples, disseram-me que tinha uma lesão de tenista, eu que nunca joguei ténis na vida. Na altura tive uma lesão muscular por causa da falta de mobilidade na anca, travava-me um bocadinho. Tive e fazer um alisamento, algo assim. Voltei em setembro. Quando se estreou nas competições europeias? Em setembro de 2019. Foi contra o Ajax. Foi o meu primeiro jogo depois da lesão. Não tinha jogado para o campeonato sequer. Lesionei-me dia 17 de abril de 2019 e voltei dia 17 de setembro de 2019. Cinco meses certinhos. Estávamos a perder 3-0 quando entrei e estava muito nervoso. É muito diferente jogar competições europeias? É. O ar é diferente, é mais espesso. É mais difícil respirar. Depois de ouvir o hino... Já vem de mim, desde miúdo, sempre que ouvia o hino, ficava maluco, apaixonado mesmo. E sempre foi o meu sonho, jogar na Liga dos Campeões. Foi um sonho tornado realidade. Depois de tudo o que tinha passado, durante esse dia lembrei-me de todos aqueles momentos de frustração, das camas do hospital, das lesões, o não jogar, ou jogar pouco, essas coisinhas todas. De repente, estás ali e começas a ouvir o hino, a camisola já tem o símbolo, foi especial, sem dúvida. A realidade é que o ar era mesmo diferente. Jogávamos ao fim de semana e na quarta-feira estávamos a jogar no mesmo estádio, com as mesmas pessoas no estádio, e o ar era diferente, as luzes eram diferentes. Para mim sempre foi. Entretanto na pré-época viveu um episódio algo agressivo com o Tiago Djaló no final de um jogo amigável. Como foi esse desentendimento? São coisas que acontecem. Levo sempre isso muito na desportiva. Na altura fiquei chateado pela maneira como veio ter comigo. Ele foi ter consigo para lhe pedir explicações porquê? Possivelmente alguma coisa durante o jogo, porque eu falo e chamo a atenção a quem quer que seja. Julgo que um francês também o chamou à atenção, mas ele levava a peito se fosse um português a chamar a atenção porque se calhar achava que tínhamos de nos defender entre nós. Mas no jogo, quero ganhar, ponto final. Lembro-me de o ter chamado a atenção e ele ter respondido qualquer coisa em campo. Para mim nem tinha sido desentendimento porque falo igual para toda a gente, não é por ser português, ou não. No intervalo, a sair do campo sinto a mão dele a apanhar-me e a querer meter a mão. Segurei-o e disse-lhe: “Estás parvo ou quê? Estás maluco?”. E o árbitro veio e mostrou-me cartão. Ele ficou chateado algum tempo, mas depois passou. Xeka, do Lille, tenta travar Otavio, do FC Porto, durante um jogo da Algarve Cup, em 2018 Carlos Rodrigues Como viveu o período inicial do confinamento, devido à covid-19, em 2020? Melhor momento da minha vida [risos]. O céu parece que ficou mais azul. Estava bom tempo, a minha casa tinha jardim. O clube deu passadeiras, bicicletas, material de ginásio a todos os jogadores, cada adjunto tinha cinco, seis jogadores que monitorizavam todos os dias. Treinei todos os dias. Sou caseiro, estava a adorar. Na altura já estava com a minha atual mulher. Como se conheceram e como se chama a sua mulher? Eu estava em Lille, ela vivia em Bruxelas. Ela chama-se Aurela e é albanesa. Lille é o centro da Europa, está perto de tudo. De TGV então é uma hora de Londres, 30 minutos de Bruxelas, 50 minutos de Paris. Eu vi-a no Instagram, através do perfil da mulher do Éder, eram amigas. Falei com o Éder para ver se a conhecia, mas fora do âmbito do futebol. Ela era influencer, tinha uma comunidade muito grande de seguidores, queria conhecê-la fora desse mundo também. Queria conhecer o que importava fora disso tudo. Acabei por entrar em contacto com ela. Fui ter com ela a Bruxelas. Conhecemo-nos aí. Depois ela veio passar uns dias a Lille, em janeiro. Depois ficou uma semana, depois aos fins de semana e, em fevereiro ou março quando nos fecham todos, ela estava lá e ficámos juntos no covid-19. Quando terminou o confinamento parecia que já namorávamos há 3 anos [risos]. Jogou ao lado de Renato Sanches. Deram-se bem? Grande gajo. Adoro o Renato. Como explica os altos e baixos do Renato? Tem sido vítima só de azar? Não sei. Eu via-o a fazer sempre tudo certo. A boa recuperação, o bom treino, o bom ginásio, a boa prevenção, a boa alimentação. Comprava esta máquina, comprava isto e aquilo para a recuperação, para fazer isto, para fazer aquilo. A verdade é que não sei. Eu acho que ele tem tanta força, tem tanta potência, que às vezes se lesiona mesmo estando a jogar a 60% ou 70%. O Renato é um jogador muito completo. Adorava ver o Renato a 100%. Acho que seria dos melhores médios do mundo. Facilmente. Em 2020/21, ano em que foram campeões, é verdade que o José Fonte lhe disse que iam ser campeões antes da temporada começar? Nós éramos os loucos. Estávamos sempre sentados um ao lado do outro. E na altura em que ele chegou ao Lille, em 2018, sentou-se à minha beira e disse: “Vamos ser campeões”. Comecei a rir e disse-lhe: “Tu és maluco. O ano passado estivemos em 17º e tu queres ser campeão já?”; “Tem de ser, temos de ser campeões”; “Quando chegarmos a dezembro, o PSG já vai ter os pontos com que vais acabar no final da época. É uma diferença muito grande”. Mas ele insistia. Estava sempre com a conversa do campeão, no primeiro ano. Quando viu que o PSG ganhou 15 jogos seguidos e já levava muitos pontos de distância, aquilo passou. Nessa época ficamos em 2º lugar. E na seguinte em 4º lugar. Ficamos em 4º mas é enganador, isso foi por causa do covid-19, senão tínhamos ficado em 2º lugar, garantidamente. Tenho a certeza. Estávamos a entrar naquela fase em que a máquina estava muito bem oleada. Xeka (nº8) festeja a conquista do titulo de França pelo Lille, em 2020/21 Catherine Steenkeste Quando foram campeões, qual foi a sensação? Passei várias semanas sem conseguir compreender verdadeiramente o que fizemos. Muita felicidade mesmo. É difícil descrever. Conseguiu melhorar o contato depois de ser campeão? Não. Entrei no meu último ano de contrato. Último ano onde entrou a marcar o golo que deu a Supertaça ao Lille. Não havia muito mais a pedir para estrear uma época, não é? Estavam 38 graus em Telavive e fizemos a pré-época em França, onde estávamos de camisola, com 15 graus, a chover. Chegar lá e ter 38 graus, passámos muito mal. Desidratação. Durante a semana eu ia para a sombra fazer bicicleta após o treino durante 20, 30 minutos. Era para o meu corpo habituar-se ao cansaço, no calor. Para tentar dar um bocado de estímulo. Mas correu muito bem. Foi uma noite especial. Para todos. Foi a primeira vez que o Lille ganhou Supertaça, e única, até hoje. Já com um treinador diferente. Sim, com o Jocelyn Gourvennec. Mais calmo que o Galtier, mais apaixonado pela bola, pelo futebol, porque foi jogador e foi um craque. Não é que a forma de jogar mudasse muito porque alguns jogadores mantiveram-se e o nosso ADN estava sempre lá. Como foi jogar contra o Messi? Tranquilo. É o Messi. Mas também foi uma fase onde não estava muito bem, não estava feliz. Portanto, em termos de futebol, não causou grandes problemas. Terminava contrato no final de 2021/22. O Lille comunicou-lhe que não queria renovar ou quis sair? Eles quiseram renovar no início da época depois de eu marcar o golo na Supertaça. Só que mudou a direção, mudou o presidente, e o caminho por onde estavam a ir notava-se que era diferente. Não quis renovar? Não era que eu não quisesse, para mim o Lille é a minha casa. Mas acho que da parte deles não houve um esforço para que isso acontecesse. Está a falar da melhoria das condições contratuais? Acho que faltou um bocadinho de esforço. Não é que me apresentassem alguma coisa, porque não foi o que aconteceu. Eu disse que tinha pretensões salariais. E na altura disseram que não era um problema, que não ia ser prejudicado, que ia jogar a época toda e no final podia sair livre se quisesse. Ou seja, puseram-me à vontade em relação a isso. Está arrependido de ter tomado essa decisão? Não. Sinto falta dos momentos de Lille e falo disso muitas vezes com o José Fonte, de quem sou muito amigo. Sinto falta de estarmos juntos e a maneira como vivíamos o futebol, o grupo que tínhamos. Sinto falta disso, mas não posso estar arrependido de uma escolha que para mim na altura foi a melhor escolha. Xeka abraçado a José Fonte e com Zeki Celik, a celebrar a vitória sobre o RB Salzburg em jgo da fase grupos da Liga dos Campeões em 2021 DeFodi Images Mas o Rennes só apareceu muito depois. Foi uma fase difícil porque, estando livre, vindo de ser campeão e de ganhar a Supertaça, fizemos uma boa Champions, fomos aos quartos, estava à espera de mais. Nunca tinha sido exposto a uma situação dessas, de ter mais valor do que se calhar alguma vez imaginei. Houve muitas possibilidades, muitas. De onde? De muitos sítios, não interessa agora. Mas apareceram grandes clubes. E nada se concretizou porquê? Não sei. Tinha o mesmo empresário ainda? Sim. Depois desse verão deixei de ter. Passou a pré-época e só vai para Rennes em setembro. Sim. Fiquei lá um ano, nem isso. Depois lesionei-me no tornozelo. Deram-me uma pancada. Foi muito doloroso. Deram-me quatro meses de recuperação. Pedi para voltar para Portugal, fui operado e foi o meu grande amigo Mestre que me tratou e conseguiu recuperar-me num mês. Em seis semanas recuperei e estava a treinar normal. Quando ia para voltar à competição, num treino individual, como tive a lesão nos tornozelos, os meus gémeos perderam muita força e na readaptação, como lá faziam muitos treinos de corrida nos parques, passávamos por muito asfalto, acabei por ter uma lesãozita num gémeo, o que me atrasou para poder voltar a jogar 4 ou 5 jogos no final da época. Não aconteceu por causa dessa lesão. Volto para a pré-época, o treinador era o Bruno Genésio, que sempre falou muito bem comigo, mas nessa pré-época começou a afastar-se um bocadinho, sempre um bocadinho frio. Porquê, conseguiu perceber? Depois percebi. O diretor desportivo começou a dizer-me “se encontrares alguma solução...”, assim, do nada. Eles tinham a possibilidade de buscar o [Nemanja] Matic, e o Genésio queria ir buscar o Matic, tinham que me libertar. Chegamos a acordo. Ponto final. Pensei que tinha bastante mercado, já não estava com o meu empresário de sempre. E às vezes na vida envolvemo-nos com pessoas que podem ser boas pessoas, podem querer o melhor, mas não são o ideal para o que tu precisas nessa fase. Por acreditar em certas pessoas, esperar por coisas certas, entre aspas, acabei por ficar oito meses sem clube. Como foi psicologicamente? Duro. Isolei-me completamente. Só saia de casa à noite para ir correr sozinho. Fazia o meu treino e voltava para casa. Durante o dia ficava em casa. Recorreu a algum tipo de ajuda? Nunca. O que fazia durante o dia? Jogava Playstation quando me apetecia. Olhava muito para o mar a ouvir as ondas a bater. O médio português (de branco) jogou pelo Rennes em 2022/23 Sylvain Lefevre Passou-lhe pela cabeça que podia terminar a carreira? Houve uma altura em que disse que não jogava mais. Depois de voltar do Al-Sadd. Porque o Al-Sadd veio às três pancadas, em abril. Até lá estou em casa a olhar para o teto. Ia treinar às vezes com o grande amigo Dário Pinto. Íamos para um campo que ainda ficava longe de minha casa. Mas ia mantendo, ia treinando. Como foi parar ao Al-Sadd? Eles sabiam que eu estava livre e ligaram-me. Quiseram que fosse os dois meses, com opção de assinar por mais tempo. Fui ver como eram os ares. Só joguei um jogo. Esteve lá sozinho? Sim, porque a minha mulher estava grávida, estava a chegar às 34 semanas e não podia viajar mais. Então ela foi lá duas semanas e voltou. Muito calor no Catar. De resto nada de especial. A única coisa que me poderia fazer confusão era a alimentação, mas no hotel a comida era fixe. Apanhei um treinador local, o Bruno Pinheiro e o Nuno Almeida chegaram depois para ajudar. Quando cheguei não podia jogar devido à vaga de estrangeiros. Eu já era o 6º ou 7º. Foi uma confusão muito grande. Deram a entender que podia ficar tranquilo durante aqueles dois meses, para fazer a adaptação, porque havia a opção de ter contrato para três anos. No dia a seguir à final da Taça do Catar, que ganhámos, ligaram ao agente que tinha feito a intermediação a dizer que não ia abrir mais nenhuma vaga, que não iam ativar a opção. Eu disse OK. Fui para casa. Nasceu o meu miúdo, em junho de 2024, o Eden, e pensei: acabou o futebol. Como surgiu então o Estoril-Praia? Estava cansado, muita desilusão. Muitas pessoas a desiludirem-me no futebol. Não o futebol em si, mas o mundo à volta do futebol. Parecia que estava tudo a correr errado para o meu lado. Sou uma pessoa muito positiva, muito otimista e parecia que os pontos não se ligavam na minha carreira. Muitas questões à volta. Na altura dizia que não queria jogar mais, mas ia quase todos os dias para o Sport Valley, com o Dário, porque ele fazia os treinos dele lá, do pre-season. Uma altura ele disse: “Temos de acabar mais cedo que vem aí o Estoril-Praia”. Começaram a chegar e quando eu estava a sair comentei com um agente que estava comigo na altura: “Estava aí o Estoril. Se calhar ainda te vão ligar, podem estar interessados” [risos]. Não sei como foram os desenvolvimentos, sei que o presidente Inácio ligou-me. Eu estava na dúvida. Porquê? O choque é muito grande e mentalmente é muito difícil porque ainda há dois anos estava num patamar completamente diferente. Estava de rastros mentalmente, muito em baixo. Acabei por convidá-lo a vir a minha casa. Falámos de futebol, de muitas coisas. A minha mulher acabou por me dizer: “São oito, nove meses, se não quiseres mesmo jogar mais à bola vais saber durante esse tempo”. Ela começou a convencer-me. Acabei por vir para baixo. Vim de carro, fiz os exames. Depois o Vasco estava à minha espera para assinar o contrato e eu não saía do carro, no estacionamento [risos]. Ainda estava com dúvidas? [Risos] Sim. Ele veio cá fora dizer que estava tudo à minha espera. Quando me lembro, parto-me a rir. Acabei por assinar e foi a melhor decisão que tomei. Aqui, apaixonei-me pelo futebol outra vez. Apesar de ter chegado e passado pouco tempo ter a primeira verdadeira lesão muscular. Xeka no estádio António Coimbra da Mota, na semana em que foi entrevistado por Tribuna Expresso Nuno Botelho Gostou do treinador Ian Cathro, houve empatia? Ui, o mister Ian. Quando o mister Ian me ligou a primeira vez, não sabia que era ele, porque não sabia que falava tão bem português. Estava à espera que me passassem ao treinador. Não sabia, juro. [risos] A nossa primeira conversa foi muito boa, deu para perceber o que ele queria e também para explicar um bocadinho como é que funciono, como sou. As primeiras duas semanas foram meio que de adaptação. Eu e o mister, no início, chocámos um bocadinho. Porquê? Ideias diferentes em relação ao futebol. Foram coisas no campo, não me recordo exatamente o quê. Ele chamou-me, disse que não queria que eu estivesse aqui por favor, eu disse que estava a 200% e queria ganhar; se tinha dito alguma coisa que fosse mal entendida, não era por aí, porque sempre que eu disser alguma coisa é porque quero ganhar, e mais nada. Foi esse o nosso desentendimento. Porque eu tenho de ganhar a todo o custo, seja no treino ou no jogo. Preciso mesmo da vitória. Não importa se jogamos bem, se jogamos mal, se a bola anda no ar, no chão, se não há bolas. Não importa. Temos que ganhar o jogo. Ponto final. Sou assim e sou muito apaixonado por tática, pelos movimentos, pelos espaços, por essas coisas. Gosto de perceber como é que as coisas funcionam. No início, por ele não me conhecer, e eu não o conhecer, nem saber quando falar ou quando estar quieto, isso podia provocar um choque. Estragou a vossa relação? Não. Acho que fez com que a nossa relação se tornasse tão forte como ela é hoje. Porque ele vai sempre saber com o que pode contar da minha parte e eu o mesmo da parte dele. Percebemos como é que cada um funciona. Fez 14 jogos e depois teve novo azar. Como deu cabo do joelho? Nunca tinha tido um problema num joelho. Estávamos a ganhar 3-0, a equipa estava numa forma incrível, e num lance o João não fechou a linha, foi pressionar lá na frente e não tinha que ir, e eu fui lá fechar o lugar dele. O jogador veio para um lado, para o outro, e eu a querer mudar de direção, a perna escorregou e a outra veio com o peso todo para dentro. Nunca pensei que fosse tão grave. E não é que tenha sido muito grave, fiz umas roturas parciais, só que o risco de não ser operado e mais tarde ter uma recidiva era grande. Decidimos entre dois, três médicos que era melhor ser operado. Acreditou sempre que ia conseguir regressar ou voltou a ir abaixo psicologicamente? Não, acreditei sempre. A partir do momento em que passei um mês aqui, percebi que não quero deixar o futebol antes dos 37, 38 anos. O meu joelho está como se não tivesse acontecido nada. Na minha vida pessoal, tudo o que posso fazer, faço, trato-me bem. Sei que tenho capacidade para jogar muitos anos ainda. Surpreendeu-o o Estoril-Praia ter querido renovar quando estava lesionado? Já tínhamos falado disso antes da lesão. A mim não me surpreendeu porque conheço as pessoas que estão no clube e não era a lesão que ia alterar as coisas. Sinto-me muito valorizado neste clube. E as pessoas também sentem o que tento dar todos os dias ao clube, seja no treino, seja fora dele. Renovei três anos. Mas só jogou nove meses depois da lesão. Sim, em janeiro deste ano comecei por fazer apenas dois jogos. É preciso uma gestão delicada porque há altos e baixos nas recuperações e é preciso termos a certeza dos passos que estamos a dar. Xeka assinou pelo Estoril Praia em 2024/25 Gualter Fatia Regressar ao futebol português foi um choque após oito anos fora? Senti que a diferença entre as equipas pequenas e os grandes é muito menor do que na altura em que saí do SC Braga. Hoje vemos bons jogos de futebol entre uma equipa que esteja no meio da tabela com um grande. Adaptou-se bem à vida mais a sul? Sim, em Cascais vive-se bem. Como é que o Miguel Ângelo da Silva Rocha passou a Xeka? O meu avô foi apelidado de Xeka, ou Xekinha, quando era novo. Cresci com ele. Cresci na casa dos meus avós, com os meus pais e com eles, estava muito com os meus avós. Lembro-me de fazer caminhadas com o meu avô desde pequeno, ele fumava muito e eu ia apagar as beatas dele. Éramos muito próximos. E adoptei o nome que veio dele, na altura em que faleceu. Tem objetivos que ainda quer cumprir no fuebol? Difícil de saber. Depois de um alto muito grande e depois de ter descido, é difícil perceber até onde é que posso chegar outra vez. A coisa que mais me ficou atrás da orelha desde sempre foi não ter ido à seleção. Qual foi o momento em que sentiu estar mais perto de ser convocado? Depois de ser campeão pelo Lille. Estive pré-colocado. Sentiu-se injustiçado por nunca ter tido a oportunidade de jogar pela seleção A? De certa forma sim. Mas são as opções. É difícil dizer sim também pela qualidade que temos na nossa seleção. Somos um país pequeno, mas em termos de qualidade devemos ser a melhor das melhores seleções do mundo. Mas acredito que devia ter tido uma oportunidade. Ainda acredita ser possível? Se não acreditasse, já tinha pendurado as botas. Embora a probabilidade disso acontecer, realisticamente, ser impossível neste momento. Mas num futuro próximo, é muito baixa. A realidade é que há muitos jogadores que estão à minha frente para qualquer tipo de chamada. Estou a falar também com memórias de um Xeka totalmente diferente, mais novo, noutro patamar, com outras cartas para poder apresentar do que neste momento. Mas só o futuro dirá. Se acredito que um dia posso ser chamado? Acredito. Acredito mesmo. Porque acredito muito em mim. O que trabalho todos os dias, se se refletir tudo de uma vez, pode ser que seja chamado. Em relação ao Estoril, quais são as suas perspectivas e ambições no clube? Ser campeão [risos]. Estamos no final da época. Jogo a jogo, ganhar e fazer o máximo de pontos que conseguirmos. Melhor que a época passada, se for possível. É difícil colocar objetivos. Que toda a gente se mantenha saudável, com saúde, jogar com alegria, jogar bom futebol. Já pensou no que quer fazer no dia em que pendurar as chuteiras? Muitas coisas. A minha mulher diz que vou ser treinador de futebol. Eu já lhe disse que não. Mas estou à espera que abram as inscrições para fazer o nível B e o A. Quero fazer o curso, disso tenho a certeza. Agora, exercer mesmo, não sei. Gerir um plantel é difícil. Imagine que eu tenho dois jogadores como eu no plantel? Vai ser uma dor de cabeça [risos]. Está tudo em aberto. Também tenho alguns negócios a nível imobiliário, de resto não tenho assim grandes interesses. Temos os nossos investimentos, as nossas diversificações, como é óbvio, não quer dizer que seja uma paixão. É uma questão de negócio, basicamente. A minha paixão sempre foi o futebol. Sempre vai ser. Portanto, possivelmente, ser treinador está muito em vista porque vou estar ligado ao futebol na mesma e não me vejo a ser diretor-desportivo. Tem algum treinador com quem gostava de ter trabalhado? Jorge Jesus ou Sérgio Conceição. São intensos, eu preciso disso, gosto. Para além de todo o conhecimento futebolístico que ambos têm e a qualidade que têm. Xeka reencontrou a alegria de jogar futebol no Estoril Praia Carlos Rodrigues Onde ganhou mais dinheiro na carreira? Em França. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Sei lá. Eu apareci aqui de Lamborghini roxo. Vi o carro, parecia o carro do Joker, eu gosto do Joker, e acabei por comprá-lo porque a minha mulher também me incentivou. Mas depois de chegar aqui [Estoril-Praia] vendi-o. Porquê? Porque não me estava a sentir muito bem a estacionar o carro ali no parque [risos]. Decidi acalmar um bocadinho. Tem algum hobby? Jogar Playstation, sobretudo Call of Duty. E sou muito bom. É um homem de fé? Acredito em Deus, não vou à missa, nem nada, mas acredito que há alguém que nos ouça. Acredito que não seja para pedir coisas nem nada desse género, mas sinais, conselhos, ou um pedido para me guiar. Mas sobretudo peço pela saúde, a minha e a da minha família que é o mais importante. E superstições? Quando entro em campo tenho de calcar a linha sempre com o pé direito, e a sair também. Beber café, ainda no túnel, antes de sair para o aquecimento. Já tive outras, ouvir certas músicas e coisas assim, mas como o tempo passou. Acompanha ou pratica outra modalidade? Fórmula 1 e UFC. Qual o piloto favorito da Fórmula 1? Lewis Hamilton. Tem muitas tatuagens. Qual foi a primeira que fez e quantos anos tinha? Foi uma bracelete celta que já está tapada. Tinha 15 anos. A minha mãe não sabia [risos]. Passado dois meses escrevi o meu nome e o signo nos pulsos. A minha mãe dizia, isso é de sair, não é? Nós íamos de férias para o Algarve e eu fazia sempre no Algarve aquelas que saiam passado 15 dias [risos]. Tem o corpo todo tatuado praticamente, tem ideia de quantas tatuagens já fez? Não. Tenho datas de nascimento, muitas com simbologia ligada à família. Tenho um braço todo dedicado ao Joker. Vi o filme, gostei e fiz. Esse mito de que as tatuagens têm todas um significado, isso é mentira. Mentira. Chega a um ponto que não tem significado, fazemos porque gostamos. Até a minha mulher me fez uma tatuagem. Ela estava lá comigo e eu disse: “Faz aí uma tatuagem”. Ela pegou na máquina e fez. Está escondida, claro. [risos]. Xeka no estádio do Estoril Praia Nuno Botelho Qual a maior frustração que tem na carreira? Seleção, só. E o maior arrependimento? Não tenho. Momento mais feliz da carreira? Campeão de França. Objetivo que está por cumprir? Gostava de ser campeão de Portugal. