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A Casa às Costas

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Citação de Jimpo, há 7 horas:

Já há algum tempo que não lia uma entrevista tão desinteressante. Até dá a ideia que o jornalista se fartou das respostas a certo momento. 

A entrevista foi uma m*rda mas a foto dele com a mulher em sessão de fotos de grávida é espetacular

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Eu gostei da entrevista do Vinagre e sobretudo porque mostrou uma pessoa bastante humilde. Não tentou arranjar culpados, acaba por ser um miúdo de 25 anos, quase um daqueles que acabou a faculdade e que não lhe sabe o que está a acontecer. Toca a todos, mas não andou a tentar encontrar culpados e nem desculpas, discurso muito realista. Tinha a ideia de ser uma vedeta, mas não.

Vou ficar a torcer por ele e que consiga dar a volta por cima.

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Citação de silentz, há 7 horas:

Com 16 anos fui para o Mónaco, o clube empregou os meus pais. Recebíamos €10.000. Não sabia francês, senti-me sozinho, não tinha amigos”

Rúben Vinagre esteve três vezes no Sporting, mas ainda não foi feliz no clube do coração, com o qual tem contrato por mais ano e meio. Passou pelo Belenenses, Mónaco, Wolverhampton, Olympiakos e FC Famalicão e é sobre estes anos que nos fala nesta primeira parte do Casa às Costas, recordando as dificuldades no principado e os anos inesquecíveis na Inglaterra que, diz, não voltará a viver na carreira. Na parte II falamos do regresso a Inglaterra, de Itália, dos momentos bons que vive na Polónia, no Legia, e, claro, do Sporting, de Rúben Amorim e Hugo Viana

 

Spoiler

 

É natural de Lisboa. O que faziam os seus pais profissionalmente quando nasceu?
O meu pai jogou à bola muitos anos e a minha mãe trabalhou como cozinheira, mas quando nasci eles já tinham um stand de automóveis.

O seu pai jogou futebol como profissional?
O meu pai esteve no V. Setúbal e no Sporting, mas julgo que não chegou a ser profissional.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais velho quatro anos.

Cresceu onde?
Na margem sul, na Charneca da Caparica.

Foi uma criança tranquila?
Acho que era regula, muito ativo, gostava de andar sempre na rua a brincar.

O que dizia querer ser quando crescesse?
Sempre jogador de futebol.

Em casa torcia-se porque clube?
Toda a minha família é do Sporting.

Quem eram os seus ídolos?
Foi sempre o Cristiano Ronaldo.

Gostava da escola?
Gostava, nunca fui mau aluno, era bom até. Mas gostava mais pelo convívio porque a malta estava sempre a jogar à bola, nem ligava aos telemóveis, nada disso. Tanto que os amigos que ainda tenho hoje estudaram comigo.

Rúben Vinagre com os pais

Rúben Vinagre com os pais

D.R.

Quando e como foi jogar pela primeira vez para um clube?
Eu queria começar a jogar à bola, mas ainda era muito pequeno. O meu irmão jogava no Corroios, um clube da minha zona e eu ia sempre com ele para o treino; ficava lá a jogar à parte, sozinho. Um dia disseram para treinar com eles. Era muito pequeno e treinava com miúdos com mais quatro anos que eu. Não tenho muita memória disto, não fazia tudo com eles, mas lembro-me do meu pai contar muitas vezes esta história. Devia ter uns cinco, seis anos quando comecei a treinar no Corroios. Mas estive lá pouco tempo, depois fui para umas escolinhas do Sporting, também na zona de Corroios. Fiquei lá uns dois anos e acabei por ir para o Barreirense. É o treinador do Barreirense que me vai buscar.

Quanto tempo esteve no Barreirense?
Só estive três meses e depois vou para o Sporting. Fiz o torneio de Linda-a-Velha, joguei contra o Sporting, o Benfica e outras equipas e nesse torneio os treinadores ligaram para os meus pais. Tanto o treinador do Benfica, como o do Sporting. O Sporting chegou a acordo com o Barreirense, foi buscar-me e a mais dois colegas por €5000. Devíamos ter uns nove anos.

Eram os seus pais que o levavam aos treinos no Estádio Universitário?
Não, era uma carrinha do Sporting que nos ia buscar e levar.

Só esteve um ano no Sporting. Porquê?
O Sporting não quis que continuasse. Até me lembro que foi no dia da criança, porque foi uma coisa que me marcou. Chorei, mas disse que tinha a certeza que estavam enganados e que ia voltar. Lembro-me que estava no carro quando ligaram do Benfica para o meu pai, mas ele disse que não queria que eu fosse para lá e acabei por ir, passado uns tempos, para o Belenenses, porque o treinador queria-me muito, gostava muito de mim. Estive dois anos no Belenenses, voltei a fazer jogos com o Sporting, o Benfica, e o Sporting voltou a contratar-me.

Rúben em criança

Rúben em criança

D.R.

Jogou sempre como defesa esquerdo?
Não, no futebol de 7 até era ponta de lança, médio esquerdo. No futebol de 11 joguei a maioria do tempo como extremo no início da formação, só nos sub-16, no Sporting, é que passei para lateral esquerdo.

Ficou chateado por passar de extremo para lateral esquerdo?
Não. Não é que tenha gostado no início porque me sentia bem a jogar a extremo e a médio esquerdo, mas na realidade percebi o porquê de ter mudado para lateral esquerdo. Gosto de ter bola, sou bom a arrancar de trás com bola e gosto muito de jogar nessa posição.

Nos tempos de formação, quais os momentos e as pessoas que mais o marcaram?
No Belenenses houve um senhor que me marcou, o senhor Faustino, gostava muito de mim; e no Sporting, o senhor Aurélio Pereira marcou-me porque a segunda vez que voltei para o Sporting foi através dele. Mesmo como sénior, quando o Sporting me comprou falei muitas vezes com ele e é uma pessoa por quem tenho um carinho muito especial. O senhor Faustino do Belenenses fazia o mesmo que o senhor Aurélio no Sporting.

Voltou pela segunda vez para o Sporting com 13 anos. Recebia dinheiro do clube nessa altura?
Não.

Rúben com o irmão mais velho

Rúben com o irmão mais velho

D.R.

Como foi parar ao Mónaco aos 16 anos? Já tinha empresário?
Tinha empresário, mas até mudei quando fui para o Mónaco. Comecei por trabalhar com a Eurofoot, mas quando somos miúdos estamos sempre a tentar descobrir o que é bom para nós e acabei por mudar. A hipótese do Mónaco surgiu porque tenho um torneio com a seleção de sub-16, no Algarve, que me correu muito bem e depois desse torneio tive 11 propostas. Os meus pais inclusive viajaram para Manchester, para conhecer as condições do United porque, de todos, era o sítio para onde eu mais queria ir. As coisas avançavam para lá, entretanto, conheci o meu atual empresário, o Jorge Pires, que me falou do Mónaco, do projeto que tinham para mim e acabámos por decidir que era o melhor. Foi uma decisão familiar.

Mas gostava mais do Manchester United.
Sim, por crescer a ver o Cristiano a brilhar no United, qualquer miúdo na altura queria ir para lá e se calhar até podia ter sido o passo certo, mas acabámos todos por achar que era melhor o Mónaco para crescer; ainda era muito jovem.

Ajudou na escolha o facto dos treinadores serem portugueses?
Sim. Os treinadores e o diretor-desportivo.

Foi sozinho para o Mónaco?
Fui com os meus pais, eles ficaram a viver comigo a maioria do tempo.

E o seu irmão?
O meu irmão ficou em Portugal, já tinha 20 anos, tinha a vida dele, ia lá de vez em quando. Não quis ir embora de Portugal.

Rúben Vinagre esteve em três ocasiões no Sporting

Rúben Vinagre esteve em três ocasiões no Sporting

D.R.

Recorda-se do dia em que entrou no Mónaco e das sensações que teve?
Relativamente. Lembro-me que não sabia falar a língua e que isso foi complicado, fazia-me muita confusão não perceber os meus colegas. Também não falava bem inglês, então foi um choque.

Foi um choque também em termos de exigência e na forma de treinar?
Não. Mas foi um choque no sentido em que no Sporting tínhamos a Academia de Alcochete que era inacreditável e o Mónaco era um clube que ainda estava a crescer, a fazer obras na academia para ser aquilo que é hoje. Foi um choque só por aí, porque de resto o clube tinha tudo e tinha muita qualidade. Cresci muito lá.

Continuou a estudar no Mónaco?
Não. Na altura terminei o 10.º ano, em Portugal, e lá só tive aulas de francês.

O que os seus pais faziam durante o dia quando estava a treinar e nas aulas de francês?
Os meus pais trabalhavam para o clube. O clube deu um emprego à minha mãe, cujo trabalho era basicamente cuidar de mim.

Qual foi o valor do seu primeiro salário?
Sem despesas, eram €10.000. Eles pagavam esse montante a mim e à minha mãe.

Houve algo coisa que quisesse comprar com o primeiro dinheiro que recebeu?
A minha família não tinha muitas possibilidades e quando recebi o primeiro dinheiro comprei um computador porque nunca havia tido um.

O lateral esquerdo terminou a formação no Sporting

O lateral esquerdo terminou a formação no Sporting

Gualter Fatia/Getty

Gostou de viver no Mónaco?
Sou sincero, com 16 anos não achei que fosse uma experiência inacreditável porque não tinha carta de condução e é um sítio diferente, excêntrico. Aos 16 anos não achei muito interessante. Posso dizer que já fui mais vezes de férias lá agora do que quando lá vivia saía de casa. Gosto muito mais de ir lá agora. É um sítio muito seguro, que é das coisas que mais valorizo.

Como foram os dois anos nos juniores do Mónaco?
Foi uma aprendizagem, não tenho assim muitas histórias marcantes. Foram dois anos difíceis porque era a minha primeira experiência fora de Portugal e não sabia bem o que podia esperar. Eu cresci muito na rua, a jogar à bola com os amigos e sentia falta disso porque estava com os meus pais, mas estava sozinho, não tinha amigos. Lembro-me que isso custou-me. Mas acabei por adaptar-me. Quando treinei com a equipa principal tive hipótese de treinar com jogadores de classe mundial. Fiz uma pré-época com a equipa principal, era Leonardo Jardim o treinador.

Que tal a receção da equipa principal?
A malta foi sempre boa comigo, mas era diferente do que é hoje. Apesar do meu tempo não ser assim há tanto tempo, a verdade é que era mais difícil chegar à equipa principal como chegam hoje. Tínhamos mais receio de falar, hoje estão mais à-vontade. Mas foi uma boa experiência.

Houve algum jogador com quem tivesse criado maior empatia?
O jogador com quem tive mais relação foi o Ivan Cavaleiro que ainda é meu amigo. Joguei com ele depois, no Wolverhampton.

Rúben foi chamado para defender as cores nacionais pela primeira vez com 16 anos

Rúben foi chamado para defender as cores nacionais pela primeira vez com 16 anos

Getty Images

Foi no Mónaco que começou a sair à noite ou já saía em Portugal?
Nunca fui pessoa de sair à noite, gosto mais de estar em casa com os amigos. Nunca senti falta, não o fiz muito.

E namoro sério?
Já tinha a namorada atual, a Rita. Conhecemo-nos na escola, com 14 anos. Ela chegou a ir ao Mónaco muitas vezes.

Assinou com o Mónaco por quanto anos?
Dois anos, mas no final do primeiro ano renovei por mais dois, se não me engano.

Acabou por ser emprestado ao Wolverhampton, após dois anos no Mónaco. Como recebeu a notícia?
Eu queria ir para Inglaterra, era o meu sonho desde miúdo. Lembro-me de me falarem do projeto do Wolverhampton e foi uma decisão fácil. Foi uma experiência fantástica na minha vida.

Vai para a equipa principal com 18 anos?
Sim.

Uma realidade completamente diferente do Mónaco?
Sim, a cidade em si era mais monótona, pouca coisa para fazer, mas fui muito mais feliz do que no Mónaco, porque o futebol era o que queria, era o estilo de jogo que gostava.

O que quer dizer com isso?
Um jogo rápido, o que é bom para as minhas características. Além da possibilidade de jogar com grandes jogadores. Fiquei lá quatro anos e foi muito bom. Assinei no mesmo dia que o Pedro Gonçalves.

Na época 2017/8, Rúben Vinagre foi para o Wolverhampton, da Inglaterra

Na época 2017/8, Rúben Vinagre foi para o Wolverhampton, da Inglaterra

D.R.

Os seus pais foram consigo?
Não, aí fiquei a viver sozinho. A minha mãe foi comigo no início para ajudar-me, mas só esteve duas semanas. Depois disso ia lá por vezes, assim como a minha namorada.

Já se safava com o inglês?
Não [risos]. Mas também não era muito preciso. A equipa técnica era só portugueses, na equipa chegámos a ser uns 10 jogadores portugueses.

Como foi recebido pelos ingleses? Não olhavam de lado para os portugueses?
Não. Toda a gente cinco estrelas, tínhamos um balneário ótimo, não tenho nada a dizer dos jogadores ingleses, eram fantásticos.

Como era o seu dia a dia?
Treinava de manhã, às três, quatro da tarde ia para casa, ficava em casa não fazia grande coisa, jogava PlayStation, jantava e ia dormir. Às vezes estava com os meus colegas, o Ivan, o Helder Costa, o Rúben Neves, o Jota. Fazíamos os nossos jantares.

Que episódios marcantes se recorda desses tempos no Wolverhampton?
A minha estreia no futebol profissional, contra o Yeovil Town, na Carabao Cup. Fui titular. Estava ansioso. Mas o jogo correu muito bem. O meu primeiro jogo com o City, no estádio do City, também foi marcante. Assim como a conquista do Championship e o meu primeiro jogo de Premier League, que foi contra o Everton.

Rúben com a namorada, Rita, e com a taça de campeão do Championship

Rúben com a namorada, Rita, e com a taça de campeão do Championship

D.R.

O que tem a dizer sobre o treinador Nuno Espírito Santo?
Só tenho boas coisas a dizer. Aprendi muito com ele, ajudou-me muito, cheguei lá uma criança e ele apostou em mim, deu-me muitas oportunidades.

Falava muito consigo?
Sim. Ele e toda a equipa técnica eram excelentes. Aquilo que vivi no Wolves, ao nível de grupo, de equipa técnica, dificilmente voltarei a viver no futebol. Se perguntar a qualquer jogador que lá esteve irá dizer a mesma coisa. Muito dificilmente voltamos a viver o que vivemos ali, construímos ali algo, um grupo, um clube. Nos dias de folga jantávamos quase sempre todos juntos, em casa.

Com a equipa técnica também?
Não, com a equipa técnica não era assim muito comum.

Deve ter muitas histórias para contar dos quatro anos que passou no Wolverhampton.
Sinceramente, não tenho. Recordo-me da festa na cidade quando fomos campeões, foi inesquecível porque a cidade parou. Lembro-me também do ambiente fantástico antes do jogo em Anfield, quando eles cantavam o “You’ll never walk alone”, lembro-me de dizer a um colega que era o melhor ambiente em que já tinha jogado e esse colega, que já era experiente, disse que também nunca tinha visto nada assim. Foi marcante estarmos ali a ouvir aquilo, foi incrível.

Como eram os adeptos ingleses na rua?
Eram respeitadores, não nos cobravam. Em Portugal, os adeptos veem-nos e dizem logo: “Temos de ganhar o próximo jogo”. Nós, jogadores, sabemos que temos de ganhar o próximo jogo, ninguém entra num jogo para perder. Mas lá não havia muito disso, lá pedem fotos, dão força, dizem “grande jogo”, brincam connosco. Mas era aquela realidade, não faço ideia como é jogar num clube grande na Inglaterra.

Ruben Neves, Ivan Cavaleiro, Hélder Costa, Diogo Jota, Rúben Vinagre e Roderick Miranda a festejar a subida do Wolverhampton à Premier League no final da época 2017/18

Ruben Neves, Ivan Cavaleiro, Hélder Costa, Diogo Jota, Rúben Vinagre e Roderick Miranda a festejar a subida do Wolverhampton à Premier League no final da época 2017/18

Tim Goode - PA Images

Entre os 16 e os 20 anos, quais eram as referências da sua posição?
Da minha posição sempre foi o Marcelo. Para mim é o melhor lateral esquerdo que vi jogar. Mas há um jogador com quem joguei, não é da minha posição, que também é uma referência por tudo o que fez na carreira e pelo jogador que é: o João Moutinho. É um jogador fantástico, aprendi muito com ele, falava muito com ele, tentava aprender.

Onde sentiu ter melhorado mais nos anos passados no Wolves?
Acabei por melhorar tudo, mas o que mais se destacou diria que foi o meu processo defensivo, porque cheguei do futebol de formação, em que quase não tinha de defender, e passo para um Wolverhampton, em que tenho de defender muito e o Nuno trabalhou muito isso em mim.

Quando foi chamado pela primeira vez para representar as cores nacionais?
Tinha 16 anos. Foi para a seleção sub-16. Fui chamado sempre até aos sub-21.

É campeão europeu de sub-17 e de sub-19. Que memórias tem desses europeus?
Lembro-me que na véspera da final em Baku, no Azerbaijão, não dormi muito bem, acordei muitas vezes durante a noite porque queria jogar. A final foi contra a Espanha, ganhámos e fizemos um torneio inacreditável, se não me engano só sofremos um golo durante o torneio e foi na final. Era uma seleção de uma qualidade muito grande, com pessoas muito boas. Depois, lembro-me da final de sub-19, na Finlândia, era aquela altura do ano em que está sempre de dia. Temos a final contra a Itália e estávamos no mesmo hotel que eles. Estávamos sempre a cruzar-nos com eles. Também me recordo de no início desse europeu, termos à nossa frente a mesa da Alemanha que era a única seleção que nos tinha ganhado num amigável antes do Europeu, e nós queríamos muito apanhar a Alemanha para vingar esse jogo. Entretanto, a Alemanha foi eliminada e ganhámos à Itália. Estivemos a ganhar 2-0, eles conseguem empatar, vai a prolongamento, ganhámos 4-3 e fomos a primeira geração a conquistar dois campeonatos da Europa seguidos. Recordo-me que queríamos ganhar o Mundial também, e acho que teríamos condições para ganhar, simplesmente as coisas não aconteceram.

O ambiente de seleção era muito diferente do ambiente dos clubes?
É sempre diferente do ambiente dos clubes, mas o nosso era muito bom porque éramos um grupo que estava há muito tempo junto e dávamos todos muito bem. Era um ambiente muito positivo. No clube trabalhamos e vemos as mesmas pessoas diariamente, na seleção não, joga-se mais do que se treina juntos.

Rúben Vinagre a tentar escapar a Ezequiel Barco, da Argentina durante um jogo do grupo F do Mundial de sub-20, em 2019

Rúben Vinagre a tentar escapar a Ezequiel Barco, da Argentina durante um jogo do grupo F do Mundial de sub-20, em 2019

Boris Streubel - FIFA

Quando mudou do Mónaco para o Wolverhampton, notou muita diferença nos métodos de treino, na qualidade e na exigência?
Sim, muito mais intenso na Inglaterra, um jogo muito mais rápido, mais organizado, os treinadores eram muito exigentes, também tinha jogadores com uma qualidade muito grande, mesmo no meu primeiro ano, em que estamos na II Divisão, fizeram contratações de jogadores que são muito bons. Era aquilo que queria, por isso fiquei bastante satisfeito.

Acabou por se tornar jogador do Wolverhampton quando foi para a Premier League. Assinou por quanto anos?
Cinco anos.

Viu o ordenado subir substancialmente?
Não me lembro bem, mas deve ter duplicado ou triplicado. O maior salto de ordenado que senti foi após o meu primeiro ano de Premier League.

Em 2020/21 acabou por ser emprestado ao Olympiakos.
Antes era para sair do Wolves para um clube importante, cujo nome não vou dizer, mas o negócio acabou por não se concretizar. Eu já estava com a ideia de sair do Wolves para jogar com mais regularidade, se bem que no Wolves até jogava com alguma regularidade. Se fosse hoje, não teria tomado essa decisão, mas é errando que aprendemos. E acabei por sair emprestado para o Olympiakos.

 

 

Na época 2020/21, o lateral esquerdo foi emprestado ao Olynpiakos da Grécia

Na época 2020/21, o lateral esquerdo foi emprestado ao Olynpiakos da Grécia

Quality Sport Images

O Wolverhampton ficou chateado por querer sair para o tal clube e por isso resolveu emprestá-lo?
Não. Quando o negócio não se concretizou o Wolves fez-me proposta para renovar contrato e ficar. Mas acabei por dizer que não, queria sair. Acreditava muito que aquele negócio iria acontecer à mesma, o mercado só fechava em outubro por causa do Covid. Mas afinal o negócio acabou por não acontecer mesmo.

Ficou muito desiludido?
Fiquei triste porque era um passo importante. O mister falou comigo, eu disse-lhe que queria sair, que era uma oportunidade, mas depois não aconteceu.

Mas afinal o negócio não aconteceu porquê?
A pessoa desse clube para onde eu ia apanhou Covid e houve jogadores que eram para ter saído que não saíram e parou tudo. Por isso não aconteceu. Mas eu já estava na porta da saída, não sabia se era bom para mim, depois da força que fiz para sair, continuar no Wolves. E acabei por sair para o Olympiakos.

Que surgiu através de quem?
O Pedro Martins ligou para o meu empresário, falou com ele para saber se havia disponibilidade de um empréstimo e acabei por aceitar.

Rúben Vinagre chegou a representar a seleção sub-21

Rúben Vinagre chegou a representar a seleção sub-21

Quality Sport Images

Como foi o primeiro impacto quando chegou à Grécia?
Sinceramente foi estranho porque senti desde o início que não tinha sido o passo que queria. Saí da melhor liga do mundo para a Grécia. Estava focado em fazer a minha época lá e depois ir para onde tinha que ir. Mas foi um impacto estranho porque saí de um sítio em que tínhamos todas as condições, tudo muito organizado, para um sítio diferente.

Nem sequer jogou muito. O que aconteceu?
Lesionei-me. Assino pelo Olympiakos, vou para a seleção e no último jogo antes de voltar para o Olympiakos tive uma entorse no tornozelo, lesionei-me e nunca mais consegui jogar. Tive de parar por dois meses.

Como reagiu o Pedro Martins?
Não tenho nada a dizer, o mister sempre foi boa pessoa comigo. Sempre acreditou em mim. Simplesmente as coisas não aconteceram como ele queria, nem como eu queria.

Recuperou na Grécia ou em Portugal?
No início vim para Portugal recuperar, depois terminei lá a recuperação, entretanto, chegou dezembro e saio para o Famalicão.

Porquê?
Não me sentia bem e quis sair. Eles também precisam de ter alguém que estivesse imediatamente apto, acabou por ser bom para os dois lados.

 

 

Rúben Vinagre terminou a época 2020/21 no FC Famalicão

Rúben Vinagre terminou a época 2020/21 no FC Famalicão

Gualter Fatia

Como é que vai parar ao Famalicão?
Tive propostas para continuar fora, mas queria voltar a Portugal. Estava há muito tempo fora. A experiência no Olympiakos não foi boa, tenho a lesão…

Vivia sozinho na Grécia?
Não, já vivia com a minha namorada, ela em Wolverhampton já vivia comigo, tanto que ela concluiu lá o curso de Marketing.

Sentiu que ao vir para o Famalicão dava um passo atrás?
Fui para o Famalicão porque sentia que precisava voltar a jogar, a sentir-me bem, a ter regularidade. Vinha de uma lesão, não queria estar no estrangeiro. Na altura estive perto de ir para o SC Braga, mas as coisas aconteceram para o Famalicão e fiquei muito contente. Foram seis meses ótimos, em que me senti feliz e realizado.

Teve três treinadores em Famalicão, João Pedro Sousa, Silas e Ivo Vieira. Com qual deles mais se identificou?
Complicado. Todos eles são bons treinadores. Acabei a jogar com o Ivo e foi a altura que me senti melhor, gostei muito de trabalhar com ele.

O lateral esquerdo (à direita) em ação pelo FC Famalicão

O lateral esquerdo (à direita) em ação pelo FC Famalicão

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Foi a primeira vez que jogou na I Liga portuguesa. Que tal?
É um bom campeonato, é muito bom para lançar jogadores jovens. Agora, é um campeonato que à partida parte decidido, por isso é muito desequilibrado, é muito difícil alguma equipa conseguir tirar o título a um dos três grandes. Temos agora o SC Braga mais forte e a juntar-se aos três grandes, mas mesmo assim não é fácil.

Sentia que havia uma diferença muito grande quando jogava contra essas equipas?
Não senti que havia uma diferença muito grande, porque até fizemos bons resultados com o Sporting que foi campeão. Mas se formos a ver, o Sporting gasta 20 milhões de euros num jogador, o Benfica e o FC Porto também, a seguir a estas equipas temos o SC Braga que gasta cinco milhões e as restantes equipas já gastam menos de cinco ou se calhar ainda menos que dois milhões e meio; assim é muito difícil competirem com os três grandes. Agora, é um campeonato muito bom para os jogadores aparecerem. A qualidade é muito alta em Portugal. Há muito bom jogador e treinador.

 

 

“Quando cheguei à Polónia o diretor-desportivo foi buscar-me ao aeroporto e levou-me a jantar a um Burger King de uma estação de serviço”

Nesta segunda parte do Casa às Costas, Gonçalo Silva conta como foi o ano em que viveu e jogou na Polónia, onde viu muito whiskey no balneário e observou comportamentos racistas. Fala da subida de divisão pelo Farense e do bom momento que atravessa no FC Noah, da Arménia, país que o tem surpreendido pela positiva. Sobre o futuro, revela que gostava de ser treinador e como tem sido difícil tirar o curso, apesar de ter tentado várias vezes

 

Spoiler

 

Como foi o primeiro impacto quando chegou à Polónia?
Foi bom, porque era tudo novo, era a primeira vez que saía de Portugal. É um país bom, bonito, onde se vive bem, um futebol diferente, pessoas diferentes, apesar de não ter gostado muito do povo, são um pouco racistas. Conheci pessoas muito boas, polacos incríveis com quem ainda falo, mas da maioria não gostei. Não gostei muito da experiência.

E do cube,?
Fui para um clube que também não tinha estádio. Agora já têm. Era uma espécie de B SAD, sem estádio, tínhamos de tirar tudo do balneário, tivemos ordenados em atraso. Lembrei-me já de uma história que aconteceu na minha chegada.

Conte.
Quando cheguei à Polónia o diretor-desportivo foi buscar-me ao aeroporto. Íamos a caminho do clube e como estávamos com fome, ele optou por pararmos numa estação de serviço e comer um Burger King [risos]. Não é a melhor receção de boas-vindas, achei aquilo um bocado estranho, levar-me a jantar a um sítio daqueles, mas não me opus e pensei que foi uma coisa de momento. Fomos para Radom. Nas primeiras duas semanas aconteceram coisas estranhas. Fomos de estágio duas semanas, voltámos a Radom e tive de levar a minha roupa do treino para lavar. O clube não lavava a roupa. Tinha de levar a toalha do hotel para o estádio e tudo. Coisas que normalmente não acontecem no futebol profissional e que me deixaram um bocado de pé atrás naqueles primeiros tempos. E mais, não nos deram roupa para o frio, tanto eu como os meus colegas tivemos de ir à Decathlon comprar roupa apropriada para frio e neve.

Gonçalo Silva chegou ao Radomiak Radom, da Polónia, na época 2021/22

Gonçalo Silva chegou ao Radomiak Radom, da Polónia, na época 2021/22

D.R.

Foi ganhar muito mais no Radomiak Radom?
Não fui ganhar nem o dobro. Não fui pelo dinheiro, fui pela oportunidade de poder mostrar-me.

Quando fala em racismo, assistiu a algum episódio ou foi vítima diretamente?
Cheguei a ter colegas negros que foram expulsos de lojas só porque sim. Coisas que pensava que já não aconteciam hoje. Mesmo os jogadores, alguns, notava-se a maneira como falavam de nós. Era um clube que tinha acabado de subir à I Liga, se calhar sentiam que íamos roubar aquilo que era deles, ganhar o dinheiro que poderia ser para eles, não sei. Não tinha nada a ver com os balneários por onde já tinha passado.

Jogou pouco na Polónia. Porquê?
Comecei a jogar e, no segundo jogo, lesionei-me aos 20 e poucos minutos, no menisco do outro joelho. Vim para Portugal fazer a recuperação. Como já estava escaldado da outra lesão, fiz uma recuperação boa. Estive três meses em Portugal a recuperar para voltar a 100%. A equipa estava bem quando voltei e continuei a não jogar. Em janeiro, com a paragem de inverno, comecei a jogar, mas as paragens de inverno prejudicam um bocado as equipas e já não estávamos tão bem como isso.

Estava com a mulher e as filhas?
Estiveram comigo até certa altura. Quando começou a guerra na Ucrânia, como estávamos a 300 km da fronteira, optámos por voltar a Portugal, porque se acontecesse alguma coisa, eu agarrava numa mala e arrancava, era mais fácil, e elas estavam mais tranquilas em Portugal.

Luis Machado, Filipe Nascimento, Mário Rodon e Gonçalo Silva, num treino do Radomiak Rondón da Polónia

Luis Machado, Filipe Nascimento, Mário Rodon e Gonçalo Silva, num treino do Radomiak Rondón da Polónia

D.R.

Tem histórias para contar da Polónia?
O que posso dizer é que os polacos bebem bem [risos]. Tenho fotos do meu balneário com um frigorífico cheio de uísque e outras bebidas. Depois, a experiência de jogar na neve, não é de todo boa. Um gajo não sente os pés, não sente nada. Houve ali uma altura que não jogava, fui fazer um jogo-treino com metade da equipa B e alguns da equipa principal. Não é que aparecem com uma carrinha de nove lugares com um atrelado tipo aqueles da caça, para metermos as malas [risos]? Falei com dois ou três e resolvemos chamar um carro e ir ter com eles ao campo por nossa conta. Era uma falta de profissionalismo... Fora os ordenados, dois, três meses de atraso e depois pagavam meio-ordenado. Havia também outra coisa completamente diferente que mostra a mentalidade deles.

O quê?
Na Polónia eram os miúdos mais novos que faziam quase tudo, eram eles que iam buscar gelo para os mais velhos, carregavam as bolas, etc. Uma vez cheguei cedo para o treino e estava um miúdo, que normalmente ia treinar connosco, com luvas de limpeza a limpar o jacuzzi. Achei aquilo estranho, mas com o tempo fui percebendo ser normal. Nos primeiros tempos até eram os miúdos que juntavam a roupa suja e levavam para a carrinha que ia para a lavandaria. A questão da roupa mudou porque arranjaram técnico de equipamentos, mas o gelo e lavar as bolas, lavar jacuzzi, tudo isso era destinado aos mais jovens. Algo que não é normal para nós, não estamos habituados. Ali era uma questão cultural, era uma forma de eles mostrarem aos miúdos que tinham de trabalhar para conquistar tudo e nada é dado de mão beijada.

Tinha assinado só uma época?
Não, assinei dois anos, mas abdiquei de um para sair. Não estava feliz.

A mulher e as filhas de Gonçalo Silva

A mulher e as filhas de Gonçalo Silva

D.R.

Gostou do futebol polaco?
A liga polaca não é má. Apesar de achar que o jogador polaco, na sua maioria, não é tão evoluído como nós taticamente, principalmente. Notava que havia jogadores que não sabiam fazer, taticamente, coisas simples que eu tinha aprendido na formação. Mas a liga é boa, tem bons estádios.

O seu inglês era suficiente para comunicar na Polónia?
Agora está um bocadinho melhor, mas mesmo assim é fraco [risos]. Mas sim, dava para desenrascar. Graças a Deus tinha malta portuguesa lá, como tenho aqui na Arménia, que ajuda na adaptação. Tinha o Luís Machado e o Filipe Nascimento e alguns brasileiros.

Como foi parar ao Farense em 2022/23?
Os meus empresários já conheciam o Zé Luís, diretor do Farense. O Vasco Faísca era o treinador, também era agenciado pelos meus empresários e as coisas acabaram por acontecer facilmente. Apesar de, quando sais de uma I Liga portuguesa e vais para a Polónia é normal que queiras voltar para a I Liga, mas não se abriram portas da maneira que estava à espera e não tive problema nenhum em voltar à II Liga, ainda para mais para um projeto de subida de divisão. Sem dúvida que foi a melhor opção que tomei nesse momento da minha carreira.

Foi para Faro com a família?
Não, sozinho. As minhas filhas já estavam inscritas na escola, na Moita, onde vivemos. Estava a duas horas de casa.

Em 2022/3 Gonçalo Silva assinou pelo Farense

Em 2022/3 Gonçalo Silva assinou pelo Farense

D.R.

Como correu essa época no Farense?
Difícil. Joguei nos primeiros cinco jogos, depois, sem perceber porquê, deixei de jogar. Foi algo que me deixou um bocado estranho, sendo que tinha sido uma contratação do mister Vasco Faísca. Passei uns meses difíceis, sem jogar na II Liga, o que não estava habituado. E sem nenhuma explicação. Quando cheguei até fui falar com o presidente, para saber qual a ideia que tinha para mim, porque tinha 31 anos, não queria estar encostado ou não jogar na II Liga. Eu achava que tinha qualidade para jogar e queria perceber qual era a ideia do clube para mim, se contavam comigo, ou não, porque se não contassem eu podia ir para outras paragens. Mas o presidente disse-me que contavam comigo a 200% e optei por ficar. Entretanto, o mister Vasco foi embora e veio o mister José Mota e a partir daí joguei sempre. Renovei no final da época.

Que tal o José Mota?
É uma pessoa incrível, um coração gigante. Um monstro do nosso futebol, não é de todo o treinador com os métodos mais inovadores, mas a verdade é que tem sucesso naquilo que faz e da maneira como faz. Desde que chegou que me passou confiança, que me deu responsabilidade. Chamava-me “sargento” e as coisas correram bem. Acho que foi um casamento feliz para o Farense, as coisas correram tão bem que subimos de divisão com um recorde de vitórias seguidas. E depois fizemos uma época excelente na I Liga, com um 10.º lugar fantástico.

Com os pais, em Faro

Com os pais, em Faro

D.R.

A sua ideia era sair de Portugal novamente?
Não. Com a experiência que tive na Polónia a minha ideia, sem dúvida, não era sair novamente. Estava estável, estava perto da minha família. Mas no final da época as coisas não aconteceram como estava à espera, apesar de achar que toda a gente em Faro gosta de mim, os adeptos, as pessoas do clube. Cheguei a usar a braçadeira do capitão, não sendo capitão. Mas, no final da época, o presidente e a direção não foram ao encontro daquilo que eu estava à espera e achava que merecia. Porque uma coisa é ser valorizado, outra, é tentarem desvalorizar-te. Não gostei. Achei que não merecia.

Mas queriam renovar?
Queriam, mas não da maneira que eu achava que devia ser. Nem era o aumentar ordenado ou não, só que, pela época que fiz, em que fui elogiado em jornais, tive boas pontuações, não merecia o que me ofereciam. O mister José Mota ainda tentou convencer-me e adorava ter ficado em Faro, é uma casa que nunca esquecerei e que apoiarei sempre, mas optei por não ficar. Ainda não tinha nada, mas era mais maduro e tive a paciência necessária até aparecer o projeto certo. Tive algumas propostas de Portugal, da I Liga, do Casa Pia e do Estrela, mas não aconteceram com a rapidez que deveriam ter acontecido. Tinha de vir para aqui, as coisas já tinham de acontecer desta maneira e graças a Deus estou na Arménia, a jogar a Conference League e feliz como há muito não estava.

Em ação pelo Farense

Em ação pelo Farense

D.R.

Quem mostrou interesse em si foi o treinador Rui Mota, que é português?
O Noah tem muita malta portuguesa, desde a equipa técnica ao scouting, acho que o interesse do mister surgiu posteriormente. Antes disso fui apresentado pela equipa de scouting do clube, que também é formada por portugueses.

Quando lhe falaram na hipótese Arménia não torceu o nariz? Afinal, não tem propriamente o campeonato de futebol mais conhecido do mundo.
Pois não [risos]. Claro que para vir para aqui tinha de vir financeiramente bem, ninguém é maluco de vir para aqui para ganhar €500 e estar longe da família, mas o que me chamou muito a atenção foi o projeto. Senti que o clube quer ser campeão e vai lutar para ser campeão. Estava nas pré-eliminatórias da Liga Conferência, isso também me chamou um bocado à atenção. Agora, claro que quando me falaram Arménia fui logo ver ao mapa, falei com a Rute e apesar de ter sido complicado digerir a coisa, resolvi vir. Assinei por dois anos. A minha filha mais velha já tinha sete anos e quando lhe falei da possibilidade de vir para cá começou logo a chorar e partiu-me o coração. Mas, como disse antes, é tudo por elas, não podia deixar fugir esta oportunidade.

Que tal é viver na Arménia?
Muito bom. Estou na capital, a cidade é espetacular, vive-se muito bem, tem muitos turistas, a comida é boa, sente-se a falta da praia.

E o futebol?
O futebol tem muito para evoluir em todos os aspetos. Uma das coisas que me deixa mais satisfeito por estar no Noah é sentir que o clube quer melhorar diariamente. Diferente do que acontecia na Polónia, aqui ouvem-nos, ouvem a nossa experiência e tentam melhorar. Quando falo “ouvem-nos”, é desde o presidente ao staff. Dão-nos valor. Aquilo que conseguimos atingir não é por acaso, é porque as coisas estão a melhorar em termos de infraestruturas, condições, não nos falta nada no clube e estou bastante contente. Agora, claro, a Liga não é a mais competitiva, os árbitros não são os melhores do mundo, longe disso. Não envolve o dinheiro que envolve, por exemplo, a nossa Liga. Temos VAR, mas as câmaras que metem nos campos não são de todo as melhores para avaliar um lance. Tivemos alguns dissabores em alguns jogos por causa disso; temos de jogar em alguns sintéticos, o que também já não faz muito sentido e depois há a limitação de estrangeiros, em todos os jogos têm de estar pelo menos três arménios em campo os 90 minutos e no banco têm de estar seis, é obrigatório.

Com Bruno Basto, ex-jogador e agente de Gonçao Silva, no dia em que este assinou pelo FC Noah, da Arménia

Com Bruno Basto, ex-jogador e agente de Gonçao Silva, no dia em que este assinou pelo FC Noah, da Arménia

D.R.

Como é o ambiente no balneário?
Top. Sinceramente, a única coisa que me custa é estar longe da minha família, porque tudo o resto é incrível. Já temos uma parte da academia construída, a outra parte fica pronta em janeiro e será uma academia de topo mundial. Somos três portugueses, mais três ou quatro brasileiros, a malta aqui da Arménia não tem nada a ver com os polacos, sabe receber e gosta de socializar. Estou muito satisfeito, acho que temos ainda mais para crescer. O mister Rui é uma pessoa incrível e tem ajudado em tudo, a equipa, o clube… Tem uma ideia bastante positiva e é bastante humano.

E histórias para contar da Arménia, já tem?
Tenho uma que aconteceu há uns jogos. Como disse, os árbitros não são os melhores. Estivemos a jogar num sintético muito fraco, estávamos empatados 1-1 e no último minuto tivemos um penálti claro a nosso favor, o VAR nem chamou. Ficámos chateados com o árbitro, que não marcou. Acabou o jogo, chamámos o táxi para ir para casa porque o campo era perto de casa e o mister deixou-nos ir diretos. Os táxis aqui funcionam tipo Uber, têm uma aplicação, mas são muito, muito baratos. Nós nem temos carro aqui porque eles são “assassinos” a conduzir, por isso andamos sempre de táxi. Acredita que o taxista era um dos árbitros do nosso jogo que tínhamos acabado de jogar? [risos]. Impressionante. Não sei se era um dos fiscais de linha ou o 4.º árbitro.

Como ele reagiu quando os viu?
Nem falou durante toda a viagem. O Hélder Ferreira foi com outro colega no táxi dele, enquanto eu entrei noutro, com outro colega. O Hélder disse que ele não falou a viagem toda. Também se falasse, o Hélder ia para cima dele porque já vínhamos escaldados do jogo [risos].

Gonçalo com o fisioterapeuta e amigo Júlio Pinto

Gonçalo com o fisioterapeuta e amigo Júlio Pinto

D.R.

Está com 33 anos, já pensou no que quer fazer quando tiver de pendurar as chuteiras?
Já perdi a conta às vezes que tentei tirar o curso de treinador. Comecei a tentar tirar o curso logo no meu 1.º ou 2.º ano de Belenenses.

Não consegue porquê?
Por tudo e mais alguma coisa. Porque apanhas pessoas que são frustradas e que não gostam que os jogadores de futebol tenham facilidades em relação aos outros; porque fazer os estágios é difícil estando a jogar, porque tens de ter um X número de presenças no estágio e é difícil conciliar. Muito complicado. Tentei tirar o nível I duas ou três vezes, não consegui, cheguei a entregar dossiês, mas não consegui. Mas agora com oito anos de I Liga já tenho o nível I.

Quer dizer que gostava de ser treinador no futuro?
Gostava. Não sei se daria um bom treinador principal, porque sou uma pessoa muito humana e o futebol às vezes é demasiado injusto, mas tem de ser assim porque não consegues agradar a 24 ou 26 jogadores, apesar de haver treinadores que têm esse mérito de conseguir ter toda a gente motivada. Mesmo achando que posso ser um bom líder, não sei se conseguiria lidar com isso. Acho que poderia ser um bom treinador adjunto ou até mesmo treinador dos mais jovens, porque gosto bastante de ensinar crianças. Quem sabe se não tenho o meu projeto de treino de crianças, gosto dessa área.

O central com o amigo André Sousa

O central com o amigo André Sousa

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Arménia.

Já investiu?
Sim, na loja da minha velhota e em imobiliário também.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Ir às Maldivas.

Tem algum hobby?
Trabalhar no ginásio e gosto muito de ver séries.

Qual a preferida?
Breaking Bad.

É um homem de fé. Frequenta a igreja?
Costumo ir à igreja Batista do Vale da Amoreira. Aqui na Arménia já tentei procurar, mas não é fácil.

Superstições, tem ou teve?
Agora já não tenho, mas lembro-me da minha mãe dizer-me que quando era miúdo e jogava no Barreirense, eu tinha de usar sempre as mesmas cuecas [risos].

O central com as filhas, Eva e Lia

O central com as filhas, Eva e Lia

D.R.

Tatuagens?
Tenho. Só tenho tatuagens nas costas. Fiz a primeira quando nasceu a minha segunda filha, com os nomes delas e a inicial do nome da minha mulher. E tenho uma que também é importante para mim, que fiz após dizerem que se calhar teria muita dificuldade em continuar a jogar futebol, deram-me dois anos de carreira na altura; a verdade é que depois disso já vou com cinco, seis anos e estou aqui para as curvas. Fiz uma promessa que faria uma tatuagem com um versículo bíblico e tenho-a nas minhas costas.

O que diz?
“O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.”

Segue ou pratica outra modalidade?
Sou um homem do desporto, sigo muitas modalidades, gosto bastante de futsal e de futebol americano, tenho visto cada vez mais. Sou muito apaixonado pelo desporto, até as minhas filhas já estão na patinagem também.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Ganhar um troféu. Mas espero quebrar isso aqui.

E o maior arrependimento?
Não me arrependo de nada, porque tudo aquilo que fiz serviu para ser aquilo que sou hoje.

O momento mais feliz da carreira?
A subida de divisão com o Farense. E agora a qualificação com o Noah para a Conference League.

Gonçalo com a família mais próxima

Gonçalo com a família mais próxima

D.R.

O objetivo que está por cumprir?
Jogar na Liga dos Campeões e ser internacional A.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que gostava de ter representado?
Manchester United.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
André Sousa e Júlio Pinto. O Júlio foi meu fisiologista na B SAD, ajudou-me a recuperar da segunda lesão e da que tive na Polónia.

Tem ou teve alguma alcunha?
Tive uma alcunha na formação que durou muitos anos: Pato. Isto porque imitava muito bem o Pato Donald.

Há alguma regra do futebol que se tu pudesse, alterava ou bania?
Não, acho que o futebol é bonito assim, apesar de ser injusto e ter muitas coisas com as quais não me identifico, mas acho que é muito mais pelas pessoas do que por aquilo que o futebol é.

Gonçalo Silva com a mulher e as filhas

Gonçalo Silva com a mulher e as filhas

D.R.

O que pensa do VAR?
É bom se for usado da maneira correta.

Tem algum talento escondido?
Quando jogava na formação, convidaram-me para deixar o futebol e jogar voleibol e acho que sou bom jogador de voleibol, mas não sei se será um talento escondido.

O momento mais difícil que atravessou na vida?
Na minha estreia na Liga Europa, a Rute teve um aborto e foi um momento complicado para nós. Foi no meu primeiro ano de Belenenses.

Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
Slimani e Jonas.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Fuzileiro.

 

 

“No balneário, começámos a ouvir gemidos e sons estranhos. Era um jogador na sanita a ver pornografia no telemóvel, ligado à coluna de som”

Gonçalo Silva, 33 anos, percebeu desde cedo que não tinha muito talento, mas que, trabalhando mais e melhor que os outros, conseguia vingar e foi assim que construiu uma carreira como jogador profissional, que começou no Barreirense, passou pelo SC Braga B, o Belenenses e a B SAD - onde conta que Rui Pedro Soares o acusou de fingir uma lesão -, antes de experimentar outros campeonatos, além-fronteiras. Casado e pai de duas filhas, o central conta nesta parte I do Casa às Costas vários episódios que marcaram o percurso e fala do feitio, e não só, de treinadores como Sá Pinto, Domingos Paciência, Petit ou Sérgio Conceição

Spoiler

 

Nasceu no Barreiro. É filho de quem?
Sou filho da Vitória, com 58 anos e do Rui Silva, com 61. A minha mãe tem um mini mercado/papelaria e o meu pai foi fuzileiro durante muitos anos. Costuma dizer-se que os fuzileiros são fuzileiros a vida toda, por isso não gosto de dizer que é reformado.

Tem irmãos?
Tenho duas irmãs mais novas, uma com 26 anos e a outra com 16.

Em que zona do Barreiro cresceu?
Entre Palhais e a Carregueira, uma localidade na zona do Pinhal Novo. O mini-mercado da minha mãe é em Palhais, mas os meus avós viviam na Carregueira e fomos para lá viver também. Cresci entre os dois sítios.

Foi uma criança tranquila ou era traquina?
Os meus pais dizem que sempre fui muito tranquilo, não arranjei problemas.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Até tarde nunca imaginei que podia ser jogador de futebol, sempre quis seguir a profissão do meu pai, porque era o exemplo que tinha em casa. Ele levava-me muitas vezes para os fuzileiros na base de Vale de Zebro, em Coina. Aquilo sempre me fascinou. Quando comecei a jogar futebol com nove, dez anos, fazia as minhas “pré-épocas” lá com ele. Corria, ia ao ginásio, por isso aquele mundo foi sempre muito fascinante e inicialmente quis seguir as pisadas dele.

Gonçalo Silva, com 10 anos, a jogar pelo Barreirense

Gonçalo Silva, com 10 anos, a jogar pelo Barreirense

D.R.

Gostava da escola?
Gostava. Não era um aluno excelente, mas nunca tive negativas. Conseguia conciliar bem com os treinos e sempre tive boas notas. Cheguei a entrar na universidade, num curso PAP (Promoção Artística e Património) que não é de todo a minha cara e não me orgulho disso, mas era para depois trocar para Desporto, porque o curso que fiz no 12.º ano não me dava equivalência para entrar em Desporto diretamente, tinha de fazer os exames.

Em casa torciam porque clube?
O meu pai é benfiquista doente, por isso eu tinha que ser benfiquista também, senão aquilo dava guerra lá em casa [risos].

Costuma ir ver jogos com o seu pai?
Não. O meu pai disse-me sempre que me levava ao Estádio da Luz, mas nunca levou. Só fui ao Estádio da Luz quando joguei lá profissionalmente.

Quem eram os seus ídolos?
Nunca tive ídolos de futebol. Os maiores ídolos foram sempre os meus pais, por isso quando era pequeno não tinha nenhum ídolo. Quando comecei a crescer e a ver o Ricardo Carvalho percebi aquilo que era a minha posição em campo e o Ricardo tornou-se o exemplo do que gostava de ser no campo.

Começou a jogar futebol no Barreirense pela mão de quem?
Como os meus pais trabalhavam e não tinham possibilidade de ficar comigo nas férias, houve um ano em que optaram por inscrever-me no ATL do basquete do Barreirense. Nesse ATL tínhamos outra atividade também, futebol, feita no velhinho estádio D. Manuel de Mello do Futebol Clube Barreirense. Um diretor do ATL que pertencia ao Barreirense viu-me a jogar e perguntou porque não ia experimentar o futebol no Barreirense. Houve um dia em que o meu tio levou-me a experimentar e nunca mais deixei de jogar futebol federado.

O central fez toda a formação no Barreirense

O central fez toda a formação no Barreirense

D.R.

Fez toda a formação no Barreirense. O que mais recorda desses tempos?
Posso falar em três memórias marcantes. As duas primeiras aconteceram quando eu tinha 12 anos. Fui campeão distrital pelo Barreirense numa final com o Vitória de Setúbal e é uma grande memória que guardo; e, nesse mesmo ano, o meu treinador, o Edgar Silva, que jogou também futebol no Boavista, chamou os meus pais para falar do interesse do Valência. A ideia não era ir viver para Espanha, mas ficar desde logo ligado ao Valência. Mas os meus pais não acharam piada porque eu era muito pequeno e fiquei um pouco chateado com eles. Foi um episódio que me marcou.

E a terceira memória?
Eu não era o jogador com mais qualidade na formação do Barreirense, tinha na equipa 10/12 jogadores com mais qualidade do que eu e houve uma altura, era juvenil, que fui dispensado do Barreirense. Só que optei por não sair. Falei com o treinador e disse-lhe: “Mister, mesmo sendo dispensado, prefiro ficar aqui do que ir para outro clube.” E nunca mais me esqueço, joguei 23 minutos durante essa época inteira. Trabalhava para ser convocado, não faltava a um treino, mas só joguei 23 minutos e marcou-me. Tinha uns 14/15 anos. Lembrei-me de outra coisa que também marcou esse período da formação.

Conte.
Como disse, a minha mãe tem um mini-mercado/papelaria e era muito normal quando estava no Barreirense, principalmente nas férias da escola, levantar-me muito cedo, tipo quatro, cinco da manhã, para ir com a minha mãe à praça comprar a fruta e outras coisas para vender no mini-mercado. O meu pai ajudava por vezes, outras vezes não estava e era eu sozinho que a ajudava a carregar a fruta, a descarregá-la, a colocar nos sítios no mini-mercado e depois ia treinar. Foi uma fase do meu crescimento importante porque me ajudou a perceber que o sacrifício faz parte da vida e que sem trabalho nada se consegue.

Ter sido dispensado com 14/15 anos contribuiu para que o sonho de ser jogador não fosse ainda uma realidade?
Talvez. Mas se fossemos falar com as pessoas que me seguiram na formação, todos vão dizer que eu era o jogador que nunca faltava aos treinos, era o que mais e melhor trabalhava, só que a qualidade não era de todo igual à dos outros. A verdade é essa. Mas há outro episódio, que é quando tudo muda na minha vida de futebolista, no meu último ano de júnior. O mister Duka, que foi jogador do Portimonense, chamou-me para fazer um jogo pelos seniores. Joguei bem e a partir daí nunca mais saí da equipa sénior. Tinha 17 anos. treinava com a equipa sénior e houve fins de semana em que jogava 90 minutos no sábado, pelos juniores, e no domingo jogava outros 90 minutos, pelos seniores.

Equipa do Barreirense, onde estava Gonçalo (no centro em baixo), que jogou a final do campeonato distrital de infantis

Equipa do Barreirense, onde estava Gonçalo (no centro em baixo), que jogou a final do campeonato distrital de infantis

D.R.

Já ganhava dinheiro com o futebol?
Não. Mas quando nesse ano subi aos seniores, falaram comigo para receber 25€. Nessa altura, como estava a tirar o curso de Desporto, também fui treinador-adjunto na formação, aliás, fui treinador-adjunto de alguns jogadores, e acho que isso é uma coisa bonita de dizer, que se tornaram profissionais, como o Rúben Vinagre, por exemplo. Mas dizia, comecei a receber 25€, mas o capitão foi falar com o presidente porque achavam que eu estava a fazer bons jogos e aumentaram-me para 50€. Eu entregava sempre o dinheiro aos meus pais.

Aí já ambicionava ser jogador profissional de futebol, ou ainda não?
Aí comecei a pensar que poderia ser possível, porque comecei a ouvir algumas pessoas a falar bem de mim; notava que no campo fazia a diferença pela positiva e isso começou a mexer comigo.

Há pouco dizia que não era nem de perto, nem de longe o melhor jogador, que havia colegas muito melhores e, de repente, vai jogar com os seniores. O que mudou?
Isso é uma das coisas que me motiva, a minha carreira foi construída assim. A primeira vez que as pessoas olham para mim, não me dão o devido valor, depois, com o trabalho que faço no campo e pós-campo, a maneira como me dedico, a opinião das pessoas vai mudando. Esse foi o meu maior mérito, porque apesar de não ser tão bom e não ter tanta qualidade como os outros, a minha entrega era muito maior que a dos outros. Digo isto porque é também aquilo que todos me dizem e sinto que é verdade, porque se não trabalhasse aquilo que trabalhei nunca na vida teria chegado aqui.

Já tinha entrado para a universidade quando foi chamado aos seniores?
Sim, mas só frequentei um ano e depois congelei a matrícula porque no ano seguinte assinei contrato profissional e fui para Guimarães.

Gonçalo esteve 10 anos no Barreirense

Gonçalo esteve 10 anos no Barreirense

D.R.

Terminou a época a jogar pelo seniores, ainda com idade de júnior. Como surgiu o interesse do V. Guimarães?
Através do senhor Gomes, que é tio do mister Paulo Bento e foi olheiro do Vitória de Guimarães muitos anos. Na altura já não era olheiro, mas tinha boa ligação com o mister Manuel Machado, que era o treinador do V. Guimarães na altura. O senhor Gomes apresentou-me o Dimas, fui o primeiro jogador do Dimas na altura em que começou a ser agente. Fui à experiência ao Vitória, estavam a estagiar em Quiaios. O Dimas levou-me lá para fazer uma semana à experiência.

Como correu?
Correu muito bem, era tudo novo para mim. Habituado a jogar em campos pelados, foi uma semana incrível, só estar ali já era um sonho. O mister Manuel Machado também me recebeu muito bem, na altura até queria que eu fosse logo para o jogo de apresentação. Fui assinar contrato, mas as coisas tiveram de ser feitas com mais calma porque tinham de falar com o Barreirense, o meu clube de formação, que recebeu algum dinheiro por mim. O presidente do Barreirense, António Martins, foi excelente e não criou problemas nenhuns.

Assinou quantos anos pelo V. Guimarães?
Cinco.

Sabia que ia ser emprestado ao Lousada?
Não. Quando assinei ninguém me disse que iria ser emprestado. Comecei a pré-época com a equipa, tive logo uma rotura muscular, nada de muito grave, mas que limitou um bocadinho.

Acalentava esperanças de jogar na equipa principal do V. Guimarães?
Sim, embora sabendo que seria difícil porque vinha do campeonato distrital. Dei o maior salto do futebol português provavelmente, porque passei do distrital para a I Liga.

Gonçalo (atrás à esquerda) com um grupo de amigos da Carregueira

Gonçalo (atrás à esquerda) com um grupo de amigos da Carregueira

D.R.

Quanto foi ganhar como profissional do V. Guimarães?
1500€. Eram os três ordenados mínimos.

Houve alguma coisa que quisesse comprar com esse dinheiro?
Não. Sempre fui um miúdo que, graças a Deus, nunca tive falta de nada. Pensava mais em juntar para ajudar os meus pais se fosse preciso.

Tinha algum namoro sério? E das saídas à noite, gostava?
Saídas à noite, não. Nunca fui disso, posso contar pelos dedos das mãos as vezes que fui a uma discoteca. Mas namorada, sim. Já namorava a Rute, que hoje é minha mulher. Começámos a namorar no secundário. Ela depois entrou na universidade e tirou o curso de Marketing.

Quando assinou com o V. Guimarães, saiu de casa dos pais pela primeira vez. Foi difícil?
Muito. Custou-me muito. A minha irmã mais nova tinha nascido no ano anterior, então aquilo tudo ao mesmo tempo também foi um bocado complicado para os meus pais, porque tinham uma bebé pequenina, o filho mais velho saía de casa, não foi fácil de gerir. Mas também me tornou mais forte. Chorei, sobretudo à noite, quando vinha a saudade da família e da namorada.

Quando soube que ia ser emprestado ao Lousada ficou triste, frustrado, revoltado?
Fiquei um bocadinho desiludido, mas fui para um sítio cujo treinador estava ligado ao Vitória, era o mister António Carvalho, e além de mim, foram mais jogadores emprestados. Sabia que ia ser bom porque ia continuar a ser seguido pelo V. Guimarães.

Ficou a viver sozinho ou com colegas?
Eu vivia em Guimarães, sozinho. Os meus pais e os meus avós de vez em quando iam lá. Graças a Deus apareceu-me uma senhora que ainda hoje é minha amiga, que me ajudou muito. A dona Rosária. Foi um anjo que caiu do céu e que me ajudou em tudo, passar a roupa, limpezas, sem ela teria sido muito mais complicado.

O central foi contratado pelo V. Guimarães, mas emprestado ao Lousada

O central foi contratado pelo V. Guimarães, mas emprestado ao Lousada

D.R.

O Lousada estava na II B. Notou muita diferença da distrital para a II B?
Sim, já há muita qualidade na II B. Sempre a jogar na relva também, apanhei jogadores que tinham sido profissionais de futebol durante muitos anos, um balneário muito diferente.

Em que aspeto?
No aspeto de me darem uns bons cachaços, de ajudarem-me a crescer. Tinha um colega, o Tonanha, que gostava de mim, mas dava-me uns bons cachaços. O Marinho também, o central. Era pessoal que gostava de mim e que me ajudou muito a crescer. Eu não era mal comportado, mas era miúdo, tinha que aprender algumas coisas.

Com os treinos à noite, o que fazia durante o dia?
Tentava ir ao ginásio a meio da manhã, não diariamente. Alguns dias ficava só em casa a descansar. Depois do almoço também era rápido até ir para a Lousada, o treino era às cinco, mas tínhamos de estar lá às quatro e pouco, obrigava a sair às três e picos. Tínhamos o nosso “barquinho”, íamos três e depois apanhávamos mais dois perto de Vizela. Íamos quatro, cinco colegas no mesmo carro diariamente e foi bom também para a adaptação.

Algum momento importante que se recorde dessa época no Lousada?
Em Lousada houve ordenados em atraso, eu não tive porque recebia do Vitória, e uma vez a malta optou por não fazer o aquecimento para o jogo. Toda a gente pensava que não íamos jogar. Quando foi para entrar, para perfilar, lá estávamos nós e ficaram todos surpreendidos porque pensaram que não íamos jogar. Foi um momento engraçado, nunca me tinha acontecido. Foi um período complicado para alguma malta, porque apesar de trabalhar fora, aquilo era uma tábua de segurança, um complemento importante, naquela altura na II B ainda se recebia bem. Havia malta que dependia daquilo para dar de comer aos filhos, para a escola, para tudo.

Sabia que o empréstimo era só de um ano?
Não. Fui emprestado ao Atlético, no ano seguinte. No Atlético estava o mister João de Deus, já devia estar tudo programado para eu ir para lá.

Voltou a viver em casa dos pais?
Sim, foi incrível por causa disso. Voltei para casa e foi um ano espetacular.

Em ação (à esquerda) pelo Lousada

Em ação (à esquerda) pelo Lousada

D.R.

O que achou do treinador João de Deus e como correu a época?
Foi uma experiência boa. Treinávamos sempre no estádio da Tapadinha e jogávamos no Estádio do Estrela da Amadora. Fizemos uma boa 1.ª volta, andámos muito tempo em 1.º lugar, tínhamos uma equipa com muitos jogadores emprestados, do Vitória, do Benfica, etc. Clube humilde, de malta humilde, mas foi uma época bastante boa para mim, fiz uns 30 jogos. Não comecei a jogar, o primeiro jogo não joguei, o segundo já entrei e a partir daí nunca mais saí. O mister ajudou-me a evoluir. No último dia entregou-me um papelinho, onde dizia para eu continuar aquilo que estava a fazer porque iria ter muito sucesso no futuro. Não cheguei tão rápido à I Liga como ele escreveu na carta, mas acabei por concretizar mais esse sonho.

Alguma história, algum episódio para recordar do Atlético?
A malta pensa que no futebol é só prémios de grandes balúrdios, mas tenho uma história relacionada com isso, que nunca mais esqueci. No início da época tivemos uma fase muito boa de vitórias. Íamos ter dois jogos seguidos e o presidente disse: “Ganhem estes dois jogos que tenho um prémio para vocês.” Ganhámos os dois jogos. No treino seguinte, o Rolão, que era o nosso capitão, chegou com um saquinho. O prémio era 14€. Era 7€ e pouco por jogo [risos]. Era o Rolão a distribuir moedas [risos]. A malta quando foi receber o prémio… aquilo foi hilariante. O prémio pelos dois jogos nem chegava a 15€, dava 14€ e qualquer coisa [risos].

Entretanto, acabou por rescindir com o V. Guimarães e vai para o SC Braga B. Porquê?
Não quero ser mal interpretado, gostei muito de estar em Braga, mas se me perguntassem hoje se voltava a fazer, se calhar não. Não gosto de dizer que estou arrependido porque as coisas acontecem por um motivo, para nos ajudar a crescer, mas a verdade é que se calhar também não fui muito bem-aconselhado.

Em 2011/12 Gonçalo Silva (no centro) jogou pelo Atlético CP

Em 2011/12 Gonçalo Silva (no centro) jogou pelo Atlético CP

D.R.

O Dimas ainda era o seu empresário?
Sim. Vou explicar o porquê de ter rescindido. Tive cinco meses de ordenado em atraso. Graças a Deus vivia na casa dos meus pais, porque senão não sei como ia fazer. Foi uma altura difícil porque era o 2.º ano de profissional. Recebi um ordenado quando joguei com o Moreirense, pelo Atlético, deu uma volta completa ao campeonato e ainda não tinha recebido novamente. Esse foi o principal motivo por que rescindi. Mas, como se sabe, a rivalidade é muito grande entre os dois clubes, e há muita gente em Guimarães que me insulta quando vou lá jogar. O ano passado fui lá e tive uma conversa com um ou dois adeptos que conseguiram compreender, mas quem não sabe das coisas e como aconteceu, até porque na altura fui o único que rescindiu, crucifica-me. Eu não fechei as portas ao Vitória.

Então, o que aconteceu?
Rescindi contrato, fomos para o Tribunal Arbitral da Liga, que me deu razão. Mas mesmo assim falei com o Dimas e disse-lhe: “O Vitória deu-me esta oportunidade e eu também não quero fazer isto.” O Dimas falou com os diretores e chegámos a acordo para fazer outro contrato. Aquele estava rescindido, deram-me razão, mas vamos dar oportunidade ao Vitória de fazer outro contrato e as coisas ficam bem na mesma. Obviamente, demos um prazo ao Vitória para me apresentar um novo contrato. Eu nem queria receber mais dinheiro, só queria que as coisas ficassem bem. Entretanto, o Vitória não conseguiu cumprir o prazo de apresentar-me um novo contrato e só a partir daí optámos por outros caminhos. Na altura fiquei mal na fotografia, porque rescindi e disseram que fui intransigente e não foi isso que aconteceu.

Acabou por assinar com o SC Braga por quantas épocas?
Quatro, mas saí no início da última.

Sabia que ia para a equipa B?
Sabia. Foi na altura que se formaram as equipas B. Tanto que se tivesse ficado no Vitória ia ficar também na equipa B.

Na época 2012/13, o central assinou pelo SC Braga e jogou na equipa B

Na época 2012/13, o central assinou pelo SC Braga e jogou na equipa B

D.R.

Era Artur Jorge o treinador da equipa B, em Braga. Como foi a receção?
Tendo trocado o Vitória pelo Braga fui bem recebido pelos meus colegas, pelos treinadores, pelo presidente Salvador. Apesar de toda a mudança ter sido difícil, a verdade é que também passei um bom tempo em Braga e comecei a ir à seleção.

Quando foi convocado pela primeira vez?
Eu já tinha sido chamado no Lousada, para os sub-20. Mas depois comecei a ser chamado para os sub-21 e fiz a minha primeira internacionalização, no meu primeiro ano de Braga, num amigável com a Macedónia.

Estava muito nervoso?
Estava, estava muito nervoso. Até aí só tinha treinado, nunca tinha jogado. Foi um jogo de nervos, comecei no banco, entrei no intervalo com o meu colega de equipa Aníbal Capela, jogámos os dois esses 45 minutos. Foi mais um sonho tornado realidade, vestir a camisola das quinas. Foi o mister Rui Jorge que me deu essa oportunidade.

E do treinador Artur Jorge no SC Braga B, gostou?
Muito. Ele não tinha os adjuntos atuais, mas já se notava as capacidades dele. A maioria dos treinadores que foram jogadores percebem como funcionam as coisas dentro e fora do campo e acho que isso dá-lhes uma grande vantagem para serem bons a nível de treino. Sem dúvida que é um bom treinador, e tem-no provado.

Também foi treinado pelo mister António Conceição…
Apanhei muitos treinadores no Braga B. Apanhei o mister António Conceição ainda nesse ano e com ele o início não foi muito bom. Mais uma vez, voltamos àquilo que eu dizia. A minha carreira foi sempre assim, no início estranha-se, depois entranha-se. Estava a jogar, ele tirou-me, passei ali uns tempos difíceis sem jogar, mas no final acabei a jogar, com ele a elogiar-me e a gostar do meu trabalho.

Em ação pela equipa B do SC Braga

Em ação pela equipa B do SC Braga

D.R.

Nesse primeiro ano alguma vez treinou com a equipa principal?
Sim. Em todos os anos treinei com a equipa principal, havia jogadores que iam à seleção, por isso havia sempre momentos em que a equipa principal precisava de jogadores.

Recorda-se de alguma história, de algum episódio dos primeiros tempos em Braga?
Recordo-me de uma no 2.º ano em que começámos a equipar e a treinar no velhinho estádio 1.º Maio. Eu e o meu amigo Nuno Valente, que agora joga no Trofense, éramos praticamente sempre os últimos a sair do estádio. Houve um dia que o treino foi à tarde, como sempre fomos ao ginásio e quando acabámos de tomar banho já estava tudo apagado no estádio. Íamos para a porta para ir embora quando percebemos que estava mesmo já tudo fechado e começou a tocar o alarme. Foi um momento que nos assustou. Como já estava tudo em casa a jantar, ainda ficámos uns 30 minutos à espera que alguém nos viesse abrir a porta.

Só se estreou pela equipa principal no SC Braga, sob o comando de Sérgio Conceição, na época 2014/15, certo?
Sim, num jogo da Taça da Liga, em Vila do conde.

Com que opinião ficou de Sérgio Conceição?
Um treinador bastante exigente, com um coração enorme. Uma pessoa incrível, mas naquilo que toca ao profissionalismo, à entrega, tem o máximo de exigência possível. Ninguém pode baixar um pouquinho de intensidade, porque ele está lá para cobrar, mas depois é uma pessoa incrível. Não fui jogador da equipa principal, mas já o encontrei muitas vezes depois disso e ele reconhece-me, fala sempre, pergunta como está a família. Cinco estrelas, nada a apontar.

Qual o treinador que mais o marcou na equipa B?
O Abel Ferreira. Senti que ele estava ali para ajudar-me e aos meus companheiros. Era um treinador diferente, via as coisas muito mais à frente. Gostei bastante, foi ele até que me ajudou a ir para Belém. Os métodos de treino, a maneira como falava connosco, chamou-me a atenção e deixou-me fascinado pelo trabalho dele e da equipa técnica. Via-se poderem ter ali mais qualquer coisa, que não eram para o SC Braga B. Como o provou. Eu era dos mais velhos, era o capitão e tive bastantes conversas com ele. Foi um dos que me ajudou a subir a fasquia do meu futebol, da minha qualidade e daquilo que eram as minhas ambições.

Houve algo que lhe tenha dito que tenha ficado gravado na memória?
Tive uma conversa com ele em que me perguntou qual era a minha ambição. Porque nas equipas B do Braga havia sempre um jogador mais velho que ajudava os outros, tal como agora está lá o Castro. O mister Abel perguntou-me: “Qual é a tua ideia, ficar aqui para sempre a ajudar os miúdos a crescer ou queres ter uma carreira melhor e seguir outros caminhos?” Eu disse-lhe querer ter uma carreira melhor, jogar noutros campeonatos. A meio da época já me tinha dito que achava que eu tinha qualidade para fazer parte do plantel principal, mesmo que não fosse o segundo ou o terceiro central, podia ser o quarto e espreitar uma oportunidade. Senti que se ele fosse o treinador da equipa principal me poderia dar essa oportunidade.

Mas quando ele chegou à equipa principal já não estava em SC Braga. Porque saiu?
Saí porque já estava há três anos na equipa B. Já queria ter saído no ano anterior, mas as coisas não aconteceram e senti naquele ano [2014/15] que já não era o projeto certo para mim e precisava de outros desafios para evoluir. E aí entrou o mister Abel, que me ajudou e falou com o mister Sá Pinto. Deu boas indicações minhas.

Em 2015/16, Gonçalo Silva assinou pelo Belenenses

Em 2015/16, Gonçalo Silva assinou pelo Belenenses

Carlos Rodrigues

Que outras memórias tem dessa passagem pela equipa B do SC Braga?
O poder treinar com a bola da Liga dos Campeões, apesar de nunca ter sido convocado para um jogo da Champions. E recordo-me do meu primeiro jogo em Braga, pela equipa B, que foi no Estádio da Luz. Mesmo com o estádio vazio deu para arrepiar. Esse foi o jogo que me marcou mais porque depois fui chamado à seleção.

O ambiente da seleção era o que estava à espera ou superou as expectativas?
Era o que esperava. Era dos poucos que não ia regularmente, a malta que lá estava já se conhecia toda e apesar de eu estar ali um bocadinho deslocado fui bem recebido, o ambiente era tranquilo. Entretanto, casei-me.

Quando?
Entre o SC Braga e o Belenenses. E antes de ir para Belém ainda fiz a pré-época com o mister Paulo Fonseca.

Daquilo que pode observar dele, o que tem a dizer?
Bom, gostei. Não vou mentir, fiquei mais chateado por não ficar na equipa. Mas gostei dos métodos dele. Foi uma boa experiência.

Assinou por quanto tempo com o Belenenses?
Quatro anos, mas renovei mais duas vezes.

As últimas três épocas já foi com a B SAD.
Sim, eu apanhei tudo. Apanhei os melhores anos de Belenenses na Liga Europa, fiz três anos de Restelo e três anos de Jamor, na B SAD.

Como foi recebido em Belém?
Muito bem. Apesar de ser o central com menos experiência, ia para ser o quarto central, porque tinha Gonçalo Brandão, Tonel, João Afonso e nunca tinha jogado na I Liga, mas a verdade é que fui bem recebido. O mister Sá Pinto também tinha tido boas indicações minhas. Durante algum tempo tínhamos um plantel só com portugueses. E tínhamos um grupo fantástico.

A celebrar sozinho a vitória do Belenenses sobre o FC Porto por 2-0, em 2018

A celebrar sozinho a vitória do Belenenses sobre o FC Porto por 2-0, em 2018

D.R.

Que tal o Sá Pinto como treinador?
É pessoa muito, muito, muito exigente, que vive demasiado intensamente o futebol, o treino, os resultados. Acho que às vezes chega a ser demasiado intenso naquilo que faz. Cada um tem a sua maneira de viver as coisas e todos ficamos chateados quando perdemos, mas o mister Sá Pinto por vezes consegue passar do chateado para outro lado [risos].

Como eram as duras dele?
Eram duras a sério. Tivemos alguns episódios... Chegaram a voar retroprojetores, chegou a dar uns bons pontapés nas caixas da roupa no final dos jogos, quadros táticos também voaram alguns. É a maneira dele viver o futebol, sem dúvida que também me ajudou muito a crescer. É uma personagem icónica do nosso futebol, não gostava que idolatrássemos as outras equipas quando íamos jogar aos estádios dos grandes. Detestava. Toda a gente sabe que o mister Sá Pinto é um sportinguista assumido e tivemos um episódio com um colega no Estádio da Luz, em que foi apanhado pela Benfica TV a filmar o estádio antes do jogo [risos]... Nesse jogo, se não me engano, levámos 4-0. Quando chegámos ao Restelo, essa noite foi difícil porque ele juntou a malta na sala de reuniões e rebentou connosco [risos].

Como? O que disse?
Para já não gostou daquilo que viu antes do jogo, queria que estivéssemos concentrados e não, como ele disse, “a idolatrar” as outras equipas. Ainda para mais, o Benfica [risos]. Depois as coisas dentro do campo não correram bem, por acaso não joguei, foi aquela altura inicial em que ainda não estava a jogar muito. Mas nessa reunião o retroprojetor voou, voou tudo [risos]. Lembrei-me de outra com o mister Sá Pinto muito engraçada.

Força.
Era o primeiro ano do nosso roupeiro Carlos Costa, mais conhecido por Conan, ali no Belenenses. É muito normal os jogadores mandarem vir encomendas para o estádio, tipo botas ou roupas. Estávamos no meio do treino e o nosso Conan, vem lá do balneário até ao campo, aos gritos, “Ó Sturgeon, Sturgeon”, ele a gritar e nós no meio do treino. “Ó Sturgeon, tens ali uma encomenda.” O mister Sá Pinto quando percebeu que o Conan estava a chamar o Sturgeon para receber uma encomenda no meio do treino... [risos]. Normalmente, quem recebe a encomenda, um diretor ou o roupeiro, assina a encomenda e mete no nosso lugar, mas ele era principiante naquilo, não sabia, foi a primeira vez que lhe aconteceu e lá vai ele “Ó Sturgeon” aos gritos [risos]. O mister Sá Pinto parou o treino e ‘rebentou’ com o Conan, coitadinho. Imagina a quantidade de asneiras que ele disse: “Ó Conan, tu estás a brincar com esta m*rda, car...? Não brinques comigo, estamos a treinar…” Foi hilariante.

Gonçalo esteve três anos no Belenenses e depois assinou pela B SAD

Gonçalo esteve três anos no Belenenses e depois assinou pela B SAD

D.R.

Recorda-se da sua estreia na I Liga?
Foi com o União da Madeira, no Restelo, se não me falha a memória. Acho que ganhámos esse jogo por 2-1. Comecei no banco.

Quais foram as palavras do Sá Pinto antes de o meter em campo?
Estava tão nervoso que não me lembro de nada [risos]. Só queria ir lá para dentro. O estádio não estava cheio, acho que me custou mais depois, quando tive de jogar com um grande, com mais gente no estádio, aí, sim, no início as pernas estavam a tremer um bocadinho. Lembro-me particularmente de um jogo difícil com o Benfica, no Restelo, em que o estádio estava cheio; não foi com o mister Sá Pinto, já foi com o mister Júlio Velázquez. Ele não me passou a confiança que deveria ter passado, meteu-me no banco, colocou o Rúben Pinto a central. Depois, meteu-me no intervalo e as coisas não correram bem. Tive bolas a saltar na relva e a passar por cima do pé que deram golo, tudo e mais alguma coisa, passos falhados que quase davam golo, definitivamente não foi o meu dia. Quando é o primeiro ano, queres mostrar e as coisas não correm bem num jogo grande onde há mais visibilidade, já sabes que as críticas vão aparecer. E apareceram. Foi aí que aprendi que não devia ler os comentários, mas, como era miúdo, fui ver tudo. Nessa noite não dormi e os meus verdadeiros amigos foram ter comigo para passar a noite comigo. Foi uma noite difícil. Foi um jogo que me marcou, um início complicado.

Mais alguma história para contar, antes de passarmos à Polónia?
Recordo que o Carlos Martins, dos gajos com mais qualidade com quem joguei, era muito divertido e grande amigo do Sá Pinto, mas os dois estavam sempre pegados. Aquilo era demais, o Carlos era o maior [risos]. Lembro-me de uma vez em que fomos de estágio, penso que para a Áustria. No dia do jogo, de manhã, íamos dar aquela voltinha da praxe e beber um cafezinho e o mister Sá Pinto, que era rigoroso como tudo, queria que toda a gente fosse vestida de igual, não havia cá diferenças. Azar do caraças, o Carlos nesse dia vem diferente dos outros. O mister vê aquilo: “Pá, ó Carlos faz favor vai trocar a roupa” e o Carlos, naquela maneira dele: “Epá, ó Sá, agora vou trocar, a esta hora? Vamos mas é passear”; “Pá, não vou sair daqui enquanto não fores trocar.” O Carlos sobe ao quarto.

O que aconteceu?
O Carlos demorou mais de 20 minutos para ir trocar os calções pelas calças [risos]. O Sá Pinto maluco, à espera, a espumar-se por todos os lados porque o Carlos nunca mais vinha do quarto [risos]. Eu estava a ver que se iam pegar. Mas aquilo já era amor-ódio entre eles e nunca pegava de verdade.

O central (no centro) salta para festejar um golo

O central (no centro) salta para festejar um golo

D.R.

O Júlio Velázquez era muito diferente do Sá Pinto.
Nada a ver. Em tudo. A intensidade de treino era muito mais baixa do que estávamos habituados. Muito diferente. Chegávamos aos 60 minutos de jogo e estávamos “mortos”, porque a intensidade dos treinos tinha baixado. Às quintas-feiras não fazíamos quase nada, fazíamos o aquecimento, dávamos ali duas, três voltinhas e quem quisesse jogar futebol, jogava, quem não quisesse, podia ir embora. O Carlos Martins era logo dos primeiros a ir embora [risos]. Ele já tinha os negócios dele de construção de imobiliário e ficava todo contente.

O Velázquez ainda inicia a segunda época, mas acaba por sair e vem o Quim Machado. Que não esteve muito tempo.
Não. Lembro-me que na altura o Gonçalo Brandão era o capitão e as coisas não correram muito bem entre eles. Não tenho muitas memórias dele, sou sincero. Sei que a seguir veio o mister Domingos Paciência, de quem gostei, mas as coisas também não lhe correram muito bem. Mas, sinceramente, não sei se o mister Domingos foi feito para ser treinador. Nem todos os ex-jogadores têm de ser treinadores. Acho que ele tem o conhecimento do jogo, percebe, mas depois não sei se é feito para aquilo, para ser treinador.

Mas porquê? É a forma de comunicar?
Sim, comunicação, o balneário. Apesar de ter sido um avançado incrível, que fazia muitos golos, como treinador no Belém as coisas também não lhe correram muito bem. Esteve muitas vezes na corda bamba para sair. Mas a minha relação com ele sempre foi boa e não tenho nada a apontar.

E o Silas?
Diferente. Pelo bom e pelo mau. Na altura já era o capitão do Belenenses e o mister Silas deu-me a importância que eu tinha, ajudou-me muito, penso que foi dos anos em que evolui mais com a saída de bola, porque é um treinador que gosta de assumir o jogo, gosta de começar a jogar de trás, desde o guarda-redes, e ficávamos 40/50 minutos a treinar isso. Chegava a ser demasiado, chegámos a ter treinos de duas horas e tal e às vezes muito parados porque era muito tático. O mister é obcecado por isso. Por vezes estávamos a preparar um jogo e ele já estava a pensar no seguinte, como íamos enganar os gajos e sair a jogar. A verdade é que íamos jogar nos estádios dos grandes e conseguíamos ter boa posse de bola e sair a jogar. O mister Silas e o mister José Pedro complementavam-se muito bem, duas pessoas incríveis que gostei de conhecer, mas optaram por seguir cada um o seu caminho.

Os amigos e familiares de Gonçalo Silva levavam uma camisola gigante com o seu número, sempre que o iam apoiar

Os amigos e familiares de Gonçalo Silva levavam uma camisola gigante com o seu número, sempre que o iam apoiar

D.R.

Na última época no Belenenses e a primeira na B SAD jogou bastante.
Até fiquei um bocadinho atravessado com o mister Silas porque eu era totalista e, a três ou quatro jogos do fim, tirou-me. Tirou-me no jogo, em Chaves, meteu o André Geraldes a central e não percebi muito bem o porquê. Fiquei com essa atravessada porque poderia acabar o campeonato como totalista, mas pronto.

Disse-lhe alguma coisa?
Não. Nunca fui, nem nunca serei um jogador para questionar as opções do treinador. Com os anos vamos ganhando experiência e podemos falar com os treinadores, mas para ajudar, não para não pedir justificações. Posso tentar perceber o porquê de não jogar para poder evoluir, mas questionar o porquê e achar que tenho de ser eu a jogar, não faço. Foi opção dele e tive de respeitar.

Já tinha sido pai?
Fui pai, era o Quim Machado o treinador. Lembro-me, porque fui pedir-lhe para faltar ao treino, para assistir ao nascimento da minha filha. Foi no meu segundo ano de Belenenses. A Lia nasceu em 2017.

O nascimento da sua filha influenciou o seu rendimento a partir dali?
Acho que influenciou a minha maneira de ver as coisas. O rendimento não porque sempre dei tudo em campo, independentemente das circunstâncias de jogar, não jogar, de estar sozinho, estar com a família, de estar casado, ou não, ter filhos, ou não. Mas começamos a ver as coisas de outra maneira e a fazer tudo em prol deles. A minha visão do mundo mudou, é normal. Tenho uma mulher que sempre me ajudou em tudo. Nunca tive dificuldade em dormir porque tinha jogo no dia seguinte, a Rute sempre tratou de tudo.

Como foram os três anos de B SAD?
Só nesses três anos tinha um livro para escrever. Difícil, difícil. Em termos de resultados, durante a minha carreira consegui sempre atingir os objetivos propostos. Mas fora das quatro linhas aquele período foi muito complicado, porque estávamos no Jamor que, na verdade, não era a nossa casa. Tínhamos de pedir autorização aos responsáveis do IPDJ para tudo. Íamos ao ginásio da seleção de râguebi, que não era de todo o melhor ginásio. Em dias de chuva equipávamos nos balneários principais do Jamor, o ginásio do râguebi é em baixo junto aos campos de treino, tínhamos de ir à chuva para baixo, era uma logística complicada; depois tudo o que envolvia os adeptos, houve ali uma grande separação e a malta sentiu muito isso. Muito diferente a B SAD do Belenenses.

Em ação já pela B SAD

Em ação já pela B SAD

D.R.

Na segunda época de B SAD, em 2019/20, fez um jogo pelos sub-23. Porquê?
Nos dois últimos anos de B SAD tenho algumas histórias menos felizes. Nunca tinha tido lesões graves e foi nessa altura que tive uma lesão no menisco e foi traumática. Rebentei o menisco da perna direita. Já tinha tido um toque antes, andava com umas dores e num treino quando apoiei a perna senti logo que tinha rebentado. Fui operado e a recuperação não foi boa.

Porquê?
Porque não demorou o tempo que devia ter demorado. Apesar dos fisioterapeutas fazerem tudo aquilo que podiam, a verdade é que as nossas condições em termos de máquinas, de posto médico, não eram as melhores. Também posso fazer um bocado de “mea culpa”, porque se calhar quis apressar um bocadinho. Nunca tinha tido a experiência de ter uma lesão e quis voltar rápido demais. Fiz um jogo, até foi o primeiro jogo do mister Rúben Amorim, em Braga, em que fomos goleados e saí no intervalo. Senti que não estava bem. No jogo seguinte, fui jogar ao sub-23 para ganhar ritmo. Devia ter ido primeiro aos sub-23 antes de voltar à equipa principal. Foi uma série de decisões mal tomadas também da minha parte e que não contribuíram para as coisas correrem bem.

Entretanto, veio a fase do covid-19. Como foi treinar em casa?
Tive alguns problemas. Ainda comecei a jogar depois, mas ressenti-me do joelho, tive de fazer uma pequena cirurgia para melhorar e acabei a época lesionado. É uma história da qual não me orgulho, mas que já agora gostava de contar para as pessoas perceberem um pouco como é que isto funciona no futebol, porque num dia és bestial e no outro dia és besta.

Conte.
Ia iniciar a minha sexta época entre Belenenses e B SAD, quando começou a pré-época eu ainda estava lesionado e o clube optou por não me chamar para o primeiro dia de treino. Isto já com o Petit. Apareci lá sem ninguém saber, ainda de muletas. Quando o mister Petit me viu, percebi que foi surpreendido. Acho que foi um bocado engendrado com o presidente.

Porquê?
Tenho de contar um episódio que aconteceu na época anterior a essa, em que estávamos a lutar pela manutenção. Jogámos na Cidade do Futebol, devido às restrições da covid-19. Nessa altura fui chamado para uma reunião com o presidente, o Petit e o nosso diretor, em que fui acusado de fingir estar lesionado e de não querer ajudar a minha equipa. Aquilo marcou-me muito. Foi o presidente quem fez a acusação. O mister Petit estava presente, mas nunca disse que eu não queria jogar. Na altura eu não sabia ainda o que tinha, mas já tinha muitas dores e não conseguia correr. Não conseguia sprintar, tinha dores insuportáveis. Depois soube-se que eu tinha uma fratura de stress no joelho. E o presidente quando soube foi para cima da equipa médica, porque sabia que tinha feito asneira. Mas foi um momento que me marcou aquela acusação.

Conan (Carlos Costa), Gonçalo Silva e Paulinho (fisioterapeuta) da B SAD

Conan (Carlos Costa), Gonçalo Silva e Paulinho (fisioterapeuta) da B SAD

D.R.

Quando ele o acusou de fingir, como reagiu na reunião?
Reagi como nunca reagira na minha vida. Nunca fui de faltar ao respeito a ninguém, mas quando o presidente me disse aquilo fui um bocado mal-educado. Perante aquilo de que me acusavam não tinha outra maneira de reagir. Chorei de raiva, disse-lhe que não admitia que ele me acusasse de falta de profissionalismo, porque se há coisa que nunca fui, foi mau profissional. E quem me conhece, sabe. Não lhe admiti. Disse-o perante os que estavam presentes. Acho que esse foi o motivo para na pré-época seguinte não ser chamado. Porque ele dizia que tinha falado com médicos e que sabia que eu não ia voltar a deixar de ter dores. Isto para explicar o porquê de não ter sido chamado para os treinos da pré-época.

Mas apareceu nesse primeiro treino. E depois?
Apareci porque tinha contrato com o clube, estava lesionado, nunca na vida ia conseguir encontrar clube naquele estado. O Silvestre Varela foi incrível, apoiou-me sempre, ele era um dos capitães, tanto ele como o André Moreira. Foi um momento difícil porque estive até janeiro a treinar à parte. Eles reuniam enquanto capitães e sentia que no clube não queriam que eu fizesse parte do lote. Tenho de tirar o chapéu ao André Moreira, porque foi ele que numa reunião disse ao mister: “O nosso capitão é o Gonçalo, não percebo porque não está aqui presente.” Aos poucos as coisas foram melhorando, mas foi sem dúvida um momento difícil porque senti que não merecia aquilo.

Qual a reação do Petit?
O mister Petit foi percebendo que eu podia ser útil e fiz o meu regresso em janeiro, em Barcelos. Acabei ainda por fazer 20 jogos nessa época. Terminava contrato no final dessa época.

Não quis renovar ou foi o clube que não quis?
Eu não quis. As coisas mudam muito rápido e o presidente queria que eu ficasse e ofereceu-me um contrato de três anos com o mesmo salário, mas eu não queria ficar.

mw-320

D.R.

Já tinha propostas de outros clubes em cima da mesa?
Não tinha nada, fui mesmo às escuras.

O Dimas ainda era seu empresário?
Não, já estava com o Paulo Madeira, Rui Cardoso e Bruno Basto que, entretanto, se separaram e agora estou só com o Bruno. Nunca tinha estado naquela situação de não ter clube e é difícil de gerir, porque como disse há bocado, ter filhos faz-nos pensar em muita coisa. E já tinha voltado a ser pai da Eva, que nasceu em 2020. Por isso, agarrei a primeira coisa que me apareceu. E o foi o Radomiak. Não tive paciência para esperar por outras coisas.

Sair do país era algo que tinha em perspetiva?
Sim, era a minha ideia. Apesar de não ter sido no momento certo. Mas sou uma pessoa que considera que as coisas acontecem por algum motivo. Nessa altura fui eu que quis forçar e, depois de tudo acontecer, senti que não era o momento certo. Sou uma pessoa crente, senti que não era, porque nada correu bem na minha saída para a Polónia.

Antes de passarmos à Polónia, tem alguma história mais para contar desses anos no Belenenses e B SAD?
Tenho duas, de situações muito diferentes. No meu segundo ano de Belenenses, no Restelo, o nosso capitão era o Abel Camará e há algumas semanas que não tínhamos bons resultados, julgo que íamos em sete jogos sem vitórias e cerca de 50 adeptos ou mais, um dia, invadiram o treino para exigir vitórias. Alguns adeptos exigiram inclusive que o Abel não fosse o capitão. O treinador era o Domingos Paciência e umas semanas antes o presidente falou com o grupo e tinha-me incluído e ao Vítor Gomes no lote de capitães. Dois dias depois dessa invasão fomos jogar em Alvalade. Na véspera do jogo, sonhei que ia usar a braçadeira. A verdade é que quando cheguei ao balneário a braçadeira estava no meu lugar, o que achei estranho porque o Abel ia ser titular. Entretanto, o mister Domingos chamou-nos ao balneário dele no estádio de Alvalade e explicou-nos que devido àquela situação da invasão optou por ser eu a usar a braçadeira para não criar conflitos com os adeptos. As coisas acabaram por correr bem, ganhámos por 3-1, o Belenenses não ganhava em Alvalade há 63 anos. Foi um dia histórico. O Abel foi incrível, assumiu um penálti que deu o empate e eu acabei por fazer o 3-1. Foi um dia espetacular, ainda por cima era dia da mulher e o dia de anos da minha mulher, que estava presente no estádio.

E a outra história?
É hilariante. No Jamor, tínhamos acesso aos dois balneários, do visitante e do visitado. No nosso balneário tínhamos uma coluna grande onde metíamos música. Qual é a nossa estranheza quantos um dia de manhã estamos no balneário e começamos a ouvir na coluna alguns gemidos de filmes para adultos. Pensámos logo que era alguém na brincadeira, mas passou dois, três minutos e aquilo não parava. Começamos a dizer: “Parem lá com a brincadeira, já chega.” Aquilo não parava e começámos a achar estranho. Nós usávamos o balneário do visitado, fomos à procura para ver se descobrimos de onde vinha aquilo e no balneário do visitante estava uma pessoa, cujo nome não vou dizer, sentada na sanita a ver um filme para adultos, só que pensava que estava com o telemóvel em silêncio, mas, na verdade, estava conectado à nossa coluna [risos]. Tudo aquilo que ele estava a ver no telemóvel, o som passava na nossa coluna do balneário. Escusado será dizer que foi uma risota, filmámos, brincávamos com ele, foi um momento incrível e dos mais engraçados na minha carreira.

 

 

“Meia hora depois de fazer o post, após o que Jorge Jesus disse, tinha o diretor de comunicação do Benfica a ligar-me: ‘O que fizeste?!’”

Mal nasceu, no início de janeiro, Filipe Nascimento foi aconchegado com um cachecol do Benfica, o clube onde acabou por fazer toda a formação com o sonho de um dia chegar à equipa principal. Não aconteceu e o médio não sabe se o facto de ter respondido, no Facebook, a uma frase de Jesus dita numa entrevista pesou na decisão de não ter tido a possibilidade de jogar na equipa B. Após iniciar a carreira profissional no Académico de Viseu, na II Liga, acabou por sair para o estrangeiro, de onde nunca mais voltou para jogar em Portugal

Spoiler

 

Nasceu em Lisboa. É filho de quem?
O meu pai era dono de uma empresa de construção e a minha mãe trabalhava lá. Com o passar dos anos o meu pai reformou-se e a minha mãe ficou a trabalhar na secretaria de uma escola até se reformar.

Tem irmãos?
Tenho dois irmãos mais velhos, só da parte do meu pai.

Cresceu onde?
Em Loures, no bairro Fanqueiro. Vivi lá até aos 14 anos e depois o meu pai fez uma casa em Almargem do Bispo, perto de Negrais, e mudámo-nos para lá.

Deu muitas dores de cabeça?
Acho que fui calminho. Os meus pais sempre me deram uma educação muito regrada, não podia sair muito, era filho único dos dois… Eu também era obcecado por futebol, por isso a minha vida era muito escola-futebol, futebol-escola.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Sempre disse que queria ser jogador.

Tinha alguém na família ligado ao futebol?
Não. Mas comecei a jogar com cinco, seis anos e era completamente apaixonado. Se não tivesse a jogar na escolinha de futebol, estava a jogar na rua ou em casa, jogava em todo o lado.

Em casa torciam por que clube?
Sempre pelo Benfica. Assim que nasci meteram-me o cachecol à volta do pescoço e não houve volta a dar.

Gostava da escola?
Gostava da escola para estar com os amigos. Não era excecional, mas era bom aluno. Nunca tive problemas em passar de ano. Mas sempre tive na cabeça que queria mesmo jogar futebol e quando fazes a formação no Benfica tens muitos torneios internacionais, depois és chamado à seleção nacional e perdes muitas aulas. Mesmo assim, consegui sempre ter notas médias. Entrei um ano mais cedo para a escola e o sonho do meu pai era que aos 17 anos acabasse o 12.º ano e entrasse na universidade, por isso andou sempre em cima de mim para que nunca me faltasse nada, se precisasse de uma explicação aqui ou ali, ele facultava.

Quem eram os seus ídolos?
Rui Costa e também gostava de Aimar. Depois havia Zidane e Iniesta, mas aqueles dois eram os principais.

Costumava ir ver jogos ao estádio da Luz?
Sim, nós tínhamos lugar cativo no antigo estádio da Luz. E também tivemos no estádio novo. Tivemos sempre até me tornar profissional. Cheguei a ser apanha-bolas, capitão de apanha-bolas.

Filipe Nascimento com os pais

Filipe Nascimento com os pais

D.R.

Disse que começou a jogar futebol com cinco anos. Logo no Benfica?
Não, comecei numa escolinha chamada FootEscola, que até tinha ligação ao Sporting. Por volta dos meus sete, oito anos, se ficasse mais um ano, entrava no Sporting, mas como eu fazia muitos torneios contra o Benfica, o treinador do Benfica da altura, Miguel Soares, gostava de mim e pediu ao meu pai para eu ir para o Benfica. A contrapartida era que eu entrasse logo para formação e não para as escolinhas a pagar, e assim foi. Entrei um ano mais cedo, já jogava com o Bernardo Silva. Eu sou de 1995 e ele é de 1994. Comecei logo a jogar com os mais velhos.

Fez toda a formação no Benfica. Quais são as principais memórias que tem até chegar a júnior?
Sem dúvida a amizade que ainda hoje permanece com alguns jogadores. E também muitas memórias de torneios internacionais, em diferentes países e continentes; o primeiro título nacional de iniciados, o título de juniores com a geração do Bernardo e do Cancelo. São momentos marcantes.

Imaginava que Bernardo Silva e João Cancelo chegariam tão longe como chegaram?
Sinceramente, mais o Cancelo, e sou grande amigo do Bernardo. Mas o Cancelo mais, porque era realmente especial em tudo o que fazia e na pessoa que era. Era diferente de todas as crianças, sempre foi muito irreverente, a qualidade dele sempre foi sensacional, fazia coisas à frente para o ano em que estava. Chegou a vir jogar connosco aos juniores e destacava-se claramente dos outros. Fazia coisas que não estávamos habituados e sempre senti que ia chegar a um nível muito alto. Agora, dizer que ia passar por todos os clubes porque já passou, só passou pelos melhores clubes do mundo, é difícil, até porque nessa altura as portas estavam muito fechadas para a formação. Era muito difícil imaginar que podia chegar à equipa principal do Benfica. Sempre pensamos que sim, mas as portas só começaram a abrir no final da nossa formação. Antes era muito difícil.

E o Bernardo?
O Bernardo era muito difícil de imaginar, porque foi sempre suplente até ao último ano de júnior. Agora, se me perguntar se o Bernardo é o melhor jogador que já vi jogar, mesmo com 15 ou 16 anos, eu digo que sim. Ele nunca perdia uma bola, fazia tudo incrivelmente bem, só que, como era mais pequeno que os outros, jogavam outros, mais fortes e mais altos. Na formação, quando há essa diferença física, isso faz muita diferença. Talvez mais no último ano de juniores e quando o Bernardo já está na equipa B, aí sim, dava para sentir que vai ser espetacular, mas também dizer que seria ao nível que é hoje, era difícil imaginar.

Filipe começou a jogar no Benfica com 8 anos

Filipe começou a jogar no Benfica com 8 anos

D.R.

Como se definiu a tua posição em campo? Foi algo natural?
Quando éramos miúdos e jogávamos futebol 7, eu até jogava mais encostado à linha, às vezes também jogava no meio, mas sempre gostei de jogar no meio porque gosto de pensar o jogo, gosto de todas as fases do jogo, gosto da criatividade, de assumir o risco e acho que no meio era onde fazia mais sentido. Também não sou um jogador rápido e explosivo para estar na linha e, no Benfica, sempre joguei a 8 e a 10, também joguei a 6. Joguei em quase todas as posições do meio-campo. Quando cheguei ao futebol profissional, no início, eles põem-te um bocado mais para frente para não te dar aquela responsabilidade defensiva, por seres muito novo, mas com o passar do tempo e com o ganhar de experiência fui jogando cada vez mais para trás.

Quem foram os treinadores que mais o marcaram na formação?
Tenho um primeiro, o Luís Araújo, foi com ele que fui campeão nacional pela primeira vez. A disciplina dele foi algo que me marcou muito. Senti que só com aquela disciplina podíamos ser jogadores do Benfica ao mais alto nível. Foi algo que ficou comigo para o resto da carreira. Depois, o Renato Paiva, o João Tralhão e o Bruno Lage. Qualquer um dos três são treinadores de alto nível. O Luís Araújo continua no Benfica, mas outros três estão ao nível Internacional, já com provas dadas. Tive a sorte de os ter. Quando cheguei ao futebol profissional senti que os melhores treinadores que tive foram esses que estiveram na formação comigo.

E foram os melhores porquê?
Porque são em quem mais me revejo no futebol e talvez também porque os apanhei numa fase mais nova, foram com quem aprendi mais. Estou a viver no estrangeiro desde os meus 19/20 anos, a partir daí só apanhei um treinador português, o António Conceição, e senti logo a diferença do que é ter um treinador português. Os treinadores portugueses têm alguma coisa especial na maneira de ver o jogo, na maneira de liderar, é algo especial.

Quando foi chamado para treinar pela primeira vez com a equipa principal do Benfica?
Fui chamado três vezes, se não estou em erro. A primeira vez foi no meu primeiro ano de júnior, tinha 18 anos. Na altura fui só eu e o Bernardo, porque estávamos a destacar-nos. O mister Jorge Jesus precisava de dois médios e fomos nós.

Estava muito nervoso?
Muito, muito nervoso. Já era um sonho poder treinar com Aimar, Luisão, Matic, Lima, Rodrigo, Salvio.

Algum que tenha sido mais simpático com vocês?
Não consigo destacar um nome. Mas, desse primeiro treino, tenho algumas histórias.

Conte.
Lembro-me de estarmos a fazer aquele ‘meiinho’ no final, na brincadeira, e eu fiquei no grupo do Aimar, que estava ao meu lado. Às tantas, eu já estava com as pernas a tremer e fazem um passe com muita força mesmo para o meio de mim e do Aimar. Faço a reação de quem vai para tocar na bola, mas como sei que tenho o Aimar ao meu lado, não me mexo mais do género, o Aimar consegue aguentar este passe e dar seguimento a esta bola, eu, não sei. E naquela fração de segundo, como me mexi, o Aimar não se mexeu e a bola passou no meio de nós. Lembro-me de ficar naquela, quem é que vai para o meio? Eu ou tu? Mas só demorei um segundo a pensar, porque quando olhei para os olhos dele, vi logo que ele dizia: “Sabes que és tu” [risos].

O médio fez toda a formação no clube da Luz

O médio fez toda a formação no clube da Luz

Harold Cunningham

Que mais episódios tem dessas chamadas aos treinos da equipa principal?
Há outro momento no treino engraçado. Nós tínhamos o extremo Nolito, que era muito aguerrido, falava muito, parecia que estava sempre meio-chateado e há um lance em que o lateral que está com o Nolito, a bola entra no lateral, que fica sozinho, faz o cruzamento e dá golo. O lateral faz o movimento nas costas e eu podia ter acompanhado, mas como já era a segunda parte do jogo, eu já estava cansadíssimo, porque era um ritmo completamente diferente dos juniores, não fui, e o Nolito é que ficou mal visto porque era um jogador dele. O Jorge Jesus começou a gritar: “Nolito, tens de acompanhar, é o teu homem, vai até ao fim.” E o Nolito ficou a olhar para mim, do género: “O miúdo não foi e agora a culpa é minha.” [risos]. O Nolito começou a gritar do outro lado do campo para mim “Ó miúdo, ó miúdo” e eu: “Será que é para mim?”, continuei, fui beber água, dei a voltinha e “Ok, já passou, já me safei desta” [risos].

O Jorge Jesus teve alguma palavra para com vocês?
Não, ele tinha a equipa feita. Só nos chamava mesmo para completar o treino. Não era como hoje, em que chamam mesmo para dar uma oportunidade, a ver se consegue destacar-se, ali não, era só mesmo para completar o treino. Lembro-me de ir três vezes e das três vezes ele chamou-me sempre menino: “Ó menino, ó menino.” Num desses treinos, por acaso teve uma boa apreciação sobre mim, porque estávamos a fazer finalização e enquanto muitos batiam só com o peito do pé, eu fiz um remate em jeito, mais ou menos como o Aimar rematava, porque gostava de imitá-lo, e ele: “É isto, é isto que têm de fazer, tem de vir aqui o miúdo vir ensinar. É em jeito, colocada.” Mas ele passa o treino todo aos berros, sempre a gritar, o treino todo com uma intensidade brutal. Os jogadores cansados de ouvi-lo… Mas tem que ser e era assim mesmo.

O Jorge Jesus deu uma entrevista que mereceu a sua reação e, por consequência, a do Bernardo. Quer recordar o que aconteceu?
Essa história foi mal gerida pela comunicação social. O Matic não podia jogar e como a formação estava a ter resultados, começámos a ser campeões, havia jogadores a evidenciar-se na equipa B, perguntaram ao Jorge Jesus se alguém da formação podia subir à equipa principal para fazer o lugar do Matic e o mister, naquele jeito dele, sem pensar muito no significado das palavras, diz qualquer coisa do género: “Da formação, para render o Matic, teriam de nascer 10 vezes.”

Como reagiu?
Quando acordei, vi a notícia num jornal desportivo e, como eu era capitão dos juniores e era uma pessoa influente dentro do grupo, partilhei a notícia nas redes sociais, com um comentário, com o intuito de dar força ao meu grupo, aos meus colegas que me seguiam no Facebook. Dizia: “Nasceremos mais nove vezes se for preciso, ninguém nos rouba o sonho de uma vida, nós vamos conseguir atingir o nosso objetivo.” Foi a minha maneira de tentar que os meus colegas sentissem que, continuando a trabalhar, conseguimos lá chegar. Porque se não reagirmos quando dizem que tu não consegues, e se acreditares no que te estão a dizer, vais entrar numa espiral em que vais acabar mesmo por não conseguir. O Bernardo e o Cancelo, para chegarem ao nível a que chegaram, ouviram muitos “não's”, muitos “não consegues”. Mas publiquei aquilo e nunca mais pensei no assunto.

O que aconteceu depois?
Passado meia hora, uma hora, tenho o meu empresário e o diretor de comunicação social do Benfica, o João Gabriel, pai de um amigo que jogou comigo na escolinha de futebol, a ligar-me, todo preocupado: “Filipe, o que fizeste?”; “O que é que eu fiz?”; “Não tens noção do que aconteceu, os jornais estão ao rubro”; “Mas o que é que eu fiz? Eu não fiz nada”. Eu já tremia por todos os lados sem perceber nada. O meu empresário da altura, Ulisses Morais, também me ligou. Passado um bocado, o João Gabriel liga-me a dizer que tínhamos de fazer um post a desculpar-me, para que tudo acalmasse. Aquilo virou um alvoroço que durou uma ou duas semanas na comunicação social, sem razão.

Filipe Nascimento sempre sonhou jogar na equipa principal do Benfica

Filipe Nascimento sempre sonhou jogar na equipa principal do Benfica

D.R.

Foi castigo pelo Benfica?
Não fui castigado, mas fui um exemplo e não joguei no fim de semana seguinte, porque quiseram proteger-me. Depois integrei normalmente os treinos e joguei até final da época.

O Jorge Jesus disse-lhe alguma coisa?
Não, nunca tive uma conversa com o Jorge Jesus. Até gostaria de ter tido para poder explicar isto mesmo. Sinceramente, acho que ele pode ter ficado um bocado chateado na altura, mas tinha outras preocupações, tinha de ganhar o título, passado uma semana acho que já não se lembrava. Eu fui ingénuo, porque não tinha noção do que era o Facebook ou de quão longe pode chegar uma mensagem.

Não foi o único a reagir, o Bernardo Silva respondeu-lhe: “É isso, meu puto, a minha mãe já me disse que, se for preciso, me mata e ressuscita mais umas quantas vezes”.
Sim, comentou num tom mais de brincadeira.

Acha que esse episódio pode ter tido algum peso no facto de Jorge Jesus nunca ter dado muita atenção a Bernardo Silva?
Não creio. O Jorge Jesus foi contratado para rendimento imediato, para performance. Ele até deu uns minutos ao Bernardo para as Taças, agora, é muito difícil quando tens um plantel que tem tantos jogadores, que vieram por milhões, e a política do clube não está virada para ir buscar jogadores da formação. O Bernardo é de qualidade inegável e claro que tinha de jogar, mas, se calhar, se o Bernardo tivesse ficado, não teria a carreira que teve. O Cancelo, a mesma coisa. O Cancelo então é que teria de jogar de caras, porque já andava lá há mais anos a dar nas vistas. A verdade é que se hoje são dos melhores do mundo nas suas posições, na altura ainda não estavam totalmente preparados, ainda estavam muito verdes, iam errar. E o Jesus não está preparado para esperar, para ver se os jogadores erram.

Acha que se não tivesse feito aquele comentário também faria parte do plantel principal?
Não sei. Mas por aquilo que vejo, julgo que pelo menos tinha subido à equipa B, tinha ficado um ou dois anos na equipa B e, mais para a frente, íamos ver se faria parte da equipa principal. Sempre fui um dos capitães, sempre fui dos jogadores mais importantes do grupo, que jogava mais, por isso, penso que pelo menos à equipa B devia ter ido.

A verdade é que na altura não ficou nem sequer na equipa B. Sabe porquê?
Aí já não sei se teve a ver com aquela situação do post, pode ter tido. Eu fui o único jogador do meu ano que não assinou contrato profissional. Chegou o final do ano e o Benfica não me fez nenhuma proposta.

Imagino que tenha sido uma enorme desilusão.
Foi, porque pensava que pelo menos à equipa B eu ia conseguir chegar. E se vais para a equipa B, a partir dali o teu mercado fica logo muito mais aberto; lembro-me do Rochinha, que foi para a equipa B do Benfica, acabou por não jogar muito nesse ano, mas assinou por empréstimo no Bolton, que é um salto gigantesco. Eu não assinei contrato com o Benfica e o máximo que consegui arranjar foi o Académico de Viseu, da II Liga. Na altura era quase impossível jogadores daquelas idades assinarem na I Liga. Hoje há muitos jogadores do Benfica que acabam os juniores e assinam por clubes como o Famalicão, porque mesmo que não jogue na equipa principal, vai jogando na de sub-23 e depois sobe à equipa principal. Há 10 anos, isso era impensável.

O médio benfiquista chegou a ser chamado às seleções jovens

O médio benfiquista chegou a ser chamado às seleções jovens

D.R.

Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser jogador de futebol é realizável?
Dos 14 para os 15, dos 15 para os 16, numa altura em que tinha muitos torneios internacionais e era considerado muitas vezes o melhor jogador do torneio, ou o mais tecnicista, como aconteceu uma vez na Itália, sentia que isso me validava e pensava que valia a pena continuar a sonhar porque me eram dados esses prémios.

Como se projetava no futuro?
Nessa altura, o meu sonho maior era jogar na equipa principal do Benfica.

Quando vai para o Académico de Viseu já tinha deixado de estudar?
Eu terminei o 12.º ano quando estava nos juvenis do 2.º ano. Depois entrei para a faculdade, mas só estive lá por seis meses.

Entrou para qual curso?
Eu queria entrar para Desporto, mas a minha média não dava, então entrei no curso de Línguas e Artes na Faculdade de Letras. Foi só mesmo para estar a estudar alguma coisa. Entrei com o Bernardo Silva para a Faculdade de Letras. Ele entrou para Estudos Europeus. Íamos para a faculdade e para o treino juntos.

Quando começaram as primeiras saídas à noite?
Talvez com 17, 18 anos. Sempre em grupos pequenos de três, quatro, normalmente jogadores. Os que eram de fora e dormiam no centro de estágio, normalmente, ficavam a dormir na minha casa quando havia saídas. Mas nunca fui de grandes noitadas, ainda hoje é muito raro; pode acontecer após uma grande vitória, mas não é muito hábito.

Namoro mais sério, já havia?
Já. Mas sobre a minha vida pessoal, não vou falar.

Ficou a viver onde e com quem em Viseu?
Como tinha família em Viseu, acolheram-me, eu tinha o meu quarto e escusava de pagar casa.

Qual o valor do seu primeiro ordenado?
Mil euros. Eu já ganhava algum dinheiro no Benfica e como o meu pai ensinou-me sempre a poupar, praticamente todo o dinheiro que ganhava, poupava.

Só teve mesmo o interesse do Académico de Viseu?
O meu empresário falou-me em três opções: SC Braga B, V. Guimarães B e Académico de Viseu. Eu pensei, se não vou ficar no Benfica, quero ir para um grupo de homens, não quero jogar outra vez com meninos e ser visto novamente como um menino. Sempre quis estar com os mais velhos.

