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Lebohang

A Casa às Costas

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É impressionante como nessas entrevistas todos os jogadores que passaram pelo Belenenses/BSAD falam dos problemas com o Rui Pedro Soares. É uma pena não poderem ser totalmente francos, devem haver muitos podres para contar.

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Criminoso estes parágrafos

Na época seguinte entrou Jorge Jesus. Como foi lidar com JJ? Levou muitas duras?
[Risos] Com o mister Jorge Jesus todos os jogadores levam duras. Seja quem for. Na época anterior eu tinha feito nove golos, foi uma época boa para mim. A época seguinte, era a minha época de afirmação. Mesmo o presidente, Bruno Carvalho, dizia que eu ia jogar mais, para poder ser vendido. Comecei a pré-época bem com o mister Jorge Jesus, marquei golos. Na 3.ª jornada marquei golo e sofri um penálti. Ganhámos 3-1 contra a Académica. Tinha tudo para correr bem essa época. Naturalmente pensei que ia dar um grande salto em termos de números e de jogo. Mas, faço esse jogo, sou o melhor em campo e a seguir fiquei 15 jogos no banco.

Percebeu porquê?
Compraram alguns jogadores estrangeiros para a minha posição, como o Bryan Ruiz, por exemplo. Lembro-me que após esse jogo, fui para a seleção de sub-21 e, quando voltei, estava tudo mudado, eu já não estava na equipa titular. Fiquei 15 jogos sem ser titular para o campeonato.

O que fez? Perguntou ao treinador qual a razão?
Fui falar com o mister, claro, ele disse que era escolha dele e para eu continuar a trabalhar. Em janeiro, depois de ficar aqueles jogos todos sem jogar, tive uma proposta para sair do Sporting, mais uma, para a Alemanha. Tinha o interesse do Leverkusen e do Hamburgo. O mister Jorge Jesus não me deixou ir, disse que eu ia começar a jogar. Segunda volta do campeonato, jogo contra a Académica, joguei, ganhámos 3-2, faço duas assistências. Depois fechou o mercado e não joguei mais a titular no campeonato, ia jogando na Liga Europa. Acho que fiz três assistências ou duas na Liga Europa.

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Citação de Hammerfall, há 2 horas:

Criminoso estes parágrafos

Na época seguinte entrou Jorge Jesus. Como foi lidar com JJ? Levou muitas duras?
[Risos] Com o mister Jorge Jesus todos os jogadores levam duras. Seja quem for. Na época anterior eu tinha feito nove golos, foi uma época boa para mim. A época seguinte, era a minha época de afirmação. Mesmo o presidente, Bruno Carvalho, dizia que eu ia jogar mais, para poder ser vendido. Comecei a pré-época bem com o mister Jorge Jesus, marquei golos. Na 3.ª jornada marquei golo e sofri um penálti. Ganhámos 3-1 contra a Académica. Tinha tudo para correr bem essa época. Naturalmente pensei que ia dar um grande salto em termos de números e de jogo. Mas, faço esse jogo, sou o melhor em campo e a seguir fiquei 15 jogos no banco.

Percebeu porquê?
Compraram alguns jogadores estrangeiros para a minha posição, como o Bryan Ruiz, por exemplo. Lembro-me que após esse jogo, fui para a seleção de sub-21 e, quando voltei, estava tudo mudado, eu já não estava na equipa titular. Fiquei 15 jogos sem ser titular para o campeonato.

O que fez? Perguntou ao treinador qual a razão?
Fui falar com o mister, claro, ele disse que era escolha dele e para eu continuar a trabalhar. Em janeiro, depois de ficar aqueles jogos todos sem jogar, tive uma proposta para sair do Sporting, mais uma, para a Alemanha. Tinha o interesse do Leverkusen e do Hamburgo. O mister Jorge Jesus não me deixou ir, disse que eu ia começar a jogar. Segunda volta do campeonato, jogo contra a Académica, joguei, ganhámos 3-2, faço duas assistências. Depois fechou o mercado e não joguei mais a titular no campeonato, ia jogando na Liga Europa. Acho que fiz três assistências ou duas na Liga Europa.