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid e Manchester United. Quais as maiores amizades que fez no futebol? José Fonte, seguramente. Éder, Rony também. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? Neymar. Qual o jogador com quem gostava de jogar na mesma equipa? Cristiano. E contra quem gostaria de jogar? Há muitos. Talvez escolha o Toni Kroos. Alguma regra, alguma lei do futebol que se pudesse alterava ou bania? Fazia ajustes ao VAR. Acho que se perde muito tempo. Gostaria, se calhar, que fosse mais como fazem noutros desportos, na NBA, que tem a call para ir ao VAR. Acho que seria mais interessante. Tem algum talento escondido? Jogar Call of Duty. Antigamente jogava muito bem pingue-pongue. Alguma frase que tenham dito no mundo do futebol que tenha marcado? Houve uma, que foi dita num tom de brincadeira, penso eu, do falecido presidente de Covilhã. Quando saí de lá, antes de voltar ao SC Braga B, ele virou-se para mim e disse: “Tenho ali amigos no Benfica Castelo Branco, se quiseres falo com eles para ires lá treinar à experiência”. Seis meses mais tarde eu estava no Lille. Mas essa frase ficou muito tempo na cabeça. 2 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Abril 23 Maurides Roque Júnior Spoiler “A minha estreia nunca vou esquecer. Tinha 18 anos. Foi contra o Flamengo, no Engenhão, e o camisola 10 era o Ronaldinho Gaúcho“ Maurides Roque Júnior, de 32 anos, relata neste Casa às Costas como foi difícil superar as saudades de casa para dar início ao sonho de criança: ser jogador de futebol como o seu irmão Maicon. Revela como a queda de um árvore ainda em criança quase lhe robou a vida, fala da formação no Internacional de Porto Alegre, da vinda para Portugal para jogar no FC Arouca e mais tarde no Belenenses. Conta o que lhe disse o irmão antes de se confrontarem em campo e aborda a ida para o CSKA da Bulgária. Isto antes de ir jogar para a China, Coreia, Alemanha e Polónia Nasceu na cidade de Colômbia, no interior de São Paulo, Brasil. Comece por nos apresentar a família? O meu pai era motorista de autocarros e a minha mãe apanhava laranja nas roças. Tenho um irmão mais velho só da parte de pai, o Emílio, e da parte de mãe e pai tenho o Maicon e o Muller. Como a minha mãe diz, eu sou “o bebé da mamãe”. Deu muitas dores de cabeça em criança? Eu era tentado. Lembro-me de uma história em que quase morri. Nós brincávamos muito a subir às árvores e um dia subi para apanhar uma manga e uma senhora brigou comigo, dizendo: “Desce daí que tu vais-te machucar.“ Eu fui um pouco rude com ela, respondi: “Não vou machucar nada, fecha a boca“ e mais não sei o quê. Três minutos depois caí da árvore, parti um braço e fiz uma rutura no baço. Se ficasse mais de duas horas sem fazer cirurgia podia ter hemorragia e morrer. O pior desta história é que uma semana depois de sair do hospital eu estava a fazer a mesma coisa, com o braço partido [risos]. O que queria ser quando crescesse? Sempre jogador de futebol. Na minha cidade toda gente dizia que o meu pai, que não chegou a ser profissional, era um grande jogador; depois o Maicon começou a jogar e eu espelhava-me muito nele. Dizia que queria ser como ele. Desde pequenininho que treinávamos e jogávamos à bola, sempre foi o hobby da família inteira. Torcia porque clube e quem eram os seus ídolos? Até hoje sou santista. Gostava muito do Fenómeno, o Ronaldo. Vi também a época do Robinho no Santos e o admirava muito. Maurides fez a formação no Internacional de Porto Alegre, no Brasil MB Media Da escola, gostava ou nem por isso? Nem por isso [risos]. Eu ia para a escola mais para jogar à bola. Sei que estava errado, mas a única coisa que eu pensava era no futebol. Quando e como foi jogar pela primeira vez num clube? Tinha uns 12 anos quando comecei no América de Rio Preto. Na minha cidade havia muitos torneios e essa equipa foi visitar-nos. Eles gostaram de mim e convidaram-me para fazer um teste no clube, lá no América do Rio Preto, em São Paulo. Falei com o meu pai e ele disse: “Meu filho tu tem que ir, isso é o que tu gosta.“ Fui e fiquei uns quatro meses, depois voltei para casa porque como eu era muito arteiro, arranjava sempre muitas brigas, eles mandaram-me embora. Que tipo de brigas arranjava e porquê? Eu era um menino muito quieto, mas quando as pessoas vinham meter-se comigo ou faziam alguma gracinha, eu não gostava e brigava, batia nos meninos, porque eu era o maior, sempre fui grande e maior que os outros. Um dia briguei e mandaram-me embora. Só que o empresário que me tinha visto jogar comprou esse clube e voltei um tempo depois. Voltei, melhorei um pouquinho o meu comportamento e correu tudo bem. Quando foi para esse clube teve de sair de casa dos pais e ficou a viver no centro de treinos do clube. Custou muito deixar a família? Muito. Chorava, queria voltar para casa, mas não me arrependo dessa escolha, porque era algo que sempre quis. Faria tudo de novo. Entretanto, um ano depois de regressar ao América do Rio Preto vai para o Internacional. Como aconteceu? Eu estava a jogar o Campeonato Paulista. Na primeira fase do campeonato eu tinha 17 golos marcados, estava a destacar-me a surgiram equipas de São Paulo, Santos, Palmeiras, Corinthians, e eu escolhi ir para o Internacional de Porto Alegre, porque naquela altura a formação do Inter era uma das melhores. Ganhavam muitos campeonatos. O meu empresário também achou que era a melhor opção. Era mais longe da família, só que era uma coisa que queria muito, não olhei para trás. Já custou menos o afastamento da família? Não. Custou muito, chorava todos os dias praticamente. Muitas vezes quis ir embora mas os meus pais lembravam-me porque eu estava lá. Foi difícil. Morava a 1885 quilómetros de casa. Como não tínhamos muito dinheiro, era muito difícil eu ir a casa. Aos fins de semana, a maioria dos meninos ia ver os pais e eu ficava. Mas olho para trás e vejo que deu tudo certo. Em 2015/16, Maurides, à esquerda na foto a disputar a bola com Jardel, do Benfica, jogou no FC Arouca Gualter Fatia Jogou sempre como ponta de lança? Nunca quis fazer a posição do seu irmão Maicon, como defesa central? Eu comecei como defesa central [risos]. No primeiro clube, quando o treinador me perguntou em que posição eu jogava, disse que podia colocar-me em qualquer posição, que eu jogava. Ele colocou-me como zagueiro [defesa]. Só que houve um jogo em que precisávamos de um atacante e não tínhamos. Eu disse que podia jogar no ataque. Estive muito bem nesse jogo, fiz três golos e o treinador disse: “Você não é zagueiro, você é atacante, pode ir para o ataque.“ Desde então fiquei no ataque. Fez toda a formação no Internacional, onde ficou quase nove anos. Quais as principais memórias que tem desses anos? Os campeonatos. A nossa equipa era muito boa. Lembro-me que fomos a um campeonato no interior de Porto Alegre e, em 24 edições, eu fui o maior artilheiro. Olhando para trás e ver tudo o que consegui quando era pequeno, fico orgulhoso. Recorda-se da primeira vez que foi chamado para treinar com a equipa principal do Internacional? Recordo, até porque aconteceu praticamente devido a uma briga que tive com o diretor. Como assim? Na altura tínhamos um diretor-desportivo que gritava muito com as pessoas e sou uma pessoa que não gosta que as pessoas falem comigo aos gritos. Desde pequeno que sou assim. Se tu gritares comigo não te vou dar ouvidos. Ele veio gritar comigo e eu fui para cima dele, para querer bater nele. Depois fizeram uma reunião, onde estava o meu empresário, o diretor, o presidente e o treinador da equipa principal que, se não me engano, era o Dunga. Disseram que eu não podia ter aquele comportamento e eu disse a mesma coisa na frente de todos. “Se você quer respeito, você tem que respeitar também. Se tu falar isso comigo de novo, vai acontecer a mesma coisa porque se tu quer brigar comigo, me chama na tua sala que eu vou escutar e vou entender o que tu está falando, mas não me xinga na frente das pessoas, que isso eu não concordo.“ O que aconteceu depois? O Dunga disse: “Essa é a personalidade que eu quero na minha equipa.“ E no dia seguinte chamou-me para treinar com a equipa principal e nunca mais desci. Tinha uns 17 anos. Maurides (à direita) jogou contra o irmão Maicon, então jogador do FC Porto D.R. Lembra-se da estreia pela equipa principal? Ou se lembro, e muito. A minha estreia foi no Engenhão [Estádio Olímpico Nilton Santos], contra o Flamengo. Quando entrei, a nossa equipa estava a perder de 3-1, mas conseguimos empatar 3-3. Mas tem um detalhe muito importante. Qual é? Contra quem eu estava a jogar. É uma das coisas que nunca vou esquecer na vida. O camisola 10 era o Ronaldinho Gaúcho. Estava muito nervoso antes de entrar? Muito, muito. Quando entrei havia 45 mil pessoas no estádio, nunca tinha visto aquilo na minha vida. E entrar num jogo, que era muito importante, contra um jogador que era o génio da bola, sempre foi, ver e ouvir um estádio inteiro a cantar “Vamos Flamengo“, foi difícil. Mas a minha equipa deu-me muita força, conversou comigo, avisou: “Vai dar medo, vai tremer as pernas, é normal, é a primeira vez, mas faz o que tu estás fazendo no treino que tu vai muito bem no jogo.“ Graças a Deus fui muito bem no jogo, conseguimos sair com o empate. Tinha uns 18 anos. Depois viveu um episódio traumático, ao festejar um golo. Pode contar? Se não me engano, foi a 13 de junho de 2013. Desde pequeno que gosto muito de fazer luta. Eu fazia capoeira e sempre comemorei os meus golos fazendo um mortal. Só que, naquela altura, o médico disse-me que eu tinha um problema no joelho, que eu não sabia. Que problema? A minha patela [rótula] era mais para fora. Ele disse que qualquer salto que eu desse e caísse mal, podia magoar-me. Infelizmente, aconteceu ao festejar um golo com o mortal. Mas, para ser bem sincero, não me arrependo de ter feito. Se Deus quis que fosse assim, seria de qualquer maneira. Resumindo, fiz golo, fiz o salto mortal e quando caí a minha patela saiu para fora. Fui operado e fiquei um ano e três meses parado. A cirurgia previa uma recuperação de quatro a cinco meses, só que um fisioterapeuta machucou-me o joelho de novo quando já estava a correr e tudo. Tive de voltar a fazer o tratamento novamente, por isso fiquei muito tempo sem jogar. Continuava a viver sozinho? Nessa época o meu pai veio morar comigo. Estar um ano parado, tão novo, deve ter sido desesperante. Chegou a ponderar deixar de jogar? Pensei em desistir, sim, muita gente dizia que eu nunca mais ia voltar a jogar. Mas o meu pai, os meus amigos, o meu irmão, muita gente deu-me muita força. E ouvia um samba todos os dias que me deixava com força. Era o “Tá Escrito“ do Grupo Revelação, que diz: “Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé/ manda essa tristeza embora, basta acreditar que um novo dia vai raiar e sua hora vai chegar.“ Ia todos os dias para o treino a ouvir essa música. Dava-me força. Outra coisa que me deu muita força foi ter ouvido as pessoas a dizerem que eu nunca ia voltar a jogar à bola. Eu queria mostrar para toda a gente que o que estavam a dizer não era verdade. Foi mais uma motivação. Maicon e Maurides com o árbitro que apitou o jogo entre o FC Arouca e o FC Porto D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite e os namoros mais sérios? Eu já saía nessa altura, mas era muito tranquilo, não bebia álcool, tinha sempre uma hora para chegar em casa. Só comecei a beber alguma coisa alcoólica com praticamente 25 anos. Antes disso nunca tinha colocado uma bebida alcoólica na boca. Recorda-se do primeiro ordenado profissional? Tinha 18 anos e ganhava acho que à volta de €10.000 reais [cerca de €3000]. Em 2013 era um dinheiro que no Brasil dava para viver e ainda guardar. O primeiro ordenado dei para a minha mãe. E namoros? Tive uma namorada aos 18 anos, que foi a mãe da minha segunda filha. Segunda filha? Quando foi pai pela primeira vez? A primeira filha, a Sofia, aconteceu por acaso. Eu tinha 17 anos. Já não estava com a minha namorada quando ela nasceu. Nós brigámos feio e não vi o parto. Mas da segunda filha, a Maria, fiquei junto com a mãe dela e assisti ao parto. Ela nasceu em 2015. Ainda estava no Internacional ou já jogava no Atlético Goianiense? Eu era jogador do Internacional, fiz a pré-temporada no Inter e depois fui emprestado ao Atlético. Porquê? Na altura havia muitos jogadores com nome no Internacional. O Rafael Moura, o Leandro Damião… Eu não ia ter oportunidade de jogar. Decidi com o empresário ir para lá. Fui com a mãe da minha filha e com a minha filhinha. Fiquei lá seis meses. Era para ter ficado mais, só que o clube não pagou o salário, então pedi para sair. Mais um pormenor dos dois irmãos em campo D.R. É quando vem para Portugal, para o Arouca. Quem o trouxe para Portugal? Quem me ajudou a ir para Portugal foi o empresário do Maicon. Era algo com que sonhava? Sair do Brasil e jogar na Europa? Na altura o meu irmão jogava no FC Porto, então eu queria também. Mas não imaginava como seria, fiquei um pouco com medo, fazia muito mais frio do que onde eu estava. Acho que todo o jogador fica um pouco com o pé atrás. Na adolescência, quando sonhava com o futuro, o que imaginava? Como e onde se projetava? Sonhava sempre em dar uma vida boa para a minha família, para os meus pais, para mim, para a mulher que eu tivesse. Só pensava nisso, independente em qual clube seria. Claro que todo o jogador quer jogar uma Champions League, jogar em clubes grandes, mas eu era muito pé no chão. Pensava mais em dar um futuro melhor para a minha família. No final do jogo entre FC Arouca e FC Porto, os dois irmãos trocaram as camisolas D.R. O que foi mais difícil quando aterrou em Portugal? Arouca era uma vila, às vezes não entendia muito bem o que diziam. Embora seja português, muitas palavras são diferentes. Lembro que uma das primeiras coisas estranhas foi estar com a minha namorada e um tipo pergunta-me: “Essa rapariga está contigo?“ O significado de rapariga no Brasil é bem diferente de Portugal e comecei a discutir com ele, a dizer que a minha mulher não é rapariga, até que ele diz: “Rapariga em Portugal é moça no Brasil.“ Então acabei a pedir desculpa [risos]. Fora isso acho que foi muito boa a minha experiência. Foi bem recebido no clube? Tinha vários brasileiros na equipa, certo? Sim, fui muito bem recebido, os portugueses também me ajudaram muito, foram muito recetivos, diretores, presidente, toda a gente foi muito boa comigo. Estranhou os métodos de treino e o futebol? O futebol europeu é um pouco diferente, o nosso futebol é um futebol mais de um para um, correndo. Na Europa, todos os jogadores tinham que marcar, todos tinham que voltar. No início foi um pouco difícil para mim. Mas a adaptação aos treinos foi rápida. Sempre fui uma pessoa que deu o máximo em campo. Sempre quis treinar, sempre quis aprender. E quem já treinou com o Lito Vidigal vai entender muito bem o que estou a dizer. Os treinos dele eram muito físicos, adaptei-me muito bem, treinei muito bem com ele e fui muito feliz no Arouca. Esteve quanto tempo no FC Arouca? Fiquei uma época. Como estava emprestado pelo Inter, tive de voltar. Só que eu tinha praticamente assinado um pré-contrato com o Arouca. Eles estavam a tentar comprar-me ou que voltasse por empréstimo de novo. Infelizmente, o Inter não me libertou e não pude voltar. Após jogar no FC Arouca, Maurides foi emprestado ao Figueirense, do Brasil, pelo Internacional de Porto Alegre MB Media Chegou a jogar contra o Maicon? Joguei. Tivemos um jogo em Arouca, em que perdemos 3-1 e fui eu quem fez o golo. Qual foi a sensação de jogar contra o seu irmão? Foi muito estranho. Tenho um sonho que se Deus quiser um dia vou realizar, que é jogar na mesma equipa que o meu irmão, que hoje é o meu ídolo. É uma pessoa em que me espelho muito. Se não fosse por ele eu não seria jogador também. Ele mostrou-me os caminhos que eu devia seguir, tudo. Antes desse jogo, ele disse-me: “Se tu entrar no jogo e tiver a oportunidade de me bater, tu me bate, porque se tu não bater, eu vou te bater.“ [risos]. E a verdade é que nos pegámos no jogo, brigámos um com o outro; mas somos família e assim que acabou o jogo fui para casa dele, tranquilo. Nessa altura o vosso irmão Muller não jogava também em Portugal? Acho que ele estava em Portugal, sim, mas não sei se estava a jogar. Vou contar uma coisa que muita gente não sabe: o Muller, se tivesse cabeça e fosse focado, seria muito melhor do que eu e do que Maicon. Muito melhor. Pode perguntar a qualquer pessoa na minha cidade, toda a gente sabe que ele seria o melhor de nós três. Não aconteceu porquê? Ele saía muito, muita festa, não treinava sempre, quando não jogava, brigava. Era muito rebelde, não ouvia os treinadores; se o treinador lhe dizia alguma coisa ele brigava com o treinador, então não conseguiu render o que podia render. Quando chegou ao FC Arouca fizeram-lhe alguma partida? Foi alvo de muitas brincadeiras? O pior é que não. Sempre fui brincalhão, sempre avisei, se fizerem alguma coisa comigo eu vou fazer também. A única coisa que fizeram comigo foi o túnel de boas-vindas e apanhei uns tapas bons. Voltando ao Brasil, acabou emprestado ao Figueirense. Porquê? Eu ia ficar no Inter porque o treinador que estava lá, o Argel, gostava de mim. Mas ele acabou por sair, foi para o Figueirense e levou-me com ele. Mas só estive lá seis meses porque tive o mesmo problema que no Atlético de Goianiense, fiquei sem receber. Entrei na justiça e a verdade é que estou até hoje com eles na justiça, já passaram 10 anos. Em 2016/17 Maurides (à direita) jogou no Belenenses NurPhoto Como acabou por voltar a Portugal, para jogar no Belenenses em 2016/17? Eu tinha um empresário chamado Hélio Martins, do Porto. Era um dos melhores amigos do meu irmão e foi ele quem me ajudou a ir para o Belenenses. Gostou de Lisboa? Amo Lisboa. Gostei muito. Lembro que quando terminava o treino ia sempre comprar um pastel de Belém. Quando chegou o treinador era Quim Machado. Gostou dele? Ele esteve pouco tempo, mas era bom treinador, gostava dele. Raramente tive algum problema com treinador, sempre respeitei o treinador. Aprendi muito depois com o Domingos Paciência, que também foi ponta de lança. Ensinou-me muitas coisas, como ter tranquilidade na hora de estar cara a cara com o guarda-redes, domínio, essas coisas. Nos anos em que jogou em Portugal houve algum jogador português que o tivesse impressionado mais ? Quando eu estava no Arouca gostava muito do Ivo Rodrigues. Sempre me dei muito bem com ele. Na época do Belenenses, gostava do Tiago Caeiro, que era outro ponta de lança. Também me dava muito bem com o Miguel Rosa, conversávamos, brincávamos. Mas eu tinha muito respeito e muito carinho por todos os jogadores do Belenenses. Maurides num lance acrobático com Sebastián Coates, do Sporting, em 2017 Gualter Fatia Porque acabou por sair para o CSKA da Bulgária, em 2018? Na minha primeira época no Belenenses eles já me queriam comprar, mas julgo que deram um valor que o Belenenses não aceitou. No ano seguinte melhoram a proposta e o Belenenses aceitou. Como foi o primeiro embate em Sófia? Eu ainda não falava inglês, tinha que ter sempre alguém para traduzir, por isso no início foi um pouco difícil. Mas sempre fui uma pessoa que se adapta muito rápido às coisas, ao país onde estou. Fui com a família, só que na altura a minha esposa não gostou do país, foi embora para o Brasil e já não voltou. Fiquei praticamente sete meses sozinho. O que achou do futebol na Bulgária? Gostei. É um futebol de contacto, muito forte, do jeito que gosto de jogar. Estreou-se nas competições europeias, na Liga Europa. Que tal a sensação? Fiz golo contra o Copenhaga, em casa. Foi bom. Do que mais se recorda desses sete meses em Sófia? Lá eu não saía muito, porque como não falava inglês tinha um pouco de medo de sair à rua sozinho. Ficava em casa a jogar videogame. Havia outros brasileiros na equipa e reuníamos em casa uns dos outros. Gostou dos búlgaros? Foram muito simpáticos. Eu ouvia as pessoas dizer que eles são frios e tudo mais, mas não tenho razão de queixa. Como somos jogadores de futebol é normal que toda a gente queira ser simpática. Porque só ficou sete meses? Fui vendido para a China. O clube devia estar a precisar de dinheiro ou algo assim. Spoiler “Depois de sair da Coreia fiquei mal. Quando cheguei ao Brasil entrei em depressão, comecei a beber muito e fiquei oito meses sem jogar“ Aos 32 anos, o brasileiro Maurides, que diz sentir-se um “guri“ de 22 anos, conta nesta II parte do Casa às Costas como foi a experiência de jogar na China e na Coreia do Sul, de onde saiu com uma depressão que quase o fez deixar o futebol. Foi a mulher quem o salvou, e Deus. Voltou à Europa para jogar no Radomiak Radom, antes de cumprir duas épocas na II Liga alemã e meia na Hungria. De regresso à Polónia, fala-nos do treinador Gonçalo Feio, do apoio à entrada de Bruno Baltazar e confessa estar a viver um período muito feliz, a poucos meses de ser pai pela terceira vez Quando o CSKA lhe falou em ir jogar para o Changchun Yatai, da China, como reagiu? A primeira coisa que me disseram foi o valor do salário que ia receber e aceitei na hora, porque era o quíntuplo, ou mais, do que ganhava. O choque na China foi maior? Foi. É uma cultura totalmente diferente da minha e eu também não falava inglês. Disseram-me que o clube ficava numa cidade pequena, só que a cidade pequena deles tinha oito milhões de habitantes. Como eu sou muito diferente deles, quando saía à rua parecia que eles tinham um pouco de medo de mim. Às vezes tiravam fotos do meu rosto. Era engraçado ao mesmo tempo. O que mais estranhou na cultura chinesa? A comida. Na maioria dos restaurantes tínhamos de comer com pauzinhos, não tinham garfo e faca. Estive sozinho, mas depois um amigo do Brasil ficou lá um tempo comigo. E o futebol? Muito fraco? Do futebol não gostei. Não são muito de contato e, como sou uma pessoa muito grande, qualquer coisinha eles caíam no chão a gritar, parecia que eu lhes tinha partido uma perna. Quando isso começou a acontecer eu disse logo que queria ir embora, não dava para eu jogar ali. Por isso fiquei uma temporada só. Como passou logo a seguir para o FC Anyang, da Coreia do Sul? Como eu estava na China, um empresário coreano que me tinha visto jogar ligou para o meu empresário da altura e disse que tinha uma proposta para eu ir para a Coreia. Os valores eram ligeiramente abaixo dos da China, mas também era um valor muito bom e aceitei. Eles foram muito mais recetivos, saíam para jantar com os estrangeiros. Brincavam connosco, tentavam introduzir-nos na cultura deles, foi muito diferente, foi um dos países que mais gostei. Na China, como muitos estrangeiros estavam a ir para a China e os chineses sabiam que ganhávamos muito mais do que eles, tinham ciúmes. Em 2019, Maurides foi jogar para o Changchun Yatai, da China Fred Lee Estava na Coreia do Sul quando surgiu a pandemia? Eu tinha voltado para o Brasil. Porquê? A pandemia surgiu quando eu tinha acabado de sair da China. Fui para o Brasil e três meses depois é que fui para a Coreia. Foi um momento muito difícil, porque treinámos praticamente três, quatro meses sem ter jogos. Também foi sozinho? Sim. Quando saí do CSKA e voltei para Brasil, eu e a mãe da minha segunda filha terminámos a relação. Por isso tanto na China como na Coreia já estava sem família. Tem histórias para contar da China e da Coreia? Na China o que mais gostava de fazer era comprar aqueles espetos de carne que eles vendem na rua e sentar-me num banco a comer tranquilo. Na Coreia ia muito para Seul, porque ficava a 30 minutos de carro da cidade onde morava. Foi um dos países que mais gostei, gostei da comida, já tinham restaurante brasileiro. O futebol coreano, melhor que o chinês? Era a mesma coisa, só mudava o país. Em 2021/22 foi jogar para o Radomiak Radom, da Polónia. O que aconteceu entretanto? Quando saí da Coreia tive uma depressão muito forte. Na Coreia comecei a jogar, estava bem nos jogos, mas depois o treinador disse-me que eu não era jogador dele, então não iria jogar. Depois disso, fiquei praticamente seis meses sem ir a um jogo sequer. Fiquei mal e quando cheguei ao Brasil entrei em depressão, comecei a beber muito e fiquei oito meses sem jogar. Não queria mais saber do futebol, queria parar de jogar. Foi então que conheci a minha atual esposa. Foi Deus que colocou ela na minha vida. Como ela se chama e como se conheceram? Chama-se Mayke, tem origem alemã. Conhecemo-nos numa festa. Mas só cruzamos olhares. Ela estava com um amigo que eu conhecia. Eu tinha um amigo homossexual, que era de festas e nós saíamos juntos. Quando a vi perguntei-lhe quem era aquela loira. Apaixonei-me de caras. Pedi-lhe o Instagram dela, falei com ela, e nessa altura eu estava com 112 quilos. O que fazia a Mayke profissionalmente? Era patinadora e professora de patinagem. Também era atleta. Começámos a relacionar-nos e houve um dia em que ela disse-me: “Eu sei que estás mal, estás com depressão, andas a beber, mas não podes ficar assim se queres viver comigo. Ou vais jogar e fazer o que tu amas, ou vais trabalhar, mas aqui comigo não vais ficar assim, sem fazer nada.