Foi um choque grande quando entrou no balneário?
Não foi muito grande porque comecei logo a dar-me bem com as pessoas, juntei-me ao João Coimbra que tinha feito formação no Benfica, estava quase sempre com ele. Eu chamava-lhe pai e ele dizia que eu era o filho dele. Ele tinha aquela postura de médico, sabia como estar e o que queria da vida, e eu gostava disso. Mas depois, quando comecei a ouvir falar em salários em atraso, problemas em casa, em como se vai pagar as contas após dois, três meses sem receber, é que percebi que estava noutra realidade. Eu era um miúdo e claro que 1000€ faz falta a toda a gente, mas para mim era diferente. Eu tentei perceber o que se passava e como se ia resolver, porque não tinha voz nenhuma, era miúdo, tinha 19 anos, o segundo jogador mais velho devia ter uns 24 anos e o outros eram todos mais velhos, na casa dos 30.

Em ação pelo Benfica na UEFA Youth League, de 2014

Em ação pelo Benfica na UEFA Youth League, de 2014

Harold Cunningham

Que tal foi jogar na II Liga?
Muito diferente. Eu comecei a época bem, o treinador, Alex Costa, montou a tática de uma forma em que eu jogava numa posição que não era a minha, era médio esquerdo, mas estava a correr bem. Só que, com o passar do tempo, começaram a chegar mais jogadores, e mais jogadores, e mais jogadores, e comecei a deixar de jogar. Não percebia porquê, não sabia como havia de perguntar, comecei a não ser convocado e, de repente, mudámos de treinador. Quando veio o Ricardo Chéu, um treinador mais novo, comecei a jogar outra vez, mas chegou a dizer-me: “Filipe, quando os jogos são mais agressivos, tu não és jogador para esta equipa, porque tu és de uma realidade completamente diferente.” Explicou-me que quando o jogo fosse mais aberto ou precisasse de mais criatividade punha-me a jogar, caso contrário teria de esperar pela minha oportunidade. Tive de aceitar. Até que, em janeiro, o meu empresário, que já tinha dois ou três jogadores no Cluj, leva-me lá para fazer dois ou três treinos. No final do primeiro treino gostaram tanto que disseram logo que ficava e fui para por empréstimo.

Mas ficou no Cluj logo em janeiro?
Não. Já explico. Passados cinco dias de estar na Roménia, fomos de estágio para a Croácia, fizemos 15 horas de autocarro, eu estava todo contente porque o salário já era bem maior, ia jogar na I Liga romena, a equipa estava em 2.º lugar, tínhamos três ou quatro portugueses na equipa. Ficamos 10, 12 dias na Croácia, ganhei o meu lugar como titular durante o estágio. Quando voltámos, a 15 de fevereiro mais ou menos, vou jogar o primeiro jogo a titular para o campeonato e dá-se o escândalo: o Cluj, por falta de pagamento de salários e dívidas, perde 24 pontos e não pode fazer transferências em janeiro. Ou seja, a minha transferência foi cancelada.

O que fez?
Liguei para o Ricardo Chéu, expliquei-lhe a situação e ele foi espetacular, disse para não me preocupar que voltava para o Académico, recebeu-me de braços abertos. Só que já tinham ido buscar mais dois médios para a minha posição, em Viseu. Praticamente não joguei até final do ano.

Mas no final dessa época voltou à Roménia.
Sim, o Cluj gostou tanto de mim que disse que iam ficar de olho em mim para ver se conseguiam ir buscar-me no verão. O Cluj conseguiu ganhar o processo em tribunal e recuperou os pontos e veio buscar-me.

Quando o empresário lhe falou no Cluj, aceitou de imediato?
No início estava um bocado assustado, porque o que ouvia da Roménia era que era um país de terceiro mundo. Mas ele disse que os portugueses gostavam todos de lá estar, que a cidade era espetacular, que era I Liga, um salário maior e comecei a ficar convencido. Falei com os meus pais e o meu pai disse-me: “Filipe, sempre achei que eras uma pessoa para estar lá fora, és uma pessoa do mundo.” E fui.

 

 

“O primeiro-ministro da Bulgária disse que o dono do clube tinha de ir preso. Ele fugiu, congelaram as contas e ficámos sem salário”

Filipe Nascimento começou o percurso no estrangeiro na Roménia, passou pela Bulgária e está há quase quatro anos na Polónia. Cluj, Dinamo, Elvski e Radomiak são alguns dos clubes onde o médio do Gornik Zabrze já jogou. Nesta segunda parte da entrevista, conta-nos várias histórias divertidas, fala do pior momento da carreira, a lesão no joelho, revela quais os pratos que melhor cozinha e confessa que, depois de já se ter imaginado empresário no futuro, agora pensa que daria um bom treinador

 

Spoiler

 

Quais foram as primeiras impressões quando aterrou na Roménia?
Fiquei imensamente surpreendido com tudo. Com a cidade, com as condições, fui realmente para muito melhor. A adaptação foi bem mais fácil do que eu pensava. Sou uma pessoa que facilmente se dá com outras pessoas, a cidade tinha muita gente jovem, está muito bem estruturada, tem bons parques, o estádio era espetacular, tínhamos condições muito boas de balneário, de ginásio; fiquei num T1 muito porreiro para mim e gostei imenso de estar em Cluj dois anos. Aprendi muitíssimo, acho que foi onde aprendi mais, desde que estou fora.

Gostou de trabalhar com Toni Conceição?
Sim, era um treinador que sabia bem o que queria, queria ter posse de bola, processos simples e fáceis de entender, gostava de envolver o grupo, todos lhe tinham muito respeito e gostavam dele porque tentava falar romeno, misturando com o português.

Quando chegou ao clube já lá estavam mais cinco portugueses. Sentiu alguma desconfiança da parte dos jogadores romenos?
Talvez um pouquinho, não muito, porque havia portugueses, espanhóis, italianos, croatas, a equipa toda dava-se muito bem. Claro que os romenos falavam mais entre eles. Mas isso acontece em todo o lado. O capitão, Mário Camora, é português e ainda lá está, e como ele falava português e romeno fazia uma boa ponte e conseguia controlar bem ambos os grupos.

Como foi ganhar a Taça logo no 1.º ano?
Foi incrível porque as probabilidades de ganhar eram poucas. Chegámos na sexta-feira a Bucareste, a final ia ser na terça-feira. Estávamos no hotel a ver o jogo do Dínamo de Bucareste quando um dos jogadores [Patrick Ekeng] caiu inanimado em campo. Ele ainda foi para o hospital, mas acabou por morrer e o jogo foi adiado para semana seguinte. Quando regressámos a Bucareste, o estádio estava cheio e com uma grande homenagem ao jogador que tinha falecido, como é natural. Os jogadores do Dínamo queriam ganhar a taça a todo o custo para dedicar ao jogador, mas, no final, fomos aos penáltis e ganhámos. Foi duro ver os jogadores a chorar por não terem conseguido dedicar-lhe a vitória.

Não conseguiram festejar?
Fomos festejar para o cantinho dos nossos adeptos e depois fomos para o balneário. Eu nem no balneário pude festejar a sério porque tive controlo anti-doping e quando voltei para o balneário já estavam todo vestidos.

Filipe Nascimento saiu de Portugal em 2015 para jogar no CFR Cluj, da Roménia

Filipe Nascimento saiu de Portugal em 2015 para jogar no CFR Cluj, da Roménia

MB Media

Que memórias tem da segunda época?
Começou com um treinador novo e como não me conhecia, não me punha a jogar. Foram dois meses em que quase não jogava. Não fui convocado para o jogo da Supertaça. Para os primeiros jogos do campeonato também não, até que temos um jogo para a Taça da Liga, eu não estava à espera de jogar, mas ele no final do treino do dia anterior ao jogo perguntou-me: “Estás bem?”; “Estou”; “Então, pronto, amanhã vais jogar”. Só assim.

Como lhe correu esse jogo?
Joguei os 120 minutos, fomos aos penáltis e marquei o penálti decisivo. Ele gostou muito, fartou-se de elogiar e a partir daí joguei sempre, até janeiro. Essa época corria mesmo muito bem, tinha já seis golos e cinco assistências, era reconhecido na Roménia e, em janeiro, fiz uma entorse e acabei por ficar parado um mês. Até ao final do ano voltei a ter mais uma entorse, por isso esses últimos seis meses já não correram tão bem. No final da época já não aguentava mais estar ali e queria sair.

Porquê?
Porque sentia que precisava de outro estímulo, estava ali há muito tempo, já não estava muito bem com o treinador porque quando viajámos de volta para a Roménia, após o Natal, cheguei dois dias atrasado, houve nevoeiro em Lisboa e o meu voo chegou a Barcelona, onde fazia escala, com três horas de atraso. O voo para Cluj já tinha partido, tive de ficar em Barcelona. No dia seguinte eu tinha um voo para Cluj, mas além de ter escala em Bucareste, custava €500; e, dois dias depois, havia um voo direto para Cluj que custava só €90. Como era eu que pagava os voos, falei com o diretor-desportivo e ele disse-me que eu podia ir no voo direto, que ia avisar as pessoas no clube. Em Barcelona, fiquei na casa do Raphael Guzzo, que jogava no Réus, na altura. Passados dois dias fui para Cluj.

O que aconteceu quando chegou ao clube?
No dia 7 de janeiro, o meu dia de anos, cheguei ao treino e o treinador disse-me que eu e mais três, que também tinham chegado atrasados, estávamos de castigo e íamos correr à volta do campo. Os outros tinham chegado atrasados por opção, porque quiseram ter mais dias de férias, eu não. Fui ter com o treinador ao balneário dele, para lhe contar o que se tinha passado comigo e que tinha falado com o diretor-desportivo, mas ele: “Não, não. És igual aos outros. Chegaste atrasado, estás de castigo como os outros”; “Não, não é possível.” Mostrei-lhe as fotos do nevoeiro em Lisboa, do voo cancelado e tudo, mas ele foi irredutível.

O que fez?
Fui correr à volta do campo, na neve, mas estava chateado, claro. Ainda por cima torci o pé num buraco que não vi por causa da neve e fiquei a pré-época toda parado. E pronto, por causa desses problemas entre nós, porque ele pensava que eu fingia uma lesão e eu tinha acabado de torcer um pé, não quis mais ficar lá.

Filipe conquistou a Taça da Roménia com o Cluj

Filipe conquistou a Taça da Roménia com o Cluj

D.R.

Vai do Cluj para o Dínamo de Bucareste. Como?
Foi algo meio-inesperado. No final da época, em Cluj, o clube estava em insolvência e chegou um novo dono, que pagou as dívidas e quis construir uma equipa do zero. Foram buscar 25 jogadores e queriam que todos os estrangeiros e romenos que lá estavam fossem embora. Não fui no primeiro estágio com a equipa, porque eles disseram-me para eu tentar encontrar clube. No segundo estágio, como ainda não tinha arranjado clube, chamaram-me para o estágio. Esse estágio foi na Eslovénia. O Dínamo estava instalado no hotel ao lado do nosso e a treinar nos mesmos campos. Entretanto, o treinador que estava no Cluj disse-me que a decisão não tinha sido dele, que queria ver-me treinar, para decidir se contava comigo ou não. Eu treinei, treinei bem. Há um dia em que estamos a ir para o campo e o diretor-desportivo do Dínamo de Bucareste, o Adrian Mutu, que agora é treinador, chegou-se perto de mim e diz: “Tu ficavas bem era aqui, no Dínamo.”

O que lhe respondeu?
“A sério? Faz a proposta e depois vemos isso.” Fui treinar e assim que saio do treino, quando cheguei ao quarto do hotel e pego no telemóvel, já está nas notícias que o Dínamo de Bucareste está atrás do Nascimento. Os dois clubes já tinham falado entre eles naquele espaço de duas hora e a transferência fez-se assim, muito rápido.

Como foi a entrada no Dínamo de Bucareste?
Foi boa, porque o treinador gostava muito de mim, o diretor também, a cidade era melhor, o clube é grande, foi bom.

Também foi bem recebido pelos adeptos?
Sim, eles tinham boas expetativas porque eu tinha feito boas épocas em Cluj. No primeiro jogo que fiz, entrei e passados cinco minutos fiz golo. Comecei a jogar a titular desde o início, joguei bem nas competições europeias, mas perdemos com o Athletic Bilbao. Só que, entretanto, o treinador, Cosmin Contra, que falava muito bem espanhol porque jogou em Espanha, passado dois meses foi convidado para substituir o selecionador da Roménia e, quando ele saiu, o diretor-desportivo saiu com ele.

Essas saídas tiveram consequências para si?
Pois, porque quem veio, foi o que esteve comigo no Cluj. Mas em janeiro fui logo para o Levski Sófia, porque o Dínamo começou a ter problemas financeiros, precisavam vender jogadores. O Levski pagava a minha transferência, mas no início não estavam a querer deixar-me sair porque já tinham deixado sair três, quatro jogadores e eu jogava sempre. Mas as condições na Bulgária eram melhores para mim, era um clube que lutava por títulos, e insisti.

O médio foi jogar para o Dinamo de Bucareste no início de 2017

O médio foi jogar para o Dinamo de Bucareste no início de 2017

Juan Manuel Serrano Arce

Antes de passarmos à Bulgária, fale-nos dos adeptos romenos. O que achou deles?
Em Cluj, como a cidade é universitária, o clube não tem assim tantos adeptos, mas de uma forma geral são adeptos que gostam muito do clube e que o apoiavam muito. No Dínamo, tínhamos adeptos muito apaixonados, muito fervorosos, difíceis, porque o clube não ganhava há muitos anos e havia muita pressão para ganhar.

Era o estilo de adeptos que abordavam os jogadores na rua?
Sim. Nos restaurantes, nos shoppings, éramos reconhecidos em todo o lado. Se jogas nos grandes, tens de ter cuidado por onde andas, com o que fazes. Se te virem numa discoteca, podes vir a ter problemas. A imprensa também é muito complicada, podem dizer que estás a fazer coisas que não estás.

Isso aconteceu-lhe?
Comigo, a única coisa que aconteceu foi uma vez ter saído uma notícia de que eu e o Diogo Salomão tínhamos ido jantar a um restaurante, onde ficamos até às duas da manhã e que muito provavelmente o treinador ia castigar-nos. Mas nós tínhamos três dias de folga e como fizemos isso no primeiro dia da folga o treinador não nos disse nada, se calhar nem viu. Eles gostam de tentar arranjar polémica, essa é muito a mentalidade romena.

Mais histórias para contar dessa primeira passagem na Roménia, tem?
Tenho uma engraçada. Acabou o jogo e estou ainda equipado com o fato de treino do Dínamo de Bucareste, tínhamos ganho o jogo em casa e vou apanhar um táxi para casa. Os taxistas na Roménia às vezes conseguem ser muito estranhos, em vez de porem logo o taxímetro a trabalhar, eles olham para ti e, se tu fores estrangeiro, tentam negociar o preço para ganhar mais dinheiro. Nesse dia, mandei parar o táxi, disse ao taxista a morada de casa e ele disse-me logo que eram 500 leis. Eu respondi-lhe: “Não. 500 leis não, porque até minha casa nem 50 leis são”; “Então não vou”; “Porque está a fazer isso? Eu pago-lhe 50 leis que até é um pouco mais.” Ele começou a gritar comigo e a chamar-me nomes em romeno. Eu tinha a porta do carro aberta e nem fechei a porta do carro. Ele arrancou com a porta do carro aberta, a chamar-me nomes, pára um bocadinho mais à frente e fecha a porta.

Como acabou por ir para casa?
Logo a seguir veio outro táxi, eu mandei parar, dei-lhe a morada e ele: “OK, entra.” Ele meteu o taxímetro, tudo normal, e comecei a contar-lhe o que tinha acabado de acontecer. O taxista vira-se para mim: “A sério?”. Ele arrancou a grande velocidade, foi atrás do outro a apitar, a apitar, vão picados um com o outro e ele explica-me que é o dono daquela empresa de táxis e que o outro não podia fazer aquilo, que de certeza que era adepto do Steaua de Bucareste e que foi por isso que fez aquilo. Num semáforo, ele bloqueou o carro do outro, saiu do carro, foi falar com ele, aos berros, arrancou-lhe a placa de taxista com o nome dele. Entrou no táxi e diz-me: “Pronto, este já não trabalha mais para a minha companhia” [risos].

A festejar um golo acabado de marcar pelo Dinamo

A festejar um golo acabado de marcar pelo Dinamo

D.R.

A Bulgária era muito diferente da Roménia?
Um pouco do mesmo estilo em termos de mentalidade, mas achei que o Levski era mais organizado e com melhores condições, melhor estruturado e os adeptos eram ainda mais fervorosos e mais apaixonados. Assim que chego, a primeira coisa que me dizem é: “Temos cinco dérbis com o CSKA de Sófia, esses cinco dérbis são o mais importante até ao final do ano.” Eu cheguei no mercado de janeiro.

Como eram esses dérbis?
Sempre com estádios cheios, sentia-se uma adrenalina diferente durante a semana, os adeptos vinham ter connosco aos campos de treino para nos apoiar. Adorei os adeptos. Também comecei bem, no primeiro jogo fui considerado o melhor em campo. As pessoas começaram a gostar logo de mim, joguei sempre até ao final da época, mas acabámos por perder a Taça, em penáltis.

Com quem?
Com o Slavia de Sófia, uma equipa média. Quando eles fizeram o investimento em janeiro foi com a ambição de chegarmos à final da Taça e ganhar, e aí foi o começo do fim da aventura, porque os adeptos tinham uma expectativa tão grande que os jogadores começaram a cair, o treinador começou a cair. Mudaram a direção novamente. O dono saiu porque tinha prometido ganhar e não ganhou. Foi dura essa altura. Tive uma lesão no verão no último jogo da época, demorei dois, três meses a recuperar e quando chego da lesão o treinador que me foi buscar e gostava muito de mim, na semana em que eu chego, vai embora.

Não jogou mais?
Chegou outro treinador, a equipa estava a ganhar sempre e eu como estava sem pré-época ele ia-me pondo aos poucos, mas, em janeiro, acabei por pedir para ser emprestado.

Que histórias para contar tem da Bulgária?
Na Bulgária, quando querem dizer sim, abanam a cabeça para o lado, como se estivessem a dizer não. Eu não sabia. Lembro-me de ir a um restaurante e quando pergunto se têm sumo de laranja, o senhor abana a cabeça a dizer que não, e eu OK; pergunto se tem Coca-Cola, ele volta a abanar a cabeça; “E água?”. Quando ele volta a abanar a cabeça a dizer que não, eu digo que vou embora. Só nessa altura é que começou a tentar explicar que estava a dizer sim a tudo [risos]. Passados uns dias percebi com os meus colegas que era mesmo assim porque eles estavam sempre a abanar a cabeça para o lado quando eu falava com eles [risos].

Em 2018 Filipe Nascimento jogou no Levski de Sofia

Em 2018 Filipe Nascimento jogou no Levski de Sofia

D.R.

Voltou à Roménia em 2019, desta vez para o Politécnica Iasi.
Sim, na altura tentava voltar a Portugal, tinha uma oportunidade boa para a Arábia Saudita também, mas como a Arábia Saudita não é o que é hoje eu estava um pouco assustado porque pensei que se fosse para lá ia ser esquecido. Estamos a falar há cinco, seis anos. Tinha receio de não conseguir voltar para a Europa e acabei por perder o interesse. Estive à espera de Portugal, mas também acabou por não acontecer.

Que clubes portugueses estavam interessados em si?
Estive perto do Rio Ave, mas eles acabam por ir buscar o Filipe Augusto. Depois tive mesmo que ir para a Roménia, porque não ia ficar sem jogar.

Como era o Iasi?
Um clube médio, mas ia ter muita oportunidade de jogar e aconteceu, o que foi bom para mim.

O empréstimo foi só de seis meses?
Sim, voltei ao Levski da Bulgária, mas a ideia não era ficar porque o clube tinha mudado de direção, eles não contavam comigo. Disseram-me que podia ficar mais uns dias de férias, até encontrar clube e que me deixavam sair, sem problema.

O que fez?
Tentei encontrar algum clube, as coisas acabaram por não acontecer e o Levski disse que eu tinha de voltar porque tinha contrato e os outros já estavam a treinar. Eu treinava em casa para chegar a um novo clube bem preparado. Quando cheguei ao Levski, nos primeiros dias meteram-me a treinar à parte e o treino era, literalmente, 50 voltas ao campo. Fiz as 50 voltas a um ritmo que no final o preparador-físico perguntou: “Estás morto, não?”; “Não, estou bem. Posso correr mais.” Ele ficou impressionado e disse: “Amanhã, há mais.” No dia seguinte, outra vez, 50 voltas. Fiz as 50 voltas porque sabia que não ia estar ali para sempre. Quando acabou o treino, o treinador viu-me a correr, eu não o conhecia. E o preparador físico deve-lhe ter dito que eu estava bem. Então o treinador chamou-me ao balneário.

E?
Perguntou-me qual era a minha situação. Eu disse-lhe que o clube não queria contar comigo, mas que eu estava a preparar-me, embora não tivesse nada no momento. Ainda tinha mais um ano de contrato com o Levski. Ele perguntou-me se eu queria começar a treinar com a equipa, respondi que sim. Ele era búlgaro, mas tinha jogado muitos anos na Alemanha e tinha uma mentalidade alemã, só me disse: “Se fores sério, vais ser tu a jogar. Só tens de ser sério, profissional, treinar bem, treinar forte, eu sou muito exigente.” Comecei a treinar no dia seguinte, mas era um treino mais com os suplentes porque os titulares tinham jogado.

Filipe Nascimento (à esquerda) e Ruben Pinto num jogo entre o Levski e o CSKA

Filipe Nascimento (à esquerda) e Ruben Pinto num jogo entre o Levski e o CSKA

NurPhoto

O que aconteceu depois?
No dia seguinte estamos a fazer a organização ofensiva e ele dá-me o colete dos titulares. Eu só estava a treinar há dois dias. Fiquei meio-surpreendido. Não me disse nada, só me deu indicações. No dia seguinte, treinei com os titulares. Faltavam já só dois dias para o jogo, o treinador chamou-me ao balneário, estava lá o diretor-desportivo e dizem: “Estamos a gostar muito da tua atitude, estás a treinar com os titulares porque o jogador da tua posição foi vendido e neste momento não temos ninguém. Estamos no mercado, mas até lá precisamos que jogues porque não temos mais ninguém.” Eu joguei, as coisas até nem correm muito bem porque perdemos, mas eles não conseguiram ir buscar ninguém nessa semana. No jogo seguinte, fui titular outra vez, a equipa já jogou muito bem, eu faço duas assistências e a partir daí fui sempre titular, até janeiro.

Nessa altura saiu?
Não. Mas eles foram buscar um médio para a minha posição. Comecei a fazer a pré-época mais como suplente, só que quando chegou o primeiro jogo do campeonato ele meteu-me novamente como titular. E o primeiro jogo do campeonato era o dérbi.

Como correu?
Joguei em três posições diferentes durante o jogo. Empatámos 2-2. No último lance do jogo tenho uma queda com um dos avançados do CSKA e o meu ombro saltou. Faço os exames e o doutor da equipa diz que eu tinha que ser operado. Só que estava em final de contrato e pensei, se operar agora acaba a época, são três meses de recuperação, vai bater em maio, já não jogo mais esta época e vai ser difícil depois para mim.

O que fez então?
Falei com o meu fisioterapeuta em Portugal, ele também tinha deslocado o ombro no passado e disse-me que dava para fazer tratamento conservador. Tinha de parar três, quatro semanas, mas se fizesse um bom trabalho de ginásio ia dar certo. Fui falar com o doutor, pedi-lhe para ir a Portugal fazer o tratamento porque tinha uma segunda opinião de um especialista. Ele continuou a dizer que eu devia ser operado, mas fui falar com o treinador e ele deixou-me ir para Portugal. Fiz trabalho em Portugal durante três semanas, sentia-me muito bem e assim que cheguei, no dia seguinte, quando íamos de estágio para o jogo com o Ludogorets, já estamos em covid-19 e toda a gente tem de ficar dois meses em casa. Para o campeonato.

Em 2019 Filipe (com a bola) foi emprestado ao Politehnica Iasi, da Roménia

Em 2019 Filipe (com a bola) foi emprestado ao Politehnica Iasi, da Roménia

D.R.

Foi-lhe muito difícil ficar fechado em casa esses meses?
Para mim foi bom, porque deu ao tempo ao ombro de recuperar bem, tinha levado um grande massacre e também precisava de descanso. Nós tínhamos alguma liberdade de movimentos, porque podíamos ir ao estádio, eu tinha um ginásio pequenino em casa, dava voltas à frente da minha casa, onde havia um parque verde. Arranjava sempre alguma forma de distrair-me. O problema nessa altura foi que o Primeiro-Ministro da Bulgária disse que o dono do nosso clube tinha problemas com o fisco e tinha de ser preso. O dono da equipa fugiu para o Dubai, ficou exilado, só que as contas do nosso clube ficaram congeladas e os jogadores ficaram sem salário desde janeiro até ao verão. Alguns jogadores depois começaram a quebrar o contrato.

Foi o que também fez?
Não, ainda fiquei mais um mês, mas a equipa estava completamente fragmentada e eu já só estava a jogar com miúdos e vi que davam oportunidade aos miúdos porque tinham de fazer uma equipa para o próximo ano quase do zero e não sabiam como é que ia ser por causa dos salários e do dono. Nessa altura, disse que mais valia rescindir o contrato.

Ficou muito preocupado com a sua situação?
Sim, porque não tinha salário, não sabia se ia ser pago. Os meus empresários disseram-me que o melhor era voltar a Portugal, encontrar uma equipa na I Liga, fazer dois anos e depois sair novamente. Fiquei um bocado descansado, só que nesse verão o mercado de transferências estendeu-se mais devido ao covid-19 e acontecia sempre alguma coisa, ou eram os clubes que queriam mais tempo, ou que iam esperar até final do mercado. E eu esperei mais mês, dois, três meses, acabei por esperar até janeiro e não tinha clube.

O que lhe apareceu?
A única coisa que me apareceu foi da Roménia, logo no início, e eu rejeitei porque queria voltar para Portugal e os meus empresários tinham dito que iam arranjar-me alguma coisa em Portugal. De resto, não tive nada e fiquei à espera, à espera, à espera e, em janeiro, fui quase obrigado a aceitar o Radomiak Radom, na II Liga da Polónia. Mas era um projeto através de um diretor romeno que tinha acabado de entrar no clube, conhecia-me. Basicamente, ele acreditou em mim, sabia do meu valor e achava que na II Liga da Polónia ia conseguir ajudar a subir o clube, que era o objetivo. Corri o risco.

Assinou por quanto tempo?
Meio ano e se subisse de divisão, ficava. Foi o que aconteceu.

Em 2019/20, o médio português voltou ao Levski de Sófia

Em 2019/20, o médio português voltou ao Levski de Sófia

NurPhoto

Encontrou uma Polónia muito diferente da Roménia e da Bulgária?
Sim, as pessoas são muito mais frias. O Radomiak era um clube que tinha subido da III para a II Divisão e era um clube que não tinha muitos estrangeiros. Eles não sabiam muito bem como receber e como lidar com o estrangeiro. A própria equipa era só polacos, tinha poucos estrangeiros, uns três no máximo, e faziam o grupo deles. Senti muita distância, demorou dois, três meses até começar a sentir que era parte deles.

O ambiente no balneário então era muito diferente dos outros onde esteve?
Era, porque na Roménia e na Bulgária havia muito mais interação com os estrangeiros, porque havia se calhar metade romenos ou búlgaros e metade estrangeiros. Ali, era eu e mais um ou dois, o resto, eram só polacos. Eles não sabiam a tua história, quem tu eras, de onde vinhas. Ainda por cima fui à experiência.

Nem procuravam saber?
Eles falavam pouco, o inglês deles também não era muito bom, por isso eu só falava com um ou dois que sabiam falar inglês mais ou menos e não dava para ter muita conversa. Aqui na Polónia tens de te adaptar à mentalidade deles, não vais poder esperar que eles se adaptem à tua, ou que tentem entender-te. Tens de ser tu a entender, tens de ser tu a adaptares, a quereres ser um deles, se não for assim não vais conseguir viver na Polónia, é muito difícil.

A que lhe foi mais difícil adaptar?
Foi mesmo essa mentalidade deles, perceber porque eram tão frios, tão duros ou tão rígidos. Não havia muita alegria no trabalho, parecia quase uma escola militar. Até ao verão foi muito difícil, até porque fui com aspirações para jogar, só que assim que cheguei não fui titular e a equipa foi ganhando todos os jogos e acabámos por ser campeões com quatro ou cinco pontos de avanço. Só joguei a titular se calhar duas vezes e, uma das vezes, até fui expulso.

Porquê?
Fui mal expulso. O árbitro deu-me dois amarelos em cinco minutos em duas faltas que nenhuma delas era para amarelo. Estávamos em fase para subir de divisão.

Como é o futebol na II Liga polaca?
É muito de pingue-pongue, muito agressivo. A bola passa pouco tempo no chão, é difícil de jogar ainda para mais como médio, é um futebol muito físico. Eles são todos muito grandes e eu, médio, e não muito alto, 1,75m, o treinador vinha várias vezes ter comigo dizer que gostava muito de mim, que eu era realmente bom jogador, mas que ia ser muito melhor na I Liga. “Não te preocupes, se subirmos de divisão conto contigo para o próximo ano e vais ver que vais jogar mais”, dizia-me. Eu tinha de tinha que acreditar, eu queria era que a equipa subisse de divisão para eu também poder ter contrato na I liga polaca.

De 2020/21 até 2023, Filipe (à direita) jogou no Radomiak Radom da Polónia

De 2020/21 até 2023, Filipe (à direita) jogou no Radomiak Radom da Polónia

D.R.

Quando subiu de divisão passou a ter a companhia de mais portugueses.
Sim, quando subimos, o diretor do clube que fala português e gosta muito de ver jogadores portugueses e brasileiros, teve autoridade para ir buscar os jogadores que quisesse e foi buscar portugueses e brasileiros. Depois éramos uns seis ou sete a falar português no balneário.

Foi uma época mais tranquila para si?
Foi uma época melhor porque comecei a jogar como titular desde o início e era eu que estava a acolher os portugueses que chegavam, porque eu era o primeiro. Comecei a ser importante na equipa.

A I Liga era muito diferente da II?
Era, porque havia mais espaço para jogar. Havia mais qualidade dos jogadores, os campos também eram melhores e nós éramos uma equipa novata, quem jogava contra nós, se calhar, duvidava um pouco de nós e conseguimos fazer logo muito bons resultados até janeiro, estávamos em 3.º ou 4.º lugar.

Tinha renovado por quantos anos?
Por dois anos.

Como foi a segunda época na I Liga?
Já foi diferente porque jogo sempre, as coisas estavam a correr ainda melhor, a equipa estava a ganhar, a fazer uma boa época, eu estava a ser mais importante também com golos e assistências e, em janeiro, ficava livre para poder assinar por outro clube. O clube já andava a falar comigo para renovar o contrato desde a primeira época, mas nunca tinha chegado com um contrato, com um papel. No ano anterior eu tive umas conversas com o Lech Poznan, mas não deu em nada, e eles pensaram que eu ia assinar contrato com o Radomiak, porque tinha chegado na II Liga, sem clube, e se calhar acharam que eu ia ficar lá para sempre. Mas o meu objetivo era ir para um clube melhor e tentar subir na carreira. Houve o Mundial, tivemos uma pausa de um mês e pouco e, nessa altura, começaram a aparecer muitas coisas.

De onde?
Do Lechia Gdansk, daqui da Polónia. Eles a início dizem que sim, depois dizem que não porque não queriam que eu fosse para uma equipa que estivesse a lutar pelos mesmos objetivos. Para mim, as condições eram muito melhores, mas o clube não me estava a deixar sair. Depois fomos de estágio para a Turquia, disseram que eu tinha de ir também, eu fui. No segundo dia de estágio tivemos jogo e fiz uma lesão no joelho. Na altura, até pensaram que eu estava a fingir, para forçar a saída, mas eu fiz uma rotura de ligamentos.

Filipe (à direita) subiu da II para a I Liga polaca na 1.ª época em que jogou no Radomiak

Filipe (à direita) subiu da II para a I Liga polaca na 1.ª época em que jogou no Radomiak

D.R.

O Gdansk perdeu o interesse?
O clube, mesmo assim, disse que ia fazer os possíveis para ir buscar-me no verão. A partir do momento em que me lesionei, o Radomiak já me deixava sair. Inclusive assinei os papéis de transferência, deixei dinheiro para trás para sair; isto quando eu ainda não sabia se eu tinha uma rotura de ligamentos ou não, mas já tinha feito os exames. Só depois de perceberem que eu podia estar mesmo com o joelho lesionado é que me deixaram sair. Assinei os papéis da transferência, mas pedi para ir a Portugal fazer exames e foi aí que me disseram definitivamente que tinha uma rotura de ligamentos e que tinha de ser operado. A transferência, naturalmente, foi cancelada. Só que eu ainda tinha contrato com o Radomiak até final do verão, mas, a partir desse dia, o Radomiak nunca mais me disse nada.

Foi operado onde e quem pagou a cirurgia?
Deixaram-me ser operado em Portugal e fazer os tratamentos com o António Gaspar, mas não quiseram saber mais nada. Não sabiam qual era a data da operação, não perguntaram como correu, abandonaram-me. Não recebi uma mensagem do departamento médico, nem do presidente. Iam pagando quando queriam. A única coisa com que não tive de preocupar-me foi com o pagamento da fisioterapia, porque o clube pagava diretamente. Agora, a operação paguei do meu bolso e, até hoje, o clube ainda não me devolveu nada. Uma operação a um joelho, de um jogador que era deles. Para mim é algo inaceitável e muito triste.

Acabou depois por não ir para o Gdansk, mas vai para o Gornik Zabrze. Como?
Estou a recuperar e o Lechia Gdansk acaba por descer de divisão. O tempo passa e o Radomiak não diz mais nada, falei com o meu agente e pedi-lhe para ver quais as opções na Polónia. Assim que falou com o Gornik, mostraram logo interesse em mim.

Queria continuar na Polónia porquê?
Porque era aqui que as pessoas me conheciam. Achei que fazia sentido após uma lesão daquela importância ir para um sítio em que as pessoas já me conhecem e podia ter algum benefício da dúvida. Se fosse para um mercado e um país completamente diferente, não sabiam que jogador tinha acabado de chegar, ainda por cima vindo de uma lesão grave. Eu também sabia que o departamento médico do Gornik era provavelmente o melhor da Polónia e as condições do clube são inacreditáveis, mesmo muito boas para o contexto do país. E, depois, temos uma lenda do futebol, o Podolski, na equipa. Eu sabia da história da grandeza do clube, não podia estar mais grato por um clube desta dimensão me querer após aquela lesão. Eles sabiam quem compraram, sabiam que iam ter de esperar e mesmo assim quiseram-me. Assinei por dois anos.

Já recomeçou a jogar?
Sim, a recuperação correu bem, sinto-me muito bem e estou feliz. Não tenho jogado tanto como gostaria, mas tenho de estar grato ainda assim porque a equipa vai ganhando, estamos a fazer uma época muito boa.

Sentiu alguns efeitos da guerra Rússia-Ucrânia, aí na Polónia?
Não diretamente. Se calhar, os preços podem ter aumentado um pouco, mas a única coisa que sinto é que vejo mais ucranianos. O país ajudou mesmo muito os ucranianos e continua a ajudar.

Alguma vez sentiu algum tipo de xenofobia no estrangeiro?
Não.

Filipe abraçado aos dois irmãos, com o sobrinho e o pai ao lado

Filipe abraçado aos dois irmãos, com o sobrinho e o pai ao lado

D.R.

Histórias para contar da Polónia, tem?
Não são bem histórias, mas constatações de fatos curiosos. Eles seguem as regras à risca. Se, por exemplo, estiverem dez graus negativos e a nevar às três da manhã, mas o semáforo para os peões estiver vermelho, eles não atravessam a passadeira, mesmo que não esteja ninguém na rua. Ficam à espera que o semáforo para os peões fique verde para passar. Já aconteceu eu passar com o vermelho para os peões e, quando cheguei ao outro lado, a pessoa que estava à espera do sinal verde virou-se para mim: “Não viste que estava vermelho?”. Eles não passam o limite de velocidade na estrada nunca também, são mesmo muito rígidos com as regras. Mas tive uma situação caricata também quando cheguei.

Força.
Nos primeiros três meses, nós, os estrangeiros, ficámos num hotel e, como ainda era altura de covid-19, estava tudo fechado. Como já estava farto de comer a mesma comida no hotel, por vezes ligava para um restaurante para pedir comida e, assim que começava a falar, ouviam um bocadinho e muitas vezes acabavam por desligar o telefone. Houve vezes em que bastava só dizer “olá” em inglês e eles automaticamente desligavam. Não conseguia perceber porquê, até que um dia, outro colega polaco veio viver para o hotel e vi que ele conseguia encomendar comida. Perguntei-lhe como conseguia e ele disse que ligava, falava e encomendava. Eu e os outros estrangeiros pedimos para ele ligar para um dos restaurantes que costumava desligar sempre. Ele ligou e fez a encomenda normalmente. Passado cinco minutos liguei para o mesmo restaurante, comecei a falar inglês e eles cortaram novamente a chamada. Foi só aí que percebi que como não percebiam a língua, preferiam não atender do que estar com stresses [risos].

Tem alguma meta definida para deixar de jogar?
Não. Não faço a mínima ideia. Quero jogar até quando me sinta feliz e sinta que o corpo me dá aquilo que eu quero.

Já pensou no que quer fazer depois de pendurar as chuteiras?
Todos os anos penso nisso e quase todos os anos mudo de ideias. Já pensei ser empresário de jogadores, não só para fazer a transferência, mas também criar uma rede em que o jogador teria acesso à fisioterapia, um psicólogo, nutricionista, ginásio... Porque sinto que os empresários estão muito virados para o business, com exceção talvez daqueles que passaram de jogador para agente. Estes já entendem um pouco melhor o porquê do não ou do sim, porque preciso mais disto e mais daquilo. Os empresários que foram jogadores já começam a mudar a maneira de lidar, enquanto no início da minha carreira a conversa era o valor monetário e ponto final. Era difícil falar com o meu empresário sobre situações da vida. Os empresários também não têm muita paciência para isso, mas eu acho que ia gostar dessa vertente, de pegar num jogador, sentir que há ali valor e acompanhá-lo, ajudá-lo, sentir o prazer de ajudar alguém a atingir o objetivo.

Nesta época de 2023/24, o médio assinou pelo Gornik Zabrze, da Polónia

Nesta época de 2023/24, o médio assinou pelo Gornik Zabrze, da Polónia

SOPA Images

Qual era o seu maior sonho?
O meu maior sonho seria jogar no Benfica. Mas os anos vão passando e vão surgindo outros sonhos. Há ligas que eu gostaria de experimentar.

Quais?
Hoje em dia gostava de jogar na MLS, dos EUA, por exemplo, ou experimentar a Ásia. Já não estou tão virado para as primeiras cinco ligas europeias. Gostava de uma experiência diferente, que me enriquecesse e onde conseguisse criar outros contactos.

Além de ser empresário, o que mais pensou fazer?
Com o passar do tempo, às vezes também penso que se calhar conseguiria ser um bom treinador porque acredito que tenho uma boa maneira de pensar o futebol. Gosto de um futebol positivo, com bola. Gosto de falar com pessoas, gosto de ensinar, gosto de ajudar e acho que isso podia ser bom. Gostaria de fazer alguma coisa relacionada com o futebol ou mais relacionada com a parte psicológica. Mas ainda não sei bem.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Levski.

Já investiu?
Sim, em imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Comprar o meu carro, um Porsche.

Acredita em Deus?
Sim.

É praticante?
Sim. Não vou à igreja todos os domingos e gosto mais de ir quando a igreja está mais vazia, porque sinto que Deus me está a ouvir melhor e sinto mais paz.

Superstições, tem ou teve?
Cada vez menos. Acho que pode bloquear um pouco a parte mental. Antes tinha de ser o último a sair do autocarro, coisas desse género. Hoje em dia entro com o pé direito dentro de campo, mas mais por uma questão de concentração.

Tem algum hóbi?
Neste momento gosto de podcasts, mas mais de basquete e NBA; estou a construir Legos. Vejo muito YouTube. Antes lia mais do que agora.

Em ação pelo Gornik Zabre

Em ação pelo Gornik Zabre

D.R.

Segue ou pratica outra modalidade além do futebol?
Jogo ténis ou papel, só por prazer.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
A lesão no joelho. E a final que perdi na Bulgária, que podia ter mudado a minha história na Bulgária e na carreira. As consequências foram muito más para a equipa, para o clube e para mim.

E o maior arrependimento?
As vezes em que não pensei tanto em mim. Acho que devia ter pensado mais em mim em certos momentos da carreira e não o fiz para não criar um problema no grupo ou pensei sempre nos outros, em vez de colocar-me em primeiro.

O momento mais feliz da carreira?
O meu título de juniores. Mas não tenho um único momento que diga que foi o mais feliz. Se calhar é o sentir nas últimas épocas que todo o trabalho que tenho vindo a fazer está a dar resultados e que tudo está a fazer sentido.

Se pudesse escolher de todos os clubes do mundo, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Benfica.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Daniel Podence, Diogo Salomão, Luís Machado e Bernardo Silva.

Teve ou tem alcunha?
Não.

Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Não gosto do VAR. Sou contra. Tira muita emoção do jogo. Perdemos muito tempo com o VAR e neste momento estamos a querer depositar tudo no VAR e penso que devíamos confiar mais no árbitro. Nós, jogadores, erramos e os árbitros também vão ter de errar. OK que um resultado pode ser ditado por um erro do árbitro, mas não acredito que um campeonato fique.

Qual a pessoa que mais influenciou a sua carreira?
Os meus pais. Talvez mais o meu pai, por tudo aquilo que ele me deixou ser, me incentivou a ser, e me ajudou. Esteve presente em todos os treinos e jogos que fiz até ser profissional.

Com os colegas de equipa Daniel Pacheco e Lukasz Podolski

Com os colegas de equipa Daniel Pacheco e Lukasz Podolski

D.R.

O momento mais difícil na sua vida?
Não me lembro de um momento super, super difícil. Mas tive momentos difíceis porque houve uma altura em que chorava no aeroporto assim que passava o bilhete para voltar a ir para o estrangeiro, quando tudo que eu queria era ficar um pouco mais em Portugal. Às vezes custava-me ir para o estrangeiro outra vez sozinho, quando estava tão bem em casa, com a minha família, com os meus amigos.

Tem algum talento escondido?
Eu acho cozinho bem. Faço muito bem uma jardineira, por exemplo, e uma massa que toda a gente gosta.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Não tenho resposta para essa porque nunca pensei em mais nada.

Qual o melhor conselho que pode deixar a um jovem que está a iniciar a sua carreira profissional?
Em primeiro lugar, acreditar nele próprio. Em segundo, saber que vai ter de sacrificar muita coisa se realmente quer o que ambiciona. Vai ter de sacrificar muito tempo com amigos, com a família, noitadas, pizzas e hambúrgueres. E depois vão ter que ter uma disciplina, um acreditar e uma vontade que tem de ser de elite, não chega fazer só o básico, porque isso todos fazem.

O jogador da sua posição, no ativo, que mais admira?
Estou muito impressionado com o João Neves, tudo em conta a idade que tem e como consegue influenciar o jogo. Mas, ainda lhe falta ali um pouco mais de criatividade. Por isso, o melhor, é o Bernardo Silva. Eu olho para o Bernardo e vejo pouca gente que consiga fazer algo melhor que ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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16 anos e ganhar 10k/mês...

(em 2015)

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Citação de Aiden, há 49 minutos:

 

Spoiler

 

Lembram-se de Mario Rondón? O avançado apaixonado (e com pós-graduação) por ‘big data’ voltou a Portugal para “fazer mais uns golos”

A bicicleta de Lito Vidigal, as incompreensíveis palestras de Manuel Machado e o talento para o beisebol. Mario Rondón, o internacional venezuelano que deu nas vistas, na I Liga, no Paços de Ferreira e no Nacional da Madeira, recorda um percurso que quase terminou quando teve uma lesão que o fez deixar de sentir o pé. Rondón regressou, no verão, a Portugal para reforçar a Académica, da Liga 3

De costas para a baliza, matou a bola no peito. Não tentando lutar contra a inércia do corpo, aproveitou o desequilíbrio para armar o pontapé de bicicleta e marcar.

Podia ser uma partida pregada pelos olhos ainda pouco abertos para verem com clareza um jogo da Liga 3, entre Académica e Lusitânia dos Açores, disputado a uma segunda-feira, às 11h, mas não. De facto, aquele faro de golo foi patenteado por um velho conhecido. Pertence ao venezuelano que mais vezes faturou na Primeira Liga, quando estava no Paços de Ferreira e no Nacional.

Mario Rondón já soprou as velas por 38 vezes. Prevê fazê-lo como jogador de futebol em pelo menos mais duas ocasiões. Depois, terminará a carreira aos 40 anos, tal como deseja. Quase uma década depois de ter deixado o Nacional para iniciar um périplo com passagens por China, Roménia e Polónia, o avançado regressou a Portugal. Em Coimbra, além de representar a equipa principal da Briosa, é treinador-adjunto dos sub-17, indício daquilo que assumiu à Tribuna Expresso querer para o seu futuro. Em nome da nostalgia, conversámos com este achado que se julgava perdido.

Tiveste o teu momento alto nos tempos de Paços de Ferreira e Nacional. O que é que o Mario Rondón que regressou agora a Portugal ainda tem daquele Mario Rondón que deixou o país há nove anos?
Continuo com vontade de jogar e de fazer o meu melhor. Voltei por causa dos meus filhos, que são gémeos. Queria que eles me vissem a jogar. A minha família ficou em Portugal e ia poucas vezes ao estrangeiro. Os meus filhos já estavam cá na escola e era difícil. Eu jogava na China quando eles nasceram, mas estive um ano e meio lesionado e aproveitei para vir para cá. Foi um período amargo, mas feliz porque estava com eles.

Pelo contrário, o que há de diferente em ti?
Tenho mais calma com os meus colegas e com o contexto. Também sou mais experiente na forma de ler o jogo. Ajudo mais os jovens.

Por que é que sentiste necessidade de mostrar aos teus filhos de oito anos o que fizeste durante toda a vida?
Eles têm colegas que lhes perguntam o que é que faz o pai. Os meus filhos diziam que tinham um pai jogador, mas, como eu estava no estrangeiro, era difícil acompanhar os meus jogos. Ainda me sinto útil para jogar e por isso quis voltar.

Que contexto encontraste na Académica?
É um contexto diferente. Estava habituado à Primeira Liga. Mesmo assim, a Académica tem muito boas condições e um estádio enorme que merece estar na Primeira Liga. Estou cá para ajudar e para fazer com que os jovens melhorem.

Chegaste a defrontar a Académica na Primeira Liga…
Sim, o que me chamou também foi isso. Defrontei muitas vezes a Académica e lembro-me de ser um campo muito difícil de ganhar. Lembro-me também da massa associativa. Agora, quero retribuir a confiança que me estão a dar.

Vou arriscar e dizer que, aos 38 anos, estás mais perto do final da carreira do que do início. A que outros aspetos do jogo dás mais valor agora?
Desde que cheguei à Primeira Liga, no Paços de Ferreira, sempre tentei absorver o que faziam os melhores jogadores. Tinha atenção ao treino invisível. O treinador não vê a tua alimentação, a prevenção de lesões... é preciso ter atenção a tudo isso. A parte mental também, de ser mais resiliente, confiante e positivo perante as adversidades. Espero jogar até aos 40 anos. Por isso, mantenho a forma, a nutrição e o sono.

Jogar até aos 40 anos foi a meta que estabeleceste?
Sim, se o corpo me deixar. Temos que ir mês a mês.

Que outras áreas é que te interessam mais no futebol, além de jogar?
Tratei sempre de me informar. Sou um curioso. Gosto muito de futebol e sou um apaixonado pelo treino. Gosto muito da parte estatística do futebol.

Achas que isso vem da posição que ocupas? Muitas vezes se diz que os avançados vivem de números.
Os avançados têm a estatística mais presente no seu jogo. Mesmo quando cheguei à Primeira Liga já tinha curiosidade sobre os dados que os treinadores nos davam. Ia ver os lances ganhos, perdidos e essas coisas todas. Aí começou a crescer uma paixão. No entanto, por vezes, as estatísticas não estão de acordo com o que tu vês. A tua experiência pode ver uma coisa que os dados não veem. Nas decisões que se tomam, tem que existir um equilíbrio entre o olho e os dados.

Tens alguma perspetiva em relação ao uso que queres fazer desse gosto por estatísticas no futuro?
Já tirei uma pós-graduação em Big Data. O trabalho final, que fiz em conjunto com três colegas, foi um estudo sobre bolas paradas, comparando o campeonato português com o inglês. A ideia foi perceber se, por exemplo, os cantos eram mais perigosos quando batidos de forma aberta ou fechada. Gostei muito de o fazer.

mw-320

D.R.

Como descreverias a tua infância na Venezuela?
Foi muito muito boa. Tive uma educação espetacular. No começo, o futebol era a segunda opção. Eu jogava beisebol e jogava muito bem. Aos 13, 14 anos, os jogos começaram a ser no mesmo dia e à mesma hora. Aí, escolhi o futebol, mas também tinha boas condições para jogar beisebol, que é o desporto que os miúdos mais jogam e no qual é possível ser profissional.

Portugal conheceu-te mais por aquilo que fizeste no Paços de Ferreira e no Nacional, mas chegaste para jogar no Pontassolense, da Segunda Divisão B. O que estava a pensar aquele jovem durante a viagem de avião da Venezuela para a Madeira?
Tinha acabado o 12.º ano na Venezuela. A minha mãe, que é portuguesa, veio resolver uma coisa na Madeira. Eu vim com ela e tinha na cabeça que ia ser jogador. Antes de ir para os juniores do Pontassolense, fui treinar aos juniores do Marítimo. Não fiquei por ainda não ter passaporte português. Nunca pensei que ia chegar à Primeira Liga. Estou orgulhoso pela carreira que tenho e ainda espero fazer mais uns golos.

Quais são os melhores momentos que passaste no Pontassolense?
Tive treinadores muito bons. Cada um deles me fez evoluir e ver o futebol de outra forma. Ter apanhado o Lito Vidigal no Pontassolense abriu-me outras portas. Quase subíamos de divisão. Estávamos a lutar com o Freamunde na altura.

O Lito Vidigal é conhecido por ter uma visão muito pragmática. Adaptaste-te bem?
Eu achava curioso porque nós tínhamos um sintético e a maioria das equipas não gostava de jogar lá em Ponta do Sol. De manhã, o Lito estava com a sua bicicleta a pôr o sintético direito, a passar uma máquina para pôr as gomas todas direitinhas.

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Foi fácil fazeres a transição para o Paços de Ferreira?
Tive pessoas que me ajudaram muito quando cheguei lá. Fizeram-me ver que estava na Primeira Liga, mas que aquilo não era o fim. No começo, pensei que tinha conseguido o meu objetivo e que era só manter-me por lá. Essas pessoas fizeram-me ver que existiam outros clubes, o FC Porto, o Benfica e que, com trabalho, podia chegar lá.

Por que é que as coisas não correram bem logo quando chegaste ao Paços?
Era um miúdo e ainda não tinha cabeça. Os clubes agora preparam melhor os jovens. Na altura, ainda saía à noite, não descansava bem, não preparava o meu corpo para o treino, a alimentação não era adequada. Notei logo que aquilo era um ritmo diferente. Quando cheguei ao Paços de Ferreira só tinha um lugar no balneário, que era entre o Filipe Anunciação, o Pedrinha e o Paulo Sousa. Tinha ali a experiência toda. Davam-me nas orelhas no bom sentido. Além disso, tinha que lavar as chuteiras deles.

Foste emprestado ao Beira-Mar do Leonardo Jardim, que também nasceu na Venezuela. Como foi essa experiência?
Foi espetacular. Dava para ver a qualidade que ele tinha pela forma como geria o grupo. A relação com os jogadores era muito boa, daí termos sido campeões da II Liga e subido de divisão. O Leonardo Jardim já me conhecia por ter treinado o Camacha e conhecia-me da Madeira. Foi um treinador que me mostrou o caminho.

Depois regressaste ao Paços de Ferreira e conseguiste explodir com o Rui Vitória. Foi uma pessoa importante para os 13 golos que marcaste na época 2010/11?
Nessa altura, conheci a minha esposa e concentrei-me mais no futebol. O Rui Vitória era um treinador que estava a vir de baixo, tinha uma boa relação com os jogadores mais jovens e foi muito bom para mim. Encaixei-me bem no que ele pedia.

Começas a ir à seleção da Venezuela nessa altura.
Estava a fazer boas exibições no Paços. Em 2011, há a Copa América e fiquei um bocado magoado por não ter sido convocado pelo César Farías. A minha carreira podia ter atingido outro patamar. Nessa Copa América, a Venezuela ficou em quarto lugar, fez uma boa prestação. Foi um desgosto não ter ido.

Em 2015, também não te convocaram para a Copa América. Foste internacional 14 vezes pela Venezuela, mas esse foi um objetivo que não cumpriste.
Sinto muita pena de não ter ido a um grande torneio. Pela carreira que tive na seleção, merecia. Mas são coisas que acontecem.

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Atsushi Tomura

Mudaste-te para o Nacional numa altura em que estás a corresponder no Paços de Ferreira. Porquê?
O Nacional era um clube que acompanhava e já tinha relação com o presidente Rui Alves. Ele tinha estado interessado em mim quando eu estava no Pontassolense, só que ele ainda não estava convencido que eu ia ser um bom jogador. Depois, tornei-me numa referência no Nacional.

Tiveste muito tempo com o Manuel Machado lá…
Adaptei-me bem ao treinador. Ele era muito profissional e tinha um caráter muito vincado. Ajudou-me muito. Todas as palestras dele eram especiais. Quando terminavam, estava sempre com vontade de rir, porque os jogadores brasileiros chegavam cá e muitas vezes não percebiam a palestra. Eu só me ria da cara deles. Aquilo para eles era chinês. Ele usava palavras muito caras e os brasileiros não percebiam metade do que ele dizia.

Marcas um hat-trick contra o Arouca pouco antes de ires para o Shijiazhuang Yongchang. A mudança para a China esteve relacionado com essa prestação individual?
Já tinha tido uma proposta do Bétis, de Sevilha. Com a proposta em mãos, fui falar com o Rui Alves. Disse-lhe: “Presidente, tenho aqui uma proposta do Bétis e gostava de ir.” Era a Liga Espanhola, uma boa oportunidade para mim e para ele. Na altura, ainda não tinha comprado casa e disse ao presidente que gostava muito de comprar uma em Portugal para a minha família. O Rui Alves perguntou-me quantos anos tinha. Disse-lhe que tinha 26. “Comprei a minha primeira casa com 30, por isso, tens calma”, respondeu-me o presidente. Não me deixou sair. Era uma oportunidade de outro nível em comparação com a da China. Só em termos financeiros é que não era tão boa. Às vezes, os jogadores são reféns dos clubes e não podemos aceitar só porque gostamos.

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O choque cultural que tiveste quando foste para a China foi maior do que quando vieste para Portugal?
Foi. Lá não percebia nada. Em Portugal, entendia algumas palavras. O bom é que na China tinha tradutor e o treinador era búlgaro, logo falava inglês.

Andavas com ele para todo o lado?
Eu gosto de estar sozinho, por isso, só o usava no contexto do clube. Ainda assim, às vezes, quando ia jantar, tinha que ir com ele, porque era muito difícil pedir as coisas.

Pagavas-lhe o jantar?
Pagava, pagava. Tinha que ser [risos]. Lembro-me também que, no começo, era eu que lavava e secava a roupa de treino no quarto de hotel.

Ou seja, a China estava a fazer um grande investimento em jogadores e treinadores, mas a estrutura não correspondia.
A minha equipa tinha subido de divisão e ainda era muito verde no principal escalão. Depois, o treinador organizou as coisas.

Mas tiveste a tal lesão.
Em 2016, levei uma pancada no gémeo que me causou um hematoma que estava a pressionar o nervo peronial. Não tinha sensibilidade nenhuma no pé. Tive médicos que disseram que não ia jogar mais. Perdi mesmo informação do pé, tinha o pé dormente. Mentalmente, foi difícil. Umas semanas depois da lesão voltei para Portugal e encontrei bons profissionais. Um especialista abriu-me o gémeo e limpou o entorno do nervo. Ali, o nervo começou a regenerar e ganhei informação de novo no pé. Tinha perdido os músculos todos do pé e da perna. O clube apoiou-me enquanto tive contrato. Depois, não me disseram mais nada.

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MB Media

Dos países em que jogaste, sem ser Portugal, onde é que gostaste mais de estar?
Gostei muito da Roménia, em especial quando estive no Cluj. Era outro contexto. O clube estava na Liga Europa, lutava para entrar na Liga dos Campeões e as condições do clube eram melhores. Foi o clube onde gostei mais de estar, o mais profissional e competente. Os romenos são um povo difícil, são muito desconfiados. Só dão quando recebem alguma coisa. Como os ajudava a terem resultados, eles tratavam-me bem. Comecei a falar bem romeno e encaixei-me. Ouvia muita música romena, que tem um ritmo muito parecido ao latino, e aprendi a língua assim.

A experiência no Radomiak Radommais, da Polónia, foi mais fugaz. Não correu como esperavas?
O melhor dia na Polónia é o dia do jogo. Os estádios têm boas condições e estão sempre cheios. Mas o resto dos dias não são tão bons. Os jogadores polacos são um bocado frios. Se não falares polaco, eles não te tratam assim tão bem e não se dão muito a conhecer. Mesmo se falares para eles em inglês, eles não te querem ajudar. As cidades são muito boas, é mais evoluído do que a Roménia. O bom é que tínhamos um grupo de portugueses excelente: o Gonçalo Silva, o Luís Machado, o Filipe Nascimento. Lembro-me de irmos os quatro às 7h para o ginásio. O treino era às 11h, mas assim ficávamos com a tarde livre para irmos ao café e estarmos mais à vontade.

E episódios engraçados?
Das histórias mais caricatas que tive: um colega na Polónia estava com dores no joelho e pediu ao médico da equipa um anti-inflamatório em comprimidos. Como não tinha, o médico deu-lhe em supositórios.

Que momento da tua carreira é que gostavas que ninguém esquecesse?
Que ninguém esquecesse o lutador que fui. Mesmo contra muitas pessoas, atingi sempre coisas que diziam que eu não ia conseguir.

 

 

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Spoiler

“Aos 16 anos tive proposta do Benfica e os meus pais não me deixaram ir. Perdoei-os, mas há alguma mágoa, gostava de saber como teria sido”

Gonçalo Gregório, de 29 anos, é filho de jogador/treinador e desde cedo percebeu o que queria fazer da vida: marcar golos. O avançado conta como tudo começou, no Estoril Praia, de onde rapidamente saiu para o Belenenses. Estreou-se como sénior no GS Loures, após um ano no V. Setúbal, e jogou no Casa Pia AC, no Leixões, Farense e Vilafranquense, antes de regressar ao clube de Pina Manique, onde foi treinado pelo então estreante e “muito emotivo” Rúben Amorim, que deixou um “balneário a chorar”, como conta na parte II deste Casa às Costas

Nasceu em Lisboa. É filho de um ex-jogador de futebol [Rui Gregório], certo?
Quando nasci ele ainda era jogador, mas depois tornou-se treinador.

E a sua mãe, o que fazia profissionalmente?
Estava desempregada, cuidava de nós, mas mais tarde esteve ligada a empresas de revistas de culinária e coisas do género.

Tem quantos irmãos?
Tenho um irmão mais velho um ano, o Tomás Gregório.

Em que zona de Lisboa cresceu?
Na zona de Carcavelos-Parede.

Foi uma criança bem comportada ou deu muitas dores de cabeça?
Era muito reguila. Destruía muitas peças de mobília em casa com a bola. Chateava muito o meu irmão também. Uma vez, numa festa de anos, havia dez bolos em cima da mesa e provei uns sete ou oito, mas à medida que não gostava, voltava a meter nos pratos [risos]. Também me recordo que uma vez a minha mãe estava a chegar a casa e para assustá-la peguei numa esfregona, que estava molhada, e sem querer meti-lhe a esfregona no cabelo, sendo que ela tinha acabado de vir do cabeleireiro. Passou-se completamente [risos].

Recorda-se de ver o seu pai a jogar?
Mais ou menos. Lembro-me de alguma coisa, mas não muito bem. Cheguei a ver alguns vídeos em VHS.

Sempre quis ser futebolista?
Sim.

Em casa torcia-se porque clube?
Sempre pelo Sporting.

Quem eram os seus ídolos?
Nunca tive ídolos. Tinha jogadores de que gostava um pouco mais, mas nunca tive aquele jogador que eu queria ser ou aquela imagem de um jogador forte. Gostava muito do Roberto Carlos, que nem sequer era da minha posição e gostava do Ibrahimović.

E da escola, gostava?
Até gostava. Gostava da parte de ir jogar à bola e de falar com os meus amigos. Havia alguns temas que me interessavam, mas não gostava de passar tempo a estudar, preferia jogar à bola. Tinha muita dificuldade de concentração, só pensava em jogar futebol.

Gonçalo Gregório em criança

Gonçalo Gregório em criança

 

D.R.

Como e quando foi para um clube pela primeira vez?
O meu pai sempre me disse que queria que eu fosse feliz, fosse a jogar à bola ou a fazer outra coisa. Mas indiretamente ele meteu-me a paixão pelo futebol, tanto que eu jogava mais do que o meu irmão. Ele percebeu isso e comecei a jogar no Estoril Praia aos sete anos. Estive lá até aos infantis A, altura em que fui para o Belenenses. Julgo que teria uns 11 anos.

Por que é que foi para o Belenenses?
Porque já tinham demonstrado interesse por mim. Senti que era um passo em frente na minha pequeníssima carreira e que era tornar um passatempo numa coisa um pouco mais séria. Era um clube pelo qual tinha carinho porque o meu pai jogou lá muito tempo, conhecia muita gente.

O seu pai foi central, mas o Gonçalo tornou-se avançado. Nunca lhe passou pela cabeça ocupar a mesma posição do seu pai?
Não, desde pequenino que só queria era chutar e marcar golos [risos].

O Belenenses era um mundo muito diferente do Estoril Praia?
Não, no Estoril Praia tínhamos uma geração muito boa, com bons jogadores. Tanto que fomos campeões das escolinhas, ganhámos ao Sporting e ao Benfica. Talvez no Belenenses tivesse melhores condições a nível de campos, mais facilidade nos horários, não treinávamos em espaços tão reduzidos.

Esteve seis anos e meio no Belenenses. Quais os momentos e as pessoas que mais o marcaram?
Lembro-me de, com 15/16 anos, termos ido à segunda ou terceira fase do campeonato, para a qual normalmente só passavam as equipas maiores como o Sporting e o Benfica. Jogámos com o FC Porto, com o Vitória SC, com o SC Braga. Também me lembro de um jogo contra o Sporting, na fase regular, em que marquei dois golos. Um dos golos foi de livre. E recordo o momento em que joguei com o meu irmão nos juniores e fomos treinados pelo nosso pai. Estávamos os três juntos e isso foi marcante.

O facto de serem filhos do treinador nunca gerou nenhum tipo de mal-estar na equipa ou criou uma pressão extra em si e no seu irmão?
Foi complicado de gerir para um rapaz de 17/18 anos, porque estava sempre no subconsciente que se jogava era porque ele era meu pai, mas se não jogava, ficava chateado porque ele era meu pai e pensava, mas ele não gosta de mim, não me mete a jogar? Era difícil. Outra pessoa marcante no Belenenses foi o professor Castelo, porque quando estava nos juvenis ele levou-me aos juniores, por eu estar a jogar muito bem. Tinha uns 30 golos nessa época. Tenho também muitos colegas que ainda hoje são meus amigos. O Tomás Silva é dos meus melhores amigos, falamos praticamente todos os dias; o Nuno Tomás, o Francisco, o Duarte, tenho vários jogadores que me marcaram nessa altura. Dos treinadores, o Bruno Pinheiro foi meu treinador por dois anos e também foi uma boa passagem com ele.

Gonçalo com a mãe

Gonçalo com a mãe

 

D.R.

Quando começam as primeiras saídas à noite e os primeiros namoros mais sérios?
Saídas à noite não gosto. Na minha vida saí umas três ou quatro vezes. Não é mesmo uma coisa que me atraia. A primeira namorada foi aos 13/14 anos. Mas só durou um mês.

Entretanto, acabou por ir para o V. Setúbal, emprestado pelo Belenenses, com 18 anos. Foi para a equipa principal ou para os juniores?
Para os juniores, falaram comigo para assinar contrato profissional, mas fui para os juniores. Fiz uma época ótima, marquei 25 golos, acabei a minha formação, o V. Setúbal queria assinar comigo, mas eu tinha de pedir a carta de direitos de formação ao Belenenses. O meu pai pediu-lhes a carta e eles disseram que não davam. Ainda eram alguns milhares de euros e na altura nenhum clube pagava, não havia uma aposta tão grande nos jovens. O Belenenses disse que não dava a carta porque queria assinar contrato profissional comigo e acabei por assinar pelo Belenenses.

Qual foi o valor do seu primeiro ordenado?
€700.

Houve algo que quisesse comprar com esse primeiro dinheiro?
Quis comprar um carro com o meu irmão porque tinha acabado de tirar a carta. Queria ter essa independência de ir de carro para os treinos. Comprámos um carro a meias. Um Renault Mégane.

Nunca houve confusão entre vocês devido à partilha do carro?
Não, porque o meu irmão foi estudar para a universidade, ia de transportes e eu usava mais o carro; no fim de semana geríamos bem, sempre tivemos uma relação muito boa. E havia o carro dos meus pais, caso precisássemos mesmo os dois.

Quando esteve a jogar em Setúbal, ia e vinha diariamente?
Não. Fui viver para casa dos meus avós, que moram em Setúbal. Custou-me sair de casa, era a primeira vez, mas facilitou o facto de estar com os meus avós paternos, com quem me dou bem.

Ainda estudava?
Não. Completei o 12.º ano, fiz os exames, mas não entrei logo na faculdade. Passado um ano, entrei em Desporto e congelei a matrícula porque apesar de querer estudar, não conseguia devido aos horários.

Quais são as maiores recordações que tem de Setúbal?
Tirei lá a minha carta de condução, é uma boa cidade, tem bom peixe, praia, era uma vida tranquila. Do clube e dos meus colegas também gostei, mas apanhei uma fase em que não tínhamos muito boas condições de treino.

O avançado ainda criança, a brincar

O avançado ainda criança, a brincar

 

D.R.

No seu primeiro ano como sénior, em 2014, foi emprestado pelo Belenenses ao GS Loures. Tinha esperança de ficar no Belenenses ou sabia que era praticamente impossível?
Esperança eu tinha, mas senti que o Belenenses quis apenas roubar um jogador a um concorrente direto como o Setúbal, com medo de eu dar cartas num futuro próximo e os sócios depois reclamarem, uma vez que tinha sido formado no clube. Tive épocas muito boas nos dois primeiros anos de sénior, com 19 e 20 anos. Em duas épocas marquei mais de vinte golos. Numa delas fiz 14 golos. Um ponta de lança com 20 anos marcar esse número de golos no CNS é muito bom. Se agora um ponta de lança marcar menos de metade disso na Liga 3 vai para a I Liga, já tenho visto casos assim. Depois de fazer essa época eles não me chamaram sequer para fazer a pré-época. Portanto, senti que não ia ser aposta. Mas não guardo rancor nenhum, são opções.

Quando chegou ao GS Loures entrou numa equipa sénior, com jogadores experientes, bem mais velhos. Foi um grande choque?
Foi. Embora eu sempre tenha tido uma personalidade forte. Houve uma situação até mais caricata com um defesa esquerdo, o Vítor Sanches. Num treino eu disse “passa a bola”, ou algo parecido, uma situação normal, e ele respondeu: “Mas estás a falar para quem?”. Eu tinha 19 anos, estava a chegar, e respondi: “Cala-te, filho da p…”; “Ó miúdo, não falas assim comigo. No final do treino vamos falar”. No final do treino, fiquei à porta do balneário à espera dele. Mas ele passou por mim e foi-se embora. Fui para o meu carro, ele estava perto do meu carro à minha espera. Houve um momento mais tenso, mas entretanto chegaram mais dois ou três, começaram a separar-nos e as coisas ficaram sanadas. Passados duas ou três semanas, eu estava a estrear umas botas e ele disse-me: “Essas botas vão fazer golos”. Percebi que ele não tinha ficado com rancor e aquelas palavras deram-me confiança. O mais engraçado é que depois demo-nos muito bem. Mas no Loures havia sempre muitas coisas.

Mais alguma situação que se recorde?
O clube estava um pouco desorganizado. Às vezes não havia equipamentos, o balneário era muito pequeno e havia muitas brincadeiras. Lembro-me que uma vez um colega levou ácido sulfúrico para fingir que ia atirar para cima de outro, mas acabou por atirar mesmo e queimou-o. Uma cena muito fora da caixa. Também me lembro de outro conflito que tive com outro jogador. Ele fez-me um carrinho mais forte e mais tarde dei-lhe também porque achava que ele tinha sido falso ao dar-me sem bola. Passado 10 segundos vejo-o a atravessar o campo todo, para tentar bater-me novamente. Só não chegou até mim porque me virei e enfrentei-o. Separaram-nos. Meia hora depois um dos capitães montou um ringue dentro do balneário e disse: “Vá, agora vocês os dois vão lá para dentro para lutar”. Meteu a música do “Rocky” e tudo [risos]. Mas era na brincadeira, acabámos por fazer as pazes.

Gonçalo em criança com Toñito, que foi colega de equipa do pai

Gonçalo em criança com Toñito, que foi colega de equipa do pai

 

D.R.

A meio da época passou do GS Loures para o Casa Pia. Porquê?
Devido à situação da carta dos direitos de formação, que demorou muito, não fiz pré-época, cheguei mais tarde ao GS Loures, a equipa já estava formada e demorei um a dois meses até começar a jogar. Quando comecei a jogar marquei quatro ou cinco golos. Naquela altura, o CNS tinha um sistema de zona de subida e zona de descida. Quem ficasse nos dois primeiros ia à zona de subida e quem ficasse nos restantes lugares, ia para a zona de descida. Eu fiz esses golos e o Casa Pia mostrou interesse em contar comigo para a fase de subida. Falei com o Belenenses e disse que queria ser emprestado para aquele clube porque era melhor para mim e para o meu futuro, tinha mais visibilidade.

O ambiente no Casa Pia era muito diferente do GS Loures?
Era diferente porque no GS Loures era uma equipa nova, no sentido de não nos conhecermos uns aos outros, enquanto no Casa Pia havia um núcleo que jogava junto há muito tempo. Mas não estava a ser um projeto muito profissional porque, por exemplo, os treinos eram às sete da noite.

O que fazia durante o dia?
Fazia ginásio de manhã, à tarde descansava e depois ia para o treino. Tentava ser o mais profissional possível. Mas havia muitos jogadores que tinham outros trabalhos e o futebol era mais uma fonte de rendimento, mas não era a prioridade. Tive um colega, o Bruno Lourenço, que saía às seis e meia do trabalho e às vezes estava às sete e um quarto dentro do carro, em frente ao estádio, e não saia de lá só para atrasar o treino e gozar connosco porque sabia que não começávamos sem ele. Mas uma vez, depois de um jogo, ele levou uma seleção de enchidos, vinho, queijos, pão e fez uma espécie de piquenique na parte de trás do autocarro.

Tem mais histórias para contar do Casa Pia?
Tenho uma surreal. Um dia estava a tomar banho, o Mateus Fonseca também, e eu resolvi fazer uma brincadeira com o Ivan Dias. Ele para responder atirou o secador que foi mesmo parar à zona dos banhos, aquilo começou a fazer curto-circuito, viam-se umas luzes estranhas e fumo a sair; eu e o Mateus saímos do balneário todos nus e fomos a correr quase para junto do campo, para fugir daquele curto-circuito [risos]. Foi assustador, mas depois rimos muito. Houve outra engraçada. Estávamos num churrasco-convívio, em que o pessoal ficava mais alegre, e no final, o Bandarra resolveu sair para ir ao Centro Comercial Colombo de autocarro. Como estava bastante calor ele tirou a t-shirt. Saiu do autocarro e entrou no Colombo em tronco nu, nem se apercebeu que estava sem t-shirt, andou assim até os seguranças irem ter com ele para dizer que não podia andar ali em tronco nu [risos].

Toñito abraça Rui Gregório, o pai de Gonçalo, que vem mais atrás, de camisola azul

Toñito abraça Rui Gregório, o pai de Gonçalo, que vem mais atrás, de camisola azul

 

D.R.

Terminou essa época no Casa Pia e manteve-se lá na seguinte?
Sim. É quando vamos ao playoff de subida e perdemos contra o Varzim, no último jogo.

Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de fazer do futebol a sua vida profissional era realizável?
Sinceramente foi desde que comecei a jogar a bola. Desde pequenino que sempre tive a certeza que conseguiria jogar num bom nível.

Como e onde se imaginava? O que mais ambicionava?
Quando era pequeno não pensava em dinheiro, só queria fazer do meu trabalho jogar futebol. Era aquilo que me divertia e fazia-me esquecer o resto do mundo. Só queria divertir-me a jogar, tanto que comecei a ir cedo à seleção, o que na altura era só para os três grandes, basicamente. Fui às seleções de sub-16 e sub-17. Rejeitei muitas propostas ao longo da minha formação.

Quando diz que rejeitou propostas, fala de propostas de onde e em que fase?
Com 10/11 anos rejeitei vários clubes, aos 13/14 também. Estou a falar de Sporting, Benfica e FC Porto. Aos 16 anos, tive uma proposta que queria aceitar, mas aí foram os meus pais que não me deixaram.

De onde era essa proposta?
Do Benfica.

Porque os seus pais não o deixaram ir para o Benfica?
Lembro-me perfeitamente que estávamos na cozinha, disse-lhes que queria ir porque queria ser jogador e era dos melhores clubes em Portugal. Eles disseram que não, porque queriam acompanhar o resto do meu crescimento como pessoa e como ser humano e queriam que acabasse a escola junto deles. Achavam que se fosse para o Benfica, muito provavelmente ia para o Seixal e não sabiam se eu iria acabar a escola.

Ficou muito zangado?
Muito, muito zangado. Ainda hoje fico. Perdoei-os, mas tenho alguma mágoa com isso, porque gostava de saber como teria sido o meu caminho se tivesse ido para o Benfica.

Gonçalo Gregório iniciou o seu percurso como jogador no Estoril Praia

Gonçalo Gregório iniciou o seu percurso como jogador no Estoril Praia

 

D.R.

No final da época 2015/16 o que aconteceu?
Eu queria ter uma oportunidade na II ou na I Liga, pela época tão regular e tantos golos que fiz pensei que teria essa possibilidade. E tive, pelo Leixões, porque o meu treinador era o Filipe Coelho que foi para o Leixões e levou-me.

Acabava contrato com o Belenenses?
Não. No entanto, como vi que eles não me chamaram sequer para a pré-época disse que queria rescindir com e aceitaram.

Foi para o Leixões em 2016. Como foi a adaptação ao norte e à II Liga?
Gostei da mudança. No início foi difícil sair de casa novamente. Era um nível competitivo acima e fez-me crescer muito como jogador e como pessoa.

Além do Filipe Coelho, teve como treinador o Kennedy. Muito diferentes?
[Risos] Muito. O Filipe Coelho é muito mais moderno, tem conceitos bons, saída de bola atrás, aspetos de jogo muito ofensivos e de analisar o adversário com muita dedicação e muito pormenor; o Kennedy dava mais liberdade aos jogadores e deixava os jogadores interpretarem mais o jogo por si e não trabalhava tanto esses pormenores como o Filipe.

Qual dos dois preferia?
Preferia o Filipe porque tinha uma relação ótima com ele, além de me ter treinado no Casa Pia, nas escolas, quando eu tinha 8/9 anos foi com ele que fomos campeões. Eu já o conhecia há muito tempo, tinha uma boa relação e gostava dos métodos de treino dele.

Por que razão terminou essa época no Farense?
Não sei porque saio. Lembro-me que os jogadores que o Filipe Coelho tinha levado saíram todos. Portanto, penso que foi uma espécie de "limpar a casa" que o Kennedy quis fazer, quis ir buscar os jogadores de confiança dele e eu saí emprestado.

O avançado jogou seis anos e meio no Belenenses

O avançado jogou seis anos e meio no Belenenses

 

D.R.

Quando percebeu que ia emprestado para um clube do Campeonato de Portugal, como reagiu?
Não fiquei chateado. Como tinha o interesse do Farense e sabia que era um clube que acreditava em mim, não via isso como um passo atrás. Via como uma oportunidade para continuar a crescer, num clube muito histórico, que tinha muita ambição.

Foi viver sozinho para Faro?
Tal como no Leixões, vivi com dois colegas meus. Vivíamos numa vivenda em Vale do Lobo. Com o Vasco Coelho, com quem já tinha jogado em Loures, e com o Nuno Silva, que mais tarde foi meu empresário e que ainda me ajuda muito na minha vida profissional.

Histórias para contar ou momentos marcantes do Leixões e do Farense?
Lembro-me de uma confusão no Leixões. É um clube muito exigente. Estávamos na zona da linha de água, tínhamos um orçamento pequeno e uma aposta em jogadores muito jovens. Num jogo contra o Vizela, fui para o banco, entrei aos 75/80 minutos. Tive pouca bola, não tive muitas oportunidades e empatámos. Ao sair do balneário ouço o meu nome várias vezes, era o líder da claque que veio falar comigo e começou a dizer: “Isto não é o Casa Pia, tens de dar mais, isto é um clube de pescadores…”. Veio para cima de mim e começámos ali num bate boca, depois juntou-se muita gente, foi uma confusão muito grande, mas as coisas acabaram por ficar sanadas, ele pediu-me desculpa mais tarde. Mas quase chegámos a vias de facto.

E do Farense, há algo a assinalar?
Lembro-me de um jogo contra o Real Massamá, estávamos a lutar para subir, estávamos empatados, em casa, houve um livre que o Neca bateu para área e eu apareci bem e fiz golo. Ganhámos 2-1, tirei a camisola e o estádio veio abaixo, foi um momento incrível, foi bastante marcante.

Entretanto, acabou contrato com o Leixões e foi para o Vilafranquense. Como?
O Filipe Coelho foi para o Vilafranquense e convidou-me para ir. Era uma oportunidade de jogar com mais regularidade e perto de casa.

Algo a registar dessa época?
Fiz alguns amigos. Lembro-me do Rúben Freitas, que agora está na Académica. Do Izata, do Dénis Martins, do Freitas. Joguei com jogadores que chegaram a bons patamares, como o brasileiro Luquinhas, por exemplo, que está no Legia. Tenho uma história muito engraçada. Na altura eu era o jogador que vivia mais longe, então ficava com a carinha do clube e ao ir para Vila Franca, apanhava 4/5 jogadores pelo caminho. Eu jogava FIFA Ultimate Team, e na volta do treino quis comprar FIFA Points. Como era de caminho para casa resolvi entrar no shopping para comprar, só que me esqueci completamente que estava com a carrinha, e fui contra o limite de altura do parque de estacionamento, rachei um bocado da carrinha. Comecei logo a suar, dei meia-volta, as pessoas começaram a olhar para mim. Meti a carrinha num estacionamento aberto e fui comprar o que tinha a comprar. No dia seguinte o pessoal riu-se muito, até que aparece um dirigente a perguntar quem é que tinha dado cabo da carrinha. Ficámos todos calados [risos]. Mais tarde disse que fui eu e contei a história.

Pagou o arranjo da carrinha?
Eu quis sair para o Casa Pia e eles pediram-me para fazer o último jogo já sabendo que eu ia sair. Fiz o último jogo, marquei o golo da vitória, que colocou o Vilafranquense em 1.º lugar, e não quiseram pagar o último salário. Disseram que como estraguei a carrinha, não me pagavam, o que não fazia sentido nenhum porque o arranjo da carrinha era uma coisa irrisória, comparando com o meu salário. Não que ganhasse nada do outro mundo, mas o meu salário era maior do que o arranjo da carrinha.


 

Spoiler

“Quando o Rúben Amorim anunciou que ia embora do Casa Pia, vi mais de metade do balneário a chorar, o que não é comum. E ele também chorou”

Gonçalo Gregório diz que não saber o que fará após pendurar as chuteiras tem-lhe tirado o sono, mas revela que podia ter sido lutador de MMA ou tenista, caso não tivesse enveredado pelo futebol, onde tem feito carreira como avançado. Atualmente ao serviço do FC Noah, da Arménia, continua nesta parte II do Casa às Costas o relato do seu percurso, que depois do regresso ao Casa Pia AC, passou pelo Paços de Ferreira, a equipa B do SC Braga, onde reencontrou Rúben Amorim, a Polónia, o U. Leiria e o Dínamo de Bucareste

Na época 2018/19, o Rúben Amorim assumiu o papel de treinador no Casa Pia. A entrada dele trouxe muitas mudanças?
Ele profissionalizou o Casa Pia. Foi mais exigente com questões como a relva estar cortada, estar sempre regada, passámos a treinar de manhã, a fazer mais trabalho de prevenção de lesões, ginásio. Foi ele quem implementou isso no Casa Pia e resultou tanto para mim como para o clube, felizmente.

Como ele era no trato com o grupo?
Muito divertido, muito próximo, muito exigente e sempre pronto para ajudar.

Quando as coisas não corriam como o esperado, como reagia? Dava muitas duras?
Dava duras, sim, mas dava duras com tanto sentido que os jogadores interpretavam como uma coisa boa e não como uma simples dura, porque era muito inteligente na maneira como falava. Na altura ele era mais emotivo, no SC Braga e no Sporting conseguiu gerir isso melhor, mas connosco, como sabia que muitos precisavam daquilo, porque era se calhar a fatia maior do bolo financeiro, queria defender-nos a todo o custo, portanto, ficava muito emotivo e muito sensível. Vivia aquilo com uma paixão muito grande. Recordo-me que em 4/5 meses fiz 25 golos.

Houve alguma dura especial ou algo mais marcante nessa época com Rúben Amorim?
A altura em que ele anunciou que ia embora. Vi mais de metade do balneário a chorar, o que não é muito comum. E ele também chorou.

Gonçalo Gregório (à esquerda) num jogo pelo Casa Pia AC, sob o olhar de Rúben Amorim (no fundo)

Gonçalo Gregório (à esquerda) num jogo pelo Casa Pia AC, sob o olhar de Rúben Amorim (no fundo)

 

D.R.

Em janeiro de 2019 sai para o Paços de Ferreira. Como foi recebido?
Receberam-me todos bem, foram muito acolhedores. A equipa também estava bem, estávamos em 1.º lugar com alguns pontos de distância, portanto, foi fácil.

Lidou com um treinador mítico, o Vítor Oliveira. Com que impressão ficou dele?
Já o conhecia por alto e aos métodos dele, porque ele treinou e tinha subido de divisão com o meu pai, no Belenenses. Foi tranquilo. Não precisava dar muitas duras porque o pessoal respeitava muito a história e o percurso dele. Era como se fosse um pouco intocável. Os jogadores entendiam que tinham de respeitar e fazer o que dizia. Nem precisava usar a voz elevada ou uma atitude forte para nos meter no lugar ou para fazermos o que queria.

Tem algum episódio com ele que possa partilhar?
Nada de especial. Fiz oito dos 10 jogos, falhei os últimos dois jogos porque o pai da minha ex-namorada faleceu, o Vítor Oliveira permitiu que eu faltasse a um ou dois treinos, mas faltei a quatro porque queria estar perto dela e ele não me convocou para os dois jogos seguintes. Como o outro avançado estava a treinar, deu-lhe primazia, respeitou o trabalho dele também.

Porque não continuou no Paços de Ferreira?
Porque veio um treinador novo, o Filipe Rocha, e não quis sequer que eu fizesse a pré-época. Fiquei muito surpreendido, tinha assinado três anos e meio, achei que foi injusto.

Deu-lhe alguma explicação?
Não, nunca tive uma conversa com ele. Disseram-me para tentar arranjar alguma coisa, que eles também iam tentar. O SC Braga contactou logo o meu empresário, estavam interessados que eu fizesse um ano na equipa B, para ver se tinha capacidade para ir para a equipa principal. Eu tinha 23/24 anos, ainda era relativamente novo e quis ir. Fui emprestado.

Na época 2019/20, Gonçalo Gregório jogou pelo SC Braga B

Na época 2019/20, Gonçalo Gregório jogou pelo SC Braga B

 

D.R.

Quando chegou ao SC Braga B o treinador era o Rui Santos, mas ainda teve novamente o Rúben Amorim e depois o Vasco Faísca. O que pode dizer sobre eles?
O Rui Santos era muito tático, um pouco mais frio, mas também com bons métodos, o Amorim mais emotivo, muito ofensivo na maneira de jogar, muito inteligente a interpretar o jogo e os jogadores. E o Faísca é um treinador que trabalha muito a nível tático e dá-nos muita liberdade. Conseguiu introduzir um bom espírito no balneário.

Gostou de viver em Braga?
Muito. Fiz dois, três amigos com quem ainda me dou, o Rodrigo Borges, o Rogério e o Afonso Caetano.

Fez 19 golos. Foi uma boa época?
Correu-me muito bem e só não fiz mais golos porque a época terminou a meio de março devido à covid.

Passou o confinamento em Braga ou foi para casa dos pais?
Fui para casa dos meus pais, porque faltavam apenas dois meses até à nova época e não fazia sentido continuar a pagar casa.

Foi fácil lidar com o confinamento?
Facílimo, porque gosto muito de estar em casa. Passava muito bem, estava com as pessoas de quem gostava, saía para ir ter com a minha namorada da altura, treinava na mesma, via filmes, fazia a minha vida normal.

Sabia que não ia voltar a Braga?
Braga teve muitas condicionantes. Uma delas foi na altura do Rúben Amorim. Ele dizia-me que tinha bastantes conversas com o Salvador e que iam comprar-me, depois foi para a equipa principal e disse-me que me queria com ele. Só que o Sporting entrou em cena, comprou Amorim por 10 milhões de euros, ele foi para o Sporting e os nossos caminhos separaram-se. Acabei por não ficar no SC Braga porque veio outro treinador, o Carlos Carvalhal, que se calhar não quis olhar para um miúdo da equipa B. No Paços também percebi que não iam apostar em mim e como surgiu a proposta da Polónia, decidi arriscar e ir para fora.

O avançado a festejar um golo, sob chuva, pela equipa B do SC Braga

O avançado a festejar um golo, sob chuva, pela equipa B do SC Braga

 

D.R.

Já tinha pensado em sair do país?
Tinha essa curiosidade, sim.

Ambicionava ir para algum campeonato em particular?
Mais tarde gostava de ir para a Ásia e hoje estou mais ou menos na Ásia. Mas na altura não, queria simplesmente ir para fora.

Porquê a Ásia? Pelo lado financeiro?
Não. Gosto muito mesmo da parte cultural. Já fui de férias para a Tailândia, o Sri Lanka, a Índia, o Dubai e gosto muito da maneira de pensar deles, da gastronomia, são muito diferentes de nós.

Em 2020/21 foi para o Sosnowiec, da II Liga polaca. Como foi o primeiro impacto?
Foi bom. Tinham condições muito boas, estavam a fazer um estádio novo, era um clube histórico, tinham ganhado a Taça de da Polónia dois anos antes. A cidade de Sosnowiec é má, muito velha e tem pouca coisa, mas fiquei a viver em Katovice, uma cidade maior, mais nova, lá ao lado. Tinha dois portugueses na equipa, o Martim Maia, que também está aqui na Arménia, e o João Oliveira, de quem fiquei amigo.

Com que opinião ficou dos polacos?
Muito frios no início, menos brincalhões e mais na deles, mas após ganhar confiança fiquei a dar-me bem com eles.

Em 2020/21, Gonçalo representou o Sosnowiec da Polónia

Em 2020/21, Gonçalo representou o Sosnowiec da Polónia

 

D.R.

Como é a II Liga na Polónia?
Eles têm estádios e projetos bons, têm qualidade, estava à espera de encontrar um nível mais fraco, mas era muito parecido ao da II Liga de Portugal e talvez com jogadores com ainda maior qualidade porque há um investimento forte.

O seu inglês era suficiente para entender e comunicar bem?
Sempre falei muito bem inglês, felizmente.

Foi sozinho para a Polónia?
Sim.

Como era o ambiente balneário?
Olhavam muito de lado para os estrangeiros, sentiam que lhes estávamos a roubar o lugar, mas mais tarde acabaram por aceitar e o ambiente ficou bom. Eu fazia muito o balneário porque sou muito divertido e muito brincalhão, por isso, com o tempo passaram a gostar de mim.

Assinou por dois anos. Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava em Portugal?
Pouco mais porque já ganhava bem no Paços.

Não ficou os dois anos na Polónia porquê?
Quando fui para a Polónia namorava à distância e acabei a relação. Ainda fiquei lá bastante tempo confinado e foi difícil porque não acabei bem com a minha namorada da altura, a minha mãe estava bastante doente e isso tudo fez com que mais tarde tivesse a única lesão até hoje. Torci o pé e estive mês e meio sem conseguir jogar, na Polónia. Tudo junto fez com que quisesse voltar para Portugal para estar mais perto dos meus. Felizmente a minha mãe depois recuperou bem.

O clube aceitou as suas razões para vir embora?
Sim. Eles queriam ficar comigo, queriam dar-me mais dinheiro para ficar, convidavam a minha mãe para viver comigo. O segundo treinador adorava-me. Mas quando meto uma coisa na cabeça, vou até ao fim, portanto fui embora. E não tinha clube.

De 2021 a 2023, o avançado vestiu a camisola do U. Leiria

De 2021 a 2023, o avançado vestiu a camisola do U. Leiria

 

D.R.

Entretanto, só recebeu a proposta do U. Leiria?
Apareceram muitas coisas, preferi o U. Leiria porque me dava muito mais dinheiro do que uma equipa da II Liga e eu não ia baixar o ordenado só para estar na II Liga. Achava injusto.

Jogou na primeira edição da Liga 3, pelo U. Leiria. Como correu?
Muito bem. Não conseguimos subir de divisão, mas individualmente fui dos melhores jogadores do campeonato e fui o melhor marcador, foi muito bom.

Assinou por quanto tempo?
Dois anos e no caso de subirmos de divisão, renovaria um ano. No primeiro ano não subimos, no segundo subimos, mas não fiquei porque tive uma proposta da Roménia e deixaram-me sair.

Quais os momentos mais marcantes das duas épocas em Leiria?
Profissionalmente marquei muitos golos e tive muitas ofertas logo no final do primeiro ano, mas nunca me deixaram sair. Pessoalmente também fiz muitos amigos em Leiria, estava perto de casa. Estive sempre muito feliz.

 

 

Gonçalo assinou pelo Dínamo de Bucareste, da Roménia, em 2023/24

Gonçalo assinou pelo Dínamo de Bucareste, da Roménia, em 2023/24 

NurPhoto

O que o levou a aceitar a proposta do Dínamo de Bucareste, da Roménia?
Desde o início que me apresentaram um projeto muito bom e felizmente foi sempre cumprido à risca, o que não costuma ser apanágio nos clubes romenos. Fui para um clube que se assemelha ao Benfica ou ao Sporting na Roménia, é grande e muito exigente. Gostei muito de lá viver e jogar.

E dos romenos, gostou?
Sim, é um povo afável, muito acolhedor, parecido com o povo português. No entanto, porque a equipa era nova, no sentido de terem criado condições para contratar bons jogadores, que nunca tinham jogado juntos, nem sempre ganhávamos e houve uma altura em que tivemos ultras a invadir o treino para terem conversas com os jogadores.

Chegou a apanhar algum susto maior?
Chegaram a parar o autocarro da equipa quando íamos jogar. Tivemos receio de que nos acontecesse algo. E houve um momento de tensão no playoff de descida. Se não ganhássemos o playoff e descêssemos, tínhamos receio que invadissem o campo e nos batessem. Não descemos, felizmente, e conseguimos o objetivo do clube.

O avançado português (à direita) em ação pelo Dínamo de Bucareste

O avançado português (à direita) em ação pelo Dínamo de Bucareste

 

NurPhoto

Também vivia sozinho na Roménia?
Sim, já tinha uma namorada, mas como a relação era relativamente recente, ela não foi logo comigo.

Só assinou por um ano porquê?
O meu objetivo era ficar um ano no Dínamo para dar o salto e ganhar ainda mais. Foi o que aconteceu. Apareceram várias propostas, mas optei pelo Noah, era o que pagava mais e também contribuiu o facto do treinador ser português.

Já conhecia o Rui Mota?
Não. Sabia que tinha sido adjunto do Sá Pinto, mas não conhecia o trabalho dele.

Foi ele quem lhe ligou a propor a ida para o Noah?
Não. Falei com ele mais tarde. Mas sei que fez muita força para eu vir.

A Arménia surpreendeu-o?
Sim, muito melhor do que estava à espera. O centro da cidade de Yerevan é muito bom, tem muita coisa, é uma cidade muito segura também. Estou a gostar bastante.

E o futebol?
Temos quatro ou cinco equipas boas, competitivas, a pagar bem. No entanto, é um campeonato muito perigoso, já perdemos pontos com duas, três equipas com as quais não devíamos ter perdido. Portanto, apesar de não parecer, até é um campeonato competitivo e está a melhorar.

Que tal o Rui Mota?
Bom treinador, com ideias novas, dá muita liberdade aos jogadores, tem um futebol muito ofensivo também, tenta perceber os jogadores e é muito exigente. Estou a gostar muito dos métodos.

Gonçalo com o seu cão Oli, um Akita Inu

Gonçalo com o seu cão Oli, um Akita Inu

 

D.R.

Continua a viver sozinho?
Não, a minha namorada, Inês, veio comigo. Diz que adora Yerevan e está muito feliz. Agora estuda Gestão na Universidade Aberta.

Como é o ambiente no balneário?
É bom. Temos dois ou três portugueses e três ou quatro brasileiros.

E como são os jogadores arménios com a concorrência estrangeira?
São muito afáveis, são muito acolhedores também, gostam de rir, está a ser ótimo.

E têm qualidade técnica?
Sim, surpreenderam-me também, por acaso. São mais jogadores mais técnicos do que físicos.

Quais são agora os seus objetivos e ambições?
Quero continuar a fazer golos e ir o mais longe possível a todos os níveis.

O que chama “ir o mais longe possível”? É voltar a Portugal e jogar na I Liga? Ou não passa por isso?
Não penso em voltar a Portugal. Claro que se houver interesse de clubes, ouço sempre, mas não é um objetivo que tenha. O que me interessa é continuar a melhorar as minhas condições futebolísticas e financeiras para a minha família.

Tem filhos?
Ainda não.

Com a namorada Inês

Com a namorada Inês

 

D.R.

Já pensou no que quer fazer quando tiver de pendurar as chuteiras?
Já pensei muitas vezes e é algo que por acaso às vezes me tira o sono, porque ainda não sei bem o quê. Acho que não quero ficar ligado ao futebol, apesar de gostar muito de futebol, mas é uma vida muito instável. Quero fazer investimentos ou criar um negócio pessoal.

Em que área?
O que for rentável. Não interessa muito a área, o que for rentável a nível financeiro para ter um futuro bom.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No Noah.

Já deu para investir?
Sim, em imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Sinceramente acho que nada. Comprar um Mercedes Classe A, talvez.

Percebi que gosta de viajar. Qual o país que mais o surpreendeu?
Tailândia.

Tem algum hobby?
Gosto muito de cinema.

Algum filme predileto?
Tenho uma lista de 20 e estou sempre a atualizá-la e praticamente todos os dias vejo filmes com a minha namorada.

Tem algum género preferido?
Filmes misteriosos, que dão a volta completamente no final. Do género "Shutter Island" ou "Interstelar" que é agora o meu filme preferido; são esse tipo de filmes que surpreendem.

O avançado está a jogar pelo FC Noah esta época

O avançado está a jogar pelo FC Noah esta época

 

D.R.

É um homem de fé?
Não, sou ateu.

Superstições?
Tenho muitas. Por exemplo, equipar-me sempre da mesma maneira, entrar com o pé direito sempre; por exemplo, quando faço banho de gelo só saio quando os segundos no cronómetro estão no 00. Não passo sal de mão em mão; não digo a palavra começada por A [azar] que significa pouca sorte.

Tem tatuagens? Qual foi a primeira que fez?
Muitas. A primeira foi no braço direito, é uma espécie de bracelete com o meu número. Tinha 19 anos quando a fiz. Tenho os dois braços praticamente todos, tenho as costas bastante completas. Tenho uma na perna, tenho nas costelas.

Tem uma grande tatuagem nas costas em forma de texto. Pode dizer o que é?
Tenho um texto mais ou menos do pescoço até à zona lombar em baixo. O texto é uma mistura feita por mim, entre frases de filmes, frases de vídeos motivacionais que me marcaram muito, de compositores de piano, é uma mistura muito grande.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Acompanho basquete, ténis e futsal. Pratico as duas últimas, sobretudo futsal.

Qual a maior frustração na carreira?
Não tenho.

E o maior arrependimento?
Não tenho, porque não tive culpa, mas os meus pais não me terem deixado ir para o Benfica aos 16 anos é uma espécie de arrependimento.

O momento mais feliz na carreira?
Ter marcado no meu segundo jogo pelo Dínamo de Bucareste, no dérbi de Bucareste, e ter assinado este contrato.

O objetivo que ficou por cumprir?
Que ainda está por cumprir. Ser internacional por Portugal.

Gonçalo tem uma tatuagem nas costas com frases escolhidas por si

Gonçalo tem uma tatuagem nas costas com frases escolhidas por si

 

D.R.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho que gostava de representar?
O Sporting.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Tomás Silva, Afonso Caetano, Nuno Tomás. E vou citar outros dois que estão ligados ao futebol, o Tiago Morgado e o Fábio Marques.

Tem ou teve alguma alcunha?
Acho que só Greg, é abreviatura.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Criava a regra de, a partir dos 80 minutos, quando a bola sai, o tempo pára.

O que pensa do VAR?
Para mim era abolido.

Tem algum talento escondido?
Imito muito bem as vozes dos desenhos animados da Disney. Imito quase todas muito bem.

Qual foi o momento mais difícil pelo qual passou na vida?
A separação dos meus pais. Tinha 21 anos.

Quem foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
O Sapunaru.

Se não tivesse sido jogador, o que teria sido?
Lutador de MMA ou tenista, por exemplo.

 

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"Lembro-me que uma vez um colega levou ácido sulfúrico para fingir que ia atirar para cima de outro, mas acabou por atirar mesmo e queimou-o. "

wtf

 

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Quem é o fofo que mete a entrevista do meu Sambinha no tribuna expresso? 

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Citação de Jimpo, Em 16/11/2024 at 11:39:

Quem é o fofo que mete a entrevista do meu Sambinha no tribuna expresso? 

 

Spoiler

“O Carrillo tentou driblar-me, ganhei a bola, mas fui agressivo. O Jorge Jesus começou a gritar: ‘Estás maluco? Isto não é kickboxing’”

Mamadu Samba Candé, mais conhecido por Sambinha, cresceu num bairro social onde aprendeu a defender-se observando os irmãos e amigos e cedo percebeu que o seu futuro estava no futebol. Quis ser avançado, mas tornou-se central e chamou a atenção do Sporting. Após quase três anos na equipa B, convenceu-se que já estava pronto para sair. Voo sozinho para os EUA, sem saber inglês e perdeu um voo de ligação, mas este foi só o início da aventura. Hoje joga em Israel e representa a seleção da Guiné-Bissau, mas sobre isso falaremos na parte II deste Casa às Costas

Nasceu em Cascais. É irmão de Mamadú Candé, entrevistado recentemente para esta rubrica. Sabemos, por isso, quem são os seus pais e que cresceu no bairro da Cruz Vermelha, em Alcabideche. Também deu dores de cabeça aos seus pais como o seu irmão, devido às vivências do bairro?
Não, fui sempre o mais calmo, muito tímido, nunca me meti em problemas porque os meus irmãos sempre me impediram e protegeram.

Como foi crescer num bairro como o da Cruz Vermelha?
É um bairro social, por isso, há sempre confusões, situações menos agradáveis, mas não me meti em confusões graças também aos meus irmãos que não me deixavam chegar nem perto. Fui aprendendo com as situações, aprendi mais a ver do que a fazer. Eu e os irmãos mais novos fomos mais protegidos.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Desde sempre tive na cabeça que queria ser jogador de futebol. Como o meu irmão mais velho e o Mamadú jogavam, comecei logo a jogar aos seis anos, mas desde os meus 13/14 anos que dizia que ia conseguir ser profissional.

Em pequeno, torcia por que clube?
Em pequeno, para ser sincero, torcia pelo Benfica, mas depois mudei para o Sporting.

Quem eram os seus ídolos?
Tínhamos tendência de olhar sempre para os atacantes, apesar de não ser essa a posição onde faço carreira, por isso o meu ídolo era o Ronaldo, o Fenómeno.

 

Sambinha (no meio) na primeiras captações que fez no Sporting

Sambinha (no meio) na primeiras captações que fez no Sporting

 

D.R.

Também começou a jogar no Alcoitão?
Sim, e apesar de nem sequer ter idade e tamanho, meteram-me a jogar. Fui fazer captações, basicamente fiz dois treinos e comecei a jogar.

Gostava da escola?
Da escola, escola, não gostamos [risos]. Gostamos de estar na escola. Só fiz até ao 9.º ano.

Quanto tempo esteve no clube de Alcoitão?
Só uma época. O Sporting, entretanto, chamou-me para fazer umas captações. Gostaram, queriam ficar comigo, mas havia dificuldade de transporte, os treinos eram em Pina Manique, e eu não tinha condições na altura. Acabei por ir para o clube mais perto de casa, o 1.º Dezembro, onde o meu irmão já estava.

Foi uma grande desilusão não ter ido logo para o Sporting?
Fiquei triste, claro, toda a gente sonhava jogar no Sporting, mas como era tão novo não pensei muito, queria era jogar futebol.

Esteve três anos no 1.º Dezembro e acabou por ir para o Sporting a seguir. Foram eles que o chamaram novamente?
Sim. Aí como já tinha 13/14 anos, conseguia ir de transportes.

Mas só esteve uma época no Sporting e acabou por ir parar ao Estoril Praia. Como e porquê?
Na altura havia grande concorrência, grandes jogadores e acabei por não jogar muito. Fui para o Estoril Praia, que estava interessado em mim, e fiz três boas épocas lá. Na última não joguei muito, trocámos de treinador e acabei por ir para o Sporting de Lourel, uma equipa não tão boa como o Estoril Praia, mas que me abriu as portas.

Tinha quantos anos?
16 anos. Assinei uma época, correu bem, subimos de divisão e na segunda temporada queriam assinar comigo um contrato profissional, para treinar com os seniores. Só que não eram esses os meus objetivos. Disse-lhes que preferia arriscar ir para o 1.º Dezembro, onde estava o meu irmão, porque ao fazer lá o último ano de juniores e indo para os seniores, ia jogar na IIB, uma liga melhor. Foi um risco que assumi e deu certo. Fiz uma boa época nos juniores e acabei por subir, mais um colega, para os seniores.

Sambinha (1.º à direita na frente) jogou no Estoril Praia de 2005 a 2008

Sambinha (1.º à direita na frente) jogou no Estoril Praia de 2005 a 2008

 

D.R.

Assinou o primeiro contrato profissional com o 1.º Dezembro. Qual o valor do ordenado?
No Estoril Praia já me pagavam alguma coisa, mais ou menos €100. No 1.º Dezembro, no primeiro ano pagavam por volta de €75, mas depois tínhamos prémios de vitória e mais umas coisas, não me lembro bem, mas recebia uns 500/600 euros, com as vitórias.

Houve alguma coisa que quisesse logo comprar quando recebeu o primeiro ordenado?
Sei que comprei algo para a minha mãe, não me recordo o quê em concreto.

As duas épocas no 1.º Dezembro, foi já como defesa?
Não. Cheguei como avançado mas, infelizmente para o central que se aleijou, e felizmente para mim, o mister olhou para os dois jogadores que tinham subido e como eu era o mais alto meteu-me como central.

A ideia agradou-lhe?
Senti-me um pouco como aquele jogador que tapa buracos, mas fui-me adaptando, fui aprendendo, o Sérgio Nunes, que acabou por fazer dupla comigo, e o Rony [Ramos] ajudaram-me muito. Eu tinha aquela fantasia de ser avançado e como queria fintar o avançado perdia muitas bolas no início, mas tive bons colegas que me ajudaram e fui desenvolvendo.

Já tinha algum namoro sério?
Sim, já tinha a relação atual. Conhecia-a através da minha irmã, mas se não se importa prefiro não falar da vida privada.

Tinha assinado quanto tempo com o 1.º Dezembro?
Na altura assinava-se por época. Assinei a primeira época de sénior. Acabei por jogar alguns jogos, não como titular, mas ia entrando. A segunda época foi de afirmação.

Em 2013/14 o central regressou ao Sporting

Em 2013/14 o central regressou ao Sporting

 

D.R.

Como foi parar pela terceira vez ao Sporting?
Foi algo que não esperava. Fui ao Benfica fazer captações porque ligaram para o 1.º Dezembro. O SC Braga e o FC Porto ligaram também. Fui ter com o filho do Pinto da Costa ao Porto, ele queria que eu assinasse logo uns documentos.

Não assinou porquê?
Houve um monte de propostas na altura, tinham começado as equipas B. Mas eu quis sentar-me e pensar.

Já tinha empresário?
Assinei com um empresário. Entretanto, tive um problema com ele, porque, como disse, apareceu o Benfica, depois o Sporting, a seguir o FC Porto. O FC Porto queria que assinasse por um clube satélite e não concordei. Surgiu o Belenenses, que estava na I Liga, mas também queria que assinasse por um clube satélite e não concordei. No meio disto acabei por ir treinar ao Benfica e a meio da semana em que estava lá a treinar um dos treinadores disse-me que o Sporting tinha perguntado por mim. Passados uns dias ligaram-me para lá ir fazer uns treinos. Fiz dois treinos e acabei por assinar.

O que o levou a optar pelo Sporting?
Senti mais conexão com o Sporting. Também acreditava que o Sporting daria mais facilmente oportunidade a um jovem para singrar na equipa principal do que o Benfica. No Benfica já havia muitos jogadores que estavam, vamos dizer, empatados; o Sidnei, o Miguel Vítor e outros centrais. Eram muitos centrais e seria mais complicado.

Foi viver para a Academia de Alcochete?
Fiquei a viver lá uns tempos até arranjar uma casa no Montijo.

Sambinha (à direita) em ação pelo Sporting, num jogo da equipa B com o Benfica

Sambinha (à direita) em ação pelo Sporting, num jogo da equipa B com o Benfica

 

D.R.

Como foi o primeiro impacto no Sporting, tendo em conta que vinha do 1.º Dezembro?
Assim que cheguei ao Sporting havia aquele nervosismo, embora eu achasse que o Sporting não era aquilo tudo que diziam. Mas quando comecei a treinar, o choque foi grande, percebi que ainda tinha muito para aprender. Apanhei jogadores com muita experiência no Sporting e nas seleções, como o Mateus Pereira, o Daniel Podence, o Mauro Riquicho, o Ricardo Esgaio, o João Mário, Tobias Figueiredo, o Rúben Semedo. São jogadores que fizeram toda a formação no Sporting e que tinham mais experiência, então foi um choque inicialmente levar com aquilo de uma vez. Mas com o tempo acabei por adaptar-me.

O treinador da equipa B era o Abel Ferreira. Ele falava muito consigo?
Vou ser sincero: o Abel Ferreira foi dos treinadores que mais me motivou quando estive no Sporting. As palavras dele entravam realmente. Lembro que num dos meus primeiros jogos como titular tive a infelicidade de ter uma falha, o avançado deu-me um encontrão, a bola passou para o outro extremo e deu golo; o Abel Ferreira tirou-me no intervalo e pensei, acabou para mim, vou embora. Mas aprendi com o erro e as palavras e a motivação do Abel Ferreira ajudaram-me muito a conseguir chegar onde cheguei no Sporting. Neste caso consegui ganhar titularidade, fazer muitos jogos e permanecer.

Chegou a treinar com a equipa principal nesse primeiro ano, em 2013/14?
Sim. Numa altura em que o treinador era o Leonardo Jardim, eu treinava praticamente toda a semana com a equipa A e depois ia para a equipa B fazer os jogos.

Como era treinar com a equipa principal?
Senti dez vezes mais nervosismo do que senti inicialmente quando cheguei ao Sporting. É outro treinador que me motivou e me fez crescer como jogador. Ensinou-me a ver o futebol de uma maneira diferente. Porque a certa altura já me sentia muito confortável, treinava na equipa A e estive perto de fazer um jogo para a Liga, penso que contra o V. Guimarães, porque os centrais estavam lesionados. Infelizmente acabei por não fazer esse jogo e só fiz um com a equipa A, mas não me recordo contra quem.

O central esteve quase três anos na equipa B do Sporting

O central esteve quase três anos na equipa B do Sporting

 

D.R.

Quem foram as figuras do Sporting que melhor o receberam?
Eu tinha o meu grupo. Estava sempre com o Esgaio, o Rúben Semedo, como Manafá e o Riquicho. Íamos juntos para todo o lado. Da equipa principal, o Maurício foi um dos jogadores que me ajudou. Já conhecia mais ou menos o Carlos Mané, uma das pessoas que mais falava e brincava comigo para me deixar à vontade.

E houve algum jogador que o tenha impressionado mais nos treinos, por não imaginar que fosse tão bom?
O Slimani. Quando chegou ainda não era o Slimani que acabámos por ver. Foi o jogador cuja evolução me impressionou mais, porque os outros jogadores, como o André Carrillo, Fredy Montero ou Marcos Rojo, eram jogadores de quem já se esperava mais. Outro foi o William Carvalho. Era incrível, não perdia uma bola.

Da equipa B, havia algum jogador que se destacava mais?
Em termos técnicos, o Daniel Podence. Mas havia outro jogador que também me deixava impressionado, o Wallyson.

Recorda-se do seu jogo de estreia pelo Sporting B?
Penso que foi num torneio entre Sporting, Benfica e Estoril Praia, que ganhámos. Mas não me recordo contra quem foi.

Quando terminou a primeira época e tendo em conta que já treinava com a equipa principal, ficou com esperança de subir à equipa A?
Nós acreditamos sempre que vamos subir e ter oportunidade. Tendo em conta que acabei bem o ano, com o Leonardo Jardim a chamar-me constantemente, acreditava que podia acontecer. A esperança é a última a morrer. Só que, no ano seguinte, veio o Marco Silva. Ainda treinei algumas vezes com a equipa A, mas já não senti o mesmo feeling que sentia com o Leonardo Jardim. O Marco Silva escolhia mais vezes o Tobias Figueiredo.

