silentz Publicado 11 Setembro 2024 Citação de Hammerfall, há 4 horas: Era eu adolescente e o Aves andava na segunda, dava-me com pessoal da claque e ia ver alguns jogos, um deles chegou a ser "roupeiro" do clube por uma época Cheguei a saber o salário de um dos jogadores, 5k por mês Isto à coisa de 15 anos atrás Líquidos? Compartilhar este post Link para o post
Hammerfall Publicado 11 Setembro 2024 Citação de silentz, há 1 minuto: Líquidos? Não faço a mínima ideia, sou sincero. Compartilhar este post Link para o post
andre26 Publicado 12 Setembro 2024 Citação de Chandler, há 23 horas: Quanto à segunda, honestamente não faço ideia. Não tenho nenhuma informação, mas notoriamente o plantel é mais caro - e parece melhor -, vamos ver é se isso se traduz em rendimento, que estas quatro jornadas não foram nada animadoras. Há que meter em perspectiva também. Empate em Braga e derrota na Luz, campos tradicionalmente difíceis. A goleada sofrida contra o Famalicão dói mas são uma equipa em alta pelo que se aceita um bocado. O pior foi o jogo com o Casa Pia. Um empate não teria sido injusto mas em casa contra uma equipa algo fraca pedia-se mais. Também fica algo difícil ter resultados imediatos quando se rodou basicamente o plantel inteiro e muitos reforços importantes chegaram nos últimos dias. Compartilhar este post Link para o post
Chandler Publicado 12 Setembro 2024 Jogou-se muito pouco contra Famalicão e Casa Pia. Pior do que os resultados, é o que não se jogou. O jogo na Luz é sempre o jogo na Luz, mas tendo em conta o momento do adversário e os períodos em que até tivemos a bola, podíamos e devíamos ter tido outra capacidade de chegada ao último terço. Contudo, o problema sério foram mesmo os dois jogos em casa e o que não se conseguiu produzir com bola. Continuo a achar que os jogadores são melhores, e até entendo que o plantel é todo novo e que o treinador traz uma ideia e sistema completamente diferentes. Mas é preciso fazer mais. 1 Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 12 Setembro 2024 Citação de Chandler, há 36 minutos: Jogou-se muito pouco contra Famalicão e Casa Pia. Pior do que os resultados, é o que não se jogou. O jogo na Luz é sempre o jogo na Luz, mas tendo em conta o momento do adversário e os períodos em que até tivemos a bola, podíamos e devíamos ter tido outra capacidade de chegada ao último terço. Contudo, o problema sério foram mesmo os dois jogos em casa e o que não se conseguiu produzir com bola. Continuo a achar que os jogadores são melhores, e até entendo que o plantel é todo novo e que o treinador traz uma ideia e sistema completamente diferentes. Mas é preciso fazer mais. é esperar que o Alan Ruiz ganhe ritmo competitivo e as coisas vao entrar nos eixos (nunca esperei escrever isto) porque parece-me um jogador ideal para gerir os ritmos e lançar a malta da frente. Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 15 Setembro 2024 Spoiler “No Paços, durante um exercício, o José Mota às tantas diz: 'Isto está uma mer**, olhem para o Dani, parece uma bailarina de salto alto'” Dani Soares é o caçula de 10 irmãos e aos 10 anos já andava a dar pontapés na bola no clube da terra, o Barrosas. Deu nas vistas e acabou por fazer a formação no FC Vizela, de onde só saiu aos 24 anos, para jogar no Paços de Ferreira, o clube da cidade onde hoje vive com a mulher e os dois filhos. Após a estreia tardia na I Liga, bateu asas e voou até à Roménia, onde viveu os melhores anos da carreira. Foi campeão, ganhou taças, jogou na Liga dos Campeões (ganhou à Roma de Totti) e recorda aqui algumas histórias desses tempos Nasceu em Barrosas, Felgueiras. É filho e irmão de quem? A minha mãe foi sempre doméstica. O meu pai, que faleceu com 82 anos, teve uma empresa de construção civil. Tenho nove irmãos, eu sou o mais novo. Somos oito homens e duas raparigas. Elas passaram mal [risos]. Como foi a sua infância? Estava sempre na rua a jogar futebol. A minha mãe diz que às vezes era preciso irem buscar-me à uma ou duas da manhã, porque estava sempre a jogar na rua com os amigos. Gostava da escola? Gostava muito. Até ao 10.º ano era muito bom aluno. Depois, quando o futebol começou a ser mais profissional e já tinha uma noção que se calhar podia ser jogador profissional, passava mais tempo dentro do campo do que propriamente em casa a estudar. Ainda fiz o 11.º ano, mas depois passei a ter treinos bi-diários e já não dava mais para conciliar. Em casa torciam porque clube? Eu torcia pelo FC Porto. Os meus irmãos eram todos benfiquistas, eu era do contra [risos]. Quem eram os seus ídolos? O Ronaldo "Fenómeno" e o Fernando Redondo. Havia alguém na família no futebol? Tinha um irmão que jogava, mas não profissionalmente. Ele podia ter sido profissional, mas não lhe compensava na altura. Dani (4.º à esquerda em baixo) começou a jogar no Barrosas, com 10 anos D.R. Quando e como foi jogar pela primeira vez para um clube e qual foi? O primeiro foi o clube da terra, o Barrosas. Fui para lá logo que possível. Estive lá dos 10 anos aos 14 anos. Depois fui para o Vizela. Que memórias guarda dos anos no Barrosas? Os amigos de infância. Passámos de jogar na rua para jogar no campo. Lembro-me do primeiro jogo oficial, ganhámos 1-0 e fui quem marcou o golo. Ficou-me sempre na memória. E recordo-me dos treinadores, que se tornaram amigos pessoais. Tudo pessoal lá da terra, sem curso, sem instruções, mas gente de trabalho. Jogava em que posição nessa altura? Era médio direito. De que forma foi parar ao FC Vizela, com 14 anos? Havia sempre pessoas a observar. Os treinadores do Vizela vieram ver um jogo, gostaram e convidaram-me para ir para lá. Foram falar com os meus pais, para saber se deixavam. Os meus pais apoiaram-me sempre. Era o que eu quisesse, a decisão era minha. Como ia para os treinos? Antigamente havia umas carrinhas que passavam pelas terras, faziam a volta, a ir buscar jogadores. Notou diferenças do Barrosas para o Vizela? Um bocadinho, em Vizela começou a ser mais a sério e mais difícil, porque havia melhores jogadores, melhores treinadores, tudo melhor. Foi lá que subiu a sénior e estreou-se numa equipa principal? Foi. Tinha 19 anos. Mas já tinha treinado com a equipa principal antes. Normalmente à quinta-feira iam três, quatro jogadores treinar com os seniores e eu fazia parte desse lote. Dani Soares em criança, no casamento de uma irmã D.R. Quais eram as suas ambições? O seu grande sonho na altura? O primeiro objetivo era assinar pelo Vizela, fazer parte do plantel e a partir dali fazer uma carreira. Tinha o sonho de chegar à I Liga, de jogar na seleção, de ser profissional e jogar no Dragão, na Luz. Alguns concretizaram-se, outros não. Recorda-se do jogo de estreia pelo FC Vizela? O meu primeiro jogo foi contra o Taipas, entrei 10 minutos. Era II B. Quando passou de júnior para sénior e ficou na equipa principal deve ter notado grandes diferenças, uma vez que passou a lidar com homens feitos. Exatamente. Se calhar fisicamente os homens até nem eram melhores, mas sabiam meter melhor o corpo, tinham mais experiência e sabiam onde a bola ia cair. Nós, os miúdos, tínhamos uma vontade do caraças de correr para um lado e para o outro, enquanto os velhotes, entre aspas, só se posicionavam e com um rendimento muito superior [risos]. Fizeram-lhe muitas partidas? No primeiro ano fizeram algumas. Tinha de engraxar as botas aos mais velhos. Fizeram aquela partida do autocarro, em que diziam para sentar num determinado lugar e depois aparecia o “dono” do lugar e mandava-me embora. Esse tipo de coisas. Dani em criança D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite e os namoros mais sérios? As saídas começaram com aos 16/17 anos. Gostava de sair. No final do jogo davam-nos folga, podíamos fazer o que quiséssemos e eu gostava de sair. O namoro sério foi só aos 21 anos, com a minha atual esposa. Até lá foi só brincadeiras [risos]. Qual o valor do seu primeiro ordenado? Eram 85 contos, ou seja, são €375 agora, por aí. O que fez com esse dinheiro? Acho que comprei sapatilhas, eu adorava sapatilhas da Nike, comprei logo dois pares. Ainda vivia em casa dos pais? Sim, vivi em casa dos meus pais até aos 27 anos, só saí quando me casei. Com tantos irmãos, o que era mais difícil de lidar? Os horários. Se não chegasse a tempo na hora do almoço, já não comia as partes de que mais gostava. Mas os meus irmãos são mais velhos, quase todos já eram casados, não privei com todos ainda solteiros porque casavam bem cedo antigamente. Tenho sobrinhos da minha idade. Os mais próximos de mim é que me puxavam para jogar à bola e sair à noite com eles. O médio (2.º atrás à esquerda) nos juniores do FC Vizela D.R. Dos tempos de início de carreira no FC Vizela, quais foram os momentos mais marcantes? Fiz lá quatro amigos para a vida. Ainda hoje falamos e reunimo-nos no Natal, estamos sempre juntos. Saíamos todos com as namoradas, isso ficou para a vida. Quando cheguei aos seniores eles também me ajudaram, porque subiram dois, três anos antes de mim. E lembro-me do meu primeiro treinador, que me lançou, o Fernando Faria. Quando subi aos seniores ele era o diretor-desportivo, entretanto o treinador é despedido e ele assumiu a equipa. No momento que assumiu, convocou-me logo para o primeiro jogo, meteu-me aqueles 10 minutos e a partir dali joguei o ano todo. Também foi muito marcante a subida de divisão, da II B à II Liga. Foi o mais marcante. Lembro-me de me ter lesionado e do treinador pedir-me para jogar mesmo estando a mancar. Lesionou-se onde e como? No joelho, rotura dos cruzados. Foi sozinho. Fui buscar uma bola aos centrais e na rotação senti um estalo muito grande, dores e, pronto. Estava a recuperar da lesão e, como as coisas não corriam lá muito bem com a equipa, ele disse-me que se eu me sentisse a 50%, metia-me a jogar só para puxar os adeptos a virem ver os jogos. Fui jogar apenas com três meses e meio de recuperação, era pouquíssimo. Ganhámos o jogo, mas quase não toquei na bola. Estive o jogo todo a mancar. A verdade é que a partir dali nunca mais senti dores. Como foi parar ao Paços de Ferreira, aos 24 anos, em 2006/07? Já se falava da minha saída há algum tempo, só que o Vizela nunca me libertou. Antigamente tinha-se que pagar os direitos de formação até aos 24 anos. No momento em que fiz 24 anos o FC Vizela libertou-me. Os dirigentes do Paços deram uma quantidade em dinheiro ao Vizela e deixaram-me sair porque sabiam da minha vontade de ir para voos mais altos. Teve propostas de outros clubes? Tinha propostas do Beira-Mar e do Paços, mas o Paços chegou lá e comprou o passe. O médio chegou ao Cluj, da Roménia em 2006/07 D.R. O treinador era o José Mota, era um clube da I Liga. O choque foi grande? Não. Não havia muita diferença porque na II Liga já se trabalhava praticamente igual à I Liga. Com que opinião ficou de José Mota enquanto treinador? O José Mota é o meu pai do futebol. Foi ele que me trouxe para aqui, para Paços. O meu regresso a Portugal, depois de vários anos lá fora, também é ele o responsável. Do que mais se recorda dos seis meses que esteve no Paços de Ferreira? Recordo-me da vitória em Alvalade, golo do Ronny com a mão. Ele na conferência jurou a pé juntos que não tocou na bola com a mão, quando havia uma imagem a passar na SportTV em que se vê claramente que ele empurra a bola com a mão [risos]. Do seu jogo de estreia na I Liga, lembra-se? Perfeitamente, foi em Braga. A minha marcação era o João Vieira Pinto. Foi um batismo daqueles. E a titular. Perdemos 2-1, mas o golo do SC Braga aconteceu já depois dos 90 minutos e foi um autogolo. O Paços qualifica-se pela primeira vez para a Europa, nessa época. Após chegar à I Liga, as suas ambições cresceram? Claro. Chegas a um sítio e queres chegar a outro ainda melhor. Queria ir para um grande, uma equipa melhor. Dani (com Tony às cavalitas) nos festejos da conquista do campeonato pelo Cluj, em 2007/08 D.R. Quem foi o adversário que mais dores de cabeça lhe deu nessa altura? O Lucho Gonzalez. Vamos ao Dragão e tenho uma história sobre isso, por acaso. Conte. Durante o jogo, o FC Porto está melhor que nós, tem mais qualidade e, entretanto, faço uma falta no Lucho González. Como normal para mim, fui lá e pedi desculpa. No intervalo, o Mota deu-me uma dura a dizer que eu não tinha nada que pedir desculpa, que tinha de ser agressivo na mesma, e que ele não é mais do que ninguém. Por pedir desculpa levei uma dura [risos]. Mas o FC Porto nesse jogo rebentou connosco, levámos 4-1, mas podíamos ter levado cinco ou seis. Acho que foi o pior jogo que o Paços fez nesse ano, sem querer tirar mérito ao FC Porto. É no Paços que se fixa a médio defensivo? Não, ainda foi no Vizela. Quando fui para o Paços como estava lá o Paulo Sousa, que tinha uma qualidade grande, era o nº 6 e o capitão, eu jogava à frente dele. Tem mais alguma história para contar desses tempos em Paços? Recordo-me de um treino, em que há um exercício que não estava correr muito bem e o José Mota às tantas vira-se e diz: “Isto está uma merda, olhem para o Dani, parece uma bailarina de salto alto, vamos lá dar corda às sapatilhas”. E pronto, a partir dali em Paços passei a ser a bailarina de salto alto [risos]. O médio português (de frente à esquerda) jogou contra Totti da Roma, na fase de grupos da Liga dos Campeões, em 2008 D.R. Como foi parar à Roménia a seguir? O Cluj veio ver um jogador brasileiro chamado Didi, no jogo contra o Boavista, porque estavam interessados nele. Fazemos um jogaço em casa e eu fui no pacote. Vieram buscar o Didi e levaram-me também. Tinha empresário? Nunca tive empresário. Aceitou logo de bom grado ir para a Roménia? Sim. Se é para ir, siga. Já lá estavam três portugueses que eu conhecia, eles diziam-me maravilhas daquilo, por isso. Negociou algum valor? Quando me apresentaram a proposta disse logo que sim. Não houve negociações sequer. Foi ganhar quantas vezes mais? Três ou quatro, à vontade. Mas o que alicia nesses contratos é o prémio de assinatura, o dinheiro que vais receber à cabeça, ainda antes do primeiro ordenado. Já namorava a sua atual mulher nessa altura. Como e quando se conheceram? Conhecia-a nas festas Sebastianas de Freamunde. Andámos dois anos só a conversar. A Daniela é mais nova quatro anos. Eu tinha 21 anos e ela 17 quando nos conhecemos e ela ainda estudava. Qual foi a reação da Daniela quando lhe disse que ia para a Roménia? Não reagiu lá muito bem [risos]. Ainda por cima apanhei-a de surpresa, porque só lhe disse quando o negócio já estava concluído. Assinou por quanto tempo com o Cluj? Quatro anos e meio. Dani, que acaba de chutar a bola, no jogo com a Roma D.R. Como foi o primeiro impacto quando lá chegou? No início não foi nada fácil a adaptação. O estar longe da família, o viver sozinho, o não falar nada de inglês, o frio. Depois tornou-se mais fácil porque já lá estavam três portugueses: O Cadú, que agora é meu cunhado, o Manuel José e o Semedo. Foram os primeiros a chegar e ajudaram-me. O que fazia nos tempos livres? A maior parte das vezes ficávamos em casa a jogar PlayStation. Quase todos os portugueses viviam no mesmo prédio, então saltávamos de casa em casa. Do clube, o que achou? As infraestruturas, por exemplo, não eram grande coisa. Nos primeiros seis meses as condições não eram nada de especial. Em Portugal tínhamos melhor, mas depois construíram um estádio novo e com a ida à Champions fizeram daquilo um clube da elite. E o futebol romeno? Razoavelmente mais fraco que em Portugal, não tinha a mesma qualidade. Tivemos de nos adaptar. Como lhe disse, os primeiros seis meses foram difíceis, mas a partir dali foram os melhores anos da minha carreira. Chegou a ponderar vir embora nesses primeiros seis meses? Nunca cheguei a pensar vir embora, mas não estava fácil. Parecia que eu não estava com o à vontade que tinha cá. Mas depois tudo engrenou. Dani, com a bola, e Deco, então no Chelsea, num jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões, em 2008 D.R. O que achou dos romenos? Nos primeiros seis meses faziam-nos a vida um bocadinho difícil porque achavam que íamos para lá roubar-lhes o emprego. Não falavam connosco, se perguntávamos onde ficava isto ou aquilo, não diziam. Sofremos um bocadinho de xenofobia. Mas depois começaram a perceber que acrescentávamos à equipa e dávamos-lhes alguns prémios de vitória, porque se não fossemos nós, os estrangeiros… Então, a partir daí tornou-se uma família. Como são os adeptos? Malucos. A nossa equipa era como se fosse o Sporting ao nível de adeptos da cidade, não era a equipa que tinha mais massa associativa. Do que se recorda dos primeiros anos em Cluj? Vou-lhe contar a história do dia em que fomos campeões. O jogo do título foi contra a equipa da cidade, um dérbi. Se ganhássemos seríamos campeões, se não ganhássemos seria o Steaua de Bucareste. No dia desse jogo, como a rivalidade era muito grande, não fomos no nosso autocarro, fomos num autocarro descaracterizado em que ninguém via lá para dentro, já equipados e prontos para o jogo. No final, tivemos de vir de bunker, aqueles carros tipo tanque, em que só há uma janelinha para passar ar. Porquê? Porque fomos campeões, no campo do clube rival, eles não nos deixaram festejar lá, iam apedrejar e insultar. Para atravessar a cidade teve de ser num tanque desses [risos]. Viveu sempre sozinho na Roménia? Nos primeiros anos sim, porque a Daniela estava a tirar o curso de Psicologia. Quando ela terminou a licenciatura foi ter comigo. Penso que foi no 3.º ano. Casámos em 2009 e é nesse ano que ela vai para lá. A equipa do Cluj, em 2008. Dani é o 1.º atrás à esquerda D.R. Teve vários treinadores no Cluj. Recorda-se de algum em particular? Recordo-me de um que nos punha a treinar às sete da manhã. Fazíamos 12 km em jejum, a correr, mas em alta intensidade. Depois vínhamos tomar o pequeno-almoço, às oito, e treinávamos outra vez às 10h. Isto tudo sem bola, nem a víamos. Aqueles 12 km em jejum eram muito duros. Para ter noção, só três jogadores conseguiram chegar ao final da semana. De resto, toda a gente teve de desistir porque não conseguia mesmo. Eram 40 minutos em alta intensidade. Fez parte desses três que se aguentaram, ou não? Não [risos]. Quem conseguiu foi o Tony e dois romenos. Houve pessoal que logo no primeiro dia não se aguentou. O que quer dizer com não aguentar? Estávamos tão cansados que fazíamos lesões, roturas musculares. É que depois ainda treinávamos às quatro da tarde. Eram treinos tri-diários. Recordo-me também do nosso treinador do primeiro ano, por exemplo, que em caso de vitória, obrigava-nos a ir tomar um copo à noite com ele, depois do jogo. Mas, se perdêssemos, não podíamos sair de casa. Se ganhássemos ele reservava uma mesa numa discoteca e tínhamos de ir lá beber o copo com ele, depois quem quisesse vir embora, vinha, quem quisesse continuar, continuava. Lembrei-me de outro episódio engraçado. Força. Numa folga, eu o Cadú, o Semedo e o Manuel José saímos para jantar. O Cadú estava ao volante e há uma operação STOP da polícia. Como tínhamos bebido, o Cadú decidiu não parar. A polícia veio atrás de nós com as sirenes ligadas, mas conseguimos escapar. Entretanto, num jogo em que estou suspenso, fui para o estádio no carro do Cadú, mostro o cartão PARK ao polícia para me deixar entrar no portão do estádio e ele olhou para mim e diz: “Vou-te deixar entrar, mas na próxima vez que te fizer uma operação STOP é para parares”; “O carro não é meu, é do Cadú, senhor agente”; “Então ele que pare” [risos]. Das saídas à noite há várias. Conte lá mais uma. Uma vez fomos todos sair à noite a uma discoteca e bebemos todos uns copitos a mais e houve um jogador que quando saiu da discoteca começou a atirar o dinheiro todo que tinha no bolso para o rio que passava lá ao pé. Dizia ele que era para lhe dar sorte [risos]. Dani Soares, em Paços de Ferreira, na semana em que foi entrevistado por Tribuna FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU O que aconteceu no fim dos quatro anos e meio no Cluj? Apareceu uma proposta para ir para a Grécia e fui. Também não hesitou? Dessa vez hesitei porque gostava muito de estar em Cluj, foram anos maravilhosos e custou-me. Mas teve de ser. Porque foi para a Grécia? Primeiro porque não senti interesse da parte do Cluj em renovar. E o Iraklis queria mesmo muito que eu fosse para lá, mostraram muito interesse. Foi ganhar mais? Um pouco mais. Pelo mesmo valor ficava em Cluj. Estava numa equipa grande na Roménia e indo para a Grécia já sabia que ia lutar pela manutenção. Spoiler “Em Setúbal, entrámos num restaurante que só tinha uma mesa vaga. O dono não nos deixou sentar, disse que naquela mesa só se sentava o Toy” Dani Soares deixou de jogar futebol aos 39 anos, quando surgiu a pandemia. Após três meses sem sair de casa, acabou por descobrir uma nova paixão, o padel. Esta época voltou aos relvados, como adjunto, uma experiência que está a adorar, de tal maneira que já pensa em fazer mais níveis do curso de treinador. Nesta II parte do Casa às Costas, além do presente, falámos ainda sobre os anos na Grécia e do regresso a Portugal, onde passou por clubes como o V. Setúbal, FC Vizela, Lixa e Maia Lidador Foi para o Iraklis da Grécia em 2010/11. Como foram as primeiras impressões? Gostei mesmo muito da cidade, Salónica. As condições do clube eram muito boas também. O Iraklis tinha uma massa associativa incrível. Na Grécia são mesmo fanáticos. Eu jogava numa equipa que equivale a uma equipa mediana em Portugal e tínhamos 30.000, 40.000 adeptos no estádio em todos os jogos em casa. Cantavam desde o primeiro até ao último minuto. Se tivessem de nos assobiar ou criticar, só faziam isso no fim, durante o jogo era só incentivo. Se jogássemos mal, ou se achavam que o pessoal não estava a dar tudo, vinham cobrar-nos depois ao treino ou ao balneário mesmo. Mas durante o jogo, era só incentivar. Alguma vez teve uma invasão de balneário? Que me lembre, penso que não, mas recordo-me de uma, no autocarro. Não estavam a gostar da prestação de um colega. Estávamos a chegar ao centro de estágio, o motorista parou, deixou a porta aberta e eles entraram lá dentro. Começaram a falar grego, eu não percebia muito bem, mas via-se que estavam a cobrar junto de um jogador. Só que, quando eles entram, nunca sabes se é para ti, foi um susto. Após duas épocas e meia no Xanthi da Grécia, Dani Soares assinou pelo V. Setúbal, em 2013/14 D.R. O que achou do campeonato grego, comparativamente com o português e o romeno? É do género do português. O FC Porto, Benfica e Sporting são superiores a todas as equipas gregas, mas na média havia uma competitividade boa. Gostei muito de jogar na Grécia e os gregos são muito como os portugueses, acolhedores, são latinos. A comida é boa também. Porque só esteve uma época no Iraklis? Porque o clube entrou em insolvência e fiquei livre no final do primeiro ano. O clube acabou por fechar, o treinador foi para o Xanthi e convidou-me para ir com ele. Teve outras propostas? Não cheguei a ter porque foi tudo rápido. Assinei contrato no aeroporto. Não me deixaram sair da Grécia sem assinar o contrário. Mudou de cidade. Mudei. Xanthi é mesmo no interior, ficava a duas horas de carro de Salónica. É uma cidade pequena, colada à Turquia, é totalmente diferente. As pessoas são diferentes, são mais fechadas, a cidade é um bocadinho mais velha, não gostei tanto da cidade, mas gostei do clube. Dani (à direita) é luta com João Mário (Sporting), durante um jogo do campeonato, em 2015 CARLOS COSTA Já tinha sido pai? Sim, a primeira vez que fui pai ainda estava na Roménia. O Rodrigo não é romeno, mas foi feito lá. Já tem 14 anos, nasceu em 2010. Assistiu ao parto? Não. Não tive oportunidade de assistir a nenhum dos partos dos meus dois filhos. Das duas vezes estava ano estrangeiro e a minha mulher veio dar à luz em Portugal. A Rafaela nasceu em 2012, estava eu no Xanthi. Assinou quanto tempo pelo Xanthi? Dois anos. No fim queriam renovar, mas eu tinha a ideia de voltar a Portugal. Aí é que entra o José Mota outra vez. Porque queria voltar? Porque já eram sete anos fora do país, os meus filhos estavam a crescer, eu queria que estivessem na escola em Portugal e queria vê-los crescer. Se continuasse fora ia passar a ter de viver sozinho, porque eles tinham de ficar cá. Decidi voltar por isso. Só teve a proposta do V. Setúbal? Não, tive mais propostas. Estive em negociações com o Paços também e mais umas equipas, mas o Mota soube da minha vinda, ligou-me e convenceu-me a ir para o V. Setúbal. Os amigos Tony, Dani Soares, Cadú e Manuel José D.R. Como foi recebido em Setúbal? No início olharam um bocadinho com desconfiança, porque não me conheciam, não sabia quem era, onde joguei. Depois de começar a jogar, perceberam que a minha maneira de jogar é de dar tudo, de não dar um lance como perdido e os adeptos gostam disso. Depois foi fácil. E no balneário? Receberam-me bem. O jogador de futebol em geral é tudo gente boa. Foi viver para Setúbal com mulher e filhos? Sim. Adorei viver lá. É uma cidade espetacular, com o melhor peixe do país. Os vitorianos têm uma paixão enorme pelo Vitória. Por isso adorei. O José Mota não ficou até final da época, entretanto, veio José Couceiro. Muito diferentes? Totalmente diferentes, os dois muito bons, mas com ideias diferentes. Pode explicar melhor? O Mota é mais tradicional, à moda antiga, o Couceiro tinha outras ideias, trouxe bons reforços e fizemos uma boa época por causa disso. Depois do trabalho que fez, só não ficou porque não quis. Em 2016/17, o médio defensivo regressou ao FC. Vizela D.R. Notou muita diferença no futebol português, uma vez que tinha estado sete anos fora? Não. Agora está diferente, está muito mais rápido, com mais intensidade, mas quando voltei acho que estava igual a quando deixei. Na época seguinte veio o Domingos Paciência. Que tal? Também gostei. Em Portugal gostei de todos os treinadores. E todas as ideias são válidas para ganhar jogos. Qual dos treinadores com quem trabalhou sabia gerir melhor o balneário? Todos eles. Depois os resultados... Às vezes é uma bola que bate no poste e entra e outra que não entra, que faz a diferença. São esses pormenores. Porque hoje vais à I ou II Liga e todos trabalham da mesma maneira, o que varia são os intervenientes, aquele pormenor, aquela pontinha de sorte que também faz parte. O que mais o marcou nessas épocas em Setúbal? Do que gostei mesmo muito foi da massa associativa. Têm uma paixão pelo Vitória que já não se vê atualmente. Os adeptos normalmente têm duas equipas, uma delas é sempre um dos três grandes, ali no Vitória não senti isso, senti que só torciam pelo Vitória. Hoje em dia isso já não é normal a não ser com os dois Vitórias, o de Guimarães e o de Setúbal, as outras equipas normalmente têm adeptos que dividem com um dos três grandes. Recordo-me também do jogo da manutenção que fizemos com o Arouca, foi quase de vida ou morte, porque ou ganhávamos e ficávamos ou perdíamos e descíamos. Esses jogos ficam na memória. Foi na minha penúltima época, com o Bruno Ribeiro, em que ganhámos ao Arouca em casa e garantimos a manutenção. Algum episódio fora do futebol para contar desses tempos que passou em Setúbal? Um dia fomos a um restaurante lá, em Setúbal, e quando chegámos estava cheio, só tinha uma mesa vaga. Perguntámos ao dono do restaurante se podíamos ocupar a mesa e ele: “Não, não. Naquela mesa só se senta o Toy”. Ficamos perplexos e começamos a chamar àquele restaurante o restaurante do Toy [risos]. Não continuou no Vitória de Setúbal porquê? Estava ali um bocadinho, não era pegado com o presidente, mas… Houve dificuldades financeiras e tinha-se que assinar os pressupostos e ele estava sempre a mentir-nos e a enganar-nos e eu, como um dos capitães, fiquei ao lado da equipa, como é normal; o presidente não gostou muito e a relação se calhar deteriorou-se. No final do terceiro ano não houve sequer abordagens, se calhar foi por causa disso. A seguir só teve o interesse do Vizela? Não, surgiram mais propostas, mas como estava em fase descendente da carreira, queria acabar lá a carreira profissional porque foi em Vizela que comecei. Foi por aí. Em 2018/19, Dani (2º atrás à direita) jogou pelo Lixa D.R. Não correu bem, acabaram por descer de divisão. Não correu, não. Foi a única descida de divisão em toda a minha carreira. Começámos bem com o Ricardo Soares. Estávamos em 3.º quando ele saiu para a I Liga, veio o Rui Quinta depois e a seguir o Carlos Cunha, na fase final da época. Depois de estarmos em 3.º lugar acho que houve ali um deslumbramento, não sei. A II Liga é muito isso, quatro ou cinco pontos estás no top da Liga e duas ou três derrotas e vens cá para baixo. E depois de cair, sair dali é difícil. Foi o que nos aconteceu. Ainda tentámos tudo, foi até à última jornada, mas infelizmente não foi possível. Ainda tinha contrato? Sim, assinei por dois anos. Quando desceram ponderou abandonar o futebol? Não. Nunca pus isso em cima da mesa. Normalmente gosto de cumprir os contratos quando os assino. A não ser que apareçam propostas boas para ambas as partes. Como foi jogar no Campeonato de Portugal? Quando comecei a carreira foi nessa divisão. Na altura era II B, mas era mais ou menos o mesmo. Já conhecia o campeonato. Todas as divisões são difíceis. O pessoal é que pensa que é fácil jogar em qualquer divisão. Não é. Jogou pouco nessa época. Porquê? Estava lá o Everard, um grande jogador, eu também estava na fase descendente e o treinador optou por ele e eu tinha de respeitar. Mais mérito do jogador da posição do que propriamente demérito meu. Ele jogava e jogava bem, era mais novo, corria mais... Eu tinha 36 anos. Temos de ser realistas. Após deixar o futebol, Dani Soares dedicou-se ao Padel, como hobby D.R. Quando essa época terminou, pensou então em arrumar as chuteiras? Sim. Mas fui convidado e o bichinho falou mais alto [risos]. Ainda fui para a distrital três aninhos. Estive no Lixa e no Maia. E o que tem para contar desse período? Recordo-me de chegar à Lixa e já não estar habituado àqueles relvados, sintéticos, e balneários tão pequenos [risos]. Ainda cheguei a treinar uma ou outra vez no pelado. Os treinos eram à noite, no Lixa. E lembro-me também de uma vez, em dia de jogo, o treinador vem falar comigo e pergunta: “Dani, tu fumas?”; “Eu não mister”; “Ok. Pega lá €10 e compra tabaco para a malta que fuma, que eles não devem ter dinheiro e não quero que vos falte nada” [risos] O que fazia durante o dia? Felizmente investi em imóveis, a minha mulher abriu uma loja de roupa e estava entretido. O que o levou a colocar ponto final na carreira? O covid-19. Parou tudo e pronto. Custou-lhe muito a fase do confinamento? Não. Eu adoro estar em casa. Não me custou nada mesmo. Vivi três meses sem sair de casa. Só a minha mulher é que saía para ir buscar pão, a comida, o que fosse preciso. Durante esse período fiquei sempre em casa. Tenho espaço exterior, não me fazia falta ir à rua. Como se ocupava? A ver televisão. Tinha os meus filhos em casa, estávamos sempre a fazer joguinhos, a brincar com eles, dava uns mergulhos na piscina. O ex-jogador abriu um centro de Padel, em Paços de Ferreira D.R. Terminou a carreira com 39 anos. Já não lhe custou não voltar ao futebol? Não. Chegas a uma certa idade em que percebes que o teu corpo já não reage da mesma maneira que tu queres. É a hora exata. Já tinha pensado no que queria fazer pós-carreira? Nunca tinha pensado. Mas depois investi numas instalações de padel, com um sócio, o “4 Padel”, em Paços de Ferreira, e o padel ajudou-me imenso a não sentir tanta falta do futebol. Hoje adoro jogar padel. Entretanto, neste momento sou treinador-adjunto do Cinfães. Estou a gostar muito da experiência. Achava que não tinha vocação ou paciência para voltar ao futebol e felizmente voltei esta época e estou mesmo a gostar. Já me fazia falta o cheirinho da relva. Ainda só tenho o nível II do curso de treinador e penso fazer o III e o IV. Com que objetivo? Chegar à I Liga, porque não? Neste momento só penso mesmo em ser adjunto, não penso em ser treinador principal. Mas o amanhã ninguém sabe. Onde ganhou mais dinheiro? O ordenado se calhar não foi o mais alto que tive, mas onde ganhei mais dinheiro foi em Cluj. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprar um relógio caro. Acredita em Deus? Já fui mais crente. Mas a propósito de igrejas, lembrei-me que na Roménia, nos dias dos jogos, como eles são tão crentes, o nosso passeio matinal era sempre ir à igreja. Só que, como eles são ortodoxos, aquilo não nos dizia grande coisa. Mas tínhamos de ir com eles. Superstições? Tinha de entrar sempre com o pé direito. E, quando ia para o estágio, se nesse fim de semana ganhasse, as sapatilhas que eu tinha usado, voltava a usar sempre até que o resultado não fosse a vitória Tatuagens, tem? Tenho só uma: o nome da minha mãe. Fiz na Roménia, devia ter uns 26/27 anos. Qual o maior arrependimento que tem na carreira? Ter ido jogar para fora tão cedo. E frustração? Ter descido com o Vizela, custou-me imenso. O momento mais feliz? Ter jogado a Champions League. O objetivo que ficou por cumprir? Jogar pela seleção nacional. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha? O polvo. Diziam que eu tinha muitos tentáculos, que recuperava muitas bolas. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Cadú, que é o meu cunhado, Manuel José. André Leão, Tony, Semedo. Dani na semana em que foi entrevistado para o Casa às Costas, de Tribuna FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU Alguma regra do futebol que se pudesse alterava, ou bania? Bania o VAR. Tira emoção ao futebol. O adepto agora nem sabe se pode festejar, ou não. O juiz de linha tem de tomar decisões, não faz muito sentido estar à espera do VAR. Qual o momento mais difícil que passou na vida? A morte do meu pai. Quem foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Totti. Fizemos seis jogos na Champions, na fase de grupos. Ganhámos na Roma e depois perdemos em casa com eles. Tem algum talento escondido? Jogar às cartas. Copas, sobretudo. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Gostaria de ser engenheiro, mas não sei se teria aptidão para isso. Era o sonho do meu pai, que eu fosse engenheiro civil, para lhe fazer os desenhos para as obras. O seu filho joga futebol? Joga. Revê-se nele? Um bocadinho. Pelo menos a vontade ele tem a mesma ou mais do que o pai tinha. Ele tem uma paixão enorme por futebol, mas não sei se tem muito jeito. Joga a avançado. 3 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 22 Setembro 2024 Spoiler “Em Hong Kong, ganhávamos por 4-1 ao intervalo e o presidente entrou no balneário a atirar cadeiras pelo ar, louco por termos sofrido golo” Eduardo Almeida, de 46 anos, já treinou em sete países diferentes, e em alguns mais do que uma vez. Nesta I parte do Casa às Costas, o técnico português, que começou por praticar ginástica acrobática, trampolim e tapetes, recorda como tudo começou, nos juvenis do Benfica. Conta também como passou de adjunto a treinador principal e revela algumas histórias, algumas hilariantes, que viveu em países como a Tanzânia, Malásia ou Hungria Nasceu em Lisboa. Cresceu onde e é filho de quem? Vivi em Queluz até aos nove anos, depois mudámo-nos para aqui [Alenquer] porque o meu pai tem uma empresa de alumínios, em Cabanas do Chão, e como ele tinha alguns problemas respiratórios, para não ter de andar a fazer todos os dias a viagem Alenquer Lisboa, mudamo-nos. A minha mãe, antes de eu nascer, trabalhava numa loja de louças em Lisboa, depois ficou a tomar conta de mim e da minha irmã, mais velha cinco anos, e que hoje é psicóloga. A mudança para uma aldeia levou-o a ser mais ativo? Claro, temos mais liberdade, andamos mais na rua. Sempre fui um miúdo muito ativo, havia sempre uma cabeça partida ou um braço furado como aconteceu uma vez a jogar futebol. A jogar futebol? Conte lá isso. Eu e os meus amigos, não podíamos estar no ringue a jogar futebol porque estavam lá os mais velhos e fomos jogar para junto de uns tanques, onde antigamente se lavava a roupa. A porta tinha uns tubos pontiagudos, eu escorreguei, bati com o braço lá e acabei por furar o braço. Tive de agarrar na bicicleta e ir para casa, para ser cosido [risos]. Eduardo com os pais e a irmã D.R. O que queria ser quando crescesse? Ainda em Queluz fazia ginástica desportiva e quando vim para aqui continuei a fazer. Fazia trampolim, acrobática e tapetes. Por isso sempre quis estar ligado ao Desporto. E também queria jogar futebol. Antes de vir para aqui fui às captações do Sporting, acabei por ficar, mas nunca frequentei porque, entretanto, mudámo-nos para cá e a distância já não permitia. Aqui, fui para o hóquei em patins, porque era o desporto mais forte desta zona. Ainda joguei vários anos, continuei a fazer ginástica, na Abrigada e em Cabanas do Chão, até que fui para a faculdade e tirei Desporto. Em casa torciam por algum clube? Eu torcia pelo Sporting, mas depois fui trabalhar para o Benfica e ganhei grande simpatia pelo clube. Quem eram os seus ídolos? O Maradona. Há de ser sempre. Mas também Ruud Gullit e Rijkaard. Eduardo Almeida na adolescência D.R. Nunca jogou à bola num clube? Eu jogava muitos torneios. Antigamente havia muitos torneios de futsal e eu participava em todos, mas tudo à base do amadorismo. Entretanto, entrei em Desporto, na Lusófona. Com que objetivo? O que tinha em mente fazer com o curso? Eu não queria ser professor de educação física. Para ser sincero, continuava só a pensar em tirar um curso e depois logo via. Não sabia sequer se ia trabalhar com o meu pai. Não era a minha ideia porque eu não gostava daquilo, mas também nunca pensei muito naquilo que poderia ser. E depois, subitamente, apareceu o futebol. Como? Primeiro foi aqui no Sport Alenquer e Benfica. Houve uma vaga para treinador de guarda-redes. Experimentei, mas o treinador principal teve um problema, precisavam que alguém subisse, como eu andava na faculdade, perguntaram-me se queria ser treinador. Aceitei. Ao mesmo tempo, o Sport Lisboa e Benfica criou um protocolo com a Lusófona, onde ia buscar estagiários para as escolinhas de formação. Inscrevi-me com um colega e comecei lá, ao mesmo tempo que aqui. Fazia aqui os iniciados e lá a formação. Comecei a gostar do treino. O professor Rui Oliveira na faculdade dizia que eu tinha jeito. Pedi-lhe para me ajudar no planeamento da época que ia começar, ele na altura era coordenador da formação do Benfica e perguntou-me se eu queria ser adjunto do Zé Luís, nos juvenis. E pronto, a partir daí foi só o que fiz, ser treinador de futebol. O treinador com uma equipa de amigos que participava em torneio de futsal, com o apoio da empresa de alumínios do pai D.R. Qual foi o primeiro ordenado que ganhou como treinador? 500€, no Benfica. Felizmente os meus pais sempre conseguiram proporcionar-me meios para poder viver em Lisboa. Quem se tornaram as suas referências? Começa pelo Zé Luís, com quem trabalhei o primeiro ano. Depois tive a felicidade de partilhar balneário com o Chalana, o Veloso, Bastos Lopes, Jesualdo Ferreira. Foram essas as pessoas que comecei a ouvir e com quem comecei a aprender diariamente, a partilhar ideias. Aprendi a gostar do balneário e ainda mais do futebol nessa altura Trabalhou um ano com o Zé Luís e depois? Ele saiu, fiquei com o mister Paulo Martins; no ano seguinte passei para treinador principal dos juvenis B, trabalhei com o Tralhão. Na altura trabalhávamos todos juntos. Comecei em 2001 e fiquei lá até 2004. Ainda na faculdade, Eduardo foi convidado para ser adjunto de Zé Luís, nos juvenis do Benfica D.R. Depois foi para o União de Almeirim. Porque saiu do Benfica? Porque no 5.º ano da faculdade, o ano de estágio, éramos colocados numa escola como professores e eu fui colocado em Almeirim, com um amigo de infância. Já que lá estávamos, procurámos algo mais para fazer e fomos ter com o clube. Eles deixaram-nos abrir uma escola de formação, paga. Comecei a treinar uma equipa de iniciados e a ajudar na coordenação. Estive lá todo o ano de estágio. A seguir fui treinador-adjunto do Silveira Ramos no Atlético do Cacém. Tinha sido meu professor no 4.º ano da faculdade, na especialização de futebol e lembrou-se de mim. Estive lá duas épocas. O professor Silveira Ramos saiu, assumiu o Pedro Valido e fiquei com ele. A ida para Hong Kong em 2007/08 é a primeira saída para o estrangeiro. Como surgiu e como reagiu quando o convidaram para treinar em Hong Kong? Foi um convite do Zé Luís. Sinceramente, na altura, associei Hong Kong à China, pensei que fosse um país menos desenvolvido e quando lá cheguei era completamente diferente. Uma cidade brutal. Os jogadores de Hong Kong tinham qualidade? Estamos a falar de 2007, o clube tinha boas condições, mas o profissionalismo deles era reduzido. Tínhamos alguns estrangeiros que eram mais profissionais e havia ali um equilíbrio, mas a ideia de futebol deles era muito diferente da nossa e para implementar o nosso tipo de treinos havia alguma resistência. Era preciso haver resultados para acreditarem no que estávamos a fazer. E havia coisas engraçadas. Como por exemplo? Dei conta que havia sempre uma miúda na bancada, que se fartava de escrever. Achava aquilo estranho e uma vez fui por cima da bancada, desci para ver o que ela fazia e perguntei-lhe. Ela disse que ia sempre para ali estudar. Achei estranho. No dia seguinte, voltei a ir lá por cima e percebi que o que ela estava a fazer era tirar os apontamentos dos treinos, para eles ficarem com aquilo, possivelmente para no futuro fazerem uma cópia do que estávamos a fazer [risos]. Eduardo acompanhou Zé Luís para Hong Kong D.R. E as pessoas no dia a dia eram simpáticas? Apesar de ser uma cidade enorme, praticamente não conhecemos ninguém, a não ser as pessoas com quem trabalhámos. Mas era tranquilo. Eles já tinham tudo o que a Europa nos oferecia. O que foi ganhar era muito superior ao que ganhava em Portugal? Sim, umas seis vezes mais. Tem mais alguma história para contar dessa passagem por Hong Kong? Tínhamos um presidente que era completamente louco. A visão dele não tinha nada a ver com o futebol. Tinha muitos negócios, muito poder e queria que as coisas fossem como ele dizia, mesmo que fossem completamente fora de contexto. Não era fácil lidarmos com aquilo. Uma vez estávamos a ganhar por 4-1 ao intervalo, mas porque havíamos sofrido um golo, entrou no balneário completamente louco, a atirar cadeiras pelo ar, porque não podíamos ter sofrido um golo [risos]. Ganhámos esse jogo 7-1. Acho que nesse ano só perdemos um jogo. Outra das vezes dizia termos de treinar muito mais que porque as pessoas do escritório trabalhavam oito horas e nós também tínhamos que treinar muito mais tempo [risos]. Eduardo (2º à direita em baixo) com Ze Luis ao seu lado direito e a euipa que foram treinar em Hong Kong D.R. Não renovaram com o South China de Hong Kong, porquê? Tínhamos sido campeões e ganho a Taça, éramos para renovar, mas houve uma proposta do Columbus Miami, o Zé aceitou, estávamos todos contentes da vida que íamos para Miami, mas, entretanto, o clube teve uns problemas, não foi inscrito e nós ficamos sem nada. Aquele convite surgiu porque quando estávamos em Hong Kong, tínhamos feito um torneio contra os LA Galaxy, onde estava o Beckham e ganhámos esse torneio. Já tinha algum namoro sério? Comecei nessa altura a namorar aquela que é hoje a minha mulher, a Filipa. Conheci-a por acaso no aniversário de um amigo, cheguei ao pé dela e disse-lhe que ia casar com ela [risos]. Ela achou estranho, mas a verdade é que acabou por casar. Convidei-a para ir a Hong Kong, ela achou estranho, mas os amigos disseram que eu era boa pessoa. Ela foi ter comigo, a partir dali começamos a falar mais e no natal quando vim a Portugal, começamos então a namorar. Eduardo Almeida, Thales e Cristiano, num jogo que o South China fez contra os LA Galaxy D.R. Depois de Hong Kong acabou por ir parar novamente ao Atlético do Cacém, mas desta vez como treinador principal. Foi a sua estreia no cargo, certo? Em futebol sénior, sim. Era uma equipa que estava no que seria hoje o Campeonato de Portugal. Entrei a meio da época. Já não ganhavam há 265 dias e acabamos por ganhar penso que logo o primeiro jogo. Fizemos um final de época muito bom. Mas não deu para atingir os objetivos e descemos. Já tinha sido tarde. Entretanto, um amigo, o Alexandre Jesus, ligou-me, disse que ia pegar nos juvenis do E. Amadora e ofereci-me para ajudá-lo, até arranjar qualquer coisa, porque queria continuar a ser treinador principal no futebol sénior. Não tinha empresário, então resolvi inscrever-me no site My Best Player, onde apareciam umas ofertas de emprego. É assim que surgem os African Lyons, da Tanzânia? Sim. Inscrevi-me e apareceu uma oferta de emprego para a Tanzânia. Eu não sabia onde é que ficava o país, mas era futebol profissional, I Divisão e respondi. Na altura havia muitas burlas através da Internet, principalmente de clubes africanos. E pensei, até não me pedirem dinheiro, vou continuar a conversa. Uma pessoa deu-me um número e um nome, disse que era agente FIFA. Fui a um site e vi que estava registado como agente FIFA. Na verdade, ele era agente FIFA e manager do clube. Ele enviou-me umas fotos do centro de estágio que estavam a fazer. Entretanto, disse-me quem era o dono do clube, desse havia muita informação online, era uma pessoa muito forte e muito rica na Tanzânia. Disse para me enviarem a viagem que eu ia. O técnico no dia do seu casamento com Filipa D.R. Quando aterrou na Tanzânia com que impressão ficou? A história começa antes de eu aterrar [risos]. Eu não sabia onde era a Tanzânia, não sabia nada. Levo o número do meu pai, com roaming ativo, caso acontecesse alguma coisa e tivesse de fazer uma chamada para alguém. No avião, ao meu lado estava uma senhora que vinha dos EUA. Comecei a falar com ela, perguntei-lhe como era a Tanzânia, ela disse que era muito bom, que ia visitar o filho que tinha ido para lá trabalhar há muitos anos e nunca mais saiu. Eu disse-lhe que ia trabalhar, mas que ainda ia acabar de fazer as negociações. Disse que ia sozinho e que não conhecia a pessoa que me ia receber, só por chamada telefónica e troca de emails. Perguntei-lhe, uma vez que estava sozinho, se ela não se importava que eu saísse com ela, até ver quem estava ou não para me receber. Ela concordou, sem problema, até porque o filho ia esperá-la. Tinha alguém à sua espera no aeroporto? A minha mala demorou a sair, a senhora esteve sempre à espera comigo e, quando saímos, estava uma série de jornalistas e o dono do clube à minha espera, no aeroporto. Ela quando percebeu que era para mim, começou a rir e disse: "Se aquele é o seu patrão, você está bem entregue. Porque não me disse logo que vinha para o futebol?" [risos]. Após essa receção, quais foram então as primeiras impressões quando se deparou com África? É uma diferença muito grande. Em Hong Kong fiquei deslumbrado com os arranha-céus e ali só via casas pobres, com telhados de zinco, estradas esburacadas, um trânsito caótico. Mas quando cheguei ao clube, fui ver o que ainda estava em construção, que nunca se chegou a fazer, já lá estava uma estrutura. Mas aquilo...Quando conseguíamos alugar um dos poucos sintéticos que havia, tínhamos condições de treino, quando não conseguíamos, tínhamos de treinar numa espécie de ervado, qualquer coisa como um retângulo onde provavelmente alguns animais pastavam durante a noite. Em termos de condições não era fácil. Em 2009/10, Eduardo foi treinar os African Lyon, da Tânzania D.R. E os jogadores? Os jogadores são de paixão pura, são jogadores que se apanham na rua, que apareciam ali à experiência, sem ser profissionais, salários indignos, sem condições. Foi isso que me levou, passado algum tempo, a vir embora. Ainda tentei fazer com que o clube passasse a ser um pouco profissional e sério, mas as pessoas que estavam no comando tinham outras ideias. Com que mais dificuldades se deparou? Não davam comida aos jogadores, ficavam com o dinheiro, o dono era uma pessoa muito rica, dava dinheiro para eles os jogadores ficarem em bons hotéis e quando chegávamos ficávamos em hotéis que não lembra ninguém. Havia dinheiro para o aluguer dos campos e eles não alugavam os campos. Está a dizer que o dono dava dinheiro, mas as pessoas que geriam o clube ficavam com o dinheiro? Pois. Eu reportava sempre ao dono, ficámos amigos, mas havia sempre aquele choque com as pessoas que estão no meio e começou a complicar. Agora, o jogador africano tem muita qualidade. Tínhamos lá o Mbwana Samatta, que hoje está no PAOK, já esteve no Aston Villa, é o melhor jogador da Tanzânia; ele nessa altura tinha 18 anos. Num treino dos African Lyon D.R. Imagino que tenha vivido e assistido a muitos episódios engraçados na Tanzânia. Pode abrir o livro? Ui [risos]. As viagens eram de loucos. Nunca chegavam a horas. Por exemplo, uma vez íamos jogar à fronteira com Moçambique e puseram-nos num mini autocarro, com 30 pessoas lá dentro, as malas no tejadilho, uns em pé porque não havia bancos para todos, tudo apertado, para fazermos 18 horas assim. E não queriam parar. Eu já não podia com aquilo e a meio da viagem disse que tínhamos de parar numa cidade qualquer. Paramos, uns foram dormir a casa de umas pessoas, outros num hotel, em tudo o que se pudesse arranjar, porque eu já não conseguia andar mais. Era de noite, as estradas sem luzes, os animais a passar à frente. Era completamente de loucos viajar àquelas horas e por aquelas estradas. No dia seguinte, lá fomos, e chegamos a um campo daqueles tipo ervados, sem as mínimas condições para treinar e quando vamos para entrar no campo, o autocarro começa a fazer muitas manobras. Que tipo de manobras? Primeiro fez as manobras para entrar e quando abrem o portão vejo que aquilo era enorme, tinha uma pista de atletismo em terra à volta do campo e o autocarro começou a dar voltas à pista, em marcha atrás. Dá duas voltas de marcha atrás e depois não queriam deixar sair ninguém antes do senhor do vudu chegar, com a sua malinha; senão dava azar [risos]. Imagine, nós, dentro do autocarro a fazer voltas de marcha atrás, sem ar condicionado, uma poeirada enorme que lá dentro não se podia respirar quase. E o senhor do vudu o que fez? Antes disso, dei um pontapé na porta, saí lá de dentro, uns saíram também, outros ficaram, até que chegou o senhor do vudu e benzeu o autocarro. Entretanto, acabamos por perder 1-0, mas pronto. Que a bola não entrava, não entrava. Agora, se fui eu por ter saído mais cedo [risos]. Mas histórias na cidade, então... o jogador Shengo o diretor-desportivo, Eduardo e o seu adjunto Otieno, do African Lyon D.R. Conte lá mais uma. Eles tiravam as tampas dos esgotos, principalmente junto a restaurantes, para as pessoas caírem com o pneu do carro lá dentro, para depois eles irem dar uma de bons amigos e retirar o carro; era para receberem uma gratificação. Como eu ia muitas vezes ao mesmo restaurante, apercebi-me e eles já riam quando eu estacionava o carro. Nunca caí, porque vi outros a cair, senão também caia [risos]. Foi sozinho, ou tinha levado equipa técnica? Era eu e os locais. Por sorte tive um adjunto queniano que era uma pessoa incrível. Comecei por viver em hotéis, mas depois fomos para uma casa, eu e a Filipa, que foi para lá viver comigo. Ela gostou de viver na Tanzânia? Adorou, porque vivíamos na zona das embaixadas, dos hotéis e das praias boas, onde se apanham uns barcos para ir às ilhas. Ali vive-se muito, muito bem. Depois há uma ponte, que quando se passa para o outro lado, apesar de ser uma cidade segura, aí começa um pouco daquilo que é a verdadeira África. A ponte é que faz a diferença. Eu muitas vezes ia por fora da estrada, passava a ponte, dizia adeus ao polícia e ele mandava parar do outro lado. Dava-lhe dinheiro todos os dias para ele carregar o telemóvel, e eu não perdia ali muito tempo no trânsito. Tinha sempre esses truques com eles para me desenrascar. O que fazia a sua mulher durante o dia? Ficava em casa. Primeiro o dono ofereceu-nos uma casa dele, que ele não ocupava. Só que era uma casa enorme, só a casa de banho era maior que o meu apartamento em Lisboa, e resolvemos ir para um apartamento num condomínio fechado, com piscina, em frente à praia. A minha mulher ficava em casa, ia à piscina, ao ginásio, estava sempre por ali. Eu treinava de manhã muito cedo e acabava por ficar com ela o resto do dia. Ao final do dia íamos a uma zona que tinha uma esplanada muito boa, em cima da água. Com a mulher na Tanzânia D.R. Como era o futebol? Há dois ou três clubes que têm muitos adeptos, o Semba e o Yanga. O estádio enche quando se joga com eles. O estádio principal é bom, porque quase ninguém joga lá, é onde joga a seleção. Tem outro ao lado, sintético, que era onde fazíamos os jogos. Os jogadores têm muita qualidade técnica, são rápidos, são cumpridores, porque veem aquilo como o maior escape deles para conseguir fazer dinheiro, isso faz deles bastante profissionais. Mas tive também histórias menos boas. Então? Apanhei malária, sofri bastante durante três, quatro dias. Tínhamos de viver com essa realidade muitas vezes, com os jogadores. Eles desapareciam durante uns dias porque apanhavam malária. É uma coisa muito constante e normal, temos de aprender a lidar com isso. Depois, é habituar-nos ao povo. Sabermos que se pedimos uma coisa, podem esquecer-se. Mas é um povo muito animado, gosta muito de festas, está sempre contente, como eles dizem: "Hakuna Matata". É um país com umas experiências incríveis, bom para fazer safaris e aproveitei isso tudo também. Esteve na Tanzânia oito meses. Veio embora porquê? Por causa da situação que falei antes. Começou a haver alguns problemas, cheguei a ter jogadores que não tinham alimentação e vinham ter comigo pedir ajuda; não davam condições aos jogadores, aquilo que era o tal centro de estágio acabou por nunca ser feito. Eu dava-me muito bem com o dono do clube. A outra pessoa, que era como se fosse o presidente, e ele, eram amigos de infância e como comecei a ter diferenças de ideias com um deles, acabamos por falar e achamos melhor eu ir à minha vida e ele gerir o clube como ele quisesse. Eduardo Almeida durante um treino da Naval, onde foi adjunto de Mozer D.R. Veio para Portugal sem nada e vai parar ao Real de Massamá. Como? Aí voltei novamente a ser adjunto, mas do Amaral. Ele é muito amigo do Valido e quando estávamos no Cacém encontrávamo-nos todos muitas vezes. Ficamos amigos, o Amaral foi para o Real e perguntou-me se estava interessado em ir com ele. Como estava sem trabalhar, é sempre mais uma pessoa com quem se aprende, ainda por cima ele tinha experiência como jogador. Mas disse-lhe que ia continuar à procura de ser treinador principal. Estivemos lá seis meses. O que correu mal? O Amaral é uma pessoa também muito reta. Alguém que estava connosco na mesma equipa técnica, falou com ele, perguntou-lhe porque é que ele não pedia a demissão, eu disse-lhe para ele não o fazer. Ele acabou por fazer, o presidente perguntou-me se eu queria ficar, eu respondi, nunca, porque era amigo dele e tinha ido com ele; E afinal, uma das pessoas que o incentivou a pedir a demissão, acabou por ficar lá como treinador. Seguiu-se a Naval, também como adjunto, dessa vez do Mozer? Sim, o Mozer dava-se muito com o mister Jesualdo e com o engenheiro Jorge Vargas, e foi ele que me indicou ao Mozer para ser adjunto dele. Ficamos lá até final da época. Foi a sua primeira experiência na I Liga. Foi. Foi bastante positivo para conhecer o nível, outra realidade completamente diferente. Em termos daquilo que é o jogo, os jogadores, são muito mais profissionais; mas naquilo que é o treino e o dia a dia não diferia muito daquilo que eu tentava fazer nos clubes por onde passei, apenas com as diferenças naquilo que é a qualidade das estruturas, dos próprios jogadores. Em 2012/13, Eduardo foi treinar o Atlético Reguengos D.R. O que mais o surpreendeu na I Liga? Sinceramente, como eu seguia a I Liga e tinha muitos amigos que jogavam na I Liga, não achei assim nada de surpreendente. Mas aprende-se sempre, claro. Por exemplo, um dos capítulos que