“ Foi aí que a minha chave virou. De que forma? Parei de beber, acordava às 6 da manhã, ela levava-me para a academia, diariamente. Em menos de um mês ela fez-me perder 12 quilos, com treino. Salvou-me, porque se não fosse ela não sei onde estaria hoje, se estaria a jogar, se estaria vivo, porque bebia muito mesmo, devido à depressão. Maurides (à esquerda) em ação pelo Changchun Yatai Fred Lee Como reagiram os seus pais e irmãos a esse momento de depressão? Eu não lhes contava nada. Quando eles ligavam eu dizia que estava tudo bem. Não queria magoar a minha família. Sabia que se contasse isso para a minha mãe ela iria ficar muito mal. Deixou de beber, perdeu peso, mas a verdade é que esteve oito meses sem jogar. Como conseguiu ir para a Polónia em 2021/22? Na altura, o Raphael Rossi, central brasileiro que está a jogar em Portugal, jogava no Radomiak da Polónia. Já tínhamos jogado um contra o outro quando eu estava no Arouca e ele no Boavista. Seguíamo-nos no Instagram e ele perguntou-me se eu estava livre no mercado. Disse que sim, mas que tinha tido uns problemas pessoais. Ele perguntou se eu queria ir jogar para a Polónia, porque o diretor estava a perguntar. Eu estava parado, sem nada, resolvi fechar o olho e fui. Vou-te dizer, os primeiros cinco meses foram muito difíceis. Porquê? Porque a minha esposa tinha ficado no Brasil, ela não podia ir comigo porque tinha o trabalho dela e estava a preparar-se para uma competição muito importante. Eu estava acostumado a ficar com ela praticamente o dia todo, ela ajudava-me muito. Comecei a entrar em depressão de novo, na Polónia. Estive cinco meses em que só ia treinar, voltava para o hotel e não saía mais. Foi bem recebido no clube? No início foi difícil, porque não falavam muito comigo, acho que isso também pesou para eu me ir abaixo novamente. Mas depois de começar a haver mais intimidade, eles viram que eu não era uma pessoa má e comecei até a sair mais com os polacos do que com os estrangeiros, os portugueses ou brasileiros. Porque acolheram-me de uma maneira que me senti muito bem. Eu era o único estrangeiro que saía só com os polacos. E o futebol? Muito físico, muita correria, do jeito que gosto. Assinou por três anos, mas só ficou ano e meio. Porquê? Fui vendido para o FC St. Pauli, da Alemanha. O clube passava por um problema financeiro muito sério, seria um dinheiro que iria ajudá-los muito, conversámos e decidi ir. Na época 2022/23, o avançado brasileiro assinou pelo FC St. Pauli, da Alemanha Cathrin Mueller Também foi sozinho para a Alemanha? Não. A minha esposa já estava comigo. Ela ainda viveu um ano comigo aqui na Polónia. Ela adaptou-se bem à Polónia? No início foi difícil. Mas ela foi-se adaptando. Onde acho que ela sofreu mais foi na Alemanha. Porquê? Porque não podia trabalhar, não conseguia patinar, o tempo não ajudava, não víamos muito sol, era mais chuva. Ela nunca tinha ficado tão longe da família, mas eu também estava lá para ajudá-la, conversávamos, entendíamo-nos. Na Polónia ela tinha conseguido patinar? Na Polónia tínhamos um campo de skate perto de casa, íamos para lá e eu filmava-a a patinar para ela colocar no Instagram. Depois fomos para a Alemanha e passado uns tempos, quando começámos a conhecer e a entender mais um pouco da cidade, conhecemos outros brasileiros e uma portuguesa, dona de um salão de cabeleireiro, a Teresa Leite, que foi uma das mulheres que mais nos ajudou. Gostamos muito dela. Ela e a família são do Porto. A partir daí foi mais fácil, encontrámos um lugar para a minha esposa patinar e trabalhar. Porque ela é professora de patinagem online. Ela precisa fazer vídeos para a plataforma dela. Com que opinião ficou dos alemães? Achei-os mais frios do que os polacos. Muito mais. Os alemães acham que são melhores que todo o mundo, era essa a perspetiva que eu tinha lá. Mas havia alemães muito bons também, tenho vários amigos. O Andrés era um adepto com quem eu conversava tanto na internet, como depois pessoalmente. Acabámos por nos tornar amigos até hoje. Ele já foi a minha casa, eu já fui a casa dele, foi uma das pessoas especiais para mim naquele momento. O clube estava na II Liga alemã, na segunda época são campeões e garantem o acesso à Bundesliga. Mas não jogou muito em ambas as épocas. Porquê? Eu também não sei o porquê. Acho que o treinador não me deu muita oportunidade para jogar. Ele tinha os jogadores dele e não tive muitas oportunidades. Mas nunca reclamei, nunca briguei, sempre fiz o meu trabalho bem feito, sempre treinei 100%. Maurides em ação pelo FC St. Pauli Cathrin Mueller Gostou do futebol na Alemanha e de viver em Hamburgo? Sim, é muito bom, talvez o país onde mais gostei do futebol. É muito rápido, muito técnico, muita força física também, tudo junto. Nas primeiras duas ou três semanas tive que ralar muito para conseguir chegar ao nível deles. Hamburgo é uma cidade muito bonita e boa para viver. A única coisa que eu e minha esposa não gostávamos era do clima, no resto era bom. Quando venceram o campeonato a festa superou as expectativas? Muito. Foi uma coisa surreal. No dia da festa tivemos mais de 100 mil adeptos connosco na rua. Nunca vou esquecer. Em 2024/25 acabou por só fazer um jogo na Bundesliga. Porquê? O treinador conversou comigo no início, disse que gostava do meu estilo de jogo e tudo mais, só que nunca tive uma real oportunidade de jogar e acabei por pedir para sair para a Hungria, no momento em que tive a proposta do Debreceni. O diretor-desportivo deles mandou-me uma mensagem no Instagram a perguntar se queria ir para lá, como estava sem jogar e precisava jogar, aceitei de caras. Fui ganhar menos, mas naquele momento não estava a pensar no dinheiro, mas em fazer o que sei fazer melhor e estar feliz. A única coisa que queria era poder jogar, poder mostrar o que podia em campo. Foi fácil rescindir? Conversámos com o clube, com o diretor, que é uma pessoa fenomenal, sempre me ajudou, e acabou por me deixar sair, por seis meses. Fui muito feliz, acho que foi um dos momentos onde fui mais feliz. Eu e a minha esposa, porque nos reencontrámos com Deus, começámos a estar mais perto de Deus. Foi um dos momentos mais felizes da nossa vida.. Frequentavam alguma igreja na Hungria? Não. Fazíamos videochamadas com o meu irmão Maicon, ele lia a Bíblia para nós. Ele é evangélico. Começámos a ler mais a Bíblia, a querer entender mais, a querer saber mais dessas coisas, parámos de sair, parámos de beber, começámos a focar mais em Deus, no nosso trabalho, no meu e no dela. Foi uma reviravolta na nossa vida. Maurides recebe um amarelo do árbitro Felix Zwayer durante um jogo pelo FC St. Pauli picture alliance Gostaram do povo húngaro? Tem pessoas que são boas e tem pessoas que são más, como em todo mundo. Muitas vezes os húngaros são acusados de serem xenófobos. Exatamente. E foi uma das coisas que não aconteceu comigo, mas aconteceu com companheiros da equipa. Os nossos próprios adeptos foram racistas com jogadores nossos. Isso é uma das coisas que não aceito e nunca vou aceitar, mesmo não sendo comigo. Não podemos aceitar nunca pessoas racistas, homofóbicas, o que for. A vida é de cada um, nem eu nem ninguém pode opinar, ser racista ou homofóbico ou qualquer coisa. Essa foi uma das coisas que não gostei de lá. Tem alguma história que possa contar? Tivemos um jogo que tínhamos de ganhar e um dos adeptos do nosso próprio clube começou a chamar nomes racistas a um companheiro da equipa. Começou a dizer “vai comer banana“ e mais não sei o quê. Foi das coisas que mais me deixou indignado na vida. Depois os adeptos foram ao nosso centro de treino e pediram desculpa, mas não aceitámos, porque isso não se faz com ninguém. Fora isso foi um país muito bom, é muito bonito. Que tal o futebol na Hungria? É bom, mas não tanto como o alemão. Não era um futebol muito competitivo. Estava emprestado e terminava contrato com o FC St. Pauli, no final dessa época 2024/25. Como acabou por ir de novo para o Radomiak, da Polónia? Na temporada passada eles já tinham tentado trazer-me para cá, só que o clube alemão não me liberou. Quando voltei da Hungria para a Alemanha, voltei numa condição física muito melhor do que tinha quando saí. Mas sabia que não ia ter oportunidade de jogar. O meu empresário, que é polaco, conversou com o diretor do clube alemão e acabaram por me libertar para eu vir para o Radomiak. Em 2025/26, o avançado brasileiro voltou ao Radomiak Radom, da Polónia Mateusz Slodkowski Desde que chegou ao Radomiak que já teve três treinadores portugueses. Primeiro foi o João Henriques, depois o Gonçalo Feio e agora o Bruno Baltazar. Dos três, com qual preferiu lidar? Para mim, os três foram muito bons treinadores. Não tive problema com nenhum deles. Sempre procurei respeitar e fazer exatamente o que queriam dentro de campo. Gostei dos três. Gonçalo Feio é conhecido por ser um treinador emotivo, muito direto e bruto na forma de comunicar. Tendo em conta o que disse no início da entrevista, que não gosta que gritem consigo, como se deram? Tem um ditado que diz que doido se dá bem com doido, então, sei que ele era um pouco bruto, eu também sou assim, por isso, demo-nos muito bem. Gosto muito dele. Não queríamos que ele saísse, mas ele tomou a decisão dele e eu entendo. Ele é muito bom treinador e boa pessoa. Ok, é muito explosivo, mas eu gostava muito dele como treinador. No início sentimos muito a saída dele, mas temos uma equipa técnica excelente, foi melhorando tudo e chegou o Bruno Baltazar que é um excelente treinador, uma excelente pessoa. O Bruno Baltazar alterou muito a forma de jogar que o Gonçalo Feio tinha implementado? Não, não alterou muito. Claro que cada treinador tem a sua maneia de jogar e já nos adaptámos um pouco à forma que ele quer. Estamos muito felizes por tê-lo aqui. Fui uma das pessoas que quando surgiu a oportunidade de ter ele ou outro treinador, optei por ele; fui uma das pessoas que pediu para o diretor trazer o Baltazar porque na época passada, quando o Radomiak queria trazer-me para cá, era ele que estava aqui e conversámos. Todos os que trabalharam com ele na época passada também disseram que ele é uma boa pessoa, um bom treinador, um treinador honesto, que faz de tudo pela equipa. Qual era a alternativa? Não me lembro se era um treinador da Bélgica ou da Holanda, alguma coisa assim. Acho que era um auxiliar da Holanda. Tem contrato até 2028. O objetivo deste ano é a manutenção? Exatamente. Acho que ainda temos chance de cair na Conference League, só depende de nós, porque os pontos estão todos muito próximos. Estamos em 14º mas apenas a três pontos do 9º. Notou grandes diferenças entre o futebol polaco de 2021 e o de agora? Agora está um futebol mais forte, mais contacto, mais força, mais veloz. Já voltou a ser pai? Não, mas a minha esposa está grávida de sete meses de um menino que se vai chamar Morgan. Deverá nascer aqui na Polónia porque quando acabar a temporada ela já não vai conseguir viajar. Maurides a estejar um golo com Karol Angielski, do Radomiak Radom SOPA Images Está com 32 anos. Tem alguma meta para deixar de jogar? Vou até onde o meu corpo deixar. A partir do momento que vir que não consigo ajudar a minha equipa, que não consigo mais correr, é hora de parar. Mas neste momento, com 32 anos, sinto-me um guri de 22 [risos]. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as botas? Ainda não pensei se vou trabalhar com futebol. É algo que tem de ser bem pensado, porque o futebol hoje não é fácil, não há muita gente que seja honesta, verdadeira, então tenho de pensar bem se vou ser empresário, se vou ser treinador ou alguma coisa assim. Vou ter de sentar com a minha família, com a minha esposa e ver exatamente o que vou fazer. Tem contacto com as suas duas filhas? Sim, converso com elas. Continuamos a ter contacto e a estar juntos quando é possível. Onde ganhou mais dinheiro em toda a carreira? Na China. Deu para investir? Sim, em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Uma vez aluguei uma casa grande para a família toda curtir, todos juntos. Já sabemos que é um homem de fé. E superstições tem? Sempre acreditei em Deus, tudo o que tenho hoje foi Deus que me deu, a qualidade para jogar futebol, a força, a vontade. Não tenho superstições. Quando fez a primeira tatuagem e o que é? A primeira tatuagem foi o nome do meu pai e da minha mãe. Tinha 15 anos. O meu pai foi comigo. O meu pai sempre teve na ideia que se o mais velho dos filhos fizesse, o mais novo também ia fazer, então todo o mundo fazia igual. Se o mais velho colocasse brinco, o do meio e o mais novo colocavam, o meu pai tinha isso. Sabes quantas mais tatuagens fez? Acho que tenho umas 20 tatuagens. Acompanha ou pratica outra modalidade? Adoro UFC. É uma das coisas que sempre gostei. Quando estive na Coreia e na China fiz kickboxing, já fiz jiu-jitsu também, capoeira, todo o tipo de luta eu gosto. O avançado em ação pelo Radomiak Radom Foto Olimpik Qual a maior frustração que tem na carreira? A forma como fiz lesão no joelho na Alemanha. Como foi? Foi num treino. Fui fazer um passe, escorreguei e rompi o menisco. Assim, sozinho. A minha perna direita escorregou, travou o meu joelho e quando fui ver tinha dado cabo do menisco. Estive seis a sete meses parado. E o maior arrependimento? Acho que não tenho. Tudo que aconteceu na minha vida aconteceu para uma aprendizagem, então, não me arrependo de nada que fiz e nunca me vou arrepender. O momento mais feliz na carreira? Ter conquistado o campeonato alemão da II Liga. Um objetivo que ainda está por cumprir? Ajudar a minha equipa a manter-se na I divisão aqui e poder dar tudo de melhor para a minha família, para a minha esposa e para o meu filho que está vindo. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? No FC Porto. Porquê? Porque meu irmão jogou no FC Porto e sempre gostei do FC Porto. Quais são as maiores amizades que fez no futebol? Tenho muitas. Uma delas é com quem mais me identifico no futebol, o meu capitão aqui, o Leo [Leandro]. Considero-o como um irmão. É uma pessoa que me ajudou muito desde a primeira vez que joguei na Polónia. Tem ou teve alguma alcunha? Quando eu jogava na China eles chamavam-me de “niú“, que em chinês quer dizer touro, por ser grande e diferente deles. Maurides tem contrato com o clube polaco até 2028 Eurasia Sport Images Há alguma regra do futebol que se pudesse alterava, ou bania? Não. Qual o adversário mais difícil que enfrentou até hoje? A defesa do FC Porto e o Luisão, do Benfica. Se pudesse escolher, qual o jogador com quem gostava de jogar na mesma equipa? Com o meu irmão. E contra quem gostava de jogar? Contra o Messi ou Cristiano Ronaldo. Qual foi o campeonato que mais gostou de jogar até hoje? O português. Se não fosse jogador, o que teria sido? Lutador. Tem algum talento escondido? Não incomodar a minha esposa, isso é o meu maior talento fora o futebol [risos]. Está feliz? Estou a viver um momento muito bom na minha vida familiar e na minha profissão. É o momento que estou mais feliz, também porque há esta aproximação com Deus. 2 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Maio 10 Ricardo Guimarães (Guima) Spoiler “O João Alves é o pior treinador que apanhei, não percebia nada daquilo. Mas fez milagres. Dizia: ‘Vou fazer uma caldeirada e isto vai dar‘” Ricardo Guimarães, mais conhecido por Guima, de 30 anos, iniciou o seu percurso no Taboeira, em Aveiro, e apesar de ter tido hipótese de jogar pelo Benfica, aos 12 anos, e mais tarde no Sporting B, foi no UD Oliveirense que se estreou na II Liga. Com passagem na Académica antes de ter a primeira experiência fora, na Polónia, o médio diz que a sorte raramente esteve do seu lado, mas ainda assim sente orgulho no percurso que foi construindo e sobre o qual falámos nesta entrevista Nasceu em Aveiro. É filho de quem? De um trolha e de uma contabilista. Tem irmãos? Tenho dois irmãos mais novos do mesmo pai e mãe e mais dois irmãos pequenos, da parte do meu pai, que há 14 anos foi viver para Moçambique. O seu pai é moçambicano? Não, a minha mãe é que é. Ela foi para Portugal com 5 ou 6 anos. Foi uma criança calma ou deu grandes dores de cabeça? Era irrequieto. Uma vez atirei-me para cima de uns catos, eu não sabia o que aquilo era, e fiquei com o rabo cheio de espetos, que a minha mãe depois teve de tirar [risos]. A minha mãe diz que quando eu fazia birras gostava de fingir que batia com a cabeça no chão, até que ela dizia para eu tirar as mãos, eu tirava e dava mesmo com a cabeça no chão, andava sempre com galos. [risos] O que dizia querer ser quando fosse grande? Este sonho de ser jogador acaba por ser um sonho partilhado com o meu pai. O meu pai nasceu numa família numerosa muito humilde. Ele tinha 12 irmãos, chegou a ir à RTP e tudo por causa disso. Ele ia ser jogador, porque com 16 anos teve contactos para ir para o FC Porto e para o Benfica. Mas, um dia, numa matança de uma vaca ou porco, já não me recordo bem, o pai dele sem querer acertou-lhe no tendão de Aquiles e pronto, acabou ali a carreira dele, aos 16 anos. Acho que trouxe um bocadinho depois para mim esse sonho. Ele sempre foi muito exigente comigo. Hoje sinto-me orgulhoso porque acho que era um desejo dele tornar-me profissional e fazer disto vida. Acho que por isso foi um bocadinho por aí que fui encaminhado na minha adolescência. Apesar de, a partir de certa idade, com 13, 14 anos, também nos dedicamos mesmo. Com 12 anos, se não me engano, estive no Benfica e quando tive essa oportunidade comecei a pensar que isto poderia vir a ser a minha vida. Ricardo Guima ao colo dos pais D.R. Começou a jogar futebol no Taboeira? Sim. Na altura tínhamos o Taboeira e o Beira-Mar, as duas maiores potências e rivais. Como nós vivíamos em Taboeira, fui para lá. Gostava da escola? Até certa idade gostei. Nunca fui um aluno de excelência, mas sempre fui um aluno que cumpria e passava de ano com tranquilidade. Na transição do 9º para o 10º ano é que foi um bocadinho mais complicado, porque tinha de optar por uma área e acabei por não concluir o 12º ano. Quem eram os seus ídolos? Gostava muito do Nedved, estava na Juventus. Se começarmos a falar mais para a frente, depois temos o Xavi, o Iniesta, o Beckham, o Ronaldinho, mas o jogador com quem mais me identifiquei, é um jogador que não tem nada a ver com a minha posição: o Rooney. Por que gostava dele? Por causa da maneira de ele jogar, a garra, a entrega, o não desistir dos lances, o andar ali sempre a bater neles, gostava muito e revia-me. Ricardo Guima em bebé D.R. Em criança era adepto de que clube? O meu pai sempre foi portista e sempre me tentou convencer. Mas quando fui para o Benfica vi o quão grande é um clube. Entrei naquele mundo e não conhecendo mais nada, acabei por ter uma visão completamente diferente daquilo que é a grandeza do Benfica. Como é que lá foi parar aos 12 anos? Vou lá parar porque era um dos destaques do Taboeira e na altura houve uma parceria com as escolinhas, acabaram por selecionar alguns jogadores, foi um colega comigo, do meu ano, e dois mais velhos. Começámos a treinar três vezes por semana em Lisboa, no Benfica. Eu tinha de faltar às aulas, o meu pai muitas vezes tinha de faltar ao trabalho e fazíamos uma barca com o pai do outro colega, íamos os quatro. Como foi o primeiro impacto no Benfica? Somos pequenos mas vemos logo a diferença da qualidade. Ali reúnem os melhores jogadores e a maneira com que trabalhávamos, mesmo em miúdos, o trabalho tático que já existia, dá-nos logo outras ferramentas. Fiquei muito impressionado com isso. Nunca tinha visto nada assim e se calhar num ano foi o que mais me ajudou. Depois acabei por voltar para o Taboeira. Porquê? Porque o Benfica queria que passasse a ir quatro vezes por semana e como a minha família não tinha muitas posses e o que eles davam não era suficiente, vimos que não faria muito sentido porque era muita sobrecarga; mesmo em relação ao trabalho do meu pai era complicado porque ele tinha de faltar muitas vezes e eu faltava à escola. Fiquei um bocadinho triste e com a sensação que a minha vida se calhar até podia ter sido diferente, mas pronto. Na altura disseram que a academia estava cheia, mas a verdade é que, no calão do futebol, eles tinham trazido um contentor de África e aquilo realmente estava cheio. O meu colega optou por continuar e no ano seguinte mandaram-no embora porque faltava-lhe x centímetros; ele era central. Guima em bebé com os avós maternos D.R. Quando passou a acreditar que o sonho de ser jogador profissional podia ser mesmo uma realidade? Na transição de juvenis para juniores, na altura em que vou para a Oliveirense. Sinto