Sambinha chegou a ser capitão da equipa B do Sporting

Sambinha chegou a ser capitão da equipa B do Sporting

 

D.R.

Continuou na equipa B, onde ainda teve Francisco Barão e João de Deus como treinadores. Com qual deles gostou mais de trabalhar?
São os dois diferentes, mas escolhendo, gostei mais do João de Deus.

Porquê?
É engraçado, porque a primeira coisa que ele fez foi meter-me no banco. Passei de titular para o banco e do banco deixei de ser convocado. Eu não entendia. Pensava: “O que ele tem contra mim?”.

Alguma vez lhe perguntou o porquê?
Não, não sou esse tipo de jogador que pergunta. Não vou mentir, fiquei muitas vezes chateado e dizia “ele tem alguma coisa contra mim, se calhar é por isso que não estou a jogar”. Mas durou pouco tempo. O que tive de fazer foi readaptar-me. Disse para mim, a partir de agora vou trabalhar mais e vou mostrar-lhe que o que ele fez não está certo. Passado duas ou três semanas, ele voltou a convocar-me, acabei por entrar e depois ganhei a titularidade. Ele acabou por fazer uma palestra no balneário, em que servi de exemplo. “Vejam o exemplo do Samba. A primeira coisa que fiz foi metê-lo no banco, mas vejam a atitude dele, não desistiu e provou-me que estava errado. Hoje em dia é ele e mais 10”. Não estava à espera. E ainda acabei por ser capitão [risos].

Assinara por quanto tempo com o Sporting?
Dois anos, mais um de opção. Mas acabamos por reformular para três com mais um de opção, ou seja, no total quatro anos. Renovei quando o Bruno de Carvalho entrou para o Sporting.

O central foi jogar para o NE Revolution da MLS, nos EUA, em 2016

O central foi jogar para o NE Revolution da MLS, nos EUA, em 2016

 

D.R.

O que aconteceu em 2015/16, em que ainda inicia a época no Sporting, mas depois acaba por ir jogar para a MLS, nos EUA?
Não foi das melhores decisões que tomei na vida.

Porquê?
Porque depois disso senti que a minha carreira começou a decair. Eu estava bem no Sporting, estava a jogar, a fazer bons jogos, mas falava com os empresários porque queria sair. Achava que já estava preparado para uma nova aventura na liga portuguesa, alguma equipa da I Liga para onde pudesse ir emprestado. Um agente, que prefiro não nomear, disse-me que não, que estava bem no Sporting. Entretanto, essa equipa dos EUA, os New England Revolution, veio para ver outro jogador e acabou por me levar porque gostaram do jogo que viram.

Foi atraído pelo dinheiro que lhe ofereceram?
Não só, mas também por ser uma equipa da primeira divisão. Eu estava numa segunda equipa do Sporting. Lá ia para a equipa principal, nos EUA, um país de sonhos. Pensei: “Porque não? Se der certo pode ser bom”. Eu era novo, tinha 22/23 anos. Foi uma das razões que me levou a assinar o empréstimo com opção de compra.

Foi sozinho para os EUA?
Na altura tinha um agente que disse que ia comigo e que estava tudo tratado. Um dia antes ele telefona-me a dizer que não podia viajar comigo. Eu não dominava o inglês. Como é possível ir viajar sozinho para um país onde vou ter de assinar documentos. Ele disse que estava tudo tratado. Acabei por ir sozinho para os EUA. Os voos previstos eram Lisboa-Nova Iorque-Boston. Quando o avião estava a aterrar em Nova Iorque, não sei o que se passou, mas levantou voo de novo. As pessoas entraram todas em pânico. Aterrámos e acabei por perder o voo de ligação porque, entretanto, fui parado no aeroporto, queriam que eu preenchesse uns documentos. Eu estava a ouvir o meu nome, era a última chamada para o voo e eu a tentar explicar o que estava ali a fazer e que tinha de apanhar o avião, era uma mistura de português com uma espécie de inglês, o homem não compreendia nada e só dizia que eu tinha de preencher aqueles papéis. Acabei por perder o voo.

Sambinha (à direita) com Koffie, do Gana, numa sessão fotográfica da MLS, nos EUA

Sambinha (à direita) com Koffie, do Gana, numa sessão fotográfica da MLS, nos EUA

 

D.R.

O que aconteceu depois?
Fui à procura de alguém que soubesse falar português ou espanhol. Encontrei uma senhora, mostrei-lhe o bilhete, disse achar que tinha perdido o voo, ela disse: “Não tem problema. Tens de ir para o aeroporto JFK, para apanhar o voo”. A senhora deu-me 100 dólares para eu apanhar um táxi. Peguei nas malas, apanhei o táxi e fui. Quando lá cheguei, parecia uma barata tonta, tentava perguntar às pessoas, mas não sabia falar inglês nem como explicar que queria ir para Boston. Andei às voltas, começou a ficar tarde e houve uma altura em que me senti perdido.

Como saiu da situação?
Quase no final do fecho do voo, ouvi uma senhora a falar meio-espanhol, tentei explicar-lhe o que se tinha passado. Ela perguntou-me quem me tinha dado os 100 dólares, porque não era possível, o aeroporto não dá dinheiro às pessoas. Disse-lhe que não sabia, que me tinham dado o dinheiro e disseram que tinha de ir para aquele aeroporto. Ela disse que eu não tinha de ir para ali. E agora? Acabei por ligar para o diretor do clube, que acabou por arranjar um hotel para eu passar a noite e comprou um outro bilhete.

Só a chegada aos EUA foi uma aventura. Deu com o hotel?
Foi uma chegada difícil, fiz tudo sozinho. Depois dos EUA senti-me preparado para ir para qualquer lado do mundo [risos]. Quando cheguei ao quarto do hotel eram duas da manhã e tinha autocarro para o aeroporto às 7h. Podia dormir 4 horas. Quando fui para carregar o telemóvel e meter despertador, percebi que as tomadas nos EUA são diferentes das nossas, têm três "bocas" [risos]. Estava com 4% de bateria, meti alarme para acordar. Sabia que se perdesse aquele voo o clube ia dizer que eu estava de brincadeira, não é? Eu estava a rezar para que o telefone não desligasse e o alarme tocasse. Acabei por acordar sozinho, tal o pânico. [risos].

Tinha alguém no aeroporto à sua espera, em Boston?
Sim, a minha equipa estava pronta para ir para a pré-época, que foi feita perto do Texas, julgo que em Austin. Estava um calor... A adaptação à língua foi difícil, havia lá um português, mas como vivia há mais de 10 anos nos EUA, o português dele já não era muito bom. Foi um bocado complicado, não joguei muito, sentia-me muito só.

O central prepara-se para entrar num jogo pela sua equipa, o NE Revolution, da MLS

O central prepara-se para entrar num jogo pela sua equipa, o NE Revolution, da MLS

 

D.R.

Os treinos eram muito diferentes de Portugal?
Inicialmente os treinos eram mais físicos, não eram tanto de futebol. Os EUA são um país que gosta mais do físico. Muito ginásio, muita corrida, muito choque.

Ficou a viver onde?
A 30 minutos de Boston. Tive de procurar casa, encontrar companhia para alugar o carro, encontrar supermercados, tudo isso sozinho. Felizmente já sabia cozinhar [risos].

O que achou da MLS?
Vou ser sincero, em termos de condições, era como se tivesse a jogar na Champions League. Eles têm tudo. Temos o pequeno-almoço preparado para cada tipo de jogador, as tuas proteínas, o ginásio, está tudo organizado. Recebíamos chuteiras novas e passado duas semanas já estavam a oferecer outras. Acabava o treino e tínhamos uma nutricionista que dizia o que devíamos ou não comer e quando. Os estádios, os balneários, era tudo incrível.

Passava o dia no clube?
Treinávamos de manhã, quem quisesse almoçava lá, podia ficar a fazer ginásio, banhos, ou então ia para casa. Eu acabava o treino e muitas vezes almoçava lá, ou pegava na comida e ia para casa. No resto do dia ficava por casa a ver televisão. Senti-me muito só.

Gostou dos norte-americanos de uma forma geral?
Sim. As pessoas às vezes têm uma imagem errada deles, pensam que só gostam de diversão 24h sobre 24 horas, sete dias na semana, mas não. Durante a semana, são muito concentrados no trabalho, só no fim de semana é que gostam de viajar ou divertir-se.

Sambinha a cabecear a bola, durante um jogo pelos NE Revolution, da MLS, nos EUA

Sambinha a cabecear a bola, durante um jogo pelos NE Revolution, da MLS, nos EUA

 

MediaNews Group/Boston Herald vi

Como eram os estágios dos jogos?
Se, por exemplo, fossemos jogar a Los Angeles, íamos dois dias antes, ficávamos em grandes hotéis, o clube dava-nos à volta de 200 dólares, se quisesses, podias comer fora do hotel, ou ficar com esse dinheiro para ti. E tínhamos tempo para passear e caminhar um pouco. Em cada cidade para onde íamos tínhamos sempre um dia livre, pelo menos.

Costumava passear com quem?
Com o português que lá estava, o José Gonçalves, e outro jogador americano.

Qual foi o local que mais o surpreendeu?
Los Angeles. Desde criança que via nos filmes aquela rua gigante, junto ao mar, com gente a caminhar, a correr, cheia de bares, e quando cheguei àquela rua, veio logo essa lembrança dos filmes. Aquela imagem ainda hoje não me sai da cabeça, aquele pôr do sol de lá, com toda aquela vida.

Acabou por vir embora porquê?
Eu tinha um ano de empréstimo com opção de compra. Como joguei pouco, essa opção não foi acionada e regressei ao Sporting. Eu queria ir para outros clubes, disse ao meu agente para me meter num dos dois ou três clubes da II Liga que estavam interessados, mas ele disse-me que o Sporting não me deixava ir. Nunca houve ninguém do Sporting a dizer-me diretamente isso, foi o agente. Tive que ficar a treinar com alguns jogadores da equipa A que também estavam à parte.

Quais jogadores?
O Jefferson, e mais um ou outro. Ainda treinei quase dois meses à parte, fiquei com receio que o mercado fechasse e ficasse o ano todo sem jogar.

Depois de regressar dos EUA, o central foi emprestado pelo Sporting ao SC Covilhã, ainda na época 2016/17

Depois de regressar dos EUA, o central foi emprestado pelo Sporting ao SC Covilhã, ainda na época 2016/17

 

D.R.

Foi por isso que aceitou ir emprestado para o Sporting da Covilhã, da II Liga?
Sim.

Foi a única proposta que lhe apareceu?
Não, na altura apareceram mais, mas inicialmente não me deixavam sair, depois insisti que queria ir para o Sporting da Covilhã, acabei por ir e jogar alguns jogos.

Custou-lhe viver na Covilhã?
Foi um pouco difícil devido ao frio, mas a cidade era boa, tinha boa comida, as pessoas são muito acolhedoras.

No Sporting chegou a treinar com a equipa principal quando Jorge Jesus era treinador?
Sim. E a forma como ele gritava com os jogadores, nossa, aquilo assustava [risos].

Levou alguma dura dele?
Levei uma. Acho que foi o Carrillo que tentou driblar-me, ganhei a bola, mas fui agressivo. O Jorge Jesus começou a gritar: "Então, pá? Estás maluco?O que estás a fazer? Isto aqui não é kickboxing" [risos]. Lembro-me dele gritar muito com os jogadores, mas não o fazia por mal.

Sambinha foi chamado para representar a seleção da Guiné BIssau, aos 22 anos

Sambinha foi chamado para representar a seleção da Guiné BIssau, aos 22 anos

 

D.R.

O empréstimo ao Sporting da Covilhã foi só por uma época?
Sim, o presidente falou comigo, queria continuar comigo, mas eu disse que não. Tinha feito uma boa época no Sporting, tive uma infeliz época nos EUA e queria mais. Acreditava que ia conseguir alguma coisa maior. Ainda tinha mais um ano de contrato com o Sporting, sabia que não podia contar com ir para a equipa principal, mas também achava que já tinha idade a mais para a equipa B, porque eles gostam dos jogadores até aos 23 anos. Tive de voltar ao Sporting, fui treinar com a equipa B e com jogadores que tinham baixado da equipa A, como o Ewerton e o Bryan Ruiz e mais um ou outro. Entretanto, chegou-me aos ouvidos que o Leixões estava interessado. Não sei se era verdade, ou não, mas disse que gostava de ir para lá.

Não foi porquê?
O agente disse que o Sporting não ia permitir que eu saísse. Pedi-lhe para arranjar algum clube, porque o mercado ia fechar e eu precisava de jogar. Ele disse: “Não te preocupes, não te preocupes”. O tempo começou a ficar curto, comecei a ficar desesperado. Foi aí que começaram as conversas de algumas pessoas dentro do Sporting, não vou mencionar quem, dizendo que havia uma equipa da Índia que estava interessada, que estava a levar muitos jogadores e que pagavam bem. Eu disse-lhes: “Para mim, sem chance, não conheço aquilo nem sonhem eu ir para lá”. Uns dias depois, dizem-me que o João de Deus ia para lá treinar, respondi: “Bom para ele”. Mas continuaram com a conversa, enquanto eu insistia com o meu agente e perguntava porque não me arranja um clube para jogar. Ele dizia-me que já tinha dado outras opções ao Sporting e que não aceitavam que eu saísse para esses clubes. Foi sempre a conversa dele. Até que o João de Deus ligou-me, disse-me que era melhor jogar durante quatro meses e ganhar um bom dinheiro do que ficar sem jogar. Disse para não me preocupar que ia estar com ele. Como o mercado estava a fechar, acabei por aceitar, não pelo dinheiro, mas para não ficar sem jogar. Porque se um jogador fica sem jogar, basicamente, desaparece.


 

Spoiler

“Em Itália, estive num clube em que quem fazia a equipa eram uns jogadores e o diretor, que depois passavam a informação ao treinador”

Sambinha, de 32 anos, assegura ter qualidade para jogar na I Liga portuguesa, algo que ainda não conseguiu alcançar. Após a passagem pelos EUA, o central jogou no SC Covilhã, na Índia, regressou ao 1.º Dezembro, foi tentar a sorte em Itália, mas a sua carreira só ganhou um novo fôlego em Chipre, onde jogou três épocas, antes de partir para Israel. Não sabe se vai querer continuar num país em guerra e prefere não tomar posições sobre o conflito israelo-árabe, mas pretende continuar a ser chamado à seleção da Guiné-Bissau, onde já jogou com o irmão

Em 2017/18 foi jogar para o NorthEast United, da Índia. Como foi o primeiro impacto quando chegou?
Muito mau. Foi uma viagem de não sei quantas horas e quando cheguei o aeroporto parecia uma cave, não sei como explicar, era muito desorganizado, nada limpo. Meteram-nos na parte de trás de uma carrinha cheia de pó. Cheguei eu e o José Gonçalves, que jogou comigo dos EUA, e mais um ou dois jogadores e nenhum de nós acreditava que nos tinham posto naquela situação. Mas foi questão de adaptação. Vivíamos no mesmo hotel de 5 estrelas, onde comíamos e fazíamos ginásio porque para andar no meio da cidade era muita confusão.

Que tipo de confusão? Muito trânsito?
Muita gente, muito trânsito, muito barulho das motas, acidentes a acontecer à tua frente, discussões; eles têm hábitos diferentes dos nossos.

O que mais o repugnou?
Foi ver no restaurante do hotel alguém de pernas cruzadas, a mexer nos pés com as mãos e de repente apanhar comida com a mão e meter na boca.

E o futebol?
Surpreendeu-me. Não é mau. Tinha muitos jogadores estrangeiros, joguei contra o Robbie Keane, que no ano passado foi treinador do Maccabi Tel Aviv. Tinham outros grandes jogadores, de muitos lados, que faziam com que a liga fosse boa, melhor do que esperava.

Só esteve lá quatro meses?
Sim, mas pareceu-me um ano [risos]. Toda a comida tinha picante. Eu como picante, mas eles exageram, metem picante em tudo, até nas bolachas que serviam de manhã. Lembro-me que uma vez ganhámos um jogo e tínhamos um chefe de cozinha, que fazia muitas turnés fora e cozinhava comida europeia; nesse dia ele fez uma pizza. Parecíamos umas crianças, os olhos brilhavam a comer a pizza.

Em 2018, Sambinha (1º à direita) voltou ao 1.º Dezembro

Em 2018, Sambinha (1º à direita) voltou ao 1.º Dezembro

 

D.R.

Veio embora sem clube?
Fizemos um campeonato razoável, não foi muito bom, acabaram por despedir o João de Deus, antes de terminar a época, e antes de vir embora, um clube grande de lá fez uma proposta não diretamente a mim, mas ao tal empresário que me deixou ir sozinho para os EUA. Era uma proposta muito grande, muito grande mesmo, mas eu disse que queria ir embora. Não estava a pensar em dinheiro, pensava em jogar futebol na Europa. Voltei para Portugal. E foi aí que senti um desgosto muito grande.

Porquê?
Porque quando fui para a Índia, pensei: faço os quatro meses, termino contrato com o Sporting, volto e vai aparecer um clube. Quando cheguei a Portugal havia vários agentes que me contactavam e diziam: “Como é que um jogador do Sporting vai para a Índia?”. Na altura ninguém entendeu o porquê. Não sei quem, não me pergunte, mas alguém recebeu uma comissão para eu ir para lá, porque só me deixaram sair exatamente para a Índia onde estava o João de Deus. Foi uma situação complicada e difícil de explicar às pessoas que estão de fora. Quando cheguei, nenhum clube queria assinar comigo. E quando digo nenhum, é nenhum mesmo.

O que fez?
Fiquei desesperado, sem saber o que fazer. Liguei para o SC Covilhã, que disse que gostariam muito de me ter de volta, mas já tinham contratado outra central. Havia agentes que falavam comigo, mas depois desapareciam. Foi uma situação muito complicada, pensei que o futebol tinha acabado para mim. Estava com 25 anos. Tinha subido e descido tão rápido. Até que no 1.º Dezembro disseram-me para treinar para lá, para manter a forma e não ficar parado. Porque não? Acabei por ir. O presidente depois começou a falar comigo, para ver se eu assinava. Mas não estava muito a pensar nisso, era só para manter a forma. Até que ele disse: “Assina e no momento em que aparecer qualquer equipa e queiras ir embora, nós abrimos as portas e vais”. E pronto, acabei por voltar ao clube onde tinha começado.

Veio ganhar quantas vezes menos do que ganhava na Índia?
Era uma diferença muito grande. Muito mais do que 10 vezes menos. Sinceramente, o dinheiro faz falta, é certo, mas o desgosto que sentia era maior. Não estava a acreditar que depois de tudo o que tinha passado para chegar onde cheguei, tinha descido tão rápido.

Na época 2019/20, o central assinou pelo Olympiakos Nicosia, de Chipre

Na época 2019/20, o central assinou pelo Olympiakos Nicosia, de Chipre 

D.R.

Ficou a época inteira no 1.º Dezembro?
Fiquei até dezembro. Entretanto, apareceu um agente que disse que tinha um clube em Itália para mim. Disse que era um clube da II Liga, mas quando cheguei, percebi que era um clube, o Messina, de uma liga muito mais abaixo. Cheguei com um jogador que na altura estava comigo na seleção, o Amido Baldé, que jogou no Celtic. Fomos os dois juntos e ficámos amigos. Inicialmente não pudemos jogar logo porque faltava tratar de algumas burocracias. Mas adaptei-me muito bem ao futebol italiano.

Do que mais gostou no futebol italiano?
Eles são muito táticos, não correm por correr. Cada movimentação defensiva tem um propósito. Mesmo estando pouco tempo em Itália, aprendi muito e sinto que até hoje ainda levo um pouco desses ensinamentos. Havia treinos em que não tocávamos muito na bola, só fazia movimentações. Gostei muito. Gosto da língua também.

Nunca foi alvo de racismo?
No mundo do futebol encontra-se sempre uma ou outra pessoa que te quer ferir, distrair, e faz essas coisas, mas no tempo em que lá estive não senti muito, talvez pelo meu tamanho, mas vi meterem-se com outro colega, mais novo e tímido. Eles sabiam a quem fazer. No final da época vim embora para Portugal de novo e depois fui para Chipre.

 

Em ação pelo Olympiakos de Nicosia

Em ação pelo Olympiakos de Nicosia

 

D.R.

Histórias para contar de Itália, tem?
Aconteceu-me uma coisa em Itália que não quis acreditar até perceber que era mesmo verdade. Eu estava a jogar, corria tudo bem, tanto que depois de três, quatro jogos surgiram alguns agentes a querer falar comigo. Falava-se de uma equipa da II Liga que poderia estar interessada em mim. Mas passado um tempo entrou um diretor para a equipa que começou constantemente a implicar comigo e eu não entendia o porquê.

A implicar, como?
Eu estava no jogo, fazia um passe, ele gritava, que eu devia ter passado para outro lado. Espera ai, ele nem treinador é, é diretor. Estou dentro de campo, eu tomo as minhas decisões, se fiz um passe para aquela pessoa foi porque achava melhor. Ele foi fazendo isso cada vez mais, gritava o meu nome, sempre o meu nome, constantemente a gritar, como se eu estivesse sempre a fazer algo errado. No início não entendia. O outro central era jogador dele. Passado uma semana trouxe mais um. De repente o treinador mudou de atitude comigo. Quando cheguei ele estava sempre a incentivar-me, gostava de mim, e do nada, tirou-me. Continuei a treinar e ele não me metia a jogar. Até que há um jogador que leva amarelo, pensei ser a minha oportunidade de jogar de novo. Ele meteu um miúdo. O miúdo jogou bem e no jogo seguinte ele voltou a meter o miúdo no banco, mas passados uns jogos ele voltou a meter o miúdo quando há nova lesão do outro jogador. Percebi que ele não ia meter-me mais a jogar. Chegou uma altura em que perguntei ao treinador o que se passava. Ele disse que não tinha nada contra mim.

O que aconteceu depois?
Num jogo importante há um jogador que, não sei porque, decidiu que não ia jogar. Há um jogador brasileiro que vem ter comigo e diz: “Mano, já sei porque não jogas. Afinal, quem faz equipa é o diretor, o capitão e os dois jogadores que o diretor trouxe. Os jogadores passam a mensagem ao diretor, o diretor passa para o treinador e o treinador mete a equipa”. Não acreditei na altura, apesar de saber que eles estavam sempre juntos, iam jantar fora com as mulheres e tudo. Não acreditava. Mas o rapaz voltou a dizer: “Samba, não estou a mentir, estou a dizer-te isto porque eu andava com eles, eles fazem isso”. Nunca tinha visto isto no futebol. Foi algo que me chocou.

O que fez com essa informação?
Fiquei chateado, mas não quis acreditar. Até que comecei a perceber que realmente se passava alguma coisa. Pelo meio ainda tive uma má atitude, num jogo em que o treinador disse para eu entrar, faltavam dois minutos para o jogo terminar. Não sou de resmungar, mas disse: “Estás a brincar comigo, queres meter-me a jogar dois minutos, depois de tudo o que andas a fazer?”; “Não queres jogar?”; “Estás a perguntar-me realmente se eu quero jogar dois minutos?”; “Então fica aí”. E meteu outro jogador. Fiquei nervoso. O meu colega falou comigo, disse para falar com o treinador. No dia seguinte fui ter com ele disse que a minha atitude não tinha sido boa, mas aproveitei: “Já agora que estamos aqui vou fazer-te uma pergunta de homem para homem: És tu quem realmente está a fazer a equipa?”; “Como assim?”. Disse-lhe o que sabia, ele disse-me que não, que isso nunca ia acontecer com ele. Mas no final, acabei por descobrir que era mesmo verdade. Ainda acabei por jogar porque precisaram de mim e o presidente quis renovar comigo, mas disse que não havia chance. Depois dali a minha vida começou a melhorar novamente.

Sambinha festeja um golo com os colegas da equipa cipriota

Sambinha festeja um golo com os colegas da equipa cipriota

 

D.R.

Dali foi para o Olympiakos Nicosia, do Chipre, em 2019/20, certo?
Sim. No final da temporada recebi uma chamada de um agente a perguntar se estava interessado em ir para Chipre. Não queria acreditar porque o clube era da I Liga. Depois o treinador ligou-me e acabei por ir.

Quais foram as primeiras sensações quando chegou a Chipre?
Sentia que tinha de provar que ainda era o mesmo Samba, devido à situação pela qual tinha passado. Tanto que quando cheguei, perguntavam: “Vieste da Índia?”, num tom de desvalorização. Mas senti que regressei bem, fiz um bom campeonato, estive nas eleições dos melhores defesas e meteram-me na equipa do ano. Foi um recomeço.

Gostou de viver em Chipre?
Foi dos países onde mais gostei de viver, depois dos EUA.

E dos cipriotas também gostou?
Sempre me dei bem com eles. Felizmente não passei pela fase de estar mal e ser alvo das críticas dos adeptos. Sempre recebi muito apoio dos adeptos. Sinto que o meu regresso ao futebol a sério foi em Chipre.

Gostou do futebol que lá se pratica?
Gostei. Tive algumas oportunidades de ir para algumas equipas, o APOEL Nicósia, o AEL, falava-se também do interesse do Anorthosis, mas não consegui sair, o presidente não me deixava sair. Tinha assinado por dois anos. Antes de ir embora, o APOEL estava interessado, era a oportunidade de ir para uma equipa grande, mas o presidente por seis meses não me deixou ir. Entendi que a melhor opção seria sair de Chipre porque ali os presidentes são todos inimigos em termos futebolísticos, mas são todos amigos, todos devem favores uns aos outros.

O central esteve três épocas em Chipre

O central esteve três épocas em Chipre

 

D.R.

O futebol em Chipre durante alguns anos ficou conhecido pelos resultados viciados. Alguma vez foi abordado?
Graças a Deus não e nunca estive num jogo que induzisse tal coisa.

Teve muitos treinadores nos dois anos em que lá esteve. Algum que o tenha marcado mais?
Gostei muito do primeiro treinador [Pampos Christodoulou] e do Petrakis, o pai, porque também tive o filho como treinador. O pouco tempo que esteve connosco ensinou-nos muita coisa.

Como vai parar depois a Israel?
Terminei o contrato, não quis renovar e estava à espera para ver o que aparecia, estava confiante. Aguardei um pouco. Apareceram coisas de vários países, entre eles um projeto de Israel. Eu não sabia das guerras de Israel, nem havia ainda esta guerra. Era uma equipa que tinha acabado de subir, o Maccabi Bnei Raina, mas que tinha boas perspetivas de futuro.

Quando chegou a Israel, em 2022/23, encontrou o que estava à espera?
Superou as minhas expectativas para ser sincero. Não conhecia Israel. Muita gente pode pensar que em Israel há guerra por todo o lado e casas destruídas e não é nada disso. Israel faz-me muito lembrar Lisboa, Telavive basicamente é Lisboa. Depois tem outras cidades mais árabes com mais mistura e cultura árabe, como Haifa, onde há mistura de árabes com judeus, mas é um país onde se vive bem. Não é nada daquilo que eu tinha na cabeça.

Em 2022, Sambinha foi jogar para o Maccabi Bnei Raina, de Israel

Em 2022, Sambinha foi jogar para o Maccabi Bnei Raina, de Israel

 

D.R.

Onde estava quando aconteceu o ataque a 7 de outubro de 2023?
Estava aqui em Israel, mas a cidade onde estou é longe da fronteira com Gaza.

Sentiu que mudou muita coisa de lá para cá, mesmo aí em Reineh?
Sim, a mentalidade das pessoas mudou porque há sempre alguém que perdeu um conhecido ou um ente querido. Os dois lados, árabes e judeus, estão muito revoltados.

Nunca sentiu medo?
Inicialmente não, porque eles têm um sistema anti mísseis muito forte e porque estava tudo longe da cidade onde estou. Neste momento, já sinto um pouco mais de receio, porque já houve ataques terrestres. Isso já me deixa mais assustado e menos à-vontade. Mas eu evito falar do assunto e tomar posições. Estou num país onde a parte norte é mais árabe e a parte sul mais de judeus. Eles acusam-se reciprocamente. É uma guerra que já existe há muitos anos e para ter opinião temos de entender realmente o que se passa e nem sempre temos as informações por completo, então, mesmo para a minha própria segurança, prefiro não comentar este tipo de situações, nem escolher lados.

Acaba contrato no final desta época. Vai ponderar renovar se estiverem interessados ou quer partir para outro país?
Não está nos meus planos continuar num país em guerra como está agora, mas veremos como as coisas evoluem. Não sabemos como é o amanhã. Eles aqui acreditam que com o Trump na presidência dos EUA, a guerra vai acabar. É o que eles dizem. Vamos ver.

E do futebol, gosta?
O futebol em Israel surpreendeu-me ainda mais do que em Chipre porque ainda é melhor, tem mais intensidade, há jogadores novos com muita qualidade. As equipas que vão às competições europeias têm mostrado como é o futebol daqui. Dão sempre luta.

São realmente amantes de futebol? Há muitos adeptos nos estádios?
Sim. Jogos com o Maccabi Haifa, o Maccabi Tel Aviv ou o Hapoel Beer Sheva são capazes de levar 30 a 40 mil espetadores.

Não tem nenhum português na equipa?
Não, mas conheço dois portugueses que jogam cá, o Miguel Vítor e o Hélder Costa.

Como é o seu dia a dia?
Treino de manhã, almoço, durmo uma hora ou duas, depois vou fazer ginásio, janto, vejo um pouco de televisão e vou dormir. Antes da guerra gostava muito de viver aqui, está sempre sol, tem praias bonitas, tem sítios bonitos para caminhar e passear, tem muitos turistas, até dizia a amigos para vir visitar, mas agora, é mais complicado.

Que ambições ainda tem?
A minha ambição continua a ser chegar ao mais alto nível. Gostaria de jogar numa equipa que pudesse jogar competições europeias. E ainda acredito que seja possível. Continuo a representar a seleção da Guiné também.

Sambinha (no centro) em ação pelo Maccabi Bnei Raina

Sambinha (no centro) em ação pelo Maccabi Bnei Raina

 

D.R.

Quando foi chamado pela primeira vez para representar uma seleção e de que país?
Foi para a seleção da Guiné, há nove anos, já tinha 21 ou 22 anos. Na altura o selecionador era o Paulo Torres, fiz três ou quatro jogos, depois ele saiu e o selecionador que veio deixou de me convocar, na altura eu até estava nos EUA. Cheguei a jogar com o meu irmão na seleção.

Que tal foi jogar com o seu irmão?
Ele resmunga muito, manda vir muito comigo. Eu sei que é para o meu bem. É aquele choque que às vezes é necessário.

Acredita que conseguirá jogar em Portugal numa equipa da I Liga?
Nunca joguei numa equipa da I Liga em Portugal, mas sinto-me com capacidade para jogar na I Liga portuguesa. Apenas não houve oportunidade, os meios, os contactos, mas sempre acreditei que podia jogar na I Liga portuguesa.

Quem é o central de grande referência para si?
Koulibaly.

Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Queria continuar ligado ao desporto, não como treinador, mas talvez como preparador físico ou outra coisa.

Está disposto a voltar a estudar para isso?
Sim, porque agora a cabeça já é diferente [risos].

O central continua a representar a seleção da Guiné-Bissau

O central continua a representar a seleção da Guiné-Bissau

 

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
Aqui em Israel.

Já investiu?
Sim, em imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida até hoje?
Fui à Louis Vuitton e comprei mala, bolsa e ténis.

Tem algum hobby?
Gosto muito de ver Netflix.

Acredita em Deus?
Tenho muita fé, sou muçulmano, mas não sou praticante a 100%.

Superstições?
Entrar com o pé direito no campo.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Não.

Qual a maior frustração que tem na carreira até ao momento?
Não ter ido mais longe.

E o maior arrependimento?
Ter tido más escolhas em certos momentos da minha vida. O maior talvez tenha sido ter ido para a Índia.

Mamadu Candé e o irmão Sambinha, num estágio da seleção guineense

Mamadu Candé e o irmão Sambinha, num estágio da seleção guineense

 

D.R.

O momento mais feliz da carreira?
Quando assinei pelo Sporting.

Um objetivo que ficou por cumprir?
Levar a minha mãe ao estádio e dedicar-lhe um golo.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Real Madrid.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Nani [Soares], o Mauro Riquicho e o Manafá.

É conhecido por Sambinha, um diminutivo do nome Samba, mas tem ou teve outra alcunha?
Não, sempre fui Sambinha devido ao meu primo que também era Samba e eu como era o mais novo chamavam-me Sambinha e ficou até hoje.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Não gosto do VAR porque está constantemente a parar o jogo.

Tem algum talento escondido?
Eu sei driblar, mas as pessoas pensam que não sei [risos].

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
Talvez o Fredy Montero, no Sporting.

O momento mais triste que viveu?
A perda do meu tio e do meu pai.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Nunca tive essa opção. Sempre acreditei desde pequeno que ia ser jogador.

 

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“Quando entrei no FC Porto com o Peseiro havia um ambiente destrutivo, jogadores que não queriam estar ali, era uma equipa sem ADN Porto”

Alexandre Santos, 48 anos, pode não ser (ainda) um nome muito conhecido do futebol português, talvez pelo facto de ter passado muitos anos como adjunto, maioritariamente de José Peseiro. Mas foi recentemente tricampeão de Angola, onde conquistou outros títulos, e já passou por vários países e clubes de renome, como o SC Braga, FC Porto, Sporting, ou o Al Ahly, entre outros. Nesta parte I do Casa às Costas, em que falamos sobretudo desse percurso inicial como adjunto, revela imensos pormenores sobre os clubes, as equipas, os dirigentes e treinadores com quem lidou e conta várias histórias, que metem sheiks, garagens com carros e Transformers, e outras imperdíveis aventuras

É de Lisboa. Comece por nos apresentar a família onde nasceu.
Sou filho de dois operários fabris que trabalhavam numa empresa metalúrgica no concelho de Vila Franca de Xira. Cresci em Alhandra. Nunca dei muito trabalho aos meus pais, até nascer o meu irmão, que é seis anos mais novo, porque a partir de uma determinada idade brincávamos muito, mas também nos chateávamos bastante.

Gostava da escola?
Sim. Ainda me recordo muito bem da creche, era no trabalho da minha mãe e eu adorava. Lembro-me muito bem de sair de mão dada com a minha mãe. Mas aos 10 anos já apanhava o autocarro e depois ia a pé para a escola uns 15 ou 20 minutos, com amigos. Tínhamos uma independência muito diferente daquela que os miúdos têm hoje. Tenho dois filhos, um com 18 anos que entrou este ano para a faculdade e uma menina com 12, e a vida deles já foi muito diferente.

Em pequeno, o que dizia querer ser quando fosse grande?
Queria ser como o meu pai. O meu pai fazia teatro e eu queria fazer teatro, o meu pai trabalhava numa tipografia, eu adorava estar com o meu pai a vê-lo trabalhar na tipografia. Depois ele foi trabalhar na Câmara, na área do desporto, e eu queria também trabalhar na área do desporto e foi aí, na adolescência, que decidi que queria ser professor de Educação Física.

Praticou algum desporto federado?
Sempre. Comecei por fazer ginástica, natação, depois passei para o andebol, estive vários anos no andebol porque o meu pai estava no andebol, eu andava sempre muito com o meu pai. Também andava como o pai quando ele era jogador de futebol, não sendo profissional, jogou muitos anos. Pratiquei futebol federado durante vários anos e mal entrei na faculdade comecei a perceber que não ia dar jogador e passei a querer ser treinador de futebol. E foi o que fiz, fui treinador de futebol e professor de Educação Física, quando saí da Faculdade de Motricidade Humana.

Alexandre Santos em criança

Alexandre Santos em criança

 

D.R.

Como percebeu que não ia ser jogador?
Comparando com os outros e não só. Sempre tive muita consciência do que valia e de como sou. Eu era uma pessoa focada naquilo que fazia, gostava de estudar no sentido de estar preparado para as avaliações. Por exemplo, como jogador, gostava muito mais de treinar do que de jogar. Mas comecei a perceber que só o facto de treinar bem não chega. Tinha de ter outras características que não tinha, nem físicas, nem mesmo de anos de futebol para trás e o clube onde estava não me permitia sonhar em ser profissional. Joguei no Alhandra SC e UD Vilafranquense. Era muito consciente e comecei logo a tirar cursos de treinador.

Jogou em que posição?
Era guarda-redes. Sou baixinho para guarda-redes, também fui guarda-redes no andebol.

Em casa torciam por que clube?
A influência não era de nenhum dos três grandes. O meu pai era Belenenses, sempre foi, porque o meu avô era sócio do Belenenses. Eu gostava muito do Belenenses, mas como qualquer criança queria ganhar e ser de um clube que ganhasse. Como era azul, comecei a ser muito mais adepto do Futebol Clube do Porto, porque ganhava muito quando comecei a ver futebol, na década de 80. Consumia muito futebol porque o meu pai jogou até aos 32 anos, já eu tinha 10 anos e todos os dias ou quase todos os dias eu ia com ele para os treinos e aos jogos. Tenho fotografias, equipado com a equipa, tipo mascote.

Quando começou a ser treinador?
Logo que entrei para a faculdade comecei a dar treinos aos infantis do Alhandra SC. Gostei muito e percebi que era algo que dificilmente ia deixar de fazer. Fui treinador de vários escalões até aos seniores e há muitos anos que sou profissional.

Terminou o curso e foi dar aulas de Educação Física numa escola?
Fui dar aulas, mas aí é que se dá uma grande mudança na minha vida. A perspetiva normal era ser professor de Educação Física numa escola e continuar a dar treinos no Alverca, onde já estava como treinador nos escalões de formação. Mas em vez de ir para uma escola secundária mal concluí o curso, entrei para professor-assistente na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, cargo para o qual me havia candidatado. Faço o mestrado e entro na carreira de professor de ensino superior, num Politécnico que naquela altura começou a formar treinadores de futebol. Ou seja, nunca fui professor de Educação Física, ou melhor, só fui no estágio.

Alexandre com os pais (no centro)

Alexandre com os pais (no centro) 

D.R.

Já havia algum namoro sério?
Houve um primeiro namoro, até acabei por sair de casa pela primeira vez para viver com essa minha namorada, mas as coisas não resultaram e voltei à casa dos meus pais onde estive até casar, em 2002, com a minha atual mulher e mãe dos meus filhos. Ela curiosamente chama-se Alexandra, é de Alhandra também, e é técnica de farmácia hospitalar, trabalhou muitos anos no hospital de São José e no Hospital Curry Cabral.

Como foi parar ao Estoril Praia como preparador físico em 2005/06?
Estava no Alverca a treinar, no escalão abaixo dos seniores. Já tinha credenciação de treinador, podia treinar qualquer equipa em Portugal. Tinha 29/30 anos e senti que tinha de sair do Alverca porque já não havia mais ali para caminhar. É aí que sou convidado para treinador-adjunto ou treinador físico, como quisermos chamar, do Daúto Faquirá, que conhecia do curso de treinador de Nível III, no Estoril Praia.

Qual o valor do seu primeiro ordenado como treinador-adjunto no futebol profissional?
Já não me lembro se recebi alguma vez porque foi complicado receber, o Estoril quase acabou. Mas lembro-me que eram €1500. E continuava como professor. Conseguia conciliar porque na Escola Superior de Desporto de Rio Maior havia um grande interesse também em que eu não fosse só professor, mas também pudesse ter ligação com à prática.

Quando foi convidado pelo Daúto Faquirá não hesitou?
Não, até tinha outra proposta para ir para o Benfica, não para seniores, mas como treinador das camadas jovens, mas eu queria muito o futebol sénior profissional e entendi que se continuasse no futebol jovem, por muito que quisesse e gostasse de treinar num clube grande como o Benfica, não poderia pensar nisso nos próximos anos senão iria ficar só associado às camadas jovens e ia continuar assim.

Quais eram as suas funções em concreto no Estoril Praia? Era mais de preparador físico?
Era ocupar-me efetivamente da área física, mas, ao mesmo tempo, como o processo de treino era muito transversal às várias áreas, no fundo, eu era o adjunto que estava mais preocupado e mais responsabilizado pela área metodológica do treino, pelos exercícios, pelo controlo do treino. Ele geria mais as questões coletivas da equipa e eu acabava por estar mais ligado às questões operacionais dos exercícios. Considerava-me um treinador adjunto de campo, embora tivesse as funções acumuladas também de preparador físico.

Ainda em criança, Alexandre (1.º em baixo à esquerda) acompanhava o pai (2º à direita em baixo) que jogou no Alhandra da III Divisão

Ainda em criança, Alexandre (1.º em baixo à esquerda) acompanhava o pai (2º à direita em baixo) que jogou no Alhandra da III Divisão

 

D.R.

Qual foi o maior desafio nessa primeira experiência no futebol sénior?
A grande dificuldade não tinha a ver com o futebol e com as questões da minha profissão, isso não achei difícil nem nada de surpreendente, mas a compatibilização com a família começou a ser muito mais difícil. O meu filho ia nascer nessa altura, a vida familiar com a minha mulher complicou-se. Ainda por cima continuava a ser professor em Rio Maior, por isso tinha uma vida muito, muito ocupada. Era de segunda a segunda, de domingo a domingo, não tinha dia de descanso, saía de casa de manhã e entrava à noite, com muitos quilómetros pelo meio. Foram os momentos mais difíceis de congregar família-trabalho.

O que mais o surpreendeu no Estoril Praia e na II Liga?
Primeiro, o nível dos jogadores era claramente muito mais alto do que aqueles que eu estava habituado até então, embora trabalhasse com jogadores de sub-19 de nível nacional, até de seleção, mas na II Liga já havia jogadores com um nível de intensidade de jogo muito alto. Percebi que, embora estivesse a trabalhar no Alverca num nível bastante profissional, o nível profissional de alto rendimento exigia outras coisas de mim e obrigava-me a ser claramente mais forte em vários aspetos e principalmente na relação com os jogadores. Estamos a falar de homens adultos, muitas vezes até pais de família, que têm ali o seu ganha-pão, para terem sucesso e não para virem a ser jogadores de futebol: eles já são jogadores profissionais de futebol, querem ganhar dinheiro e querem os seus interesses, mais do que eu estava habituado, porque os jovens tinham outra forma de estar. Tive que me adequar e adaptar e perceber que o treinador que eu era não podia continuar a ser igual com jogadores adultos, muito mais maduros e experientes.

A que fontes ia buscar informação para preparar o seu trabalho?
Com a entrada na Escola Superior de Rio Maior eu estava dentro do meio do futebol, da investigação e do conhecimento de futebol. A minha função também era dar formação e trazer treinadores de alto nível à escola, por isso contactava todos os meses com treinadores da I Liga de grande nome. Tinha como professor orientador da cadeira de futebol o professor José Peseiro, de quem eu era assistente. É a minha grande referência daquilo que hoje sou como treinador no dia a dia. Eu estava no meio da informação, tinha contacto diário com aquilo que era o conhecimento mais avançado do futebol, não só do José Peseiro, como do José Mourinho, do Carlos Queiroz, do Fernando Santos, de grandes mestres, de grandes treinadores.

Quanto tempo esteve no Estoril Praia?
Seis meses. Em janeiro o clube não tinha água porque não pagava, caiu a direção e caíram os treinadores com a direção. Veio um novo investidor, o João Lagos.

Chegou a receber algum ordenado?
Conseguimos receber alguma coisa, mas houve bastante que ficou para trás.

Aos 10 anos, Alexandre (1.º atrás à direita) fugia de casa dos avós para ir para o ringue do União Desportiva Recreativa A-dos-Loucos, jogar à bola

Aos 10 anos, Alexandre (1.º atrás à direita) fugia de casa dos avós para ir para o ringue do União Desportiva Recreativa A-dos-Loucos, jogar à bola

 

D.R.

Na época seguinte, 2006/07, foi com o Daúto Faquirá, para o Estrela da Amadora, da I Liga. Notou muitas diferenças?
Notei uma diferença substancial, principalmente porque começámos a jogar contra equipas como o FC Porto, o Benfica, o Sporting, o SC Braga e já não tem nada a ver. O Estoril era uma equipa que tinha como objetivo subir de divisão. Mas a II Liga tem sempre muitas equipas que querem subir. Na I Liga, o Estrela era uma equipa muito pequena, que disputava um campeonato com clubes que tinham orçamentos muito maiores e grandes equipas. Lembro-me que à 6.ª jornada tínhamos um ponto, não tínhamos nenhuma vitória e se não ganhássemos o 7.º jogo teríamos acabado a nossa carreira na I Liga sem nenhuma vitória, e não sei o que teria sido depois. Ganhámos o 7.º jogo e acabámos por ficar bem classificados, fizemos uma grande época e estivemos dois anos seguidos no Estrela da Amadora.

Isso obrigou-o a alterar muito os seus métodos?
Obrigou-me primeiro a perceber melhor o que é lutar todos os jogos por um ponto. Embora as equipas joguem para ganhar, sabíamos que qualquer ponto conquistado por uma equipa que não quer descer de divisão é fundamental. Era uma lógica diferente, que se instala na nossa forma de treinar; não é igual treinar uma equipa cujo objetivo é vencer algum título, ou ser melhor que as outras todas. É diferente. Foi um grande teste à nossa adaptação e à nossa resiliência, de perceber que tínhamos de adaptar-nos a um conjunto de jogadores que tinham grandes expectativas, mas também não podíamos pensar que íamos ganhar os jogos todos ou que estávamos a disputar para vencer o que quer que fosse. Conseguimos uma grande época também derivado do facto de percebermos que o clube tinha muitas limitações e tínhamos de ser um grupo muito forte. Conseguimos ser, mas foi muito difícil. Foi, com o Estoril, talvez os dois projetos mais difíceis que tive até hoje para conseguir ultrapassar os problemas. No Estoril eram mais os problemas de ordem diretiva e de organização, no Estrela era mais de ordem financeira e de tudo ser muito difícil para nos mantermos.

Continuava a dar aulas em Rio Maior?
Sim. Fiz carreira. Ainda hoje sou professor em Rio Maior, mas de licença. Entrei em 1999 e pedi a minha primeira licença em 2010, para sair pela primeira vez do país.

Alexandre com o irmão Filipe (à esquerda), seis anos mais novo

Alexandre com o irmão Filipe (à esquerda), seis anos mais novo

 

D.R.

Antes de sair do país, após as duas épocas no Estrela, não esteve ainda no V. Setúbal, em 2008/09?
Só fizemos meia época, porque fomos despedidos.

O que não correu bem?
Foi muito difícil porque não é um grande, mas é um grande da região e é uma equipa histórica, que teve sempre expectativas altas. Vinha de uma época anterior muito boa e no ano seguinte tivemos vários problemas de direção. O presidente não pôde ser presidente, depois veio um presidente interino, depois o plantel não foi construído da melhor forma e acabou por ser muito difícil até que se deu a substituição dos treinadores. Eu saí com o Daúto. Foi uma experiência interessante, mas as condições do clube na altura eram muito aquém das necessárias e não é por acaso que o Vitória de Setúbal veio a ter muitas dificuldades nos anos seguintes.

Como e quando surgiu o convite para ser adjunto de José Peseiro, na seleção da Arábia Saudita?
Sou muito amigo de José Peseiro e ele deu-me o prazer de me convidar numa altura em que eu estava para iniciar um projeto como treinador principal nos seniores do Alverca. Quando o José Peseiro me convidou para ir para junto dele não hesitei porque era muito apetecível e era um grande sonho. Era trabalhar ao mais alto nível pela primeira vez em termos de futebol. Era adjunto de uma seleção que não é do top mundial, mas é uma seleção de um profissionalismo de nível competitivo muito alto e isso foi um grande salto. Foi com a mão do José Peseiro que passei para outra dimensão de profissionalismo e que foi muito importante para aquilo que sou hoje como treinador.

Foi a primeira vez que saiu do país para trabalhar. Como geriu a situação a nível familiar?
Já era pai, o meu Guilherme já tinha quatro anos. O mais difícil foi sentir precisamente o que é estar longe da família. Foi o mais difícil de tudo, muito mais do que a realidade profissional em si. Eles ficaram em Portugal naturalmente porque não sabia o que ia acontecer, ia para a Arábia Saudita e é difícil levar a família para lugares onde não controlamos absolutamente nada. Eu vivia num hotel.

Alexandre Santos foi guarda-redes (de camisola azul) no clube do bairro antes de jogar no Alhandra

Alexandre Santos foi guarda-redes (de camisola azul) no clube do bairro antes de jogar no Alhandra

 

D.R.

Como foi o primeiro impacto na Arábia Saudita?
Foi fantástico, mesmo no sentido da diferença cultural. Porque era um mundo completamente diferente, ainda mais do que agora, porque estamos a falar de 2010. A Arábia Saudita era muito fechada. Um contexto árabe, onde a religião e as tradições se faziam sentir como em poucos países. Dos mais fechados, onde está Meca e Medina, onde existe a presença da religião de uma forma completamente inseparável daquilo que é a vida das pessoas.

O que mais o chocou na altura?
Não sinto que fiquei em choque com nada, até porque tive pessoas que já lá estavam e fizeram muito bem essa introdução. Mas posso dizer que me impressionou a forma como a marca religiosa pode influenciar determinantemente a vida das pessoas e a forma como elas são. Desde os horários das rezas, o fechar tudo constantemente, os supermercados, tudo, qualquer loja onde estivéssemos fechava quando vinha a hora da reza e se estivéssemos na loja tínhamos de lá ficar até voltar a abrir; os hábitos de relacionamento entre homens e mulheres, as questões das vestes. Nós como ocidentais termos de nos adaptar e respeitar as regras e os costumes, inclusive no meu contrato, nunca mais me esqueço, que foi o primeiro grande contrato da minha vida, tinha uma cláusula onde dizia que, se não cumprisse com as regras, os costumes, os hábitos e as culturas instituídas no país daria direito a rescisão e isso é evidentemente a importância que eles dão ao tradicionalismo e a não se deixarem influenciar pelos outros povos. Não podemos pensar que vamos lá e fazemos a vida que fazemos em Portugal. Aliás, a propósito, tenho uma história.

Conte.
Estava lá há um mês e um dos adjuntos que estava lá há mais tempo estava sempre a dizer-me para ter cuidado, para não tirar fotografia porque não deixam, nem mesmo dentro do carro porque podia algum policia ou militar ver e acontecer alguma coisa. Mas como sempre viajei muito, gostava de tirar fotografias até para partilhar com a minha mulher e com a família. E, claro que tirava um bocadinho às escondidas. Um dia fomos ao banco fazer os procedimentos de abertura da conta e além de uma extraordinária estrutura de arame farpado à volta do banco, em cada canto do banco, cá fora, havia uma metralhadora enorme. Uma delas era mesmo enorme, nunca tinha visto uma arma tão grande. Fiquei tão impressionado por ser tão diferente, que ia tirar uma fotografia com o telemóvel. Antes de conseguir tirar a fotografia, de repente sai um polícia de dentro de uma estrutura que estava junto da arma, a gritar em árabe e a mandar vir comigo. Vieram mais uns três ou quatro, veio um que sabia inglês, mas pouco, e de repente vejo-me sem telemóvel, agarram-me e levam-me para o posto da polícia. Tiraram-me os documentos. Por sorte o outro adjunto veio comigo, mas, na verdade, estive mais ou menos preso durante meia hora. Enquanto esperava, pensava se iam rescindir o contacto e mandar-me de volta, devido à tal cláusula. Quando me chamaram, quiseram que eu explicasse todas as fotografias que tinha. Nunca me tinha sentido tão violado em termos de privacidade. Felizmente tinha fotografias de futebol e da seleção e foi aí que me puseram em contacto com o tradutor da seleção e perceberam que eu era adjunto do Peseiro. Mas senti-me amedrontado [risos].

Nos juniores, Alexandre (3.º atrás à direita) jogou no UD Vilafranquense

Nos juniores, Alexandre (3.º atrás à direita) jogou no UD Vilafranquense

 

D.R.

A que mais lhe custou a adaptar?
Sem dúvida a ausência da minha mulher, do meu filho e da minha família. Percebi logo que ia ser o grande calcanhar de Aquiles da minha carreira e da minha vida como treinador, o estar longe da família. É muito difícil. Hoje em dia estou mais adaptado a essas circunstâncias e vou gerindo melhor. Por vezes vivem comigo, mas por vezes as realidades onde nos encontramos não o permitem.

Com que opinião ficou do jogador árabe?
O futebol saudita é recheado de qualidade técnica, na altura intitulavam-se ou diziam muito que eram os "brasileiros" do futebol árabe.

E eram?
Tecnicamente eram efetivamente evoluídos, mas naturalmente não têm o impacto externo de outros países porque não saem. Tínhamos uma seleção só de jogadores sauditas que jogavam todos no próprio país, havia um a jogar nos Emirados Árabes Unidos. Não saem porque, primeiro, ganhavam muito dinheiro face àquilo que é o panorama para ter interesse em sair e depois, porque são pessoas enraizadas de hábitos e rotinas típicas árabes, de irem para outros países não árabes. Já estive noutros países árabes, onde as raízes religiosas e culturais são árabes, mas não têm o mesmo rigor, não têm a mesma rotina, que leva a que seja menos difícil adaptarem-se a um país não árabe. Também pela qualidade de vida que têm no seu próprio país acabam por não sair.

Estiveram quanto tempo na Arábia Saudita?
O Peseiro já estava lá há um ano e tal, eu estive mais uma época. Voltando à questão do impacto, por exemplo, nós tínhamos uma rotina diária completamente ao contrário da vida ocidental. Tínhamos horas e horas de trabalho, mas todas à noite e pela madrugada dentro. Tivemos de adaptar-nos a jantar à meia-noite, voltar a trabalhar à uma da manhã, treinar a essas horas, voltar ao hotel, tomar uma ceia e ir dormir, às cinco ou seis da manhã; porque eles aproveitam para fazer a primeira reza do dia por volta dessa hora e depois é que dormem. De repente vivemos completamente ao contrário.

E mais histórias para contar da Arábia?
Fomos jogar a Golf Cup, ao Iémen, um dos países mais complexos e mais difíceis do mundo. Foi cheio de segurança e de formalidades inerentes ao facto de ser a Arábia Saudita, porque é o país mais poderoso do Médio Oriente e, no fundo, a representação máxima da nação árabe e muçulmana. Aí foi mesmo um choque completo porque a cidade onde fomos jogar era muito pobre a um nível que nunca tinha visto. De 10 em 10 metros, durante muitos quilómetros, havia um polícia ou um militar com uma arma na mão. Começámos a perceber que todos os militares tinham uma espécie de bola na boca, que fazia inchar as bochechas. Viemos a perceber que era uma tradição, de mascar uma planta ou erva [Khat], que tem um teor tóxico. Estão todo o dia em constante dose tóxica de droga e com uma arma na mão.

Em 1994, Alexandre Santos (1.º atrás à direita) iniciou o seu percurso como treinador no A.S.C.

Em 1994, Alexandre Santos (1.º atrás à direita) iniciou o seu percurso como treinador no A.S.C.

 

D.R.

Vieram embora porquê?
Tivemos também uma experiência muito caricata. Entrámos na Ásia Cup de 2010, que é como se fosse o Campeonato da Europa, mas neste caso das seleções da Ásia, que se realizou no Catar. São grupos de quatro equipas, fizemos o primeiro jogo contra a Síria e perdemos. Porque politicamente a Arábia Saudita perder contra uma Síria era completamente inconcebível, informaram-nos que o rei entendeu que tinham de mudar os treinadores, independentemente deles acharem que estávamos a fazer um excelente trabalho. O rei manda e as pessoas cumprem. De repente fomos metidos num avião, do Catar para a Arábia Saudita, onde nos receberam muito bem, fizeram as nossas contas do contrato, pagaram o que havia para pagar, sem discutir sequer uma única cláusula, e disseram que quando quiséssemos podíamos ir para Portugal. Foi um despedimento santo, porque não houve discussão nenhuma. Nesses países há muitas decisões acima da parte desportiva, que têm de ser cumpridas.

A seguir vai com o José Peseiro para o SC Braga. Uma outra realidade.
Sim, tenho a primeira experiência no alto nível do futebol português, que foi fantástico. Adorei trabalhar no SC Braga. E voltamos a repetir a entrada em Braga, em 2016. Mas a verdade é que foi a primeira experiência num clube já com uma dimensão de grande e com uma organização muito alta. Foi o meu primeiro contacto em Portugal com uma realidade dessas e foi uma excelente experiência que me deu a conhecer não só os melhores jogadores, como os melhores staffs e melhores condições de trabalho.

Obrigou-o a preparar-se ainda melhor e a ir à procura de coisas novas?
Sem dúvida. Obriga-nos a uma enorme capacidade de não sermos iguais ao que todos são, porque, no fundo, temos de ser capazes de, não tendo que inventar, fazer com que o rendimento dos jogadores e da equipa seja verdadeiramente elevado. É a exigência dos jogadores, que lideramos, que nos obriga a fazer mais e melhor.

Notou que o próprio José Peseiro mudou a forma de estar e de atuar?
Sim. O contexto da Arábia Saudita e o contexto árabe, do ponto de vista do nosso profissionalismo, é muito aquém, não porque não nos dão condições de trabalho ou financeiras, até pelo contrário, mas não há um profissionalismo ou hábitos, uma rotina, idêntica à que existe na Europa.

De 1996 a 2005, Alexandre (5.º na fila do meio a partir da esquerda) foi treinador da formação do Alverca, primeiro como adjunto e a partir de 2000/01 como principal. Na foto com a equipa de 2003/04

De 1996 a 2005, Alexandre (5.º na fila do meio a partir da esquerda) foi treinador da formação do Alverca, primeiro como adjunto e a partir de 2000/01 como principal. Na foto com a equipa de 2003/04

 

D.R.

O que implica treinar clubes grandes em Portugal e lidar com jogadores como Hugo Viana, Ruben Amorim, Beto, Quim, Mossoró, Alan, entre outros?
Primeiro é tudo vivido com muito mais intensidade. O dia a dia é muito mais exigente, mais vibrante. A emoção e a motivação são muito maiores. Quando se vem de um país árabe, ficamos automaticamente super motivados pela inerência da própria profissão e daquilo que gostamos de fazer e temos à nossa frente jogadores que correspondem a essa exigência. No mundo árabe é muito mais difícil porque estamos sempre contra. Estamos sempre a lutar contra a falta de hábitos, de rotinas, de coisas a que estamos habituados. Não é por acaso que a Europa e Portugal tem dos melhores profissionais, jogadores, treinadores e clubes, porque se trabalha melhor e quando se trabalha melhor, quando se é mais exigente e quando o contexto é mais exigente... Quando os jogadores são muito melhores, é muito mais fácil ser treinador.

Em todos os sentidos?
Não. Os egos são maiores e esse é um lado mais difícil. Os egos, os objetivos e as importâncias que os jogadores conseguem ir adquirindo. Mas isso é um lado da gestão, da relação e da liderança do treinador, que tinha muito mais a ver com o José Peseiro do que comigo naquela altura.

E como é José Peseiro nos bastidores e em ambiente de balneário? Existe muito a ideia de que é um tipo bonacheirão, afável e que não é de dar murros na mesa.
[Risos]. As imagens criam-se muitas vezes por causa de certas coisas que vêm cá para fora e que às vezes até nem são totalmente verdadeiras e fica-se com o parecer e não com o ser. O Zé Peseiro é um treinador altamente metódico, altamente rigoroso, de grande exigência no trabalho. É muito, muito exigente e muito forte no trabalho com os jogadores, exige muito deles em todos os segundos e minutos. Tem uma grande capacidade de trabalho e de desenvolvimento de uma ideia de jogo. Sempre me apercebi dessa lógica de que fala, mas conhecendo de perto como o conheço, não faz sentido. Não diria que é o contrário, mas é muito longe disso. É uma pessoa dura até, no trabalho, no sentido que o trabalho é essencial para atingir altos rendimentos e ele não abdica disso. O que vem para fora, quando se está em clubes grandes, porque acontece algo com algum jogador que depois não é resolvido ou porque depois dá a noção disso que acabou de dizer, tem muitas vezes a ver com a forma como os clubes gerem a informação e como os jogadores espalham a informação. Às vezes olha-se para o treinador como aquele que tem de resolver tudo e muitas vezes esses problemas de liderança derivam não do treinador, mas sim de estruturas de apoio que por vezes não apoiam devidamente, ou de estruturas diretivas, e depois é o treinador que acaba sempre por pagar um bocadinho fava.

Em 2005/06, Alexandre (à direita) foi convidado por Daúto Faquirá (à esquerda) para ser seu adjunto no Estoril Praia

Em 2005/06, Alexandre (à direita) foi convidado por Daúto Faquirá (à esquerda) para ser seu adjunto no Estoril Praia 

D.R.

Saíram do SC Braga porquê?
É uma história muito estranha. Entrámos na Liga dos Campeões, atingimos o ponto mais alto do clube a nível internacional até então, e quando passamos a fase de grupos, temos seis jogos muito difíceis, com Manchester United, Galatasaray. Acabamos por fazer alguns pontos, mas não o suficiente, e o melhor do ano transformou-se numa coisa meio complicada. Depois, perdemos em Guimarães para a Taça de Portugal que era algo muito importante para o presidente e ficamos um bocadinho melindrados com a situação. A seguir atingimos a final da Taça da Liga e ganhámos. Ou seja, num ano em que sentimos que há algum mal-estar entre nós e a direção e se calhar sentíamos que podíamos não continuar, acabamos por ganhar um título, algo que não é fácil nunca - SC Braga não tem muitos. Ainda por cima foi ao FC Porto, que foi campeão.

Essa equipa do SC Braga foi construída por vocês?
Alguns jogadores, sim, mas a maioria já vinha de anos anteriores. A equipa até não era muito jovem, tinha alguma maturidade e alguns jogadores em fase final de carreira.

Lidou com Ruben Amorim, na altura, já se vislumbrava que podia tornar-se o treinador em que se tornou?
Eu já tinha apanhado o Ruben Amorim como jogador da seleção de Lisboa, porque houve uma fase em que fui selecionador da distrital de Lisboa. Ele estava no Belenenses. Quando o apanhei em Braga, já era um jogador internacional e tinha estado vários anos no Benfica. Costumo dizer dele que apresentava já características únicas de liderança dentro do balneário. Claro que agora é uma liderança de treinador, mas na altura era uma liderança como jogador, e que não era uma liderança típica. Ele não era capitão, ele era, sim, o único jogador ou dos poucos que conseguia ser extraordinariamente bem relacionado com os portugueses, os brasileiros, os africanos e com os dos balcãs.

Essa capacidade deve-se a quê?
À personalidade dele. Era um jogador que estava sempre bem, jogando, não jogando, jogando a titular, entrando, saindo. Era um jogador que gostava muito de jogar. Tinha uma coisa já: levantava questões, a nós treinadores, muito pertinentes. Fora da típica relação de treinador-jogador.

Consegue dar um exemplo?
Eles muitas vezes brincava até com algumas terminologias que tínhamos. Se calhar já olhava para o treino de uma forma diferente do normal. Às vezes aproveitava expressões nossas e queria perceber o que elas queriam dizer e brincava com elas, porque é muito brincalhão. Gosta e tem essa capacidade de conseguir brincar com toda a gente. É da personalidade dele. Tranquila, sempre no seu espaço, respeitando tudo e todos, mas uma capacidade de relacionamento com os outros e connosco treinadores fácil.

Alexandre seguiu como adjunto de Daúto Faquirá para o Estrela da Amadora em 2006/07

Alexandre seguiu como adjunto de Daúto Faquirá para o Estrela da Amadora em 2006/07

 

D.R.

O Hugo Viana: uma personalidade muito diferente?
O Hugo Viana tem uma história curiosa. Ele era jogador do SC Braga na altura, depois vai para os Emirados Árabes Unidos como jogador e encontramo-nos lá, acabámos por ter vários momentos juntos nos Emirados, havia relação entre ele, o José Peseiro e as famílias. E por consequência acabei por ser convidado mais tarde por ele, quando ele já era aquilo que é hoje, diretor-desportivo do Sporting, para ser treinador da equipa sub-23 do Sporting, em 2019. É ele quem me convida, porque acabámos por continuar uma relação pós-futebol. Eu percebia que ele não queria ser treinador, mas percebi claramente que ele tinha uma capacidade intelectual de entender o fenómeno futebol, e de entender o que é o jogador de futebol, acima da média. Tínhamos conversas fáceis sobre os problemas ou as virtudes do futebol. Sempre senti que era uma pessoa muito acima da média, no sentido de conseguir perceber o que está para além daquilo que é o jogar dentro do campo.

Considera então que ambos estão preparados para o desafio que têm pela frente na Inglaterra?
Completamente. Aquilo que é a preparação das duas pessoas em causa, capacidade de trabalho, capacidade de perceber e de se adaptar aos contextos e o conhecimento do futebol é o mais importante. Se por um lado é mais exigente e mais impactante o que vão fazer, por outro, as condições também são maiores. Acho que tem tudo para dar certo. Embora o sucesso de um não seja o sucesso do outro.

Depois de Braga foi convidado novamente por Peseiro para ir como adjunto dele para o Al Wahda dos Emirados Árabes Unidos. Foi ganhar quantas vezes mais?
No V. Setúbal já não ganhava mal como adjunto, andava à volta dos €2500/€3000 e fui ganhar três ou quatro vezes mais na Arábia Saudita; nos Emirados foi mais ou mesmo a mesma coisa. Para um adjunto é bastante, até porque os clubes que o José Peseiro acedia são clubes de topo. Se forem clubes de menor dimensão, não são esses valores.

Em 2011, Alexandre foi adjunto de José Peseiro na seleção da Arábia Saudita

Em 2011, Alexandre foi adjunto de José Peseiro na seleção da Arábia Saudita

 

D.R.

O impacto nos Emirados foi completamente diferente da Arábia Saudita, certo?
Os Emirados têm uma presença também forte na questão das vestes das pessoas que são naturalmente muçulmanas e há uma cultura, uma religião e uma lógica assente nisso. Mas no modo de vida, na modernidade, é claramente distinto. Neste momento, a Arábia Saudita já está a dar passos nesse sentido, mas o Dubai e Abu Dhabi são de longe sítios onde nós podemos ter o melhor do mundo árabe do Médio Oriente, e o melhor do mundo árabe é simples: segurança total, limpeza, organização, facilidade de acesso à diversão, ao lazer, aos museus, aos espetáculos. Na Arábia Saudita a vida era exclusivamente hotel, ou condomínio, futebol e ir uma ou duas vezes ao deserto, pouco mais. Para ter uma noção, hoje se eu fosse viver para o Dubai ou Abu Dhabi, os meus filhos queriam ir logo comigo. Costumo dizer que é o melhor dos mundos. É o mundo de grande segurança e de grande tradição familiar e o mundo do lazer, da diversão, das águas quentes, da praia, de poder fazer, não é tudo, mas aquilo que nós como família gostamos muito de fazer, passear, divertir-nos, estar em paz, estar em sossego, ainda por cima com condições de vida superiores àquelas que temos na vida quotidiana de um europeu.

E o futebol?
É claramente abaixo daquilo que estamos habituados noutros contextos. Por exemplo, enquanto na Arábia Saudita estamos a falar de um povo que vive muito para o futebol, embora a um ritmo muito mais calmo do que o Europeu, nos Emirados ainda é menos porque tem muito menos população e tem muito mais população estrangeira. A raiz do futebol é muito pouco importante. O futebol é mais um brinquedo mediático dos sheiks. A base do futebol dos Emirados Árabes Unidos é muito pequena.

Que tal as condições dos clubes?
Boas. Não digo que sejam de topo, mas já têm condições muito boas, porque estamos a falar de uma gestão desportiva que assenta muito na escolha dos estrangeiros. Gasta-se às vezes muito mais dinheiro em jogadores que se quer contratar para ganhar o campeonato ou para dar mediatismo ao campeonato do que às vezes se gasta noutras coisas que nós pensamos serem básicas. Quando entrei no Al-Wahda não tínhamos alguns equipamentos básicos no contexto de futebol profissional .

Como, por exemplo?
Controlo do treino, GPS, análise de vídeo, software. O ginásio até estava bem equipado, mas faltavam outras coisas. Existe dinheiro para hotéis, para viagens, para tudo, mas depois às vezes discutem-se pormenores que são essenciais. Tem a ver com falta de visão e de importância das coisas, não com a falta de dinheiro. Os Emirados conseguiram entender que era muito benéfica a entrada dos estrangeiros e não ao contrário. Existem países árabes que fazem ao contrário, fecham-se. Os Emirados tiveram sempre desde a sua nascença uma visão de abertura ao estrangeiro e de aproveitamento do seu conhecimento.

Alexandre foi treinador-adjunto de Peseiro no SC Braga, a primeira vez em 2012/13

Alexandre foi treinador-adjunto de Peseiro no SC Braga, a primeira vez em 2012/13

 

D.R.

Fizeram um 2.º e 4.º lugar nas duas épocas que estiveram no Al-Wahda. O que mais o marcou nas duas épocas?
Desportivamente foi termos chegado a uma equipa que já ganhou títulos, uma grande equipa de Abu Dhabi, mas que estava perto da descida da divisão, o que não era nada normal e após entrarmos, ao 5.º jogo ainda não tínhamos ganhado. Sentimos que naquele 5.º jogo se não ganhássemos podiam voltar a trocar de treinador porque as saídas e entradas ali são ainda mais fáceis de acontecer. A verdade é que tudo mudou com esse jogo, que ganhámos. Pequenos pormenores, um golo aos 80 e tal minutos, deu uma época extraordinária, porque ficámos em 2º lugar. Fomos a equipa que fez mais pontos na 2.ª volta.

Sentiram necessidade de alterar de imediato?
Os hábitos e as rotinas dos jogadores e à volta dos jogadores. É sempre o mais difícil. Fomos muito perseverantes. O José Peseiro é muito, muito metódico nisso. Não alterámos drasticamente tudo, mas alterámos muita coisa. O clube quando acabou essa época tinha uma forma de funcionamento diferente, com horários, com rotinas diferentes.

O que encontrou de mais estranho, mais fora do normal?
Os jogadores faltarem sem haver problema nenhum, ou chegarem atrasados constantemente, sem nunca ser apontado nada em termos de direção do clube.

Como deram a volta a esse tipo de situações?
Passa muito pela liderança do grupo. Ainda hoje, aqui na Tunísia, estou há quatro meses a lutar todos os dias para isso, não de forma conflituosa, porque neste momento já há muita coisa que foi conseguida, mas efetivamente os jogadores quando sentem, quando acreditam que aquilo que queremos é efetivamente benéfico e traz bons resultados, conseguem mudar alguma coisa. Mas não é fácil e muitas das vezes em pouco tempo se muda outra vez para um registo não profissional ou mais desorganizado, ou mais irresponsável.

Porquê?
Às vezes basta não atuarmos da mesma forma ou até parecer que está a correr bem e deixar andar um bocadinho e eles voltam outra vez ao mesmo registo. O que sinto é que também tem muito a ver com os jogadores que se tem, principalmente os mais velhos ou mais experientes e mais importantes na equipa. Se eles entenderem a nossa lógica, depois levam os outros atrás. E aí é muito importante os estrangeiros. Nos Emirados e na Arábia Saudita os estrangeiros têm uma importância determinante porque é a eles que os próprios locais dão a responsabilidade de liderar a equipa. É muito típico eles serem os capitães, enquanto no mundo árabe da África do Norte, na Tunísia, no Egipto, Marrocos e Argélia não é nada assim.

Em 2013/14, Alexandre foi com José Peseiro para o Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos

Em 2013/14, Alexandre foi com José Peseiro para o Al Wahda, dos Emirados Árabes Unidos 

D.R.

A propósito do Egito, a seguir vão para o Al-Ahly? Saem dos Emirados devido a essa proposta do Egito?
Não. No primeiro ano ficámos em 2.º lugar quando ninguém esperava e no segundo ano o Peseiro queria muito ser campeão, como é normal e legítimo, mas a verdade é que o clube não fez aquilo que tinha de fazer para podermos efetivamente disputar o título. Ainda andámos muito tempo em 1.º lugar, a meio da época um dos rivais estava por cima de nós e depois a nossa luta para conseguir ter melhores jogadores acabou por desgastar um pouco a relação com o presidente que, entretanto, tinha mudado. Isso acontece muito nos povos árabes e quando o presidente novo não é o que escolheu o treinador, a partir daí as coisas ficam mais difíceis e saímos. Mas como os meus filhos estavam a estudar lá, fiquei até junho e depois viemos embora.

Fez o quê nesse período?
Fiquei a assistir os meus filhos e a viver os melhores meses da minha vida com eles e a minha mulher e a aproveitar os Emirados Árabes Unidos. Tanto é que isso derivou num momento que nunca mais esqueceram e de que ainda hoje falam.

E no Al-Ahly como correram as coisas?
Estivemos pouco tempo, mas foi uma boa experiência e tenho histórias inacreditáveis.

Pode contar algumas?
Para já chegámos ao Cairo, em outubro ou novembro, aterrámos de noite, fomos para o hotel. De registar que vínhamos dos Emirados e passamos para uma das cidades mais populosas do mundo. Mais incrível do ponto de vista histórico, mas também mais difícil de viver, porque é muita gente, tem muita desorganização, e naquela altura vivia um grande problema no pós-revolução da Primavera Árabe. Havia prédios destruídos, um dos quais à frente do nosso hotel, que era precisamente o prédio do Palácio da República. O presidente tinha sido preso e a revolução tinha sido marcante. Sentia-se muito esse peso na cidade e depois há uma carga árabe completamente diferente. Acho que tive maior choque de adaptação no Cairo do que quando entrei na Arábia Saudita pela primeira vez. A desorganização, a falta de limpeza, os mercados de rua, são característicos do mundo árabe africano. Vi quatro, cinco pessoas em cima de uma mota, carros em sentido contrário, carroças no meio da autoestrada. Andava na autoestrada e via ao lado burros, com sete pessoas da família em cima da carroça. O trânsito é caótico, levávamos duas horas para chegar a um local cuja distância ficava a 10 minutos. Há imensos miúdos de rua que se empoleiram em cima das carrinhas para pedirem dinheiro aos estrangeiros. É um choque do ponto de vista emocional muito forte porque não estamos preparados para aquilo. Uma coisa é ir ao Egito de férias, outra coisa é viver lá e isso marcou-me muito.

O banco do Al Wahda, com Alexandre (2.º à esquerda) e José Peseiro (em pé)

O banco do Al Wahda, com Alexandre (2.º à esquerda) e José Peseiro (em pé)

 

D.R.

E o clube, tinha condições?
Essa é uma das histórias mais engraçadas. Chegamos ao clube e não estávamos nada à espera do que encontrámos. Embora soubéssemos da grandeza do Al- Ahly, não sabemos enquanto não vivemos o que é aquilo. O mundo árabe é completamente fanático por futebol. Estamos a falar do mundo árabe futebolisticamente mais forte, que é o mundo árabe africano, eles enchem estádios, fazem coisas doidas. Temos uma apresentação dentro do clube, muito restritiva, mas já estavam uns 300 ou 400 jornalistas. As perguntas ao Zé Peseiro eram extraordinariamente ofensivas, "vem para ganhar?", "tem que ganhar?", "acha que é treinador para o Al- Ahly?". Quando entrámos no campo do centro de treinos para treinar só estavam 15.000 pessoas e não havia nenhum espaço à vista sem gente. Eram pessoas empoleiradas nas redes, na parte de cima do estádio, era tanta gente que não conseguíamos falar com os jogadores no campo. Às tantas foi tão difícil organizar que teve de haver seguranças para meter os adeptos que já não cabiam nas bancadas à volta do campo. Estávamos a treinar completamente cercados de gente, era até assustador. Todos a cantar, organizados no sentido de não invadirem o campo. Mas quando acabou o treino, invadiram o campo e aquilo tornou-se uma coisa altamente perigosa, porque às tantas são uns a querer roubar a camisola ao jogador X, e o outro a querer roubar a camisola do outro que já roubou e começa tudo à pancada. Tivemos de fugir para o balneário com pancadaria no meio do campo, entre adeptos e adeptos e jogadores.

Pensou em vir embora após esse episódio?
Não. A adrenalina foi tão grande naquele momento que não deu para pensar isso. O que deu para perceber foi a dimensão da loucura deles. Por causa desta loucura, inclusive de ter havido muitas mortes uns anos antes, com o próprio Manuel José presente porque era o treinador na altura, nunca mais houve adeptos no estádio. Como eles estavam contra isso, também nos aconteceu uma muito interessante. Os nossos adeptos invadiram o hotel, quando o presidente supostamente prometeu que ia abrir o estádio aos adeptos e não abriu por falta de segurança. Na verdade, é uma forma muito típica de controlo das massas e das populações nestes países, porque sabem que as aglomerações de gente promovem possíveis manifestações e problemas que não querem. Eles invadiram o hotel, no momento em que íamos para o autocarro. Quando já estavam três ou quatro jogadores no autocarro, bloquearam o autocarro com pessoas no meio do chão, entraram no autocarro e fizeram um pseudo rapto desses jogadores. Era um rapto afável, mas a verdade é que transmitiram ao clube que não nos deixavam jogar enquanto o presidente não autorizasse adeptos no estádio. E se não autorizasse iam levar os jogadores para parte incerta.

Como isso acabou?
Quem ainda não tinha entrado no autocarro fugiu para trás do hotel e apanhou táxis para ir para o estádio. Jogámos sem aqueles jogadores, perdemos o jogo, mas eles acabaram por desistir porque perceberam que jogámos na mesma. Mas toda esta situação tinha a ver com questões políticas também, porque a população acaba por encontrar no futebol a grande forma de manifestação.

O técnico português com a mulher e a filha na Mesquita Sheik Zaid Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos

O técnico português com a mulher e a filha na Mesquita Sheik Zaid Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos

 

D.R.

Estiveram lá quanto tempo?
Quatro meses. Viemos embora em janeiro e também é uma história engraçada, à Prison Break, porque quase tivemos de fugir devido à dimensão destas situações no clube. O Futebol Clube do Porto tinha aparecido como possibilidade em contacto direto com o José Peseiro, mas era completamente segredo. Foi o período pós-Lopetegui. A fase final do Lopetegui foi muito complicada para o FC Porto. Entretanto, o Rui Barros ficou como interino durante um jogo e a situação foi sendo regulada à distância entre o FC Porto e o Peseiro, ainda numa incerteza porque tínhamos contrato com o Al-Ahly, embora pudéssemos rescindir se pagássemos a cláusula de rescisão. As coisas só passaram a ser certas após o jogo contra o Vitória de Guimarães.

Como acabaram por sair?
De repente, à uma da manhã, o Peseiro telefona-me e diz: “Vamos mesmo para o FC Porto por isso trata das viagens para irmos amanhã, que vou tratar das coisas com o clube aqui”. De manhã chegamos ao clube, demos o treino, íamos para estágio nesse dia, para jogar no dia seguinte. O Zé fala com o presidente, eu compro as viagens para essa noite, ainda antes do treino. Entretanto, o Zé estava em negociações para não ter que pagar a cláusula, mas eles não abdicaram. Ele assinou a cláusula, fomos ao quarto de hotel fazer as malas do Peseiro e saímos do hotel sem ninguém saber porque estávamos muito bem no campeonato, a equipa estava a jogar muito bom futebol e sabíamos que assim que se soubesse, em segundos aparecia gente para tentar impedir a nossa saída. Quando já estamos a caminho do aeroporto é que começam a sair as notícias no Egito e em Portugal.

O que aconteceu?
Começaram a chover mensagens e em meia hora já estavam cerca de 500 pessoas em frente ao hotel onde estava a equipa técnica e em frente ao hotel do Zé Peseiro. A sorte é que já estávamos no aeroporto, mas cheios de medo que houvesse algum problema com a nossa saída, porque aquilo é muito pouco controlado, eles podem invadir o que quer que seja. E os polícias são adeptos. Muitas vezes nos estádios os polícias queriam era tirar fotos connosco e não queriam tratar de nada daquilo que era o trabalho deles. Acabámos por conseguir entrar no avião e quando levantou senti-me nas nuvens, literalmente, porque estava a regressar a Portugal para cumprir o sonho de vir a ser treinador de um clube grande como o Futebol Clube do Porto.

Quando chegou ao Al Ahly, do Egito, Alexandre, ainda adjunto de Peseiro, teve 15.000 pessoas a assistir ao 1.º treino que deram

Quando chegou ao Al Ahly, do Egito, Alexandre, ainda adjunto de Peseiro, teve 15.000 pessoas a assistir ao 1.º treino que deram

 

D.R.

Como foi quando entrou no FC Porto e conheceu a estrutura do clube?
Fantástico. Não digo que foi surpresa, porque sempre tive noção e conhecimento de que era muito boa, mas nunca pensei que fosse tão boa. Foi o sítio onde mais me senti verdadeiramente, não só bem tratado, como profissionalmente completo. Não é o único sítio, porque estive noutros clubes muito bons, estive no Sporting, estive no SC Braga, que são clubes excecionais e noutros clubes que também trabalhavam muito bem, como o Estoril e o próprio Alverca mais tarde, mas o FC Porto, do ponto de vista daquilo que dá de condições de trabalho, de tranquilidade, de responsabilidade e de legitimidade a um treinador, quer seja principal, quer seja adjunto, até porque temos de ter a noção de que eu era adjunto e senti-me como nunca me senti em lado nenhum, porque eles fazem sentir-nos verdadeiramente importantes do primeiro até ao último dia. Desde os mais pequenos pormenores, ao material que temos, à disponibilidade, à ajuda que dão e à capacidade de resolução das nossas questões, do que queremos, à forma como eles antecipam os problemas. Nós só temos de fazer o nosso melhor na nossa área.

Quando entrou, sentiu que o José Peseiro era realmente muito desejado ou que foi para ser uma espécie de tapa buracos?
Conheço muito bem o panorama do que é ser treinador em Portugal e não só, mas sabia perfeitamente que o momento era tão difícil que só poderia também existir da parte do FC Porto a intenção de primeiro ser uma escolha verdadeiramente da estrutura, neste caso na altura, do Antero Henrique. Claramente senti que era uma aposta do Antero Henriques. Havia uma relação já de longos anos de conhecimento entre ambos, não senti que era um tapa buracos, senti que era necessário alguém dar o corpo às balas. E acho que o perfil do José Peseiro, a forma de estar dele, era estupenda para isso. Senti que o Peseiro correspondia àquilo que eles queriam que fosse, um treinador que dissesse: “Eu sou responsável por esta equipa e vamos fazer o melhor”. O Zé é muito corajoso nesse sentido.

Como foi a receção no balneário? O que sentiu da parte dos jogadores?
Difícil. Não é difícil em relação a nós, mas porque o estado da nação portista e do balneário era mesmo muito difícil e nós tivemos não diria azar ou falta de sorte, mas estivemos num momento muito difícil do FC Porto porque do ponto de vista do balneário, não era nada daquilo que esperávamos ou que nós sabíamos que era o Futebol Clube do Porto típico.

Pode explicar melhor?
Havia grandes problemas internos porque durante um ano e meio a política desportiva e de contratações dos jogadores não tinha nada a ver com o que era para trás. Havia espanhóis, havia franceses... Não está em causa a nacionalidade, está em causa o tipo de estrutura e de política desportiva daquele ano e meio que foi completamente distinta daquilo que é hoje e do que era antes. Isso mudou muito o clube no sentido da equipa.

Em 2015/16, Alexandre foi adjunto do José Peseiro no FC Porto

Em 2015/16, Alexandre foi adjunto do José Peseiro no FC Porto 

D.R.

Havia um mau ambiente de balneário?
Muito. Não era mau ambiente, havia um ambiente destrutivo, negativo. Havia jogadores que não queriam estar ali, que queriam sair e quando assim é num clube desta dimensão, da responsabilidade que tem, é caótico. Nós conseguíamos treinar, até acho que conseguimos reanimar um grupo que estava quase sem vida, mas, no momento final, que era a única conquista que podíamos ter tido, a Taça, fomos à final e faltou-nos ali um bocadinho de qualquer coisa porque fomos melhores que o adversário, o SC Braga, mas perdemos a penáltis e, se temos ganho, tenho a certeza absoluta que continuávamos, até porque tínhamos contrato. Não continuámos por causa disso.

O que sentiram da parte dos adeptos em relação à equipa técnica?
No início, houve alguma desconfiança, porque havia um desacreditar muito grande da parte dos adeptos por causa da falta de relação e de empatia que existia antes entre a equipa e os adeptos. Havia uma equipa que me pareceu claramente sem ADN Porto, sem registo de Porto, sem jogadores de referência. Tudo era complicado e a relação foi-se deteriorando e sentíamos que a equipa também não tinha essa capacidade de se relacionar bem com os adeptos. Quanto aos treinadores, pareceu-me haver ali um bocadinho uma noção de que “olha, é mais um, logo se vê”. Isso sente-se. Ainda por cima havia muitas vozes contra o Peseiro, ou porque não era portista ,ou porque não era o perfil que o FC Porto queria. Mas isso existe sempre. No entanto, sentiu-se que alguma faixa ficou entusiasmada até com a forma de estar do Peseiro inicial, pelo facto também de ser novamente um treinador português mas, por outro lado, havia uma grande franja de adeptos que estava com muito pouca crença na equipa. Sentia-se nas bancadas. Depois tivemos alguns momentos difíceis. Tivemos um jogador que saiu de um jogo lesionado, assobiado e nunca mais quis entrar. Havia jogadores que estavam com muito pouca capacidade para representar o FC Porto, uns porque não queriam, outros porque já não suportavam a situação. Havia jogadores à parte, que estavam castigados ou que estavam em processo de desvinculação.

Mesmo assim deu para perceber o que é a tão afamada mística do FC Porto?
Deu. Porque existiam pessoas que estavam lá há muitos anos e algumas ainda continuam, que são muito competentes, muito sérias, muito responsáveis, que vivem o Futebol Clube do Porto não só com paixão, como também com um profissionalismo fora do normal. Nunca tinha encontrado um apoio aos treinadores e aos jogadores assim, que torna verdadeiramente fácil trabalharmos. Os materiais, as condições, o acesso à informação, os pormenores, se a família ou os amigos querem ir ver um jogo, os carros, os apoios, os estacionamentos, tudo, parece tudo fácil.

Em 2016/17, Alexandre Santos voltou aos Emirados como adjunto de Peseiro, para treinar o Al Sharjah

Em 2016/17, Alexandre Santos voltou aos Emirados como adjunto de Peseiro, para treinar o Al Sharjah 

D.R.

Quais foram os momentos mais marcantes nos meses em que lá estiveram?
O dia de entrada e o último dia, quando perdemos a final da Taça. O momento de entrada foi um sonho que se tornou realidade e a saída marcou, não pela saída nem pela derrota em si, mas por ver o meu filho, que na altura tinha 10 anos e estava na bancada, a chorar desalmadamente porque o pai tinha perdido a final, ainda por cima foi dramática, foi a penaltis.

Soube logo que tinham acabado ali, após essa derrota?
Sim.

Souberam antecipadamente?
Acho que não havia decisão. Tudo dependia daquele jogo, para também haver legitimidade da parte de quem nos escolheu. Acho que havia legitimidade na mesma para continuarmos, mas era preciso que a estrutura do FC Porto também quisesse assumir e como vinha da situação anterior...

O regresso a SC Braga surgiu logo a seguir a saírem do Porto?
Sim. Nem sei se o primeiro contacto não foi feito antes da rescisão oficial. Acho que houve uma intenção muito grande do presidente Salvador em querer novamente o José Peseiro porque percebeu que afinal ele era e é muito melhor treinador do que ele achou na altura em que nos despediu e também porque estivemos no FC Porto e eu acho que isso pesa no currículo.

Quando o Peseiro lhe falou no SC Braga não hesitou em regressar?
Não, fiquei maravilhado porque tinha um contexto familiar muito especial, a minha família gostou muito de Braga e eu sabia que o facto de ir para Braga me permitia ter novamente a família comigo e isso para mim era muito importante e determinante. Estivemos um ano a viver em Braga.

Mas não ficaram a época no SC Braga até ao fim.
Não, mas a família ficou lá porque gosta muito de Braga e também porque quando nos mudamos temos de ter a consciência de que muitas das vezes a família tem de ficar mesmo que eu não fique, porque os miúdos estão em idade escolar e não permite que andemos a mudar como quem muda de t-shirt.

Alexandre (de boné) durante um treino do Al Sharjah, com o tradutor ao lado

Alexandre (de boné) durante um treino do Al Sharjah, com o tradutor ao lado

 

D.R.

Saíram do SC Braga em dezembro. Porquê?
Foi muito precipitado. Ainda hoje tenho dificuldades em perceber. Não era o treinador principal e há coisas que se passam entre o treinador principal e a direção que os adjuntos não têm conhecimento, nem percebem. Estivemos muito bem até determinado momento. Tivemos um jogo no Marítimo em que se ganhássemos esse jogo ficávamos em 1.º lugar nessa jornada. Estávamos na luta pelo 1.º lugar. Perdemos esse jogo e começou aí, de repente, um conjunto de coisas mais difíceis, mais estranhas, algumas posturas, quezílias e conflitos sem sentido.

Essas quezílias de que falou eram entre a direção e equipa técnica?
Senti que havia algum mal-estar. Senti que éramos muito a escolha do presidente, mas não éramos a escolha do clube. Do clube na sua massa adepta, na sua dimensão mais global e no balneário senti que tínhamos muitos jogadores novos e que a equipa vinha de uma época onde teve a tal vitória na Taça de Portugal contra o FC Porto, onde nós estávamos na altura, e que o peso do clube em querer ser campeão estava a problematizar qualquer coisa que era normal. Qualquer ponto perdido, qualquer jogo mal jogado era como se fosse um problema grave, quando o SC Braga nunca tinha ganho, nem nunca ganhou nenhum campeonato. Acho que houve ali uma certa sensação de que era possível o SC Braga ser campeão, que estava a complicar o nosso trabalho. Senti em conversas com o Zé Peseiro que a cidade não estava connosco, mas o presidente estava. A cidade não mostrava ânimo, parecia demasiado desiludida, se calhar por causa de já termos lá estado antes. Às vezes tem a ver com coisas que não percebemos muito bem de onde vêm. Mas o presidente quis-nos muito. Senti isso, até porque estive pela primeira vez com o Zé Peseiro na mesa de negociações, no dia em que assinamos.

Quando sentiu que as coisas não estavam bem?
No início da época jogamos a Supertaça contra o Benfica, perdemos, e perdemos também o Rafa, que era o melhor jogador do SC Braga, para o Benfica. A partir daí foi logo aquela tal situação que parecia que tinha sido uma coisa do outro mundo e a verdade é que depois até estivemos bem. Mas, de repente, perdemos na Taça. Apanhámos a meio da semana, na primeira eliminatória da Taça de Portugal, o Sporting da Covilhã, que estava na II Liga. O jogo ainda por cima era em Braga e decidimos que havia que gerir o plantel. E perdemos. No fundo, o vencedor da Taça de Portugal foi eliminado pelo Sporting da Covilhã. Isto precipitou o despedimento em direto sem nós sabermos, o que é inacreditável na minha opinião. Estávamos no balneário e de repente vimos na televisão, estávamos a ser despedidos. Custou-me mais e fiquei mais chateado do que com o FC Porto, porque no FC Porto já estava à espera que acontecesse.

Estiveram muito tempo parados?
Não, no dia 2 de janeiro já estávamos nos Emirados para treinar o Al Sharjah.

Com a mulher e os dois filhos, Guilherme e Catarina

Com a mulher e os dois filhos, Guilherme e Catarina

 

D.R.

Muito diferente do Al Wahda?
É diferente, porque a zona é diferente, é encostada ao Dubai, é muito mais tradicional, muito mais árabe, mas depois foi muito bom. A nossa passagem no clube foi extemporânea, mas eu continuei até dezembro por causa da escola dos miúdos.

Foi extemporâneo porquê?
Nós, e o Zé Peseiro pessoalmente, não estávamos à espera de ter uma equipa que não disputasse verdadeiramente os jogos e que não fosse verdadeiramente forte. Isto também tem muito a ver com o percurso que se vai tendo. Percebo perfeitamente, porque agora vim de três anos no Petro de Luanda onde me habituei a ganhar títulos. O Zé Peseiro vinha do FC Porto e do SC Braga, equipas que disputam para ganhar e, de repente, estávamos num clube onde nos víamos à rasca para ganhar um jogo. Estava a ser muita coisa construída e mudada. E tanto é que no ano a seguir, o Sharjah é campeão com vários jogadores que tínhamos feito subir das equipas jovens e com vários jogadores que tinham trabalhado connosco. Ou seja, havia gente com qualidade, mas estávamos num processo muito inicial. Há pouco tempo estive com um jogador tunisino que esteve no Sharjah e diz que ainda falam de nós. Conseguimos marcar o clube, mas o problema tem a ver com os resultados que não estavam a aparecer e o que apareceram foram os conflitos; e nem eram do clube, era connosco próprios porque queríamos melhorias das coisas rápidas. No Médio Oriente acontece muito isto, ou estamos muito adaptados ao mundo árabe, ou então o ritmo que queremos instalar nas coisas e na mudança não é o ritmo que eles querem, nem que conseguem e gera conflitos. Se reparar, os treinadores, portugueses ou outros, quando vão pela primeira vez para o Médio Oriente, poucos são aqueles que se mantêm logo no primeiro ano. Depois, quando voltam lá, já voltam com outra capacidade para estar.

Não tem histórias para contar do Al Sharjah?
Recordo-me de algo que vi ao vivo e que é completamente diferente do que ver em filmes, séries, ou no Youtube. O sheik, dono do Sharjah, convidou-nos para irmos jantar a casa dele, mas acabámos por não o ver, porque o convite era para ir à casa dele e não para estar com ele efetivamente. Estavam diretores do clube, alguns jogadores, a quinta era enorme, tinha cavalos e fizeram um churrasco. De repente, disseram que íamos fazer uma visita a uma exposição privada que o presidente nos queria mostrar e quando demos conta fomos para um pavilhão enorme que tinha lá dentro variadíssimos Mercedes de coleção, Porsches, Bentleys, Rolls Royce, carros clássicos daqueles que só existem 10 ou 15 no mundo, uma mota sidecar alemã da II Guerra Mundial, dois Transformers gigantes que foram utilizados nos filmes, carros que valiam um a dois milhões de euros. Estavam ali umas boas dezenas de milhões de euros, dentro daquele pavilhão. Foi algo incrível, ver o que é a extravagância do dinheiro.

 

Spoiler

“No Sporting perguntaram-me se havia algum jogador no Estoril Praia ideal para o clube e eu falei logo no Matheus Nunes”

Alexandre Santos está na Tunísia, à frente do CS Sfaxien, com quem tem contrato até final da época. Nesta parte II do Casa às Costas, conta-nos como tem sido o seu percurso enquanto treinador principal, que já passou, entre outros, pelo Estoril Praia e o Sporting, nas equipas de sub-23, e as equipas principais do Alverca e do Petro de Luanda, onde foi tricampeão. Além de várias histórias, revela-nos como Daniel Bragança era mal rotulado quando foi seu treinador e ainda da curta experiência como adjunto de Rui Almeida, em França

Em 2018 tem a sua primeira experiência como treinador principal, em seniores, no Real SC de Massamá. Como aconteceu?
O Al Sharjah queria que eu continuasse a trabalhar no clube. Decidi sair com o Zé Peseiro por questões de ética profissional e de respeito. Vim para Portugal, fomos viver para Braga por causa das escolas internacionais. Entretanto, conheci uma pessoa com quem me dei muito bem, o Pedro Alves, que foi diretor do Estoril Praia e do Olympiacos. Ele ligou-me a perguntar se eu queria treinar uma equipa da II Liga, ou se queria continuar como estava, com o Zé Peseiro, que nessa altura estava a aguardar por um novo projeto. Eu estava muito confortável como adjunto do Peseiro, era o principal responsável por toda a equipa técnica, sempre nos demos bem e temos uma relação muito próxima. Mas o diretor do futebol do Real Massamá, que na altura tinha subido à II Liga e estava em último, queria um novo treinador. O panorama desportivo não era nada fácil, mas o bichinho de ser treinador principal estava cá dentro. Entusiasmei-me muito com as pessoas que me convidaram e embora fosse muito difícil, acho que isso foi ainda mais apetecível. Claro que era um risco muito grande, mas senti que valia a pena arriscar.

Falou com o José Peseiro?
Sim, ele não tinha nada, estava a aguardar, e disse-me que II Liga era muito bom para começar, não via mal nenhum e achava muito bem. Gostei muito de voltar a ser treinador principal, tanto é que acabei por não voltar a estar com o José Peseiro. Não quer dizer que não pudesse, até já esteve muito perto de acontecer. Mas o meu rumo agora é outro e a verdade é que estou muito satisfeito de ter dado esse passo.

Alexandre Santos com a mulher e os dois filhos

Alexandre Santos com a mulher e os dois filhos

 

D.R.

Mas não correu muito bem a estreia, na medida em que desceu de divisão.
É verdade, fiquei com essa marca no currículo, mas para mim não é negativa. Vivi ali momentos fantásticos. Tivemos jogos muito bons, às vezes quando se está lá em baixo ainda é tudo mais difícil.

Porque não correu tão bem como desejava?
Faltou um bocadinho daquela bola entrar no momento certo, porque houve dois jogos que tivemos hipóteses de o fazer e nessa altura tínhamos saído da descida de divisão.

Terá faltado também a experiência como treinador principal?
Talvez. Olhando para trás, talvez hoje soubesse lidar melhor com um ou dois aspetos. Fiz uma reflexão e não vi que algo derivasse disso, mas efetivamente, se calhar fui um bocadinho sonhador em demasia. Faz parte, o sonho comanda a vida.

E como foi o impacto de liderar homens feitos?
Espetacular. Gostei muito da sensação de reconhecimento da parte de homens que perceberam que tinham ali alguém que queria verdadeiramente ajudá-los.

Com a descida, percebeu que não ia continuar ou não quis continuar?
Não quis. Podíamos ter discutido isso, mas ainda antes de terminar a época já tinha dito que não ia continuar.

Porquê?
Porque na minha concepção, naquela altura, não queria ir à III Divisão. O meu objetivo era continuar na II Liga, coisa que depois não aconteceu, curiosamente.

Em 2018, Alexandre (de calças pretas e camisola azul) foi treinador principal sos Sub 23 do Estoril Praia

Em 2018, Alexandre (de calças pretas e camisola azul) foi treinador principal sos Sub 23 do Estoril Praia

 

D.R.

Tinha empresario?
Tinha pessoas que me ajudavam, tinha um empresário mais próximo de mim, que era luso-francês e trabalhava principalmente no mercado francês, que estava a tentar arranjar alguma coisa.

O mercado francês atrai-o?
Sim, achava interessante e achava que era possível, mesmo que fosse mais abaixo, uma III Divisão, mas como é muito organizado e muito sustentado, podia ser uma boa hipótese.

A liga francesa é a sua preferida?
Não. As ligas inglesa, espanhola e alemã por esta ordem são as mais entusiasmantes. A liga francesa tinha mais a ver com o mercado árabe do norte. Mas obviamente que preferia ter tido uma hipótese na II liga portuguesa.

O convite para treinar os sub-23 do Estoril Praia surgiu através de quem?
Do Pedro Alves. É a pessoa que em 2018 tem uma influência muito grande nas minhas decisões. Coloca-me em contacto direto com o Real Massamá e depois introduz-me no Estoril Praia SAD, ou seja, para ser o treinador da equipa B, neste caso sub-23, do Estoril Praia profissional.

Foi uma experiência também curta.
Foi porque entretanto houve o convite do Sporting. O Hugo Viana falou com o Pedro Alves e fiz a minha transição pacificamente.

Depois do Estoril, o técnico foi treinar a equipa de Sub 23 do Sporting, ainda na época 2018/19

Depois do Estoril, o técnico foi treinar a equipa de Sub 23 do Sporting, ainda na época 2018/19

 

D.R.

Acredito que tenha aceitado treinar a equipa sub-23 do Sporting pelo nome e tradição que o clube tem ao nível da formação. Quando lá entrou, era tudo o que estava à espera?
Houve coisas que superaram as minhas expectativas. Conhecia o Sporting indiretamente, por intermédio de vários amigos que estavam no Sporting. Tinha tido a possibilidade de entrar nas camadas jovens do Sporting há muitos anos e não se concretizou, mas aqui era entrar na segunda equipa profissional do Sporting, e por isso é que fui.

O que superou as suas expectativas?
A Academia e o funcionamento da Academia é mesmo muito bom, mesmo a qualidade dos jogadores. Eu tinha jogadores que, na minha opinião, tinham tudo para singrar e singraram.

Pode dar exemplos?
Daniel Bragança, Matheus Nunes e Thierry Correia são os principais. O Matheus Nunes tive-o no Estoril e quando o Sporting perguntou-me se havia algum jogador do Estoril Praia que achasse interessante, falei-lhes logo no Matheus Nunes. Sabia que podia ser jogador para o Sporting, mesmo não sendo tão novo, nem tendo a formação que normalmente têm o tipo de jogadores que vão para o Sporting.

Alexandre Santos durante um jogo, enquanto treinador da equipa de Sub 23 do Sporting

Alexandre Santos durante um jogo, enquanto treinador da equipa de Sub 23 do Sporting

 

D.R.

Também viu logo talento no Daniel Bragança?
Completamente. O Daniel Bragança naquela altura era mal rotulado, e ainda bem que mais tarde o Ruben Amorim foi capaz de perceber o potencial que estava ali. O Daniel era rotulado como um jogador que pensava muito bem o jogo, mas era pouco intenso. Sempre achei que, naturalmente, não é um jogador com um determinado tipo de perfil, como outros médios, mas tem coisas que não há muitos médios a ter e que tinha capacidade para jogar ao mais alto nível.

Quando lá esteve o treinador da equipa principal era o Marcel Keizer. Havia contacto?
Havia algum contacto. Havia jogadores que iam à equipa A, eu às vezes tinha pequenas conversas com o Keizer ou com o adjunto dele.

Não houve nada que tivesse ficado abaixo das suas expectativas?
O que ficou abaixo da minha expectativa foi algo que me fez sair, até porque eu saí com contrato. A perspetiva que estava a ser dada naquela altura, e que felizmente foi mudada, era a de que a equipa de sub-23, neste caso da Liga Revelação, fosse uma equipa de jovens e não uma equipa de seniores e eu não queria treinar novamente equipas jovens. Ou seja, não gostei da política em termos de coordenação técnica e como apareceu a possibilidade de ir para uma liga francesa, mesmo como adjunto, entendi que era o melhor passo para mim, porque podia permitir-me entrar mais tarde como principal na liga francesa.

A equipa técnica do Caen, da França. Alexandre (1.º à direita) foi adjunto de Rui Almeida (a seu lado)

A equipa técnica do Caen, da França. Alexandre (1.º à direita) foi adjunto de Rui Almeida (a seu lado)

 

D.R.

Foi para França como adjunto do Rui Almeida no Caen. Trabalhar com ele foi uma experiência muito diferente da de José Peseiro?
Completamente diferente.

Em que aspetos?
Em tudo, a personalidade, a forma de estar. São pessoas muito diferentes, com registos de treino diferentes, mas com concepções de futebol em muita coisa similar. O Rui Almeida tem uma personalidade muito mais calma, mais serena. O José Peseiro é muito mais enérgico, muito mais emocional. O Rui era acima de tudo, uma pessoa que senti contar comigo para o ajudar e eu sabia que podia encontrar uma boa experiência para evoluir e para me motivar. Curiosamente foi a experiência mais curta de toda a minha carreira e não estava nada à espera. Foram só três meses.

Devido aos resultados?
Devido aos resultados e ao estado do clube, do ponto de vista da direção desportiva, completamente caótico e ridículo. O clube, que desceu da I para a II liga, precisava de reerguer-se, pagou a outro clube para ir buscar o Rui Almeida, deu-nos um contrato de dois anos, mais um de opção e, de repente, porque estávamos à 6.ª jornada a meio da tabela, despede-nos. Acho que houve uma grande expectativa no treinador. Havia problemas, o Caen esteve muitos anos na I Liga, cai na II Liga e teve a natural dificuldade de se adaptar àquilo que são os novos orçamentos e às necessidades de uma II Liga; e tinha jogadores que não queriam estar ali, mas estavam porque tinham contrato, mais o diretor-desportivo a fazer o que não deve e a ir muito para além das suas responsabilidades, a provocar problemas. E dentro da própria equipa técnica havia problemas com pessoas que estavam no clube há muitos anos e que não ajudaram. Muito difícil também a legitimidade talvez de um português à frente da equipa. De repente estávamos envolvidos numa conjuntura muito mais negativa do que positiva.

 

Em 2019, Alexandre Santos regressou ao FC Alverca, como treinador principal

Em 2019, Alexandre Santos regressou ao FC Alverca, como treinador principal

 

CMVFXIRA

Veio embora e como acabou por ir parar ao Alverca e ao Campeonato de Portugal.
Ao Alverca é muito simples, sou dali e as pessoas conhecem-me.

Mas duvido que quisesse ir treinar para o Campeonato de Portugal.
Sim. A diferença é que eu ainda estive algum tempo parado, uns dois meses. Não estava com perspetiva de ir treinar para a III Divisão, só que o Alverca tinha uma realidade completamente distinta que me surpreendeu, porque tinha um grupo de investidores brasileiros, que neste momento são donos do Alverca e do Santa Clara, que me fizeram uma proposta surpreendente a todos os níveis. De trabalho, de profissionalismo, de objetivo, de intenção, de jogadores, económica e salarial. E estava a trabalhar ao lado de casa. Claro que tinha os seus riscos, mas preferia assumir isso e ir em frente.

Como correu?
Estávamos até muito bem encaminhados logo de início, mas de repente veio a Covid.

Como foi lidar com tudo o que implicou a pandemia e fazer com que a equipa continuasse a trabalhar?
Bem difícil porque era algo que ninguém sabia como havia de lidar. Treinar à distância, em casa, via Zoom. Foi difícil. Falávamos bastante uns com os outros e houve troca de ideias, felizmente havia muita informação de como se estava a fazer e qual era a melhor forma e fui construído um plano de trabalho com mais ou menos presença, à distância. Depois voltamos a treinos por grupos, depois todos juntos, mas sem equipar no balneário, houve muitas fases diferentes. Entretanto, anularam o campeonato e começámos um novo. E tivemos uma grande infelicidade, que foi um dos momentos mais marcantes da minha vida profissional, o falecimento de um jogador nosso [Alex Apolinário], em campo, que foi conhecido em todo o país.

Como reagiu a equipa?
Emocionalmente para a equipa voltar a jogar, voltar a sentir-se bem, foi muito difícil, perturbou-nos bastante. Tanto é que um mês depois acabei por sair. Nem foi porque estivéssemos mal, mas perdemos um jogo e a relação entre mim e o CEO do Alverca na altura já não era a melhor e decidimos partir para outros caminhos.

Não era a melhor porque motivo?
Porque não tínhamos a mesma visão do que era o caminho da equipa, da forma como a equipa jogava, do que eu queria para a equipa, dos jogadores, tínhamos bastantes divergências desse tipo. Estávamos em 2.º lugar, eram dois que iam disputar a subida de divisão, tanto é que depois foi disputada pelo Alverca e pelo Torreense, mas quando perdemos um jogo em Almeirim eles chamaram-me. O presidente do Alverca é muito meu amigo, foi muito difícil para ele, eu sei. As divergências que tínhamos de concepções já eram visíveis, não estavam a ser saudáveis e se calhar até foi melhor. Eu sentia os jogadores também muito perturbados.

 

Em 2021/22, o técnico português assumiu a liderança do Petro de Luanda

Em 2021/22, o técnico português assumiu a liderança do Petro de Luanda

 

D.R.

Esteve quanto tempo parado até surgir o convite do Pedro de Luanda?
Sete meses.

Quando surgiu a possibilidade de ir para Angola, como encarou inicialmente?
Torci muito o nariz [risos]. Tive possibilidades de ir para Itália, Marrocos e Portugal, aqui na Liga 3, mas não se concretizaram. Depois começou a época e aí a pessoa fica muito suscetível a ver se numa primeira fase de algum despedimento de um colega acaba por ser a nossa vez. E, de repente, apareceu Angola, através de um contacto de uma pessoa que foi meu colega enquanto jogador, foi jogador do Sporting e agora é empresário, o Torrão. Curiosamente no Petro eu tinha duas pessoas que estavam com o treinador angolano, que vinham do diretor, o Bruno Vicente, a cabeça da ideologia do Petro a partir de abril de 2021 e que queria construir um projeto à imagem do que construiu no Recreativo do Libolo, quando foi campeão várias vezes e quando houve muitos portugueses no Recreativo do Libolo, em Angola. Inclusive jogadores internacionais. Ele tinha dois membros da equipa técnica, um tinha sido meu aluno, em Rio Maior e o outro tinha sido meu preparador físico no Alverca. Eles perderam o campeonato na última jornada, contra o Sagrada Esperança, e isso levou o Bruno Vicente a convencer o presidente que era preciso mudar o treinador. O Bruno, sendo português, queria uma base portuguesa e escolheu-me.

Mas quando diz que torceu o nariz, foi a quê?
Por causa da nossa imagem relativamente a Angola e ao futebol angolano. Tinha conhecimento do futebol angolano através de um amigo próximo, o João Paulo Costa, ele foi treinador e campeão pelo Libolo, e eu sabia dos problemas que se viviam lá. Os problemas de vida, económicos, de não conseguir enviar o dinheiro para Portugal, etcétera, etcétera. Tive muito medo desse passo. Mas a minha mulher foi fundamental. Prática e direta, como costuma ser, disse-me: “Não tens nada, pois não? Tens isso como oportunidade para seguir, então é isso que tens de fazer e vamos ver como corre. Estamos à distância, mas estamos cá para te ajudar”. E fui.

O que viu e sentiu quando chegou?
Até foi melhor do que pensava. Eu ia com umas expectativas tão baixas.

O que mais o surpreendeu pela positiva?
A qualidade dos jogadores, a qualidade da estrutura. As pessoas estavam muito disponíveis para me receber e quando assim é... Depois, as vitórias apareceram e isso explodiu para uma situação única, que foram três épocas fantásticas.

Em que foi campeão e conquistou a taça por três vezes e uma Supertaça.
E mais do que isso, foram três épocas internacionais muito boas, principalmente a primeira que fomos à meia-final da Liga dos Campeões de África. Potenciou o Petro como uma das equipas mais fortes de África. Neste momento é das oito mais fortes de África.

Alexandre (no centro) com o troféu do título de campeão pelo Petro de Luanda em 2023/24

Alexandre (no centro) com o troféu do título de campeão pelo Petro de Luanda em 2023/24

 

D.R.

E qual foi a maior dificuldade, o maior desafio?
O maior desafio foi ser verdadeiramente reconhecido pelos angolanos, sendo português. Do ponto de vista social.