aprendi na Naval, foi a parte dos departamentos médicos, que já era muito evoluído. O Luís Pinto estava à frente dessa área, ele depois acabou por ir para o FC Porto e para o Valência. Tive a sorte de conhecer nessa área uma pessoa muito, muito boa. E outros departamentos, como a visualização, que hoje já é uma coisa normal, mas na altura fui absorvendo essas coisas que me faltavam. Passou depois pelo Olímpico do Montijo. Sim, como treinador principal. Creio que estive lá um mês. Quando me colocaram lá, as pessoas confundiram as coisas entre colocar-me lá e quererem alguns favores depois e eu não o fiz. Foi um empresário que o colocou no clube? Podemos considerar que sim. Mas é uma história sobre a qual prefiro não falar muito. Depois fui para o Atlético de Reguengos, através de dois jogadores que tinham sido meus. Foram eles que me indicaram ao Pedro Marques, o diretor-desportivo, que me convidou. Fizemos umas parcerias e trouxemos jogadores da Tanzânia, do Canadá, da Malásia. Foi uma experiência engraçada, que correu muito bem. Até que fui convidado para ir para a Malásia. Continuava sem empresário? Nunca tive empresário. Tive muitas pessoas a dizer que eu tinha muito potencial e a prometer isto e aquilo, mas o retorno foi sempre pouco. Mas a Malásia foi com um empresário, sim, porque eu tinha trazido um jogador de lá, para valorizar. Ele passou informações para lá e foram elas que me levaram para a Malásia, com um empresário. No Reguengos, o salário não dava para ser profissional. Mantinha-me com uma parte do dinheiro que ganhei na Naval, mas esse dinheiro estava a acabar e eu ia ser pai. É aí que nasce o meu primeiro filho, o Diogo. Nasceu em 2013. Em 2013, o treinador português foi treinar o PBDKT T-Team da Malásia D.R. Assistiu ao parto? Assisti. Quer dizer, não assisti muito bem, andei num entra e sai porque estavam a telefonar-me precisamente da Malásia para acertar as coisas e eu dizia à minha mulher: “Espera aí que eu vou ali falar um bocadinho mais e já cá venho outra vez.” Passei o tempo nisto, a abrir e fechar a porta. Assim que o Diogo pôde voar eles foram ter comigo. Foi para um clube chamado PBDKT T-Team? Sim. Fui com dois objetivos: abrir umas escolas de formação no clube, que ainda hoje existem, são os T-Titans; e ser treinador principal. Quando lá cheguei, comecei a fazer as escolinhas e havia um treinador principal, mas já me tinham dito que estavam à espera que ele perdesse para o mandar embora e pôr-me como treinador principal. Assim foi. Comecei com as escolinhas e passado pouco tempo o treinador foi embora e subi eu. Que tal o jogador malaio? O jogador da Malásia já é um jogador taticamente um bocadinho mais evoluído, mas ainda também naquela altura ficava muito aquém daquilo que era o futebol português. E tinha ainda coisas como, iam de mota para o treino, não havia cuidado com a alimentação. Mas treinavam bem. Isso obrigava a muitas alterações no seu plano de treino? Às vezes temos de recuar um pouco para aquilo que é um futebol mais de ensinamento dos princípios, para podermos fazer alguma evolução. Mas gostei de viver lá. Vivíamos num resort, deram-nos condições muito boas. Aproveitávamos muito, quando havia folgas, para passear pelos países ali à volta. Com a mulher e o filho Diogo, recém nascido, na Malásia D.R. E histórias para contar, muitas? Uma das histórias tem a ver com o visto. Para fazer o visto, fui para Singapura e eles mandaram uma pessoa atrás de nós porque eu tinha jogo e tinham medo que eu fugisse [risos]. Enviaram um jornalista, eu encontrei-o lá, perguntei-lhe o que estava ali a fazer e como ele era meu amigo, acabou por me dizer a verdade. Eu tinha ganho um jogo, mas houve lá uma situação em que o presidente não concordou com o que eu fiz e eu disse-lhe que se ele quisesse eu ia embora. E quando fui tirar os vistos ele ficou com medo que eu fosse à minha vida e mandou o jornalista para me seguir. Mas eu disse-lhe: “Em vez de andares aí fugido, vamos mas é almoçar” [risos]. Porque não continuou na Malásia e como é que depois foi parar à Hungria, a um clube chamado Kozármisleny? Eu podia ter ficado na Malásia, mas queria voltar à Europa e achei que, por ali, podia ser bom para o currículo. Estou há muitos anos fora, mas sempre quis treinar um clube profissional em Portugal, apesar de perceber que cada vez está mais difícil entrar no meio, não sei bem porquê. Mas naquela altura pensei que podia ser uma boa aposta ir à Hungria, porque provavelmente a visibilidade seria maior e ficaria assim mais perto de voltar a Portugal. Um amigo, que também é agente, falou-me desse clube e fui. Era II Liga. Sim, era. Uma aldeia pequena, com pessoas super simpáticas, um presidente top. Posso dizer que, para mim, são pessoas muito afáveis, digam o que disserem. Quando cheguei lá houve pormenores impecáveis deles. Já tinham um berço e brinquedos para o meu filho e a cadeirinha no carro. Ficaram a ganhar pontos de vantagem. E depois, aquele clube era quase tudo família, era o irmão, o melhor amigo que era o meu adjunto, uma família na qual fui muito bem integrado. Após a Maásia, Eduardo foi treinar o Kozámisleny, da Húngria D.R. O futebol húngaro na II divisão tinha alguma qualidade? Sim, os jogadores têm qualidade. Está cada vez melhor e nota-se até pelos resultados que as seleções têm vindo a alcançar. É um futebol diferente, mais uma ideia do futebol nórdico. Temos que adaptar o próprio treino, porque uma coisa é chegarmos para treinar com 40° graus e outra é treinar com frio, como ali. Lembro-me do primeiro jogo amigável que fiz. Tinha acabado de nevar, eles limparam o campo e fiquei com uns muros de neve aí de uns dois metros de cada lado. Todos enrolados com cobertores. Sou sempre ativo e dava as instruções para dentro de campo, mas fazia-me de muito forte. Até aos joelhos, já não sentia nada. O presidente foi ter comigo uma ou duas vezes a perguntar se eu me estava a sentir bem, porque estava muito frio. O que é verdade é que minutos antes do intervalo tive de dizer-lhe que tinha de ir ao balneário, onde havia aquecimento, porque realmente já não conseguia mais. Voltei na segunda parte, com dores, mas, ao mesmo tempo, sem sentir nada dos joelhos para baixo [risos]. Eles estavam habituados e mesmo assim estavam cheios de frio e cheio de cobertores. Foi logo o primeiro choque que tive. Tinha assinado por uma época? Não, por seis meses. A Hungria tinha uma particularidade, perdendo iam todos comer juntos na mesma, parecia que não se passava nada. Eu dessa parte não gostava muito. Mas eles eram assim. Eu não gostava de perder, ficava fulo, mas o presidente no dia seguinte telefonava sempre para ir almoçar com ele. Fazia a sopa Goulash para mim e para a minha família. É como digo, era uma família, ele mal falava inglês e eu nada de húngaro, mas lá nos entendíamos. E o balneário, como era? O balneário era muito porreiro, até os jogadores eram uma família. Ele tratava os jogadores quase como se fossem filhos. Dava casa, comida, ordenado a todos. Eram profissionais. O técnico português recorda na entrevista um jogo na Húngria, em que teve de ir mais cedo para o balneário devido ao frio D.R. Não continuou porquê? Porque descemos. Não houve hipótese. Fizemos uma boa recuperação, mas acabámos por descer. Ele disse que eu não merecia a III divisão húngara porque o nível era muito baixo. Mas disse-me que se eu quisesse ficar, dava-me exatamente o mesmo que estava a ganhar ali na II. Disse logo que não tive culpa nenhuma na descida. A meio, supostamente ele ia reforçar a equipa, mas vendeu o guarda-redes, um avançado e um médio e não foi buscar. Ele tinha consciência. No fim pediu desculpa. Regressou à Tanzânia e aos African Lyons. Sim, porque o presidente que tinha comprado o clube conhecia-me e pediu para ir ajudá-los a organizar aquilo tudo outra vez. Como não tinha nada na altura e como gosto muito da Tanzânia, não hesitei. A minha mulher dessa vez ficou um pouco chateada comigo porque não a levei. Porquê? Porque ele pediu para ir ajudar o clube durante um mês ou dois. Ela ficou em Portugal com o miúdo, até porque a idade dele não permitia levar determinadas vacinas e se apanhasse algumas doenças, como malária, a medicação não podia ser dada, por isso não fazia sentido irem. Aquilo era mais umas férias a ajudar o clube do que outra coisa. Spoiler “Na Malásia os jogadores marcam casamento com a época a decorrer. Diziam-me: 'Ó mister, olhe que para o mês que vem caso, não conte comigo'” Eduardo Almeida está novamente na Indonésia, onde se prepara para voltar a treinar o Semen Padang. Nesta segunda parte do Casa às Costas, o treinador português fala-nos das duas experiências no Laos, Malásia, Tailândia e Indonésia, além das passagens por clubes portugueses como o Pinhalnovense e o Angrense. Revela que jantou com Xanana Gusmão e confessa que gostava de ter uma oportunidade maior no futebol português, mas que parece cada vez mais difícil Após treinar o African Lyon, da Tanzânia, foi para Laos, em 2015, país de onde não se ouve falar sobre futebol. Como é o futebol no Laos? É mau [risos]. O Laos aconteceu através do Kaz Patafta, um australiano que esteve no Benfica há muitos anos. Ele falou com o presidente do Lane Xang Intra, que me convidou. Tinha uma grande ideia: fazer o Chelsea do Laos e da Ásia. As condições eram boas, o campo onde treinávamos era espetacular. Tudo novo, tudo impecável. Mas o campeonato era fraco, apesar de quase todas as equipas já serem profissionais. O futebol é fraco em que aspeto? O Laos não tem formação, não tem muitos jogadores locais com qualidade. O poder financeiro das equipas para ir buscar estrangeiros, tirando a nossa, era baixo. Só havia duas equipas, o Laos Toyota e a nossa, com essa capacidade. Há poucas equipas, acho que eram oito só. Normalmente nesses países os estádios são do estado ou da câmara local. Os estádios em si têm qualidade, mas é difícil arranjar os campos de treino com qualidade. Foi sozinho para o Laos? Não, levei o Paulo Menezes como adjunto. Em 2015, Eduardo Almeda foi treinar o Lane Xang Intra, do Laos D.R. Como são as pessoas no Laos e como é o país? É muito parecido com a Tailândia. As pessoas são muito simpáticas também. O país é lindo, a comida é boa. A capital não tem muita população, tem uma vida tranquila, vive-se muito bem. Tem muito turismo mochileiro. Os jogadores locais não tinham nenhuma mais-valia? O problema desses países é todo o mesmo. Como não há formação, é um pouco daquilo que o jogador tem para dar. A formação é pouca e somos nós que temos de tentar evoluir. Mas o jogador do Laos é tecnicamente evoluído, é rápido, mas fisicamente é muito pequenino. Eles têm muito futebol de rua, têm falta é daquilo que é a tática, porque a formação é escassa ou mesmo inexistente. Também deve ter histórias para contar do Laos, não? Tenho uma história muito boa. Nós ficamos em 2.º porque o Laos Toyota pertencia ao Governo e à Toyota. Supostamente ganhava a equipa que tivesse mais golos marcados e nós estávamos com os mesmo pontos que eles, mas como havíamos perdido 2-1 com eles, trocaram a lei. Ou seja, o fator de desempate passou a ser o confronto direto [risos]. O regulamento foi trocado no final para serem eles os campeões. Fizeram aquilo porque havia uma taça realizada pela Toyota, onde iam estar os campeões do Laos e da Tailândia. Convinha ir lá o clube da Toyota e não outro [risos]. E é assim que fiquei vice-campeão. Veio embora porquê? Aquilo não dava mais. Depois o meu presidente tinha a ideia de no ano seguinte comprar outros quatro clubes. Quando ele me disse isto, comecei a achar tudo estranho e decidi ir à procura de outras coisas. Infelizmente, o clube fechou, ele teve sérios problemas com a justiça porque supostamente ninguém pode comprar quatro clubes. O técnico português ao centro (de camisola preta) num jantar com a sua equipa do Laos D.R. Depois do Laos, foi treinar para onde, em 2015/16? Fui para o Pinhalnovense. Foi através do Gonçalo, que estava lá a trabalhar com os chineses. O António Carraça estava como diretor, reuni-me com ele. Era Campeonato de Portugal. Estive lá época e meia. Que clube encontrou quando chegou? Quando entrei estavam em último, mas começámos a ganhar, a ter resultados e acabámos tranquilamente, nem precisámos dos últimos jogos para garantir a manutenção, que era o objetivo. Renovei. Durante as férias fui fazer de selecionador dos jogadores chineses do grupo. Fiz digressão pela China. Fizemos três jogos, para vender o jogador chinês em equipas na China. Estive lá duas ou três semanas, regressámos e começámos o campeonato. Depois começou a haver muita intervenção das empresas e das pessoas que punham os chineses no clube e fui à minha vida. Vim embora porque houve uma situação do género: “Podes ficar se aceitares isto, porque esta é a nossa ideia”. Só que essa não era a ideia que havíamos conversado e a partir daí não havia forma de continuar. Tenho a minha forma de trabalhar e os meus princípios. Alguma coisa especial que se recorde dessa passagem pelo Pinhalnovense? Tínhamos um grupo muito porreiro. E no final do jogo havia uns jogadores que iam sempre bater livres, um jogador brasileiro dizia que tinha aprendido a bater livres com o Ronaldinho. Tínhamos lá o Lourenço e o Neca, e principalmente o Lourenço, cada vez que o brasileiro batia um livre e a bola batia na barreira, ele dizia: “Deixem o miúdo treinar que ele um dia vai conseguir”. Era sempre uma risada. Em 2016, Eduardo Almeida treinou o Pinhalnovense D.R. Ainda em 2016/17 foi treinar o Angrense, dos Açores. Que tal? Fui mais uma vez com a indicação de alguém que tinha sido meu jogador. A Terceira é uma ilha pequena, mas espetacular. Vida tranquila com a mulher e com o filho. Estivemos lá seis meses, até final da época. Fomos até aos playoffs e perdemos aí. Entretanto, surgiu a hipótese de ir novamente para a Malásia e fui com a minha mulher já grávida do meu segundo filho, o Duarte. Foi treinar o Melaka United. Qual era o objetivo? O objetivo do primeiro ano era manter. Conseguimos e renovei. No segundo ano já levei o Gião e o Miguel. Depois houve eleições no país e, como os clubes são geridos pelo estado, o presidente e as pessoas do clube foram trocadas, porque não foi o seu partido que ganhou, e isso levou a que os treinadores também fossem na leva. Nunca dei tanta importância a eleições como àquelas no estado de Malaca, porque sabíamos que a nossa continuidade dependia se ganhava ou não o partido do nosso presidente. Ele até nos propôs um acordo para que recebêssemos tudo antes das eleições. Entretanto, o meu filho nasceu lá e não conseguimos vir logo embora. Porquê? Eles deram-nos uma certidão de nascimento do Duarte, mas não havia passaporte. Nós não temos embaixada lá e a embaixada da Tailândia não quis lá ir fazer o passaporte. O miúdo não podia sair do país. Tive sorte com o consulado de Singapura que nos ajudou, mas foi um processo que levou algum tempo, uns quatro ou cinco meses. O que fez durante esse período? Nada. Aproveitei para andar a passear no país. Em 2017, Eduardo assinou pelo Melaka United, da Malásia D.R. Ainda veio a Portugal ou foi direto treinar o Ubon UMT, da Tailândia, em 2018/19? Ainda venho a Portugal. Depois fui para a Tailândia com a família e com uma equipa técnica de três pessoas. A oferta foi boa. Era um clube de I Liga? Não, de II Liga, mas com aspirações à primeira. Era um contrato muito bom para toda a gente. Eles até podiam ter oferecido mais... Porque não pagaram [risos]. O que aconteceu? Meti processo, ganhámos, mas o clube, entretanto, abriu falência. Ficou tudo sem efeito. Esteve lá quanto tempo? Quatro meses. Os três que estive de estar sem receber para poder vir embora e ainda tentar receber algum dinheiro. A nossa sorte é que conseguimos um acordo de prémio de assinatura e foi isso que nos permitiu ter algum dinheiro à cabeça. Mas os dois anos de contrato ficaram todos lá. Hoje o clube nem sequer existe. A verdade é que não desistiu de tentar fazer carreira naquela zona porque logo a seguir foi para a Indonésia. Sim, para o Semen Padang. Surgiu através de um agente que tinha visto uns jogos meus em Malaca. Ainda sobre o Melaka não posso deixar de recordar o prazer que tive do Xanana Gusmão ter ido ver um jogo meu e ter-me convidado e à minha família para jantar com ele, na comunidade portuguesa, em Malaca. Uma pessoa de uma simplicidade espetacular. Eduardo foi convidado por Xanana Gusmão para almoçar com ele e a família, enquanto estava na Malásia D.R. Na Indonésia esteve em Padang até à pandemia? Sim, depois vim embora para Portugal, tinha feito só um jogo da segunda época. Passou confinamento em Portugal? Sim, aqui, na casa que fiz no terreno que é do meu pai. Ele é meu vizinho. Antes de voltar à Indonésia ainda foi a Omã? Não cheguei a ir. Quando vim de Padang, o campeonato parou, esteve um ano e tal cancelado. Eles não sabiam quando ia recomeçar, disseram-me que não podiam prometer nada e, entretanto, telefonaram-me do Omã, para eu ir para lá. Mandaram o contrato para assinar e fui dormir para voar no dia seguinte. A meio da noite telefona-me o presidente e diz-me para eu não ir porque o país tinha sido “fechado” devido à covid-19. As pessoas que entravam tinham de ficar 15 dias de quarentena e não sabiam se ia haver liga. E não houve. Perguntou-me o que eu ia fazer com o contrato, uma vez que estava assinado. Eu disse-lhe para não se preocupar, que a culpa não era dele e por isso o contrato ia ser arquivado. Nunca cheguei a ir a Omã. Ficou um ano parado? Fiquei. Depois é que surgiu o Arema FC, da Indonésia. Assinei só por um ano porque quando fui já tinha havido a Taça do Presidente, que tinha corrido mal para eles. Esse ano foi extraordinário. O Arema, apesar de ser um dos clubes com mais adeptos e dos fanáticos, por norma é uma equipa que anda ali pelo 10.º lugar. A estrutura era muito frágil, mas eles acham sempre que são os maiores e não é fácil lidar com isso. Consegui de alguma forma organizar o clube, com o dono, os primeiros três jogos não ganho, os adeptos queriam despedir-me. Falei com o dono. Ele disse-me que acreditava em mim. A partir daí fizemos 23 jogos sem perder e alcançámos a melhor classificação de sempre, o 4.º lugar na liga. Mas como eram tempos de covid, jogávamos sempre em bolha, estávamos sempre enfiados em hotéis. A família foi consigo? Sim. Pedi para darem um quarto a cada família, ou seja, um quarto onde os jogadores pudessem estar com as suas famílias, porque era difícil estarmos oito ou dez meses sozinhos, sem contactar com a família. Acho que isso ajudou a superar as expectativas, devido ao espírito de grupo que criámos. O treinador português durante uma entrevista na Malásia D.R. Na época seguinte não ficou até ao fim. Porquê? Na época seguinte, o Arema ficou grande, grande em tudo. Entrou um presidente e um manager novos, infelizmente o nosso manager anterior teve um problema de saúde. Eles são muito bons em tudo o que é Instagram e publicidade e marketing, mas futebol é difícil. Começaram a dizer aos adeptos que íamos ser campeões e que íamos ganhar tudo. Eu dizia-lhes para ter calma, que não era assim, que o clube ainda não estava preparado para isso. O que aconteceu depois? Vim de férias, o dono dizia que eles tinham ido buscar este e aquele jogador, que eu não queria. Começou a haver algumas divergências na forma de fazer a equipa, mas lá começámos. Eu sabia que o manager já não queria que eu tivesse renovado, mas na altura era impossível dizer que não, tendo em conta o facto do dono do clube querer e os resultados que fizemos na época anterior. Ganhámos a taça e automaticamente aquilo acalmou. Perdemos o primeiro jogo do campeonato e não perdemos mais nenhum, mas as coisas já tinham começado mal e há um jogo que empatámos, os adeptos à conta do que lhes estavam a oferecer, começaram a fazer muito barulho e conhecendo o clube como conhecia, fui ter com o manager: “Sei que não queres que eu esteja aqui, tenho dois anos de contrato, mas não é por isso que vamos chatear-nos. Fazemos as nossas contas e eu vou à minha vida”. O dono do clube não queria, mas eu disse que estava a ficar complicado e não queria ficar no meio da guerra deles. Eles colocaram-me a descansar. O que quer dizer com isso? O dono disse que eles iam pôr outro treinador e que íamos esperar para ver o que acontecia nos próximos três jogos. Lá gostam muito desse truque dos três jogos. Eu disse à família para vir para Portugal, mas ainda fiquei lá para resolver tudo. Infelizmente, e foi a pior coisa que podia ter acontecido, eles não ganham os três jogos e no último dos três dá-se a tragédia no jogo com o Persebaya onde morreram muitas pessoas. Eduardo Almeida (2.º à direita) com a sua equipa técnica do Ubon UMT, da Tailândia D.R. Onde estava quando tudo aconteceu? Estava em casa. O agente foi ter comigo, disse-me para ir ver o jogo porque podia ser que tivesse de voltar. Mas eu disse que não precisava de ver a equipa, que ia ficar em casa. Os jogos entre o Arema e o Persebaya sempre foram complicados, houve jogos em que tínhamos de ir dentro dos tanques da polícia para entrar no estádio. E, naquele jogo, por questões de segurança, nem deixaram entrar os adeptos do Persebaya. As altas expectativas daqueles adeptos e o não cumprimento das mesmas criou um tumulto, foram talvez pedir justificações, aquilo tornou-se ingovernável e foi uma desgraça. Assim que o jogo acabou, eu fui ao café. Os meus adjuntos estavam lá, mandei-lhes mensagens, disse para passarem por minha casa e eles nem me respondiam. Quando se apercebeu do que acontecera? Só quando recebi a mensagem de um dos meus adjuntos em que dizia que estavam a morrer pessoas ao lado dele e que era o caos. O que fez? Fiquei em casa, sempre à espera que eles viessem para cima para tentar perceber o que tinha acontecido. Eles chegaram já passava das cinco da manhã. Nessa noite já não falei com eles. No dia seguinte voei logo para Jacarta, até porque tive informações que a Liga ia terminar. E vim para Portugal. Mas voltou à Indonésia na época 2023/24, para treinar o RANS Nusantara. Sim. Era um clube que acabara de subir. Precisavam de organização e o dono do Arema indicou-me para gerir o clube. Fui e fizemos a equipa. Mas aconteceu basicamente a mesma história. Um presidente e um manager, do mesmo género dos outros, em que acham que as coisas são fáceis. O manager tinha sido jogador, queria voltar a jogar, mas sem treinar. Eu disse que não ia acontecer. Perdemos dois jogos, ele insistiu que queria voltar a jogar, eu disse: “OK. Faz o que tu quiseres, mas não é comigo. Fazemos as contas e vou embora”. Ele pôs lá outro treinador. Quando saí estávamos em 10.º lugar, com 33 pontos, faltavam-nos três ou quatro pontos, eles achavam que era fácil. Mas infelizmente para eles foram 10 derrotas seguidas. Em 2019 e até à pandemia, Eduardo Almeida treinou o Semen Padang, da Indonésia D.R. De lá para cá não surgiu mais nada? Tive algumas propostas, inclusive do Omã, mas achei que era cedo para aceitar e agora estou a negociar com o Semen Padang, da Indonésia. É um regresso. Tinha alguma expectativa de que pudesse surgir alguma coisa em Portugal, mas até agora nada. Da Malásia, o que tem para contar? Não me recordo de nada. Havia coisas que eram recorrentes, como uma vez em que o guarda-redes e o extremo marcaram casamento a três jornadas do fim e faltaram a esses jogos. Eles marcam os casamentos com o campeonato a decorrer. E têm de ir uma semana antes, porque praticamente casam-se duas vezes. Ficam uma semana na casa dos pais, depois casam, é assim qualquer coisa. Eu costumo ir aos casamentos lá, mas normalmente para os convidados é entrar, comer, fazer uma foto e vir embora. Não há aquela coisa de ir às cerimónias religiosas. Só no casamento da filha do dono do Arema é que fui convidado para ir à cerimónia. Até é uma história engraçada. Partilhe connosco. Eles muitas vezes chegam ao pé de nós e dizem: “Ó mister, olhe que para o mês que vem tenho o meu casamento. Não conte comigo”. Entretanto, um dos jogadores casou-se com a filha do dono do Arema. Ela trabalhava na liga e, por curiosidade, durante o fim de semana do casamento deles não havia jogos no calendário. A equipa foi toda ao casamento. Estávamos em Bali e fomos todos a Malang para o casamento e depois voltamos. Talvez tenha sido só uma coincidência não haver jogos naquele fim de semana [risos]. Em 2022, o treinador português conquistou a Taça do Presidente, da Indonésia, à frente do Arema FC D.R. Onde ganhou mais dinheiro? Na Indonésia. Deu para investiu? Sim, em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Não fiz muitas extravagâncias. Gosto de comer bem e gasto muito dinheiro em restaurantes. Talvez uma brincadeira no casino, em Macau, em que decidi apostar o dinheiro que ganhei num prémio de jogo para ver se aquilo realmente dobrava ou não. E perdi [risos]. Veio de mota para esta entrevista. Sempre foi motard? Comecei a andar na mota da minha irmã, com 10 anos. Tive mota aos 16 anos, aos 18 e aos 20 anos. Depois casei e deixei de ter, embora quando ia para fora pedia sempre uma mota, ou comprava uma, para me deslocar mais rápido. E ultimamente comprei duas motas. Tenho uma Ténéré e uma Harley Davidson. Tem algum hobby? Andar de mota, jogar à sueca, snooker, tudo o que seja jogos de cafés. É um homem de fé? Acredito na honestidade e no fazer bem. Acho que se o fizermos, as coisas regressam para nós, mas não sou praticante. O treinador português com os dois filhos, Diogo e Duarte D.R. Superstições? Algumas. Às vezes utilizo sempre o mesmo objeto no bolso. Ultimamente têm sido uns brinquedos que os meus filhos me deram e eu coloquei no bolso e como fui ganhando com eles, lá continuam, um fica no hotel e o outro no bolso. E ouço praticamente sempre as mesmas bandas antes de ir para o jogo. Quais são? Pearl Jam, Pink Floyd, Harry Cane e Iron Maiden. Tatuagens, tem? Não. Acompanha ou pratica outra modalidade? Ainda agora segui os Jogos Olímpicos. Se estiver a dar desporto, eu vejo. E comecei agora a praticar o desporto da moda, o padel. Estou a gostar. Qual a maior frustração que tem na carreira? Frustrações é sempre que se perde ou não se consegue os objetivos, mas às vezes não depende só de nós, nós tentamos tudo, mas é frustrante no final não conseguimos atingir os objetivos e deixar as pessoas felizes. A frustração é mesmo não fazer com que as pessoas fiquem contentes. E o maior arrependimento? Não tenho. Eduardo com o seu staff do Arema FC e a Taça do Presidente, da Indonésia D.R. O momento mais feliz na carreira? Ganhar a Taça como treinador principal, na Indonésia. O objetivo que está por cumprir? Treinar equipas ou ligas superiores. Se pudesse escolher, qual o clube que gostava de treinar? AC Milan. A liga inglesa talvez seja a mais agradável de ver, mas como gosto muito de tática, a liga que gosto mais é a italiana. Quem são os seus treinadores de referência? Sempre gostei muito de Fabio Capello e Trapattoni. Atualmente, Klopp, Ancelotti e, claro, José Mourinho. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Tenho muitas, desde jogadores a treinadores, a presidentes, é difícil dizer. Eduardo com a familia em Singapura D.R. Alcunha, tem ou teve? Sempre tive uma: Castanho. É a alcunha que me colocaram desde pequeno, na minha aldeia. Acho que era por ser muito pequenino, muito magrinho e como andava sempre sem t-shirt, na rua, ao sol, ficava com uma cor de pele muito escura. Um empregado do meu pai chamou-me "Castanho" e desde aí, dos meus nove anos, toda a gente começou a chamar-me assim na aldeia. Em Vila Franca, na escola, chamavam-me "Caipira" ou "Dudu". Há alguma regra, alguma lei de futebol alterava ou bania? Quando temos a certeza que é fora de jogo não se deve deixar ir até o fim, marcar golo e só depois anular. Quando não há dúvida nenhuma, acho que é um desperdício de tempo e um desgaste para o jogador. Qual o momento mais difícil que atravessou na vida? A morte da minha mãe, há sete anos. Estava no Angrense. Se não fosse treinador de futebol, o que teria sido? Sinceramente, não sei. Tem algum talento escondido? Acho que não. 1 Compartilhar este post Link para o post
Mwangaza Publicado 22 Setembro 2024 Citação de Lebohang, Em 15/09/2024 at 18:56: Mostrar conteúdo oculto “No Paços, durante um exercício, o José Mota às tantas diz: 'Isto está uma mer**, olhem para o Dani, parece uma bailarina de salto alto'” Dani Soares é o caçula de 10 irmãos e aos 10 anos já andava a dar pontapés na bola no clube da terra, o Barrosas. Deu nas vistas e acabou por fazer a formação no FC Vizela, de onde só saiu aos 24 anos, para jogar no Paços de Ferreira, o clube da cidade onde hoje vive com a mulher e os dois filhos. Após a estreia tardia na I Liga, bateu asas e voou até à Roménia, onde viveu os melhores anos da carreira. Foi campeão, ganhou taças, jogou na Liga dos Campeões (ganhou à Roma de Totti) e recorda aqui algumas histórias desses tempos Nasceu em Barrosas, Felgueiras. É filho e irmão de quem? A minha mãe foi sempre doméstica. O meu pai, que faleceu com 82 anos, teve uma empresa de construção civil. Tenho nove irmãos, eu sou o mais novo. Somos oito homens e duas raparigas. Elas passaram mal [risos]. Como foi a sua infância? Estava sempre na rua a jogar futebol. A minha mãe diz que às vezes era preciso irem buscar-me à uma ou duas da manhã, porque estava sempre a jogar na rua com os amigos. Gostava da escola? Gostava muito. Até ao 10.º ano era muito bom aluno. Depois, quando o futebol começou a ser mais profissional e já tinha uma noção que se calhar podia ser jogador profissional, passava mais tempo dentro do campo do que propriamente em casa a estudar. Ainda fiz o 11.º ano, mas depois passei a ter treinos bi-diários e já não dava mais para conciliar. Em casa torciam porque clube? Eu torcia pelo FC Porto. Os meus irmãos eram todos benfiquistas, eu era do contra [risos]. Quem eram os seus ídolos? O Ronaldo "Fenómeno" e o Fernando Redondo. Havia alguém na família no futebol? Tinha um irmão que jogava, mas não profissionalmente. Ele podia ter sido profissional, mas não lhe compensava na altura. Dani (4.º à esquerda em baixo) começou a jogar no Barrosas, com 10 anos D.R. Quando e como foi jogar pela primeira vez para um clube e qual foi? O primeiro foi o clube da terra, o Barrosas. Fui para lá logo que possível. Estive lá dos 10 anos aos 14 anos. Depois fui para o Vizela. Que memórias guarda dos anos no Barrosas? Os amigos de infância. Passámos de jogar na rua para jogar no campo. Lembro-me do primeiro jogo oficial, ganhámos 1-0 e fui quem marcou o golo. Ficou-me sempre na memória. E recordo-me dos treinadores, que se tornaram amigos pessoais. Tudo pessoal lá da terra, sem curso, sem instruções, mas gente de trabalho. Jogava em que posição nessa altura? Era médio direito. De que forma foi parar ao FC Vizela, com 14 anos? Havia sempre pessoas a observar. Os treinadores do Vizela vieram ver um jogo, gostaram e convidaram-me para ir para lá. Foram falar com os meus pais, para saber se deixavam. Os meus pais apoiaram-me sempre. Era o que eu quisesse, a decisão era minha. Como ia para os treinos? Antigamente havia umas carrinhas que passavam pelas terras, faziam a volta, a ir buscar jogadores. Notou diferenças do Barrosas para o Vizela? Um bocadinho, em Vizela começou a ser mais a sério e mais difícil, porque havia melhores jogadores, melhores treinadores, tudo melhor. Foi lá que subiu a sénior e estreou-se numa equipa principal? Foi. Tinha 19 anos. Mas já tinha treinado com a equipa principal antes. Normalmente à quinta-feira iam três, quatro jogadores treinar com os seniores e eu fazia parte desse lote. Dani Soares em criança, no casamento de uma irmã D.R. Quais eram as suas ambições? O seu grande sonho na altura? O primeiro objetivo era assinar pelo Vizela, fazer parte do plantel e a partir dali fazer uma carreira. Tinha o sonho de chegar à I Liga, de jogar na seleção, de ser profissional e jogar no Dragão, na Luz. Alguns concretizaram-se, outros não. Recorda-se do jogo de estreia pelo FC Vizela? O meu primeiro jogo foi contra o Taipas, entrei 10 minutos. Era II B. Quando passou de júnior para sénior e ficou na equipa principal deve ter notado grandes diferenças, uma vez que passou a lidar com homens feitos. Exatamente. Se calhar fisicamente os homens até nem eram melhores, mas sabiam meter melhor o corpo, tinham mais experiência e sabiam onde a bola ia cair. Nós, os miúdos, tínhamos uma vontade do caraças de correr para um lado e para o outro, enquanto os velhotes, entre aspas, só se posicionavam e com um rendimento muito superior [risos]. Fizeram-lhe muitas partidas? No primeiro ano fizeram algumas. Tinha de engraxar as botas aos mais velhos. Fizeram aquela partida do autocarro, em que diziam para sentar num determinado lugar e depois aparecia o “dono” do lugar e mandava-me embora. Esse tipo de coisas. Dani em criança D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite e os namoros mais sérios? As saídas começaram com aos 16/17 anos. Gostava de sair. No final do jogo davam-nos folga, podíamos fazer o que quiséssemos e eu gostava de sair. O namoro sério foi só aos 21 anos, com a minha atual esposa. Até lá foi só brincadeiras [risos]. Qual o valor do seu primeiro ordenado? Eram 85 contos, ou seja, são €375 agora, por aí. O que fez com esse dinheiro? Acho que comprei sapatilhas, eu adorava sapatilhas da Nike, comprei logo dois pares. Ainda vivia em casa dos pais? Sim, vivi em casa dos meus pais até aos 27 anos, só saí quando me casei. Com tantos irmãos, o que era mais difícil de lidar? Os horários. Se não chegasse a tempo na hora do almoço, já não comia as partes de que mais gostava. Mas os meus irmãos são mais velhos, quase todos já eram casados, não privei com todos ainda solteiros porque casavam bem cedo antigamente. Tenho sobrinhos da minha idade. Os mais próximos de mim é que me puxavam para jogar à bola e sair à noite com eles. O médio (2.º atrás à esquerda) nos juniores do FC Vizela D.R. Dos tempos de início de carreira no FC Vizela, quais foram os momentos mais marcantes? Fiz lá quatro amigos para a vida. Ainda hoje falamos e reunimo-nos no Natal, estamos sempre juntos. Saíamos todos com as namoradas, isso ficou para a vida. Quando cheguei aos seniores eles também me ajudaram, porque subiram dois, três anos antes de mim. E lembro-me do meu primeiro treinador, que me lançou, o Fernando Faria. Quando subi aos seniores ele era o diretor-desportivo, entretanto o treinador é despedido e ele assumiu a equipa. No momento que assumiu, convocou-me logo para o primeiro jogo, meteu-me aqueles 10 minutos e a partir dali joguei o ano todo. Também foi muito marcante a subida de divisão, da II B à II Liga. Foi o mais marcante. Lembro-me de me ter lesionado e do treinador pedir-me para jogar mesmo estando a mancar. Lesionou-se onde e como? No joelho, rotura dos cruzados. Foi sozinho. Fui buscar uma bola aos centrais e na rotação senti um estalo muito grande, dores e, pronto. Estava a recuperar da lesão e, como as coisas não corriam lá muito bem com a equipa, ele disse-me que se eu me sentisse a 50%, metia-me a jogar só para puxar os adeptos a virem ver os jogos. Fui jogar apenas com três meses e meio de recuperação, era pouquíssimo. Ganhámos o jogo, mas quase não toquei na bola. Estive o jogo todo a mancar. A verdade é que a partir dali nunca mais senti dores. Como foi parar ao Paços de Ferreira, aos 24 anos, em 2006/07? Já se falava da minha saída há algum tempo, só que o Vizela nunca me libertou. Antigamente tinha-se que pagar os direitos de formação até aos 24 anos. No momento em que fiz 24 anos o FC Vizela libertou-me. Os dirigentes do Paços deram uma quantidade em dinheiro ao Vizela e deixaram-me sair porque sabiam da minha vontade de ir para voos mais altos. Teve propostas de outros clubes? Tinha propostas do Beira-Mar e do Paços, mas o Paços chegou lá e comprou o passe. O médio chegou ao Cluj, da Roménia em 2006/07 D.R. O treinador era o José Mota, era um clube da I Liga. O choque foi grande? Não. Não havia muita diferença porque na II Liga já se trabalhava praticamente igual à I Liga. Com que opinião ficou de José Mota enquanto treinador? O José Mota é o meu pai do futebol. Foi ele que me trouxe para aqui, para Paços. O meu regresso a Portugal, depois de vários anos lá fora, também é ele o responsável. Do que mais se recorda dos seis meses que esteve no Paços de Ferreira? Recordo-me da vitória em Alvalade, golo do Ronny com a mão. Ele na conferência jurou a pé juntos que não tocou na bola com a mão, quando havia uma imagem a passar na SportTV em que se vê claramente que ele empurra a bola com a mão [risos]. Do seu jogo de estreia na I Liga, lembra-se? Perfeitamente, foi em Braga. A minha marcação era o João Vieira Pinto. Foi um batismo daqueles. E a titular. Perdemos 2-1, mas o golo do SC Braga aconteceu já depois dos 90 minutos e foi um autogolo. O Paços qualifica-se pela primeira vez para a Europa, nessa época. Após chegar à I Liga, as suas ambições cresceram? Claro. Chegas a um sítio e queres chegar a outro ainda melhor. Queria ir para um grande, uma equipa melhor. Dani (com Tony às cavalitas) nos festejos da conquista do campeonato pelo Cluj, em 2007/08 D.R. Quem foi o adversário que mais dores de cabeça lhe deu nessa altura? O Lucho Gonzalez. Vamos ao Dragão e tenho uma história sobre isso, por acaso. Conte. Durante o jogo, o FC Porto está melhor que nós, tem mais qualidade e, entretanto, faço uma falta no Lucho González. Como normal para mim, fui lá e pedi desculpa. No intervalo, o Mota deu-me uma dura a dizer que eu não tinha nada que pedir desculpa, que tinha de ser agressivo na mesma, e que ele não é mais do que ninguém. Por pedir desculpa levei uma dura [risos]. Mas o FC Porto nesse jogo rebentou connosco, levámos 4-1, mas podíamos ter levado cinco ou seis. Acho que foi o pior jogo que o Paços fez nesse ano, sem querer tirar mérito ao FC Porto. É no Paços que se fixa a médio defensivo? Não, ainda foi no Vizela. Quando fui para o Paços como estava lá o Paulo Sousa, que tinha uma qualidade grande, era o nº 6 e o capitão, eu jogava à frente dele. Tem mais alguma história para contar desses tempos em Paços? Recordo-me de um treino, em que há um exercício que não estava correr muito bem e o José Mota às tantas vira-se e diz: “Isto está uma m*rda, olhem para o Dani, parece uma bailarina de salto alto, vamos lá dar corda às sapatilhas”. E pronto, a partir dali em Paços passei a ser a bailarina de salto alto [risos]. O médio português (de frente à esquerda) jogou contra Totti da Roma, na fase de grupos da Liga dos Campeões, em 2008 D.R. Como foi parar à Roménia a seguir? O Cluj veio ver um jogador brasileiro chamado Didi, no jogo contra o Boavista, porque estavam interessados nele. Fazemos um jogaço em casa e eu fui no pacote. Vieram buscar o Didi e levaram-me também. Tinha empresário? Nunca tive empresário. Aceitou logo de bom grado ir para a Roménia? Sim. Se é para ir, siga. Já lá estavam três portugueses que eu conhecia, eles diziam-me maravilhas daquilo, por isso. Negociou algum valor? Quando me apresentaram a proposta disse logo que sim. Não houve negociações sequer. Foi ganhar quantas vezes mais? Três ou quatro, à vontade. Mas o que alicia nesses contratos é o prémio de assinatura, o dinheiro que vais receber à cabeça, ainda antes do primeiro ordenado. Já namorava a sua atual mulher nessa altura. Como e quando se conheceram? Conhecia-a nas festas Sebastianas de Freamunde. Andámos dois anos só a conversar. A Daniela é mais nova quatro anos. Eu tinha 21 anos e ela 17 quando nos conhecemos e ela ainda estudava. Qual foi a reação da Daniela quando lhe disse que ia para a Roménia? Não reagiu lá muito bem [risos]. Ainda por cima apanhei-a de surpresa, porque só lhe disse quando o negócio já estava concluído. Assinou por quanto tempo com o Cluj? Quatro anos e meio. Dani, que acaba de chutar a bola, no jogo com a Roma D.R. Como foi o primeiro impacto quando lá chegou? No início não foi nada fácil a adaptação. O estar longe da família, o viver sozinho, o não falar nada de inglês, o frio. Depois tornou-se mais fácil porque já lá estavam três portugueses: O Cadú, que agora é meu cunhado, o Manuel José e o Semedo. Foram os primeiros a chegar e ajudaram-me. O que fazia nos tempos livres? A maior parte das vezes ficávamos em casa a jogar PlayStation. Quase todos os portugueses viviam no mesmo prédio, então saltávamos de casa em casa. Do clube, o que achou? As infraestruturas, por exemplo, não eram grande coisa. Nos primeiros seis meses as condições não eram nada de especial. Em Portugal tínhamos melhor, mas depois construíram um estádio novo e com a ida à Champions fizeram daquilo um clube da elite. E o futebol romeno? Razoavelmente mais fraco que em Portugal, não tinha a mesma qualidade. Tivemos de nos adaptar. Como lhe disse, os primeiros seis meses foram difíceis, mas a partir dali foram os melhores anos da minha carreira. Chegou a ponderar vir embora nesses primeiros seis meses? Nunca cheguei a pensar vir embora, mas não estava fácil. Parecia que eu não estava com o à vontade que tinha cá. Mas depois tudo engrenou. Dani, com a bola, e Deco, então no Chelsea, num jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões, em 2008 D.R. O que achou dos romenos? Nos primeiros seis meses faziam-nos a vida um bocadinho difícil porque achavam que íamos para lá roubar-lhes o emprego. Não falavam connosco, se perguntávamos onde ficava isto ou aquilo, não diziam. Sofremos um bocadinho de xenofobia. Mas depois começaram a perceber que acrescentávamos à equipa e dávamos-lhes alguns prémios de vitória, porque se não fossemos nós, os estrangeiros… Então, a partir daí tornou-se uma família. Como são os adeptos? Malucos. A nossa equipa era como se fosse o Sporting ao nível de adeptos da cidade, não era a equipa que tinha mais massa associativa. Do que se recorda dos primeiros anos em Cluj? Vou-lhe contar a história do dia em que fomos campeões. O jogo do título foi contra a equipa da cidade, um dérbi. Se ganhássemos seríamos campeões, se não ganhássemos seria o Steaua de Bucareste. No dia desse jogo, como a rivalidade era muito grande, não fomos no nosso autocarro, fomos num autocarro descaracterizado em que ninguém via lá para dentro, já equipados e prontos para o jogo. No final, tivemos de vir de bunker, aqueles carros tipo tanque, em que só há uma janelinha para passar ar. Porquê? Porque fomos campeões, no campo do clube rival, eles não nos deixaram festejar lá, iam apedrejar e insultar. Para atravessar a cidade teve de ser num tanque desses [risos]. Viveu sempre sozinho na Roménia? Nos primeiros anos sim, porque a Daniela estava a tirar o curso de Psicologia. Quando ela terminou a licenciatura foi ter comigo. Penso que foi no 3.º ano. Casámos em 2009 e é nesse ano que ela vai para lá. A equipa do Cluj, em 2008. Dani é o 1.º atrás à esquerda D.R. Teve vários treinadores no Cluj. Recorda-se de algum em particular? Recordo-me de um que nos punha a treinar às sete da manhã. Fazíamos 12 km em jejum, a correr, mas em alta intensidade. Depois vínhamos tomar o pequeno-almoço, às oito, e treinávamos outra vez às 10h. Isto tudo sem bola, nem a víamos. Aqueles 12 km em jejum eram muito duros. Para ter noção, só três jogadores conseguiram chegar ao final da semana. De resto, toda a gente teve de desistir porque não conseguia mesmo. Eram 40 minutos em alta intensidade. Fez parte desses três que se aguentaram, ou não? Não [risos]. Quem conseguiu foi o Tony e dois romenos. Houve pessoal que logo no primeiro dia não se aguentou. O que quer dizer com não aguentar? Estávamos tão cansados que fazíamos lesões, roturas musculares. É que depois ainda treinávamos às quatro da tarde. Eram treinos tri-diários. Recordo-me também do nosso treinador do primeiro ano, por exemplo, que em caso de vitória, obrigava-nos a ir tomar um copo à noite com ele, depois do jogo. Mas, se perdêssemos, não podíamos sair de casa. Se ganhássemos ele reservava uma mesa numa discoteca e tínhamos de ir lá beber o copo com ele, depois quem quisesse vir embora, vinha, quem quisesse continuar, continuava. Lembrei-me de outro episódio engraçado. Força. Numa folga, eu o Cadú, o Semedo e o Manuel José saímos para jantar. O Cadú estava ao volante e há uma operação STOP da polícia. Como tínhamos bebido, o Cadú decidiu não parar. A polícia veio atrás de nós com as sirenes ligadas, mas conseguimos escapar. Entretanto, num jogo em que estou suspenso, fui para o estádio no carro do Cadú, mostro o cartão PARK ao polícia para me deixar entrar no portão do estádio e ele olhou para mim e diz: “Vou-te deixar entrar, mas na próxima vez que te fizer uma operação STOP é para parares”; “O carro não é meu, é do Cadú, senhor agente”; “Então ele que pare” [risos]. Das saídas à noite há várias. Conte lá mais uma. Uma vez fomos todos sair à noite a uma discoteca e bebemos todos uns copitos a mais e houve um jogador que quando saiu da discoteca começou a atirar o dinheiro todo que tinha no bolso para o rio que passava lá ao pé. Dizia ele que era para lhe dar sorte [risos]. Dani Soares, em Paços de Ferreira, na semana em que foi entrevistado por Tribuna FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU O que aconteceu no fim dos quatro anos e meio no Cluj? Apareceu uma proposta para ir para a Grécia e fui. Também não hesitou? Dessa vez hesitei porque gostava muito de estar em Cluj, foram anos maravilhosos e custou-me. Mas teve de ser. Porque foi para a Grécia? Primeiro porque não senti interesse da parte do Cluj em renovar. E o Iraklis queria mesmo muito que eu fosse para lá, mostraram muito interesse. Foi ganhar mais? Um pouco mais. Pelo mesmo valor ficava em Cluj. Estava numa equipa grande na Roménia e indo para a Grécia já sabia que ia lutar pela manutenção. Mostrar conteúdo oculto “Em Setúbal, entrámos num restaurante que só tinha uma mesa vaga. O dono não nos deixou sentar, disse que naquela mesa só se sentava o Toy” Dani Soares deixou de jogar futebol aos 39 anos, quando surgiu a pandemia. Após três meses sem sair de casa, acabou por descobrir uma nova paixão, o padel. Esta época voltou aos relvados, como adjunto, uma experiência que está a adorar, de tal maneira que já pensa em fazer mais níveis do curso de treinador. Nesta II parte do Casa às Costas, além do presente, falámos ainda sobre os anos na Grécia e do regresso a Portugal, onde passou por clubes como o V. Setúbal, FC Vizela, Lixa e Maia Lidador Foi para o Iraklis da Grécia em 2010/11. Como foram as primeiras impressões? Gostei mesmo muito da cidade, Salónica. As condições do clube eram muito boas também. O Iraklis tinha uma massa associativa incrível. Na Grécia são mesmo fanáticos. Eu jogava numa equipa que equivale a uma equipa mediana em Portugal e tínhamos 30.000, 40.000 adeptos no estádio em todos os jogos em casa. Cantavam desde o primeiro até ao último minuto. Se tivessem de nos assobiar ou criticar, só faziam isso no fim, durante o jogo era só incentivo. Se jogássemos mal, ou se achavam que o pessoal não estava a dar tudo, vinham cobrar-nos depois ao treino ou ao balneário mesmo. Mas durante o jogo, era só incentivar. Alguma vez teve uma invasão de balneário? Que me lembre, penso que não, mas recordo-me de uma, no autocarro. Não estavam a gostar da prestação de um colega. Estávamos a chegar ao centro de estágio, o motorista parou, deixou a porta aberta e eles entraram lá dentro. Começaram a falar grego, eu não percebia muito bem, mas via-se que estavam a cobrar junto de um jogador. Só que, quando eles entram, nunca sabes se é para ti, foi um susto. Após duas épocas e meia no Xanthi da Grécia, Dani Soares assinou pelo V. Setúbal, em 2013/14 D.R. O que achou do campeonato grego, comparativamente com o português e o romeno? É do género do português. O FC Porto, Benfica e Sporting são superiores a todas as equipas gregas, mas na média havia uma competitividade boa. Gostei muito de jogar na Grécia e os gregos são muito como os portugueses, acolhedores, são latinos. A comida é boa também. Porque só esteve uma época no Iraklis? Porque o clube entrou em insolvência e fiquei livre no final do primeiro ano. O clube acabou por fechar, o treinador foi para o Xanthi e convidou-me para ir com ele. Teve outras propostas? Não cheguei a ter porque foi tudo rápido. Assinei contrato no aeroporto. Não me deixaram sair da Grécia sem assinar o contrário. Mudou de cidade. Mudei. Xanthi é mesmo no interior, ficava a duas horas de carro de Salónica. É uma cidade pequena, colada à Turquia, é totalmente diferente. As pessoas são diferentes, são mais fechadas, a cidade é um bocadinho mais velha, não gostei tanto da cidade, mas gostei do clube. Dani (à direita) é luta com João Mário (Sporting), durante um jogo do campeonato, em 2015 CARLOS COSTA Já tinha sido pai? Sim, a primeira vez que fui pai ainda estava na Roménia. O Rodrigo não é romeno, mas foi feito lá. Já tem 14 anos, nasceu em 2010. Assistiu ao parto? Não. Não tive oportunidade de assistir a nenhum dos partos dos meus dois filhos. Das duas vezes estava ano estrangeiro e a minha mulher veio dar à luz em Portugal. A Rafaela nasceu em 2012, estava eu no Xanthi. Assinou quanto tempo pelo Xanthi? Dois anos. No fim queriam renovar, mas eu tinha a ideia de voltar a Portugal. Aí é que entra o José Mota outra vez. Porque queria voltar? Porque já eram sete anos fora do país, os meus filhos estavam a crescer, eu queria que estivessem na escola em Portugal e queria vê-los crescer. Se continuasse fora ia passar a ter de viver sozinho, porque eles tinham de ficar cá. Decidi voltar por isso. Só teve a proposta do V. Setúbal? Não, tive mais propostas. Estive em negociações com o Paços também e mais umas equipas, mas o Mota soube da minha vinda, ligou-me e convenceu-me a ir para o V. Setúbal. Os amigos Tony, Dani Soares, Cadú e Manuel José D.R. Como foi recebido em Setúbal? No início olharam um bocadinho com desconfiança, porque não me conheciam, não sabia quem era, onde joguei. Depois de começar a jogar, perceberam que a minha maneira de jogar é de dar tudo, de não dar um lance como perdido e os adeptos gostam disso. Depois foi fácil. E no balneário? Receberam-me bem. O jogador de futebol em geral é tudo gente boa. Foi viver para Setúbal com mulher e filhos? Sim. Adorei viver lá. É uma cidade espetacular, com o melhor peixe do país. Os vitorianos têm uma paixão enorme pelo Vitória. Por isso adorei. O José Mota não ficou até final da época, entretanto, veio José Couceiro. Muito diferentes? Totalmente diferentes, os dois muito bons, mas com ideias diferentes. Pode explicar melhor? O Mota é mais tradicional, à moda antiga, o Couceiro tinha outras ideias, trouxe bons reforços e fizemos uma boa época por causa disso. Depois do trabalho que fez, só não ficou porque não quis. Em 2016/17, o médio defensivo regressou ao FC. Vizela D.R. Notou muita diferença no futebol português, uma vez que tinha estado sete anos fora? Não. Agora está diferente, está muito mais rápido, com mais intensidade, mas quando voltei acho que estava igual a quando deixei. Na época seguinte veio o Domingos Paciência. Que tal? Também gostei. Em Portugal gostei de todos os treinadores. E todas as ideias são válidas para ganhar jogos. Qual dos treinadores com quem trabalhou sabia gerir melhor o balneário? Todos eles. Depois os resultados... Às vezes é uma bola que bate no poste e entra e outra que não entra, que faz a diferença. São esses pormenores. Porque hoje vais à I ou II Liga e todos trabalham da mesma maneira, o que varia são os intervenientes, aquele pormenor, aquela pontinha de sorte que também faz parte. O que mais o marcou nessas épocas em Setúbal? Do que gostei mesmo muito foi da massa associativa. Têm uma paixão pelo Vitória que já não se vê atualmente. Os adeptos normalmente têm duas equipas, uma delas é sempre um dos três grandes, ali no Vitória não senti isso, senti que só torciam pelo Vitória. Hoje em dia isso já não é normal a não ser com os dois Vitórias, o de Guimarães e o de Setúbal, as outras equipas normalmente têm adeptos que dividem com um dos três grandes. Recordo-me também do jogo da manutenção que fizemos com o Arouca, foi quase de vida ou morte, porque ou ganhávamos e ficávamos ou perdíamos e descíamos. Esses jogos ficam na memória. Foi na minha penúltima época, com o Bruno Ribeiro, em que ganhámos ao Arouca em casa e garantimos a manutenção. Algum episódio fora do futebol para contar desses tempos que passou em Setúbal? Um dia fomos a um restaurante lá, em Setúbal, e quando chegámos estava cheio, só tinha uma mesa vaga. Perguntámos ao dono do restaurante se podíamos ocupar a mesa e ele: “Não, não. Naquela mesa só se senta o Toy”. Ficamos perplexos e começamos a chamar àquele restaurante o restaurante do Toy [risos]. Não continuou no Vitória de Setúbal porquê? Estava ali um bocadinho, não era pegado com o presidente, mas… Houve dificuldades financeiras e tinha-se que assinar os pressupostos e ele estava sempre a mentir-nos e a enganar-nos e eu, como um dos capitães, fiquei ao lado da equipa, como é normal; o presidente não gostou muito e a relação se calhar deteriorou-se. No final do terceiro ano não houve sequer abordagens, se calhar foi por causa disso. A seguir só teve o interesse do Vizela? Não, surgiram mais propostas, mas como estava em fase descendente da carreira, queria acabar lá a carreira profissional porque foi em Vizela que comecei. Foi por aí. Em 2018/19, Dani (2º atrás à direita) jogou pelo Lixa D.R. Não correu bem, acabaram por descer de divisão. Não correu, não. Foi a única descida de divisão em toda a minha carreira. Começámos bem com o Ricardo Soares. Estávamos em 3.º quando ele saiu para a I Liga, veio o Rui Quinta depois e a seguir o Carlos Cunha, na fase final da época. Depois de estarmos em 3.º lugar acho que houve ali um deslumbramento, não sei. A II Liga é muito isso, quatro ou cinco pontos estás no top da Liga e duas ou três derrotas e vens cá para baixo. E depois de cair, sair dali é difícil. Foi o que nos aconteceu. Ainda tentámos tudo, foi até à última jornada, mas infelizmente não foi possível. Ainda tinha contrato? Sim, assinei por dois anos. Quando desceram ponderou abandonar o futebol? Não. Nunca pus isso em cima da mesa. Normalmente gosto de cumprir os contratos quando os assino. A não ser que apareçam propostas boas para ambas as partes. Como foi jogar no Campeonato de Portugal? Quando comecei a carreira foi nessa divisão. Na altura era II B, mas era mais ou menos o mesmo. Já conhecia o campeonato. Todas as divisões são difíceis. O pessoal é que pensa que é fácil jogar em qualquer divisão. Não é. Jogou pouco nessa época. Porquê? Estava lá o Everard, um grande jogador, eu também estava na fase descendente e o treinador optou por ele e eu tinha de respeitar. Mais mérito do jogador da posição do que propriamente demérito meu. Ele jogava e jogava bem, era mais novo, corria mais... Eu tinha 36 anos. Temos de ser realistas. Após deixar o futebol, Dani Soares dedicou-se ao Padel, como hobby D.R. Quando essa época terminou, pensou então em arrumar as chuteiras? Sim. Mas fui convidado e o bichinho falou mais alto [risos]. Ainda fui para a distrital três aninhos. Estive no Lixa e no Maia. E o que tem para contar desse período? Recordo-me de chegar à Lixa e já não estar habituado àqueles relvados, sintéticos, e balneários tão pequenos [risos]. Ainda cheguei a treinar uma ou outra vez no pelado. Os treinos eram à noite, no Lixa. E lembro-me também de uma vez, em dia de jogo, o treinador vem falar comigo e pergunta: “Dani, tu fumas?”; “Eu não mister”; “Ok. Pega lá €10 e compra tabaco para a malta que fuma, que eles não devem ter dinheiro e não quero que vos falte nada” [risos] O que fazia durante o dia? Felizmente investi em imóveis, a minha mulher abriu uma loja de roupa e estava entretido. O que o levou a colocar ponto final na carreira? O covid-19. Parou tudo e pronto. Custou-lhe muito a fase do confinamento? Não. Eu adoro estar em casa. Não me custou nada mesmo. Vivi três meses sem sair de casa. Só a minha mulher é que saía para ir buscar pão, a comida, o que fosse preciso. Durante esse período fiquei sempre em casa. Tenho espaço exterior, não me fazia falta ir à rua. Como se ocupava? A ver televisão. Tinha os meus filhos em casa, estávamos sempre a fazer joguinhos, a brincar com eles, dava uns mergulhos na piscina. O ex-jogador abriu um centro de Padel, em Paços de Ferreira D.R. Terminou a carreira com 39 anos. Já não lhe custou não voltar ao futebol? Não. Chegas a uma certa idade em que percebes que o teu corpo já não reage da mesma maneira que tu queres. É a hora exata. Já tinha pensado no que queria fazer pós-carreira? Nunca tinha pensado. Mas depois investi numas instalações de padel, com um sócio, o “4 Padel”, em Paços de Ferreira, e o padel ajudou-me imenso a não sentir tanta falta do futebol. Hoje adoro jogar padel. Entretanto, neste momento sou treinador-adjunto do Cinfães. Estou a gostar muito da experiência. Achava que não tinha vocação ou paciência para voltar ao futebol e felizmente voltei esta época e estou mesmo a gostar. Já me fazia falta o cheirinho da relva. Ainda só tenho o nível II do curso de treinador e penso fazer o III e o IV. Com que objetivo? Chegar à I Liga, porque não? Neste momento só penso mesmo em ser adjunto, não penso em ser treinador principal. Mas o amanhã ninguém sabe. Onde ganhou mais dinheiro? O ordenado se calhar não foi o mais alto que tive, mas onde ganhei mais dinheiro foi em Cluj. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprar um relógio caro. Acredita em Deus? Já fui mais crente. Mas a propósito de igrejas, lembrei-me que na Roménia, nos dias dos jogos, como eles são tão crentes, o nosso passeio matinal era sempre ir à igreja. Só que, como eles são ortodoxos, aquilo não nos dizia grande coisa. Mas tínhamos de ir com eles. Superstições? Tinha de entrar sempre com o pé direito. E, quando ia para o estágio, se nesse fim de semana ganhasse, as sapatilhas que eu tinha usado, voltava a usar sempre até que o resultado não fosse a vitória Tatuagens, tem? Tenho só uma: o nome da minha mãe. Fiz na Roménia, devia ter uns 26/27 anos. Qual o maior arrependimento que tem na carreira? Ter ido jogar para fora tão cedo. E frustração? Ter descido com o Vizela, custou-me imenso. O momento mais feliz? Ter jogado a Champions League. O objetivo que ficou por cumprir? Jogar pela seleção nacional. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha? O polvo. Diziam que eu tinha muitos tentáculos, que recuperava muitas bolas. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Cadú, que é o meu cunhado, Manuel José. André Leão, Tony, Semedo. Dani na semana em que foi entrevistado para o Casa às Costas, de Tribuna FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU Alguma regra do futebol que se pudesse alterava, ou bania? Bania o VAR. Tira emoção ao futebol. O adepto agora nem sabe se pode festejar, ou não. O juiz de linha tem de tomar decisões, não faz muito sentido estar à espera do VAR. Qual o momento mais difícil que passou na vida? A morte do meu pai. Quem foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Totti. Fizemos seis jogos na Champions, na fase de grupos. Ganhámos na Roma e depois perdemos em casa com eles. Tem algum talento escondido? Jogar às cartas. Copas, sobretudo. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Gostaria de ser engenheiro, mas não sei se teria aptidão para isso. Era o sonho do meu pai, que eu fosse engenheiro civil, para lhe fazer os desenhos para as obras. O seu filho joga futebol? Joga. Revê-se nele? Um bocadinho. Pelo menos a vontade ele tem a mesma ou mais do que o pai tinha. Ele tem uma paixão enorme por futebol, mas não sei se tem muito jeito. Joga a avançado. Conheço o Dani do padel por acaso. Parece ser impecável por acaso. Onde ele costuma jogar pára lá Mário Sérgio, Vasco Seabra, Álvaro Pacheco e até o Abel quando cá está. Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 29 Setembro 2024 Spoiler “No Boavista às vezes um almoço virava jantar, íamos beber um copo, encontrávamos o mister Petit e ele: ‘Mais um, pago eu. Mas depois casa’” Zé Manuel, de 33 anos, conta nesta I parte do Casa às Costas como tudo começou, aos 10 anos, quando foi jogar futebol para o Nogueirense e como se tornou profissional do Merelinense. O avançado passou, entre outras, pelas mãos de Jorge Jesus no SC Braga, fez três épocas no Boavista, assinou pelo FC Porto, mas foi emprestado ao V. Setúbal e ao Wisla de Cracóvia. Entre vários pormenores e histórias nestes e outros clubes, lembra uma dura de JJ e a união do grupo axadrezado que passou da III divisão diretamente para a I Liga Nasceu em Nogueira, concelho de Braga. Comece por nos apresentar a família onde cresceu? Tenho dois irmãos e duas irmãs, eu sou o mais novo. O meu pai trabalhava na construção civil e a minha mãe era funcionária doméstica. Cresci em Nogueira, uma freguesia perto do antigo estádio do SC Braga, o 1.º Maio. Qual a primeira memória de criança que tem? De uma infância feliz, sempre rodeado de muitos amigos. Também tive a sorte de ter um irmão praticamente da mesma idade que eu, temos 11 meses de diferença. Estávamos sempre juntos, tinha sempre companhia em tudo. O que dizia querer ser quando fosse grande? Na rua onde cresci tive a felicidade de ter muitas crianças da minha idade, éramos umas 10, que estavam sempre a jogar à bola. Por isso, todos tínhamos o sonho de ser jogadores. Em casa torcia-se por que clube? Pelo Sporting. Quem eram os seus ídolos? Desde que me lembro de ver futebol e de acompanhar jogadores que o meu ídolo era o Fernando Torres. Gostava de ver os jogos dele. Zé Manuel em bebé D.R. Com que idade foi jogar para um clube pela primeira vez? Acabei por começar a jogar futebol relativamente tarde, com 10 anos, no Nogueirense. Nunca tive necessidade de ir para um clube antes. Nós éramos muitos na rua e jogávamos diariamente. Aquilo satisfazia-me. Mas o Nogueirense fez uma equipa e fomos todos para lá, aquela equipa era praticamente a minha turma [risos]. Quanto tempo esteve no Nogueirense? Antes de ser federado eu treinava numa equipa de futsal e tive de optar entre o futebol e o futsal e eu optei pelo futebol, no Nogueirense, onde estive um ano. Porquê apenas um ano? Porque tinha de me distanciar do meu irmão e dos meus amigos, estávamos a fazer muitas asneiras que passavam para o campo. Que tipo de asneiras? Uma vez, num jogo que estava muito renhido, estávamos a ganhar por 2-1 e, quando eles empatam, o jogador que fez o golo passou por mim a festejar efusivamente à minha volta e eu empurrei-o. O árbitro deu-me vermelho, mas depois veio o meu irmão e também armou confusão com o jogador e com o árbitro [risos]. Ele ficou suspenso alguns jogos e eu decidi que era melhor sair do clube, porque se eu era expulso, o meu irmão era expulso e vice-versa. Não podia ser. Eu próprio tive essa consciência. Por outro lado, já andava a ser observado por algumas equipas daqui, como o SC Braga, o Merelinense, e acabei por sair para o Merelinense, que já era campeonato nacional. Tinha 11 ou 12 anos e já jogava a ponta de lança. Como passou a ir para os treinos? Ia na carrinha do clube que apanhava alguns jogadores. Os seus pais nunca colocaram entraves ou fizeram exigências por causa da escola? Por acaso não, também não interferia com a escola, por isso. Zé Manuel (à direita) com o irmão Hugo, que é apenas 11 meses mais velho D.R. Gostava da escola? Não gostava, mas também não desgostava. Não era preciso a minha mãe andar em cima de mim para eu tirar as notas necessárias para passar, mas nunca fui um aluno brilhante. Gostava mais de estar no recreio, a jogar futebol, mas nunca dei grandes problemas. Fui sempre um aluno médio. Ficou no Merelinense até quando? Estive nos iniciados, juvenis e no primeiro ano de juniores já era para ir para o SC Braga, mas não quis, só fui para lá no segundo ano. Não quis vir logo para o SC Braga porquê? Porque o Merelinense também era I divisão e achei que devia continuar a jogar ali. Depois fui chamado à seleção nacional, nos juniores, e fui treinar ao Sporting também. Ainda estive lá umas duas semanas. Esteve essas duas semanas sempre na Academia? Sim. Custou-lhe ficar longe dos pais e irmãos? Custou muito. Tinha 16 ou 17 anos, era criança, nunca estivera fora da família. Nessa idade com o que sonhava? Via-me em grandes clubes, porque durante a minha formação fui sempre fazendo golos e por isso sobressaia. Tinha as expectativas muito altas. Foi chamado à seleção nacional com que idade e para fazer o quê? Fiz quatro ou cinco jogos amigáveis, nos sub-18, o selecionador era o Ilídio Vale. O que sentiu quando recebeu a primeira convocatória para ir a uma seleção? Na altura nem tinha muita noção, mas fiquei surpreendido, até porque depois disseram-me que nunca um jogador do Merelinense tinha ido à seleção. Fui o primeiro. O José Sá foi mais tarde. Claro que fiquei muito contente. Como era o ambiente na seleção? Era o que estava à espera. Agora ainda está melhor, mas na altura já tinha boas condições. As concentrações eram sempre no Jamor. Foi uma fase boa para um jogador como eu que não estava habituado. Eu treinava sempre em sintético, íamos à relva uma vez por semana e cheguei ali e tinha aqueles relvados, sempre top. Foi mudar de chip, porque os jogadores que estão nas seleções estão sempre mais próximos de assinar contratos profissionais. Fiquei a pensar nisso. Com os pais D.R. Mas não ficou no Sporting. Como correram aquelas duas semanas na Academia e que feedback lhe deram? No Sporting disseram que gostaram muito de mim e que só não ficava porque devia ter ido mais cedo, já era uma etapa da formação, o último ano de júnior, em que para ficar eu tinha de demonstrar uma diferença muito grande. Mas disseram que gostaram de mim e que se tivesse ido mais cedo ficavam comigo. Recorda-se do que sentiu na altura? Tristeza, frustração, revolta? Continuei o meu percurso, não fiquei muito afetado. Por acaso, reagi bem. Claro que gostaria de ter ficado, e era bom sinal. Mas, se calhar, por não pensar tanto na situação, não dei grande valor e continuei a fazer o meu trabalho. Voltei ao Merelinense, continuei a jogar, estava a fazer uma grande época e, entretanto, chegou a convocatória da seleção, onde encontrei jogadores do Sporting, com quem treinei, como o André Martins, o Diogo Amado, o Diogo Viana, o Pedro Mendes. No final da sua primeira época de júnior o SC Braga voltou à carga? Fiz muitos golos, quase 30 golos na I Divisão nacional de juniores e acabei a época a jogar no CNS [equivalente à atual Liga 3], pela equipa principal do Merelinense. No primeiro jogo fiz logo dois golos. No jogo seguinte, em casa, fiz outro golo e foi nessa semana que o SC Braga contratou-me. Falaram consigo diretamente? Não, acertaram com o clube e depois é que me chamaram ao SC Braga para assinar. Foi o seu primeiro contrato profissional. Qual era o valor do seu ordenado? Eram €1500 ou €1800. O que fez com o primeiro salário que ganhou? Não me recordo. Não devo ter feito grande coisa. Devo ter comprado alguma roupa ou um telemóvel. Continuava em casa dos meus pais. O avançado iniciou a carreira sénior no Merelinense D.R. Saídas à noite e namoros, já havia? Já. Nessa altura já saía à noite, mas sempre fui um jogador que, se jogasse no domingo, não saía. Às vezes tinha colegas que saíam antes dos jogos, mas nunca fiz isso. Fui sempre aquele que só se jogássemos ao sábado é que às vezes ia dar uma voltinha à noite. Também comecei a namorar cedo a minha atual mulher. Tinha uns 17 anos. Como se conheceram? Conheci a Vanessa na escola. Andámos sempre juntos na escola e começámos a namorar aos 17 anos. Estamos juntos até hoje. Somos casados e temos dois filhos. Entretanto, deixou de estudar? Por acaso não. No 2.º ou 3.º ano de sénior voltei ao Merelinense, quis ficar perto de casa, e não consegui entrar na universidade porque já tinham fechado as inscrições, mas entrei no ano zero de Serviço Jurídicos, para entrar na licenciatura de Solicitadoria, no ano seguinte. Porquê essa área? Porque a minha mulher, na altura namorada, queria entrar nesse curso e como não queria ir sozinha pediu para ir com ela. Ela depois acabou por fazer mesmo a licenciatura. Eu é que não. Zé com os quatro irmãos D.R. Assinou quanto tempo pelo SC Braga? Quatro anos. Fui para Braga onde fiz o 2.º ano de júnior e estreei-me na equipa A, com o mister Jorge Jesus, ainda como júnior. Recorda-se da primeira vez que foi treinar com a equipa principal? Não me recordo, mas durante o ano fui algumas vezes. E nos últimos três meses treinei sempre com a equipa principal, até tive de pedir autorização na escola, porque tinha de faltar às aulas. Como foi o contacto com Jorge Jesus? Foi bom. Ele tratava bem os miúdos. Mas levei uma ou outra dura [risos]. Porquê? Ele apresentava o treino que iam fazer, aos jogadores, no auditório. Mas os juniores não entravam no auditório. Ficávamos a aquecer numa sala ao lado, enquanto eles tinham a reunião. Fomos para o campo, era um exercício de finalização, eu estava na frente e ele tinha explicado o exercício, mas eu naturalmente não sabia o que ele queria porque não ouvi, não estava lá. Ele explicou lá dentro que o avançado tinha de devolver ao médio e o médio chutava de fora da área. A bola veio para mim e eu rodei e dei na baliza. Ele apitou: “Ó miúdo, vais mas é outra vez para a escola” e mais não sei quê [risos]. O César Peixoto acabou por vir à minha beira explicar-me o exercício. Depois correu bem. No final do treino, estávamos a fazer 11 para 11 e na última jogada vejo o médio com a bola, faço uma diagonal nas costas do central, ele mete-me a bola e marquei golo. O Jorge Jesus acabou logo a seguir o treino e deu-me moral: “Ó miúdo, isso é de craque, essa diagonal aí, isso é de craque.” Ou seja, também me deu moral nesse dia. Mas ele tem fama de ser chato com os jogadores, principalmente os mais novos. Não sentiu isso? É assim, quando errávamos um passe ou uma receção, às vezes podia dizer qualquer coisa, mas parar o treino para dar uma dura só mesmo dessa vez. Ele era obcecado no bom sentido e eu acho que um treinador tem de ser mesmo assim, eu gosto. Aprendi imenso naqueles três meses que estive com eles. Sobretudo a nível tático, quando estamos sem bola. Zé Manuel com a mulher, com quem começou a namorar aos 17 anos D.R. Disse que estreou-se na I Liga. Sim, no último jogo para o campeonato, no Dragão. Antes jogámos com o Benfica em casa e eu fui para o banco; depois, com o Belenenses fora, também fui para o banco. Eu ia estrear-me nesse jogo, mas ele falou comigo, explicou que ia meter outro jogador porque o jogo estava com uma goleada, mas aqueci muito tempo. E no último jogo estreei-me então contra o FC Porto. O FC Porto já era campeão, foi o jogo onde os jogadores do FC Porto já estavam com o cabelo pintado de azul e branco. Estreei-me a 10 minutos do final. Estava muito nervoso? Estava. Uma coisa é estrear na I Liga, o que já causa nervosismo, agora estrear no Dragão contra o FC Porto, campeão nacional, cheio de craques, com o estádio lotado, é de loucos. Do que se lembra desses 10 minutos? Primeiro, lembro-me de estar a chegar à zona de aquecimento e o Hulk receber uma bola à beira dos bancos, vai para o meio a driblar dois jogadores e chutou à baliza, parecia um míssil. O nosso guarda-redes, o Eduardo, meteu as mãos à bola, a bola foi para cima e eu pensei: “Fogo, se esta bola vai à baliza, fura-a.” Saiu com uma potência. O estádio foi ao rubro. Depois, ao entrar, há aquele nervosismo, mas com o decorrer do jogo vamos esquecendo. Nesses 10 minutos levei um pisão do Bruno Alves que me abriu o pulso [risos]. Então, o que aconteceu? Vou para dominar uma bola, ele mete o braço, eu caí no chão e ao apoiar a mão ele calcou-me com o piton de alumínio e abriu-me o pulso. São situações normais de jogo. As suas expectativas nessa altura deviam estar bem altas. As minhas expectativas eram ficar no SC Braga porque o mister Jorge Jesus até falou comigo, disse-me que contava que eu ficasse. Ele jogava com dois avançados e disse-me: “Quero dois avançados. Depois mais dois para competir com esses dois avançados e o meu quinto avançado é sempre um miúdo.” Na altura era o Orlando Sá. Só que, como houve umas lesões e ele nessa época apostou no Orlando Sá, o Orlando acabou por ser vendido. Então, disse-me que queria que eu ficasse nessa perspetiva de ser o quinto avançado, e que no decorrer da época, com lesões e baixas de forma, se calhar ainda podia fazer uns jogos, mas para não ter muita expectativa. Mas, nesse verão, o Jorge Jesus vai para o Benfica. Em 2013/14, Zé Manuel (no centro) foi jogar para o Boavista Rogerio Ferreira E veio o Domingos Paciência? Sim, que jogava só com um avançado e acabei por ser emprestado. É quando regressa ao Merelinense? É, fui eu que pedi, queria ficar perto de casa. Na altura eles queriam meter-me no Ribeirão, para onde foram alguns jogadores da formação do SC Braga emprestados, como o Pizzi, mas preferi ir para o Merelinense. Mas nessa época 2009/10 jogou muito pouco. Porquê? O treinador que foi para lá levou jogadores da confiança dele e eu não tinha maturidade para entender como as coisas funcionam. Se soubesse o que sei hoje se calhar não ia, porque nem falei com o treinador sobre o que ele pensava e quando cheguei ele já lá tinha jogadores da confiança dele. Só comecei a jogar quando esse treinador saiu. Entrou o Ricardo Martins e joguei até ao fim. Nesse período em que não jogou, foi-se muito abaixo? Naturalmente que fui um pouco porque tinha as expectativas muito altas, queria jogar. A meio até pedi para sair e ele não me deixou sair. Queria ir para onde? Ia para o Famalicão, com o Artur Jorge, mas o treinador não me deixou ir. Fui-me um pouco abaixo, mas veio felizmente o Ricardo Martins. O Merelinense estava na II B. A equipa era formada sobretudo por homens já feitos que tinham outros empregos e treinavam à noite. Foi uma nova adaptação? Sim, sim. Foi quando entrei no ano zero da faculdade. Se calhar, devia ter investido mais no futebol e não tinha ido estudar. Zé Manuel esteve três épocas no Boavista Gualter Fatia Na época seguinte percebeu que não tinha hipótese de voltar ao SC Braga? Naturalmente o tempo vai passando e as expectativas vão baixando. Fui ganhando mais maturidade, percebi que afinal não ia ser assim tão fácil, porque no CNS também têm qualidade e não estava a conseguir afirmar-me. No terceiro ano de contrato, o SC Braga fez um protocolo com o Vizela e fui para o Vizela emprestado. Correu-lhe bem? Sim. No segundo ano do Merelinense eu jogava descaído para as faixas e no Vizela já jogava na frente, a ponta de lança e acabei por fazer uma grande época. Fiz 16 golos, voltei a ganhar esperança. Quando foi para Vizela, continuou a viver em casa dos pais? Sim. Íamos uns 10 jogadores daqui de SC Braga, todos juntos em dois carros. Depois o SC Braga fez a equipa B e fui para a equipa B. Mas se calhar arrependo-me de ter renovado com o SC Braga, porque eu estava sem contrato e na altura falaram do Gil Vicente e do Estoril, que me queriam. Mas o SC Braga também me queria na equipa B, era o primeiro ano dessa equipa e continuei no SC Braga pela perspetiva da equipa B estar próximo da equipa A. Quem teve como treinador na equipa B? O Artur Jorge. Com o António Conceição só estive uma ou duas semanas porque, entretanto, saí. Com que opinião ficou do Artur Jorge? Bom treinador, só que era o contexto de equipa B. Treinávamos a semana, mas quem jogava eram os jogadores em quem eles tinham mais expectativas e que baixavam da equipa A. Baixavam o Yazalde, um mexicano que também treinava na equipa A. Baixavam à equipa B só para jogar. Era um bocado desmotivador, estar a treinar a semana e depois olhar para a convocatória e ver 14 jogadores. Nós já sabíamos que iam baixar uma carrada de jogadores que tinham de jogar. No fundo, era isso. Quando abriu o mercado eu disse que queria sair, tinha o Tondela para ir. O avançado na semana em que foi entrevistado para a Tribuna RUI DUARTE SILVA Tinha empresário? Tinha, era o Pedro Cordeiro. Fui falar com eles para sair, mas não me deixaram sair. Disseram que não queriam que eu saísse. Que iam precisar de jogadores. No último dia do mercado, chamaram-me ao estádio, a mim e a mais dois ou três, para dizer que afinal foram buscar não sei quem e que era para sair. Aí respondi: “Eu tinha clube e agora já não tenho. É o último dia do mercado.” Houve uma confusão, pelo que percebi eles já tinham clubes definidos para eu ir. O CD Cinfães? Exatamente. Não gostou da ideia? Na altura não, até me chateei com os diretores porque a meio do mês eu tinha o Tondela da II Liga para ir e não me deixaram. E quando me disseram que tinha de sair, as alternativas que me apresentaram era tudo CNS, a divisão abaixo. Fiquei chateado, claro. Não deixei de conhecer pessoas com quem ainda hoje falo e foi um clube de que gostei muito. Mas na altura foi difícil ir para Cinfães. Cheguei a dizer a algumas pessoas próximas que ia estudar e que se calhar ia desistir do futebol. Não queria continuar porque via que ia andar ali no CNS e que isso não me ia motivar. Entretanto, acabou por ir para o Boavista. Como? Ligou-me o Rui Borges, que tinha estado comigo no Vizela. Era o diretor do Boavista, mostrou-me o estádio todo, o projeto, notava-se perfeitamente que preparou a reunião. “Zé, este ano é difícil para o Boavista porque vamos estar no CNS, mas vai sair a decisão da Liga, nós estamos convictos que vamos subir e vamos precisar de uma base para a I Liga, vamos sempre aproveitar jogadores dessa base e eu acredito em ti.” E fui nessa perspetiva. Assinei por um ano. A ganhar menos do que no SC Braga? Sim. Até tinha propostas mais altas esse ano, de clubes do CNS. Fui mesmo pelo projeto devido ao Rui Borges. O treinador era o Petit, que deixou de ser jogador. Gostou dele como treinador? Gostei muito logo na primeira impressão. Foi jogador, acabara de se retirar e sabe como os jogadores pensam, sabe estar do lado do jogador. Trabalhei com ele três anos e foi sempre mostrando evolução, foi sempre em crescimento, por isso é que aguentámos bem, por causa do mister Petit. Em 2016/17 Zé Manuel assinou pelo FC Porto e foi emprestado ao V. Setúbal Gualter Fatia O Boavista é um clube muito diferente do SC Braga? É diferente, até porque quando cheguei o Boavista estava no CNS enquanto o SC Braga estava na I Liga. Mas senti logo uma grandeza enorme que não sei explicar. É mesmo muito grande. É um clube de I Liga. Ir a qualquer campo no CNS e ver o estádio só com adeptos do Boavista ou com muito mais gente do Boavista do que dos adversários, era impressionante. Era assim em todos os campos. Lembro-me de irmos jogar ao Coimbrões, o estádio só tem cimento de lado, onde as pessoas estão de pé, e lembro-me de olhar e a todo o comprimento do campo era só adeptos do Boavista. Ninguém fazia isso no CNS. Foi um ano que me deu muito gozo jogar, voltei a ter ânimo e a acreditar. Foi muito pela envolvência dos jogos, parecia que jogávamos sempre em casa. Como foi passar do CNS para a I Liga. A diferença é enorme? Sem dúvida. Só os campos são completamente diferentes. Os treinos durante a semana, tudo é diferente. A intensidade do treino e do jogo é maior. Os relvados, os estádios, toda a envolvência, a qualidade dos jogadores, não tem nada a ver. Dos três anos que passou no Boavista, o que mais o marcou? Foi mesmo isso, o facto de irmos jogar fora e ter sempre muitos adeptos. E histórias para contar? Do Boavista não tenho assim grandes histórias. Recordo-me da união do nosso grupo, tínhamos almoços de equipa que se prolongavam bastante, algumas vezes até viravam jantar e ainda íamos, às vezes, beber um copo a seguir, por vezes apanhávamos o nosso treinador o Petit e ele ficava lá connosco. Tínhamos uma grande relação. Ele ainda dizia: “Mais um copo, pago eu. Mas depois, casa. E amanhã, se não derem o litro, estão tramados comigo.” Era um grande grupo mesmo. O avançado (à direita) em ação pelo V. Setúbal NurPhoto O que aconteceu no final dos três anos no Boavista? O contrato era baixo, era o mínimo da I Liga. Eles diziam que se jogássemos o contrato ia ser renovado. Eu estava a jogar, e nada. Não me chamavam para renovar. Novembro, dezembro e nada. Janeiro, fevereiro, nada. Acabei por fazer boa época nesse ano de estreia, garantimos a manutenção a três jogos do fim e fiz seis ou sete golos, era dos jogadores mais utilizados. Fomos de férias e eles continuavam sem me dizer nada. Eu ia entrar em final de contrato, o meu último ano de contrato. Começou a ficar preocupado? Comecei. Voltámos e logo no primeiro dia de treino o Petit chamou-me, e ao Afonso Figueiredo, e disse: “Falei com a direção, disse-lhes que foram jogadores importantes na época passada e que este ano vão ser jogadores base, cruciais, fiquem descansados, já disse à direção que é para renovar-vos o contrato. Confio em vocês.” Dissemos que queríamos renovar. Entretanto, passa um mês, dois e nada. Já a época tinha começado e ninguém nos chamava. E ninguém nos chamou. Chegámos a janeiro, já em final de contrato, comecei a receber propostas com valores muito mais altos. Eu sempre a esperar pelo Boavista, sempre a esperar. Até que pensei, tenho de optar. De onde eram as propostas? Tinha uma da Rússia, outra da Grécia e uma do FC Porto. Assinei em março o pré-acordo com o FC Porto. O Boavista chamou-nos no final da época, quando garantimos a manutenção, para aí a duas jornadas do fim. Só que já não dava para eu assinar, porque já tinha um pré-acordo de quatro épocas com o FC Porto. Zé Manuel fotografado para a Tribuna, em Braga RUI DUARTE SILVA Assinou com o FC Porto na perspetiva de ir para a equipa principal ou sabia que era para ser emprestado? Era para ser emprestado no primeiro ano e depois, consoante o meu trabalho, poderia ser jogador na equipa do FC Porto. O interesse do FC Porto em si surgiu da parte de quem? Do Antero Henrique, porque nesse ano o FC Porto teve vários treinadores e o novo ia ser o Nuno Espírito Santo. Onde fez essa pré-época? Já em Setúbal? Não, fiz a pré-época no FC Porto e segui para Setúbal na terceira semana. Ainda esteve com o Nuno Espírito Santo. O que achou dele? Brutal. Umas condições mesmo boas, o Boavista na altura não tinha os campos que tem hoje. O Nuno Espírito Santo era muito exigente. E bem. Treinos muito puxados, mesmo para levar ao limite e a que não estava habituado, é a realidade. Quando lhe falaram no empréstimo ao V. Setúbal ficou contente? Por acaso torci um bocado o nariz porque queria ir para fora. Porquê? Queria experimentar outro campeonato. Também tinha tido propostas para sair e estava com aquela ideia de sair para outro campeonato, mas apareceu o Vitória, o mister José Couceiro ligou-me e convenceu-me. Como o convenceu? Falou-me da equipa que queria. Ele queria dois ou três jogadores do FC Porto, dois ou três do Sporting e dois ou três do Benfica e senti que íamos ficar com uma equipa forte. No dia do casamento com Vanessa D.R. Foi viver sozinho para Setúbal? Não, fui com a minha mulher. Já vivíamos juntos desde o meu 2.º ano no Boavista. Como foi a experiência em Setúbal? Gostei muito. Tinha um grande grupo, adorámos a cidade. O Vitória não tinha muitas condições. Treinávamos sempre no estádio, não tinha relvados de treino, mas gostei muito do clube, das pessoas. E do José Couceiro como treinador? Também gostei bastante, acabámos por fazer uma boa época. Tínhamos bons jogadores. Houve algum jogo ou momento mais marcante nessa época 2016/17? Lembro-me do jogo com o Benfica, em casa, que fiz golo e recebi umas 300 mensagens de adeptos do FC Porto [risos]. Na altura o Benfica estava seis ou sete pontos à frente do FC Porto, em 1.º. Nós ganhámos 1-0 com um golo de cabeça que marquei ao Ederson e o FC Porto encurtou para três ou quatro pontos a distância. Quando entrei no Instagram, tinha para aí 300 mensagens de adeptos portistas, todos contentes. E umas quantas de benfiquistas menos contentes [risos]. O empréstimo era de apenas um ano, certo? Sim. No final da época eu disse ao FC Porto que queria ir para fora e fui para o Wisla Cracóvia, da Polónia. Porquê a Polónia? Foi o que surgiu, pesquisei o clube, o campeonato e resolvi ir. Na época 2017/18 Zé Manuel foi emprestado ao Wisla de Cracóvia, da Polónia D.R. Como foi o primeiro impacto quando chegou a Cracóvia? Foi muito bom, deu logo para ver que era um clube grande, com muitos adeptos. O estádio não era novo, mas tinha uma envolvência muito boa. O clube também tinha um centro de treinos a 40 minutos do centro da cidade e era grande, tinha ginásio, tinha dois relvados, eram um centro de estágio bom. Foi bem recebido no balneário? Fui. O adjunto era o Gonçalo Feio, que agora é treinador do Legia de Varsóvia. Ele falava português, espanhol, polaco, tudo e mais alguma coisa e ajudou na integração. O que achou dos jogadores polacos? Estavam sempre na deles, não brincavam connosco, os estrangeiros. Mas tinha lá uns sete ou oito espanhóis e estávamos sempre juntos, criámos um bom grupo, jantávamos sempre na casa uns dos outros e passou-se bem. Foi com a sua mulher? Sim, a minha filha Maria Clara tinha nascido no final da época, em Setúbal, foi com três meses para lá. Foi complicado por causa do frio. Ia treinar de manhã, ia buscá-las no final do treino para almoçar e quando saíamos do restaurante já era noite e às vezes estava a nevar bem. Isto ainda não eram três da tarde. Metia-me um bocado de confusão, porque nem dava para passear com elas. Um bebé de três meses, na neve e nós pais de primeira viagem, é sempre complicado. Estávamos sempre com medo que pudesse ficar doente. Então a vida era muito treinar e estar em casa e isso acabou por desgastar um pouco. Os polacos no dia a dia eram simpáticos? Eram um bocado frios. Com a mulher e a filha Maria Clara D.R. Tem alguma história para contar da Polónia? Uma vez, fui a um restaurante e, quando entrei, o empregado veio logo falar comigo: “Tu és português do Wisla Cracóvia?”; eu disse que sim. “Ainda bem que vieste aqui. Temos aqui uma carne que veio de Portugal.” Eu a ver a lista e ele sempre a querer oferecer a carne, dizia ser de umas vacas criadas no Alentejo e mais não sei quê. Chateou tanto que cedi. Depois veio dizer que com a carne tinha de provar um vinho não sei quê. Recusei o vinho, disse-lhe que não ia beber álcool e mandei vir água. Comemos a carne, era realmente inacreditável, mesmo boa, top, top. Comentei com a minha mulher e chegámos à conclusão que foi a melhor carne que comemos na vida. Quando veio a conta. Eram 400 e tal euros. Só pelo prato e pela água. Como reagiu? Chamei-o. Disse que devia estar errado. Ele disse que não e disse que comemos carne kobe. Fui pesquisar e percebi que nos deram kobe japonesa, uma das carnes mais caras do mundo. Como é possível? Fomos ali, do nada, só para um almoço a seguir a um treino, tranquilos, nem bebemos vinho, estivemos lá meia hora e pagámos quase €500 [risos]. Hoje estou a rir, mas na altura não achei graça nenhuma. Ele enganou-nos. Mas tive de pagar, tinha comido. Tem mais algum episódio de que se recorde? Eu tinha acabado de chegar e era uma semana de dérbi entre o Wisla Cracóvia contra o Cracóvia, mas eu nem estava muito a par da rivalidade, era a primeira vez que jogava fora. Nos primeiros treinos da semana, veio um diretor do clube falar aos jogadores. Começa a dizer para termos cuidado durante a semana, para não andarmos no shopping, para não andar na rua a passear, para ficarmos mais por casa. Achei estranho, mas como também nas primeiras semanas só treinava e não saía muito… A semana foi passando, na sexta-feira vamos para a reunião e o Kiko Ramirez, o nosso treinador espanhol, começa a reunião com uma foto do carro dele no estacionamento do shopping, sem rodas. Tinha ido ao shopping e os adeptos do Cracóvia sabiam que aquele era o carro dele e tiraram-lhe as rodas [risos]. Durante um treino na Polónia D.R. Gostou do futebol polaco? Gostei muito, na altura achava que era diferente do português, dizia que o futebol lá era muito físico, com marcações homem a homem e que em Portugal não havia nada daquilo. Mas agora vejo muito desse futebol em Portugal: marcação homem a homem, pressão alta, marcação no meio-campo todo e muita intensidade. Claro que em Portugal há mais qualidade técnica. Lá era mais físico. Gostei muito dos estádios, os clubes sempre com boas condições, boa envolvência do jogo, muitos adeptos no estádio, mesmo naqueles jogos que não são grandes. Quanto tempo esteve em Cracóvia? Eu estava com alguns problemas físicos nas costas por fazer muito ginásio. Eles fazem muito ginásio. Eu tinha de parar. O treinador espanhol veio falar comigo, disse ter de ganhar porque o queriam despedir e que eu e os outros estrangeiros tínhamos de ajudá-lo e por isso tinha de jogar. Resolvi tentar e fui para o treino, começámos com um meiinho, eu estava no meio e, ao fazer um corte, senti um estalo na coluna. Fui para o balneário. No posto médico disseram para ir tomar banho e passar por lá para me reavaliar. Quando cheguei ao banho já não conseguia mexer-me, nem conseguia tomar banho. Fiquei bloqueado. Fiquei sem me mexer da cintura para cima uns três dias. O que lhe disseram? Fiz ressonância e disseram que rasguei um elo da coluna e tinha que parar um mês e tal. Quando voltei aquele treinador já tinha saído e era um polaco que estava a acabar a época. Acabei a metade da época, eles param em dezembro e voltam em fevereiro, vim para Portugal e disse que ia ficar cá porque a minha filha não estava a adaptar-se bem. Zé Manuel fotografado para a Tribuna, em Braga RUI DUARTE SILVA Porquê? Porque estávamos muito tempo em casa, só os três e ela estava a ficar muito apegada a nós, não tinha contacto social, nem com a família. Como eu também não passava a melhor fase, resolvi ficar em Portugal. Mas já tinha alguma alternativa? Ia rescindir com o FC Porto e assinar pelo Marítimo, porque o mister Daniel Ramos falou comigo, queria que eu fosse para lá. Isto em dezembro. O mês de janeiro começou, passou e nada. Não se concretizou. Andámos ali em negociações durante um mês. Não se concretizou porquê? Porque o mister Daniel Ramos queria que eu fosse, mas a direção queria meter outro jogador, um argentino. Andaram ali num braço de ferro. Entretanto, disseram que o Marítimo não tinha boas relações com o FC Porto. Eu disse que rescindia com o FC Porto e que ia, mas, a três dias de fechar o mercado, o Daniel Ramos disse-me que não conseguia e que eles tinham contratado o argentino. O FC Porto disse-me que ainda havia mercados abertos, da Hungria e Bulgária, salvo erro, só que eu queria ficar cá e apareceu no último dia o Feirense. Aceitei porque queria ficar perto da família, ainda por cima era aqui no norte. Foi talvez um bocado precipitado, mas fui. Jogou pouco nessa época. Sim, também não recuperei bem da lesão. O posto médico na Polónia não era bom, tinha que fazer tratamentos numa clínica, à parte, e fiquei um bocado chateado. Não recuperei bem da lesão e cheguei com alguns problemas ao Feirense. A época já ia a meio e quando entras a meio tens de estar bem fisicamente, senão é mais difícil apanhar o comboio e eu não apanhei. Spoiler “Na Roménia, o médico de 70/80 anos, pediu-me para subir e descer uma cadeira, com as calças de ganga e botas. Foi isto o teste médico” Zé Manuel está no 2.º ano do curso Treino Desportivo, na Universidade da Maia e a jogar no UD Oliveirense, da II Liga. Nesta II parte do Casa às Costas, o avançado relata inúmeras histórias vividas na Roménia, para onde foi jogar pela mão de Jorge Costa, uma delas relacionada com o nascimento do filho Valentim - e que mete cartões amarelos. Fala de superstições, descrevendo vários episódios que viveu e assistiu ao longo dos anos. Recorda a passagem pelo Santa Clara, a subida de divisão pelo Rio Ave e a época no Nacional da Madeira Na época 2018/19 foi para o Santa Clara, mas ainda tinha contrato com o FC Porto. Foi emprestado? Não. O FC Porto queria rescindir, não podia emprestar porque atingiu um limite de jogadores emprestados. Cheguei a acordo com eles e assinei dois anos no Santa Clara. Foi para os Açores com mulher e filha? Sim, conhecia alguns jogadores e fui bem recebido. Estava lá o Tiago Santana que esteve comigo no Vitória de Setúbal, depois foi o Fábio Cardoso. Tínhamos um grande grupo. Tínhamos coisas surreais. Por exemplo, tomávamos o pequeno-almoço juntos num sítio estipulado, depois íamos para o estádio, equipávamos e íamos de camioneta para um relvado. Eram cinco minutos de camioneta, mas nesses cinco minutos a malta chegava a suar ao campo. O que faziam na camioneta? Entrávamos na carrinha e havia logo porrada uns contra os outros, o Ukra, o Chico Ramos, o Marco, o Fábio Cardoso, o Mamadu, tudo à porrada, na brincadeira. O Chico entrava no autocarro, mandava uma boca qualquer ao Marco, o Marco ia para cima dele e começava; vinha o Ukra, depois o Fábio Cardoso ia ajudar o Marco, quando dávamos por nós estávamos quatro contra quatro, à porrada, no autocarro. Chegávamos a suar ao campo [risos]. O treinador João Henriques, como reagia? Desde que ninguém se aleijasse estava tudo bem para ele. Não havia muita coisa para fazer em Ponta Delgada então estávamos sempre todos juntos. Íamos jantar, uns oito ou nove, íamos ao bowling, as mulheres também se davam bem, foram dois anos espetaculares, com um espírito de grupo enorme. Em 2019/20 Zé Manuel assinou duas épocas pelo Santa Clara D.R. Que momentos marcantes tem desses dois anos? Nesse primeiro ano fiz um golo ao Casillas, contra o FC Porto. Na segunda época há a vitória na Luz, estávamos em pandemia. Marquei já depois dos 90 minutos e ganhámos o jogo. Devido à pandemia viajámos para a Cidade do Futebol que também foi um período marcante. Foram dois meses em que só estavam os jogadores sem as famílias, pensávamos que ia ser mau e não foi. Fazíamos tudo e mais alguma coisa para passar o tempo. Como, por exemplo? Às vezes, depois dos jogos, bebíamos uns copos na varanda, jogávamos às cartas… E mais umas coisas que não posso contar [risos] Após esses dois anos no Santa Clara, quis vir embora ou não quiseram renovar? Quis sair. Não é que não estivesse bem, mas as viagens já me cansavam um bocado. Passávamos muitas horas nos aeroportos. E achava que estava na idade de sair novamente para outro campeonato. Só apareceu o Gaz Metan, da Roménia? Não. Apareceram imensas coisas, mas fui rejeitando. Tive uma proposta ótima do Azerbaijão, logo a seguir a acabar o campeonato. Eu queria muito ir, porque o contrato que era bom financeiramente, por causa da cidade e do campeonato. Das conversas que tive com os diretores e com o treinador, achei que ia ser um bom projeto. Mas como foi uma semana após acabar o campeonato, a minha mulher disse para esperar mais um pouco, que as férias tinham acabado de começar, que podia esperar por outras propostas… Acabei por não ir e hoje arrependo-me um bocado. Teve outras propostas? Depois também falei com um treinador português para ir para a Arábia, ele já tinha falado comigo, em março, o clube ainda estava na II divisão e ele disse que se subisse queria-me lá. Fiquei sempre com isso na cabeça, acabaram por subir, mas não aconteceu porque um dos diretores tinha mais a receber por outro jogador. Coisas do futebol. Quando dei por mim, já era tarde, já tinham fechado os mercados. Foi quando me ligou o Jorge Costa e decidi ir com ele para o Gaz Metan. O avançado (à esquerda) tenta fugir de Miguel Luís do Sporting, num jogo da Liga, em 2019 Gualter Fatia Quais foram as primeiras impressões quando chegou à Roménia? O mister Jorge Costa tinha-me dito muito diretamente o que ia encontrar. Um clube nada de especial, mas com boas condições. Tinha uma academia e um hotel onde almoçávamos diariamente e passávamos a noite antes dos jogos; um campo de treinos e um relvado bom, um ginásio grande. Ele avisou-me que o problema é que ia encontrar uma cidade antiga, onde não se passava nada. Era uma aldeia. E era mesmo assim. No clube as coisas estavam bem, mas a cidade era muito, muito fraca. A minha mulher, entretanto, estava grávida do Valentim, o médico não recomendou que ela fosse para a Roménia porque ainda tinham doenças que em Portugal já estavam erradicadas e fui para lá sozinho. Custou-lhe deixar a família para trás? Sim, foi muito difícil. O Valentim nasceu em fevereiro e a história para eu assistir ao parto é caricata. Falei com o mister Jorge Costa, disse-lhe que a minha mulher marcou o parto porque queria que eu assistisse. Ele disse que como eu estava à bica, no próximo jogo, que era antes do nascimento do meu filho, tinha de levar amarelo e assim vinha descansado para Portugal. Eu disse que sim, que levava o amarelo, para ficar indisponível para o jogo seguinte. Eu ia jogar os 90 minutos, só que aos 50 e tal minutos há uma expulsão. Ele já tinha trocado os nossos extremos e há a expulsão do nosso central, ele tem de meter um central. Teve de sair, ainda sem o amarelo? Ele diz-me: “Ó Zé, vou ter de tirar-te.”; “Mas eu não levei amarelo”; “Tens de levar agora.” Está o jogador para entrar a meio-campo e eu no campo a ter que levar amarelo e eles com mais um, a dar chocolate. Eu não conseguia chegar aos gajos para dar porrada [risos]. Então, comecei a correr em direção a um jogador adversário, ele já tinha chutado a bola no outro central e eu em vez de parar, dei-lhe, sem bola. O árbitro para o jogo com um ar do género “o que é que este gajo está a fazer?” [risos]. Claro, deu-me amarelo. Yuri Matias, Ricardo Valente e Zé Manuel no balneário do Gaz Metan, da Roménia D.R. Tem mais histórias da Roménia? Tenho várias. Uma logo que cheguei. Eu e o Ricardo Valente fomos ao mesmo tempo para lá e, quando chegámos, disseram-nos que tínhamos exames médicos à tarde e que o diretor ia buscar-nos ao estádio. Entrámos no carro do diretor e ele: “É uma viagem chata.” Andámos uma hora e meia em estradas que eram só curvas e mais curvas. Chegámos a uma cidade e entrámos numa clínica toda a cair. Uma sala pequenina, eu e o Ricardo olhámos um para o outro e reparámos que não havia sequer um sítio para trocar de roupa. Estava frio, eu estava de casaco, botas e calças de ganga. Percebemos que não nos iam dar uns calções e umas sapatilhas, que ia ser mesmo assim. Olhámos para a sala e não tinha máquinas nenhumas, nem uma passadeira, uma bicicleta. Pensámos, não deve ser aqui. Chegou o médico, devia ter 70/80 anos, claramente em final de carreira e não falava inglês. Diz para começarmos, eu olhei para o Ricardo ele ria e eu comecei a rir. Virei-me para o médico e apontei para as minhas calças e botas, como quem diz “vou fazer os exames com isto?” Ele fez um gesto do tipo “deixa lá”. Afinal em que consistiam esses exames médicos? [Risos] Eu de botas, com calças de ganga, a subir e a descer uma cadeira, rápido; o médico parava de minuto a minuto para sentir a pulsação. Ao fim de uns cinco minutos eu já estava cheio de calor, e ele diz: “Podem ir embora.” Foi isto os exames médicos. Saímos de lá a rir que nem uns perdidos. Grande risota [risos]. Mais alguma? Recordo-me de um jogo que era muito longe, com o Botosani. O jogo era no sábado, viajámos na quinta-feira à tarde, fizemos metade do percurso, ficamos num hotel numa cidadezinha; na sexta, depois do pequeno-almoço, treinámos, almoçámos e seguimos viagem. Vamos para o jogo, perdemos 2-1. A seguir ao jogo, como estava tudo na azia, os responsáveis do clube decidiram fazermos a viagem de volta para Cracóvia toda de seguida. Demorámos umas 11/12 horas para chegar. Foi horrível [risos]. Lembrei-me de outra. Zé Manuel conseguiu assistir ao parto do filho Valentim D.R. Força. Houve um treino com o mister Jorge Costa, antes de um jogo, em que o pessoal estava na palhaçada, naqueles exercícios iniciais lúdicos. Estávamos a fazer o exercício que era só marcar golos com a cabeça e o Idrisa Sambú, um português que estava lá e que é fisicamente forte, às tantas, marca com o pé e sai a festejar, tudo a rir porque não valia o golo. Havia lá um romeno que tinha a mania que era mauzão e começou aos berros com ele, em inglês: “Acorda, já começou o treino, estás sempre a dormir.” E começou a ir para cima dele, fora de contexto completamente. Começámos a afastá-lo “estás parvo”. Estavam os romenos a tentar segurá-lo de um lado e nós a afastar o Idrisa do outro, quando o mister Jorge Costa pára o treino: “Ah, querem andar à porrada? Então venham cá, todos.” Meteu-nos, a todos, a fazer um círculo à volta deles e disse: “Agora resolvam aqui os problemas.” O Idrisa, que é uma paz de alma, levanta os punhos e começa: “Anda, anda, anda” [risos]. O romeno, obviamente, deu dois passos atrás, cumprimentou, pediu desculpa e seguiu o treino. Entretanto, o Jorge Costa vai embora, certo? Sim. Quando venho ver o nascimento do meu filho, a 2 de fevereiro, viajo no último dia de mercado, 31 de janeiro, o mister Jorge Costa assina no Farense nesse dia. Já não estive mais com ele. Zé Manuel (a chutar a bola) em ação pelo Gaz Metan D.R. Que tal os dois treinadores seguintes? Horríveis. Veio um romeno mesmo fraco, muito fraco. Depois começámos a treinar no sintético. Por causa da neve os clubes vão para fora, mas eles não quiseram para não gastar dinheiro e ficámos a treinar no sintético aqueles dois meses de inverno e eu não conseguia treinar no sintético. Chutei o balde mesmo. Só tinha visto o meu filho dois dias, estava mal por não estar com os meus filhos e disse para mim que não queria mais aquilo. O que aconteceu? Quando venho para o nascimento do Valentim, recebi uma chamada do Hugo Seco, que na altura estava no Farense, a perguntar se eu ia para lá. Eu disse que ninguém me disse nada, que só tinha vindo ver o meu filho nascer e que a seguir tinha de voltar para a Roménia. Ele: “O diretor é que me veio perguntar como tu eras, porque vinhas para aqui.” Achei estranho, mas no final do dia, quando li “Jorge Costa no Farense”, fiquei a pensar se teria sido por causa da ida dele. Mas não dava tempo para ir para lá. E finalizei a época no Gaz Metan. Depois disse-lhes que não queria ficar. Disseram que tinha de ir, marcaram-me viagem. Fui, ainda treinei lá duas semanas, mas depois apareceu o Rio Ave e assinei um acordo de rescisão. Deixou lá ficar muito dinheiro? Assinei um acordo em como eles iam pagar até final do ano, mas, entretanto, o clube acabou, agora espero reaver parte do dinheiro do fundo da FIFA para essas situações. Em 2021/22, o avançado foi para o Rio Ave D.R. Quem o quis no Rio Ave? O mister Luís Freire que falou comigo, o diretor e o presidente também. Era II Liga, não o assustou? Não, por ser o Rio Ave. Fui vendo a equipa que estava a ser construída, sabia que íamos ter equipa para subir e assinei dois anos. A primeira época correu bem, foram campeões da II Liga. Foi o seu primeiro título? Sim. Foi inesquecível. Que momentos e histórias tem para recordar do Rio Ave? No ano em que fomos campeões, tínhamos muitas brincadeiras no balneário e gozávamos muito uns com os outros. Eles diziam que eu era muito cismado, que tinha superstições. Eu era um jogador atento, se um jogador tinha umas chuteiras, fazia golo e na semana seguinte chegava com umas chuteiras novas, eu dizia-lhe: “Tem cuidado, as chuteiras estão a fazer golo, cuidado, não vais trocar.” Eles gozavam comigo por causa dessas coisas. Houve um Rio Ave-Sp. Covilhã em que no tempo que temos para ver o relvado antes do jogo, o Ângelo Menezes vinha com um café na mão e para brincar comigo atirou um restinho de café para a grande área e disse: “Esta baliza vai ter história. Vai-se passar muita coisa aqui.” E passou? Vamos para o jogo e eu marquei naquela baliza mesmo no final. Ele, todo contente: “Viste, viste, eu disse que nesta baliza ia-se fazer a história do jogo.” Passaram alguns jogos. Vamos ao Vilafranquense, vamos os dois outra vez ao relvado e ele voltou a fazer o mesmo, mas foi pousar o café atrás da baliza. Quando íamos em direção ao balneário para equipar, vemos dois jogadores do Vilafranquense em direção à baliza e começa ele: “Eles vão tirar o nosso café, vão tirar o nosso café.” Fomos os dois a correr para trás da baliza e ficámos à espera que os jogadores fossem embora, ficámos a proteger o café [risos]. Eles foram embora. O Vilafranquense faz golo na outra baliza, na 2.ª parte, estávamos a perder 1-0. Nos últimos minutos, o Pedro Mendes faz dois golos naquela baliza, do café, um golo aos 90' e outro aos 90'+3 minutos, foi a reviravolta da época, um grande festejo e o Ângelo "vês, vês, foi o café, foi o café", todo cismado [risos]. O mister Luís Freire entrava às vezes nessas brincadeiras. “Temos de fazer isto, como na semana passada” [risos]. Aliás, ele também tem uma história engraçada a propósito de superstições. Pode contar? Começámos a reparar que o mister tinha umas botas já muito velhas, abertas e tudo, e ele usava sempre aquelas chuteiras. Eu e o Angelo às vezes dizíamos-lhe: “Ó mister, está na altura de mudar essas chuteiras.” E ele: “Não, não. Estas chuteiras acompanharam-me sempre, desde as divisões inferiores, tenho de usar isto, está comigo desde sempre. Isto é trabalho, é trabalho.” Entretanto, passados uns jogos com vitórias seguidas, o mister aparece de botas novinhas. Nós todos: “É isso mister, bota nova.” Vamos para o jogo e empatámos. No primeiro treino da semana, olhámos para os pés do mister e lá estavam as botas antigas [risos]. Era só eu o cismado? Está bem. Como começaram essas suas superstições? No primeiro ano de sénior, no Merelinense. Havia dois avançados na equipa sénior que disputavam o lugar. As coisas não corriam bem e o avançado que não jogava levou uma santa com meio metro para o balneário. Disse que havia muita coisa negativa e que a santinha nos ia dar sorte. Fomos treinar. Acabou o treino, chegámos ao balneário e a santinha já não estava lá. Toda a gente a perguntar pela santa. Estava no armazém do roupeiro. Tinham tirado a santa. Quem foi? O avançado que estava a jogar. Ele dizia: “Não pode ser ele a trazer uma santinha, porque me vai dar azar, não vou fazer golos e ele é que vai fazer os golos. A santinha não pode estar no balneário, que lhe vai dar sorte a ele e não a mim” [risos]. O avançado (na foto com o troféu de homem do jogo) esteve emprestado ao Nacional da Madeira em 2022/23 D.R. Acabou por não fazer as duas épocas completas. Ainda iniciou a segunda época, 2022/23, no Rio Ave, mas acabou por sair. Porquê? Fiz o primeiro jogo, mas depois, ao falar com o mister Luís Freire, fomos diretos um com o outro. Ele disse que não ia ter tantas oportunidades como na época que passou. Explicou porquê? Ele já estava a ver outros jogadores e foi direto. Disse que ia perder algum espaço, mas que dependia sempre do meu trabalho. Que podia ficar, contava na mesma comigo, mas queria ver outros jogadores. Eu preferi ir para um sítio onde sentisse que ia ser importante. E fui para a Madeira, para o Nacional. Com a mulher e filhos? Sim. Foi um clube de que gostei muito, as pessoas trataram-me sempre bem, a minha mulher também adorou a Madeira. Foi um ano excelente. Fui por empréstimo. Estava em final de contrato e queria fazer boa época para sair para fora. Mas acabou por continuar no Rio Ave. Porquê? Porque o Rio Ave teve um impedimento da Liga, não podia inscrever jogadores e pediram-me para renovar. Como eu gostava das pessoas, e para ajudar, fiquei. Em 2023/24, Zé Manuel regressou ao Rio Ave D.R. Como foi essa época 2023/24, com o Rio Ave já na I Liga? Foi difícil, mas tínhamos um grande grupo. Até janeiro tivemos alguns problemas com salários, foi público, e aguentámos bem. Foi importante estar lá malta que conhecia bem o clube, para segurar o barco. Em janeiro, com a entrada dos investidores, as coisas melhoraram e entraram jogadores novos, que nos ajudaram; acabou por não ser uma época fácil, mas conseguimos ficar 13 jogos sem perder na I Liga, penso que foi um recorde para o Rio Ave. Só renovou uma época? Sim. No final dessa época não quiseram renovar e eu também não quis esperar muito pelo facto de estar a estudar, queria ficar aqui no norte para continuar a estudar. Quando recomeçou e o que estuda? Estou a tirar Treino Desportivo, na Universidade da Maia. Inscrevi-me quando estava no Feirense, só que, entretanto, fui para o Santa Clara e tive de congelar a matrícula. No ano passado retomei, fiz o 1.º ano e agora estou no 2.º. Com que objetivo está a fazer esse curso? Quero seguir a carreira de treinador. Primeiro como adjunto. Depois também quero tirar a prática do nível 2 e o nível 3, do curso de treinador. Para já quero tirar esta licenciatura para depois ver se faço o mestrado em ensino, para abrir duas opções. Quero ser treinador ou professor. Ainda tenho tempo para pensar bem. Esta época 2024/25, Zé Manuel assinou pelo UD Oliveirense D.R. Tem alguma meta para deixar de jogar? Para já ainda não penso nisso. Sinto-me bem fisicamente. Agora, não quero arrastar-me muito, por isso é que estou a preparar o final da carreira. Sei que vai custar-me bastante. Fui acompanhando de perto o final da carreira de um amigo, o Ukra, e sei que foi difícil para ele. Ao vê-lo, pensava que está a chegar a minha hora e que também vai ser duro para mim. Onde ganhou mais dinheiro? No FC Porto. Investiu? Investi em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprar o meu X4. Tem algum hobby? Jogar PlayStation. Acredita em Deus? Acredito. Mas sou menos praticante do que devia. Quando marca golo costuma olhar e apontar para o céu. Qual o significado? É para o meu pai. Faleceu no meu 1.º ano de Boavista, em 2013. Eu tinha 22 anos. Foi um momento muito duro. Tão duro que logo no primeiro exercício do primeiro treino a seguir ao funeral rasguei o músculo e fiquei um mês e tal parado. O avançado a fazer um dos três golos que marcou no jogo de apresentação frente a FC Porto B, que a UD Oliveirense venceu por 3-1 D.R. Segue ou pratica alguma outra modalidade além do futebol? Praticar não pratico porque não posso, mas sigo futsal e andebol. Qual é a maior frustração que tem na carreira? Talvez não ter tido hipótese de renovar com o Boavista. E o maior arrependimento? Não ter saído para Israel quando estava no Santa Clara. O momento mais feliz da carreira? O título de campeão pelo Rio Ave, na II Liga. O objetivo que ficou por cumprir? O que muitos jogadores não cumpriram: jogar na Champions League. Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? No Atlético de Madrid. Desde o tempo do [Fernando] Torres lá, sempre gostei e sempre acompanhei. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Fábio Cardoso, Ukra, Ângelo Menezes, Chico Ramos, Joca e Edinho Tem ou teve alguma alcunha? Não. Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Não. O que pensa do VAR? Quando é bem utilizado é uma ferramenta muito útil. Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Pepe. Quando pensamos uma coisa, ele já pensou. Tem algum talento escondido? Não. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Talvez professor de Educação Física. Qual o golo mais bonito que marcou? Foi no Santa Clara, ao Leixões, um remate fora da área de primeira. 1 Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 29 Setembro 2024 Citação de Lebohang, há 5 minutos: Ocultar conteúdo “No Boavista às vezes um almoço virava jantar, íamos beber um copo, encontrávamos o mister Petit e ele: ‘Mais um, pago eu. Mas depois casa’” Zé Manuel, de 33 anos, conta nesta I parte do Casa às Costas como tudo começou, aos 10 anos, quando foi jogar futebol para o Nogueirense e como se tornou profissional do Merelinense. O avançado passou, entre outras, pelas mãos de Jorge Jesus no SC Braga, fez três épocas no Boavista, assinou pelo FC Porto, mas foi emprestado ao V. Setúbal e ao Wisla de Cracóvia. Entre vários pormenores e histórias nestes e outros clubes, lembra uma dura de JJ e a união do grupo axadrezado que passou da III divisão diretamente para a I Liga Nasceu em Nogueira, concelho de Braga. Comece por nos apresentar a família onde cresceu? Tenho dois irmãos e duas irmãs, eu sou o mais novo. O meu pai trabalhava na construção civil e a minha mãe era funcionária doméstica. Cresci em Nogueira, uma freguesia perto do antigo estádio do SC Braga, o 1.