que se quero fazer disto vida tenho que mudar para um clube que esteja na competição nacional. Na altura, na envolvente a Aveiro, quem disputava o nacional em juniores era o Oliveirense. Acho que o Beira-Mar também estava mas não era uma opção para mim, nunca tive muita ligação ao Beira-Mar. Ficou quatro anos no Oliveirense. Foi que se tornou profissional? Sim. Após o primeiro ano assinei contrato profissional. Qual foi o valor do primeiro ordenado? Acho que era €680, mas eu só recebia €400. Éramos miúdos, era assim, não havia explicação. O que fez com o primeiro dinheiro que ganhou? Devo ter estourado tudo com os meus amigos. Ainda vivia em casa dos pais? Não. Mudei-me para Oliveira de Azeméis, primeiro vivi sozinho e depois comecei a viver com os seniores. Foi muito difícil deixar a casa dos pais? Sinceramente, não. Foi fácil, eu já era um bocado organizado, já gostava de ter o meu espaço, fazia as minhas coisas, mesmo a nível de comida, se tivesse que fazer, fazia. Ricardo Guima (no centro na fila de baixo) começou a jogar no Taboeira com 7 anos D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios? Nunca tive assim grandes namoros. As saídas à noite já aconteciam antes, mas nessa fase de juniores em Oliveira nós tínhamos um grupo muito bom e as coisas estavam a correr bem aí é que se calhar começaram mais a sério as saídas à noite. Recorda-se de alguma história engraçada desses tempos? Uma vez na festa de Sampaio, uma festa na praia que envolve muita gente, estávamos todos lá a curtir e nós tínhamos um colega que cada vez que bebia um bocadinho mais, se alguém falasse para ele, ele não tinha muito problema em dar logo uma murraça. Estávamos encostados a um carro a falar, a beber uns copos, tranquilos, ele às tantas chateou-se e deu um murro no carro. Quando ele dá o murro, as quatro portas abrem automaticamente e saem quatro pessoas do carro. Não repararam que havia gente no carro? Não. Ele chateou-se com o que estávamos a falar, deu um soco no vidro do carro, irritado. Claro, começou a haver cabeça com cabeça, e ele não tem mais nada, dá uma murraça num gajo. A seguir, aconteceu a coisa mais estranha que já vi na vida. Nunca vi tantas pessoas a correr atrás de um tipo. Contado não dá para ter perspetiva, mas era mesmo muita gente a correr atrás dele. Uns a tentar dar-lhe murros, outros a tentar rasteirá-lo… Ele teve a sorte de encontrar a polícia, porque senão estava lixado. [risos] Guima, com 10 anos, levanta o troféu de melhor jogador de um torneio, pelo Taboeira D.R. Nesses tempos de formação houve algum treinador que o tivesse marcado? O Chico Rosas, que era da Taboeira. Ainda hoje é uma joia de pessoa, e foi o nosso treinador durante muito tempo, mas houve sempre uma ligação muito boa com os jogadores, criámos um ambiente muito familiar. Tínhamos também o nosso diretor, o Paulo Bóia, e a mulher, a Marina, que andava sempre com uma mini na mão. Ainda hoje, sempre com uma mini na mão, onde quer que seja têm uma mini na mão. Isso não pode faltar. Recorda-se da primeira vez que foi chamado para treinar com a equipa principal do Oliveirense? Já no meu segundo ano comecei a fazer a pré-época com a equipa A. Na altura o treinador era o João de Deus. Tenho a sorte de ter apanhado os dois mundos do futebol. Apanhei o antigo, a transição e o agora. O futebol está muito diferente. Para melhor ou para pior? Depende do ponto de vista. Se for falar naquilo que é pior agora, é a questão dos mais novos não respeitarem muito os mais velhos e serem mais empoderados. No meu primeiro e segundo ano de sénior nós não podíamos levantar a voz, não podíamos falar; hoje os miúdos falam, falam, falam e não respeitam os mais velhos, não respeitam nada e isso é negativo. Agora, obviamente que o futebol evoluiu e a aposta nos jovens é boa; acaba por ser até se calhar em demasia porque isto é um negócio, isto já não é futebol. Guima (com a perna esticada) esteve um ano a treinar no Benfica, tinha 12 anos D.R. Lembra-se da estreia pela equipa principal na II Liga em 2013/14? Lembro-me que ia estrear-me, ainda júnior, e não estreei porque tinha qualquer coisa da escola, não sei se era a prova da aferição, que era importante, e não pude ir. Só me estreei depois, quando me tornei sénior. Enquanto sénior que memórias maiores tem desses anos no Oliveirense? No meu segundo ano de Oliveirense houve aquele caso das apostas. Houve muitos resultados combinados. Lembro-me de um jogo no Oriental em que um jogador no final virou-se para mim e disse: “Mais uma ganha.“ Na altura, ingénuo, não percebi o que era aquilo. Mais tarde veio a saber-se que havia malta que se metia nas apostas. Houve malta detida e que teve de deixar jogar futebol profissional porque ficou comprovado que isso tinha acontecido. Alguma vez foi abordado? Não. Reparou em algo estranho durante os jogos? Existem vídeos, não é? Por exemplo, muitas vezes parecia que a malta apostava em cantos. A malta em vez de chutar para outro lado, metia para canto. E a realidade é que a média na altura era de 14 cantos por jogo, um facto estranho, mas eu não pensava naquilo, era novo, ingénuo, estava naquele mundo há um ano, não tinha ideia. Antigamente também não tínhamos tanta informação como temos agora. Foi um choque quando no final do jogo, julgo que contra a equipa B do FC Porto, tínhamos a polícia à espera para levar alguns jogadores. Fiquei um bocadinho à nora, meio assustado, não sabia o que se passava, o que estava a acontecer. Só mais tarde vim a perceber e comecei a associar certos comportamentos. O adolescente Guima D.R. Ficou no Oliveirense até aos 20 anos e depois vai para o Sporting B. Como? Antes fui treinar ao Braga B, do Abel Ferreira, e no pouco tempo que lá estive vi que o Abel tinha qualquer coisa de diferente. Era muito inteligente naquilo que dizia, na forma como punha a equipa a jogar, era incrível. Mas depois acabou por surgir a oportunidade de ir para o Sporting B. Foi um stress porque o Oliveirense pedia dinheiro, tive de ir falar com o presidente, pedir por favor que fizesse um acordo qualquer porque era a oportunidade da minha vida. Porque entrando nesses clubes se calhar acaba por ser um bocadinho mais fácil que a vida nos leve para cima. Fiz a choradeira e lá conseguiram chegar a um acordo. Foi viver sozinho para Lisboa? Na altura já namorava com aquela que viria a ser a mãe dos meus primeiros dois filhos. Mas primeiro fui sozinho, só depois é que ela foi ter comigo. Comparativamente com o Benfica, como foi entrar no Sporting? A mesma sensação de grandeza? São coisas diferentes, porque ali eu entro num contexto mais profissional. Acabei por viver um tempo na Academia, até encontrar casa, e deu para perceber um bocadinho como é que funcionava. Os meninos iam para a escola, iam para o treino e tinham atividades, tinham treinos específicos e deu para perceber que era um bocadinho idêntico na forma de trabalhar. O médio com 15 anos (é o que tem a braçadeira de capitão, em baixo), com a sua equipa do Taboeira D.R. O treinador era também o João Deus. Foi através dele que conseguiu ir para lá? Entrei por decisão dele. Assinei três anos, mais dois. Foi ganhar mais do que ganhava no Oliveirense, calculo? Era o contrato de base de formação deles: €2500 brutos. O que recorda dessa época no Sporting B? Quando cheguei foi um choque porque vinha de uma realidade de velha guarda, na II Liga, em que já tinha muitos pais de família na equipa, pessoas com vida feita e ali encontrei miúdos. O problema é que muitos desses miúdos têm o ego alto. Mas acabou por ser uma adaptação tranquila, havia um ou outro que tinha aquele ar de “eu sou o maior“, mas trabalhou-se bem. Guima (de vermelho à frente) fez os primeiros anos de júnior no Oliveirense D.R. Esteve numa equipa onde estavam jogadores que depois tiveram e têm muito sucesso, como o João Palhinha, o Rafael Leão e o Matheus Pereira. Na altura já dava para perceber que eram diferenciados? Aquele que de caras via-se que ia estar no topo era o Matheus Pereira. Ele parecia fazer as coisas todas fáceis; eu não entendia como era possível. Lembro-me de uma em que ele está no jogo, no meio de dois jogadores, pica a bola, parecia que estava a passo, tirou a bola, virou-se para o lado, chutou e golo. O Demiral, o central que agora está na Arábia, era um maluco. Se tivesse de ir com a cabeça ao chão para cortar a bola, ele ia. Não tinha medo de nada. O Geraldes, obviamente, foi outro que também me surpreendeu muito porque tanto jogava com o pé esquerdo como com o direito; e a leitura de jogo que ele tinha era muito interessante. O Gelson [Martins] também tinha um toque diferente. Estar naquele meio, com jogadores que fizeram a sua formação ali, é muito bom, porque acabas por estar a aprender com pessoas que têm muitas ferramentas. Mas houve dois que ficaram meus irmãos: o Diogo Nunes e o Ricardo Almeida. O que mais o marcou nessa época 2017/18? As convivências, a boa amizade que criei, tínhamos muitos jantares, às vezes íamos dar uma voltinha ao casino, ou até à praia. O jovem médio em ação pelo Olivierense D.R. Chegou a treinar com a equipa principal? Treinei três vezes, mas o mister na altura era muito complicado. Então? Levou muitas duras de Jorge Jesus? Não, porque nós nem interessávamos, nós éramos os 'mecos'. Nós íamos lá só para servir de 'meco', não era para fazer mais nada. O Palhinha, o Esgaio, que conseguiram entrar na equipa principal e estiveram lá muitos anos, eram 'mecos' que lá andavam. Uma vez, a equipa que não tinha jogado estava a treinar, eu até estava a ver o treino e o mister Jorge Jesus chegou: “Então pá, quem são estes?“; “É a equipa B, estão a treinar os jogadores que não jogaram“; “Ah está bem“, virou as costas e foi-se embora, como quem diz, esses não interessam. Ainda estava no Sporting quando houve a invasão à Academia? Estava no ginásio e só vejo gajos encapuçados a correrem. Foi um momento de aflição, mas não percebi o que se estava a passar. Fomos mandados embora e só pelas notícias é que começámos a perceber. Foi aí que a minha vida também alterou um bocadinho. Porquê? Porque aconteceu no final da época. Eu tinha feito uma boa época. Tinha corrido bem. Nós tínhamos-nos mantido. Estávamos tranquilos. Estava na esperança de dar o salto para a I Liga já nessa fase. E foi quando comecei a ligar para um, e tinha sido despedido, liguei para outro e tinha sido despedido. Aquilo estava tanto caos que eu não sabia já a quem ligar da estrutura para organizar a minha vida. Havia malta que dizia fala com este, ligava a este já não estava também. Foi uma razia, uma grande confusão. Na altura, o Augusto Inácio estava no Moreirense, tive uma proposta deles que acabou por cair por causa desse caos todo. O meu empresário, João Gonçalves, acabou por me levar para a Académica. Guima (no centro) jogou um ano pela equipa B do Sporting D.R. Nunca lhe passou pela cabeça jogar na equipa principal do Sporting? Obviamente tinha noção que era muito difícil entrar na equipa principal, tinha o exemplo de muitos jogadores que estavam lá há muito tempo na formação e que nem sequer tinham hipótese de entrar na equipa A, iam treinar mas era só isso. Por isso eu via o Sporting como uma rampa de lançamento para entrar na I Liga. Fiquei triste, mas a sorte também parece que nunca esteve do meu lado, e pronto, acabei num projeto de subida da Académica, onde passei anos muito bons também. Quando entrou na Académica quem era o treinador? O Ivo Vieira. Posso dizer já que são quatro os treinadores que mais me marcaram até hoje. O Ivo foi um deles porque a forma com que dava confiança e transmitia o jogo... A maneira como ele transmitia o futebol, era a essência do futebol, o trabalho tático que já era feito naquela altura... Nós jogávamos de olhos fechados, era incrível. Aquele foi o ano que mais senti o que era jogar futebol, o que era a paixão pelo futebol. Mas ele não ficou a época toda. O Ivo Vieira vai para o Estoril Praia e deixa-nos na mão. Se ele tivesse continuado subíamos de divisão sem dúvida nenhuma. Ele decidiu partir para a I Liga e aquilo afetou muito o grupo. Ele era maluco também nos jantares de equipa. Era capaz de tirar a camisola e soltava-se. Tem alguma história com ele? Lembro-me de um treino em que não podíamos levantar a bola mais de um ou dois metros do chão e só podíamos dar dois, três toques. Se a bola se levantava a dois metros do chão, ia para o adversário. Há um lance em que faço um passe longo, já tinha acontecido antes e ele não disse nada, mas a mim disse. Fiquei passado e acho que disse “vai para o car****“. Não sei se disse, há quem diga que sim, mas se disse foi inconsciente. Ele veio para cima de mim, começou a falar e mandou-me embora, fui tomar banho. Depois, falámos lá dentro, pedi desculpa e no dia seguinte ele, em frente ao grupo, disse: “Aquilo que aconteceu com o Guimarães já passou, não sou rancoroso. E o Guimarães vai jogar a titular.“ Deu-me uma confiança enorme. Percebi que com ele podíamos ser nós próprios. O médio com o companheiro do Sporting B, Luís Elói D.R. Depois chegou o Ricardo Soares. Acho que acaba por ser uma decisão da direção um bocado precipitada, porque são estilos completamente diferentes de jogo. O Ivo tinha um estilo ofensivo, o Ricardo Soares era um estilo defensivo, mais fechado, de transição. Não correu bem porque ele começou a mexer nas peças, a malta começou a ficar um bocadinho baralhada, não era aquilo com que estávamos identificados. Depois o Quim Machado veio só para acabar a época, não foi para trazer mais nada. Estava emprestado, mas fez a pré-época com a Académica, não foi? Sim. Voltei para a Académica. Tinha outras opções de II Liga, agora já não sei dizer quais. Só que não fazia muito sentido sair depois da época que tinha tido, e o carinho que tinha ali. Acabava por ser uma peça importante, pediram-me para renovar e acabei por ficar lá mais um ano emprestado. Senão me engano essa pré-época começou consigo a não se portar muito bem com uma árbitra. Quer contar o que aconteceu? Num jogo de apresentação com a Oliveirense, num impulso qualquer toquei no braço da árbitra. Aquilo deu um bocado de confusão, disseram que a tinha agarrado, mas não foi nada de especial, se fosse com um árbitro teria sido normal, não foi nada com força, mas foi um ato irrefletido da minha parte. Só que ela ficou muito chateada, ainda por cima ela era da Aveiro, se não me engano, já tinha apitado muitos jogos meus da formação. Ela não gostou, pedi desculpa, falei com ela. Mas, lá está, é a interpretação de cada um. Foi caricato porque trouxe problemas, ela até queria pôr um processo na altura, queria que eu ou o clube pagasse uma multa. Mas não tenho a certeza disto, não quero estar a dizer coisas que podem não ser, porque já foi há tanto tempo que também não me lembro bem. Sei que ela criou problemas e estava mesmo chateada. Mas era um jogo de pré-época, de apresentação do Oliveirense que ainda por cima era uma casa que me tinha projetado. Guima (1º em baixo à esquerda) com a sua equipa do Sporting B D.R. Teve três treinadores nessa época: Carlos Pinto, João Alves e Vitor Vinhas. O que pode dizer sobre eles? Quem começou foi o Carlos Pinto que depois saiu e entrou o velhote, o João Alves, o Luvas Pretas. Epá, ele fez milagres. O pior treinador que já apanhei, porque ele não percebia nada daquilo. Naquela fase onde ele estava, ele não percebia nada daquilo. Mas ele fez milagres porque trouxe alma à equipa. Acabou por trazer uma coisa diferente. Ele, por exemplo, nem sabia o nome do Hugo Almeida, que jogou na seleção nacional, no FC Porto, na Turquia. Já com três ou quatro meses de treino ele dizia: “Ó André anda cá“; “Não é André, é Hugo Almeida“; passado um bocado “Ó André Almeida, anda cá.“ Aquilo que ele fazia era uma caldeirada, tínhamos jogadores como o Traquina, que tinha 30 anos, e ele dizia: “Ó puto, anda cá puto, vou-te fazer jogador, tu com a tua qualidade vou-te fazer jogador.“ O Traquina era extremo, ele: “Não, tu és bom a jogar a 6.“ [risos] Depois metia o outro que era lateral a jogar a médio, tipo a 10, e dizia: “Vou fazer aqui uma caldeirada que isto vai dar.“ A verdade é que jogávamos em posições todas diferentes e de alguma forma resultou, conseguimos fazer uma época tranquila. O Vitor Vinha veio na fase final, julgo que já estava com o Luvas Pretas, era adjunto, acabou por ficar a assumir alguns jogos. Deve ter alguns episódios caricatos para contar dessa época. Tenho um com o Ricardo Soares, no ano anterior. O Ricardo Soares tinha um discurso que era muito engraçado. Nós estávamos numa fase boa na altura, ele não tinha mexido muito e cada palestra que dava ele dizia: “Eu já vos disse, eu quero uma foto. Eu quero pôr em minha casa uma foto. Nós vamos subir de divisão.“ Ele só falava da foto, até ir embora [risos]. Em todas as palestras dizia o mesmo, às tantas as coisas já estavam a correr mal e ele insistia na foto e só nos ríamos. Mas ela é boa pessoa. Depois da passagem pelo Sporting, Guima foi emprestado à Académica OAF D.R. Na época 2018/19 teve um azar. Sim, estive quatro meses parado. Fraturei o perónio num jogo contra o Estoril Praia. Antes disso, tive um lance em que levei 12 pontos, com ferida aberta. Foi o Fokobo, que até tinha jogado comigo no Sporting B. Deu-me uma porrada que tive que levar 12 pontos porque a caneleira partiu para dentro e rasgou-me a canela. Fiquei com aquilo ali aberto e nem falta foi, nem amarelo, nem nada. Depois, quando parti o perónio, foi a meio da primeira parte, um jogador do Estoril dá-me um contacto, senti qualquer coisa, pensei que tinha sido muscular, continuei a jogar até que ao acabar a primeira parte senti um estalo. Achei estranho, mas já não consegui apoiar o pé. Nesse dia fiz gelo, fui tranquilo para casa e só ia fazer exame passado três dias. Só que, entretanto, no dia seguinte à minha folga, fui dar um passeio por Aveiro e andava a mancar. Quando cheguei a casa tinha o pé completamente gelado. Não achei normal, liguei para os médicos do clube e fui fazer o exame no dia seguinte. E realmente tinha uma fratura no perónio. Estive três, quatro meses a recuperar. No início fiz a recuperação na Académica, mas como estava emprestado depois chamaram-me para concluir as sessões em Lisboa. Já tinha sido pai? Fui pai da Lara em 2019, no final dessa época. Fui para a Polónia e ela nasceu. Como surgiu a hipótese de ir jogar para o Lodzki KS, da Polónia? Em dezembro, antes da fratura, já tinha surgido o contacto, em janeiro eles apresentaram a proposta, estávamos em negociações. Entretanto, parti o perónio e vi a minha vida andar para trás. Também estava dependente deles subirem porque estavam na II Divisão. Apesar de ser um campeonato que não era visível, acaba por ter muita saída para países como a Turquia. Era uma boa oportunidade para mim, ia ganhar mais, podia mudar a minha vida, era mais um salto. Com a lesão fiquei um bocadinho na dúvida, eles acabaram por subir de divisão e continuaram a querer-me lá. Resolvemos tudo com o Sporting, já tinham passado os três anos, eles tinham a opção de mais dois anos, o meu empresário tinha boa relação com o Sporting e acabaram por chegar a acordo. Fiquei livre. Em 2019/20, o médio estreou-se no Lodzki KS, da Polónia D.R. Chegou à Polónia em 2019/20 para jogar no Lodzki KS, da II Liga, e não havia nenhum português na equipa. Sabia falar inglês? Como foi a adaptação? Safava-me no inglês e no espanhol também. Acho que foi um impacto bom. A maneira como eles trabalham é diferente, é mais físico. Eu, não sendo um jogador muito tecnicista, tenho qualidade, mas aquilo que me caracteriza mais é o poder físico e a minha disponibilidade, a minha entrega, portanto, enquadrei-me bem. O ambiente no balneário era muito diferente de Portugal? Um pouco, eles são um bocadinho mais fechados. Aquelas brincadeiras de balneário, de dar uma chapadinha no cu, já não se podia fazer ali [risos]. Na altura estava lá um espanhol e depois veio outro que hoje é um grande amigo, o Pirulo. A adaptação acabou por ser tranquila. O problema veio depois. O que aconteceu? Estava muito bem, as coisas estavam a correr bem. Tive a infelicidade de torcer o pé antes do primeiro jogo e estive parado nos primeiros dois jogos, mas depois as coisas começaram a correr bem. Só que a equipa era um bocadinho fraca, não tinha muita qualidade para estar naquela liga. Tinha sido uma equipa bem construída para aquele processo de subidas seguidas que passaram, porque foram mantendo a base, mas a diferença de nível da II Liga para a I foi um choque muito grande. A diferença de qualidade relativamente às outras equipas notava-se muito, o que se refletiu, porque acabámos por descer de divisão nesse ano, outra vez. Ou seja, subiram e desceram. Guima conduz a bola, pelo Lodzki KS D.R. Como era o seu dia a dia no início, sem a família lá? A minha vida fora do clube era treinar de manhã, almoçar em casa ou almoçar com os espanhóis, ligava a minha Playstation e seguia a jogar Call of Duty até às 10, 11 da noite. Também fazia as minhas videochamadas para casa, para a família, mas a minha rotina era um bocado isso. Tem alguma história que possa contar da Polónia? Tive um problema no clube: o diretor do clube era obcecado por mim. Ele sabia sempre tudo da minha vida. Tenho a certeza que tinha pessoas a seguir-me. Senti-me muitas vezes vigiado. Ele sabia sempre o que eu fazia, o que não fazia, se comia isto ou aquilo, era obcecado e tornou-se muito tóxico. Estava na minha vida tranquilo e ele, do nada, começava a mandar-me mensagens, ou ao meu empresário, a perguntar: “Porque é que o Guima está a fazer isto ou porque é que o Guima está ali.” Começou a ser um bocado difícil de lidar. Entretanto, surgiu a covid-19, em 2020. Já estava com a família? Ficaram na Polónia? Sim, elas foram ter comigo no início do ano e ficámos em lockdown. Não treinávamos sequer. Tivémos acesso a bicicletas em casa, mas só começámos a treinar passado um mês e tal. Foi um período difícil, fechado 24 horas em casa. Foi difícil para muita gente e não fugi à regra. A relação com a minha ex-namorada acabou por dar o estalo aí. Guima com os filhos mais velhos, Lara e Lourenço D.R. Mas não voltou a ser pai durante esse relacionamento? É assim: no final dessa época tínhamos decidido que não nos íamos prender por causa da nossa filha, e passado cerca de duas semanas de ter voltado de férias ela ligou-me a dizer que tinha feito um teste e estava grávida. Pronto, tentámos resolver de outra maneira. Como tínhamos descido de divisão, a minha intenção já era sair de lá. O meu salário baixava e com essa situação de já ter a menina e ela estar grávida era mais complicado. Tive uma oferta para o Azerbaijão, para esta equipa onde estou hoje, mas não aceitei. Porquê? Na altura, em consenso e para chegar a um acordo com ela, e o que seria melhor para os miúdos, como não sabia como era o Azerbaijão, decidi não arriscar. Mas tive de renovar com o Lodzki para poder sair por empréstimo para a Académica novamente. E ainda deixei lá dois salários. Tive de abdicar disso e assinar mais um ano basicamente. Spoiler “Quando apanhei o Rui Borges na Académica, nos jantares de equipa, eu levava sempre uma garrafinha de Beirão para partilhar com ele“ Ricardo Guima está a jogar no Azerbaijão e, apesar de ter mais um ano de contrato, confessa que gostava de regressar a Portugal já na próxima época. Pai de três filhos, o médio conta porque considera Rui Borges um grande treinador, explica como foi subir o GD Chaves, fazer a estreia na I Liga aos 26 anos e voltar a descer com o clube flaviense. Fala ainda da experiência na Turquia, antes de revelar que gostava de ser cozinheiro, mas também empresário Na época 2020/21 apanhou Rui Borges como treinador na Académica OAF. Com que impressão ficou dele? Top. Eu sou muito de toque. Gosto de pessoas de toque, gosto de sentir calor, gosto do carinho. Ele é isso. Tratava-me por filho e eu por pai. É uma pessoa cinco estrelas. Foi muito fácil adaptar-me ao sistema de jogo. A equipa foi fácil de ser construída. Infelizmente não conseguimos subir outra vez. Todos os anos em que estive na Académica aquilo foi uma luta para subir e no final acabámos sempre no quase. Mas foi uma época muito boa. Por exemplo, quando fazíamos jantares eu levava sempre a minha garrafinha de Licor Beirão para partilhar com ele, porque ele também gostava de um Beirãozinho. Lá íamos beber o nosso copinho, tínhamos a nossa conversa, tranquilos, os dois. Na altura acreditava que algum dia ele pudesse chegar a um dos grandes? Há três treinadores que tive que poderiam chegar a patamar altos, o Ivo Vieira, o Rui sem dúvida e o Vítor Campelos. Mas o Rui Borges é muito diferente, por exemplo, do Ivo Vieira, ou não? Sim. O Ivo é aquilo que é desportivamente, não te dá o extra futebol, fora das quatros linhas. O Ivo dá-te as ferramentas todas lá para dentro. Fora do futebol é tranquilo mas não há aquela confiança. O Rui dá-te as duas coisas. Consegue complementar muito bem, fora das quatro linhas é incrível. A proximidade que ele tem, sempre com respeito, a confiança que ele transmite aos jogadores de poderem falar abertamente, poderem estar à vontade... Só a questão de eu estar a beber um Beirão com o treinador já diz alguma coisa. Ricardo Guima voltou à Académica OAF Em 2020/21 D.R. Só tinha um ano de empréstimo na Académica, o que aconteceu depois? Voltei para a Polónia. Estava na esperança que subissem de divisão, mas não subiram. Na altura tive um treinador que era o Kibu, espanhol, e as coisas começaram a correr mal. Porquê? Porque já no fim da pré-época aconteceu um episódio caricato. “Voda“ significa água em polaco e houve um treino, em que já estávamos a treinar há tanto tempo, há umas três horas, estávamos todos saturados e ele acabou o treino e disse: “Vamos fazer aberturas.