Porquê?
Porque existe ainda uma grande mágoa e uma grande dificuldade de olhar para o português como alguém quer ajudá-los ou quer verdadeiramente fazer parte da história de Angola, por causa das questões da guerra e da colonização. Não digo isso das pessoas perto de mim, porque esses angolanos foram sempre fantásticos, conheceram-me e perceberam o que eu era, mesmo havendo desconfianças iniciais, o que é normal. Mas na população há uma tendência para pensar: “Lá vem outra vez o tuga achar que isto é dele”. Há uma grande mágoa e às vezes até existe um grande desconhecimento dos jovens porque levaram com a parte totalmente negativa, a guerra e as repercussões da guerra e culpabilizam-nos. Ainda por cima, eu fui substituir um angolano. E isso foi o mais difícil.

Foi a sua primeira experiência como profissional em África. O que mais o chocou?
O que mais me chocou inicialmente foi, sem dúvida nenhuma, a forma como o povo vive e sobrevive. O fosso social é enorme. Conseguimos adaptarmo-nos, mas não consigo lidar com aquilo. Não consigo aceitar aquilo. Pensamos que podemos ajudar, tentamos ajudar aqui ou acolá, mas não se consegue, porque é muito mais profundo do que imaginamos. Ajuda-se num dia três pessoas e no dia seguinte aparecem 10 e no outro 30 e às tantas não se consegue. E depois, como não se consegue ajudar todos, é uma guerra. E sentimos que as pessoas que estão bem no país, que são das mais ricas do mundo - e a riqueza é visível, é ostentada - não fazem nada ou vê-se pouca coisa a ser feita para alterar, porque querem que continue assim. Para mim o grande problema é a educação e a formação, que as pessoas não têm e ninguém as promove. Os mais ricos põe os filhos no estrangeiro ou estudam lá em escolas top, onde a minha filha estudou, e que era fantástica, mas custava cinco vezes mais do que em Portugal e três vezes mais do que no Dubai. E isto é ridículo quando o país só em petróleo é dos mais ricos do mundo e podia ser um país até muito interessante.

Qual a mais-valia do jogador angolano?
Para mim é eles sentirem que o futebol pode verdadeiramente mudar a vida deles e da família toda, e a família de um angolano são 20 ou 30 pessoas. Empenham-se muito. E são fisicamente muito dotados, o potencial técnico vem muito da rua. Só que depois têm graves problemas ao nível da alimentação, das estruturas morfológicas, das lesões. Muitos jogadores têm lesões que nunca trataram delas.

Onde têm mais lesões?
Nos joelhos, porque as superfícies, os campos, são muito duros.

Como justifica o sucesso que teve nas três épocas?
O sucesso tem um nome, que é uma equipa de trabalho, uma equipa de jogadores e uma equipa de apoio. O sucesso, em lado nenhum, deriva de um único fator. É uma conjunção de várias coisas ao mesmo tempo e no mesmo local, e isso é o difícil de acontecer. Mas é preciso ter a capacidade de quem está nos poderes de decisão decidir bem. O diretor e o presidente nos seus poderes de decisão, o treinador nos seus poderes de decisão, tudo em sintonia e bons jogadores, claro, dá bom resultado.

Deve ter muitas histórias para contar de Angola. Não quer contar algumas?
O 1.º Agosto é o grande rival do Petro, é a equipa dos militares e durante estes três anos jogámos seis vezes e nunca ganhei. Empatámos quatro e perdemos duas vezes. Havia essa malapata. No sexto jogo voltámos a não ganhar mas estávamos em 1.º lugar e o treinador do 1.º Agosto disse: “Se o Petro ganhar o campeonato não ganhando ao rival é como comer arroz sem sal”. Os angolanos gostam muito, muito de arroz. Peguei nisto e comecei a elaborar uma estratégia para no momento certo falar desta história do arroz e fazer uma analogia ao facto de sem sal, com sal, com açúcar, sem açúcar, cozido, frito ou assado, nós comemos o arroz todo. Isso começou a gerar nos adeptos uma coisa muito engraçada, toda a gente na rua dizia-me sempre: “Vamos comer o arroz todo. O arroz é nosso”. No último mês da época isto tornou-se uma máxima. E calhou muito bem, porque sagramo-nos campeões. Levei uma caixa de arroz para o jogo e na conferência de imprensa, disse: “Já agora também vos quero lembrar que, tal como vos tinha dito, nós comemos o arroz todo”. E saco da caixa, tiro a tampa, pego numa colher e começo a comer o arroz. Com isto tudo, na festa do título, os jogadores vieram ter comigo e comecei a dar arroz na boca deles [risos]. Foi um fartote. E havia malta no estádio que levou arroz para comer. Ainda hoje falam disso.

Na época passada (2023/24) Alexandre Santos sagrou-se tricampeão de Angola pelo Petro de Luanda

Na época passada (2023/24) Alexandre Santos sagrou-se tricampeão de Angola pelo Petro de Luanda

 

D.R.

Veio embora porque não quis continuar ou por outro motivo?
Sentia que era o passo certo. Apareceram algumas propostas e não consegui ir porque o Petro não deixou e porque tinha uma cláusula muito grande. Entretanto, achei que devia fechar o ciclo e seguir por outros caminhos. Infelizmente, não estão a ser tão bons quanto eu gostaria que fossem, mas às vezes é assim.

Porquê?
Porque o CS Sfaxien está a passar por momentos difíceis, quer de estrutura diretiva, quer da própria Tunísia, que é um país neste momento um pouco à imagem daquilo que encontrei no Egito, no pós-revolução. A Tunísia está a passar por um momento difícil, económico, financeiro e o clube sente muito isso. Há 12 anos que não é campeão e tem muitas dificuldades que têm de ser alteradas, mas que não podem ser todas ao mesmo tempo.

O jogador tunisino é muito diferente do angolano?
Muito. De grande talento individual técnico, de grande agressividade, mas também a sentir a instabilidade de tudo à volta e muito pressionado. A conjuntura não está fácil para ninguém, quer financeira, quer organizativa. E depois tem os adeptos que são muito mais exigentes. Em Angola é fácil nesse aspecto.

Tem contrato até quando?
Só esta época com mais um de opção. Tivemos quatro empates sucessivos, queremos estar melhores. Vamos ver.

Alexandre Santos e os trofeus conquistados à frente do Petro de Luanda, em Angola, em três écocasp

Alexandre Santos e os trofeus conquistados à frente do Petro de Luanda, em Angola, em três écocasp

 

D.R.

Também já deve ter vivido episódios caricatos na Tunísia. Pode contar algum?
Quando cheguei reparei que os jogadores levavam o equipamento para casa para lavar o que para mim é inconcebível. É muito amador e disse logo que não podia ser. Não há lavandaria, porque estamos a desenvolver o nosso trabalho diário no estádio municipal, que não está preparado para uma equipa em permanência. Então qual é a lavandaria do clube neste momento? É o carro do roupeiro. Ele traz no porta bagagens diariamente as botas e os equipamentos lavados. Claro que muita das vezes saem de casa ainda húmidos, levam com o bafo de humidade dentro do carro e chegam ao estádio e temos estendê-los para conseguirmos vestir. O que é giro é vê-lo a abrir a bagageira do carro e a tirar lá de dentro tudo o que é o material inerente a uma equipa profissional. Nunca tinha apanhado nada parecido, nem no Alhandra SC, nem no Vilafranquense, nem no Alverca.

O seu objetivo passa por terminar a época e continuar no CS Sfaxien?
O objetivo é muito simples: entrámos no clube com uma intenção muito grande de fazer e de construir um novo projeto. Está a ser muito difícil, sai muito do nosso trabalho, porque há muita coisa enraizada, as coisas precisam ter o seu tempo e não sei se há tempo porque os adeptos não têm paciência para nada, pressionam muito os jogadores e sinto que estamos a correr contra o tempo. Vamos lá ver se conseguimos chegar a bom porto. Para ter uma ideia, neste momento estou a igualar o recorde de tempo de qualquer treinador português que esteve aqui e já estiveram vários. Estou aqui há quatro meses e pouco. Nos últimos 12 anos tiveram mais de 30 anos treinadores.

Quais são as suas maiores ambições profissionais?
Neste momento são continuar a ser reconhecido, poder viver do futebol exclusivamente e poder dar à minha família as condições que gosto. Uma grande ambição é também poder vir a ter cada vez projetos mais fortes para vencer títulos. Quando vim para aqui, a intenção era essa e continua a ser. Não estamos perto, mas ainda falta muita coisa. O meu grande objetivo é voltar a vencer títulos, se Deus quiser ter hipótese de ter melhores condições de trabalho e de vida para poder ter a família comigo. E continuar a ter um reconhecimento de que o Alexandre Santos e a sua equipa técnica são bons profissionais. Se é a trabalhar em Portugal, se é trabalhar em Espanha, em Inglaterra, na Coreia, na China, no Egito, logo se vê.

Alexandre Santos no deserto

Alexandre Santos no deserto

 

D.R.

Qual é o seu maior sonho em termos profissionais?
Ser treinador principal nas primeiras equipas dos clubes onde já estive em Portugal.

Quem são as suas principais referências ao nível de treinadores hoje?
Dos treinadores que não conheço de perto, as referências são o Ancelotti, Klopp, Guardiola e Mourinho. Uns pela forma de estar, outros pela liderança, outros pelo modelo de jogo.

Já agora diga-nos o que corresponde a cada um deles.
Admiro a serenidade e tranquilidade do Ancelotti, a capacidade de modelar e treinar um tipo de jogo do Guardiola, a relação e a liderança de um Klopp para com os jogadores, a importância de ter aberto de uma forma incontornável e única o que é ser treinador português, do Mourinho.

E o que é isso de ser treinador português?
É um treinador de qualidade a todos os níveis. Treinador sério, honesto, profissional, que quer ganhar e que sabe como fazer. Estas são as referências externas, mas para mim as referências internas são muito mais importantes. Aquilo que sou como treinador vem do meu pai, que foi o primeiro, porque foi com quem aprendi muita coisa não só como pai, mas também como treinador, porque ele também era treinador; o Daúto Faquirá como pessoa, ser humano. O Zé Peseiro é aquele que mais me influenciou e de quem guardo o processo de treino, o ser treinador 24 horas por dia, meticuloso, exigente. Estas três pessoas são as que mais me marcam e que fazem o Alexandre Santos.

 

Esta época, o técnico português está a treinar o CS Sfaxien, da Tunísia

Esta época, o técnico português está a treinar o CS Sfaxien, da Tunísia

 

CSS.ORG.TN

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
Em Angola.

Já deu para investir?
Sim, tenho investimentos de vários tipos.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Eu gasto muito dinheiro em viagens. Por exemplo, saí de Luanda, fui a Kuala Lumpur, depois a Portugal e aos EUA e voltei para Luanda no prazo de uma semana. Tudo por razões de foro emocional e familiar. Fui ter com a minha mulher, depois fomos ter com o filho e depois vim trabalhar. Se calhar gastei mais de €5000 em viagens.

Há algum país que mais lhe encha as medidas?
Os EUA. Tenho um fascínio pelos EUA.

Tem algum hobby?
Padel e ténis. Adoro.

Acredita em Deus?
Sim. Gosto de ir à Igreja, mas não vou à Igreja como rotina.

Superstições, tem ou teve?
Tenho rotinas, mas não são superstições. Gosto de fazer certas coisas nos dias de jogos. Todos os dias de manhã leio uma pequena mensagem de Jesus Cristo. E tenho pequenas coisas, mas que não moldam a vida, é mais porque me sinto bem com isso não porque acho que vai fazer algo ao resultado.

Tatuagens?
Tenho três. A primeira é o meu filho com um ano de idade num braço, depois a minha filha com um ano no outro e a outra é da família. Nós somos todos Alexandres por isso intitulamos-nos a família dos Xans. Os meus filhos são Guilherme Alexandre e Catarina Alexandre.

O técnico com os dois filhos numa foto recente

O técnico com os dois filhos numa foto recente

 

D.R.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não tenho.

E o maior arrependimento?
Ter saído do Sporting.

O momento mais feliz na carreira?
Ter sido campeão nacional pelo Petro.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho que gostava de treinar?
Real Madrid.

Tem ou teve alguma alcunha?
Alcunha não, mas tratavam-me por Crispim, porque o meu terceiro nome é Crispim.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Muitas, não vou nomear.

Há alguma lei do futebol que se pudesse alterava, ou bania?
Ainda alterava mais a questão das perdas de tempo intencionais dos jogadores.

De que forma?
Fazer como no andebol. Qualquer pessoa que tocasse na bola após o árbitro apitar tinha que ser punido.

Alexandre Santos e a sua avó Faustina, a maior perda da sua vida até hoje

Alexandre Santos e a sua avó Faustina, a maior perda da sua vida até hoje

 

D.R.

Que opinião tem sobre o VAR?
Boa. Pode trazer muitas discussões, mas eu acho que traz muito mais verdade ao futebol.

Qual foi o jogador que treinou que mais o impressionou, seja pela capacidade técnica e atlética, seja pela evolução que teve?
O Matheus Nunes.

Tem algum talento escondido?
Amar a minha família.

Qual foi o momento mais difícil que passou na vida?
A perda da minha avó.

Se não fosse jogador, o que teria sido?
Professor primário, talvez.

Tem mais alguma história para terminar?
Aqui na Tunísia, como estamos a trabalhar no estádio municipal, mandámos construir um ou dois gabinetes. Para fechar as portas ao final do dia vinha diariamente um funcionário do estádio, que olhava para mim e começava a apontar para o relógio, como quem diz: “Está na hota de sair”. Ou seja, eu tinha de andar ao sabor dos horários do funcionário do estádio, o que é inacreditável e caricato ao mesmo tempo. Resolvi fazer a cópia das chaves e dizer-lhe que era eu quem ia passar a fechar tudo. No início ele não acreditava, ficava receoso e não me deixava, queria ser ele a fechar e zangava-se connosco. Era de rir vê-lo a discutir em árabe e nós em português. Chamamo-lo “Zangão”. Agora já confia em nós e vai embora à hora que ele quer. É a vida de treinador [risos].

 

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"Cheguei ao Sporting, deslumbrei-me um pouco e bloqueei. A auto-pressão foi enorme e o meu pai já não sabia o que fazer para me ajudar"

Afonso Taira é filho de peixe, mas começou a nadar tarde, que o bichinho do futebol não se entranhou logo. Os primeiros pontapés dá-os em Espanha, mas é no Estoril Praia que sente mesmo o futebol a correr-lhe nas veias. Faz a formação no Sporting, onde não conseguiu vingar profissionalmente e ruma a Córdoba. Volta um ano depois, para o Atlético CP, e regressa a um Estoril europeu da I Liga, antes de partir para Israel. Pelo caminho licenciou-se em Gestão. Esta é a primeira parte da entrevista

Nasceu em Lisboa, mas foi para Espanha muito pequeno porque o seu pai foi jogar para Salamanca. Recorda-se?
Sim. Fui para Espanha com quatro anos. Comecei a ler e a escrever em espanhol, foi lá que comecei a ir para a escola.

O seu pai, Taira, era jogador de futebol. E a sua mãe o que fazia profissionalmente?
A minha mãe durante a minha gravidez deixou de trabalhar e só voltou a trabalhar mais tarde, já no final da carreira do meu pai, quando ele criou uma academia de futebol em Carcavelos. A minha mãe tomou conta da parte administrativa do negócio.

Como é que era em criança, tem ideia?
O que me dizem é que era difícil, não parava quieto, mas que era respeitador à palavra. Quando os meus pais diziam "chega" ou "não", eu respeitava.

O futebol começa na escola, em Espanha?
Começa em Espanha, mas não tão cedo como é habitual nos jogadores. Ouvem-se histórias de “já dormia com a bola debaixo da almofada” ou “andava com a bola debaixo do braço para todo o lado”. Eu, nem por isso. Foi mais ou menos com 8/9 anos que eu experimentei mas nem pegou logo. Foi quase com 10 anos que comecei a levar mais a sério. Porque eu gostava de jogar à bola e gostava de correr, mas o ir treinar futebol…[risos]

Do que é que não gostava em concreto?
Os meus pais nunca incentivaram também, até eu dizer: “Quero ir para os treinos”. E por isso é que também só fui com oito anos. Quando fui acho que o erro foi ter ido logo para um contexto super exigente. Fui logo para o Sevilha, que é uma das melhores escolas em Espanha. É super exigente, jogamos um campeonato inteiro sem um único empate, só vitórias. Era um nível de exigência muito alto e eu não achei piada. Achava aquilo demasiado sério, demasiado rigoroso. E os espanhóis são muito mais rigorosos do que nós a trabalhar, no geral. Falo em relação ao futebol. Os treinos normalmente são mais exigentes, o ritmo é mais alto, e isso repercute-se um bocado na formação e acho que foi demasiado logo tão cedo. Não gostei, quis sair e fui jogar para a equipa da escola. Aí gostei e desfrutei.

Afonso Taira em bebé

Afonso Taira em bebé

 

D.R.

Tinha ídolos e torcia por algum clube ou não?
Até começar a jogar não tinha, porque não ligava. Assim que comecei a jogar, ainda em Espanha, criei um ídolo muito rapidamente: o Zidane. Até hoje.

O que admirava nele?
Para além da classe e da calma que ele transmite, a bola passava por ele e parecia que tudo parava e respirava. Eu sou um jogador que gosta disso, não sou um jogador altamente rotativo, não sou um jogador de entrar e de revolucionar o jogo. Não. Sou um jogador que gosta de pausar o jogo. Normalmente apanho colegas de equipa e adversários ou o jogo em si, atabalhoado, e eu gosto de serenar o jogo. Não sei se isso foi influência de tanto ver o meu pai, porque o meu pai também era esse o estilo, e depois o Zidane para mim é a representação máxima disso. Depois especificamente em relação ao Zidane, há uma coisa que sempre adorei e que continuo a adorar e que é o que privilegio mais no futebol: a receção de bola. É uma coisa tão simples mas que ninguém o fazia como ele.

E clube, nunca torceu por nenhum?
Quando o andava a ver jogar, ganhei afinidade ao Real Madrid. A seguir ganhei afinidade ao Sporting por ter feito a minha formação lá. Ganhei afinidade ao Arsenal porque o meu pai quando abriu a academia dele aqui, era a primeira academia do Arsenal em Portugal. Acho que o Arsenal é o clube pelo qual mais torço hoje. O clube com o qual mais me identifico, tanto em termos de filosofia, de feeling, do futebol que praticam, e por ser o clube que mais jovens jogadores lançava por ano na Premier League; neste momento se calhar perdeu um pouco esse estatuto, mas tudo isso para mim era fantástico.

Afonso começou os estudos em Espanha

Afonso começou os estudos em Espanha

 

D.R.

Quando regressa a Portugal, com 10 anos, vai viver um ano para o Algarve, porque o seu pai foi jogar no Farense. Como foi a adaptação, foi complicada?
Não me lembro de sentir grande stress. Passei a estudar num colégio inglês. Nunca estudei numa escola portuguesa, tive português, etc, mas nunca estudei numa escola portuguesa. Quando fomos viver para Lisboa, no ano seguinte, continuei os estudos no colégio internacional.

Em Faro jogou futebol em algum clube?
Joguei na equipa da escola. Rapidamente encontrei um grupo de colegas de turma que se tornaram amigos e que jogavam todos no mesmo clube, o Internacional de Almancil. Assim que comecei a jogar com eles na escola disseram-me logo: "Tens de vir para o Inter". A primeira vez que me dizem: "Tens de ir para o Inter", eu achei que eles estavam a gozar comigo, obviamente. "Para o Inter!? Mas estás a brincar? [risos] Sou bom, mas não sou assim tão bom, para além de que tenho 10 anos, não vou de certeza para Milão jogar futebol". Era o Inter de Almancil. Ainda hoje tenho muita relação com alguns desses amigos.

O seu pai faz o último ano da carreira dele no Oriental. Ficam a viver onde?
Assentamos em Carcavelos onde vivemos muitos anos. Aí como o bichinho do futebol já se tinha entranhado, foi chegar e ver o que é que havia à volta que fosse interessante. Já entravam nas hipóteses o Benfica e Sporting, Belenenses ou o Estoril. Os meus pais acharam que era uma logística um bocado agressiva ter de ir para Lisboa treinar e a opção foi o Estoril. Encaixei bem, identifiquei-me rapidamente.

Fica pouco tempo, porque no ano seguinte vai para o Sporting. Como e porquê?
O Sporting aconteceu de Sub-13 para Sub-14, que é quando começa a haver as seleções distritais. Nesse momento eu e mais dois rapazes do Estoril somos chamados aos treinos da seleção de Lisboa e logo no primeiro treino a minha mãe é abordada pelo Paulo Cardoso, na altura responsável pela prospeção do Sporting. Passado uma semana, porque os treinos eram uma vez por semana, os meus pais são abordados pelo Bruno Maruta do Benfica.

Qual foi a sua reação?
Não me disseram nada também porque a altura das seleções, era na altura dos exames na escola. Todos os anos havia exames na escola. Eles não me disseram nada, acabei os exames, fui ao torneio das seleções e a seguir ao torneio, os meus pais falaram comigo e disseram: "Tens aqui uma decisão para tomar". Apresentaram-me as duas opções, explicaram como é que tinha acontecido e pronto. Foi uma decisão que na altura foi difícil.

Ao colo do pai, Taira

Ao colo do pai, Taira

 

D.R.

O que o fez pender para o Sporting?
A primeira coisa que me fez pender para o Sporting e algo que, olhando para trás, faz ainda mais sentido: foram os primeiros a chegar. E os primeiros a chegar são aqueles que fazem logo o clique contigo, como jogador. Não houve grande dúvida por parte do Paulo Cardoso. Hoje em dia ainda valorizo mais isso.

Porque diz que valoriza mais?
Porque tenho uma carreira não consensual em termos de reconhecimento. Não sou visto da mesma maneira por toda a gente. Sou reconhecido por quase toda a gente, pelo menos da qual eu tenho contacto direto ou indireto, que sou um jogador com muita qualidade, reconhecem o valor, agora apostar em mim, já é outra história e então valorizo muito quem não tem dúvidas.

O seu pai teve alguma influência nessa sua decisão de ir para o Sporting?
Não. Pesou eles dizerem quem foi o primeiro a abordar e pesou também a academia do Sporting. Estamos a falar de um clube que na altura estava à frente de todos os outros nesse aspecto, não só em Portugal, como quase na Europa e isso também foi um grande aliciante. A academia era uma coisa nova, um edifício novo e tudo isso era fantástico, mas também dava ideia de ser uma formação mais organizada e um clube que apostava muito mais em jovens do que o Benfica, na altura.

Como é que ia para os treinos? Ia sozinho, o seu pai levava-o?
Ir treinar a Alcochete significava eu acabar a escola em Carcavelos às três e pouco, arrancar para Alvalade para apanhar o autocarro para ir para Alcochete. Alcochete autocarro para Alvalade, Alvalade, casa com os meus pais. Era sempre o meu pai ou a minha mãe que me levavam e traziam a Alvalade.

No Estoril Praia, com 13 anos

No Estoril Praia, com 13 anos

 

D.R.

Desse tempo de Alcochete o que é que guarda na memória com mais carinho?
O que guardo com mais prazer foram as amizades que criei para a vida.

Quem são?
Que passaram por lá e ainda jogam é o Mauro Antunes, está no Belenenses clube, o João Freitas, que joga no Alverca... Dos que não jogam, ainda estive lá com o Thomas Silva que neste momento é PT e o Miguel Serôdio, um central que para mim foi o jogador com mais potencial da nossa geração e que não conseguiu sequer chegar a profissional por uma lesão grave que o obrigou a abandonar. Esse é o grupo que mantemos até hoje e reunimos muitas vezes. Sem ser as amizades, aquilo que guardo com prazer é o futebol que se praticava na altura. Eu joguei na formação no Sporting e também na seleção, um futebol que quando cheguei a profissional, não tendo estado em clubes que lutam por títulos até agora, a não ser em Israel, já não se joga. Ou seja, o futebol que aprendi na formação não é bem o futebol que se joga como profissional.

Quais são as principais diferenças?
É um futebol menos romântico como profissional, é um futebol muito mais pragmático, tem que ser muito mais consciente.

Deixa-se de poder jogar só pelo prazer.
Pronto. E o prazer que se tinha na formação e no Sporting, como nós tínhamos uma posição muito dominante em relação aos outros clubes, era um futebol em que se valorizava a bola, de uma forma que não se valorizava noutros sítios, em que se passava a maior parte do tempo com a bola nos pés. Nós temos basicamente um limite de atenção para alocar, no dia. Vamos imaginar, se alocamos 80% da nossa atenção numa certa e determinada coisa, à partida vamos evoluir aí, mais do que nas outras coisas. E no futebol é isso que eu sinto, se a um jogador é-lhe pedido que pense em certas partes ou variantes do jogo, mais do que noutras, ele vai-se desenvolvendo por aí. E no Sporting na altura isso era a bola. Como profissional, não é bem assim. Existe muito o aspecto defensivo, o aspeto físico, o aspecto de responsabilidade, de seriedade, mas isso também fez-me evoluir como jogador. Uma das coisas que sempre me disseram é que me faltava agressividade. Sempre rebati porque os meus números em termos defensivos foram sempre muito bons, mas reconheço que o obrigar-me a desviar um pouco da minha atenção do que era a bola para o trabalho defensivo, fez de mim um jogador mais completo; mas perdi um pouco do romantismo da bola, de ter a bola, de trocar passes sem fim, com objetivo, mas sem fim. Toda essa parte é aquilo que guardo com mais prazer, porque efetivamente ainda não estive numa equipa como profissional em que isso acontecesse.

A sua posição em campo vai-se definindo como?
Acho que foi na passagem para o Sporting que se definiu. Sempre fui médio, mas no Estoril ainda jogava mais à frente, no ano antes de ir para o Sporting jogava como "10", até mais à frente. No Sporting passei a "8" que é a posição intermédia do meio campo e esse mesmo treinador, o Nuno Lourenço, que foi o meu primeiro treinador no Sporting, acabou por perceber que eu rendia mais era a "6". E tinha razão. Há muita gente que olha para mim e me diz que eu seria um "8" fantástico, mas já houve vários treinadores que o tentaram e mesmo que eu consiga fazer coisas boas como "8", nunca sai tão fluído, tão natural como quando estou na posição "6". Mesmo coisas que um "8" faz que são consideradas fantásticas, um passe vertical, uma aceleração de jogo, um transporte de bola, ou mesmo roubos de bola, eu faço melhor enquanto "6", do que enquanto "8".

Consegue explicar porquê?
Não [risos].

A receber das mãos de Manuel Cajuda o trofeu de melhor jogador do torneio em Guimarães, em representação do Sporting

A receber das mãos de Manuel Cajuda o trofeu de melhor jogador do torneio em Guimarães, em representação do Sporting

 

D.R.

Esteve seis anos no Sporting. Quem foi o treinador que mais o marcou?
Acho que foi o Nuno Lourenço, o meu primeiro treinador que voltou a ser meu treinador anos depois. Não posso dizer que me tenha marcado por ser inovador em algum aspecto, ensinou-me coisas como outros. Marcou-me porque sempre acreditou muito em mim, mais do que se calhar qualquer outro treinador que tive no Sporting. Aliás, assim que cheguei ao Sporting, como iniciado de 1º ano, tenho um bloqueio muito grande para conseguir jogar futebol naturalmente.

Porquê?
Não sei.

Por ser um clube grande?
Não sei, se calhar deslumbrei-me um pouco. Tentei desbloquear mas só o consegui muito perto do final da época. Estamos a falar de oito meses em que estive a jogar, não jogava mal, mas não fazia nada de jeito, não fazia nada de especial. Foi difícil. Na formação quase todos os 11 jogadores que estão em campo conseguem resolver o jogo de um momento para o outro. Seja central, lateral esquerdo, lateral direito ou ponta de lança, qualquer jogador ali tinha capacidade para, de um momento para o outro, inventar um lance. Eu jogava bem mas não conseguia dar esse ...e no segundo conseguia.

Qual foi o clique para desbloquear isso?
Não sei ao certo, mas sei que para a quantidade de tempo que estive bloqueado, é preciso um treinador que acredite em mim para continuar a pôr-me a jogar. Porque havia outros com capacidade, com potencial.

O seu pai dava-lhe muitos conselhos?
Dava. E passou mal esse ano, porque não sabia o que fazer para me ajudar. Sempre esteve muito próximo de mim. Eu próprio sentia que ele estava frustrado por não me conseguir ajudar a desbloquear.

O que é que ele lhe dizia mais vezes?
Duas coisas. A primeira era: “Eles não são melhores do que tu”. A segunda também era: “Apesar disso, tu tens de querer mais do que os outros, tens que querer mais do que eles”. Porque se calhar eu transmitia um feeling de apatia, de não querer, que não era real. Eu entrava para o jogo a querer, mas o que os meus pais viam de fora e falavam comigo sobre isso, era apatia. Não era isso que eu sentia, mas era isso que transmitia. Isso era para mim um bloqueio psicológico, estou bastante ciente de que era psicológico. Agora o que é que me levou a bloquear e o que é que me levou a desbloquear, não sei bem.

Não desconfia do que possa ter sido?
Eu desconfio que tenha sido o deslumbramento ou ver os outros jogadores a fazer, a ter momentos de espetacularidade e eu a não conseguir fazer isso. Acho que havia auto pressão para fazer algo especial, porque a verdade é que não me era exigido assim, apesar de haver muita exigência. Mas o que me marcou foi ter um treinador que mesmo eu estando nesse estado, me punha a jogar.

No dia da entrevista à Tribuna

No dia da entrevista à Tribuna

 

José Fernandes

Fez os estudos até onde?
Até ao 12º e depois fiz licenciatura em gestão.

Como é que conseguiu conciliar com a vida de jogador profissional?
Eu sempre digo que é menos difícil do que parece. Não é que não seja difícil, mas parece que não há tempo para o fazer e não é bem assim. Fiz a licenciatura em três faculdades diferentes. Comecei na Universidade Nova assim que acabei o 12º, entrei na Nova, estava no último ano de junior no Sporting. Depois como no primeiro ano de sénior vou para Córdoba, assinei três anos no Córdoba, pensei que iria acabar os estudos lá e pedi transferência. Passado um ano estava cá outra vez, no Atlético, por empréstimo e acabei por voltar, já não fui a tempo de me inscrever na Nova por timing de inscrições e acabei por ir para o ISCTE. Depois do 1º ano, o que é caricato é que como achava que vinha emprestado e voltaria, pedi Erasmus e fiz Erasmus em Lisboa, pela facilidade burocrática de tratar da situação. Mas no ano seguinte não voltei para Córdoba, fiquei cá e aí tive de fazer transferência mesmo e acabei por ficar no ISCTE, onde terminei.

Com algum objetivo específico?
Específico não, mas com objetivo. Sempre fui bom aluno e achava um pouco desperdício ficar-me pelo 12º, porque sentia que tinha capacidade para fazer uma licenciatura bem. Também estava enganado porque não a fiz em três anos, mas em seis, e achava que ia conseguir fazer em três anos. No primeiro semestre tentei fazer à velocidade normal e aí sim, não há tempo para nada. Depois acabei por perceber que tinha de baixar o ritmo na faculdade para conseguir estar ok. O objetivo foi dar seguimento aos estudos também a pensar no futuro. Apesar de ter assinado um contrato profissional com o Córdoba, aos 19 anos, ainda era muito prematuro. Ok, que era um contrato profissional, mas isso não queria dizer que podia fazer da minha vida o futebol.

Chegou pela segunda vez ao Estoril Praia na época 2014/15

Chegou pela segunda vez ao Estoril Praia na época 2014/15

 

D.R.

Como é que vai parar a Córdoba, porque é que não fica no Sporting?
Normalmente o que acontecia era assinar um contrato com o Sporting e depois ser emprestado. Mas não havia equipa B na altura, e aconteceu que eles não se decidiam, se queriam ou se não queriam, tinham dúvidas se apostavam ou não num contrato profissional comigo e às tantas eu não quis esperar mais.

Paulo Sérgio era o treinador da equipa principal na altura. Chegou a treinar com eles?
Não, nunca. Não quis esperar mais e acabei por falar com o meu empresário sobre isso. Mesmo que fizesse um contrato profissional, claramente não ia ser aposta. Porque com tanta dúvida que havia...

Quem era o seu empresário?
O João Camacho, da Gestifute.

Tinha outros clubes portugueses interessados?
Na altura apareceu o projeto do Córdoba na II Liga espanhola. Era um desafio bom, se tivesse de voltar atrás e estar na mesma posição, continuava a achar que seria um desafio bom, porque ao mesmo tempo que era muito exigente, parecia-me ser um nível em que eu podia destacar-me em termos de talento, ou de qualidade em relação aos outros jogadores. Teria de fazer uma adaptação ao ritmo, à exigência, etc., mas em termos de qualidade sentia que iria estar igual ou melhor. Só que ao mesmo tempo, hoje reconheço que não foi o melhor sítio para ir, não pelo clube, não pela realidade da II Liga espanhola, mais pelo treinador e pelo futebol que se ia praticar nesse ano. O treinador mais intenso que já apanhei até hoje, em toda a minha carreira profissional.

Que era?
Paco Jémez. É um treinador com o qual eu nunca iria encaixar, ou seja, nunca iria ser um jogador em que ele apostasse porque ele cria um jogo de uma intensidade extrema e eu vinha exatamente de um contexto onde não era exigida essa intensidade. Nós passávamos a maior parte do jogo com a bola, a gerir a bola, a gerir o tempo de jogo, a gerir o ritmo de jogo, era isso que eu fazia melhor, era esse o meu papel no campo. E ele não queria gerir o jogo, ele era sempre, sempre a acelerar. Mesmo que assim não fosse, teria de haver um processo de adaptação, só que é passar de um extremo para o outro. E aí condeno os meus empresários na altura, por não terem sabido avaliar esse aspecto. Eles tinham boa ligação com o clube e com isso faz-se o negócio, mas não foi o passo mais inteligente porque eu precisava de ter mais uns anos de experiência para poder encaixar com esse treinador.

Afonso esteve três épocas no Estoril Praia

Afonso esteve três épocas no Estoril Praia

 

Gualter Fatia

Vai para Espanha sozinho?
Sim. Foi a primeira vez que saí de casa dos pais.

Como foi a adaptação à vida sem a família?
Foi mais duro porque as coisas não estavam a correr bem. Já me estava a fazer à ideia de que isto podia acontecer, vi o meu pai a passar por isto, não foi bem isto porque não foi sozinho, foi connosco, mas já estava habituado a que um jogador de futebol muito provavelmente passa por dificuldades quando vai para fora.

A que lhe custou mais adaptar?
À vida adulta no geral, com a responsabilidade de tratar de tudo o que engloba ter uma casa, tanto da comida, como da limpeza, como da roupa, etc. Fazia tudo, a única coisa que não fazia era passar a ferro. Pegava na roupa lavada e ia pôr a uma lavandaria para engomar.

Telefonou muitas vezes à sua mãe a perguntar como é que se faz isto, como é que faz aquilo?
Raramente. Também levei muitas vezes comida daqui. Quando cá vinha visitar, levava muita comida feita.

Namoros, ainda não havia?
Nada sério.

Afonso representou a seleção desde os sub-16 aos sub-19

Afonso representou a seleção desde os sub-16 aos sub-19

 

D.R.

As saídas à noite quando é que começam?
Ainda foi em Portugal, mas por experimentação digamos. A minha primeira saída à noite foi com 16 anos, com amigos da escola. Fomos ao Tamariz. Aquilo para mim foi uma excitação, muitos deles já tinham começado com 14, mesmo com 13 a sair. Todos eles já tinham começado, eu não por várias razões. Uma delas é que tinha sempre jogo ao fim de semana e então, aí sim, o meu pai era bastante intransigente. Ele dizia-me “Se queres chegar a jogador profissional vais-te comportar como um jogador profissional. Se for isso que queres, porque também se disseres que não é isso que queres, ok. Mas se é para ter esse compromisso, se é para fazer as coisas como deve ser, é para fazer as coisas como deve ser”. Aí foi onde ele mais me influenciou, porque tudo o que é a rotina de um jogador de futebol, muitas vezes os jogadores só aprendem quando são profissionais. Eu aprendi logo com 13, 14 anos, porque era isso que tinha em casa basicamente. As saídas à noite mais frequentes foram em Córdoba. Muito também porque não jogava ou não era convocado. Estive muito tempo sem ser convocado, depois quando passei a ser convocado, claro que havia muito menos saídas.

O empréstimo ao Atlético dá-se porque pede ou é o Córdoba que define essa situação?
Eu comecei a pedir o empréstimo em outubro do primeiro ano [risos]. Percebi que não estava ajustado e falei com o clube sobre isso. Tentei sair em janeiro e o Córdoba não me deixou.

Sair para onde?
As minhas opções eram ficar ali na II Liga ou mesmo na II B. Na altura lembro-me de estarmos em conversas com o Atlético de Madrid B, seria um passo que me levaria a estar em contexto de futebol espanhol, mas um bocadinho mais protegido. Por outro lado, havia a opção da II Liga portuguesa, que também fazia sentido. Mas foi o treinador que não me deixou. Disse que eu era importante, fiz quatro jogos na época toda, mas pronto. Depois, no verão, foi a mesma história, mas eu disse-lhe: "Não posso continuar, tenho de ir jogar. Estive um ano inteiro parado, com 19, 20 anos. Tenho de jogar." E aí o Córdoba cedeu, procuraram-se opções e foi aí que surgiu o Atlético.

No dia do casamento

No dia do casamento

 

AMariana Castanheira

Foi um choque a mudança para o Atlético?
Foi, pela falta de condições. Volto a casa dos meus, não havia sequer condições financeiras para não estar em casa dos meus pais.

O primeiro contrato profissional que faz é com o Córdoba. Foi a primeira vez que ganhou dinheiro com o futebol?
Não. O contrato de formação no Sporting já me dava 290 euros.

Lembra-se do que é que fez a esse primeiro dinheiro?
Lembro-me que os meus pais me obrigaram a gastá-lo. Era quase uma praxe, gastar o primeiro ordenado. Se não me engano ofereci um jantar aos meus pais e ao meu irmão. Fomos jantar e paguei.

Não havia nada que quisesse comprar ou juntar para?
Não. Afortunado, não é? Mas não, não havia nada que quisesse pegar e ir gastar, tinha tudo o que precisava.

Estava a contar que foi um choque quando chegou ao Atlético. As condições eram muito inferiores às do Córdoba?
Eram. Com muito respeito e muito agradecimento ao Atlético. Ainda hoje tenho um grande carinho pelo clube e pelo treinador António Pereira. Apesar de ter sido bom para mim jogar, também não considero que estivesse ajustado, mas agora pelo lado contrário. Sabendo reconhecer que não estava ajustado em Córdoba por ser demasiado exigente para mim, também reconheço que no Atlético não estava ajustado e penso que acabei por jogar porque merecia, porque se calhar até podia estar num contexto um bocadinho mais exigente, um bocadinho mais acima. Por outro lado, fez-me passar por coisas em termos de realidade, de falta de condições, de dificuldades, que faz parte do que sou hoje em dia. Portanto, também não trocava, digamos [risos].

Com a mulher Mariana

Com a mulher Mariana

 

D.R.

Esteve duas épocas no Atlético. A segunda foi mais conturbada, teve muitos treinadores. Jorge Simão, Bruno Baltazar, Gorka Etxeberria, espanhol, e o professor Neca...
E ainda tivemos o interino pelo meio que na verdade era treinador de guarda redes.

Com qual deles gostou mais de trabalhar?
Com o Jorge Simão. Os treinos eram mais a sério, com mais intensidade, mais aproximados àquilo que eu imaginava o que seria treinar numa I Liga e estar num contexto de I Liga. Ainda por cima foi na última fase antes de transitar para o Estoril. Porque como só tinha mais uma no com o Córdoba e não fazia sentido vir outra vez emprestado, acabamos por decidir rescindir e assinei com o Atlético, mas só um ano. Na altura já numa fase final em que já tinha até acordado ir para o Estoril é quando aparece o Jorge Simão e foi quando eu senti que tive uma realidade de treino mais aproximada com aquilo que tive depois na I Liga.

Antes de irmos ao Estoril, não tem nenhuma história engraçada que possa contar dos tempos no Atlético?
Tenho muitas vivências no Atlético que são caricatas mas a mais engraçada foi no último jogo do campeonato, jogamos com o FC Porto B já campeão da II Liga, o jogo já não contava para nada. E o presidente na altura era um chinês e ele queria dizer qual era a equipa que ia jogar no último jogo, ninguém sabe ao certo porquê. Queria fazer de treinador. O treinador era o Jorge Simão, que apesar de ainda estar a dar os primeiros passos tinha já uma personalidade muito forte, portanto era coisa que não ia acontecer. Mas o presidente insistia, insistia. Último jogo, não contava para nada. Entretanto, chegamos para o jogo e já está tudo em alvoroço, conflito entre o presidente e o treinador. O caricato da história é que como o treinador não quer fazer o que o presidente quer, o presidente quer então interferir na palestra e a forma de boicote da palestra que o presidente arranjou é que foi hilariante. Pegou no projetor onde ia ser passado o video e a apresentação da equipa, para impedir que o treinador desse a palestra. Então era ver o presidente da SAD a sair do nosso balneário com o projetor debaixo do braço e a pôr o projetor no lixo. Nós jogadores chegamos nesse momento sem saber ainda o que se estava a passar, a primeira imagem que temos é essa. Quando o treinador nos explicou foi uma galhofa. Foi caricato.

Com a mulher e a cadela dálmata Kia

Com a mulher e a cadela dálmata Kia

 

AMariana Castanheira

Esteve três épocas no Estoril. Qual das três o marcou mais e porquê?
A primeira porque foi o chegar e adaptar a uma nova realidade e estar num contexto mais profissional. O Atlético, com todo o carinho que lhe tenho, não era um contexto profissional, apesar de estar na II liga que é um campeonato profissional, mas não era um clube profissional.

Foi um choque o salto para a I Liga?
Não,porque também sentia que eu estava um bocadinho deslocado no contexto Atlético. O Estoril encaixava muito mais onde eu devia estar. Houve um processo de uns quantos meses até conseguir assumir-me como titular, mas aí já não é uma questão de ritmo ou competitividade, mas estamos a falar de Estoril 4º lugar, Liga Europa, e eu chegado de uma II liga. O estatuto é completamente diferente, jogadores que ja estava do ano anterior, que continuam e que têm vantagem sobre quem chega, é normal.

Nesses três anos o que se passou a nivel pessoal. Saiu de casa, encontrou a mulher com quem viria a casar?
Sim, saí de casa no 1º ano do Estoril. E entretanto, no final da segunda época do Estoril conheço a Mariana Pedro que hoje é minha mulher. Conhecemo-nos através de uma amiga dela. Eu apareci de pára-quedas na sua festa de aniversario, em casa da Mariana, ainda não nos conhecíamos. A primeira vez que nos vimos foi para lhe cantar os parabéns.

Foi amor à primeira vista?
Não se pode dizer isso porque tanto ela como eu estávamos num contexto amoroso relativamente não clean, não limpo, mas passado pouco tempo fomos à procura um do outro. Ela já na altura era dona de uma empresa de uma marca de produtos de treino de ginástica, ginastica não fitness. Ela foi ginastica durante 16 anos, foi seleção nacional, fez europeus. Casamos em 2018, no final do 1º ano em Israel.


 

Spoiler

"Um romeno que ia jogar no meu lugar metia spray anestesiante nos pés porque dizia que não gostava de sentir a bola. Fiquei incrédulo"

Nesta segunda parte da entrevista à Tribuna Expresso, Afonso Taira revela as impressões com que ficou de Israel, aborda o contraste entre judeus e muçulmanos, e a segurança que diz ter sentido, apesar das bombas. Confessa que a passagem pela Roménia foi a pior experiência fora e explica por que razão o regresso a Portugal e ao Belenenses SAD são importantes para a sua carreira. Fala de olhómetros e de estatística e deixa um recado: oiçam mais os jogadores de futebol

Como se dá a passagem do Estoril para Israel? Ainda tinha o mesmo empresário?
A minha relação com a Gestifute chegou ao fim na transição do primeiro ano do Atlético para o segundo. Basicamente fiquei sem clube, sem sítio para onde ir e nunca mais me atenderam o telefone. Nem tudo é um mar de rosas no mundo do futebol. Tive que, sozinho, encontrar clube e foi aí que voltei ao Atlético, perguntei-lhes se me aceitavam de volta, porque corria o risco de não jogar naquele ano. Eles foram ótimos, por isso é que tenho também um carinho e um respeito enorme pelo clube, deram-me a mão. A transição para Israel já foi com outros empresários, o Paulo Madeira e o Bruno Basto. Foi com eles que também foi feita a passagem para o Estoril e a nossa relação continuou por aí fora, até chegar a Israel.

E Israel porquê?
Eu estava a sentir que estava na I Liga há três anos e o futebol tem uma coisa engraçada, quando se é novidade é-se visto de forma diferente do que quando já não se é novidade. E de novidade para não novidade é rápido. Comecei a sentir que não estava a conseguir dar o salto em Portugal e num contexto competitivo da Europa central, mais de primeira linha. Israel surge com uma outra oportunidade fora, neste caso na Rússia, do CSKA de Moscovo.

Afonso chegou ao Kiryat Shmona, de Israel, em 2017/18

Afonso chegou ao Kiryat Shmona, de Israel, em 2017/18

 

D.R.

Porque não foi para o CSKA?
Foi uma questão de negociação, de avançar e não avançar. É uma coisa que digo hoje aos mais novos: a ideia de que estás a fazer uma boa época e no final do ano vais para onde quiseres, é mentira. E é mentira porquê? Porque um jogador de futebol nunca tem duas opções em cima da mesa. Tem uma. Depois pode aceitar ou rejeitar e se rejeitar pode vir a ter outra. Mas ter duas opções em cima da mesa ao mesmo tempo para decidir, isso só existe nos jogos da FIFA e do Football Manager. Porque de resto o que acontece é: no dia X aparece uma proposta e eles não vão esperar 10 dias para tu teres outra e poder decidir. Eles dão-te um timing para decidires. Efetivamente um jogador de futebol, mesmo que esteja muito bem em qualquer momento, só tem uma proposta, pode ter duas ou três ao longo de dois meses, mas para ter essas duas ou três tem de rejeitar a primeira.

Quem apareceu primeiro foi o Kiryat Shmona?
Foi. E não me deu tempo suficiente sequer para considerar as duas. Foram duas possibilidades que apareceram mais ou menos ao mesmo tempo, uma efetivou-se num timing e a outra não se efetivou.

Mais depressa teria ido para a Rússia?
Acho que sim. Pelo campeonato ser um pouco mais competitivo. Mas são contextos que te levam a pensar, tenho uma coisa certa e uma que ainda não é certa. Claro que corria o risco de nem ir para um lado nem para o outro e ficar no Estoril. O que também não era mau, só que depois aí entrava um objetivo que eu tinha e que era sair de Portugal. Senti que era importante sair para depois poder voltar como novidade. Claro que se tudo corresse muito bem até podia não voltar. Mas saindo e mesmo voltando passado uns anos, aquilo que eu sinto é que voltei a ser novidade em Portugal. Foi o que aconteceu esta época.

Com quem se informou sobre o clube antes de decidir e de partir?
Tentei encontrar colegas que me pudessem dizer alguma coisa do clube, um deles foi o Miguel Vítor, que ainda está em Israel. O outro foi o Lito Vidigal, que tinha estado no Maccabi Tel Aviv essa época.

Foi para Israel com a sua mulher Mariana?
Sim.

Com a mulher, no Cambodja

Com a mulher, no Cambodja

 

D.R.

Quando chegou o choque foi muito grande?
Foi. Estamos a falar de passar de Lisboa para uma cidade do norte de Israel, com 30 mil habitantes, a 2 km da fronteira com o Líbano, a 30 km da fronteira com a Síria. Impossível de passar também. É uma cidade como há várias em Portugal, no interior, mais pequeninas, mais aldeia. Vivia-se tranquilamente, não se tinha tudo, mas vivia-se bem. Mas foi um choque.

O que vos impressionou mais?
Tudo. Desde a forma como eles vivem a religião, ao clima, super quente. À língua, que se escreve e lê da direita para a esquerda, o contacto com os judeus e com os muçulmanos ao mesmo tempo. São diferentes uns dos outros.

Quais são as principais diferenças?
Têm costumes e crenças diferentes. Uma pessoa está em qualquer sítio e vê um grupo de judeus e um grupo de muçulmanos a falar uns com os outros e os muçulmanos pela maneira de falar parece que se estão a chatear uns com os outros, estão aos gritos basicamente, numa língua super corrida, super enrolada na língua, é impossível decifrar se eles estão quase a bater um no outro ou se estão quase a abraçar-se. Os judeus também são muito emotivos, mas parece um povo um bocadinho mais sóbrio a falar, a comunicar, um bocadinho mais regrados. O muçulmano muito atabalhoado.

Foram viver para um apartamento?
Para uma casa. Fomos os dois e levamos a nossa cadela, uma dálmata, chamada Kia.

Que tal a comida?
Eles têm uma gastronomia boa, sabores com que nos identificamos, mas muito menos variedade do que nós. Nós íamos a qualquer jantar de família, tanto de muçulmanos como de judeus, eles são muito acolhedores e abertos a receber pessoas, e comíamos quase sempre o mesmo prato.

Que era?
Um peixe com um molho de tomatada super picante, com batata e cuscuz ou arroz. A base era essa. A carne também era sempre carne assada ou grelhada e não era nada de extraordinário. Eu quando lhes dizia que em Portugal temos mais de 100 maneiras de fazer bacalhau eles nem conseguiam conceber como é possível. Eles diziam que em Israel se come muito bem, e eu pensava, sim, come-se bem, mas vocês não têm noção [risos]. Não o dizia para não parecer pretensioso, mas não tem comparação com a nossa gastronomia. Têm é bons restaurantes.

Afonso (à esquerda) chegou ao Beitar de Jerusalém em 2018/19

Afonso (à esquerda) chegou ao Beitar de Jerusalém em 2018/19

 

D.R.

Foi mais difícil habituar-se a quê?
O maior choque foram os costumes de educação. Não é que fossem mal educados mas em termos de regras de comportamento social, são muito diferentes. O exemplo mais claro é o elevador. Num elevador em Portugal, quando as portas abrem, primeiro sai e depois entra, regra básica, é subentendido, certo? Lá não. As portas abrem e quem entrar ou sair primeiro, entra ou sai primeiro; esteja um idoso à mistura, alguém de muletas, de cadeira de rodas, não interessa. Quem chega primeiro, faz. Um comportamento que aqui é visto como falta de educação. Lá é assim. O elevador era replicado na vida em geral. Chegamos a ter contacto com pessoas com quem desenvolvemos amizade e com quem falamos de forma mais profunda sobre costumes e, por exemplo, na educação dos filhos, o egoísmo não é considerado negativo. O egoísmo faz parte de tu avançares na tua vida mais rápido do que os outros e isso é positivo para eles. Ouvir isso foi um choque para nós.

Que tal o clube e das condições de trabalho?
Falando ainda do primeiro clube, muito poucas condições de trabalho. Falta de organização, não por falta de dinheiro, simplesmente por mentalidade. A mentalidade deles é muito imediata, do agora. Fazer um bom campeonato para eles prende-se em conseguir que os melhores jogadores funcionem. Não se prende com arranjar condições de trabalho ou haver uma filosofia do clube ou uma estabilidade. Nada disso. Se os jogadores não encaixam com o treinador e esta época não correu bem, então muda-se 10 e vamos tentar outra vez que encaixem. Não encaixou? Muda-se 15, vêm 15. Isso significa normalmente pouca estabilidade e organização. Apesar de, por ser um clube familiar, com pessoas da cidade, também me proporcionou um grande prazer jogar ali porque havia um feeling de muita proximidade.

E o futebol?
Falando de uma forma geral, é um futebol que me surpreendeu pela positiva. Individualmente há jogadores com muito nível, muita qualidade, eles gostam de jogadores técnicos que saibam o que fazer à bola e que organizem. Adaptei-me bem a isso. O que eles têm muito pouco desenvolvido, e eu, ao contrário, tenho muito desenvolvido, é em termos táticos. É um jogo muito desorganizado taticamente, muito pouca estabilidade emocional no jogo. Muito pouco sentido de perceber os momentos do jogo. É tudo muito visceral, muito de instinto. Eles são assim no geral, na vida, e o futebol reflete isso. Agora tecnicamente e qualidade individual são jogadores que não ficam atrás dos do nosso campeonato, só que depois não têm a cultura tática, a capacidade de trabalho e o rigor.

A sua mulher adaptou-se bem a uma cidade pequena? O que fazia?
Ela adaptou-se a conseguir gerir a sua marca e a sua empresa a partir de lá. Ainda estivemos um tempo separados, ela em Portugal e eu lá, nessa transição, porque ela quis criar aqui as condições para a empresa dela conseguir funcionar com ela à distância.

Afonso antes de um jogo do Beitar de Jerusalém

Afonso antes de um jogo do Beitar de Jerusalém

 

D.R.

Desportivamente como lhe correu a época?
Individualmente foi das melhores que fiz, a par desta que estou a fazer agora e de uma das do Estoril também. A equipa ficou um bocadinho aquém dos objetivos, mas foi uma época positiva. Ficamos em 7º, o objetivo apontava para 4º ou 5º lugar.

Tinha assinado quanto tempo?
Dois anos, mais um de opção.

O que o fez mudar para o Beitar de Jerusalém?
Destaque. O objetivo de sair de Portugal passava por rapidamente crescer, fosse para onde eu fosse, mostrar-me noutro mercado para um possível regresso ser diferente. Por aí foi super positivo porque rapidamente comecei a ser visto como um dos melhores estrangeiros a atuar em Israel. E pronto, dá-se o interesse do Beitar de Jerusalém.

Não hesitou?
Não. O Beitar tinha ficado no 2º lugar no ano anterior. Tinha ido à final da Taça e estava a fazer um plantel outra vez para atacar esses títulos.

Como foi a mudança para Jerusalém?
Para nós, enquanto casal, foi muito bom, estávamos com muita vontade, porque é uma cidade diferente. Com muito mais interesse de todos os pontos de vista, tanto cultural como do dia a dia. Foi uma sorte o futebol ter-nos proporcionado viver em Jerusalém, é uma cidade que toda a gente quer saber o que se passa ali. Na verdade é uma confusão de culturas e religiões, com judeus, muçulmanos, cristãos, arménios, etc.; já se vê muito bem a distinção entre judeus ortodoxos e não ortodoxos, cristãos ortodoxos e não ortodoxos, é uma confusão, mas é espetacular.

Apanhou algum susto?
Logo no primeiro ano, ainda em Kiryat Shmona. A verdade é que todos os anos em maio há qualquer coisa em Israel, só que normalmente não se fala cá fora e este ano está a ser mais mediático porque ganhou uma dimensão muito maior. Mas no primeiro ano em Israel estamos em casa sentados no sofá a ver uma série e ouvimos lá no fundo algo que não soubemos decifrar, mas que parecia o equivalente a um fogo de artifício. Só que era um fogo de artifício que fazia estremecer o chão. Não estávamos habituados e ficamos a olhar um para o outro a pensar o que seria. Era um conflito que estava a haver na zona da fronteira com a Síria, mais ou menos a 40 km. Eram bombas a cair.

Como souberam e o que fizeram?
Percebemos logo, comecei a ligar a pessoas de lá, mas eles também têm essa informação muito mainstream, falam sobre isso abertamente não é uma coisa que só se saiba à posteriori, naquele momento já estava a informação a correr nas notícias. Não corremos perigo absolutamente nenhum, não soaram os alarmes, não tivemos de ir para o bunker em momento nenhum. Mas foi o primeiro contacto que tivemos com qualquer tipo de conflito.

E em Jerusalém?
Não tivemos susto nenhum, mas também em maio mais ou menos, houve uns confrontos na Faixa de Gaza com umas cidades ali à volta. Só que isso é quase natural para eles e também para nós foi encarado de uma forma mais natural.

Em Petra, com Mariana

Em Petra, com Mariana

 

D.R.

O Beitar de Jerusalém é o clube que tem os adeptos mais radicais e racistas, denominados "La Familia". Alguma vez foi confrontado ou teve problemas?
Não fui confrontado, mas existem dois clubes em Israel na I liga que são clubes declaradamente de comunidades muçulmanas, o Hapoel Tel Aviv e o Sakhnin, e esses clubes cada vez que jogavam com o Beitar de Jerusalém era explosivo. A semana até ao jogo, o jogo, aquilo era uma loucura, não havia rivalidade maior, mesmo com clubes como o Beer Sheva, Maccabi Tel Aviv ou Maccabi Haifa não há rivalidade igual a Beitar Jerusalem-Hapoel Tel Aviv ou Beitar Jerusalem-Sakhnin.

Quando viveu um desses jogos pela 1ª vez?
No meu 5º jogo, foi contra o Sakhnin, em Jerusalém. Eu até fiz o golo da vitória e fui confrontado também com essa loucura de intensidade, os adeptos a falar connosco, a aparecer nos treinos, mandavam mensagens, etc.

Que tipo de mensagens enviavam?
Mensagens do género, este jogo não se joga, este jogo é como se fosse uma recriação da guerra. Para os adeptos mais radicais é isso. É intenso mesmo. E com isso basicamente é impensável perder esse jogo, é impensável eles virem ao nosso estádio em Jerusalém e ganharem. Vivi isso na antevisão do jogo e depois vivi o outro lado, porque ao fazer o golo da vitória, fui endeusado, tanto no jogo como nas semanas pós jogo. Tinha adeptos que me viam na rua e que me falavam do golo e da importância do golo.

Não o assustava ter uma claque assim? São assumidamente racistas.
Eles são assumidamente racistas mas nunca vi um confronto direto. Também há que dizer, que nem toda a gente que está no “La Familia” é racista. Quando chegamos ao estádio há uma bancada inteira das laterais com “La Familia”, mas o grupo de racistas é reduzido. O resto do grupo não é racista, ou mesmo que o seja, controla essa sua fobia, e vê aquilo como se fosse simplesmente um dérbi intenso, tal como um Sporting-Benfica. Se calhar num Boca Junior-River eles são mais agressivos uns com os outros do que num Beitar-Hapoel Tel Aviv. E não há racismo envolvido num Boca-River, existe só um ódio exacerbado. Foi mais esse feeling de dérbi que senti do que propriamente racismo. Vi momentos de racismo, mas até posso dizer que tive momentos mais desgostosos em relação a um jogador negro do que a um muçulmano e não estava no Beitar.

Onde, em Kiryat Shmona?
Sim, vi isso acontecer num jogo contra nós e com um jogador da minha equipa que era de raça negra. Foi pior isso do que propriamente o confronto judeus-árabes. É uma coisa que continua a haver e que infelizmente ainda não se ultrapassou.

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D.R.

Aprendeu hebraico?
No primeiro ano fui aprendendo com o dia a dia e em Jerusalém eu e a Mariana tivemos aulas porque quisemos. A falar, como eu estava exposto no dia a dia, a minha aprendizagem foi muito rápida e depois começamos mesmo a aprender a ler e a escrever. É muito difícil.

Porque quis aprender a ler e a escrever hebraico?
Porque me identifiquei com o país. Gostei de muitas coisas, das pessoas, de Tel Aviv, é uma cidade inacreditável, de Jerusalém, do futebol, da forma como Israel é um país que, apesar de ter coisas nas quais está muito atrasado, tem outras em que está igual ou mais avançado do que nós. A qualidade de vida é muito boa. Quando cheguei, em termos do que é a vida, eu via-me sem problema a viver lá até ao final da minha carreira.

Mesmo sabendo o que está a acontecer agora entre Israel e a Palestina?
Sim. Eu sei que é difícil para qualquer pessoa que não tenha vivido num país com um conflito, perceber o que estou a dizer. Mas mesmo com o conflito que está a acontecer agora, 90% da população não está a sentir. Mesmo em sítios onde estão a passar rockets, a confiança no sistema de defesa deles é tão forte que as pessoas vêem um rocket a passar por cima, pegam no telefone e filmam.

Isso é do lado de Israel. Do outro lado não é isso que estão a viver e a sentir na pele.
Sim, eu sei, estou a falar de Israel que é declaradamente a força militar mais avançada do mundo. Não é a mais forte, mas em termos de avanço, de inteligência, é a melhor. Senti-me sempre seguro em Israel. O momento das bombas em Kiryat Shmona foi tenso porque não sabia muito bem como agir, apesar de já ter ouvido que era uma questão natural, mas a primeira vez que ouves uma bomba a cair, não há ninguém que fique indiferente. Mas nunca me senti inseguro. Fui a territórios da Palestina. Entrei no que eles chamam o west bank, uma realidade muito diferente. Israel é um deserto onde supostamente é impossível cultivar o que quer que seja, e os israelitas conseguem cultivar. Do lado da Palestina, em territórios como Belém, Ramala, a zona do mar morto, é tudo muito mais árido.

A Palestina está condicionada, não tem o poder de Israel, sofre muito mais com a guerra.
Sim, sim. Mas eu estou a falar das zonas mais tranquilas. Mesmo em Jerusalém, passa uma linha imaginária que divide a meio da cidade, west bank e território israelita, de um lado e do outro vê-se diferenças, e estamos a falar da mesma cidade.

Acha que é apenas uma questão cultural?
É muito cultural. Mas também, claro, que Israel está numa posição privilegiada, justamente ou não, mas está numa posição privilegiada e fez coisas interessantes para o país, para o seu território.

No Mar Morto

No Mar Morto

 

D.R.

Voltando ao futebol. Como correu essa época no Beitar de Jerusalém?
Um ponto alto muito grande e um baixo muito grande. Chego a Beitar e rapidamente assumo um papel importante na equipa, continuava a ser valorizado por toda a gente, mas a equipa não engatava. Uma equipa que faz parte do top 5, chegamos a estar em último lugar. Aquilo para eles era inconcebível.

É quando se dá a mudança de treinador?
Sim. Sai um treinador israelita e entra outro israelita, no momento em que eu faço uma fratura na mão, num lance de jogo em que me pisaram. Estive um tempo fora e a seguir a isso volto à equipa mas rapidamente sou afastado pelo novo treinador.

Porquê?
Estava a chegar janeiro e em Israel há limite de estrangeiros. São seis no máximo. O novo treinador chega com ideias de em janeiro ir buscar o seu lote de estrangeiros. Entra em novembro, eu ainda estou com a mão partida, quando regresso, jogo, mas pouco depois, em janeiro sou afastado. Não saí do clube, porque apesar de tudo o treinador também não tinha força para me pôr fora do clube, mas era ele que decidia quem joga e quem não joga.

O que fez? Começou à procura de novo clube?
Sim, comecei a procurar solução, só que não era fácil porque o Beitar pagou por mim. Eu era uma aposta do presidente e da direção, não era uma questão de agora sair e está tudo bem. Havia um peso diferente. Foi um resto de época sofrido, com muita injustiça sentida da minha parte, porque não sentia que tinha baixado o nível para justificar não jogar. E não só não jogar, foi não jogar e ser afastado. Cheguei a treinar à parte.

Confrontou alguma vez o treinador?
Não. Na altura não o fiz por escolha porque comecei a ser maltratado por ele.

Como?
Nos treinos, falava mal comigo. Tentava ridicularizar-me à frente de outros jogadores. Nos momentos em que ainda joguei com ele, singularizava situações como se me quisesse culpar do que estava a acontecer à equipa. Parecia uma perseguição. Parecia que queria justificar aquilo que ia acontecer em janeiro, trazer outro jogador. Até ao final da época quase nunca fui convocado. Ainda tive um momento fugaz de felicidade perto do fim. Felicidade por causa de um momento difícil para o treinador, que sofreu um AVC. O adjunto pegou em mim e pôs-me logo a titular, três jogos seguidos. Estávamos numa luta de manutenção difícil e ganhamos esses jogos. Ele volta para tomar o comando da equipa e eu volto a sair. Foi um momento baixo para mim porque sentia-me impotente, não havia nada que pudesse fazer, ele tinha aquela ideia.

Afonso (à direita) jogou no Hermannstadt, da Roménia, em 2019/20

Afonso (à direita) jogou no Hermannstadt, da Roménia, em 2019/20

 

D.R.

Foi à procura de outra solução e é aí que lhe aparece o Hermannstadt, da Roménia?
Eu entrava também no último ano de contrato como Beitar, não fazia sentido ser emprestado e entrar numa situação de rescisão de contrato em que apesar de tudo eu não tinha vontade de sair do clube e foi muito mais o clube a querer pôr-me fora por intermédio do treinador. Depois, claro que entram as indemnizações, de pagar parte do contrato ou mesmo todo o contrato, é um pé de guerra, porque também não achava justo sair sem uma compensação.

Pagaram-lhe essa compensação?
Sim. Só que com isto chegou o final do mercado. Rescindi às 23h50 do dia 1 de setembro. Com uma equipa em vista, o Hermannstadt da Roménia, tudo muito em cima do joelho, sem ser claramente a melhor opção para prosseguir a minha carreira. Mas optei por sair do estado de infelicidade em que estava. Arriscamos num mercado novo, que não era de eleição para mim.

Foi outro choque?
Um choque, com muito menos coisas positivas a dizer do que sobre Israel. Mas o choque maior foi ter quatro treinadores numa época e duas direções. Cada um com a sua ideia e a sua postura. Foi uma época difícil marcada também pelo Covid-19.

Ficou sempre na Roménia?
Não. Acabei por vir para cá antes de fecharem os voos. A Mariana estava grávida do nosso filho. Viemos em março de 2020.

Já não voltou lá?
Acabei por voltar para uma situação de rescisão de contrato.

Jogou pouco tempo então no Hermannstadt.
De setembro a dezembro porque em janeiro eles fazem pausa e é um mês de pré-época. Aí não houve futebol. Depois joguei um jogo e vim embora. A Mariana já estava no final da gravidez. O Xavier nasceu a 9 de maio de 2020, ainda foi concebido em Israel. Não assisti ao parto por causa do covid-19.

Afonso regressou a Portugal, para o Belenenses SAD esta época 2020/21

Afonso regressou a Portugal, para o Belenenses SAD esta época 2020/21

 

Carlos Rodrigues

As expectativas da Roménia e dos romenos, excederam o que estava à espera?
Infelizmente era o que estava à espera. Fala-se muito em preconceito, neste caso eles fazem jus àquilo que se fala. Como é óbvio apanhamos pessoas muito boas pelo caminho, mas o contexto profissional que encontrei foi muito, muito negativo, muito mau. Muita mentira, muita falta de compromisso, salários em atraso. Há um olhar de lado, alguma inveja, em relação aos estrangeiros.

Porquê?
O estrangeiro é olhado como ele vem para me roubar o lugar, a mim ou a outro romeno. E enquanto o primeiro treinador, o Enache, foi uma agradável surpresa porque era super europeu, super moderno, tanto na relação como na abordagem ao jogo, o treinador seguinte era o oposto. Uma escola comunista, completamente frio em todos os sentidos, via-se claramente uma aversão aos estrangeiros, nós éramos cinco portugueses e dois brasileiros na equipa, acho que não houve nenhum de nós que não tenha sofrido com esse treinador.

Passava muito tempo com os outros portugueses?
Sim. Éramos um grupo engraçado. O David Caiado, foi aquele com quem fiquei com uma relação mais próxima. Mas esse treinador, só não pôs o guarda redes de parte porque eram dois portugueses. Foi uma má experiência. O jogador do futebol, infelizmente está habituado a falhas de compromisso salarial, é uma realidade triste, mas é a realidade. Em Portugal não é muito usual, fora de Portugal em alguns contextos é bastante comum. A Roménia é um deles. Antes de chegar à Roménia sabia que havia essa possibilidade, daí também só ter assinado um ano. E não demorou muito tempo. Aliás, nem o prémio de assinatura recebi. Foi difícil. As pessoas eram muito frias, muito pouco dadas à relação, um almoço de equipa durava mais ou menos 30 minutos.

Afonso e a mulher, Mariana

Afonso e a mulher, Mariana

 

D.R.

Deve ter muitas histórias para contar da Roménia. Conte-nos uma.
Numa dessas mudanças de treinador, o que veio quis mudar alguma coisa e parte dessa mudança passava por abdicar de apostar nos estrangeiros e apostar nos romenos. Começou a pôr os romenos praticamente todos a jogar. Eu acabei por ter um momento em que também não jogava, estavam romenos a jogar na minha posição. Jogadores que, com todo o respeito, não tinham a experiência que eu tinha. Como profissional que sempre fui, não levantei ondas, não mudei o meu comportamento. Isso implicava chegar ao dia do jogo, não estar na equipa titular e manter a calma, tentar pensar positivo, pensar em tudo o que tinha de fazer para que quando entrasse no jogo estivesse ao melhor nível para agarrar o lugar. Isto exige algum esforço mental, resiliência, determinação. E num dos jogos em que eu ia para o banco cheguei ao balneário e vejo o jogador que ia jogar no meu lugar, a pôr um spray nos pés, antes de vestir as meias. Fiquei confuso sem perceber o que se estava a passar porque não me parecia ser um spray de odor, que já por si seria estranho antes de um jogo, mas cada um sabe de si. Acabei por ganhar coragem e perguntei-lhe o que estava a pôr nos pés. Ele olha para mim e na sua inocência, diz-me “É anestesiante”. Eu faço uma pausa de silêncio, olho para o lado para ver se alguém tinha ouvido aquilo, e pergunto: “Anestesiante, porquê?”; “Eu prefiro. Eu prefiro jogar com anestesiante para não sentir tanto a bola. Eu prefiro não sentir a bola” [risos]. Isto é difícil porque é um momento em que penso “Bem, eu sou um jogador de futebol que não vou jogar a titular para jogar um rapaz que, como jogador de futebol, diz que prefere não sentir a bola a bater no pé”. Fiquei incrédulo, fiquei a rir para dentro e a pensar isto é mau demais para ser verdade, é ridículo e é impossível um jogador de futebol não gostar de sentir a bola nos pés.

A pandemia acabou por ter um lado positivo para si porque permitiu-lhe estar mais tempo em casa, com a família.
A pandemia foi boa para mim porque tive um primeiro ano de vida do meu filho que não teria de outra maneira. O futebol esteve parado imenso tempo. Acabei por rescindir com o Hermannstadt e tive um período de transição muito longo, mas foi um período que tive com o meu filho. Só comecei a pré-época em agosto.

Afonso tem contrato com o Belenenses SAD até 2022

Afonso tem contrato com o Belenenses SAD até 2022

 

D.R.

Como surgiu a hipótese de ir para o Belenenses SAD?
Foi um contacto, não é um empresário, que conhece o Petit e sabia da minha situação. Essa pessoa apareceu num momento específico, interessou-se, achou que podia ajudar e foi bem vinda a ajuda, até por parte dos meus empresários. Perguntou ao Petit, ele achou que fazia sentido e falou diretamente comigo. O Petit conhecia-me da altura de jogar no Estoril, explicou-me o que via na minha ida para lá, e rapidamente acertamos. Foi uma oportunidade de voltar à I Liga, em Portugal. O futebol português é a minha casa, como eu disse logo na minha primeira flash interview, em Guimarães. Não é uma questão de ser o clube X ou Y, o futebol português é a minha casa.

Depois de três anos fora sentiu muitas diferenças?
Apesar de ter saído como um jogador estabelecido da I Liga, uma pessoa tem sempre a curiosidade de saber se continua alinhado, acima ou abaixo em relação ao futebol em Portugal. E senti que estava alinhado. A adaptação foi muito fácil. Rapidamente percebi que a ideia de jogo, de treino, a exigência de organização tática do Petit se encaixa muito naquilo que sou como jogador. Fala-se muito na imagem de Petit como jogador se transpor para a imagem de treinador, e ele próprio fala disso de forma descontraída, mas na verdade não se compara. É um treinador muito mais ponderado e calmo do que parecia ser como jogador.

Assinou por dois anos. Quais são as perspectivas futuras?
É difícil para mim falar sobre isso hoje. Eu tinha um objetivo no trajeto da minha carreira que era ser sempre bem recebido em Portugal. Gostaria de ter sempre a porta aberta aqui. Portanto voltar foi super importante para mim. Voltar e conseguir destacar-me ao longo da época foi ainda mais importante. É um orgulho.

No Natal, em casa, com a cadela Kia

No Natal, em casa, com a cadela Kia

 

D.R.

Acha que tem hipótese de subir mais um patamar dentro do panorama dos clubes portugueses?
Ambiciono isso. Aquilo que falei, de voltar a ser novidade, aplica-se claramente. Passados três anos voltei a ser novidade, sinto isso. Tanto que é o ano da minha carreira em que tenho mais destaque, desde que comecei a jogar futebol.

Esse destaque não chegou um bocadinho tarde?
Claro que era melhor se tivesse sido mais cedo. Mas também se calhar está mais alinhado com o jogador que sou hoje do que era há quatro ou cinco anos. Agora, é óbvio que gostaria que tivesse sido quando apareci na I Liga pela primeira vez. Porque há momentos chave na carreira dos jogadores e esse para mim é o mais chave, quando se aparece na I liga, qual é o destaque que se tem na altura. Muito mais facilmente faz-se uma transferência boa no primeiro em que se aparece, se há destaque, do que quando o destaque só surge no 4º ou 5º ano.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Não. O primeiro limite há-de ser físico. É até o corpo permitir.

Já pensou no futuro pós-futebol?
Sempre pensei nisso. Tanto que decidi tirar uma licenciatura.

Mas o que gostava de fazer depois?
Neste momento não sei. Gosto do mundo de gestão, gosto do mundo do futebol, se calhar casando os dois, uma direção desportiva podia fazer sentido. Gosto do treino também, mas não me vejo como treinador. Tenho vontade de experimentar um mundo que não seja o futebol também. Tirei durante a pandemia um curso de gestão desportiva, online, no Cruyff Institute. Foram cinco meses. Não sei, vamos ver.

No dia da entrevista a Tribuna, com a camisola do Belenenses SAD

No dia da entrevista a Tribuna, com a camisola do Belenenses SAD

 

José Fernandes

Onde ganhou mais dinheiro?
Em Israel.

Investe em quê?
Imobiliário e na bolsa.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
O casamento.

Tem duas tatuagens. Qual foi a primeira que fez?
Foi no braço, com o meu irmão, fizemos os dois a mesma tatuagem. Não é uma tatuagem realista, é mais abstrata mas é de um sítio específico, a praia dos coelhos, em Setúbal. E é de um sítio específico dessa praia onde vamos praticamente todos os anos e que representa o momento do ano em que eu e o irmão estamos mais próximos.

Tem algum hóbi?
Aquilo que mais gosto de fazer a seguir ao futebol é futvolei.

É um homem de fé?
Não posso dizer que sou.

Superstições?
Também não.

Qual foi o adversário mais difícil que encontrou até hoje?
Foi na formação, ainda, foi o jogador que mais me impressionou e o que foi o mais difícil de defender, o Juricic, da Sérvia, contra quem joguei pela seleção.

Quando é chamado pela primeira vez a uma seleção?
Fui à de sub-16 e fiz sempre até sub-19. Depois no 1º ano de sénior fui chamado à de sub-20, mas só para estágio. Depois voltei aos sub-21, com o Rui Jorge.

Com a mulher, o filho Xavier e a cadela Kia

Com a mulher, o filho Xavier e a cadela Kia

 

AMariana Castanheira

Ainda é uma ambição para si jogar na seleção A?
É uma ambição, sempre foi e sempre há-de ser, mas hoje em dia também percebo que não depende só do que é que se traz ao jogo, depende do contexto em que se está, do estatuto e da exposição que se tem, depende de várias coisas. Então se eu criasse isso como objetivo mesmo, seria uma fonte de frustração.

E qual foi a maior frustração da carreira?
A maior não é de não ter chegado ao sítio tal, embora também tenha algumas dessas, mas é quando oiço feedback sobre mim como jogador e há pessoas que consideram que eu defensivamente não sou um jogador de alto nível. É uma mentira pegada. Porque cheguei a Portugal e já sou chamado de rei dos desarmes. Mas não é só este ano que sou o rei dos desarmes, eu fui top 3,2 ou 1 de recuperações de bola em quase todas as minhas épocas como profissional.

Porque é que acha que existe essa ideia sobre si? Porque é que não conseguiu vingar na montra?
Não querendo ser indelicado, mas é falta de informação das pessoas que estão a construir essa opinião. Olhómetro, que existe muito no futebol. Não sou um defensor de estatística pura, mas o olhómetro só por si também não chega.

Essa ideia sobre si está a mudar ou ainda se sente mal amado?
Não, ainda não mudou. No meu regresso tenho pessoas relevantes em clubes portugueses a dizer que o Afonso é bom jogador mas o futebol não é só com bola. E depois sou o rei dos desarmes...Acho que é um pouco incongruente.

Qual foi o momento mais feliz na carreira?
Como profissional foi o momento em que dei o salto para o Estoril Praia.

Se pudesse escolher qual o clube onde gostaria de jogar?
No Arsenal.

Tem algum talento escondido?
Não sei se é escondido, mas é inteligência emocional.

Se não fosse jogador de futebol teria sido o quê?
Provavelmente gestor de empresas.

O que é que os jogadores gostariam que acontecesse no futebol que não acontece?
Que se ouvisse mais a opinião dos jogadores. Em muita coisa em relação ao futebol, ouve-se a opinião de todos menos dos jogadores e isso é um handicap muito grande que o futebol tem. Somos aconselhados pelos vários intervenientes do futebol a não fugir daquilo que são os moldes da comunicação de um jogador. E a verdade é que a opinião dos jogadores, não pode ser a única, mas tem de ser muito importante em relação ao que acontece no futebol. Isto é igual em todo o lado, não é só em Portugal. Ouve-se a opinião dos que fazem tertúlias de futebol, existem jornais desportivos diários, telejornais desportivos diários, ouve-se a opinião de treinadores, árbitros, clubes, liga, de todos, menos dos jogadores.

 

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Spoiler

"No Sporting, fiz um 'cabrito' ao Stojkovic, o guarda-redes. Ele quase que me queria bater, disse que eu era miúdo, não podia fazer aquilo"

Marco Matias, de 32 anos, está a jogar no Nacional pela segunda vez numa carreira que começou no Barreirense, mas ganhou corpo no Sporting. Sem conseguir vingar no clube do coração acabou emprestado a vários clubes, antes viver o momento alto de ganhar a Taça de Portugal pelo V. Guimarães, de Rui Vitória. Nesta primeira parte fala-nos de como um dia teve de fazer a A1, de Fátima a Lisboa, com as mãos nas partes íntimas e das superstições com botas velhas, entre outras aventuras

Nasceu no Barreiro. Filho e irmão de quem?
A minha mãe é da zona da Baixa da Banheira, perto do Barreiro e o meu pai é de Fornos de Algodres. Tenho um irmão mais novo, com 22 anos. Os meus pais conheceram-se numa excursão à praia da Fonte da Telha, em 1980, ela tinha 15 anos e ele 19. Namoraram seis anos antes de casar. O meu pai através do irmão dele veio para a Baixa da Banheira para jogar futebol. Mas trabalhava como canalizador também. Jogou no Real Banheirense, que agora é União Banheirense, mas já tinha jogado na Associação da Guarda e na Associação Desportiva de Fornos de Algodres. Era lateral esquerdo. Curiosamente a minha mãe também jogou futebol, no Real Banheirense, era guarda-redes. Jogaram ambos em posições opostas à minha [risos].

Cresceu na zona da Baixa da Banheira?
Sim. Os meus pais emigraram para a ilha de Jersey, em Inglaterra, com um grupo de amigos, para tentar melhorar a vida. Eu ainda era bebé, tinha 22 meses, mas eles regressaram seis meses depois com saudades. Fui criado muito pelos meus avós maternos.

Como era em criança?
Calminho quando queria e reguila quando queria, era uma mistura. Andava sempre com uma bola atrás. Eu ia para a escola com o kit completo do Sporting, o meu presente de aniversário era sempre o novo kit do Sporting. Então ia sempre vestido de Sporting, inclusive com chuteiras e com caneleiras, para a sala de aula [risos]. E com a minha bola, claro.

Porque é que se tornou adepto do Sporting, tem noção?
O meu pai sempre foi sportinguista e quis incutir-nos. Eu felizmente também muito cedo ingressei no Sporting para jogar futebol, fiz praticamente a formação toda lá.

Já lá vamos, primeiro quero saber se gostava da escola.
Gostava. Gostava mais do intervalo grande, que dava para jogar futebol [risos]. Sempre fui um aluno razoável. Estudei até ao 11º ano, porque com os treinos de juniores na academia do Sporting tive de fazer uma escolha. Não foi difícil. Mas confesso que hoje sinto que faz-me bastante falta ter o 12 º ano e ter um curso

Em bebé, com um primo. E já com a bola debaixo do braço

Em bebé, com um primo. E já com a bola debaixo do braço 

D.R.

Porque é que começou a dar mais valor à escolaridade?
Porque vou começando a pensar noutras coisas, já tenho outros projetos, tenho empresas minhas na área de imóveis e vejo que é uma mais valia. Não sou daqueles que acredita que por termos acabado a escolaridade toda e a faculdade somos mais inteligentes do que os outros que se calhar não tiveram a oportunidade de o fazer, mas sei que no dia a dia, mesmo para as pessoas, para as outras empresas, é sempre bom apresentar um bom currículo e acho que isso acaba por ser muitas vezes determinante.

Quando era pequeno quem eram os seus ídolos?
Eram todos os que jogavam na altura no Sporting [risos]. Gostava muito do Beto Acosta, gostava muito do Niculae. A grande dupla Jardel e João Pinto. Tudo o que fosse jogador do Sporting eu gostava, em todas as posições e então se jogasse a lateral direito… Eu imitava o César Prates quando jogava a lateral. Se fosse a guarda-redes, o De Wilde ou o Costinha e mais tarde o Schmeichel, o meu ídolo era sempre na posição onde eu jogasse, desde que fosse do Sporting.

Como começou a jogar no Barreirense aos 11 anos?
Eu jogava na rua com os meus amigos e tinha um colega de escola com quem me dava muito bem que ia para o Barreirense com o pai. Na altura não tinha ninguém que me levasse e perguntei-lhe: "Posso ir contigo?". A partir daí comecei a ir. O treinador também gostou de mim e eu tentava sempre ir com o pai dele. Às vezes o meu tio, tem uma loja de marisco, também nos levava na arca frigorífica. Não havia outro tipo de transporte, então nós tínhamos que ir na arca, desligada, até ao Barreiro. Era assim que conseguíamos ir treinar

Marco com o pai, Carlos Matias

Marco com o pai, Carlos Matias

 

D.R.

E o Sporting surge quando e como?
Surge quando sou infantil de primeiro ano e jogava pelos do segundo, no Barreirense. Tinha tinha feito muitos golos, 43, no Barreirense, jogava nos mais velhos, e tive a sorte de ter um mister que era olheiro do Sporting, o João Ruas. Ele deu o meu contacto no Sporting, fui lá treinar à Torre, à experiência. Nós equipávamo-nos no estádio antigo do Sporting e depois íamos para a Torre treinar, para um pelado. Íamos todos juntos numa carrinha, num mini autocarro e, nunca vou esquecer, eu estava tão nervoso antes do treino que me vomitei todo no autocarro [risos].

Logo no primeiro treino?
Sim. Mas não houve grande stress, os miúdos também não ligaram muito e passou-se. Na altura, não era envergonhado, mas era de estar no meu canto, fazia tudo o que me pediam nos treinos e nos jogos, mas não era de falar muito.

Ficou sempre a viver em casa dos pais ou foi viver para a Academia?
Sempre em casa dos meus pais. No primeiro e segundo ano de infantil, era o meu pai que me levava para Pina Manique, no primeiro ano de iniciados B é que começámos a treinar na Academia, em Alcochete. E era também o meu pai que me levava, ou muitas vezes eu ia do Barreiro para Lisboa, para o estádio do Sporting, para apanhar o autocarro do Sporting que ia para a Academia. Dava uma grande volta. Era muito difícil porque nós treinávamos ao final da tarde e chegava sempre muito tarde a casa, às dez e meia. Era jantar e depois acordar cedo para ir para a escola. Foi um período que não foi fácil mas que compensou, eu fazia aquilo que gostava por isso tinha que ser grato.

Em casa com a mãe, Manuela Matias

Em casa com a mãe, Manuela Matias

 

D.R.

Ser jogador de futebol foi sempre o seu sonho ou houve uma altura em que disse que queria ser outra coisa?
Não, ser jogador foi sempre o meu sonho e consegui concretizar.

Quais foram as primeiras amizades que fez no Sporting?
O André Santos e o Adrien Silva, que praticamente fizeram a formação toda comigo. E o Vivaldo Fernandes.

E os treinadores que mais o marcaram na formação?
O primeiro era ainda muito miúdo, era o mister Nuno Naré, mas foi uma boa introdução que tive no Sporting. Mas acho que os mais marcantes foram o mister Luís Dias que acreditou em mim em momentos em que até eu próprio ia-me abaixo: e sem dúvida o mister Lima, que foi o ponto de viragem, nos juniores. Acho que foi a pessoa que acreditou em mim com unhas e dentes, a quem estou muito grato, por me ter ajudado a dar aquele salto para a liga profissional.

Essas dúvidas que tinha, esses momentos em que ia mais abaixo, surgiram porquê?
São aquelas coisas um bocadinho de criança porque eu na altura era muito franzino, muito pequeno e é claro que os jogadores que tinham muito mais força do que eu e eram maiores, normalmente jogavam mais. Então naquela altura, era difícil competir com eles e havia sempre ali uma tristeza num momento ou outro quando estava um ou dois jogos sem jogar.

Mas alguma vez lhe passou pela cabeça desistir?
Desistir nunca, mas sair do Sporting passou-me uma vez. Penso que foi nos juvenis e a pessoa que me travou, que não me deixou mesmo sair, porque também acreditou muito em mim, foi o senhor Aurélio Pereira. Disse que não fazia sentido nenhum.

Queria ir para a onde?
Simplesmente queria sair, o que eu gostava era de jogar futebol, não me interessava mais nada, só queria jogar e como não estava a jogar tanto, queria sair porque na minha cabeça pensava, sou jovem, sou uma criança ainda, mas tenho de jogar. Tinha uns 15 anos.

Tinha empresário?
Ainda não. O senhor Aurélio Pereira acabou por me fazer ver as coisas, que às vezes há jogadores que aparecem um bocadinho mais tarde pelo físico ou por evolução na qualidade ou pela maneira de trabalhar, e eu agarrei-me àquilo e disse “tenho de conseguir”. E foi nos juniores que comecei a dar o salto. Comecei a jogar pelos juniores do segundo ano quando era de primeiro, comecei a fazer muitos golos, fiz o meu contrato de formação, depois fiz o profissional.

Marco fez questão de enviar foto da mãe quando esta foi guarda-redes no Real Banheirense

Marco fez questão de enviar foto da mãe quando esta foi guarda-redes no Real Banheirense

 

D.R.

Quanto e quando ganhou o primeiro dinheiro no futebol?
O primeiro dinheiro foi um prémio de 1.400€. Foi o prémio de assinatura de formação.

O que fez a esse dinheiro ou o que é que os seus pais fizeram com ele?
Sei que foi para mim, mas acho que o estourei em chuteiras e equipamentos de futebol, em bolas [risos].

E qual foi o valor do primeiro ordenado?
À volta dos 1.600€, qualquer coisa assim. Gastava o dinheiro em jogos ou comprava algumas roupas para mim

Quando começaram os primeiros namoros e as primeiras saídas à noite?
Muito tarde para aquilo que se vê hoje em dia [risos]. Tinha quase 18 anos quando fui a uma discoteca muito conhecida no Barreiro, o DNA. Tínhamos um amigo à porta que hoje por acaso é empresário de futebol, e ele deixava-me entrar porque a minha namorada fazia lá desfiles de moda. Nunca tinha ido antes, já os meus colegas nos juniores estavam fartos de ir a discotecas e eu por acaso não. Era muito caseiro, de estar sempre a jogar à bola, ainda era muito infantil. Foi só a partir dos 17 anos que tudo começou para mim.

Ganhou-lhe o gosto? Gosta de sair à noite?
Já tive alturas em que até gostava de ir de vez em quando, à sexta-feira e ao sábado com os meus amigos, ainda naqueles tempos em que nós esperávamos quase até à uma ou duas da manhã para ir para a noite. Mas foram poucas vezes.

Nunca teve problemas no clube por causa de noitadas?
Não. Eu nunca ia quando tinha treinos ou quando tinha algum tipo de compromisso com o clube, ia sempre nas folgas. Nunca me descuidei, mas também nunca fui muito empurrado para esse tipo de vida e costumo dizer que, agora, para ir, só se for de arrasto, só se estiver com amigos, com a família a jantar e depois vamos a algum lado, porque combinar de propósito para ir não é algo que me atraia muito.

Qual foi o seu primeiro carro?
Um Peugeot 207 CC. E foi um orgulho porque foi comprado por mim, foi a minha primeira conquista em termos de objetos. Aquela primeira vez que me sentei ao volante quando estava sozinho com o carro e pensei: “consegui com o trabalho e esforço todo que fiz”. É gratificante como é óbvio.

Com o equipamento do Sporting com que gostava de ir equipado para a escola

Com o equipamento do Sporting com que gostava de ir equipado para a escola

 

D.R.

Quando foi chamado pela primeira vez à equipa principal do Sporting e por quem?
Foi nos juniores, pelo mister Paulo Bento. Quando faltava algum jogador ou quando era outro tipo de treinos eles chamavam os juniores. Tirando o Adrien, que já treinava com a equipa principal e só jogava connosco, de vez em quando íamos treinar ao seniores.

Recorde a primeira vez que entrou no balneário sénior.
Eu já conhecia algumas pessoas como o Yannick Djaló que morava ao pé de mim. E conhecia alguns porque eles também iam ver os nossos jogos, o próprio Miguel Veloso, o Nani; e às vezes também estávamos juntos a almoçar.

Não lhe fizeram nenhuma partida?
Não. Havia a questão das multas se chegasse atrasado ou se fizéssemos a barba no lavatório, que não se podia, mas eu nem tinha barba na altura. Assustavam um bocadinho aquelas multas. Os ordenados não tinham nada a ver com os nossos e ver aquele tipo de multas, quase que nem dormíamos para não chegar tarde [risos].

Estava muito nervoso?
Claro, até começarmos a jogar e a soltar um bocadinho, é sempre difícil. Nós estamos habituados a vê-los do outro lado da academia ou na televisão e poder partilhar o balneário, um treino, um passe, tudo, é uma experiência única, ainda mais sendo tão jovem. Para mim eram todos uns ídolos. Foi uma experiência muito boa. Lembro-me daquele jeito do Paulo Bento, o falar dele, e de no final do treino perguntar-me o que tinha achado, se tinha gostado. Eu disse que era diferente e que era muito bom, que estava contente.

Continuou a ser chamado?
De vez em quando éramos chamados, às vezes iam uns, outras vezes iam outros, ou então éramos chamados só para completar o número de jogadores para fazer um certo tipo de treino. Depois começou a ser mais frequente, já estávamos mais à vontade mesmo no próprio balneário a malta daquela geração.

Marco (o 3º em baixo à esquerda) na equipa de Infantil B do Barreirense

Marco (o 3º em baixo à esquerda) na equipa de Infantil B do Barreirense

 

D.R.

Houve algum jogador que o tenha surpreendido pela positiva, ou pela negativa?
Não é pela negativa, mas houve um lance que eu fiz um 'cabrito' ao Stojkovic, o guarda-redes, e ele quase me queria bater [risos]. Disse que eu era miúdo e não podia fazer aquilo com aquela idade. Mas é claro que depois os outros começaram a rir, o Miguel Veloso, o Yannick.

Só foi chamado pelo Paulo Bento?
O Laszlo Boloni quando esteve no Sporting chegou a dar um treino à formação. E foram só esses dois.

Os treinos da equipa A eram muito diferentes dos treinos dos juniores?
Eram. É um ritmo muito mais elevado, por tudo, pela experiência, pela inteligência dos jogadores, pela maturidade, era completamente diferente.

Nesse altura qual era o seu maior sonho, a sua maior ambição?
O meu maior sonho sempre foi jogar pelo Sporting na equipa principal e, claro, depois ingressar na seleção. À parte desses dois, era outro que consegui realizar, jogar em Inglaterra.

Arranjou empresário entretanto?
Sim, nos juniores tive um empresário, o Amadeu Paixão, que agora é conselheiro do Sheffield, onde também estive, e que fez parte da Doyen durante muitos anos. Foi o meu primeiro empresário. Ele e o filho dele também já tinham alguns jogadores, como o André Santos e o Adrien.

Porque é que nunca conseguiu jogar na equipa principal do Sporting? Acha que teve a ver com o quê?
Não faço ideia, cada um tem a sua opinião. Se calhar para uns por ser franzino, se calhar porque não explodi tão cedo como devia ter explodido. O facto de não haver equipa B também não ajudou. Hoje em dia é muito mais fácil para um jogador que esteja na equipa B do Sporting, saltar para a equipa A, se houver uma lesão por exemplo e se fizer um bom jogo e começar a sobressair. Há 14 ou 15 anos não havia, era mais difícil.

A festejar um golo pelo Barreirense

A festejar um golo pelo Barreirense

 

D.R.

Como surge o empréstimo ao Varzim? É o Sporting que propõe ou é o Marco que quer sair?
Isto foi já na parte final dos juniores. O mister Paulo Bento falou comigo e disse-me que o Rui Dias estava a trabalhar no Varzim e gostava que eu fosse para lá, porque o objetivo seria ganhar maturidade e regressar ao Sporting. Vi aquilo com muito bons olhos, não tinha muita experiência, falei também com o meu empresário. Se calhar se fosse hoje... acho que o importante não seria ir para uma equipa tão boa, porque na altura acho que só eu e o Adrien é que saímos para a II Liga, porque o resto foi tudo para equipas da 2.ª B e outros desistiram de jogar futebol. O Varzim na altura era uma boa equipa. Só que foi um bocadinho difícil. Apesar de ter qualidade, não tinha maturidade e experiência.

Foi a primeira vez que saiu de casa dos seus pais?
Foi e foi muito difícil. Estava numa altura em que a malta da margem sul tinha uma carrinha, onde ia eu, o Silvestre Varela, os que jogavam desde os iniciados até aos juniores. Tinha tudo e estava ao pé de casa. Eles iam buscar-me e pôr, o meu pai levava-me para todo o lado, estava muito mal habituado. No momento em que fiquei no Varzim e eles vêm embora com o meu empresário e eu fiquei no hotel, foi quando me caiu a ficha [risos]. Basicamente eu treinava e ia para o hotel. Comia muito pouco, chorava muito, não estava habituado a estar longe de toda a gente e foi muito difícil, confesso que foi muito difícil.

Esteve sempre no hotel?
Não, mas estive ainda algum tempo no hotel antes de encontrar um apartamento. Depois com o apartamento é que a minha mulher, namorada na altura, foi viver comigo e pronto.

Como se chama a sua mulher e como a conheceu?
Conheci a Cácia quando estava nos juniores, num jantar de um dos meus melhores amigos. Eu estive quase para não ir a esse jantar porque íamos ter um jogo no Algarve pelo Sporting. Cheguei em cima da hora, foi tudo muito rápido mas conheci a minha mulher [risos]. A Cácia tinha 17 anos, ainda estava a acabar o 12º ano. Terminou o 12º com boas notas, mas depois preferiu acompanhar-me e por isso foi viver comigo quando fui para o Varzim, logo no primeiro ano em que fui.

Nos iniciados do Sporting. Marco é o segundo em baixo à direita

Nos iniciados do Sporting. Marco é o segundo em baixo à direita

 

D.R.

Como é a um balneário da II Liga, vindo dos juniores do Sporting? É uma realidade completamente diferente?
É. Eu pensava que seria um bocadinho como nos juniores, que chegava ali e que ia marcar muitos golos e fazer passes e a malta começou logo: “Eh pá, miúdo, sonhas muito, mas isto não é os juniores. Há aqui malta com trinta e tal anos que corre mais do que um com 17 ou 18, e tem muita experiência. Isto não é só por ser jogador do Sporting, ou do FC Porto ou do Benfica, é preciso demonstrar”. E é, é preciso mais do que só jogar à bola, é preciso maturidade e experiência. E foi difícil porque era um clube que tinha muitos bons jogadores, joguei com o André André, com o Neto, Marafona, Bruno Moreira, Yazalde, o Emanuel. Tínhamos uma equipa recheada de muito bons jogadores. E foi uma aprendizagem, não digo que foi mau, foi muito bom para a minha maturidade e experiência.

Sabia que só ia lá ficar uma época?
Sim, era um ano emprestado e voltava ao Sporting, mas se fosse por mim nem fazia a época toda, tinha feito só metade. Na altura até falei com o mister Rui Dias: "Mister, tenho de jogar mais, tenho outros clubes da II B, mas é para jogar". E ele disse-me: "Mas tu és maluco, tu já vistes o teu treino de finalização? Tu fazes 40 remates, fazes 40 golos, não te posso deixar ir embora assim. Isto é uma questão de tempo". Fui fazendo alguns jogos, não tanto como queria, mas pronto. É um pau de dois bicos porque acho que foi bom para o meu crescimento e para a maneira como eu via o futebol. Porque quando estamos no Sporting, na formação dos grandes, pensamos que é tudo muito fácil. E quando chegamos à realidade do futebol... E eu estou grato por ter jogado na II Liga e na II B, porque vi o esforço de colegas que trabalhavam e jogavam ao mesmo tempo para ganhar pouco, só aí é que se vê o amor que tinham ao futebol, aquele brilho nos olhos. Gostei muito de viver esses momentos, marcaram a minha vida como jogador.

O que aconteceu no final da época, volta ao Sporting?
Não, volto a ser emprestado, desta vez ao Fátima. Mas eu estava mentalizado de que seria emprestado novamente. Era muito difícil conseguir fazer parte do plantel principal do Sporting e depois também comecei a ter consciência que a época não me tinha corrido muito bem, tinha de fazer melhor, mostrar mais e encarei aquilo como um desafio. Fui para o CD Fátima nesse espírito.

Gostou do Rui Vitória?
Foi bom. É um treinador que não gosta muito de craques, gosta de bons jogadores de futebol que dão tudo em campo. O facto de ser craque ou de se armar em craque para ele pouco importa e isso foi uma das coisas que sempre gostei nele. Quer tivesse 17 ou 33 anos, quem estivesse melhor, jogava. E sempre foi honesto, sempre foi muito sincero. Fui jogando, não com tanta regularidade como eu queria, mas percebia que me faltava também qualquer coisa. Tinha de ganhar mais maturidade, não podia fazer um jogo bom e depois nos outros dois jogos não aparecer tanto, tinha de ser mais regular em termos de exibições. Lembro-me que também falei com o diretor desportivo do Sporting, que na altura era o Sá Pinto, por não estar muito contente de estar a jogar pouco, até porque na altura o Fátima tinha uma ligação mais satélite com o Benfica e isso prejudicou-me um bocadinho.

Marco (ao centro) com colegas do Freamunde onde esteve emprestado duas épocas pelo V. Guimarães

Marco (ao centro) com colegas do Freamunde onde esteve emprestado duas épocas pelo V. Guimarães

 

D.R.

Tem histórias para contar desses tempos? Não lhe pregaram nenhuma partida?
Por acaso até tenho. Havia um grupo de jogadores da zona de Lisboa e margem sul que ia todo junto para Fátima numa carrinha que partia de Alverca. Normalmente quem conduzia era o Rui Vitoria ou o Arnaldo Teixeira, da equipa técnica, ou um dos jogadores mais velhos. Um dia, acabamos o treino, visto-me e começo a sentir as partes íntimas a arder muito, a arder muito e eu era miúdo, não percebia. Às tantas, já dentro da tal carrinha, estávamos na autoestrada e pensei para mim: “Tenho de fazer alguma coisa porque estou a ferver, isto está quente, quente”. Então eu abria o vidro e punha a mão de fora para ficar fresca, depois punha a mão nas partes íntimas e repetia aquilo. De repente, começo a olhar e vejo-os todos a rir. E percebi que alguma coisa foi. Foi a tal pomada que usam para aquecer os músculos [risos]. E sei que quem fez foi o Sérgio Botelho, um treinador-adjunto que, como eu dizia, andava lá no meio, quem me meteu aquilo nos boxers, ele acha que eu não sei que foi ele, mas sei [risos]. Foi a A1 toda até às portagens em sofrimento.

Acaba por ir na época seguinte para o Real Massamá.
Sim, o Sporting formou essa equipa satélite para onde estava a enviar os jogadores. Enviou o Víctor Golas, o Fábio Paím, o André Martins, e aceitei ir para lá. Aceitei baixar à II B.

Volta para casa dos pais ou foi viver com a sua namorada?
Não, voltamos cada um para a sua casa, até porque não tínhamos ainda condições para comprar uma casa e nunca fomos de fazer planos em cima do joelho.

Como foi jogar no Real Massamá?
Foi bom, foi onde eu descobri que há muito jogador que gosta mesmo de jogar à bola e que não é só pelo dinheiro. São coisas que não descobres se calhar em planteis mais ricos, onde eu também já joguei. Nesse aspeto foi muito bom, foi muito positivo. O Paím já o conhecia, sou amigo dele desde os juniores, sempre fui um grande fã dele, ele sabe disso. Aquele toque que ele tem na bola, ele pode ter até 200 quilos que aquele toque nunca o vai perder. Agora, é claro que podia ter sido um grande craque, ele próprio diz isso, não sei o que é que lhe aconteceu na vida, sei que algo falhou, agora ele mais do que ninguém saberá o porquê. Agora é um craque, era uma diferença para os outros abismal, não havia nada sequer parecido a ele.

Marco (de costas) festeja com a equipa técnica do V. Guimarães o golo da final da Taça de Portugal com o Benfica, em 2013

Marco (de costas) festeja com a equipa técnica do V. Guimarães o golo da final da Taça de Portugal com o Benfica, em 2013

 

D.R.

Entretanto termina contrato com o Sporting. Comunicaram-lhe que não queriam continuar mais consigo?
Sim. O mister Costinha era o diretor desportivo do Sporting na altura e ele disse que para eu conseguir crescer e singrar no futebol tinha de desvincular-me do Sporting, até porque as oportunidades são diferentes. Uma coisa és ser jogador emprestado, outra coisa é seres jogador da casa, e que seria a melhor opção para mim, porque o Sporting não ia contar comigo. Claro que fiquei triste, ainda por cima acabando a época numa II B, pensei, vamos ver no que é que isto vai dar. E é quando conheço um empresário, através de um tio meu, o Luís Alves, que me levou para o Vitória de Guimarães.

Foi aí também que deixou de sonhar com a equipa principal do Sporting, ou mantinha a chama acesa apesar de tudo?
Sabia que estava mais difícil, mas que não era impossível. O futebol é o momento, mas para tu estares num bom momento é preciso muito tempo e eu percebia que estava a ser cada vez mais difícil.

Quando surge a oportunidade de V. Guimarães, não hesitou?
Claro que não. Embora o objetivo fosse: eu fazia contrato com o V. Guimarães, mas era emprestado a uma equipa da II Liga.

Já sabia disso logo à partida?
Sim. Eu assinei pelo V. Guimarães e nem treinei na altura. Eu não conhecia o mister Nicolau Vaqueiro, mas foi ele me abriu as portas, que disse se eu assinasse pelo V. Guimarães abria-me as portas no Freamunde. E foi aí que tudo mudou. Com mais maturidade e experiência por tudo o que já tinha visto e passado. Sair da Academia do Sporting e passar por equipas onde jogava pouco e que tinham jogadores que acabavam de trabalhar e vinham com o equipamento do trabalho, com as carrinhas do trabalho para treinar, à noite, sem ver a família, foram coisas que me tocaram. Isso deu-me mais força e a partir dai as coisas começaram a correr cada vez melhor.

Como foram essas duas épocas em Freamunde?
Na primeira tive a sorte de ter bons treinadores, tanto o adjunto como o principal, o mister Nicolau Vaqueiro. Apanhei um plantel com muitos bons jogadores e bons amigos, como o Bock, que me ajudou imenso. Foi uma época em que fiz golos, assistências e comecei a dar nas vistas. Sendo jovem também era rápido, comecei a ganhar algum corpo e acabando essa época o V. Guimarães queria emprestar-me ao Paços de Ferreira da I Liga. E eu disse não. "Se for para a I Liga é para ficar no Vitória de Guimarães, porque se não for, eu quero continuar a jogar". Tinha certeza de que se trabalhasse sempre bem iria jogar no Freamunde e o principal para mim era jogar, para evoluir. Foi o que aconteceu. Um bocadinho mais de dificuldade para conseguirmos a manutenção nesse segundo ano. Depois é quando o mister Rui Vitória, no final da época, vai para o V. Guimarães e chama-me.

Marco com a namorada Cácia e a Taça de Portugal conquistada pelo V. Guimarães

Marco com a namorada Cácia e a Taça de Portugal conquistada pelo V. Guimarães

 

D.R.

Ganha a Taça de Portugal pelo V. Guimarães. É o seu maior título.
Sim. Foi muito bom. Numa fase em que financeiramente o clube não estava muito bem, nós tínhamos quase seis meses de salários em atraso, o que não era fácil, e conseguimos mesmo assim ganhar a Taça.

Como é que fazia nessa altura em que não recebia? Vivia de poupanças?
Sim, de algumas poupanças, com ajuda dos meus pais e se pudesse gastar cinco, não gastava dez.

A sua mulher trabalhava?
Não. Mas às vezes recebíamos qualquer coisa para ajudar na alimentação e tínhamos um plantel muito bom, ajudávamo-nos muito uns aos outros. Conseguirmos fazer o que fizemos naquela época foi uma coisa que não tem explicação. Por muito que as pessoas vejam, por muito que as pessoas... Acho que só quem esteve lá no estádio... Aquele apito do árbitro para acabar o jogo é algo que até hoje nunca senti uma coisa igual. Foi um momento único e o mais alto para mim, na minha carreira.

Notou muita diferença do Rui Vitória do Fátima para o que encontrou em Guimarães?
Sim, era um treinador completamente diferente. Não são só os jogadores que evoluem, os treinadores também evoluem com os planteis, com os jogadores que apanham e os jogadores que ele apanhou no Paços de Ferreira e no V. Guimarães são diferentes daqueles que apanhou no CD Fátima. Também eu como jogador estava mais bem preparado para as adversidades e as coisas realmente correram-me muito bem. Ele foi um treinador que sempre acreditou em mim. Eu tentava nunca deixá-lo ficar mal, dava tudo o que podia.

Marco esteve a primeira vez no Nacional da Madeira na época 2014/15

Marco esteve a primeira vez no Nacional da Madeira na época 2014/15

 

Carlos Rodrigues

Pregaram-lhe mais alguma partida? Tem histórias no V. Guimarães?
Tenho uma história engraçada mas que tem a ver com botas e superstições. Em Guimarães, eu estava a jogar, a fazer golos, e a Puma enviava-me sempre muitas botas, ainda hoje o faz. Só que eu tenho uma superstição, eu gosto de meter umas botas nos pés e de ir com elas até ao fim, até ficarem rotas. Treino e jogo sempre com as mesmas, gosto de, como a gente diz, metê-la que nem uma luva. A Puma começou a chatear-me: “Tens de jogar com as botas novas”. Falavam com o capitão, falaram com toda a gente em Guimarães. “Tens de jogar, vem aí um jogo importante contra o FC Porto em casa, tens de jogar com as novas”. E eu sempre a dizer: “Eu não vou jogar com as novas, eu não gosto de jogar com as novas, eu gosto de jogar com umas até ao fim”.

O que aconteceu?
O que é que eles se lembraram? No dia de jogo, estou no balneário a fazer as minhas coisas, abro o cacifo, vejo o equipamento mas vejo lá umas botas novas da Puma a brilhar. E era as únicas botas que tinha no cacifo. Fui falar com o roupeiro que toma conta das botas e disse-lhe: “Ó Carlos eu não vou jogar”. Ele todo atrapalhado: “Então porquê?”; “Ou metem as minhas botas velhas aqui ou eu não vou a jogo”; “Eh pá, mas as botas velhas foram para o lixo por engano, já tentamos contactar os homens do lixo, eles acham que viram lá uma bota tua, mas não conseguimos a tempo para o jogo”; “Carlos vai buscar as botas ao lixo, vai fazer o que tu quiseres, eu não jogo com estas botas novas”. Ele estava feito com a Puma e eu não sabia. Os jogadores tentaram convencer-me. E eu chateadíssimo, no aquecimento a fazer golos, olhava para as botas e pensava, estou a fazer golos aqui no aquecimento mas não é aquela bota. A verdade é que fiz um bom jogo, fiz um golo ao FC Porto e a partir daí tive de ouvir os roupeiros e toda a gente. Mas as botas velhas apareceram e ainda troquei outra vez para as velhas [risos]. É mesmo uma superstição que tenho com as botas e aquilo mexe mesmo comigo. A questão é que isto da botas tem continuação na Madeira.

Como assim?
O ano a seguir é o ano em que venho para o Nacional e faço 21 golos. Outra vez com umas botas velhas, antigas, verdes menta. E a Puma lançava modelo novo atrás de modelo novo e eu sempre fiel àquelas. Quando me enviavam as botas, enviavam sempre quatro cinco pares e como eu jogava sempre com as mesmas, o Filipe da Puma tentou convencer-me outra vez a jogar com as novas e tentou convencer o capitão, dizia que pagava um jantar à malta se eu jogasse com as novas. Eu insistia: “Não jogo, eu não consigo jogar com as novas, não vale a pena”. Tanto me chagaram que houve um jogo em casa que eu disse que ia jogar com as novas para eles se calarem e também não deixar de receber botas. Eles todos contentes porque eu ia jogar com as novas, mas eu avisei: “Eu vou jogar com as novas mas vocês vão ver como tenho razão”. Começa o jogo, um jogo embrulhado e eu sempre a cismar, é das botas, isto não está a correr muito bem, só pode ser das botas. Ao intervalo o Rui Correia, o central, estava ao meu lado, olhamos os dois para as botas antigas que estavam debaixo do meu lugar e ele diz assim: “Também acho que sim, acho que devias”. Nem é cedo nem é tarde, troquei as botas, o João Aurélio olhou logo para mim. O que é certo é que foram 45 minutos em que fiz dois golos e fomos para cima deles. “Vocês estão a ver? É estas as botas que eu quero e são estas que vão comigo até ao final da época”. E assim foi [risos].

Marco a festejar um golo com Tiago Rodrigues, pelo Nacional

Marco a festejar um golo com Tiago Rodrigues, pelo Nacional

 

D.R.

A propósito do Nacional, como vai lá parar?
Começamos a negociar a renovação do contrato e o que pedi ao V. Guimarães não era nada, como às vezes falam, acima do que todos ganhavam, aliás era abaixo do que muitos ganhavam, era um valor que eu considerava razoável para continuar, mas a direção entendeu que não, que não estavam reunidas as condições para esses valores e eu agradeci tudo o que fizeram por mim, independentemente de em algumas fases da época me terem proibido de jogar.