º Maio. Qual a primeira memória de criança que tem? De uma infância feliz, sempre rodeado de muitos amigos. Também tive a sorte de ter um irmão praticamente da mesma idade que eu, temos 11 meses de diferença. Estávamos sempre juntos, tinha sempre companhia em tudo. O que dizia querer ser quando fosse grande? Na rua onde cresci tive a felicidade de ter muitas crianças da minha idade, éramos umas 10, que estavam sempre a jogar à bola. Por isso, todos tínhamos o sonho de ser jogadores. Em casa torcia-se por que clube? Pelo Sporting. Quem eram os seus ídolos? Desde que me lembro de ver futebol e de acompanhar jogadores que o meu ídolo era o Fernando Torres. Gostava de ver os jogos dele. Zé Manuel em bebé D.R. Com que idade foi jogar para um clube pela primeira vez? Acabei por começar a jogar futebol relativamente tarde, com 10 anos, no Nogueirense. Nunca tive necessidade de ir para um clube antes. Nós éramos muitos na rua e jogávamos diariamente. Aquilo satisfazia-me. Mas o Nogueirense fez uma equipa e fomos todos para lá, aquela equipa era praticamente a minha turma [risos]. Quanto tempo esteve no Nogueirense? Antes de ser federado eu treinava numa equipa de futsal e tive de optar entre o futebol e o futsal e eu optei pelo futebol, no Nogueirense, onde estive um ano. Porquê apenas um ano? Porque tinha de me distanciar do meu irmão e dos meus amigos, estávamos a fazer muitas asneiras que passavam para o campo. Que tipo de asneiras? Uma vez, num jogo que estava muito renhido, estávamos a ganhar por 2-1 e, quando eles empatam, o jogador que fez o golo passou por mim a festejar efusivamente à minha volta e eu empurrei-o. O árbitro deu-me vermelho, mas depois veio o meu irmão e também armou confusão com o jogador e com o árbitro [risos]. Ele ficou suspenso alguns jogos e eu decidi que era melhor sair do clube, porque se eu era expulso, o meu irmão era expulso e vice-versa. Não podia ser. Eu próprio tive essa consciência. Por outro lado, já andava a ser observado por algumas equipas daqui, como o SC Braga, o Merelinense, e acabei por sair para o Merelinense, que já era campeonato nacional. Tinha 11 ou 12 anos e já jogava a ponta de lança. Como passou a ir para os treinos? Ia na carrinha do clube que apanhava alguns jogadores. Os seus pais nunca colocaram entraves ou fizeram exigências por causa da escola? Por acaso não, também não interferia com a escola, por isso. Zé Manuel (à direita) com o irmão Hugo, que é apenas 11 meses mais velho D.R. Gostava da escola? Não gostava, mas também não desgostava. Não era preciso a minha mãe andar em cima de mim para eu tirar as notas necessárias para passar, mas nunca fui um aluno brilhante. Gostava mais de estar no recreio, a jogar futebol, mas nunca dei grandes problemas. Fui sempre um aluno médio. Ficou no Merelinense até quando? Estive nos iniciados, juvenis e no primeiro ano de juniores já era para ir para o SC Braga, mas não quis, só fui para lá no segundo ano. Não quis vir logo para o SC Braga porquê? Porque o Merelinense também era I divisão e achei que devia continuar a jogar ali. Depois fui chamado à seleção nacional, nos juniores, e fui treinar ao Sporting também. Ainda estive lá umas duas semanas. Esteve essas duas semanas sempre na Academia? Sim. Custou-lhe ficar longe dos pais e irmãos? Custou muito. Tinha 16 ou 17 anos, era criança, nunca estivera fora da família. Nessa idade com o que sonhava? Via-me em grandes clubes, porque durante a minha formação fui sempre fazendo golos e por isso sobressaia. Tinha as expectativas muito altas. Foi chamado à seleção nacional com que idade e para fazer o quê? Fiz quatro ou cinco jogos amigáveis, nos sub-18, o selecionador era o Ilídio Vale. O que sentiu quando recebeu a primeira convocatória para ir a uma seleção? Na altura nem tinha muita noção, mas fiquei surpreendido, até porque depois disseram-me que nunca um jogador do Merelinense tinha ido à seleção. Fui o primeiro. O José Sá foi mais tarde. Claro que fiquei muito contente. Como era o ambiente na seleção? Era o que estava à espera. Agora ainda está melhor, mas na altura já tinha boas condições. As concentrações eram sempre no Jamor. Foi uma fase boa para um jogador como eu que não estava habituado. Eu treinava sempre em sintético, íamos à relva uma vez por semana e cheguei ali e tinha aqueles relvados, sempre top. Foi mudar de chip, porque os jogadores que estão nas seleções estão sempre mais próximos de assinar contratos profissionais. Fiquei a pensar nisso. Com os pais D.R. Mas não ficou no Sporting. Como correram aquelas duas semanas na Academia e que feedback lhe deram? No Sporting disseram que gostaram muito de mim e que só não ficava porque devia ter ido mais cedo, já era uma etapa da formação, o último ano de júnior, em que para ficar eu tinha de demonstrar uma diferença muito grande. Mas disseram que gostaram de mim e que se tivesse ido mais cedo ficavam comigo. Recorda-se do que sentiu na altura? Tristeza, frustração, revolta? Continuei o meu percurso, não fiquei muito afetado. Por acaso, reagi bem. Claro que gostaria de ter ficado, e era bom sinal. Mas, se calhar, por não pensar tanto na situação, não dei grande valor e continuei a fazer o meu trabalho. Voltei ao Merelinense, continuei a jogar, estava a fazer uma grande época e, entretanto, chegou a convocatória da seleção, onde encontrei jogadores do Sporting, com quem treinei, como o André Martins, o Diogo Amado, o Diogo Viana, o Pedro Mendes. No final da sua primeira época de júnior o SC Braga voltou à carga? Fiz muitos golos, quase 30 golos na I Divisão nacional de juniores e acabei a época a jogar no CNS [equivalente à atual Liga 3], pela equipa principal do Merelinense. No primeiro jogo fiz logo dois golos. No jogo seguinte, em casa, fiz outro golo e foi nessa semana que o SC Braga contratou-me. Falaram consigo diretamente? Não, acertaram com o clube e depois é que me chamaram ao SC Braga para assinar. Foi o seu primeiro contrato profissional. Qual era o valor do seu ordenado? Eram €1500 ou €1800. O que fez com o primeiro salário que ganhou? Não me recordo. Não devo ter feito grande coisa. Devo ter comprado alguma roupa ou um telemóvel. Continuava em casa dos meus pais. O avançado iniciou a carreira sénior no Merelinense D.R. Saídas à noite e namoros, já havia? Já. Nessa altura já saía à noite, mas sempre fui um jogador que, se jogasse no domingo, não saía. Às vezes tinha colegas que saíam antes dos jogos, mas nunca fiz isso. Fui sempre aquele que só se jogássemos ao sábado é que às vezes ia dar uma voltinha à noite. Também comecei a namorar cedo a minha atual mulher. Tinha uns 17 anos. Como se conheceram? Conheci a Vanessa na escola. Andámos sempre juntos na escola e começámos a namorar aos 17 anos. Estamos juntos até hoje. Somos casados e temos dois filhos. Entretanto, deixou de estudar? Por acaso não. No 2.º ou 3.º ano de sénior voltei ao Merelinense, quis ficar perto de casa, e não consegui entrar na universidade porque já tinham fechado as inscrições, mas entrei no ano zero de Serviço Jurídicos, para entrar na licenciatura de Solicitadoria, no ano seguinte. Porquê essa área? Porque a minha mulher, na altura namorada, queria entrar nesse curso e como não queria ir sozinha pediu para ir com ela. Ela depois acabou por fazer mesmo a licenciatura. Eu é que não. Zé com os quatro irmãos D.R. Assinou quanto tempo pelo SC Braga? Quatro anos. Fui para Braga onde fiz o 2.º ano de júnior e estreei-me na equipa A, com o mister Jorge Jesus, ainda como júnior. Recorda-se da primeira vez que foi treinar com a equipa principal? Não me recordo, mas durante o ano fui algumas vezes. E nos últimos três meses treinei sempre com a equipa principal, até tive de pedir autorização na escola, porque tinha de faltar às aulas. Como foi o contacto com Jorge Jesus? Foi bom. Ele tratava bem os miúdos. Mas levei uma ou outra dura [risos]. Porquê? Ele apresentava o treino que iam fazer, aos jogadores, no auditório. Mas os juniores não entravam no auditório. Ficávamos a aquecer numa sala ao lado, enquanto eles tinham a reunião. Fomos para o campo, era um exercício de finalização, eu estava na frente e ele tinha explicado o exercício, mas eu naturalmente não sabia o que ele queria porque não ouvi, não estava lá. Ele explicou lá dentro que o avançado tinha de devolver ao médio e o médio chutava de fora da área. A bola veio para mim e eu rodei e dei na baliza. Ele apitou: “Ó miúdo, vais mas é outra vez para a escola” e mais não sei quê [risos]. O César Peixoto acabou por vir à minha beira explicar-me o exercício. Depois correu bem. No final do treino, estávamos a fazer 11 para 11 e na última jogada vejo o médio com a bola, faço uma diagonal nas costas do central, ele mete-me a bola e marquei golo. O Jorge Jesus acabou logo a seguir o treino e deu-me moral: “Ó miúdo, isso é de craque, essa diagonal aí, isso é de craque.” Ou seja, também me deu moral nesse dia. Mas ele tem fama de ser chato com os jogadores, principalmente os mais novos. Não sentiu isso? É assim, quando errávamos um passe ou uma receção, às vezes podia dizer qualquer coisa, mas parar o treino para dar uma dura só mesmo dessa vez. Ele era obcecado no bom sentido e eu acho que um treinador tem de ser mesmo assim, eu gosto. Aprendi imenso naqueles três meses que estive com eles. Sobretudo a nível tático, quando estamos sem bola. Zé Manuel com a mulher, com quem começou a namorar aos 17 anos D.R. Disse que estreou-se na I Liga. Sim, no último jogo para o campeonato, no Dragão. Antes jogámos com o Benfica em casa e eu fui para o banco; depois, com o Belenenses fora, também fui para o banco. Eu ia estrear-me nesse jogo, mas ele falou comigo, explicou que ia meter outro jogador porque o jogo estava com uma goleada, mas aqueci muito tempo. E no último jogo estreei-me então contra o FC Porto. O FC Porto já era campeão, foi o jogo onde os jogadores do FC Porto já estavam com o cabelo pintado de azul e branco. Estreei-me a 10 minutos do final. Estava muito nervoso? Estava. Uma coisa é estrear na I Liga, o que já causa nervosismo, agora estrear no Dragão contra o FC Porto, campeão nacional, cheio de craques, com o estádio lotado, é de loucos. Do que se lembra desses 10 minutos? Primeiro, lembro-me de estar a chegar à zona de aquecimento e o Hulk receber uma bola à beira dos bancos, vai para o meio a driblar dois jogadores e chutou à baliza, parecia um míssil. O nosso guarda-redes, o Eduardo, meteu as mãos à bola, a bola foi para cima e eu pensei: “Fogo, se esta bola vai à baliza, fura-a.” Saiu com uma potência. O estádio foi ao rubro. Depois, ao entrar, há aquele nervosismo, mas com o decorrer do jogo vamos esquecendo. Nesses 10 minutos levei um pisão do Bruno Alves que me abriu o pulso [risos]. Então, o que aconteceu? Vou para dominar uma bola, ele mete o braço, eu caí no chão e ao apoiar a mão ele calcou-me com o piton de alumínio e abriu-me o pulso. São situações normais de jogo. As suas expectativas nessa altura deviam estar bem altas. As minhas expectativas eram ficar no SC Braga porque o mister Jorge Jesus até falou comigo, disse-me que contava que eu ficasse. Ele jogava com dois avançados e disse-me: “Quero dois avançados. Depois mais dois para competir com esses dois avançados e o meu quinto avançado é sempre um miúdo.” Na altura era o Orlando Sá. Só que, como houve umas lesões e ele nessa época apostou no Orlando Sá, o Orlando acabou por ser vendido. Então, disse-me que queria que eu ficasse nessa perspetiva de ser o quinto avançado, e que no decorrer da época, com lesões e baixas de forma, se calhar ainda podia fazer uns jogos, mas para não ter muita expectativa. Mas, nesse verão, o Jorge Jesus vai para o Benfica. Em 2013/14, Zé Manuel (no centro) foi jogar para o Boavista Rogerio Ferreira E veio o Domingos Paciência? Sim, que jogava só com um avançado e acabei por ser emprestado. É quando regressa ao Merelinense? É, fui eu que pedi, queria ficar perto de casa. Na altura eles queriam meter-me no Ribeirão, para onde foram alguns jogadores da formação do SC Braga emprestados, como o Pizzi, mas preferi ir para o Merelinense. Mas nessa época 2009/10 jogou muito pouco. Porquê? O treinador que foi para lá levou jogadores da confiança dele e eu não tinha maturidade para entender como as coisas funcionam. Se soubesse o que sei hoje se calhar não ia, porque nem falei com o treinador sobre o que ele pensava e quando cheguei ele já lá tinha jogadores da confiança dele. Só comecei a jogar quando esse treinador saiu. Entrou o Ricardo Martins e joguei até ao fim. Nesse período em que não jogou, foi-se muito abaixo? Naturalmente que fui um pouco porque tinha as expectativas muito altas, queria jogar. A meio até pedi para sair e ele não me deixou sair. Queria ir para onde? Ia para o Famalicão, com o Artur Jorge, mas o treinador não me deixou ir. Fui-me um pouco abaixo, mas veio felizmente o Ricardo Martins. O Merelinense estava na II B. A equipa era formada sobretudo por homens já feitos que tinham outros empregos e treinavam à noite. Foi uma nova adaptação? Sim, sim. Foi quando entrei no ano zero da faculdade. Se calhar, devia ter investido mais no futebol e não tinha ido estudar. Zé Manuel esteve três épocas no Boavista Gualter Fatia Na época seguinte percebeu que não tinha hipótese de voltar ao SC Braga? Naturalmente o tempo vai passando e as expectativas vão baixando. Fui ganhando mais maturidade, percebi que afinal não ia ser assim tão fácil, porque no CNS também têm qualidade e não estava a conseguir afirmar-me. No terceiro ano de contrato, o SC Braga fez um protocolo com o Vizela e fui para o Vizela emprestado. Correu-lhe bem? Sim. No segundo ano do Merelinense eu jogava descaído para as faixas e no Vizela já jogava na frente, a ponta de lança e acabei por fazer uma grande época. Fiz 16 golos, voltei a ganhar esperança. Quando foi para Vizela, continuou a viver em casa dos pais? Sim. Íamos uns 10 jogadores daqui de SC Braga, todos juntos em dois carros. Depois o SC Braga fez a equipa B e fui para a equipa B. Mas se calhar arrependo-me de ter renovado com o SC Braga, porque eu estava sem contrato e na altura falaram do Gil Vicente e do Estoril, que me queriam. Mas o SC Braga também me queria na equipa B, era o primeiro ano dessa equipa e continuei no SC Braga pela perspetiva da equipa B estar próximo da equipa A. Quem teve como treinador na equipa B? O Artur Jorge. Com o António Conceição só estive uma ou duas semanas porque, entretanto, saí. Com que opinião ficou do Artur Jorge? Bom treinador, só que era o contexto de equipa B. Treinávamos a semana, mas quem jogava eram os jogadores em quem eles tinham mais expectativas e que baixavam da equipa A. Baixavam o Yazalde, um mexicano que também treinava na equipa A. Baixavam à equipa B só para jogar. Era um bocado desmotivador, estar a treinar a semana e depois olhar para a convocatória e ver 14 jogadores. Nós já sabíamos que iam baixar uma carrada de jogadores que tinham de jogar. No fundo, era isso. Quando abriu o mercado eu disse que queria sair, tinha o Tondela para ir. O avançado na semana em que foi entrevistado para a Tribuna RUI DUARTE SILVA Tinha empresário? Tinha, era o Pedro Cordeiro. Fui falar com eles para sair, mas não me deixaram sair. Disseram que não queriam que eu saísse. Que iam precisar de jogadores. No último dia do mercado, chamaram-me ao estádio, a mim e a mais dois ou três, para dizer que afinal foram buscar não sei quem e que era para sair. Aí respondi: “Eu tinha clube e agora já não tenho. É o último dia do mercado.” Houve uma confusão, pelo que percebi eles já tinham clubes definidos para eu ir. O CD Cinfães? Exatamente. Não gostou da ideia? Na altura não, até me chateei com os diretores porque a meio do mês eu tinha o Tondela da II Liga para ir e não me deixaram. E quando me disseram que tinha de sair, as alternativas que me apresentaram era tudo CNS, a divisão abaixo. Fiquei chateado, claro. Não deixei de conhecer pessoas com quem ainda hoje falo e foi um clube de que gostei muito. Mas na altura foi difícil ir para Cinfães. Cheguei a dizer a algumas pessoas próximas que ia estudar e que se calhar ia desistir do futebol. Não queria continuar porque via que ia andar ali no CNS e que isso não me ia motivar. Entretanto, acabou por ir para o Boavista. Como? Ligou-me o Rui Borges, que tinha estado comigo no Vizela. Era o diretor do Boavista, mostrou-me o estádio todo, o projeto, notava-se perfeitamente que preparou a reunião. “Zé, este ano é difícil para o Boavista porque vamos estar no CNS, mas vai sair a decisão da Liga, nós estamos convictos que vamos subir e vamos precisar de uma base para a I Liga, vamos sempre aproveitar jogadores dessa base e eu acredito em ti.” E fui nessa perspetiva. Assinei por um ano. A ganhar menos do que no SC Braga? Sim. Até tinha propostas mais altas esse ano, de clubes do CNS. Fui mesmo pelo projeto devido ao Rui Borges. O treinador era o Petit, que deixou de ser jogador. Gostou dele como treinador? Gostei muito logo na primeira impressão. Foi jogador, acabara de se retirar e sabe como os jogadores pensam, sabe estar do lado do jogador. Trabalhei com ele três anos e foi sempre mostrando evolução, foi sempre em crescimento, por isso é que aguentámos bem, por causa do mister Petit. Em 2016/17 Zé Manuel assinou pelo FC Porto e foi emprestado ao V. Setúbal Gualter Fatia O Boavista é um clube muito diferente do SC Braga? É diferente, até porque quando cheguei o Boavista estava no CNS enquanto o SC Braga estava na I Liga. Mas senti logo uma grandeza enorme que não sei explicar. É mesmo muito grande. É um clube de I Liga. Ir a qualquer campo no CNS e ver o estádio só com adeptos do Boavista ou com muito mais gente do Boavista do que dos adversários, era impressionante. Era assim em todos os campos. Lembro-me de irmos jogar ao Coimbrões, o estádio só tem cimento de lado, onde as pessoas estão de pé, e lembro-me de olhar e a todo o comprimento do campo era só adeptos do Boavista. Ninguém fazia isso no CNS. Foi um ano que me deu muito gozo jogar, voltei a ter ânimo e a acreditar. Foi muito pela envolvência dos jogos, parecia que jogávamos sempre em casa. Como foi passar do CNS para a I Liga. A diferença é enorme? Sem dúvida. Só os campos são completamente diferentes. Os treinos durante a semana, tudo é diferente. A intensidade do treino e do jogo é maior. Os relvados, os estádios, toda a envolvência, a qualidade dos jogadores, não tem nada a ver. Dos três anos que passou no Boavista, o que mais o marcou? Foi mesmo isso, o facto de irmos jogar fora e ter sempre muitos adeptos. E histórias para contar? Do Boavista não tenho assim grandes histórias. Recordo-me da união do nosso grupo, tínhamos almoços de equipa que se prolongavam bastante, algumas vezes até viravam jantar e ainda íamos, às vezes, beber um copo a seguir, por vezes apanhávamos o nosso treinador o Petit e ele ficava lá connosco. Tínhamos uma grande relação. Ele ainda dizia: “Mais um copo, pago eu. Mas depois, casa. E amanhã, se não derem o litro, estão tramados comigo.” Era um grande grupo mesmo. O avançado (à direita) em ação pelo V. Setúbal NurPhoto O que aconteceu no final dos três anos no Boavista? O contrato era baixo, era o mínimo da I Liga. Eles diziam que se jogássemos o contrato ia ser renovado. Eu estava a jogar, e nada. Não me chamavam para renovar. Novembro, dezembro e nada. Janeiro, fevereiro, nada. Acabei por fazer boa época nesse ano de estreia, garantimos a manutenção a três jogos do fim e fiz seis ou sete golos, era dos jogadores mais utilizados. Fomos de férias e eles continuavam sem me dizer nada. Eu ia entrar em final de contrato, o meu último ano de contrato. Começou a ficar preocupado? Comecei. Voltámos e logo no primeiro dia de treino o Petit chamou-me, e ao Afonso Figueiredo, e disse: “Falei com a direção, disse-lhes que foram jogadores importantes na época passada e que este ano vão ser jogadores base, cruciais, fiquem descansados, já disse à direção que é para renovar-vos o contrato. Confio em vocês.” Dissemos que queríamos renovar. Entretanto, passa um mês, dois e nada. Já a época tinha começado e ninguém nos chamava. E ninguém nos chamou. Chegámos a janeiro, já em final de contrato, comecei a receber propostas com valores muito mais altos. Eu sempre a esperar pelo Boavista, sempre a esperar. Até que pensei, tenho de optar. De onde eram as propostas? Tinha uma da Rússia, outra da Grécia e uma do FC Porto. Assinei em março o pré-acordo com o FC Porto. O Boavista chamou-nos no final da época, quando garantimos a manutenção, para aí a duas jornadas do fim. Só que já não dava para eu assinar, porque já tinha um pré-acordo de quatro épocas com o FC Porto. Zé Manuel fotografado para a Tribuna, em Braga RUI DUARTE SILVA Assinou com o FC Porto na perspetiva de ir para a equipa principal ou sabia que era para ser emprestado? Era para ser emprestado no primeiro ano e depois, consoante o meu trabalho, poderia ser jogador na equipa do FC Porto. O interesse do FC Porto em si surgiu da parte de quem? Do Antero Henrique, porque nesse ano o FC Porto teve vários treinadores e o novo ia ser o Nuno Espírito Santo. Onde fez essa pré-época? Já em Setúbal? Não, fiz a pré-época no FC Porto e segui para Setúbal na terceira semana. Ainda esteve com o Nuno Espírito Santo. O que achou dele? Brutal. Umas condições mesmo boas, o Boavista na altura não tinha os campos que tem hoje. O Nuno Espírito Santo era muito exigente. E bem. Treinos muito puxados, mesmo para levar ao limite e a que não estava habituado, é a realidade. Quando lhe falaram no empréstimo ao V. Setúbal ficou contente? Por acaso torci um bocado o nariz porque queria ir para fora. Porquê? Queria experimentar outro campeonato. Também tinha tido propostas para sair e estava com aquela ideia de sair para outro campeonato, mas apareceu o Vitória, o mister José Couceiro ligou-me e convenceu-me. Como o convenceu? Falou-me da equipa que queria. Ele queria dois ou três jogadores do FC Porto, dois ou três do Sporting e dois ou três do Benfica e senti que íamos ficar com uma equipa forte. No dia do casamento com Vanessa D.R. Foi viver sozinho para Setúbal? Não, fui com a minha mulher. Já vivíamos juntos desde o meu 2.º ano no Boavista. Como foi a experiência em Setúbal? Gostei muito. Tinha um grande grupo, adorámos a cidade. O Vitória não tinha muitas condições. Treinávamos sempre no estádio, não tinha relvados de treino, mas gostei muito do clube, das pessoas. E do José Couceiro como treinador? Também gostei bastante, acabámos por fazer uma boa época. Tínhamos bons jogadores. Houve algum jogo ou momento mais marcante nessa época 2016/17? Lembro-me do jogo com o Benfica, em casa, que fiz golo e recebi umas 300 mensagens de adeptos do FC Porto [risos]. Na altura o Benfica estava seis ou sete pontos à frente do FC Porto, em 1.º. Nós ganhámos 1-0 com um golo de cabeça que marquei ao Ederson e o FC Porto encurtou para três ou quatro pontos a distância. Quando entrei no Instagram, tinha para aí 300 mensagens de adeptos portistas, todos contentes. E umas quantas de benfiquistas menos contentes [risos]. O empréstimo era de apenas um ano, certo? Sim. No final da época eu disse ao FC Porto que queria ir para fora e fui para o Wisla Cracóvia, da Polónia. Porquê a Polónia? Foi o que surgiu, pesquisei o clube, o campeonato e resolvi ir. Na época 2017/18 Zé Manuel foi emprestado ao Wisla de Cracóvia, da Polónia D.R. Como foi o primeiro impacto quando chegou a Cracóvia? Foi muito bom, deu logo para ver que era um clube grande, com muitos adeptos. O estádio não era novo, mas tinha uma envolvência muito boa. O clube também tinha um centro de treinos a 40 minutos do centro da cidade e era grande, tinha ginásio, tinha dois relvados, eram um centro de estágio bom. Foi bem recebido no balneário? Fui. O adjunto era o Gonçalo Feio, que agora é treinador do Legia de Varsóvia. Ele falava português, espanhol, polaco, tudo e mais alguma coisa e ajudou na integração. O que achou dos jogadores polacos? Estavam sempre na deles, não brincavam connosco, os estrangeiros. Mas tinha lá uns sete ou oito espanhóis e estávamos sempre juntos, criámos um bom grupo, jantávamos sempre na casa uns dos outros e passou-se bem. Foi com a sua mulher? Sim, a minha filha Maria Clara tinha nascido no final da época, em Setúbal, foi com três meses para lá. Foi complicado por causa do frio. Ia treinar de manhã, ia buscá-las no final do treino para almoçar e quando saíamos do restaurante já era noite e às vezes estava a nevar bem. Isto ainda não eram três da tarde. Metia-me um bocado de confusão, porque nem dava para passear com elas. Um bebé de três meses, na neve e nós pais de primeira viagem, é sempre complicado. Estávamos sempre com medo que pudesse ficar doente. Então a vida era muito treinar e estar em casa e isso acabou por desgastar um pouco. Os polacos no dia a dia eram simpáticos? Eram um bocado frios. Com a mulher e a filha Maria Clara D.R. Tem alguma história para contar da Polónia? Uma vez, fui a um restaurante e, quando entrei, o empregado veio logo falar comigo: “Tu és português do Wisla Cracóvia?”; eu disse que sim. “Ainda bem que vieste aqui. Temos aqui uma carne que veio de Portugal.” Eu a ver a lista e ele sempre a querer oferecer a carne, dizia ser de umas vacas criadas no Alentejo e mais não sei quê. Chateou tanto que cedi. Depois veio dizer que com a carne tinha de provar um vinho não sei quê. Recusei o vinho, disse-lhe que não ia beber álcool e mandei vir água. Comemos a carne, era realmente inacreditável, mesmo boa, top, top. Comentei com a minha mulher e chegámos à conclusão que foi a melhor carne que comemos na vida. Quando veio a conta. Eram 400 e tal euros. Só pelo prato e pela água. Como reagiu? Chamei-o. Disse que devia estar errado. Ele disse que não e disse que comemos carne kobe. Fui pesquisar e percebi que nos deram kobe japonesa, uma das carnes mais caras do mundo. Como é possível? Fomos ali, do nada, só para um almoço a seguir a um treino, tranquilos, nem bebemos vinho, estivemos lá meia hora e pagámos quase €500 [risos]. Hoje estou a rir, mas na altura não achei graça nenhuma. Ele enganou-nos. Mas tive de pagar, tinha comido. Tem mais algum episódio de que se recorde? Eu tinha acabado de chegar e era uma semana de dérbi entre o Wisla Cracóvia contra o Cracóvia, mas eu nem estava muito a par da rivalidade, era a primeira vez que jogava fora. Nos primeiros treinos da semana, veio um diretor do clube falar aos jogadores. Começa a dizer para termos cuidado durante a semana, para não andarmos no shopping, para não andar na rua a passear, para ficarmos mais por casa. Achei estranho, mas como também nas primeiras semanas só treinava e não saía muito… A semana foi passando, na sexta-feira vamos para a reunião e o Kiko Ramirez, o nosso treinador espanhol, começa a reunião com uma foto do carro dele no estacionamento do shopping, sem rodas. Tinha ido ao shopping e os adeptos do Cracóvia sabiam que aquele era o carro dele e tiraram-lhe as rodas [risos]. Durante um treino na Polónia D.R. Gostou do futebol polaco? Gostei muito, na altura achava que era diferente do português, dizia que o futebol lá era muito físico, com marcações homem a homem e que em Portugal não havia nada daquilo. Mas agora vejo muito desse futebol em Portugal: marcação homem a homem, pressão alta, marcação no meio-campo todo e muita intensidade. Claro que em Portugal há mais qualidade técnica. Lá era mais físico. Gostei muito dos estádios, os clubes sempre com boas condições, boa envolvência do jogo, muitos adeptos no estádio, mesmo naqueles jogos que não são grandes. Quanto tempo esteve em Cracóvia? Eu estava com alguns problemas físicos nas costas por fazer muito ginásio. Eles fazem muito ginásio. Eu tinha de parar. O treinador espanhol veio falar comigo, disse ter de ganhar porque o queriam despedir e que eu e os outros estrangeiros tínhamos de ajudá-lo e por isso tinha de jogar. Resolvi tentar e fui para o treino, começámos com um meiinho, eu estava no meio e, ao fazer um corte, senti um estalo na coluna. Fui para o balneário. No posto médico disseram para ir tomar banho e passar por lá para me reavaliar. Quando cheguei ao banho já não conseguia mexer-me, nem conseguia tomar banho. Fiquei bloqueado. Fiquei sem me mexer da cintura para cima uns três dias. O que lhe disseram? Fiz ressonância e disseram que rasguei um elo da coluna e tinha que parar um mês e tal. Quando voltei aquele treinador já tinha saído e era um polaco que estava a acabar a época. Acabei a metade da época, eles param em dezembro e voltam em fevereiro, vim para Portugal e disse que ia ficar cá porque a minha filha não estava a adaptar-se bem. Zé Manuel fotografado para a Tribuna, em Braga RUI DUARTE SILVA Porquê? Porque estávamos muito tempo em casa, só os três e ela estava a ficar muito apegada a nós, não tinha contacto social, nem com a família. Como eu também não passava a melhor fase, resolvi ficar em Portugal. Mas já tinha alguma alternativa? Ia rescindir com o FC Porto e assinar pelo Marítimo, porque o mister Daniel Ramos falou comigo, queria que eu fosse para lá. Isto em dezembro. O mês de janeiro começou, passou e nada. Não se concretizou. Andámos ali em negociações durante um mês. Não se concretizou porquê? Porque o mister Daniel Ramos queria que eu fosse, mas a direção queria meter outro jogador, um argentino. Andaram ali num braço de ferro. Entretanto, disseram que o Marítimo não tinha boas relações com o FC Porto. Eu disse que rescindia com o FC Porto e que ia, mas, a três dias de fechar o mercado, o Daniel Ramos disse-me que não conseguia e que eles tinham contratado o argentino. O FC Porto disse-me que ainda havia mercados abertos, da Hungria e Bulgária, salvo erro, só que eu queria ficar cá e apareceu no último dia o Feirense. Aceitei porque queria ficar perto da família, ainda por cima era aqui no norte. Foi talvez um bocado precipitado, mas fui. Jogou pouco nessa época. Sim, também não recuperei bem da lesão. O posto médico na Polónia não era bom, tinha que fazer tratamentos numa clínica, à parte, e fiquei um bocado chateado. Não recuperei bem da lesão e cheguei com alguns problemas ao Feirense. A época já ia a meio e quando entras a meio tens de estar bem fisicamente, senão é mais difícil apanhar o comboio e eu não apanhei. Mostrar conteúdo oculto “Na Roménia, o médico de 70/80 anos, pediu-me para subir e descer uma cadeira, com as calças de ganga e botas. Foi isto o teste médico” Zé Manuel está no 2.º ano do curso Treino Desportivo, na Universidade da Maia e a jogar no UD Oliveirense, da II Liga. Nesta II parte do Casa às Costas, o avançado relata inúmeras histórias vividas na Roménia, para onde foi jogar pela mão de Jorge Costa, uma delas relacionada com o nascimento do filho Valentim - e que mete cartões amarelos. Fala de superstições, descrevendo vários episódios que viveu e assistiu ao longo dos anos. Recorda a passagem pelo Santa Clara, a subida de divisão pelo Rio Ave e a época no Nacional da Madeira Na época 2018/19 foi para o Santa Clara, mas ainda tinha contrato com o FC Porto. Foi emprestado? Não. O FC Porto queria rescindir, não podia emprestar porque atingiu um limite de jogadores emprestados. Cheguei a acordo com eles e assinei dois anos no Santa Clara. Foi para os Açores com mulher e filha? Sim, conhecia alguns jogadores e fui bem recebido. Estava lá o Tiago Santana que esteve comigo no Vitória de Setúbal, depois foi o Fábio Cardoso. Tínhamos um grande grupo. Tínhamos coisas surreais. Por exemplo, tomávamos o pequeno-almoço juntos num sítio estipulado, depois íamos para o estádio, equipávamos e íamos de camioneta para um relvado. Eram cinco minutos de camioneta, mas nesses cinco minutos a malta chegava a suar ao campo. O que faziam na camioneta? Entrávamos na carrinha e havia logo porrada uns contra os outros, o Ukra, o Chico Ramos, o Marco, o Fábio Cardoso, o Mamadu, tudo à porrada, na brincadeira. O Chico entrava no autocarro, mandava uma boca qualquer ao Marco, o Marco ia para cima dele e começava; vinha o Ukra, depois o Fábio Cardoso ia ajudar o Marco, quando dávamos por nós estávamos quatro contra quatro, à porrada, no autocarro. Chegávamos a suar ao campo [risos]. O treinador João Henriques, como reagia? Desde que ninguém se aleijasse estava tudo bem para ele. Não havia muita coisa para fazer em Ponta Delgada então estávamos sempre todos juntos. Íamos jantar, uns oito ou nove, íamos ao bowling, as mulheres também se davam bem, foram dois anos espetaculares, com um espírito de grupo enorme. Em 2019/20 Zé Manuel assinou duas épocas pelo Santa Clara D.R. Que momentos marcantes tem desses dois anos? Nesse primeiro ano fiz um golo ao Casillas, contra o FC Porto. Na segunda época há a vitória na Luz, estávamos em pandemia. Marquei já depois dos 90 minutos e ganhámos o jogo. Devido à pandemia viajámos para a Cidade do Futebol que também foi um período marcante. Foram dois meses em que só estavam os jogadores sem as famílias, pensávamos que ia ser mau e não foi. Fazíamos tudo e mais alguma coisa para passar o tempo. Como, por exemplo? Às vezes, depois dos jogos, bebíamos uns copos na varanda, jogávamos às cartas… E mais umas coisas que não posso contar [risos] Após esses dois anos no Santa Clara, quis vir embora ou não quiseram renovar? Quis sair. Não é que não estivesse bem, mas as viagens já me cansavam um bocado. Passávamos muitas horas nos aeroportos. E achava que estava na idade de sair novamente para outro campeonato. Só apareceu o Gaz Metan, da Roménia? Não. Apareceram imensas coisas, mas fui rejeitando. Tive uma proposta ótima do Azerbaijão, logo a seguir a acabar o campeonato. Eu queria muito ir, porque o contrato que era bom financeiramente, por causa da cidade e do campeonato. Das conversas que tive com os diretores e com o treinador, achei que ia ser um bom projeto. Mas como foi uma semana após acabar o campeonato, a minha mulher disse para esperar mais um pouco, que as férias tinham acabado de começar, que podia esperar por outras propostas… Acabei por não ir e hoje arrependo-me um bocado. Teve outras propostas? Depois também falei com um treinador português para ir para a Arábia, ele já tinha falado comigo, em março, o clube ainda estava na II divisão e ele disse que se subisse queria-me lá. Fiquei sempre com isso na cabeça, acabaram por subir, mas não aconteceu porque um dos diretores tinha mais a receber por outro jogador. Coisas do futebol. Quando dei por mim, já era tarde, já tinham fechado os mercados. Foi quando me ligou o Jorge Costa e decidi ir com ele para o Gaz Metan. O avançado (à esquerda) tenta fugir de Miguel Luís do Sporting, num jogo da Liga, em 2019 Gualter Fatia Quais foram as primeiras impressões quando chegou à Roménia? O mister Jorge Costa tinha-me dito muito diretamente o que ia encontrar. Um clube nada de especial, mas com boas condições. Tinha uma academia e um hotel onde almoçávamos diariamente e passávamos a noite antes dos jogos; um campo de treinos e um relvado bom, um ginásio grande. Ele avisou-me que o problema é que ia encontrar uma cidade antiga, onde não se passava nada. Era uma aldeia. E era mesmo assim. No clube as coisas estavam bem, mas a cidade era muito, muito fraca. A minha mulher, entretanto, estava grávida do Valentim, o médico não recomendou que ela fosse para a Roménia porque ainda tinham doenças que em Portugal já estavam erradicadas e fui para lá sozinho. Custou-lhe deixar a família para trás? Sim, foi muito difícil. O Valentim nasceu em fevereiro e a história para eu assistir ao parto é caricata. Falei com o mister Jorge Costa, disse-lhe que a minha mulher marcou o parto porque queria que eu assistisse. Ele disse que como eu estava à bica, no próximo jogo, que era antes do nascimento do meu filho, tinha de levar amarelo e assim vinha descansado para Portugal. Eu disse que sim, que levava o amarelo, para ficar indisponível para o jogo seguinte. Eu ia jogar os 90 minutos, só que aos 50 e tal minutos há uma expulsão. Ele já tinha trocado os nossos extremos e há a expulsão do nosso central, ele tem de meter um central. Teve de sair, ainda sem o amarelo? Ele diz-me: “Ó Zé, vou ter de tirar-te.”; “Mas eu não levei amarelo”; “Tens de levar agora.” Está o jogador para entrar a meio-campo e eu no campo a ter que levar amarelo e eles com mais um, a dar chocolate. Eu não conseguia chegar aos gajos para dar porrada [risos]. Então, comecei a correr em direção a um jogador adversário, ele já tinha chutado a bola no outro central e eu em vez de parar, dei-lhe, sem bola. O árbitro para o jogo com um ar do género “o que é que este gajo está a fazer?” [risos]. Claro, deu-me amarelo. Yuri Matias, Ricardo Valente e Zé Manuel no balneário do Gaz Metan, da Roménia D.R. Tem mais histórias da Roménia? Tenho várias. Uma logo que cheguei. Eu e o Ricardo Valente fomos ao mesmo tempo para lá e, quando chegámos, disseram-nos que tínhamos exames médicos à tarde e que o diretor ia buscar-nos ao estádio. Entrámos no carro do diretor e ele: “É uma viagem chata.” Andámos uma hora e meia em estradas que eram só curvas e mais curvas. Chegámos a uma cidade e entrámos numa clínica toda a cair. Uma sala pequenina, eu e o Ricardo olhámos um para o outro e reparámos que não havia sequer um sítio para trocar de roupa. Estava frio, eu estava de casaco, botas e calças de ganga. Percebemos que não nos iam dar uns calções e umas sapatilhas, que ia ser mesmo assim. Olhámos para a sala e não tinha máquinas nenhumas, nem uma passadeira, uma bicicleta. Pensámos, não deve ser aqui. Chegou o médico, devia ter 70/80 anos, claramente em final de carreira e não falava inglês. Diz para começarmos, eu olhei para o Ricardo ele ria e eu comecei a rir. Virei-me para o médico e apontei para as minhas calças e botas, como quem diz “vou fazer os exames com isto?” Ele fez um gesto do tipo “deixa lá”. Afinal em que consistiam esses exames médicos? [Risos] Eu de botas, com calças de ganga, a subir e a descer uma cadeira, rápido; o médico parava de minuto a minuto para sentir a pulsação. Ao fim de uns cinco minutos eu já estava cheio de calor, e ele diz: “Podem ir embora.” Foi isto os exames médicos. Saímos de lá a rir que nem uns perdidos. Grande risota [risos]. Mais alguma? Recordo-me de um jogo que era muito longe, com o Botosani. O jogo era no sábado, viajámos na quinta-feira à tarde, fizemos metade do percurso, ficamos num hotel numa cidadezinha; na sexta, depois do pequeno-almoço, treinámos, almoçámos e seguimos viagem. Vamos para o jogo, perdemos 2-1. A seguir ao jogo, como estava tudo na azia, os responsáveis do clube decidiram fazermos a viagem de volta para Cracóvia toda de seguida. Demorámos umas 11/12 horas para chegar. Foi horrível [risos]. Lembrei-me de outra. Zé Manuel conseguiu assistir ao parto do filho Valentim D.R. Força. Houve um treino com o mister Jorge Costa, antes de um jogo, em que o pessoal estava na palhaçada, naqueles exercícios iniciais lúdicos. Estávamos a fazer o exercício que era só marcar golos com a cabeça e o Idrisa Sambú, um português que estava lá e que é fisicamente forte, às tantas, marca com o pé e sai a festejar, tudo a rir porque não valia o golo. Havia lá um romeno que tinha a mania que era mauzão e começou aos berros com ele, em inglês: “Acorda, já começou o treino, estás sempre a dormir.” E começou a ir para cima dele, fora de contexto completamente. Começámos a afastá-lo “estás parvo”. Estavam os romenos a tentar segurá-lo de um lado e nós a afastar o Idrisa do outro, quando o mister Jorge Costa pára o treino: “Ah, querem andar à porrada? Então venham cá, todos.” Meteu-nos, a todos, a fazer um círculo à volta deles e disse: “Agora resolvam aqui os problemas.” O Idrisa, que é uma paz de alma, levanta os punhos e começa: “Anda, anda, anda” [risos]. O romeno, obviamente, deu dois passos atrás, cumprimentou, pediu desculpa e seguiu o treino. Entretanto, o Jorge Costa vai embora, certo? Sim. Quando venho ver o nascimento do meu filho, a 2 de fevereiro, viajo no último dia de mercado, 31 de janeiro, o mister Jorge Costa assina no Farense nesse dia. Já não estive mais com ele. Zé Manuel (a chutar a bola) em ação pelo Gaz Metan D.R. Que tal os dois treinadores seguintes? Horríveis. Veio um romeno mesmo fraco, muito fraco. Depois começámos a treinar no sintético. Por causa da neve os clubes vão para fora, mas eles não quiseram para não gastar dinheiro e ficámos a treinar no sintético aqueles dois meses de inverno e eu não conseguia treinar no sintético. Chutei o balde mesmo. Só tinha visto o meu filho dois dias, estava mal por não estar com os meus filhos e disse para mim que não queria mais aquilo. O que aconteceu? Quando venho para o nascimento do Valentim, recebi uma chamada do Hugo Seco, que na altura estava no Farense, a perguntar se eu ia para lá. Eu disse que ninguém me disse nada, que só tinha vindo ver o meu filho nascer e que a seguir tinha de voltar para a Roménia. Ele: “O diretor é que me veio perguntar como tu eras, porque vinhas para aqui.” Achei estranho, mas no final do dia, quando li “Jorge Costa no Farense”, fiquei a pensar se teria sido por causa da ida dele. Mas não dava tempo para ir para lá. E finalizei a época no Gaz Metan. Depois disse-lhes que não queria ficar. Disseram que tinha de ir, marcaram-me viagem. Fui, ainda treinei lá duas semanas, mas depois apareceu o Rio Ave e assinei um acordo de rescisão. Deixou lá ficar muito dinheiro? Assinei um acordo em como eles iam pagar até final do ano, mas, entretanto, o clube acabou, agora espero reaver parte do dinheiro do fundo da FIFA para essas situações. Em 2021/22, o avançado foi para o Rio Ave D.R. Quem o quis no Rio Ave? O mister Luís Freire que falou comigo, o diretor e o presidente também. Era II Liga, não o assustou? Não, por ser o Rio Ave. Fui vendo a equipa que estava a ser construída, sabia que íamos ter equipa para subir e assinei dois anos. A primeira época correu bem, foram campeões da II Liga. Foi o seu primeiro título? Sim. Foi inesquecível. Que momentos e histórias tem para recordar do Rio Ave? No ano em que fomos campeões, tínhamos muitas brincadeiras no balneário e gozávamos muito uns com os outros. Eles diziam que eu era muito cismado, que tinha superstições. Eu era um jogador atento, se um jogador tinha umas chuteiras, fazia golo e na semana seguinte chegava com umas chuteiras novas, eu dizia-lhe: “Tem cuidado, as chuteiras estão a fazer golo, cuidado, não vais trocar.” Eles gozavam comigo por causa dessas coisas. Houve um Rio Ave-Sp. Covilhã em que no tempo que temos para ver o relvado antes do jogo, o Ângelo Menezes vinha com um café na mão e para brincar comigo atirou um restinho de café para a grande área e disse: “Esta baliza vai ter história. Vai-se passar muita coisa aqui.” E passou? Vamos para o jogo e eu marquei naquela baliza mesmo no final. Ele, todo contente: “Viste, viste, eu disse que nesta baliza ia-se fazer a história do jogo.” Passaram alguns jogos. Vamos ao Vilafranquense, vamos os dois outra vez ao relvado e ele voltou a fazer o mesmo, mas foi pousar o café atrás da baliza. Quando íamos em direção ao balneário para equipar, vemos dois jogadores do Vilafranquense em direção à baliza e começa ele: “Eles vão tirar o nosso café, vão tirar o nosso café.” Fomos os dois a correr para trás da baliza e ficámos à espera que os jogadores fossem embora, ficámos a proteger o café [risos]. Eles foram embora. O Vilafranquense faz golo na outra baliza, na 2.ª parte, estávamos a perder 1-0. Nos últimos minutos, o Pedro Mendes faz dois golos naquela baliza, do café, um golo aos 90' e outro aos 90'+3 minutos, foi a reviravolta da época, um grande festejo e o Ângelo "vês, vês, foi o café, foi o café", todo cismado [risos]. O mister Luís Freire entrava às vezes nessas brincadeiras. “Temos de fazer isto, como na semana passada” [risos]. Aliás, ele também tem uma história engraçada a propósito de superstições. Pode contar? Começámos a reparar que o mister tinha umas botas já muito velhas, abertas e tudo, e ele usava sempre aquelas chuteiras. Eu e o Angelo às vezes dizíamos-lhe: “Ó mister, está na altura de mudar essas chuteiras.” E ele: “Não, não. Estas chuteiras acompanharam-me sempre, desde as divisões inferiores, tenho de usar isto, está comigo desde sempre. Isto é trabalho, é trabalho.” Entretanto, passados uns jogos com vitórias seguidas, o mister aparece de botas novinhas. Nós todos: “É isso mister, bota nova.” Vamos para o jogo e empatámos. No primeiro treino da semana, olhámos para os pés do mister e lá estavam as botas antigas [risos]. Era só eu o cismado? Está bem. Como começaram essas suas superstições? No primeiro ano de sénior, no Merelinense. Havia dois avançados na equipa sénior que disputavam o lugar. As coisas não corriam bem e o avançado que não jogava levou uma santa com meio metro para o balneário. Disse que havia muita coisa negativa e que a santinha nos ia dar sorte. Fomos treinar. Acabou o treino, chegámos ao balneário e a santinha já não estava lá. Toda a gente a perguntar pela santa. Estava no armazém do roupeiro. Tinham tirado a santa. Quem foi? O avançado que estava a jogar. Ele dizia: “Não pode ser ele a trazer uma santinha, porque me vai dar azar, não vou fazer golos e ele é que vai fazer os golos. A santinha não pode estar no balneário, que lhe vai dar sorte a ele e não a mim” [risos]. O avançado (na foto com o troféu de homem do jogo) esteve emprestado ao Nacional da Madeira em 2022/23 D.R. Acabou por não fazer as duas épocas completas. Ainda iniciou a segunda época, 2022/23, no Rio Ave, mas acabou por sair. Porquê? Fiz o primeiro jogo, mas depois, ao falar com o mister Luís Freire, fomos diretos um com o outro. Ele disse que não ia ter tantas oportunidades como na época que passou. Explicou porquê? Ele já estava a ver outros jogadores e foi direto. Disse que ia perder algum espaço, mas que dependia sempre do meu trabalho. Que podia ficar, contava na mesma comigo, mas queria ver outros jogadores. Eu preferi ir para um sítio onde sentisse que ia ser importante. E fui para a Madeira, para o Nacional. Com a mulher e filhos? Sim. Foi um clube de que gostei muito, as pessoas trataram-me sempre bem, a minha mulher também adorou a Madeira. Foi um ano excelente. Fui por empréstimo. Estava em final de contrato e queria fazer boa época para sair para fora. Mas acabou por continuar no Rio Ave. Porquê? Porque o Rio Ave teve um impedimento da Liga, não podia inscrever jogadores e pediram-me para renovar. Como eu gostava das pessoas, e para ajudar, fiquei. Em 2023/24, Zé Manuel regressou ao Rio Ave D.R. Como foi essa época 2023/24, com o Rio Ave já na I Liga? Foi difícil, mas tínhamos um grande grupo. Até janeiro tivemos alguns problemas com salários, foi público, e aguentámos bem. Foi importante estar lá malta que conhecia bem o clube, para segurar o barco. Em janeiro, com a entrada dos investidores, as coisas melhoraram e entraram jogadores novos, que nos ajudaram; acabou por não ser uma época fácil, mas conseguimos ficar 13 jogos sem perder na I Liga, penso que foi um recorde para o Rio Ave. Só renovou uma época? Sim. No final dessa época não quiseram renovar e eu também não quis esperar muito pelo facto de estar a estudar, queria ficar aqui no norte para continuar a estudar. Quando recomeçou e o que estuda? Estou a tirar Treino Desportivo, na Universidade da Maia. Inscrevi-me quando estava no Feirense, só que, entretanto, fui para o Santa Clara e tive de congelar a matrícula. No ano passado retomei, fiz o 1.º ano e agora estou no 2.º. Com que objetivo está a fazer esse curso? Quero seguir a carreira de treinador. Primeiro como adjunto. Depois também quero tirar a prática do nível 2 e o nível 3, do curso de treinador. Para já quero tirar esta licenciatura para depois ver se faço o mestrado em ensino, para abrir duas opções. Quero ser treinador ou professor. Ainda tenho tempo para pensar bem. Esta época 2024/25, Zé Manuel assinou pelo UD Oliveirense D.R. Tem alguma meta para deixar de jogar? Para já ainda não penso nisso. Sinto-me bem fisicamente. Agora, não quero arrastar-me muito, por isso é que estou a preparar o final da carreira. Sei que vai custar-me bastante. Fui acompanhando de perto o final da carreira de um amigo, o Ukra, e sei que foi difícil para ele. Ao vê-lo, pensava que está a chegar a minha hora e que também vai ser duro para mim. Onde ganhou mais dinheiro? No FC Porto. Investiu? Investi em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprar o meu X4. Tem algum hobby? Jogar PlayStation. Acredita em Deus? Acredito. Mas sou menos praticante do que devia. Quando marca golo costuma olhar e apontar para o céu. Qual o significado? É para o meu pai. Faleceu no meu 1.º ano de Boavista, em 2013. Eu tinha 22 anos. Foi um momento muito duro. Tão duro que logo no primeiro exercício do primeiro treino a seguir ao funeral rasguei o músculo e fiquei um mês e tal parado. O avançado a fazer um dos três golos que marcou no jogo de apresentação frente a FC Porto B, que a UD Oliveirense venceu por 3-1 D.R. Segue ou pratica alguma outra modalidade além do futebol? Praticar não pratico porque não posso, mas sigo futsal e andebol. Qual é a maior frustração que tem na carreira? Talvez não ter tido hipótese de renovar com o Boavista. E o maior arrependimento? Não ter saído para Israel quando estava no Santa Clara. O momento mais feliz da carreira? O título de campeão pelo Rio Ave, na II Liga. O objetivo que ficou por cumprir? O que muitos jogadores não cumpriram: jogar na Champions League. Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? No Atlético de Madrid. Desde o tempo do [Fernando] Torres lá, sempre gostei e sempre acompanhei. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Fábio Cardoso, Ukra, Ângelo Menezes, Chico Ramos, Joca e Edinho Tem ou teve alguma alcunha? Não. Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Não. O que pensa do VAR? Quando é bem utilizado é uma ferramenta muito útil. Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Pepe. Quando pensamos uma coisa, ele já pensou. Tem algum talento escondido? Não. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Talvez professor de Educação Física. Qual o golo mais bonito que marcou? Foi no Santa Clara, ao Leixões, um remate fora da área de primeira. O 1o spoiler está todo f*dido Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 29 Setembro 2024 Citação de a.lopes, há 1 hora: O 1o spoiler está todo f*dido Agora que estou no telemóvel já reparei nisso mas se vires no computador está normal. Compartilhar este post Link para o post