“ Toda a gente começou a mandar vir, e eu peco porque sou sincero, falo demais, digo aquilo que sinto e no futebol às vezes temos de pensar com a cabeça e não com o coração. O que aconteceu? Começámos a correr, acabámos o primeiro set e ele diz: “Vão beber água.“ Eu fiquei no meu sítio à espera da segunda série. Ele virou-se para mim: “Já mandei beber água.“; “Mister, mas eu não quero água. Agora sou obrigado a beber água?“ Começou a segunda série e comecei a gozar, porque correr é a minha praia. Comecei a acelerar à frente dos outros, passava por ele, bocejava e dizia: “É só isto que vocês querem?“ Segunda paragem. Ele mandou beber água novamente e eu fiquei outra vez à espera. “Epá, já te mandei beber água, estás a brincar comigo?“ E eu tenho uma saída: “Epá, ó mister, ainda se fosse vodka eu bebia, mas como é voda, não quero.“ Ele passou-se. O que fez? Arrumou-me. Fiquei logo de fora. Acabámos o exercício, fomos para o balneário, o diretor chegou: “É só para dizer que o Guima vai para a segunda equipa, não pertence mais ao plantel.“ Fiquei aparvalhado. Porque o meu colega espanhol até tinha ficado comigo e não tinha ido beber água. Levaram a mal a minha boca. A partir daí foi difícil, porque tinha mais dois anos de contrato. Quase entrei em depressão. Esteve quanto tempo na segunda equipa? A segunda equipa estava para aí na quinta divisão. Eu treinava com miúdos de 17 anos e tínhamos lá dois ou três com 40 anos, quase. Cheguei a jogar na 5ª divisão, na Polónia. Em jogo pela Académica, Guima (de costas) prepara-se para rematar a bola D.R. Estava sozinho nessa altura? Sim. Depois fui para o Chaves. Mas até resolver, demorou. Não tinha carro porque eles não me estavam a pagar por causa desta situação e tinha de ir de bicicleta para o treino. Meia hora para lá, meia hora para cá. Foi muito difícil lidar com aquilo, foi muito difícil estar lá sozinho Parecia um talibã com a barba grande e cabelo rapado. Estava ali e já não sabia o que ia fazer. Depois não me queriam deixar sair, queriam pedir dinheiro para sair. O que faço da minha vida agora? O meu filho Lourenço já tinha nascido, em março. Recorreu a algum tipo de ajuda psicológica? Não. Lutei. Desabafava com os meus amigos. Como acabou por ir para o Chaves em 2021/22? Foi o meu empresário que conseguiu. Acabaram se calhar por ser os meus melhores anos. No início não correu tão bem. O Vítor Campelos, que gostava de mim, queria-me e a direção também, no final da primeira semana chama-me ao balneário dele e diz: “Gosto muito de ti, acho que trabalhas bem, mas para o meu estilo de jogo não é aquilo que eu pretendo.“ [risos]. Fiquei aparvalhado. No futebol aquilo só quer dizer uma coisa: “Não conto contigo.” O que fez? Continuei a trabalhar e acho que o conquistei. Dei-lhe muitas alegrias e julgo que hoje o respeito é mútuo. Mas nessa primeira metade da época foram só coisas más. Entre setembro e dezembro tive três amigdalites graves, fui operado de urgência a um dente, porque partiram-me a raiz de um dente com uma bolada. Tive uma entorse. Isto tudo em três meses. Eu fazia muitas viagens também, porque os miúdos não estavam comigo, estavam em Oliveira de Azeméis com a mãe. E fazia duas e três vezes por semana a viagem para ir ter com os miúdos. Filipe Chaby, Silvério, João Mendes, Reko e Guima no casamento de Traquina D.R. Mas gostou logo do Vítor Campelos como treinador? Demorei a perceber um bocadinho aquilo que ele me pedia, na minha posição, porque eu era um médio mais livre, um box-to-box, um médio que fugia muito da posição e fazia-lhe confusão. Deixava-o na dúvida e não confiava muito em mim. Como eu fugia muito, na ideia dele desorganizava-lhe a equipa. Como se deu a viragem? A infelicidade de uns às vezes é a felicidade do outros. O meu companheiro de casa, o João Mendes, que jogou no Vitória, lesionou-se e joguei a 10. As coisas começaram a engatar, começámos a ganhar, a ter bons resultados, agarrei o lugar e fiquei lá até ao final da época. Depois acabei por jogar mais à frente do que propriamente na minha posição. Sentia-se confortável a jogar numa posição mais à frente? Não. Isso não é para mim. Não me sinto desconfortável, mas obviamente que se formos a falar de campeonatos como o Azerbaijão, ou como o da Turquia, em que a qualidade técnica não é tão grande, acho que não havia muita diferença. Agora, no campeonato português ou no espanhol, obviamente não sou um nº 10. Sinto-me confortável a jogar a 6 ou a 8. A 8, a única situação é sentir que tenho a liberdade do box-to-box e consigo estar à frente, estar atrás, na cobertura, estar a pressionar, por causa da minha intensidade e da minha disponibilidade física. Depois também sei jogar a 6 porque com o Campelos aprendi isso. Nós temos sucesso na I Liga um bocado por aí; também tenho a felicidade do Kevin Pina sair, engatei ali a 6 e foi incrível essa época. Tinha dois jogadores, o João Teixeira e o João Mendes que compunham o trio muito bem. Eu roubava, andava a “morder” em toda a gente, entregava-lhes a bola e eles lá se entendiam. Guima chegou ao GD Chaves em 2021/22 D.R. Porque disse que o Campelos é o terceiro treinador de que mais gostou? Porque foi uma pessoa que conquistei. Para mim é uma história de superação. Porque foi uma pessoa que me disse “não conto contigo“, entre aspas, e à qual eu mostrei: “Não, tu vais ter que contar comigo.“ É um treinador que me marcou por causa disto. E, obviamente, depois acabei por me identificar muito com o estilo de jogo dele. Qual foi a sensação de subir de divisão? Foi incrível. Foi o primeiro feito em seniores que consegui e foi incrível poder depois fazer parte finalmente de um plantel da I Liga, porque eu sabia que tinha contrato. Estreou-se na I Liga aos 26 anos. Recorde esse momento. Foi contra o Vitória de Guimarães. Houve um nervosinho, tive que ir à casa de banho [risos]. Eu já vou à casa bem muitas vezes, é normal, mas naquele dia foi um bocadinho mais. Foi um desejo finalmente concretizado. Lembrei-me naturalmente do meu pai e finalmente chegou o momento de dizer “consegui“ e ele está orgulhoso. Notou muitas diferenças da I para a II Liga em termos de qualidade de jogo? Notei que existe maior qualidade, mas também notei que é mais fácil. Porquê? Porque a II Liga é muito mais competitiva que a I. Obviamente, com os três ou quatro grandes era um bocadinho mais difícil, porque já sabíamos que íamos estar mais a defender do que com bola. Mas com as restantes equipas é mais fácil, temos mais espaço, mais tempo para pensar, enquanto na II Liga aquilo às vezes parece uma batatada, estamos a receber uma bola de costas e já temos dois ou três gajos a cair em cima de nós, temos de pensar e agir mais rápido. Senti muito mais facilidade, sinceramente, na I Liga. O médio em conversa com o técnico Vitor Campelos Luis Martins Depois da estreia na I Liga, a época seguinte [2023/24] foi desastrosa. Consegue explicar? A base da equipa foi embora. Eu também era para ir embora. Acabei por ficar porque estava em tribunal por causa da guarda dos meus filhos, já estava separado. Acabei por ficar por isso. Mas tive oportunidade de ir para o Fortuna, da Holanda, tive abordagens da Arábia. Mas por causa da situação em tribunal ponderei muito, tentei melhorar o ordenado no Chaves, que acabou por chegar a um valor que não era o que queria, mas agradava. Fiquei mais um ano. Era para ser um pilar naquela equipa, inclusive fui um dos capitães, mas a base maior fugiu e aquilo foi como construir outra vez uma equipa. Foi o problema. Iniciaram essa época com o José Gomes. Que tal? É um gajo porreiro. Tem as suas ideias, mas, é como digo, foi um bocado difícil implementar as ideias porque a equipa foi mal construída, foi escolhida às três pancadas, quem a fez sabe disso, continua lá e o resultado esteve à vista e ainda hoje o Chaves está como está. Porque viu-se a diferença para os anos a seguir e houve só duas coisas que mudaram. Foi essa posição, que não vou dizer qual, e foi a do treinador. Quando essa outra posição mudou, viu-se que as coisas começaram a tomar outro rumo. E depois acabou por haver muitos egos e quando tens muitos egos nas equipas é sempre difícil ter algum resultado. É a minha opinião. As coisas começaram a correr mal, não enquadrámos muito bem com a ideia do José Gomes, depois o Moreno entrou e penso que também não veio acrescentar muito. Tem histórias para contar dessas três épocas no Chaves? Só dizer que fiz uma família para a vida que são o João Queiroz, o João Pedro, o Benny, depois entrou o Pedro Pinho e tínhamos outro que era o Gonçalo. Ainda hoje temos o nosso grupinho no WhatsApp, as nossas mulheres também estão sempre a falar. João Mendes, Guima, João Teixeira e Ricardo Moura após a subida do GD Chaves à I Liga, em 2022 D.R. Voltou a casar ou viver com outra pessoa? Sim, nesse ano da I Liga juntei-me com a Bárbara. Conhecemo-nos no Instagram. Ela é psicóloga. Eu também estava a precisar de ajuda psicológica [risos]. Mas acho que já lhe dei cabo da cabeça. Ela já não me entende [risos]. Foi um processo difícil devido à envolvência dos meus filhos. Para ela foi excelente, a forma como lidou com os meus filhos. Também só os introduzi quando soube que era o momento certo. Já temos também o nosso filhote. Nasceu quando? O Lucas nasceu em 2025, aqui no Azerbaijão. Antes de irmos ao Azerbaijão. Quando o Chaves voltou a descer, o presidente dizia que tinha direito de opção e não o queria deixar sair. Pode contar o que aconteceu? Sim. Deu uma confusão do caraças. Mas tudo se resolveu porque quando não há fundamento e as coisas não são verdade. Existia uma opção válida se ambas as partes o quisessem. Hoje não existem opções unilaterais. Eu não queria renovar. Isso depois gerou confusão. Felizmente informei-me com muita gente, também não queria estar a entrar em processos, isso é mau para a nossa imagem, e toda a gente me deu o mesmo feedback. Fico triste pela forma como saí. Tenho muito, muito carinho mesmo pelo clube, gosto muito de Chaves, ainda hoje falo muito com a Bárbara sobre isso, a nossa vida lá, estávamos muito bem, sentíamo-nos em casa. O desfecho acabou por ser um bocadinho triste e aquilo que traduziram para fora não correspondia à realidade. Acabaram por fechar-me muitas portas também. Porque tinha propostas do Moreirense, do Farense, que me mantinham na I Liga. Depois tive propostas para o Dubai, continuei a ter da Holanda, mas decidi ir para o Igdir FK, da Turquia. Pagavam-lhe mais? Monetariamente fazia-me sentido, sinceramente, apesar de ser da II Liga. Já tinha cumprido a maior parte dos meus objetivos, já tinha conseguido chegar à I Liga, já estava a representar uma seleção, independentemente se era Portugal ou não, já representava uma seleção; chega uma altura em que pensei que faria mais sentido entrar na Turquia tentar fazer uma ou duas épocas boas e chegar à primeira liga da Turquia. A nível monetário obviamente compensava muito comparado com os outros. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no Chaves? Três vezes mais. O médio (em cima) com Nuno Coelho na festa da subida do GD Chaves D.R. Aproveitando que já falou da seleção. Como e quando surgiu a oportunidade de representar Moçambique? No meu primeiro ou segundo ano na Académica houve contactos por parte da federação. Não sei como. Mas o Pepo, que está no Caldas, na altura também tinha sido abordado. Acho que foi ele que passou o meu número à federação. Como realmente o meu lado materno nasceu em Moçambique, o meu pai já lá estava há muitos anos, havia essa possibilidade. Era um sonho representar a seleção nacional? Era, só que se formos a olhar para a seleção portuguesa, sabia que seria muito difícil. Nas camadas jovens não tive oportunidade, porque infelizmente só os três grandes e um SC Braga ou um Vitória de Guimarães é que metiam lá jogadores. Estava fora do meu alcance. Tinha feito alguns torneios com a seleção de Aveiro, mas nunca tinha ido à seleção de Portugal. Quando surgiu essa oportunidade de Moçambique, sinceramente não pensei duas vezes. Mas demorou muito tempo até conseguir a cidadania. As coisas lá ainda são mais atrasadas que em Portugal. Quando foi convocado pela primeira vez? A primeira vez estava no Chaves. Até estava com o Bruno Langa e fui com ele. No meu jogo de estreia, contra o Benim, ganhámos 3-2, fiz um golo e qualificámos para a CAN, passados 13 anos. Já conhecia Moçambique antes de representar a seleção? Não. O meu pai convidava-me sempre, mas nas férias, como não temos muito tempo, queremos é ir para Ibiza, para Maiorca ou para o México [risos]. Guima só deixou o GD Chaves em 2024 Luis Martins O que sentiu quando pisou Moçambique pela primeira vez? Senti-me bem. As pessoas são super amáveis. O primeiro choque foi conduzir ao contrário, mas fui recebido incrivelmente bem. Como é o ambiente na seleção moçambicana? É a descontração, são as nossas férias. Lá é mesmo para relaxar, para limpar a cabeça dos clubes, limpar a cabeça de tudo. Temos uma amizade muito boa, temos um grupo top. Brincadeiras, joguinhos, pré-treinos, epá, é incrível. Que tal o seleccionador Chiquinho Conde? É TOP. Um “ganda” gajo. A nível tático não é um Rui Borges, mas sabe levar as pessoas. É muito bom a lidar com o ser humano e tem um carácter muito bom. É cinco estrelas. Está connosco até à morte. Sabe ouvir, aceita. Se tivermos de dizer que está errado, aceita. É um gajo muito moldável, muito amigo. Quando entrou na seleção sentiu logo que acreditavam na qualificação para a CAN? Dependíamos daquele jogo. O mais engraçado é que logo no primeiro treino o Bruno Langa lixou-me. Deu-me uma paralítica que estive três dias parado e não conseguia andar. Mas depois aquele ambiente era tão bom e tão relaxante, é como se fosse um refúgio. A minha estreia não podia ter corrido melhor. Ricardo Guima representa a seleção de Moçambique desde 2023 D.R. Como foi jogar a CAN? O poder participar numa competição ao mais alto nível, em África, poder lutar por um Mundial, é muito bom. Quando ganhei o prémio de jogo, por exemplo, senti “agora estou bem, consegui finalmente chegar a um patamar bom”. Porque jogámos contra um Egito, que tem nomes que jogam na Premier League. Ganhar o prémio de jogo teve significado. Quando me disseram pensei que estavam a gozar comigo. Tudo aquilo que tenho vivido na seleção é uma história muito bonita, desde que estou na seleção já fomos a duas CAN seguidas. Na segunda conseguiram inclusive passar a fase de grupos. Acho até que podíamos ter feito muito mais nessa CAN. De resto, o que posso dizer? África é muito difícil. Principalmente no que diz respeito às viagens. As nossas viagens são insuportáveis, temos que dar voltas e voltas e voltas para ir de um sítio para outro quando podíamos alugar um avião, fazer a nossa rota e irmos direto. Por exemplo, a minha primeira viagem para jogar a CAN, fomos para Moçambique, são 10 horas; depois, decidiram ir para a África do Sul estagiar, mais uma hora de viagem. Nós íamos para a Costa de Marfim e saímos da África do Sul, de repente estamos a aterrar, parámos no Gana para sairem alguns passageiros e seguimos viagem. Parecia que estava num autocarro. Achei aquilo muito estranho. Guima em ação pela seleção de Moçambique D.R. Deve ter muitos episódios engraçados da seleção para contar. Posso falar de quando viajei para o Mali, o pior país que já vi. Eles dizem que é rico, mas não sei onde está a riqueza. É muito pobre mesmo. Uma pobreza extrema. Aterrámos à uma da manhã, nem sequer tínhamos malas, não chegaram. Eram já quase duas da manhã quando saímos do aeroporto e houve um gajo sem pernas, de skate, a querer roubar-me. A sério. Ele, só com o tronco no skate, a dar com as mãos no chão e a mandar vir comigo, a levantar as mãos e a querer puxar as calças. Depois lá entrámos num táxi manhoso, nem tínhamos ninguém da federação à nossa espera. Uns 20 gajos começaram a rodear o táxi, o vidro estava um bocado aberto e eles começaram a pôr as mãos; o táxi lá arrancou e conseguimos sair dali. Chegámos ao hotel, que supostamente tinha cinco estrelas, uma das estrelas já estava a piscar. Quando entrámos no hotel... Nunca estive numa situação assim. Então? Conte. Eu estava com o Pepo, que é o meu companheiro de quarto na seleção. Recordo que não tínhamos nada, não tínhamos malas. Quando entrámos no quarto, a casa de banho estava toda cheia de mijo, os lençóis tinham sangue, tudo cheio de mosquitos. A federação e o resto dos jogadores ainda não tinham chegado. Nós ali, sozinhos. Muito, muito mau. No dia seguinte é que vimos a pobreza daquilo. Aquilo não são casas, são ruínas. É estranho. Ao ir embora uns foram para o Togo, outros para a Etiópia, depois os do Togo iam encontrar-nos na Etiópia. Quando chegámos à Etiópia, de madrugada, tínhamos quatro ou cinco horas para descansar, fomos para aqueles hotéis que eles nos dão. Demorámos meia hora a chegar ao hotel, entrámos em becos, com gajos assustadores. Chegámos ao hotel, era completamente nojento outra vez. Horrível. Basicamente, África acaba por ser um bocadinho disto. Em Moçambique não, não temos isso, mas há países em que é muito, muito difícil. O médio foi eleito Homem do Jogo, após o encontro com o Egito, na CAN de 2023 D.R. Voltando à Turquia. Não ficou até final da época porquê? Na Turquia tínhamos uma situação má, que era: nós vivíamos em Ankara, mas tínhamos que ir jogar a Igdir, a duas horas de avião. A cidade não tem grande coisa, então para darem algum estilo de vida aos jogadores, para os jogadores aceitarem ir para lá, mudaram aquilo tudo para Ankara. Mas com as viagens constantes a Igdir tornou-se um bocadinho cansativo. Se para os turcos, que estão habituados, era difícil, imagine-se para os estrangeiros. Praticamente não estávamos com a família porque estávamos constantemente a viajar. Entretanto, também tínhamos perdido um bebé quando chegámos à Turquia. Depois o meu avô ficou muito mal, esteve à minha espera e acabou por falecer. Eles a meio da época decidiram mudar alguns jogadores e fui um deles, não estava contente e aproveitei. Não pedi para sair, mas aproveitei isso. Já tinha a proposta do Zira FK, do Azerbaijão? Isso sempre existiu. Desde a Polónia que o Zira todas as épocas mandava mensagem. Mas o Zira nunca foi opção para mim. Tornou-se opção ao fim de dois meses. Porquê? Porque quando rescindi já tinha as coisas planeadas e quase tudo certo para ir para a China. Mas acabou por entrar outro jogador. Depois foram aparecendo outras coisas, mas nunca houve nada sério. A única que houve mais concreta foi passado um mês, era para a Arábia, para a segunda liga. Eram só seis meses. Entretanto, apareceu o Wisla Plock, da Polónia, que acabou por subir à primeira liga. Tive outra proposta também do Chipre. Se calhar, a opção que devia ter tomado era ter ficado na Turquia, devia ter arranjado lá um clube, mas com a situação dos meus filhos acabei por vir para Portugal um bocado precipitado e só decidi o meu futuro um bocado mais tarde. Guima festeja com a seleção de Moçambique uma vitoria sobre a Guiné D.R. Quando já só tinha a opção do Zira? Sim, porque os mercados começaram todos a fechar e tive de optar entre ficar parado ou vir para o Zira. Como foi o primeiro impacto no Azerbaijão? Foi positivo. Se calhar as pessoas têm uma ideia errada do Azerbaijão. O Azerbaijão é evoluído. Não vou comparar com Dubai ou com o Catar, mas está ali ela por ela. Aconselho as pessoas a conhecerem. É um país completamente organizado, seguro. O que complica é a nível desportivo. Felizmente este ano melhorou bastante; no ano passado só estive meia época, mas por aquilo que falei com o Tiago, o meu guarda-redes, que é português e está aqui há três anos, as coisas cresceram drasticamente. Este ano eles abriram a liga a mais estrangeiros. O jogador azerbaijano não tem muita qualidade. O futebol só com os azeris acaba por não ter muita qualidade. Basta olhar para a seleção do Azerbaijão. Não ganhou a ninguém. O campeonato melhorou muito por deixarem vir mais estrangeiros. É um campeonato inferior à segunda liga da Turquia? Consigo comparar com Portugal. Este campeonato é possivelmente equiparável à Liga 3. Na segunda liga da Turquia encontrei muita qualidade, acho que falta muito outro trabalho, dos treinadores. Aqui temos quatro equipas que têm algum poder económico e que conseguem trazer jogadores de qualidade. Na Turquia o que não falta é jogadores e dinheiro, embora haja alguns clubes que não paguem. Aqui há clubes