Porquê?
Simplesmente porque eu não chegava a acordo para renovar. Foi um período difícil.

Foi a direção quem deu ordens para o Marco não jogar?
Sim. Foi basicamente a partir de março que não me deixavam jogar. Aliás, nem treinar com a equipa podia treinar. É claro que depois do sacrifício que fiz na altura, os ordenados em atrasos, vencer a Taça de Portugal, e no ano seguinte ser posto de parte até do próprio balneário, porque tinha de equipar à parte, a horas diferentes, não podia estar com eles, foi muito difícil. Foi um assunto que ficou resolvido, fizemos as pazes um ano depois, mas foi um momento difícil.

O Rui Vitória não conversava consigo? O que lhe dizia?
Ele conversava. Só que na altura não tinha poder suficiente. E uma das coisas que fez no ano a seguir quando renovou penso que foi ficar ele à frente dessas situações. Porque é muito difícil um treinador gerir um plantel quando tem este tipo de situações. Normalmente este tipo de situações surgem com jogadores que estão em destaque na época. Ele falava comigo mas não tinha poder para conseguir pôr-me a jogar, eram decisões que vinham de cima.

Não o tentou convencer a baixar salário para poder continuar a contar consigo?
Não, nesse aspecto não.

O que aconteceu depois? O Nacional surge quando?
O Nacional surge já praticamente no final da época. Eu tinha acabado de acordar e tinha uma mensagem do Patacas que era o diretor desportivo do Nacional, a saber se tinha interesse. E claro que um clube como o Nacional e estando a disputar o acesso à Liga Europa na altura, mexeu um bocadinho comigo. Depois de uma ou duas reuniões que tiveram com o meu empresário, chegamos a acordo e assinei quatro anos.

No dia do casamento com Cácia Matias

No dia do casamento com Cácia Matias

 

D.R.

Quando se muda para o Nacional quem lá está é o Manuel Machado. Não é o mesmo que não o quis quando foi para o V. Guimarães?
O Manuel Machado teve essa conversa comigo. No primeiro ano eu não era conhecido, não tinha jogado em lado nenhum e os sítios onde já tinha estado tinha jogado pouco. Mas no meu segundo ano, que foi quando ele saiu do V. Guimarães, ele disse-me quando cheguei à Madeira, que se ele não tivesse ido embora do V. Guimarães eu tinha feito a época com eles. Mas coincidiu com a altura em que o Rui Vitória foi para lá substituí-lo. Como eu tinha feito uma boa época em Freamunde, ele também queria ficar comigo. Mas é o normal do futebol, saiu um e entrou outro que felizmente também contou comigo e a partir daí as coisas começaram a correr bem.

Essa época no Nacional, em 2014/15,foi a sua melhor época até hoje?
Foi. O sítio onde eu pensava que poderia se calhar cumprir os quatro anos, cumpri dez, onze meses porque me valorizei.

Como foi a adaptação à vida numa ilha?
Eu conhecia muito pouco a ilha, era só quando vinha cá jogar à Madeira, e era hotel-estádio e vice-versa. Tinha uma noção diferente, que era mais parada, que não era tão evoluída, que era um sítio completamente diferente daquilo a que eu estava habituado. Foi o querer muito, pelo clube, e pelo futebol e nesse aspeto o sito onde estamos a viver importa, mas não tem um peso fulcral porque desde que eu tenha uma boa alimentação, um bom sítio para descansar, tanto poderia ser aqui como em outra ilha.

A sua mulher adaptou-se bem?
Ela também na altura partilhava um bocadinho da ideia que eu tinha, de ser uma ilha não tão evoluída, mas depois de começarmos aqui a viver vimos que era completamente o oposto. É um sítio maravilhoso. E com as coisas a correr bem, o tempo também passa melhor. As coisas quando correm bem, independentemente de estarmos num sítio pouco agradável, conseguimos ir buscar qualquer coisa a outro lado.

Têm filhos?
Ainda não.

Gostou de treinar com Manuel Machado?
Gostei. E ainda falo com ele. É uma pessoa que para mim, infelizmente, não teve as oportunidades que se calhar devia ter tido em clubes de maior dimensão. Já lhe disse isso. É com alguma tristeza que não o vi num grande, porque acho que a maneira dele ser, de ler o jogo, é muito boa, entende como muito poucos entendem o jogo. E foi muito bom, puxou muito por mim e foi a melhor época que fiz. E estou-lhe agradecido por isso.

Foi o melhor marcador português da I Liga, certo?
Sim, português sim. Foi aí que aquela esperança que estava adormecida começou a vir ao de cima, de alcançar um dos grandes, digo um dos grandes, não digo o Sporting mas um dos grandes, e era um maior objetivo de ir à seleção mas infelizmente as coisas não aconteceram. Se me perguntar o porquê não tenho resposta porque um jogador, jogar no Nacional com 24 anos, numa equipa que estava a meio da tabela, faz 21 golos e não vai à seleção... [risos]. Fiquei triste, acho que devia ter ido, mas são opções que não me compete a mim decidi-las e apenas respeito que decidiu que não era hora de ir.


 

Spoiler

"No início, em Inglaterra, fui jantar com o Lucas João, ele pede um 'burger' e começa a abrir e fechar os braços. Não sabia dizer 'chicken'"

Pepe, Neymar e Pablo são os "filhos" que têm acompanhado Marco Matias e a mulher para todo o lado. O extremo direito, que esta época está no Nacional a lutar pela subida à I Liga, revela na segunda parte da entrevista como foi difícil perceber o inglês cheio de sotaque de Sheffield, conta a história de uma asneira mal dita por Carlos Carvalhal e que deixou toda a gente a rir às escondidas no balneário. Confessa que é chato com os árbitros e que ganhou o bichinho da compra, venda e remodelação de casas, por onde vai passar o seu futuro

Como surgiu a oportunidade de jogar no Sheffield, de Inglaterra?
Surgiu já no final da época no Nacional. As coisas foram muito rápidas, eu tinha propostas de alguns clubes.

De que clubes?
Tive do Málaga, do Besiktas e de outros clubes que não posso revelar os nomes porque não vieram nem valores, nem o documento oficial. Mas que houve muitos contactos de clubes houve, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Aguentei, porque queria tomar uma decisão certa. Ingressar no futebol inglês era um dos meus sonhos. Foi o Amadeu Paixão, que já não era meu empresário, pela Doyen, que fez o acordo com o meu empresário para eu ir para o Sheffield Wednesday, jogar no Championship. E não me arrependo de nada. Fiquei feliz pelo passo que dei. Acho que todos aqueles anos de sacrifício foram compensados pelos momentos que passei em Sheffield.

Quais foram as primeiras impressões quando lá chegou?
Nós fomos numa transição, o chairman, que era tailandês, comprou um clube histórico de Inglaterra e estava a montar uma equipa para voltar à Premier League. Foi com esse pensamento que também quis ir para lá e que abracei o projeto com o mister Carlos Carvalhal. Claro que aquele primeiro momento de chegar a Inglaterra é fantástico. É diferente, mesmo sendo II liga inglesa, acho que foram poucas as vezes que joguei num ambiente como aquele que encontrei em Inglaterra.

O que tem de tão diferente?
Tudo. Os adeptos, os adeptos com os jogadores, a dedicação, o amor, quer jogássemos duas, três ou quatro vezes por semana, os estádios estavam sempre cheios. O tipo de futebol, mais rápido, já a roçar as melhores ligas do mundo. Eram clubes que praticamente estiveram todos na Premier League. Jogar naqueles estádios que só vemos na televisão... Foi esse conjunto de coisas que fez com que fosse o sítio onde mais gostei de jogar futebol.

E dos ingleses no dia a dia, gostou?
Sim, é uma cultura diferente. São muito pontuais. Aqui não estamos muito habituados a isso. Não são tão calorosos. Nós, os latinos, somos pessoas mais amigas, mais calorosas do que os ingleses. Eles são muito mais frios.

Ganhou hábitos ingleses?
Sim, o sair à tarde com aquela névoa, aquele frio, para ir a um Starbucks, por exemplo, beber um hot chocolate.

Do que gostou menos?
Claramente a falta da comida portuguesa. O clima era difícil, porque escurece muito cedo, embora confesse que hoje tenho um bocadinho de saudades. Gostava quando a meio da tarde às vezes começava a nevar ou a chover, e nós em casa a descansar. Era muito caseiro já na altura devido ao esforço quase a dobrar que havia no futebol inglês, comparado com o português.

Marco chegou ao Sheffield Wednesday em 2015/16

Marco chegou ao Sheffield Wednesday em 2015/16

 

D.R.

Vai para Inglaterra com outros jogadores portugueses e alguns já lá estavam. Davam-se mais entre vocês do que com os ingleses?
Sim, dávamo-nos muito entre nós, e também com um argentino e um espanhol. É normal que haja círculos de amizade dentro de uma equipa.

Os ingleses não olhavam para vocês de lado?
Sim e não. Se as coisas estivessem a correr sempre bem para eles, não lhes afetava, agora se as coisas não corressem bem para eles mas corressem bem para os estrangeiros, já mexia com eles. É por isso que eu digo que são um bocadinho mais frios e não são tão amigáveis como nós. Porque nesse sentido se as coisas não estiverem a correr bem a nós, queremos melhorar, mas não desejamos o mal ou que vale tudo para jogar.

Tem alguma situação que possa descrever para percebermos melhor o que está a querer dizer?
Eu defendo sempre que nós jogadores podemos até falhar um golo de baliza aberta mas nunca podemos ser crucificados por falta de profissionalismo. Infelizmente isso observou-se lá. Foi numa altura em que a maioria dos portugueses estava a jogar e as coisas estavam a correr bem. Como é normal o clube mudou um bocadinho a forma de ser e de estar com o mister Carvalhal, a fasquia estava mais elevada; e lembro-me que alguns ingleses que deixaram de jogar, no treino, quando era para correr, eles iam a andar; lembro-me de perdermos um jogo e eles entrarem no dia a seguir no balneário a cantar, felizes. São coisas dessas que não fazem sentido.

Nunca houve nenhuma chatice mais seria no balneário que resolvessem de outra forma?
Não. Há sempre aquele calor do momento. Um passe que devia ter sido feito ou uma assistência que devia ter sido feita e não foi, um bate boca, mas isso são coisas normais do futebol que depois passam. Às vezes quando eu acho que uma coisa é o melhor para a equipa pode não ser aquilo que, no momento, o colega está a achar e surgem essas incompatibilidades, mas depois de baixar a pulsação cardíaca as coisas resolvem-se [risos].

Gostou de trabalhar com Carlos Carvalhal?
Muito. Além de ser uma pessoa fora do campo muito inteligente, é um treinador muito bom, que merece tudo o que lhe aconteceu em Inglaterra, apesar de ficarmos ali com um agridoce na boca logo no 1.º ano, por termos perdido a finalíssima, em Wembley, por 1-0. Mas mudou claramente a maneira de jogar e de pensar do Sheffield Wednesday e é uma pessoa muito querida entre toda a gente, jogadores, adeptos, mesmo os próprios funcionários do clube. E será sempre, porque tenho a certeza que ele marcou a diferença quando lá chegou.

Com a mulher em Inglaterra

Com a mulher em Inglaterra

 

D.R.

Como era o seu inglês quando aterrou em Inglaterra?
O meu inglês era sem verbos, o mesmo verbo dava para o presente, para o passado, para o futuro [risos]. A principal barreira que senti foi o sotaque, porque no norte de Inglaterra a maneira de falar é diferente e apanhámos muitos jogadores do País de Gales, da Irlanda, escoceses. Eles a falar era uma coisa impressionante, eu não percebia nada, tinha de estar com muita atenção. Até tenho uma história engraçada a propósito disso.

Conte.
Logo nos meus primeiros dias, fui com a minha mulher e com o Lucas João jantar fora ao Burger King, por acharmos que seria mais fácil para pedir comida. A minha mulher já sabia alguma coisa de inglês, aliás, foi ela que me ajudou muito, foi quase uma professora, mas eu e o Lucas não. Queríamos pedir um hambúrguer de frango, mas não sabíamos dizer frango. Eu deixei o Lucas ir à frente e como ele não sabia como pedir, então pediu um 'burger' e fez os gestos com os braços como se fosse uma galinha [risos]. Foi um momento hilariante, desmontamos a rir, ele não sabia dizer 'chicken' [risos].

A sua mulher durante esses quatro anos em Inglaterra o que fez? Tinha alguma ocupação?
Ela fazia desfiles de moda, mas quando comecei a jogar cada vez mais a nível profissional ficou mais difícil, por incompatibilidade com o tempo e o local onde estávamos. Na altura, como gosta muito de fotografia, foi tirar um curso de fotografia. Mas depois também ficava difícil fazer alguma coisa por causa dos meus timings de jogo, de férias, de tudo. Então, o papel dela foi sempre cuidar de mim.

Têm algum animal de estimação?
Temos três gatos. Todos machos. Quando estava no Freamunde comprei um persa, chamado Pepe, e foi o único que comprámos. Já tem 11 anos. É o nosso filho mais velho [risos]. Eu não era muito de gatos, a minha mulher é que sempre adorou gatos. Eu era mais de cães. Tive um buldog francês que ficou com os meus pais porque era um filho para a minha mãe e ela não me deixou andar com ele para trás e para a frente. Basicamente raptou-me o cão e ficou com ele [risos]. Mas depois percebi que os gatos são uma companhia espetacular, não é nada daquilo que dizem de não ligarem aos donos. Os meus criei-os como uns cães e se eu disser para vir para cama eles vêm.

Já agora, como se chamam os outros dois gatos?
O segundo, o Neymar, tem 10 anos. Quisemos oferecer companhia ao Pepe e no quintal dos meus avós apareceram sempre muitos gatos porque a minha mãe dá-lhes comida. E surgiu lá um amarelinho muito pequenino e conseguimos resgatá-lo da rua. Entretanto, há um ano, decidimos adotar outro. Queríamos um gato todo preto. Andámos à procura e houve uma senhora que teve uma ninhada, não podia ficar com eles e adotamos o Pablo. Este último não teve a sorte de ir para Inglaterra, mas os outros andaram sempre em viagens. São muito conhecidos já nos aviões. Então aqui na Madeira, vão em cima, as hospedeiras já o conhecem, já são quase da casa.

Os três gatos de Marco Matias. Da esquerda para a direita: Pablo, Neymar e Pepe

Os três gatos de Marco Matias. Da esquerda para a direita: Pablo, Neymar e Pepe

 

D.R.

Voltando ao futebol. No segundo ano, em Inglaterra, não jogou tanto. O que aconteceu?
Tive uma lesão nos adutores. Foi um acumular de jogos, já andava a jogar há algum tempo lesionado, mas a equipa estava bem e eu precisava de jogar, queria jogar e fui até onde consegui. Acho que foi num jogo com o Bradford, ao intervalo, disse ao mister que não conseguia mais. Foi quando parei, já no final da primeira época, na transição para a segunda. É uma decisão triste mas que tinha de tomar porque estava com muitas dores. Entretanto, os tratamentos em Inglaterra não são tão bons como em Portugal, fiquei muito, muito tempo a tentar recuperar lá e nunca me conseguiram recuperar. Falei com o mister e disse-lhe que tinha de vir a Portugal fazer a recuperação. A verdade é que estive um mês e 10 dias em Portugal e nunca mais tive uma lesão.

Foi só essa a razão para não jogar tanto na segunda e na terceira época?
Sim, porque foi da segunda para a terceira época é que vim a Portugal. Porque eu jogava, parava. Fazia a pré-época, estava bem a jogar e depois tinha de parar de novo. Em Inglaterra não sabiam mais o que fazer, por isso quis vir a Portugal. Quando voltei foi praticamente sempre a jogar. Apesar de no primeiro ano ter ganhado o troféu do melhor golo de Inglaterra, contra o Leeds, a minha melhor época em Sheffield, foi a última.

Mas foi uma época com três treinadores.
Sim, foi uma época difícil. O mister Carvalhal foi embora, depois tivemos o Jos Luhukay, antes já tínhamos tido um interino, e por fim, acabamos com o Steve Bruce que esteve até agora no Newcastle. Com o mister Luhukay, o holandês, como esteve muitos anos na Alemanha, era muito mais fácil, porque o estilo alemão, espanhol, ou mesmo o português é muito mais fácil ao nível das dinâmicas do que os ingleses tinham naquela altura. Mais ainda no Championship que era muito bola na frente, muito físico. E para mim era fácil fazer compensações, abrir espaços, era muito simples, mas não lhe correu muito bem porque a maioria do plantel era do Reino Unido, houve falta de apoio de alguns jogadores, que são coisas que não deviam acontecer no futebol, mas acontecem. Mas no cômputo geral adaptei-me bem aos treinadores.

Que histórias é que pode contar dos tempos que passou em Sheffield? Não tem nada de balneário que possa partilhar?
Recordo-me que numa pré-época, o jogo não estava a correr bem, o mister Carvalhal entra no balneário ao intervalo, a malta está toda sentada, ele deu a dura que achava que devia dar para a malta acordar porque achava que não demos tudo o que tínhamos para dar, e lá no meio à tantas enganou-se numa expressão inglesa; em vez de dizer fucking hell, disse duas ou três vezes, fucking elfes [risos]. Começamos todos a olhar uns para os outros, tudo a querer rir, mas estávamos a levar uma dura... Uns começaram a esconder as caras nas calças... Eu acho que até hoje ele não se apercebeu, acho que aquilo ficou só mesmo no balneário, mas rimo-nos muito.

Marco com os gatos às costas

Marco com os gatos às costas

 

D.R.

No último ano de contrato já sabia que era para vir embora ou negociou para ficar?
Eu já tinha decidido que queria abraçar outro projeto. Estava numa fase que não era o dinheiro que me faria abraçar um novo projeto, mas queria algo diferente. Infelizmente ou felizmente também tive uma conversa com o Steve Bruce, antes do último jogo, expliquei-lhe aquilo que queria, ele na altura disse que queria um Marco Matias mais jovem; para mim vale o que vale. Respeitei, ele também viu o meu ponto de vista e perguntou-me se eu queria jogar o último jogo. Eu disse que sim.

Por si teria ficado?
Não me importava se tivesse de ficar mais um ano ou dois: Sheffield foi o sítio onde eu mais gostei de jogar futebol e de que mais saudades tenho. Mas estava lá há quatro anos e senti que poderia ser valorizado de maneira diferente noutro clube e por isso tinha de abraçar outro projeto.

Nessa altura já tinha o interesse do Belenenses?
Não. Tinha de outros clubes, nomeadamente da Turquia, da Arábia e do Irão, clubes financeiramente muito fortes. Mas eu optei ficar em Portugal, até porque estava a iniciar outro negócio e queria estar perto. Como também tinha surgido o Belenenses e era um clube que sempre quis representar porque era o clube do meu avô e era uma dedicatória que lhe queria fazer... As pessoas às vezes pensam que os jogadores vão só atrás do dinheiro e que não têm amor à camisola, e não é nada disso. Foi uma fase também boa para mim, tive oportunidade de viver na minha própria casa.

Onde e quando comprou casa?
Comprei casa na zona da Moita, quando estava no V. Guimarães. É lá a minha base. E jogar em casa já com a vida mais estabilizada e alguns negócios em andamento, podendo estar sempre perto de tudo, foi muito bom. Foi uma época muito boa, apesar de ter aparecido a pandemia entretanto.

Marco com a mulher Cácia, no dia em que recebeu o troféu de melhor golo da Championship, em 2016

Marco com a mulher Cácia, no dia em que recebeu o troféu de melhor golo da Championship, em 2016

 

D.R.

Quantos treinadores teve no Belenenses?
Quando fui o Silas já tinha ido embora, apanhei o Pedro Ribeiro e o Petit.

Foi o que estava à espera ou ficou abaixo das expectativas?
Primeiro que tudo temos de perceber a situação atual do clube. Estavam-se a desvincular, a SAD estava a criar uma equipa, o clube outra. Nós treinávamos no Jamor mas não tínhamos as condições necessárias em termos de relvados; as relvas eram muito más, muito rijas, a bola andava sempre aos saltos. Não havia condições para treinar outras coisas que nos iam tornar mais fortes, claramente. Mas como tínhamos um plantel que vivia daquilo, que queria ser melhor, conseguimos o grande objectivo que era a manutenção, num ano muito difícil.

E os treinadores?
O mister Pedro estava a começar. Não é fácil um jovem muito ambicioso querer mostrar serviço e não conseguir porque não tem as condições necessárias. Às vezes apercebíamo-nos disso e tentávamos ajudá-lo nesse sentido. Mas hoje está a fazer um belíssimo trabalho no Penafiel. Acho que é um bom treinador, vai crescer, é uma pessoa de muito trabalho. O Petit era um mister que estava rotulado de ser uma pessoa que só ia para salvar os clubes, que não punha as equipas a jogar futebol, que só dava porrada, mas a verdade é que me surpreendeu bastante pela positiva, foi completamente o oposto. Para já é uma pessoa que jogou ao mais alto nível muitos anos, por quem temos uma grande consideração, é uma referência. Aquilo que ele conquistou e por onde passou, também gostávamos de ter chegado lá. A maneira como ele, por exemplo, via como podíamos sair de uma situação de pressão, ninguém se lembrava daquilo. Realmente tem coisas diferentes, é muito bom treinador, mas vai ter de continuar a evoluir. Foi um treinador que também conseguiu mudar a mentalidade numa fase em que estávamos um bocado em baixo. Demos as mãos todas e ele ajudou bastante.

Marco a festejar um aniversário com o gato Pepe ao colo

Marco a festejar um aniversário com o gato Pepe ao colo

 

D.R.

Não continuou no Belenenses porquê?
Estava tudo encaminhado para renovar com o Belenenses, na altura o meu antigo empresário é que estava a tratar disso e depois fui surpreendido quando vejo na televisão o presidente a dizer que tinham feito uma proposta e que eu tinha recusado, porque pelo menos a mim nunca chegou nenhuma proposta. Depois tive de explicar também ao Petit. E, pronto, ficámos por ali.

Mas essa proposta chegou a ser feita ao empresário que o representava?
O clube diz que sim, o empresário diz que não. O que é certo é que pessoalmente não recebi nenhuma proposta. E o presidente sabe perfeitamente que não seria pelos números, eu ficava claramente lá porque acreditava naquele projeto e queria dar continuidade.

O Petit o que lhe disse?
O Petit contava comigo, pelo menos foi aquilo que ele me disse e de que falámos algumas vezes. Ele disse que sim antes de acabar a época, mas nós sabemos que os treinadores não controlam tudo no futebol, há coisas que são acima. Aquilo depois andou, andou, e acabamos por afastarmo-nos. Foi quando apareceu o Nacional. Surgiram também outros clubes mas, lá está, eu estava numa fase que não queria ir para um clube só porque sim. Eu tinha de ir para um clube que tivesse um projeto que mexesse comigo, porque eu queria uma motivação diferente para jogar futebol, não era só jogar por jogar. Eu queria jogar ou para atacar os primeiros lugares ou, como agora, para subir de divisão. Acho que nunca estive num projeto de subida de divisão, é o primeiro.

Teve no Sheffield.
Sim, mas em Portugal foi a primeira vez. É isto que mexe comigo, este querer, este chegar mais longe, que me faz continuar no futebol.

Depois de quatro anos em Inglaterra, Marco chegou ao Belenenses SAD em 2020

Depois de quatro anos em Inglaterra, Marco chegou ao Belenenses SAD em 2020

 

D.R.

Quando vai para o Nacional, o clube ainda está na I Liga. Ainda reencontra Manuel Machado?
Não, só entrei no clube em janeiro/fevereiro. Eu entro com o Luís Freire, mesmo na transição de resultados. Estávamos numa fase negativa de resultados e na altura fomos empatar à Luz. As coisas não aconteceram como o clube tinha planeado. Pela soma de muitos erros as coisas acabaram por não correr bem coletivamente. Eu só tinha contrato até ao final da época. Entretanto surge este projeto de subida de divisão.

Ainda com o Costinha.
Sim, começou com o Costinha. Infelizmente, os resultados não estavam a ser sempre muito positivos e claro a exigência este ano, apesar de ser II Liga, é enorme, porque é para subir e o clube achou que não devia arriscar mais tempo e quis mudar. Sabemos que muitas vezes, sendo ou não culpa dos treinadores, pode ser culpa dos jogadores, mas o primeiro a pagar, injustamente ou não, é sempre o treinador porque é a cara do plantel.

Foi mais culpa do plantel do que do treinador?
A culpa é sempre de todos. Nós todos temos um papel importante. Se olharmos agora para trás, não digo que não demos tudo mas se calhar temos de dar mais um bocadinho, temos de pensar que a minha prestação pode estar a prejudicar aquela equipa técnica que tem família por trás, tem filhos, e acho que isso tem que nos tocar mais. E muitas vezes não toca. Muitas vezes o jogador está tranquilo porque vai receber o seu salário ao final do mês, e essa mentalidade tem que ser mudada urgentemente. Os jogadores, para além de ganharem bom dinheiro no futebol, têm de ter ambição desportiva.

Agora está de regresso aos trabalhos com um novo treinador.
Sim, as coisas estão a correr bem. Ganhámos para a Taça, a equipa está a crescer, estamos a assimilar as ideias do novo treinador e agora é ter uma sequência de resultados positivos, que acho que é o que está a faltar agora.

Marco gosta de cozinhar e diz que faz muito bem toda a espécie de risottos

Marco gosta de cozinhar e diz que faz muito bem toda a espécie de risottos

 

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
Em Inglaterra.

Investiu em quê?
Quando estive no Sheffield abri uma fábrica de pastéis de nata em Inglaterra.

Ainda está a funcionar?
Sim e já abriu outra, mas eu vendi a minha parte. Tinha aquilo com um sócio e vendi a minha parte porque com o futebol e com a pandemia era complicado ter de viajar muitas vezes para tomar conta do negócio. E também já estava estipulado que se não ficasse lá, ia ponderar vender a minha parte, até porque gosto de estar muito presente naquilo que faço e sabia que para além de ser uma coisa mais pessoal, aquilo que eu queria era dar a conhecer o pastel de nata, que é o meu bolo favorito, aos ingleses. Dar-lhe o verdadeiro pastel de nata, as receitas antigas, tanto que eu levei os pasteleiros, levei as máquinas todas, material português, farinha, era tudo português. E teve muito sucesso. Mas quando vim para o Belenenses tomei a decisão de vender a minha parte porque tinha um projeto em andamento ligado aos imóveis.

Compra e venda de imóveis?
Exato. Tenho dois agora, um de compra e arrendamento, e outro de compra, venda e construção. Um negócio é sozinho e o outro com uma sócia.

Isso leva-me à pergunta se já pensou no que quer fazer depois de pendurar as chuteiras?
Vou ser sincero, eu pensava que queria ser empresário de futebol, mas aquilo que gosto mesmo é de estar envolvido nisto das casas, na construção, na compra e venda, tudo o que mexe com as casas, remodelações, gosto mesmo muito disso, é um bichinho. Não me pergunte de onde é que isto vem, mas é um bichinho que descobri com a idade.

Só tem negócios em Portugal?
Sim, tudo em Portugal, Algarve, zona da margem sul, Lisboa.

Tem algum hóbi?
Gosto muito de jogar padel, de andar de bicicleta nas montanhas, de fazer caminhadas, de correr com os phones sozinho, gosto muito de desporto no geral.

Segue alguma outra modalidade além do futebol?
Não. Vejo de vez em quando um bocadinho de Fórmula 1, mas não sigo nada, só futebol.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida porque sim, porque podia?
Extravagância e promessa ao mesmo tempo, foi ter comprado um carro para mim, aliás dois, um para a minha mulher e um para o meu pai. E ofereci também um ao meu irmão. Para mim comprei um Mercedes e um Porsche, para o meu pai comprei um Mercedes, para a minha mulher um BMW e para o meu irmão, que ainda tinha 18 aninhos, comprei-lhe um Peugeot.

Marco está a jogar no Nacional. Aqui com a mulher, em Santana, na Madeira

Marco está a jogar no Nacional. Aqui com a mulher, em Santana, na Madeira

 

D.R.

Tem tatuagens. Qual foi a primeira que fez e quantos anos tinha?
As primeiras que fiz foi nos punhos, foi o meu nome, o do meu irmão Carlos André e os dos meus pais, Carlos e Manuela Matias. Penso que tinha 19 anos.

É um homem de fé, acredita em Deus?
A minha mulher é 100%, eu já acredito à minha maneira. Há coisas em que acredito, há outras que respeito, mas custa-me um bocadinho a acreditar.

Superstições?
Tenho algumas. Além daquela das botas que já contei, entro sempre em campo com o pé direito e tenho que dar dois, três toques com o pé no chão. Peço aos meus avós que me ajudem a fazer um bom jogo e normalmente beijo o dedo onde tenho a aliança, beijo o nome dos meus pais, da minha avó Lurdes.

Qual foi o adversário mais difícil que encontrou pela frente?
O jogador acho que o Alex Sandro naquela altura do grande FC Porto. Era realmente um excelente jogador, tínhamos de o apanhar mesmo a dormir para conseguir passar por ele [risos]. Por acaso uma vez até consegui e fiz um golo. Ele adormeceu numa jogada e distraiu-se. Em termos de equipas, acho que na maioria das equipas em Inglaterra eram muito fortes. Uma das mais fortes, com que não joguei na Taça porque estava no banco, foi o Chelsea. Foi a primeira vez que vi o Chelsea a jogar ao vivo e é uma coisa impressionante.

Se pudesse escolher de todo os clubes do mundo, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
O Sporting e o Real Madrid.

Qual a maior frustração e o maior arrependimento que tem na carreira?
A maior frustração é não ter chegado à equipa principal do Sporting e maior ainda é não ter conseguido chegar à seleção A, porque as portas que se abririam iam ser completamente diferentes. Arrependimento não tive. As decisões que tomei, tomei-as porque na altura achei que eram as melhores. É claro que a gente agora faz uma avaliação, depois de acontecerem as coisas, é diferente. Agora, naquela altura eu achei que eram as melhores, por isso não me arrependo de nenhuma.

Marco (à direita) tem como hóbi jogar Padel

Marco (à direita) tem como hóbi jogar Padel

 

D.R.

O momento mais difícil na sua vida até hoje?
A partida dos meus avós.

Tem algum talento escondido?
Cozinhar. Sou eu que faço as refeições em casa todos os dias.

Que prato cozinha e que toda a gente gosta?
Vários tipos de risotto. Um empadão de carne, um arroz de marisco, tenho algumas coisas.

E o prato que mais gosta comer?
Eu adoro sushi. Já tentei fazer, mas não prestou para nada, é muito difícil [risos].

O que pensa do VAR?
Acho que é muito importante e que salva muitas equipas de descer de divisão e de serem ou não campeãs. Ou seja, eu gosto do VAR quando é usado de maneira séria. Agora se não for para ser usado de maneira séria, acho que o VAR não está a fazer nada.

Acha que já foi usado de maneira menos séria?
Já. Muitas vezes fecham os olhos a alguns lances, é normal, nomeadamente quando são equipas de calibre diferente, porque nós sabemos que há muitas coisas por trás e é sempre diferente a avaliação.

Tem ou teve alguma alcunha?
Tive no Sporting, mas era mais entre os jogadores porque eu era um bocado rebelde e então chamavam-me o Bin Laden. Mas nem sei muito bem como é que isso surgiu, começou se calhar numa brincadeira. Nem era Bin Laden que me chamavam, era o Bin... Eu era muito na minha, e eles sabiam que a maneira de me fazer sair da casca, era assim. Então eu às vezes estava a perder no treino e eles começavam com essas brincadeiras do Bin, porque viam que eu ficava chateado.

Ferve em pouca água?
Muito. Não sou aquele género de ferver e dar um murro ou uma porrada de propósito, não, nada disso, mas sou muito chato. Quem deve ter mais essa opinião até são os árbitros, porque na minha cabeça, então quando estou a jogar, acho sempre que tenho razão, então quando eles fingem que não estão a ouvir, fico um bocadinho doido com eles, mas pronto eles já sabem também...

Está sempre a refilar com os árbitros?
Muito, muito. Estou melhor agora, antigamente era pior.

Se pudesse mudar alguma regra do futebol, qual mudava?
Deixavam de existir os livres indiretos. Para mim o livre tem que ser como a equipa que vai marcar quiser, direto ou direto. Isso cria um suspense e tornava o jogo com mais oportunidades.


@silentz

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Alguém consegue meter estas?

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Citação de mutenroshi, Em 11/12/2024 at 10:56:

Alguém consegue meter estas?

 

Spoiler

“No Leixões vi colegas a devolverem carros e a não terem dinheiro para pagar a renda dos apartamentos devido a ordenados em atraso”

António Xavier, 32 anos, perdeu o pai aos sete, um ano após ter entrado no V. Guimarães, onde fez toda a formação sem conseguir agarrar lugar no plantel principal, numa altura em que eram raros aqueles que saltavam diretamente da equipa de juniores para os seniores. O avançado iniciou o percurso profissional a saltitar de clube em clube até se fixar, durante três anos, no Marítimo, onde se estreou na I Liga. Seguiu-se uma época no Paços de Ferreira, antes de chegar ao CD Tondela, então na I Liga. O seu percurso continua na Grécia, antes do regresso a Portugal

É natural de Guimarães. Filho de quem?
Sou filho da Graça Xavier, engenheira têxtil, em Guimarães. O meu pai, perdi-o quando tinha sete anos. Teve um cancro no pâncreas. As memórias dele são vagas. Foi uma doença prolongada, lembro-me de o ver debilitado, mas sempre bem-disposto, a brincar connosco, a tentar que não notássemos tanto o que se passava.

Recorda-se como soube da notícia da morte dele?
Lembro-me perfeitamente que estava a brincar em casa da minha avó, a minha madrinha chegou à minha beira e disse de uma forma muito simples: “Olha, o teu pai agora é um anjo.” Eu era uma criança e na minha ingenuidade continuei a brincar. Só depois, à medida que vamos crescendo é que nos vamos apercebendo da dimensão. Para agravar um pouco a situação, a minha mãe estava grávida do meu irmão mais novo, quando o meu pai morreu, por isso foi uma situação muito delicada.

Tem mais irmãos?
Tenho um irmão quatro anos mais velho, que teve de crescer precocemente porque a figura paternal estava ali, pelo menos para mim. O nascimento do meu irmão mais novo, dois ou três meses depois da morte do meu pai, acabou por trazer alguma alegria e fez-nos pensar noutras coisas, distrair a cabeça, o essencial em situações como esta.

O que foi mais difícil no crescimento sem pai?
Olhamos muitas vezes a figura paterna como alguém com mais autoridade e, principalmente na minha adolescência, por incrível que pareça, senti falta de uma mão mais pesada, porque a minha mãe, com três miúdos, foi mãe e pai, mas é impossível chegar a todos os lados.

Quando diz que sentiu falta dessa mão mais pesada, significa que se via a ir por maus caminhos?
Não, nunca, nunca. Mas era um miúdo reguila, irrequieto e muitas vezes faltava essa presença para me pôr em sentido. Nunca faltei à educação com ninguém ou fui por caminhos errados, mas era reguila e às vezes faltava essa presença para nos meter mais na ordem.

António Xavier com o irmão ais velho e os pais

António Xavier com o irmão ais velho e os pais

 

D.R.

Em pequeno, o que dizia querer ser quando fosse grande?
Nunca tive outra alternativa, a minha prioridade foi sempre o futebol.

De onde veio o bichinho do futebol, sabe?
Tenho uma família de desportistas, mas principalmente de hóquei em patins. O meu avô jogava hóquei, o meu pai jogou andebol. Não sei dizer de onde vem a paixão pelo futebol, mas desde que me conheço era algo que queria muito e felizmente consegui. O meu irmão mais velho também gostava de jogar futebol e se calhar veio muito daí, porque passávamos o dia a jogar na rua, de manhã à noite, a minha mãe tinha de ir buscar-nos.

Quem eram os seus ídolos?
O Luís Figo, o Simão Sabrosa, o Fernando Chalana. O Chalana e o Futre foram sempre as minhas maiores referências porque eram canhotos e eu revia-me muito no futebol deles, apesar deles terem sido génios.

Em casa torciam porque clube?
Vitória de Guimarães.

Não havia um segundo clube, dos grandes?
Não, em Guimarães são raras as exceções que são de outro clube.

Da escola, gostava?
Como era um miúdo muito irrequieto, ao estar fechado numa sala de aula 90 minutos, chegava a uma certa altura em que perdia a concentração. Acabei por concluir o 12.º ano, mas a escola não era nada que adorasse. Reconheço a importância da escola e hoje sou muito exigente com os meus filhos relativamente aos estudos.

Xavier entrou no V. Guimarães com seis anos e saiu com 18

Xavier entrou no V. Guimarães com seis anos e saiu com 18

 

D.R.

Como e com quantos anos é que foi jogar para o Vitória?
Entrei no Vitória com seis anos e saí com 18. As escolinhas do Vitória chamam-se “Afonsinhos”, um amigo da escola tinha-me dito que ia lá às captações e fui com ele e com o pai dele. Acabei por ficar e ele não.

Quando chegou a casa e disse que o Vitória o queria, como reagiu a sua família?
Ficou feliz. A mãe não perdia um jogo, onde quer que fosse e até hoje acompanha-me sempre.

Quais as maiores memórias que tem da formação?
Maioritariamente são boas, de amizades que guardo até hoje… Mas há uma memória que acabou por se tornar numa má memória, no primeiro ano de juniores. Lutámos pelo título até à última jornada, em que perdemos com o Sporting, que acabou por ser o campeão. O Vitória só tinha sido campeão de juniores uma vez, há muitos anos, portanto, era algo especial.

Quem era o treinador?
O Luís Filipe, que depois esteve na equipa B do Vitória e na China como diretor de formação, é alguém de quem guardo excelentes memórias, porque além de excelente treinador, era um grande homem.

Quando tomou consciência e passou mesmo a acreditar que ia fazer do futebol a sua profissão?
Na formação. O objetivo e o sonho estão sempre lá. Acabei a minha formação no Vitória, que tradicionalmente não costumava apostar em jovens, ainda não havia equipas B, o que dificultou muito a aposta em jovens.

Alguma vez chegou a treinar com a equipa principal?
Cheguei porque antigamente havia a Liga intercalar, que servia para dar minutos aos jogadores que jogavam menos na equipa principal, mas era obrigatório ter seis ou sete jogadores da formação nessa equipa. Nessas janelas cheguei a jogar várias vezes pelo Vitória na linha intercalar.

O avançado (à direita) em ação pelo V. Guimarães

O avançado (à direita) em ação pelo V. Guimarães

 

D.R.

Recorda-se da primeira vez que foi chamado para treinar com a equipa principal, e por quem?
O treinador era o mister Paulo Sérgio.

Ficou muito nervoso?
É normal. O balneário era diferente de hoje. Olhávamos para aqueles jogadores, que eram as nossas maiores referências, de outra maneira e a receção também era diferente. Hoje recebemos os miúdos de uma maneira muito mais aberta e se calhar ajudamo-los muito mais do que naquela altura. Lembro-me que até tínhamos receio de dizer “bom dia”, queríamos era estar no nosso cantinho e que ninguém reparasse em nós.

Naquela altura, quem eram as grandes referências do Vitória para si?
O Nuno Assis, o guarda-redes brasileiro Nilson, o Pedro Mendes, o Sereno.

Houve algum que tivesse sido particularmente mais simpático ou, pelo contrário, mais rude?
Lembro-me que o Flávio Meireles era alguém muito exigente, mas que ajudava sempre os miúdos, como capitão também tinha essa responsabilidade, se calhar. Ainda hoje dou-me muito bem com ele e lembro-me perfeitamente que foi alguém que me ajudou muito.

Quando assinou o primeiro contrato com o Vitória?
Assinei contrato de formação aos 16 anos. Ganhava €250 euros por mês. Dava para os gastos diários de um jovem, ajudava na compra das chuteiras, do material.

Chegou a assinar contrato profissional com o Vitória?
Não, porque não existiam equipas B e saiu muita gente. Tive que seguir outro caminho, O que costumo dizer aos jovens hoje é que não há só um caminho, há várias maneiras de chegar lá e eu consegui.

António Xavier com a mulher, Tânia

António Xavier com a mulher, Tânia

 

D.R.

Tinha esperança de subir à equipa principal ou estava mesmo fora dos seus horizontes?
Sabia que era difícil. Era muito raro, salvo as exceções de um ou dois jogadores. Preferiam apostar em jogadores já feitos e em malta vinda de fora. Valorizava-se muito mais isso do que jogadores vindos da formação.

Do seu ano subiu alguém à equipa principal?
Não. Mas dois anos depois, quando há a criação da equipa B, e curiosamente devido a dificuldades financeiras do Vitória, a base da equipa que ganhou a Taça Portugal, em 2012/13, era maioritariamente de jogadores da minha geração, que chamaram de volta.

Quando aos 18 anos o Vitória comunicou-lhe que tinha de arranjar outro clube, o que sentiu?
Sentes um misto de sensações, maioritariamente más, porque foram 12 anos, não conhecia outra realidade e o chão desaparece um pouco. Eu não tinha empresário, mas o Jorge Pires, abordou-me, tinha um projeto no Tourizense com investidores de fora e queria muito que eu fosse para lá e, curiosamente, o treinador que tinha ido para o Tourizense tinha sido meu treinador na formação [Tonau], já me conhecia muito bem e foi alguém que fez muita força para eu ir.

Já havia algum namoro sério?
Não, veio no seguimento da minha ida para Touriz. Conheci a minha esposa, a Tânia, com quem estou há 12 anos, nessa altura. Ela é de Oliveira do Hospital, que fica a 10 minutos de Touriz. Conhecemo-nos no restaurante do meu sogro. Na altura ela estava a tirar o curso de hotelaria. Quando fui para o SC Braga já foi comigo e a partir daí estivemos sempre juntos.

O extremo chegou ao Marítimo em 2014/15

O extremo chegou ao Marítimo em 2014/15

 

Carlos Rodrigues

A ida para o Tourizense obrigou-o a sair de casa da mãe. Foi difícil deixar o ninho?
Foi a primeira vez e nunca mais voltei. Custou um pouco, mas foi algo que me fez crescer muito, porque acabas por ter outras responsabilidades. Morava com quatro ou cinco colegas, o que acabou por nos distrair mais e correu tudo bem.

No Tourizense lidou com homens feitos, muito diferente dos juniores. Foi uma transição difícil?
Nota-se muita diferença, era uma transição muito difícil de fazer, ajudou o facto do projeto do Tourizense ser praticamente com miúdos vindos da formação do SC Braga, do Vitória, do Benfica. Isso foi bom para nós. Mas jogávamos contra jogadores já feitos e experientes, e era um futebol muito mais físico do que estávamos habituados.

Como era o ambiente no balneário?
Não sei se era por sermos basicamente da mesma idade, mas costumo dizer que foi se calhar o melhor balneário que tive. Vivíamos todos muito perto uns dos outros e guardamos uma ligação muito forte até hoje.

Do que mais se recorda dessa época no Tourizense?
Das pessoas, principalmente, porque Touriz é uma aldeia com 200 habitantes, que nos receberam de uma maneira fantástica. Acabámos por criar uma família também com as pessoas da aldeia e conseguimos manter-nos na última jornada, o que foi uma festa enorme porque é um clube pequeno.

Foi com o Tourizense que assinou o seu primeiro contrato profissional. Qual o valor do seu primeiro ordenado?
Eram €600, mas davam-nos casa e alimentação, o que já era uma excelente ajuda.

Xavier (à esquerda) em ação pelo Marítimo

Xavier (à esquerda) em ação pelo Marítimo

 

D.R.

Como surgiu o interesse do SC Braga?
Primeiro, fiz uma excelente época em que chamei a atenção de muitos clubes. A Académica e a Naval mostraram interesse, e mais clubes, mas depois apareceu o SC Braga no seguimento da criação das equipas B e decidi rumar a Braga.

Porque optou pela equipa B do SC Braga e não por uma Naval, por exemplo, que estava na II Liga?
Porque foi quem fez mais força para contar comigo, isso é algo muito importante, e financeiramente também foi mais apetecível.

Quando chegou ao SC Braga B era Artur Jorge o treinador, mas as coisas não correram bem e acabou por ser substituído por Toni Conceição. Com qual dos dois gostou mais de trabalhar?
Com o mister Artur Jorge, sem dúvida. Tive pena de ele ter saído, mas os resultados não ajudaram e o presidente Salvador optou pela contratação do mister Toni.

Foi bem recebido em Braga, uma vez que é vimaranense?
Muito bem. Muito bem mesmo. Por toda a gente, desde o treinador, à direção. O SC Braga já tinha também umas condições excecionais, o que tornou tudo mais fácil.

Estava com 20 anos. Qual era o seu maior sonho?
Os sonhos são muitos nessa altura. No espaço de um ano, sou dispensado do Vitória, faço uma grande época no Touriz e consigo dar novamente um passo em frente e os objetivos voltam naturalmente a ser maiores. O sonho era basicamente chegar à I Liga, coisa que consegui fazer e por quase 200 vezes. Posso dizer que atingi a maior parte dos meus sonhos. Curiosamente, no Vitória nunca tinha ido à seleção e no Tourizense sou chamado à seleção de sub-20, pelo mister Ilídio Vale, também devido à grande época que fiz.

Xavier (no centro) em luta com João Palhinha, num Belenenses-Marítimo de 2016

Xavier (no centro) em luta com João Palhinha, num Belenenses-Marítimo de 2016

 

Gualter Fatia

Gostou do ambiente da seleção? Era o que esperava?
Foi o realizar de um sonho, apesar de ser num patamar mais baixo. Mas como não estava habituado a ser chamado é sempre o realizar de um sonho.

No SC Braga chegou a ser chamado pelo José Peseiro para treinar com o plantel principal?
Eu treinava muitas vezes na equipa principal, não era titularíssimo na equipa B, jogava pouco, mas estive mais de um mês e meio a treinar com a equipa principal.

Com que opinião ficou do José Peseiro?
Era alguém já muito respeitado, que me ajudou imenso. Nesse mês e meio fez-me crescer muito.

De que forma?
Na correção de posicionamento, no melhoramento do jogo interior e, claro, a qualidade que havia no plantel do SC Braga tornava as coisas mais fáceis.

Quem eram as estrelas do SC Braga que seguia mais atentamente?
O Eder, ponta de lança. Na minha opinião essa foi a melhor equipa de sempre do SC Braga. Tinha Hugo Viana, Custódio, Ismaily, Éder, Alan, Mossoró, era uma equipa recheada de grandes nomes.

Teve esperança de permanecer no SC Braga?
Tive, porque as coisas nessa altura em que estava na equipa A corriam-me muito bem, mas os resultados da equipa não ajudaram a que o meu aparecimento pudesse acontecer; o SC Braga começou muito bem a época, com a Liga dos Campeões e tudo mais, mas depois os resultados começaram a piorar e quando assim é, torna-se tudo mais difícil.

António Xavier, no estádio do CD Tondela, na semana em que foi entrevistado por Tribuna

António Xavier, no estádio do CD Tondela, na semana em que foi entrevistado por Tribuna

 

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

No final da época, como acabou emprestado ao Feirense?
O SC Braga estava muito interessado no Rafa [Silva] do Feirense e eu vou como moeda de troca. Eu e o Ricardo Valente.

Como reagiu quando lhe disseram que o iam emprestar ao Feirense?
Acabei por reagir bem porque era uma equipa da II Liga e vi como uma oportunidade de ter mais espaço.

Não ficou desiludido?
Não diria que fiquei desiludido. Acabou por ser um falhanço essa minha passagem na equipa B do SC Braga.

Porque foi um falhanço?
Porque joguei pouco e, nessas idades, o que mais interessa é termos minutos de jogo e vi uma excelente oportunidade no Feirense para isso, até porque continuava ligado ao SC Braga.

Quais eram os objetivos do Feirense?
Acabaram por ser os mesmos da equipa B do SC Braga, lutar pela manutenção. O Feirense tinha descido, era a segunda época na II Liga e tivemos algumas dificuldades, acabámos por nos manter, mas a nossa luta foi essa.

Mas acabou por sair para o Leixões em janeiro, também por empréstimo. Foi escolha sua ou do SC Braga?
Fui eu que quis também por não ter os minutos que achava que merecia. O treinador não tinha confiança naquelas que eram as minhas capacidades e quando surgiu o Leixões, muito interessado em mim, decidi rumar a Matosinhos.

Foi uma escolha acertada?
Sem dúvida, finalmente joguei os minutos que queria, joguei sempre basicamente. O Pedro Correia é quem faz muita força para eu ir para lá, mas, passado uma semana de eu estar lá, ele é despedido e seguimos a época com o mister Jorge Casquilha. Joguei sempre.

Em 2017/18, António Xavier (à direita) assinou pelo Paços de Ferreira

Em 2017/18, António Xavier (à direita) assinou pelo Paços de Ferreira

 

Gualter Fatia

Tem histórias para contar dos tempos que esteve no Leixões?
Poucas, e são más, porque o clube vivia momentos financeiros difíceis, situação que não estava habituado, nunca tinha passado por isso. Tive a sorte de, durante toda a carreira, essa ter sido a única situação onde vi aquilo acontecer.

Está a referir-se a ordenados em atraso?
Sim. Eu tinha a sorte de ser o SC Braga a pagar metade do meu salário, mas vi situações de colegas a terem de devolver carros, a não ter dinheiro para pagar a renda dos apartamentos e são situações que marcam pela negativa.

A sua mulher, a Tânia, trabalhava?
Sim, trabalhou sempre. Sempre quis, e bem, ter a Independência dela, e trabalhou na Worten.

Como foi parar a seguir ao Marítimo?
Eu continuava a trabalhar com o empresário Jorge Pires, fiz uma excelente segunda metade da época e apareceu o interesse do Marítimo, mesmo sendo a equipa B inicialmente, havia promessas de que rapidamente subiria à equipa principal e foi isso que aconteceu.

Hesitou pelo facto de ir novamente para uma equipa B?
Assustou um bocadinho porque não era aquilo que queria realmente, o ideal seria ir logo para a equipa principal, mas havia essa promessa, e não falharam, também devido ao meu grande início na equipa B do Marítimo, que estava na II Liga.

As promessas vinham de quem?
Do presidente.

Assinou por quantos anos?
Dois com mais um de opção.

Xavier (à direita) festeja um golo do Paços de Ferreira ao FC Porto, com o colega Welthon , em 2017

Xavier (à direita) festeja um golo do Paços de Ferreira ao FC Porto, com o colega Welthon , em 2017

 

NurPhoto

Quando chegou à Madeira quais foram as primeiras impressões?
Antes de ir havia receio porque não deixa de ser uma ilha em que estamos limitados a ter de apanhar um avião, mas depois tornou-se no sítio onde, até hoje, mais gostei de viver. Fui muito bem recebido, as condições eram boas também, o clima ajudou, foi tudo muito fácil.

Ainda fez 17 jogos na equipa B.
Mas correm-me às 1000 maravilhas e depois fui chamado pelo mister Leonel Pontes e nunca mais saí da equipa principal.

O que o Leonel Pontes lhe disse quando o chamou?
Pediu-me para continuar a ser eu mesmo, para jogar sem receio, para fazer o que vinha a fazer na equipa B. E foi isso que fiz, agarrei imediatamente o lugar na equipa principal e joguei a época toda.

Que memória guarda do seu jogo de estreia na I Liga?
Foi em casa, com o Estoril Praia, empatámos a zero.

Estava nervoso?
Há sempre aquele bichinho inicial, costumo dizer que é bom antes de entrarmos em campo, mas depois do jogo começar, é algo que desaparece.

Sentiu muitas diferenças da I para a II e II B onde já tinha jogado.
Costumo dizer que a I Liga é mais fácil de jogar.

Porquê?
Porque na II Liga é um jogo de muito mais contacto, um jogo muito mais agressivo, onde há menos espaço para pensar. Na I Liga é diferente, se houver qualidade, as coisas saem naturalmente.

Em 2017/18 António Xavier rumou ao CD Tondela

Em 2017/18 António Xavier rumou ao CD Tondela

 

Gualter Fatia

O que mais o marcou na sua primeira época de I Liga?
Termos atingido a final da Taça da Liga. Perdemos 2-1 com o Benfica, com um golo a acabar o jogo. Foi algo especial.

Já foi com o Ivo Vieira no comando da equipa, certo?
Sim.

Muito diferente do Leonel Pontes?
A ideia de jogo de ambos é parecida. Gostam ambos de um jogo de posse, positivo e tive a sorte de apanhá-los porque acreditaram em mim e agradeço-lhes muito até hoje.

Na época seguinte ainda jogou na equipa B do Marítimo. Porquê?
Porque tinha vindo de lesão, foi mais para recuperar o ritmo.

Que lesão foi essa e quando aconteceu?
Foi uma lesão muscular na coxa, durante a pré-época e para ganhar ritmo fui fazer um ou dois jogos na equipa B. Mas foi só isso.

Inicia a segunda época no Marítimo com Ivo Vieira que, entretanto, saiu e veio Nelo Vingada. Um estilo completamente diferente?
Sim. Muito diferente. O mister Vingada era alguém com uma experiência maior, que tinha um estilo de jogo mais arcaico, digamos assim. Mas, para mim, no futebol não há uma fórmula vencedora.

Quando diz arcaico a que se refere?
Tem a ver com o tipo de jogo. Um futebol de bolas mais longas, um tipo de jogo mais físico que em nada se parecia tanto com os mister Ivo Vieira ou Leonel Pontes, que privilegiam mais a posse de bola.

O extremo (à direita) em ação pelo CD Tondela

O extremo (à direita) em ação pelo CD Tondela 

D.R.

Que memórias tem dessa época 2015/16?
Acabámos por atingir novamente a final da Taça da Liga e voltámos a perder com o Benfica. Mas é sempre algo muito marcante atingir a final de uma competição.

E histórias para contar da Madeira?
Recordo-me da minha terceira época em que garantimos a qualificação para a Liga Europa e não estávamos à espera de ser recebidos numa apoteose tão incrível. Tínhamos autocarros logo à saída do aeroporto e fomos seguidos até ao centro da cidade, onde estavam milhares e milhares de pessoas.

Já foi com o treinador Daniel Ramos.
Sim, gostei muito de trabalhar com ele, um tipo de liderança muito positiva. Alguém justo.

Mais algum episódio que se recorde?
Lembro-me de um divertido. Nós deixávamos os carros num parque para irmos treinar e eu tinha por hábito deixar o carro em segunda fila a trancar alguns dos meus colegas. E a malta avisava-me sempre: “Qualquer dia o teu carro vai desaparecer.” Até que um dia, ainda hoje não faço a mínima ideia de quem possa ter sido, tiraram-me as chaves, foram buscar o meu carro e estacionaram no lugar reservado ao presidente Carlos Pereira [risos]. Quando cheguei ao parque e vi o meu carro estacionado com o carro do presidente atrás do meu, pensei: “Estou lixado” [risos]. Hoje é uma história engraçada, mas na altura fiquei com receio.

Terminava contrato com o Marítimo. Foi o clube que não quis continuar consigo, ou preferiu sair?
Na altura decidi que era tempo de ir por outro caminho. Gostei muito de estar no Marítimo e na Madeira. Foi onde nasceu o meu primeiro filho, o Lucas, em 2016. O nascimento dele, por exemplo, é uma história marcante. Ele tinha de nascer por cesariana, que estava marcada para a manhã de um dia em que íamos jogar com o Feirense. O mister Daniel Ramos deu-me a manhã para poder assistir ao nascimento. Mas acabaram por entrar algumas urgências na obstetrícia e a cesariana da minha mulher foi sendo adiada. Entretanto tive de ir para estágio, para o jogo. O Lucas nasceu à hora do jogo. No final, quando cheguei ao balneário e vi a foto do meu filho cá fora, desci a correr para o hospital que ficava mesmo ao lado do estádio do Marítimo. Foi uma sensação incrível vê-lo. Muda a nossa vida para melhor, sem dúvida.

Como foram os primeiros tempos de pai? Muitas noites sem dormir?
Nem por isso, o meu primeiro filho foi sempre muito fácil de lidar. Obviamente teve aquelas cólicas e as dores dos dentes a nascer, mas foi sempre muito fácil de lidar.

António Xavier, 32 anos

António Xavier, 32 anos

 

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Entretanto, recebeu a proposta do Paços de Ferreira. Teve mais alguma?
Tive, mas o Paços foi quem me convenceu. Era um clube com uma história muito recente do mister Paulo Fonseca, o treinador era o mister Vasco Seabra, que tinha trabalhado com o mister Paulo Fonseca e que me quis muito lá e não pensei duas vezes.

Como foi essa época 2017/18?
Foi uma época ótima a nível individual, a nível coletivo acabou por correr mal porque descemos de divisão, algo que não era expectável. Depois do mister Vasco Seabra sair entrou o mister Petit, que também esteve pouco tempo, e depois veio o mister João Henriques. Foi um ano de alguma instabilidade.

Com qual dos três gostou mais de trabalhar?
É difícil dizer porque o mister Vasco Seabra é um romântico, mais à imagem do mister Paulo Fonseca, alguém com um jogo muito mais elaborado. O Petit foi alguém com quem adorei trabalhar tanto como pessoa, como treinador, é uma pessoa séria, íntegra, terra a terra, muito fácil de trabalhar e que confiou muito em mim, por isso gostei muito de trabalhar com ele. Mas esteve pouco tempo. Foram três pessoas a quem nada tenho a apontar. O João Henriques entra numa fase em que já não estávamos bem, com o objetivo de tentar resolver as coisas, infelizmente, não conseguimos e acabámos por descer.

Xavier (à direita) com a mulher, os filhos e o irmão mais novo (à esquerda)

Xavier (à direita) com a mulher, os filhos e o irmão mais novo (à esquerda)

 

D.R.

Só tinha assinado por um ano?
Tinha dois anos de contrato, mas não tinha interesse em continuar na II Liga porque individualmente tinha feito também uma excelente e tinha várias propostas em mão, tanto de cá como de fora.

De onde?
Da Rússia e da Grécia, e em Portugal do CD Tondela.

Já lhe passara pela cabeça sair do país?
Ainda não. Não era nada em que pensasse, algo que eu queria, mas não naquela altura. Optei por ir para o Tondela. O mister Pepa e o diretor-desportivo Carlos Carneiro fizeram muita força para eu vir para o Tondela e senti que era a melhor decisão. Assinei dois anos.

O que pode dizer sobre esses dois anos?
Foram dois anos extremamente positivos. O primeiro foi talvez a minha melhor época na I Liga, a nível de números, digamos assim. Foram dois anos em que me valorizei imenso. Foram dois anos também a lutar para não descer. A história que mais me marcou no primeiro ano foi o último jogo em que se decidia a descida. Foi contra o Chaves. Quem perdesse, descia. Aos 30 minutos estávamos a ganhar 4-0. Fiz duas assistências. Foi um jogo tão importante e que decidia tanta coisa, que me marcou.

 

Spoiler

“No Estoril tínhamos um ritual após as vitórias: levávamos uns snacks, um queijinho, assávamos uma chouriça e bebíamos umas cervejinhas”

O extremo António Xavier regressou ao CD Tondela em 2023/24, e diz que voltou a “sentir a alegria de jogar futebol”. Mas até chegar aqui teve a sua primeira (e única até agora) experiência fora, na Grécia, onde jogou no Panathinaikos e no Levadiakos FC. Pelo meio ainda foi emprestado ao Estoril Praia, uma decisão de que hoje se arrepende, apesar dos bons momentos vividos no clube da linha de Cascais. Casado e pai de dois rapazes, Xavier confessa ter como meta jogar até aos 35 anos, mas ainda não sabe o que fará depois disso

Como foi parar ao Panathinaikos, da Grécia, em 2020/21?
Devido às últimas excelentes épocas que fiz, surgiu o interesse do Panathinaikos, que queria assinar imediatamente comigo, porque havia mais interessados. Em fevereiro de 2020 já tinha contrato assinado com o Panathinaikos.

Foi complicado ficar tanto tempo fechado em casa na altura do confinamento, devido à pandemia?
Foi muito difícil e tudo muito assustador, não era algo que estivéssemos habituados, ficarmos privados de exercer a nossa profissão diariamente. Tivemos de tentar treinar em casa, mantermo-nos o máximo ativos, para não perder a condição física.

Além de treinar, como ocupava o tempo?
Brincava com o meu filho, via séries e jogava “Football Manager”.

Foi com a família para a Grécia?
Sim, foram comigo.

Que tal o primeiro impacto?
Foi fantástico. Se calhar não temos noção da dimensão de um clube como o Panathinaikos, na Grécia, mas é um gigante, tudo é enorme, tanto a nível de adeptos como de condições. E é um país ao qual é muito fácil adaptar-nos, culturalmente as pessoas são muito parecidas connosco.

Em 2020/21, António Xavier saiu pela primeira vez de Portugal, para representar o Panathinaikos da Grécia

Em 2020/21, António Xavier saiu pela primeira vez de Portugal, para representar o Panathinaikos da Grécia

 

MB Media

Como era o seu inglês?
Sempre falei fluentemente. O mais difícil foi o facto de ainda ser uma altura de pandemia, as coisas abriam e passado uma semana fechavam. Era algo muito instável. A escola do meu filho, por exemplo, abriu uma semana, apareciam casos e na semana seguinte já tinha de ficar em casa. O primeiro ano foi muito instável a esse nível.

A sua mulher também arranjou trabalho na Grécia?
Não, tirou um curso de grego. Ela já falava e lia melhor do que eu, o que era ótimo, dava uma grande ajuda nos supermercados e restaurantes.

Dos adeptos, também gostou?
A dimensão do clube era algo a que não estava habituado, era abordado constantemente, também para cobrar quando as coisas não corriam bem, mas não tenho razões de queixa. Lembro-me de um dérbi com o Olympiakos, em casa, em que perdemos 4-0 se não me engano e demorámos umas três, quatro horas para sair do estádio. Tivemos de ser escoltados um a um até aos nossos carros, para sair.

Do que ficou mais fã na Grécia?
Da gastronomia. É fantástica. A qualidade de vida que há em Atenas é também algo de muito bom. Boas praias, bom tempo quase o ano inteiro. Muita coisa culturalmente para conhecer, porque é um país com muita história. Adorei lá viver.

Mas só fez sete jogos pelo Panathinaikos. Porquê?
Comecei a jogar, mas lesionei-me no joelho direito e acabei por perder a época toda. Fiz uma rotura de ligamentos no final de um jogo contra o Olympiakos, fora. Ao acabar o jogo, saltei e ao cair apoiado sob a perna direita, o joelho ficou todo para trás e fiz uma rotura de ligamentos, algo que foi muito frustrante. Fui operado na Grécia, mas fiz a recuperação em Portugal.

O avançado, aqui em ação pelo Panathinaikos, jogou pouco pelo clube grego devido a lesão

O avançado, aqui em ação pelo Panathinaikos, jogou pouco pelo clube grego devido a lesão

 

BSR Agency

Como foi a primeira experiência num balneário grego? Muito diferente do português?
Sim. No primeiro ano tínhamos umas 12 ou 13 nacionalidades diferentes, o que é interessante porque acabas por conhecer um bocadinho de cada um, a língua, a cultura desses países, e em Portugal não temos essa variedade tantas vezes; foi algo que me marcou imenso porque tínhamos marroquinos, holandeses, espanhóis, gregos...

Costumavam estar juntos fora do balneário?
Sim, fazíamos isso muitas vezes, porque a maioria de nós vivia em Glyfada, cruzávamo-nos muitas vezes e acabámos por viver muitas vezes momentos com eles. Os estrangeiros, principalmente, acabam por conviver mais vezes extra o futebol.

Achou o futebol grego muito diferente do português?
É muito diferente. O campeonato tem seis, sete equipas de boa qualidade e o resto diria que é do nível de II Liga portuguesa. Acho que têm o dinheiro, mas falta-lhes um pouco o projeto, a ideia. Eles pensam que o dinheiro resolve tudo e falta-lhes projetar melhor o futebol grego.

E o jogador grego também é muito diferente do português?
Os gregos tecnicamente são bons jogadores, têm muita qualidade, mas falta-lhes mais responsabilidade, por vezes serem mais profissionais. Eu dizia-lhes: “Vocês são preguiçosos”. Porque não têm aquela cultura de trabalhar muito, do sacrifício. Falta-lhes um pouco isso.

Diz isso tendo em conta o comportamento no treino ou fora do clube?
No treino. Não se aplicam tanto, são algo preguiçosos.

Xavier (à direita) com a mulher, os filhos e o irmão mais novo (à esquerda)

Xavier (à direita) com a mulher, os filhos e o irmão mais novo (à esquerda)

 

D.R.

Na época seguinte, acabou por ser emprestado ao Estoril Praia. Porquê?
Faço a pré-época no Panathinaikos, que mudou na altura de treinador, e o Estoril Praia apareceu através do diretor-desportivo, o Pedro Alves, que fez muita força para eu ir para lá. Na Grécia, o treinador contava comigo, mas acabei por fazer alguma força para voltar a Portugal.

Porquê?
Pois. Hoje digo que foi uma decisão errada. Mas senti que me queriam muito no Estoril Praia. Na altura, o Joãozinho, que era capitão e tinha jogado comigo no Tondela, estava lá e ligou-me, tinha o mister a ligar, o diretor-desportivo, todos fizeram muita força para que viesse e acabei por ceder. Se fosse hoje se calhar teria feito outra opção porque, com todo o respeito pelo Estoril, mas o Panathinaikos estava e está noutro patamar e nesse aspeto não foi uma decisão muito acertada.

O treinador do Estoril Praia, em 2021/22, era Bruno Pinheiro. O que pode dizer sobre ele, o clube e a época?
Foi um clube onde gostei muito de estar. Costumava dizer que nunca me iria adaptar a uma cidade tão grande como Lisboa, com muito trânsito, muita confusão e gostei muito de viver em Lisboa. O clube era muito familiar, muito à imagem do CD Tondela, onde gostei muito de estar. O mister Bruno Pinheiro era alguém de quem nunca tinha ouvido falar. Estava a começar a carreira dele, com ideias muito próprias, um futebol muito apoiado, de muita posse, era alguém que entendia muito de futebol e acabamos por fazer uma excelente época no recém-promovido Estoril, em que a ambição era a manutenção e acabamos por safar-nos muito cedo.

Que mais memórias tem dessa época?
Havia um ritual que tínhamos: sempre que vencíamos um jogo, logo a seguir levávamos uns snacks, um queijinho, assávamos uma chouriça, bebíamos uma ou duas cervejinhas. Era um ritual muito bom. Felizmente ganhámos muitas vezes. Fosse fora ou em casa, arranjávamos sempre maneira de fazer esse ritual.

Na época 2021/22, Xavier foi emprestado ao Estoril Praia

Na época 2021/22, Xavier foi emprestado ao Estoril Praia

 

D.R.

Regressou ao Panathinaikos no final da temporada, mas acabou emprestado ao Levadiakos FC. Porquê?
Estive meia época no Panathinaikos. O treinador [Ivan Jovanovic], que hoje é selecionador grego, foi sempre muito sincero e muito frontal, como gosto que as pessoas sejam, e, como na época anterior eu tinha forçado a saída, não contava comigo. Respeitei. Fazia o meu trabalho, fui sempre profissional, mas quando apareceu o Levadiakos FC, que era uma espécie de clube satélite do Panathinaikos, fui.

O Levadiakos era muito diferente do Panathinaikos?
Sim, foi um choque, as condições eram de facto muito más, desde o campo onde treinávamos… foi um choque muito grande.

Também acabou por jogar pouco. Porquê?
Apanhei um treinador que me quis muito lá, mas que passado duas semanas foi despedido e depois entrou um treinador que acabou por não contar comigo e até hoje não sei porquê. Foi algo inexplicável.

Voltou a ser pai?
Sim, em 2022. Eu estava na Grécia e a minha esposa estava em Portugal para ter o nosso segundo filho, o Martim, e ligou-me às duas da manhã a dizer que lhe tinham rebentado as águas. Reservei o primeiro voo, que era às 6 da manhã, mas mais uma vez não consegui assistir ao nascimento, quando cá cheguei já tinha nascido.

Terminava contrato no final da época 2022/23. Não quiseram renovar ou não quis ficar?
Devido à falta de minutos lá eles optaram por não renovar, como era de prever, e decidi voltar a Portugal.

O avançado (à direita) em ação pelo Estoril Praia

O avançado (à direita) em ação pelo Estoril Praia

 

Gualter Fatia

Só teve a proposta do CD Tondela?
Não, a maior parte das propostas, curiosamente, eram de fora, da Grécia também tive vários convites, mas achei que era a altura ideal para regressar a Portugal.

Porque motivo?
Para voltar principalmente a sentir a alegria de jogar futebol, porque foram dois anos que acabaram por ser um fracasso, é a palavra certa, e sentia que em Portugal, estando perto da família, estando num ambiente que conheço melhor, era melhor para a minha carreira.

O facto de ir para a II Liga não o desmotivou?
Não, porque a ideia era voltar a sentir a alegria de jogar à bola, coisa que hoje sinto e é minha principal preocupação.

Quem o quis, foi o treinador ou a direção?
A direção, principalmente. O presidente Gilberto Coimbra, é alguém com quem já tinha trabalhado aqui, fez de quase tudo para eu voltar.

Como foi regressar ao CD Tondela, que tinha deixado na I Liga e agora estava na II?
O clube continua igual, um clube familiar, com pessoas excecionais que fazem muito por este clube e o que faz a diferença do Tondela é mesmo isso: as pessoas. E continuava tudo muito parecido, o que para mim era bom. À exceção da liga, porque agora estamos na II Liga.

Após o ano de empréstimo ao Estoril Praia, o avançado regressou à Grécia

Após o ano de empréstimo ao Estoril Praia, o avançado regressou à Grécia

 

D.R.

A II Liga está muito diferente da última vez que jogou neste campeonato, há dez anos?
Mudou muito. Joga-se muito melhor. Já se veem boas ideias, treinadores bons, jogadores bons sempre houve, mas a ideia da II Liga antes era um futebol mais direto, um futebol mais físico, e hoje está muito diferente.

O treinador Tozé Marreco surpreendeu-o nesse sentido?
Sim, tinha uma boa ideia de jogo, apesar de que as nossas expectativas eram ter subido de divisão, algo que não conseguimos e acabámos por fracassar a esse nível. O mister saiu a sete ou oito jornadas do fim, para o Gil Vicente, e veio o mister Sérgio Gaminha para finalizar a época.

Quais são as expectativas desta época 2024/25?
Ganhar o máximo de jogos possíveis e no final fazemos as contas. As coisas têm corrido bem, o nosso início é promissor. Percebo que as pessoas começam a criar expectativas, mas temos que ser realistas. Há muita equipa boa na II Liga, com orçamentos muito maiores e embora isso não queira dizer tudo no futebol, é preciso ter em conta. Mas tudo faremos para continuar assim.

Aos 20 anos disse que a sua maior ambição era jogar na I Liga, algo que alcançou. Mas naturalmente deve ter-se projetado para um nível que nunca chegou a atingir. Porque acha que não alcançou o estatuto desejado?
Obviamente que quando temos 15/16 anos queremos ser os melhores do mundo, queremos ser internacionais, mas não há nada que tivesse mudado na minha carreira. Foi uma forma de crescer tanto nas boas memórias como nas más e estou extremamente realizado e muito feliz com a carreira que fiz e que continuo a fazer.

Em 2023/22 Xavier regressou ao CD Tondela, agora na II Liga

Em 2023/22 Xavier regressou ao CD Tondela, agora na II Liga

 

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Que ambições ainda tem?
De jogar, de continuar a desfrutar ao máximo do futebol e agora penso muito mais a curto prazo, tenho 32 anos e vivo mais o dia a dia. Se calhar antigamente projetava as coisas mais a longo prazo.

O que é o mais difícil na carreira de um futebolista profissional?
A regularidade. Manter o nível. Coisa da qual me orgulho imenso. Tenho quase 200 jogos na I Liga, golos, assistências, acho que consegui manter a consistência de jogar sempre em bons clubes, em bons patamares, e penso que a palavra é essa: consistência, que é o mais difícil de manter.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Costumo dizer que quero jogar até aos 35 anos.

E já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Ainda não é algo muito claro. Não me vejo com perfil para treinador principal. Se calhar no lado mais de fora, um cargo diretivo, diretor-desportivo, team manager, via-me mais a fazer isso.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Panathinaikos.

Deu para investir?
Sim, em imóveis.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Talvez comprar o meu BMW X4.

Xavier e os dois filhos

Xavier e os dois filhos

 

D.R.

Tem algum hobby?
Não, basicamente estar com os meus filhos e jogar Football Manager.

Acredita em Deus?
Muito. Frequento a missa.

Superstições?
Só entrar com o pé direito.

Tem tatuagens?
Tenho uma do meu filho mais velho, o Lucas. Agora tenho de fazer a do Martin.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Gosto muito de voleibol e de ténis.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não tenho.

E o maior arrependimento?
Talvez o ter sido saído do Panathinaikos para ir para o Estoril Praia.

O momento mais feliz da carreira?
A qualificação para a Liga Europa no Marítimo.

O objetivo que ficou por cumprir?
Ser internacional A.

O avançado diz ter voltado a sentira alegria de jogar futebol no CD Tondela

O avançado diz ter voltado a sentira alegria de jogar futebol no CD Tondela

 

Gualter Fatia

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Manchester United.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Ricardo Alves, Hélder Tavares e Joãozinho.

Alcunha, teve ou tem?
Na infância chamavam-me "Faneca".

Porquê?
Fui ao médico e o meu irmão mais velho foi comigo. Como eu era muito magrinho, a dada altura o médico disse: “Estás tão magrinho, pareces uma faneca”. O meu irmão chegou à escola e contou essa história e em Guimarães a maior parte das pessoas conhece-me por Faneca.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Eliminava o VAR, porque acho que veio retirar a emoção ao futebol.

Tem algum talento escondido?
Não. Gosto de cantar, mas não é um talento, pelo menos a minha esposa diz que não [risos].

Xavier no balneário do CD Tondela

Xavier no balneário do CD Tondela

 

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Qual o adversário mais difícil que defrontou em campo?
Danilo, do FC Porto.

Quem se tornou na sua maior referência a nível desportivo?
O Cristiano Ronaldo.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Não sei, o plano foi sempre este, nunca houve segundas opções.

Qual foi o clube onde mais gostou de jogar?
O CD Tondela.

Alguma vez foi praxado?
Na minha chegada ao Paços de Ferreira, eles tinham por hábito praxar a malta e no primeiro dia em que fomos para estágio de pré-época o diretor de comunicação, Paulo Gonçalves, disse aos novos: “Malta, têm que vir comigo tirar uma foto”. Ele já estava combinado com o resto do plantel e pôs-nos à frente do hotel, os outros estavam escondidos nas varandas e de repente começamos a levar com ovos, água, farinha [risos].

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Spoiler

“Chegámos ao Standard Liège e o balneário estava completamente destroçado, ninguém se falava. No fim, os jogadores até gravaram um disco”

Rui Mota, 45 anos, iniciou o percurso profissional como professor de Educação Física e treinador das camadas mais jovens até se tornar observador, no Sporting, papel que desempenhou durante quatro anos. Mas foi como adjunto e braço direito de Ricardo Sá Pinto, durante oito anos, que mais aprendeu para um dia se tornar treinador principal, cargo que ocupa agora no FC Noah, da Arménia. Nesta parte I da entrevista, explica como tudo se passou, conta várias histórias dos clubes e países por onde esteve, fala do feitio de Sá Pinto e da maior desilusão da carreira até ao momento

Nasceu em Lisboa. O que faziam os seus pais profissionalmente quando nasceu?
A minha mãe foi hospedeira de bordo vários anos, mas quando nasci ela trabalhava em Portugal, se não me engano nos CTT. Entretanto, os meus pais mudaram-se para Inglaterra, eu fiquei em Portugal até acabar a escola primária, com os meus avós e o meu tio.

Os seus pais mudaram-se para Inglaterra porquê?
O meu pai, que é engenheiro mecânico, estava a tirar um curso no Chelsea College e a minha mãe teve a oportunidade de ir trabalhar para a British Airways, como hospedeira de bordo.

Quantos anos tinha quando eles se mudaram para Inglaterra?
Tinha seis ou sete anos. Os meus pais queriam que eu tivesse pelo menos a primária feita em Portugal e assim que acabei a primária, mudei-me para o sul da Inglaterra, devia ter uns nove/dez anos e estive lá sete anos.

É filho único?
Não, tenho duas irmãs mais novas.

Gostou de viver na Inglaterra?
Adorei. Sinceramente, acho que me ajudou muito no meu futuro. Primeiro, porque eu já era alguém que gostava muito de desporto e na altura Portugal não tinha nem infraestruturas, nem uma cultura desportiva tão enraizada como Inglaterra. Fui para uma escola pública onde tinha quatro relvados naturais de futebol, dois pavilhões, courts de ténis, pistas de atletismo, tinha todas as condições para praticar várias modalidades. Mesmo fora da escola havia uma oferta muito rica.

Em Portugal já praticava alguma modalidade?
Estava na natação, também tinha ginástica acrobática no colégio onde andava. Na altura não jogava futebol federado, só na rua, mas quando fui para a Inglaterra pratiquei tudo e mais alguma coisa. Passei a jogar futebol federado. O desporto escolar lá tem uma componente muito forte e pela escola eu jogava críquete, badmínton, futebol, também iniciei o karaté, nadava. Era desporto o dia todo e nos dias todos, exceto as horas que estava na escola.

Rui Mota em criança

Rui Mota em criança

 

D.R.

Regressou a Portugal com quantos anos e porquê?
Voltei para Portugal ia fazer 15 anos. Os meus pais sentiam falta do apoio familiar, entretanto a minha irmã nascera e como já eram muitos anos longe da família, resolveram regressar.

Sentiu-se revoltado por vir embora ou gostou da ideia de voltar a Portugal?
Fiquei muito, muito chateado. Não queria vir mesmo. Mas teve de ser, era a família, não havia hipótese de lá ficar. Mas voltei revoltado, é um facto.

Vieram viver para onde?
Fomos morar para a Praia das Maçãs, porque os meus pais tinham lá uma casa; estivemos lá um ano e depois mudámos para Oeiras, a seguir estivemos em São Marcos e voltámos novamente a Lisboa.

O percurso escolar foi feito a saltar de escola em escola. Foi difícil?
Foi. Estive primeiro na Sarrazola e foi um choque muitíssimo grande, porque vinha de uma escola com condições completamente diferentes. A escola da Sarrazola à data, do ponto de vista humano, era fantástica, mas do ponto de vista de infraestruturas, foi um choque grande.

A que mais lhe custou adaptar-se novamente?
O que me custou mais foi sobretudo ter deixado os meus amigos, porque eu era e sou uma pessoa que valoriza muito os amigos. E as condições de vida no dia a dia eram muito melhores na Inglaterra. Não posso queixar-me, considero que fui toda a minha vida um privilegiado, mas a verdade é que foi um retrocesso naquilo que era o dia a dia. Estava feliz na Inglaterra. Mas se não tivesse voltado a Portugal, não havia conhecido a minha mulher, portanto...

Já lá vamos. Em pequeno o que dizia querer ser quando fosse grande?
Uma das coisas que queria e dizia, era ser piloto, um bocadinho por acompanhar a vida da minha mãe. Mas a ida para Inglaterra mudou-me, com o gosto todo que ganhei ainda mais ao desporto, passei a querer ser professor de Educação Física.

Rui (à direita) com o pai

Rui (à direita) com o pai

 

D.R.

Nunca lhe passou pela cabeça ser jogador profissional ou percebeu cedo que não tinha aptidões suficientes para ser um grande jogador de futebol?
Exatamente. Percebi que tecnicamente não era um jogador com essas capacidades. Sobretudo quando voltei a Portugal senti algumas limitações do ponto de vista técnico. Mas joguei até à altura que fui para a universidade.

Jogava em que posição?
Era lateral esquerdo, ou direito.

Quem eram os seus ídolos?
Jorge Cadete e Ricardo Sá Pinto.

Em Portugal, onde jogou?
Joguei no Mucifalense, no Porto Salvo e no Oeiras.

Quando era pequeno torcia por algum clube?
Sim, o Sporting.

Estudou na Faculdade de Motricidade Humana ou na Escola Superior de Desporto de Rio Maior?
Através de um familiar meu que dava aulas na Lusófona, soube que ia abrir o curso em Rio Maior, que tinha uma componente específica do treino desportivo, algo de que já gostava. Como tinha estado tantos anos ligado à prática desportiva, sempre foi uma coisa que me atraiu a questão do treino e do treinador, por isso, foi um chamariz. Na altura, os meus pais até ficaram de pé atrás porque era uma escola nova, não havia feedbacks. Mas no plano curricular, a Escola Superior de Desporto de Rio Maior oferecia uma componente específica do treino desportivo, com um número de horas muito maiores do que na FMH, o que era bom. Lembro-me de lhes ter dito que podia arriscar e se não gostasse pedia transferência. Mas logo nos primeiros momentos percebi que aquilo tinha tudo a ver comigo. Tive a felicidade de ter professores extraordinários que me fizeram apaixonar ainda mais pelo treino.

Foi viver para Rio Maior. Já conhecia a sua mulher?
Sim. Conheci a Dora numas férias no Algarve, numa altura em que nem queria ir de férias, porque gostava muito de trabalhar durante as férias para ter o meu pocket money. Mas, por insistência da minha mãe, fui. Acabei por conhecer a Dora, tinha 17 anos. Ela estudava. E no ano em que veio para Lisboa tirar o curso de engenharia informática, fui para Rio Maior [risos].

Esteve quanto tempo em Rio Maior?
Entrei em 1998 e a licenciatura foi de quatro anos. No final do 4.º ano comecei a dar aulas de Educação Física em dois colégios, o São João de Deus e o Jardim Infantil Pestalozzi.

Rui Mota com a mulher, Dora

Rui Mota com a mulher, Dora

 

D.R.

Já lhe passava pela cabeça ser treinador de futebol?
Já. Tive um professor de futebol extraordinário, o José Peseiro, que foi claramente uma das minhas maiores influências e que me fez apaixonar ainda mais e conhecer o futebol de uma maneira completamente diferente.

De que forma ele o cativou?
Era a forma sistematizada e organizada como desenvolvia os conteúdos. Como o futebol se processa, como ele está organizado, a sua estruturação, a sua sistemática, fizeram com que eu olhasse para o jogo de uma forma completamente diferente e começasse a ver coisas que não via. Para alguém apaixonado pelo futebol, começar a descobrir ainda mais sobre esse mundo, foi muitíssimo bom. E depois era a forma entusiasta e o carisma que o professor José Peseiro tem e que me contagiou. A partir desse momento só tinha uma coisa na minha cabeça: ser treinador de futebol.

Fez o seu estágio onde?
No Alverca, com o professor Alexandre Santos. Trabalhava também como professor de Educação Física com crianças dos três até dez anos, o que do ponto de vista educacional era algo que gostava mesmo, porque é exatamente nestas idades que colocamos a sementinha. Depois do Alverca, dei treinos no Castanheira, andei em vários clubes do Ribatejo a fazer pela vida porque, entretanto, casei, em 2004.

E foi pai quando?
Fui pai do Gonçalo em 2007. Passado cinco anos fui pai do Tiago. Tenho dois rapazes.

Como foi o seu percurso até chegar ao Sporting como observador, em 2012/13?
Quando estava em Rio Maior, tive um convite da Associação de Futebol de Santarém para acompanhar como oficial de ligação a equipa da África do Sul, no Torneio Vale do Tejo, devido a falar tão bem inglês. Basicamente, fazia a ponte para tudo o que era a organização e ajudava-os no dia a dia. Foi muito bom, porque me permitiu estar dentro de uma equipa profissional, perceber o seu dia o dia, ter acesso a treinos. Depois dessa experiência fui convidado pela Federação Portuguesa de Futebol para trabalhar com eles em vários jogos de qualificação. Tive o convite para participar no Euro 2004, para ser um dos coordenadores dos oficiais de ligação, só que isso ia fazer-me sair da escola e eu não podia porque era o meu ganha-pão. Acabei por ficar como oficial de ligação da seleção da Inglaterra. Tudo isto foi importante para ter um conhecimento ainda mais vincado de tudo o que se passa e rodeia o futebol profissional.

Rui (à direita) a realizar o seu trabalho como observador, no Sporting

Rui (à direita) a realizar o seu trabalho como observador, no Sporting

 

D.R.

O Sven-Goran Eriksson era selecionador da Inglaterra no Euro 2004. Ele deixou-o assistir aos treinos da equipa?
Sim, tive essa possibilidade de estar sempre presente nos treinos, o que me enriqueceu bastante. Depois, estive a treinar os juvenis B do Alverca. No ano seguinte fui convidado para ir para o Juventude da Castanheira, como treinador adjunto da equipa sénior, uma época também muito engraçada, porque subimos de divisão. Depois pediram-me para assumir os juniores. Estive lá dois anos, praticamente. Entretanto, fui para o Vilafranquense como treinador dos juniores e coordenador técnico da formação. E depois estive dois anos nos seniores do Vilafranquense.

Foi-lhe fácil passar a lidar com homens feitos?
Já tinha tido o papel de treinador adjunto, que está muito próximo dos jogadores, do balneário, é aos adjuntos que muitas vezes os jogadores confidenciam as coisas, porque têm outro à vontade que não têm com o treinador principal, portanto, tive a possibilidade de estar num balneário de homens mais velhos do que eu, o que me preparou para quando passei a assumir a equipa sénior e eles respeitavam-me muito.

Continuava a dar aulas nos colégios?
Continuava. Entretanto, acumulava com o convite da Escola Superior de Desporto de Rio Maior para dar aulas como professor assistente. Na altura eu morava em Alcochete, a minha vida era Alcochete-Lisboa-Rio Maior-Vila Franca. Muitas viagens durante a semana, mas tinha que ser. Sempre fui ambicioso, com vontade de crescer e dar boas condições à minha família.

Quais eram as suas referências de treinadores na altura?
Eram o professor José Peseiro e o José Mourinho.

Depois do Vilafranquense foi treinar os juniores do Alcochetense?
Sim, quis estar perto de casa, para estar mais tempo com o meu filho. Só estive um ano, porque depois houve a possibilidade de ir para o campeonato nacional de juniores, através do Alverca, o que para mim era um passo à frente.

Onde só esteve também um ano, porque depois foi treinar os sub-17 do Rio Maior.
Sim teve a ver com o facto de estar a tirar o mestrado em Rio Maior. Houve um convite da parte de um colega meu, que era também coordenador do Rio Maior, para treinar os sub-17 e achei que era a única forma de conseguir fazer o meu trabalho, tirar o mestrado e, ao mesmo tempo, continuar no futebol.

Com a Supertaça de Portugal da época 2015/16, conquistada com o Sporting

Com a Supertaça de Portugal da época 2015/16, conquistada com o Sporting

 

D.R.

Como foi parar ao Sporting em 2012/13, como observador?
Alguém ligado ao Sporting falou com o Alexandre Santos, que me perguntou se estava interessado em trabalhar para a equipa profissional do Sporting como observador. Achei que era importante para mim, porque me ia dar ainda mais ferramentas para no futuro, enquanto treinador, ter mais capacidade naquilo que era a análise do jogo, interpretação de várias formas de jogar a um nível completamente diferenciado. O treinador do Sporting era o Ricardo Sá Pinto, tive uma reunião com ele e pronto.

Quais eram as suas funções em concreto?
Eu fazia parte do departamento de observação do Sporting e fazia a análise do jogo, dos adversários, a análise da equipa e os relatórios. Às vezes também análise do treino.

Esteve quatro anos nessas funções. Além do Ricardo Sá Pinto, trabalhou com muitos outros treinadores: Oceano, Vercauteren, o professor Jesualdo Ferreira, Marco Silva, Leonardo Jardim e Jorge Jesus. Qual deles era o mais chato nas suas exigências?
O mais chatinho era o Jorge Jesus. Mas porque era mais meticuloso. Dava uma grande importância ao detalhe, sobretudo da própria equipa. Era uma pessoa muito obcecada pela qualidade do trabalho. Não é que os outros não fossem porque a esse nível todos os são. Foi uma bagagem muito grande e um prazer enorme poder ter trabalhado com esses treinadores, todos me ajudaram. Todos são pessoas rigorosas. Agora o mister Jorge Jesus apoia-se muito nesta faceta dos vídeos, da correção e da análise. Ele era obcecado pelo detalhe.

Em 2016, Rui Mota tornou-se adjunto de Ricardo Sá Pinto no Al Fateh, da Arábia Saudita

Em 2016, Rui Mota tornou-se adjunto de Ricardo Sá Pinto no Al Fateh, da Arábia Saudita

 

D.R.

De que forma, consegue exemplificar?
Na marcação dos jogadores adversários, a questão, por exemplo, de utilizar cores diferentes para setores diferentes das equipas, era algo que ele gostava muito e a que dava muito ênfase. O meu trabalho era basicamente o mesmo com detalhes e com approaches diferentes, porque o objetivo do observador é olhar para o jogo e para a equipa como o treinador quer. Por outro lado, foi com a entrada do mister Jorge Jesus que o Sporting deu um salto grande ao nível da capacidade de recrutamento e mesmo tecnológico. Eu já estava como coordenador do departamento de observação e de análise e várias vezes tinha tentado trazer mais gente porque é uma área muito trabalhosa e é preciso uma mão de obra com muita gente e nem sempre foi possível por questões orçamentais, mas naquele ano foi possível.

O que mudou?
Por exemplo, começámos a conseguir controlar muito mais a questão dos dados individuais e da análise individual da nossa equipa. Tínhamos uma pessoa só para isso, que era meu estagiário também na universidade. Porque a forma de jogar do Marco Silva é diferente, a do Jorge Jesus é diferente, a do Jesualdo Ferreira é diferente, cada um tem a sua forma de ver o jogo.

Equipa técnica do Al Fateh, em 2016. Ricardo Pereira (treinador de guarda-redes), Ramon (tradutor), João (analista), Rui (adjunto), Sá Pinto (treinador) e Guilherme Gomes (preparador físico)

Equipa técnica do Al Fateh, em 2016. Ricardo Pereira (treinador de guarda-redes), Ramon (tradutor), João (analista), Rui (adjunto), Sá Pinto (treinador) e Guilherme Gomes (preparador físico)

 

D. R.

Tem algum episódio, alguma história mais caricata desses anos enquanto observador?
Quando fui para a observação e análise, era um área muito tenra e crua em Portugal e não havia ainda uma cultura muito grande deste tipo de departamentos. O Benfica e o FC Porto já tinham, mas não havia muito e por isso nós éramos um bocadinho espiões. Às vezes os clubes não davam autorização para gravar os jogos e lá tínhamos de arranjar formas com o telemóvel de tirar umas imagens. Acabava por ser um bocado constrangedor, porque estávamos sempre naquela de sermos apanhados, mas era para o bem do nosso trabalho.

Em Portugal somos mais fechados e não gostamos de mostrar aos outros o que estamos a fazer, mais do que noutros países?
Sem dúvida. É muito português. Lá fora há mais abertura, nós estamos sempre com medo que nos venham roubar os ovos de ouro.

Mais alguma história que se recorde desses anos no Sporting?
Assisti a inúmeras situações com o Paulinho, o roupeiro. As brincadeiras com os jogadores, as partidas que eles lhe faziam. Uma das coisas que vi fazer foi amarrem-no a um poste. Ele tinha a mania que estava sempre com calor, andava sempre de calções e manga curta e num jogo fora, onde estava a nevar, estava toda a gente com um frio desgraçado e às tantas agarraram nele e amarraram-no a um poste lá fora e começaram a atirar-lhe bolas de neve [risos].

A si fizeram-lhe alguma partida?
Lembro-me que no tempo do mister Jorge Jesus veio um jogador chamar-me a dizer que o mister estava danado comigo e queria falar comigo. Fiquei um bocadinho naquela, o que se está a passar? Fui ter ao gabinete dele e, claro, ele ficou a olhar para mim, era mentira, tinha sido palhaçada dos jogadores. Lembrei-me de outra história engraçada.

Força.
O mister Leonardo Jardim tinha deixado o Sporting, estava eu nas compras e liga-me o Vasco, o secretário técnico do Sporting: “Rui, tenho aqui uma pessoa que quer falar contigo.” Passa o telefone e o mister Jorge Jesus começa a dizer: “Olá Rui, tudo bem? É o mister Jorge Jesus, eu vou para o Sporting, só para te dizer que estou a contar contigo.” Eu pensei que era alguém a brincar, a gozar comigo e comecei a dizer: “Ó mister, sim, sim, claro, então não há de ficar com uma pessoa como eu” [risos], meio na palhaçada. Quando de repente me caiu a ficha e começo a perceber que afinal estava mesmo a falar com o Jorge Jesus, fiquei sem saber bem onde é que me havia de meter [risos].

A equipa do Al Fateh, em 2016

A equipa do Al Fateh, em 2016

 

D.R.

Como o Jorge Jesus reagia às brincadeiras dos jogadores?
Ele gostava. Antes de trabalhar com ele tinha uma ideia diferente, no dia a dia com ele fiquei com outra. Se calhar achamos que é aquela pessoa mais emotiva e mais rija, e obviamente que o é, porque tem que o ser, mas tem um lado humano também muito bonito e muito sensível. É uma pessoa preocupada com os outros, é carinhoso e tem uma adoração muito grande por crianças, foi algo que presenciei até com os meus filhos e isso tocou-me muito. Adorei trabalhar com ele e com a equipa técnica dele da altura.

Mas dizem que nos treinos ele consegue ser demasiado intenso e cansativo.
Isso tem a ver com a identidade dele, enquanto treinador. Às vezes somos assim, eu próprio também me transformo completamente quando estou no treino, é natural. Quando estamos a falar de liderança, sobretudo de homens e de um grupo de trabalho grande em que muitas vezes cada um puxa para si próprio, para o individualismo, se não houver uma forma vincada, as coisas acabam por passar um bocadinho ao lado. Mas quando conseguimos ter algum tempo no privado, acabamos por perceber que em função dos contextos as pessoas também são diferentes.

Rui Mota, Sá Pinto e Ricardo Pereira no deserto da Arábia Saudita

Rui Mota, Sá Pinto e Ricardo Pereira no deserto da Arábia Saudita

 

D.R.

Como acabou por ir parar à Arábia Saudita como adjunto do Ricardo Sá Pinto, no Al-Fateh?
Quando ele saiu do Sporting pus o meu lugar à disposição porque foi a pessoa que me levou para o Sporting, mas o Ricardo foi sensível à questão de eu ter deixado o meu trabalho anterior, sabia que eu tinha uma família e ficar de um momento para o outro sem emprego era complicado. Disse-me para continuar e que um dia havíamos de voltar a trabalhar juntos. No final da minha última época no Sporting, o Ricardo ligou-me a perguntar se queria ir trabalhar com ele como adjunto, como braço direito dele. Não recusei, tinha uma grande admiração por ele.

Hesitou em ir para a Arábia Saudita?
Não. Nunca me fez confusão os países para onde vou, sinceramente. Não é algo que me assuste. Tiro informações, pesquiso, mas a parte profissional e o clube em si pesam mais do que outras coisas. Ele convidou-me para ser adjunto, era algo que eu já procurava porque achava que o meu espaço na observação e análise tinha chegado ao ponto máximo. Queria passar ao próximo, que era ser treinador-adjunto de um clube profissional e o Ricardo deu-me a mão.

Como foi a reação em casa?
Foi muito boa. A minha mulher sempre soube o que eu queria ser e onde queria chegar. Ela foi sempre o meu pilar, o meu apoio, além dos meus pais, sempre acreditaram em mim. Sempre deu tudo aquilo que é o suporte, muito importante para estarmos onde estamos, de ter alguém que cuida da casa e quando digo cuida da casa, é ser mãe, é ser pai, é ser dona de casa, é trabalhar, é ter a preocupação no dia a dia. Não é fácil, mas a verdade é que a minha mulher sempre esteve do meu lado. Não houve um dia que ela se queixasse e pusesse em causa o nosso projeto, o meu projeto profissional.

Em 2017, Rui acompanhou Sá Pinto no Atromitos da Grécia

Em 2017, Rui acompanhou Sá Pinto no Atromitos da Grécia

 

D.R.

Quando chegou, o Al-Fateh foi ao encontro das expectativas?
Foi um choque. É uma realidade completamente diferente. As questões culturais das mulheres andarem tapadas, os horários das rezas, as questões das necessidades básicas em termos de higiene… Eu que sou uma pessoa que já tinha uma bagagem muito grande, porque acompanhei muitas vezes a minha mãe quando era hospedeira, tinha mundo, fiquei um pouco chocado. Pela primeira vez encontrei um contexto em que tive de adaptar-me de forma diferente.

A que lhe custou mais adaptar?
Na primeira noite que cheguei à Arábia colocaram-nos num prédio, numas casas do clube, que estavam cheias de pó, não havia lençóis, não havia uma toalha de banho, não havia nada. O normal seria termos ido para um hotel, mas não. Um calor horrível. As questões de conforto no início não estavam... É cultural, estávamos numa zona da Arábia que nada tem a ver com Riade.

O que estranhou mais nos hábitos locais?
A questão do tratamento das mulheres. Embora já tivesse algum conhecimento, uma coisa é ouvirmos e lermos, outra, é estarmos lá no dia a dia. Fez-me alguma confusão só podermos falar com os homens. Com as mulheres era completamente proibido. Vimos de uma sociedade em que estamos habituados a estar com amigas e com amigos.

Último treino no Atromitos

Último treino no Atromitos

 

D.R.

Como eram as condições do clube?
Tínhamos uma academia onde tínhamos tudo, ginásio, piscina, campos de treino, tudo. Eles não tinham era o know how, a organização deles não tinha nada a ver com o futebol europeu. Uma das primeiras coisas que fizemos foi exatamente isso, organizar tudo dentro dos espaços à disposição. Por exemplo, não tinham uma sala de reunião, porque não era normal. Os relvados não tinham o tratamento que deviam ter. Houve um conjunto de coisas em termos de organização que foi necessário trabalhar para que elas melhorassem, mas, do ponto de vista de infraestruturas, o clube estava bem apetrechado.

E os jogadores? Melhor ou pior do que esperavam, seja a nível físico, técnico ou tático?
Não tinha qualquer conhecimento do futebol árabe. A partir do momento em que o Ricardo me disse que íamos trabalhar para lá, vimos vários jogos deles. Eles tinham dificuldades táticas, tecnicamente até eram jogadores que tinham alguma qualidade; do ponto de vista físico, muito débeis e com muita falta de profissionalismo naquilo que é o dia a dia. Agora certamente estará diferente, mas, na altura, o jogador árabe rico já era, portanto o futebol era mais um estatuto. Só que era um estatuto que não era condizente com o dia a dia deles, porque deitam-se tarde, têm hábitos alimentares completamente diferentes do que deve ter um jogador profissional. No início houve algum choque porque também era tudo novo para eles. Mas do ponto de vista humano, tivemos a sorte de estar numa equipa em que a relação com os jogadores foi muito fácil. Estivemos três semanas na Holanda, em estágio e criámos um ambiente muito forte, até porque o Ricardo tem aquela forma apaixonante de cativar as pessoas e de meter o grupo unido.

Saíram porquê e ao fim de quanto tempo?
Saímos passado cinco meses, se não estou em erro. Teve a ver com divergências e políticas desportivas diferentes. O Ricardo achou, e com alguma razão, que o nosso nível de exigência profissional não se adequava ao contexto onde estávamos e quando é assim, mais vale cada um seguir o seu caminho. Foi isso que aconteceu.

 Com a mulher e os dois filhos Tiago (à esquerda) e Gonçalo (à direita)

Com a mulher e os dois filhos Tiago (à esquerda) e Gonçalo (à direita)

 

D.R.

Deve ter histórias engraçadas para contar da Arábia, até porque tinham o Ukra no plantel. Recorda-se de alguma?
O Ukra é um boneco, como costumamos dizer, uma personalidade espetacular e fazia muitas brincadeiras. Lá o espaço balneário é um bocadinho estranho, porque eles trocam de roupa de forma separada, cada um tem o seu cubículo. Independentemente de dizermos para chegarem mais cedo para se prepararem melhor para o treino, para terem uma convivência, aquilo acaba por ser muito individualizado e sem dúvida que o Ukra foi uma peça muito importante para tornar o grupo ainda mais forte, devido às brincadeiras. Desde aparecer com roupas menos discretas, vamos assim dizer. Houve uma altura em que já abria os calções deles e despejava gelo lá para dentro.

Eles não ficavam chateados com ele?
Não, adoravam-no. Porque o Ukra é uma pessoa que respeita. Ele não chegou lá no primeiro dia e começou a fazer as brincadeiras. Ele chegou, percebeu o contexto, começou a perceber o grupo, a criar a sua afinidade, o seu elo de ligação com eles e depois as brincadeiras foram crescendo. E não fazia nada que soubesse que iria ofender alguém. É uma pessoa bastante sensível e percebia até onde podia ir. Lembrei-me agora de uma história da Arábia, mas não tem a ver com o Ukra.

Conte.
No 1.º jogo para o campeonato íamos jogar contra o Al-Nassr, em Riade, e tínhamos de fazer uma viagem de quatro horas no autocarro do clube. A dado momento o autocarro começou a engasgar e parou. Ficámos expectantes. Quando nos demos conta, o motorista não tinha atestado o depósito e o autocarro ficou sem gasolina. Estavam uns 40 graus, o ar condicionado deixou de funcionar e às tantas já ninguém conseguia estar dentro do autocarro. Estivemos todos no meio do deserto, à espera que se arranjasse combustível, na véspera de um jogo. Ao início não achámos graça nenhuma, mas depois começámos todos a tirar fotografias e a ridicularizar a situação.

Quando vieram embora já tinham o interesse de outros clubes?
Não. Só passado uns tempos é que tivemos a situação do Atromitos, na Grécia. Uma cidade fantástica, com uma energia muito própria, com uma gente muito voltada para o culto do corpo. Um balneário com várias nacionalidades. Lembro-me que, no início, o principal problema tinha a ver com a intensidade dos treinos. Éramos uma equipa técnica que colocava muita intensidade no treino e, sobretudo para os gregos, não era fácil, ainda por cima eles estavam numa fase difícil, estavam para descer. Felizmente também resolvemos essa situação rapidamente em termos de resultados, conseguimos colocar o clube no meio da tabela. Tínhamos renovado, inclusive estava tudo preparado para a época seguinte, tinha já ido ver o local de estágio, a pré-época estava toda montada, jogadores referenciados, fomos de férias e surgiu a situação do Standard Liège.

Tanto na Arábia como na Grécia esteve sozinho ou a família esteve a viver consigo?
Sempre sozinho.

Em 2017/18 Rui Mota foi adjunto de Sá Pinto no Standard Liège

Em 2017/18 Rui Mota foi adjunto de Sá Pinto no Standard Liège 

D.R.

No Standard Liège a época foi conturbada. O Sá Pinto desentendeu-se com árbitros…
Vamos lá a ver, o Ricardo é uma pessoa muito apaixonada por aquilo que faz, tem uma personalidade forte e naturalmente durante as emoções acabamos por ter alguns atos menos refletidos, mas posso dizer que há muito por trás desses episódios. E há um homem fantástico, com princípios que muito poucos têm, e é uma pessoa a quem estou grato para o resto da minha vida, é como se fosse meu irmão. É pena que as pessoas só valorizam isso, em contextos muitas vezes provocatórios. Quando somos líderes às vezes temos algumas reações, é verdade que devemos conter-nos e não estou a dizer que esses episódios são positivos, mas às vezes valoriza-se mais isso do que muitas outras coisas. As pessoas esquecem-se da época fantástica que fizemos na Bélgica. Não fazem a mínima ideia o que foi, porque chegámos a um balneário completamente destroçado, onde ninguém se falava, era um ambiente horrível e acabámos como uma verdadeira família. Ganhámos a Taça da Bélgica, quase fomos campeões e o ambiente no balneário era tão bom que os jogadores quiseram inclusive gravar um disco.

Gravaram um disco com o quê?
Através da música começaram a criar laços afetuosos muito grandes. Sempre que ganhávamos havia cantoria no balneário, mas não era com a coluna de som, eram os próprios jogadores e o staff que participavam a cantar e a tocar. Havia uns jogadores do Congo que faziam os batuques para dar ritmo à música e no final do ano eles próprios gravaram um disco com duas músicas que normalmente eram tocadas após as vitórias. Por isso, há muito por trás que as pessoas não têm ideia e às vezes certos e determinados atos irrefletidos levam a esquecerem-se de tudo o resto. E tudo o resto é muito maior do que esses percalços.

O Ricardo Sá Pinto sentiu dificuldades em lidar com os belgas também devido à barreira da língua?
A barreira da língua é mais para aquelas pessoas que querem fazer da língua algo que mede a cultura das pessoas, como se as pessoas fossem mais ou menos cultas por falarem melhor a língua. Na verdade, no dia a dia, o Ricardo nunca sentiu essa dificuldade, assim como eu também não, e também dava as minhas calinadas. Do ponto de vista de comunicação, do entendimento com várias línguas, nunca houve qualquer tipo de problema nesse aspeto. A equipa entendia bem, com um verbo mais bem ou mal colocado. Foi uma época de muito trabalho. O Standard vinha de muitas épocas em que não chegava aos play-offs, a equipa não tinha nenhuma identidade e não foi fácil. Depois, colocaram-se ali algumas questões que não foram nada positivas, como a contratação do Michel Preud'Homme ainda estávamos a meia da época, por não acreditarem no nosso projeto, porque não estavam a dar tempo. Mas o tempo veio a confirmar tudo aquilo de bom que a equipa fez, a qualificação para o play-off; pela primeira vez, fez a maior pontuação do play-off de sempre. Em 100 anos da I liga belga, nunca tinham estado todas as equipas principais, ou seja, Standard Liège, o Anderlecht, o Brugge, o Gent, o Genk e o Charleroi, no play-off, portanto, estamos a falar de um nível competitivo muito grande. O acesso à Liga dos Campeões, a venda de jogadores, rentabilizámos ativos, foi a melhor época do Standard a esse nível nos últimos 15 anos. Acabou por ser uma época muito positiva.

Rui com a Taça da Bélgica, conquistada ao serviço do Standard Liège

Rui com a Taça da Bélgica, conquistada ao serviço do Standard Liège

 

D.R.

Voltando ainda aos atos irrefletidos do Sá Pinto. Ele cai nele a seguir?
Claro que sim. O Ricardo é uma pessoa muito inteligente. Ele às vezes tem a dificuldade de conter-se em determinados contextos, mas também faz um grande esforço para não reagir. Nunca se procurou muito saber a outra parte da história e eu acho que fazia uma grande falta para ele. Houve uma grande perseguição nesse aspeto. Somos humanos e todos temos os nossos handicap e o Ricardo tem essa impulsividade, vamos assim dizer, se calhar há outras pessoas que também tiveram e que a história é completamente diferente, há outro approach perante essas pessoas e podia enumerar aqui vários. Sabemos como as coisas funcionam no meio do futebol e da comunicação social. Tendo privado por dentro e sabendo como as coisas se passaram, como foram feitas e passaram cá para fora, também tenho de dizer isto, às vezes a verdade não veio ao de cima.

Há alguma dessas verdades que possa divulgar aqui?
Não me leva a mal, mas não o vou fazer porque não devo ser eu a fazê-lo, nem quero entrar em meios que não me dizem diretamente respeito e, por uma questão de respeito, não o vou fazer.

Só tinham assinado uma época pelo Standard Liège?
Não, tínhamos automaticamente mais uma época se garantíssemos o play-off e esse foi o grande problema do presidente. O presidente, descrente daquilo que poderíamos fazer, e também por impulsividade, porque o Preud'Homme era claramente uma figura grande no futebol belga, acaba por fazer um contrato com ele. Imagine o que deve ter sido para ele quando nós garantimos o play-off, sabendo ele que tínhamos mais um ano de contrato automaticamente renovado, a equipa técnica toda. Foi um momento hilariante, porque já sabíamos das coisas. Ele achava que não sabíamos. No final da época, no último jogo, fomos despedidos e fomos à nossa vida e veio o Preud'Homme.

Quando vieram embora já tinham propostas?
Tínhamos algumas expectativas, estávamos muito próximos de ir para o Nantes e tínhamos também a primeira abordagem do Maccabi Tel Aviv. Só que o Maccabi queria que assinássemos antes do final da época, o Ricardo, por ser uma pessoa como deve ser, disse que só quando acabasse o contrato é que negociava com o clube, mas o presidente não quis esperar.

Em 2018/19, Rui Mota esteve como adjunto de Sá Pinto no Legia de Varsóvia na Polónia

Em 2018/19, Rui Mota esteve como adjunto de Sá Pinto no Legia de Varsóvia na Polónia

 

D.R.

Acabam por ir para o Legia de Varsóvia. Continuava confortável no papel que desempenhava, ou já lhe passava pela cabeça deixar o Sá Pinto?
No primeiro dia que fui trabalhar com o Ricardo como adjunto, disse-lhe duas coisas: que não era um yes man, tudo o que tivesse de confrontar e falar, ia fazer dentro do respeito pelo líder da equipa, e isso era inegociável; e que tinha a ambição de um dia mais tarde ser treinador principal, mas que era algo que não tinha timing. Podia levar, dois, três, dez ou mais anos. Até porque tinha noção que tinha de amadurecer e que os contextos em que estávamos eram de altíssimo nível e isso ia dar-me ferramentas para um dia mais tarde poder estar mais bem apetrechado. Na altura, não estava nem de perto, nem de longe com essa ideia de deixar a equipa técnica para ser treinador principal.

O que foi mais marcante na época com o Legia, na Polónia?
Do ponto de vista profissional foi o trabalhar num clube com uma grandeza enorme, uma massa adepta completamente louca, no bom e no mau sentido. Um clube que tinha um plantel desequilibrado, com falta de qualidade de jogadores. Que tinha sido afastado das competências europeias, que tinha necessidade de recuperar a sua imagem, voltar a crescer e ambicionar o título. Tínhamos três anos de contrato, se não estou em erro e o objetivo passava exatamente por isso, por reconstruir toda a grandeza do clube e construir um plantel mais competitivo. Nesse ano não era fácil pela qualidade dos jogadores. Mesmo assim recuperámos bem, quando deixámos o clube estávamos em 2.º lugar, a cinco pontos do 1.º. Do ponto de vista pessoal, uma agradável surpresa. Não conhecia Varsóvia, achava até que era uma cidade mais fria, por tudo aquilo que tem a ver com a sua história e adorei. Era uma cidade que pessoalmente me dava uma energia muito grande.