silentz Publicado 29 Setembro 2024 Podes meter esta do Vidigal sff? https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-02-04-Tive-um-colega-com-excesso-de-peso-que-passeava-de-Ferrari-em-Napoles.-Os-adeptos-foram-a-casa-dele-e-encostaram-lhe-uma-faca-no-pescoco-0dd96449 https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-02-03-A-cara-do-presidente-do-Estoril-Praia-a-olhar-para-o-Carlos-Manuel-dizia-tudo-Estas-maluco--Vamos-assinar-com-um-jogador-de-muletas--12dea9da Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 30 Setembro 2024 Citação de silentz, Em 29/09/2024 at 13:34: Podes meter esta do Vidigal sff? https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-02-04-Tive-um-colega-com-excesso-de-peso-que-passeava-de-Ferrari-em-Napoles.-Os-adeptos-foram-a-casa-dele-e-encostaram-lhe-uma-faca-no-pescoco-0dd96449 https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-02-03-A-cara-do-presidente-do-Estoril-Praia-a-olhar-para-o-Carlos-Manuel-dizia-tudo-Estas-maluco--Vamos-assinar-com-um-jogador-de-muletas--12dea9da Spoiler “A cara do presidente do Estoril Praia a olhar para o Carlos Manuel dizia tudo: ‘Estás maluco? Vamos assinar com um jogador de muletas?’” Luís Vidigal, 50 anos, quase dispensa apresentação tendo em conta a tão conhecida história de família dos irmãos Vidigal, pois cinco deles jogaram no escalão mais alto do futebol português. Fomos ouvir o seu percurso, contado na primeira pessoa, através de uma entrevista onde o antigo médio, entre muitas outras coisas, fala da caça aos passarinhos com o irmão Lito, da morte do pai no ano em que dá o salto do Elvas para o Estoril Praia (enquanto recupera de uma lesão), das palavras de incentivo de Carlos Queiroz e do episódio em que um dirigente diz que tem de procurar outro clube. E falámos também da festa do título no Sporting, da ida aos Jogos Olímpicos de Atlanta e da partida para Nápoles, três dias depois de ter casado Nasceu em Angola e veio para Portugal com dois anos. Quem veio consigo? Vieram os meus pais, Vítor e Deolinda, e os meus 11 irmãos. Na altura éramos 12, o Jorge já nasceu em Portugal. A nossa vinda para Portugal é sem dúvida o marco principal e mais forte da família Vidigal. Porquê? A fuga de uma guerra não deveria acontecer nunca para ninguém. Nunca. Muito menos para uma família com 12 filhos e as dificuldades que isso acarreta. A única condição que os meus pais colocaram para viajarmos foi virmos todos dentro do mesmo avião. Felizmente, foi-nos permitido viajar e cá estamos nós. Ficaram a viver onde? Primeiro fomos para um hotel desativado, em Vidago. O incrível é que ainda continua desativado. Ainda não consegui levar lá os meus filhos, mas quero levar. Ficámos em Vidago dois anos. O que faziam profissionalmente os seus pais em Angola? Nós pertencíamos a uma família de classe média-alta, com terreno agrícola, com oficinas do meu pai, que era carpinteiro. Tínhamos uma vida super tranquila, espetacular. E viemos para cá com uma mão à frente e outra atrás, com as dificuldades que isso representa para uma família de 12. As dificuldades que os meus pais encontraram para fazer de nós aquilo que somos hoje, não conseguimos medir. Não temos noção. Às vezes sentimos uma ansiedade quando um filho nosso está mal-disposto, ou tem uma coisinha, agora, imaginem o que é na aproximação à hora de uma refeição, os meus pais pensarem o que vamos dar de comer aos nossos filhos? Porque isto aconteceu, algumas vezes. Entretanto, a Cruz Vermelha depois encontrou terrenos em Elvas, que foram cedidos àqueles que faziam parte daquele grupo e fomos para Elvas. Mas teriam de ser as próprias pessoas a construir as casas. Ou seja, enquanto estás a construir a tua casa, não estás a trabalhar, não consegues dinheiro. É muito complicado. Essa casa ainda existe? Ainda hoje existe no bairro da Cruz Vermelha, em Elvas, é lá a sede dos amigos e da família. Deolinda e Vitor, os pais do clã Vidigal D.R. Quando fala em dificuldades em levar a refeição para todos à mesa, alguma vez passou fome? Não era propriamente passar fome, mas sentimos fome. Muitas vezes não nos alimentámos de acordo com aquilo que eram as necessidades e nós hoje não conseguimos dissociar o sucesso escolar, o crescimento e desenvolvimento do carácter e da personalidade, de uma boa alimentação. Mas, mesmo assim, conseguimos ter sucesso. Alguma vez viu os seus pais chorar? [Pausa] Poucas vezes. Só em circunstâncias de perda de um familiar. Eles foram muito fortes. A minha mãe chora mais hoje do que chorou na altura. Acredito que da parte deles tenha havido essa estratégia de não passar a mensagem da dificuldade e de problemas. Aguentar. Ensinaram-nos sempre a ser fortes, a sermos resilientes e a sabermos sofrer. Se nós temos algum herói, não é da banda desenhada, nem de Hollywood. São, sem dúvida alguma, os meus pais. Foi uma criança tranquila ou deu muitas dores de cabeça? Sempre fui tranquilo. Já contou em várias entrevistas que ia à caça aos passarinhos para ganhar algum dinheiro. Quem o desafiava, era o Lito? [Risos] Ui, o Lito. O Lito já na altura era o estratega. Sempre teve esse lado de gestão, de líder, de controlar. Essa fase de irmos aos passarinhos é uma fase em que somos semi adultos, eu tinha uns 14, 15 anos e ele mais quatro. Nós temos noção de que há condições para conseguirmos amealhar um dinheirinho para as nossas coisinhas, porque as dificuldades continuavam, e lá vamos nós para debaixo das amoreiras com uma pressão de ar, apanhar pardais para vender. Tivemos sempre esse lado de colaborar e de querer ajudar. Quem tinha melhor pontaria? O Lito precisava dos óculos da minha mãe para ver melhor [risos]. Talvez fosse eu, não sei. Não vamos fazer essa discussão [risos]. Gostava da escola? Gostava. Não gostava de estudar, mas sempre fui um aluno com ótimo aproveitamento. Tinha consciência da responsabilidade que era estar numa sala de aulas. Sempre fui um aluno exemplar em termos de educação, de respeito. Apanhava com muita facilidade a matéria. Sempre tive sucesso. Agora, não era uma coisa que eu fazia com alegria como, por exemplo, faz o meu filho mais novo, que ama a escola. Mas tinha noção que era importante. Luís em criança D.R. Como nasceu a paixão pelo futebol? Talvez da inteligência dos meus pais em encontrar um brinquedo apenas, que servia para todos, que conseguisse concentrar a atenção de todos: uma bola. Éramos nove rapazes e quatro raparigas. Três das raparigas chegaram mesmo a jogar futebol. Num bairro como o nosso, em que toda a gente entrava em casa de toda a gente e todos cuidavam uns dos outros, a verdade é que se já somos uma família enorme, nós éramos muito mais, nós construímos o nosso campo. Essa é outra história incrível. Conte. Tomámos conta de um espaço, mais ou menos plano, fomos tratando dele, tirando pedras, fomos às obras pedir emprestadados uns barrotes de madeira. Fizemos as balizas. E tínhamos o nosso conhecido maracanãzinho. Infelizmente, hoje já com casas por cima, devido ao crescimento da cidade. Lá em casa torciam porque clubes? O meu pai era homem que tinha azulejo do bom chefe de filia, era benfiquista. Mas houve sempre liberdade, ele nunca impôs nada a ninguém, tanto assim é que metade era do Benfica, outra metade do Sporting, o Lito sempre foi do Belenenses. Eu era do Sporting. Uma das balizas do estádio "maracanãzinho" que os manos Vidigal (de costas na foto) ajudaram a construir pouco depois de chegarem a Elvas D.R. Quando começou a jogar futebol no clube, no Elvas? Havia torneios de futebol salão, que eram jogados com muito entusiasmo, com bancadas cheias. A partir daí surgiu o interesse dos clubes da cidade em observar alguns miúdos do Bairro da Cruz Vermelha que andavam por ali a jogar e que até tinham jeito para a coisa. E fui para lá com oito ou nove anos. Ainda se lembra de ver o Elvas jogar na I Divisão? Claramente. O Elvas sempre foi o clube do nosso coração. Tinha ídolos no futebol? Tenho. Infelizmente, já não está entre nós fisicamente, mas estará sempre na mente. Nunca fui muito de idolatrar quem quer que fosse, admiro muitos jogadores, mas pela influência e importância que ele teve na minha vida e na dos meus irmãos, claramente o meu irmão Beto. Ele foi o pioneiro, foi aquele que se destacou rapidamente em circunstâncias muito, muito difíceis. Um rapaz recém-chegado à cidade, que consegue atrair atenção ao ponto de ser uma das principais figuras do clube, que sobe creio que da III até à I Divisão; joga na I Divisão com o clube e depois é uma das primeiras vendas, digamos assim, do clube. Ainda em pequeno o que dizia querer ser quando fosse grande? Sempre foi jogador de futebol, nunca tive outra coisa na cabeça. Luís Vidigal (3º atrás à direita) no Elvas D.R. Quando sentiu pela primeira vez que esse sonho era realizável? Foi no Elvas. Só para enquadrar. Nós jogávamos todos os dias neste maracanãzinho. E jogávamos com quem lá estivesse, tivesse 20, 30 ou 40 anos; e nós tínhamos 10, 12 anos. Ou seja, crescemos muito rápido. Não tivemos as condições que a grande parte dos jovens que estão a sonhar em tornar-se profissionais de futebol têm, porque têm treinadores qualificados, condições de trabalho extraordinárias. Nós não. Tivemos zero. Na minha formação, com o imenso respeito e gratidão que tenho pelos treinadores com quem trabalhei, dificilmente eles conseguiram dar, em alguns aspetos, aquilo que eu precisava na altura. Mas deram-me outras coisas. Recentemente li qualquer coisa sobre o [Miroslav] Klose, o alemão que jogou na Lazio e ele falava da sua passagem na Itália, ainda daquela mentalidade da velha guarda, de levar o cesto dele para o treino, de limpar o lugar dele no balneário depois de acabar o treino e de tomar banho. Os colegas olhavam e perguntavam: “Mas para quê?” E ele respondia: “Porque é justo. Porque é que tem de ser um senhor com 60 anos a limpar o que tu estás a sujar? Vamos ajudar, vamos ser equipa.” Estas coisas foram-nos dadas e passadas por gente que não se preparou academicamente para ser treinador, mas talvez faça muita falta atualmente. Isto para dizer que fui percebendo rapidamente que tinha algo que os outros não tinham. Podia não ter a leitura do jogo, os apoios, as receções orientadas e por aí fora, ninguém nos ensinava, mas nós encontrávamos soluções. Eu e os meus irmãos fomos percebendo também pelo trajeto no Elvas e até pela aposta do próprio clube, que havia um interesse para que nos desenvolvêssemos como atletas, não apenas como jogadores, nomeadamente no cuidado da alimentação, e que naturalmente nos colocaram num patamar superior. Confirmou-se de facto o nosso potencial. Lembra-se da sua estreia como sénior no Elvas? Teria talvez 17 anos quando comecei a fazer jogos pela equipa principal, em jogos de reserva, onde jogavam os que não eram convocados, praticamente. Jorge, Beto, Luis e Toni Vidigal D.R. Quando começou a ganhar dinheiro com o futebol? É uma história gira. O meu primeiro salário no Elvas foi a módica quantia de 20 contos [€100], e eu deixava parte do salário em casa, à minha mãe. Mas eu nem queria saber se era 20, se era cinco contos. Era para assinar contrato com o Elvas, na primeira equipa, eu só perguntei, “onde é para assinar?” [risos]. Tinha 18 anos. Deixava parte do salário com a sua mãe porque ela lhe pedia? Não. A responsabilidade já lá estava. Nada era mais importante do que aquilo que a família precisava. Não havia a mínima hipótese, nós crescemos a pensar dessa forma. Mas, esses 20 contos, transformaram-se rapidamente. Como assim? Esta é uma mensagem para os mais novos: não se foquem no valor do vosso contrato, foquem-se naquilo que vocês podem fazer para esse valor ser valorizado. Nessa época, nos primeiros quatro jogos, creio, não fui titular. Entrei em todos os jogos, tinha a sensação, a noção, para não dizer a certeza, que merecia mais do que quem jogava na minha posição, mas entendia a razão do treinador, sempre a respeitar. Só que as coisas não correram bem e trocaram de treinador. Veio o mister Carlos Cardoso, talvez uma das figuras que ficará para sempre na história do futebol no Elvas, porque levou a equipa à I Divisão. E ele tornou-me titular, inclusivamente, capitão. Isto com apenas 18 anos. Resultado, o meu contrato foi revisto uns quatro meses depois e eu passei a ganhar cinco vezes mais. Sem pedir, sem fazer barulho, sem exigir, apenas a trabalhar, a respeitar os colegas, o treinador e o clube. E é assim que as coisas se fazem. O médio assinou pelo Sporting em 1995/96 D.R. Como surgiu a ida para o Estoril Praia na época 1994/95? No final de época, houve um jogo que não sei se foi o último, não me recordo bem, mas a época estava a acabar, os objetivos estavam alcançados e podíamos desligar pura e simplesmente. Mas, como costumo dizer, as oportunidades surgem sempre, só que às vezes não estamos lá, estamos a dormir, elas estão sempre lá, temos que ser nós, vivos, para agarrar. Não sabíamos, mas o mister Carlos Manuel foi a Elvas ver esse jogo no sentido de observar um jovem que tinha sido o titular na primeira equipa do Elvas, aos 16 anos: o Toni. Foi o único irmão com quem jogou na mesma equipa? Joguei também com o Beto. Tive o prazer, o privilégio, de jogar com o Beto e o Toni. O Beto e o Toninho eram mais criativos, muito mais para a frente, eu mais equilíbrio, segurança, mas joguei curiosamente com o Beto, creio que ainda fizemos algumas vezes dupla no meio-campo e uma ou outra vez os dois mais atrás. Mas dizia, nem eu, nem o Toni não fazíamos ideia que o Mister Carlos Manuel ia ver o jogo. Nesse jogo aconteceu aquilo que ninguém queria que acontecesse, fiz uma fratura na perna, saí do jogo. Passei uns dias no hospital até me recuperar. Entretanto, vim a saber que o Carlos Manuel, que vinha com a intenção de levar o Toni para o Estoril Praia, viu a possibilidade de eu poder ir também. Sei que na altura a minha mãe rapidamente se opôs a essa possibilidade. “Os meus filhos não saem daqui.” [risos] Quem a convenceu a deixar-vos sair? Os manos mais velhos, já com alguma experiência, disseram-lhe que era uma oportunidade e a coisa lá se resolveu. O contacto aconteceu na minha saída do hospital. Há uma viagem do mister Carlos Manuel com o presidente do Estoril Praia, até Elvas, para eu assinar contrato. Ainda estou de muletas, a recuperar, com gesso. A cara de espanto do presidente, quando me viu de muletas, e o olhar dele para Carlos Manuel… [risos] Estava a pergunta escrita na testa. “Mas tu estás bem da cabeça? Então vamos assinar com um jogador de muletas?” Apercebi-me daquele filme todo e digo, “epá, tenho de fazer aqui alguma coisa para o homem perceber que isto está quase”. Então larguei as muletas e consegui dar dois passos, para ele perceber que estava já numa fase adiantada de recuperação. Aparentemente terá acalmado e lá assinamos contrato. Sai do ninho com o irmão Toni para irem viver para o Estoril e nesse verão o vosso pai faleceu. Foi repentina a morte dele? Não, ele já estava doente. Foi uma mistura de sentimentos enorme, a alegria de dar um salto na carreira, a importância de termos feito os dois, porque foi fundamental. Já seria difícil mesmo estando o meu pai, imaginem sem ele. Vidigal esteve quatro anos em Alvalade D.R. Onde estava e quem lhe deu a notícia da morte do seu pai? Estávamos ainda em pré-época. Nesse dia, estava a fazer um trabalho de recuperação na piscina. O diretor, o senhor João, entrou e, é uma imagem que vai estar sempre na minha cabeça, olhou para mim e não me disse nada. Percebi logo. Saí da piscina, fui-me vestir, apanhei o Toni em casa e fizemos a viagem mais silenciosa das nossas vidas até Elvas, para nos despedirmos de um homem gigante. As honras de ter o Presidente da Câmara de Elvas e as pessoas mais importantes da cidade confirmam aquilo que de facto o meu pai era. Um homem super-respeitado. Só para que as pessoas percebam. Muitas das vezes que vou a Elvas e sou confrontado pelos mais velhos, eles não falam de mim, dizem: “Gostava muito do seu pai. O seu pai era um grande homem.” Como foram esses primeiros tempos a viver com o irmão, no Estoril? Chorámos muito, cada um no seu quarto. No resto, as refeições, nós traçámos planos, só que chegar de treinos e estar a cozinhar... Creio que no primeiro mês, entre aquilo que sabíamos fazer, que era quase nada, arroz mais ou menos, a massa era só cozer, salada toda a gente sabe fazer, era mais arroz com croquetes e croquetes com arroz do que outra coisa [risos]. Até que chegou uma altura em que dissemos: “Isto não está a correr nada bem, não é alimentação para nós.” Mesmo em frente ao prédio onde vivíamos existia uma tasca, que todos os dias tinha carne e peixe fresco. Era tudo o que precisávamos. Começámos a comer lá, num acordo em que pagávamos salvo erro uns €2 por refeição, que era nada, porque tínhamos peixinho fresco e carninha fresca todos os dias. Em ação pelo Sporting D.R. É nessa altura que se torna Atleta de Cristo? Sim. Nós já tínhamos esse sentido de cuidar uns dos outros, apesar de em Elvas não frequentarmos a igreja. A verdade é que a perda do meu pai levantou-me algumas questões, nomeadamente se ele ainda estaria a olhar por nós, a cuidar de nós. Fui a uma das reuniões dos Atletas de Cristo através de um colega do Estoril que me convidou. O Jairo lá fez a reunião em casa dele e é aí que eu abro o meu coração e digo aquilo que achava, que tinha uma boa relação com Deus e que falava diariamente com Ele, através do meu pai. E o pastor Salomão, um grande amigo, diz: “Só há um caminho. A palavra de Deus diz que eu sou o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vai ao Pai senão por mim. Portanto, esta coisa de ir por intermédio do A, do B e do C, é uma história gira, mas não é bem assim.” E aí, fez-se luz para mim. Que jogo ou que situação é que mais se recorda dessa época no Estoril Praia? Há um jogo que só ficou marcado porque a consequência desse jogo traz-me novamente à memória o que se passou. É um amigável Estoril-Sporting, onde jogavam ainda Figo, o Amunike, Juskowiak, Iordanov, Naybet, etc., e é um dos meus primeiros jogos pós-recuperação. Fui igual a mim próprio no jogo, o normal, que faço sempre, seja um jogo amigável, seja a contar. Passou. Quando sou contactado para a possibilidade de representar o Sporting, caiu-me a ficha e percebi que comecei a ser observado pelo Sporting a partir desse jogo. Ou seja, a minha prestação foi tão boa que a partir daí foram raras as vezes que eles não viram os meus jogos. Secretário do FC Porto e Vidigal, do Sporting, em luta pela bola num jogo da época1999/2000 Barrington Coombs - EMPICS Quem lhe falou no interesse do Sporting? Soube por intermédio do mister Carlos Manuel. Foi importante saber por ele, porque me preparou: “Não te assustes, é um clube gigante, mas quem dera a todos poderem representá-lo, a situação é esta, X anos de contrato, blá, blá, blá, o que queres ganhar?”; “Eu, mister? Eu não queria saber o que ia ganhar no Elvas e agora estou preocupado com o que vou ganhar no Sporting? Eu quero assinar, onde é que é para assinar?” E foi assim. Esse é um jogo que fica marcado. O outro, é o último jogo, com o Felgueiras de JJ [Jorge Jesus] e de Sérgio Conceição. O que aconteceu? O ambiente que encontrámos na chegada ao estádio foi estranho. Era um jogo que decidia muito, quem vencesse seguia para a I Liga. A verdade é que quando abrimos a porta do balneário e começámos a entrar, estavam lá quatro ou cinco artistas encapuçados. Os primeiros que entraram apanharam todos, socos, pontapés, uma confusão, e nós percebemos ao que íamos. No aquecimento começaram as ofensas para dentro do campo, as ameaças, vimos coisas que nem vale a pena dizer, coisas feias. Que tipo de coisas, revele lá? Vimos armas, coisas assustadoras. No intervalo, estava 0-0, com o jogo a pender mais para o nosso lado, e incendiaram as redes das balizas, foi um filme daqueles que a gente pensa: “Será que saímos daqui vivos hoje?” Foi assustador. Perdemos o jogo, não vou dizer que saí feliz, longe disso, mas naturalmente nem quero imaginar o que poderia ter acontecido se por acaso ganhássemos o jogo. Quando foi para o Sporting, foi viver para onde e com quem? O mano Lito já estava no Belenenses, e até encontrar a casa, fiquei com ele. Foi importante passar aqueles primeiros quatro ou cinco meses com ele. Pude beneficiar da grande qualidade na cozinha do chefe Lito, para além de um grande treinador; entretanto, hoje o Toni é um grande chefe também, não fica por dizer, mas o Lito aí já mexia bem na cozinha, e por isso foi cinco estrelas. Peter Schmeichel abraçado a Vidigal a festejarem o título de campeões nacionais pelo Sporting, em 2000 Getty Images Como foi entrar no balneário do Sporting cheio de craques, que só via na televisão? Foi top, mas com a humildade que teria de ser. De pé, à espera que todos sentassem, se sobrasse algum lugar era onde eu me sentava, até começar a ganhar o respeito de todos, que também foi rápido. Houve algum jogador que tenha sido mais simpático? O Sporting sempre recebeu bem. Aliás, se há algo que distingue muito os clubes portugueses dos estrangeiros, e posso falar até da experiência mesmo em Nápoles, um clube e uma cidade que me adoram, mas onde não foi o mesmo. Os clubes em Portugal, o Sporting em particular, não faltou com nada na ajuda e fui bem recebido por todos. Evidentemente, poder contar com o apoio do Marco Aurélio foi fundamental. É uma pessoa que cuida bem de toda a gente. Ele não sabe tratar mal as pessoas. Foi praxado? Provavelmente. Mas como eu acho isso tudo normal, nem me lembro, sinceramente. Mas, dizia que rapidamente fui aceite pelo grupo, porque eles perceberam ao que eu ia também. Muita seriedade, trabalho igual ou mais que os demais, respeito, e a partir daí eles olham e dizem “ok”. Luis Vidigal com a Taça D.R. O Carlos Queiroz teve alguma conversa em particular consigo? Um jovem que há um ano era perfeitamente desconhecido, que tinha vindo do Elvas, ok, que fez uma época gira no Estoril, mas há tantos que fazem épocas giras, chegar ao Sporting, cria alguma dúvida até em alguns elementos da própria estrutura. Lembro-me perfeitamente, no dia em que viajámos para uma semana de pré-época na Holanda, a dúvida se eu viajo ou não manteve-se até quase à hora de saída. Provavelmente poderia haver outro clube interessado e a possibilidade de eu ser emprestado aqui ou ali. Não sei. Mas foi nos últimos instantes que fazem a pergunta ao mister Carlos Queiroz. E ele, “claro que vem connosco”. Viajei com a equipa. Cinco dias após estar na Holanda, sou informado que o mister Carlos Queiroz queria falar comigo, em particular. Ele olhou para mim com um sorriso: “Estou super satisfeito com o trabalho que estás a fazer. Bastar continuares da mesma forma” e diz-me que iria fazer parte do plantel. Estava satisfeito com o trabalho do Carlos Queiroz? Ou seja, ele tinha uma maneira de estar e de treinar completamente diferente daquilo a que estava habituado no Elvas e também no Estoril, de Carlos Manuel? Costumo dizer que em Portugal há futebol antes de Carlos Queiroz e depois de Carlos Queiroz. Sinto que há alguma ingratidão, pela forma como ele muitas vezes é tratado por alguns portugueses. O Carlos revolucionou o futebol em Portugal a todos os níveis. Essa ingratidão deve-se a quê? Não sei, sinceramente, porque o trabalho que ele fez é um trabalho que não se esquecerá jamais, foi fundamental para nós hoje sermos considerados um dos melhores países a formar treinadores e jogadores. Recorda-se do jogo de estreia pelo Sporting? Perfeitamente, a lateral esquerdo, nunca mais vou esquecer. Tínhamos o Vujacic e o Nuno Valente, e o mister Queiroz faz uma reunião a sós comigo: “Vou precisar de ti, mas vais jogar numa posição diferente. A lateral esquerdo. Queres jogar?”; “Mister, até na baliza. Se o mister acha que eu tenho condições para jogar lateral esquerdo, jogo.” Na altura, o Edmilson, o loirinho do FC Porto, ia para cima e desequilibrava, criava grandes dificuldades, então, ele não podia tocar na bola. E lá foi o Luís para lateral esquerdo. Havia alguma figura do Sporting com quem se sentia mais intimidado? Tínhamos muita gente de valor. Nos primeiros momentos, uma personalidade como a de Vujacic, por exemplo, ou como a do Naybet, que é super disponível, mas depois tem aquele caráter bastante rigoroso, uma disciplina que às vezes ultrapassa até limites, nunca se sabe como se tem que abordar este tipo de colegas. Mas um grande amigo, ainda hoje falamos volta e meia. Ana Baiao Também esteve no jogo da Supertaça, em Paris, contra o FC Porto, que o Sporting venceu por 3-0? Não só joguei, como estive nos três golos. É a partir daí que começam os rumores de uma possibilidade de saída para a Inglaterra. Porque foi um jogo visto por muita gente. Estou nos três golos, duas assistências e uma grande penalidade sobre mim. É um jogo interessante, de que muito se falou na altura. Era uma coisa que já lhe passava pela cabeça, ir para fora? Eu ainda não conseguia assimilar o que estava a viver no Sporting. Evidentemente, quando se está no Sporting, existe essa possibilidade, mas estava longe de poder imaginar. Já tinha empresário? Eu tinha o empresário que me levou para o Estoril, o Jorge Gama, mas quase sem saber o que é um empresário, porque aquilo foi tratado praticamente pelo mister Carlos Manuel e o Jorge Gama que estava lá, assinava documentos, não havia aquela proximidade que hoje os empresários conseguem criar com o jogador. Tratam de tudo, sabem de tudo, até a nível familiar. Quando foi do Elvas para o Estoril, deixou algum coração partido em Elvas? Tinha uma namoradinha, de Portalegre. Aqueles namoricos, em que nos víamos no fim de semana. Continuámos no Estoril, mas depois foi complicado. Muitos jogos, distância, e acabámos. Deixou os estudos quando? Quando surgiu a oportunidade de tornar-me profissional e ter um contrato com o Elvas. O meu pai fez-me a pergunta mais difícil de responder, se queria jogar futebol de uma forma séria ou se queria continuar a estudar. Evidentemente, se ele me pôs aquela possibilidade, eu escolhi a bola. A seleção que foi aos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, num momento de descontração D.R. No Sporting viveu um momento agridoce muito badalado. Se por um lado deu a possibilidade ao clube de jogar as competições europeias, por outro, num jogo com o Bolonha em que foi expulso, viu um dirigente do clube dizer, após o jogo, que podia procurar outro clube. Quer recordar esses momentos e o que sentiu? Foi uma época espetacular em que estive nos Jogos Olímpicos de Atlanta de 1996 que, inclusivamente, levou o Sporting a renovar contrato comigo por mais três anos e a melhorar as condições. E aconteceu esse episódio. Muitas vezes, quem está de fora não tem capacidade de entender os momentos e olha apenas para o acontecimento, toma decisões e diz palavras que não controla. Pensa e sai. Temos de ter cuidado com aquilo que dizemos. Mágoa existe zero. Até porque, ainda que aquilo tenha saído da boca de um dirigente importante, quando vemos os colegas, o treinador e outros elementos da estrutura a posicionarem-se em nossa defesa, pensamos: “Aqui estou, estou protegido.” Isso é um episódio que tem a ver com uma expulsão de um jogo para as competições europeias, que tem uma história gira sobre controlo emocional. É um jogo em que o craque do Bolonha, Giuseppe Signori, ainda jogava, e ele levou o jogo todo a agredir o Marco Aurélio, sem o árbitro ver, não havia VAR, então cada lance em que a bola estava do outro lado ele ia lá e pisava, dava uma cotovelada, etc. Eu entrei para jogo e há um lance em que ele vem para cima de mim, eu sabendo que a intenção dele seria vir dar-me uma cotovelada ou algo assim, levanto os braços em proteção, ele choca comigo, põe a mão na cara e, ele era o senhor, eu era o Luís Vidigal, e o árbitro expulsou-me. Ok, aconteceu. E depois deu-se esse episódio do dirigente, que não faz sentido. Alguma vez Simões de Almeida falou consigo sobre esse episódio ou pediu-lhe desculpa? Não. Mas também eu não precisava. Luís Vidigal no jogo com a Argentina, no Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996 Matthew Ashton - EMPICS Fale-nos um pouco dos treinadores que teve no Sporting e diga com qual gostou mais de trabalhar. Tenho de começar pelo mister Carlos Queiroz, que me ensinou que o futebol era mais do que aquilo que eu pensava. O futebol não era só a bola, era muito mais do que a bola e onze. A minha formação foi um bocadinho treino físico à terça-feira, 11 contra 11 na sexta e vai para jogo. Esse é outro aspeto. Muitas vezes quando se critica um jogador nós temos de perceber porque ele não faz isto ou aquilo. Porque ninguém lhe ensinou. E talvez a responsabilidade é do treinador e não do jogador. Porque se ninguém lhe ensina... Depois, o mister Octávio Machado é a tentativa de construir um ADN que seja forte o suficiente para que nas fragilidades que a equipa possa ter perante o adversário, ainda assim, consiga ganhar. Escola FC Porto. E resultou? Em alguns momentos não resultou muito bem. Lá está, leva anos. Do [Robert] Waseige posso dizer que não estava preparado para o desafio. Mas não porque não tinha competências, mas porque não conhecia a realidade do futebol português. Ele veio muito à vontade, muito puro, a tentar passar as ideias dele sem tentar conhecer primeiro o grupo, as características individuais de cada jogador, para conseguir formar um núcleo forte. Nunca conseguiu. Trouxe ideias giras, mas a equipa não estava 100% com ele, porque ele também era o treino e desligava. Tinha de haver uma comunicação mais próxima, olho no olho com os jogadores e tentar descobrir o que era necessário para que todos pudessem ser mais fortes. Dom Vicente Cantatore creio que era um romântico do futebol. Talvez por vir já numa fase descendente da carreira tenha perdido algumas energias entre tentar recuperar a equipa, e do ponto de vista físico ele fez um trabalho interessante, mas também mostrou pouco conhecimento do futebol português e isso é fundamental. O mister [Mirko] Jozic tem um caráter e personalidade muito vincados. Houve períodos em que a equipa reagiu àquilo que eram as ideias dele, mas devido a alguns conflitos com alguns jogadores, tendo em conta a personalidade dele muito rígida, não tenha levado a melhor daquilo que era o interesse comum. O próprio clube vivia uma instabilidade com trocas consecutivas de treinador, que tirava alguma força aos treinadores. E Augusto Inácio, com quem foram campeões após um jejum de 18 anos? Inácio é outro nome olhado de uma forma por uns e de outra forma, por outros. Vou falar por mim. Ele deu ao Sporting naquele ano o que era necessário. Alguém que conhecia o clube, o plantel, cada jogador e esse conhecimento permitiu-lhe, numa situação bem complexa, onde a estrutura administrativa do clube queria que jogadores que foram fundamentais nessa época, saíssem, nomeadamente eu e o Beto Acosta; e o mister Inácio com três, quatro dias a treinar o plantel disse taxativamente que nós não podíamos sair, que precisava de nós. Inclusive fui um dos mais utilizados nessa época. A seleção nacional em 2000, antes de um particular com a Bélgica. Vidigal é o 1º em baixo à esquerda FRANCK FIFE Na sua última época de Sporting jogou contra o seu irmão Lito, que estava no Belenenses. Falaram um com o outro antes do jogo? Zero. Nem durante o jogo. Quando acabou: dá cá um abraço. O meu irmão era adversário. Não há hipótese. Era limpar como se fosse outro qualquer, estava a defender as minhas cores. Não facilitava. O que mais o marcou nos festejos do título do Sporting, em 2000? Foi o país em festa. Eu não acredito que tenhamos feito 500 metros em autoestrada sem ter visto alguém a festejar. Aparecia gente por todo o lado, na autoestrada. Evidentemente, quando passávamos por alguma povoação estava completamente cheia de gente, mas na autoestrada, durante a viagem, vimos também luzes, bandeiras. Foi uma festa incrível. E o sentimento de que valeu a pena porque muita gente está a festejar e a celebrar este momento. Quando festejou o título já sabia que ia para o Nápoles? Queria sair? Eu tinha zero interesse em sair nessa altura. Porquê? Porque tinha casamento marcado. Preparava-me para dar um passo importante na minha vida. Quando, como e onde conheceu a sua mulher? É uma história bem gira. A primeira vez que vi a minha princesa, a Sónia, foi na partida para um jogo no Norte. Como sempre, na parte inferior do autocarro do Sporting, estou com o Marco Aurélio, o Simão Sabrosa e o Tiago, guarda-redes, viajávamos sempre juntos, víamos um filme, que a viagem era longa. Estamos para sair e, do nada, o Marco Aurélio diz: “Nego, nego, nego, vem ver aquela morena bonita que está ali a passar.” Ia a minha atual esposa, com uma amiga, a uma distância significativa do autocarro, elas nem sabiam que o autocarro estava ali. Eu, na pressa de ver o filme, olhei, realmente é bonita, e sentei-me. Ele olhou para mim e disse: “Vais casar com ela.” E, fizemos a viagem, jogámos e voltámos. O Marco Aurélio já a conhecia? Não. Entretanto, umas três semanas depois, vou a sair de Alvalade e junto da proteção do estacionamento estão duas raparigas encostadas. Vou em direção ao carro e ouço: “Desculpe, desculpe.” Levanto a cabeça, vou na direção delas e começo a perceber que conheço uma das caras, começou o filme a passar na minha cabeça, e lembrei-me. Ela estava a tirar o curso de jornalismo e diz: “Peço imensa desculpa de estar incomodar, mas temos um trabalho para fazer, estamos a entrevistar alguns atletas, é possível conceder-nos uma entrevista?” Eu, o cérebro logo a trabalhar [risos], respondo: “Agora não posso, mas se me deixar o seu número de telefone.” Ganhei umas horinhas para preparar estrategicamente o assalto [risos]. Marquei um café com ela e pronto, começou a nossa história. Serão 24 anos, em julho. Ela chegou a exercer a profissão de jornalista? Não. Terminou o curso, mas nunca exerceu jornalismo. Reuters Photographer Quem lhe fala na hipótese Nápoles? O Nápoles está a ser tratado, sem o meu conhecimento, pelo Sporting e José Veiga. Eu estou nos preparativos do meu casamento quando sou abordado por uma delegação de jornalistas que chega a Elvas e quase invade o meu espaço para saber a questão do Nápoles, quando ia ou deixava de ir. Achei aquilo um bocado estranho. Houve ali uma resistência no início, mas depois apercebi-me que era um passo importante na minha carreira e não estou nada arrependido. Havia outros clubes interessados? Sim. Mesmo depois de ter assinado pelo Nápoles, tive o interesse do Betis de Sevilha e de clubes da Inglaterra. É verdade que o Carlos Queiroz quis levá-lo para o Real Madrid? Sim, mas isso foi já no meu segundo ano em Nápoles. Um dia, em Nápoles, estou de folga a passear com a minha mulher e um amigo, que trabalhava no meio, ligou-me e perguntou se eu queria ir para Madrid. Ao que respondo: “Até gostava, mas estou a trabalhar, não tenho a tua vida”; “Não, para vires jogar para o Real Madrid.”; “Estás maluco, estás brincar”; “Espera aí que vou passar o telefone a uma pessoa.” Quem era? O mister Carlos Queiroz, com aquela conversa: “Fogo, estás rico agora, foste para aí e já não falas aos pobres”; “Oh mister, o mister é que treina o Real Madrid e eu é que estou rico?” [risos] “Epá, estou aqui com uma situação que temos de resolver no máximo de silêncio. O Makélélé não quer ficar, tem proposta do Chelsea e eu preciso de um gajo como tu para equilibrar esta equipa porque só jogam para a frente. Ninguém dá segurança, ninguém equilibra, ninguém defende. Vou tratar das coisas, assim que desbloquear a situação Makélélé, voltamos a falar.” Houve ali um período de malas feitas a ver no que ia dar. A questão é que estamos a falar já no final do mercado e na Itália e na Espanha fechava, só que em Inglaterra continuava aberto mais uns dias. E o Makélélé saiu depois de fechar o mercado na Espanha e na Itália e essa possibilidade de eu ir já não se dá. Ficou com pena? Sim, não posso dizer que não. Mas não tenho porque lamentar. A celebrar um golo pela seleção A Reuters Photographer Antes de falarmos dos anos em Itália, vamos falar um pouco da seleção. Quando foi chamado pela primeira vez para representar uma seleção? Estava no Estoril Praia, fui chamado para os sub-21, que nos permitiu ir aos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Ficou surpreendido com a chamada? Nessa altura, sim. Quem chega do Elvas não tem noção do impacto que cria. Hesitou, pelo facto de ter nascido em Angola? Não, zero. Mas há um dado importante. Eu sou observado ainda no Elvas pela seleção de Angola, porque falaram ao selecionador angolano, o falecido Carlos Alhinho, de um jovem que jogava no Elvas, já capitão de equipa. Eu sei que eles viram um ou dois jogos meus e na altura acharam que eu ainda não estava em condições para representar a seleção angolana. Há males que vêm por bem. Se bem que eu teria ido à seleção angolana sem problemas nenhuns. Mas acabou por não acontecer e surgiu a seleção portuguesa. Os Jogos Olímpicos de Atlanta, de 1996, foi a sua primeira grande competição com uma seleção. Foi o que estava à espera? O futebol é diferente nos JO. Parece que se vive à parte. Não há aquele envolvimento, aquele espírito olímpico de que tanto se fala. Mas foi espetacular. O médio em ação no jogo da meia-fina do Euro 2000, com a França Richard Sellers/Allstar Foi com um grupo onde espírito não lhe faltava. Estamos a falar de Porfírio, Dani, Costinha, Rui Bento, Kennedy, Dominguez, Beto e por aí fora. Deve ter muitas histórias para contar… [Risos] De facto tínhamos um grupo espetacular e ainda hoje me pergunto como discutimos um lugar com um super Brasil, no pódio. Um Brasil onde estavam Ronaldos Fenómeno, Bebetos, Rivaldos, Roberto Carlos, etc. Não foi fácil. Mas esta geração era fantástica. Nós conseguimos criar o nosso espírito olímpico. Para já, o ambiente que se viveu com a comunidade portuguesa foi qualquer coisa. Muitas vezes, na minha forma de ser e de estar no futebol, perguntava-me se aquilo tudo fazia sentido, as visitas e o contacto, mas de facto entendi que são oportunidades para o português que está longe e não está em França, que é um saltinho até aqui. Estamos a falar dos EUA. A vontade de querer estar com os atletas foi incrível. Agora vamos às histórias divertidas. Já é conhecida a história em que o Dani e o Porfirio “roubaram” um carrinho de golfe para ir passear… [Risos]. Eles maquinaram aquilo desde o dia em que chegaram, porque estávamos num hotel isolado de tudo e de todos. A surpresa do mister Nelo Vingada quando soube que a polícia que fazia a ronda estava no hotel a perguntar se os empregados estavam à procura de alguma coisa, porque tinham visto um carrinho de golfe às voltas ali nas redondezas. O mister Nelo Vingada ligou logo as antenas [risos]. Mas isso até foi logo no início. Nós só tivemos uma única vez a oportunidade de visitar a Aldeia Olímpica e ficámos logo conhecidos. Porquê? Porque alguém ultrapassou os limites daquilo que era a nossa zona de poder estar. Digamos que tínhamos um grupo de jovens bem parecidos, que rapidamente perturbou a atenção das atletas e foi um rebuliço. Portanto, houve naturalmente uma nota do Comité Olímpico relativamente ao nosso comportamento e ficámos logo carimbados. Luís com a mãe Deolinda Vidigal D.R. Já revelou que apanhou um susto com a polícia nos EUA. Quer contar? Isso foi após um controlo antidoping depois de um jogo. Eu tive de ir ao controlo, mas demorei muito para conseguir urinar. No jogo perdemos muitos líquidos, estava calor, tínhamos de beber muita água para recuperar e eu bebia apenas o essencial. O Nuno Espírito Santo ficou também e já estava desesperado porque eu nunca mais me despachava. A equipa já tinha partido e tudo. Quando finalmente consegui urinar, ao fim de duas ou três horas, fomos os dois num carro de apoio até ao hotel, que ficava longe. Como íamos cheios de fome, começámos a insistir com o condutor para que andasse mais depressa. Ele dizia que não podia ser porque nos EUA são muito rigorosos com o limite de velocidade. Nós insistimos, dissemos que era tranquilo porque éramos atletas, não se via nenhum carro, e ele lá carregou mais no pedal. Às tantas, passou um carro por nós em sentido contrário. Passados uns minutos, começámos a ver as luzes da polícia atrás de nós. O condutor disse que acontecesse o que acontecesse para não sairmos do carro. Ele parou, saiu do carro e quando vejo que o policia está a passar a multa resolvi sair do carro naquela, aquilo era a vida do homem, ainda podia ficar sem carta, e pensei pode ser que ao ver o fato de treino da seleção associe aos JO e ajude a deixar passar. Abro a porta, ponho o pé de fora, assim que meto o pescoço fora do carro, o polícia aponta a lanterna para a minha cara, saca da pistola e aponta para mim: “Volta já para dentro do carro.” Eu gelei completamente [risos]. Enfiei-me dentro do carro [risos]. Foi mesmo à filme. Após os JO, esteve no Europeu 2000, já com a seleção A e com Humberto Coelho como selecionador. Quais os momentos mais marcantes? Nós desfrutámos desde o primeiro dia. Tenho falado sobre isso e creio que terá sido o grupo de jogadores que representaram a seleção portuguesa mais próximo da excelência em termos de maturidade. Aquela geração de 70, 71, 72, estava ali tudo próximo, nós estávamos no auge das nossas carreiras e tudo fazia crer que teríamos sucesso. Era quase uma autogestão. Também já disse isto. Com todo o respeito que evidentemente o selecionador nos merece, teve a sua importância, mas nós praticamente não precisávamos de treinadores. Aquele grupo precisava apenas de ir para jogo. O que impediu esse grupo de chegar mais longe? Pois. O que impediu? Foi falha do grupo? Sim, temos de assumir, se tínhamos essa capacidade de olhar para nós e sermos capazes de ultrapassar qualquer obstáculo. Havia ainda alguma falta de confiança? Também, ainda que estivéssemos todos num momento incrível, extraordinário, porque dessa seleção provavelmente todos terão feito os melhores contratos das suas vidas. O estatuto também dá-nos força e ainda não gozávamos do estatuto que a seleção portuguesa tem hoje e que ganhou a partir daí. Eu conto um episódio rápido. Força. Eu levei um cartão amarelo na 1.ª parte do jogo, no meio-campo da França, com o [Didier] Deschamps de costas para a nossa baliza. Encostei o peito nas costas dele, ele cai e o árbitro dá-me cartão amarelo. Isso hoje seria impossível acontecer. Ou seja, o árbitro condicionou a partir daí. Não se faz. A seleção portuguesa talvez não tivesse esse estatuto dos árbitros olharem e pensarem, não posso dar cartão amarelo num lance destes. Inadmissível. Portanto, coisinhas pequeninas que noutras circunstâncias muito provavelmente poderíamos ter um sucesso diferente. No dia da entrevista à Tribuna Expresso Ana Baiao É verdade que num Holanda-Portugal de qualificação para o Mundial de 2002 jogou com uma rotura nos ligamentos cruzados? Sim, eu lesionei-me no final da 1.ª parte. Sabíamos que não ia ser um jogo nada fácil. No meio-campo, uma troca de bola com Edgar Davids e [Clarence] Seedorf, no movimento de rotação o pé ficou preso e senti aquele ‘craque’ num joelho que já estava meio a cambalear e que acabou de facto por sofrer uma lesão ainda pior. Mas, ao intervalo, com gelo e Voltaren na nádega direita e siga para jogo. Acabei o jogo. O Sr. “Il Boemo”, como é conhecido em Itália, o homem das grandes lutas e das causas, Zdenek Zeman, técnico. Eu em direção a ele, no centro de treinos do Nápoles, ladeado pelo médico e o fisioterapeuta e ele com aquela tranquilidade dele à nossa espera. Chegamos. Cumprimentou. Deu-me os parabéns pelo jogo. E o médico diz-lhe: “Mister, o Luís vai ser operado.” Ele: “Vai ser operado? Mas como? Eu vi o jogo, esteve muito bem. Magoou-se no avião?” [risos]. E pronto, fui operado e com muita pena minha fiquei de fora do Mundial de 2002. Também tem um episódio engraçado com Pauleta antes desse jogo, certo? Sim, o Pauleta viu-se em apuros. Provavelmente, foi estratégia do António Oliveira para picar o Pauleta. Encostou-o à parede. Disse-lhe: “Atenção, as tuas oportunidades aqui estão a acabar, ou mostras dentro do campo que podes estar aqui, ou então não calças mais.” Eu estava com o Pauleta no quarto nesse jogo e quando ele chegou, estava pálido, assustado. Contou-me o que o mister lhe tinha dito e lá veio o meu lado de cuidar dos outros. Perguntei-lhe se acreditava em Deus e se podia rezar por ele. Ele disse que sim. Peguei-lhe na mão e disse: “Senhor, acalma o coração do Pauleta…”, etc e ele foi para o jogo e fez um jogão. Fez golo, assistências e a partir daí parece que a carreira dele disparou ao ponto de tornar-se no rei de Paris. Spoiler “Tive um colega com excesso de peso que passeava de Ferrari em Nápoles. Os adeptos foram a casa dele e encostaram-lhe uma faca no pescoço” Nesta segunda parte do Casa às Costas, Luís Vidigal conta como foi a sua passagem pelo futebol italiano, onde jogou na Serie A e na B, ao serviço do Nápoles, do Livorno e do Udinese. Recorda episódios caricatos vividos com os adeptos, que tanto podem dar a vida por um jogador como quase tirá-la, e fala do regresso ao futebol português para jogar no Estrela, sob o comando do mano Lito. Homem de família, diz que os três filhos começaram a jogar futebol muito tarde, e revela o desejo de um dia, quem sabe, vir a ser professor. A fechar, dá um conselho aos mais novos: “As oportunidades surgem todos os dias, nós é que temos de estar preparados" Foi para Nápoles sozinho? Fui para Nápoles três dias depois de ter casado. Só tinha estado em Nápoles para assinar. Depois do casamento fui diretamente para as montanhas do norte de Nápoles. Que tal o primeiro embate com a equipa? A única coisa que correu bem foi ter levado com o Materazzi na pré-época do ano anterior, no Sporting. O Materazzi iniciou a época e surpreendeu-nos logo com alguns episódios giros. Como por exemplo? Lembro-me da forma muito calorosa como fomos recebidos num hotel das Caldas da Rainha, por uma senhora super sportinguista, em que cada refeição era um banquete. Na primeira refeição que fizemos, o Materazzi ficou sentado em silêncio. Olhava para nós e nós a comermos, a aproveitar tudo, se íamos sofrer mesmo, então, vamos embora. Só que foi só nesse dia. No dia a seguir era tudo pesado. 100 gr de carne, 100 gr de hidratos de carbono [risos]. Só fomos garganeiros um dia. Era com cada coça que levávamos [risos]. Tanto que vários jogadores desse plantel ligam o sucesso do título evidentemente àquilo que trouxe e que acrescentou o mister Inácio, mas sobretudo pela pré-época, a preparação, que nos permitiu chegar ao final da mesma em grande condição física. Luis Vidigal (à esquerda) chegou ao Nápoles em 2000/01 Reuters Photographer A adaptação à cidade de Nápoles foi fácil? Em Itália há turismo 365 dias por ano e no verão ainda pior. É uma época impossível para alugar casa, só a partir de outubro. Por isso, ficámos no hotel uns dois meses. O primeiro embate não foi o mais simpático, foi duríssimo, ao ponto de pedir uma reunião com o presidente para vir embora. E aí aprendi uma das melhores lições da vida. Em como se pode dizer “não”, mas colocando-nos do lado da pessoa que está a sofrer e quer ir embora. Ou seja, o senhor [Corrado] Ferlaino, presidente dos presidentes do Nápoles, o homem que revolucionou o clube com a ida de Maradona, com muitos anos de experiência, nesse lamentar do Luís… porque de facto tudo se conjugou para que não quisesse continuar: casei-me, fui embora, estava a viver num hotel, onde a minha mulher ficava o tempo todo enfiada, era uma confusão, aquilo valia tudo menos tirar olhos, mas é assim que eles gostam de viver, e quando não é, há problemas; por exemplo, sempre que víamos o trânsito parado, era porque a polícia estava a controlar, se a polícia não estivesse a controlar a coisa fluía. Lembro-me que quando fui buscar a minha esposa ao aeroporto, o taxista meteu-se por um túnel onde o trânsito estava completamente parado, e ele, "tum", passa para o outro lado do túnel, em sentido contrário, mete os quatro piscas e pronto, saiam da frente que eu levo aqui o Vidigal. Voltando à história do Ferlaino. Sim. Ele teve uma conversa gira comigo. Percebeu a minha posição, mas já tinha experiência de outras situações semelhantes. Então disse-me: “Entendo perfeitamente o que estás a viver, sei que não é fácil nos primeiros tempos, não és o primeiro jogador que tem esta conversa comigo, mas vou aconselhar-te o seguinte: vou oferecer-te e à tua mulher uma semana em Capri, é uma ilha espetacular, fica a 15 minutos daqui, vais, descansas, relaxas e vais ver que quando voltares estás mais tranquilo”. Aí eu percebi que ele nunca ia deixar-me sair dali e, a partir, foi abraçar a causa. Como eram os adeptos consigo? A loucura. Com aqueles que servem o clube da forma justa, com grande profissionalismo, disciplina, seriedade e humildade, eles dão a vida. Mas torna-se muitas vezes complicado porque precisas do teu espaço, de poder ir a uma loja e não seres perturbado, principalmente com a família e, na verdade, houve uma altura que começou até a ser desagradável, entre aspas, fazer um passeio em família. Nós passamos muito tempo fora de casa, com jogos e viagens, estágios e às vezes queremos um momento para estar com a família a descomprimir; é perfeitamente normal que a mulher, tendo passado mais tempo em casa na nossa ausência, depois também queria sair um bocadinho e é complicado porque somos constantemente abordados, é um abraço, é uma fotografia. Mas é com muita alegria que o digo. Deve ser bem pior para os jogadores que não se empenham tanto ou que não caiam no goto dos adeptos. Isso é duro. Tenho episódios de colegas... Por exemplo, o capitão de equipa foi acompanhado até à entrada de casa e no tempo que ele esperou que o portão abrisse eles saíram do carro, tacos de beisebol e foi agressão direta, pá, pá, pá, com avisos: atenção que equipa não está a correr, não está a lutar, não está a defender a camisola. Ele foi para o hospital com estilhaços de vidro. Com outro colega também, contratado no mercado de inverno, as coisas não estavam a correr bem, ele estava com excesso de peso e passeava de Ferrari, em Nápoles. Eles não toleraram. Também foram a casa, faca no pescoço com ameaças claras: “Tu não vens aqui gozar connosco. Não vens aqui encher os bolsos e andas aqui a passear de Ferrari, porque nós não admitimos. Ou começas a pedalar, ou vais ter dificuldades de viver aqui”. Eles não facilitam. Agora, quando gostam, gostam até à morte. O médio (à esquerda) em ação pelo Nápoles Grazia Neri Como era jogar naquele estádio com esses adeptos? É mítico? É mítico. É isso mesmo. É um ambiente especial, acho que é único. A própria acústica do estádio, a intensidade com que eles vivem o jogo em si, há momentos em que não consegues ouvir o colega a três, quatro metros. O barulho é tanto, o apoio à equipa é tanto que eles parece que estão dentro do jogo. Por isso é que se diz que há clubes que jogam constantemente, em casa, com um a mais. É um ambiente espetacular que evidentemente assusta também o adversário, de certa forma. Foi a sua primeira saída para o estrangeiro, como se desvencilhou com a língua? Foi fácil. Creio que em cinco, seis meses já estava a falar italiano. A relação de balneário também ajuda bastante. Houve algum jogador mais simpático, que o tenha ajudado na integração? A sensação foi ao contrário. Porque o italiano tem este lado que eu considero que é bom, tu para ganhares o teu espaço tens que merecer. Lembro-me perfeitamente que os olhares, as atitudes, eram todas a desafiar. Atenção, vens para aqui, custaste X, mas tens de merecer. Identifico-me perfeitamente com esta forma de estar. E em poucos dias já estava no ambiente dos demais companheiros, porque eles perceberam ao que eu ia e que era mais um que queria ajudar, não estava ali com intenções de prejudicar ninguém. Essa primeira época acabou por correr mal, desceram para a série B. Como foi a sensação? O que lhe passou pela cabeça? É interessante que agora fizeram um grupo de lendas do Nápoles em que eu estou também e na apresentação eles falam de Luís Vidigal, um homem que defendeu aquela camisola como poucos, que se entrega de uma forma incrível ao jogo, com um grande sentido posicional, liderança, etc., mas acrescentaram: “Na pior fase do clube”. Ou seja, o clube já vivia dificuldades gravíssimas do ponto de vista financeiro. Fez um esforço enorme para me contratar, contratou mais alguns jogadores, e eu tive a lesão após o primeiro jogo, no Holanda-Portugal. Ou seja, eu faço só um jogo nessa época, lesiono-me, volto, faço mais três jogos e tenho uma recaída. Há duas lesões durante essa época de Serie A e recordo-me de uma entrevista do treinador em que ele fala disso e também de um outro jogador que agora não tenho bem presente. Juntando a isso as dificuldades que o clube vivia financeiramente, o clube depois acabou por falir, manteve-se a competir, mas com grandes dificuldades. Teve muitos ordenados em atraso? Sim, que foram todos pagos, entretanto. Mas recordo-me de muitos meses largos sem receber. Felizmente, pagavam bem e havia poupanças. Mas foi chato porque era notícia. Vidigal com os três filhos, David, Daniel e Gabriel e a mulher Sónia D.R. Notou muita diferença da Serie A para a B? Esse é outro assunto interessante. O Nápoles foi grande, faliu, mas nesses períodos até chegar à Serie A novamente, teve sempre os adeptos com ele. O Nápoles na III divisão tinha 60 mil napolitanos a ver os jogos. É um clube que não tem nada a ver com os outros. Basta dizer que é a única cidade grande que só tem um clube. As outras todas dividem-se entre o clube A e o clube B. Mas relativamente à qualidade do futebol havia grandes diferenças nas duas divisões? Havia, ainda que, e quem já experimentou tem a noção, é muito difícil, muito competitiva. A Serie B tem clubes como o Parma, como teve a Fiorentina, a própria Juventus já caiu lá, grandes clubes como os Bari, os Cagliari, os Palermo, clubes que já vimos jogar nas competições europeias. É uma realidade completamente diferente. Dos treinadores que teve no Nápoles, qual o que mais o marcou? Aquele que mais ficou foi o Sr. Gigi Simoni, que treinou clubes como o Milan, e que foi um senhor em todos os momentos. Pela experiência que tinha e pela capacidade de perceber a realidade do clube, conseguindo equilibrar aquilo que era a exigência para o jogador, mas tendo em conta também aquilo que estava a acontecer. Porque foram períodos verdadeiramente complicados. Por mais que as necessidades nunca tenham prejudicado nenhum dos atletas, era sempre um assunto que estava presente. E ele soube estar à altura, de manter sempre o grupo coeso, com a noção clara daquilo que eram as nossas responsabilidades, que não se podia misturar com aquilo que não estava a ser o cumprimento e o dever do clube. Onde sentiu que evoluiu mais como jogador: no Sporting ou nesse período na Itália? Não há nenhum jogador que passe por Itália e que não melhore. Do ponto de vista tático, de organização, o pensar o jogo, há uma evolução gigantesca. Porque tu és obrigado a evoluir, senão perdes o comboio. Lembro-me perfeitamente, por exemplo, nas bolas paradas, se eu estivesse a dormir, acontecia alguma coisa. Os bloqueios de que muito se fala hoje, aquilo já estava implementado lá há séculos. Era uma questão de estarmos sempre atentos ao que estava a acontecer. As informações que nos eram passadas pelos companheiros que estavam lá há mais tempo eram importantes, porque isso também é um lado bom, porque quando pensas que já sabes tudo, não evoluis. E depois, a preparação de cada jogo, a análise ao adversário, tentar condicionar aquilo que são os pontos fortes do adversário e valorizar os nossos. Aprendi muito. O assinou pelo Livorno em 2004/05 John Walton Quem são as maiores amizades que fez no Nápoles? Jogadores há vários, mas se disser que o roupeiro que ainda hoje lá está é um grande amigo, como o secretário técnico é um grande amigo, o fisioterapeuta, acho que isso ainda é mais valorizado. E se disser também que sempre que eles tentam passar uma mensagem para os jogadores de hoje, e falar de um jogador-exemplo, eles falam do Luís Vidigal... Eles ligam-me propositadamente para dizer, olha hoje falei de ti, disse que deviam seguir o teu exemplo de profissionalismo. Falam até da forma como eu cuidava da minha família. Foi pai enquanto esteve em Itália? Sim, dos dois mais velhos, o David que tem 22 anos, e o Daniel que tem menos dois anos. Mas nasceram em Portugal Assistiu aos partos? Não, porque não podia. Foram todos de cesariana. O mais novo é o Gabriel, que nasceu em 2010. Faz 14 anos este ano. Após Nápoles, volta à Serie A, através do Livorno. Como foi para lá? Através do mister Franco Colomba, que foi meu treinador também em Nápoles, conhecia as minhas características e sendo eu um jogador livre na altura acabou por surgir a oportunidade. Uma cidade, clube e adeptos completamente diferentes de Nápoles? Completamente diferente do Nápoles, em número, porque Nápoles é gigante, Livorno é uma cidade mais pacata, top, na Toscana, com mar, que é qualquer coisa extraordinária. Tirrenia é um conto de fadas, uma zona balnear que no verão tem 25 ou 30 mil pessoas, mas que no inverno tem apenas 3000, ali há vida, acabava o treino e conseguia sair com a família, ir a um parque. Foram três anos com feitos também importantes para o clube, competições europeias incríveis. Luís Vidigal no Livorno a disputar a bola com Kaka, do AC Milan CARLO BARONCINI Vai para a Udinese em 2005/06. Notou muita diferença também? Sim. Udine é uma cidade que vive o clube no dia do jogo, de forma fervorosa, mas depois desliga durante a semana. Não tem nada a ver nem com Nápoles, nem com Livorno. Só para dar um exemplo, a apresentação de equipa em ano de Champions League, a equipa chega e tem dois ou três adeptos próximos do campo, que olham, veem a chegada do autocarro, e nós vamos para treino calmamente. Durante a semana, a relação jogador-adepto-cidade é normal. Não há aquela coisa da procura. Encontras aqui e ali alguém a querer uma fotografia, mas vive-se muito mais à vontade. Dia de jogo é com a máxima intensidade, apoiar o clube. É uma cidade diferente mesmo em termos de cultura, a forma como respeitam os sinais de trânsito, como as ruas estão limpas, como está tudo organizado. Eles dizem, inclusive, que já não é Itália. Está muito mais perto das Áustrias e Eslovénias, mais para cima. Qual o jogo mais marcante nos anos em que esteve na Itália? Aquele que ainda hoje é o primeiro que vem logo à cabeça? Essa é uma boa pergunta, mas não sou de guardar esse tipo de coisas, olho mais para o todo e não para o individual. Agora, há jogos que evidentemente ficam para sempre. Esse ano da Champions nós temos uma pré-eliminatória em que eliminamos o Sporting. E há aquele contraste entre a responsabilidade que tu tens enquanto jogador da Udinese e a paixão que tens por um clube que te deu tanto. É um jogo difícil, ainda que ninguém ficou com dúvidas de que eu defendia a 200% a camisola que vestia. Mas lembro-me, por exemplo, da minha esposa dizer: “Tens que ter cuidado, amor. No final do jogo, os teus colegas festejavam e tu estavas a confortar os teus ex-colegas” [risos]. A minha preocupação era confortar, porque eliminamos o Sporting da Liga dos Campeões. Esteve oito anos em Itália. Em que é que se tornou italiano? Podemos dizer o que ficou meu em Itália. A relação com Itália mantém-se. Não houve um período que tivéssemos dito assim: deixámos de ser italianos. Porque não foi só o futebol. Eu não fui sozinho para Itália, faço parte de uma família concebida em Itália, e que deu os primeiros passos, mesmo em termos de escolaridade, em Itália. Fomos padrinhos de dois casamentos, por exemplo. A nossa relação mantém-se viva com os amigos que estão lá. E os meus filhos mais velhos vão-me desafiando: “Pai, gostava de voltar a viver em Itália”. Portanto, isto já quer dizer muita coisa. Em 2005/06 Vidigal assinou pela Udinese Mike Egerton Em 2008/09 regressou a Portugal para jogar no Estrela da Amadora cujo treinador era o seu mano Lito Vidigal. Porquê? Não tinha outras propostas? Já estava com duas operações ao joelho e com intenções claras de descansar. Entretanto, surgiu uma oportunidade de poder representar o Estrela do Amadora. Na altura estava muito na moda o Catar. Recordo-me de várias abordagens para os Emirados, para o Catar, que financeiramente seria muito interessante, mas já havia algum cansaço e o poder voltar a casa finalmente, pesou. Nós amamos Itália, mas a nossa casa é sempre a nossa casa. O facto de estar com 35 anos e o treinador ser seu irmão não o fez hesitar? Nós nunca confundimos as coisas. Se alguém pensava em alguma coisa, deixaram de pensar a partir do momento em que viram a relação que eu tinha com o treinador. Que era igual à dos demais. A primeira conversa que o mister teve comigo foi: “Pá, muito feliz por estares aqui. Em condições normais serás uma mais-valia. Mas isso só acontecerá de uma forma. Nós estamos ligados, naturalmente, pelo sangue, mas aqui não vale nada. Para jogares, ou fazes no mínimo igual aos outros, ou mais. Porque se fizeres menos, jogam os outros”. Assim, na cara. Felizmente estava mais do que preparado e identificado com esta forma de estar. Estive lá desde o primeiro dia para ajudar. E acredito que tenha sido importante. Entretanto, o Estrela