que não têm condições nenhumas. Em 2024, Guima representou o Igdir FK, da Turquia D.R. Mas foi no Azerbaijão que acabou por jogar pela primeira vez competições europeias. É verdade. E isso foi uma das coisas que me trouxe aqui. Se fizéssemos golos tínhamos passado, mas como não fazemos golos... Porque não fazem golos? Não sei explicar. Nós jogámos com o Hajduk Split em casa e podíamos ter ganhado 3-0 fácil e acabámos por empatar 1-1 porque estavámos frente à baliza e não marcámos. Não há explicação, a culpa é nossa. Será devido à falta de experiência? É assim, não temos jogadores que tenham jogado por aí além. Mas temos o exemplo do Qarabag que tem jogadores que foram buscar à II e III Liga e que estão a fazer uma prestação muito boa. Acho que isso da experiência é relativo também. Agora, o meio em que estamos inseridos é que... Acho que ainda são muito fechados, têm de evoluir e abrir um bocadinho a mente. Têm que ter mais condições. Há clubes que já têm. Estou num clube que tem feito bons trabalhos; se é o correto? Na minha visão, acho que não, porque não me identifico muito bem com forma de trabalhar aqui. Guima na Turquia com os colegas Alperen e Kosta Aleksic às costas D.R. Explique melhor. Por exemplo, quando cheguei não podia treinar. Supostamente tinha de perder peso e o treinador não me deixava treinar. Porquê? Porque tem um trauma qualquer com lesões ou o que seja. Não podia fazer nada. Eu queria treinar, queria trabalhar mais e ele não me deixava treinar. Não podemos fazer ginásio, por exemplo. Diz que não precisamos e que não faz sentido porque podemos aleijar-nos e já temos carga de treino. São mentalidades diferentes. Se estão errados ou não, nós é que temos de nos adaptar. Não me enquadro muito nisto porque para mim não faz sentido não podermos fazer as coisas por medo de nos aleijarmos. Há uma equipa aqui que nem médico tem. Digo uma, mas deve haver mais. Um colega de outra equipa lesionou-se e pediu para ir para Portugal tratar-se. Está em casa. Não vai ao clube porque não têm médico para tratar. E pronto, está em casa à espera, a ver o que acontece. Tem mais histórias para contar da Turquia ou do Azerbaijão? Na Turquia acabei por estar num ambiente um bocado estranho, a minha equipa estava um bocado dividida em grupos, os turcos, os alemães e os restos estrangeiros. Acabei por não ter muita ligação. E tinha um gajo na minha equipa que dizia que eu não o deixava dormir, que estava sempre ao telemóvel com a minha família. Ia fazer queixas ao diretor que eu não o deixava dormir. O médio com a atual mulher, Bárbara, após o nascimento do filho de ambos, Lucas D.R. Tem contrato com o Zira até quando? Tenho mais um ano, mas a minha ideia não é continuar aqui. Então? A minha ideia passa por voltar para Portugal também por causa dos meus filhotes. Vamos ver, tenho contrato, é o que tiver de ser. Mas se houver oportunidade de sair gostava porque já estou um bocado cansado. Também tive problemas com o treinador, deixei de contar, depois já contava, depois já não contava, depois já não tinha confiança. Quando assinei, passado uma semana fui para a seleção, ele ficou logo aziado comigo, começou a dizer que eu ia lesionar-me porque tinha estado parado. As nossas picardias começaram um bocadinho por aí. Acabamos por ter um carácter um bocadinho idêntico e batemos-nos de frente. Está com 30 anos. Tem alguma meta para deixar de jogar? Se conseguir, vou até os 35, 36 anos. A nível do corpo, estou tranquilo. O problema é mais mental. O cansaço. Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras? A minha intenção é acabar o 12º ano, depois começar o curso de treinador, o base e mais acessível para entrar no mercado, nem que seja como adjunto. E quero tirar também um curso para ser empresário. Passa-lhe mesmo pela cabeça ser treinador ou o que quer ser é empresário? Quero fazer as duas coisas para depois perceber bem o que dá. Acho que tenho conhecimento, tenho contactos, vejo-me a trabalhar como empresário. Inclusive, não fiz negócios, mas já servi de intermediário. Treinador é uma coisa que me interessa também. Desde 2024/25 que Guima representa o Zira FK do Azerbaijão D.R. Onde ganhou mais dinheiro até agora na carreira? Na Turquia. Deu para investir em algum negócio ou imobiliário? Sim. Em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Umas férias em Ibiza, quando subi de divisão. Tem algum hobby? Jogar Playstation. É um homem de fé? Acredita em Deus? Às vezes. Não sou praticante, mas tenho respeito. E superstições? O pé direito tem de bater na linha antes de entrar em campo. Quando ando com as meias para cima, tenho de as puxar para baixo, senão o jogo não corre bem. Guima com o outro português do Zira FK, o guarda-redes Tiago Silva D.R. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? É uma tatuagem maori. Foi para experimentar. Fiz com 15, 16 anos. Fui com a minha mãe. De lá para cá fiz mais algumas. Quais as mais importantes? A data de nascimento dos meus filhos. Acompanha ou pratica outra modalidade ? Não. Qual é a maior frustração que tem na carreira? Essa é difícil. Eu sou uma pessoa frustrada, às vezes. Talvez aquilo que aconteceu no Chaves. Sinto-me frustrado pela injustiça que foi feita à volta da minha saída do Chaves. E o maior arrependimento? Neste momento já me arrependo de ter saído da Turquia. E se calhar foi um erro ter renovado com o Chaves. Um objectivo que está por cumprir? Ganhar um troféu. Guima, em Baku, com Bárbara e o filho Lucas D.R. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde um dia gostava de jogar? Barcelona. Tem ou teve alguma alcunha? Guima. Na seleção chamam-me Pikachu. Porquê? Foi quando pintei o cabelo de amarelo, começaram a chamar-me Pikachu. Há alguma regra do futebol que se pudesse alterava, ou bania? Não gosto muito do VAR. Já me lixou muitas vezes. Retirava o VAR. Tem algum talento escondido? A Bárbara diz que é cozinhar. Por acaso gostava de ser cozinheiro. Se não tivesse sido jogador, o que teria sido? Podia ter entrado em caminhos menos positivos, dada a envolvência que eu tive na minha infância, dos amigos, porque eu cresci no bairro. Não faço ideia o que seria, não consigo dar uma resposta a isso. 2 Compartilhar este post Link para o post
silentz Publicado Maio 13 Citação Eram já quase duas da manhã quando saímos do aeroporto e houve um gajo sem pernas, de skate, a querer roubar-me. A sério. Ele, só com o tronco no skate, a dar com as mãos no chão e a mandar vir comigo, a levantar as mãos e a querer puxar as calças. wtf 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Maio 24 Helton Leite Spoiler “Quando cheguei a Portugal o que me chocou foi a frontalidade. O brasileiro não tem a cultura de chegar à frente da pessoa e ser franco” Apesar de ser filho de um guarda-redes, Helton Leite, de 35 anos, só descobriu o seu lugar entre os postes depois da mãe insistir com ele para experimentar a posição. O brasileiro, que nunca mais tirou as luvas dentro de campo, construiu uma carreira que passou por clubes como o Criciúma, Botafogo, Boavista, Benfica, Antalyaspor, Deportivo e Fortaleza, entre outros. É sobre como tudo começou e os primeiros anos da carreira que falamos nesta Parte I do Casa às Costas Nasceu em Belo Horizonte, no Brasil. É filho de um grande guarda-redes, João Leite. E a sua mãe, o que fazia? A minha mãe foi jogadora de voleibol profissional. O meu pai era guarda-redes do Atlético Mineiro e a minha mãe jogava volei pelo Minas Ténis Clube e também fez parte da seleção brasileira de volei. Eles conheceram-se numa reunião da igreja. Em 1980, minha mãe foi às Olimpíadas de Moscovo, onde foi a capitã da seleção brasileira. Ela jogou até 1986, altura em que ficou grávida da minha irmã mais velha, a Débora. O meu pai continuou a jogar. Nasceram as minhas duas irmãs e depois eu, em 1990. Recorda-se de ver o seu pai jogar? Não, porque o meu pai retirou-se quando eu tinha exatamente dois anos e um mês. O que queria ser quando fosse grande? Queria ser jogador. Para mim não tinha nenhum outro caminho. Tive o privilégio de ter um pai que jogou e com isso conquistou uma boa condição financeira, deu uma boa vida para a nossa família. No Brasil, talvez para 90% ou mais dos atletas, o futebol é também uma oportunidade de mudar a vida, um sonho para ajudar a família a mudar a perspectiva social e económica. Mas de certa maneira nunca tive essa pressão, então queria jogar, mas ia curtindo, aproveitando. Jogava no colégio, jogava numa escolinha, só bem mais tarde é que se tornou uma coisa mesmo séria. Era uma criança tranquila ou aprontou muito? Sempre fui muito calmo, só quando me tornei adulto é que comecei a ficar mais acelerado, mas sempre fui muito calmo, muito tranquilo, nunca causei problema. Com 12/13 anos, quem eram os seus ídolos? Como atleta tenho referências e, como bom brasileiro, adorava o Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho. Mas como guarda-redes sempre admirei nesses tempos antigos o Edwin van der Sar. Era um guarda-redes muito alto, tinha envergadura, chamava muita atenção e tinha muita classe, frio. Sempre o admirei muito. E talvez tenha sido o primeiro guarda-redes que tenha utilizado como referência para mim. Torcia por alguma equipa? Naturalmente pelo meu pai ter jogado pelo Atlético Mineiro, nós éramos torcedores do clube. Depois de nos profissionalizarmos as coisas passam. Hoje tenho carinho por todos os clubes que passei, de maneira igual. Mas eu fui criado vendo toda a história que meu pai deixou no clube. Helton em criança com o pai, o ex-guarda-redes João Leite, lenda do América Mineiro D.R. Quando e como começou a jogar pela primeira vez num clube? Em 2003 fui fazer um teste como médio no Atlético Mineiro, no mesmo clube onde o meu pai jogou. Jogava como médio, não era guarda-redes. A minha trajetória começou ali, fui aprovado nesse teste, fiquei um ano e meio naquela posição até o momento em que tomei a decisão de me tornar guarda-redes, incentivado pela minha mãe. Conte lá isso melhor. Com 13 anos, eu estava muito frustrado porque não conseguia ter uma boa sequência de jogos, não tinha muitas oportunidades. A minha mãe tinha exigido que eu jogasse voleibol também, então jogava futebol à tarde e volei à noite, duas ou três vezes por semana. Mas chegou uma altura em que eu não tinha muitas oportunidades no futebol e a minha mãe disse: “Porque não pede para ser guarda-redes?”; “Mas mãe, não faz sentido algum”; “Como não? Seu pai foi guarda-redes no clube”; “Não faz sentido, mas eu vou perguntar a o treinador”. No dia seguinte, levei as minhas luvas escondidas na bolsa e perguntei ao treinador se podia treinar como guarda-redes. O que respondeu? “Se você for 10% daquilo que seu pai foi, você vai ter muito sucesso”. Disse para eu pedir as luvas ao roupeiro e colocou-me a treinar com o guarda-redes. Como correu? Não tinha técnica, mas tinha muito instinto e muita coragem também. Era algo natural. Sou grande fã de talento natural, mas sou mais fã de trabalho, esforço e disciplina. O que disse o seu pai na altura? Absolutamente nada. Acho que ele sabia muito bem como era difícil ser guarda-redes e não quis ter nenhuma influência nessa decisão. Ele sempre foi e é um grande apoiante meu, em todos os sentidos na minha carreira, é uma pessoa super positiva, mas nunca quis ter parcela de culpa na decisão. Foi só minha mãe mesmo. Helton jogou no Ipatinga, do Brasil, em 2012 D.R. Quando mudou para o América Mineiro? No final desse ano. Por que razão mudou de clube? Porque já estava a treinar como guarda-redes, mas era o sexto guarda-redes, não tinha oportunidade alguma, e não ia ficar só a treinar. Precisava encarar a realidade. Fiz teste no América Mineiro, passei e já era o segundo guarda-redes do meu ano. Já ia para os jogos, ganhava mais experiência. Fiquei lá de 2004 até 2007. Comecei a treinar uma vez ou outra com os profissionais, com a equipa sénior. Tenho um período bom, de ficar mais especialista. Ainda estudava? Sim. Fiz o secundário completo. Mas a partir dos 15 anos tive de estudar à noite. Depois entrei na universidade, em Gestão. Só que, com um ano e meio de faculdade, tornando-me profissional, tinha de fazer estágio duas vezes por semana, uma delas com viagem, e percebi que não tinha condição de continuar a faculdade. Pensei que faria mais à frente, mas não voltei. Quando e em que clube se tornou profissional? Eu saio do América Mineiro, tenho a minha primeira experiência fora do meu estado, da minha casa, no Goiás. Era sub-17. Fiquei lá um ano. Custou-lhe muito deixar o ninho, o pai, a mãe, as irmãs? Nada, porque era algo que eu queria muito fazer. Acho que nessa altura eu já tinha uma paixão muito grande pelo futebol. Em 2013, o guarda-redes jogou pelo Criciúma D.R. Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser profissional de futebol era mesmo realizável? Só senti isso quando já era sénior. Nunca fui um guarda-redes de projeção muito alta. Acredito que, como comecei a minha formação muito tarde, nunca fui aquele jogador que os treinadores digam: “Esse aqui é a nossa solução, ele vai ser o futuro do nosso clube”. Raramente tive oportunidade de jogar, lembro uma vez, quando estava já nos sub-20, do Grêmio. Mas também não durou nada, nunca tive muita oportunidade. Então, saio do Grêmio [em 2010], já tenho de me profissionalizar e aqui no Brasil não existem equipas B, nem sub-23. Aqui você tem que encarar a realidade e a minha realidade foi conseguir uma oportunidade num campeonato regional, que são os estaduais. Foi para onde? Para um clube que se chamava JMalucelli, da primeira divisão do regional do Estado do Paraná. Passei a terceiro guarda-redes. Tinha 20 anos. Já havia algum namoro sério? Deus deu-me a oportunidade, em 2009, quando tinha 18 anos, de começar um relacionamento com a minha atual esposa. A Camila foi a minha primeira e, graças a Deus, a minha única namorada. Como se conheceram? Na igreja. Os nossos pais são da mesma igreja. Éramos do mesmo grupo de jovens e num acampamento da igreja apaixonei-me por ela. A Camila estudava, é formada em Relações Internacionais, é uma pessoa com o coração muito voltado para o mundo. Mas só começamos a viver juntos depois de casar, em 2013. Quanto tempo ficou nesse clube, o JMalucelli? Seis meses. Tive a oportunidade de fazer a minha estreia como profissional, em 2011. Recorda-se se estava muito nervoso? Com certeza. Com 20 anos, jogar profissionalmente, nossa. Era algo muito novo para mim. Não me lembro qual foi o resultado do jogo, mas foi um jogo positivo. Só que o contrato com o clube terminava e fui em busca de outras oportunidades. Helton com a mulher, Camila D.R. É quando vai para o Ituiutaba… Que na altura [2011] tinha o nome de Boa Esporte Clube, estava na II Divisão do Campeonato Brasileiro. Não joguei nenhum jogo da Série B, apenas um jogo de um campeonato regional, mas foi mais uma experiência de estar entre profissionais e ver outro campeonato, de outro nível. Fui crescendo pouco a pouco o meu nível e a minha experiência também. Acaba o meu contrato, vou para o Ipatinga, a mesma situação, fui como quarto guarda-redes, depois virei segundo, a equipa joga o estadual, depois vamos para a Série B, e eles contratam dois guarda-redes que não dão certo, colocam outro, e infelizmente o clube bate o recorde de 13 derrotas seguidas. Eu não tinha jogado ainda, também só tinha um ou dois jogos como profissional, e, às tantas, o presidente do clube virou-se e disse: “Todo o mundo já levou golo, agora é a sua vez” [risos]. Vamos embora. Fiquei nevoso por fazer a minha estreia numa competição nacional e não me esqueço que vínhamos de 13 derrotas seguidas, no último lugar do campeonato. Jogamos contra o Bragantino, em São Paulo. O Bragantino, estava em 5º lugar, a lutar para subir à I Divisão. Davam-nos como três pontos garantidos, fora o chocolate. Vou para o jogo e ninguém acreditava em mim, obviamente. Nem eu acreditava em mim naquela altura. Mas Deus fez um milagre. Então? Ganhámos o jogo por 2-0. Foi uma benção de Deus. Uma coisa maravilhosa. Três dias depois, ganhamos também ao Paraná e a partir dali comecei a pensar, posso tornar-me um guarda-redes profissional. Foi só ali que tive aquele clique. E a partir daí qual era o seu maior sonho? Como se projetava no futuro? Onde se imaginava a jogar? Meu maior sonho no futebol era jogar na Europa. Quando era miúdo, tinha uns 10 anos, sempre dizia: “Pai, com 20 anos vou jogar na Inglaterra e vou levar vocês para morar comigo”. Para mim sempre foi um sonho. O meu pai jogou no Vitória de Guimarães, na época 1988/89, eu tinha um álbum de figurinhas [cromos] da I Liga portuguesa. O meu pai sempre falou com muito carinho de Portugal. A Europa sempre foi algo que vislumbrei. E sou muito apaixonado pelo mundo, por viajar. Entretanto, foi contratado pelo Criciúma? É. Terminei o campeonato daquele ano, fiz 23 jogos na Série B. Infelizmente, o clube caiu, mas ainda fizemos uma boa pontuação. O Criciúma foi uma das equipas que subiram para a I Divisão. Eles contrataram-me. Tenho a experiência de jogar num clube da I Divisão pela primeira vez. Helton numa defesa pelo Criciúma, em jogo contra o Flamengo Ricardo Ramos Notou muita diferença da II para a I Divisão brasileira? Notei logo diferença, porque embora o primeiro semestre tenhamos jogado o campeonato estadual, tive o privilégio de ser campeão estadual catarinense naquele ano. Comecei a jogar com jogadores que via na televisão quando era miúdo, que tinha como referências. Pode nomear alguns deles? Claro, por exemplo, joguei com o Marcel, um ponta de lança que jogou no Benfica e no SC Braga, esteve no Japão, jogou no Coritiba, fez uma carreira brilhante. Joguei com o central Thiago Heleno, que tinha jogado no Cruzeiro, com o Fábio Ferreira, que tinha jogado no Botafogo, ou seja, eram tantos jogadores, que só pensava “como é que eu vim parar aqui?”. Foi uma experiência muito boa, joguei 11 jogos da Série A daquele ano, com 22 anos. É depois desse ano que é contratado pelo Botafogo? É. Não fui titular por muito tempo no Criciúma. Joguei um período de cinco jogos, depois joguei outros seis jogos, mas nos poucos jogos que fiz, mostrei talento e Deus me deu a oportunidade do Botafogo abrir as portas ao meu empresário da altura, o Baltazar. Interessaram-se por mim. O Botafogo ficou em 4º lugar do campeonato brasileiro, em 2013, vai para a Libertadores, tinham um guarda-redes, que era o guarda-redes da seleção brasileira, o Jefferson, e um segundo guarda-redes que era muito bom, o Renan, mas como 2014 era ano de Mundial e o Jefferson ia ficar dois meses fora, decidiram contratar outro guarda-redes. Fui eu. O privilégio que tive de ir para um clube grande, histórico no Brasil e jogar a Libertadores… Foi algo incrível, uma experiência brutal. Vivi com muita alegria e com muito trabalho. Jogou logo na Libertadores? Nesse ano, não. Tive o prazer de jogá-la depois, em 2017, pelo Botafogo. Mas fui para alguns jogos na Libertadores e foi uma experiência enorme. Em 2014, Helton Leite vai para o Botafogo MB Media Esteve 4 anos no Botafogo. Quais as principais memórias que guarda? Acho que o meu segundo jogo pelo Botafogo foi um clássico contra o Fluminense. E o Fluminense tinha uma equipa incrível. Tinha o Conca, o Fred, o Cavalieri, que era o guarda-redes, jogadores de altíssimo nível. E o Fred era o ponta-de-lança da seleção brasileira naquele Mundial de 2014. Nós fomos jogar com eles, com a nossa segunda equipa, porque estávamos na Libertadores. O Fluminense jogou com a equipa total, no Maracanã, e ganhámos 3-0. Ninguém acreditava naquilo. Final do jogo, penalti para o Fluminense. O Fred vai bater, eu defendo o penalti. Foi meu segundo jogo pelo Botafogo. Foi uma experiência incrível, não consigo esquecer. Tinha 23 anos, viver isso foi realização de um sonho. Houve outras coisas também. Conte. Ganhámos a Série B, em 2015, fomos campeões. Em 2017, chegámos aos quartos de final da Libertadores. Mas aquela experiência que falei marcou muito a minha chegada ao clube, porque pavimentou eu poder ficar tanto tempo no clube, embora não tenha sido o titular. Não consegui. Deve ser muito difícil para um guarda-redes ficar tantos jogos sem jogar. Como é que animicamente conseguia manter-se otimista? Houve períodos em que foi abaixo? Nessa altura, não. Tenho algum pensamento claro sobre isso, eu acho que não é fácil o guarda-redes ser a segunda opção, muito menos a terceira. Mas a segunda talvez seja ainda pior. Ser o terceiro às vezes é mais agradável do que o segundo, porque o terceiro, dependendo do clube, muitas vezes não tem que ir para o jogo, não tem que ir para o banco, não tem que viajar. Só treina. E o segundo, faz tudo e não faz nada. Treina, alimenta aquele sonho a semana inteira, chega ao jogo, fica sentado no banco, vendo, e cresce mais ainda a frustração. É algo muito complexo, muito difícil. Acredito que, naquela altura, para mim, ser o segundo guarda-redes era algo muito bom. Fazia parte do meu percurso. Acho que às vezes muitos clubes erram, porque têm um guarda-redes que não pode ser segundo, mas têm-no como segundo. Esse é um problema muito grande. Claro que pode ser segundo por um período, mas depois de seis meses ele vai ter que sair, não vai aguentar essa função. Mas naquele momento para mim o guarda-redes principal era o segundo guarda-redes da seleção brasileira. Tudo o que podia viver ali era uma experiência. Eu estava só a recolher experiência vendo o Jefferson treinar e jogar. O que mais aprendeu com ele? Primeiro, a fé dele, um homem cristão, de valores consolidados e alguém de caráter; é um líder nato, alguém que não tinha medo de falar, mas falava as coisas com amor, falava o que tinha de ser falado da maneira correta, uma pessoa justa. E era uma pessoa com um foco e uma concentração gigantesca, alguém que sabia onde queria chegar, o que queria fazer, e nada tirava ele desse caminho. Era o nosso capitão, o nosso líder; poder conviver no dia a dia com ele foi algo que somou muito para mim como atleta, mas também para a minha personalidade. É o que procuro também fazer, não deixar de fazer aquilo que é o correto. Às vezes você tem que se expôr e às vezes as pessoas têm medo, porque o futebol é um meio muito selvagem. Todos querem crescer, ter sucesso, e às vezes expôr-nos é muito arriscado. Ele ensinou-me muito sobre isso. O guarda-redes brasileiro em ação pelo Botafogo, em jogo do campeonato brasileiro, contra o Santos Ricardo Nogueira Já tinha casado e vivia no Rio? Sim, e vivia muito bem, foi um período maravilhoso da nossa vida, vivemos quatro anos no Rio de Janeiro. Nesse período, o Rio era uma cidade mais segura do que hoje, por causa do Mundial e depois dos Jogos Olímpicos. Infelizmente, no final da nossa trajetória ali, já estava mais complicado. Foi quando também acabei por ter a oportunidade de sair do Botafogo. Em 2018 foi emprestado pelo Botafogo ao São Caetano. Esse empréstimo surge a seu pedido ou foi vontade do clube? Para mim foi algo complicado, porque, querendo ou não, era muito confortável estar no Botafogo. Tinha um bom salário, jogava, não jogava, era o segundo/terceiro guarda-redes, era cómodo estar ali, mas começaram a surgir algumas situações. Eu queria ir para a Europa, era o meu sonho. Só que não aparecia nenhuma oportunidade da Europa, e fui esperando até ter uma oportunidade. Começaram a aparecer algumas propostas de clubes que jogavam o Campeonato Estadual de São Paulo, que é o melhor estadual do Brasil, onde estão os clubes com maior investimento. Recusei um, recusei outro, até que apareceu o São Caetano e eu também recusei. Só que eles insistiram. Até que um dia, novamente a minha mãe, ligou-me: “Você tem que ir para o São Caetano”. Minha mãe tem essa personalidade, de falar o que quer, o que pensa. Eu disse que queria ir para a Europa e ela: “Como é que você vai para a Europa sem jogar? Você tem que jogar. Se você vai jogar, o que está perdendo?”