Há um pouco a ideia de que os polacos são xenófobos. Constatou isso?
Não senti. O nosso balneário também tinha muitas nacionalidades, até se calhar mais outras nacionalidades do que polacos. Das pessoas com quem trabalhávamos no dia a dia nunca senti isso. Dos adversários, algumas coisas, mas acho que também tem a ver com o cariz competitivo, às vezes mistura-se um bocadinho aquilo que é o cariz competitivo com a xenofobia. O povo em si, as pessoas com quem eu lidava no dia a dia, muito pelo contrário, encontrei sempre pessoas muito cultas, disponíveis para ajudar e amáveis.

Rui Mota seguiu com Sá Pinto para o SC Braga em 2019/20

Rui Mota seguiu com Sá Pinto para o SC Braga em 2019/20 

D.R.

Saíram do Legia porquê?
Acho que teve a ver com um bocado com o desgaste entre equipa técnica e a direção.

Esse desgaste tinha a ver com o quê?
Apetrechar a equipa com outras competências, com outros jogadores, com outra organização. Acho que isso acabou por desgastar um bocadinho a relação, acabámos por sair um pouco por isso. Estávamos um bocadinho díspares daquilo que era o projeto que nos tinham apresentado inicialmente e o que iria ser no ano seguinte.

Segue-se o SC Braga, em que acabam por ser despedidos após uma vitória por 4-1 imposta ao Paços de Ferreira, e que valeu o apuramento para a final four da Taça da Liga. O que aconteceu?
Isso foi algo muito marcante. Até hoje foi se calhar dos despedimentos que me custaram mais, pela injustiça. Estávamos a fazer um trabalho muito bom. Estivemos para ir para o PAOK, da Grécia, quando surgiu essa situação de voltarmos a Portugal para um clube que não era um grande, mas tinha objetivos de grande, de competições europeias, de um futebol positivo, dominador, com bons jogadores, com uma boa infraestrutura. E voltar a Portugal era algo que também ansiávamos. Foi o primeiro projeto em que consegui ter a família comigo. Na conversa com o Ricardo, uma das coisas que falámos foi que era fundamental delinear objetivos com aquele presidente, porque em épocas anteriores ouvíamos que o SC Braga tinha que ser campeão, o SC Braga isto e aquilo, quando sabemos que a diferença, por muito que o SC Braga tenha crescido, para um Sporting, um Benfica e um FC Porto, é grande. E do ambicionar ao exigir há um caminho diferente. O Ricardo e o presidente definiram os objetivos. Eram ficar entre os quatro primeiros, qualificar a equipa para a Liga Europa, e repito, qualificar a equipa para a Liga Europa; na Taça de Portugal ir o mais longe possível e apurarmos a equipa para a final four da Taça da Liga.

No campeonato as coisas correram pior. Porquê?
Tivemos um início de época completamente surreal em termos de carga de jogos. Basicamente, desde que entrámos até saímos, tivemos uma semana limpa, que representa só um jogo na semana, de resto, foi sempre a jogar de três em três ou de quatro em quatro dias, o que obviamente faz com que num ou noutro momento tenha de haver alguma rotatividade, que nos levaria a perder alguma qualidade em termos de jogo. Mas a verdade é que sabíamos que a partir de janeiro íamos ter essa margem. Assim como o Ruben depois acabou por apanhar a equipa exatamente nessa fase. Na Taça da Liga tínhamos apurado o SC Braga para a final four com a melhor pontuação e melhor golo average até então. Mesmo os indícios que tínhamos da liga, em termos estatísticos, éramos uma equipa que estava dentro dos três primeiros. Estou a falar em estatísticas que comprovam realmente a força e o poder daquilo que era o nosso jogo, ao contrário de muita coisa que foi para aí dita, que não correspondia à verdade; os dados estão cá para se for alguma vez preciso comprovar isso. Independentemente disso, as coisas estavam a correr muitíssimo bem.

Equipa do SC Braga a festejar a eliminação do Lokomotiv Moscovo para a Liga Europa

Equipa do SC Braga a festejar a eliminação do Lokomotiv Moscovo para a Liga Europa

 

D.R.

Tem noção porque foram despedidos?
Já agora, deixe-me recordar. Na Liga Europa eliminámos o Spartak de Moscovo, que tinha um orçamento muito superior ao SC Braga e depois, num grupo com Wolverhampton, Besiktas e Slavia de Bratislava, ganhámos o grupo com melhor ataque, com o máximo de pontos e de jogos ganhos nas competências europeias. Estávamos a fazer um trajeto muito bom e, vai-se lá saber porquê, acho que só mesmo o presidente é que pode responder a isso, fomos despedidos. Fomos despedidos dia 24 de dezembro, sem que houvesse qualquer tipo de sinal. No futebol há momentos em que sabemos que estamos mais a jeito, porque já sabemos que o treinador é sempre aquele que paga, mas, neste caso, não havia nada que nos fizesse pensar que aquilo podia acontecer.

Nunca houve nenhuma discussão mais acesa entre o Ricardo Sá Pinto e o presidente António Salvador?
O presidente e o Ricardo têm ambos personalidades muito fortes e desde início perceberam-se e quando às vezes as coisas não corriam bem, eles tinham combinado estratégias para que não houvesse qualquer tipo de situação que pudesse levar a algum conflito. Acabavam por deixar arrefecer e depois é que falavam. Até hoje tenho algumas desconfianças do que se passou, mas, sinceramente, não teve a ver com a ligação diretamente connosco, mas com jogos de bastidores, mas não quero entrar por meios que... Digamos que teve a ver com outras situações que não a parte desportiva, nem a relação. Muita gente diz que foi a relação do Ricardo com o presidente e não teve nada a ver com isso. O ambiente era muito bom, um balneário muito alegre, com uma relação entre jogadores, treinadores e staff, brutal.

Então foi toda a gente apanhada de surpresa?
Foi. Quando o Ricardo me disse que íamos ter uma reunião com o presidente, disse-lhe: “Ele vai vender algum dos jogadores.” Porque o Paulinho estava a fazer uma das melhores épocas dele, tínhamos lançado o Trincão, que estava a crescer, o Ricardo Horta estava a fazer uma época fantástica, até o próprio Wilson [Eduardo] em termos de golos estava no seu melhor arranque de época, o Fransérgio estava muito bem, o Palhinha estava a jogar que era uma coisa brutal, o [Ricardo] Esgaio estava num plano também muito bom, por isso, pensei que ele ia preparar-nos para vender alguém.

Com a mulher e os dois fihos

Com a mulher e os dois fihos

 

D.R.

Quando chegaram à reunião, o que António Salvador vos disse?
Disse que íamos deixar de ser a equipa técnica. O Ricardo perguntou porquê e ele respondeu: “Ó Ricardo, é uma decisão minha, nem é do board. É minha”; “Mas nós estávamos dentro dos objetivos. Porquê?”; “É verdade, vocês estavam a fazer um bom trabalho, mas a decisão é minha.” Foi assim.

Entretanto, surgiu a pandemia, estavam sem nada. O que fez?
Fiquei em Braga. Uma das decisões com a minha mulher era que, independentemente daquilo que pudesse acontecer, os miúdos iam acabar o ano letivo em Braga. Acabámos por ficar em Braga até ao final do ano letivo.

Mas ainda vão para o Vasco da Gama, do Brasil, em 2020, certo?
Sim. Uma história também muito engraçada, tínhamos tudo acordado com o Rio Ave e, de um momento para o outro, soubemos pela comunicação social que já não íamos [risos]. Faz parte. É mais um episódio. Estávamos com tudo negociado e fechado e, de repente, houve ali um volte face e acabou por ir o Mário Silva para o Rio Ave. Pouco tempo depois estávamos para ir para o Panathinaikos, o Ricardo esteve lá, estava tudo fechado, só que toda a gente se esqueceu de uma situação.

Que situação?
Na primeira passagem do Ricardo pelo Atromitos, basicamente o Panathinaikos acusou-o de, no jogo contra o Olympiacos, ter posto jogadores menos bons para ajudar o Olympiacos. Era tudo completamente infundado, foi somente para atingir o Olympiacos, mas o nome do Ricardo estava metido e como tinha sido o Panathinaikos a levantar esse caso, ele não podia ir para lá. Uma semana depois estávamos no Vasco da Gama.

 

Spoiler

“No Vasco da Gama, estava a montar o treino e vejo 20 indivíduos a saltar os muros para pedir satisfações. O Sá Pinto foi na direção deles”

Rui Mota abraçou este ano o primeiro projeto como treinador principal de futebol profissional e já vai no segundo clube, por opção própria, em busca de conquistar um título no final da presente época. Ambicioso, confessa que um dia gostava de treinar na Premier League e na I Liga portuguesa. Nesta parte II do ‘Casa às Costas’, conta como foram os últimos anos como adjunto de Sá Pinto, revelando mais alguns pormenores e histórias. E conta como é difícil conseguir chegar a treinador principal sem ter sido jogador profissional

Foi como adjunto de Ricardo Sá Pinto para o Vasco da Gama, do Brasil. Como foi o primeiro impacto quando chegou ao Rio de Janeiro?
Brutal, porque o Vasco é um clube imenso, com uma massa adepta fantástica. Estava numa situação muito delicada do ponto de vista financeiro, uma equipa com muitas dificuldades de recursos de jogadores, era fraca, mas as coisas correram bem, estávamos dentro daquilo que eram as nossas expectativas. E fomos despedidos.

Acabam por ser despedidos porquê?
Porque é o futebol brasileiro [risos]. Achavam que alguém faria melhor. Depois de sairmos a equipa teve um retrocesso. Quando saímos a equipa estava acima da linha de água e acabaram por descer. O presidente achava que com outro treinador conseguiria melhor.

Adaptaram-se bem ao futebol brasileiro?
Sim. Era um futebol com menos intensidade e menos qualidade tática, mas, do ponto de vista técnico, um jogo bastante evoluído. Tínhamos obviamente a nossa identidade e forma de jogar, mas também nos adaptámos sempre muito àquilo que eram os recursos que tínhamos. Tentámos melhorar, sobretudo naquilo que eram as questões táticas e de intensidade. Ainda conseguimos passar uma eliminatória da sul-americana, com o Caracas da Venezuela. Depois perdemos em casa por 1-0, era [Hernán] Crespo o treinador, e foram eles a ganhar a Taça Sul-Americana naquele ano. No campeonato estávamos com dificuldades, mas acima da linha de água.

Que tal os adeptos brasileiros?
Fantásticos. É pena estarmos na pandemia, ressentimo-nos muito de não ter o estádio com o nosso público, porque é muito difícil jogar sem a nossa massa adepta que é muito quente. Isso desfalcou-nos. Os adeptos no dia a dia são de um respeito, uma consideração muito grande. Após sermos despedidos, ainda tivemos algum tempo no Rio de Janeiro e a maneira como as pessoas tratavam o Ricardo, o carinho que mostravam por ele, era fantástico.

Igor Dias (analista), Miguel Moreira (preparador físico), Bruno Carvalho (empresário), Luís (diretor do Vasco da Gama), Sa Pinto, Hugo Cajuda (empresário) e Rui Mota, no Vasco da Gama em 2020

Igor Dias (analista), Miguel Moreira (preparador físico), Bruno Carvalho (empresário), Luís (diretor do Vasco da Gama), Sa Pinto, Hugo Cajuda (empresário) e Rui Mota, no Vasco da Gama em 2020

 

D.R.

Tem histórias para contar do Brasil?
Quando chegamos eles inauguraram o Centro de Treinos (CT) deles. Mas o CT ficava junto à favela Cidade de Deus, uma das maiores do Rio. Por vezes ouviam-se tiros. Um dia, estamos a treinar, começamos a ouvir um tiroteio e às tantas vemos o nosso segurança a chegar-se junto do treino, coisa que não era normal. Ele chegou junto de nós, virou-se para o Ricardo e diz: “Professor, peço desculpa, mas vamos ter de sair daqui e ir para o outro lado do CT, porque pode haver balas perdidas.” Ficámos a olhar uns para os outros sem saber muito bem o que havíamos de fazer, mas lá fomos. Tivemos também outra situação insólita, uma invasão no CT.

Conte.
Após uma derrota, eu estava a montar o campo para treinarmos quando vejo uns 20 indivíduos a saltar os muros do CT para virem pedir satisfações ao grupo. Fiquei um pouco paralisado inicialmente, mas o Ricardo apareceu e foi na direção deles, fui logo com ele e a situação acabou por ser resolvida porque estivemos a falar com eles, a explicar-lhes certas coisas que eles não tinham conhecimento. Queriam manifestar a sua insatisfação, mas felizmente ficou tudo pacífico.

Quando surgiu o Gazisehir Gaziantep, da Turquia?
Ainda estivemos algum tempo no Rio sem poder ir para Portugal devido a questões burocratas porque o clube passava por dificuldades financeiras. Ainda no Brasil tivemos o contacto do Goztepe, que queria contar com o Ricardo como treinador. Entretanto, entrou o Gaziantep na mesma altura e achámos ser melhor clube para nós. Chegámos a Portugal e passado três ou quatro dias já estávamos a caminho da Turquia.

Porque consideravam ser melhor clube?
Sobretudo pela avaliação que fizemos da equipa, do ponto de vista da qualidade, das condições de trabalho e também pelo feeling do Ricardo, que sentiu ser melhor projeto para a carreira dele e para a nossa.

Em 2020/21Rui mota foi adjunto de Sá Pinto no Gazisehir Gaziantep, da Turquia

Em 2020/21Rui mota foi adjunto de Sá Pinto no Gazisehir Gaziantep, da Turquia

 

D.R.

Como correu na Turquia?
Do ponto de vista desportivo muito bem. Safámos a equipa, que não estava muito bem. Do ponto de vista cultural e pessoal, foi diferente. A Turquia tem uma cultura um bocadinho sui generis, estávamos numa cidade pequena, que tinha boas condições, sobretudo do ponto de vista gastronómico.

Houve problemas com jogadores, que foram acusados de apostas ilegais.
Houve sim. É daquelas coisas que o treinador não controla. Houve essa acusação, não se refletiu em nada. Por uma questão de prudência, quando isso aconteceu achámos que não íamos a pôr a jogar um jogador que era acusado de uma situação tão grave. Falámos com o grupo e achámos que o melhor era protegê-los. Foi só um jogo, depois voltaram a jogar.

Com que opinião ficou do futebol turco?
Não gostei nada do balneário, foi o primeiro balneário onde não consegui criar empatia. Não com todos, porque tínhamos alguns jogadores portugueses, mas não era um balneário saudável e por trás tinha uma estrutura muito permissiva para com comportamentos menos corretos de profissionais de futebol.

Refere-se a que tipo de comportamentos?
Por exemplo, noitadas. Falta de implementação de regras. Basicamente isto. Havia muita disparidade, muita preocupação individual, até pela questão financeira dos prémios, não era um ambiente saudável, não foi um grupo que quisesse trabalhar muito. E tinha a conivência de quem estava por trás, porque as pessoas da direção gostavam muito de ir tomar café, tirar fotografias e ir a eventos sociais, com os jogadores. Era um bocadinho a montra, e depois davam cobertura a comportamentos que não podem ser permitidos no meio profissional. Um profissional de futebol tem de perceber e saber que é uma pessoa diferente, que tem de adequar os seus hábitos diários à sua vida profissional porque, caso contrário, põe em risco o seu empenho a 100% na sua profissão.

Vieram embora porque mudou a direção?
Sim. O Ricardo solidarizou-se com o presidente e saímos.

A equipa técnica do Gaziantep: Sotiris (preparador físico), Igor Dias (analista), Rui, Sá Pinto, Bruno Freitas (treinador de guarda-redes) e José Dominguez (treinador-adjunto)

A equipa técnica do Gaziantep: Sotiris (preparador físico), Igor Dias (analista), Rui, Sá Pinto, Bruno Freitas (treinador de guarda-redes) e José Dominguez (treinador-adjunto)

 

D.R.

Ficam sem clube até janeiro, altura em que vão para o Moreirense. Quando entraram no clube o que encontraram?
Um clube pequeno, mas organizado, com boas condições de trabalho. Acreditámos que com os reforços que podiam eventualmente vir em janeiro, a equipa iria melhorar e íamos safar da descida. Se calhar pagámos pela forma como entrámos. Apanhámos logo o dérbi com o Vizela, o qual é bastante competitivo e ganhámos; depois empatámos na Luz. De repente ganhámos quatro pontos e se calhar houve algum deslumbre, achando que o que tínhamos era suficiente, que não era preciso reforçar a equipa e, além disso, acabámos por perder dois jogadores que eram fundamentais na equipa, vendidos nesse mercado e não conseguimos contratar ninguém.

Refere-se a quem quando fala em deslumbramento?
Da direção, porque vendeu dois jogadores que eram fundamentais na equipa. Um era o médio, o Filipe Soares e o outro era o Abdu Conté, um lateral como havia poucos na altura, em Portugal. Obviamente que a equipa também tinha outras carências. Ainda fomos ao play-off, mas não conseguimos evitar a descida. Esprememos ao máximo e os próprios jogadores tinham consciência disso. Fomos infelizes no play-off, na forma como sofremos o primeiro golo, um livre a 40 metros da baliza, o que não é muito normal. Depois a maneira como em casa, com várias oportunidades de golo, acabámos por não conseguir fazer golo… O Moreirense é um clube que merece estar na I Liga. Também serviu de alerta para a direção, percebendo que as coisas têm que ser um bocadinho mais bem planeadas e programadas.

Quanto tempo estiveram parados até irem para o Irão?
Fomos logo.

A festa após uma vitoria no balneário do Gaziantep, na Turquia

A festa após uma vitoria no balneário do Gaziantep, na Turquia

 

D.R.

Foi fácil tomar a decisão de ir para o Irão?
O Ricardo ligou-me a dizer que tínhamos a proposta para um clube grande. Tínhamos outras propostas, mas achámos que depois daquela descida de divisão tínhamos que agarrar um projeto que nos garantisse grande probabilidade de vencermos. Queríamos limpar a imagem daquela situação. Entretanto, o Ricardo ligou e disse que tinha uma oferta para irmos para o Esteghlal, do Irão. Não fazia a mínima ideia que existia. Quando me falou do Irão, acho que foi o primeiro sítio que me fez refletir um pouco mais, porque nos passa pela cabeça a guerra e todas aquelas coisas que a comunicação social passa cá para fora. O contexto do ponto de vista futebolístico era muito apetecível, com um campeonato muito competitivo, íamos para uma equipa que tinha condições para lutar pelo título. Mas havia aquela imagem criada do país e, quando chegámos, encontrei uma realidade completamente diferente.

Diferente como?
As pessoas não têm noção do que é o Irão, só vivendo lá. Adorei estar no Irão, adorei o povo, adorei Teerão. Foi uma passagem muito boa, num clube onde também tivemos muitas dificuldades internas.

Que tipo de dificuldades?
Dificuldades financeiras para começar. Despediram-nos o presidente para tentar denegrir o clube e tornar-nos mais fracos.

Quem despediu o presidente?
O governo. O Persepolis FC e o Esteghlal são os dois maiores clubes do Irão e são do Estado, vamos assim dizer, embora cada um deles tenha um presidente. Funcionam de certa maneira de forma autónoma, mas, do ponto de vista financeiro e decisivo, a nomeação para presidente é o governo que o faz. O Persepolis é como se fosse a equipa do povo, um bocadinho o Benfica em Portugal, enquanto o Esteghlal está mais ligado às artes, tem um nível social intelectual de pessoas com outra capacidade financeira e outra formação, é um clube um bocadinho mais elitista; comparando como às vezes se faz, embora eu não goste deste tipo de comparações, é o Sporting de lá. Entretanto, dá-se o acontecimento da rapariga [Mahsa Amini], que foi morta devido ao hijab e que levou a uma revolução interna.

Com o filho mais velho, Gonçalo

Com o filho mais velho, Gonçalo

 

D.R.

Isso teve alguma influência no clube e/ou no futebol?
Muitas das pessoas ligadas ao clube manifestaram-se nas redes sociais e foram às manifestações na rua. O clube e os nossos jogadores expuseram-se a favor dessas manifestações, como um grito de revolta. Como é óbvio, num Estado como aquele, ditador, passámos a ser o alvo a abater. O Esteghlal move muita gente, era o clube em termos asiáticos com maior número de seguidores no Instagram, tinha uma força pública muito grande, por isso fomos o alvo a abater. Aliás, tivemos vários jogadores que foram interrogados, que a polícia chegou a ir buscar aos treinos. Inclusive quiseram afastar alguns jogadores da possibilidade de jogar.

Como a vossa equipa técnica lidou com toda a situação?
Tentámos proteger ao máximo os nossos jogadores, e estarmos juntos com o clube, mas como é óbvio não nos expondo muito na opinião pública, por respeito, porque não fazemos parte do país. Tínhamos as nossas convicções, estávamos solidários com as manifestações e contra a opressão da expressão e da liberdade individual, com algum cuidado porque não deixamos de ser estrangeiros num contexto muito específico e aí não haja dúvida nenhuma que aquilo é tudo controlado pelo governo e a Igreja, o Aiatola. O nosso objetivo era proteger o clube, a equipa, os jogadores.

Não vos passou pela cabeça vir embora?
Sinceramente, não. Apesar de ter assistido in loco, porque as manifestações ocorriam exatamente à porta do meu hotel, a coisas nada agradáveis.

Como, por exemplo?
Desde lançarem granadas para dispersar a multidão, tiroteios, polícia a espancar manifestantes, era o faroeste. Carros incendiados, etc., etc. Aquilo que se viu nas televisões um pouco por todo o lado. Houve aquele período de facto difícil, mas nunca me senti inseguro. Tínhamos sempre segurança connosco, eles sabiam das manifestações e avisavam-nos, mantinham-nos afastados. Do ponto de vista pessoal presenciar uma situação daquelas tem que se lhe diga, mas é uma experiência de vida que de certa forma fez-me crescer também.

Com o filho mais novo, Tiago

Com o filho mais novo, Tiago

 

D.R.

O jogador iraniano é muito diferente do saudita?
Ui, não tem nada a ver. O persa não tem nada a ver com o árabe. Para já, do ponto de vista físico e qualidade técnica, são muito mais fortes. Um futebol mais desenvolvido. A sua velocidade também é diferente do saudita, quando o conheci, atenção. Porque a realidade da Arábia Saudita presentemente não é o futebol saudita. Mais dia menos dia, quando deixar de haver investimento, voltamos a ver aquilo que presenciei quando lá estive da primeira vez. Hoje é um futebol europeu o que se está a ver na Arábia Saudita. Do ponto de vista profissional, daquilo que era o nosso contexto, os jogadores eram muito mais profissionais do que na Arábia Saudita, quando lá estive. Também houve um período de adaptação, de educação, porque o jogador persa gosta de deitar-se tarde, na alimentação também não eram muito cuidados, mas aos poucos conseguimos introduzir esses princípios, porque eles próprios estavam ávidos dessa profissionalização e perceberam que tinham ali uma oportunidade de crescer e desenvolverem-se, até porque tinham como ambição jogar fora do Irão.

Ganharam a Supertaça apenas, certo?
Ganhámos a Supertaça, perdemos a final da Taça com o Persepolis e ficámos em 3.º lugar. Mas foi um projeto muito gratificante. Não conseguimos ganhar o campeonato, é uma verdade, mas do ponto de vista de qualidade de futebol, éramos claramente a melhor equipa e isso deixou uma marca muito grande. As pessoas reconheciam isso.

Não continuaram porquê?
O primeiro presidente foi-se embora. Depois veio um presidente que tentou de tudo para denegrir a equipa em tudo aquilo que podia, desde falta de pagamento, desde acusarem os jogadores de falta de profissionalismo mesmo estando com seis meses de ordenados em atraso.

A equipa técnica também teve ordenados em atraso?
Tivemos. Só não tivemos tantos porque, podendo utilizar a FIFA, eles sabiam que tinham de pagar, senão metíamos os advogados a fazer as cartas e a pedir a rescisão por justa causa. Eles não queriam que fossemos embora e não pagavam na totalidade, mas pagavam o suficiente para que essa rescisão pudesse ser impossível. Enquanto o jogador persa já não tem essa capacidade. Tem a ver com as regras do país. Os estrangeiros, sim, e utilizavam-na, como é óbvio. Por isso eu estava a falar da questão da discrepância, daquilo que era o governo, porque o Persepolis tinha 95% dos seus ordenados pagos no final da época e nós tínhamos 20%. Não era por falta de dinheiro que não pagavam. Era uma situação estratégica. Mas, em conjunto com a equipa e a massa adepta, conseguimos pôr fora o segundo presidente, porque a pressão era tanta sobre o governo que eles não tiveram outra alternativa, mas o terceiro presidente também vinha com a intenção claramente de não deixar o clube ter o seu desenvolvimento normal e não estávamos para isso. Estar mais um ano assim era impensável.

Em 2021/22, Rui Mota esteve como adjunto no Moreirense

Em 2021/22, Rui Mota esteve como adjunto no Moreirense

 

D.R.

Depois não seguiu com o Sá Pinto para o Chipre, porquê?
Eu já tinha falado com o Ricardo na altura do Moreirense, que estava a pensar abraçar a minha carreira enquanto treinador principal ou que ia tentar fazê-lo.

Como ele reagiu?
Na altura do Moreirense, pediu-me e eu também fui sensível porque tínhamos vindo de uma época que acaba por deixar uma imagem negativa e não o queria deixar dessa forma. Queria deixá-lo numa situação em que as coisas tivessem corrido bem. Achei no Irão que era esse o momento. Eu sei que pelo Ricardo eu ia continuar com ele até ao fim da carreira dele. Ele próprio dizia-me: “Fica comigo, que vou reformar-me daqui a uns tempos e depois tu tomas o comando.” Mas conheço-o e sei que ele não consegue estar quieto, o futebol para ele é tudo e tão depressa não vai deixar de treinar. E pronto, achei que tendo em conta o meu plano de carreira, estava na altura de dar o passo em frente.

Antes de passarmos ao seu plano de carreira e porque foram muitos anos como adjunto do Ricardo Sá Pinto. Ele mostrou sempre abertura para discutir ideias consigo?
Sempre. Isso foi das coisas que também me fez estar tão apaixonado pelo meu trabalho. Foi essa partilha que o Ricardo teve pessoalmente comigo. Não era com toda a equipa técnica, eu era claramente o braço direito dele.

Alguma vez tiveram uma discussão mais quente?
Várias [risos].

Em algum desses momentos perderam a cabeça?
Chegámos quase a andar à pancada um com o outro. Não chegou a acontecer, mas teve perto, de tal forma estávamos os dois vivos. Mas não nunca passou disso. Nunca houve nenhum tipo de confronto físico. Verbal, sim, porque somos os dois homens e temos ambos personalidades fortes. As discussões eram sempre feitas internamente.

Essas discussões tinham mais a ver com comportamentos ou com questões técnicas?
De treino, de ideias, de estratégia, de jogadores.

Em 2022/23, Rui seguiu com Sá Pinto para o Esteghial Ahvaz

Em 2022/23, Rui seguiu com Sá Pinto para o Esteghial Ahvaz

 

D.R.

O que mais reteve do que aprendeu com o Ricardo Sá Pinto?
Primeiro, um método de trabalho construído em conjunto que continua a ser uma das minhas ferramentas de trabalho e, sobretudo, a maneira como lidar com os jogadores de uma forma transparente, honesta e respeitosa. O Ricardo tem princípios com os jogadores de frontalidade de tratamento, que vejo muito poucos a ter. Ele é altamente frontal, não mente aos jogadores, é incapaz de o fazer. E trata um jogador que joga 2000 minutos da mesma forma que um jogador que tem 0 minutos. Obviamente a abordagem é diferente para cada um deles, e tem que ser, porque enquanto seres humanos somos diferentes, mas a sua relação com os jogadores e a maneira como consegue cativá-los e fazê-los acreditar na mensagem, tem-me ajudado bastante nos meus primeiros passos como treinador.

Em termos de modelo de jogo houve uma evolução?
Sim. Lembro-me que o Ricardo no início tinha uma grande opção pela questão defensiva. Era um treinador que dava um input muito intenso naquilo que era a organização defensiva e às vezes acabava por limitar um bocadinho a equipa quando tinha bola. Ao longo destes anos, a transformação do jogo dele foi exatamente no sentido de um futebol cada vez mais ofensivo, uma capacidade de envolver vários jogadores no processo ofensivo. E mesmo do ponto de vista técnico-tático, posicionamentos e evolução muitíssimo grande. E depois tem outro fator, o Ricardo é uma pessoa muito pragmática naquilo que é o seu propósito para o treino. Ele tem uma sensibilidade muito grande para perceber, quando preparamos um exercício, a sua concretização no treino. Tem esse dom de perceber claramente se aquilo vai resultar, ou não, antes de ser posto em prática. O modelo de jogo foi crescendo, assim como o modelo de treino e atualmente é muito mais ofensivo e se calhar mais atrativo.

As suas referências também foram alterando ao longo dos anos?
Sim. As minhas grandes referências, atualmente, são o Klopp, que deixou de treinar, e o Guardiola.

A equipa no Esteghial: Pedro Queiroz (tradutor), João Abreu (analista), Sá Pinto, Rui Mota, e Paulo Santos (preparador físico)c

A equipa no Esteghial: Pedro Queiroz (tradutor), João Abreu (analista), Sá Pinto, Rui Mota, e Paulo Santos (preparador físico)c

 

D.R.

Tendo em conta os países por onde foram passando e o futebol que se pratica neles, a qual o vosso modelo de jogo e vocês próprios adaptaram-se melhor?
Ao Standard Liège, por ser um futebol europeu e com um jogo de grande intensidade.

Também percebeu com certeza que erros que não deveria cometer enquanto treinador. Qual o maior ensinamento que levou nesse sentido?
Se calhar do ponto de vista comportamental, por perceber claramente aquilo que pode afetar a nossa carreira e imagem.

Quando decidiu que ia tentar abraçar a carreira de treinador, já tinha empresário?
Não, não tinha. Tinha alguns contactos.

O que foi mais difícil nessa decisão?
Não é fácil tomar a decisão porque não posso dissociar aquilo que sou eu e a minha família, há a questão do ponto de vista financeiro, porque sabendo que vou dar esse passo, não sei quando começarei realmente. Sabemos perfeitamente o que acontece à volta do futebol, não é fácil alguém que nunca foi jogador de futebol, como eu, que foi adjunto de vários anos, conseguir entrar no futebol profissional como treinador principal. Mesmo tendo tido várias experiências como treinador principal noutros contextos e apesar de toda a experiência nos níveis onde andei, não é fácil. Antes de falar com qualquer empresário, falei com o Ricardo. Não foi uma conversa fácil, foram muitos anos juntos, estou-lhe muito grato por tudo aquilo que me proporcionou, tenho a certeza que sem esta passagem como treinador adjunto dele, não era o treinador que sou hoje, nem estava tão preparado para enfrentar os desafios que estão à minha frente. Além do ponto de vista pessoal, por todo o carinho que tenho por ele, sabendo que para ele ia ser também uma grande perda.

Como ele reagiu?
Foi uma conversa que correu muito bem. O Ricardo no início ficou chateado, é normal, eu também ficaria, mas depois acabámos por ter uma conversa de verdadeiros irmãos. Continuamos a ser ótimos amigos, eu a lutar por ele e ele a lutar por mim, pelas nossas conquistas, pelas nossas vitórias. Depois, sim, contactei vários empresários. Tentei também através de alguns ex-jogadores, perguntando-lhes se havia possibilidade de ter reuniões com os empresários, mas realmente é um mundo de entrar. Há muito receio, as pessoas não acreditam tanto em nós, como acreditam nos ex-jogadores, os próprios presidentes e os clubes também, estão muito agarrados a isso. Não foi fácil até que conheci o António Ribeiro, da empresa do Tiago Calisto. Desde o primeiro momento que acreditou em mim.

O ainda treinador-adjunto a orientar um treino no Irão

O ainda treinador-adjunto a orientar um treino no Irão

 

D.R.

Qual foi a primeira oportunidade que teve?
Foi na Geórgia, foi tudo muito rápido.

Antes disso não esteve na Croácia?
Estive, sim. A Croácia surgiu através de uma situação familiar. A minha irmã é advogada e tinha uma pessoa que trabalhava com ela que tinha ligação ao HNK Sibenik. Numa conversa entre eles, essa pessoa prontificou-se a ajudar, falou com o dono do cube, aquilo era uma empresa que tem vários clubes. E foi-me proposto ir para o Sibenik, que na altura estava na II Divisão da Croácia, organizar o clube do ponto de vista estrutural e assim que houvesse o despedimento do treinador principal, eu passaria a ser o treinador da equipa. Quando lá cheguei foi completamente diferente, não por eles terem faltado à questão do treinador, porque o treinador fez a época toda e eu vim embora antes, mas foi por tudo o resto. Foi uma mentira pegada e vim embora ao fim de quatro meses, porque estava sem receber. É nessa altura quando tenho a reunião com o António e passado dois dias tinha uma reunião por videochamada com os donos do FC Dila Gori. Passado um dia estava contratado.

Quando o empresário falou-lhe na Geórgia, o que lhe passou pela cabeça?
Do ponto de vista futebolístico não era muito conhecido. Mas o mercado é tão difícil de entrar que temos que entrar por algum lado. Isto não quer dizer que vale tudo, mas eu sabia que tinha começado por baixo, tinha que realmente demonstrar a minha qualidade enquanto treinador. A maioria das pessoas não conhece o contexto da Geórgia, eu também não conhecia muito bem, mas o projeto que me foi apresentado fazia-me sentido, primeiro pelas pessoas, os donos desde o primeiro momento demonstraram que acreditavam em mim. Depois, o objetivo era fazer uma equipa competitiva, desenvolver jogadores para venderem, que é o negócio deles, promover jogadores e vendê-los pronto. Dada a situação era um passo em frente naquilo na minha carreira e uma oportunidade para finalmente demonstrar o meu trabalho enquanto treinador profissional e em boa hora o fiz. Estou super satisfeito de ter tomado essa decisão.

Correu tudo bem logo de início?
Não foi fácil, porque cheguei à equipa e tínhamos nove jogadores contratados e houve um trabalho muito intenso de recrutamento de jogadores com muitas limitações orçamentais e com a dificuldade de levar jogadores para a Geórgia. Mas conseguimos construir uma equipa muito competitiva.

Sá Pinto e Rui Mota com a Supertaça conquistada no Irão

Sá Pinto e Rui Mota com a Supertaça conquistada no Irão

 

D.R.

Como recrutou a sua equipa técnica?
Foi fácil porque só podia levar uma pessoa comigo [risos]. O resto eram pessoas de lá. Tive vários currículos à mercê e acabei por levar o Emanuel pelo seu passado, a sua experiência e pela reunião que fiz com ele. Tinha o perfil que eu queria e embarcámos na aventura. Construímos uma equipa jovem, que era dada como uma equipa para descer de divisão, mas surpreendemos tudo e todos.

Esteve lá a época toda?
Não. Vim embora no intervalo do verão. O campeonato lá começa em fevereiro e termina em dezembro. As coisas corriam muito bem, estávamos à frente do campeonato com mais cinco pontos de avanço, tínhamos apenas uma derrota, o futebol era atrativo, tínhamos o estádio sempre cheio. Estávamos a ser valorizados.

O que o levou a deixar a Geórgia e ir para o FC Noah, da Arménia?
Eu estava completamente roto porque foi um início muito atribulado pela chegada tardia dos jogadores, a construção do plantel, foram muitas horas a ver e a selecionar jogadores; depois, o ritmo competitivo da Geórgia é muito intenso porque aquilo é a quatro voltas, basicamente jogamos de quatro em quatro dias, durante o tempo todo. Mais as viagens, porque há viagens muito chatas de cinco e seis horas, que não favorecem a recuperação. Portanto, eu venho para Portugal a chorar por férias, todo contente que ia de férias com a minha família, a única coisa inegociável em casa, porque tem de haver sempre férias em família. Nós íamos para Cuba de férias e, entretanto, liga-me ao António Ribeiro a dizer: “Mister, tenho aqui o presidente do Noah que tem estado atento ao seu trabalho e quer muito que reúna com ele.” Comecei por recusar, porque queria acabar a época no Dila. Mas ele insistiu para eu reunir, nem que fosse por uma questão de respeito e fui à reunião.

Em 2024, Rui Mota assumiu o papel de treinador principal no FC Dila, da Geórgia

Em 2024, Rui Mota assumiu o papel de treinador principal no FC Dila, da Geórgia

 

D.R.

Mas o que o convenceu a ir para a Arménia?
Apaixonei-me pelo projeto, porque percebi que vinha para um projeto que me ia dar garantias de poder disputar um título. Na Geórgia as coisas aconteciam por mérito do nosso trabalho e dos jogadores, mas não éramos uma equipa candidata ao título e o objetivo era vender jogadores. Quando está a iniciar a carreira, ter a possibilidade de ir para um projeto que lhe dá garantias de ganhar títulos, porque isso dá-nos força para o futuro, confesso que mexeu logo comigo. Ter a possibilidade, já no meu primeiro ano, de disputar competições europeias. Nem que fosse só as fases eliminatórias. E por fim, a visão do presidente, que tem substrato, já com peças do puzzle a andarem. Já estava em andamento a construção da Academia, havia condições do ponto de vista orçamental para criar uma equipa competitiva face aos objetivos.

E quais são os objetivos?
Qualificar para a Conference League e ganhar o campeonato internamente. Acreditei e pensei que se calhar é um passo que me vai permitir conquistar títulos e colocar-me num patamar mais acima do que estou neste momento.

É um projeto que tem vários portugueses também, certo?
Sim, mas nem foi tanto por aí que aceitei. Foi sobretudo a empatia que senti com o presidente desde logo.

Como foi a saída do FC Dila Gori, da Geórgia?
Não foi fácil porque sou uma pessoa de afeto e liguei-me muito às pessoas do clube e à própria equipa em si, aos meus jogadores. Mas achei que tinha de ser mais racional do que emotivo.

Rui Mota trocou o comando técnico do FC Dila pelo FC Noah, da Arménia, ainda em 2024

Rui Mota trocou o comando técnico do FC Dila pelo FC Noah, da Arménia, ainda em 2024

 

D.R.

Está a correr bem.
Superaram as expectativas, sinceramente. Na questão da liga, tinha maiores garantias do que na Conference League. E eu disse isso ao presidente. Disse que íamos lutar, mas que não era fácil qualificar uma equipa que nunca passou da primeira ronda de qualificação e o futebol arménio não tem histórico praticamente nenhum nas competências europeias. Estava longe de pensar que tínhamos a capacidade de o fazer, mas tinha essa ambição. E após o primeiro jogo fiquei com a convicção que íamos ser competitivos. Mas depois calha um AEK no caminho, e sabia que podia acontecer um ‘tubarão’ entrar-nos à nossa frente e que ia ser difícil. Mas é o futebol.

Quais são agora as suas expectativas?
Quando olhei para o calendário após a qualificação, claramente do ponto de vista do ranking, somos a equipa com menos ranking, o que nos coloca logo num patamar de underdogs, mas quando pomos na prática, após o primeiro jogo com os checos do Mladá Boleslav, senti que mesmo neste patamar, íamos ser competitivos. Reforcei essa sensação quando fomos jogar com o Rapid de Viena porque senti que com um pormenor ou outro podíamos ter tirado ali pelo menos um ponto. Claro, o Chelsea era um jogo completamente diferente.

O resultado [8-0] foi muito pesado. Não abalou o grupo?
Não. Eu tinha duas formas de abordar esse jogo. Ou mantinha a nossa identidade, ou ia para lá com um autocarro e eu não sou de ir com autocarros. A diferença é tão grande. Estamos a falar de uma equipa que tem 990 milhões de euros de valor de Transfermarkt, contra uma equipa que tem 6,5 milhões. Um jogador do Chelsea ganha por mês aquilo que o meu plantel todo ganha. Um jogador. Portanto, era um jogo para nós desfrutarmos. Sou um treinador que respeito todas as equipas, mas não gosto de jogar com receio, não entendo assim o futebol. Tenho a certeza que qualquer tipo de abordagem diferente, íamos perder o jogo na mesma, mas pelo menos também fomos valorizados pelo caráter que tivemos, pelas oportunidades que criámos e pela nossa capacidade também ofensiva. Estou-lhe a falar de situações concretas. As últimas três equipas que tinham estado em Stanford Bridge não tinham feito o número de remates, as três juntas, que nós fizemos no jogo com o Chelsea. Aos dois minutos e meio, o Gregorio tem uma oportunidade frente ao guarda-redes e falhou. Se tem feito golo? Estamos a falar de uma equipa que não tem experiência na Conference League e, portanto, são dores de crescimento. Foi exatamente isso que disse aos meus jogadores e presidente. Situações destas vão acontecer no crescimento, faz parte.

No campeonato pelo menos reagiram bem.
Sim, com quatro vitórias consecutivas, uma delas no dérbi contra o Pyunic [1-3] que é o campeão da Arménia. Sim, é verdade, perdemos 8-0. Mas como é que perdemos 8-0? Depois de analisado e demonstrado, as pessoas acabam por perceber.

No estágio do FC Noah, Rui Mota levou a equipa a praticar Paintball

No estágio do FC Noah, Rui Mota levou a equipa a praticar Paintball

 

D.R.

Tem contrato até final da época?
Já renovou. Tinha no meu contrato que, se alcançasse as competições europeias, automaticamente renovava.

Quais são as suas maiores ambições enquanto treinador principal?
Treinar na Premier League. E gostava de treinar em Portugal, é o meu país. Mas não a qualquer custo, nem vou para um clube qualquer. Tive recentemente a possibilidade de entrar em Portugal e não aceitei porque achei que não era o projeto certo.

Da I Liga?
Sim. Mas além de não ser o projeto certo, quero acabar a época aqui, vim cá para ser campeão, o meu grande objetivo, porque já concretizei o outro objetivo de estar nas competições europeias.

Está a viver sozinho na Arménia ou com a família?
Sozinho. Com os filhos na escola era complicado.

Os seus filhos jogam futebol?
Sim, ambos. Um, joga no Alcochetense, e o outro joga num clube da região, o Samouquense.

Eles pretendem fazer do futebol o futuro deles?
O mais velho, sim. Quer seguir os passos do pai, inclusive diz que quer ser treinador adjunto do pai e está a preparar-se para isso.

Agrada-lhe essa ideia de ter um filho como adjunto?
De certa forma, sim. Mas sobretudo porque encontrou o rumo dele. Eles adoram futebol. Uma das coisas que costumo fazer é, em todos os clubes por onde passo, ofereço sempre aos meus filhos uma camisola do clube com o número de anos que eles têm, na altura em que estive lá. É uma forma de, mais tarde, eles recordarem o percurso do pai e saberem a idade que tinham naquele momento.

A equipa do FC Noah no balneário a festejar mais uma vitória

A equipa do FC Noah no balneário a festejar mais uma vitória

 

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
Neste projeto onde estou.

Já deu para investir?
Sim, em imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Comprar o Mercedes que tenho hoje.

Tem algum hobby?
Adoro viajar.

Qual o país que mais lhe encheu as medidas?
O Rio de Janeiro.

É um homem de fé?
Tenho uma fé grande, à minha maneira. Gosto de ir à Igreja, mas não sou de ir a missas.

Superstições?
Tenho rituais de jogo e de pré-jogo que passam por não gostar que o autocarro faça marcha atrás no dia de jogo.

Tatuagens?
Não.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Adoro Fórmula 1. Gosto do Hamilton e do Leclerc. E gosto de praticar padel e ténis.

Rui Mota festeja com os adeptos do FC Noah a eliminação do AEK na Conference League

Rui Mota festeja com os adeptos do FC Noah a eliminação do AEK na Conference League

 

D.R.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Ter sido despedido do SC Braga.

E o maior arrependimento?
Não tenho. Sinceramente, acho que todas as experiências positivas ou negativas contribuíram para o meu crescimento pessoal e profissional.

O momento mais feliz na carreira?
A conquista da Taça da Bélgica.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que um dia gostava de treinar?
Liverpool.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Sem dúvida o Ricardo e depois todos os meus colegas de universidade. São muitos.

Tem ou teve alguma alcunha?
Não. Tratam-me por Mota, mas é o apelido.

Alguma regra do futebol que se pudesse, alterava, ou bania?
As limitações de substituições. O futebol é para ser rentabilizado. Acho quase devia poder utilizar todos os jogadores que estão no banco, com as paragens que temos, que são três. Ou seja, se estão definidos 20 jogadores para o jogo, podemos utilizar os 20 jogadores com três paragens.

Rui Mota, Claudia (irmã), Dora (esposa), Luísa (mãe), Miguel (pai). Tininha (avó), Maria (cunhada) e Tiago (filho)

Rui Mota, Claudia (irmã), Dora (esposa), Luísa (mãe), Miguel (pai). Tininha (avó), Maria (cunhada) e Tiago (filho)

 

D.R.

Que opinião tem do VAR?
Tem ajudado o futebol na correção de erros normais que acontecem dos árbitros. É uma boa ferramenta que está a melhorar.

Qual o momento mais difícil que passou na vida?
O estar distante da família e dos amigos. É o mais difícil.

Tem algum talento escondido?
Não propriamente. Mas acho que tenho a sorte de ser uma pessoa um bocadinho diferenciada, mas não é algo que eu possa aferir por isto ou por aquilo.

Há mais alguma história que possa contar para finalizarmos a entrevista?
Quando estávamos na Arábia, quando tínhamos uma folga maior, acabávamos sempre por ir ao Bahrein, que era mesmo ali ao lado. Demorávamos uma hora a chegar à fronteira, mas depois éramos capazes de demorar umas três ou quatro horas para a transpor, porque era uma loucura porque tinha checkpoints, não podíamos atravessar com o nosso carro porque não éramos sauditas e o carro tinha de ficar na fronteira. Começamos a contratar um motorista que nos fazia esse percurso até ao Bahrein. Há um dia em que está uma confusão tremenda, eram 12 faixas a convergir para sete e vemos o nosso motorista às tantas a baixar o vidro carro e a falar com o rapaz do carro ao lado e, de repente, eles fazem o “pedra, papel ou tesoura”. Nós na galhofa a tentar perceber. O nosso motorista ganhou o jogo e disse: “Pronto, agora passamos nós.” Ou seja, eles fazem “pedra, papel ou tesoura” quando há uma situação de 50-50 para cada um passar [risos]. E vimos várias vezes isso acontecer no trânsito.

 

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Spoiler

“O presidente tinha uma empresa de presuntos, a fábrica ficava ao lado do campo, às vezes ouvíamos os porcos a gritarem e era horrível”

Marco Paixão, 40 anos, ainda joga futebol, na Turquia. Após a formação feita em Sesimbra e um ano na equipa B do FC Porto ao lado do irmão gémeo, Flávio, com quem hoje não fala, o avançado saiu aos 22 anos para Espanha e nunca mais voltou a jogar em Portugal. Passou pela Escócia, Chipre e Polónia, entre outros, viveu momentos de glória, em que foi o melhor marcador, mas também por depressões e lesões que quase destruíram a carreira. Esta é a parte I de um percurso cheio de altos e baixos

Nasceu em Lisboa e cresceu na zona de Sesimbra. É filho e irmão de quem?
O meu pai era pescador. A minha mãe teve vários trabalhos, teve uma empresa de bolos e também trabalhou no Bingo, do que me lembro. Sou irmão gémeo do Flávio Paixão, também jogador.

Qual dos dois nasceu primeiro?
O meu irmão foi o primeiro a sair, mas supostamente sou mais velho, porque fui o primeiro a ser gerado. Pelo menos foi o que a minha mãe contou-me há uns anos.

Em pequenos também eram parecidos no feitio?
Não. Sempre fui mais calmo. O meu irmão sempre foi mais vivo, mais agitado.

Tem ou tinha com o seu irmão aquela característica dos gémeos idênticos, de sentir tudo o que o outro sente?
Totalmente, isso é muito verdadeiro, até ao fim do mundo. Tínhamos sentimentos e energias que sentíamos ambos.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Daquilo que me lembro, sempre quis ser jogador de futebol.

Quem eram os seus ídolos?
O Quaresma, o Figo e o Hugo Viana.

Isso quer dizer que torcia pelo Sporting?
Sim [risos].

Da escola, gostava?
Sim, por acaso era bom aluno e sempre gostei da escola.

Marco em criança

Marco em criança

 

D.R.

Começou a jogar futebol com o seu irmão no Sesimbra. Com que idade?
Penso que fomos com cinco ou seis anos.

Fez lá toda a formação. Quais as principais memórias desses tempos?
Maravilhosas. A escola estava perto do clube e muitas vezes íamos para lá à noite jogar, sem ninguém saber. Também fazíamos bodyboard. Jogávamos às escondidas no campo. Foram anos muito bons.

Quando estreou pela equipa principal do Sesimbra?
Penso que tínhamos 17 anos. O Zé Albano, que foi jogador do Futebol Clube do Porto, era o treinador na altura e foi ele que nos levou à primeira equipa, a mim e ao meu irmão. Mas não me lembro com quem jogámos.

Já era avançado?
Não. Era extremo.

A vossa relação de irmãos, no futebol, era mais de entre ajuda ou de rivalidade?
Ajudávamos-nos muito mutuamente.

Quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser jogador de futebol era mesmo alcançável?
Foi quando já jogava na equipa principal, tinha 18 anos e havia uns empresários que andavam loucos atrás de nós. Um deles, o Serginho, foi quem nos levou à Lazio de Roma para treinar. Foi nessa altura que comecei a acreditar que podia ser jogador de futebol, porque o interesse deles em representar-nos era tão grande que pensei: “acho que vai ser mesmo desta.”

Como correu essa semana na Lazio?
Correu bem, mas surgiram mais equipas, entre elas o FC Porto que foi quem avançou mais rapidamente. Estiveram a observar-nos durante muito tempo.

Tinham algum pacto do tipo, só aceitarem ir para clubes que quisessem os dois?
Não. Eram mesmo os clubes que nos queriam.

Os gémeos Marco e Flávio Paixão em criança

Os gémeos Marco e Flávio Paixão em criança

 

D.R.

Quando foi para o FC Porto B tinha 20 anos. Já havia algum namoro sério?
Por acaso havia, mas não é a minha atual mulher.

Das saídas à noite, gostava?
Quando éramos miúdos, de vez em quando dávamos um pulinho a algum sítio, como é normal. Mas mais nas férias. Durante a temporada não costumava. Aliás, nunca gostei muito de sair à noite, só mesmo nas férias.

Assinou com o FC Porto o primeiro contrato profissional. Recorda-se do valor do ordenado?
Honestamente, não. Não tenho ideia. Não sei se foi €2000 ou €3000, não faço ideia.

Foi a primeira vez que saiu de casa dos pais. Custou-lhe muito ou o facto de estar com o Flávio suavizou a ausência deles?
Não, foi bastante difícil. Crescemos numa terrinha pequena e sair para o norte do país, para uma realidade diferente, uma estrutura de um clube completamente diferente, totalmente profissional e com outras exigências, muda muita coisa. Senti-me muitas vezes sozinho e a falta dos meus pais e dos meus amigos. Claro que eu e o meu irmão apoiamo-nos um ao outro, éramos muito unidos naquela altura. Mas a figura do pai e da mãe é fundamental.

No FC Porto, a que foi mais difícil adaptar?
Foi uma mudança do futebol distrital para o futebol profissional, a mentalidade era completamente diferente e tive um pouco dificuldade nesse sentido, porque era outro nível, outros hábitos. Mas trataram-nos sempre de maneira fantástica, tenho ainda amigos dessa equipa. Foi uma experiência muito positiva.

Tinha assinado apenas por um ano?
Não, por dois. Mas no final da primeira temporada as equipas B acabaram e terminámos o contrato.

Já tinha deixado de estudar?
Entrei para o curso de Marketing, Relações Públicas e Publicidade na Universidade Lusófona, fiz dois anos, mas quando fui para o Porto tive de deixar de estudar.

Marco (3º em baixo a partir da direita) iniciou o percurso futebolístico no Sesimbra

Marco (3º em baixo a partir da direita) iniciou o percurso futebolístico no Sesimbra

 

D.R.

O que lhe passou pela cabeça quando se viu sem contrato e sem clube?
Foi um momento muito duro. Chorámos muito naquela altura. Éramos miúdos, mas fomos à luta como sempre fomos durante toda a vida.

As propostas que o empresário lhe trouxe eram só da Espanha?
Não me lembro, acho que havia outras oportunidades, mas quando surgiu a da Espanha não pensei duas vezes porque eu gostava muito do campeonato espanhol. Foi uma coisa muito rápida. Fui treinar no clube, o Guijuelo, eu e outro jogador, o Rodrigo Ângelo, que era médio defensivo da minha equipa e que ficou comigo no Guijuelo, de Salamanca.

Além de não voltar a casa dos pais, era a primeira vez que jogava sem o seu irmão na mesma equipa, apesar dele também ter ido jogar para um clube espanhol. Como foi a adaptação?
Passava dias na cabine telefónica a ligar à minha mãe, a chorar, que queria voltar [risos]. Se há um detalhe que nunca esqueci foi o dia em que ligo para o meu pai a chorar, a dizer que queria voltar para Portugal, e ele, meio enervado, respondeu: “Vocês quiseram sair daqui, quiseram ir jogar para Espanha e agora querem voltar para trás? Ficas aí, porque é aí que tens de ficar, tens de ir atrás do teu sonho…” Deu-me uma rebocada brutal e acho que comecei a ganhar força. Foi um momento incrível.

O avançado (2º à direita em baixo) jogou ao lado do irmão (1º à direita em baixo) no Sesimbra até aos 20 anos

O avançado (2º à direita em baixo) jogou ao lado do irmão (1º à direita em baixo) no Sesimbra até aos 20 anos

 

D.R.

O futebol espanhol, da II B, foi ao encontro das expectativas?
Sim, o futebol espanhol para mim continua a ser o melhor do mundo. É espetacular a maneira como eles treinam, como dão importância à tática, à habilidade técnica do jogador, à inteligência de jogo. Foi maravilhoso.

Só assinou por uma temporada?
Sim. Mas foi marcante, foi a primeira vez que saí do país e fui à procura do meu espaço no mundo do futebol. Fiz 15 ou 16 golos e no final da época fui para o Logroñés CF, que me deu melhores condições. O Guijuelo tinha campo sintético e eu não queria jogar em campo sintético. No Logroñés já tínhamos um centro de treinos bom, jogávamos num bom estádio também.

Do que mais se recorda dessa época no Logroñés CF?
Da oferta que tive da equipa B do Saragoça e que não quis aceitar.

Porquê?
Devido à experiência que tive na equipa B do FC Porto. Acreditava que se voltasse de novo a uma equipa B ia voltar a ser visto como jogador da formação. Mas depois arrependi-me obviamente. O Saragoça estava muito bem, era na altura do Ricardo Silva, o avançado brasileiro.

Foto do jantar de campeões de juniores do Grupo Desportivo de Sesimbra. A partir da esquerda: Treinador Canana, Tiago Gatinho, Eduardo Bolacha, Eduardo, Marco, pai do Marco, Flávio e um dos diretores das camadas jovens

Foto do jantar de campeões de juniores do Grupo Desportivo de Sesimbra. A partir da esquerda: Treinador Canana, Tiago Gatinho, Eduardo Bolacha, Eduardo, Marco, pai do Marco, Flávio e um dos diretores das camadas jovens 

D.R.

Por que foi jogar na época seguinte para o Cultural Leonesa?
Porque tentei sempre melhorar as minhas condições e ir para clubes melhores. Surgiu a Cultural Leonesa que era um clube já muito mais estruturado, com uma presença muito mais importante naquela liga e melhores condições. Foi a melhor oportunidade que me apareceu, basicamente eu tentava subir escalões. Tentava chegar à II Liga, não consegui, mas acabei por fazer uma grande época.

Continuava a viver sozinho?
Sim. Já não tinha namorada na altura, estava solteiro.

Ao fim de três anos na Espanha, acabou por viajar para a Escócia, onde assinou pelo Hamilton. Aí vai novamente com o seu irmão?
O meu irmão veio depois. Eu fiz uma boa época, tinha uma equipa da II Liga espanhola, o Huesca, que estava interessada em mim. Lembro que fiz um jogo contra a Real Sociedad, já no final da época, onde estava o olheiro do Hamilton. No final do jogo reuni-me com ele, mostrou-me todos os apontamentos que já tinha de mim, disse que gostava muito de mim e queria que eu fosse para a Escócia fazer uma semana de observação no Hamilton. Eu não queria ir treinar, queria ser contratado diretamente. Mas o olheiro insistiu que já tinham todos os meus dados, que gostavam muito de mim, o treinador também, e que era mais para o presidente ver. Estive três anos na II B, queria sair de lá porque acreditava que mais um ano ali acabaria como jogador, podia ficar rotulado como jogador da II B. Por isso preferi ir jogar para a I Liga da Escócia.

Tem alguma história para contar da Espanha?
Lembro-me que o presidente do Guijuelo tinha uma empresa de presuntos, a fábrica ficava quase ao lado do campo, às vezes ouvíamos os porcos a gritarem e era horrível, horrível. Também me lembro que cheguei a jogar uma vez para a Copa Federación contra o meu irmão. Foi a primeira vez que joguei contra ele e ganhei [risos]. Foi engraçado.

Marco com o pai

Marco com o pai

 

D.R.

Muda-se de armas e bagagens para a Escócia, sozinho. Como foi o primeiro embate?
Como estive três anos sozinho, não foi tão chocante. Na universidade tive uma cadeira de inglês, por isso o inglês não era problema, embora os escoceses comam as palavras todas [risos]. Na primeira semana de observação fiz logo três jogos e marquei três ou quatro golos. O treinador antes de começar a treinar falou comigo, disse precisarem que eu treinasse com a equipa para que o presidente me visse. Assinei por dois anos.

Como o seu irmão foi parar também ao Hamilton?
Quando assinei, cheguei ao pé do treinador e disse-lhe: “Olhe, tenho um irmão” [risos]. Pressionei ao máximo para irem buscar o meu irmão. Ele foi para lá e ficou a viver comigo.

Que recordações maiores tem dessas duas épocas na Escócia?
Aprendi que o estado físico do jogador é muito importante para ter uma boa performance. Vivíamos em Glasgow, que era uma cidade linda, linda, linda. Vivíamos num 9.º ou 10.º andar, com vista de rio, um apartamento maravilhoso. Uma cultura diferente da nossa, mas o pessoal era muito engraçado.

Houve alguma coisa que tivesse estranhado mais?
O que mais me chocava era eles irem para o restaurante ao meio-dia e saírem às oito da noite, completamente rebentados de cerveja até à cabeça. Foi o que mais me impactou. Futebolisticamente foi muito bom. No primeiro ano terminámos quase em lugares de Liga Europa. Joguei muito, jogava como extremo, enquanto na Espanha jogava como ponta de lança. Fui como ponta de lança, mas o treinador meteu-me na linha, dizia que eu tinha qualidade para jogar na linha, porque eles queriam ir buscar um avançado grande, quase com dois metros, para o típico estilo de jogo deles. O segundo ano já não foi tão bom. Quando faltavam mais ou menos dois meses para terminar, tive uma lesão muito grave no joelho.

Que lesão foi essa?
Fiz uma rotura do ACL no joelho num treino e tive problemas imensos com o médico do clube. Fiz uma rotura quase completa, praticamente chorei à frente do treinador porque quase não conseguia caminhar, mas o médico dizia que eu não tinha nada. Chamaram outro médico, de fora, que também dizia que eu não tinha nada e que estava a mentir. Eu não conseguia quase correr e eles quase me obrigaram a correr, até que decidi ir para Portugal, para a Clínica Gaspar, onde fui visto pelo doutor António Martins. Quando fiz a ressonância ele viu que eu tinha uma rotura quase total no ligamento e ficou chocado, não entendia como queriam que eu jogasse ou treinasse. Fiz um mês de terapia, pago por mim, porque o mais importante era a saúde. Quando regressei ao clube não me deixaram entrar e decidi rescindir, para bem da minha saúde mental.

No dia do casamento com Melania

No dia do casamento com Melania

 

D.R.

O balneário na Escócia era muito diferente do espanhol?
Muitíssimo. Na Escócia não levam o futebol tão a sério, são mais brincalhões. Ganhar ou perder não havia muita diferença. Os jogos levavam a sério, mas no dia a dia era muita palhaçada, cerveja para aqui e vamos comer para ali. Perdíamos e não se passava nada. Eu não gostava disso porque sempre fui muito orgulhoso.

Acabou por ir para o Naft Tehran do Irão, como e porquê?
Aí passei uma das fases mais difíceis da minha vida desportiva. A minha ideia era continuar na Escócia para depois dar o salto para Inglaterra, mas como tive a lesão e não joguei nos últimos meses, arranjar clube tornou-se complicado. Fisicamente estava muito mal. Voltei à casa do meu pai e foram seis meses horríveis. Não era eu. Tive uma depressão. Como imagina, deixar de jogar futebol, ainda por cima naquela altura, em que estava em fase de ascensão... Acabei por ter esse pequeno bloqueio. Não saía de casa, não sorria, o meu pai às vezes falava comigo, dizia que tinha de sorrir, tinha de sair de casa e fazer a minha vida. Foi um momento difícil.

Continuava com o mesmo empresário?
Não. O empresário que me levou para o Irão foi o João Paulo Rodrigues, que já tinha levado o Toni, o João Vilela, o Anselmo, o meu irmão também estava no Irão na altura. Não sei o que fui para lá fazer, mas pronto, fui, faz parte.

Correu assim tão mal?
Ninguém vai jogar para o Irão com 27 anos. Tive de ir porque não tinha absolutamente mais nada e o Paulo ajudou-me a pelo menos conseguir voltar a jogar futebol e foram meses absolutamente horríveis. Chorava muito. O treino acabava e andava à volta do campo a chorar, a perguntar o que andava ali a fazer.

Desde que saiu para Espanha, em 2006, Marco não voltou a jogar em Portugal

Desde que saiu para Espanha, em 2006, Marco não voltou a jogar em Portugal

 

D.R.

O que mais o chocou no Irão?
A vida. Ali não vivemos. Só tinha o empresário do Irão com quem às vezes ia jantar, não havia centros comerciais, não socializamos da maneira como socializamos na Europa, ou no nosso país. Quase não saía de casa. Era casa-táxi-treino-táxi-casa. Passava os dias a ver futebol em casa. Às vezes era complicado ter internet. E era uma cultura completamente diferente.

Como era o futebol?
Havia umas equipas boas, o Esteghlal, o Persepolis, o Tractor e mais três ou quatro. A nossa equipa ficou em 5.º lugar na liga. Fiz três golos em cinco ou seis meses. Mas fui para lá jogar como n.º 10. Foi horrível a experiência.

Recorda-se de alguma história do Irão?
Lembro que uma vez o meu irmão foi visitar-me a Teerão e fomos para casa de um amigo meu, guarda-redes, e fizemos uma pequenina festa. Coisa que era proibida. A determinada altura da noite, eram duas ou três da manhã, algum vizinho lembrou-se de chamar a polícia e foi o pânico total. Tivemos de entrar na casa de um vizinho. Eu e o meu irmão ficámos em pânico, estávamos preparados literalmente para saltar da janela de um 2.º ou 3.º andar. Havia uma espécie de montanha ao lado e como aquilo ficava em declive, estávamos preparados para abrir a janela e saltar caso a polícia entrasse na casa. Era um problema gravíssimo, porque se a polícia apanhasse o álcool que tínhamos em casa podia ser muito mau, sobretudo para os iranianos.

Como terminou esse episódio?
Felizmente um jogador da minha equipa desceu, falou com eles e não aconteceu nada. Lembro-me também que cheguei a jogar com um jogador que nem sabia o nome, porque o contrataram quase no último dia de transferências e ele praticamente foi logo jogar. Foi caricato.

 

Spoiler

“Tenho a receber para cima de um milhão de euros, mas não sei quanto tempo vai demorar até haver solução. A FIFA não protege os jogadores”

Aos 40 anos, Marco Paixão ainda não decidiu se esta será a última época como jogador profissional de futebol, mas já investe no seu futuro pós-carreira. Nesta parte II da entrevista, conta as suas aventuras em Chipre, Polónia, Chéquia e Turquia e dá a sua versão sobre o porquê de estar de relações cortadas com o irmão gémeo, Flávio. Revela como um livro mudou a sua maneira de pensar, fala da sua terrível experiência com terramotos, diz não perceber como um presidente consegue safar-se depois de deixar um clube na bancarrota e acusa a FIFA de não proteger os jogadores

Em 2012/13 foi para o Ethnikos Achnas de Chipre, onde teve quatro treinadores. Foi uma época muito atribulada?
Acho que foi o ponto de viragem da minha carreira. Assinei no penúltimo ou antepenúltimo dia de mercado, através do Chaínho, foi ele que me levou para lá. O Silas jogou comigo nessa equipa. Foi um ciclo de mudança para mim, porque alguém me disse para comprar o livro “O Segredo da Mente Milionária” e esse livro, de facto, mudou a minha vida por completo.

Porquê?
Entendi que era um jogador com mentalidade medíocre e passei a ser um jogador com mentalidade positiva. Depois tive um treinador grego, Nikolaos Kolompourdas, que teve uma conversa importante comigo e que, basicamente, subiu-me a moral: “És um grande jogador. Tens um potencial incrível para seres o jogador que queres.” Foi ali que curiosamente voltei a ser ponta de lança. Terminei como 1.º ou 2.º goleador da liga. E foi nesse ano que me aproximei da Melania, a minha mulher.

Como se conheceram?
Já nos tínhamos conhecido há uns anos, quando o meu irmão jogava em Espanha, em Benidorm. Fui ver um jogo dele e conheci-a. Ela é espanhola, de Valência. Estivemos durante muitos anos a falar por MSN. Ela foi visitar-me em Chipre e foi aí que começou a nossa relação, que coincidiu com a minha mudança de mentalidade e da minha carreira. Destaquei-me, muitas equipas grandes do Chipre passaram a querer-me, tive ofertas de Israel e de outros países. Havia várias equipas na Polónia que me queriam, o Slask Wroclaw foi ver um jogador num dia em que também joguei e o observador disse que não queriam o outro jogador, mas a mim. A partir dessa altura começaram a observar-me e ainda antes do final da época já tinha tudo acertado para ir para a Polónia.

Onde reencontrou o seu irmão?
Cheguei ao Slask e, tal como fiz em Espanha, voltei a falar no meu irmão ao empresário e ele foi para lá também.

A Melania foi consigo para a Polónia?
Sim, foi o primeiro ano que começámos juntos.

Marco a festejar um golo pelo Slask Wroclaw, com o seu irmão atrás

Marco a festejar um golo pelo Slask Wroclaw, com o seu irmão atrás 

D.R.

Quais foram as primeiras sensações quando chegou ao Slask Wroclaw?
Lembro-me que vinha no avião, vi o estádio do Slask e fiquei maravilhado. Tinha havido o europeu da Polónia e Ucrânia e os estádios eram quase todos novos. O estádio do Slask é lindo. Lembro-me de pensar: “Aqui é que eu tenho de estar.”

Como foi recebido?
Eu vinha muito bem referenciado pelo clube, toda a gente me queria. Vinha como um jogador que podia fazer a diferença na equipa. No primeiro jogo-treino da pré-temporada marquei um golo e a partir daí foi maravilhoso.

Adaptou-se bem ao futebol polaco?
Adaptar não foi fácil, porque a mentalidade é um bocado fechada. É um futebol mais intenso, mais físico, não foi fácil, mas foi bom. Jogámos a Liga Europa, fiz cinco jogos, cinco golos. Fiz um golo em Sevilha, ao Beto. No total, marquei 28 golos na temporada.

Já tinha sido chamado alguma vez para representar Portugal?
Não. Foi justamente no final dessa temporada que se falou muito nessa possibilidade. Tive essa pequena chama, acreditava que podia ser a altura. Recordo-me que o meu nome foi falado em vários programas desportivos. Mas infelizmente não foi possível.

Calculo que tenha passado a ser ainda mais cobiçado, mas continuou no Slask. Porquê?
A primeira época foi espetacular, tinha clubes italianos e da Bundesliga interessados. Tinha tido uma oferta também do Lechia de Varsóvia. Havia clubes espanhóis da I Liga a observar-me. Uma equipa da China de uma empresa muito forte também me contactou. Estava mentalmente preparado para sair e já havia clubes que haviam posto dinheiro em cima da mesa para eu sair, mas o presidente não me deixava sair a nenhum custo. Podia ir para equipas onde podia ser campeão e chegar à Champions League e como não conseguia sair entrei num ciclo mental tão mau, tão mau, que no segundo treino após o segundo jogo da pré-temporada, fraturei o osso da fíbula. A fase mais bonita da minha carreira, onde eu podia aspirar a mais, foi por água abaixo e foi horrível. Perdi aí a maior oportunidade da minha vida, de dar o salto para um liga top, como a Bundesliga.

Em 2015 avançado jogou pelo Sparta de Praga, da Chéquia

Em 2015 avançado jogou pelo Sparta de Praga, da Chéquia

 

D.R.

Acabou por fazer a segunda época no Slask Wroclaw, mas jogou pouco.
Sim, estive seis meses lesionado. Faço sete golos na segunda época, mas estar com um metal dentro do pé era horrível. E acabei por sair para o Sparta de Praga.

Porque foi para a Chéquia?
Queria dar o salto para uma equipa boa que jogasse noutro patamar. Como perdi aqueles meses, falei com o empresário, andávamos a falar com alguns clubes da I Liga espanhola, mas com a lesão e os seis meses sem jogar, não era o mesmo jogador, fisicamente não estava bem. Não tinha quase força nas pernas. Não é fácil recuperar desse tipo de lesões. Fui para o Sparta porque foi a melhor equipa que surgiu na altura.

Gostou de Praga e do clube?
A cidade é maravilhosa, mas desportivamente não correu bem. Ainda joguei o play-off da Champions League. A equipa começou mal e eu, entretanto, passei a segunda opção. Fiz a melhor pré-temporada da minha vida, literalmente, sete golos em cinco jogos, comecei a época a jogar, fomos eliminados da Champions, fiz alguns jogos da Liga Europa e a meio da época comecei a ressentir-me da lesão do osso. Foi horrível. Não tinha força, não estava no meu nível. Foi uma fase má. Temi mesmo pela minha carreira porque o médico do Sparta aconselhou-me a tirar o metal. Havia semanas em que tinha dores horríveis, mas não queria ser operado novamente. Entrei novamente numa espiral negativa, sem saber o que havia de fazer. Felizmente apareceu-me uma pessoa muito importante, o Bruno, empresário e amigo que me levou para a Polónia de novo, para o Lechia Gdansk.

Chegou a tirar o metal?
Vou contar. No final daqueles seis meses, o clube falou comigo, não havia condições para continuar, obviamente, fisicamente não estava bem e disse ao clube que ia tentar arranjar uma alternativa. O Bruno falou-me na possibilidade de voltar para a Polónia, eu não queria, mas não tinha outras oportunidades e o clube ofereceu-se para cuidar 100% do processo da minha recuperação. Eles tinham uma clínica top, em Gdansk. Viajei em segredo para a Polónia, fui ver a clínica, falei com o médico e fui para lá. Assinei dois anos e meio.

Na época 2015/16 Marco regressou à Polónia para jogar no Lechia Gdansk

Na época 2015/16 Marco regressou à Polónia para jogar no Lechia Gdansk

 

D.R.

Que tal o regresso à Polónia?
Entrei no primeiro treino, fomos fazer o meínho e eu não conseguia quase nem pisar o chão. Os médicos decidiram que o melhor era perder dois ou três meses e tirar mesmo o metal e os parafusos. O único risco era criar alguma infeção ao tirar os parafusos. Mas felizmente correu tudo bem. Ainda fiz três jogos já no final. Foi uma fase difícil da minha carreira, mas felizmente correu tudo bem.

Como terminou a aventura no Lechia?
Voltei a ser máximo goleador da liga no ano seguinte, o que foi uma alegria incrível depois daquele ano sabático que tive. Na época seguinte [2017/18], comecei o ano bem, fiz 16 golos até fevereiro ou março. Entretanto, contrataram um treinador que infelizmente era má pessoa.

O que aconteceu?
Antes desse treinador chegar, o treinador mandado embora tinha dado uns dias livres e eu viajei para Portugal. Quando veio o treinador novo, decidiu cancelar os dias, eu só soube quando já tinha aterrado em Portugal, não regressei logo e depois tive um problema grave com esse treinador. Usou essa viagem contra mim e meteu-me à parte. Tive que ir à federação explicar o que se passou e deram-me razão. Mas o treinador, basicamente, meteu-me a treinar à parte, faltavam três meses para terminar a temporada, se não me equivoco. Foi aí também que a relação com o meu irmão ficou mal.

Porquê?
Porque foram momentos muito duros, em que algumas pessoas trataram-me muito mal e o meu irmão foi uma delas, porque numa altura em que precisava de apoio familiar, o meu irmão infelizmente decidiu não ficar do meu lado e estar ao lado do treinador. Eu era capitão de equipa na altura, era o jogador mais importante da equipa, o meu irmão foi para lá através de mim, mas pronto, acabou de uma maneira triste. Acabei com uma ansiedade e uma depressão brutal. Estive a treinar com os juniores ou a equipa B, já nem me lembro.

Essas pessoas criticaram-no apenas porque não regressou logo?
Exatamente. E o treinador, como era muito xenófobo, começou a limpar tudo o que era estrangeiros e o único que ficou foi o meu irmão. Eu só queria sair da Polónia. No final da temporada não quis ficar. Curiosamente, o presidente e o diretor-desportivo sempre me trataram bem, foram pessoas maravilhosas. O clube nunca me tratou mal, a única pessoa que me tratou mal foi mesmo o treinador.

Marco Paixão tem 40 anos e ainda joga no Bandirmaspor, da Turquia

Marco Paixão tem 40 anos e ainda joga no Bandirmaspor, da Turquia

 

D.R.

O presidente e o diretor-desportivo não o defenderam e impediram que o treinador o colocasse à parte porquê?
São coisas do futebol, não é tão fácil como se pensa, porque é o treinador quem faz a equipa, é ele quem decide quais são os jogadores que estão no plantel e decidiu apartar-me. Mas eu tinha uma relação fantástica com o presidente e diretor-desportivo, que me trataram sempre super bem, infelizmente foi só mesmo o treinador. O clube pagou-me tudo e eu depois também não quis ir mais além. Terminei a fase no Lechia Gdansk.

Seguiu-se a aventura na Turquia, onde ainda está a jogar, e que começou no Altay, certo?
Sim, foi a decisão mais linda que tive na minha vida. Tive ofertas de equipas que também jogavam Liga Europa, nomeadamente da Bulgária, por exemplo. Tinha ofertas de Chipre, da Tailândia e se não me equivoco da Índia também. Eram ofertas muito boas. Mas a única coisa que eu queria depois daquela fase má era estar num sítio onde houvesse sol, praia e que a cultura fosse parecida com a nossa. Apresentaram-me o empresário com quem estou, que inclusive jogou comigo no Chipre, o Fredrik Risp, ele jogou na Turquia, foi internacional pela Suécia, conhecia muito bem Izmir. Lembro-me que a minha mulher chorou muito porque também não queria que eu descesse para a II divisão, porque tinha trabalhado muito forte para manter-me a jogar num primeiro nível, em boas ligas. Mas tive que tomar uma decisão. Eles ofereciam-me um contrato muito bom, ela não queria vir, mas o empresário disse: “Vão lá três dias, dão uma volta à cidade.” Chegámos à noite a Izmir e no dia seguinte, quando fomos tomar o pequeno-almoço, em frente à praia, ficámos apaixonados. Terminámos o pequeno-almoço e fomos ao clube para assinar contrato. Foi aí que começou a nossa aventura na Turquia.

O Altay não deixava de estar na II Liga da Turquia. Como foram as primeiras impressões do clube?
Foi um bocado estranho porque os estrangeiros ficavam num balneário, os turcos no outro. Era um clube pouco profissional quando cheguei. Mas estive com o Pedro Eugênio, o que facilitou a minha adaptação Vivíamos com o sol todos os dias, a cidade é linda, tem bons restaurantes, correu muito bem.

Com a taça de campeão da II liga turca, pelo Altay, em 2020/21

Com a taça de campeão da II liga turca, pelo Altay, em 2020/21

 

D.R.

Ficou cinco anos e meio no Altay. Pode resumi-los através dos momentos mais marcantes?
Foram cinco anos e meio maravilhosos. Fui quatro vezes o máximo marcador da Liga, subi e desci de divisão.

A I Liga é muito diferente da II?
Sim, na I Liga estava feliz da vida porque é muito mais fácil jogar na I Liga, há mais qualidade, era onde eu queria estar. Esse era também o objetivo do clube quando me contrataram, trazer um avançado para fazer muitos golos e jogar a superliga. No final de três anos, subimos. Fui o máximo goleador nesses primeiros três anos. Bati o recorde de máximo de golos numa temporada.

Apanhou alguns sustos nesses cinco anos, nomeadamente vários terramotos. Como foram essas experiências?
Posso dizer que o terramoto é a coisa mais terrorífica que um ser humano pode passar na vida. No primeiro, eu vivia num 26.º andar, no centro da cidade, um apartamento lindíssimo que tinha um sunset brutal. Era final da tarde, eu estava a dormir no sofá com o sol a cair à frente e de repente sinto o prédio todo a abanar. Lembro-me como se fosse hoje. A minha sorte é que foram poucos segundos. Desci, em pânico, para a rua e percebi que tinha sido um terramoto. Depois vim a saber que todos os anos existem terramotos em Izmir e 95% dos edifícios estão preparados. Também vivi um momento complicado no terramoto na parte norte do país, em 2023. Foram semanas muito duras, chorámos muito nos treinos e às vezes parávamos mesmo, porque havia jogadores que literalmente não tinham forças. Foi muito chocante. Caíram dois ou três edifícios em Izmir também. Nos últimos dois anos e meio deixei de viver em prédios e fui viver para uma zona só de moradias, a 20 minutos de Izmir.

Já foi pai?
Fui pai do Enzo, em 2020, em plena pandemia. Na semana em que nasceu eu estava de quarentena, em casa, controlado pela polícia. Nós, jogadores de futebol, fomos muito controlados pela polícia e não consegui assistir ao nascimento dele. Ele nasceu em Valência, na Espanha, de onde é a minha mulher.

Com o filho ao colo após um jogo pelo Altay

Com o filho ao colo após um jogo pelo Altay

 

D.R.

Também sofreu uma invasão de campo na época 2022/23 que deixou marcas. Pode recordar?
Exatamente. Os adeptos tinham andado a atirar very-lights uns aos outros, o jogo parou, entrou uma ambulância e houve uma pessoa que, não sei como, entrou no campo, agarrou na bandeira de canto e atacou o guarda-redes, que estava de costas. É inexplicável o que se passou. Deu-lhe três bastonadas na cabeça. Felizmente o guarda-redes recuperou, abriu só a cabeça, mas podia ter morrido. O chocante é que essa pessoa esteve algumas semanas presa e depois saiu. Aquilo foi uma tentativa de homicídio pura e dura, é chocante.

Mais algum episódio dos anos que passou no Altay?
Recordo-me que no meu 1.º ou 2.º ano, num lance de um jogo, há um cruzamento para a área, o guarda-redes agarra na bola e choca contra um defesa, solta a bola no chão e fazemos golo. Foi chocante, porque o árbitro marcou falta contra nós quando nenhum jogador tinha batido no guarda-redes. Foi um golo limpo e o árbitro decidiu, por razões que ninguém sabe, marcar falta contra nós. Foi caricato.

Porque saiu do Altay?
Porque subimos à superliga e o presidente meteu o clube em bancarrota. Ninguém sabe onde é que o dinheiro do clube foi parar. Aliás, eu acho que toda a gente sabe, só que ninguém quer saber. Estive muitos, muitos meses sem receber salário. É escandaloso como a FIFA permite. Devemos ser a única profissão do mundo em que estamos seis, sete meses ou mais sem receber e não se passa nada. Os jogadores têm de continuar a jogar, sem receber, porque se não jogarmos perdemos capacidade física, perdemos valor de mercado, não jogamos e não temos hipótese. Infelizmente a FIFA não protege os jogadores e aqui na Turquia isso passa-se muito. O presidente decidiu abandonar o clube, em bancarrota, não sei como o deixaram. Tive de tomar uma decisão com a minha mulher, até porque tinha um bebé em casa. Já passaram quase dois anos desde que saí e vamos lá a ver quando vou receber o dinheiro por aquilo que trabalhei.

Marco foi eleito quatro vezes o melhor goleador da II liga turca

Marco foi eleito quatro vezes o melhor goleador da II liga turca

 

D.R.

Tem ideia do valor que tem a receber?
Para cima de um milhão de euros. Está tudo na FIFA, mas não sei quanto tempo vai demorar até que haja uma solução. Podem ser dois, quatro, seis, nove anos. A FIFA infelizmente não protege os jogadores. É muito triste, mas é mesmo assim.

Saiu para o Sanliurfaspor, da II divisão turca ainda em 2023/24. Como foi esse resto de época?
Interessante [risos]. Fui para uma parte do país mais tradicional, mais religiosa. O maravilhoso dessa etapa foi que conheci dois portugueses que ficam para a vida, assim como as suas famílias: o Diogo Coelho e o Aldaír Djaló. E também um argentino, o Emanuel Dening. Acho que tínhamos um grupo muito bom. Fiz 10 golos. Foi bom.

Está com 40 anos e mudou-se para o Bandirmaspor, também da II liga turca. Até que idade pensa jogar?
[Risos] Passei o verão já na dúvida se havia de continuar a jogar ou não. Não queria estar num clube de novo com problemas financeiros, ou um clube sem ambição. Tive algumas ofertas de algumas equipas aqui da Turquia, mas não eram equipas onde eu queria jogar, eram pouco ambiciosas e já no final de julho apareceu esta oportunidade. Aliás, eles já me queriam antes, só que depois é que tomei a decisão. Vi um jogo deles na pré-temporada contra o Besiktas e gostei muito da equipa. Conhecendo bem a liga, sabia que a equipa ia lutar para subir de divisão comigo aqui. Fizeram um centro de treinos novo, tem seis meses, cada um tem o seu quarto, é muito top.

Está na Turquia sozinho?
Estou, eles estão em Valência porque conseguimos que o Enzo ficasse numa escola muito boa em Valência, com métodos de aprendizagem completamente diferentes do normal. Foi importante priorizar este ano. Ele em Izmir estava numa escola com o método Montessori, que era maravilhoso e conseguimos encontrar o mesmo método em Valência, onde as vagas eram limitadas. Eu também no máximo faço mais um ano de futebol, somos campeões este ano e faço mais um ano. É o meu final countdown [risos].

Marco com a família

Marco com a família

 

D.R.

Já sabe o que vai fazer após pendurar as chuteiras?
Sim, já tenho um grupo de investimento para jogadores de futebol, ligado ao mercado imobiliário e financeiro. Temos jogadores portugueses, brasileiros, holandeses. Mas prefiro não dizer os nomes. Preservamos a identidade das pessoas. Adorava ser treinador, mas não quero ser porque iria ter novamente a mesma vida e aquilo que quero é desfrutar do meu filho, estar em casa, no meu país, com o meu pai, com os meus amigos e tudo aquilo que tenho perdido. Mas a fase pós-futebol é sempre uma fase difícil. O Beto há pouco tempo falou disso e disse que teve de recorrer a ajuda psicológica, porque estava bastante perdido.

Alguma vez recorreu a ajuda psicológica?
Até hoje, não. Leio muito e acho que os livros para mim têm sido a minha terapia. Ouço muito podcasts de mentalidade positiva. Quando tenho momentos mais baixos, meto no Spotify, só com afirmações positivas. E leio muito livros de melhoramento pessoal. Mas isso não impede de ir à procura de um psicólogo caso sinta necessidade após deixar o futebol. Espero que não, porque já sei qual é o meu propósito além do futebol e estou a abrir caminho para isso.

Reparei que deixou de falar na sua mãe. Porquê?
Eles separaram-se quando eu tinha 10 anos e ficámos com o meu pai, porque o meu pai naquela altura tinha outras condições e o meu pai para mim é um herói autêntico, é o meu super-homem. O meu pai tem outro tipo de caráter, foi a melhor decisão a nível familiar, ficarmos com o meu pai.

Continua sem falar com o seu irmão?
Sim, infelizmente. Mas o que mais desejo é que seja muito feliz. A família está muito orgulhosa da carreira que ele fez, e eu também. Se Deus quiser, um dia, há de se resolver. Eu espero que sim, vamos ver.

O avançado também jogou pelo Sanliurfaspor, na época 2023/24

O avançado também jogou pelo Sanliurfaspor, na época 2023/24

 

D.R.

Qual foi o golo mais bonito que marcou?
O mais simbólico, sem dúvida, foi contra o Sevilla, na Liga Europa. Como o meu sonho sempre foi jogar na I Liga espanhola, e estive muito perto, aquele foi um dia inexplicável. O meu pai viajou de Portugal com o meu irmão, e com o irmão da minha madrasta; a Melania viajou de Valência e então eu tinha ali a minha pequena claque, todos orgulhosos. Pisei um palco mítico da Liga Espanhola, eles foram campeões nesse ano, e aquele momento foi o momento mais simbólico da minha vida desportiva, sem dúvida.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Turquia.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Comprar um Porsche.

Tem algum hobby?
Praticar bodyboard.

É um homem de fé, acredita em Deus?
Não acredito em Deus, mas acredito em energias.

Superstições?
Já tive, mas agora não porque acredito muito na energia e em mim, tudo depende de nós e da nossa cabeça.

Qual foi a superstição mais estranha que teve e viu?
Por exemplo, ter uns boxers para jogar futebol, porque com eles eu marcava golos todos os jogos. A mais estranha que vi foi na Polónia, eles não lavavam a braçadeira de capitão até perder um jogo. Eu metia a braçadeira e aquilo cheirava muito mal [risos].

Marco e o seu empresário Fredrick Risp, após assinar pelo Bandirmaspor, da Turquia

Marco e o seu empresário Fredrick Risp, após assinar pelo Bandirmaspor, da Turquia

 

D.R.

Tem tatuagens?
Não. Um dia, talvez, do meu filho.

Acompanha outras modalidades?
Às vezes vejo ténis.

Qual é a maior frustração que tem na carreira?
Não ter jogado na Liga espanhola e não ter sido internacional por Portugal.

O maior arrependimento?
Não ter uma mentalidade positiva desde os 18 anos.

Momento mais feliz na carreira?
Em Izmir.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que gostava de ter representado?
O Sporting.

Quais são as maiores amizades que fez no futebol?
Fiz tantas que prefiro não nomear.

Tem ou teve alguma alcunha?
Não.

Marco com o filho Enzo

Marco com o filho Enzo 

D.R.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Aquilo que disse antes, que não seja permitido aos clubes deixarem de pagar os jogadores.

O que pensa do VAR?
Bom e mau.

Tem algum talento escondido?
Conseguir aumentar a energia das pessoas que estão à minha volta.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
O meu maior adversário foi a fase de estar lesionado.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Não faço ideia.

Gostava de ter sido treinado por quem?
Talvez o Guardiola e o Ruben Amorim. Gosto muito da cultura futebolística do Villarreal e do Barcelona também. Mas acho que o Villarreal é top.

 

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Um português, um senegalês e um turco entraram num clube. E, liderados por Luís Castro, fizeram do Dunkerque a “equipa da moda” em França

Spoiler

 

O emblema do norte gaulês, que nunca esteve na Ligue 1, está na luta pelos primeiros lugares da Ligue 2. Propriedade de um grupo turco e com o ex-internacional senegalês Demba Ba como responsável pelo futebol, o Dunkerque é orientado por Luís Castro. Em conversa com a Tribuna Expresso, o técnico explica como contornou as dificuldades iniciais, detalha a forma de jogar da sua equipa, que garante ter a “melhor relação orçamento/pontos somados” de França, e fala das ambições de futuro

Em 2023, Luís Castro tinha a sensação de “já ter atingido o nível mais alto possível” no futebol de formação. A perceção era justificada, dado que levara, em 2022, o Benfica a históricas conquistas da Youth League e da Taça Intercontinental sub-20, êxitos que tiveram, dentro do campo, protagonistas como António Silva, Tomás Araújo ou João Neves.

A ambição do técnico natural de Moreira de Cónegos era ir trabalhar para um dos cinco principais países do futebol europeu — Espanha, Inglaterra, Alemanha, França e Itália —, mas sabendo que a sua trajetória não lhe permitiria, ainda, aceder a uma divisão principal. Assim, um empresário luso-francês fez-lhe chegar uma abordagem que, inicialmente, não o deixou “muito entusiasmado”, confessa.

O convite era do USL Dunkerque. Clube que nunca esteve na Ligue 1, o passado recente do emblema do Norte de França andava pelo terceiro e quarto escalões gauleses. A equipa subira, em 2022/23, para a Ligue 2, preparando-se para a sua terceira temporada na segunda liga francesa no século XXI.

Foi aí que um português se uniu a um turco e um senegalês e tudo mudou. O Dunkerque havia sido, recentemente, comprado pelo Amissos Group, uma empresa de investimento fundada pelo empresário turco Yüksel Yildirim, que já era dono do Samsuspor. Para liderar o futebol do Dunkerque foi contratado Demba Ba, antigo avançado senegalês com uma extensa carreira na elite, apontando mais de 200 golos ao serviço de Hoffenheim, West Ham, Newcastle, Chelsea ou Besiktas.

Ao reunir-se com Demba Ba, a ideia de Luís Castro mudou. “Quando ele me disse quais eram os objetivos e as razões pelas quais pensou em mim, tudo começou a fazer sentido na minha cabeça, achei que poderia ser um projeto interessante. O Demba tinha ideias claras sobre a equipa, sobre o futebol que queriam praticar, demonstrou que tinha visto os meus jogos. Vi que era algo estruturado e pensado. Sabia que seria difícil, mas aceitei”, diz o treinador em conversa com a Tribuna Expresso.

Luís Castro estava certo quanto às dificuldades iniciais. O português chegou, em 2023, a um emblema recém-ascendido e pouco habituado à Ligue 2. Terminou a primeira volta com apenas três vitórias em 19 partidas, estando em antepenúltimo.

Era preciso “tempo para os jogadores se adaptarem às metodologias de treino e à ideia de jogo”, explica Castro, de 44 anos. Com “alguns ajustes” feitos em janeiro, a segunda volta permitiu “colocar a equipa num patamar superior de resultados e qualidade”. Com nove vitórias nas 19 rondas finais, a manutenção foi conseguida.

Em 2024/25, o excelente nível manteve-se. Na muito competitiva Ligue 2, o Dunkerque venceu nove dos primeiros 15 encontros, estando em 6.º lugar. Se vencer a partida que tem em atraso face à concorrência mais direta, passará para segundo, a dois pontos da liderança ocupada Lorient e com os mesmos pontos do Paris FC, o projeto que conta com o homem mais rico do mundo.

O “L'Équipe” fala da “equipa da moda” de França, destacando a “história de sucesso” do 2024 do Dunkerque; a “RMC Sport” escreve que “já se sonha com a Ligue 1” na cidade portuária; até o espanhol “AS” destaca o projeto do turco, do senegalês e do português.
A “reformulação” e a identidade

A tarefa de fazer a equipa ganhar jogos tem sido, para Luís Castro, complementada por outro trabalho. Juntamente com Demba Ba, o português tem ajudado à reestruturação e consolidação da estrutura do clube. O técnico utiliza a experiência que obteve enquanto coordenador do futebol de formação do Vitória SC, aplicando “esse conhecimento” para construir um Dunkerque “diferente” ao que encontrou no verão de 2023.

Foi contratado Romain Decool para liderar o departamento de recrutamento. Chegou, também, José Costa, que já integrara a equipa técnica do outro Luís Castro no Shakhtar Donetsk ou no Vitória, passando a ser adjunto deste Luís Castro.

Mesmo investindo bastante menos do que os adversários de Ligue 2, o Dunkerque conseguiu “reformular o plantel no verão”. Saíram alguns futebolistas que o técnico gostaria de não ter perdido, mas, graças a “um bom scouting”, chegaram reforços que têm acrescentando qualidade. Entre os 11 mais utilizados esta época, só dois estavam no clube na passada campanha. Olhando a esses 11 com mais minutos, cinco têm 23 anos ou menos.

Entre essas caras novas estão jogadores conhecidos do futebol português, como Vincent Sasso, ex-Boavista, Belenenses SAD, SC Braga ou Beira-Mar, e Abner Felipe, ex-Farense.

Outro reforço foi Diogo Queirós, 69 vezes internacional jovem por Portugal, campeão da Europa sub-17 e sub-19 com a seleção e vencedor da Youth League com o FC Porto. Veio do Farul, da Roménia, e, apesar do passado como defesa central, tem sido médio-centro, posição que “ainda está a aprender”, segundo Castro, que descreve um “super profissional” — “dos primeiros a chegar de manhã, faz tudo sem que ninguém tenha de chamar-lhe a atenção, preocupa-se com o sono, com a alimentação, com tudo —”, que é um “excelente exemplo para os jovens” do plantel.

Olhando ao nível de investimento de adversários como o Metz ou o Lorient, é fácil perceber que Luís Castro diga que orienta a equipa "com melhor relação orçamento/pontos somados” de França.

Dias antes da conversa com a Tribuna Expresso, o Dunkerque visitou o Metz. De um lado um clube que nunca esteve na Ligue 1, do outro um que disputou a principal divisão em 64 temporadas. Em Portugal, o Metz teria “o quinto ou sexto maior orçamento” da I Liga, garante Luís Castro. Mesmo assim, o Dunkerque teve mais de 60% de posse de bola, procurando dominar a partida.

O Metz venceu 2-0, quebrando uma série de quatro vitórias e um empate para o Dunkerque, mas Luís Castro afirma que o nível dos seus homens tem sido valorizado: “Tenho recebido, pessoalmente, os parabéns de pessoas do futebol francês, que nos felicitam pelo que fazemos com um dos orçamentos mais baixos da Ligue 2.”

Descrevendo o Dunkerque, o técnico fala de uma equipa que “não abdica de jogar, de ter bola e de tentar controlar os encontros”, tentando “recuperar rapidamente” depois da perda. É um estilo “ofensivo, com e sem bola”, uma característica que Castro diz já ter “trazido do passado”. Quando o Benfica venceu a Youth League 2021/22 marcou 14 golos em seis encontros da fase de grupos, goleou o Sporting de Renato Veiga, Dário Essugo ou Mateus Fernandes por 4-0 em Alcochete e arrasou, por 6-0, o Red Bull Salzburg na final.
“Sinto-me feliz”

Em França, Luís Castro tem conhecido o país que, provavelmente, é a maior fonte de talento futebolístico do mundo. Todos os anos saem dos diversos escalões gauleses jogadores que vão alimentar os mais variados campeonatos do planeta.

O minhoto refere a “variabilidade genética enorme” que existe no futebol francês: “Há jogadores de 1,90 metros a correr a 35 ou 36 quilómetros por hora, há jogadores altos, rápidos, mais baixos, mais técnicos, há de tudo. Tudo o que um treinador gosta vai encontrar aqui.”

Os bons resultados no Dunkerque têm chamado a atenção de outros clubes. Luís Castro já teve oportunidades para sair, inclusivamente abordagens “financeiramente melhores”, mas “o dinheiro não é tudo”. “O dinheiro faz falta a toda a gente, mas sinto-me feliz e sinto que as pessoas me valorizam”, confessa o treinador, que descreve a relação com Demba Ba como “excelente”.

Para já, o objetivo de mostrar-se a outros mercados está a ser cumprido. “Já tenho algum nome em França, as pessoas do futebol conhecem a forma de jogar do Dunkerque, o que tem sido uma vitória”, aponta o treinador.

O emblema da terra que inspirou filmes épicos sobre a Segunda Guerra Mundial nunca esteve na Ligue 1. Está a subida a ocupar a cabeça de Luís Castro? “Penso jogo a jogo. Quando olhamos muito para a frente, não vemos o degrau que temos mais perto e podemos cair. Sabemos que os orçamentos, infra-estruturas, condições de treino, jogadores contratados e salários pagos de outros clubes são muito diferentes dos nossos. Penso jogo a jogo, mas garanto que vamos jogar sempre para ganhar.”

Luís Castro não é “uma pessoa acelerada” nem quer que “aconteça tudo ao mesmo tempo”. Depois do êxito na formação, a paciência no Norte de França está a ter resultados. Juntamente com um senegalês e um turco, um português faz o Dunkerque sonhar.


 

 

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Citação de Chandler, há 18 horas:


 

Spoiler

“Era treinador do Almada, na distrital, e fomos a primeira equipa a usar o GPS durante uma época inteira. Na I Liga ainda ninguém utilizava”

Filipe Çelikkaya, 39 anos, deixou o Sporting B, após quatro anos, para dar início à carreira como treinador principal. Com várias propostas em cima da mesa, o técnico decidirá o seu futuro em breve, mas antes recordou ao Casa às Costas como tudo começou. Do sonho de ser jogador, à escolha pela vertente académica e à perspicácia de ser o primeiro em Portugal a dedicar-se ao uso do GPS no futebol, Çelikkaya revela os passos que deu até começar a treinar a formação do Benfica, fala da passagem pelo Al Ahli como adjunto de Bruno Lage, e do Sporting, antes de tornar-se adjunto de Luís Castro

Nasceu em Lisboa, mas tem um apelido estranho. Podemos começar por aí. De onde vem o Çelikkaya?
Do meu pai, que é turco. A minha mãe é portuguesa, de Lisboa, o meu pai cresceu numa terra no interior da Turquia chamada Eskisehir, mas cedo quis conhecer o mundo. Fez uma viagem pela Europa durante dois a três anos até que chegou a Portugal e conheceu a minha mãe. A partir desse momento nunca mais saiu de Portugal, exceto para trabalhar no estrangeiro ou visitar a família. Quando nasci o meu pai estava à procura de emprego, mas fazia de tudo um pouco, e a minha mãe não trabalhava. Ele depois conseguiu arranjar emprego na área da eletrotecnia industrial e foi subindo na carreira.

Tem irmãos?
Sou filho único.

Onde cresceu?
De início estive na zona do Monte da Caparica, no conhecido ‘Bairro do Pica Pau Amarelo’, ou apenas ‘Bairro Amarelo’. Era um bairro social, a minha família praticamente toda vivia lá. Depois fomos para Estarreja devido ao emprego do meu pai, mas viemos novamente para baixo, para Almada, tinha eu uns cinco anos e foi aí, em Almada, que cresci. Embora eu fosse muitas vezes ao Bairro Amarelo, ao fim de semana, para estar com a minha avó, a minha tia e os meus primos. Joguei muitas vezes futebol no bairro, na rua.

Foi uma criança tranquila ou deu muitas dores de cabeça?
Sempre fui muito responsável. Apesar de ser filho único, a minha casa estava sempre cheia de amigos. Estávamos sempre na rua a jogar futebol. O nosso sonho naquela altura era ser aceite numa equipa de futebol no Almada ou no Cova da Piedade, os clubes da zona.

Gostava da escola?
Não gostava muito. Hoje tenho outra visão sobre a educação, até porque segui a parte educativa, mas quando era miúdo não gostava.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Jogador de futebol.

Quem eram os seus ídolos?
Ronaldo Nazário [Fenómeno] e o Figo. Mas também gostava muito do Vítor Baía porque comecei na baliza, como guarda-redes.

Torcia porque clube?
Pelo Benfica.

Porque escolheu a baliza?
Eu era o mais pequenino e se calhar o mais novo da malta da rua e como éramos muitos, os mais velhos metiam-me na baliza, mas à medida que fui crescendo comecei a ir para a frente, já tinha capacidade para decidir e às vezes também não ia à baliza porque era o dono da bola [risos]. No início tanto na rua e no Cova da Piedade, para onde fui com 10 anos, era guarda-redes. Mas um dia cheguei a casa e disse: “Eu já não gosto de ir à baliza, não gosto de ser guarda-redes, gosto de jogar na frente, sinto-me triste na baliza.” E comecei a ir às captações, tinha uns 12 anos e meio. Mas há outro pormenor interessante pelo meio.

Conte.
Além de futebol, também jogava andebol no Cova da Piedade, às escondidas. Ninguém podia saber, os meus pais sabiam, mas não me diziam nada. Era infantil e jogava nos iniciados. Até que um dia fui apanhado pelo motorista. Joguei no sábado nos infantis ou nos iniciados de 1.º ano e, no domingo, fui convocado para o andebol. O motorista que nos levava aos jogos era o mesmo. “Ó miúdo, então, mas tu não tinhas jogado ontem nos infantis do Cova da Piedade?” Vieram falar comigo, disseram-me que tinha de escolher. É uma coisa que não se deve fazer nessas idades, porque se um miúdo mostra vontade em ter conhecimento das outras modalidades deve fazê-lo. Mas antigamente não havia esse conhecimento, e acabei por desistir do andebol.

Dizia que começou a ir às captações de outros clubes. Onde foi tentar a sorte?
Fui às captações do Sporting, como iniciado de 1.º ano. Passei todas as etapas finais como defesa esquerdo. Íamos no autocarro para a Torre, todos nervosos e ansiosos. Fui passando por todas as etapas, cada vez éramos menos, até à final. Na última prova, acabei por não ficar.

Deve ter ficado muito desiludido.
Fiquei, muito.

Como passou de guarda-redes para defesa esquerdo?
No Cova da Piedade, quando passei dos infantis para os iniciados de 1.º ano, os iniciados estavam no campeonato nacional e cheguei junto do treinador, Edelfrides Lima, que foi jogador do Sporting, e disse-lhe que queria ir jogar na frente. Ele: “Mas tu és guarda-redes. És melhor que os outros?”; “Sou, sou melhor que os outros.” Faço um treino na frente, ele no final, diz: "Miúdo, tu já não vais para a baliza, vais jogar a lateral esquerdo". E fiz a época no campeonato nacional, na frente, sem nunca ter jogado à frente antes [risos]. Depois surgiu a hipótese de ir ao Belenenses. O treinador era o Paco González, que foi um grande jogador no Belenenses. Fiz dois treinos, chamou-me, perguntou se o meu pai estava na bancada, foi falar com ele e disse: “O teu filho tem muita qualidade, gostava muito que viesse para aqui.” E também fui, a convite, ao Benfica. Fiz uma semana de treinos, disseram que gostavam que eu ficasse, mas não garantiam que ficasse na equipa, podia ir para o CAC da Pontinha, com quem tinham protocolo. Nesse ano, quem vai para o CAC da Pontinha, de quem depois fui adversário, é o Ruben Amorim e o Miguel Veloso.

Porque não ficou no Benfica?
Disse que já tinha clube, o Belenenses, e o treinador que já não me recordo se era o Bastos Lopes, disse que eu fazia bem, que era um clube espetacular. E fui. O Paco Gonzales assina comigo, mas, estou de férias, o Paco sai e vem o treinador Fernando, que foi campeão distrital um ano antes de eu estar nos iniciados do Cova da Piedade. Quando me viu: “Mas tu não eras guarda-redes no Cova da Piedade?” Ele ficou meio na dúvida. Começaram os treinos no verão e senti que me meteu um bocadinho de parte. Aquilo foi andado e acabei por me tornar uma referência, fui capitão. Estive lá cinco anos, até ao último ano de júnior.

Não continuou porquê?
O Belenenses estava caótico na altura. Acabam por achar que não tenho qualidade suficiente para lá estar.

Ainda mantinha o sonho de ser jogador de futebol, ou já tinha percebido que não ia dar?
Não foi tanto nos juniores do Belenenses que percebi. Ainda fui para a III Divisão. Antigamente não havia segundas equipas, não havia campeonato sub-23, não havia nada, se houvesse, como eu tinha empresário, se calhar tinha dado.

Quem era o seu empresário?
Ana Almeida, que começou a agenciar miúdos. A mim, alguns jogadores do Sporting, julgo que agenciou o Nani. No 1.º e 2.º ano tive oportunidade de assinar pelo 1.º Dezembro, o falecido Fernando Cunha, da Piriquita, chamou-me e deu-me um dinheirinho para as férias, o treinador era o Arnaldo Teixeira, com o Rui Vitória como adjunto.

Mas não ficou no 1º Dezembro.
Não. Assinei, faço uma microrrotura na zona do abdómen, mas na altura até descobrirem o que era levou tempo, não havia as máquinas de hoje. Uns diziam que era uma fibrose, etc. Acabei por nunca jogar pelo 1º Dezembro, porque quando estou bom, a equipa já está a jogar e eu arranjo hipótese de ir jogar para o Fazendense, da mesma divisão. Tinha 19 anos.

Continuava a estudar?
Sim, estava a terminar o 12.º ano. Lembro-me que nos sub 19 do Belenenses, eu e o Ruben Amorim tivemos de sair das nossas escolas e ir para a Fernão Mendes Pinto, para conseguir ir aos treinos. Quando vou para o Fazendense o Ruben continua na equipa A do Belenenses. Eu fazia todos os dias Almada, Fazendas de Almeirim. No final da época disse que não dava para continuar a fazer 200 km por dia e ainda estudar. Tinha terminado o 12º ano e logo a seguir vou para o Atlético Clube do Cacém. O treinador era Silveira Ramos, era um projeto muito giro em que iam buscar os jovens jogadores, que ainda não tinham aparecido no panorama nacional, mas que tinham tido formação em clubes como o Sporting, o Benfica, o Belenenses, para trabalhá-los e irem subindo patamares. O contrato era porreiro e eu já tinha entrado para a faculdade.

Entrou para que curso?
Entrei em Ciências do Desporto na Faculdade de Coimbra.

Com que objetivo?
Nessa altura eu já começo a pensar em ser treinador. Tinha uma réstia de esperança que pudesse chegar a um nível porreiro, mas já estava a pensar como treinador. Um dos meus treinadores, o Morgado, que está no Brasil, deu uma entrevista a dizer que eu já tinha essa preocupação nos juvenis e nos juniores de perguntar, de tentar perceber o que estava a fazer, porque o estava a fazer, porque tinha de correr na mata.

Frequentou as aulas em Coimbra?
Não. Depois tomei uma decisão. Falei com os meus pais, percebi que ia gastar algum dinheiro para estudar em Coimbra e que preferia estar numa universidade perto de casa para poder continuar no Atlético do Cacém. E vim para a Universidade Lusófona, para a Faculdade de Educação Física e Desporto.

Já tinha algum namoro sério, na altura?
Já namorava desde os 16 ou 17 anos. Mas não é a minha atual mulher. No Cacém foi giro, estávamos todos motivados porque o Silveira Ramos tinha muita experiência de futebol profissional, já tinha sido selecionador nacional. Ele na pré-época não queria saber dos resultados e fomos jogar com o Belenenses, com o Estrela da Amadora, só com equipas da I Divisão, para percebermos a que distância estávamos. Era um visionário no futebol. Jogámos e ficámos motivados porque achámos que conseguíamos chegar àquele nível do ponto de vista técnico. Uma semana antes de começar o campeonato, o Silveira Ramos vai embora porque o presidente deixou cair o projeto. Aquilo foi tudo por água abaixo. Ainda joguei uns jogos na III Divisão, tive uma lesão também e acabei por nem sequer terminar a época.

Mas ainda jogou no Oeiras e no Sintrense depois, ou não?
Sim, já estava no 2.º ano do curso, o meu professor de futebol na faculdade era o Paulo Leitão e disse-me para ir para o Oeiras fazer um treino à experiência. Fui e fiquei lá. Fiz a época. No ano seguinte, fui para o Sintrense, o treinador era o Paulo Morgado, que já me conhecia também. Tenho uma lesão muito grave no joelho, no menisco e no ligamento lateral. Fui sempre muito fustigado por lesões, no ano anterior tinha tido pubalgia. Nesse ano fui operado ao joelho. Ainda consegui fazer a fase final do campeonato, mas nessa altura já tinha uma proposta em mãos para ir para os Estados Unidos da América estudar e jogar na I Divisão, com bolsa. Já estava no 3.º ano de faculdade, cansado de lesões, sabia perfeitamente que não ia chegar a um nível elevado. Antes de ter a certeza que ia para os EUA, tinha começado a preparar a minha sucessão com o Paulo Morgado e ia começar como adjunto dele na III Divisão no Sintrense. Fui de férias, comecei a pré-época como treinador-adjunto dele, mas passado duas semanas o telefone tocou, estava tudo tratado para ir para os EUA, com uma bolsa de estudos de 100%. Pelo meio, ainda fiz outra função, para o Rui Jorge.

O quê?
Quando estava no Sintrense, o Rui Jorge começou a sua carreira como treinador e precisava de um analista. Através de um amigo em comum, o Rui pediu para eu ir ter com ele. Queria que eu fizesse a análise das equipas adversárias, só que não tinha dinheiro para me pagar. Eu, desejoso de começar a treinar, aceitei. Ele deu-me uma minuta com tudo: organização ofensiva, organização defensiva, transição defensiva e ofensiva, bolas paradas, análise individual. Tinha tudo e mais alguma. Comecei a ir ver os jogos e a apresentar os relatórios ao Rui. Levava uma câmara fotográfica, que dava para passar a vídeo, e comecei a filmar as bolas paradas, escondido. Na altura não era comum. Entretanto, surgiu a situação dos EUA.

Foi para a Sacred Heart University. O treinador da equipa de futebol da faculdade era português?
Era o Joe Barroso, que jogou no Chaves durante muito tempo, depois imigrou para os EUA e nunca mais regressou. Entrou naquela faculdade como treinador.

Como foi o primeiro embate quando chegou aos EUA, em 2008?
Foi difícil porque não estava habituado àquele tipo de cultura. Não havia a informação que há hoje. Era uma cultura mais rápida, a socialização era diferente. Era um pouco por grupos. As pessoas identificavam-se com determinado grupo e estavam com aquele grupo. O grupo do soccer, o grupo do futebol americano, o grupo da dança. Não era muito comum misturarem-se. Vivem o desporto de uma forma muito forte, não só o futebol americano ou o basquetebol, eles têm uma data de estímulos desportivos. Nós só temos o futebol.

Foi viver para onde e com quem?
Fui viver para os dormitórios da faculdade, em Fairfield, no Connecticut. Tinha um companheiro de quarto que nunca tinha conhecido, mas que entrou no mesmo ano e na mesma altura que eu na equipa de futebol. Era o Aaron Kiely, que vinha do Fulham, de Inglaterra. Foi o meu grande aliado durante a minha curta estadia e ficámos amigos, já esteve aqui na minha casa. Na altura eu pensava que falava inglês bem, mas era o básico. Tive dificuldade em expressar-me e que me entendessem algumas vezes e por isso foi mais difícil a minha adaptação. Mas passado seis, sete meses já estava perfeito porque falava inglês diariamente.