Espelha bem a gestão absurda que era feita no tempo do JJ e do BdC. 

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Citação de challenger, há 2 horas:

Alguém consegue meter a desta semana do Renato Paiva?

Parte 2 saí amanhã, depois meto tudo junto.

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Citação de Lebohang, Em 01/02/2025 at 17:51:

Parte 2 saí amanhã, depois meto tudo junto.

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Ups esqueci-me

Spoiler

“O Félix era o melhor na capacidade técnica e imprevisibilidade, mas faltava-lhe a seriedade no treino, o foco, o trabalho de um Rúben Dias”

Renato Paiva, de 54 anos, vive no Rio de Janeiro e está à espera que o telefone toque após a saída do Toluca, do México, em dezembro. Nesta entrevista revela-nos pormenores do seu percurso como treinador, que começou na formação do Benfica, onde foi adjunto de Bruno Lage e teve Chalana como adjunto. Entre inúmeras histórias, explica a importância de Jaime Graça e Carlos Carvalhal na carreira, conta como a sua visão do futebol mudou após uma semana a ver os treinos de Guardiola. E revela o que apreendeu ao observar treinadores como Trapattoni, Camacho, Quique Flores, Koeman e Jorge Jesus, entre outros

Nasceu em Pedrógão Pequeno. É filho e irmão de quem?
O meu pai trabalhava na EDP, andava de barragem em barragem. Havia um bairro da EDP, perto da barragem de Pedrógão Pequeno, onde os trabalhadores viviam e eu acabei por nascer em casa. A minha mãe diz que sou tão teimoso que até decidi quando queria nascer, porque um dia antes ela foi ao hospital e os médicos disseram-lhe: “O seu filho não vai nascer agora, pode ir para casa”. A minha mãe conta que pouco depois dela entrar em casa, rebentaram-lhe as águas [risos]. Ela foi sempre doméstica, cuidou de mim e da minha irmã, sete anos mais velha que eu.

Cresceu em Pedrógão Pequeno?
Só lá fiquei três anos, depois fomos para Castelo Branco porque o meu pai foi da barragem do Cabril para a barragem do Fratel.

Quando era pequenino deu muitas dores de cabeça ou foi uma criança calma?
Desde que não me tirassem a bola, eu era calminho. É inacreditável a relação entre mim e a bola, eu dormia com a bola, ia com a bola para todo o lado. Não sei andar de bicicleta, e a minha filha goza muito com este tema, exatamente porque só queria estar com a bola. Os meus amigos iam andar de bicicleta e eu ficava a rematar a bola contra a parede, sozinho.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Futebolista. Era o que eu dizia a toda a gente.

Em casa torcia-se porque clube?
Benfica. Avô, pai, mãe, toda a gente na família.

Da escola, gostava?
Gostava e era bom aluno.

Renato Paiva bebé, no centro, com uma bola
Renato Paiva bebé, no centro, com uma bola
D.R.

Começou a jogar em Setúbal. Pode explicar como foi lá parar?
Fomos viver para Setúbal em 1982, tinha eu 12 anos, porque o meu pai durante 25 anos fez turnos nas barragens, até que decidiu ir para uma termoelétrica para trabalhar das 9 às 5 e deixar os turnos.

Para um miúdo de 12 anos deve ter sido difícil deixar Castelo Branco e os amigos.
Foi. Revoltei-me um bocadinho. A minha irmã mais velha já estudava na faculdade, em Lisboa. Os meus pais diziam que eu ia fazer amigos rapidamente na nova escola e, na verdade, a adaptação foi melhor do que esperava. Naquele tempo era fácil irmos para a rua, encontrar as pessoas que moravam na vizinhança e fazer amigos rápido. Entretanto, com 15 anos fui às captações no Vitória de Setúbal. Até aí só tinha jogado num clube que era o Bairro do Liceu, um dos clubes de bairro de Setúbal.

Correram bem os treinos de captação?
Sim, sou canhoto e naquele tempo havia poucos canhotos. Era o Jacinto João, o velho JJ, quem fazia as escolhas. Imediatamente escolheu-me e a mais dois amigos.