. E foi. Fui mesmo. Fiquei lá durante três meses. Acabei por ter uma lesão no tornozelo direito, mas tinha feito 11 jogos já. Aquilo abriu o mercado, até que um dia ligou-me um agente de Portugal, estava eu a recuperar da lesão, no Botafogo. “Helton, estou aqui à mesa com o presidente do Boavista. Ele quer saber se você quer vir para cá”. Respondi logo: “Meu irmão, onde é que eu assino?” Para mim foi a realização de um sonho, poder ir para a Europa jogar futebol. Como reagiu a sua mulher? Muito bem. Qualquer brasileiro tem esse sonho de ir para Portugal. Ir para a Europa. É outra realidade. Sou brasileiro, o Brasil é minha terra, mas o nosso país tem muitos problemas. Poder ir para a Europa, viver uma nova realidade, poder ver a organização das coisas, poder ver o charme que é a Europa, poder estar conectado com outros países, numa hora está na Espanha, em duas está na Itália… Isso é um sonho, é outro mundo. Além de querer conhecer esse mundo, queria jogar nesse mundo. Em 2018, Helton (de laranja) jogou pelo São Caetano D.R. Como foi o primeiro impacto quando chegaram a Portugal? Eu fui sozinho porque ia para a pré-época. Cheguei no verão, achei um espetáculo, a cidade pulsando, a Ribeira cheia, a Baixa cheia de gente, os Aliados, o Cais de Gaia, que coisa mais linda. Vi Matosinhos e disse que queria morar ali, na praia. Foi uma bênção conseguir um apartamento em Matosinhos. Por isso para mim foi maravilhosa a primeira impressão. Não houve nada que tenha estranhado mais? Até chegar ao clube, pensava que era tudo parecido com o Brasil. Mas na verdade era tudo ao contrário do Brasil. Eles só falavam a mesma língua. Só que no Norte tinha alguns que eu nem entendia, nem percebia muito bem o que falavam [risos]. Fomos seis semanas de pré-época. Para mim isso foi um choque. Porque no Brasil, mal temos duas semanas de pré-época. Depois, vídeo todos os dias. Basicamente, aprendi que existia conteúdo tático para guarda-redes e função tática no campo. Eu entendia o futebol como futebol, mas não o futebol tático. Eu pegava a parte física e técnica do futebol, mas a tática e a parte de estudo, o vídeo e tal, a análise não existia. Então, para mim, foi realmente conhecer o mundo novo. Veio ganhar mais ou menos do que ganhava no Botafogo? Fui ganhar 40% do que eu ganhava no Botafogo. Para mim foi investimento. Foi uma decisão económica. Gostou de trabalhar com o treinador Jorge Simão? Foi um treinador que foi uma bênção na minha vida, uma pessoa a quem sou muito grato até hoje. Comecei a época a jogar e joguei até ter uma lesão. Embora ele seja uma pessoa de personalidade muito forte e com ideias muito vincadas, a partir do momento que me adaptei a ele e entendi aquilo que pedia no processo da equipa, entendi o trabalho, foi uma experiência incrível e estou-lhe muito grato e ao treinador de guarda-redes, o Alfredo Castro. Acreditaram ambos em mim e isso realmente mudou a minha trajetória e fez-me alcançar novos patamares. Helron entrou na Europa pela porta do Boavista FC, em 2018/19 D.R. Na baliza do Boavista naquela altura estavam o Rafael Bracali e o Assis. Davam-se bem ou havia muita rivalidade? Demo-nos muito bem. O Assis é uma pessoa que dispensa comentários, da melhor qualidade, é tão boa pessoa. E o Bracali foi um mentor para mim. O fato de sermos três guarda-redes brasileiros foi muito bom. O Bracali ajudou-me muito, sou-lhe muito grato, porque chegar a uma realidade nova, num local novo, com concorrência... Depois entendi quem era o Bracali, aquilo que ele tinha feito em Portugal, a trajetória dele. Pensei, estou a ter uma oportunidade de ouro e tenho que aproveitá-la de todas as maneiras. Tenho um ótimo relacionamento com ele até hoje. O ambiente do balneário português era muito diferente do brasileiro? Com certeza. É muito mais sério. Tem disciplina, as coisas funcionam. No Brasil temos qualidade, talento, boa vontade, existe dinheiro no futebol, os clubes pagam bem, têm estrutura e têm bons contratos de patrocínio e tudo mais, mas não são organizados. O Brasil onde eu tinha vivido até aquela altura, não era organizado. O atleta chegava cinco minutos atrasado não tinha problema. O atleta ia de chinelos Havaianas para o treino, não era problema. Chegava atrasado para o pequeno-almoço, não era problema. Metia um pagode, uma música, um samba, estava tudo certo. Ou seja, o Brasil acaba sempre pecando um pouco pela desorganização. É uma outra cultura. Claro que sim e não podemos comparar a cultura. No Brasil, o jogador tem de ter mais espaço de liberdade para se expressar mesmo, porque faz parte da essência do brasileiro. Agora, precisa existir disciplina. E quando cheguei a Portugal, recebi uma ou duas folhas com uma lista de multas. “O que é isso?” Havia multa para tudo. Entrei no balneário e estava escrito na porta: “Quem não é jogador, por favor bater na porta e só entrar com autorização”. Pensei: “O que é isso?“ Nunca tinha visto, porque no balneário, no Brasil pode entrar qualquer um. E tive a oportunidade de jogar com atletas super experientes, que davam o tom daquilo que era o balneário. Quem eram esses atletas? O Idris [Mandiang], o Bracali, o Fábio Espinho, que eram os nossos capitães. O David Simão... Jogadores de alto nível, corretos e que eram lideranças super positivas, que queriam o bem do grupo. E o bem do grupo acima de individualidades. Também tinha o Mateus que era um dos líderes, embora fosse um pouco mais descontraído. Mas percebi logo que se não me adequasse a esse sistema e não cumprisse o que se espera de um atleta, ia ter muita dificuldade. Em Portugal e na Europa, se você é disciplinado, se você trabalha e é uma pessoa que faz as coisas bem e de forma correta, você vai ter oportunidade, vai conseguir ter sucesso e, graças a Deus, foi isso que aconteceu. Helton a defender a baliza do Boavista D.R. Fizeram-lhe alguma praxe, alguma brincadeira quando chegou à equipa? No estágio da pré-época quem chegava tinha de apresentar-se e cantar uma música, que prefiro nem lembrar, foi muito ruim a experiência [risos]. Mas cantei e safei-me dessa. Depois foi só brincar com os outros jogadores novos, essa é a melhor parte. Qual foi a situação mais marcante que viveu no Boavista nessa época? A minha lesão. Lesionei-me no segundo jogo do Lito Vidigal. O Lito assumiu o clube porque íamos mal na época, ganha um jogo contra o Feirense e no jogo contra o Santa Clara, em casa, acho que ao minuto 89, saio a uma bola no alto com o Zé Manuel, o extremo do Santa Clara, e quando vou aterrar a minha perna cai esticada, sinto dor no joelho, acho que é uma lesão normal. Mas afinal tive uma rotura dos ligamentos cruzados anteriores do joelho direito. Foi um choque. Fico quanto tempo parado? Fiquei oito meses afastado do campo e a época estava a ser muito boa para mim. Já ouvia: “O Helton está a ir muito bem, pode ser que no final da época a gente tenha alguma proposta”. A partir do momento que tenho essa lesão, era recuperar e voltar à estaca zero, no sentido de estar bem de novo e reconquistar a minha posição. Foram 11 meses até reconquistar a titularidade, foi algo muito marcante. Até porque foi algo inesperado, eu tinha 29 anos e ter uma lesão grave como essa gera dúvidas. Mas o regresso para mim foi incrível. Refere-se apenas às dúvidas dos outros ou também duvidou? Acho que as minhas dúvidas eram mais sobre se seria capaz de atingir o meu nível. Porque depois de uma lesão dessas, você vira outro atleta. Ou vais ser pior, ou melhor, mas vais ser diferente, não o mesmo. Porquê? O que muda? Muda a sua percepção das coisas. Não tem como ficar igual após 11 meses sem jogar depois de uma lesão. Valorizas as coisas de uma maneira diferente. Tive oportunidade de fazer ajustes. Comecei a sonhar com algumas coisas. Pensei, quero mudar a minha carreira. Não posso ter a mesma mentalidade de antes. Preciso ter um fisioterapeuta, um personal trainer, um nutricionista; eu já tinha um psicólogo, com quem trabalho até hoje, que tem sido incrível na minha trajetória. O guarda-redes brasileiro ao serviço do Boavista, salta mais alto que os avançados do Benfica e agarra a bola SOPA Images Quando começou a ter um psicólogo? Em 2016, estava no Botafogo. Já o conhecia de outros locais. Ele é um conhecido de amigos em comum. É psicólogo e é pastor também, tem formação em coach, de mentor. Houve um jogo pelo Botafogo em que não estive bem. Ele entrou em contato comigo e pediu: “Dá-me uma oportunidade, vamos conversar um pouco”. Comecei esse trabalho, vai completar 10 anos agora. Tem feito muita diferença na minha vida. Voltando ao Boavista e à minha lesão, desenhei o que eu queria. Quero agente, quero uma assessoria de comunicação, comecei a sonhar com esse plano. Pensei, talvez não vou ser igual, mas posso ser diferente, ser muito melhor e mais completo. Contratou por sua conta toda essa equipa para trabalhar consigo? Sim, tive o privilégio de montar isso e não montei só uma vez, montei várias vezes. Porque em cada país que estive, fui alterando para ajustar-me a cada contexto. Foi algo que, acredito, fez muita diferença para ter alcançado aquilo que alcancei até hoje na carreira. Porque depois consegui voltar muito bem, só que infelizmente veio a paragem do Covid-19, que foi uma tragédia para a sociedade em geral. Como foi o primeiro impacto com o futebol português? Muito organizado, muita disciplina, muita tática, vi logo que as pessoas estudavam, analisavam e queriam fazer a diferença em campo. O futebol é uma ciência também. Vamos utilizar a ciência a nosso favor, seja ela tática, técnica, científica, de fisiologia, para que possamos ter o melhor resultado. Foi a primeira vez que comecei a conviver com esse tipo de pensamento. Culturalmente, o que mais lhe agradou em Portugal e nos portugueses? E, pelo contrário, o que mais o chocou ou desagradou, que não estava à espera? Não teve ponto ruim. Teve pontos, às vezes, menos bons. O que me chocou foi a frontalidade. O brasileiro não está acostumado com conversas muito diretas. Do género: “Tu fizeste mal” ou “tu não és bom” ou “não gosto de ti”. O brasileiro não tem a cultura de chegar à frente da pessoa e ser franco. O português fala na sua cara, na sua frente, aquilo que ele pensa e aquilo que tem de ser. O brasileiro é muito melancólico, mais dramático nesse trato. Então, para mim, chocou no início. Mas gostei. Hoje prefiro muito mais que alguém me diga logo na cara o que pensa, do que chegar, dá um sorriso no meu rosto, um beijo na minha bochecha, depois vira e diz: “Aquele gajo é um safado”. Prefiro muito mais que diga logo: “Não gosto de ti” Tudo bem, não tem problema algum, vamos ser profissionais à mesma. A nossa vida é curta e não temos direito nenhum de ficar enganando ninguém, acho que não faz muito sentido. Custou-lhe muito passar a fase do Covid-19 fechado em casa? Quando comecei a perceber que o campeonato ia parar pelo menos um mês e que eu estava voltando da lesão, já me tinham falado do Benfica, não havia acordo, não tinha assinado nada, só sabia do interesse, e pensei: “Não posso perder o ritmo que tenho, se o campeonato parar por 30 dias não posso ficar fechado em casa sem poder sair e sem treinar”. Disse à minha esposa que tínhamos de sair do apartamento. Entrei num site de aluguer de casas e encontrei um chalé depois de Gondomar, na frente do Rio Douro, que tinha um campo, uma piscina, estávamos na margem do rio. Aluguei por duas semanas, para poder continuar a treinar. Chamei um amigo para trabalhar, levei as minhas coisas do ginásio... Infelizmente o campeonato parou mais de dois meses e nós ficámos um mês e meio naquela casa. Nesse período trabalhei sempre, diariamente. Como a casa ficava mais no interior, às vezes podíamos estar mais tranquilos para dar uma caminhada. Aproveitei esse período para poder ajustar alguns detalhes e voltar muito forte. Foi o que aconteceu. Spoiler “Desde o dia zero, o Jorge Jesus testa quanto o jogador vai aguentar e suportar a pressão e se vai fazer realmente aquilo que ele deseja” Aos 35 anos, o brasileiro Helton Leite está a jogar na segunda divisão brasileira mas com a ambição de regressar ao patamar mais alto do futebol e relançar a sua carreira de guarda-redes. Nesta Parte II do Casa às Costas, abordamos as duas épocas e meia no Benfica, a relação com Odysseas Vlachodimos e Svilar, a boa surpresa que foi jogar na Turquia, a desilusão no Deportivo e falamos das dificuldades no regresso ao país que o viu nascer Assinou um contrato de 5 anos com o Benfica em 2020/21. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no Boavista? Talvez o triplo, mas era um contrato que tinha bónus, se jogasse, poderia valer mais, mas nunca vi com intenção só financeira. Eu vi o Benfica como mudança de projeção da minha carreira. Tendo o mínimo de valorização, não era uma oportunidade que se podia perder. Como foi chegar ao clube naquele ano de covid-19? Foi um período um pouco turbulento para o clube, porque eles perderam o campeonato, perderam a Taça de Portugal, tinha saído o treinador Bruno Lage, estavam com o Nelson Veríssimo e depois contrataram o Jorge Jesus, que saiu do Flamengo. Muitos jogadores que não faziam parte do projeto estavam lá. Eu não fui contratado pelo mister. Outros jogadores também não tinham sido contratados por ele. Então, estava tudo muito confuso e um ambiente muito mexido, com um Benfica sem títulos, com muita mudança, e quatro semanas depois, já tinha pré-Champions League, só que não se podia fazer estágio pré-época, porque ainda tinha restrição de covid-19. Foi realmente um caos, muitos jogadores a entrar e a sair. Aconteceu tudo muito rápido nesse início. O primeiro contacto com Jorge Jesus foi bom? Ah, um grande impacto [risos]. Ele é top, é muito fera, sou grande fã do mister. É uma figura mas é um especialista em provar as pessoas. Eu não entendi isso na altura, mas desde o dia zero ele já está a testar toda a gente. E não era testar só dentro de campo, ele testava o quanto aquela pessoa quer, o quanto aquele jogador pode adaptar-se, o quanto vai aguentar e suportar a pressão e vai fazer realmente aquilo que ele deseja. É um teste trabalhar com ele. Mas pode tornar-se também cansativo trabalhar com ele. É, não digo cansativo, digo que é demandante. E tudo depende do resultado. O mister ficou oito anos no Benfica e ganhou 10 títulos oficiais. A questão no futebol é essa e um clube como o Benfica depende do resultado. Afinal o que faltou ali para nós foi conquistar o título, tivemos a oportunidade de conquistar três ou quatro títulos e infelizmente por um motivo ou outro, ou azar, o que quer que seja, não conseguimos. Querendo ou não, num clube como o Benfica que tem de ser campeão sempre, não ganhar títulos cobra o preço. Foi isso que aconteceu, mas para mim foi o treinador com quem mais aprendi em toda a carreira. Para mim, como para vários outros jogadores, ter tido o Jorge Jesus como treinador foi uma honra. Helton Leite assinou pelo Benfica em 2020/21 D.R. Quando chegou teve de disputar a baliza com o Odysseas Vlachodimos e com o Svilar. Foi muito difícil? Foi a maior concorrência que tive até hoje. O Odysseas ainda hoje está no Sevilha, o Svilar, um dos melhores guarda-redes do mundo, está na Roma. Não tem nada o que dizer, mas ali era luta franca, cada um lutando pelo seu espaço. O Odysseas tinha o lugar dele, eu conquistei o segundo posto e o Mile Svilar ficou com o terceiro. Mas qualquer um podia jogar, qualquer um podia fazer diferença. Sabíamos disso, dependia da oportunidade. Éramos três guarda-redes fantásticos e as coisas aconteceram como aconteceram. Davam-se bem os três, tinham grande afinidade, ou nem por isso? Sempre muito tranquilo. O Odysseas é aquele alemão que é grego, super tranquilo, super pacífico, o Mile já tem uma personalidade mais forte, pessoa de caráter, de respeito, você vê que ele tem boa formação, é uma pessoa de boa educação, não tivemos problema nenhum. Agora, sou brasileiro, o outro é grego e o outro é sérvio-belga. Obviamente existem diferenças culturais, mas em termos de trabalho e de relacionamento não teve problema. Sempre conseguimos comunicar muito bem e tivemos uma ótima relação. O que aprendeu com eles? Foi uma fase em que aprendemos juntos, não tinha um que era muito mais experiente que o outro, ou muito superior ao outro em algum contexto, então acho que foi realmente os três batalhando e aprendendo com aquilo que ia acontecendo. Na primeira época a nível individual foi positivo porque o mister deu-me oportunidade e joguei 26 jogos. Foi o que fez a diferença para mim. Joguei competições europeias, joguei o campeonato, estive mais de 700 minutos sem sofrer golos, o que foi muito positivo, porque não fui contratado para jogar. Eu fui contratado para jogar se precisasse, mas não para tomar a posição. Não tinha status para isso, não tinha salário para isso e também não tinha o suporte para isso. Mas joguei e dei conta do recado. Mas na segunda época tudo mudou. Porquê? Ele já apostou no Odysseas desde o início e foi uma aposta que saiu bem, e com guarda-redes deste nível quem tem oportunidade e liderança vai dar conta do recado, foi isso que aconteceu. Depois eu já não joguei muito, e como tinha 31/32 anos, já não queria ser mais o segundo guarda-redes, então, para mim ou eu jogava ou ia embora. Por mais que adorasse estar naquele ambiente, perdi realmente a posição. Tem noção por que razão perdeu a posição? Tem o jogo da final da Taça contra o SC Braga, em que eu saio da área e o árbitro dá falta minha em cima do Abel Ruiz contra o SC Braga e tenho a infelicidade de ser expulso. Perdemos o campeonato, mas nem acho que foi por isso. Tempos depois o mister disse: “A nova época vai começar e no primeiro jogo estás suspenso, vou colocar outro guarda-redes a jogar”. E foi o que aconteceu. O guarda-redes brasileiro diz que adorou trabalhar com Jorge Jesus no Benfica D.R. Considera a sua expulsão uma má decisão do árbitro? Eu não tomei a boa decisão de sair da área. A partir do momento que tomo a má decisão, corro o risco. Se correr o risco, caio na mão do árbitro. Se acho que foi falta? Não. Mas se o recrimino por marcar falta? Também não. Acho que foi uma má decisão minha de sair e inteligência e malícia do adversário. Nunca falei sobre árbitros na minha carreira. Admiro muito os árbitros porque eles fazem um trabalho super difícil, super demandante e são super criticados. Obviamente que em alguns momentos também deveria existir uma certa partilha de responsabilidades, mas não é o meu trabalho, a minha função é jogar e desejar que ele faça o melhor trabalho, como eu também quero fazer o meu melhor trabalho. Na verdade, o mérito foi do avançado que soube extrair o melhor de uma situação em que talvez não fosse ajuizado nada. Prefiro olhar internamente do que responsabilizar os outros por decisões boas ou más minhas e convivo super bem com isso. Acredito muito em Deus e acredito que se somos obedientes a Ele, tudo aquilo que a gente faz de maneira correta e boa, Ele está a cuidar do nosso futuro. Deus me deu uma carreira maravilhosa, sou muito grato por tudo que vivi. Mas, realmente, essa foi a causa de não ter começado a segunda época como titular porque logo no primeiro jogo eu estava suspenso. Ele deu a oportunidade ao Odysseas, ele segurou e fez bem aquilo que tinha de fazer. Essa foi a época mais difícil na carreira? Não, tive piores. Vamos chegar lá. Mas foi uma época em que tentei conquistar o meu espaço de novo, não consegui, também foi um ano mau da equipa. Em dezembro, o mister saiu, a equipa não está bem. Eu não consigo fazer a diferença, jogava pouco e quando jogava não fazia a diferença. Por isso, por que razão vou jogar? Jogava o Odysseas. Foi um ano péssimo para o clube. Gostou do Roger Schmidt? Adoro, adoro. Foi o treinador na Europa com quem mais desfrutei de futebol, embora tenha jogado somente um jogo com ele. Mas foi o treinador que mais desfrutei do dia-a-dia, adoro ele. Porquê? O que tem de especial? O Roger Schmidt chegou e na primeira semana estavam todos desconfiados, nós vínhamos de uma época terrível, não ganhámos nada. Quando um treinador é mandado embora, sinto-me mal, com vergonha, porque não tivemos a capacidade de ter sucesso. O jogador tem que olhar para dentro também e perguntar-se o que poderia ter feito diferente. Porque se ele foi embora é porque estávamos mal. O Veríssimo depois entrou, conseguimos avançar um pouco mais na Champions, mas no campeonato não tinha resultado algum. Terminámos na 3ª posição, o que é péssimo para o Benfica. O Benfica é campeão ou fracasso. Terceiro lugar então é muito fracasso. Existia esse sentimento de ver o que ia acontecer com a entrada do Roger Schmidt. Logo na primeira semana ele faz uma reunião individual com todos os jogadores. E ele era direto, muito educado, uma pessoa super diferenciada no trato com o atleta. Ele perguntou-me: “O que você quer?”; “Eu quero jogar”; “Tudo bem, mas você vai ter que provar”; “Tudo bem, estou aqui”; “Mas e se você não jogar?”; “Se não jogar, eu gostaria de sair”; “Tudo bem, não tem problema algum com isso, mas eu quero ver você treinar”; “Tudo bem, maravilha. A minha mentalidade é de jogar e de fazer a diferença, para mim e para o clube.” O que aconteceu depois? Na pré-época tive algumas oportunidades, mas o Odysseas terminou bem a outra época, porque não havia de começar? Começou, começou bem também. E no final da pré-época, ele chegou junto de mim e perguntou novamente: “O que queres fazer?”; “Eu quero jogar”; “Eu gosto muito de ti, admiro-te como guarda-redes, acho que és um excelente guarda-redes, mas o meu nº 1 hoje é o Odysseas”; “Mister, sem problema algum. Eu respeito muito sua decisão, só que se eu tiver uma proposta, gostaria de sair para jogar, porque não sou guarda-redes para não jogar”; “Concordo contigo, se chegar uma proposta, vou ajudar-te a sair”. Como é que eu não vou adorar um treinador desses? Uma pessoa que é respeitosa comigo, que escuta aquilo que penso, e que tem o cuidado de passar a decisão dele, e tem esse tipo de relação com o atleta? Eu pensei, com este mister eu vou até a morte, joguei um jogo, mas vou com ele até à morte. E aquilo que ele me prometeu, cumpriu. Tive a oportunidade de sair em janeiro, ele foi lá e cumpriu. Deu a cara por mim, disse que eu tinha de sair. E, afinal, o clube acabou por nem contratar outro guarda-redes. Eu saí e tive a oportunidade de fazer o melhor contrato da minha carreira, com o Antalyaspor. Helton acabou por sair do Benfica a meio da época 2022/23 D.R. Gostou mais de viver em Lisboa ou no Porto? Eu vivi em Cascais dois anos e meio. Quando vi Cascais disse: esse é o local onde quero morar pelo resto da minha vida [risos]. A Camila, minha esposa, disse logo: “Eu não preciso sair daqui nunca mais”. E quando saímos foi um chororô. É um local que é uma possibilidade para regressarmos um dia, porque amamos Portugal. Os avós da Camila são portugueses, ela tirou a cidadania portuguesa, o nosso filho é português. O vosso filho nasceu quando? Nasceu em 2023, no Brasil. Era importante ele nascer perto da família, perto de todo o cuidado natal nosso. Teve outras propostas além dessa da Turquia? Tive, mas não senti que era o caminho. Tive proposta para regressar ao Brasil, com o Renato Paiva. Ele queria que eu fosse para o City Group, que tinha o Bahia naquela altura, mas não achei que fosse o momento de regressar ao Brasil. Agradeci-lhe muito, foi uma grande proposta. Tive proposta também da Espanha, do Elche, mas não senti que era o contexto para eu ir, a não ser que fosse por empréstimo, mas o Benfica não queria que eu saísse cedido, apenas definitivo. Logo depois surgiu a possibilidade do Antalyaspor. Através de quem? O treinador, que era o Nuri Sahin, foi jogador do Real Madrid, do Liverpool e lenda do Borussia Dortmund, ligou-me. Pensei, treinador alemão europeu, jovem, um clube que está a precisar de guarda-redes para jogar, melhor contrato da minha carreira... Em um ano eu tinha jogado três jogos e ele disse-me: “Eu sei que faz muito tempo que tu não jogas, mas eu quero muito que venhas para cá. Podes falhar em 10 jogos seguidos que vais continuar a jogar”. Só perguntei onde é que assinava o contrato. Precisava de alguém que acreditasse em mim. Estive um ano e meio no Antalyaspor, o clube onde fiz mais jogos na carreira e o melhor contrato. O guarda-redes brasileiro com o filho Noah Leite D.R. Como foram as primeiras impressões? Foi fantástico, amei a Turquia de cabo a rabo, como se diz aqui no Brasil. O turco é o intermediário entre o brasileiro e o europeu, e para mim foi perfeito. Porque nem é sério demais, nem bagunçado demais. É aquele misto de Europa com Ásia. Ou seja, tinha um pouco de organização, mas um pouco também de leveza. Identifiquei-me muito. As pessoas são muito religiosas também, embora de outra religião e respeitavam-me muito mais por eu ter a minha religião. Senti-me muito em casa. O meu primeiro jogo na Turquia foi muito marcante também. Porquê? Chego à Turquia numa sexta-feira, durante a madrugada, vou dormir e o motorista do clube diz que às sete da manhã ia buscar-me. O Antalyaspor naquela altura estava a lutar para não cair de divisão. Era a primeira equipa acima da linha de água. Cheguei ao clube, faço os exames médicos, o treino estava a decorrer, sentei-me na sala da presidência, há uma divergência no contrato, os meus empresários com advogados, aquilo demora uma hora e meia, acaba o treino, estou lá sentado, aparece o Nuri na sala da presidência, de botas, vira-se para mim e diz em inglês: “E aí meu guarda-redes, estás pronto para jogar amanhã?”