Porque foi curta a estadia?
Porque o nível de futebol que eu procurava e a velocidade com que eu queria as coisas não aconteciam da forma como eu queria. Eu queria uma coisa mais virada para o treino propriamente dito e é aí que nos diferenciamos, ali havia muita teoria. Decidi vir embora, porque pensei, já tenho praticamente o curso feito. Faltavam-me duas cadeiras para finalizar a licenciatura. Um pouco contra a família e amigos que achavam que eu devia ficar nos EUA e fazer vida lá, vim embora porque havia uma voz interior que me dizia que não era esse o caminho.

Está arrependido dessa decisão?
Não. Foi uma das melhores decisões da minha vida. Tive de contactar com aquela realidade para aprender o inglês bem, para ver outro mundo além de Portugal, criar contactos, mas também para perceber que não era ali que eu devia estar. Voltei para terminar a faculdade e tentar voltar novamente ao treino. Acabei as duas cadeiras que me faltavam e comecei a treinar no Almada. Treinava os sub-17 e os sub-13, estava lá a tarde toda. As coisas correm bem, somos campeões distritais de juvenis e surgiu a hipótese no ano seguinte de ir para os iniciados do Benfica.

Surgiu através de quem?
Do Luís Araújo e do Manuel Ribeiro, que na altura era o diretor da formação do Benfica. Estavam à procura de um treinador para os iniciados de 1.º ano. Como eu já tinha bagagem de jogador e alguma experiência como treinador, convidaram-me.

Treinar os miúdos da formação foi algo que sempre quis e gostava?
Eu tinha de começar por algum lado. Se calhar passei muito tempo na formação sem necessidade porque, no fundo, não era o que eu queria. Um treinador da formação tem que se adaptar ao escalão e é muito difícil, a linguagem tem que ser diferente, é preciso ter capacidade e sensibilidade de perceber que um miúdo de 14 anos não é um de 18, e, sinceramente, vi-me sempre nos seniores, ou numa equipa B. Sempre me vi com os homens, nunca me vi com os miúdos, mas tinha de começar por ali. Na Academia do Seixal já havia outras condições e juntou-se uma mescla de treinadores, eu, o Luís Araújo, o Bruno Lage, acho que o Renato Paiva também lá estava, era uma quantidade de treinadores principais. Neste momento, o único que está no Benfica é o Luís Araújo, e o Lage e o Nascimento que estão na equipa A.

Quais foram os jogadores que treinou no Benfica e que tiveram maior sucesso?
Nesse ano a minha equipa tinha o Rúben Dias, o Renato Sanches, o Diogo Gonçalves, o Pepê, João Carvalho e Pedro Amaral, por exemplo.

Qual era a sua maior ambição? Como se projetava no futuro?
Acho que o sonho é comum a todos os treinadores: ouvir o hino da Champions League. Esse era o sonho maior. E o meu sonho enquanto treinador era, claro, estar numa equipa a lutar para ser campeão, para chegar à Champions League e jogar com os melhores da Europa. Essa era a minha ambição.

Esteve dois anos no Benfica.
Sim, passo depois para os juvenis, eu e o Lage estamos nos juvenis e o Lage depois acaba por sair para o Al Ahli. Continuei nos juvenis, o Renato Paiva subiu, ainda faço o torneio na Irlanda mas, entretanto, o Lage ligou-me a perguntar se gostava de ir para os sub-19 do Al Ahli com ele. Porque não? Financeiramente não era muito melhor, mas ia ter outra experiência internacional e já sabia que era difícil viver fora de casa.

Ainda vivia com os seus pais?
Sim.

Com que primeiras impressões ficou quando chegou?
O primeiro impacto foi quando saí do avião. Faço uma inspiração e senti uma coisa totalmente diferente nos pulmões. O calor, a humidade, nunca tinha sentido aquilo. Depois os horários dos treinos, a cultura, é totalmente diferente, é mais noturna do que matinal, o que influencia diretamente o futebol. De início tivemos de procurar restaurantes com comida boa, para almoçar e jantar, e saber onde comprar comida. Na terceira semana, estava um calor inacreditável e nós andávamos com o carro a fazer prospeção dos sítios onde podíamos comer. O Lage ou eu parávamos o carro à porta do restaurante, o outro ia lá dentro buscar o papel do menu, voltava para o carro e seguíamos para o seguinte. Depois de ter os panfletos todos, chegávamos a casa e escolhíamos onde queríamos ir. Também me lembro das primeiras vezes que fomos à praia.

O que tinha de diferente?
Não tínhamos noção que às 10 ou 11 horas da manhã não podíamos ir à praia [risos]. Metemos o carro junto à praia, demos um mergulho, mas não conseguimos estar mais do que dois minutos dentro da água, porque estava super quente, o tempo cá fora estava quente, claro que não conseguimos ali estar. Tivemos de aprender a lidar e a saber as horas em que podíamos ir à praia, ou muito cedo, ou mesmo no final do dia quando já não estava assim tanto calor. Experimentámos comer com a mão, todos à rodinha, aprendemos que durante o Ramadão em locais públicos não podes beber água por respeito àqueles que estão a viver esse momento. Ganhámos mundo com estas experiências.

Os jogadores eram bons?
São jogadores que têm alguma qualidade técnica, necessitam trabalhar todas as vertentes do corpo, do descanso, de se alimentarem bem, são países onde é preciso ter algum cuidado devido aos horários que fazem, porque o clima influencia tudo o resto. Quando lá chegámos começámos a treinar às 10 da noite, o treinador da equipa A era o Quique Flores. Chegávamos a casa à uma da manhã, íamos jantar a essa hora e deitamo-nos às três, quatro da manhã. Depois os horários mudaram e começámos a treinar às sete. Foi uma experiência fantástica para mim, nesse mesmo ano decidi que em termos contratuais queria outras condições, até porque tinha a minha namorada em Portugal e queria levá-la para lá. Tinha de valer a pena do ponto de vista financeiro e de acomodação. Mas não cheguei a acordo com o clube e vim embora. O Lage continuou, mas eu sentia que aquele não era o meu caminho.

Gostou de trabalhar com Bruno Lage?
Sim, já trabalhava com ele no Benfica, de uma forma indireta. O Lage é uma pessoa muito organizada. Fomos muito corajosos porque abrimos portas. Saímos do Benfica em 2012, para ir para o Emirados, não era muito comum.

Tem histórias para contar dessa experiência nos Emirados?
Recordo-me de coisas engraçadas. Os árabes, quando queriam falar connosco, davam-nos a mão e caminhavam connosco de mão dada, são coisas da cultura deles. Estávamos a ver o jogo e ao intervalo vinham oferecer-nos chá. Eles estavam sempre muito tranquilos e gostavam que os treinadores vissem o jogo de uma forma tranquila, sem grande intervenção, sem grandes gritos, sem grandes correções. Era giro perceber isso.

O que aconteceu a seguir na sua carreira?
Pensava que poderia ter aqui ou ali uma porta aberta para me integrar no futebol profissional. Ainda fui bater a algumas portas do setor profissional. Não tinha empresário e com 26 anos ainda não tinha muita noção de como é que se tratavam as coisas. Bati a algumas portas que não se abriram.

A que portas foi bater?
Clubes profissionais, que prefiro não mencionar. Resolvi dedicar-me a uma coisa que não estava muito explorada cá: a monitorização dos jogadores. O que faziam no treino e como isso se repercutia no corpo deles. Como não arranjei clube no imediato, sou convidado pelo professor Jorge Proença, diretor da Faculdade de Educação Física da Universidade Lusófona, e do professor José Curado, para constituir com eles o Instituto Lusófono do Treino Desportivo. A formação dos treinadores estava parada. A faculdade decidiu constituir um instituto que desse vazão aos títulos desportivos dos treinadores nas mais diversas áreas do futebol, do surf, da acrobática, da ginástica, de tudo. Ou seja, aquele instituto era para formar treinadores de forma contínua, mas também para dar o título profissional para exercerem a profissão. Dei início a isso, mas fiquei com a sexta-feira livre para tirar o mestrado em alto rendimento na Faculdade de Motricidade Humana. Estive dois anos na FMH, uma no tronco comum, em que faço amizade com alguns professores e dou início à minha carreira profissional de forma mais séria.

O que quer dizer com isso?
Faço uma tese de mestrado que foi a pioneira em Portugal, e talvez na Europa, sobre a monitorização da carga de treino em equipas de futebol, através de GPS. Tive a oportunidade que me fornecessem o melhor GPS da altura, já era treinador dos seniores do Almada, treinava na I Divisão Distrital. Acho que foi a primeira equipa a usar o GPS durante uma época desportiva inteira. Era uma equipa distrital, os jogadores não ganhavam dinheiro, eu ganhava porque me foi proposto fazer um trabalho diferente. Éramos se calhar a única equipa da distrital que à quarta-feira fazia trabalho bidiário. Foi uma experiência muito interessante.

De que forma é que no ano seguinte, em 2015/16, foi parar ao Sporting?
Não terminei a época no Almada porque fui convidado pela empresa que me tinha emprestado os GPS para dar formação e mostrar a forma de utilização do dispositivo. A primeira pessoa em Portugal, quando eu ainda estava no Almada, que me abriu as portas para utilizar aquele material foi o Rui Vitória, no Vitória de Guimarães. O adjunto dele era o Arnaldo Teixeira, que tinha sido meu treinador no 1.º Dezembro. Fui quatro dias para Guimarães, com autorização do presidente do Almada, porque na I Liga ainda ninguém utilizava aquilo. O Vitória foi o primeiro.

Qual era concretamente o seu trabalho?
Era mostrar aos treinadores o que os jogadores tinham efetivamente feito no treino. Percebeu-se que faziam coisas diferentes uns dos outros, porque são de posições diferentes, não fizeram todos à mesma velocidade, não fizeram o mesmo número de acelerações, etc.. Percebeu-se que exercícios com regras diferentes promoviam no jogador coisas diferentes e começámos a dissecar o que era o treino de cada equipa. A partir desse momento tive o convite de ir ao Celta de Vigo, ao Olympiakos, com o Vítor Pereira, ao Zenit com o Villas-Boas, tive convite para ir a muitos clubes. Isso tornou-se incomportável com ser treinador principal do Almada. Refleti e pensei, esta é a minha porta de entrada para o setor profissional de alto rendimento. Apostei nisso, ensinar a utilização do GPS. Isto veio romper um pouco com o paradigma de que o futebol era só tático. Em Portugal não tínhamos os dados físicos da coisa.

Ainda não explicou como foi parar ao Sporting.
Assim que acabou a época, fui convidado pelo Paulo Leitão, que era o diretor-desportivo e que já conhecia o meu trabalho, para ser treinador-adjunto dos sub-19 do Sporting, não sabendo quem era o treinador principal. É nessa altura que entra o Bruno de Carvalho na presidência. Mais tarde vim a saber que o Tiago Fernandes era o treinador dos sub-19 e comecei a trabalhar com ele. Estivemos juntos dois anos, somos campeões nacionais de juniores, em 2016/17. Construí uma boa amizade com ele, éramos muito diferentes, mas muito próximos. Tivemos dedo em muitos jogadores que estão hoje no patamar mais alto.

Como, por exemplo?
Rafael Leão, Merih Demiral, Tiago Djaló, Thierry Correia, Daniel Bragança, Jovane Cabral, Pedro Ferreira, muitos, muitos. Entretanto, apesar de não o conhecer e de só ter estado com ele uma ou duas vezes, sou convidado pelo Luís Castro para ir com ele para o Chaves. Ele tinha-me conhecido quando era diretor-técnico do FC Porto e estava à frente da equipa B.

Tem alguma história, algum episódio em particular que se recorde desses primeiros anos no Sporting?
Lembro-me de um jogador que chegou ao clube, não estava habituado a um clube daquela dimensão, ao tipo de comportamento que tínhamos de ter em campo e com regras em função da posição dele, e há um cruzamento à direita, o ponta de lança está na área, ele estava a jogar como ala esquerdo e a zona que devia ter sido ocupada por ele estava vazia. Começamos à procura dele e ele estava do outro lado, fora do campo, a beber água com o apanha-bolas. No final fomos falar com ele e diz: “Mister, estava cansado, parei ali um bocadinho para beber água, mas depois eu ia entrar naquela zona.” Acabou por não entrar porque estava a beber água [risos], mas hoje está na I Liga a jogar e com grande qualidade individual. Isto para dizer que um miúdo tem um processo em cima dele e ao longo do tempo é ajudado pelas pessoas que trabalham com ele de forma a que consiga entender o jogo, tomar as melhores decisões, saber o que deve fazer na posição que ocupa, e tudo isto não acontece do dia para noite, requer tempo e paciência.

O que lhe disse o Luís Castro quando o convidou para integrar a sua equipa técnica no Desportivo de Chaves?
Perguntei-lhe qual era o objetivo. Ele disse que era ir subindo patamares e dali a uns cinco ou seis anos chegar à Champions. Indo com calma. Disse-lhe que podia contar comigo. A proposta era muito boa, o Luís tem muito cuidado com os adjuntos nessa matéria, o que faz dele também uma boa pessoa.

Como foi estrear na I Liga?
O campeonato estava com muita qualidade na altura. Curiosamente conseguimos um bom recrutamento durante o verão. Passámos por muitas dificuldades no início da temporada em Chaves, mas depois conseguimos ser reconhecidos pela nossa maneira de jogar e esse era o nosso objetivo. Foi pena não termos conseguido a Liga Europa nas últimas duas jornadas, mas conseguimos fazer um 6.º lugar, que na altura estava fora das expectativas.

Gostou de viver em Chaves?
Adorei. Tenho muitas saudades de ir ao Restaurante Aprígio, de ir ao Restaurante Lavrador, do senhor Santos. Passei lá grandes momentos. Os transmontanos têm uma qualidade fantástica, sabem receber. Entretanto, também já estava com a minha atual mulher, a Daniela. Ela ia muitas vezes ter comigo a Chaves.

Conheceram-se onde?
Num casamento, no Porto.

O que ela faz profissionalmente?
Está na parte de divulgação e marketing de projetos da Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova.

Histórias para contar de Chaves, tem?
Tenho uma engraçada. O Luís Castro chegava à segunda-feira, tirava uma nota de cinco euros, pedia a cada um da equipa técnica que também colocasse em cima da mesa uma nota de cinco euros e dizia: “Esta notinha tem de dar para a semana toda. Quem gastar a nota toda, perde.” Isto porquê? O clube pagava-nos todas as refeições, mas como o calor era muito em Chaves no verão, havia a tendência de irmos comer um gelado à noite, então aquilo era para perceber quem não resistia e ia comer um gelado. Era uma brincadeira que ele fazia connosco. Mas também me lembro de outro episódio.

Força.
Nós íamos muitas vezes comer ao Lavrador e o senhor Santos, que é o dono do restaurante, prometia-nos que iam caçar javali e íamos comer javali. Aquilo ficou marcado, todos os dias falávamos no javali feito por eles. Acabámos por ir comer javali para uma garagem com uma fumarada incrível devido à forma como cozinharam o animal e lembro-me que o cheiro daquele jantar não me saiu do casaco durante umas duas semanas [risos].

O início de época não foi fácil. Porquê?
Fizemos uma pré-época fabulosa a jogar bem, as outras equipas com muita dificuldade em jogar contra nós e depois, nos primeiros jogos, perdemos. Só que uma coisa é estar numa pré-época, sem pressão, em que vais fazer um jogo-treino com o Vitória de Guimarães ou com o Boavista e não tens público. Estávamos a ter uma forma de jogar que exigia coragem, tens de ter coragem de ter a bola e de fazer coisas sobre pressão, mesmo errando, à frente de 20.000 pessoas. E isso é muito difícil de se fazer. Só os jogadores especiais é que o conseguem fazer. Vamos a Guimarães no primeiro jogo, quase 25.000 pessoas no estádio. Queremos ter bola, queremos os adversários no meio-campo defensivo deles, muita gente na área, muito agressivo sobre a baliza. Perdemos em Guimarães. Na 2.ª jornada, perdemos, depois empatámos em casa se não me engano. Estamos em último lugar praticamente. Estávamos a ficar tristes.

O que fizeram para tentar dar a volta à situação?
Vamos jogar ao Estoril Praia, que estava bem. O Luís Castro diz à equipa técnica: “Malta, se perdermos este jogo, não vamos continuar, porque não estamos a corresponder às expectativas.” O presidente já tinha vindo ter connosco para dizer: “Meus amigos, vocês não vão sair daqui. Eu nem quero saber se vocês descem de divisão. Vocês estão a fazer bem o vosso trabalho e não queremos que vocês saiam.” Mas o Luís Carlos, mesmo assim, antes daquele jogo diz-nos que era melhor tirarmos tudo dos nossos cacifos e guardarmos no carro, porque não sabia se estávamos lá na segunda-feira [risos]. Vamos ao Estoril e ganhamos no Estoril, recebemos não sei quem em casa e ganhamos outra vez. Depois foi por ali acima. Fazemos um bom campeonato.

E são contratados pelo Vitória de Guimarães, em 2018/19.
Exato.

Um clube muito diferente do Chaves?
Em termos sociais é um clube diferente. São quase 30.000 pessoas nos jogos, um apoio fantástico, mas uma massa associativa exigente. Uma cidade fabulosa, que só tem um clube e as pessoas são desse clube, amam o clube desde pequeninos. Tinham um Neno que era responsável pela transmissão de valores aos miúdos, na escola. Era ver miúdos de manhã a passear na cidade e a cantarem as canções do Vitória. É uma riqueza cultural de um clube, que não existe em mais lado nenhum.

Como correu essa época?
Foi uma época muito difícil, só conseguimos o 5.º lugar no último jogo do campeonato, em Moreira de Cónegos. O mister já tinha tido uma oportunidade para ir para o Reading, no meio da época, e acabou por declinar o convite. Foi um campeonato muito renhido, num grande clube. Recordo-me que vínhamos de duas derrotas consecutivas e na 3.ª jornada íamos ao Dragão. Chegámos ao Dragão e ao intervalo estava 2-0. Houve grande confusão no intervalo, ficámos sem VAR na 1.ª parte, o VAR tinha começado há pouco tempo, a comunicação entre o VAR e o árbitro ainda era difícil. A forma como o Luís Castro falou com os jogadores no balneário, com palavras muito fortes, fez com que conseguíssemos dar a volta e ganhámos 3-2 ao FC Porto.

Tem mais histórias para contar dessa época em Guimarães?
Quando perdíamos, no dia seguinte havia alguma tristeza no gabinete, o Luís Castro estava triste, e de repente entrava o Neno pelo gabinete adentro, sempre com um sorriso na cara, independentemente do resultado. No final de uma conversa com ele de 10 minutos ou menos, conseguia meter-nos um sorriso de orelha a orelha com as coisas que dizia. Falava de recordações da vida dele, contava algumas parvoíces, era uma personagem do universo vitoriano fantástica e tive o prazer de conhecer.

A seguir vai com Luís Castro para o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. Teve outros convites?
Tive um convite para ir para o Benfica, com o Ruben Amorim. É público que depois ele acabou por não aceitar e eu, entretanto, fechei com o Shakhtar, depois já não ia voltar atrás. O Rubem vai para o SC Braga e felizmente juntamo-nos mais tarde. O meu pai estava doente na altura, inicialmente até tinha dito ao Luís Castro que não ia para o Shakhtar, não queria estar fora de Portugal para poder dar apoio ao meu pai.

O que tinha o seu pai?
Cancro no pulmão. O Luís Castro, por quem tenho muita estima, disse-me: “Vem. Vens mudar um pouco a tua vida, mas sempre que quiseres ir a Portugal, dou-te os dias que precisares para ajudares o teu pai.” Muitas das vezes eu ia com ele, fazer a quimioterapia, a radioterapia, os exercícios respiratórios, etc. O meu pai foi um grande lutador, porque ele dava dois passos e caía, mas felizmente conseguiu recuperar.

Essa hipótese que esteve em cima da mesa de ir para o Benfica, seria como adjunto do Ruben Amorim?
Inicialmente houve a possibilidade de eu pegar numa equipa e ele pegar noutra e fazermos essa ligação os dois. Depois o Ruben convidou-me para ser adjunto dele, mas não deu.

 

Spoiler

“Fui eu quem chateou a cabeça ao Ruben Amorim para ir fazer a pós-graduação do José Mourinho. Praticamente inscrevi-o”

Filipe Çelikkaya esteve quatro anos à frente da equipa B do Sporting, onde trabalhou em estreita colaboração com o amigo Ruben Amorim. Nesta parte II do Casa às Costas desta semana, fala-nos da ida para o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, como adjunto de Luís Castro, do que significou ser campeão e ouvir o hino da Champions com a bandeira a bailar no centro do relvado. Mas também conta histórias, faz reflexões, revela como quase obrigou Amorim a fazer um curso na FMH e opina sobre o atual momento do Sporting, além de explicar do que pretende para o futuro

O que encontrou quando chegou ao Shakhtar Donetsk, em 2019/20, como adjunto de Luís Castro?
Um clube gigante, jogadores fantásticos, estrutura muito bem preparada para quem ganha muitas vezes. Uma ideia bem definida daquilo que era a mistura entre jogadores consagrados e jovens jogadores a crescer, para quando os primeiros saíssem estes estivessem preparados para integrar essas mesmas posições. Já estava tudo muito oleado. Uma equipa que nos deu a oportunidade de experimentar a Liga dos Campeões.

Que impacto é que teve?
Era o nosso sonho. Falo por todos. Estrear na Liga dos Campeões contra o Manchester City, do Guardiola, em casa... A sensação é incrível. É olhar para trás e perceber que todos os sacrifícios estão a ser recompensados no momento em que ouves aquele hino da Champions e vês a bandeira a mexer no círculo central. Só 5% dos treinadores no mundo têm uma experiência destas. Estar a jogar àquele nível, com aqueles jogadores, com o estádio cheio, naquela que era considerada a melhor competição do mundo de clubes... Agora a Libertadores também tem um nível bom, mas aquilo é o expoente máximo do futebol. Tu sonhas com aquilo, é o que te leva a continuares a trabalhar sob grandes dificuldades, sob grande pressão, sob exaustão e stress constante. É aquilo que te alimenta para teres uma grande estabilidade emocional, para continuares a desenvolver trabalho. E esse ano leva-nos à meia-final da Liga Europa, leva-nos a grandes jogos europeus.

Como são os adeptos ucranianos?
São muito tranquilos. Muito fervorosos em relação ao seu clube, mas a cultura desportiva está a um nível que não estava à espera. Está avançada. Respeitam muito o adversário. Obviamente existem algumas fações que são mais combativas, mas nunca tivemos problemas com adeptos. Jogámos com o Dínamo de Kiev, em Kiev, e saímos do estádio a pé para apanhar um táxi e ir para casa. Veja-se o respeito que existe. Em Portugal é impensável sair do estádio do Sporting, ou do Benfica, e ir para casa sozinho no meio dos adeptos. Não acontece. Ter sido campeão ali foi muito bom porque é um clube vencedor e há essa pressão de ser campeão.

Filipe Çelikkaya na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

Filipe Çelikkaya na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

 

Ana Baiao

Há algum episódio especial que se recorde dessa época?
Um momento marcante foi eu olhar para o Luis Castro, quando somos campeões, e ver que se estreou na Liga dos Campeões e foi campeão nacional de seniores de um clube de I Liga aos 59 anos. Refleti muito sobre isso. Às vezes as pessoas querem as coisas muito rápidas, mas esquecem-se que, para atingir a excelência, é necessário tempo, é necessário sacrifício, reflexão, dissabores e continuar a pedalar para chegar a estes patamares e sentir essa alegria. Vivenciei esta conquista à minha maneira, com a minha família, mas sempre a olhar também para ele, para perceber que conseguiu alcançar um feito na vida profissional dele, com muito sacrifício pela frente, com vários cargos ao longo da sua carreira desportiva. Foi marcante.

Reviu-se nele?
Um bocadinho, porque privámos muito, partilhámos muitas coisas juntos, partilhámos também coisas nossas em que nos identificávamos muito um com o outro. Há outras histórias. O facto de Kiev ser uma coisa e outras cidades, como Mariupol, que agora está completamente destruída, ser outra. Já se sentia quando entrávamos naquela zona que é muito perto de Donetsk que tinha um ambiente muito pesado. Havia uma disparidade entre os estratos sociais, não só nessa cidade, mas em toda a Ucrânia. A classe média é quase inexistente. Vais-te apercebendo destes problemas sociais ao longo do tempo em que lá estás e refletes sobre isso, não é só futebol. E isso influencia a forma como tu vês aquele povo.

Como são os jogadores ucranianos?
São muito cumpridores, muito sérios a desenvolver a sua profissão e gostam de ser liderados. Ter treinado Stepanenko, Matvienko, Pyatov, uma referência lá, e perceber que são muito humildes, com muita vontade de aprender, foi uma das coisas que me marcou.

Em 2019/20, Filipe Çelikkaya (no centro) foi adjunto de Luís Castro (à direita) no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia

Em 2019/20, Filipe Çelikkaya (no centro) foi adjunto de Luís Castro (à direita) no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia

 

D.R.

Estava sozinho ou com a sua mulher?
Já tinha a minha mulher comigo. Lembrei-me de um episódio marcante. Estamos em Zagreb, faltam cinco minutos para acabar o jogo e estamos eliminados da passagem para os oitavos de final da Liga dos Campeões e também quase arredados da Liga Europa. Em três minutos conseguimos o empate que nos deu a hipótese de sermos apurados para a Liga Europa.

Quando acontece uma situação dessas em que o jogo vira a dois, três minutos do final, o que sente o treinador? Uma dívida imensa para com quem marcou os golos?
Não, aquilo é uma felicidade muito grande, momentânea, mas depois passa. Quando estás no avião de regresso já estás a ver o jogo que foi, os erros, já tens o relatório na mão do próximo jogo. Quando estamos a jogar de três em três dias, o trabalho é muito grande e às vezes nem temos tempo para usufruir da vitória, porque não vais ter folga no dia seguinte, vais treinar e passado dois dias estás a voar novamente, se o jogo for fora.

Não continuou na Ucrânia porquê?
Porque há uma chamada do Hugo Viana, a dizer que há abertura de espaço para um treinador na equipa B, porque ia ser reativada, mas há mais duas pessoas na corrida. Perguntou-me se teria interesse em falar com eles sobre aquilo que podia ser a equipa B e a forma como podíamos operar no futuro. Eu tinha mais um ano de contrato com o Shakhtar, mas aceitei conversar com várias pessoas dentro do Sporting, via Zoom, e expliquei qual a minha visão. Eu tinha a vantagem de já lá ter estado, de conhecer a maioria dos jogadores que lá estavam. Falei um pouco sobre aquilo que pensava para uma equipa B e a forma como esses jogadores poderiam ser aproveitados no futuro, ou podiam ser vendidos, caso não tivessem espaço na equipa A ou na I e II Liga em Portugal.

Esse convite teve o dedo de Ruben Amorim?
Acho que sim, mas não teve qualquer interferência na decisão. Ele próprio disse-me isso. Para ser mais correto, várias pessoas decidiram o meu ingresso no clube, em função do meu CV. Quando fui para o Sporting, se calhar também era o único campeão nacional por clubes. Naquela estrutura nunca ninguém tinha sido campeão nacional. Estou a falar de nível sénior. Optaram por mim, fiquei muito lisonjeado e foi uma oportunidade de vir novamente para casa e fazer um trabalho que gostava de ter feito no passado, mas sabia que tinha de ir por outros caminhos, para um dia voltar para um cargo daqueles.

Çelikkaya a assistir ao treino do Shakhtar

Çelikkaya a assistir ao treino do Shakhtar

 

D.R.

Foi fácil tomar a decisão de deixar Luís Castro e um clube ganhador de I Liga?
Falei com o Luís Castro, ele perguntou-me se era o que eu queria porque ia abdicar de alguma coisa, especialmente em termos financeiros, e de outras coisas, porque ia para uma equipa B. Mas se eu quisesse, como ele já tinha estado numa equipa B, podia transmitir-me um pouco o que é uma equipa B de um clube desses. Eu disse que sim, que estava preparado, que era uma coisa que eu queria, e que não podia deixar passar a oportunidade. Sem qualquer tipo de problemas, só me pediu que lhe desse pelo menos uma semana para resolver a situação do meu lugar.

O Sporting e o Benfica são muito diferentes quando falamos de formação?
A cultura é diferente. São dois clubes grandes, em que a formação estava em momentos diferentes. A formação do Sporting sempre com grande representatividade por ter um Cristiano Ronaldo, um Quaresma, um Figo, um Futre, e por aí fora. Quando passei pelo Benfica havia a necessidade de afirmação dessa mesma formação, a necessidade de ganhar títulos na formação, de promover jogadores vindos da formação, de fazer vendas da formação. Isso tem tudo a ver com estratégias e momentos do clube. Não é que exista grande diferença. Os momentos dos clubes é que eram diferentes. Agora, a qualidade dos jogadores, essa é muito idêntica.

Qual o jogador que mais o surpreendeu pela positiva? Aquele que não estava à espera que fosse tão bom?
O Rúben Dias. Não é que ele não fosse bom, ele já era bom, tinha comportamentos padrão que me permitiam dizer serem de alto nível, mas eu não tinha referências. Para mim é muito mais facilitador ter estado no topo e agora olhar para trás e dizer assim, este miúdo tem um padrão de jogador de topo. O Rúben Dias é um desses jogadores, tinha esse perfil.

Que perfil é esse?
É um perfil de quem tem um desejo muito grande de aprender e de vencer. Tem uma concentração no treino e uma responsabilidade fora do normal, também fruto daquilo que são os pais e a sua educação familiar. Depois tem aquilo que considero muito importante: nos insucessos ele consegue dar sempre boas respostas, consegue vir de um momento negativo para o momento positivo e não se deixa levar por aquilo. Há muitos jogadores que nos insucessos não conseguem trazer-se acima novamente. E era um desses miúdos que falava muito. Foi aprendendo depois a comunicar de uma forma mais equilibrada em termos de liderança. Ele dizia coisas muito certas, mas à medida que foi crescendo, foi aprimorando essa comunicação. Eu via nele um miúdo com muito potencial para chegar a patamares muito elevados. Acabou por chegar à equipa A do Benfica, ser transferido para um dos melhores clubes do mundo e ser uma referência neste momento a nível da seleção nacional.

Çelikkaya com a taça de campeão da Ucrânia, m 2019/20

Çelikkaya com a taça de campeão da Ucrânia, m 2019/20

 

D.R.

Fale-nos dos quatro anos à frente da equipa B do Sporting, dos momentos mais marcantes, que começaram logo na primeira época em que subiu a equipa do Campeonato de Portugal para a Liga 3.
Foi muito importante termos a oportunidade de criar aquilo de raiz. Tínhamos jogadores já com uma idade significativa, com 20 anos, a quem tínhamos de dar vazão porque queríamos apostar em jogadores mais jovens, mesmo sabendo que ia ser muito difícil depois a forma de lidar nos campeonatos de seniores. Mas conseguimos logo no primeiro ano, apesar das dificuldades.

Passado dois anos vai à final four da Youth League. Foi um marco importante?
Na época 2021/22 tomamos a decisão enquanto clube, eu, o Hugo Viana, o Ruben Amorim e a estrutura do Sporting, que os jogadores mais velhos ou entravam na equipa A, ou tinham de ser cedidos a outros clubes, não podiam continuar ali porque já tinham feito um ano de equipa B e iam para outros patamares. Tínhamos de apostar nos juniores da equipa, no Diego Callai, Dário Essugo, Rodrigo Ribeiro, Youssef Chermiti, Renato Veiga, Mateus Fernandes, Chico Lamba, Rafael Fernandes, jogadores que estão agora na equipa A ou nas I Ligas e que começaram ali como juniores. Ao tomar aquela decisão tivemos de ajustar-nos. Durante a semana muitas vezes só tinha quatro jogadores para treinar, uns iam treinar com a equipa A, outros iam treinar para preparar a Liga dos Campeões e eu ficava com aqueles que não podiam jogar em nenhum momento. Foi muito difícil ajustar esse processo. Tivemos de fazer um estudo interno, apresentei à estrutura do Sporting e disse que estávamos a retardar a evolução da equipa na Liga 3, porque eles estavam a ter estímulos e a ser constantemente solicitados de formas diferentes, o que também não era bom. Fiz essa apresentação e no ano seguinte a estrutura do Sporting atribuiu-me a Youth League dos sub-19 e novamente a Liga 3 com a equipa B. É nesse ano que fazemos uma boa Liga 3, com a infelicidade de nos últimos três jogos não termos conseguido o apuramento, mas não era esse o objetivo, nós estávamos ali a fazer o nosso trabalho e muito bem, até porque em média, por época, 40 jogadores iam à equipa A. Não há espaço melhor para avaliar jogadores do que aquele. Mas nesse ano fiz a Youth League e foi tudo mais fácil. Acabámos por projetar mais miúdos.

Pode dar exemplos?
O Renato Veiga sai da Liga 3 diretamente para a Bundesliga sem ter estreado na primeira equipa e agora está no Chelsea. Fazemos uma Youth League fantástica e às vezes os adeptos nem sabiam que era eu o treinador [risos]. Durante esse percurso perdemos cinco jogadores. Perdemos o Nazinho porque já tinha jogado três vezes na Champions League com a equipa A, perdemos o Fatawu que já tinha jogado na equipa A, o Renato Veiga porque foi transferido, perdemos o Chermiti porque já estava a chegar na equipa A, perdemos o Travassos também por lesão e o Dario Essugo.

Guardiola e Çelikkaya

Guardiola e Çelikkaya

 

D.R.

Entretanto, foi pai enquanto esteve no Sporting, certo?
Sim, da Maria Francisca que nasceu em 2021. No início deste ano nasceu a Maria Constança.

Qual o maior objetivo de um treinador da equipa B?
Formá-los do ponto de vista desportivo e social, ajudá-los a crescer como seres humanos, prepará-los para a vida real. Na equipa B, os miúdos não têm muito bem a noção do que é o setor profissional. Aquilo é uma bolha onde eles vivem e tenho de prepará-los para a realidade. Portanto, aquilo que definimos é que tínhamos de ser muito rígidos com as regras e muito disciplinadores. Depois, na parte desportiva, é prepará-los da melhor forma possível, terem tempo de jogo em função daquilo que apresentam nos treinos, para mostrarem a sua competência e depois encaminhá-los da melhor forma caso eles não consigam ficar na equipa A.

O que significa encaminhá-los?
Dar-lhes conselhos para escolherem o melhor espaço para darem seguimento à sua carreira ou então vendê-los e usufruir do dinheiro para o crescimento do clube.

Houve algum jogador que foi o Filipe quem descobriu e o deu a conhecer ao Ruben?
Não gosto de ter os louros só para mim, há uma quantidade de gente que o deve fazer.. Agora, claro que tenho de fazer relatórios e tenho comunicação com quem está acima, sobre os jogadores que considero que poderão dar um passo seguinte. O Geny [Catamo] foi um caso desses, e outros, não tenho necessidade de estar aqui a enumerar, mas muitos deles têm feito ótimas carreiras. Fazíamos relatórios e muitas vezes iam treinar à equipa A para comprovar aquilo que pensávamos deles. Foi sempre um trabalho em escadinha com o Ruben Amorim e o Hugo Viana. Tínhamos uma palavra a dizer, mas depois tem tudo a ver com o treinador da equipa A. Aquilo que ele acha que é o momento para meter estes miúdos, ou não, e se integra dentro daquilo que é o seu pensamento de modelo de jogo, de saber estar, saber ouvir, saber ser.

 

Çelikkaya regressou ao Sporting em 2020/21

Çelikkaya regressou ao Sporting em 2020/21

 

Ana Baiao

Deve ter muitas histórias para contar dos últimos quatro anos que passou no Sporting. Pode partilhar alguma delas?
Um jogador nosso, que fomos buscar ao México, o Jesús Alberto Alcantar, tinha carta há pouco tempo e alugou um carro, foi a Lisboa e quando vinha de regresso, ele morava no Montijo, decidiu parar no meio da Ponte Vasco da Gama, com o seu amigo, para tirar umas fotos. Parou o carro na berma, saiu do carro, tirou as fotografias e meteu no Instagram. Foi uma chacota na equipa B, porque ele não sabia que não podia fazer aquilo.

O que o levou a deixar o Sporting esta época?
Eu só tinha renovado por mais um ano com o Sporting, já para preparar a minha entrada noutro desafio profissional.

A sua saída não teve nada a ver com a saída do Hugo Viana e do Ruben Amorim?
Não. Acho que quatro anos é mais do que suficiente para ser treinador de uma equipa B. Não podes ficar alocado só a uma equipa B, porque aquilo é cíclico de conteúdo. Os jogadores quando começam a ficar muito preparados para ir para a equipa A já não podem estar ali, não podemos prendê-los. Eles têm que ir para outro patamar de rendimento.

Se o Ruben Amorim continuasse, ponderava continuar também?
Dependia de muita coisa porque já não estamos a falar só de questões emocionais ligadas ao clube e à minha ligação com o Ruben, do trabalho que fizemos. Também quero estimular-me noutros patamares competitivos para os quais sei que estou preparado, porque já lá estive. Quero transpor o conhecimento adquirido ao longo de 17 anos para esses patamares. Quero outros desafios.

Tendo em conta a substituição do Ruben e a série de maus resultados, era previsível ou surpreendeu-o?
Não quero falar diretamente do Sporting sobre esta matéria. Mas posso dizer que as estruturas são sempre as pessoas. É normal que uma estrutura que não tenha determinadas pessoas abandone um bocadinho até se recompor novamente. Mas é assim em todas as profissões e em todas as empresas. Quero só acrescentar que o Sporting teve o cuidado de fazer-me uma despedida na comunicação do clube na Sporting TV, através de uma entrevista para fazer um balanço dos quatro anos. Acho que nunca tinham feito isto a nenhum dos treinadores que saíram da equipa B. Tenho de estar agradecido pela forma como entrei e como saí, porque significa que ficaram satisfeitos com o trabalho que desenvolvi ao longo dos quatro anos.

Filipe Çeikkaya foi treinador da equipa B do Sporting de 2020 a 2024

Filipe Çeikkaya foi treinador da equipa B do Sporting de 2020 a 2024

 

Ana Baiao

Quais são hoje as suas maiores ambições?
Voltar ao ativo numa I Liga.

O que tem feito enquanto isso não acontece?
Tenho estudado muito, tenho ido a estádios, visto muitos jogos de vários países e tenho falado com muitas pessoas do meio.

Tem empresário?
Tenho uma pessoa que trabalha diretamente comigo, mas tenho outras também que me podem ajudar, por isso se calhar é melhor não nomear.

Nesta altura o seu objetivo passa só por treinar um clube da I Liga portuguesa?
Não. Quero voltar ao ativo num projeto que seja credível, onde exista uma visão para o futebol, que tenha uma linha de condução de crescimento desse mesmo clube e queria estar nesse projeto durante algum tempo.

Isso é possível, em Portugal?
Acho que é difícil, por isso estou a pensar ir para fora. Não quer dizer que não seja possível, porque foi possível no Sporting, no FC Porto, e durante alguns anos também foi possível no Benfica. No SC Braga existe essa possibilidade, mas o resto dos clubes têm andado a mudar bastante. Esta é a realidade dos factos.

Que mercados tem procurado?
A grande liberdade de um treinador é ter a possibilidade de escolher. Neste momento, posso escolher e vou escolher em breve, como é óbvio. Sou um treinador global, não fecho as portas a nenhum mercado. Tenho propostas do outro lado do Atlântico, e do outro lado totalmente oposto ao nosso [risos]. Gostava que fosse um projeto a longo prazo, pelo menos de dois/três anos, para construir alguma coisa que tivesse a possibilidade de olhar para trás e identificar-me. Vamos ver. Assim que saí do Sporting, passado uma semana o meu telefone tocou, mas decidi não ingressar nesses projetos, porque senti que não eram para mim.

Eram de Portugal?
Um deles era, e três não, eram do mercado árabe. Não queria ir para esses mercados agora, por isso decidi esperar. Em janeiro haverá novidades.

Çelikkaya com Ruben Amorim

Çelikkaya com Ruben Amorim

 

D.R.

Qual a Liga onde mais gostava de treinar?
A Premier League. Presentemente não é fácil, pode ser que um dia consiga.

Gostava de voltar a trabalhar com Ruben Amorim?
Sim, quem sabe um dia não possamos trabalhar juntos novamente ou ser adversários na mesma liga. A vida do futebol muda tão rápido e de uma forma tão brusca. Somos dois jovens que estudaram e jogaram juntos, que se reencontraram um dia no Sporting, que estava muito mal, e conseguimos alavancar o clube para outros patamares. Posso dizer que quando assinei o primeiro contrato, na presença do Hugo Viana, ele disse: "Celi, sabes que isto não está fácil" e eu respondi: "Hugo, não te preocupes, estamos todos no mesmo barco, vamos trabalhar para melhorar isto, se um dia tu ou Ruben saírem, eu também saio. Se for daqui a três meses é daqui a três meses, se for daqui a quatro anos ou três, é daqui a três ou quatro". Eu estava lá para fazer o meu trabalho quase em jeito de missão.

O que faz de Ruben Amorim um treinador tão especial e querido por todos?
Ele para a família e amigos foi sempre uma pessoa muito, muito boa, já o era antes de ser treinador. Aquilo é a continuidade dele num patamar de exposição maior. O que veem na televisão, em competição, é ele. O segredo do sucesso dele, é ser ele.

E o que é ser ele?
Conheço-o muito bem, aquela atitude leve nas conferências de imprensa, ele é mesmo assim. Nunca faltou ao respeito a ninguém, sempre respondeu a tudo, tem uma relação muito boa com os jogadores, já o tinha no passado, sempre foi uma pessoa de grupo, nunca uma pessoa individual que puxasse os louros só para ele. Por isso acho que as pessoas identificam-se com ele. Fico contente por ele. Fui eu quem lhe chateou a cabeça para ir estudar para a FMH. Fui eu que praticamente o inscrevi no curso de pós-graduação do José Mourinho. Propus que fosse fazer aquele curso porque achava que podia adicionar conhecimento ao que já sabia. Mandei-lhe as coisas, até mandei para a Maria João também e liguei ao professor António Veloso. Eu também dava aulas nessa pós-graduação e disse-lhe que tinha um amigo que eu gostava que pudesse entrar.

Çelikkaya (de preto à esquerda) festeja a passagem às meias-finais da Youth League, após vitória por 1-0 ao Liverpool

Çelikkaya (de preto à esquerda) festeja a passagem às meias-finais da Youth League, após vitória por 1-0 ao Liverpool

 

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Shakhtar.

Investiu?
Em imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Comprar um carro topo de gama. Não tenho assim grandes extravagâncias, talvez isso, ou uma roupa mais cara.

Tem algum hobby?
Gosto muito de fazer as minhas horas no ginásio e mais algumas aulas à parte. A minha atividade física é importante. Gosto muito de estar perto do mar, de usufruir do meu tempo em família e de estar com os amigos.

Acredita em Deus?
Acredito, mas não sou praticante.

Superstições, tem ou teve?
Não.

Tatuagens?
Não.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Acompanho o futebol americano, vejo basquete e padel. Gosto de ver tudo o que seja Jogos Olímpicos, sobretudo as distâncias mais curtas, de velocidade.

Qual a maior frustração na carreira?
Por incrível que pareça, não tenho.

E arrependimento?
Também não tenho. Quando tomo uma decisão não olho para trás e não me fico a lamentar.

O treinador da equipa B do Sporting a dar indicações aos jogadores

O treinador da equipa B do Sporting a dar indicações aos jogadores

 

D.R.

O momento mais feliz da carreira?
Ter sido campeão nacional pelos clubes por onde passei. E mesmo distrital, porque isto foi sempre a crescer. E ter tido a oportunidade de fazer estes quatro anos maravilhosos com tantos jogadores que ajudei a projetar para o mais alto patamar do futebol mundial.

Se pudesses escolher, qual o clube de sonho que um dia gostava de treinar?
Real Madrid.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Ruben, o Rui Jorge, o Miguel Barata, são muitos, não dá para nomear todos.

Alcunha, tem ou teve?
Não.

Há alguma regra do futebol que alterava ou bania, se pudesse?
Gostava que o tempo efetivo que o guarda-redes tem para repor a bola fosse mais rápido.

O que pensa do VAR?
Veio adicionar ao futebol a justiça em determinados momentos, mas ainda está a evoluir dada a sua recente iniciação. Os árbitros ainda estão a ser formados nesse sentido. Há estádios que não têm ângulos de câmara muito bons, não conseguem ver se calhar 100% todas as ações, mas para quem tem conhecimento como nós, treinadores, de como aquilo funciona, de facto, eles tentam fazer o seu melhor trabalho. Veio trazer alguma justiça ao jogo.

Tem algum talento escondido?
Faço um bom polvo à lagareiro. Mas há malta que já experimentou e diz que ponho muito azeite [risos].

Gostava de um dia treinar na Turquia, o país onde nasceu o seu pai?
Gostava, mas não tenho pressa para o fazer. Já tive hipótese de o fazer.

O que pensa do futebol turco?
É um futebol que está a evoluir bastante, tem muito talento que ainda não é aproveitado como devia.

O seu pai é adepto de alguma equipa turca?
Não.

Mais um festejo no Sporting, desta vez, da manutenção da equipa B na Liga 3

Mais um festejo no Sporting, desta vez, da manutenção da equipa B na Liga 3

 

D.R.

Por que razão seguiu a carreira de treinador?
Porque está um pouco na minha essência ajudar as pessoas a melhorarem o seu rendimento, a forma de olhar para as coisas e a serem melhores. Acho que essa deve ser a função do treinador. Se conseguir fazer isso está mais perto de vencer troféus.

Quais são hoje as grandes referências de treinadores?
Tenho vários. Todos os portugueses que estão em evidência, como é óbvio, seja o Luís Castro, o Paulo Fonseca, o Mourinho que é a referência máxima. Olho para os trabalhos dos colegas que andam a vencer, o Abel, o Artur Jorge e dou-lhes os parabéns; o Jorge Jesus, que também adicionou muito conteúdo àquilo que são os treinadores e todas as pessoas que trabalharam previamente com ele. Tive a felicidade de ter estado com ele tanto no Benfica como no Sporting, e ter bebido alguma coisa dele.

Em que se diferencia o Jorge Jesus?
Acho que é o rigor com que ele define os comportamentos dos jogadores e a forma como olha para o jogo. Mas todos aprendemos com todos. E claro, o Guardiola teve um impacto muito grande naquilo que é a transformação do futebol, o Klopp também, o De Zerbi à sua maneira também, portanto, vão surgindo treinadores com ideias boas e o futebol de há sete anos não tem nada a ver com o futebol de hoje. Eu estive uma semana com o Guardiola e quando cheguei deparei-me com um alto nível de exigência de conteúdo. Há uns anos, se calhar era impensável meter um central por dentro a fazer de médio, quando tinha bola. Isso foi o Guardiola que fez. Os laterais por dentro, isso também foi da iniciativa dele quando estava na Alemanha. Do Mourinho recordo a forma como as equipas eram agressivas no último terço, como tinham aquela agressividade e aquela organização num sistema e noutro.

Filipe Çelikkaya foi fotografado para a Tribuna no Hotel Crowne Plaza Caparica

Filipe Çelikkaya foi fotografado para a Tribuna no Hotel Crowne Plaza Caparica

 

Ana Baiao

Privilegia algum modelo de jogo?
Gosto muito de jogar com bola em 3x4x3 e a defender em função do que os jogadores também me permitirem, de acordo com as suas características.

Para terminar, tem mais alguma história na manga?
Há muito anos, no Sporting, um jogador que chegou e não estava habituado a um clube daquela dimensão, ao tipo de comportamento que tinha de ter em campo e com as regras em função da posição dele. Há um cruzamento à direita, o ponta de lança está na área, esse jogador estava a jogar a ala esquerdo e a zona que devia ter sido ocupada por ele estava vazia. Começámos à procura dele e vimos que ele estava do outro lado, fora do campo, a beber água com o apanha bolas [risos]. No final fomos falar com ele e ele: “Mister, estava cansado, parei ali um bocadinho para beber água, mas depois eu ia entrar naquela zona”. Hoje está na I Liga a jogar com grande qualidade individual. Isto para dizer que um miúdo jovem tem todo um processo em cima dele em que ao longo do tempo é ajudado pelas pessoas que trabalham com ele de forma a que consiga entender o jogo, tomar as melhores decisões, saber o que deve fazer na posição que ocupa, mas tudo isto não acontece do dia para noite, requer tempo e paciência.

 

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Spoiler

“O Ederson saiu por 40 milhões e foram buscar-me. Torci um bocado o nariz. O peso da baliza do Benfica era enorme, podia atingir o penta”

Bruno Varela, 30 anos, cresceu entre Santo António dos Cavaleiros e Cova da Moura, andou com amigos do bairro mal comportados, mas nunca se desviou do caminho da bola, apesar de ter sonhado ser bombeiro, ainda pequeno. Na rua jogava sempre na frente e foi no Ponte Frielas que acabou por se apaixonar pela baliza. Ingressou no Benfica, o clube de toda a família, perto de completar 12 anos. O sonho de defender a baliza principal do clube da Luz só se realizou depois de ser pai, aos 20 anos, e após ser emprestado ao Valladolid e ao V. Setúbal

Nasceu em Lisboa. É filho e irmão de quem?
Sou filho da senhora Joana Semedo e do senhor Lourenço Gomes Varela. A minha mãe sempre trabalhou no ramo das limpezas. Já tentei tirar-lhe o trabalho, mas ela ainda não quer. O meu pai trabalhou sempre na construção civil.

Os seus pais são ambos cabo-verdianos. Conheceram-se em Portugal ou vieram juntos de Cabo Verde?
Conheceram-se cá.

Tem irmãos?
Tenho dois irmãos mais velhos. Um rapaz e uma rapariga.

Em que zona de Lisboa cresceu?
Os meus primeiros meses foram na Pontinha, mas não tenho recordações dessa altura porque era muito pequeno. Depois fomos para Santo António dos Cavaleiros, que chamo o meu bairro, a minha zona, porque foi onde cresci e tenho as minhas amizades. Também tenho parte da minha infância no Zambujal da Buraca, Cova da Moura e Damaia porque são zonas onde tenho família.

Bruno em criança com o cachecol do Benfica

Bruno em criança com o cachecol do Benfica

 

D.R.

Deu muitas dores de cabeça ou foi uma criança tranquila?
Eu era bem-comportado, apesar de andar sempre com gente muito mal comportada [risos]. Acho que era um bocado o paradigma daquilo que era o bairro. Boas pessoas, mas às vezes mal comportadas. Era bom aluno, gostava da escola e inclusive tenho intenções de terminar o secundário quando acabar a carreira. Parei de estudar porque já não conseguia conciliar os estudos com o futebol. Mas sempre fui uma pessoa calma, nunca dei muitas dores de cabeça à minha mãe. Claro que tive um problema ou outro, mas coisas normais da juventude.

Que tipo de problemas foram esses?
Fui apanhado sem carta de condução, por exemplo. É uma coisa muito grave e irresponsável. Tinha 16 anos.

O que aconteceu?
Fui apanhado e tinha supostamente de fazer serviços comunitários, como ir para um lar de idosos, fazer-lhes companhia, mas fui irresponsável a duplicar porque nunca fui às audiências, andei sempre a contornar. Na altura estava no Benfica e a advogada do clube conseguiu safar-me da situação. Essa história do carro é engraçada, das mais engraçadas que tive.

Bruno (1.º em baixo à esquerda) começou a jogar futebol no Ponte Frielas

Bruno (1.º em baixo à esquerda) começou a jogar futebol no Ponte Frielas

 

D.R.

Conte.
Estava na formação do Benfica e eu, o Ivan Cavaleiro, Hélder Costa, Valdomiro Lameira, que era o “Estrela”, o Sancidino, Cafú e André Gomes éramos uma turma. O irmão do Ivan Cavaleiro estava a vender um carro super antigo, de 1992. O carro tinha um valor irrisório, sei lá, eram €300 ou €400. Como havia uns que estavam a tirar a carta, outros que estavam a começar, olhámos uns para os outros e resolvemos comprar o carro a meias. Vivíamos todos no centro de estágio, ninguém podia saber daquilo. O carro não tinha inspeção, não tinha seguro, não tinha documentos [risos]. Eu estava a iniciar o código da estrada. Pensámos que era fixe para conduzirmos entre nós. Aprendi a conduzir naquele carro. Saímos do centro de estágio, pegávamos no carro e andávamos ali pelo Seixal porque era muito pouco movimentado, na altura. Mas era uma irresponsabilidade.

Como foi apanhado?
Fui apanhado porque um dia lembrei-me de ir para Santo António dos Cavaleiros de carro. Quando tinha de ir a casa um dos meus amigos vinha buscar-me ou tinha de ir de barco, metro e autocarro. Era um percurso longo e pensei para mim, então, mas eu já sei conduzir bem, não é má ideia se calhar pegar no carro e ir. E fui. Só que nem saí do Seixal porque estava uma operação stop na baía do Seixal e acabei por ser logo apanhado [risos]. Mas nunca tivemos nenhum problema, ao nível de acidentes ou algo do género.

Já no Benfica, com Hélder Costa

Já no Benfica, com Hélder Costa

 

D.R.

Na vida do bairro, assistiu a algum episódio que o tenha marcado mais?
Vi muitas coisas típicas de bairro, mas tive sorte porque sempre fui protegido por quem me rodeava. Porque eles sempre olharam para mim e diziam: “Estamos aqui a consumir isto, mas tu não podes porque tu és o futuro.” Embora quisesse experimentar, porque estavam todos a fazê-lo, nunca me deixaram e sempre me protegeram dessa maneira. Nesse aspeto tenho muito a agradecer-lhes.

Em pequeno o que dizia querer ser quando fosse grande?
Queria ser bombeiro. Ficava muito fascinado quando estava alguma coisa a arder ou acontecia alguma coisa, e acontecia muito lá na minha zona, e eles vinham. Eu ficava fascinado com a maneira como eles atuavam, como intervinham, achava aquilo uma coisa boa para a sociedade, e como sempre quis ajudar na sociedade, dizia querer ser bombeiro. Mas durou pouco. Depois veio o futebol.

Como surgiu o futebol?
Através do Ponte Frielas, o clube da minha zona. Era para onde íamos todos. Estávamos sempre a jogar à bola na rua e os meus amigos insistiam que eu tinha de ir lá treinar e um dia fui. Tinha uns seis anos.

Na rua já jogava como guarda-redes?
Nunca. Sempre à frente. Quando fui para o Ponte Frielas também fui para a frente. Acho que fiz três treinos e no quarto treino o rapaz que costumava ir à baliza, não foi. O treinador perguntou quem queria ir à baliza. Eu instantaneamente disse: “Eu posso ir, mister.” Deram-me umas luvas e desde aí nunca mais saí da baliza. Gostei logo.

João Cancelo e Bruno Varela estiveram juntos na formação do Benfica

João Cancelo e Bruno Varela estiveram juntos na formação do Benfica

 

D.R.

O que o fascinou na posição?
Não sei, acho que foi por ser diferente. Eu também não estava a ter muita participação naqueles três treinos e quando olhava para o guarda-redes via-o a defender bolas e achava engraçado, apesar de não estar na minha cabeça ir para a baliza.

Ainda em pequeno, em casa, torciam por que clube?
Foi sempre pelo Benfica. Acho que a influência tinha a ver com o facto do Benfica ser o clube no povo. Em Lisboa tudo o que são bairros e da classe média/baixa normalmente é mais do Benfica. E nós, nos bairros, quase todos éramos do Benfica.

Quem eram os ídolos?
Na infância não tive, porque não acompanhava muito futebol. Quando comecei a crescer e a ver futebol, gostava muito do Petr Cech. Lembro-me de ver o Europeu de 2004, tinha 10 anos, ele jogava pela República Checa e gostava da maneira calma como ele intervinha e como encarava o jogo. Já reparava nessas coisas.

O guarda-redes com a mãe

O guarda-redes com a mãe

 

D.R.

Ficou no Ponte Frielas até aos 11 anos. Como foi depois para o Benfica?
O Benfica tem um scouting forte e andavam a observar os nossos jogos. Gostaram de mim, mas na altura fui treinar ao Sporting, à academia. Correu muito bem, mas depois não disseram mais nada, entretanto chegou o Benfica. Lembro-me de um dia estar a chegar de um treino do Ponte Frielas, e eu nunca chegava e ia logo para casa; pousava a mala na rua e ia jogar à bola, mas lembro-me de ao chegar ver o Bruno Maruta na porta do meu prédio, com a minha mãe. Até fiquei meio-assustado, porque já tinha ido treinar ao Benfica. Estava o Bruno Maruta com os papéis para assinar, assinei com o Benfica no capô do carro dele.

Quando começou a passar-lhe pela cabeça a possibilidade de fazer do futebol a sua vida?
Assim que comecei a treinar no Ponte Frielas, comecei a ter esse sonho. Mas muita gente não sabe que tive um período em que quis trocar o futebol pelo futsal. Foi o treinador, o João, que me tirou isso da cabeça e ajudou-me. Quando fiz a transição de escolinhas para infantis, havia um clube no Lumiar, o ACC, para onde começaram a ir muitos amigos meus do bairro. Eles iam todos para lá jogar futsal e eu era praticamente o único a ir para o Ponte Frielas. Ou seja, só eu é que jogava futebol 11, eles jogavam futsal. Eu não queria estar sozinho e comecei a ser influenciado um bocadinho por eles; volta e meia ia treinar futsal e comecei a fazer torneios com eles, porque não eram oficiais. Só que um dia o treinador foi a minha casa, disse-me que eu tinha muito futuro no futebol 11, que devia apostar e lá convenceu-me. Na altura até disse que o Benfica já estava a observar-me e na realidade depois fui para o Benfica. Acho que naquela altura também me assustava um bocado a baliza de 11, porque foi na transição e eu olhava e pensava “nunca vou conseguir defender uma bola aqui” [risos].

Com o pai

Com o pai

 

D.R.

O Benfica é incomparável ao Ponte Frielas. Qual foi o choque maior quando entrou num novo mundo?
O que mais me custou a adaptar foi ao facto de saber que estava no Benfica, ou seja, o Benfica era de uma dimensão enorme, continua a ser como é óbvio, para um miúdo. Lembro-me de ter jogado contra o Benfica no Torneio do Ponte Frielas e perdemos nove ou 10 a zero. Nós quase idolatrávamos aqueles jogadores que tinham 11, 12 anos, já sabíamos os nomes deles. E passado um tempo eu estava no mesmo contexto que eles. Não tive uma adaptação difícil, mas custou-me a acreditar que estava naquele contexto, apesar de não me sentir inferior a eles. Ajudou-me muito o facto do Dorivaldo, que era do mesmo contexto que eu, ter ido também. Estávamos os dois na mesma equipa e íamos sempre juntos para os treinos. Íamos puxando um pelo outro.

Fez toda a formação no Benfica. Até chegar à equipa B quais foram as pessoas e os momentos mais marcantes?
Foi provavelmente o mister Bruno Lage porque foi com ele que comecei a jogar e a ser uma aposta do Benfica, nos sub-15. Eu não era uma aposta muito válida no Benfica na altura, inclusive houve uma pessoa, que prefiro não nomear, que na transição de iniciado de 1.º ano para iniciado do 2.º ano disse-me que eu só ia ficar no Benfica porque havia a expectativa de que eu ia atingir uma altura interessante para guarda-redes, mas que era o único motivo para eu ficar. Quer dizer, não reconhecia qualidade, nem nada. Eles olhavam: “OK, tu vais ser grande, então vais ficar mais um ano por causa disso.” Foi algo que me despertou, do tipo, se calhar não tenho qualidade para estar neste contexto. No ano seguinte comecei a trabalhar com o mister Bruno Lage e ele começou a meter-me em alguns jogos importantes; jogos na segunda fase, lembro-me de fazer um ou outro jogo na terceira fase, a fase decisiva. Demonstrou que acreditava em mim.

Bruno (1.º atrás à esquerda) com a equipa de sub-19 do Benfica

Bruno (1.º atrás à esquerda) com a equipa de sub-19 do Benfica

 

D.R.

Quando o tal treinador lhe disse que só ia ficar porque havia perspetiva de que ficasse mais alto, foi-se muito abaixo? Pensou em desistir do futebol?
Deitou-me um bocadinho abaixo, não vou mentir, pensei em voltar para o Ponte Frielas. Só que eu não me sentia inferior aos outros. Mas podiam ter dito qualquer coisa do género: “Temos expectativas que possas evoluir, precisas de melhorar isto e isto, vamos ajudar-te.” Mas não, disseram-me de maneira nua e crua que só ia ficar devido à altura, porque viam que eu ia ser grande. Ponto. No ano seguinte, com Bruno Lage, tudo mudou, comecei a evoluir e as pessoas começaram a olhar para mim de outra maneira. Depois, no primeiro ano de juvenil eles deixaram-me, entre aspas, sozinho, porque meteram o jogador que competia comigo a jogar nos juvenis de 2.º ano, no campeonato nacional. Eu acabei por ficar no campeonato distrital, mas a jogar sempre. Foi o que me fez melhor, porque joguei sempre e cresci muito. Quando vamos para juvenis de 2.º ano é quando começo a trabalhar outra vez com o Lage e começo mesmo a ser uma real aposta. Começo a jogar, faço a fase de campeão, somos campeões, vou à seleção e assino o meu primeiro contrato profissional.

Tinha quantos anos?
16 anos. Assinei eu, o José Costa, o João Cancelo, Hélder Costa e o Sancidino Silva.

Qual foi o valor do seu primeiro ordenado profissional?
Era perto dos €900.

Recorda-se do que fez com o primeiro ordenado?
Mandava sempre para a conta da minha mãe. Eu nessa altura já vivia no centro de estágio.

O guarda-redes (2.º à esquerda) no autocarro do Benfica com a equipa B, em 2014

O guarda-redes (2.º à esquerda) no autocarro do Benfica com a equipa B, em 2014

 

D.R.

Custou-lhe sair de casa dos pais?
Custou, estava muito habituado à rotina, mas reconhecia que a parte escolar estava a ficar muito difícil, porque saía dos treinos muito tarde. Tinha de apanhar barco, metro, autocarro. Chegava a casa perto da meia-noite. Quando tinha teste tinha de ficar a estudar até tarde para tirar boa nota. Fui a meio da época para o centro de estágio.

Quando deixou de estudar?
Quando comecei a trabalhar com a equipa A, com os meus 16/17 anos. Tirei um curso equivalente ao 12.º ano, foi o Benfica que o disponibilizou. Mas aquele curso era um bocado batotado. Aquilo era uma batota, mal íamos às aulas, nem fazíamos os trabalhos, e deram-nos o 12.º ano. Pretendo completar o secundário de maneira mais correta, digamos assim. Apenas com a perspetiva de ter conhecimento e porque incentivo o meu filho a estudar. Eu já lhe expliquei que deixei de estudar devido ao futebol, mas que vou retomar os estudos quando deixar o futebol.

Como era o ambiente no Centro de Estágio?
Era bom, tenho saudades. Tramávamos muita coisa. Houve uma altura que descobrimos que se déssemos pontapés na máquina das bebidas caía sempre uma bebida, um Powerade ou Coca-Cola, Fanta, alguma coisa caía [risos]. Depois do jantar íamos sempre lá tentar a nossa sorte. Quando caía água, deixávamos lá [risos]. Deu, até os seguranças descobrirem.

Quando começaram os primeiros namoros e saídas à noite?
Começa por aí, com 16 anos, quando estava no centro de estágio. Volta e meia íamos sair. Primeiro começámos a ir ao centro comercial Rio Sul, à noite. Depois tínhamos umas discotecas na margem sul, lembro-me do RS Dreams, para onde íamos e ficávamos todos contentes. Tínhamos medo de chegar à porta e não nos deixarem entrar, porque éramos miúdos [risos]. Tive uma namorada na altura, que foi o meu primeiro namoro mais sério, mas quando tirei a carta de condução comprei logo um carro, queria viver a vida e acabou [risos].

Qual foi o primeiro carro que comprou?
Foi um BMW Série 1. Eu e o João Cancelo estávamos inseridos na equipa principal e havia alguns prémios, que consegui acumular, e comprei o carro.

Bruno (2.º atrás à esquerda) com a seleção que foi ao Torneio de Toulon, em 2014

Bruno (2.º atrás à esquerda) com a seleção que foi ao Torneio de Toulon, em 2014

 

D.R.

Recorda-se da primeira vez que foi chamado para treinar com a equipa principal?
Perfeitamente. Tinha 15 ou 16 anos e fui chamado para um treino de não convocados pelo mister Luís Matos, até fiz o treino com o Moreira. Mas quando comecei a ser mesmo chamado à equipa principal foi com o mister Hugo Oliveira, que hoje é o treinador do Famalicão. O treinador principal era o Jorge Jesus. Os guarda-redes eram o Roberto Jiménez e o Júlio César, que jogou no Belenenses, e depois o Artur Moraes e o Eduardo.

Sentia-se nervoso quando treinava com a equipa principal?
Inicialmente estava a viver um sonho, lembrava-me de ir para os cafés ver os grandes jogos do Benfica, porque não tinha Sport TV em casa, e de ver o Luisão a jogar; e, passado uns anos, estava ali a treinar com o Luisão. Já não falo dos Pablo Aimar, Saviola, Óscar Cardoso, Gaitán, Garay, Capdevila. Eu olhava mais para o Luisão, porque lembrava-me do Luisão desde pequenino e estava ali com ele, e com o Eduardo que tinha feito o Mundial. Estava num mundo que era estranho para mim e que só estava habituado a ver na televisão. Cheguei a ser o apanha bolas do Luisão. Isto tudo mexe, mas eles receberam-me super bem.

Houve algum que fosse mais simpático?
Eu tinha muito boa relação com André Almeida, porque o pai dele foi o meu treinador no Ponte Frielas. Quando estava na escolinha do Ponte Frielas, o André Almeida é que me fazia os aquecimentos. Punha-se a fazer remates à baliza, comigo. Quando cheguei à primeira equipa do Benfica o André Almeida era muito novo, também o Rúben Pinto, o David Simão, o Fábio Faria, o Mika, e juntava-me muito com esse pessoal mais novo, mas toda a gente me recebeu muito bem. O Aimar era incrível, idolatrávamo-lo não só pelo jogador mas também pela pessoa que era; o Saviola, o Óscar Cardoso, eram todos pessoas incríveis. O Aimar surpreendia pela facilidade com que ele fazia as coisas, por ser aquele jogador que o Jesus nunca tinha nada a dizer, tudo o que fazia, fazia bem e reconhecíamos isso.

O guarda-redes (no meio de verde) festeja com os colegas da seleção portuguesa o apuramento para o Europeu 2015

O guarda-redes (no meio de verde) festeja com os colegas da seleção portuguesa o apuramento para o Europeu 2015

 

D.R.

Levou alguma dura do Jorge Jesus?
Algumas. Houve uma vez que estava a fazer livres com o Talisca, eu era o mais novo e os outros guarda-redes foram embora. O Talisca fez cinco ou seis livres seguidos, ele batia muito bem, e o Jorge Jesus virou-se para o Hugo Oliveira e disse: “Mas ele não quer treinar? Ele não vai defender nenhuma bola?” Fiquei um bocado intimidado [risos]. Depois começou a querer dar instruções de guarda-redes: “Tens de estar mais ativo na baliza.” Lembro-me também de uma vez num treino, em que o Nolito chutou muito forte, eu tentei agarrar porque via os outros a agarrar as bolas, mas era uma bola difícil, sobrou para a frente e houve alguém que fez golo na recarga. O Jesus: “Epá, tu a defenderes assim pareces uma parede. A bola sempre que bate em ti, vem para a frente, não pode ser assim...” Mas sempre tive uma boa relação com o mister Jorge Jesus, senti apoio da parte dele, apesar de haver muito aquela imagem de que não apostava na formação.

Entretanto, começou a jogar na II Liga, pela equipa B. Quais foram as dificuldades ou diferenças maiores que sentiu?
Havia muita ratice na II Liga. Os meus primeiros jogos na II Liga foram muito, muito complicados. Eu ia do 8 a 80. Tanto fazia uma grande defesa como a seguir tomava uma decisão que não lembrava a ninguém. Eu não tinha conhecimento do jogo, era muito novo. Tinha 17 anos quando comecei a jogar na equipa B. Nessa época estava nos juniores, mas jogava na equipa B também, e o nível das equipas da II Liga era completamente diferente dos juniores. Não que não estivesse preparado porque depois demonstrei que estava, mas precisava de passar por aqueles erros para crescer. O melhor é que eles sabiam que eu ia cometer esses erros. Disseram-me isso e nunca me queimaram, sempre me ajudaram, nunca me meteram a jogar em alturas que o clube pudesse estar numa situação difícil.

Quais eram os pontos que sentia ter de melhorar no final da sua formação?
Sempre senti que era muito forte na defesa da baliza. Na saída a cruzamento era muito forte também porque era um bocado irresponsável no sentido que ia às bolas todas. Era o pensamento de um guarda-redes de equipa grande. Estava habituado a fazer as coisas bem, nos juniores não tinha muitas ações, as que tinha eram pontuais e realizava-as bem sempre. Na equipa B também queria fazer tudo e nem sempre resultava. Era muito forte nos penáltis, embora também tivesse sorte. Tive uma boa percentagem de defesa de penáltis, adivinhava os lados e conseguia defender, mas acho que isso acaba por ser um bocado sorte.

Bruno (à direita) festeja a conquista a Supertaça em 2014

Bruno (à direita) festeja a conquista a Supertaça em 2014

 

D.R.

Em que se baseava para tentar adivinhar?
Nós víamos os vídeos e íamos por probabilidades e calhou de nessa altura da equipa B estar forte. É engraçado, este ano já tivemos alguns penáltis e não consegui defender nenhum; a minha mulher ainda há pouco tempo dizia-me: “Tu quando estavas na equipa B eras forte a defender penáltis, agora parece que desaprendeste” [risos]. Tento explicar-lhe que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Agora até vejo mais vídeos. Os penáltis são muito mérito do guarda-redes, sim, mas também é uma questão de sorte. É 50/50. Acho até que a sorte sobrepõe-se um bocadinho mais.

Não há sinais, seja o posicionamento do corpo, um olhar, que possa dar-lhe informação sobre o lado para onde o jogador vai chutar a bola?
É muito relativo. No nível em que estamos, os jogadores já têm uma capacidade que não é o corpo que vai dizer para onde é que vai chutar. Guiamo-nos mais pelos vídeos. Felizmente as pessoas que trabalham nos bastidores fornecem-nos todo o tipo de material que precisamos. Antes do jogo tenho vídeos mais do que suficientes para ter informação. Vemos os vídeos, falamos entre nós, mas chega o penalty, até pensamos que ele pode chutar para um lado e chuta para o outro. A frustração maior é quando adivinhamos o lado e não defendemos. Isso sim é frustrante, porque nós sabemos o quão difícil é adivinhar o lado.

Mas ainda não disse o que sentia ter de melhorar mais quando terminou a formação.
Eu era muito forte na baliza, no um contra um, na saída de cruzamentos, acho que tinha um bom jogo de pés, o pior é que eu demorava muito na tomada de decisão. Estava habituado aos juniores, que não pressionavam, e na II Liga havia muita ratice, eles viam que eu era miúdo e era atrevido, gostava de fintar, então pressionavam muito e sentia dificuldade nas decisões.

O guarda-redes com a mulher, Raquel

O guarda-redes com a mulher, Raquel

 

D.R.

Esteve dois anos e meio na equipa B do Benfica. Acreditou mesmo que ia subir à equipa principal?
Sim, porque eu trabalhava sempre com a equipa principal. Fiz mais treinos na equipa principal do que na equipa B, claramente. Sempre senti que podia ter o meu espaço, apesar de saber que era muito difícil, não só pela qualidade dos guarda-redes que o Benfica tinha, mas também pela exigência que havia dentro do clube e por, na altura, não se apostar na formação como agora. Não havia jogadores da formação no Benfica, os estrangeiros eram muito bons, nada a dizer, os próprios portugueses que estavam lá, mais velhos, eram muito bons, mas sempre pensei que seria possível, por treinar com eles, por verem que tinha qualidade para lá estar. Simplesmente não havia espaço.

Ficou muito desiludido quando foi emprestado ao Valladolid, de Espanha?
Não, fui eu quem forçou tudo para sair. A equipa B é um contexto perfeito para quem vem dos juniores, mas se ficares muito mais tempo do que eu fiquei acaba por se tornar num lugar de comodismo. Senti que a minha última época na equipa B já não foi tão boa. Em janeiro muitos jogadores saíram, o Ivan Cavaleiro e Hélder Costa, o Rui Fonte, o Fábio Cardoso, o Lindelöf acabou por subir para a equipa principal, não estava mais connosco. Senti-me um pouco sozinho, todos saíram e eu também estava bem, por que não saía? Deixei de me sentir bem na equipa B, sentia que estava a acomodar-me.

Tinha empresário?
Sim, estava com a Gestifute.

Foram eles que conseguiram o empréstimo ao Valladolid?
Sim. Acabou essa época e lembro-me de ir para o europeu de sub-21, na República Checa e disse que queria ir embora, não queria ficar mais no Benfica, uma vez que não havia possibilidade de ser uma aposta na equipa principal.

Estava com 20 anos. Vivia sozinho?
Sim, vivia sozinho no Seixal, mas quando terminou essa temporada juntei-me com a minha namorada, hoje mulher, a Raquel, e quando fui para Espanha ela veio comigo.

Bruno foi pai de Diego, aos 20 anos

Bruno foi pai de Diego, aos 20 anos 

D.R.

Quando pela primeira vez lhe falam na hipótese Valladolid, era algo que já lhe tinha passado pela cabeça, ir para fora?
Não. Eu só queria sair do Benfica e ir para outro contexto. Nem que fosse emprestado a uma equipa da II Liga, mas eu tinha de sair dali. Além disso, quando me falaram no Valladolid, já era dia 28, nem tinha como torcer o nariz. É para Espanha, vamos. Fez-me bem para o meu crescimento. Acho que foi uma coisa boa, uma coisa positiva, ainda por cima o meu filho tinha nascido há pouco tempo.

Foi pai quando?
Fui pai do Diego aos 20 anos.

Como foi o primeiro embate quando chegou a Espanha?
Aquilo foi tudo muito rápido e não se tratou da melhor maneira. Fui num contexto em que as coisas não estavam bem faladas, as pessoas da Gestifute falaram uma coisa e depois fez-se outra. Cheguei e já lá estava o Kepa, que depois acabou por ir para o Chelsea. O Kepa estava emprestado pelo Athletic Bilbao e eu pelo Benfica e quem ia jogar sempre era ele. Toda a gente sabia e mesmo assim meteram-me lá. Foi difícil porque só me apercebi depois. Chateou-me porque nunca ninguém me disse: “Este guarda-redes está aqui, emprestado pelo Bilbao, neste contexto.” Sabia que ele estava lá, mas não em que situação. Acabei por só fazer um jogo, o último, que já não contava para nada. Foi bom, por outro lado, porque cresci, conheci pessoas incríveis e o clube foi espetacular comigo. As pessoas trataram-me super bem. E fiz duas grandes amizades, o André Leão e o Pedro Tiba.

Como se aguentou psicologicamente um ano sem jogar?
Estava com a minha mulher e o meu filho e isso ajudou muito. O André Leão e o Pedro com as famílias deles, também ajudaram o meu estado anímico.

Sentiu que estagnou ou evoluiu alguma coisa?
Evoluí a nível mental. Tínhamos um muito bom treinador de guarda-redes, ele puxava muito por mim. Mas, ao mesmo tempo, estava um bocado magoado com a minha situação.

O guarda-redes foi emprestado pelo Benfica ao Valladolid, de Espanha, em 2015/16

O guarda-redes foi emprestado pelo Benfica ao Valladolid, de Espanha, em 2015/16

 

D.R.

Regressou ao Benfica ou foi diretamente para o V. Setúbal, em 2016/17?
Eu tinha contrato com o Benfica, mas fui diretamente para Setúbal. Quando acabei a época em Valladolid, já havia contactos com o V. Setúbal. O mister Couceiro queria muito que eu fosse para lá, acreditava muito em mim pelo que tinha feito na II Liga, principalmente. Para mim era super interessante ir para uma equipa da I Liga, depois de estar uma época sem jogar.

Contra quem foi o seu jogo de estreia na I Liga?
[Risos]. Foi contra o Benfica. Empatámos a um golo. Foi um misto de emoções. Foi difícil ouvir algumas coisas, chamaram-me de tudo, coisas que não imaginava que me iriam chamar, mas aconteceu. Recebi muitas mensagens nas redes sociais. Foi duro, mas foi sinal de que fiz um bom trabalho, porque fiz um grande jogo, fui o melhor em campo. Acaba por ser especial, porque a minha estreia no Estádio da Luz não foi com o Benfica, mas foi contra o Benfica e foi um jogo que me correu super bem. Foi duro para a minha mãe ouvir muita coisa no estádio, ela estava lá; a minha mulher também, os meus amigos, foi difícil, mas todos me disseram: “Foi assim porque tu fizeste um bom trabalho.”

Do que mais se recorda dessa época em Setúbal?
Foi muito boa em todos os aspetos, tínhamos um grupo incrível, um treinador espetacular, foi a minha primeira época na I Liga, vou levar para sempre essa recordação. É um clube que tem a fama de ser complicado em todos os aspetos, mas não tenho o hábito de tomar a dor dos outros e baseio-me naquilo que foi o meu ano no Vitória. As coisas correram bem, mesmo a nível financeiro, não tivemos problemas nesse ano.

Bruno (à esquerda) num treino do Valladolid

Bruno (à esquerda) num treino do Valladolid

 

D.R.

Tinha assinado por quanto tempo?
Eu era para ser emprestado ao V. Setúbal, mas disse ao Luís Filipe Vieira que não queria ser emprestado porque queria jogar sempre. Ia ser difícil para mim se no jogo com o Benfica não pudesse jogar, jogasse o outro e ele engatasse; poderia acontecer eu não entrar mais na equipa. Ele lá concordou e acabei por ir como jogador do Vitória, mas o Benfica tinha opção de recompra. Era uma cláusula muito baixa.

Que o Benfica acionou, no final da época, o que sentiu? Muita vontade de voltar?
Para mim sempre foi um objetivo voltar ao Benfica, como é óbvio. Não vou mentir que torci um bocado o nariz pelo simples facto de que o Ederson tinha saído por 40 milhões de euros e depois foram buscar-me. Era um peso muito grande. Eu vinha do V. Setúbal. Fiz uma época muito boa em Setúbal, foi muito positiva, as coisas correram muito bem, sentia-me preparado, mas acho que precisava de ter dado mais um passo intermédio para depois ir para o Benfica. Quis dar esse passo e não me deixaram.

Seria para onde esse passo?
Na altura tinha o Standard Liège interessado e queria muito ir para lá. O mister Ricardo Sá Pinto era o treinador principal e o treinador de guarda-redes era Ricardo Pereira. Não me deixaram porque o Benfica tinha a faca e o queijo na mão, eles é que podiam quase decidir para onde é que eu tinha de ir. Queriam muito que eu voltasse, apesar de à partida não ir para jogar, porque era o Júlio César quem ia ser o titular. Só que depois as coisas mudaram. Ele lesionou-se no último jogo da pré-época e foi aí que comecei a sentir que estava preparado.

Bruno Varela foi emprestado ao V. Setúbal em 2016/17

Bruno Varela foi emprestado ao V. Setúbal em 2016/17

 

Gualter Fatia

Entrou novamente pela porta grande do Benfica. Isso deu-lhe outra moral?
Não me deu outra moral, porque o peso daquela baliza estava tão grande que acho que toda a gente torcia um bocado o nariz, do tipo, então nós vendemos um guarda-redes como o Ederson, no ano do penta? Não digo que foi o ano mais importante da história do clube, mas está nos anos mais importantes da história do clube. Era o ano em que o Benfica poderia atingir o penta, que só o FC Porto tinha feito. Havia uma responsabilidade muito grande e eu sentia muito esse peso. Ainda por cima sou de Lisboa, toda a gente que me rodeia é benfiquista, toda a minha família é benfiquista, sentia um peso enorme, não posso mentir.

Isso prejudicou-o em algumas circunstâncias?
Não, em nada, porque sou muito desligado de redes sociais, tudo o que dizem ou deixam de dizer, não vejo, por isso não me afeta. Nem os jornais, também não me afeta porque não vejo. Atiro um bocadinho para canto e por isso nunca teve influência. Mas claro que tu sentes o ambiente e percebes onde estás inserido. O Benfica era tetracampeão, tinha feito praticamente apenas uma troca na equipa, o guarda-redes, que tinha sido vendido só por 40 milhões de euros.

Em ação pelo V. Setúbal num jogo contra o Sporting, em 2016

Em ação pelo V. Setúbal num jogo contra o Sporting, em 2016

 

NurPhoto

Como foi essa época e o que o marcou mais?
Comecei a época, depois o Júlio César entra e depois entrou o Svilar. Dos momentos mais marcantes que tive foi a Supertaça, por ter sido o meu primeiro jogo oficial pelo Benfica, o clube onde eu estava desde os meus 11 anos e onde passei por todos os processos até conseguir chegar à equipa principal. Aquilo culminou também com ser o jogo em que o Luisão se tornou no jogador mais titulado da história do clube. Para mim foi um orgulho muito grande poder participar nesse jogo. Depois há outro momento marcante para mim, o jogo no Dragão, em que empatámos e fiz um grande jogo, depois de ter voltado à baliza dois jogos atrás, numa altura em que estava quase ‘morto’.

Porque diz isso?
Porque eu passei de primeira opção para terceira opção, sem perceber porquê. Eu já estava com a minha cabeça do tipo, não estou aqui a fazer nada, se calhar é melhor ir à minha vida e sair. Porque da maneira como me trataram nessa altura foi duro.

Como assim?
Eu tive conversas com o Rui Vitória, mas prefiro não dizer o que falei com ele. Foi opção do mister, só que ele primeiro disse-me uma coisa e depois fez outra, e foi isso que me deixou um bocado chateado. Mas os treinadores é que decidem, temos de aceitar e respeitar as decisões. Foi o que fiz na altura. Dei uma grande resposta pessoalmente, trabalhei muito quando toda a gente pensava que se calhar eu já não voltaria à baliza do Benfica. Voltei, beneficiei do Júlio César ter ficado um bocado de parte, devido a alguns problemas que teve lá dentro. Depois o Svilar acabou por ter uma lesão, ficou de fora e é quando entro novamente na equipa, quando já ninguém esperava que pudesse entrar. Lembro-me de fazer dois jogos seguidos curiosamente contra o Vitória de Setúbal, para a Taça e para o campeonato. Os jogos correram bem e a seguir vamos ao Dragão, a cinco pontos do FC Porto. Se perdêssemos esse jogo em dezembro ficávamos a oito pontos e as coisas complicavam-se; e fiz um grande jogo.

Júlio César, Bruno Varela e Paulo Lopes com a Supertaça coquistada em 2017

Júlio César, Bruno Varela e Paulo Lopes com a Supertaça coquistada em 2017 

Carlos Rodrigues

Achou que tinha conquistado a baliza do Benfica e que época seguinte era sua?
Na altura em que voltei a jogar sentia que ao mínimo erro que pudesse cometer, ia sair outra vez. Essa era a pressão que tinha, mas era uma pressão positiva, eu gostava de sentir que não tinha margem de erro, que tinha de dar ao chinelo, como eu dizia. As coisas foram positivas, só que no Benfica quando tu não ganhas o campeonato, está tudo mal. Depois, era o ano do penta, houve uma cobrança ainda maior.

Porque acabou por ir para o Ajax, dos Países Baixos, a meio da época 2018/19?
No final da época, supostamente era para ser vendido para Inglaterra, mas acabou por não acontecer. O Benfica pedia uma verba que eles consideravam excessiva. Acabei por iniciar a época, o Rui Vitória falou comigo, disse saber que as coisas estavam a ser tratadas para eu sair e por isso não fazia sentido dar-me minutos na pré-época, até porque o Odysseas tinha chegado. Percebi. Mas foi o período mais difícil para mim no Benfica.

Porquê?
Porque estava ali e não contava para nada. Andei a viajar a pré-época toda sempre com o telemóvel na mão para perceber quando ia embora. Havia equipas interessadas, mas as coisas não avançavam e isso mexe sempre muito com a cabeça do jogador. Depois comecei a ver o final do mercado a aproximar-se, as coisas não andavam, as equipas já estavam feitas, mesmo que vás para outro sítio, já estás quase a perder o comboio. Foi uma altura complicada.

Nunca chegou ao ponto de perguntar diretamente porque não apostavam em si e foram buscar o Odysseas?
Não. Isso são decisões do clube. Lembro-me que a contratação do Odysseas foi um dia antes de um dérbi com o Sporting. Para mim sempre foi propositado, mas essa é a minha maneira de pensar. Acho que se me quisessem proteger não o fariam. Mesmo que eu não veja notícias, as coisas chegam. Acabaram por fechar um guarda-redes, numa altura em que eu estava bem, estávamos na luta pelo título. Tínhamos o dérbi e anunciaram que iam contratar o Odysseas para a época seguinte. Eram pedras que iam colocando no caminho e eu ia recolhendo. Estava calejado já.

Em ação pelo Benfica

Em ação pelo Benfica 

Gualter Fatia

O que aconteceu quando o mercado fechou?
Aí é que foi a altura mais difícil porque sabia que ia ficar e nem sequer segunda opção era. Acabei por ficar meia época como terceira opção. Em alguns jogos fui como segunda opção. Comecei lentamente a ganhar o meu espaço, mas sabia que dificilmente ia voltar a jogar no Benfica. No início do mercado de janeiro fui à Turquia, estive lá 45 dias, era para assinar com o Kasimpasa, mas as coisas não avançaram.

Não avançaram por questões médicas, segundo veio a público. O que descobriram?
[Risos] Não foi nada. Os turcos são estranhos, a verdade é essa. Eles diziam que eu tinha tendinites nos ombros, coisa que tenho até hoje e que 80% dos guarda-redes tem, porque é normal. Vim embora e passado três dias contrataram outro, por isso... Houve coisas pelo meio que até hoje não percebemos. Ou porque eu era muito caro, porque realmente ia receber um salário muito bom, fora do normal para mim, porque ia com um estatuto bom, de jogar no Benfica. Houve ali qualquer coisa, porque passado uma semana fui para o Ajax, fiz os mesmo exames e estava tudo bem.

 

Spoiler

“No Ajax, o Ten Hag disse que o Onana ia ser sempre o n.º 1, independentemente do que fizesse. Não achava que ele fosse melhor do que eu”

O guarda-redes Bruno Varela vai na 5.ª época ao serviço do Vitória, agradece a Rui Borges o tempo que passou em Guimarães e assume que o maior objetivo é conquistar um troféu com o clube. Além dos anos no clube e da sua massa associativa, fala-nos também da época e meia no Ajax, onde esteve emprestado pelo Benfica e conquistou um campeonato e uma Supertaça, apesar de ter jogado pouco. Explica o porquê de só agora ter aceitado representar a seleção de Cabo Verde, revela algumas características suas enquanto guarda-redes e aborda vários aspetos da posição mais solitária do futebol

Que tal a chegada a Amesterdão para jogar no Ajax?
Foi muito bom. Já era mais crescido, não estranhei tanto.

Como era o seu inglês?
Era de um nível baixo. Antes de ir tive uma conversa pelo telemóvel com o treinador Erik ten Hag e o inglês dele também não era bom. Estivemos meia-hora a falar e foi uma guerra porque eu não percebia o que ele dizia, ele não percebia o que eu dizia e estava difícil desenvolver [risos]. Ele foi super tranquilo. A equipa estava a ter uma época incrível, foi aquele Ajax que chegou à meia-final da Liga dos Campeões. Curiosamente tinha jogado contra eles no Benfica, na fase de grupos; quer dizer, estive no banco nesse jogo, não joguei. Foi engraçado chegar e ver uma equipa a ter uma performance tão grande na Europa, mas a ser muito simples. O que eles tinham de craques tinham de simplicidade e isso foi o que mais me surpreendeu. A estrutura do clube era muito boa, as condições também e acima de tudo o grupo era incrível. O segredo era mesmo o grupo.

O ambiente no balneário era muito diferente do que havia experimentado em Portugal?
Sempre tive bons ambientes em Portugal e no Ajax também havia bom ambiente. Os holandeses são um bocadinho mais frios, mas interativos. Dava-me mais com os argentinos, com o David Neres e o Onana, que fala espanhol. Mas os holandeses sempre me trataram muito bem. Gostava que todos os jogadores que fossem para o estrangeiro fossem tratados como eu fui em Amesterdão, tanto no clube como na cidade.

Bruno Varela representou a seleção portuguesa de Sub21, no Europeu de 2017

Bruno Varela representou a seleção portuguesa de Sub21, no Europeu de 2017

 

MB Media

Encontrou um clube com uma grandeza similar à do Benfica?
A grandeza do Benfica é um bocadinho maior pela consistência que o Benfica tem há muitos anos.

Com que opinião ficou do campeonato?
É um bom campeonato, mas na altura desvalorizavam muito a parte defensiva. Se formos ver, o campeonato holandês tinha sempre resultados dilatados, 4-3, 5-4, ou seja, as equipas pouco ou nada defendiam. Eles queriam marcar golos. O nosso treinador dizia que não se importava de sofrer cinco golos se marcasse seis.

Esteve lá época e meia. Quais os momentos que mais retém na memória, apesar de quase não ter jogado?
A vitória em Madrid foi marcante. Foi marcante termos chegado à meia-final da Liga dos Campeões e a maneira como perdemos foi marcante negativamente. Foi um murro no estômago muito grande, porque tínhamos tudo para chegar à final e acabou por acontecer o que não era expectável. Depois, os festejos do título que ganhamos na Praça Leidsenplein, não estava à espera daquilo, sinceramente.

Porque quase não jogou?
Apanhei o Onana [risos]. Tive o azar de no Valladolid apanhar o Kepa e no Ajax o Onana. Dois dos guarda-redes mais caros da história.

Em 2018/19 o guarda-redes foi emprestado pelo Benfica ao Ajax, dos Países Baixos

Em 2018/19 o guarda-redes foi emprestado pelo Benfica ao Ajax, dos Países Baixos

 

VI-Images

Quando percebia estar na sombra de outro guarda-redes, que atitude tomava? Tentava perceber porque eles eram melhores? Tentava imitá-los em alguma coisa?
Quando fui para o Ajax a meio da época, tudo o que viesse era melhor do que ser terceira opção no Benfica. Apareceu o Ajax, para ser segundo guarda-redes, numa época excelente do clube, era algo muito bom e não podia perder a oportunidade. Já estava mais ou menos preparado que não ia ser opção. Quando acaba essa época, o Ten Hag tem uma conversa comigo em que foi muito sincero. Gostei muito da sinceridade dele. Disse-me: “O Onana vai ser sempre o meu n.º 1, independentemente do que faça.”

Reconhecia que ele era muito melhor?
Eu não achava que ele fosse melhor do que eu. Achava que ele tinha um peso muito grande no contexto em que estava, porque o treinador foi muito direto comigo. A partir daí senti que independentemente de ter semanas em que pudesse treinar ou trabalhar muito melhor do que ele, ou ele lesionar-se e eu jogar dois ou três jogos, e jogar muito bem, eu ia sair sempre. Foi o que percebi. Eles pagaram a taxa de empréstimo ao Benfica para eu voltar para lá, mas o treinador disse-me logo: “Quero muito que venhas, porque quero que o Onana tenha competitividade e sinto que tens o nível dele e que vão competir. Só que ele vai ser sempre o meu n.º1.” Também disse que estavam a pensar vendê-lo, mas que não me podia garantir. Eu podia arriscar continuar lá, ele ser vendido e ficar como n.º1; ou não ser vendido e seria mais complicado para mim. Arrisquei continuar e ele acabou por não ser vendido.

Está arrependido de ter ficado?
Não. Se eu não ficasse e fosse vendido, aí sim, é que me arrependia.

Bruno Varela abraçado a Onana, colega no Ajax

Bruno Varela abraçado a Onana, colega no Ajax

 

Soccrates Images

Entretanto, como foi parar ao Vitória de Guimarães, em 2020/21?
Eu ainda tinha ligação com o Benfica. Voltei quando o Jorge Jesus também regressou. Eu já sabia que não contava para os planos do Benfica. O Vitória demonstrou interesse e eu disse logo que queria muito ir para Guimarães, porque estava há duas épocas praticamente sem competir, precisava de ir para um sítio onde soubesse que pelo menos tinha a oportunidade de competir. O Vitória era o contexto quase perfeito nesse aspeto, voltava ao meu país, num clube que tem peso na Liga e onde poderia ter possibilidades de jogar. Depois foi uma questão dos meus empresários chegarem a acordo.

Nessa primeira época em Guimarães teve quatro treinadores e houve um jogo com o Rio Ave que não lhe correu nada bem. Fale-nos um pouco desse início.
De forma geral, a primeira época foi positiva. Tive um jogo ou outro onde as coisas não correram bem. Por exemplo, nesse jogo com o Rio Ave tive uma indecisão num determinado momento e não correu bem. Tive também um jogo com o Farense em que tentei fintar o avançado e hoje rio-me, mas na altura não teve muita piada, acabámos até por empatar numa fase um bocado delicada. Não tínhamos adeptos e foi muito estranho jogar sem adeptos. O contexto era difícil nesse aspeto. Quando vim para o Vitória penso que chegaram 17 ou 18 jogadores, para fazer uma equipa não foi fácil, ainda por cima com um treinador novo, o Tiago Mendes. Até à 3.ª jornada tínhamos um empate, uma derrota e uma vitória, depois o treinador decide sair, numa altura em que fui chamado à seleção A, pelo Fernando Santos. Entrou o João Henriques que saiu ao fim de algumas jornadas e entrou o Bino; depois o Bino saiu e veio o Moreno, no final. Foi uma época difícil, mas acima de tudo porque não conseguimos atingir os objetivos.

Bruno Varela tenta defender uma bola do Kaj Sierhuis, do FC Groningen, durante um jogo do campeonato neerlandês

Bruno Varela tenta defender uma bola do Kaj Sierhuis, do FC Groningen, durante um jogo do campeonato neerlandês

 

ANP

Quando há tantas mudanças de treinadores, para um guarda-redes é tão ou menos complicado do que para os jogadores de campo?
É igual porque sentimos todos da mesma forma. A troca de treinadores tem sempre a mesma influência, independentemente da posição que desempenhes na equipa.

Mas se houver mudança de sistema de jogo, será mais difícil para os 10 jogadores que não estão à baliza, ou não?
Sim, porque temos a nossa função um bocado separada, entre aspas, da equipa, mas tudo depende de uma ideia de jogo e nós também estamos incutidos dessa ideia de jogo. Por isso, quando vem um treinador com ideias diferentes acaba sempre por mexer com todos.

O principal patrão da defesa é o guarda-redes ou o central?
Depende das características de um e do outro.

Gosta de ser o líder da sua defesa ou prefere que seja o central?
Como vou explicar? O bom é termos a capacidade de nos ajudar muito uns aos outros. Cada um tem que ter um bocado de liderança dentro de si. Claro que há uns que não têm essa característica, mas, quem tem, tem de puxar um bocadinho pelos outros, porque é importante eu ter a capacidade de liderar, mas de saber ser liderado também.

Gosta de ser líder?
Gosto, mas acho que tenho essa característica, é algo natural.

Fala muito durante os jogos?
Falo. Antes falava mais e falava coisas desnecessárias. Falava por falar.

Como, por exemplo?
Um colega perdia um duelo e eu chegava ao pé dele e dizia: “Tu tens que ganhar aquele duelo.” Claro que ele sabe que tem de ganhar aquele duelo, ele não o perdeu porque quis. Eram coisas desnecessárias. Com a idade começamos a falar um bocadinho menos, mas coisas mais importantes que realmente ajudam no jogo do colega.

David Neres e Bruno Varela celebram a conquista do campeonato pelo Ajax, em 2019

David Neres e Bruno Varela celebram a conquista do campeonato pelo Ajax, em 2019

 

Soccrates Images

Nestes quase cinco anos de Vitória, quais foram os momentos-chave?
Quando atingimos a pontuação máxima na história do clube na época passada, foi um marco muito importante porque sempre tive o objetivo de meter o meu nome na história do clube. Os 100 jogos pelo clube também foram importantes e um marco bonito na minha história e na história do clube. Esse dois foram marcos importantes.

Como é a massa associativa do Vitória?
É muito apaixonada pelo clube, pela cidade e vai do amor ao ódio muito rápido. Controlam-se pouco, são muito fervorosos, mas acho que têm uma paixão que não é comparável a qualquer clube em Portugal. São realmente diferentes e só percebemos o quão diferentes são quando estamos aqui dentro.

Diferentes em que aspeto? Sentiu o que é a massa associativa de um Benfica, por exemplo.
É mais fácil sentir do que realmente explicar. Não é normal a maneira como eles acompanham o clube. Como eles vão do 8 a 80 muito rápido, como eles nos assobiam no primeiro minuto, ao décimo minuto já estão a cantar para nós e ao vigésimo estão a assobiar outra vez. Têm coisas muito particulares. E, depois, os ambientes que eles nos criam. Quando jogamos fora, estamos claramente ao nível dos grandes. Todos os jogos no norte são incríveis, quando vamos a Lisboa também temos sempre gente. Vamos a Faro e temos muita gente. E há a particularidade dos adeptos do Vitória serem todos de Guimarães. É muito raro ver um adepto do Vitória que vive no Algarve, isto comparando com equipas grandes; o FC Porto se for jogar ao Algarve, 80% da massa associativa que está lá se calhar é ali do Algarve, o Benfica o mesmo. O Vitória, não. As pessoas deslocam-se daqui para ir para qualquer sítio.

Quando vai a Braga é vaiado?
Não, nunca tive nenhum problema. Acho que é pior quando os jogadores do SC Braga vêm a Guimarães.

O guarda-redes em Cabo Verde com a avó paterna

O guarda-redes em Cabo Verde com a avó paterna

 

D.R.

Ao longo da carreira foi muitas vezes alvo de racismo?
Não. Pelo menos diretamente, nunca senti. Se o senti foi uma ou outra vez. É um tema forte e tem que ser tratado de uma maneira mais severa, para acabar realmente. Mas como sou tão desligado e abstraio-me, se calhar já aconteceu e eu nem passei cartão. Tenho essa capacidade de me abstrair.

Quando está em campo, durante o jogo, não ouve o que se passa à volta?
Oiço, mas não ligo. Consigo desligar.

Diz-se que a posição de guarda-redes é solitária. O que lhe vai passando pela cabeça quando o jogo quase não passa pela sua baliza?
Foco-me muito no estar atento aos feedback que posso dar aos meus colegas. Às vezes até falo comigo. Tenho essa coisa de falar comigo mesmo no campo, de alguma ação que tive ou de como vai o jogo, do que podemos explorar no jogo. Arranjo maneiras de estar sempre ligado ao jogo.

Considera-se um guarda-redes mais explosivo ou de posicionamento?
Acho que sou um guarda-redes com bons reflexos, mas com o passar do tempo tenho ganho muito em posicionamento, porque é muito mais importante do que os reflexos. Quanto melhor posicionado estiveres, a tua atuação vai ser sempre muito mais facilitada e tenho percebido isso.

Qual foi o treinador de guarda-redes que mais o marcou e porquê?
O Douglas Jesus tem sido muito importante porque sem dúvida estou a viver os melhores anos da minha carreira e por já me sentir um guarda-redes crescido, feito. Ele tem tido muita influência nas boas épocas que tenho tido. Tanto ele como o Nuno Madureira. Esses dois são muito marcantes.

Com quem mais aprendeu?
Aprendi com todos, mesmo quando estava naquele contexto, no Valladolid, em que estava muito em baixo e revoltado com tudo, aprendi muito. Seria injusto nomear.

Bruno chegou ao V. Guimarães em 2020/21

Bruno chegou ao V. Guimarães em 2020/21

 

Jose M. Alvarez/JARSportimages.com

Jogar competições europeias é algo diferente porquê?
Por tudo. Por tudo o que envolve a logística, o saíres do teu país para apanhar um avião, chegares lá, treinares no campo em que vais jogar, voltar para o hotel e no dia a seguir ter o jogo. É tudo diferente, a bola é diferente, os ambientes são diferentes, as publicidades no estádio são diferentes.

Intimida?
Não intimida, incentiva. Dá gosto. É muito bom estarmos nisto de, por exemplo, jogámos ontem para o campeonato e hoje já estamos a treinar com bolas diferentes porque vamos jogar na quinta-feira para as competições europeias. Isso dá-nos outra coisa, sabes que vais enfrentar um desafio diferente, uma equipa de outro país. Vai-te dar coisas diferentes.

O ritmo crescente que as grandes equipas têm vivido à conta de calendários competitivos cada vez mais preenchidos é prejudicial?
É difícil. Tem que se encontrar estratégias de recuperação, para conseguir que os jogadores não se lesionem e possam estar sempre disponíveis para cada jogo. Mas nós, jogadores, queremos jogar, queremos estar lá dentro e competir. Mas claro que o ritmo é difícil.

Ao longo dos anos quais foram as principais lesões musculares?
Nos últimos dois, três anos, em cada ano tive uma lesão, que aconteceram em períodos importantes da época e que me deixaram de fora seis, sete ou oito jogos e foi complicado porque ninguém gosta de estar fora.

Ainda receia perder o lugar?
Não é uma questão de recear porque julgo que estamos sempre sujeitos a isso. É uma questão de mentalidade. Quando te lesionas e entra alguém para o teu lugar, sabes que estás sujeito a perder o lugar, porque se ele estiver bem e as coisas estiverem a correr bem, quando voltares dificilmente vais entrar. Podes entrar, como não entrar, depende do treinador. Tu tens que mentalizar-te que estás sujeito. Se acontecer, aconteceu, tens que trabalhar. Se não acontecer, ok, voltei e jogo.

O guarda-redes foi chamado por Fernando Santos à seleção A, mas nunca se estreou

O guarda-redes foi chamado por Fernando Santos à seleção A, mas nunca se estreou

 

D.R.

Quando ainda era adolescente e percebeu que o futebol ia ser a sua vida, como se projetava, qual era a sua maior ambição?
Quando era mais novo tinha o sonho de poder estrear-me na equipa principal do Benfica.

E hoje qual é o seu maior sonho?
Não tenho um sonho, tenho objetivos. Presentemente é poder conquistar algo com o Vitória. Isso era algo que me deixaria muito realizado.

Vamos à seleção. Começou nas camadas jovens da seleção portuguesa, foi chamado depois por Fernando Santos para a seleção A, mas não chegou a estrear-se, certo?
Sim. Nunca joguei pela seleção A portuguesa. Fui chamado três ou quatro vezes, mas nunca cheguei a jogar.

Era um objetivo que tinha, jogar pela seleção portuguesa?
Era. Sabia que era difícil, porque fui chamado sempre por lesão de alguém. Mas tinha esse objetivo, sim.

Quando foi chamado pela primeira vez pela seleção de Cabo Verde?
Em outubro de 2023. Eu já estava em contacto com eles há muito tempo, desde a altura que era sub-21. Fui muito honesto e direito com eles, sempre lhes disse que a minha prioridade era a seleção portuguesa, porque nasci cá, apesar dos meus pais e das minhas raízes serem de Cabo Verde. Mas no dia em que eu visse que realmente as portas aqui estavam difíceis, eu iria ponderar jogar pela seleção de Cabo Verde. Se eles ainda tivessem as portas abertas, tudo bem, se não tivessem eu também compreendia e estava tudo bem. Sempre foram muito compreensivos, nunca me pressionaram. Iam falando comigo.

Bruno Varela a entrar em campo, pelo V. Guimarães, com o filho pela mão (à esquerda)

Bruno Varela a entrar em campo, pelo V. Guimarães, com o filho pela mão (à esquerda)

 

D.R.

O que o levou a decidir representar a seleção de Cabo Verde foi apenas o facto de perceber que não tinha espaço na seleção portuguesa?
Não só. Com o passar dos anos comecei a perceber a importância de nós, jogadores africanos, podermos representar as nossas raízes. Quanto mais jogadores africanos estiverem a representar as suas raízes, mais o nível vai elevar. O que acontece muitas vezes é que os jogadores representam a seleção portuguesa ou representam a francesa, ou a belga, etc., quando podem representar seleções de África. Isso levou-me a refletir. Mas não escondo também que perdi o espaço na seleção portuguesa e acabei por optar por representar Cabo Verde. Aquela conversa um bocado hipócrita dos jogadores que aos 32 anos vão para as seleções africanas e dizem que sempre foi o sonho deles ali jogar... É mentira, porque se fosse o sonho já tinha ido há 10 anos. Eu priorizava a seleção portuguesa e nunca escondi, sempre fui muito direto, nunca tive nenhum tipo de problema nesse sentido. Eles perceberam.

Porque recusou ir à CAN 2023?
Muito fácil. O mister queria muito que eu fosse, mas nunca achei justo. Fiz agora a qualificação para a CAN, os jogos são muito duros, as viagens são terríveis no sentido que são muito longas. Os campos são difíceis de jogar, são sintéticos, muitos deles. Na Mauritânia jogámos num sintético, às três da tarde com 34 graus, os pés queimavam. É tudo uma dificuldade enorme e nunca iria achar justo os meus colegas de posição, principalmente, que tiveram a dificuldade de fazer o apuramento, não irem à CAN. A CAN é quase o premiar de um apuramento, é onde se joga nos campos bons, onde há todos os holofotes, o mundo inteiro está a ver a CAN. Não seria justo eu não ter passado por toda aquela turbulência que eles passaram da qualificação e depois ir.

O ambiente da seleção de Cabo Verde é o que imaginava?
Acho que é melhor daquilo que eu imaginava. Ambiente de alegria, muita música, típico africano.

É algo com que se identifica?
Muito, sempre, desde muito novo. Foi algo que quis muito.

O guarda-redes cumpre a 5.ª época com a camisola do V. Guimarães

O guarda-redes cumpre a 5.ª época com a camisola do V. Guimarães

 

RUI DUARTE SILVA

Qual foi a pior partida que lhe fizeram e a que ajudou a fazer?
Nunca me fizeram nenhuma. E também não fui de fazer, embora andasse com quem as fazia. A pior coisa que vi fazer foi enrolarem o carro de um colega com fita-cola. O rapaz teve de tirar aquilo tudo sozinho e o carro ficou todo marcado da fita-cola. Foi um bocado hardcore. Também tive um colega que se chateou com outro no treino e esvaziou-lhe os pneus do carro. Aqui, os únicos episódios que me lembro é de quando os adeptos não nos deixam sair do estádio [risos].

Alguma vez foi abordado na rua de forma menos agradável?
Sim, uma vez ou outra, mas consigo manter a calma. Eles querem que a gente os ouça. É importante para eles. Desde que não me faltem ao respeito, principalmente se estiver com a minha mulher e filho, está tudo bem. Se falarem sem ofender e com calma, podemos ter um diálogo.

No início desta época, usou um microfone no equipamento durante um jogo, para mostrar aos adeptos o que um jogador vai vivendo dentro de campo. Foi uma ideia sua?
Não, foi do clube, mas aceitei. Isso já se fez em Inglaterra. E na NBA faz-se muito. O Vitória quis fazer e julgo que fomos a primeira equipa a fazer. Acaba por ser uma coisa diferente e curiosa, para as pessoas perceberem um bocado como é a dinâmica em campo. Claro que o vídeo completo não tem tudo o que eu disse, porque disse muitas asneiras e eles cortaram [risos]. Mas era para verem como, em campo, com as emoções à flor da pele, conseguimos estar tranquilos.

Mas a Liga pelos vistos não gostou da ideia e multou o clube.
Isso já me ultrapassa, não vou comentar.

Bruno Varela (2.º à direita) começou a representar a seleção de Cabo Verde, em 2024

Bruno Varela (2.º à direita) começou a representar a seleção de Cabo Verde, em 2024

 

D.R.

A saída de Rui Borges deixou algum sentimento de orfandade ou mágoa no balneário do Vitória?
Não. Isto é futebol. Somos crescidos o suficiente para saber que este tipo de situações pode acontecer. Só dá mérito ao nosso trabalho enquanto jogadores e obviamente ao mister Rui Borges e à equipa técnica enquanto treinadores. Se o Sporting teve interesse, valoriza todo o trabalho que estávamos a fazer. O mister decidiu ir e desejámos a maior sorte do mundo, menos contra nós. Acima de toda mantemos uma boa relação com ele e ficamos agradecidos, a ele e à equipa técnica, pelo tempo que estiveram aqui connosco.

Qual foi a melhor defesa que fez até hoje?
Não digo que fosse a melhor defesa, mas uma defesa muito importante foi a do ano passado, ao remate do Trincão, no jogo com o Sporting. Conseguimos ganhar o jogo, aquele remate do Trincão daria o segundo golo do Sporting e, embora não tenha sido a defesa mais difícil que fiz, foi muito importante, porque na sequência daquele lance fizemos o 2-1 e acabámos por ganhar.

E o ‘frango’ que mais lhe custou?
Foi no Bessa e o ano passado, com o FC Porto, na Taça. Com o FC Porto custou muito porque estávamos a fazer um bom jogo. No Bessa foi por ser pelo Benfica e ter a repercussão que tem, levei muita pancada. No ano passado foi duro porque estávamos numa meia-final da Taça, até estávamos bem no jogo. E mais do que o ‘frango’ é aquilo que sentimos que pode ser a repercussão na equipa.

Qual a característica mais importante num guarda-redes?
Ser mentalmente forte.

Ao longo dos anos, quem se tornou as suas principais referências de guarda-redes?
Os guarda-redes que aprecio ver jogar são o Ederson, o Ter Stegen, o Neuer, o Allison, esses quatro são aqueles que mais gosto de ver jogar agora.

Bruno Varela fotografado no dia em que foi entrevistado pela Tribuna

Bruno Varela fotografado no dia em que foi entrevistado pela Tribuna

 

RUI DUARTE SILVA

Onde ganhou mais dinheiro na carreira?
No Ajax.

Investiu?
Investi num negócio, mas prefiro não dizer qual.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Um fim de semana com a minha mulher, no Algarve, num hotel super caro. Já foi há alguns anos. Quando vi a conta, arrependi-me, mas já estava feito [risos].

O seu filho joga futebol?
Joga, mas não joga em nenhum clube. Ele gosta de ir à baliza.

Revê-se nele?
Ele é um bocadinho parecido na parte dos reflexos, acho que tem bons reflexos, só que ele é canhoto, por isso se for guarda-redes vai ser muito melhor com os pés do que eu. Mas já tem coisas muito parecidas.

Tem algum hobby?
Gosto de estar com a família. Volta e meia gosto de jogar PlayStation com os meus amigos. Jogo FIFA. Sou muito apegado à família e amigos.

Acredita em Deus?
Acredito muito.

É praticante?
Sou. Já não vou à missa há algum tempo, a minha avó há pouco tempo deu-me na cabeça por causa disso e eu tentei justificar com os muitos jogos e muitos estágios, mas ela disse-me logo que isso não é desculpa, e tem razão. Andei na catequese, ia à missa quando era mais novo, então sou muito crente.