Jogava em que posição?
Era extremo esquerdo. Ainda não havia aquela moda do extremo de pé contrário. Era extremo esquerdo puro.

Ficou no Vitória de Setúbal até quando?
Até aos 17, quando mudo de escalão. Os treinos passaram para de manhã, a escola também era de manhã e os meus pais disseram logo: “A única escolha que tens é escola ou escola. Não há mais futebol para ninguém.”

Nesses dois anos conseguiu perceber se eventualmente poderia fazer carreira de jogador?
Acho que sim. Depois de deixar o futebol passei a jogar futsal com os meus amigos lá no Vitória e ainda joguei largos anos. Fomos campeões nacionais da III Divisão, já eu tinha uns 19/20 anos.

Desde pequeno que Renato Paiva dizia quer ser jogador de futebol
Desde pequeno que Renato Paiva dizia quer ser jogador de futebol
D.R.

Ao ter de prosseguir com os estudos, sabia o que queria fazer? Queria ir para a faculdade?
A minha mãe queria que eu tirasse Direito e eu não gostava nada. Ainda fiz o 12.º ano para a vertente de Direito, mas a meio, como nunca chumbei nenhum ano, disse à minha mãe que não ia para Direito, mas sim para línguas. “Vou perder um ano, mas vou fazer aquilo que eu quero. Não me deixaram jogar futebol, vou fazer aquilo que eu quero”. Foi uma confusão lá em casa. A minha ideia era ser professor de português, ou de línguas, de inglês e francês. Fiz o 12.º ano para línguas e entrei na Faculdade de Letras, em Lisboa.

Quando entrou na faculdade continuou a jogar futsal?
Sim, as aulas eram de manhã e treinávamos à noite. Ia e vinha todos os dias de Setúbal para Lisboa. Às cinco e meia da manhã já estava a apanhar o autocarro, levava cerca de duas horas e meia a três, até chegar à faculdade.

Chegou a concluir a faculdade?
Não. Aqui vem outra parte engraçada da minha vida. Faço dois anos de inglês, francês e espanhol, em Línguas e Literaturas Modernas, entretanto apareceu a oportunidade de trabalhar num banco, no Barclays, departamento estrangeiro, devido às línguas. Naquela altura ser bancário era um estatuto bom e pagavam bem. Candidatei-me, acabei por ficar e disse aos meus pais, vou trabalhar e vou estudar à noite. Só que, esqueci-me de um pequeno pormenor, o Barclays é um banco privado. Ou seja, só saia do banco às sete, oito horas da noite. Saía tardíssimo. Então, fiquei com os dois anos completos e não consegui concluir a faculdade porque optei pela via profissional, pelo banco.

Foi bancário até que idade?
Fui bancário durante nove anos, dos 24 aos 33 anos.

Nesse período casou e teve filhos?
Casei e foi também um dos motivos pelos quais quis começar a trabalhar. Casei com 25 anos, tive uma filha com 27, a Ana Francisca, e aos 29 anos divorciei-me. Fiquei com guarda partilhada, durante uma semana a minha filha estava comigo e na outra semana estava com a mãe.

Renato jogou futsal durante muitos anos no V. Setúbal
Renato jogou futsal durante muitos anos no V. Setúbal
D.R.

Na altura não tinha ligação nenhuma com o futebol?
Fazia futsal e numa das conversas com o José Mourinho, que também jogava futsal na altura, contra nós, e já treinava os juniores do Vitória, ele disse-me: “Pá, tens jeito, já que não deste jogador, devias seguir isto de ser treinador”. O bichinho ficou a mexer comigo. Entretanto, o Naná, que foi guarda-redes da seleção nacional de futsal e do Benfica, veio treinar o futsal do Vitória de Setúbal. Já tinha jogado contra ele, já nos conhecíamos. Eu era sempre o capitão das minhas equipas. Não sei se era porque os meus colegas não queriam chatear-se. E fui sempre um chato de primeira para os meus treinadores.