. Pensei: ele está a brincar. Dois dias sem dormir, já não treino há quatro dias, chego aqui hoje, nem treinei com os meus companheiros e queres que eu jogue amanhã? Pensei isto mas respondi: “Claro que sim”. E ele: “Então quando acabar aí vai lá para baixo, troca-te que vais viajar e amanhã jogas“. Assinei o contrato, vou para o meu quarto no centro de estágio, nem troco de roupa, tomei um pequeno almoço rápido, porque nem tinha comido como deve ser naquele dia, vou para a sala de palestras, ele fala: “Pessoal, esse aqui é o Helton, vai viajar connosco“. No aeroporto, voltou a perguntar: “Então, estás pronto mesmo? Temos total confiança em ti“; “Obrigado pela confiança, mas jogar amanhã, em Istambul, contra o Galatasaray, primeiro colocado do campeonato, ou vocês confiam em mim, ou vocês estão desesperados para eu jogar.” E? Almocei pelas quatro da tarde, no aeroporto, viajei, estava morto, adormeci às nove horas da noite e acordei às onze da manhã, e pensei: a primeira impressão é a que fica, jogar nesse estádio com 60 mil pessoas, sem treinar... Eu só sabia o nome de três companheiros. Um era o Fredy, que era português e eu tinha jogado contra ele. O Fredy é um amigaço que eu tenho até hoje. O outro era o Fernando, brasileiro, que estava suspenso. Não foi a esse jogo. E o outro era o Luiz Adriano, que estava no jogo também. Então, eu conhecia dois jogadores, não conhecia mais ninguém. Não sabia o nome das pessoas. Não sabia o nome dos adjuntos, não sabia o nome do treinador de guarda-redes. E fui jogar. Perdemos 2-1, mas fiz um jogaço. O meu agente, antes do jogo, tremia, só dizia: “O que nós estamos fazendo?“ [risos]. Porque se desse mal ali, naquele dia, a Turquia inteira ia dizer que eu era péssimo. Na Turquia eles precisam ver jogar contra o Galatasaray, contra o Fenerbahçe, para dizer se és bom ou não. E, individualmente, fiz um jogo excelente. Depois, graças a Deus, saiu tudo bem e foi uma montanha russa de emoções, mas ali já deu o tom daquilo que seria essa aventura turca. Helton a agradecer aos fãs do Antalyaspor, da Turquia Ahmad Mora O que achou do futebol turco? Gostei muito. É um meio termo, um pouco de disciplina, um pouco de organização, mas um pouco solto também. Dificuldade de pagamentos, falta de seriedade em alguns sentidos. Às vezes era um pouco confuso mas foi uma experiência fantástica. Nem tiro nem coloco nada porque foi muito legal e a gente teve o privilégio da Camila ficar grávida e do nosso filho nascer durante esse período, por isso temos uma recordação incrível da Turquia. Conseguiu assistir ao parto do seu filho? Não. Só conheci o Noah com 11 dias de vida. Culturalmente, houve algo que o tivesse impressionado mais? Impressionou-me pela negativa, mas mostrou-me muito daquilo que é a Turquia, o terremoto em 2023. Eu tinha acabado de chegar. Aquilo comoveu-me muito. Como podem as pessoas viver naqueles locais que não têm condições nenhumas? Que loucura, tantas pessoas morreram, atletas faleceram, foi muito triste para todo mundo e para o futebol também. Mas sabe o que me chamou maior atenção? Foi a comoção do país e o nacionalismo dos turcos. Eles amam o país deles. Para mim foi um ensinamento, porque sou brasileiro, mas também tenho uma ligação muito forte com Portugal, e acho que muitas vezes nós não honramos o nosso país. Não é só nós como cidadãos, todos, políticos, etc. Não temos esse nacionalismo de dizer eu amo a minha pátria. Acho que isso nos falta um pouco e o turco tem isso de sobra. Tocam o hino antes dos jogos e eles cantam com toda a força, em pé, com a mão no peito. No Brasil toca o hino e nós estamos dançando música. Os turcos são muito leais para quem eles amam e respeitam, tomam conta e ninguém pode mexer. É uma característica que me admirou muito. Tinha assinado por quanto tempo com o Antalyaspor? Uma época e meia. Depois eu tinha duas vontades. Ou crescia na própria liga, ou então tinha alguma proposta de um clube maior para poder seguir minha carreira. Acho que fiz um ótimo trabalho lá e certamente estava entre os melhores guarda-redes da liga turca. Portanto, ou tinha esse crescimento lá ou regressava para a Europa. E tive muito claro que queria regressar para a Europa. Porquê? Porque não queria mais que um mês tivesse 90 dias. Foi muito desgastante no final, o atraso de salários. Ou melhorava a minha condição no país, ou voltava para a Europa. E não melhorou a condição no país, não tive essa oportunidade. Tudo bem, vou buscar um novo caminho e foi exatamente isso que aconteceu. Tive uma proposta da Arábia Saudita, que foi a melhor proposta que tive na minha carreira. Mas não achei que era o caminho. Tinha muito claro no meu coração que queria regressar para a Europa. O guarda-redes com a mãe D.R. E que propostas teve da Europa? Tive propostas de alguns clubes do leste europeu, mas que não me davam aquilo que queria. Tive propostas do Brasil também, da primeira divisão. Tive proposta de Portugal, mas não queria baixar tanto o meu salário. Até que apareceu a situação do Deportivo. Eu não queria jogar na segunda divisão, mas queria abrir um mercado para mim. E o Deportivo dá-me uma possibilidade, porque assinei dois anos de contrato. No primeiro ano era um valor com bónus, que chegava a um valor interessante, mas era metade daquilo que ganhava na Turquia. Mas se subíssemos, eu ia ter o mesmo salário que tinha na Turquia. Se não subisse, tinha uma cláusula de saída. Foi esse o acordo que fiz com o Deportivo. Gostou de viver em Espanha? Gostei do futebol. Fiz muitos amigos também. Não tinha problema em morar na Espanha, mas em termos de cultura adaptamo-nos menos do que em Portugal ou na Turquia. Não sei, não tinha estrangeiros no clube, é um sistema mais fechado. Não foi um problema, mas não foi uma adaptação como tivemos em Portugal e na Turquia. Mas jogou bastante. Sim, joguei sempre, cheguei, fiquei dois jogos sem jogar e depois joguei até o final do campeonato e foi uma época muito boa. Mas vi aquilo como um investimento, então tinha que ter o retorno. Se o clube subisse, talvez dobrasse o meu salário, mas na II Liga eles não iam fazer isso, então, não fazia sentido continuar. Eu estava com 34 anos, já tinha sido destaque na liga. Alcançámos o objetivo do clube que era manutenção. Ficamos tranquilos. Para mim ficou muito claro que era o momento de estar aberto a novas possibilidades. Elas surgiram e saí. Queria ter continuado na Europa? O meu desejo era continuar, mas vi logo de caras que para continuar na Europa tinha que ir para a I Liga. Fui um dos melhores guarda-redes da II Liga da Espanha e não tive proposta da I Liga da Espanha, então tinha de acordar para a realidade. Tinha de sair daquilo que é o centro da Europa. Abriu-se o leque de opções para mim para voltar a jogar numa I Liga e ter financeiramente uma boa situação. Não posso tomar a decisão sozinho de fazer só investimentos. Tenho que ter bons contratos, estava com 34 anos, a carreira é curta.. Foi mais ou menos esse tipo de processo que passou pela nossa cabeça. Helton com o pai, João Leite, que também foi guarda-redes D.R. Acabou por ir jogar para o Fortaleza, no Brasil, em 2025. Como e porquê? Foi a melhor proposta que teve? Não, financeiramente nem foi. A melhor proposta que tive até foi da Turquia, do mesmo clube onde tinha jogado, que me fez uma proposta de 3 anos. Só que o clube não pagava, eu tinha ainda a questão da dívida do clube; o clube queria arranjar uma maneira de parcelar e eu não queria. Não houve acordo, o clube tinha de pagar a cláusula para o Deportivo e o Deportivo não aceitava negociar. Só se pagasse a cláusula, que era 300 mil euros, ou então não saía. Ficou tudo meio que em stand by. Depois apareceu um clube da Arábia Saudita, disse que pagava, era um contrato bom também, mas tinha de esperar pelo tão sonhado budget da federação saudita, que pode demorar. Fiz acordo com o clube, acertamos as bases salariais, acertamos o tempo de contrato, acertamos tudo. Mas não chegava o budget. Até que um dia me ligam a dizer que surgiu o Fortaleza. Cujo treinador era o Renato Paiva. Exatamente. Conheci-o no Benfica, ele já me tinha tentado levar para o Bahia. Ele disse que o contrato era do jeito que eu quisesse. Beleza. Um ano e meio de contrato, o Fortaleza é um clube no Brasil hoje com muito respeito, muito organizado, estava há 7 anos na I Liga, ia jogar Libertadores, eu podia morar na praia... Nunca tinha vivido com a minha esposa e o meu filho no Brasil. Os meus pais e sogros estavam sempre longe do meu filho, achei que era o momento de voltar para o Brasil. Não quer dizer que vamos ficar eternamente no Brasil. Falei com o Paiva, ele deu-me confiança, ia ser o guarda-redes dele. Fechei contrato. O Fortaleza ia pagar a multa rescisória. Até que no último dia ligam-me da Arábia a dizer que iam pagar a multa rescisória. Mas aí eu disse que já tinha acertado no Brasil. Mas não correu bem. Correu péssimo, foi uma tragédia. Porquê? Eu não tinha percepção que o clube estava na situação que estava. Claro que estava a lutar para não cair. Mas era um pouco como o Antalyaspor, era o primeiro acima da linha de água. O clube tem dinheiro, tem estrutura, não vai cair, pensei. O clube tinha cinco guarda-redes profissionais, tinha 11 médios, 5 pontas de lança. Ou seja, era um projeto em que as coisas não estavam a sair bem. Cheguei, joguei, e três semanas depois, mandam o Renato Paiva embora. Ele tinha chegado há mês e meio. Eu tinha vindo para o Brasil porque o treinador me queria. Quando o novo treinador entrou, foi uma decisão política, decidiu apostar no outro guarda-redes que já estava lá. Até aí tudo bem, respeito a decisão. Até que o primeiro guarda-redes lesionou-se e resolveram apostar no outro guarda-redes que estava lá. Aí perguntei porque me contrataram. Foi uma situação péssima, foi o pior período da minha carreira, a pior experiência. Helton esteve duas épocas no Antalyaspor, da Turquia D.R. Ficou até final da época? Fiquei. O clube infelizmente caiu para a segunda divisão e eu mal joguei. Começou esta época, outro orçamento, o clube não tinha condições de ficar com quase nenhum jogador e saíram 25 jogadores. Fui um deles e agradeço a Deus pelo Vila Nova de ter dado a oportunidade de estar aqui, num clube sério, que sabe onde quer chegar, com pessoas sérias e comprometidas com a instituição. Estou a recomeçar a minha carreira e espero que seja também um recomeço para o clube que está há 41 anos sem ir à primeira divisão do Brasil e tem essa ambição. Estou numa cidade boa, temos um ótimo treinador, um plantel super comprometido, jogadores com fome, com desejo de vencer, de dar um novo rumo ao clube e à carreira deles. Tem contrato com o Vila Nova até quando? Até o final da época. Um contrato curto, vamos fazer isso funcionar, vamos viver isso intensamente e vamos atingir os nossos objetivos juntos, depois lá para frente a gente vê. Mas neste período o que preciso é retornar, jogar muitos jogos, ter muito sucesso com o clube, voltar aquilo que é o meu nível de ritmo de jogo e de performance. Como foi voltar ao futebol brasileiro? Foi difícil a adaptação? Está muito diferente do futebol que deixou há 10 anos? Tive um choque no início, mas não foi no futebol. Tive choque cultural. Estava desacostumado com desorganização, falta de disciplina. Mas talvez também tenha sido o local onde eu caí quando voltei. Foi um local que, em todos os sentidos, nada correu bem. Felizmente agora estou num novo local. Por mais que seja o mesmo país, é uma outra cultura institucional, uma coisa diferente. O Brasil, em termos socioculturais, é um país de resultados, não é um país de processos. Na Europa valoriza-se mais o trabalho árduo, fazer as coisas bem, às vezes muito mais do que ganhar um prémio. Porque o prémio qualquer um pode ganhar. Mas você sabe que só consegue ter sucesso a longo prazo tendo disciplina, trabalho correto, fazendo as coisas por um longo prazo. Não é só um acaso. No Brasil, infelizmente, a gente vive de muitas emoções. É muito apaixonado, mas acaba direcionando essa paixão para 8 ou 80. Não acho que tenha de ser assim. Nessa cultura acredito que pode haver resultado de outras maneiras, entendendo aquilo que é o contexto, mas tendo a tranquilidade e a frescura mental para não tomar nenhuma decisão intempestiva, não reagir de maneira intempestiva em situações que, às vezes, com trabalho e paciência se resolve. Em 2024, Helton jogou pelo Deportivo da Corunha, na Espanha D.R. Tem alguma meta para deixar de jogar? A minha meta é aproveitar a minha família, conquistar meus objetivos no futebol e tenho muita ambição. Tenho muita coisa para fazer, muito jogo para jogar. Que objetivos ainda tem no futebol? Vou de ano a ano. Nesse momento quero subir para a Série A. Quero ser um dos melhores guarda-redes da II Liga do Brasil. Quero voltar ao local onde realmente tenho que estar, que é a primeira divisão. Se Deus quiser, vai abençoar o Vila Nova e vou voltar com o Vila Nova. Mas tenho muito tempo para jogar, muitos anos ainda, e cada ano mais desfrutando do futebol e da família. Já sabe o que quer fazer no dia em que tiver de arrumar as luvas? Sei que vai ser no futebol. Não quero estar no relvado, mas sei que vai ser no futebol de alguma maneira, seja executiva, diretor, seja política, seja empresarial, em alguma área eu vou estar, mas ainda não é o momento de eu focar nisso. Estou com 35 anos, mas tenho a fome e a ambição de um jovem no futebol. Estou a recomeçar a minha trajetória. Qual foi o defesa com quem mais gostou de trabalhar? Posso citar alguns. No Brasil, trabalhei no início da minha carreira, no Ipatinga e no JMalucelli, com um central chamado Tiago Alencar, que eu adorava trabalhar com ele. Eu sabia o que ele ia fazer, ele sabia o que eu ia fazer. Joguei em dois clubes com ele, amava ele. Ele chegou a jogar uma época no Vitória de Guimarães. É um central, filho do Nenê, lenda do Vitória de Guimarães. Na Europa, no Benfica adorei jogar com o Lucas Veríssimo e o Gilberto, dois jogadores com uma conexão incrível, aquelas pessoas que pode xingar inteiro, não tem problema nenhum, porque sabemos que vamos até à morte uns com os outros. Tenho ótimo relacionamento com eles até hoje. Tem outro com quem amei jogar que é um amigo gigantesco também que tenho, jogamos juntos na Turquia, o Naldo, que está no Leixões. Certamente vou esquecer alguém, mas não queria deixar de citar esses nomes. E o avançado mais difícil, que mais temeu? Aubameyang, com quem joguei contra o Arsenal duas vezes; ele é terrível, pressionava a bola de imediato e rematava de tudo que é lado, é rápido, estava numa fase brutal. E depois, na Turquia, o Icardi. A bola chegava nele e era meio golo, impressionante o senso posicional. O último que vou citar é o Fred, joguei contra ele duas vezes no Brasil. Perguntava aos guarda-redes que jogaram contra ele e era difícil encontrar um que nunca tivesse levado um golo dele. Helton Leite voltou ao Brasil em 2025, pela porta do Fortaleza D.R. É o tipo de guarda-redes que fala muito com a sua linha defensiva e gosta de comandar, ou prefere deixar esse papel para os centrais? Depende. Se a linha defensiva está muito alta e jogando no estádio com muitos adeptos, não dá para falar, não dá para ouvir, então eu já falo mais perto. Mas de modo geral, gosto de falar, de orientar sempre as marcações, falo muito, mas não demais. Não tenho que ser chato para eles, tenho que ser assertivo. Falo o tempo inteiro, mas palavras curtas, lembretes curtos. Quais são os seus pontos mais fortes e os menos bons? Os menos bons, pelo fato de eu ser muito alto e pesado, apesar de ser magro, é sempre um desafio manter a coordenação, agilidade, velocidade, porque são atributos que os guarda-redes mais altos têm que estar sempre trabalhando. Tenho que estar muito atento a esses pontos. Coordenação, agilidade, velocidade, cair e levantar, fazer tudo rápido. A mais-valia, acho que foi, sinceramente, a minha experiência de viver muita coisa, observar muito o futebol e ver muitos treinadores. Acredito que sou bom em quase todas as áreas. Mas sou muito bom em interpretar o jogo, em conhecer o meu adversário, em saber o que ele vai fazer, ver a intenção dele, entender aquilo que é o jogo. Isso é o meu ponto forte, porque me dá antecipação e a possibilidade de fazer todas as coisas bem. Talvez não seja da elite, mas faço todas as coisas de maneira muito bem e equilibrada. Tive o privilégio de aprender com muitos treinadores de guarda-redes, dentro e fora dos clubes. Pode citar alguns? Vou citar quatro treinadores de guarda-redes com quem tive a oportunidade de trabalhar dentro e fora dos clubes. Um é o Vítor Pereira, que hoje está no Egito, um dos meus mentores como treinador de guarda-redes. O Tiago Torcato também é um dos meus mentores, esteve a época passada no Marítimo. E em Espanha tive dois, o Oscar Rama e o Xavi Ferrando, que foi da formação do Barcelona. São todos treinadores que colocaram dentro de mim que eu não preciso ser o mais rápido, eu não preciso ser o melhor guarda-redes para jogar sempre. Mas se eu conseguir utilizar as minhas valências e interpretar o jogo de maneira mais rápida do que os outros guarda-redes, vou conseguir ter sucesso. Helton está a jogar no Vil Nova, na II Divisão brasileira D.R. Onde ganhou mais dinheiro até hoje? Na Turquia. Investiu? Sim em imobiliário e produtos financeiros. Qual a maior extravagância que fez na vida? Talvez comprar um carro BMW, que foi um sonho meu. Tem algum hobby? Sempre gostei muito de desporto, amo o futebol americano e o beisebol. Já percebemos que é um homem de fé. E superstições, tem ou teve? Não tenho superstição nenhuma, sou um homem de fé, o meu maior desejo é viver uma vida de obediência a Deus. Tatuagens? Nenhuma. Pratica outras modalidades além do futebol? Faço algumas aulas de boxe, está incorporado no meu plano semanal de trabalho. O guarda-redes em ação pelo Vila Nova D.R. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde um dia gostaria de jogar? Real Madrid. Mas Barcelona também seria top. Qual a maior frustração que tem na carreira até o momento? Não vou dizer frustração, mas vou dizer assim, eu tinha dois desejos pendentes, um, ser campeão com o Benfica, porque fui, mas não fui, porque saí antes da época acabar. Íamos com quase 10 pontos de avanço quando saí, sabia que ia ser campeão. O outro, foi não ter jogado um jogo de Champions League. Fiquei com esse desejo, mas frustração não é. E o maior arrependimento? Nenhum. O momento mais feliz na carreira ? O dia que assinei pelo Benfica foi o dia mais feliz da minha carreira, sem dúvida. Um objetivo que ainda está por cumprir? Voltar a jogar nas primeiras divisões e voltar a ser campeão. Tem ou teve alguma alcunha? Chamavam-me Ton, que é o final do meu nome. Os mais íntimos ainda chamam de Ton. Helton com toda a familia Leite, os pais, as irmãs, mulher, filho, cunhados e sobrinhos D.R. Há alguma regra do futebol que se pudesse alterava ou bania? Não sou muito fã do VAR. Acho que tudo aquilo que é automático é válido, mas tudo aquilo que é interpretativo acho que é melhor deixar entre o jogo em si. Não diria que ia banir, mas ia automatizar tudo que pudesse automatizar e deixava o jogo seguir. Atualmente, qual é para si o guarda-redes que mais gosta de ver jogar? Gosto muito do Courtois. E o Neuer, o Neuer sempre, para mim sempre foi o maior guarda-redes, mas quem me enche as medidas é o Courtois, acho que é um guarda-redes top, top, top, top. É aquele gajo que é bom em tudo, é um monstro. Tem algum talento escondido? Sou muito bom com números, sou muito metódico, não sou organizado, mas sou muito metódico com números, com contas, sou quase que paranóico com isso. Qual o momento mais marcante da sua vida? São dois. O dia em que aceitei Jesus como salvador da minha vida e o dia que casei com a Camila. 1 Compartilhar este post Link para o post