acabou. Sentiu alívio por finalmente ir descansar ou ainda queria continuar a jogar? Nem uma coisa, nem outra. Sinceramente, creio que houve uma satisfação enorme. E tendo em conta as circunstâncias em que conseguimos terminar essa época, a maior preocupação foi proteger os mais jovens, recordo-me perfeitamente que nesse plantel havia jogadores como Nelson, na baliza e o Marco Paulo que tinha sido meu colega no meu início de carreira, no Elvas. Ajudámos jovens, alguns que estavam a começar, outros que estavam numa fase de poder tomar decisões importantes. Recordo-me perfeitamente nesse final da época poder ver colegas sair para Braga, para clubes de I Liga e outros para o estrangeiro. Em esforço para chegar à bola, num jogo pela Udinese Stoyan Nenov Já tinha noção do que queria fazer após pendurar as chuteiras? Há uma imagem que é construída ao longo de muitos anos e que, sem forçar, me fazia acreditar que a continuidade na área, de um lado, ou de outro, ia surgir. A verdade é que não mexi uma palha para que me mantivesse, como ainda hoje estou, ligado ao futebol. Mas não tinha propriamente um plano B traçado. Não, ainda que me passasse pela cabeça ir-me preparando. Queria aquele período sabático, digamos assim, de interrupção e dedicação a 100% à família. Mas sempre com as antenas ligadas por algum projeto que surgisse e a verdade é que surgiu a oportunidade de fazer parte da lista do Godinho Lopes, por intermédio do doutor Luís Duque, com quem havia trabalhado no Sporting. Felizmente ganhámos e assumi um papel de grande responsabilidade de diretor de formação do Sporting na Academia de Alcochete, de 2011 a 2013. Depois há a saída do Godinho Lopes, entrada do novo presidente e só regressei com a entrada do Frederico Varandas. Estive mais um ano, mas sempre com aquele apelo da necessidade de poder dar à família aquilo que não tinha conseguido dar enquanto jogador, em termos de tempo e disponibilidade para estar com eles. Quando surgiu o primeiro convite para fazer comentários? Já foi há muito tempo. Creio até que terá sido antes dessa primeira aventura no Sporting. E depois continuei, provavelmente terão gostado do trabalho. Estive na Bola TV durante algum tempo. Fui desenvolvendo um pouco uma área que não era bem a minha, mas tendo algum conhecimento e experiência no futebol, facilmente me adaptei. Hoje continuo na Sport TV, trabalhei em rádio também. Tendo em conta o seu trabalho de comentador, gosta mais de assistir aos jogos no estádio ou na TV? É completamente diferente ver no estádio. No estádio temos a noção geral, transversal do que está a acontecer. Prefiro ver no estádio, sem dúvida alguma. A televisão tem a questão do conforto de não termos que nos deslocar, agora o ambiente em si, aquilo que se consegue perceber no estádio é muito mais abrangente. Nunca se tentou pelo papel de intermediário/empresário? Eu tenho desenvolvido essa área. Dei início, inclusive, a um projeto, mas que me consumia muito, e como sempre dei prioridade à família, obrigou-me de certa forma a largar esse projeto. Hoje, como mantenho imensos contactos e relações no futebol, vou abrindo portas e fazendo pontes, mantendo-me nessa área também. Luís Vidigal com a mulher e os três filhos D.R. Tem três filhos rapazes. Todos jogam futebol? Sim. Mas é um fenómeno interessante que nenhum deles em tenra idade mostrou essa paixão que hoje os três têm. Os mais velhos começaram a jogar com uns 14/15 anos. De repente, deu-se um clique e lá pensaram que poderia ser interessante fazer parte de uma equipa, de um clube aqui perto de casa, o Ponte Frielas, que todos já representaram. O mais novo, mesmo que tenha iniciado mais cedo ainda assim, foi tardiamente. É guarda-redes, alguns clubes tem manifestado interesse, já foi chamado três vezes para ir treinar ao Seixal, com o Benfica, está no caminho. Enquanto jogador revê-se em algum deles? Como começaram tarde, ainda que quer um, quer outro tenham característica que são minhas, nomeadamente na concentração, na intensidade, na dimensão física que normalmente colocam no jogo, são diferentes. Algum tem intenções de fazer do futebol profissão? É difícil quando se começa tarde e sabendo que se não se atingem alguns patamares numa fase ainda adiantada da carreira, dificilmente depois há condições para querer fazer disso vida e para ser o teu sustento. É para se divertirem. Quem são ou foram os maiores craques da família? Acho que é consensual, o Beto, o mano mais velho. O Beto de todos foi aquele em termos daquilo que é o lado mais belo do futebol relativamente à capacidade técnica, a criatividade, a alegria do jogo, ele tinha claramente todas essas características numa altura diferente. Hoje, muito provavelmente teria alcançado um nível muito mais alto na sua carreira. O médio regressou ao Livorno na época 2006/07 Alessandro Garofalo Onde ganhou mais dinheiro em toda a carreira? Em Itália. Investiu? Sim. Em imobiliário e restauração. Tive dois restaurantes, agora só tenho um, mas cuja exploração está entregue a outra pessoa. Qual foi uma extravagância que fez na vida? Não sei se posso considerar extravagância, mas foi uma surpresa à esposa. Paguei a viagem a todos os primos e família para estar presentes no dia de aniversário dela, em Itália. Tem algum hóbi? Não. Nem sequer outro desporto. Do que gosto mais é de estar com a família e amigos. Já sabemos que é um homem de fé. Que igreja frequenta hoje? A Igreja Reviver em Santo António dos Cavaleiros. Superstições? Nunca. Tatuagens? Zero. Eu ia sempre ao contrário, eles pintavam o cabelo, eu rapava, eles faziam tatuagens, eu nada. Anti-vedeta [risos]. Qual a maior frustração que tem na carreira? O facto de ter falhado o Mundial 2002 devido a uma lesão. É um evento único, importante e especial. Mas ainda assim com a racionalidade de pensar, OK, estás lesionado, mas fazer o quê? É a vida. E o maior arrependimento? Não tenho sinceramente. Acho que aquilo que alcancei esteve sempre longe das minhas expectativas e, portanto, foram só conquistas, mesmo tendo alguns episódios, como, por exemplo, essa situação do Real Madrid que por uma questão de desencontro de datas acabei por não representar o maior clube do mundo. Luís com a família D.R. O momento mais feliz da tua carreira? Sinceramente, a conquista do título em 2000. Tem ou teve alguma alcunha? Tenho muitas, mas se calhar a de criança, e que me deixava bastante nervoso: Marreta. Chamavam-me marreta os manos, por causa da cabeça [risos] Quais foram ou quais são as maiores amizades que fez no futebol? Tenho amizades para a vida. Aqueles com quem mais falo talvez sejam o Oceano, o Beto, Rui Jorge, o Marco Aurélio, evidentemente, que é meu padrinho de casamento. Tenho uma lista imensa. Alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania? Não bania, mas alterava a questão da linha do VAR. Acho que é uma mentira autêntica. Nós estamos a falar de frames que entre um e outro ainda há um tempo. E normalmente o movimento com uma bola a entrar e os movimentos contrários de uma defesa que quer meter os avançados em fora de jogo e os avançados querem tirar proveito desse movimento, é de controlar esse momento e dizer 100% que estava 5, 10 ou 15 cêntimos fora de jogo. É impossível, portanto, eu daria uma margem de 20 cm no mínimo. Aliás, eu creio que a Inglaterra já usa um pouco esta ideia. Quem foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? Hoje é diferente, mas quando cheguei a Itália, era a melhor liga do mundo. Defrontámos seleções com todos os craques da altura desde Zidanes, por aí fora. Olhar para a classe do Zidane é qualquer coisa, como é que se pára um jogador destes? Mas depois também defrontas o Barcelona do tiki-taka e nem falta consegues fazer porque chegas sempre tarde, a bola está lá, já não está, é muita qualidade, olhas para uma frente de ataque com Lionel Messi, Ronaldinho Gaúcho Eto'o e uma linha média com Xavi, Deco e Iniesta, é difícil, é complicado. É com jogadores deste nível que se sente dificuldade, mas ainda bem, porque é um privilégio estar ao nível de poder defrontá-los. Qual a pessoa que mais influenciou a sua carreira? Vai dar sempre ao mesmo, o mano Beto. Ele foi motor daquilo que nós somos enquanto família e claramente foi a olhar para ele que dissemos, epá, talvez seja possível, se o mano consegue, nós também poderemos tentar. Ouvir um pouco da experiência que ele já tinha de certeza foi fundamental, cada um desenvolveu o seu caminho, mas a base está nele. No dia da entrevista a Tribuna Ana Baiao Tem algum talento escondido? Modéstia à parte, eu faço muitas coisas bem. Sou um belo artista em trabalhos manuais. Tenho alguma capacidade em desenho, há aqui alguns talentos escondidos que eu vou desenvolvendo em casa fazendo umas coisinhas e ajudando os filhos. Se não tivesse sido jogador de futebol, o que teria sido? Ui. Nem me passou pela cabeça ser outra coisa. Problemas não teria tido trabalho porque o trabalho nunca me assustou. Tendo em conta a experiência de vida, pode dizer o que gostava de ter sido? Há um lado que tem vindo a despertar na minha cabeça e que poderá acontecer ainda, tendo em conta a experiência adquirida ao longo destes anos, que é ensinar. É uma coisa que está a nascer agora, também com o desafio de alguns amigos, mas não sei em que área ainda. Mas quem sabe se o Vidigal não se tornará ainda num professor de alguma coisa? Não treinador? Sou desafiado por muitos, mas eu sei o que é o desafio de ser treinador nos dias de hoje e de querer ter sucesso. Consumir-me-ia 24 horas do dia, porque quem quer ter sucesso no treino tem que viver 100% para o treino e para o plantel que tem à disposição, além disso tem de analisar adversários, tem que fazer correções, treino após treino, jogo após jogo, e isso tirava muito tempo à família. Quero ter disponibilidade para levar e ir buscar os filhos à escola. Qual o maior conselho que pode deixar aos mais novos que sonham ser jogador profissional? Que as oportunidades não surgem quando eles querem. Elas estão lá todos os dias. A nossa responsabilidade é estar preparado para quando ela surgir, mas ela pode surgir a qualquer hora. Hoje os jovens praticamente querem escolher esse momento para dizer, estou presente, não, nós temos de estar presentes todos os dias para quando ela passar, ela nos agarre. As oportunidades surgem todos os dias. Um jovem que tem o privilégio, por exemplo, de estar numa das academias dos três grandes não tem oportunidades todos os dias? Está lá todos os dias. Se eles não agarram, é porque estão a dormir, portanto, é mentira aquilo que lhes dizem que um dia a oportunidade vai surgir. Elas surgem todos os dias, nós temos é que estar preparados. 4 Compartilhar este post Link para o post
silentz Publicado 30 Setembro 2024 Citação Nós só tivemos uma única vez a oportunidade de visitar a Aldeia Olímpica e ficámos logo conhecidos. Porquê? Porque alguém ultrapassou os limites daquilo que era a nossa zona de poder estar. Digamos que tínhamos um grupo de jovens bem parecidos, que rapidamente perturbou a atenção das atletas e foi um rebuliço. Portanto, houve naturalmente uma nota do Comité Olímpico relativamente ao nosso comportamento e ficámos logo carimbados. lol Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 8 Outubro 2024 Spoiler “O Luisão deu-me umas botas no Seixal, que eram enormes e eu fazia de tudo para as usar, calçava três meias e punha algodão” Luís Silva começou muito cedo a dar pontapés na bola em ambiente de clube. Das escolinhas Mário Wilson saltou diretamente para o clube do coração, o Benfica, onde jogou nove anos. Entre o relato de várias histórias, confessa que nunca conheceu ninguém tão forreta como ele e descreve como foi partir para Inglaterra, à beira dos 17 anos, para jogar e estudar no Stoke City, da Inglaterra. O defesa, que hoje joga na Polónia, fala ainda da vitória no Europeu de sub-17, em Baku e da difícil adaptação no regresso a Portugal Nasceu em Lisboa. É filho e irmão de quem? Sou o primeiro de dois filhos, a minha irmã Inês é dois anos mais nova. E sou filho de pai economista e de mãe bancária. Cresceu em que zona? Em Oeiras, Cascais, Estoril, andei no colégio Salesianos, no Estoril. Um beto da linha como dizem as más línguas. Foi um miúdo calmo ou deu muitas dores de cabeça? Sempre bastante calminho. O que queria ser quando crescesse? Foi por fases, o futebol foi a única coisa constante. Comecei por querer ser historiador devido à minha paixão por História. Queria muito, muito ser historiador. Depois houve uma altura em que passei para surfista, mas o futebol esteve sempre presente. O futebol foi a primeira modalidade que praticou? Não. Eu e a minha irmã começamos na natação. Ela depois seguiu basquete e jogou até um bocadinho antes de chegar a sénior. Em casa torcia-se porque clube? Benfica, desde sempre. O Benfica fez sempre parte do meu crescimento, até porque entrei na formação do Benfica muito cedo, com sete anos. Luís em criança D.R. Quem eram os seus ídolos? Quando comecei realmente a ver e a observar futebol, também devido à minha posição, as grandes referências foram a dupla de centrais Garay/Luisão. Foi para o Benfica com sete anos. Pediu aos pais ou foram eles por iniciativa própria que o levaram para treinar lá? Os meus pais inscreveram-me nas escolinhas do Mário Wilson, onde estive durante dois anos, se não estou em erro. Entretanto, desenvolvi-me muito mais cedo do que os colegas da minha idade, apresentava uma composição física e um desenvolvimento acima da média. Um dia fizemos um jogo de treino contra o Benfica e após esse jogo fui convidado para ingressar na formação do Benfica. Tinha os tais sete anos. Como foi entrar no mundo do Benfica, tão novo? Percebi desde tão tenra idade a seriedade das coisas e o processo de como é a formação no Benfica. O grande lema que ficou comigo para sempre era: formar, mas formar a ganhar. Ou seja, levava-nos desde pequenos a perceber a grandeza do sítio onde estamos e aquilo que é preciso para representar este clube. Gostava da escola? Bastante. Sempre fui um aluno bom, nunca dei dores de cabeças aos meus pais em relação a isso. Quando fui para Inglaterra essa foi a grande preocupação dos meus pais, porque ainda não tinha terminado a escolaridade, estava no 10.º ano. Sempre foi algo importante, que valorizo muito, e ainda hoje aconselho todos, todos, até aqui, na Polónia, a fazer os estudos. Os mais novos estão mortinhos para acabar a escola para se dedicarem a isto e não pode ser assim, não pode ser assim, têm de aspirar a mais, até porque quando a nossa carreira termina, se não finalizaram a vida académica, estão completamente fora da sociedade, são postos de parte. É muito importante continuar a cair em cima dos mais novos nesse sentido. Luís no jogo pelas Escolinhas Mário Wilson, em que foi observado pelo Benfica D.R. Foi fazendo toda a formação no Benfica, até aos 16 anos. Nos nove anos em que lá esteve, quais os momentos mais marcantes? Sem pensar muito, o maior de todos é quando fomos campeões nacionais de sub-15, com o mister Luís Nascimento, irmão do mister Bruno Lage e hoje adjunto da equipa principal do Benfica. Fui um dos capitães durante grande parte da época, com o Filipe Soares. Esse foi o momento mais marcante porque fomos ao Olival, que na altura tinha Diogo Costa, Diogo Queirós, Diogo Dalot, Diogo Leite, e fomos campeões no campo deles, por isso foi muito especial. Depois reunimo-nos todos na seleção de sub-15 e sub-16 e havia muitas picardias e brincadeiras, mas um ambiente incrível. E pessoas que o tenham marcado nessa passagem pelo Benfica? O Jotinha [João Filipe], que esteve na Arábia e agora está no Rennes. Algum treinador a destacar? Todos deixaram a sua marca porque sou aquele tipo de pessoa, desde pequeno, que desde a primeira vez que olha para as pessoas, pensa, “o que posso aprender?”, “o que esta pessoa pode dar-me?”, “o que posso beber desta pessoa para adicionar à minha vida?” Por isso, desde a tática, desde o comportamento fora de campo, desde as regras, todos eles tinham qualquer coisa de diferente. Praticou outras modalidades nesse período, ou só futebol? Só futebol, mas às vezes, um bocadinho às escondidas, porque não era permitido, como eu era muito bom nas outras modalidades, na escola, como o lançamento do peso e salto em altura, houve vezes em que ia para as competições regionais, sem o Benfica saber. Aos sete anos Luís Silva foi jogar para o clube do coração, o Benfica D.R. Os seus pais acreditaram que ia ser mesmo jogador de futebol profissional ou pensavam ser só uma fase? Nunca tive nenhum tipo de pressão dos meus pais. Só para estudar. Quando chegou a altura de realmente decidir, quando escolhi ir para Inglaterra, tive uma conversa séria com os meus pais e eles perceberam ser isto que eu queria fazer da minha vida. Sempre tive a liberdade para escolher aquilo que queria fazer com apoio máximo, com apoio mensal mesmo. Episódios para contar do Benfica, tem? No meu último ano, antes de ir para Inglaterra, nós tínhamos um grupo de quatro, cinco jogadores no escalão de sub-16, que éramos da zona da linha de Cascais e íamos todos juntos até ao Seixal. Voltávamos sempre tarde e fazíamos sempre algumas brincadeiras. Uma vez, começaram a brincar com a minha mochila e atiraram-na para fora do comboio, íamos mais ou menos a meio caminho. Vou atrás deles, numa azia gigante, mas acabei por simplesmente sair do comboio. Era quase meia-noite. O meu nível de azia era tão grande que peguei na mochila e fui a pé para casa. De resto, não me recordo assim de nada. A não ser que, adorávamos ser apanha bolas nos jogos da equipa A. Isso era mesmo “uau”. Porquê? Fazia-nos sentir que estávamos tão perto, mas tão longe e dava-nos motivação, alimentava o sonho. Recordo-me também que uma vez o Luisão deu-me umas botas, no Seixal, as botas eram enormes, mas eu fazia de tudo para as conseguir usar. Calçava três meias, metia algodão, aquilo ia para ali uma trafulhice, mas foram usadas até ao ponto de perceber que era impossível. Nós andávamos sempre à procura dessas coisas, a tentar pedir qualquer coisa, ou quando a equipa A terminava os treinos irmos ao campo tentar beber as Powerade. Ia e vinha todos os dias para o Seixal? Sim, a minha vida era sair às sete e voltar às onze da noite. Comboio, barco Cais do Sodré-Seixal, ir a pé. Recordei-me agora de outra coisa. Nesse grupo de jogadores havia alguns que eram tão problemáticos, tão problemáticos que o Benfica instituiu a regra de que quem fosse apanhado ao lado deles tinha de pagar uma multa de €50 [risos]. Não podíamos sequer alongar ao pé deles. O defesa esteve nove anos no clube da Luz D.R. As primeiras saídas à noite quando acontecem? Nunca fui rapaz de sair à noite. Isso ficou sempre um bocadinho para trás. Claro que saí, mas com amigos. Nunca tive esse bichinho dentro de mim, pelo contrário, toda a gente brincava comigo. Desde muito novo diziam que eu parecia muito mais velho do que sou, tanto que a minha alcunha para o núcleo mais próximo é: “Cota Louis.” De onde vem essa sua maneira de ser? Sai a alguém da família ou tem a ver com a educação que teve? O meu pai é um bocadinho assim. Mais momentos marcantes no Benfica, recorda-se? Houve uma vez, ainda com o mister Jorge Jesus, na primeira passagem, em que eles estavam a fazer um treino de recuperação e eu, se não me engano, estava anos sub-16. Eles precisavam de uma pessoa para fazer de joker no treino, precisavam de número e não havia mais ninguém a treinar naquele momento. A meio do nosso treino, percebi mais ou menos o que estava a acontecer e fui meter-me completamente à frente do mister Luís Araújo, a dizer: “Eu vou, eu vou.” Quando o mister disse “OK”, eu fiz um sprint, atravessei três campos, só para ir para a equipa A. Foi uma experiência inacreditável. Como foi lidar com Jorge Jesus? Ele estava um bocadinho à parte, porque sendo um treino de recuperação é aquele dia mais relaxado e esse treino acaba por ser entregue aos assistentes. Houve algum jogador que tenha sido mais simpático? Recordo-me do André Almeida. Era tão engraçado. Nos nervos em que estava, não me lembro o porquê, mas recordo que chorei a rir com o André Almeida. Em 2015, Luís Silva foi contratado pelo Stoke City para jogar nos Sub 18 Phil Greig De onde surgiu a oportunidade de ir para o Stoke City, de Inglaterra? Na altura ainda não tinha empresário oficialmente, até porque acredito que nessas idades o empresário deve ser não um intermediário de negócio, mas quase como um tutor, um ajudante na própria educação do atleta. Mas sim, foi o empresário Paulo Veríssimo que acabou por trazer essa possibilidade. Durante toda a minha última época no Benfica eles estiveram a acompanhar-me. Vou para Inglaterra, numa altura em que estão alterar a mentalidade à volta do Stoke City, que era um clube de luta, de trabalhadores, de bater na frente, tinham aquela coisa dos lançamentos, tudo o que eram lançamentos à frente do meio-campo a bola ia para a área; mas queriam mudar essa mentalidade, com o treinador Mark Hughes. Começaram a procurar os jogadores que pudessem crescer nesse ambiente e depois integrarem a equipa principal. Ou seja, queriam fazer como que uma academia de elite. Quando o empresário lhe falou no Stoke City, qual foi a sua reação? “Uau, como assim?” [riso]. Foi o momento em que realmente decidi que era isto que queria fazer da minha vida. Não o disse e não partilhei com os meus pais logo, mas senti no momento que era para onde tinha de ir, até porque sabia que no Benfica não havia caminho para a equipa principal. Depois isso alterou-se com o mister Bruno Lage, mas na altura não havia essa via. O que lhe propôs o Stoke City? Um contrato de três anos, mais um de opção. Sendo que lá só se pode assinar contratos profissionais com 17 anos, antes é obrigatório ter-se uma scholarship, que é como uma bolsa. Todos os jogadores de todos os clubes que vão jogar no escalão de sub-18 têm de ter um contrato base, em que todos ganham o mesmo. Temos treino de manhã e escola à tarde. E isso foi a coisa mais importante para os meus pais, a parte da educação ia continuar. Os seus pais souberam do interesse do Stoke City por si ou através do empresário? Do empresário. Ele sempre tratou das coisas de forma muito profissional, sabendo que era menor falou primeiro com os meus pais, o meu pai só me contou quando terminou a época. Durante a época e durante os jogos da seleção, eu não sabia de rigorosamente nada. Em ação pelo Stoke City, da Inglterra Nathan Stirk Começou a ser chamado às seleções quando? Fiz os primeiros treinos logo nos sub-15, o primeiro escalão de seleção, antes tivemos a seleção distrital. Mas não fui internacional, só em sub-16, quando já estava no Stoke City. E fui campeão da Europa de sub-17, no Azerbaijão. Lembrei-me de uma história engraçada, a propósito. Nesse ano em que fomos campeões, ficámos todos no mesmo hotel em Baku e a organização criou no hotel uma zona de convívio para todos, onde havia snooker, ping pong, PlayStation. No último dia da competição já só estavam no hotel Portugal e Espanha, para disputar a final. Após sermos campeões da Europa, antes de irmos embora, estávamos lá todos nesse espaço e o que eu fiz? Agarrei numa PlayStation e trouxe para casa e até hoje tenho essa PlayStation. Já me acompanhou por quatro países: Portugal, Inglaterra, Chipre e Polónia [risos]. Não teve receio de deixar a família e ir para um país estrangeiro, aos 16 anos? De todo, até porque já me sentia bastante independente. O meu dia era passado fora de casa, era acordar de madrugada para ir para a escola de comboio até ao Estoril, sair da escola a correr para ir apanhar o comboio para chegar a tempo do barco, ir a correr para o treino. Depois, consoante a hora que acabasse o treino, era correr para o barco outra vez, porque a essa hora da noite já só havia barco de hora a hora. Vivia o meu dia de forma independente, o momento que tinha em casa era com os meus pais que esperavam por mim com o jantar. Foi sozinho para Inglaterra? Fui com os meus pais e com o empresário, mas sendo menor de idade, segundo as regras de lá, tinha de viver com uma família de acolhimento. Foi o que aconteceu até fazer 18 anos. O defesa português esteve três anos no Stoke City, mas nunca jogou pela equipa principal Phil Greig Como era a família, como o recebeu? Eram dois velhotes que viviam sozinhos porque os filhos já tinham saído de casa e tinham as suas próprias famílias. Os velhotes tinham uma casa gigante, sem qualquer tipo de rentabilidade, alugavam os quartos para os jogadores. Eles chamavam de digs, que significa basicamente cama e comida. Ou seja, a senhora tinha de cozinhar-nos uma refeição por dia, que normalmente era o jantar, e que lá era às quatro/cinco da tarde. Havia outros jogadores nessa casa? Sim. Estive com um irlandês e um belga. Demo-nos muito bem, ficámos uma irmandade e o contacto continua até hoje. O seu inglês era bom? Eu achava que falava inglês até chegar lá. Estive seis meses até começar a perceber o que eles diziam [risos]. Estamos a falar de uma pequena cidade entre Birmingham e Manchester, que tem o seu próprio dialeto. Os anfitriões eram simpáticos? Eram. Mas tenho uma história engraçada, na altura complicada. Muitas vezes terminávamos o jogo no domingo e íamos para casa. Como o domingo era dia de família, eles tinham a família toda reunida lá em casa e então metiam-nos a comer numa mesa muito pequenina, no escritório, às duas da tarde, tipo “tomem lá”, está aí, aguentem-se. Até ao ponto de os meus pais comprarem-me um frigorífico pequeno, tipo mini-bar de hotel, para meter no quarto. Lembro-me da velhota gritar e fazer queixa ao clube, porque uma vez ficaram sem eletricidade ou o frigorífico avariou e o quarto ficou cheio de água [risos]. Luís (2º à direita na última fila) começou frequentar a seleção com 15 anos e, em 2016, foi campeão Europeu de Sub 17 D.R. Quando conheceu o clube, quais foram as primeiras sensações? É muito difícil superar as condições que se tem num clube como o Benfica. Ou seja, fui para uma realidade mais pequena, mas de topo, com tudo aquilo que precisávamos, com balneários, campos de treino imaculados, com refeitório, ginásio, com fisioterapias, tinha de tudo, mas a uma escala mais pequena do que a realidade do Benfica. Em nenhuma altura pensou vir embora? De todo. Não me lembro de nada, porque sempre senti que este era o caminho que tinha que fazer. Claro que houve momentos difíceis, mas em nenhum momento coloquei em causa. No início a que lhe foi mais difícil adaptar? Habituar-me a um inverno complicado e completamente diferente daquele a que estamos habituados em Portugal. E entrar no grupo. Como foi recebido pelos colegas ingleses? Os ingleses são tramados. Mas depois, com o tempo, vai-se percebendo como são e eles são muito, muito, engraçados. A brincadeira deles é mesmo das melhores que já apanhei no futebol. Não sei explicar bem, mas é o humor deles, às vezes humor negro, as linhas que eles atravessam... É muito engraçado. Nos primeiros tempos acabou por sair mais com os colegas da casa? Claro, porque sendo também estrangeiros, vivendo a mesma realidade que eu, era natural que fossem os primeiros com quem explorasse mais. Com a taça de campeão da Europa de sub-17, em Baku, no Azerbaijão D.R. Que tal a escola na Inglaterra? Aquilo que está incluído na tal scholarship são dois anos de estudo e na altura optei por tirar o nível 2 do curso de treinador. Ou seja, fiz uma coisa que depois não teve nenhuma equivalência em Portugal. Depois tive de me candidatar a fazer os exames do 12.º ano e foi o que fiz, mais tarde. Mas já tenho o nível 2 treinador, dá-me bases para o futuro. As nossas aulas eram na própria academia. Treinávamos, almoçávamos e, à tarde, tínhamos o professor, que se deslocava às instalações do clube. Havia salas de aula na academia, com computadores, com tudo. Os treinos eram muito diferentes? Muito. Havia treinos em que as bolas nem sequer saíam. Estamos a falar de miúdos com 17, 18 anos. Havia treinos em que não víamos sequer a bola. Isso deixava-o desanimado? Não, porque… Como hei de dizer? Sou português, sinto-me português, mas a minha personalidade tem mais coisas de inglês e de centro da Europa do que propriamente só português. Tenho sentido de responsabilidade e capacidade de sacrifício. Foi difícil porque fazes coisas diferentes daquelas que se faziam em Portugal, mas que já estavam dentro de mim. Por isso, levei com naturalidade. O futebol jogado, também diferente? Bastante. Foi lá que percebi que, antes de ser jogador, tens de ser um atleta, e em Portugal era completamente ao contrário. Explique melhor esse conceito de ser primeiro atleta antes de ser jogador? É preciso lutar, correr, dar o máximo, antes de se fazer qualquer coisa extra que afete diretamente o jogo. É preciso ter estes dados adquiridos antes de se fazer uma ação individual, um drible, um passe. Os adeptos no clube eram malta trabalhadora, que valorizavam estas coisas antes de valorizarem os jogadores com qualidade. Depois a filosofia foi mudando e eles foram buscar jogadores de altíssima qualidade, como os espanhóis Marc Muniesa e o Bojan Krkic, que era o próximo Messi. Foram buscar bastantes jogadores criativos. Luis (à esquerda) na cerimónia de homenagem no Estádio da Luz, quado a seleção de Sub 17 regressou a Portugal após o título europeu Diogo Pinto Quando chegou ao Stoke City estavam por lá outros portugueses? Não. Depois é que veio o Venâncio Monteiro que jogou no Manchester City e no Manchester United, foi para o Stoke, mas quando saiu do Stoke terminou a carreira, de repente. Esteve na Inglaterra dos 16 até aos 19 anos. Nesses três anos nunca jogou pela equipa principal? Não. Joguei pelos sub-18, sub-21 e sub-23. Sendo que treinava muito frequentemente com a equipa principal, porque tinham plantéis curtos, muito competitivos e havia sempre lesões, dias extra de descanso e eram sempre precisos jogadores da academia. Os últimos seis meses foi uma altura complicada, porque o próprio clube estava numa situação muito difícil, em que despediu o treinador, a filosofia mudou. O clube voltou àquela mentalidade anterior e senti que o meu percurso ali tinha terminado. Joguei pouco nesses últimos seis meses, cheguei inclusivamente a fazer dois trials no Leeds United e no Génova, na Itália. Isto pouca gente sabe. Como correram essas experiências? No Leeds chegaram à conclusão que não me queriam. Faz parte. Mas, no Génova, era para assinar pela equipa primavera, ou seja, a equipa B. Marcaram-me inclusivamente bilhete de avião para voltar. Mas chegámos à conclusão de que não valia a pena, não seria um passo que me faria andar em frente. Quem chegou a essa conclusão? Eu e os meus pais, com o Stoke, chegámos a essa conclusão por um fator muito importante, que é, eu fazendo três anos completos na Inglaterra sou considerado um homegrown player. E, sendo um homegrown player, os clubes têm que ter este tipo de jogadores no plantel. Eu sabia que naquele momento ia ter de sair de Inglaterra, mas conseguindo aquele estatuto seria uma porta aberta para um dia voltar. O que nunca aconteceu. Para já ainda não aconteceu, mas a porta ficou aberta. O defesa português (à direita) em luta com um adversário alemão, um encontro amigável dos sub-20, em 2018 Octavio Passos Olhando para trás, qual a maior aprendizagem que trouxe da Inglaterra? Talvez a disciplina. Era um tratamento mesmo militar. Tínhamos tarefas para fazer como, por exemplo, limpar os balneários, encher os frigoríficos da equipa principal, limpar as botas da equipa principal, ou encher as bolas. Coisas assim. Tínhamos mesmo de fazer ou as consequências eram gravíssimas. Que consequências eram essas? Muitas vezes era correr. E atenção que as correrias de lá são mesmo até “morrer”. A mim não aconteceu, mas, muitas vezes, por exemplo, por haver colegas que repetidamente não faziam as suas tarefas, toda a equipa tinha que ficar lá na academia até tarde. Mas isso deu-nos disciplina e fazia com que nos policiássemos uns aos outros. Faz-nos crescer. Havia outras coisas como, por exemplo, não podíamos ter barba, tínhamos de estar sempre clean shave, não podíamos ter penteados diferentes, à maluca, ou tatuagens à mostra; tínhamos de usar botas pretas. Lembro-me de andar a pintar as botas e quando elas começavam a ganhar novamente a cor original, devido à água, tínhamos de pintar novamente, porque andavam atrás de nós. Visitou Inglaterra em lazer? Deu para visitar e deu para perceber que a realidade das grandes cidades e a das aldeias é uma diferença do dia para a noite, é quase como se fosse um país diferente. A mentalidade das pessoas é diferente. Vim embora quando o Brexit surgiu, em 2018. Luís com os pais e a irmã D.R. Acabou por vir embora porquê? Eu tinha mais um ano de opção, mas o clube sofreu uma reestruturação grande descendo de divisão para o Championship, mudou a estrutura de diretores, técnica, académica, houve uma alteração muito grande. Percebi que tinham grandes jogadores, com ordenados gigantes, com contratos válidos e que iam ser mantidos na equipa. Não ia haver espaço para mim. Qual foi o valor do seu primeiro ordenado? O meu primeiro ordenado foi na altura do Benfica. Eles não chamavam ordenado, chamavam subsídio de transportes porque supostamente não podiam pagar com essas idades. Eram €80/mês se não estou em erro. Depois, a scholarship no Stoke era qualquer coisa como 150 pounds (€175) por semana, se não estou em erro. Onde gastava o dinheiro? Sou o maior forreta que existe. Nunca conheci alguém como eu [risos]. Além do ordenado, tínhamos direito a subsídio de transporte e de alimentação extras e eu era aquela pessoa que andava a recolher recibos de táxis, de alguém que não os queria, para conseguir entregar ao clube. E vivia só desse dinheiro extra, que conseguia em recibos, o resto era tudo poupado. Nunca comprei nada para mim. Nunca. Ao ponto de, no final desses três anos, ter voltado a Portugal e ter comprado o meu primeiro apartamento. Com 20 anos. Mais. Eu agarrava naqueles €80 euros que o Benfica dava para ajuda dos transportes, metia ao bolso e andava a fugir dos seguranças e dos revisores nos transportes porque não comprava o passe. Até ao dia em que fui apanhado e tive de faltar ao treino. Fui para a esquadra e os meus pais tiveram de ir lá buscar-me [risos]. Spoiler “Voltar a Portugal naquele momento foi um erro gigantesco. Não me adaptei. Como é possível voltar a casa e não se estar bem?” Aos 25 anos, Luís Silva está a jogar na I Liga da Polónia e diz sentir-se em casa. Mas antes de lá chegar o defesa que iniciou a carreira no Benfica e passou pelo Stoke City, esteve três anos na B SAD, um período menos feliz, onde assume que também cometeu os seus erros e fez muitas aprendizagens. Foi preciso ir para a II Liga de Chipre para a sua carreira ganhar um novo fulgor. Nesta parte II do Casa às Costas, relata como viveu este percurso e revela e sabe tocar guitarra tão bem quanto joga futebol Quando saiu do Stoke City, já tinha o convite da B SAD? Não. Surgiram vários contactos, muitas vezes de ligas que desvalorizei. Eu pensava, “então eu joguei em Portugal, no Benfica e no Stoke City, um clube da Premier League…” E desvalorizava completamente as outras ligas que estavam dispostas a dar-me uma oportunidade. Está a falar de que ligas? Da própria Polónia, por exemplo. Lembro-me de haver um contacto da II Liga, da Polónia. Chegou-se a falar de uma possibilidade de ir para o Shakhtar Donetsk, para ser imediatamente emprestado ao Odessa [da Ucrânia], se não estou em erro. Graças a Deus que não acabei lá porque sabemos como e há quanto tempo está essa zona. Quando surgiu o convite da B SAD, apareceram outros convites de Portugal, para ir para a equipa B do Vitória de Guimarães, por exemplo. Mas estava numa altura em que achava que tinha de dar o salto. O que o convenceu a assinar pela B SAD? Venderam-me o sonho de I Liga, aquele sonho de jogador jovem: “Es aquilo que queremos e aquilo que precisamos.” Quem falou consigo? O Silas e o presidente Rui Pedro Soares. Falaram diretamente comigo, venderam-me o sonho de ir para a equipa principal, porque a primeira coisa que disse foi que convites de equipa B já tinha. Luís Silva assinou contrato com a B SAD na época 2018/19 D.R. Assinou por quanto tempo? Quatro anos. Só me passava pela cabeça o facto de ser I Liga e a visibilidade que tem. Ainda por cima em Lisboa. Caí nessa tentação. Mas quando me deparei com a realidade, era a de um clube distrital. O estádio do Jamor sem condições, sem acesso a ginásio, até porque o ginásio que lá havia era utilizado pelo râguebi e não podíamos entrar. Depois começaram aquelas confusões com o nome, já não era Belenenses tinha que ser Belenenses SAD, depois já não era Belenenses SAD tinha que ser B SAD. Trocou-se o símbolo. Lembro-me que antes do jogo com o Benfica, que empatámos no Estádio da Luz, ninguém podia tirar fotos, nem mostrar nada porque ia ser mostrado o símbolo novo. Uma confusão. Arrependeu-se e teve vontade de sair? Não, eu próprio cometi erros e fiz aprendizagens. Muitas vezes não sendo convocado, ou não tendo jogado na equipa principal, ia jogar à equipa de sub-23, que foi criada nesse ano, era o primeiro ano da Liga Revelação. Foi uma plataforma gigante que me permitia jogar de forma consistente, mas para mim era uma frustração porque na minha cabeça achava que estava preparado para outro patamar. O treinador não falava consigo? Não. Os treinadores rasgam os miúdos, ainda hoje é assim. Mas eu próprio cometi o meu par de erros jogos do sub-23. Que tipo de erros? Durante o jogo. Talvez por frustração, por não conhecer a equipa, havia uma data de jogadores com contratos amadores a jogar nessa equipa, estavam sempre a aparecer miúdos novos. Muitas vezes ia para os jogos e nem sabia com quem estava a jogar, o nome das pessoas. Foi um processo muito complicado. O defesa jogou maioritariamente na equipa de sub 23 Gualter Fatia Voltou a estudar? Voltei a estudar e terminei o 12.º ano no ensino regular, à distância, na Fonseca de Benevides, em Lisboa. Tive de mudar da área de Economia, a área que eu gosto, para a de Humanidades porque era a única que me permitia fazer naqueles moldes. O seu objetivo era entrar na faculdade para fazer Economia? O meu objetivo era entrar na faculdade. Ponto. Era um objetivo de vida que eu tinha para mostrar que é possível. Chegou a acontecer? Sim, entrei em Rio Maior, em Desporto. Fiz o primeiro semestre, mas depois a matrícula ficou congelada e há de ser retomada quando houver oportunidade. Dizia que teve a sua cota de responsabilidade quando estava na B SAD. Pode explicar melhor o que quer dizer? Antes de comprar a minha própria casa, vivi em casa dos meus pais e lembro-me que a vida não era fácil porque decorridos três anos, ajustaram as suas vidas a não me ter em casa. Eu estava em Portugal, estava em Lisboa, mas eu não estava com a minha família. Os meus pais saíam de manhã para trabalhar e voltavam à noite, cada vez mais tarde, quando eu já dormia. A minha irmã também. Depois de treinar ia ter com os meus amigos e quase não estava com os meus pais. Lembro-me também de haver algumas confusões. A minha irmã queria tomar banho e secar o cabelo à meia-noite e meia. Era um terror. Voltar a Portugal naquele momento da vida e da carreira foi um erro gigantesco. Está a dizer que não se adaptou a Portugal no seu regresso? Exatamente. Não me adaptei àquilo que é a realidade, não me adaptei. É muito interessante. Como é possível voltar a casa e não se estar bem? Luís Silva com Marega, o jogador do FC Porto que ma dores de cabeça lhe deu em campo Catarina Morais No início da nossa conversa disse que houve uma fase em que pensou que podia ser surfista. Foi nessa altura que aconteceu? Isso foi antes de ir para Inglaterra, com 15/16 anos. Ia com os meus amigos algumas vezes surfar, às 6 da manhã. Mas foi só uma fase. Então os anos em que esteve em Portugal, na B SAD, não lhe correram bem… Não, a todos os níveis foi catastrófico. Mas olhando para trás, sinto que foram muito importantes porque me deram a base, a resiliência e o continuar que hoje tenho. Quando começou a viver no apartamento que comprou? Quando surgiu o covid-19. Passei o confinamento na minha casa, por isso foi bem-passado. Rapidamente adaptei-me e consegui criar as minhas próprias rotinas. Nessa altura já tínhamos o Petit como treinador. Tínhamos aquele treino em vídeo e depois, como vivia em Sintra, no campo, conseguia ir dar o meu passeio, porque tinha a desculpa do cão para passear. Que cão tem? Uma Westie toda branca, chamada Lexi. Os meus pais sempre tiveram cães, mas durante os anos fui desenvolvendo uma alergia gigante ao pelo do cão. E quando descobri que havia cães como os Westie que têm cabelo e não pelo, tive de ir ver com os próprios olhos. Lembro-me de estar com a ninhada e esfregar os cães ainda bebés na cara e, nada. Sendo um cão de um tamanho que pode ir comigo para todo o lado, era isto mesmo. E namoros, nada ainda? Em Portugal tive uma relação prolongada que terminou quando fui para o Chipre. E agora estou com uma polaca. Em 2021/22 Luís Silva (à direita) foi jogar para o ENP de Chipre D.R. Do que se recorda mais das três épocas na B SAD? Lembro-me que dentro de tudo aquilo apareceu, do Dimas, que me ajudou imenso e ajudou-me a desenvolver. Lembrei-me de uma história. No último ano que lá estive, eles criaram a equipa B. Passámos a ter equipa principal, equipa B e de sub-23. Eu estando fora da equipa principal, fazia parte da equipa B e da equipa de sub-23, ou seja, dentro da mesma equipa eles faziam duas equipas para jogar no mesmo fim de semana em duas competições diferentes, no campeonato de Portugal e na Liga Revelação. Houve um fim de semana em que fui jogar aos Açores, para o Campeonato de Portugal, voltei, e no dia seguinte joguei em Odivelas, pelos sub-23, na Liga Revelação. No campo de Odivelas, a distância entre o final da linha e o muro que termina o campo é muito curta e normalmente as câmaras de filmar estavam ali. Eu estava tão cansado que há um lance em que vou cortar uma bola num último momento, estou a tentar travar e dou uma cabeçada na câmara do Canal 11 [risos]. Ainda hoje tenho amigos que me mandam o vídeo, porque o veem quando estão aborrecidos [risos]. Dizia que o Dimas foi importantíssimo na sua vida. Sim, ele surgiu num momento em que veio o Petit e eu estou completamente fora da equipa, deixei de treinar com a equipa principal e ele percebeu a minha posição e disse-me: “Luís, eu com não sei quantos anos também fui para a equipa B, mas vais ver que isso, quando olhares para trás, é um momento de aprendizagem. Isto não vai definir a tua carreira.” Mas naquele momento confesso que cheguei mesmo a pensar em desistir do futebol, falei com o meu pai no sentido de acabar o contrato com a B SAD, talvez arranjar um trabalho e recomeçar a minha vida. Porque na B SAD também havia muita confusão, era falta de pagamentos, de condições, não sabíamos onde íamos treinar no dia seguinte. Manifestava a sua revolta? Claro. Terá sido uma das razões por que não ficou na equipa principal? Boa questão. Não sei, talvez. As coisas não são só por um motivo. É como quando se sofre um golo, não é por um erro individual. As pessoas que vão analisar vão encontrar cinco, seis, sete erros dentro da mesma ação. Talvez tenha uma quota-parte, eu não era do género de ficar calado e aprendi da forma mais dura. E o Dimas sempre percebeu e sempre me valorizou e disse: “Para mim, tu és o capitão das duas equipas.” O Petit nunca lhe deu uma oportunidade? Entrei num jogo, aos 90 minutos, contra o Rio Ave. Joguei um minuto e meio talvez, e mesmo assim tive uma oportunidade gigantesca que podia ter marcado golo. Aí está, esses pequenos pormenores podem fazer a diferença e mudar o rumo das coisas. Não marquei e desde esse jogo tive alguns jogos no banco, mas nunca voltei a entrar. Desde 2023 que Luís é jogador do Widzew Lodzz, da Polónia Marcin Bryja Como acabou por ir parar ao Chipre? Apesar de ter-me passado pela cabeça desistir, não me deixei ficar. Não havia clube que me quisesse, não havia quem me quisesse dar oportunidade em Portugal e surgiu esta oportunidade de ir para a II Liga do Chipre. Os meus pais não queriam que eu fosse, os meus amigos não percebiam o porquê de eu ir, mas eu sentia que era para ali que tinha de ir. Senti logo, no momento, sem olhar para contratos, sem olhar para nada. Tinha que ir para ali e tentar mostrar o meu valor. E, atenção, fui para um país em que a vida é inacreditável. Veem-se jogadores de topo com mais de 30 anos a irem para lá e a conseguir ainda fazer vários anos na I Divisão. É um país com praias, verão o ano todo, o pessoal todo com o cafezinho frio na mão durante o dia, uma vida inacreditável, mas baixei a cabeça, fechei os olhos a tudo isso e só queria jogar, jogar, mostrar-me. Começou logo a jogar? Não, aconteceu exatamente o oposto. Comecei sem jogar. Percebeu porquê? Eu tinha feito a pré-época toda na B SAD, no meu último ano de contrato. Foram seis semanas de pré-época e como o campeonato deles começa mais tarde, cheguei a Chipre no primeiro dia da pré-época deles. Ou seja, tinha mais seis semanas de pré-época pela frente. Um calor de 40° para cima e eu sempre fui pessoa de frio; foi muito difícil a adaptação. Ao ponto de começar o campeonato e o treinador dizer-me: “Luís, acho que não estás preparado para jogar nesta equipa.” Recordo-me da raiva, mantendo a postura, da angústia, daquilo que tinha dentro de mim a explodir. Era uma equipa histórica que tinha acabado de descer para a II Divisão, com toda a possibilidade de voltar a subir. Pensei: “Mas como assim?” Mais uma vez a vida deu-me uma oportunidade de desistir, mas baixei a cabeça, comecei no banco e passado três jogos a coisa virou. Como? Entrei num jogo e fiz uma assistência que deu uma vitória, na Taça, contra o Aris Limassol, uma equipa que depois foi campeã da I Divisão. Aí as coisas viraram, nunca mais saí da equipa e terminei o ano no melhor 11 do campeonato. Subimos para a I Divisão, tendo eu criado um estatuto na equipa durante esse ano. Aquilo que parecia a pior coisa e a mais difícil do mundo para mim foi a maior plataforma que tive. Porquê? Porque começam a surgir contactos da I Liga. Mas fiquei no clube e fiz uma época completa com 40 jogos, na I Liga. E fazer uma I Liga europeia tem sempre muita visibilidade. Terminou a época, infelizmente descemos de divisão na última jornada. O clube não merecia. Um clube com adeptos, com estrutura, com estádio, com pagamentos em dia, sem facilitarmos, profissional, coisa que muitas vezes não é realidade nesses países, especialmente na II Liga. Acabámos por descer no último jogo, infelizmente. Eles ofereceram-me uma proposta de renovação que não aceitei, porque sentia que estava pronto para outro tipo de desafios. Vim embora e no ano seguinte subiram, estão novamente na I Liga, este ano. Um momento de boa disposição no Widzew Lodz D.R. Veio embora para Portugal ainda sem propostas? No último mês de campeonato, em maio, houve muitos clubes a quererem fazer aquelas primeiras contratações, porque há muitos jogadores que querem assegurar o seu futuro antes de irem para férias. Mas eu sabia que estava destinado para mais. E por isso esperei, esperei, esperei até aparecer esta oportunidade do Widzew Lodz, da Polónia. Continuava com o mesmo empresário? Não. Estava sem empresário. Foi o primeiro mercado de transferências em que entrei sem empresário. Quando recebeu a proposta do Widzew Lodz não hesitou? Nada. Novamente voltei a sentir aquele bichinho por dentro a dizer “Luís, é ali mesmo.” E assim foi. No espaço de uma semana estava aqui. Como foi o primeiro impacto quando chegou? Uau, estou novamente no patamar para que trabalhei e mereço estar. Um estádio gigante, cheio em todos os jogos. Condições muito, muito boas, quer de treino, quer financeiras, o próprio país super desenvolvido, muito mais que Portugal. O nosso Portugal parece que parou no tempo há 20 anos. A Polónia está a andar para a frente a passos largos e sabia que tinha de vir para aqui. E a receção no balneário? Foi simples. É capaz de ter sido a adaptação mais fácil que já tive ou que senti na minha carreira, talvez por estar mais preparado, pelas vivências que tive, pelas diferentes adaptações que já tive. Cheguei a Lodz e desde o primeiro dia que me sinto em casa. É muito estranho. Nunca tinha ouvido falar disto, nunca cá tinha estado. Mas senti-me em casa, é um sentimento inexplicável. O que achou dos polacos numa primeira abordagem? Com muita dificuldade no inglês. E, ao contrário dos ingleses, não há brincadeiras, há muita seriedade, caras sérias. Não sei explicar, parece que toda a gente está séria em todos os momentos, está irritada, chateada. Mas eles não são assim, só faz parte da personalidade deles, não quer dizer que estejam tristes. Rapidamente comecei a tentar aprender a língua e agora já começo a falar e já percebo muito de polaco e é completamente diferente, eles não são nada frios, pelo contrário. O futebol polaco é muito diferente do português e do cipriota? Muito. O futebol cipriota, especialmente na I Liga, era um futebol de jogadores de topo, que estão em final de carreira, com uma qualidade inacreditável, mas com pouca disciplina tática, com pouca vontade de correr. Em Portugal, um futebol muito rico taticamente, mas menos correria e menos agressividade, coisa que vim encontrar aqui. Um futebol muito intenso, muito rápido e muito igual. Isto é, neste campeonato, qualquer equipa pode ser campeã. Viu-se um exemplo disso, no ano passado. O Jagiellonia, onde estão dois portugueses, que venceu o campeonato, esteve na época anterior nos lugares para não descer de divisão. Quando chegou já aí estava o Fábio Nunes? Já. Ajudou-me muito na adaptação. Assinou por quanto tempo? Por dois anos, com mais um de opção. Agora estou no segundo ano. Em ação pelo Widzew Lodz SOPA Images Continua encantado com a Polónia? Sem dúvida. Nós não temos isto em Portugal. Se pudesse comparar o Widzew com um clube em Portugal, seria talvez o V. Guimarães, em termos de adeptos. Seguem-nos para todo o lado 3000/4000 pessoas. O estádio agora foi aumentado e em dia de jogo é santo, está cheio. Histórias para contar da Polónia, já tem? O ano passado batemos o recorde da assistência no campeonato, que foi de 50.000 pessoas e nesse jogo estreei-me a marcar. Há umas imagens muito engraçadas de mim a festejar o golo. Eu não sabia como festejar e, para saborear o momento, simplesmente sentei-me a olhar à volta, a apreciar [risos]. Como conheceu a sua namorada polaca? Ela trabalhava no clube, era a treinadora das crianças de cinco anos e do futebol feminino. Entretanto, já saiu. Conhecemo-nos quando fui fazer a sessão de fotografias para apresentar a camisola anual do clube. Eu ia com outro colega como modelo masculino e ela ia com outra colega como modelos femininos. Agora vivemos juntos porque, entretanto, já comprei um apartamento aqui na Polónia. Não faz nenhum sentido investir agora em Portugal com os preços que se praticam. Comprei um apartamento no centro da cidade, a 1/3 daquilo que arranjaria por uma coisa em 2.ª mão, em Portugal. E a Polónia está a crescer imenso, é um investimento seguro. Sendo um apaixonado pelo imobiliário, agora estou a criar as plataformas para depois da carreira conseguir fazer alguma coisa dentro desta área. Então já pensou no que quer fazer quando pendurar as chuteiras. O meu grande objetivo, e desde muito cedo que o tenho, é: independentemente da carreira que consiga fazer, quero poder decidir quando termino a minha carreira, quero ser um mestre do meu próprio destino. Daí o meu forretismo. O que penso é: “o que vou comprar agora que vale a pena estar a tirar do meu futuro?” Ou, onde é que posso aplicar que me vai dar algum retorno no futuro. Vivo esta vida de sacrifícios agora, para poder chegar a esse objetivo, fazer aquilo que quero e apetecer-me, seja no imobiliário ou noutra área. O defesa português (à direita) em mais um jogo pelo Widzew Lodz D.R. Mas também tirou o nível 2 do curso de treinador. Com que objetivo? Cada vez mais começo a perceber como é que o futebol funciona e, se calhar, vejo-me mais como diretor-desportivo do que propriamente treinador. Porque estou atento aos pormenores daquilo que é preciso, como é preciso, para além das táticas, para além do treino, dos jogos, para ser treinador. É as relações que se tem que ter com a direção; como se tem de gerir os egos dos jogadores quando jogam e quando não jogam, para tirar o melhor deles, perceber aquilo que se passa na vida deles. É um trabalho muito, muito complicado para ser bem-feito e eu sou o tipo de pessoa que, para fazer alguma coisa, tem que ser bem-feita. Por isso, cada vez mais me cheira que não me meterei nisso. Tem alguma meta para deixar de jogar? Como estou a organizar a minha vida em termos de investimentos para poder decidir, é quando sentir. Acredito que vou sentir esse momento, o momento de parar. Onde ganhou mais dinheiro até hoje? Aqui na Polónia. Só investiu em imobiliário? Não, também já investi em fundos e coisas assim. Qual a maior extravagância que fez na vida até agora, apesar de se assumir como forreta? Nenhuma. Ainda estou à espera de fazer. Houve uma coisa que comprei, um Mini John Cooper Works, em Portugal, que poderia ser considerado uma extravagância, mas não foi porque vendi ao mesmo preço. Luís Silva, de 25 anos, diz-se feliz na Polónia D.R. Tem algum hobby? Passear, explorar e aprender a história dos sítios onde vou. É um de fé? Bastante e sou praticante. Superstições tem ou teve? Zero. E sou aquele tipo de colega de equipa que chama maluquinho a toda a gente que as tem. Tatuagens? Tenho duas pequeninas. Fiz com 18 anos. Uma são três montanhas, por baixo do tornozelo. E do outro lado uma cruz. Acompanha ou pratica outra modalidade? Adiei o mais possível, mas comecei agora com o padel. É muito viciante. Qual a maior frustração que tem na carreira? Não ter entrado no jogo contra o Benfica, no Estádio da Luz, quando estava no banco de suplentes. E o maior arrependimento? Ter voltado para Portugal depois da Inglaterra, sendo que o arrependimento levou depois a uma aprendizagem. O momento mais feliz na carreira? Ser campeão da Europa de sub-17. O ambiente que encontrou na seleção era o que estava à espera? Muito melhor. Ficam amizades para a vida, a rivalidade virou em brincadeiras entre nós e a conexão foi renome. Íamos de férias juntos, mantivemos os contactos e as amizades. Tínhamos aquela celebração de meter dois dedos no pescoço para ver se estamos vivos, nós chamamos o check the pulse e todos nós fazíamos. E ultimamente o Dalot voltou a fazer, quando marcou golo pelo United. Um ambiente incrível que foi aquilo que nos permitiu, aliado à qualidade que tínhamos, ganhar aquilo que ganhámos. Eu depois não fui, não estive presente, mas o nosso grupo voltou a ser campeão nos sub-19. O objetivo que está por cumprir? Voltar a jogar na Inglaterra, na Premier League. Luís com a sua cadela Lexi, uma Westie D.R. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Real Madrid. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Diria que é esse grupo da seleção. Todos os Diogo's do FC Porto... Todo esse grupo da seleção que foi campeã de sub-17. Até podemos não estar juntos durante anos, mas estando com eles no dia a seguir é como se estivéssemos ontem. Teve mais alguma alcunha além daquela no círculo de amigos mais antigos? Javali. Porquê? Grande, pesado, que leva tudo à frente. Há alguma regra do futebol que alterava ou bania? Sendo defesa, penso que o VAR tem de ver as coisas em tempo real. Ou seja, eles veem a coisa em câmara lenta. Somos defesas, isto é um desporto de contacto e claro que ao ver o vídeo em câmara lenta há sempre contactos, mas é preciso ver o lance como ele foi de princípio ao fim. Portanto, mudava a forma como o VAR é mostrado. O vídeo só pode ser visto à velocidade normal. Já chegámos a ter expulsões, já chegámos a ter penáltis, porque os árbitros quando vão ver, efetivamente há contactos, a mão que toca na bola, mas é preciso ver o lance com naturalidade e não em câmara lenta. Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Marega. Tem algum talento escondido? Eu diria que sei jogar à bola tão bem quanto sei tocar viola. Ou seja, alguma coisinha [risos]. Gosto muito de música. O que gosta de ouvir? Ouvir, só reggaeton. Toco músicas de artistas portugueses, por exemplo, Xutos & Pontapés, Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, as mais conhecidas; e também Oasis, por exemplo. Tendo em conta a sua paixão pela História, qual o país que mais gostava de visitar e porquê? Não é um país, mas toda a região da Mesopotâmia, no Médio Oriente. Adorava poder explorar essa parte do Médio Oriente porque é onde há provas da primeira civilização do mundo. Fascina-me. Não o faço devido aos problemas e conflitos atuais. 2 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 13 Outubro 2024 Spoiler “Aos 11 anos fui trabalhar numa fábrica. Quando comecei a ganhar dinheiro no futebol, deslumbrei-me e passei ao lado de uma grande carreira” João Mota, 58 anos, cresceu numa família pobre de oito irmãos e pais analfabetos, que chegaram a viver em casas ocupadas no centro de Lisboa. Benfiquista ferrenho, foi o Sporting quem reparou no central quando jogava no Barreirense. O orgulho e a vontade de acelerar a vida fizeram-no abandonar Alvalade. Teve dois casamentos que acabaram em separação, dos quais tem quatro filhos, deslumbrou-se com o dinheiro, cometeu muitos erros e chegou a trabalhar nas obras depois de pendurar as chuteiras. Mas como nunca ficou longe do futebol, acabou por se tornar treinador, percurso sobre o qual falamos na parte II deste Casa às Costas Nasceu em Lisboa. É filho de quem e onde cresceu? Vivi até aos cinco, seis anos no bairro da Musgueira, numa altura em que era só barracas. A minha mãe era limpava escadas e o meu pai era vidraceiro na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Tem irmãos? Éramos oito. Os meus pais não tinham estudos, não sabiam ler nem escrever. O meu pai só sabia assinar, mas gabava-se de ter a maior barraca da Musgueira [risos]. Ia às obras durante a noite buscar umas madeiras para construir durante o dia. Éramos uma família grande e bastante pobre. Depois fomos viver para outros bairros de Lisboa. Vivi no Conde Redondo, ao pé do Marquês de Pombal. O prédio no Conde Redondo estava fechado para demolição e a minha mãe foi lá com uma amiga e rebentaram com a corrente, construímos a escadaria do prédio e fomos para lá viver. Vivíamos ali clandestinamente. Também vivi na Rua do Passadiço, perto da antiga sede do Sporting. Enfim, famílias bastante pobres. Gostava da escola? Nem por isso. Eu ia à escola só para jogar à bola e para me meter com as meninas. Curiosamente nunca chumbei nenhum ano. Mas, aos 11 anos, a minha mãe arranjou-me um trabalho numa fábrica de móveis. Disse que a escola não dava dinheiro e obrigou-me a deixar a escola para ir trabalhar. Era numa daquelas fábricas meio escondidas. O que ganhava dava todo à minha mãe. Com 11 anos, que sonhos tinha? Tudo o que sempre quis ser na vida era jogador de futebol. Tive aquela infância de ficar a jogar na rua até às onze da noite e a minha mãe começar a gritar o meu nome, para saber onde eu estava. Quem eram os seus ídolos? O Maradona e o Eusébio. Cheguei a ver o Eusébio em final de carreira. E depois era o Baresi do Milan e o Roberto Baggio. João Mota (1.º em baixo à direita) começou por jogar no Barreirense D.R. Em casa torciam porque clube? O meu pai era fanático pelo Benfica, então desde pequenino que ia para o Estádio da Luz ver o Benfica. Mas, curiosamente, foi o Sporting que me foi buscar a casa e deu-me a alavanca para a minha vida profissional. É interessante porque quando saio do Barreirense e vou para o Sporting, o pessoal do Sporting foi a minha casa, esperaram pelo meu pai, perguntaram-me se eu queria ir para o Sporting e se gostava do Sporting, eu disse: “Claro, caro, sou do Sporting desde pequenino” [risos]. Eu tinha 16 ou 17 anos. Quando o meu pai chegou a casa eu disse-lhe quem eram as pessoas. O meu pai ficou todo vaidoso, mas a primeira coisa que disse foi: “Eu aviso já. Ele é benfiquista, ferrenho” [risos]. Fiquei envergonhado e eles começaram a rir. Pediram autorização ao meu pai e lá fui viver para o Estádio José Alvalade. Antes disso, começou a jogar futebol num clube com que idade? Comecei a jogar aos 11 anos. Dois colegas meus iam fazer experiência ao Barreirense e fui com eles só para ver como era. Fiquei curioso a espreitar e o treinador chamou-me lá para dentro. Deram-me o equipamento e treinei. A coisa correu bem, gostaram muito de mim. “Precisamos que o teu pai assine os papeis para seres jogador do Barreirense.” Cheguei a casa com os papéis, todo contente, e o meu pai: “Tu não vais jogar à bola, tens é de estudar”. Fartei-me de chorar, fiquei muito triste, então o que fiz? Falsifiquei a assinatura do meu pai e comecei a jogar federado no Barreirense. Mas o meu pai depois soube. Entretanto, comecei a trabalhar porque a minha mãe assim quis, e jogava também. A minha vida era toda no Barreiro. Saía de manhã cedo e só chegava a casa às onze da noite, lá tinha a sopa à minha espera. O que fazia na fábrica? Primeiro estive com as senhoras a limpar o pó, mas depois passei para a parte da embalagem. Estive lá dois ou três anos porque depois chateei-me com o diretor. Devido àquilo que passei durante a minha infância, os conflitos entre o meu pai e a minha mãe, sempre fui muito revoltado. Não lidava bem, ainda hoje tenho dificuldades com a injustiça. Quando via alguma coisa injusta, queria ser o Robin dos Bosques e punha-me à frente das pessoas, então zanguei-me com o diretor. Ele foi a minha casa, a minha mãe ainda o defendeu, dizia que eu era um bandido e que precisávamos do dinheiro. Mas não consegui, fiquei só a jogar à bola, no Barreirense. Depois é que fui para o Sporting. Deixa a casa dos pais. Custou-lhe ou não? Não. Fui viver para o estádio do Sporting onde só viviam jogadores do norte. Abriram uma exceção porque eu não tinha realmente condições, nem de alimentação, nem de transportes. Éramos muito pobres. A minha vida mudou, não me custou nada sair de casa, até porque era um sofrimento diário, além de bastantes pobres, o meu pai discutia muito com a minha mãe, que era uma pessoa que quando se enervava, caía para o chão. Andávamos sempre no hospital com ela, havia muita violência, foi uma infância muito difícil, então quando saí foi um alívio. O meu pai depois passou a ter orgulho em mim, mudou um pouco o chip, e começou a ver os jogos e a apoiar-me mais. O central (1.º atrás à esquerda) com a equipa de juniores do Sporting D.R. Só treinava e jogava no Sporting, com 16 anos, não fazia mais nada? Sim, era como um profissional. Mas a minha saída para o Sporting foi atribulada. O Barreirense não me queria deixar sair. Devido à minha situação familiar, o Barreirense quis dar-me um contrato profissional de dois anos, com a possibilidade de comer num restaurante; o meu pai já não queria que eu fosse para o Sporting, porque era só o ano de júnior. O Sporting quando soube, deu-me então um contrato profissional por três épocas e aí decidi ir para o Sporting, Como era profissional, quando havia paragens nos juniores, ia treinar com os seniores. Quanto ganhava em 1984/85? 12 contos e 500 [€63]. Eu, o Fernando Mendes e o Lima, o ponta esquerda, os três tínhamos contrato profissional. Ainda dava o dinheiro aos pais ou já ficava com ele? Nunca mais dei dinheiro aos meus pais [risos]. Onde gastava o dinheiro? Comprava uns ténis ou uma camisa de marca, ficava todo contente porque nunca tive. Quando cheguei ao Sporting a minha bagagem era um saco de plástico com uns chinelos, uns calções e uma camisa. Cheguei à noite e o senhor Ferrão, que já faleceu, é que me levou lá, apresentou-me às senhoras do refeitório, a alguns jogadores e fui para o quarto onde estava o Litos e o Rodrigues, o guarda-redes. Pus lá o saco e fui jantar. Estavam todos a jantar, estava também o Futre, o Ezequiel Canário e os irmãos Castro, do atletismo. Quando acabei de jantar e fui para o quarto, estava lá o pessoal todo a jogar às cartas, mas não via o meu saco de plástico. Todo envergonhado, perguntei pelo saco e disseram: "Aquilo era teu? Foi o Litos que atirou pela janela, pensava que era lixo". Saí do estádio, dei a volta e andei a apanhar as coisas pela rua [risos]. O Litos acabou por ser a pessoa que mais me ajudou, dava-me roupa dele para eu vestir, andava sempre com ele. Foi um amigo. Jogava em que posição? Era defesa central. No Barreirense era médio centro, mas quando fiz o primeiro treino com o mister Marinho, dos juniores, fiz um drible, ele parou o treino e disse: “Ó Mota, tu estás no Sporting não é porque sejas muito bom, tu estás aqui porque nós vimos que tu tens qualidade para ser muito bom. Portanto, tu ainda não és nada e és defesa central, não és médio. Esquece lá os dribles que isso não é para ti”. Entrei logo com o pé esquerdo, mas a partir daí o mister Marinho ajudou-me muito. Só esteve um ano nos juniores do Sporting. Por que razão saiu? Subi a sénior, o presidente era o João Rocha, eu estava para ficar no plantel, fiquei todo contente, fui à casa do meu pai, fiz uma festa porque ia ficar nos seniores, mas, entretanto, houve uma troca, o John Toshack saiu e entrou o mister Manuel José, que fez nova lista de dispensas, novas contratações e eu fui emprestado ao União da Madeira. Depois voltei, pensava que ficava e fui emprestado ao Elvas. João, com 17 anos, e um dos irmãos D.R. Como correu a experiência na Madeira? Primeiro não queria ir. Estava com medo, andava um diretor do União da Madeira pelo estádio José Alvalade à procura do Mota e eu a esconder-me [risos]. Mas depois convenceu-me, fui e foi a melhor coisa que fiz. Apanhei uma equipa só de jogadores experientes, trintões, que me ensinaram muita coisa. Foi aí que aprendi a jogar como defesa central. Fomos à Liguilha, estivemos ainda alguns minutos na I Divisão, mas sofremos um golo na Póvoa de Varzim. Fizemos uma época espetacular, joguei todos os jogos e voltei ao Sporting, cheguei cheio de moral, mas acabei emprestado ao Elvas. Foi a sua estreia na I Divisão. Foi. Foi muito interessante porque há 38 anos que não ia um jogador do Elvas à seleção, desde o tempo de Patalino, e fui chamado à seleção de esperanças. Cheguei a ser titular em três jogos e fiz uma época muito boa. Voltei ao Sporting e aí cometi um dos maiores erros da minha carreira. Qual foi? Estava convencido de que ia ficar, devido à época que havia feito. Até os velhotes que estão sempre lá no estádio, quando me viram, disseram: “Olha o Motinha, o Motinha vai ficar este ano porque fez uma grande época”. E, quando recebi a notícia que queriam renovar por mais três anos, mas ia ser emprestado outra vez, eu disse que se me emprestassem não assinava mais nada, nem queria mais nada com o Sporting. E voltei para o União da Madeira, onde fiquei três anos. Está arrependido de não ter renovado com o Sporting? Estou arrependido porque uma coisa era ser jogador do Sporting… Eu voltaria sempre a Alvalade, nessa segunda época até estavam a tentar emprestar-me ao SC Braga. Ou seja, havia mais possibilidades, se calhar. Mas também houve uma mudança na minha vida, a nível mental. Que mudança? Nessa altura comecei a ganhar dinheiro e agora imagine aquele rapaz que nunca tinha dinheiro para nada, que vivia na pobreza, começa a ver-se com muito dinheiro...Comecei a perder-me. Não logo nos primeiros anos, mas quando venho da Madeira para o U. Leiria. A partir daí comecei a perder-me um pouco. O que significa começar a perder-se? Comecei a cometer alguns erros que não devia. E a minha carreira poderia ser muito diferente. Que tipo de erros? Pode revelar? Não descansar, gastar dinheiro em coisas desnecessárias. Comprava carros topo de gama, cabriolet, BMWs, e não havia necessidade disso. É a fase do deslumbramento. Onde estivesse algum amigo a jantar com a família, às escondidas eu ia pagar o jantar àquela gente toda. Foram exageros que mais tarde, na carreira de jogador, tiveram influência. A minha carreira começou a decair, o que é normal. De 1987 a 1990 João Mota jogou pelo União da Madeira D.R. Já tinha algum namoro sério? Eu casei muito cedo, quando fui para Elvas, do qual tenho dois filhos, a Andreia e o Paulo Renato. Fui pai com 20 anos. Olhando para trás percebemos os erros que cometemos, mas são erros que tinham de acontecer, e os meus filhos tinham de existir, são maravilhosos. Acabou por não ter o fulgor nem em ascensão com que sonhava. Sente que podia ter atingido muito mais? Lógico. Na altura do Sporting, Elvas, União de Leiria, ainda jogava muito bem, estava muito forte, mas depois fui caindo, fui para o Louletano, na Divisão de Honra. Estive sete meses sem receber salário. Houve muitos problemas e o pouco que já tinha e que eu gastava, acabou. Seguiu-se o Montijo, foi um ano de desgraça porque estive na casa do meu pai. A minha mãe estava na aldeia, ao pé de Arganil, e o meu pai no Barreiro. Vou a seguir para o Torreense, onde estive dois anos e a seguir para o Câmara de Lobos, que foi bom, muito agradável porque subimos à II B. Foi um clube onde, apesar de não ganhar muito dinheiro, era de gente muito séria, que me ajudou muito. Às seis da manhã iam bater-me à porta para me dar peixe fresco, era uma vila piscatória. Eu vivia sozinho, nem sabia onde ia fazer o peixe, mas tinha de aceitar. Na década entre os 20 e os 30 anos, quando diz que cometeu os excessos, quando percebeu que tinha de parar? Foi em Câmara de Lobos. Aí percebi e senti que tinha feito muita coisa errada. Comecei a ter uma roturazinha aqui, outra ali, são maleitas que vinham de coisas passadas. Tinha amigos na Madeira que me diziam: “Puxa Mota, tu foste dos melhores centrais que passou na história do União, nós pensávamos que ias ser um grande jogador”. Mesmo nos juniores do Sporting, o objetivo era que eu fosse o futuro central do Sporting e da seleção nacional. Tive de aceitar que passei ao lado de uma grande carreira. Não posso dizer que tive azar, fui eu que errei, que cometi os excessos, não tenho ninguém para culpar. Durante essa década de que falou eu pensava que era o Rei da Cocada, como dizem os brasileiros. Mas nós não somos nada sem Deus, é a minha visão hoje. A minha forma de pensar a vida mudou completamente. Hoje tenho uma vida mais tranquila, as coisas que eu mais adorava já não são as mesmas. Que coisas eram essas que adorava? Discotecas, música alta, adorava beber cervejas à maluca. Hoje sou capaz de beber uma tacinha de vinho, mas com qualidade, gosto de saborear o vinho. Fernando Santos (ex-selecionador nacional) com João Mota atrás dele, um jogo entre o Estoril Praia e o U. Madeira D.R. A sua carreira terminou no Lagoa, com 33 anos? Quando fui para o Lagoa até já tinha terminado. Estava a trabalhar em consultadoria e encontrei o Sérgio que tinha sido meu colega no Sporting e pediu-me para o ir ajudar. Nessa altura trabalhei na companhia de seguros Tranquilidade, nas obras, trabalhei como segurança, fiz de tudo um pouco durante oito anos. Entretanto, separo-me do meu segundo casamento e a ficha cai completamente. Esse segundo casamento surgiu quando? Surgiu depois de ter passado pelo Louletano. Dessa união tenho mais dois filhos, o Diogo e o João Tiago. As coisas não correram bem e foi após essa separação que o chip mudou. Já não estava no futebol, mas tirei o curso UEFA B. Entretanto, sou convidado para treinar os meninos do Montenegro e depois fui para o Farense, para o Internacional de Almancil, etc., mas não me recordo bem dos anos, talvez 2008 ou 2009 por aí adiante. Vivia no Algarve. Até que vai como adjunto para os Emirados Árabes Unidos. De onde surgiu o convite? Foi o Fanã [Fernando Pires] que me convidou para ser seu auxiliar no Hatta Club, nos Emirados Árabes. A partir daí é quando arranca a minha carreira de treinador. Quando chegou ao Hatta Club que primeiras sensações teve? Foi um choque de culturas, aquilo para mim era tudo muito estranho. O que mais me chocou foi ouvir as rezas deles a qualquer hora da noite; o termos de interromper o treino para eles irem rezar; depois, o clima, o calor; o comer no chão, com as mãos. Aquilo fazia-me uma confusão, nem cruzar as pernas conseguia. Hoje já estou mais do que identificado com isso, naturalmente, mas no início fez-me confusão. Lembro-me também uma vez que fui resolver um problema no banco. O cartão não estava a funcionar, fui ao banco, a moça que me atendeu, toda vestida de preto, foi muito simpática, resolveu-me o problema e fui para despedir-me dela, estendi-lhe o braço para um aperto de mão e ela olhou para mim, fez o sinal que não e fiquei com o braço estendido, cheio de vergonha [risos]. Não sabia que não podemos tocar-lhes, não as podemos cumprimentar. De 1993 a 1995, o central jogou no Torreense D.R. Como era o futebol nos Emirados em 2011/12? Hoje o Hatta Club está diferente, já passou pela I Liga, mas nos Emirados não mudou muita coisa, o que melhorou foram as condições. Os estádios, as relvas, as estruturas são melhores e maiores. O jogador árabe não mudou muito, por opção deles. Têm qualidade, mas têm alguma dificuldade no entendimento do jogo. Fazem bons dribles, sabem jogar bem, são fortes fisicamente, têm alguma qualidade técnica, mas no entendimento do jogo, no porquê das coisas, têm dificuldades. Cada vez que pego numa equipa árabe tenho esse problema. Isso acontece porquê? Falta de formação? Acho que tem a ver com a formação, sim. Se vir um jogo das camadas jovens desses países, é chuto para a frente, as equipas estão sempre partidas no campo. É resolvido porque há um jogador que é melhor tecnicamente e faz umas fintas bonitas. Mas não há uma organização e um conhecimento do jogo, que lhes dê uma certa qualidade quando chegam à equipa principal. Nada evoluiu desde 2012 até 2024? Estamos a falar de países que não têm problemas financeiros. O que justifica não terem evoluído mais nesse aspeto? Isso é o que eu já lhes perguntei. Nos anos posteriores estiveram lá o Bruno Lage e o Carlos Carvalhal, houve algum investimento, tanto que essas equipas goleavam as outras, havia evolução porque tinham na base treinadores portugueses e de outras nacionalidades. Como você disse, e muito bem, eles têm tanto dinheiro, gastam uma fortuna num treinador para treinar uma equipa, porque querem é o resultado e esquecem-se da base. Embora hoje as equipas grandes já têm treinadores espanhóis, portugueses na formação, já apostam mais. Houve uma evolução. Mas naquela altura a diferença era feita apenas através dos jogadores estrangeiros. A equipa que tinha os melhores estrangeiros era campeã. Hoje já não é assim. Esteve uma época como adjunto do Fanã. E depois? Tive um convite para uma equipa jovem no Catar, mas tinha de ter o UEFA Pro, que ainda não tinha. Como reparei que estavam lá brasileiros que não tinham o Pro, perguntei e disseram-me que esses não precisam do Pro, porque tinham do país deles. Fui à Internet e vi que havia um curso em Porto Alegre para treinadores. Como ganhei um dinheirinho no Hatta, fui para o Brasil para tirar o curso. Era um curso do Sindicato de Treinadores de Porto Alegre, mas não me valeu de nada. Aí foi só um abrir de portas no Brasil. Conheci um empresário que conseguiu colocar-me no Aparecidense. João Mota com 21 anos e a filha, de dois D.R. Foi a sua primeira passagem pelo Brasil. O que constatou? Uma cultura completamente diferente, uma paixão pelo futebol fora do normal. Um clima muito complicado, muito quente e o treino em si, a mentalidade dos jogadores, também era diferente. Para eles o físico era tudo e para mim a bola era tudo. Faziam imenso trabalho físico, quando iam para jogar à bola faziam o campo inteiro e não ensinavam aquilo que gosto de ensinar, a posição corporal, como nos colocamos, a receção orientada. Não havia nada disso. Por isso, no Brasil, deixei uma marca ao nível do treino. Tive jogadores com 34 anos que me disseram: “Poxa Mota, estive tantos anos a jogar à bola e só agora é que aprendi a jogar futebol”. Porque uma coisa é jogar à bola, outra é sabermos os detalhes do jogo em si. Antes de ir para o Hatta eu já era muito estudioso, gostava de ler artigos, fui formando aquilo que são as minhas ideias. Tinha treinadores que fossem uma referência? Treinadores de referência na altura, não me lembro. Mas depois passei a acompanhar o Guardiola e o José Mourinho também. Foi o Mourinho que abriu as portas do mercado aos portugueses e o treinador português deve-lhe muito. Atualmente, o Guardiola e o Roberto De Zerbi são treinadores que jogam e trabalham da forma que gosto. Como saiu logo após um ano novamente para os Emirados Árabes Unidos, agora para o Dibba Al-Hisn? Vou para lá ainda como adjunto do Fanã, depois é que fico como treinador principal. O Fanã recebe um convite para ir para o Dibba Al-Hisn com a mesma equipa técnica e fui com ele. Depois, o Fanã veio embora, eu fiquei e aí convidaram-me para ser o treinador principal. O Fanã não ficou chateado consigo? Não, porque foi quando a época terminou. O Fanã é meu amigo. Os quatro filhos de João Mota D.R. Quando passou a ser treinador principal, o que foi mais difícil? A responsabilidade. Somos nós que decidimos. Como auxiliares damos uma opinião, como principal, apesar de ouvir as outras opiniões, a nossa tem de prevalecer. Se tivermos uma opinião diferente, não podemos vacilar, porque o nosso pescoço está sempre na guilhotina, a responsabilidade é sempre nossa. Se a equipa joga bem, os jogadores são bons, mas se a equipa joga mal, a responsabilidade é sempre do treinador. Aprendi a lidar com essa chamada pressão que eu não considero pressão. Sinto-me responsável por todos eles e por tudo. Por isso hoje dou muito valor à equipa técnica, ao auxiliar que me suporta, que tira algum peso de mim. Fui aprendendo a ser melhor treinador, porque o Marco, o auxiliar que me tem acompanhado, tem ajudado também nisso. Na primeira vez que saiu de Portugal para ir para os Emirados como adjunto, como era o seu inglês? Fraco. O Fanã ajudou-me, fui aprendendo, nunca tive problemas com isso. Nessa época 2014/15 em que se tornou treinador principal do Dibba Al-Hisn, resistiu até ao final da época? Fiquei até ao fim. O objetivo era o 5.º lugar. Ficámos em 6.º, mas com os mesmos pontos do 5.º. Basicamente cumpri aquilo que estava definido. Não ficou porquê? Porque normalmente não ficam com os mesmos treinadores. Hoje isso mudou e está melhor, mas naquela altura, mesmo os treinadores que eram campeões ou subiam de Divisão, eles mudavam. O árabe gosta de novidade, gosta de aparecer, gosta de fotos. Fiz o que tinha a fazer, saí de lá muito bem com toda a gente. Na minha segunda época nos Emirados, no Dibba Al- Hisn, é quando conheço a minha esposa, a Claudia, no Dubai. Como a conheceu? Ela é irmã de um treinador de guarda-redes que estava num outro clube nos Emirados. Ele é brasileiro, costumávamos encontrar-nos, íamos jogar à bola e a família dele foi lá visitá-lo. Conheci-a e começou o namorico. Ela é fonoaudióloga, que em Portugal significa terapeuta da fala. Continuamos juntos e foi a melhor coisa que me aconteceu na vida. Ela tem um filho já adulto, vivemos só os dois e vai comigo para todo o lado. O treinador com um dos oito netos D.R. Entretanto, foi treinar o Khorfakkan, também dos Emirados, mas não ficou até final da época. Porquê? Devido ao meu mau feitio na altura. Eu era muito de ideias fixas e tinha um jogador brasileiro que tinha sido o melhor marcador da Tailândia, que veio trabalhar comigo. É muito bom jogador, mas quando começou a jogar, a bola batia na trave, no poste, na cabeça e não entrava. Não conseguia fazer golo, mas fazia assistências. Os managers começaram a implicar comigo, porque eu insistia no Renan. Para eles, se não faz golos, não presta. Há um jogo contra Dubai, que está 1-1, e o Renan acabou por falhar uma oportunidade. Ouviu-se um sururu na bancada e o Renan disse-me: “Mota é melhor você me tirar. Está a prejudicar-se por minha causa. Vou sair, estou com uma dorzinha”. Ele quis mesmo sair. Não o quis tirar, por teimosia? Tiro-o ao intervalo e substitui-o, mas o manager quando entrou no balneário não sabia que eu o tinha tirado e chamou-me à parte. Com uma grande autoridade e um ar supremo, diz-me: “Porque continua a teimar com o Renan?”. Eu, que já estava um bocadinho passado da cabeça, respondi: “Porque eu é que mando aqui, eu é que sou o treinador, não é você”. E ele diz: “OK, você tem razão, você é que é o treinador” e virou-me as costas. É lógico que a partir dali sabia que estava despedido [risos]. Hoje sou um pouco mais flexível, não no quem joga, quem não joga, aí não dou hipótese, mas há coisas que aprendi com o tempo e a experiência, que temos de ser um pouco mais flexíveis. Spoiler “No Congo, cada vez que precisava de movimentar-me, vinha um carro blindado, com outro do exército atrás e eles saiam de G3 na mão” O treinador João Mota está de regresso ao Al Hussein, da Jordânia, onde por enquanto só conta com vitórias. Diz que desta vez é para levar até ao fim, a menos que seja despedido. Ao longo de mais de uma década passou por oito países e quase duas dezenas de clubes, de onde tem inúmeras histórias que aqui conta. Uma carreira de altos e baixos, até agora feita fora dos grandes holofotes do futebol, mas não esconde o desejo de um dia ainda passar por uma equipa profissional em Portugal Após duas épocas e meia nos Emirados Árabes Unidos volta ao Brasil, onde passou uma grande temporada a treinar equipas menores. Porquê o Brasil? Depois dos Emirados, como já namorava a minha mulher, em vez de ficar em Portugal sozinho resolvi ir com ela para o Brasil. Passei um pouco mal nesse ano porque não consegui arranjar clube, ninguém me conhecia no Brasil. Ainda não tinha acontecido os treinadores portugueses começarem a ir para o Brasil e foi difícil. Depois consegui ir treinar os sub-20 do AD Guarulhos, no estado de São Paulo. Para ir para lá apanhava dois autocarros, o metro, ia com alguma dificuldade, mas conseguia. Foi uma experiência diferente, andar no meio do povão, no meio das horas de ponta, naqueles transportes, ninguém respeita ninguém, todos passam por cima uns dos outros, o autocarro à pinha, enfim, foi um ano um pouco difícil. Com o que se deparou em Guarulhos? É uma cidade onde tem muita favela, tem muita gente pobre. Apanhei jovens com muito talento, comecei a passar as minhas ideias e eles diziam: “Professor, aqui essas ideias não vai dar porque o jogador brasileiro é burro”, e mais não sei quê. Não abdiquei das minhas ideias e a equipa começou a jogar, a jogar bem. Fomos até à semifinal do campeonato de São Paulo, do su-b20. Nunca tinham ido antes. Na fase final comecei a conhecer melhor os jogadores devido a um episódio que me marcou bastante. Pode contar? Sempre fui muito exigente no treino, no aspeto da intensidade. O treino era às onze da manhã, estava muito calor e um jogador, que me habituou a ser muito intenso e muito forte, estava praticamente parado, apático. Desabafei com ele: "Rodrigo, estás a brincar comigo? O que se passa contigo?". Ele baixou a cabeça. Era um dos capitães da equipa. Outro jogador, quando passou ao meu lado, disse-me: "Professor, ele está em jejum, ele está fraco"; "Como assim está em jejum?" Parei o treino e chamei-os. Foi quando ele me disse que não tinha comido porque não tinha nada para comer em casa. Sentei-os todos à sombra para conversar e tive acesso a uma realidade que desconhecia. Percebi que ele não tinha comida em casa, a mãe trabalhava em limpezas, e o pai batia na mãe, era alcoólico. Depois, outro jogador que chegava sempre atrasado e às vezes nem vinha ao treino, não jogava por causa disso, disse-me que muitas vezes não vinha ao treino porque quando ia a sair, via que o pai estava já quase a bater na mãe e então ficava em casa para proteger a mãe. Isto com muitos jogadores a chorar à minha volta. No Brasil, João Mota treinou vários clubes, entre eles a Portuguesa. D.R. O que fez? Eu, que não tinha muito, ajudei financeiramente e disse ao diretor que queria que o clube passasse a dar diariamente pequeno-almoço aos jogadores, nem que fosse pão com manteiga e café com leite. Começaram todos a ir ao treino. Começou a haver pão com manteiga e assim que chegavam, coitados, parecia que estavam a comer lagosta. Fomos apurados para a Copinha São Paulo, essa equipa fez história, passou a primeira fase. Foi aí que apareci um pouquinho e daí fui para os sub-20 da Portuguesa. Uma realidade diferente? Ali perto, no estádio do Canindé que toda a gente conhece no Brasil. A Portuguesa já foi um clube riquíssimo, tinha CT [centro de treino] com alguns cinco campos relvados, mas estava tudo abandonado. Foi uma experiência agradável por ter a oportunidade de estar num clube com ligações a Portugal. Hoje está melhor, alguém pegou no clube, mas foi interessante porque aí já joguei na I Divisão dos sub-20. Joguei contra o Corinthians, o São Paulo, deu-me uma visibilidade maior. O problema é que não havia dinheiro. Estive lá seis ou sete meses e só recebi dois. Entretanto, tive o convite para ir para Rio Branco do Acre, na equipa profissional e aí o meu nome começou a aparecer mais. Antes de ir para a Arábia Saudita ainda tem uma passagem pelo Operário-MT, no Brasil, certo? Essa passagem nem devia aparecer, não a tenho no meu currículo. Foi um homem que estava no Rio de Janeiro, que é dono de um clube, que me convidou a 10 dias do início do campeonato. Cheguei lá e tinha 12 jogadores. Tive de fazer um jogo quando ainda nem conhecia o nome deles e logo contra a melhor equipa de Cuiabá. Eu queria falar com os jogadores e perguntava: “Como é que aquele se chama, rápido, como é que aquele se chama?” [risos]. Estivemos a ganhar, mas como perdemos 4-2 ele despediu-me. Não recebi dinheiro, nada. As pessoas que me conheceram naqueles poucos dias ficaram incrédulos. Nem pus isso no meu currículo. No Rio Branco-AC D.R. Como foi parar à Arábia Saudita? No Brasil, devido ao trabalho dos sub-20, comecei a ter alguns contactos, só que eram equipas que jogavam o estadual e eu estava sempre a tentar ir para um patamar superior. Entretanto, recebi o telefonema de um empresário, que disse ter colocado o meu CV na federação da Arábia Saudita para treinar os sub-20, e que eu, um espanhol e um italiano estávamos a ser avaliados. Fui o escolhido, fiquei bastante contente. Fui para a Arábia Saudita e estava tudo a correr muito bem, só que foi o ano em que apareceu a pandemia. Terminou tudo. Todo o programa. Foi tudo por água abaixo. Ficou lá ou regressou ao Brasil? Ainda estive 52 dias fechado num quarto de hotel sem poder sair, sozinho. Iam levar-me comida, todos tapados, recebia e punha a comida fora do quarto, como se fosse um prisioneiro. A minha sorte é que estava num hotel ótimo, mas comecei a passar-me porque não saía dali e os aeroportos estavam a fechar. O que fazia com tanto tempo livre? Não fazia nada, via televisão, via as notícias. Pessoalmente achei muito ridículo o que se passava. O mundo inteiro entrou em pânico. Morreram muitas pessoas. OK. Mas as que morreram estavam mais debilitadas, achei um exagero o que aconteceu no mundo, não era caso para tanto. Os aeroportos iam encerrando e eu dizia-lhes que tinha de sair. Até que apareceu uma hipótese, ia haver um voo charter para todas as pessoas brasileiras ligadas ao futebol que estavam na Arábia, e eram muitas. Eu disse logo que tinha de ir, que morava no Brasil e lá me conseguiram meter nesse voo. Com Cláudia, a sua atual mulher D.R. Nesse ano de 2020 ainda treinou duas equipas do Brasil, o Rio Branco e o Tigres do Brasil? Sim, fui para o Rio Branco e foi uma confusão devido à pandemia, tínhamos de andar todos tapados. Foi complicado. No Acre há chuva torrencial todos os dias e um calor que ninguém aguenta. O campo estava sempre empapado, faltavam-me jogadores, eu não sabia como treinar, não tinha auxiliar e comecei a pensar: “O que estou aqui a fazer?”. Acabei por vir embora. Aliás, fiz algumas escolhas, porque não queria estar parado em casa, à custa da mulher, que depois me arrependi. Os Tigres do Brasil, outro clube com uma estrutura enorme, campos relvados por todo o lado, chegou a ser o centro de treino da seleção do Brasil. Nesse acabei o campeonato, fomos à semifinal da II Divisão do estadual. Foi uma passagem boa, mas também não me pagaram, não tinham dinheiro. Até que acabou por ir para o Sudão, como adjunto de Ricardo Formosinho no Al-Hilal Omdurman. É isso? Aí é o grande impacto da minha vida. O Ricardo Formosinho convidou-me. Tínhamos um bom salário, estávamos a viver num bom hotel. Tínhamos uma grande equipa. O Al-Hilal é a melhor equipa do Sudão e uma das melhores de África. Fomos campeões. O Formosinho depois quis vir embora. Dizia que não queria mais ficar no Sudão, que era de malucos e rescindimos todos o contrato. Estava em casa quando o Al-Hilal do Sudão convida-me novamente, mas agora para ser o treinador principal. Aceitou logo? A primeira pessoa com quem falei, quando recebi o convite, foi com o Formosinho. Ele ficou um pouco chateado, mas eu não senti que era da equipa técnica dele, havia entregado a minha carta como todos e achei que não podia recusar o convite, até porque não tinha trabalho. De qualquer forma não trabalharia mais com ele. No Farense fui auxiliar do João de Deus e foi muito positivo, gostei muito, sou muito amigo dele, grande profissional. Com o Formosinho não considero que fosse uma feliz passagem minha, atenção, minha. Porquê? Porque temos ideias de jogo e formas de estar na vida completamente diferentes. Ainda hoje estou agradecido ao Ricardo Formosinho pelo convite que me fez e estarei eternamente agradecido, mas não voltaria a trabalhar com ele. No ano da pandemia João Mota ainda treinou a seleção sub-20 da Arábia Saudita D.R. Como foi estar à frente da equipa do Al-Hilal? Fizemos uma grande época. Não terminei porque não quis terminar, mas a equipa estava praticamente campeã. Faltavam três ou quatro jogos. Não quis terminar porquê? Apesar de não ser rico, o dinheiro não me diz nada. Claro que se puder ganhar 20 não vou ganhar 10, preciso dele, o dinheiro é importante, mas não fico nas situações pelo dinheiro. Quando as coisas à minha volta não acontecem de uma forma correta, honesta, prefiro sair. Houve uma altura em que soube que já estavam a falar com outro treinador, os adeptos adoravam-me, ainda hoje recebo mensagens para voltar ao Sudão, mas comecei a ver que estava a ser traído. Há um jogo que empatamos, acabou o jogo e passei-me da bola e fui embora. Deixei a equipa praticamente campeã. O rapaz local que tomou conta da equipa quando foram campeões até disse: “Esta medalha é do Mota, não é minha”. Ainda tenho esse vídeo. Foi uma experiência muito boa a nível do futebol que conseguimos praticar, sempre olho no olho. E fui para outros países e estou hoje na Jordânia derivado ao trabalho que lá fiz. Mas o que aconteceu em concreto para “passar-se da cabeça” como disse? O Al-Hilal tem de ganhar sempre, sempre. Antes do jogo já estava um bocado nervoso porque já tinha ouvido qualquer coisa de que estavam a falar com outro treinador e depois como atiraram garrafas de água para dentro do campo, também me enervei com algumas pessoas, senti que tinha de ir embora. Mas eles foram impecáveis, pagaram, fizeram tudo certinho. Foi um impulso, que ainda hoje não sei se me arrependo. Tive pena de não receber a Taça e a medalha de campeão. Mais histórias para contar do Sudão, tem? Apesar de vivermos num hotel de 5 estrelas, viver no Sudão não é fácil. Fizemos viagens de 10 horas por estradas completamente esburacadas e com animais mortos nas bermas. Eles invadiam o autocarro para nos beijarem. Para sairmos do autocarro e entrar no hotel,10 m à frente, tinha de vir a polícia. Carros à frente do autocarro a disparar G3 para o ar só porque estavam contentes. Eles são loucos. Quando a guerra começou a despontar, estávamos no Egipto a disputar o acesso à Liga dos Campeões para o ano seguinte, o Formosinho disse que não queria mais. Ele já tinha decidido, mas aí disse publicamente que não voltava. E viemos todos embora. Em 2021, o treinador português treinou o Al-Hilal Omdurman, do Sudão D.R. Voltou ao Brasil depois? Sempre, a minha casa é no Brasil. Em 2022 vai para o DCMP do Congo. Como foi essa experiência? O Congo é o fim da macacada [risos]. O Motema Pembe é uma das equipas boas do Congo, mas eu não sabia o que ia encontrar. Kinshasa, a capital, é uma loucura. É tudo sujo, porco. Quando cheguei, o presidente mandou o motorista buscar-me para ir a casa dele e apareceu com um carro blindado, com carros do exército atrás. Saiam do carro com G3 a mandar-me entrar no carro. Era uma coisa de loucos. Eu estava num país em guerra e não sabia. Cada vez que tinha de movimentar-me ia um carro blindado com soldados buscar-me. A mulher que limpava o quarto, os rececionistas do hotel, a segurança do hotel, toda a gente me pedia dinheiro, a toda a hora. Dólares, dólares. Até a polícia. O carro estava parado, viam-me, conheciam-me, pediam para abrir a janela para pedir dinheiro, os próprios polícias de trânsito. Depois o campeonato não começava. Não havia campeonato, era sempre adiado. Perguntava quando começávamos a competir e o presidente dizia que era devido a problemas da Federação e da guerra. A minha esposa esteve lá comigo no hotel uma semana, foi embora e fartou-se de chorar porque no aeroporto foi intercetada para dar dinheiro e ela não sabia falar francês, não percebia. Abriram-lhe as malas. Até que eu disse: “Presidente, se não me paga, não estou aqui a fazer nada”. Como era a vida em Kinshasa? Andar na estrada é como andar em carrinhos de choque. Batem uns nos outros, os carros estão todos partidos, há pessoas em cima dos telhados das carrinhas, que já vão cheias. Só pensava, mas como esta gente consegue viver? Um país muito quente, onde chovia constantemente e cheirava muito mal na rua. A única estrada alcatroada era a que ia para o aeroporto e mesmo assim tinha buracos. Perto do hotel onde eu estava era só lama, gente por todo o lado. Estamos a falar da capital. Chegou a treinar? Treinava todos os dias. Mas cada vez que treinava e queria ir para o hotel tinha de ficar à espera de alguém que me fosse levar. O campeonato nunca começava. Pensei: se não há competição, se não me pagam, o que estou aqui a fazer? Já conheci muitos países, mas o Congo foi o pior. Quanto tempo lá esteve? Cerca de dois meses, comecei a ver que aquilo era só máfia, comecei a ficar com medo, aí, sim, tive medo. Ainda dei uma entrevista a dizer que possivelmente iria sair. Caíram-me todos em cima. O presidente pediu-me para aguentar mais um tempo, mas no dia seguinte marquei passagem sem dizer nada a ninguém e vim embora. Quando eles voltaram a falar comigo, já estava no Brasil. A dar uma palestra no Sudão D.R. No regresso ao Brasil foi treinar o Juventus Jaraguá. Como correu? Pessoas muito porreiras, tudo muito bem organizado, começamos tratar dos jogadores, estava tudo planeado, ainda faltava um tempo para começar a temporada e recebo o convite do Al Hussein. Era outra realidade, não podia recusar. As pessoas compreenderam perfeitamente. Vim para a Jordânia. Como foi o primeiro impacto quando chegou à Jordânia? O primeiro impacto foi aquele que acontece sempre em qualquer equipa para onde vou: o meu método nunca vai dar certo. Toda a gente diz isso porque começo a mudar tudo; eles começam a jogar e eu “alto e pára o baile”, comigo não vai ser assim, vai ser assim e assim. Começam logo: “Coach, aqui não dá”. Passado uns meses, estávamos a jogar o melhor futebol na Jordânia, estávamos em 1.º lugar no campeonato. Aliás, quando me fui embora deixamos o Al Hussein praticamente já campeão. Em 2023/24, João Mota assinou pelo Al-Jabalain, da Arábia Saudita D.R. Porque trocou o Al Hussein pelo Al-Jabalain da Arábia Saudita? Confesso que, pela primeira vez na minha carreira, saí por dinheiro. A proposta era muito maior. Tinha uma grande expectativa em relação ao campeonato da Arábia Saudita. É um campeonato muito competitivo, equipas muito boas, todos os relvados são espetaculares, é uma liga muito rica e se conseguisse triunfar ali, ia ser diferente de triunfar na Jordânia. Seria um impacto muito maior. Foi o que pensei na altura. O presidente do Al Hussein, que ainda é o mesmo, convidou-me para reunir com ele por três vezes, sempre a oferecer-me mais para eu ficar, mas eu não tinha coragem de dizer, se me der “x,” fico. Não coincide com o meu caráter. Teimosamente quis sair. Recebi milhares de mensagens dos adeptos a pedir para não ir embora. Foi um grande choque para as pessoas e, não sei o que me deu na cabeça, estava fixado em ir para a Arábia Saudita. O problema foi quando cheguei lá. O que aconteceu? Encontrei uma equipa completamente destroçada. Não falavam uns com os outros, os jogadores estrangeiros tinham quatro meses de salário em atraso, os locais, seis, uma equipa dividida. Eu não sabia. O presidente entrava dentro do campo de treinos a perguntar quem é que ia jogar. Eu dizia quem estava a pensar a pôr a jogar e ele dizia: “Não, não faças isso, este não pode jogar, porque isto e aquilo…”. Eu ficava a pensar, mas onde é que estou metido? Era impossível trabalhar ali conforme a equipa estava, aliás, o Al-Jabalain veio por ali abaixo. Depois de sair ainda perderam mais jogos. Aí, senti um grande arrependimento de ter saído da Jordânia, de um clube que me amava muito, e sinto isso agora. Num momento de descontração na Arábia Saudita D.R. Depois do Al-Jabalain ainda foi treinar ao Sudão e ao Kuwait, antes de regressar ao Al Hussein da Jordânia, certo? Exato. No Sudão, recebi um convite para ser coordenador da seleção sub-17, sub-19 e a seleção olímpica. Como foi essa experiência? Fui para Jeddah, onde estavam sediados, porque no Sudão havia guerra. Comecei a ir treinar, a ver os jogadores e percebi que eram jogadores muito fracos. Havia três ou quatro mais ou menos, mas os outros eram mesmo muito fracos. Pensei, isto não pode ser a seleção olímpica, vocês estão a brincar comigo? Até que um dos membros da suposta comissão técnica veio falar comigo e disse que, na verdade, não era a seleção olímpica, mas sim o Hay Al-Wadi, uma equipa do Sudão, cujo presidente é o vice-presidente da Federação. Ele contratou-me para treinar a seleção olímpica, mas estava treinar essa equipa dele, que era a quarta ou quinta melhor equipa do Sudão, mas fraca. O que fez? Começaram a dizer que treinávamos ali e que depois ia para Marrocos treinar a equipa de sub-20. Comecei a ver as notícias e já havia um coordenador da equipa de sub-20, em Marrocos. Perguntei quando ia para Marrocos. Insistiam que o importante era ali, naquele momento. Depois confessou-me, na cara, qual era o projeto. Como conhecia o trabalho que eu tinha feito no Sudão, queria levar-me para preparar a equipa dele, para fazer uma boa Confederation Cup de África, uma competição internacional, e depois, quando acabasse, ia para as seleções. Histórias para contar de lá, tem? Jeddah é muito quente e eles queriam começar o treino às seis da manhã. Ainda houve dois treinos, mas acabei com aquilo, porque os jogadores iam treinar em jejum. Ninguém nos servia o pequeno-almoço às cinco e meia da manhã. Por outro lado, às seis da manhã os jogadores estavam a dormir. Não reagiam àquilo que eu falava e já estava um calor infernal. Nem treinávamos em condições, não comíamos…Os treinos passaram para as oito da manhã. Cada vez apareciam mais jogadores e estava a treinar com 40 jogadores num campo de futebol 7, sintético, todo rasgado, no meio de um bairro social em Jeddah, rodeado de prédios. Era onde o povão ia jogar à noite. Tive uma reunião com eles. Diziam que iam arranjar campo. Mas, mais uma vez, peguei na minha passagem e fui embora para casa. No início desta época João Mota começou por treinar o Al-Tadhamon, do Kuwait D.R. Como a seguir vai parar ao Kuwait? Fui contactado por um empresário. Sabia que o Al-Tadhamon é uma equipa que tinha acabado de subir de divisão e fui substituir um treinador português, o Miguel Leal. O objetivo era ficar nos seis primeiros. Como não tinha nada, estava em casa, aceitei. Pensei que, se fizesse um bom trabalho, no ano seguinte podia ir para algo melhor. Assim foi. Abracei o projeto, houve algumas dificuldades, o estádio estava a ser relvado, andávamos com a casa às costas, íamos treinar num lugar, depois noutro, às 10 da noite. Não tive oportunidade de escolher os cinco estrangeiros, só escolhi o ponta de lança, que considero o melhor jogador da equipa. Tinha uma equipa com 11 jogadores mais ou menos, mas quando olhava para o banco e tinha que substituir, estava complicado. Acabou por regressar ao Al Hussein, da Jordânia. Porquê? A coisa corria bem, estávamos em 4.º lugar, ganhámos dois jogos seguidos. Eu tinha ficado com uma boa relação com o presidente do Al Hussein e sempre que o Al Hussein fazia um jogo mau recebia centenas de mensagens dos adeptos a pedir para eu voltar. De algumas pessoas no clube também. Eu não ligava. Não queria cometer mais erros, mas foi o presidente que me ligou. Vim para a Jordânia sem saber qual o meu salário. Ele só me perguntou: “Confia em mim?”; “Confio”; “Então venha embora já, precisamos de si. Os adeptos precisam de si, o clube precisa de si. Se eu tiver que pagar a multa, eu pago. Venha embora, por favor”. Como senti que os tinha traído uma vez, achei que devia vir. E aqui estou. Eu e o Marco já decidimos que, se não formos despedidos, ficamos aqui até ao fim. Está na altura de começarmos um projeto e finalizarmos. Uma das coisas que me puxou foi o facto de podermos disputar a Champions League asiática. Isso dá alguma visibilidade também. O técnico português no Kuwait D.R. Nos três jogos que já realizou, um deles da Liga dos Campeões da Ásia, só somou vitórias. Quais são os seus objetivos no clube? Exceto a Champions League, porque temos de ter a consciência de que não temos capacidade nem estofo para a vencer, quero ser campeão, renovar o título, ganhar a Supertaça. Depois temos a Taça da Jordânia e temos a Shield Cup, que é um campeonato menos importante, onde vou rodar a equipa. São quatro competições internas e o objetivo é ganhar todas. Considero que tenho a melhor equipa da Jordânia e tenho os melhores jogadores. Lógico que não é como a gente quer, não é só ganhar, vai haver dificuldades, vai haver problemas, mas o objetivo é tentar ganhar tudo jogo a jogo e fazer o melhor possível na Champions League. Não receia a proximidade com Israel e com uma guerra que está a alastrar? Quando esta guerra começou há um ano, eu estava aqui na Jordânia. Nunca se passou nada aqui. Houve algumas coisas, destruíram a embaixada de Israel, fizeram manifestações, mas nunca houve aqui nada de especial. Eles são contra Israel, mas recebem um grande apoio dos EUA. O rei não se mete em confusões, não se mete em guerras, não permite. Estou completamente seguro aqui. Pelo menos até agora. Está sozinho ou com a mulher? A Cláudia está comigo. Ela já começou a trabalhar online, está a resultar, tem a agenda cheia. Quais são ainda as suas ambições? Com o que sonha? Sinceramente, gostava de voltar a Portugal e treinar num campeonato profissional. Não sairia da minha vida de nómada agora para ir para uma divisão mais baixa. Mas gostaria de voltar ao meu país. Tenho saudades, tenho aí os meus filhos e netos. Tenho saudades da cozinha portuguesa, sobretudo do bacalhau. Vivi anos no Algarve, aquela sardinha assada com tomate e pimento na brasa também... Que saudades. Durane um treino do Al-Tadhamon D.R. Tem casa em Portugal? Não, mas o nosso próximo investimento é comprar uma casa em Portugal. Onde ganhou mais dinheiro na carreira? No Sudão. Investiu? Comprei casa. Qual a maior extravagância que fez na vida? Fiz muitas. Carros sobretudo. Tem algum hobby? Gosto muito de ouvir música, mas essencialmente gosto muito de estar com as pessoas na igreja evangélica. Tenho pessoas que são como como família na igreja. É onde eu sinto muita paz e muita tranquilidade. Porque se tornou evangélico? Aconteceu depois da separação do meu segundo casamento, bati no fundo do poço, estive desempregado, fui para o Brasil. Aí tive uma experiência muito forte com Jesus Cristo e quis seguir os passos dele. Conheci a minha esposa atual, e aí, já crente, agarrei-me a Deus. As pessoas sentiram mudança na minha forma de estar na vida. Hoje, quando faço coisas erradas, sinto-me muito mal, volto novamente a pôr o joelho no chão, a pedir perdão. Tive tudo para ter sido um drogado, um alcoólico e um homem sem escrúpulos, porque vivi essas experiências e assisti a esses mundos na minha caminhada, mas Jesus foi-me livrando de tudo isso e hoje sou um homem transformado pela fé e crença. O treinador português regressou recentemente ao Al Hussein, da Jordânia D.R. Tem ou teve superstições? Tive. O entrar com o pé direito. Agora acho uma estupidez. Tatuagens? Não. Acompanha ou pratica alguma outra modalidade? Não. Devia, mas não. Agora só treino quando estou com os jogadores, faço ali o meu treininho. Qual a maior frustração que tem na carreira? Eu era titular dos juniores dos Sporting e quando chegava a altura da seleção de juniores eu era dos poucos jogadores do Sporting que ficava no meu quarto no estádio José de Alvalade, sozinho. Chorei muitas vezes porque eu era titular da equipa, mas eu não jogava na seleção. Os meus colegas todos iam para a seleção e eu não. Conseguiu perceber porque não era convocado? Não. Porque os outros eram melhor, se calhar. Mas eu ficava muito triste e era uma grande frustração que sentia. Mas, passado dois anos, como profissional, já como sénior, eu estava na seleção nacional de esperanças e daqueles jogadores todos que iam à seleção nos juniores, eu não via lá nenhum. Uns estavam na II ou na III Divisões. É um exemplo que dou muito aos meus jogadores. Porque tem muita pressa de atingir o sucesso, mas o sucesso vem com normalidade. 0 seconds of 22 secondsVolume 90% E o maior arrependimento na carreira? Ter saído do Al-Hussein para ter ido para o Al-Jabalain. O momento mais feliz? A primeira vez que fui chamado à seleção. O objetivo que ficou por cumprir? Ter recebido a Taça no Sudão e aqui na Jordânia. Não recebi ambas. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que gostava de treinar? Benfica. Só por uma razão, o meu pai antes de morrer, perguntava: “Vais ser treinador do Benfica?” e eu respondia: “Vou, pai”. A última vez que falou comigo foi isso. Quais as maiores amizades que fez no futebol? O João de Deus, o Vítor Pereira, que está com ele e curiosamente o Ricardo, que também está no Al-Hilal, e logicamente, o Marco, o auxiliar que tem andado sempre comigo. Tem ou teve alguma alcunha? Quando era jogador, chamavam-me o "Índio", porque sempre tive o cabelo liso e usava-o comprido. Aqui no aqui na Jordânia já me chamaram “Mota Guardiola”, mas não gostei. Pedi às pessoas para não dizerem isso, porque não tenho nada a ver com o Guardiola, ele é muito melhor que eu. Com a mulher, na Jordânia D.R. Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania? Quando o jogador se atira para o chão e os árbitros sabem que está a fingir, e ele levanta-se de repente, acho que esse jogador tinha que ser castigado, tinha de levar, no mínimo, um cartão amarelo. Tem algum talento escondido? A minha esposa diz que faço muito bem doces [risos]. Adoro fazer doces. Se não fosse jogador e treinador de futebol, o que teria sido? Seria jogador de futebol, porque foi o futebol que me tirou da miséria. Aliás, foi Deus que me proporcionou, através do futebol. Infelizmente os meus pais nunca tiveram capacidade de me dar uma boa educação, porque eles, coitadinhos, também não a tiveram. Foi no futebol que conheci pessoas que me ensinaram muitas coisas. Foi no futebol que cresci financeiramente. Foi no futebol que aprendi a ser homem de verdade, a ter um caráter. Digo que devo tudo ao futebol, mas, na verdade, devo tudo a Deus. Algum dos seus filhos jogou futebol? O João. Tinha talento, ele é muito grande, era um bom central, mas sempre foi uma pessoa com muito orgulho e sem paciência. Hoje é fotógrafo. Quantos netos tem? Tenho oito netos maravilhosos. Como treinador, ganhar é o mais importante de tudo? Não. É muito importante, lógico, mas como se ganha, para mim, também é. Não mudo de opinião. Quando um treinador me diz que o que interessa é ganhar e o resto é conversa, é porque está a defender-se e não tem as ideias bem definidas. Quando dizemos quero ganhar de forma que o jogador, ao mesmo tempo, também evolua e fique com um legado nosso, é diferente de dizer, isso é tudo treta, o que interessa é ganhar. Não concordo com isso. 4 Compartilhar este post Link para o post