Chato em que aspeto?
Perguntava tudo, questionava tudo. Perguntava por que é que estávamos a correr à volta do campo e não fazíamos exercícios com bola para promover a aprendizagem do jogo. Questionava sempre toda a gente e muitas vezes. Muitos deles diziam: “Tu és um chato, devias era ser treinador”. Aquela conversa ficou ali a bater. Quando o Naná chegou, eu era capitão, estava a ler uns livros de treino, porque já pensava ser treinador de futsal, e ele diz-me assim: “Estás com esse bichinho do treino, podias deixar de jogar e passavas a ser meu adjunto”. Aquilo fez muito sentido. Tinha 30 anos, já me chateava um bocadinho o futsal e decidi aceitar para começar a perceber um bocadinho a questão do treino. Curiosidades da vida, na minha auto-especialização do treino, comecei a ler a tese de graduação do Carlos Carvalhal: “Treinar o jogo recuperando”. Estou a ler sobre a priorização tática e quem é que vai treinar o Vitória de Setúbal naquele preciso momento? O Carlos Carvalhal. Pedi de imediato ao presidente do Vitória para me apresentar a ele e poder assistir aos treinos.

O Carlos Carvalhal aceitou?
O Carlos Carvalhal é uma pessoa fantástica, abriu-me logo o treino. “És da casa, sentas-te no banco, no final, as dúvidas que tiveres, perguntas”. E assim foi. Sentava-me no banco ao lado do diretor-desportivo do Vitória da altura, o mister Quinito. Foi uma riqueza fantástica ver o Carlos trabalhar. Ele sobe o Vitória à I Liga nesse ano e durante um mês estive a ver os treinos todos. Era o mês de férias. Só que, depois, tinha de voltar ao banco, tinha de trabalhar. Entretanto, porque o Carlos estava lá sozinho com o adjunto dele, o Rifa, e conheciam mal Setúbal, eles iam muitas vezes almoçar comigo no final dos treinos. E vai de falar de futebol. Depois o Rifa ia para casa fazer observação de adversários e convidavam-me para ir com ele. Eles foram fantásticos.

Renato (no centro) fez um estágio de observação dos treinos de Carlos Carvalhal (à direita) no V. Setúbal
Renato (no centro) fez um estágio de observação dos treinos de Carlos Carvalhal (à direita) no V. Setúbal
D.R.

Nessa primeira abordagem com a vida de treino e de treinador, o que mais o fascinou?
Para mim foi um sinal divino. Estás a ler o livro de um treinador que vem exatamente no mesmo timing treinar o clube onde tu estás. Isto era um sinal para investir, com o que o Mourinho me tinha dito. Entretanto, ia sendo adjunto do Naná no futsal, as coisas corriam bem, os jogadores que tinham sido meus colegas diziam-me que eu tinha jeito para ser treinador, o Naná estava a gostar muito também. Havia ali uma série de sinais que me diziam: avança. A questão da priorização tática, por exemplo, eu já pensava nela.

Como assim?
Quando eu perguntava aos meus treinadores porque corríamos à volta do campo no aquecimento em vez de começar logo a fazer exercícios com bola relacionados com o jogo... Mais à frente há uma declaração do José Mourinho que diz: “Quando um pianista quer treinar para tocar piano, não corre à volta do piano, toca”. Isto tinha a ver com a essência da priorização tática: todos os exercícios estão direcionados pela tática, ou seja, pelo ensinamento do jogo. Tudo o que não tivesse bola e um sentido tático, para mim, não tinha sentido. E quando começo a ler a tese do Carvalhal, que é sobre isto, eu só pensava: eu já falava nisto há uns tempos.

Dizia que depois daquele mês de férias, teve de voltar ao banco. Quando começou a fazer do futebol a sua escolha profissional?
Tive um laivo de loucura saudável. Um dia decidi, não quero mais o banco, já que o Carvalhal me abre a porta, vou arriscar a minha vida no futebol e vou assistir à época toda dele. Claro que isto foi uma bomba atómica na minha casa. Os meus pais e os meus amigos chamaram-me completamente inconsciente. Tinha um empréstimo de casa baixíssimo, por ser bancário, tinha carro, ganhava muito bem para a altura, tinha uma vida top, e decidi deitar tudo fora para seguir o caminho do treino, já que não fui jogador. Depois de muitas reflexões decidi, é isto que quero, é atrás disto que vou.