Superstições tem ou teve?
Não, tenho rituais, mas superstição, não. Gosto de fazer as minhas rezas antes dos jogos. Tenho outros rituais que prefiro não dizer, mas os meus colegas sabem porque me veem a fazer no balneário.

Tatuagens?
Tenho. A primeira foi o nome da minha mãe. Fiz com 15 ou 16 anos. No total tenho cinco e todas têm um significado. O meu filho cobra-me, diz-me que tenho de fazer uma com o nome dele. Tem razão, mas eu já lhe disse que fiz todas quando tinha 16 anos e que não quero fazer mais porque doem muito [risos].

O guarda-redes com o filho, Diego

O guarda-redes com o filho, Diego

 

D.R.

Acompanha e ou pratica outra modalidade?
Gosto de basquetebol, gosto de fazer boxe. Há dois anos que ando a dizer que vou começar a fazer pilates e ainda não comecei.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Foi no Benfica, não ter defendido a bola do [Hector] Herrera.

E o maior arrependimento?
Não tenho.

Momento mais feliz na carreira?
Foi quando soube que ia estrear-me pela equipa principal do Benfica.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que gostava de representar?
O Real Madrid.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Tiago Silva, o Ivan Cavaleiro, Helder Costa, David Neres, tenho muita gente com quem me dou muito bem.

Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Acho que não.

mw-320

RUI DUARTE SILVA

O que pensa do VAR?
Veio trazer a verdade desportiva. As pessoas dizem que o VAR tira a emoção, mas só dizem isso quando não lhes convém. Se um adepto diz isso e depois a equipa dele sofre dois golos em fora de jogo, que não podem ser anulados caos não existisse o VAR... Tira a emoção, não. Só que dá menos margem de erro aos árbitros.

Qual adversário mais difícil que enfrentou em campo?
Quando enfrentei o Aboubakar estava numa fase incrível e era uma dor de cabeça muito chata.

O colega de equipa com quem mais aprendeste ou com quem mais gostaste de trabalhar?
O Onana. Tínhamos ótima relação, trabalhávamos os dois muito bem. Havia uma rivalidade saudável entre os dois e bom companheirismo. Mas também gostei muito de trabalhar com o Jhonatan, que está no Rio Ave.

O momento mais difícil que passou na vida?
Acho que ainda não tive um momento que possa considerar já o mais difícil da minha vida.

Tem algum talento escondido?
Eu ia dizer cozinhar, mas depois iam dizer que estava a mentir [risos]. Mas acho que às vezes faço coisas fixes.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Acho que ia trabalhar em algo que ajudasse a sociedade de alguma maneira.

 

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Spoiler

“Cresci na Quinta do Mocho, vi um amigo a ser baleado e já estava no Sporting quando um dia acordei com uma arma apontada à cabeça”

Carlos Mané, 30 anos, cresceu num bairro problemático de Sacavém, onde viveu episódios que lhe marcaram a vida. O sonho de ser jogador de futebol ajudou-o a afastar-se de maus caminhos e o Sporting, ao reconhecer-lhe talento, colocou-o na Academia de Alcochete para afastá-lo do bairro. Acabou por cumprir o seu maior sonho: jogar na equipa principal dos leões. Esteve 18 anos ligado ao clube do coração, que ainda hoje diz ser o melhor do mundo e confessa sentir que a sua “explosão” foi travada pela falta de oportunidades que teve com Jorge Jesus. Um treinador que, afirma Mané, não soube tirar o melhor dele

Nasceu em Lisboa. É filho de quem e onde cresceu?
Os meus pais já se conheciam da Guiné-Bissau, onde nasceram. Vieram para Portugal em 1992 e juntaram-se. A minha mãe trabalhava como empregada doméstica e o meu pai nas obras. Primeiro vivemos no Algarve, quando eu ainda era bebé. Depois fomos para a Espanha, vivemos em Madrid. Lembro-me de ter andado na escola lá, com quatro anos, já falava espanhol. Com cinco anos, fomos para Portugal. Começámos a viver em Sacavém, na Quinta do Mocho.

Tem irmãos?
Da parte da mãe tenho um e da parte do pai, são três. Uma das minhas irmãs é mais velha, tem 32 anos, os outros são todos mais novos; um tem 10 anos, outro tem 14 anos e vive na Guiné, tenho uma irmã de 16 anos, que vive na Inglaterra, e um irmão, que vai fazer 20 anos e que vive com a minha mãe, em Lisboa. Sou o único filho do mesmo pai e mãe.

Crescer num bairro problemático como a Quinta do Mocho não deve ter sido fácil. Qual foi a maior marca que ficou do bairro?
É sempre difícil crescer num bairro como aquele, porque há coisas que as crianças não podem ver e veem, que ficam marcadas para a vida. Mas essas coisas que vi quando era mais novo ajudaram-me a ser quem sou hoje.

A que assistiu que o marcou tanto?
Vi amigos a levarem tiros.

Da polícia?
Não, de outros. Já estava no Sporting, tinha 12 anos. Ver um dos meus melhores amigos ser baleado é duro. Felizmente ele está bem, que é o mais importante.

Carlos Mané (o 1º à frente de t-shirt escura) cresceu na Quinta do Mocho, em Sacavém

Carlos Mané (o 1º à frente de t-shirt escura) cresceu na Quinta do Mocho, em Sacavém

 

D.R.

Nunca se meteu em confusões e sentiu-se tentado a enveredar por caminhos menos positivos?
Sendo do bairro, temos sempre aquela rebeldia, mas tive bons amigos que sempre me ajudaram nesse aspeto. Quando iam fazer alguma coisa ilegal, digamos assim, diziam que eu não podia ir porque era jogador; queriam que eu vingasse no mundo do futebol e fosse um grande jogador. Protegeram-me de alguma forma.

Em casa também tinha rédea curta?
Tive uma boa educação, tanto da parte do meu pai, como da minha mãe. Mas também fui sempre um rapaz calmo, que sabia o que queria para a vida.

O que dizia querer ser quando era pequeno?
Sempre disse querer ser jogador de futebol. Era o meu sonho desde pequeno.

De onde veio essa paixão pelo futebol, tem ideia?
A minha mãe jogava futebol na Guiné. Era capitã da equipa e julgo que jogou uns três quatro anos no Sporting de Bissau. O meu pai também jogava, mas não profissionalmente. Os colegas dele diziam que ele jogava bem. Quase todos os familiares, tanto da parte de mãe como de pai, dizem que jogaram futebol.

E torciam porque clube?
80% da família é do Sporting.

mw-320

D.R.

Como foi parar ao Sporting e com quantos anos?
Eu jogava futebol no bairro, o meu pai na altura não estava presente, então a minha mãe levou-me ao antigo Estádio de Alvalade para fazer a inscrição. Passado um ou dois meses fui fazer testes em Pina Manique. Éramos uns 40/50 meninos. Eu ia fazer sete anos. Só fiquei eu e mais dois meninos.

Como ia para os treinos?
No primeiro ano a minha mãe levava-me aos treinos, de Sacavém até Pina Manique. Como não havia muitos jogadores da minha idade, treinava com os mais velhos. Treinei com o Cédric Soares, por exemplo. Os treinos eram duas ou três vezes por semana. A partir do segundo ano comecei a ir sozinho. Saía da escola, com oito anos, apanhava o autocarro de Sacavém até à Gare do Oriente, depois apanhava o 50 até Pina Manique. Há pouco tempo falei com a minha mulher sobre isso, agora as crianças já não são como antes, não fazem as coisas sozinhas como nós fazíamos. É pena, faz mesmo falta, ajuda-nos a crescer.

Nessa idade, quem eram os seus ídolos?
O Nani, o Yannick, o Miguel Veloso, mas eles ainda não estavam na equipa A. O grande ídolo de todos naquela altura era o Liedson. Ainda apanhei o Mário Jardel, o João Pinto...

E da escola, gostava?
Gostava. Sempre gostei de aprender. A escola era muito importante para mim.

Estudou até que ano?
Até ao 11.º ano, depois fui logo para a equipa A e já não consegui conciliar mais.

O extremo com a mãe

O extremo com a mãe

 

D.R.

Recorda-se quando sentiu pela primeira vez que o sonho de ser jogador de futebol era mesmo realizável?
Foi quando entrei na Academia de Alcochete, com 14 anos. Às vezes via os treinos da equipa A e dizia que queria lá chegar. Felizmente consegui, mas foram precisos muitos sacrifícios.

Quais foram os sacrifícios que lhe custaram mais?
Estar longe da família. O Sporting achou que era melhor eu viver na Academia, porque vivia num bairro problemático e podia distrair-me com outras coisas. Jogaram pelo seguro e meteram-me na Academia. Foi duro deixar a família, embora eu também gostasse da Academia, porque tinha lá muitos amigos, muitos colegas que jogavam comigo. Foi uma das melhores experiências da minha vida. Mas custou deixar a família, como custa a todos. Eu sabia que estava ali por um motivo, que era para uns anos mais à frente poder dar uma vida melhor aos meus pais e à minha família.

Até chegar à equipa B, quais foram os momentos e as pessoas mais marcantes no Sporting?
Foram muitos momentos, mas diria três: quando cheguei ao Sporting e comecei logo a treinar com jogadores mais velhos, o que me ajudou bastante; a entrada na Academia; e o último campeonato de formação que tive nos juniores. As pessoas que me marcaram também foram muitas. Começando nos juniores. O mister Abel Ferreira foi muito importante para mim. É um treinador que sabe comunicar com os jogadores. Conseguia fazer com que todos os jogadores se sentissem importantes. Sabe motivar os jogadores; o mister Sá Pinto, pela garra que tem, também nos ajudou a ser mais corajosos e a saber melhor o que é o Sporting; o mister Tiago Capaz, o mister Tiago Gonçalves. Todos os treinadores que tive na formação foram muito importantes. Ainda me lembro o mister Zé João, das escolinhas. O mister Hugo Cruz esteve lá pouco tempo, mas também foi importante para todos os jogadores. Ajudavam-nos muito.

Lembra-se em particular de alguma ‘dura’ que tenha levado?
Sempre fui um rapaz que cumpria com as coisas, era tímido e nunca levava duras, se levei já nem me lembro.

Com o pai

Com o pai

 

D.R.

Na formação, como se projetava no futuro, o que mais ambicionava?
O meu maior sonho era ser jogador do Sporting e chegar à equipa principal. Era o meu maior sonho. Por mim, podia jogar no Sporting a minha vida inteira, porque o Sporting deu-me tudo. Na formação e na equipa A tive propostas para sair, mas não saí porque precisavam de mim.

Nunca duvidou que conseguia lá chegar?
Não. Sabia que era difícil, mas também sabia que era capaz, porque sabia das minhas qualidades. Só precisava de uma oportunidade para mostrar o meu valor.

Começou a jogar em que posição?
Quando era mais novo jogava como ponta de lança. Depois tornei-me extremo. Eu gostava mais de jogar a ponta de lança, mas comecei a descair mais para as linhas e agora gosto mais de jogar a extremo, é uma posição onde me valorizo melhor.

Assinou o primeiro contrato profissional com quantos anos e qual era o valor do ordenado?
Com 17 anos e recebia dois mil e tal euros.

O que fez com o primeiro salário?
Eu tinha uma conta conjunta com a minha mãe e o dinheiro ia todo para lá, para a minha mãe comprar as coisas para casa. Acho que comprei um telemóvel, na altura, um Nokia [risos]. Passado cinco, seis meses, tirei a minha carta de condução.

Quando começaram as primeiras saídas à noite e os namoros mais sérios?
Com 17, 18 anos. Mas sou um rapaz mais caseiro. Gosto de ficar em casa, com a família e descansar bem, porque o futebol tira-nos muita energia e precisamos repô-la.

Calos Mané fez toda a formação no Sporting

Calos Mané fez toda a formação no Sporting

 

Denis Doyle

Recorda-se quando foi chamado a primeira vez para treinar com a equipa principal?
Muito bem. Fui chamado pelo mister Leonardo Jardim, que estava em contacto com o mister Abel, que lhe deu boas referências sobre mim. Estou muito grato ao mister Abel, acompanho o trabalho que tem feito no Brasil.

Estava muito nervoso?
No início estava um bocadinho tímido e nervoso, tinha 18 anos. Lembro-me que foi numa quarta-feira, o treino de manhã. Estavam lá todos, o Carrillo, o William Carvalho, o Maurício, o central, o Jefferson, o Adrian, o Cédric.

Algum deles foi particularmente mais simpático?
Eram todos boas pessoas, bons jogadores e acolheram-me bem. O Jefferson, o lateral esquerdo, foi um dos que me acolheu melhor, o William também. Sou muito grato a eles por me terem ajudado a impor-me mais na equipa, ajudaram-me em tudo para eu poder estar mais solto e poder mostrar do que era capaz.

Quando foi em definitivo para a equipa principal?
No início da época 2013/14. Eu tive uma lesão no menisco, mas era uma coisa pequenina. Fui operado, parei duas semanas, quando voltei o mister Leonardo Jardim chamou-me e disse que contava comigo. Se eu correspondesse ao que ele estava a pensar, ficaria na equipa A. Em setembro comecei a treinar com a equipa A. Ele acreditou no meu potencial e disse-me que a partir de janeiro ia começar a jogar mais como titular e foi o que aconteceu. Sou muito grato também ao mister Leonardo Jardim por tudo o que fez por mim. Tentou levar-me quando foi para o AS Monaco, mas o Sporting rejeitou a proposta. O meu pai depois ainda falou com o mister Leonardo Jardim, mas ele disse que já não dava para eu ir porque tinha um grande jogador a chegar das camadas jovens para a minha posição e o clube decidiu que já não ia fazer nenhuma contraproposta. Esse jogador é o Mbappé. Ou seja, o mister Leonardo Jardim já sabia que o Mbappé seria um grande jogador.

Queria ter ido para o Mónaco?
O meu sonho foi sempre ficar no Sporting. O meu empresário chegou a dizer-me que a única hipótese de eu sair era arranjar alguma confusão, um atrito qualquer. Mas não fiz isso ao Sporting. Não ia ficar bem se lhe fizesse isso. Para mim teria sido ótimo, porque ia ganhar um milhão e meio de euros por época [risos]. Não fiz nada, por amor e respeito ao Sporting.

Mané representou a seleção portuguesa dos sub-15 até aos sub-21

Mané representou a seleção portuguesa dos sub-15 até aos sub-21

 

Mike Egerton - EMPICS

Recorda-se do seu jogo de estreia na I Liga?
Sim, foi contra o V. Setúbal, em Alvalade. Foi um dos dias mais felizes da minha vida porque tinha chegado à equipa A, onde sempre sonhei jogar. Entrei na segunda parte, já quase a acabar o jogo, para o lugar do Carrillo se não me engano.

As pernas tremeram antes de entrar?
Sou um jogador que não sente muito a pressão. Sou uma pessoa muito calma. Claro que dá aquele friozinho na barriga, mas sabia que estava ali para concretizar o meu sonho: jogar pelo Sporting. Deixei-me levar com o jogo e correu bem. Estou muito grato. Naquele momento senti gratidão por todas as pessoas que me ajudaram.

Tinha 19 anos. Vivia onde e com quem?
Vivia em Sacavém com a minha mãe. Depois comprei a minha primeira casa, na Ramada. Fui viver com a minha mãe para lá.

Havia algum namoro sério?
Já tinha começado a namorar a minha mulher, a Dandara.

Como se conheceram?
Tínhamos um amigo em comum, o Rúben Vezo, que é primo dela e jogava comigo na seleção de sub-20 e sub-21. Eu disse-lhe que queria conhecê-la [risos]. Conhecemo-nos quando eu ainda estava na equipa B. Graças a Deus estamos juntos até hoje e já temos quatro filhos.

Quando se tornou sénior havia algum jogador que acompanhasse mais e que tentasse imitar?
Nessa altura todos gostávamos do Cristiano Ronaldo. Do Nani também. Eram as nossas referências.

A primeira chamada a uma seleção aconteceu quando?
Fui chamado à seleção portuguesa dos sub-15 até aos sub-21.

Recorda-se do primeiro golo marcado pela equipa principal do Sporting?
Se não me engano foi para a Taça da Liga, contra o Marítimo. Na I Liga, o primeiro foi contra o Olhanense. Mas o primeiro jogo que fiz a titular foi contra o Marítimo para a Taça e marquei um grande golo. Foi antes do golo ao Olhanense. O primeiro golo nunca se esquece. Foi um golo de levantar o estádio e tinha os meus familiares no estádio, foi uma alegria imensa, foi logo nos primeiros minutos, se não me engano. Foi um dia marcante para mim.

Carlos Mané esteve 18 anos ligado ao Sporting

Carlos Mané esteve 18 anos ligado ao Sporting

 

D.R.

Quando o seu nome começou a ser muito falado e a aparecer com mais frequência nos jornais, veio a público uma notícia de que o seu pai era procurado por tráfico de droga. De que forma é que mexeu consigo?
Fiquei surpreendido. O meu pai já teve problemas com a justiça, mas, na altura, ele estava em Lisboa e não tinha nenhum problema com a justiça. Não percebi de onde veio aquela notícia, nem porquê. Acho que surgiu para tentar desestabilizar. Mas nunca me deixei levar por isso. A notícia era falsa. Os meus pais já estavam separados, ele não vivia comigo. Mesmo assim, um dia a polícia foi a minha casa e acordei com uma arma apontada à minha cabeça.

Depois ou antes daquela notícia sair?
Antes. Eu ainda vivia na Quinta do Mocho, estava entre a equipa B e a equipa A. Eles pensavam que o meu pai vivia comigo. Ouvi um estrondo, por volta das cinco da manhã, pensava que estava a sonhar e continuei a dormir, mas depois apareceram muitos policiais, apontaram-me uma arma à cabeça, com aquelas luzes e tudo, e algemaram-me. São coisas de viver num bairro, mas foi um susto enorme e um dia marcante. Disse-lhes que o meu pai não vivia ali. Disseram que tinham de investigar. Recordo-me que, com a raiva com que fiquei ao ser acordado daquela maneira e ao ver-me algemado, disse-lhes: “É por coisas destas que um dia vou ser um jogador de futebol, vou sair deste bairro e comprar uma casa boa e bonita. Nunca mais nenhum polícia vai à minha casa.”

Ficou com raiva da polícia?
Não. Há muitos polícias que abusam, é verdade, as pessoas não sabem, mas abusam. Mas eu respeito o trabalho dos polícias e não tenho nenhuma mágoa com eles. Os polícias estão cá para nos ajudar e para nos proteger. Aliás, aconteceu um episódio curioso mai tarde.

Pode contar?
Estava no Sporting, tinha acabado de comprar um carro, acho que era um BMW. Fui ao meu bairro visitar alguns amigos e quando vou a sair do bairro, vejo o carro da polícia a seguir-me. Ainda esteve uns cinco minutos a seguir-me e de repente ouço a sirene, fiquei logo assustado. Os policiais pararam-me, pediram-me os documentos, ficaram a saber quem eu era. O policia acabou por dizer-me que foi ele que foi à minha casa uns anos antes, que era o trabalho deles, mas sabiam que não iam encontrar nada, era só mesmo porque tinham um mandato superior para ir a várias casas do bairro. Pediu desculpas, ainda me pediu para tirar foto com ele com o outro polícia e disse-me que sou um exemplo para o pessoal do bairro e para as crianças, para continuar a visitar os amigos do bairro. Esta história também serve para dizer que o pessoal do bairro, mesmo quando é confrontado com a polícia, tem de saber dar a volta por cima e não pensar só negativamente. Foi o que fiz, segui em frente, não deixei que aquilo me afetasse, por isso consegui chegar onde cheguei.

Quando a notícia sobre o seu pai surgiu, em 2014, tinha algum fundo de verdade?
Não. O meu pai estava em Portugal, ia ver os meus jogos. Ele foi à polícia apresentar-se e no final correu tudo bem, não teve nenhuma medida de coação, nem nada do género. Pediram-lhe desculpas, inclusive, e a mim. Nessa altura, já estava na equipa A do Sporting.

Mané abraçado a Marco Silva após a conquista da Taça de Portugal, em 2015

Mané abraçado a Marco Silva após a conquista da Taça de Portugal, em 2015

 

D.R.

No final da primeira época na equipa principal do Sporting renovou contrato e conseguiu melhorar a sua situação?
Sim, renovei o contrato e depois renovei mais uma vez, com o mister Jorge Jesus.

Quando jogou pela primeira vez competições europeias?
No Sporting. Joguei Liga Europa e Liga dos Campeões. Fiz golo na Liga dos Campeões contra o Maribor, no Estádio de Alvalade, em 2015. Marquei o golo, olhei para o ecrã gigante e dizia que era autogolo. O meu primeiro golo na Liga dos Campeões e queriam roubar-me, fogo [risos]. Depois lá viram as imagens e atribuíram-me.

Esteve uma época com Marco Silva e foi umas das suas melhores no Sporting. Gostou dele?
É um grande treinador e já o provou. Desejo-lhe as melhores felicidades do mundo, tem qualidade para chegar a melhores equipas e acho que vai chegar. É um treinador comunicativo, que também sabe falar com os jogadores e respeita-os. Taticamente é muito bom.

Ganhou a Taça de Portugal nessa época 2014/15. Como foi festejar o primeiro título pelo Sporting?
Foi uma final com o Sporting de Braga. Estávamos a perder, se não me engano por 2-0, entrei após o intervalo, conseguimos empatar e ganhámos nos penáltis. Foi espetacular. Foi o meu primeiro título com o meu clube de coração, onde sempre sonhei jogar. Foi muito marcante ver os meus pais a festejar, os amigos, os adeptos. É um dia que nunca esquecerei. Embora nesse dia nem consegui festejar muito porque tive de ir ao doping [risos]. Mas quando festejei no estádio perdi a minha medalha [risos].

Como, tem noção?
Os adeptos estavam muito contentes, atiravam-nos ao ar e deve ter sido aí, no meio dessa confusão. Felizmente fizeram-me uma nova.

Gelson Martins, Rúben Semedo e Carlos Mané com a Supertaça conquistada pelo Sporting em agosto de 2015

Gelson Martins, Rúben Semedo e Carlos Mané com a Supertaça conquistada pelo Sporting em agosto de 2015

 

Carlos Rodrigues

Na época seguinte entrou Jorge Jesus. Como foi lidar com JJ? Levou muitas duras?
[Risos] Com o mister Jorge Jesus todos os jogadores levam duras. Seja quem for. Na época anterior eu tinha feito nove golos, foi uma época boa para mim. A época seguinte, era a minha época de afirmação. Mesmo o presidente, Bruno Carvalho, dizia que eu ia jogar mais, para poder ser vendido. Comecei a pré-época bem com o mister Jorge Jesus, marquei golos. Na 3.ª jornada marquei golo e sofri um penálti. Ganhámos 3-1 contra a Académica. Tinha tudo para correr bem essa época. Naturalmente pensei que ia dar um grande salto em termos de números e de jogo. Mas, faço esse jogo, sou o melhor em campo e a seguir fiquei 15 jogos no banco.

Percebeu porquê?
Compraram alguns jogadores estrangeiros para a minha posição, como o Bryan Ruiz, por exemplo. Lembro-me que após esse jogo, fui para a seleção de sub-21 e, quando voltei, estava tudo mudado, eu já não estava na equipa titular. Fiquei 15 jogos sem ser titular para o campeonato.

O que fez? Perguntou ao treinador qual a razão?
Fui falar com o mister, claro, ele disse que era escolha dele e para eu continuar a trabalhar. Em janeiro, depois de ficar aqueles jogos todos sem jogar, tive uma proposta para sair do Sporting, mais uma, para a Alemanha. Tinha o interesse do Leverkusen e do Hamburgo. O mister Jorge Jesus não me deixou ir, disse que eu ia começar a jogar. Segunda volta do campeonato, jogo contra a Académica, joguei, ganhámos 3-2, faço duas assistências. Depois fechou o mercado e não joguei mais a titular no campeonato, ia jogando na Liga Europa. Acho que fiz três assistências ou duas na Liga Europa.

Foi-se muito abaixo psicologicamente?
Fui porque sabia que podia ser a minha época de afirmação, estava mais confiante, mas não tive as oportunidades que tinha tido na época anterior com o mister Marco Silva. Sem essas oportunidades não consegui mostrar do que era capaz. O mister Jorge Jesus não conseguiu tirar o melhor de mim. Fui um bocado abaixo porque não jogava. Fui falar outra vez com o mister Jorge Jesus, ele dizia que eu era futuro do clube, para ter calma, que na próxima época ia jogar mais, não queria que eu fosse embora. Na altura queria meter-me a jogar na posição atrás do ponta de lança, onde dizia que eu podia ser mais efetivo. Mas atenção, não tenho nada contra o mister Jorge Jesus, é um grande treinador, sou muito grato de tudo o que aprendi com ele e estou sempre a torcer por ele. Tem feito muito pelo futebol português e é um dos melhores treinadores do mundo.

Os amigos do bairro da Quinta do Mocho, com algumas das camisolas que Mané vestiu

Os amigos do bairro da Quinta do Mocho, com algumas das camisolas que Mané vestiu

 

D.R.

O que aconteceu na época seguinte?
Fiz a pré-época com o Sporting, fomos para a Suíça. Fiz alguns jogos, entretanto fui aos Jogos Olímpicos do Rio 2016.

Como foi essa experiência?
Foi uma experiência muito boa estar com atletas de outras modalidades. O estarmos todos juntos numa vila, o ir ao Brasil pela primeira vez foi muito bom. Jogar por Portugal nos Jogos Olímpicos foi muito marcante.

Quando foi pai pela primeira vez?
Nesse ano [2016], em abril, fui pai da Safira, assisti ao parto e correu tudo bem Graças a Deus. Quando a minha filha nasceu já tinha comprado uma nova casa e já vivia com a minha mulher.

Qual foi a sensação de ser pai?
É das melhores coisas que a vida nos pode dar. Termos ali alguém que confia em nós a 100 % e sermos os heróis deles... É muito bom cuidar dos nossos filhos. Dá-nos mais força para o nosso dia a dia saber que temos alguém em casa que conta connosco para os apoiar e ajudar em tudo que for preciso.

 

Spoiler

“Tenho quatro filhos e todos os nomes deles começam com a letra S, de Sporting”

Carlos Mané está a jogar há quatro épocas na Turquia, onde vive com a mulher e os quatro filhos. Fã de novelas brasileiras e dono de uma empresa de TVDE em Portugal, nesta segunda parte do Casa às Costas, o extremo continua a relembrar os altos e baixos da carreira, que passou duas vezes pela Alemanha, onde jogou em dois clubes diferentes, e pelo Rio Ave, com um regresso ao Sporting pelo meio, antes de se instalar no Kayserispor. Pelo meio, o arrependimento de não ter ido para o Fulham

O que aconteceu quando regressou dos Jogos Olímpicos do Rio’2016?
Recebi abordagens de duas equipas alemãs, o Estugarda e novamente do Hamburgo. Também fui abordado pelo Fulham, da Inglaterra. Decidi ir para o Estugarda.

Porquê?
Porque é um clube histórico.

Mas estava na II Divisão.
Sim, mas tinham bons jogadores, o meu pai era apaixonado pelo clube, já conhecia o clube há muito tempo. Mas há uma história engraçada, pelo meio.

Pode contar?
Quando fui para o aeroporto, tinha viagem marcada para Inglaterra e para a Alemanha.

Por que razão tinha ambas as viagens marcadas?
Porque o presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, queria que eu fosse para o Fulham. Eu queria jogar mais, porque sabia que se jogasse ia conseguir mostrar o meu valor. O mister Jorge Jesus nunca quis que eu saísse, mas decidi com a minha família que tinha de sair para poder mostrar o meu valor e, ao mesmo tempo, sair da minha zona de conforto, porque cresci no Sporting, o Sporting é tudo para mim, por mim ficava no Sporting a vida inteira, é o melhor clube do mundo.

Isso significa que gostaria de terminar a carreira em Alvalade?
Gostava, mas sei que é difícil. Acho que todos os jogadores que passaram pelo Sporting gostariam de terminar lá a carreira. Mas o mais importante para mim é ver o Sporting cada vez melhor. O presidente Frederico Varandas tem tudo para ser o melhor presidente da história do clube. Tem ganhado muitos títulos e tem o Sporting no lugar que merece. Acho que todos os sportinguistas estão-lhe gratos pelo trabalho que tem feito.

 

Carlos Mané deixou o Sporting rumo ao Estugarda, em 2017

Carlos Mané deixou o Sporting rumo ao Estugarda, em 2017

 

TF-Images

Contava que tinha viagem marcada para Londres e para Estugarda. Também disse que o seu principal objetivo era jogar. Sentia que no Fulham podia não jogar tanto?
Sei que no Fulham também ia jogar. Se fosse hoje, se calhar optava por ir para o Fulham, mas na altura o Estugarda mostrou mais interesse. Vieram ter comigo a Portugal. Falaram comigo. O Fulham não mostrou esse interesse. No aeroporto decidi com o meu pai ir para Estugarda.

Foi a primeira vez que saiu para jogar num clube estrangeiro. Como foi a adaptação à Alemanha?
Era uma realidade totalmente diferente. O clima é muito mais frio. O meu inglês era fraquinho. Mas como sempre gostei de aprender, passado um mês ou dois já me conseguia safar bem, inclusive no alemão. Tínhamos aulas de alemão duas a três vezes por semana.

Levou a mulher e filha consigo?
Sim.

O clube estava num patamar superior ou abaixo daquilo que imaginava?
Quando fui para lá ainda estava na II Liga, mas já tinham feito uns quatro, cinco jogos e estavam em 1.º lugar. Tinham aspirações de ir para a Bundesliga. Foi nesse sentido também que me quiseram. Sabiam que ia ajudar o clube a chegar aonde eles mereciam. O Estugarda é um clube gigantesco, com adeptos ferrenhos, que apoiam o clube a 100%. Os estádios estavam sempre cheios, o estádio do Estugarda principalmente, estava sempre lotado. Ali senti-me um jogador a sério.

O que quer dizer com isso?
As condições eram ótimas, espetaculares, ao nível do Sporting ou do Benfica. Os estádios estavam sempre cheios. Os adeptos sempre a apoiar. Joguei muitos jogos. Fiz muitos golos e muitas assistências.

O extremo em ação pelo clube alemão

O extremo em ação pelo clube alemão

 

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O campeonato era muito diferente do português?
Sim, era um campeonato mais físico, era a única diferença. Mas de resto era similar ao campeonato português. Os jogadores tinham qualidade. Taticamente também eram bons.

Tinha portugueses na equipa?
Não. Na altura tinha o Insúa, que jogou no Sporting, e percebe português.

Alguma vez foi vítima de racismo?
Não, nunca. Se fui, não me apercebi.

Teve dois treinadores, um holandês e um alemão. Tinham um estilo muito diferente dos treinadores portugueses com quem lidou?
O treinador holandês esteve pouco tempo. Acho que só fez dois jogos, depois veio o alemão. São similares aos portugueses. Embora o treino físico fosse mais intenso e superior ao que se fazia em Portugal. O treinador-adjunto do mister alemão era português, sempre viveu na Alemanha, chama-se Miguel Moreira e também me ajudou muito. No primeiro jogo com o Estugarda fiz dois golos em cinco minutos. Foi uma estreia espetacular, nunca mais saí da equipa. Bati o recorde da Bundesliga e da II Liga do estreante a bisar mais rápido. Se não me engano, fiz seis golos e oito ou nove assistências no total.

O empréstimo era só de um ano?
Não, dois. O Estugarda pagou perto de dois milhões ao Sporting pelo empréstimo.

Adaptou-se bem à vida em Estugarda e aos alemães?
Gostei muito. A cidade é espetacular, tinha muitos portugueses, muitos supermercados portugueses. Os alemães são um bocadinho mais frios, mas são pessoas agradáveis e simpáticas. Às vezes vou lá passear com a família e relembrar alguns momentos.

 

Mané (1.º à direita) com o pai, o irmão, a mulher e a mãe

Mané (1.º à direita) com o pai, o irmão, a mulher e a mãe

 

D.R.

A seguir veio um período menos bom. Pode recordar o que aconteceu?
Joguei até abril, salvo erro, altura em que me lesionei.

Como?
Tivemos um jogo da seleção de sub-21, jogámos contra a Alemanha, curiosamente em Estugarda. Senti uma coisita no joelho, mas nada de mais. Fui para o jogo, estávamos a perder 3-0, eu já estava aflito do joelho, com dores, mas nunca pensei que fosse uma lesão tão grave. Já tinha feito uma assistência e no último lance, consegui cavar um penálti. Empatámos 3-3. Se não cavasse o penálti e não ganhássemos esse ponto, não ficávamos em 1.º do grupo. Dei tudo o que tinha e foi nesse lance que me lesionei. Já tinha tudo acertado com o Estugarda, eles iam comprar-me. Penso que iam dar 15 milhões ao Sporting. Tudo acertado com eles. Mas, surgiu essa lesão, que foi um momento marcante na minha vida.

Foi no menisco novamente?
Não. Tive uma lesão na cartilagem. Tive de ser operado em Portugal, pelo doutor Pedro Pessoa, amigo do presidente Varandas. Agradeço-lhes muito pela ajuda que me deram. Estava no melhor momento da minha carreira, ia ser comprado pelo Estugarda e tive um azar tremendo.

Esteve quanto tempo parado?
Quase um ano. Ficava três meses em Portugal, dois meses na Alemanha e ia alternando. Mas a maioria dos meses estive em Portugal, a fazer a recuperação.

Em 2018, Mané voltou a jogar pelo Sporting

Em 2018, Mané voltou a jogar pelo Sporting

 

Gualter Fatia

O negócio com o Estugarda, naturalmente, foi por água abaixo.
Sim, a lesão tirou-me a possibilidade de fazer o contrato da minha vida. Mas sabia que um dia iria voltar bem. Foquei-me na recuperação. O Estugarda foi outra vez para a I Liga e mesmo sabendo que eu estava lesionado quiseram ficar comigo. Entretanto, voltei da lesão, ia começar a jogar em março ou abril, ainda pelo Estugarda, mas tive mais outra lesão.

Como e onde?
No músculo reto da perna. Fiquei mais cinco/seis meses de fora. Mesmo assim, o Estugarda ainda depositava confiança em mim e fez mais uma proposta ao Sporting. Entretanto, houve o ataque à Academia de Alcochete, e apesar do Estugarda ter oferecido os sete milhões por mim, se não estou em erro, o Sporting não aceitou. Mas eu sabia o porquê do Sporting não aceitar.

Porquê?
Porque muitos dos jogadores rescindiram e o clube precisava de jogadores. Se eu estivesse na posição daqueles jogadores, por tudo o que o Sporting fez por mim, nunca rescindiria o meu contrato. Por culpa de outras pessoas, não ia deitar tudo abaixo, porque se não fosse o Sporting eu não seria o que sou. Entretanto, iniciei a época 2018/19, no Sporting, mas só fiquei até dezembro. Na altura veio o mister Marcel Keizer e ele queria jogadores que estavam bem fisicamente, deixou-me logo bem claro que eu não ia jogar muito porque tinha vinha de lesão. Ele precisava de resultados o mais depressa possível.

Antes do Keizer ainda se cruzou com o Tiago Fernandes e o Peseiro, ou não?
Sim, com o mister Tiago Fernandes tivemos um jogo contra o Arsenal. Ele também é um bom treinador, espero que tudo corra bem para ele. Com o mister Peseiro acho que ia conseguir voltar a jogar regularmente e continuar o meu trajeto no Sporting. Mas infelizmente o mister Peseiro foi embora. Veio o mister Keizer, que era um bom treinador também, e eu respeito-o pelo que ele fez. Ainda ganhou títulos. Mas foi bem claro comigo e os treinadores têm de ser claros com os jogadores.

Ainda na época 2018/19, o extremo foi emprestado ao FC Union de Berlim

Ainda na época 2018/19, o extremo foi emprestado ao FC Union de Berlim

 

Jan-Philipp Burmann

Em dezembro foi embora para o FC Union Berlim, que estava na II Liga. Foi emprestado ou rescindiu?
Fui emprestado seis meses.

Como correram esses seis meses e como foi viver em Berlim? Muito diferente de Estugarda?
Não, foi similar. Mas foi um dos piores momentos na minha carreira, porque não conseguia tirar o melhor de mim. Tinha algumas dores na perna a que fui operado. Só fiz um ou dois jogos e comecei logo a sentir muitas dores, não conseguia chutar e isso mexeu muito comigo. No final dessa época fui pai da Serena.

Entretanto, terminava contrato com o Sporting?
Tinha mais um ano de contrato. Mas recebi um email do Sporting a dizer que não contava comigo para a próxima época. Fui falar com Hugo Viana e com o presidente. Disseram-me que gostavam muito de mim, mas como vinha de lesão, achavam melhor eu ir para o Rio Ave e depois, se tudo corresse bem, um dia podia voltar. Entretanto, recebi uma chamada do mister Carlos Carvalhal, que me ajudou muito. Estava à procura de reencontrar-me novamente e consegui-o no Rio Ave. O Rio Ave deu-me a mão. Acabei por assinar um contrato por três épocas.

Ao fim de 18 anos de ligação com o Sporting, custou-lhe muito sair em definitivo do clube?
Sim, porque no Sporting, no ano que era para ser da minha explosão e jogar mais, sinto que me foi tirada essa oportunidade. Eu já tinha grande admiração dos adeptos, eles tinham muita esperança em mim e por isso sinto um vazio por nessa terceira época não ter conseguido jogar mais e ajudar mais o clube, porque eu tinha condições para fazê-lo. Se tivesse sido dada sequência àquele jogo com a Académica, em que marquei golo, sofri penálti e fui o melhor em campo, com certeza que iria fazer a minha melhor época no Sporting e podia gerar uns bons milhões para o clube.

De regresso a Portugal, Mané assinou pelo Rio Ave em 2019/20

De regresso a Portugal, Mané assinou pelo Rio Ave em 2019/20

 

D.R.

Gostou do Carvalhal enquanto treinador?
É um grande treinador, é bom taticamente. Sabe motivar muito bem os jogadores antes dos jogos, sabe fazer com que os jogadores se sintam confiantes e importantes. Fizemos a melhor época do Rio Ave, conseguimos levar o Rio Ave à Europa. Consegui mostrar melhor o meu futebol. Ainda com algumas dores, mas depois finalmente tudo passou. Precisava de tempo. Os fisioterapeutas e os treinadores do ginásio do Rio Ave também me ajudaram bastante. As pessoas não sabem, mas muitos jogadores jogam com dores e querem sempre ajudar a equipa, mesmo não estando bem. Foi o meu caso. No início da época, não me sentia muito bem no Rio Ave, mas com o decorrer do tempo comecei a sentir-me melhor e consegui ajudar a equipa. Agradeço também muito ao mister Carlos Carvalhal, por me ter dado uma oportunidade de poder mostrar o meu valor.

Entretanto, surgiu a pandemia. Foi-lhe difícil jogar sem público?
Foi. Gosto de jogar com adeptos, o futebol não tem vida sem os adeptos. Foi muito difícil para todos.

A segunda época no Rio Ave começa com Mário Silva a treinador. Como foi esse início de época?
Foi bom. Um treinador jovem, com muita competência e com muita qualidade. Mas, entretanto, tivemos jogos das competições europeias. Jogámos contra o Borac, depois contra o Besiktas e também ganhamos. Depois veio o AC Milan, onde tivemos tudo para ganhar o jogo, mas perdemos nos penáltis. Foram precisas quase 10 penalidades para cada lado. Depois, fomos perdendo alguns jogos no campeonato e trocámos de treinador, entrou o mister Pedro Cunha, da formação, e a seguir o mister Miguel Cardoso, um grande mister também que nos ajudou bastante. Mas nessa época, infelizmente, descemos de divisão.

O extremo (à esquerda) em ação pelo Rio Ave

O extremo (à esquerda) em ação pelo Rio Ave

 

Gualter Fatia

Entretanto, voltou a ser pai.
Sim, da Sabrina, precisamente em 2020, no ano do Covid.

Andavam atrás do rapaz?
[Risos] Sim e conseguimos. O meu filho, o Saint, fez agora cinco meses. São todos com S de Sporting.

Ainda iniciou a época na II Liga com o Rio Ave, mas acabou por sair para a Turquia. Saiu porque o Rio Ave não conseguia suportar o seu salário ou porque queria ir novamente para fora?
Acabei por sair mais porque o Rio Ave não queria suportar o meu salário. O Sporting tinha ficado com o meu passe e nos primeiros anos recebia do Sporting e do Rio Ave, mas na terceira época o Rio Ave já tinha de pagar na totalidade. Eles falaram comigo, disseram-me que não tinham dinheiro para me pagar, porque com o dinheiro que me iam pagar-me podiam contratar cinco jogadores, e eu podia sair a custo zero. Eu também já tinha recebido algumas propostas da Turquia e dos Emirados Árabes. Mas não era assim nada de mais. Eu queria começar logo a jogar. Se eu esperasse conseguiria mais clubes, mas não quis esperar.

Assinou por quanto tempo com o Kayserispor?
Três anos. O primeiro ano foi complicado.

Porquê?
Porque apanhámos um treinador com umas ideias totalmente diferentes do que eu e o Miguel Cardoso, que está aqui comigo, estávamos habituados.

O que ele tinha de diferente?
Taticamente não era o que estávamos habituados. Sempre cresci a jogar um futebol atraente e ofensivo e com ele era mais defensivo. Mas quando me disseram para vir, falaram-me que o futebol era ofensivo, por isso não foi o que estava à espera. Entretanto, não joguei muito a titular, mas a equipa fez uma época razoável.

Mané com a mulher e as três filhas

Mané com a mulher e as três filhas

 

D.R.

Como foi o primeiro embate com a cultura local?
Tinha uma ideia diferente da Turquia, achava que era um povo mais fechado por serem muçulmanos, mas chegando cá percebi que as pessoas são simpáticas, gostam de ajudar e são muito competentes no que fazem. A cidade fica perto da Capadócia, o problema maior é o frio. Mas aguento bem.

A família adaptou-se bem?
Elas ficaram comigo na primeira época, mas na segunda optámos por ficarem em Portugal porque a minha filha mais velha ia começar o 1.º ano e aqui não havia escola internacional. Entretanto, esta época já estão cá comigo. Ela está numa escola turca, mas onde também falam inglês.

Quais os momentos-chave destas três épocas e meia na Turquia?
O mais especial foi na época passada, em que a equipa precisava muito de mim, precisávamos muito da vitória num jogo contra o Konyaspor e fiz dois golos nesse jogo, ajudando a equipa a manter-se na liga.

Gosta do futebol turco?
É um futebol diferente. É mais físico, mais de contacto, mais agressivo. Taticamente o futebol português é melhor.

Já renovou?
Sim, por mais três anos. Gosto de estar aqui, é uma cidade boa, os adeptos também são bons.

O que faz nos tempos livres?
Gosto de estar em casa a jogar FIFA e Call of Duty na PlayStation, ou a ver filmes e as minhas novelas brasileiras. Tenho uma app de novelas brasileiras. Aqui vive-se bem, a comida é boa e agora com a família cá gostamos de passar tempo em família. As minhas filhas já falam turco.

Em 2021/22, o extremo assinou pelo Kayserispor, da Turquia

Em 2021/22, o extremo assinou pelo Kayserispor, da Turquia

 

D.R.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Quero jogar até onde der, ainda quero jogar em Portugal. Sinto-me bem fisicamente e acho que ainda tenho uns bons anos de futebol. Mais sete, oito anos no mínimo.

Já pensou no que quer fazer quando tiver de pendurar as chuteiras?
Quero continuar ligado ao futebol, talvez como empresário.

Onde ganhou mais dinheiro?
Aqui na Turquia.

Já investiu?
Sim, em imobiliário e tenho uma empresa de TVDE em Portugal.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Comprar o meu Porsche Panamera.

Tem algum hobby?
Jogar ténis e pingue-pongue.

Acredita em Deus?
Sim. Em Portugal costumo ir à igreja.

Superstições, tem?
Entrar no campo com o pé direito e rezar à noite.

Tatuagens?
Tenho. A primeira fiz com 17 anos, foi o nome do meu pai e da minha mãe. Tenho as datas e as horas em que as minhas filhas nasceram, a minha data de nascimento, também tenho o meu bairro tatuado no meu braço. E uma cruz.

Mané cumpriu o sonho de ser pai de um rapaz há cinco meses. O filho chama-se Saint

Mané cumpriu o sonho de ser pai de um rapaz há cinco meses. O filho chama-se Saint

 

D.R.

Qual a maior frustração que tem na carreira até hoje?
Ter-me lesionado no momento crucial da minha carreira.

E o maior arrependimento?
Não tenho.

O momento mais feliz da carreira?
O meu primeiro golo na Liga dos Campeões e a minha estreia no Sporting.

O objetivo que continua por cumprir?
Sempre tive o sonho de jogar com o Cristiano Ronaldo, mas infelizmente não foi possível.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
O meu clube de sonho, e onde joguei, é o Sporting. Para mim é o melhor clube do mundo.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Foram muitas, não vou nomear, tenho medo de me esquecer de alguém.

Tem ou teve alguma alcunha?
Quando era mais novo, na formação, chamavam-me Gazela. E também me chamaram de Eddie Murphy no Estugarda, por causa do bigode.

Esta já é a quarta época do extremo (à esquerda) ao serviço do Kayserispor

Esta já é a quarta época do extremo (à esquerda) ao serviço do Kayserispor

 

Anadolu

Há alguma lei do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Antes não gostava do VAR, mas já estou a gostar mais, há mais verdade desportiva. Acho que os guarda-redes às vezes perdem muito tempo a repor a bola em jogo, mas por acaso até penso que essa regra vai mudar ou já mudou.

Tem algum talento escondido?
Jogar bem ténis de mesa.

Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
Foi o César Azpilicueta, quando estava no Chelsea.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Nunca me passou mais nada pela cabeça.

Acredita que o Sporting pode ser campeão este ano?
Acredito e acho que o Sporting vai ser campeão.

 

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Queria ter ido para o Mónaco?
O meu sonho foi sempre ficar no Sporting. O meu empresário chegou a dizer-me que a única hipótese de eu sair era arranjar alguma confusão, um atrito qualquer. 

Que escumalha.

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Citação

Alguma vez foi vítima de racismo?
Não, nunca. Se fui, não me apercebi.

 

Citação

Tem ou teve alguma alcunha?
(...) também me chamaram de Eddie Murphy no Estugarda, por causa do bigode.

🤣

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Spoiler

“No Atlético de Madrid senti o peso dos egos. Havia jogadores, o Torres ou o Gabi, que não davam azo a que perguntasse sequer como estavam”

André Moreira, 29 anos, nunca pensou fazer do futebol a sua vida profissional, mas assim que aprendeu a jogar à bola escolheu a baliza. Aos 18 anos, assinou contrato com o Atlético de Madrid, quatro meses após deixar o curso superior de Enfermagem para defender as redes da equipa principal do GD Ribeirão. O guarda-redes que joga na Arábia Saudita conta como tudo começou e fala dos empréstimos ao Moreirense, União da Madeira e Belenenses, antes de ser chamado por Simeone

Nasceu em Famalicão e cresceu em Ribeirão. É filho e irmão de quem?
A minha mãe é licenciada em Relações Públicas Internacionais e o meu pai não tem licenciatura, nem sequer acabou a escola, mas trabalhava na empresa têxtil da família, onde a minha mãe mais tarde acabou por trabalhar também, como tesoureira. Sou filho único.

Em criança, deu muitas dores de cabeça aos seus pais?
Era muito irrequieto e ativo, nunca fazia as coisas à primeira, mas sempre fui educado e uma pessoa respeitadora. Só que gostava de testar os limites, principalmente quando a minha mãe mandava-me fazer alguma coisa e eu estava a brincar ou a jogar futebol com os meus amigos. Demorava, dificilmente fazia à primeira.

O que queria ser quando crescesse?
Sempre quis ser médico, nunca disse que queria ser jogador ou tive esse objetivo.

Gostava da escola?
Nem por isso. Sinceramente, estudar foi sempre difícil para mim, mas felizmente conseguia entender bem as matérias à primeira, o que me permitiu ter boas notas ao longo de todo o meu processo escolar.

Estudou até que ano?
Entrei no curso de enfermagem, na Escola Superior de Enfermagem do Porto, mas só fiz o primeiro semestre. Tive de deixar porque comecei a jogar profissionalmente na equipa da minha terra, o Ribeirão. Como no segundo semestre começámos a ter aulas práticas obrigatórias, na primeira semana do segundo semestre já estava reprovado a 60% das cadeiras, devido aos treinos.

André em criança

André em criança

 

D.R.

Em casa torciam porque clube?
Para ser sincero, nunca fui de nenhum clube em concreto. O meu avô é um bom benfiquista, assim como a minha mãe, o meu pai sempre foi do Sporting, também tinha um primo da minha idade, com quem estava quase sempre na escola, que era do Sporting, e eu andava ali entre Sporting e Benfica, para tentar agradar o meu avô e à minha mãe, e ao meu pai, quando assim se justificava, digamos assim.

Mas no íntimo nunca torceu mais por um do que por outro?
Não, honestamente. Sempre gostei muito de futebol e de ver futebol, mas em termos de clube nunca foi assim muito específico.

Tinha ídolos?
Quase nenhum jogador começou por ser guarda-redes. Normalmente era jogador de campo e, a determinado momento, lá foi preciso um guarda-redes na equipa e foi assim que a maioria começou. No meu caso, foi diferente. Sempre fui guarda-redes, mesmo quando jogava na rua ou na escola com os meus amigos. Queria sempre ir à baliza, por isso os meus ídolos sempre foram guarda-redes. Em pequeno o meu maior ídolo, a inspiração, era o guarda-redes brasileiro Dida. Tanto é que as duas primeiras camisolas que tive foram dele; uma era da seleção brasileira que foi ao Mundial 2006 e que o meu pai trouxe-me quando foi ao Brasil, em trabalho; a outra é de quando ele estava no AC Milan e foi a minha mãe que me trouxe, quando foi a uma feira na Itália, também em trabalho.

O que o fascinava na posição de guarda-redes?
Ao certo, não sei dizer. O que sei é que as memórias mais antigas que tenho, mais do que até jogar na rua com os meus amigos, são com o meu avô materno, em casa dele. Ele conta muitas vezes que no espaço exterior da casa dele, quando eu estava sozinho, jogava contra a parede, mas quando era com ele eu arranjava logo uma baliza e pedia-lhe para chutar. À medida que fui crescendo, pedia-lhe para chutar mais forte. Esta é a memória de futebol mais antiga que tenho. Mas não sei porque gostava tanto de ir para a baliza.

O guarda-redes com os pais

O guarda-redes com os pais

 

D.R.

Começou a jogar no Grupo Desportivo Ribeirão com quantos anos?
Uns 10 ou 11 anos. Entrei a meio da época, não podia competir, só treinava. O meu pai na altura era o presidente do Ribeirão e já tinha combinado com ele ir a um treino. A minha mãe foi-me buscar à escola e eu tinha recebido uma nota que sabia que ela não ia gostar, então não lhe disse nada, e ela só soube depois do meu primeiro treino [risos].

Começou logo a baliza, presumo.
Sim. Cada um levava o equipamento que quisesse, e lembro-me que fui com a camisola do Dida, que me dava pelos joelhos [risos].

Fez toda a formação no Ribeirão. Quais os momentos mais marcantes desses anos?
Nunca pensei nem olhei para o futebol como a maioria dos outros miúdos da minha terra, que queriam ser jogadores. O futebol foi sempre mais por gosto, literalmente, nunca com esse pensamento de vou fazer disto a minha vida, portanto, as memórias que tenho, mais do que de jogo, são das amizades e dos outros miúdos com quem estava porque éramos todos de Ribeirão. São pessoas que tive na minha vida durante 10 anos, por isso as memórias são mais de festas, das viagens… Mas em termos de formação o momento que acaba por ser mais importante e mais relevante, é quando comecei a treinar com a equipa principal.

E isso aconteceu com que idade?
A primeira vez que fui chamado tinha 16 anos, se não me engano. Com 17 anos comecei a fazer parte da equipa principal, como terceiro guarda-redes.

Nessa altura já pensava fazer do futebol a sua vida?
Não. É engraçado porque o único momento em que as coisas realmente se tornaram sérias já estava na universidade, numa altura em que achava que o futebol ia acabar mais mês, menos mês, mais época, menos época, porque sempre pensei que a minha vida ia ser: fazer um curso superior e trabalhar na área em que me formasse. Só que o Ribeirão tinha um grupo brasileiro de investidores que em novembro/dezembro estava a ser julgado por supostamente usarem o clube para branqueamento de capitais: o grupo retirou todos os apoios e, naturalmente, o clube, como tinha um orçamento bastante grande para a II Divisão B, teve de mandar embora alguns jogadores. O guarda-redes principal foi um deles e um ou dois meses depois, o segundo guarda-redes, que tinha começado a jogar, lesionou-se. Eu tive de jogar. A partir daí as coisas tornaram-se reais, porque joguei até ao final da época. Tinha 17/18 anos, foi na época 2013/14.

André Moreira mesmo quando jogava na rua gostava de ir à baliza

André Moreira mesmo quando jogava na rua gostava de ir à baliza

 

D.R.

Já tinha assinado contrato profissional?
É uma boa pergunta... Acho que nunca tive contrato profissional com o Ribeirão. Mas já era remunerado, recebia €250. Lembro-me porque estava na universidade e apesar de nunca me ter faltado nada, comecei a utilizar esse dinheiro no meu dia a dia na universidade. Lembro-me perfeitamente que chegava o final do mês e ainda tinha dinheiro. Naquela altura parecia que durava de uma forma inacreditável [risos].

Quanto tempo esteve na equipa principal do Ribeirão?
A jogar só estive quatro meses, mas fiz duas épocas na equipa principal, que foi a última época de júnior, em que até tenho uma história engraçada.

Pode contar?
Nessa época não fui convocado para nenhum jogo da equipa principal porque era o terceiro guarda-redes. Tenho a viagem de finalistas do 12.º ano, consegui autorização do clube para ir à viagem, uma semana em Gandia, na Espanha, e no fim de semana antes da viagem de finalistas há um jogo em Famalicão, na altura o Famalicão estava na mesma liga que o Ribeirão, estou a ver o jogo na bancada e o guarda-redes suplente foi expulso. Isso obrigava-me a ir para o banco no jogo seguinte, ou seja, no fim de semana, depois de supostamente passar a semana toda em Gandia, na viagem de finalistas.

Não foi à viagem?
Fui, mas tivemos de adaptar. Só fui durante dois ou três dias e tive de voltar na quarta ou quinta-feira. Foi o único fim de semana em que tive de fazer parte do jogo, fui para o banco e foi precisamente na semana que menos queria que acontecesse [risos].

Quando começaram as primeiras saídas à noite e namoros mais sérios?
Comecei a sair quando estava no 12.º ano, mas mais a sério só quando fui para a universidade. Mas nunca gostei muito de sair antes de jogos, só depois.

André com o avô

André com o avô

 

D.R.

A partir de que momento é que passou a acreditar que podia fazer do futebol a sua vida profissional?
Quando assumi a baliza da equipa principal do Ribeirão e tive de deixar a universidade. As coisas começam a mudar, porque naturalmente o sentido de responsabilidade mudou também. A partir do momento em que comecei a jogar e fui chamado à seleção de sub-19, para um estágio em Rio Maior, mudou tudo. Foi aí que começou a ter mais sentido para mim ser profissional.

Após quatro meses a jogar na equipa principal do Ribeirão assina logo contrato com o Atlético de Madrid. Como se deu essa viragem tão rápida?
Estou a jogar no Ribeirão, as coisas começaram a correr bem, principalmente devido à minha idade, na altura não havia mais nenhum guarda-redes tão novo nas condições em que eu estava, ou seja, no contexto competitivo de futebol sénior. Todos os meus colegas guarda-redes estavam no último ano de júnior ou numa equipa B. Eu já estava no futebol sénior, numa competição que exigia outro tipo de arcabouço competitivo, porque jogava sempre contra malta muito mais velha. Comecei a ser chamado à seleção de sub-19. Estreei-me num torneio internacional do Porto, a seguir fui convocado para a Ronda da Elite, o último processo de qualificação para o europeu de sub-19. Depois fui para o Europeu, que jogámos no verão, na Hungria. O facto de jogar o Europeu e as coisas correrem bem levou-me até ao Atlético.

Foi abordado diretamente ou tinha empresário?
Antes de ir à seleção assinei contrato com o João Camacho, que ainda hoje é o meu empresário e faz parte da Gestifute. Foram eles que vieram ter comigo. Depois foi um processo mais ou menos natural.

André Moreira fotografado em Vila do Conde, na semana em que foi entrevistado por Tribuna

André Moreira fotografado em Vila do Conde, na semana em que foi entrevistado por Tribuna

 

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Quando o seu empresário lhe falou no interesse do Atlético de Madrid, o que sentiu e como reagiu?
As coisas já tinham sido faladas no sentido de eu sair do Ribeirão e o clube ser financeiramente compensado pela minha venda. A partir do momento que o Jorge Mendes, neste caso até foi o Jorge diretamente, falou-me da questão do Atlético de Madrid, sabia que ia assinar numa perspetiva de futuro. Iria ser emprestado para ganhar experiência e provar o meu valor, e depois poderia ser que acontecesse eu fazer parte do plantel sénior, ou não. Sempre estive bastante tranquilo. Claro que foi incrível toda a experiência de, tão cedo e tão novo, ir para um nível como o do Atlético, e claro que no início fiquei maravilhado. Três meses antes eu nem olhava para o futebol como a minha profissão e o meu futuro e, de repente, fazia parte de um dos melhores clubes do mundo, com perspetivas bastante boas.

Assinou por quanto tempo com o Atlético de Madrid?
O primeiro contrato julgo que foi de cinco ou seis anos.

Tem ideia de quantas vezes mais passou a ganhar?
Vinte ou mais vezes. Quando assinei, fui emprestado ao Moreirense e passei a ganhar 5000 €. Tinha um contrato bastante bom para a minha idade e tendo em conta o que acabei por jogar esse ano, porque no Moreirense só fiz dois jogos, um da Taça da Liga e um da Taça de Portugal.

Houve alguma coisa que quisesse muito comprar com esse primeiro ordenado mais avultado?
Sinceramente nunca fui, nem hoje, de comprar carros, relógios ou joias, coisas desse género. A única coisa onde sempre gostei de gastar dinheiro foi em restaurantes. Sempre gostei muito de ir a restaurantes e o futebol deu-me a independência para poder ir ao restaurante que quisesse sem estar a fazer contas de quanto é que queria gastar.

Já tinha algum namoro sério?
Sim, a pessoa com quem eu namorava naquela altura, a Maria Costa Maia, é atualmente a minha noiva e vamos casar em junho, no verão. Conhecemo-nos na universidade de Enfermagem. Ela concluiu o curso, mas não exerce, tem outras empresas.

Em 2014/15, o guarda-redes foi emprestado ao Moreirense, após assinar pelo Atlético de Madrid

Em 2014/15, o guarda-redes foi emprestado ao Moreirense, após assinar pelo Atlético de Madrid

 

D.R.

Quando assinou com o Atlético de Madrid fez lá a pré-época?
Não, fui a Madrid, ao antigo estádio Vicente Calderón, mas já sabia que era só para assinar porque a Gestifute estava à procura de um clube para ser emprestado. Não era sequer possível passar do contexto competitivo em que estava para o Atlético de Madrid. O Moreirense, na altura, era perfeito, porque estava perto de casa, era um clube da I Liga e tinha algumas perspetivas de poder ter mais minutos do que aqueles que acabei por ter.

Passar da II B para a I Liga assustou-o de alguma maneira?
Sinceramente, não. Eu sabia que estava preparado porque em pouco tempo tinha passado de um contexto de júnior do Ribeirão para jogar uma final de Europeu do sub-19, quando nunca tinha ido à seleção e assinei pelo Atlético de Madrid. Foram etapas queimadas de forma rápida, sabia que tinha muito que evoluir e aprender, mas também sabia que tinha algum potencial interessante para ser explorado e por isso não me amedrontei com a possibilidade de fazer parte da minha equipa de I Liga.

Como foi recebido no Moreirense?
Mais do que tudo, no Moreirense, do que me lembro é que tínhamos um balneário que funcionava muito bem, tenho boas amizades e lembranças desses tempos. Fui recebido muito bem, cheguei tarde, na semana do primeiro jogo, acho eu, e foi um ano em que andei ali a saltar entre segundo e terceiro guarda-redes, porque quem jogava era o Marafona, que na época seguinte ou duas épocas depois acabou por ir à seleção. Naturalmente que eu achava que devia jogar e estava muito chateado, o mundo ia acabar; tudo normal num miúdo de 18 anos, que se achava no direito de exigir que tudo fosse àquela velocidade que tinha acontecido até ali.

Andre Moreira participou no Mundial de sub-20, em 2015

Andre Moreira participou no Mundial de sub-20, em 2015

 

Dean Mouhtaropoulos - FIFA

Deitava essa revolta cá para fora? Ia falar com o treinador?
Revolta, entre aspas, porque uma coisa boa que esse ano teve foi o facto do futebol humildemente meter-me os pés na terra. Por muito que me queixasse, a verdade é que o Marafona fez uma época muito boa e contra factos não há argumentos. A partir do momento em que o guarda-redes titular está a ter boas prestações, a equipa está bem, estivemos às portas da Europa, uma equipa que vinha da II Liga, não há muito a dizer.

O facto de não jogar desmotivou-o de alguma forma?
Não por uma razão: eu sabia que o mais importante para mim nessa época seria estar ativo. Claro que queria jogar, mas a partir do momento que percebi que não ia acontecer, o mais importante foi estar ativo e bem fisicamente, porque continuavam a haver estágios da seleção e no final da época ia ter o Mundial de sub-20. Queria estar bem para chegar ao Mundial e ter perspetivas de jogar. Na altura os outros guarda-redes da minha geração, apesar de não estarem na I Liga, estavam a jogar nas equipas B, na II Liga e eu queria estar bem para ser convocado. Foi o que felizmente acabou por acontecer.

Recorda-se do primeiro jogo que fez pelo Moreirense?
Acho que foi para a Taça da Liga, na Madeira, na Choupana.

Estava nervoso?
Não. Empatámos a um golo, até me lembro do golo que sofri, mas não estava nada nervoso. Lembro-me perfeitamente que estava com uma dor muscular ou algo assim e fui à mesa onde estava a equipa técnica e a equipa médica queixar-me da dor e perguntar se devia tomar medicação. O treinador de guarda-redes veio falar comigo e disse que tinha de ser mais inteligente, porque o treinador achou logo que eu estava com medo [risos]. Isto mostra a ingenuidade que eu tinha em relação a como as coisas funcionam fora do futebol, mas que fazem parte do futebol também.

Em 2015/16, André foi emprestado ao União da Madeira

Em 2015/16, André foi emprestado ao União da Madeira

 

D.R.

Na época seguinte foi emprestado ao União da Madeira. Aceitou logo ou torceu o nariz por ser na ilha?
Encarei da mesma forma que o Moreirense, era um contexto perfeito. Na Madeira, como jogadores do continente, ficámos todos no mesmo hotel e criámos naturalmente uma relação mais próxima, também por isso a adaptação foi mais fácil. Tinha mais pessoas na mesma situação que eu, a terem de se adaptar, mesmo que tivessem mais experiência.

Contra quem se estreou na I Liga?
Acho que perdemos 2-1, em casa, com o Marítimo. Foi logo um dérbi da ilha.

O treinador aí era Luís Norton de Matos. Muito diferente do Miguel Leal, que apanhou no Moreirense?
Completamente diferente na personalidade, no trato com os jogadores, abordagem ao jogo. Com o Miguel Leal, até pelas condicionantes do campo do Moreirense, que é mais pequeno, nunca trabalhávamos muito a bola, procurávamos sempre jogar a bola mais longa e procurar a segunda bola. O Norton de Matos deu sempre mais liberdade aos jogadores para o que estivessem a sentir em campo. Naturalmente, por sermos uma equipa pequena e com menos qualidade e experiência do que as outras, acabávamos na maior parte das vezes por ir mais pela via longa, mas sempre deu mais liberdade e mais confiança aos jogadores. Em termos de trato, nunca tive grande relação com o Miguel Leal, o Norton de Matos era próximo dos jogadores.

No final dessa época, no União da Madeira, tinha esperança de ser chamado pelo Atlético de Madrid?
Não. Joguei sempre até janeiro ou fevereiro, as coisas estavam a correr mesmo muito bem, em quase todos os jogos eu era dos melhores em campo, mas tive de ser operado ao menisco em março e não joguei mais essa época.

O que aconteceu?
Era um problema que já tinha há algum tempo. No segundo jogo da segunda volta, fomos a Guimarães, e normalmente o que acontecia era que os jogadores do continente podiam voltar à Madeira no dia seguinte à noite, para estar com a família. Eu estava com a minha namorada em casa, sentado na cama, dobrei o joelho e bloqueou, o que já tinha acontecido algumas vezes. Não conseguia esticar a perna. Dessa vez, danificou o menisco mais do que das outras vezes e tive mesmo de ser operado.

A segurar uma bola, pelo União da Madeira

A segurar uma bola, pelo União da Madeira

 

D.R.

A seguir como acabou por ser chamado pelo Atlético de Madrid?
Apesar de eu ter feito uma época bastante boa, havia aquela dúvida de como eu estaria depois da lesão. Fui emprestado ao Belenenses, faço duas semanas da pré-época, entretanto, o segundo guarda-redes do Atlético de Madrid tem um problema também no menisco, ia ficar dois ou três meses de fora, chamaram-me e fiquei como segundo guarda-redes durante dois, três meses. Depois, o tal segundo guarda-redes voltou, fiquei cerca de um mês como terceiro guarda-redes. A seguir o Oblak tem um problema grave no ombro, é operado e fiquei mais uns quatro, cinco meses como segundo guarda-redes.

Quando chegou a Madrid no verão de 2016, como foi recebido e qual a sensação de finalmente entrar no Atlético, com a possibilidade de jogar?
Em toda a minha carreira foi onde mais senti que, naquele momento, estava fora da minha realidade. Tudo era irreal. Foi um salto muito maior do que alguma vez tinha dado. Fui para uma equipa que era melhor do que a melhor equipa portuguesa. Só aí a realidade era completamente diferente, não só em termos competitivos, mas também de dimensão. Claro que o Benfica é um clube que tem mais adeptos do que o Atlético, mas em termos de dimensão e de peso, a nível de contexto europeu, o Atlético é maior. Lembro-me perfeitamente que nos primeiros dois meses, eu pensava: “Nunca na minha vida vou conseguir estar a este nível, porque eu não consigo defender uma bola.” A bola passava e só depois é que eu me atirava. Era realmente muito diferente o nível competitivo, o nível técnico, tudo.

E o balneário, como era?
Naturalmente sente-se muito o peso dos jogadores, em termos de egos também. Havia uma diferença muito grande, principalmente para o que estava habituado. Mas a verdade é que também tive muito apoio do Tiago e do Filipe Luís porque ambos tinham peso no balneário, ajudou de certa forma a que os outros olhassem para mim não só simplesmente como um miúdo que caiu ali de paraquedas, que foi o que acabou por acontecer.

No início da época 2016/17, o guarda-redes foi emprestado ao Belenenses

No início da época 2016/17, o guarda-redes foi emprestado ao Belenenses

 

Gualter Fatia

Quando fala nos egos, ao que se refere concretamente?
A verdade é que havia jogadores que nem falavam comigo, nem eu podia falar com eles. Faziam mesmo questão de haver uma separação, não faziam questão de me fazer sentir bem recebido, bem-vindo. Eram jogadores já consagrados, que tinham um nível em que não precisavam, entre aspas, de perder tempo, a falar com um miúdo.

Pode dar exemplos?
Quando cheguei, senti muito isso de jogadores como o Fernando Torres, o Gabi, o capitão. Senti mesmo um distanciamento em que, concordando ou não que eu pudesse ter qualidade para estar naquele nível, a verdade é que se eu fosse capitão era incapaz de ter o comportamento de ausência, digamos assim, que eles tinham. Não é que fossem incorretos comigo, simplesmente também não davam azo a que eu lhes perguntasse sequer como é que estavam. Eu era incapaz de ter esse comportamento e essa abordagem com um miúdo.

Como reagia na altura? Sentia-se intimidado?
Eu olhava e pensava: “Ok, não queres ter relação comigo, também não quero ter relação contigo, não é isso que vai mudar a minha vida.” Principalmente, porque de certa forma tinha a ponte chamada Tiago e Filipe Luís, que eram membros muito valiosos e com muito peso no balneário, principalmente no seio dos latinos, do Giménez, Godín, Correa, Nico Gaitán; o Griezmann não era latino, mas dava-se mais com essa parte do balneário. A relação depois ficou estreita graças ao Tiago e ao Filipe Luís.

E os guarda-redes, algum que fosse mais simpático?
O segundo guarda-redes, o espanhol Miguel Moyá, era cinco estrelas, sempre foi bastante aberto, tinha um feitio mais como o meu, chegava à minha beira e perguntava se estava bem, se precisava de alguma coisa. Sempre fez questão que eu estivesse adaptado, enquadrado. No caso do Oblak, já não era uma pessoa tão próxima de vir ter comigo e perguntar-me se precisava de alguma coisa, mas sempre que falava com ele, perguntava ou pedia alguma coisa, tinha uma palavra para mim. Ajudou-me muito, principalmente porque é um guarda-redes que, do ponto de vista técnico, de defesa de baliza, é quase perfeito, na minha opinião.

André Moreira assinou pelo Atlético de Madrid em 2014, mas só jogou pelo clube em 2017

André Moreira assinou pelo Atlético de Madrid em 2014, mas só jogou pelo clube em 2017

 

MB Media

Diego Simeone como treinador, com que opinião é que ficou dele? É o lunático que Rio Ferdinand disse ser?
A questão do Simeone é engraçada, porque ele tem sempre presente aquela paixão, aquela energia que mostra no dia de jogo e tudo mais, mas a verdade é que é q.b. . Na semana é muito mais calmo, mais tranquilo. Nem sequer costuma ser ele a dar os treinos, era normalmente o adjunto. Ele andava só à volta. E também não era um treinador que tivesse, mesmo com os mais consagrados, uma relação muito próxima de falar muito.

Ele teve alguma conversa consigo?
Teve duas conversas. Falou pouco durante a época comigo. A primeira foi o bem-vindo e a segunda vez que tivemos uma conversa a sério foi no último dia do ano. Não me lembro ao certo as palavras, mas reconheceu que eu não cheguei com nível para estar ali, mas que no final da época já tinha nível, porque melhorei muito em termos de treino, apesar de não ter jogado um único jogo. Inclusive disse-me: “Se a tua decisão for ficar, vais ser o número dois para o próximo ano.” Mas também me disse que já sabia que eu tinha algumas possibilidades em Portugal e que percebia se quisesse ir embora.

Qual foi o jogador que mais o surpreendeu naquela equipa do Atlético de Madrid?
Tirando os evidentes, porque, por exemplo, quando olhamos para a equipa é normal pensar num Koke, num Griezmann; na altura o jogador que me surpreendeu mais e que não estava à espera foi o Yannick Ferreira-Carrasco, que agora está na Arábia como eu.

De que forma o surpreendeu?
Era mesmo incrível a forma como ele batia na bola. Nunca tinha estado com um jogador assim. Não era muito forte, mas a bola saía sempre com uma força e uma velocidade incríveis. O drible era super, super efetivo. Não era um jogador que fosse particularmente atlético, mas era muito difícil tirar-lhe a bola e ganhar-lhe em velocidade. Não estava à espera que fosse um jogador tão dinâmico e que mudasse tanto um jogo.

O guarda-redes português (de frente ao centro) num momento de convívio no treino do Atlético de Madrid

O guarda-redes português (de frente ao centro) num momento de convívio no treino do Atlético de Madrid

 

TF-Images

Tem alguma história desses meses no Atlético de Madrid?
Lembro-me que num dos primeiros treinos que fiz, num jogo reduzido que costumamos fazer de 5 para 5, o Fernando Torres fez-me três golos num só jogo, sempre a picar a bola. Eu estava maluco a olhar para o treinador de guarda-redes, que mais maluco estava e que dizia: “Como é que sofres três golos iguais?” Isto para mostrar a diferença de realidade, porque o Fernando Torres, mesmo estando já com 33 anos e claramente debilitado, tinha algumas mazelas físicas, continuava a ter aquela capacidade de decisão. Era incrível, porque ele continuava a resolver com a mesma classe, ao nível que fazia antes, só que, quando se lhe exigia correr mais, custava-lhe mais. Foi um choque de realidade com a qualidade, em termos de treino. Lembrei-me de outro episódio engraçado.

Força.
O Filipe e o Tiago ajudaram-me muito realmente e num dos últimos jogos que fizemos, estávamos a fazer estágio no hotel, como todos ficavam sempre com a mesma pessoa no quarto e eu era o que tinha menos moral no plantel, eu ficava sempre com o miúdo que vinha da equipa B, ou com outro jogador sénior que também tivesse pouca moral. Nessa altura fiquei no quarto com o Alessio Cerci, um italiano, muito bom jogador, mas que teve duas lesões graves no cruzado. O Filipe Luís e o Tiago vieram ao quarto, levaram o colchão e fizeram-me dormir com eles naquela noite. Ou seja, já tínhamos tão boa relação e tanta proximidade, que eles sabiam que eu ia estar mais confortável a dormir no chão do quarto deles, do que com o Alessio Cerci, com quem não tinha qualquer tipo de relação. Também é uma validação que acabei por ter num ambiente e num nível de Champions League, em que jogadores consagrados como eles os dois fizeram questão de que eu fizesse parte do momento deles.

Em Madrid esteve sozinho ou com a sua namorada?
A minha namorada estava a fazer Erasmus em Barcelona, então volta e meia vinha, e eu conseguia ir lá, e ela conseguia vir ter comigo a Madrid.

Num treino do Atlético de Madrid

Num treino do Atlético de Madrid

 

D.R.

Nesse verão, esteve com o pé no Benfica. Porque acabou por não ficar na Luz?
Quando o Simeone disse saber que eu já tinha algumas perspetivas em Portugal, era precisamente a questão do Benfica. Eu fiz a pré-época no Benfica. A versão oficial, e é essa que tenho, apesar de eu acreditar pouco nela, foi que os dois clubes não chegaram a acordo. Fiz duas semanas de pré-época no Benfica, sem sequer assinar, o que também foi um erro. Mas lá está, eu pensei, tenho a perspetiva de ir para o clube com maior dimensão em Portugal, se eles quiserem que eu esteja aqui a treinar duas semanas sem contrato, não vou ser eu que vou armar confusão em relação a isso. Mas acabei por não ficar e ir para Braga.

Falou que a versão oficial foi a falta de acordo entre clubes. Qual é a versão oficiosa ou a sua versão, podemos saber?
A questão é mesmo essa, eu não sei o que se passou. Acho muito estranho que os clubes não tenham conseguido chegar a acordo, mas na altura foi o que o Jorge Mendes me disse. Quando soube do interesse no SC Braga também meti na balança as coisas. Entre ir para Braga para jogar, ou ficar no Benfica sabendo que não ia ser titular a 100%... Mesmo sabendo que o n.º 2 do Benfica, naquele ano, iria acabar por ter algum tempo de jogo, porque o Júlio César, o n.º1, estava com alguns problemas físicos, tanto é que nessas duas semanas de pré-época que fiz ele deve ter treinado apenas em cinco dias, eu não adivinhava que o n.º2 acabasse por fazer 20 e tal jogos como fez o Varela nessa época.

O guarda-redes foi fotografado em Vila do Conde na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

O guarda-redes foi fotografado em Vila do Conde na semana em que foi entrevistado pela Tribuna

 

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Quando o empresário lhe disse que os clubes não tinham chegado a acordo, foi um grande balde de água fria?
Foi um bocado, mas foi já no final da pré-época e a minha preocupação foi mais, como vamos resolver isto? A partir do momento que o Jorge me falou da possibilidade de ir para Braga, virei a agulha e pensei: “Ok. O SC Braga é a terceira maior equipa em Portugal.”

Naqueles 15 dias que esteve no Benfica, encontrou o clube grandioso que estava à espera?
Sem dúvida. Não tenho conhecimento da realidade por dentro do Sporting e do FC Porto, mas depois fui para Braga, um clube que está muito bem organizado, e a verdade é que o Benfica está numa realidade completamente diferente. Na altura o Benfica era um clube, em termos de organização, melhor do que o Atlético.


 

Spoiler

“A minha ambição é aproveitar este hype que existe na Arábia Saudita. Desfrutar de jogar contra o Ronaldo, o Mané, o Kanté ou o Benzema”

O guarda-redes André Moreira joga no Al Raed da Arábia Saudita onde semana sim, semana sim tem oportunidade de jogar com grandes nomes, que de outra forma dificilmente teria oportunidade de defrontar. Entre outros passou pelo SC Braga, Belenenses, Aston Villa e Grasshoppers da Suíça e nesta parte II do Casa às Costas revela pormenores sobre os jogos psicológicos que faz na baliza, diz o que pensa sobre vários colegas de posição, confessa que memoriza com facilidade factos e datas históricas e que é obcecado por sudoku

Em 2017 chegou ao SC Braga com a perspetiva de jogar, mas não foi isso que aconteceu. Porquê?
É engraçado que na minha carreira, em todos os clubes onde fiz pré-época, joguei, nos clubes em que cheguei tarde na pré-época, não joguei. Foi o que acabou por acontecer também em Braga. Cheguei na semana em que tivemos o jogo da pré-eliminatória da Liga Europa, não joguei e depois houve outra circunstância, um azar que pode acontecer. O enfermeiro do clube rasgou-me uma veia ao tirar-me sangue. Estive duas semanas com o braço completamente negro e com um hematoma do tamanho de um berlinde, um pouco maior. Não parei de treinar, mas estava claramente condicionado, porque todas as vezes que defendia com o braço esquerdo doía-me.

Que tal o balneário em Braga?
Foi o melhor balneário onde estive. Éramos claramente mais do que jogadores que se juntavam para jogar futebol. Estávamos sempre juntos fora do contexto do futebol. Íamos almoçar e jantar juntos muitas vezes.

Essas iniciativas partiam dos próprios jogadores ou eram incentivadas pelo treinador Abel Ferreira?
Partiam do balneário, porque nem me lembro do Abel ser um treinador que promovesse muito os jantares de equipa. Era algo já instalado nos jogadores mais velhos.

E o que achou dele como treinador?
O que ganhou desde que saiu do SC Braga prova exatamente o que vou dizer: é uma equipa técnica, não só o Abel, que trabalha mesmo muito bem. A equipa técnica trabalha muitos detalhes e é por isso que tiveram o sucesso que tiveram.

Só fez dois jogos em Braga…
Também só fiquei meia época, depois fui emprestado ao Belenenses.

No início de 2017/18, André Moreira defendeu as redes do SC Braga

No início de 2017/18, André Moreira defendeu as redes do SC Braga

 

Carlos Rodrigues

E foi emprestado ao Belenenses porquê?
Porque não estava a jogar. Pedi para sair. Até foi no jogo em Braga, em que eu estava no banco, que o guarda-redes do Belenenses, o Muriel Becker, irmão do Alisson Becker do Liverpool, se lesionou. Fui para o Belenenses, joguei e correu muito bem, foi o que me permitiu ir para o Aston Villa na época a seguir.

Antes de passarmos a Inglaterra, com que opinião ficou do Domingos Paciência e do Silas?
Eu só estive 10 dias com o Domingos. Não posso falar muito, foi pouco tempo. Mas acabámos por fazer uma época muito boa para a realidade que tínhamos em termos de plantel, com o Silas. As coisas correram bastante bem, tanto é que conseguimos garantir a manutenção de forma fácil, apesar das coisas estarem difíceis quando ele veio. Só tenho coisas boas a dizer dele.

No final da época o Belenenses não quis manter o empréstimo?
A seguir ao Belenenses o mais importante era valorizar-me. Quis apostar em ir para um contexto competitivo maior, mais difícil. Se calhar teria sido melhor lutar pela minha posição e tentar consolidar-me numa equipa da I Liga, apesar do contrato não ser tão bom. Mais uma vez, não fiz para a pré-época e não joguei também por isso. Joguei apenas um jogo da Taça da Liga e um da Taça de Inglaterra. Na altura tinha outra situação em Portugal em que ia ganhar muito menos dinheiro do que ganhei no Aston Villa, mas à partida ia ter maior possibilidade de jogar porque as pessoas já me conheciam.

Pode dizer quais eram as equipas interessadas em si?
Não me lembro ao certo de todas as equipas que se falou, mas lembro-me que o Rio Ave era uma possibilidade real.

André fez apenas dois jogos pelo SC Braga

André fez apenas dois jogos pelo SC Braga

 

Gualter Fatia

Como foi entrar num clube como o Aston Villa?
A adaptação foi o mais difícil, não propriamente por mim, mas pela mentalidade deles. Fui bem recebido, mas eles não têm o hábito de estar juntos fora do futebol, foi muito diferente dos sítios onde estive. Mas depois a minha namorada acabou por ir viver a tempo inteiro comigo.

Gostou dos ingleses?
É assim, tenho alguma coisa má a dizer das pessoas? Não tenho. Tudo o que perguntei ou pedi eles ajudavam, mas também não eram pessoas dinâmicas ao ponto de vir ter contigo e dizer “vamos jantar” ou vamos isto ou vamos isto. É uma realidade completamente diferente.

Esteve lá quanto tempo?
Assinei um ano de empréstimo, não joguei e estive só meio ano, em janeiro vim para o Feirense na mesma perspetiva do que aconteceu quando estava no SC Braga e fui para o Belenenses. Foi o guarda-redes que se lesionou, houve a possibilidade de eu vir, era mais ou menos certo que iria jogar e ter minutos, que era o que achava precisar na altura, mas acabou por ser a pior decisão que tomei na minha carreira.

Porque diz isso?
Por tudo. Quando fui para o Feirense, o clube já estava praticamente na II Liga. Precisavam de 14 pontos para sair da linha de água. Antes de chegar não tinha noção de como era o clube e quando cheguei os jogadores estavam todos a pensar no futuro e a tentar arranjar soluções. Não havia ambiente, já sabíamos que íamos perder o jogo porque emocionalmente a equipa ia-se muito abaixo. Era uma equipa que estava com problemas, acabei por fazer só cinco jogos, também fui um pouco vítima da equipa não estar bem, por isso é que digo que foi um erro, até porque o Aston Villa acabou por subir para a I Liga nessa época e toda a experiência teria sido bastante diferente se tivesse ficado.

Depois de SC Braga, o guarda-redes foi emprestado ao Belenenses

Depois de SC Braga, o guarda-redes foi emprestado ao Belenenses

 

D.R.

Apesar de ter estado pouco tempo em Inglaterra, o que achou do Championship? Mais forte que a I Liga portuguesa?
Sim. Tirando os três grandes, o Vitória e o SC Braga, não acho que haja uma equipa na I Liga que pudesse competir com uma equipa do Championship que tem aspirações para subir, por isso, o nível competitivo é muito mais elevado. Não há um jogo em que se diga que aquela equipa vai ganhar de certeza.

E os adeptos, como são?
O estádio está sempre completamente cheio em todos os jogos, em casa ou fora, é um barulho descomunal, há uma ligação com os adeptos muito grande, é uma realidade completamente diferente até nesse aspeto.

Quando, no Feirense, percebeu onde estava metido, o que lhe passou pela cabeça e como reagiu?
Rapidamente percebi que o clube estava numa situação bastante complicada. Fiz os cinco jogos e a partir do momento em que deixei de jogar por opção do treinador Filipe Martins...

Porque deixou de jogar, sabe?
Tive uma situação durante um jogo. Em toda a carreira foi a única situação em que tive desacatos com adeptos. Sofri um golo em que, não é que fosse minha culpa, mas podia ter feito mais. Foi uma bola que não consegui ficar com ela à primeira e depois deu golo. Não era por ser eu, era pela situação do clube, mas os adeptos começaram a assobiar muito e achei que era por ser eu. A partir do momento em que assobiaram atrás de mim e começaram a chamar-me nomes, eu sabia que fosse qual fosse o remate seguinte, podia vir o Ronaldo bater um penálti, eu ia defender. E, da mesma forma que eles me provocaram, eu olhei para eles com um olhar provocatório também. Ficou o caldo entornado e no final estavam à minha espera.

Foi confrontá-los?
Não. No clube simplesmente pediram-me para aguardar até que os ânimos se acalmassem lá fora. Depois foram embora e não tive nenhum tipo de problema. Mas foi essa a justificação do treinador Filipe Martins. Claro que é uma justificação que nem eu achei que fosse válida, foi mais uma desculpa.

Em 2018/19, André Moreira iniciou a época no Aston Villa, da Inglaterra

Em 2018/19, André Moreira iniciou a época no Aston Villa, da Inglaterra

 

Neville Williams

No final da época, o que aconteceu?
Foi a altura em que senti mais dificuldade em arranjar clube. O Silas continuava no Belenenses e foi graças a ele que tive a possibilidade de ir para a B SAD. Foi a única equipa da I Liga que mostrou interesse.

Onde ainda jogou na equipa de sub-23.
Isso foi já com o Petit.

Dois treinadores muito diferentes um do outro?
Muito. Mesmo na ligação com os jogadores, são formas diferentes de abordagem.

Não se identificou tanto com o Petit como com o Silas?
Pelo contrário, eu até tinha uma relação mais próxima com o Petit, deixei de jogar devido a problemas com a direção.

Que problemas foram esses?
É um assunto bastante sensível e não posso falar sobre ele, mas deixei de jogar no Belenenses por decisão do presidente, não por decisão do treinador.

Mas houve alguma troca de palavras mais acesa com o presidente?
Nunca tive nenhum problema de forma direta com o presidente. Sei tudo o que aconteceu, mas não é elegante da minha parte estar a falar desse assunto. Sei o porquê e também sei que foi tudo graças a um mal-entendido. Sei o que originou o mal-entendido, sei toda a história, mas sei que, acima de tudo, foi graças ao presidente que deixei de jogar. Eu era um dos capitães, houve vários problemas, ordenados em atraso, e quando se é capitão tem-se uma responsabilidade que não se tem quando não somos.

Durante um treino no Aston Villa

Durante um treino no Aston Villa

 

Neville Williams

Como foi parar ao Grasshoppers, da Suíça, na época 2021/22?
A partir do momento que houve essa situação com o presidente, sabia que tinha que resolver a minha vida porque não ia jogar mais ali, apesar de ter mais um ano de contrato. Nunca na minha vida quis ir para a Suíça, nunca foi meu objetivo jogar na liga suíça, como foi o jogar em Inglaterra ou jogar em Espanha, mas foi a possibilidade que apareceu e, na verdade, foi a melhor coisa que me aconteceu.

Porquê?
Porque foi a primeira vez que tive um volume de jogo consistente. Joguei sempre durante dois anos, as coisas correram bem, pude finalmente provar e mostrar a minha qualidade de forma consistente e não apenas durante três ou quatro meses. Além disso, o clube não tinha qualquer tipo de problema, as coisas lá funcionam de forma diferente e para mim foi melhor tanto do ponto de vista desportivo e competitivo como psicológico.

Mas o futebol suíço é mais fraco do que o português…
Sem dúvida. Tudo é mais fraco no aspeto em que lá não olham para o futebol como em Portugal, onde o futebol é o escape do fim de semana. Lá a realidade não é essa. Do ponto de vista tático o futebol é menos rico, em Portugal temos um futebol muito rico taticamente, mas lá é mais atrativo em termos de golos, assistências e defesas, como taticamente não há tanta estrutura, há mais ataques e mais oportunidades de golo.

Gostou de viver em Zurique?
Muito. É bastante caro, mas gostei muito da cidade e das pessoas. Em Zurique há pouca influência suíça, há muita influência latina, balcânica, é uma cidade multicultural, isso é fantástico.

André tenta segurar a bola, durante um jogo da Taça de Inglaterra, frente ao Yeovil Town

André tenta segurar a bola, durante um jogo da Taça de Inglaterra, frente ao Yeovil Town

 

Kevin Barnes - CameraSport

Apesar de ter jogado muito, a verdade é que não conseguiu voltar ao futebol europeu ao mais alto nível e acabou por ir para a Arábia Saudita. Aconteceu porque não surgiram oportunidades ou devido a outros interesses?
Um bocado as duas coisas. Eu tinha assinado dois anos e depois o Grasshoppers fez uma proposta em que queria baixar o orçamento. Achei que depois do que eu tinha feito, estar a assinar mais dois anos a ganhar o mesmo, não era o passo certo, até porque achava efetivamente que o facto de estar na Suíça provavelmente me abriria a hipótese de explorar a possibilidade de ir para a liga alemã, mesmo que fosse a II Liga. Esperámos, esperámos, acabou por não acontecer, não surgiu nenhuma situação que se enquadrasse no que pretendia. O tempo estava a passar, já estávamos em agosto e surgiu a possibilidade de vir para a Arábia.

Foi o lado financeiro que o atraiu?
A parte financeira naturalmente era muito melhor. Sabia que o futebol árabe não era do mesmo nível, nem sequer do suíço, mas tendo em conta as perspetivas que podia ter na minha carreira na altura, também sabia que dificilmente ia haver uma situação em que estivesse numa liga em que num fim de semana pudesse jogar contra o Cristiano Ronaldo, o Talisca, o Mané, Brozovic, Laporte, no Al Nassr, na semana a seguir podia jogar contra o Carrasco e o Banega no Al-Shabab, e na semana a seguir iria jogar contra o Kanté, o Fabinho, o Benzema no Al-Ittihad, ou seja, era uma realidade em que sabia que, semana sim, semana não, iria jogar contra jogadores que tinham sido os melhores do mundo, o que era também uma situação muito motivadora.

Como foi jogar pela primeira vez contra o Ronaldo?
O Ronaldo, principalmente para nós portugueses, é o Olimpo do futebol. Mesmo eu achando naquele debate Messi e Ronaldo, para mim o Messi é melhor jogador, é inegável o que o Ronaldo fez pelo futebol português, o que continua a fazer; e para nós é como o pináculo do que o futebol pode ser, por isso é uma experiência muito enriquecedora ter a possibilidade de jogar contra ele, apesar de no primeiro jogo termos perdido por 3-1 e ele ter marcado um dos golos, de pé esquerdo na área.

Custou-lhe sofrer um golo do Ronaldo?
Custou-me, porque como em 95 % dos golos parece-me sempre que posso fazer mais, e esse não foi exceção, mas não me custou particularmente por ser ele.

André com a noiva

André com a noiva

 

D.R.

Passou do 8 ao 80 em termos de clima, organização e pontualidade, por exemplo. Como foi esse choque cultural?
É literalmente essa a expressão: Choque cultural. A mim não me custou muito porque a partir do momento que soube que vinha, tive esse mindset de conseguir adaptar-me o melhor possível e fiz de tudo para perceber a cultura. Agora, é um choque cultural porque é mesmo muito diferente. Aqui nada começa a horas e na Suíça, por exemplo, éramos mal vistos, sobretudo pelos suíços, se chegássemos a menos de cinco minutos antes do horário; se chegássemos quatro minutos antes já estávamos mal e, no entanto, estávamos a horas. Na Arábia, nada começa antes de 20 minutos depois da hora marcada e há sempre uma reza que tem de ser feita na hora que o treino está estabelecido, por exemplo. Sou a pessoa que mais respeita a questão religiosa, digo só simplesmente pela diferença cultural que existe.

A que lhe foi mais difícil habituar na Suíça e na Arábia?
A questão dos horários, para um lado e para o outro. Nunca fui uma pessoa de chegar atrasada, mas a questão de termos sempre de estar mais cedo... Por outro lado, na Arábia eles são incapazes de cumprir um horário e também me custa porque programo a minha vida no sentido de chegar a horas e depois tenho que esperar sempre 15 ou 20 minutos.

Na Arábia a vida acaba por fluir muito mais à noite do que de manhã, devido ao clima. Custou adaptar-se a essa realidade?
Não, a questão que custa é ter o treino ao final do dia, mas facilmente percebemos que só dá para fazer assim, principalmente no verão. Agora, quanto ao resto, sempre tentei fazer uma vida o mais profissional possível e de manhã, como vivemos num compound de estrangeiros, vou ao ginásio, por exemplo.

A sua mulher adaptou-se tão bem à Arábia como à Suíça?
Ela também gostou bastante de Zurique, e na Arábia, não é questão de gostar, porque a minha cidade é efetivamente má, é fraca, não há muito o que fazer, mas claro que ela, por ser mulher, se sente mais observada. Não é por maldade que eles fazem isso, é simplesmente porque identificam que é uma mulher estrangeira. Mas são respeitadores e nunca tivemos nenhuma situação em que ela se sentisse constrangida por não estar toda tapada como as mulheres árabes na maioria estão.

A familia de André e da sua noiva

A familia de André e da sua noiva

 

D.R.

Em que patamar coloca o futebol árabe?
Do ponto de vista estrutural e de organização está muito atrás do que é feito na Europa, e quem disser o contrário, está a mentir, ou está a tentar enganar-se. Agora, da mesma forma que estão muito atrás, também existe a vontade e o investimento para tentar melhorar. A visibilidade que tem e as contratações dos jogadores de outras realidades melhora muito o jogo. O nível de profissionalismo do jogador saudita não é o mesmo que o nosso, porque eles não se dedicam ao futebol da mesma forma que fomos educados a dedicarmo-nos. Isso está a mudar. Começam a ser mais profissionais e a melhorar, mas o nível não é o mesmo. Só que, por exemplo, no jogo, não deixa de ser o Ronaldo, ou o Benzema, ou o Mané a rematar à baliza. O nível passa de um passe de um jogador árabe, que não tem a mesma qualidade de um Toni Kroos ou de um Modric, para a finalização dos melhores do mundo, e aí a qualidade continua absolutamente intacta. Podem correr menos e mexerem-se menos em campo, mas a verdade é que, e falando no Ronaldo, a qualidade mantém-se lá e continua a ter os números que tem.

Está parado agora. Porquê?
Joguei o ano passado todo, só quando fui operado ao menisco em agosto é que parei dois meses; agora também vou passar algum tempo sem jogar porque no jogo da semifinal da taça, o ombro saiu do sítio, fiz uma luxação. O ombro do guarda-redes é sempre bastante sensível e tem que recuperar em condições para não voltar a acontecer.

Tem alguma meta para deixar de jogar?
Claro que todos somos movidos pela parte financeira e queremos chegar ao final da carreira, sejam os jogadores, ou de outra profissão, o melhor possível do ponto de vista financeiro. Mas o que me move é eu gostar ou não do que faço, é gostar ou não de treinar. Se ainda tiver prazer em treinar, em ir para o treino, em evoluir tecnicamente os detalhes, vou continuar.

Que ambições ainda tem?
A minha ambição agora é aproveitar este hype que existe na Arábia Saudita porque é bastante interessante até por todas as coisas que temos acesso à volta do futebol, e não só o futebol. O nosso futebol evoluiu, como tudo à volta está a evoluir e é bastante interessante também fazer parte desse processo e viver isso por dentro. Na minha carreira tive, e não me estou a queixar, tantos altos e baixos e tantas questões de pensar pouco no presente e pensar em perspetiva de futuro que, neste momento, o que quero é mesmo é aproveitar, desfrutar de jogar contra esses jogadores que falei, desfrutar do clube em si porque é um clube pequeno, mas é um clube que dá umas condições bastante satisfatórias. Não sou sonhador nenhum para dizer que o meu objetivo continua a ser ir à seleção, sei que não vou à seleção quando estou a jogar na Arábia, principalmente no clube em que estou, tenho os pés no chão e sei como é que as coisas funcionam.

Em 2019/20, André assinou pela B SAD

Em 2019/20, André assinou pela B SAD

 

Gualter Fatia

Sente que o facto de estar na Arábia é um travão para clubes europeus o chamarem?
Sim e não. Achava que isso pudesse acontecer e talvez tenha acontecido nos primeiros meses em que os jogadores vieram para cá, para a Arábia, mas a verdade é que muitos já voltaram à Europa e para níveis competitivos bastante interessantes, por isso acho que neste momento já não é uma realidade.

Qual é a característica-chave de um guarda-redes?
A característica mais importante, tirando a óbvia de ser bom a defender bolas, é ser tranquilo, estável emocionalmente, de modo que tanto a defesa como os jogadores adversários quando olham para a baliza percebam que a pessoa que está ali transmite confiança e estabilidade. No caso dos jogadores da minha equipa é importante eles sentirem, que mesmo que errem e haja uma situação de perigo, eu tenho grandes probabilidades de conseguir ajudá-los. E no caso dos adversários, ser efetivamente o contrário, eles perceberem que vão ter um dia difícil estando eu ali na baliza.

Quais considera serem os seus pontos mais fortes?
Um dos pontos fortes que tenho não é tão visível e é o facto de gostar mesmo de evoluir, gosto mesmo de trabalhar no detalhe, de trabalhar questões técnicas. Algo mais visível, acho que dificilmente mostro quando não estou calmo na baliza, porque é natural acontecer, e por isso acho que consigo manter-me calmo e emocionalmente estável.

E aqueles pontos que sente ainda ter de evoluir mais?
Da mesma forma que gosto de continuar a evoluir, sinto que em todas as áreas, e sou bastante autocrítico, posso evoluir, por isso não há nada assim em detalhe. Hoje é cada vez mais difícil a questão dos cruzamentos, cada vez são melhores e mais difíceis para nós. Esse seria sempre o ponto mais difícil para mim. Na baliza, estando bem fisicamente e estando confiante, acho que é difícil fazerem-me golo.

O guarda-redes esteve duas épocas na B SAD

O guarda-redes esteve duas épocas na B SAD

 

Carlos Rodrigues

Atualmente quem é a sua referência?
O Neuer pode não ter sido o melhor de todos os tempos, mas foi o guarda-redes que, da mesma forma que se diz que o Guardiola mudou o futebol, mudou a forma do guarda-redes estar no jogo. Para já julgo que foi o guarda-redes que mais à-vontade se sentiu para jogar fora da baliza, em controlo de profundidade, é bom a jogar com os pés, numa altura em era foi cada vez mais pedido aos guarda-redes para jogarem com os pés. A verdade é que ele tem momentos na carreira, de defesa de baliza, que são absolutamente milagres. Por isso, no cômputo geral, acho que ele foi o guarda-redes que mais elevou a fasquia do que o guarda-redes pode ou não e deve ou não fazer.

Qual foi a melhor defesa que fez até hoje?
Já tive algumas boas, felizmente. É uma questão que nunca pensei muito... Por exemplo, defender penáltis é sempre um momento importante. Numa circunstância de remate eu dependo do defesa ou como a minha equipa se está a portar defensivamente, nos penáltis sou só eu, a minha equipa depende 100 % de mim. Por isso as defesas de penáltis são as mais satisfatórias. Por exemplo, nos dois anos na Suíça eu tive o melhor rácio de quantidade de jogos e quantidade de penáltis que não marcaram, porque também contam os que atiraram para fora. Eu era o guarda-redes com a melhor percentagem de penáltis falhados contra mim na história da liga suíça.

Os penáltis são 50 % sorte e 50 % estudo?
Efetivamente acho que nós guarda-redes podemos condicionar o que o outro jogador vai fazer.

Como?
Com pequenos jogos psicológicos, emocionais. Muitas vezes é tentar ler o que está a acontecer. Se for um jogador que não olha para mim é porque à partida já tem mais ou menos definido o sítio para onde quer bater, então posso tentar jogar com isso, o jogador que esteja só a olhar para mim, posso tentar jogar com isso também. Também é muito o feeling que sentimos no momento.

Em 2021/22, André assinou pelo Grasshoppers, da Suíça

Em 2021/22, André assinou pelo Grasshoppers, da Suíça

 

BSR Agency

De que forma é que faz esses jogos psicológicos? Consegue ser mais específico e dar exemplos?
Por exemplo, um jogador que coloca a bola para bater um penálti, por muito tranquilo que esteja, é sempre um momento diferente de todos os outros que há no jogo e há sempre uma tensão maior. O simples facto do jogador meter a bola, voltar para trás, meter-se na posição em que quer bater a bola e quando olha para a baliza eu ainda não estou lá, tudo isso é um jogo. É diferente um jogador olhar para uma baliza com guarda-redes e visualizar onde quer meter a bola, do que olhar para a baliza vazia e só depois vir o guarda-redes; a seguir a baliza parece diferente com o guarda-redes lá. Ainda para mais, hoje em dia, com as novas regras em que os guarda-redes não podem avançar, está tão fácil, entre aspas, para o jogador marcar golo no penálti, que nós guarda-redes temos de tentar arranjar formas de nivelar um bocado a balança.

Gosta de ser o patrão da defesa ou prefere que seja o central?
Com a minha personalidade futebolística, com a pessoa que sou neste momento é difícil alguém ser mais patrão da defesa do que eu, sinceramente. Por muito que o jogador tenha essa característica, a forma como me comporto e como comunico com eles, é difícil alguém ser mais patrão do que eu. O que pode haver é outra pessoa que seja igualmente vocal, igualmente dinâmica como eu, mas mais do que eu, acho difícil.

Fala muito durante o jogo?
[Risos] Sou muito chato. Sou mesmo muito chato. O facto de estarmos a comunicar é uma estratégia também de nós estarmos ligados no jogo e concentrados e depois, o feedback que dou, principalmente para a linha defensiva, nem é tanto fugir, é de prevenir. Eu comunico muito, por exemplo: “Atenção que vai chegar homem” ou “atenção que vai chegar a pressão”. Mais do que depois de haver o erro. Quando há o erro e deu golo, ou deu canto muitas vezes acontece aquela vontade de ir para cima, mas a pessoa sabe que errou, a pessoa já sabe que esteve mal, por isso sou mais de prevenir. A prevenção exige-me falar muito, estou sempre a falar com eles até porque acredito mesmo que defender remates faz do guarda-redes um bom guarda-redes, como é óbvio, mas hoje como está o futebol, acho que prevenir que o perigo chegue em situação de remate à baliza é tão ou mais importante do que defender. E esse é um ponto forte que acho que tenho.

André (à direita) em ação pelo Grasshoppers

André (à direita) em ação pelo Grasshoppers

 

RvS.Media/Basile Barbey

Qual o melhor guarda-redes com quem trabalhou?
O Oblak, sem dúvida nenhuma. Acho mesmo que é perto de perfeito na linha de baliza.

Não quer dizer que seja aquele com quem mais gostou de trabalhar, ou foi?
Exatamente. Gostei muito de trabalhar com o Oblak, porque via que era difícil fazer-lhe um golo, mas o melhor companheiro, a pessoa com quem tive melhor relação, foi o Tiago Sá, que ainda está no SC Braga, por várias questões. Porque me ajudou muito quando cheguei à seleção, e ainda para mais, quando fui à seleção e depois comecei a jogar no lugar que era dele ele nunca mudou comigo, sempre foi absolutamente cinco estrelas, o que só prova quão boa pessoa é. É um amigo que vou ter para a vida.

Quem é o melhor defesa com quem trabalhou?
É uma boa pergunta... Defensivamente o Godin ou o Giménez, no Atlético.

O melhor jogo que fez na carreira?
Os melhores jogos que fiz do ponto de vista individual, acabei por perdê-los [risos]. Por exemplo, fiz um jogo muito bom na final do Euro de Sub-19, contra a Alemanha, que perdemos por 1-0. Agora fiz muito bom jogo quando jogamos contra o Al-Hilal do Jorge Jesus, antes do Natal. Perdemos 4-3, sofri quatro golos, mas fiz um jogo muito bom e eles só conseguiram marcar o golo da vitória aos 90' mais 14 minutos. Na Suíça também tive jogos bastante bons.

E o frango que deu e mais o marcou?
Por acaso, frango, frango, acho que nunca dei, daqueles de deixar a bola por dentro das pernas, ou assim, nunca dei. Há golos que tive culpa, naturalmente. Um que eu me lembro, que fez com que eu crescesse de certa forma, e na altura não vi isso assim, foi no Ribeirão, quando tinha três ou quatro jogos na equipa principal. Há um cruzamento já na área, em que a bola vem direta a mim, eu tento agarrar a bola e vou mais forte com a mão esquerda e meto a bola na baliza. A bola nem sequer ia à baliza e eu metia-a lá para dentro. Mas foi bom porque foi a primeira vez que tive de reagir à adversidade, sendo miúdo, estando num contexto novo e ainda tendo o jogo pela frente. Foi um teste de fogo para saber se estava preparado, ou não.

O guarda-redes em Vila do Conde

O guarda-redes em Vila do Conde

 

FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Qual o melhor guarda-redes português de sempre para si?
Bem, eu não vi o Bento a jogar, do Baía também não me lembro de quase nada, para ser sincero, por isso, o Rui Patrício deve ter sido o guarda-redes português que vi jogar e que atingiu melhor nível. Mas acho, sinceramente, que o Diogo Costa vai ser melhor. Não tenho grandes dúvidas. A partir do momento que sair do FC Porto, vai dar um salto qualitativo ainda maior e vamos ver um Diogo Costa ainda melhor do que já vimos.

Já sabe o que vai fazer no dia em que tiver de tirar as luvas em definitivo?
Na verdade, não. Cada vez mais tenho pensado nisso, acho que vai ser muito difícil ficar ligado ao futebol, não me vejo a ser treinador, nem de guarda-redes. Estou a começar a pensar, mas para já ainda não sei.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
Na Arábia.

Investiu?
O único investimento significativo, digamos assim, foi em imobiliário.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Provavelmente férias, sem olhar assim com grande preocupação para os custos.

E o local que já visitou e mais lhe encheu as medidas?
Adoro as Maldivas, mas presentemente, até porque felizmente tenho a possibilidade de ir lá várias vezes pela proximidade, é o Dubai. Tem tudo.

O guarda-redes português assinou pelo Al Raed, da Arábia Saudita, em 2023/24

O guarda-redes português assinou pelo Al Raed, da Arábia Saudita, em 2023/24

 

D.R.

Tem algum hobby?
Tirando os clichês normais, porque realmente desfruto muito com a família e amigos, adoro cinema e ir a restaurantes, conhecer novos restaurantes. E há uma coisa que eu sei que pouca gente faz como eu faço: sudoku. Adoro fazer sudoku. Sou assim meio obcecado por sudoku.

É um homem de fé?
Tenho uma relação assim estranha, porque sou muito científico, sou muito do que a ciência pode provar e do que a ciência pode mostrar, mas a verdade é que em momentos de aperto também sei rezar, como todas as outras pessoas.

Superstições, tem?
Não tenho grande superstição. Antes dos jogos mando sempre uma mensagem à minha namorada a dizer que vou para o aquecimento. É só.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Gosto muito de quase todos os desportos, mas a única coisa que faço de forma regular é ginásio.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Saber que podia ter chegado a um nível que acabou por não se concretizar, mas sei que se alguns fatores se tivessem alinhado de forma diferente, e com isto não estou só a referir-me a fatores externos, porque também há culpa minha também, podia ter chegado a um nível que acabei por não atingir.

E o maior arrependimento?
Sabendo o que aconteceu, foi ter vindo embora do Atlético de Madrid.

Em ação pelo Al Raed

Em ação pelo Al Raed

 

D.R.

O momento mais feliz na carreira até hoje?
Tive momentos felizes por motivos diferentes. Por exemplo, na Suíça fui muito feliz, porque naquela altura precisava voltar a apaixonar-me pelo treino, pelo futebol, voltar a ter aquele bichinho na barriga e fui muito feliz na Suíça. Sempre tive mesmo, mesmo muito orgulho de jogar pela Seleção, arrepiei-me em todos os jogos que fiz pela seleção.

Mas nunca foi chamado à seleção A.
Não, nunca. Joguei um jogo nos sub-21, fui a vários estágios, mas a maior parte dos jogos foram pelos sub-19 e sub-20.

O objetivo que ficou por cumprir, ou que ainda está por cumprir?
Seleção A, claramente ficou por cumprir, sinto que se as coisas tivessem seguido a rota que eu achava que podiam seguir, iria acabar por acontecer, mas pronto. E de certa forma ficou por cumprir também jogar num grande em Portugal.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Atlético Madrid. Não é só um clube grande, com dinheiro, são os valores por trás do clube, gostei mesmo muito de lá estar, tem tudo a ver com a minha personalidade.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Felizmente, tenho bastantes amizades. Todos os nomes que vou dizer agora são pessoas que vou convidar para o meu casamento: João Carlos Teixeira, Tiago Sá, André Santos. Estas pessoas, tenho certeza que vão estar na minha vida sempre, mas de certeza que vou estar a esquecer alguém.

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FERNANDO VELUDO / NFACTOS

Alcunha, tem ou teve?
No Atlético Madrid principalmente o treinador de guarda-redes, o Burgos, tratava-me por “cabeção”. Diziam que eu tinha um cabeção muito grande. Por acaso, foi algo que foi até bastante transversal na minha carreira, em todas as equipas onde estive toda a gente dizia que eu tinha um cabeção muito grande.

Qual o momento mais difícil que atravessou na vida até hoje?
Foi há quatro, cinco anos, quando o meu pai teve um AVC e um problema no coração, que teve de ser operado. Foi um momento bastante difícil.

Alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania?
Muito genuinamente, o facto dos jogadores poderem alterar várias vezes o ritmo do trajeto para a bola, isso para nós é horrível, é impossível fazer alguma, de prever para onde a bola vai. Isso alterava. O VAR, não é que não goste, acho que tem muitas falhas e para as falhas que tem, então prefiro o erro humano, porque sempre lidei bem com essa questão de, OK, errou, pode acontecer. Sei que o objetivo é reduzir o erro humano, mas acho que tem algumas zonas cinzentas que estraga mais o futebol do que ajuda.

O adversário mais difícil que enfrentou em campo?
Desde que estou na Arábia já joguei contra Benzema, Ronaldo, Mitrovic, Firmino, Mahrez, são todos jogadores que precisam apenas de meia oportunidade para conseguir fazer golo.

Tem algum talento escondido, tirando fazer muito bem sudoku?
É difícil responder. Gosto muito de cultura geral e sei algumas coisas que ninguém tem o mínimo interesse. Às vezes há datas que nem sei porque é que sei. Seja factos científicos, factos históricos, interessa-me realmente e há algumas coisas que aprendo muito fácil, mas que até a minha namorada diz-me que é muito bonito, mas não preciso delas para nada [risos]. E é verdade.

Se não fosse guarda-redes, o que teria sido?
Sempre quis e acabei por conseguir ir para a universidade, na área da saúde. Mas depois de ter estado em enfermagem, acho que não é para mim. Um enfermeiro em Portugal, para sobreviver, tem de ter no mínimo dois empregos. Acho que acabaria por trocar para fisioterapia, sem dúvida.

 

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