silentz Publicado 20 Outubro 2024 https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-10-20-na-polonia-as-pessoas-sao-muito-frias-e-muito-racistas-nao-gostam-de-estrangeiros-seja-branco-ou-preto.-gostam-deles-ponto-final-20b0aee6 https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-10-19-houve-uma-fase-em-que-andei-metido-em-problemas-no-bairro-era-porrada-partir-vidros-dos-carros.-ir-parar-a-esquadra-era-o-prato-do-dia-6eb01572 Podes meter esta sff? Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 20 Outubro 2024 Vivia umas casas abaixo da casa dos meus sogros. É irmão do Sambinha que joga em Israel e que passou pelo Sporting B https://www.zerozero.pt/jogador/sambinha/218748 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 20 Outubro 2024 Ia meter isso hoje mas mal faço o login no Expresso aparece um pop-up que não dá para fechar com uma cena do Nónio para aceitar Termos e Condições. Problema: os dois links que aparecem lá abrem páginas bloqueadas pelo antivírus por risco de fraude e roubo de passwords. 1 Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado 20 Outubro 2024 Citação de silentz, há 55 minutos: https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-10-20-na-polonia-as-pessoas-sao-muito-frias-e-muito-racistas-nao-gostam-de-estrangeiros-seja-branco-ou-preto.-gostam-deles-ponto-final-20b0aee6 https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-10-19-houve-uma-fase-em-que-andei-metido-em-problemas-no-bairro-era-porrada-partir-vidros-dos-carros.-ir-parar-a-esquadra-era-o-prato-do-dia-6eb01572 Podes meter esta sff? “Na Polónia as pessoas são muito frias e muito racistas, não gostam de estrangeiros, seja branco ou preto. Gostam deles, ponto final” Spoiler Mamadu Candé joga no Operário da Lagoa, nos Açores, mas a sua cabeça está cada vez mais virada para um futuro como treinador. A terminar o 12.º ano, nesta parte II do Casa às Costas, fala-nos da sua passagem por Chipre e Santa Clara, de onde se arrependeu de ter saído para a Polónia. No regresso a Portugal, para estar perto do filho, fez uma época no E. Amadora antes de se fixar nos Açores, atrás de um amor que hoje parece perdido. Além do Operário, também jogou em Rabo de Peixe Em 2017/18 jogou no Omonia, em Chipre. Como foi o primeiro contacto com a ilha? Fui para um país longe de Portugal, no sentido em que na altura não havia voos diretos, tinha de fazer escala em Inglaterra e na Grécia, a bem dizer era quase um dia de viagem e fez-me sentir novamente triste porque ia ficar mais longe do meu filho. Na Hungria, o meu filho foi visitar-me e eu vinha muitas vezes a Portugal. Em Chipre sabia que ia estar mais tempo longe do Samuel e fiquei triste. Mas sabia que tinha de trabalhar e jogar. Com que opinião ficou dos cipriotas? São muito fechados. Estão ali, mas parece que não estão. Gostam de jogar à bola, mas não vivem tanto o futebol como os portugueses. Mas eram pessoas boas. É um país quente, calmo, onde não há guerras, não há criminalidade. O seu inglês já era melhor? Sim [risos]. Aprendi na Hungria. O que achou do futebol cipriota? Com menos qualidade comparando com Portugal, mas gostei. Eles tentam dar o seu melhor. Em 2017/18, Mamadu Candé (1.º à direita em baixo) assinou pelo Omonia de Chipre D.R. Assinou por quanto tempo? Dois anos. Mas só fiquei um, porque depois de sair de Portugal só voltei no Natal, dois dias, e fiquei com muitas saudades. Desde aí comecei a pensar se era o melhor para mim. A época foi má, chegaram a acusar jogadores de se venderem…Em Chipre há muito disso. Alguma vez foi acusado? Não. Graças a Deus as pessoas só tinham coisas boas a dizer de mim. Nunca me meti nisso, nem sequer fui contactado. Entretanto, nas férias fui para Lisboa, falei com o meu empresário e disse-lhe que não queria voltar a Chipre, porque estava muito longe do meu filho e não podia ficar mais seis meses sem o ver. O meu empresário disse-me ter equipas da I Liga para mim, em Portugal. Entrámos em contacto com o Santa Clara e fui para os Açores. Gostou da ideia de ir para os Açores ou torceu o nariz por ser novamente uma ilha? No início desconfiei, porque já tinha vindo jogar aos Açores e não gostei, chovia muito, havia muita humidade. Mas o meu empresário disse que era bom, um sítio calmo, com comida ótima e que ia adaptar-me bem. Na verdade, quando cheguei, fiquei maluco, gostei muito. Do que mais gostou? A calma, as pessoas são todas amigas, a comida, o clima não é mau. O defesa esquerdo português (à esquerda) a festejar um golo com colegas do Omonia D.R. E do treinador João Henriques, também gostou? Gostei. Ele entende de futebol, apostou em mim. Mas fez pouco mais de 20 jogos. Sim, porque tínhamos o João Lucas, bom lateral e ia trocando entre mim e o João Lucas. Foi sozinho para os Açores? Não, fui com a Marcela. Assinou por dois anos. Veio ganhar muito menos do que ganhava no Omonia? Um bocadinho menos, apenas. Na segunda época surgiu a pandemia. Custou-lhe muito passar pelo confinamento? Foi chato. Quando começou, fechou tudo, não podíamos estar na rua, a polícia não vacilava. Eu tinha cão, um bull terrier, era a minha desculpa para andar na rua, porque nem correr para treinar podíamos. Se a polícia nos apanhasse, mesmo dizendo que éramos atletas de alta competição, que precisávamos de correr, eles mandavam-nos para casa. Depois o clube lá arranjou uma bicicleta para colocar em casa de cada um. O que fazia nos tempos “mortos”? Jogava PlayStation e houve uma fase em que o filho esteve comigo, porque não havia aulas. Depois fui deixá-lo a Lisboa, umas semanas antes de irmos para a Cidade do Futebol. Em 2018/19, Mamadu Candé foi jogar para o Santa Clara, dos Açores D.R. Como foram esses tempos na Cidade do Futebol com a equipa? Foi bom. Jogávamos PlayStation, às cartas, conversávamos. Havia sempre palhaçadas. Não tem histórias para contar dos tempos que passou no Santa Clara? Sinceramente, não. Foi o normal. Em 2020/21 porque trocou o Santa Clara pelo Radomiak da Polónia? No final da época tive proposta para ficar no Santa Clara, mas como entretanto recebi a proposta do Radomiak Radom, onde ia ganhar mais... O João Henriques também tinha deixado de dar-me o devido valor e começou a apostar mais no Zaidu. Estava na altura certa de ir para fora novamente, já tinha 29 anos. Quais foram as primeiras impressões da Polónia? Muito negativas. Foi dos países que menos gostei. Muito frio, eu é que vinha da I Liga portuguesa e parecia que eles é que eram as vedetas. Não me senti bem recebido. Olhavam-me de lado porque sabiam que eu vinha de uma divisão bem superior à deles. Vivia num hotel, sozinho, nessa altura já não estava com a Marcela e tinha conhecido uma rapariga nos Açores, a Diana. Na Polónia as pessoas são muito frias e muito racistas, não gostam de estrangeiros, seja branco ou preto. Gostam deles, ponto final. E sentia-se quando falavam mal de nós, mesmo em polaco. Não me agradou nada. Não tinha boleia para os treinos, pedia-lhes boleia, eles diziam que não iam para lá e quando eu lá chegava, eles já lá estavam. Com quem confraternizou mais? Com um alemão, Meik Karwot, que era uma joia de pessoa. Mais tarde apareceu o Filipe Nascimento com quem também passei a andar mais. Boa pessoa. Mamadu esteve dois anos no Santa Clara Quality Sport Images Não terminou a época porquê? Na infância tive uma queda a andar de mota e nessa altura o ombro saiu do lugar, fiz tratamento e nunca mais tive nada. Até que, no segundo ano do Santa Clara, o ombro voltou a sair, num jogo contra o SC Braga. O Paulinho puxou-me, caí mal e o ombro saltou. Fiquei assustado e desde aí o ombro começou a sair do lugar frequentemente. Diziam que eu tinha de parar seis a sete meses, mas não liguei porque queria jogar, não podia parar. Entre ser operado no Santa Clara e parar seis, sete meses, ou ir para a Polónia ganhar duas vezes mais, fora prémio de assinatura, não quis parar. Então foi para a Polónia sabendo que estava com um problema grave no ombro. Eu pensava que não voltaria a sair. Mas uma dia, estava a fazer ginásio e o ombro saiu do sítio, do nada. Estava a ficar grave. Temos um jogo amigável e o ombro saiu de novo. Quiseram fazer exames e disseram-me que tinha o ombro 90% inválido e precisava ser operado. Entrámos numa rescisão amigável e fui embora. Parei um tempo, aproveitei para estar um bocado com o meu filho, mas sempre à procura de situações boas para ir. Foi operado ao ombro? Não, estava em casa, mas a qualquer momento podiam chamar-me para assinar em qualquer lado. Falou-se na hipótese de ir para o Brasil e estava sempre à espera. O que aparecia não eram propostas boas, ia baixar muito de nível e sabia que se isso acontecesse podia prejudicar a minha carreira. Aguardei, aguardei, aguardei, não apareceu nada e nem operado fui. Acho que foi um dos erros que cometi, se soubesse tinha sido operado, mas estava sempre à espera de clube... Fiquei um pouco desiludido comigo, por não ter feito nem uma coisa, nem outra. Fiquei à espera da nova época e de novas propostas. Mas já não queria ir para fora, queria ficar mais perto da família. O defesa esquerdo (à esquerda) num lance de um jogo entre Santa Clara e FC Porto D.R. Só surgiu o interesse do Estrela da Amadora? Como eu não jogava há seis meses, o pessoal ficou com o pé atrás. Entretanto, o empresário fala-me do Estrela da Amadora, que seria interessante fazer seis meses e depois tentar dar novamente o pulo. Eu precisava de jogar para as pessoas verem. Concordei. Como foi recebido? Eles ficaram surpreendidos, um jogador experiente, já batido, que tinha ido para um clube que acabara de subir à II Liga. Ficaram contentes, fiquei logo como um dos capitães de equipa. Mas fez poucos jogos. O que aconteceu? O presidente era o [André] Geraldes. As pessoas já o conhecem, não preciso falar. Fui ganhar bem, depois já queria que o salário baixasse. Quis meter-me à parte, queria que baixasse o salário, eu e vários jogadores. Acho que nesse ano, até dezembro, saíram sete jogadores e no final da época foram mais 13, se não me engano. Ele é uma pessoa inconstante, de 8 ou 80. Quem está no mundo do futebol sabe. Fica ao critério das pessoas comentarem. Veio embora em dezembro e depois? Falei com a Diana, com quem namorava, e achei que o melhor era ir para os Açores, para acalmar-me, estava desiludido. Já não estava muito interessado em jogar, pensava começar a tirar o curso de treinador e fazer uma vida calma. Também sabia que tinha o ombro bastante inválido e estava desmoralizado. Nessa altura fiquei muito desiludido com o futebol, fui a tribunal com o Estrela da Amadora e acabei por ganhar o caso. Já nos Açores, surgiu o interesse do Rabo de Peixe, do Campeonato de Portugal. Vieram falar comigo, eu disse que não estava interessado em jogar, mas pediram-me para dar uma ajuda. Acabei por aceitar. E que tal? Um campeonato muito diferente, nada a ver. Pessoal de trabalho, que joga. Sabia que a realidade era outra, estava ali porque gostava de jogar à bola. Em 2020/21, Mamadu Candé assinou pelo Radomiak Radom, da Polónia D.R. Arranjou emprego de dia? Durante o dia ia para o ginásio, estava com a Diana e à noite ia treinar. A época correu bem, fizemos a melhor classificação de sempre e fomos até aos oitavos-de-final da Taça de Portugal. Depois fui de férias para Lisboa com a Diana e tive a proposta do Operário da Lagoa. Aceitei, assinei uma época e no final conseguimos subir para o Campeonato de Portugal, assinei por mais uma temporada e aqui estou. Atualmente, estou a tirar o 12.º ano para concluir o curso de treinador de nível B. Está mesmo decidido a ser treinador quando pendurar as chuteiras? Sim. Toda a gente diz-me que tenho jeito. Entendo bem de futebol, vivi a minha vida toda nisto. Chegou a jogar com algum dos seus irmãos? Só com o Sambinha, na seleção. Ele agora está em Israel. Onde ganhou mais dinheiro até hoje? No Videoton. Investiu? Investi num bar, em Cascais, mas as coisas não correram bem. Perdi algum dinheiro. Qual a maior extravagância que fez na vida? Já fiz tanta coisa. Levar amigos de férias para o Algarve sem eles pagarem. As maiores aventuras que fiz foram sempre com os meus amigos e com os irmãos. Tive bons carros também. Um ano depois, em 2021/22 o defesa esquerdo assinou pelo E. Amadora Gualter Fatia Tem algum hobby? Ver futebol. Acredita em Deus? Sou muçulmano, mas não praticante. Acredito em Alá, em Deus, sou uma pessoa que acredita em tudo. Superstições, tem ou teve? Não. Tatuagens? Tenho. A primeira foi o nome e a data de nascimento do meu filho. Tenho também o meu número da camisola, o 24. Foi o número que me deram desde o 1.º Dezembro e foi abençoado de sorte, fez com que chegasse a patamares que sonhei. Segue ou pratica outra modalidade? Sigo o MotoGP e gosto de Fórmula 1. Qual o maior arrependimento na carreira? Ter saído do Santa Clara. E a maior frustração? Não ter jogado a Liga dos Campeões. O momento mais feliz? Quando assinei com o Aves. Mamadu (no centro em baixo) joga agora no Operário da Lagoa, dos Açores D.R. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Barcelona. Alcunha, teve ou tem? Chamam-me Mama. Quais as maiores amizades que fez no futebol? O Zambujo, o Zé Manel, o Fábio Cardoso, o Tiago Santana e o Zé Luís. Há alguma regra do futebol que alterava, ou bania? Não. No início não concordava com o VAR, mas agora acho que encaixou. De resto, só essa estupidez dos árbitros dizerem que não podes jogar com meia branca muito para cima, por baixo das meias de jogo. Imagina, a meia de jogo é preta, se tivermos meia branca por baixo eles não gostam de ver e às vezes mandam baixar. Tem algum talento escondido? Acho que analiso muito bem o jogo. Com o filho Samuel D.R. Qual o momento mais difícil que passou na vida? Este último ano. Terminei recentemente a relação com uma pessoa de quem gosto muito, a Diana. Acho que é a fase que estou a passar menos bem. O adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Gelson. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Gostava de estar no MotoGP e ser o Miguel Oliveira II [risos]. Quando foi à Guiné pela primeira vez? Já tinha 21 ou 22 anos. Como foi o impacto? Pensei que fosse pior. As pessoas vivem com muita felicidade, bem dispostas, apesar da pobreza, levam a vida mais felizes. “Houve uma fase em que andei metido em problemas no bairro, era porrada, partir vidros dos carros... ir parar à esquadra era o prato do dia” Spoiler Mamadu Candé, 33 anos, cresceu num bairro social com mais seis irmãos e tem noção de que a educação, em casa, e o futebol, salvaram-no de um caminho que chegou a pisar, com alguns amigos que acabaram na cadeia. Fez toda a formação no 1.º Dezembro, foi pai aos 20 anos e esteve quase a desistir do futebol. O CD Aves abriu-lhe as portas e agarrou a oportunidade com unhas e dentes. Ao longo do percurso, além de ter jogado na I Liga portuguesa, passou pela Hungria, o Chipre e a Polónia. Esta entrevista é uma viagem pela vida e carreira do defesa esquerdo que hoje vive nos Açores Nasceu em Cascais. O que faziam profissionalmente os seus pais? Os meus pais são guineenses. O meu pai já faleceu, foi militar na Guiné, fazia parte das operações portuguesas. Ele pisou uma mina, ficou cego e sem as mãos. Entretanto, veio para Portugal para fazer tratamentos, por isso eu e os meus seis irmãos já nascemos todos cá. Sou o segundo mais velho. A minha mãe ainda é cozinheira. Cresci no Bairro da Cruz Vermelha, na rua onde estavam as pessoas com deficiência que representaram Portugal na guerra. Qual a primeira memória de infância que tem? Os amigos, as brincadeiras que fazia com os meus irmãos. Tenho saudades dessa infância. Hoje valorizo bastante. O que queria ser quando fosse grande? Sempre foi jogador de futebol. De onde vem essa paixão? Tinha alguém na família ligado ao futebol? Não, não tinha. Cresci num bairro social e passávamos a vida na rua a jogar à bola, a andar de bicicleta, a fazer corridas, entre outras coisas. Sempre gostei do futebol, já ficava chateado com as derrotas. Era adepto de que clube em criança? Sporting. Mamadu Candé (à esquerda) com o irmão Sambinha D.R. Gostava da escola? Gostava da escola para jogar à bola. [risos]. Eu até era inteligente, mas não era concentrado nas aulas, estava sempre à espera que chegassem os intervalos para ir jogar. Faltava muito às aulas, era um bocado traquina, as pessoas às vezes diziam: “Tu assim vais acabar na cadeia” e eu respondia sempre: “Não, vou jogar à bola, vou ser jogador de futebol.” Estudou até que ano? Até ao 8.º ano, depois optei por começar a trabalhar e concentrar-me no futebol. Quem eram os seus ídolos? Gostava muito do Frank Lampard, do Ryan Giggs, do Ronaldinho, do Zidane, e de Portugal era o Pedro Barbosa. Quando era pequeno com o que sonhava, o que mais ambicionava e onde se via a jogar? Sempre tive o sonho de jogar no Sporting. Na rua, já jogava atrás? Não. Sempre joguei a extremo esquerdo ou a extremo direito. Entretanto, com o andar dos anos comecei a baixar posição até ser defesa. O defesa esquerdo (4º em baixo à direita) fez toda a formação no 1º Dezembro D.R. Quando e como foi jogar pela primeira vez para um clube? O meu primeiro clube foi o Alcoitão. O pai de um amigo de infância veio falar com o meu para me deixar ir para lá também, com os meus amigos. O meu pai aceitou e comecei a treinar nesse clube, tinha sete, oito anos. Comecei a jogar e ganhei paixão por esse clube, que infelizmente já não existe. O meu primeiro treinador chamava-se Hélder, era uma pessoa que apoiava bastante os miúdos dos bairros sociais. Era ele que nos dava boleia, às vezes alimentação, cuidava de nós como filhos. Fazia-lhe confusão o facto do seu pai ser cego e não poder ver os filhos? Acabei por me adaptar. O meu pai era uma pessoa bastante inteligente e culta. Sabia falar umas cinco línguas. Em situações de escola ele é que me ajudava e aos meus irmãos. Era um pai bastante presente, apesar da sua deficiência. Gostava que o levássemos a passear e participava nas nossas risadas, não se fechava. Fazia tudo sozinho em casa. Por isso, não senti muito o choque de ele ser cego. Ficou no Alcoitão até que idade? Até aos 10, 11 anos. Depois fui para o 1.º Dezembro, porque o Alcoitão foi à falência. O 1º Dezembro foi muito importante porque percebeu que o pessoal dos bairros precisava ter atividades como o futebol para não se meter noutras vidas e acabou por fazer-me o convite e aos meus irmãos, como a outras pessoas do bairro. Acabei por fazer toda a minha formação no 1.º Dezembro, só saí já sénior. Mamadu foi pai aos 20 anos. Aqui com o filho Samuel D.R. Alguma vez se sentiu tentado a enveredar por caminhos menos positivos? Viver num bairro não é fácil, é uma construção de coisas, a pessoa tem de decidir o caminho que quer. E isso vem muito da educação dos pais em casa. Tive muitos amigos que infelizmente foram presos, meteram-se em grandes problemas. No início da minha carreira também me meti em alguns problemas, se calhar ia por caminhos que não devia. Que tipo de problemas? Nunca me envolvi em drogas nem nada disso, mas metia-me em porcarias. Há sempre confusões entre bairros e houve uma altura em que andei metido nisso. Os amigos com quem andava metiam-se em confusões e eu acabava por ir defendê-los com os meus irmãos e acabava por sobrar para nós também. Houve uma fase em que andei muito metido em problemas desses, mas é como digo, os conselhos depois vêm de casa, a educação vem de casa e acabei por afastar-me dessas situações, eu e os meus irmãos. Chegou a ir parar à esquadra algumas vezes? Várias vezes, isso no bairro era o prato do dia [risos]. Era porrada, andar a partir vidros de carros, andar em bate bocas com polícias, fazer barulho à noite na rua quando não podíamos. Muita coisa desse género. Com que idade? Com 17, 18 anos. O clique surgiu quando e como? Só devido aos conselhos de casa? O meu clique veio de ter sido pai muito cedo. Fui pai aos 20 anos. A partir do momento em que fui pai, comecei logo a trabalhar e a jogar e a focar-me na vida que queria para mim. Em 2011/12, Mamadu Candé (2.º em baixo à direita) assinou pelo CD Aves D.R. No 1.º Dezembro, quais os momentos e as pessoas mais marcantes? O presidente, o senhor Rui, que faleceu há dois ou três anos. Foi a pessoa que me marcou mais. Era um pai para os jogadores, bastante amigo. Não vou mentir, houve uma fase muito má em que passámos mal em casa, passámos fome, e ele sempre nos apoiou. Era muito amável. Faltavam-nos chuteiras e ele dava-nos. Foi muito marcante para mim, como para muitas pessoas do bairro. Com que idade começou a trabalhar e que tipo de trabalhos teve? Com 16 anos. Fui trabalhar para o McDonald's, o Burger King, fiz jardinagem, etc. Depois, quando soube que ia ser pai, disse ao presidente que ia deixar de jogar futebol porque o que ganhava ali era muito pouco e precisava fazer mais horas para ganhar mais dinheiro. Ele ficou triste, falou comigo e disse: “Não. Tu não vais deixar o futebol. Preciso de ti, tens muito potencial.” Passou-me um cheque em branco para as mãos e disse: “Quanto queres receber?”; “Não quero fazer isso, não quero que pense que estou a pedir-lhe dinheiro. Vou ser pai, preciso ganhar dinheiro para ter condições para o meu filho”; “Está aqui, diz quanto queres ganhar.” Eu tinha 20 anos, era muito novo, já jogava com pessoas muito experientes, que ganhavam bem. Disse quando queria ganhar. Qual era o seu primeiro ordenado no 1º Dezembro? Primeiro recebi €75, que dava para tudo [risos]. Ajudava a minha mãe, conseguia comprar coisas para casa, conseguia comprar uma camisa ou uma t-shirt para mim e ficava todo contente. Quando ele me falou no cheque em branco, então começou a dar-me €700. Foi um grande salto. Tinha de ser. Mandei aquele valor para o ar, não pensei que fosse aceitar. Ele: “É mesmo isso que queres?”; “Sim”; "Então a partir de hoje ganhas €700”. Isto em 2011. O defesa esquerdo (2º atrás à esquerda) assinou pelo Portimonense em 2014/15 D.R. Como conheceu a mãe do seu filho? Conheci-a numa discoteca onde havia sempre muitas confusões, foi na fase da minha vida em que andava metido em confusões. Chamava-se “Doutor Bar”, ficava mesmo por trás do bairro. Ela o que fazia? A Daniela estudava. Estava a acabar de tirar um curso de informática para terminar o 12.º ano. Conhecemo-nos, estivemos juntos nove meses e depois ela engravidou. Quando recebeu a notícia de que ia ser pai, como reagiu? Fiquei contente, sempre tive o sonho de ser pai. Sempre tive esse desejo. Eu gostava muito dela, dávamo-nos bastante bem, seguimos em frente. Ainda vivia em casa dos pais? Sim. Quando dei a notícia ao meu pai ele ficou todo contente também. Assistiu ao parto? Não consegui. As águas rebentaram às seis e meia da manhã, ela estava comigo em casa, mas o meu filho só nasceu às duas da manhã do dia seguinte. Estive o dia inteiro no hospital, foi uma seca. Mas quando vi o Samuel, comecei logo a chorar, fiquei super contente. É o único filho que tem? Sim. Continuou a trabalhar e a jogar no 1.º Dezembro, mesmo depois do aumento do clube? Não, decidi concentrar-me só no futebol. Em 2016/17, Mamadu Candé (3.º à frente a contar da direita) jogou pelo CDTondela D.R. Como foi parar ao Desportivo das Aves na época 2011/12? Fiz uma época bastante boa no 1.º Dezembro, o nosso treinador era o Paulo Fonseca. Cinco estrelas. Por isso está onde está. É um ser humano bom, entende bem de futebol, sabe bastante de tática e desenvolvi muito com ele. Depois ele foi embora e veio o mister Bastos Lopes, que apostou em mim também. Havia um lateral esquerdo bastante bom, o Angel Lima, já experiente, com mais de 30 anos, eu tinha 21 anos, mas o mister Bastos Lopes apostou em mim e fiz duas épocas excelentes como sénior. Tive propostas para alguns clubes. Fui tentar o Olhanense, que estava na I Liga. Quem era o treinador com quem esteve à experiência no Olhanense? O Daúto Faquirá. Entretanto, a minha empresária da altura, a Ana Almeida, não chegou a acordo devido a valores, eu era novo e eles acabaram por dizer: “Vamos dar um tempo para ver como é o próximo ano.” Isto em janeiro, voltei ao 1.º Dezembro continuei a época e no final do ano tenho clubes da II Liga interessados como o Moreirense, o Estoril Praia, mas, entretanto, o Paulo Fonseca foi para o Aves, ficou interessado na hipótese de eu ir para lá, e fui. Foi sozinho para Vila das Aves ou foi com a namorada e o filho? Fui sozinho. Foi a primeira experiência fora de casa e de Lisboa, fiquei triste, um bocado em choque, longe do meu filho e das pessoas que gosto. Num local mais frio, sem amigos. Chegou a pensar em voltar para casa? Não, porque estava a realizar um sonho. Do meu bairro tinha o exemplo de um amigo, o Fábio Paim, que estava a cumprir o sonho dele e queria seguir essas pisadas. Sabia que era uma oportunidade, que muitos do bairro queriam e eu tinha-a, por isso tinha de agarrar aquilo com unhas e dentes. Sofria, a minha mãe dizia: “Aguenta. Tem força, tu vais vingar, estás onde toda a gente queria estar.” Os meus irmãos também. Puxavam por mim. Em ação pelo CD Tondela, aqui com Pizzi do Benfica NurPhoto Estreou-se na II Liga. Uma realidade bem diferente do 1.º Dezembro. Sim, no 1.º Dezembro jogávamos na III divisão e tínhamos subido à II B, dificilmente jogávamos em relva, era quase tudo sintético. A adaptação foi um bocado complicada, até porque, nesse ano, no Aves só fiz quatro jogos. Sentiu-se desmotivado? Bastante. Chegou uma fase em que comecei a desconfiar de mim. Fiz a formação no 1.º Dezembro, que sabemos não ser um clube muito forte a esse nível. E, no Aves, apanhei jogadores que fizeram formação no Benfica, no FC Porto, Sporting, etc., eu vinha de um clube muito pequeno comparado com o restante. Posso dizer que comecei a aprender muita coisa básica quando cheguei ao Aves. Coisas simples, como rececionar uma bola e virar-me, como puxar dentro, como pressionar, coisas que eu já podia ter aprendido e que só aprendi ali. Mas leva tempo, não é de um dia para o outro. Recorda-se do jogo de estreia na II Liga? Foi contra o Oliveirense. Estava muito nervoso? Não, estava contente, queria era jogar, o jogo ainda por cima dava na televisão, os meus amigos e família também estavam desejosos de ver-me. Estava contente. Correu bastante bem, ganhámos 1-0. Que tal o ambiente de balneário, muito diferente daquele a que estava habituado? Sim. A partir do momento em que fui para o Aves, os jogadores são mais profissionais, treinam de manhã, vivem aquilo de outra forma, era um ambiente mais exigente. Eu vinha de uma realidade de só treinar às sete da noite, não profissional, em que as pessoas trabalhavam e jogavam, brincavam e riam muito. Ali era tudo mais sério, uma realidade mais rígida. O que fazia nos tempos livres? No Aves, descansava. Depois do treino ia descansar, de vez em quando ia ao ginásio. Vivia numa residencial, onde estavam o Amaury Bischoff e o Diogo Fonseca, e por vezes íamos passear. Passei a ter uma vida muito calma. Comecei a ficar no meu canto, a saber o que é descansar. Comecei a ter rotinas de jogador de futebol. Foi pelo CD Tondela que Mamadu Candé se estreou na I Liga portuguesa Gualter Fatia Assinou por dois anos e no final da época o Paulo Fonseca foi embora. Temeu que as coisas pudessem piorar? Não, pensei que se calhar ia ter oportunidade de vingar. Porque com ele não joguei muito. O professor Neca é de uma escola mais antiga, um treinador mais defensivo e de jogo direto. Começou a gostar de mim porque eu tinha agressividade, era rápido, forte, e ele gosta de jogadores assim. Apostou em mim e comecei a jogar. Depois veio o mister Vilaça. Era menos experiente que o professor Neca. Entretanto, deram-me um apartamento, a Daniela e o meu filho vieram viver comigo e a época começou a correr bem, mas em janeiro comecei a jogar menos. Porquê? Porque tinha uma proposta para o Videoton, da Hungria. Fui lá, fiz exames médicos, assinei e eles disseram para não jogar mais, para não me lesionar. Fiquei no Aves, mas ia só treinar e não podia jogar. Dei dinheiro ao clube, acabei por ser vendido, por isso foi com a concordância de todos. E ainda dei dinheiro ao 1.º Dezembro. Jogar era algo que ambicionava? Nem tinha pensado nisso ainda. Em janeiro eu estava tão bem que o Pedro Mendes e o Fernando Meira vieram falar comigo, queriam que assinasse com eles, e garantiram-me que me colocavam no SC Braga B, ou no Marítimo, na I Liga. Lembro-me perfeitamente que dois dias antes de ir ter com eles para assinar, recebi uma chamada do nosso diretor do Aves. “Mamadu, temos uma coisa bastante boa para ti, o Videoton, da Hungria, o treinador é o José Gomes, gosta de ti. Se for para ir é para ires já que eles querem assinar.” Falei com a minha família e acabei por aceitar porque confiava bastante nesse diretor, o Marco. O defesa esquerdo (1º à direita em baixo) optou por representar a seleção da Guiné Bissau D.R. Quando chegou à Hungria, qual foi o primeiro impacto? [Risos] Eu não sabia falar inglês, não sabia nada, estava perdido. A minha sorte é que estava lá o Stopira, da mesma posição que eu, lateral esquerdo, e ajudou-me, porque até lá tinha que levar o Google Tradutor para todo o lado para conseguir falar com as pessoas. Depois havia muito frio, nunca tinha apanhado tanto frio. Como foi a receção no balneário? Nem ligaram. Senti-me acomodado porque tinha o Stopira e o Lupeta, que falavam português. Depois também foi para lá o Zé Luís. Sentiu racismo da parte dos húngaros? Já estive em vários países e a Hungria foi dos países onde senti menos racismo. Estava numa cidade chamada Székesfehérvár, onde as pessoas pareciam que nunca tinham visto negros e pediam para tirar fotos comigo. Mas não era racismo. Era mesmo curiosidade. Pediam para tirar fotos por ser jogador e por ser preto. Olhavam com curiosidade, mas nunca senti que estivesse a mais. Tive pessoas que me disseram: “Peço desculpa, nunca estive perto de uma pessoa de cor, posso tirar uma foto?” Mas com educação e respeito. Nem nunca ouvi nada racista das bancadas. Como era o ambiente no balneário? Muito diferente. Os húngaros são mais fechados, os portugueses são mais alegres. Eles parecem RoboCop, é treinar, poucos sorrisos, trabalhar e ir para casa. Eram muito assim, não eram pessoas de ir tomar café. Esteve sempre sozinho no Videoton? Ainda no Aves, quase no fim da época, antes de ir para o Videoton a minha relação com a mãe do meu filho já não estava boa e ela foi para Lisboa. Entretanto, conheci uma rapariga na Vila das Aves, Marcela Gomes, que depois foi viver comigo para a Hungria. A adaptação foi boa, gostei muito de viver na Hungria. Vivia numa cidade grande, não era como Vila das Aves. Em 2017, Mamadu Candé jogou a CAN pela Guiné-Bissau D.R. Sendo o Videoton um clube da I Liga húngara, que diferenças maiores notou relativamente ao Aves? Sobretudo no aspeto da agressividade e correria atrás da bola. Na II Liga praticava-se bom futebol e era mais pensado. Na Hungria era muito à base da força, da corrida, do físico. Mas adaptei-me bem. O ordenado no Videoton era muito superior? Triplicou. Qual foi a primeira compra maior que fez? Mais roupas, coisas que precisava e gostava e que nunca tinha tido capacidade de comprar. Assinou por três épocas, como foi parar ao Portimonense logo na temporada seguinte ? Tive uma proposta do AEL Limassol de Chipre, que estava na fase de grupos da Liga dos Campeões, mas as negociações não correram bem, julgo que tentaram enganar o meu empresário, o Marcelo, que estava há pouco tempo no futebol. Entretanto, o Videoton estava a querer reformular, quiseram mandar todos os portugueses embora, as pessoas ficaram insatisfeitas porque ficámos em 3.º lugar, que para eles foi uma época má e quiseram mudar a casa. Muitos portugueses foram embora. Depois, do nada, ligaram-me a dizer que tinham o Portimonense, já o mercado estava a fechar. Sentiu que ia dar um passo atrás? Sim, hesitei, estava triste, sabia que estava a dar dois passos para trás porque no Videoton nessa época estávamos em fase de Liga Europa, tínhamos condições enormes, campos de treino que nunca mais acabavam, bom estádio, vivia numa casa incrível e sair dali para ir para a II Liga, não queria. Falei bastante com a minha namorada e ela também aconselhou-me a ir porque era melhor do que ficar parado e se trabalhasse bem como tinha trabalhado até aí, ia superar. Acabei por ir. Um pormenor do cacifo de Mamadu Candé da seleção da Guiné-Bissau, na CAN D.R. Quem foi o seu primeiro treinador no Portimonense? Foi o Carlos Azenha e depois o Zé Augusto. Cheguei não querendo ir, numa altura em que o Algarve estava cheio de gente, em férias, meteram-me num hotel onde havia muito barulho. Estava numa paz e sossego na Hungria, na minha casa, num espaço acolhedor, sem barulhos e fui para uma zona onde havia muito barulho e foi stressante. No início não estava a gostar nada. Mas o balneário era bom, pessoas boas, alegres, éramos bastante unidos e isso fez com que mudasse o chip. Fui bastante bem recebido. Com qual dos treinadores jogou mais? Com o Zé Augusto joguei bastante e fiz uma boa segunda época. Era um clube bastante organizado, tínhamos condições incríveis, o pessoal era gente muito boa, muito profissional. Só assinou por duas épocas? Sim. No final da segunda época tive uma proposta para renovar e outra para ir para o Tondela. Aí não hesitei, o Tondela era I Liga, fui logo. Era Petit o treinador e estreou-se na I Liga. Contra quem? Foi logo na 1.ª jornada e com o Benfica, que ganhou 2-0. Estava muito nervoso? Aí estava. Era um sonho que ia realizar. Toda a minha família e amigos são do Benfica e iam ver o jogo. Ia jogar na I Liga, era um orgulho. O jogo correu-me bem, tive uma boa nota. O filho do defesa-esquerdo e o cão Broly D.R. Mas nessa época só fez 14 jogos. Porquê? Eu tinha a CAN de África. Fui convocado para ir. Eles não ficaram satisfeitos e entrámos em choque, falei com o presidente e acabei por ir embora porque houve situações que não me agradaram. Que tipo de situações? Atitudes de balneário de alguns jogadores no final de um jogo que perdemos com o Leixões para a Taça de Portugal; houve jogadores que deram palpites no balneário que não foram bons em prol do grupo. Aí achei que não era o melhor local para eu estar. Mas culparam-no por algo? Não, foram jogadores que meteram outras coisas em cima do grupo e aí eu disse que aquilo não era um grupo, não havia união e não estava feliz. Havia também situações no contrato que acabaram por não ser cumpridas. Não me senti agradado. O Petit gostava bastante de mim, falava comigo, dava-me bons conselhos, até dizia que tinha clubes para mim em janeiro porque as coisas corriam-me bastante bem. Mas quis ir embora. Foi embora sem ter outro clube? Sim. Eu ia para a CAN e estava confiante, a época corria-me bem e sabia que ia aparecer alguma coisa melhor. Saí em janeiro. Na CAN 2017, no jogo com os Camarões Anadolu Quando foi convocado pela primeira vez para a seleção da Guiné-Bissau? Em 2011/12, estava no Aves. Qual foi a sensação quando recebeu a convocatória? Curiosidade, quando recebi a convocatória para a seleção foi no final do jogo Aves-Moreirense, se não me engano; veio uma pessoa falar comigo no final desse jogo para ir para a seleção de sub-23 de Portugal. Aceitei. E ele disse que depois ia enviar as coisas mais certas. Fiquei todo contente. Entretanto, passado dois dias ligam-me para saber se eu queria representar a seleção A da Guiné-Bissau. O coração ficou dividido? Ficou. Fiquei sem saber o que fazer e pedi alguns dias para pensar. O que o levou a optar pela seleção da Guiné-Bissau? Quis dar uma prenda ao meu pai. Lembro-me perfeitamente de estar sentado com ele a dizer-lhe: “Pai, tenho uma coisa para dizer. Tive uma proposta para representar a seleção sub-21 de Portugal”; “Boa boa. Isso é fruto do teu trabalho”; “Mas também tenho outra. Tenho uma proposta para representar a seleção A da Guiné”; “Epa, é complicado. Tu é que tens de escolher e ver o que é melhor para ti e para o teu futuro”; “Mas eu já decidi. Vou representar a seleção da Guiné”; “Porquê?”; “Por tudo o que tens feito por mim e pela pessoas que és.” Ele abraçou-me logo e disse que ficou muito orgulhoso de mim. Qual foi o seu primeiro jogo pela Guiné-Bissau? O primeiro jogo foi um amigável com Cabo Verde no estádio do Belenenses. Foi aquela coisa, estou a representar uma seleção principal. As fichas estavam todas a cair. Porque eu vim de uma realidade em que se calhar mais um ano e podia estar preso, ou metido em porcarias, e as coisas começaram a mudar de uma forma positiva muito drasticamente. Quando fui para o Amazónia Hotel e a subir para o quarto e encontrei no elevador o Cristiano Ronaldo e Orlando Sá, porque Portugal também estava ali hospedado, pensei, é mesmo realidade estou a representar a seleção. Senti-me jogador. Mamadu Candé fotografado nos Açores na semana em que foi entrevistado por Tribuna Eduardo Costa Já alguma vez tinha visitado a Guiné-Bissau? Não. Sentiu-se em casa quando se reuniu com os colegas da Guiné-Bissau? Sim, porque a maioria dos jogadores que estavam na seleção jogavam em Portugal, senti-me logo enquadrado, receberam-me bastante bem, brincavam comigo porque não sabia falar o crioulo da Guiné. Eu só sabia português e era de rir porque eles só falavam em crioulo. Como correu esse CAN, em 2017? Conseguimos qualificar-nos para a maior competição de África, já era um sonho. A Guiné nunca tinha ido. Depois, claro, não passámos a fase de grupos, mas só estar lá e jogar com seleções top foi um orgulho enorme. O Omonia do Chipre surgiu ainda durante a CAN ou depois? O Omonia foi fruto da CAN e trabalho que tinha feito pelo Tondela. Eles já tinham falado comigo, mas depois da CAN voltaram a falar para ir fazer os exames médicos e correu tudo bem. 3 Compartilhar este post Link para o post
Sandes. Publicado 3 Novembro 2024 (editado) @Lebohangou @kareca Arranjas? https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-11-03-nao-consegui-corresponder-as-expectativas-no-sporting.-mas-o-ruben-amorim-e-um-treinador-que-tira-o-melhor-dos-jogadores-acf1a2a8?utm_term=Autofeed&utm_medium=Social&utm_source=Twitter#Echobox=1730623227 Editado 3 Novembro 2024 por Sandes. Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado 3 Novembro 2024 (editado) Citação de Sandes., há 1 hora: @Lebohangou @kareca Arranjas? https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-11-03-nao-consegui-corresponder-as-expectativas-no-sporting.-mas-o-ruben-amorim-e-um-treinador-que-tira-o-melhor-dos-jogadores-acf1a2a8?utm_term=Autofeed&utm_medium=Social&utm_source=Twitter#Echobox=1730623227 “Não consegui corresponder às expectativas no Sporting. Mas o Rúben Amorim é um treinador que tira o melhor dos jogadores” Rúben Vinagre, 25 anos, foi pai há cinco meses, joga no Legia de Varsóvia e diz estar feliz no clube polaco, onde está emprestado pelo Sporting. Sem querer criar expectativas sobre um eventual regresso a Alvalade, nesta parte II confirma que foi Rúben Amorim quem insistiu na sua contratação e opina sobre o novo técnico do Manchester United. Explica também como foi a passagem pela Premier League, no Everton, o regresso ao Championship pela mão do Hull City e os meses a jogar no Hellas Verona, da Itália. Sobre o futuro, revela que gostava de ser treinador e afirma que é bom a jogar xadrez Spoiler Quando terminou a época no Famalicão, em 2020/21, surgiu logo o interesse do Sporting? Eu já sabia que não ia continuar no Famalicão, estava emprestado, e o Sporting já estava na minha cabeça porque há muito tempo que estavam a falar comigo. Era o realizar de um sonho? Sem dúvida. É o meu clube de criança e eles insistiram muito. Quem insistiu, o Hugo Viana ou o treinador Rúben Amorim? O mister foi o que insistiu mais. Mas falei com o Hugo também, com o presidente, senti que me queriam muito, por isso foi uma decisão fácil. O que Rúben Amorim lhe disse? O que esperava de si? Disse-me o normal, que queria muito que fosse, que acreditava muito em mim. O que dizem sempre que contratam um jogador. Falou-lhe em ocupar o lugar de Nuno Mendes? Não. Disse-me sempre para não me preocupar, para confiar nele. Eles pagaram muito dinheiro, eu acreditava que as coisas podiam correr bem. Infelizmente não correram. Em 2021/22, Rúben Vinagre entrou pela terceira vez no Sporting Octavio Passos Como foi voltar ao Sporting pela terceira vez e pela porta grande? Foi muito bom, o Sporting acabara de ser campeão. Tinha um plantel e um treinador muito bom. Quando entrei na Academia lembrei-me de quando era miúdo, estava do lado da formação e sonhava em passar para o outro lado. Naquele momento estava a entrar do outro lado. Foi uma sensação muito boa. Como são os treinos do Rúben Amorim? O Rúben é um treinador muito bom, sem dúvida. É o tipo de treinador que tira o melhor dos jogadores, que confia, que fala quando tem de falar. Acho que sabe gerir muito bem esses momentos, de falar com os jogadores e dar espaço aos jogadores. Ele é mais de falar em grupo ou prefere chamar para falar individualmente? Depende da situação. Teve alguma conversa com ele que o tenha marcado? Não. Ele sempre falou bem comigo, sempre me passou boas informações, sempre tentou ajudar. O que aprendeu com ele? Tornei-me mais jogador, ensinou-me situações de jogo, principalmente dentro da tática que o Sporting jogava na altura; agora jogam dentro do mesmo sistema, mas de uma forma diferente. E aprendi também muita coisa da perspetiva dele, de treinador, que gosto de perceber. Identificou-se com o modelo de jogo dele? Era um modelo em que eu estava confortável, cresci muito a jogar assim no Wolves, portanto, não era nada que desconhecesse, estava tranquilo. Rúben Vinagre a ouvir as indicações de Rúben Amorim, no Sporting, em 2021 Carlos Rodrigues O Hugo Viana também falava muito consigo e com os restantes jogadores? Falava quando era necessário. Ele estava sempre presente nos treinos. Se os jogadores precisarem de alguma coisa ele está lá. Alguma vez deu uma dura à equipa? Que me lembre não. E o Rúben Amorim é treinador para dar muitas duras? É um treinador exigente quando tem de ser. A única forma de terem sucesso é serem exigentes. Recorda-se do jogo de estreia pela equipa principal do Sporting? Se não me engano foi contra o Vizela. Não foi um jogo inacreditável, mas acho que foi uma boa estreia. Fui titular. A determinada altura deixou de jogar. Porquê? Acaba por ser decisões do treinador. Eu também tive uma lesão algo complicada no tendão de Aquiles. Não foi uma rotura do tendão, mas foi uma lesão que me tirou dois meses e quando voltei, não consegui voltar bem. Sabia que não ia estar ao nível que tinha de estar. Na época 2022/23, Rúben Vinagre foi emprestado ao Everton D.R. A derrota por 5-1 com o Ajax não terá ajudado a ser afastado? Não sei se foi a partir daí, sei que muita gente fala desse jogo. Acho que esse jogo marcou mais as pessoas do que a mim, sinceramente. Foi uma derrota pesada e foi o que tinha de ser. Não há muito a dizer depois desse jogo. Mas não sentiu que foi a partir desse jogo que começou a ficar mais vezes de fora? Não, não senti. Senti que depois não consegui corresponder às expectativas, porque tive uma lesão que não me deixou estar a 100% num nível alto. A lesão foi depois desse jogo. Considera então que o ter jogado menos teve mais a ver com a lesão do que com esse jogo? Sim, é mais culpa minha do que culpa de alguém. O Rúben Amorim disse-lhe alguma coisa, continuou a falar consigo? Sempre, sempre igual. O mister sempre falou comigo. O que lhe ia dizendo? Para continuar a trabalhar. Dizia as coisas que tem a dizer numa altura em que estamos menos bem, para continuar a trabalhar, não tínhamos conversas muito longas, nunca tivemos. Tivemos as nossas conversas. Rúben (à esquerda) em ação pelo Everton em jogo contra o Chelsea, na época 2022/23 Simon Stacpoole/Offside No final da época já sabia que não ia continuar no Sporting? Não. Acabou por ser uma decisão do Sporting, consequentemente havia interesses de alguns clubes da Inglaterra, não me falaram muito em nomes, falaram no Everton e foi juntar o útil ao agradável; o Sporting achava que era o melhor, eu também gostei e acabou por se fazer. Quem falou consigo nesse sentido? O Hugo Viana ou o treinador? Foi um empresário, que falou com o meu. Foi de bom grado para o Everton? Era uma liga para onde queria voltar, é um clube muito importante da Inglaterra, dos que tem mais títulos. Quis ir, claro. Sai com alguma mágoa do Sporting? Não. Há sempre aprendizagens, o futebol é isto. Há momentos difíceis, momentos bons, maus. Temos é que saber tirar o positivo, mesmo dos momentos maus, e usá-las depois, quando estivermos bem. A lesão no calcanhar de Aquiles demorou quanto tempo até ficar totalmente tratada? Só trato a 100% no final da época do Everton. Porquê? Foi uma opção não ter tratado antes. Eu tinha de fazer uma intervenção cirúrgica e não queria fazê-la para não perder tempo, não perder épocas e como estava a jogar pouco no Everton, acabei por decidir que a melhor fase para fazer era no final da época, que assim não perdia a época seguinte. Em 2023, o lateral esquerdo regressou ao Championship, para jogar no Hull City Robbie Jay Barratt - AMA Por que jogou pouco no Everton? Isso é uma pergunta complicada, nem eu sei responder, sinceramente. Deu-se bem com os treinadores Frank Lampard e Sean Dyche? Não há muito que possa dizer. Acho que não joguei por opção dos treinadores. Sempre que joguei no Everton, estive bem e joguei muito pouco. A equipa não ganhava e não tinha oportunidades. Eu fazia o meu trabalho sempre, mas são decisões dos treinadores, tenho de respeitar e continuar a fazer o meu trabalho para quando for chamado. Foi isso que fiz durante a época toda. Nunca foi um jogador reativo ou conflituoso? Não. Nunca desrespeitarei um treinador. Os treinadores são os patrões e se as pessoas nos trabalhos normais não vão desrespeitar os patrões, eu nunca desrespeitarei ninguém no futebol, nem em lado nenhum, até porque não faz parte de mim. Estou ali para dar o meu melhor e para aprender com toda a gente. Portanto, nunca na vida iria desrespeitar um treinador. Até posso dizer que não há um treinador que possa dizer que não sou profissional, ou que o desrespeitei. Não há um que possa afirmar isso. O que aconteceu no Sporting e no Everton foi fruto do azar, muito relacionado com a lesão? Não acho que tenha sido relacionado com a minha lesão. Acho que foram opções de treinadores porque no Everton consegui estar melhor fisicamente do que estava no Sporting e quando tive jogos consegui boas performances, portanto, não acredito que tenha sido devido à lesão, mas sim por decisão dos treinadores. Liam Rosenior, treinador do Hull City, e Rúben Vinagre, durante um jogo com o Stoke City Charlotte Tattersall Sabia que só estaria uma época no Everton ou contava com mais? Sabia que era só um ano de empréstimo e que se não estivesse a jogar, não ia ser mais. No final dessa temporada, tinha a expectativa de voltar ao Sporting? Não tinha nenhuma expectativa. Tinha jogado pouco, vinha de uma operação, fiz a recuperação no Sporting, mas não sabia o que iria acontecer, era ver e esperar. Queria continuar no Sporting? Quero sempre que aconteça o melhor para mim, se fosse para continuar no Sporting, muito bem. Não gosto de criar expectativas e depois sair desiludido, também nunca criei a expectativa de regressar ao Sporting. Se regressasse ficava feliz, não aconteceu. No futebol não se pode criar expectativas em nada, porque isto muda muito rápido. Acabou por não ser chamado mais para representar a seleção nacional. Houve um período de desilusão, no sentido de estar tudo bem encaminhado para uma carreira fulgurante que, de repente, parece ter sido travada? Ainda tenho uma perspetiva do que posso alcançar, claro que farei tudo para chegar onde quero. E aonde quer chegar? Agora quero chegar a maio e ser campeão no Legia. O resto é o que vier. Tento fazer o melhor possível o meu trabalho. Claro que tenho ambições e sonhos, mas como disse não vale a pena criar expectativa e depois sair desiludido. Vou trabalhar o melhor que posso, naquilo que posso controlar e, neste momento, o que posso controlar é a minha época aqui, quando estou a jogar. De resto não posso controlar quando não jogo, onde vou ser chamado, onde me vão querer, isso não posso controlar. Em 2023/24, Rúben Vinagre foi emprestado ao Hellas Verona, da Itália Jonathan Moscrop A seguir ao Everton vai para o Hull City, que estava no Championship. Ficou desiludido? Não. É verdade que de início não queria ir, porque não queria voltar para o Championship, mas ligou-me o treinador, ligou-me o dono do clube e acabaram por convencer-me a ir. Foi uma experiência, não foi super positiva, mas também não foi negativa. Por que não foi melhor? Não sei, talvez não tenha sido o projeto certo, porque talvez o estilo de jogo que o treinador queria pôr na equipa não era o estilo de jogo para as minhas características. Acho que estive bem, mas também acho que não estive ao meu nível como no Sporting. Qual o estilo de jogo que se adequa melhor às suas características? Sou um jogador que gosto de ter bola, de ter envolvência no jogo, gosto de criar oportunidades para os meus colegas, gosto de poder ajudar a equipa, gosto de ter liberdade, gosto de ganhar, portanto, tenho de estar numa equipa que ganhe mais do que perca. As coisas aqui no Legia estão a correr bem porque estou numa equipa em que temos sempre de ganhar. Lida bem com essa pressão de ter de ganhar sempre? Gosto dessa pressão. Acho que qualquer jogador de futebol tem de gostar dessa pressão. Jogar com estádios e com a pressão de ter de ganhar é o melhor no futebol. Em ação pelo Hellas Verona Ciancaphoto Studio Também sabia que o empréstimo ao Hull City era só por uma época? Saí em janeiro, nem chegou a ser uma época. Eu sabia que era um empréstimo e depois logo se via o que acontecia. Saiu para o Hellas Verona, da Itália, em janeiro deste ano, como e porquê? Eles mostraram interesse, eu também achei bom porque era Serie A. Não conhecia muito o futebol deles, mas acabei por arriscar ir. E gostou do futebol italiano? Sem dúvida. Têm sempre equipas nas meias-finais da Champions. O futebol que a minha equipa praticava não era um futebol super atrativo, não era um futebol inacreditável, mas há equipas no campeonato que jogavam muito bem e era bonito de se ver. A sua equipa era muito defensiva? Sim, muito mais defensiva. A maioria dos jogos fiz como extremo esquerdo. Senti-me bem. Da vida em Itália, também gostou? Sim, é um país muito bom para viver, parecido com Portugal. Rúben joga atualmnte no Legia de Varsóvia, da Polónia Sebastian Frej/MB Media Já tem filhos? Tivemos agora o primeiro. O Santiago nasceu há quase cinco meses, em Portugal. Assisti ao parto, mas estava muito, muito nervoso, muito mais nervoso do que quando jogo. E como tem sido a adaptação ao papel de pai? Está a ser a melhor experiência de todas. Graças a Deus ele não dá más noites, dorme bem, não tem sido uma experiência difícil. Quando o seu filho nasceu, em junho, já sabia que ia para o Legia? Sim, já sabia que havia uma grande hipótese de ir para o Legia. E agradou-lhe essa hipótese? No início não, porque queria continuar nas melhores ligas. Mas depois de falar com o mister e de me explicarem o projeto, o que era o clube, acabei por decidir que era o melhor para mim e estou muito feliz. Como os polacos o receberam? Toda a gente é cinco estrelas, não tenho nada a dizer, é um país super seguro, muito bonito, surpreendeu-me muito, come-se bem. Gosto muito de viver aqui. Já conhecia o treinador Gonçalo Feio? Não. Conheci-o quando falei com ele sobre vir para aqui. Mal me falou no projeto e apresentou as ideias dele, aceitei. Que ideias eram essas? É o maior clube da Polónia, lutam por tudo, na altura íamos fazer os playoffs das competições europeias, estamos a jogar competições europeias, estamos a lutar pelo campeonato, temos de lutar pela Taça, estamos em todas as frentes e temos de ganhar todas. Para as minhas características, estar numa equipa que joga sempre para ganhar era o mais indicado. Mas o futebol polaco é muito mais físico. É um futebol muito parecido ao do Championship, na Inglaterra. É físico, muito intenso, se não me engano é a terceira ou quarta liga mais intensa da Europa. Rúben com a mulher Rita, grávida do filho de ambos, e o cão Calvin, um bulldog francês de sete anos D.R. Como reagiu e como a equipa reagiu às acusações de ameaças e agressões feitas pelo treinador Gonçalo ao presidente do antigo clube? Nem eu nem a equipa reagimos. Sinceramente, só soube disso porque me perguntaram em entrevistas porque não me interessa muito, é fora do nosso contexto. Todos aqui gostamos muito do mister, da forma como ele se dá connosco, daquilo que nos dá também em campo. Isso a mim não me interessa nada. Ficou surpreendido com as acusações? Não, porque eu sei que nos jornais escrevem-se muitas mentiras, algumas verdades. Eu não estava lá, não sei o que aconteceu, pode ser mentira. Sinceramente, não quero saber, não me interessa. Ele teve alguma conversa com a equipa sobre o assunto? O que nos disse foi que se alguém quisesse saber alguma coisa, ele falava connosco, agora, é como lhe digo, ninguém se mete nisso porque não temos nada a ver com isso. Ele também sabe que nós o conhecemos. É uma pessoa exigente no treino, mas nunca foi agressivo connosco. Longe disso. Acha que Hugo Viana tem capacidades para vingar no City? Acho que a melhor resposta é o que ele fez no Sporting. Ele, o mister e o presidente. Um clube que não ganhava há 19 anos, ganhou um título. Estamos a falar de realidades diferentes. Sim, mas o futebol é universal. Acha que ele está preparado? Acho que o papel dele no Sporting fê-lo muito bem e não acredito que um clube como o City fosse contratar uma pessoa que não achasse que estivesse preparado. A relação dele com o Rúben Amorim é muito chegada? Acho que sim, eles davam-se bem, falam de tudo, trabalham há muitos anos juntos, jogaram juntos. O lateral esquerdo com o filho Santiago, acabado de nascer D.R. Está emprestado ao Legia pelo Sporting. Quando termina contrato? O Legia tem opção de comprar. Com o Sporting tenho mais um ano e meio de contrato. Passa-lhe pela cabeça regressar ao Sporting? Como lhe disse, tenho zero perspetivas sobre o futuro. Pode dizer se gostava de voltar, ou não. Claro que gostava. É um clube grande, é o clube do meu coração, mas não sei se irá acontecer. Neste momento só tenho perspetiva em estar aqui, ajudar o clube ao máximo e eles aqui é que mandam porque têm hipótese de me comprar, ou não. Se o quiserem comprar, vê com bons olhos? Claro que sim. Estou feliz aqui, não tenho por que não ver com bons olhos. Tem 25 anos, ainda é novo, mas já pensou no que quer fazer quando tiver de pendurar as chuteiras? É difícil. Eu gostava de ser treinador, mas ainda não tenho a certeza. Gosto de perceber o jogo, o porquê dos treinadores fazerem algumas coisas, portanto, provavelmente irei optar por aí. Também tenho curiosidade em ver as minhas ideias numa equipa de futebol. De todos os treinadores que teve, qual o que mais o surpreendeu? Diria que foi mesmo o mister Gonçalo Feio, porque nós em Portugal não o conhecíamos. Não ouvimos muito falar dele e é um treinador com muita capacidade, muito jovem. Os outros com quem trabalhei já tinham história, já sabia que eram ótimos. Rúben Vinagre (à esquerda) em luta com Kacper Sezonienko do Lechia Gdansk, num jogo da liga polaca em outubro de 2024 Mateusz Slodkowski Onde ganhou mais dinheiro até hoje? No Everton. Já deu para investir? Sim, em imobiliário. Qual a maior extravagância que fez na vida? Comprar os meus carros, um Porsche Cayenne e um BMW M3. Tem algum hobby? Neste momento estar com o meu filho. Desde que ele nasceu, não voltei a jogar PlayStation. Mas quando ele me deixa, eu jogo. É um homem de fé? Sim. É praticante? Não vou à missa, mas costumo ir à igreja. Tem ou teve superstições? Não. Tatuagens? Tenho. A primeira fiz aos 18 anos. Diz “Até sempre avozinho”, porque foi quando o meu avô morreu. De lá para cá tenho mais duas. Uma diz “Abençoado” e outra é o símbolo da invencibilidade. O lateral esquerdo à conversa com Gonçalo Feio, treinador do Legia NurPhoto Acompanha ou pratica outra modalidade? Gosto muito de ver ténis, mas não pratico com regularidade. Qual a maior frustração que tem na carreira? Não tenho. Tenho alguns arrependimentos, mas frustração não. E que arrependimento maiores são esses? Ter querido sair do Wolves. O momento mais feliz da carreira? Os dois campeonatos da Europa com as seleções, a minha estreia na Premier League e o momento em que subimos de divisão com o Wolves. O objetivo que ainda está por cumprir? Tenho alguns. Um dos sonhos é chegar à seleção. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar? Há vários por isso prefiro não dizer nenhum. Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol? O João Moutinho, o Pedro Neto e o Leandro Tipote, são as três maiores. Rúben com a mulher o filho e o cão D.R. Tem, ou teve alguma alcunha? Não. Há alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava, ou bania? Não. O que pensa do VAR? Quando é bem usado é uma ferramenta que torna o jogo mais justo e verdadeiro. Qual o momento mais difícil que passou na vida? A morte do meu avô. Tem algum talento escondido? Jogo bem xadrez. Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo? Bernardo Silva. Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido? Não faço ideia. Sempre foi isto que imaginei. Editado 3 Novembro 2024 por kareca 2 Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 3 Novembro 2024 Já há algum tempo que não lia uma entrevista tão desinteressante. Até dá a ideia que o jornalista se fartou das respostas a certo momento. 1 Compartilhar este post Link para o post
Vimaranes1922 Publicado 3 Novembro 2024 Citação de Jimpo, há 1 hora: Já há algum tempo que não lia uma entrevista tão desinteressante. Até dá a ideia que o jornalista se fartou das respostas a certo momento. 50% das perguntas era sobre se queria ir pro Sporting, o porque da situação no Sporting, porque saiu do Sporting e se quer voltar do Sporting. Parece-me que o Vinagre merecia outras perguntas. 2/10. Compartilhar este post Link para o post
silentz Publicado 3 Novembro 2024 Não arranjas a 1ª parte da entrevista do Vinagre? https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-11-02-com-16-anos-fui-para-o-monaco-o-clube-empregou-os-meus-pais.-recebiamos-10.000.-nao-sabia-frances-senti-me-sozinho-nao-tinha-amigos-f15987ac E já agora estas do Gonçalo Silva e Filipe Nascimento se der “Quando cheguei à Polónia o diretor-desportivo foi buscar-me ao aeroporto e levou-me a jantar a um Burger King de uma estação de serviço” “No balneário, começámos a ouvir gemidos e sons estranhos. Era um jogador na sanita a ver pornografia no telemóvel, ligado à coluna de som” “Meia hora depois de fazer o post, após o que Jorge Jesus disse, tinha o diretor de comunicação do Benfica a ligar-me: ‘O que fizeste?!’” “O primeiro-ministro da Bulgária disse que o dono do clube tinha de ir preso. Ele fugiu, congelaram as contas e ficámos sem salário” Estas histórias na Bulgária, Roménia e Chipre são sempre engraçadas Compartilhar este post Link para o post