Qual foi o passo seguinte?
Disse ao Carvalhal e ele chamou-me maluco também. “Tu és maluco, nem foste jogador, pode correr mal…”. Mas manteve-me a porta aberta para continuar a assistir aos treinos. Fui ao banco e disse que ia embora. O banco ainda me deu uma indemnização e a partir daquele momento assisti a todos os treinos do Carvalhal e muitos, muitos jogos. Estive quase um ano a ver os treinos.

Renato Paiva (de vermelho) com Jaime Graça e Bento ao seu lado, durante o Torneio de Croix, na Suíça
Renato Paiva (de vermelho) com Jaime Graça e Bento ao seu lado, durante o Torneio de Croix, na Suíça
D.R.

Mas como entra mesmo no futebol?
O António Carraça é nomeado diretor da formação do Benfica, pelo Luís Filipe Vieira e dá uma entrevista em que diz que a prioridade é revitalizar o viveiro da margem sul para o Benfica, que deu o Bento, o Carlos Manuel, o Chalana, Diamantino, etc. etc.. Ele disse que ia recrutar e montar um departamento de prospeção para o futebol jovem. Li aquilo, pensei, faz muito sentido e eu não perco nada em mandar o meu currículo. Era uma forma de entrar no clube e depois logo se via. Falei da minha ideia ao Carvalhal e pedi-lhe para caso alguém do Benfica lhe perguntasse alguma coisa ele confirmasse que eu estava ali com ele a fazer um estágio. Mandei o currículo e o Carraça chamou-me para uma entrevista.

O que escreveu no currículo?
Disse que trabalhava no banco e que, ao mesmo tempo, fui jogador e treinador de futsal, que estava a investir na área do treino e a fazer um estágio de observação com o Carlos Carvalhal. Entretanto, ao mesmo tempo que deixo o banco, como tinha uma parabólica em casa, comecei a ver jogadores sul-americanos. Via o campeonato argentino, Copa Libertadores, Copa Sul-Americana, e comecei a fazer uma base de dados de jogadores sul-americanos.

Com que objetivo?
Porque pensei, se isto não der na parte do futebol, posso sempre trabalhar com um empresário. Contei ao Carvalhal e ele: “Boa ideia. Não tens só o plano A, tens plano B, tens dois planos” [risos].

Renato começou por treinar os sub-14, no Benfica, depois de ter sido adjunto de Bruno Lage
Renato começou por treinar os sub-14, no Benfica, depois de ter sido adjunto de Bruno Lage
D.R.

Como correu a entrevista com o Carraça?
Na entrevista falei nesta questão, da base de dados dos jogadores. No final perguntei se entravam em contacto comigo para saber se entrava, ou não, na estrutura e ele: “Ficas a saber já. Estás contratado”. E na altura também me disse: “Tens aqui esta questão do treino. Pode ser que se abra alguma porta, mas sem promessa, sem compromisso.”

Foi contratado como observador, certo?
Exatamente, da formação. “Estás contratado, e vais gerir a margem sul”. Eu era o prospetor que distribuía pelos observadores as agendas para os jogos dos fins de semana. Quando os observadores levantavam o nome de algum jogador, o prospetor, que também andava a ver jogos, ia lá cruzar informação, ver se ele era realmente bom. Fiquei logo assim com um cargo porreiro, mas ganhava €500 [risos]. Não dava quase para a gasolina, mas, OK, siga. Disse logo que sim. Entrei para o Benfica, o clube dos meus sonhos.

Continuou a ser adjunto no futsal?
Sim. Daí recebia €150. Eu morava ao lado do estádio e não tinha grandes despesas. Entrei no Benfica em 2004 e quem está como coordenador técnico da formação é o Jaime Graça, que era de Setúbal. Chegou uma pessoa de Setúbal e o Jaime interessou-se logo. Contei-lhe a minha história e ele: “Epá, que ganda maluco. Mas tu não tens nada de passado no futebol?”; “Nada, mister. É mesmo só conhecimento e mais nada”; “Grande maluco. Está bem, pronto, vamos embora. É para trabalhar, é para trabalhar.”

Renato Paiva com a filha Ana Francisca
Renato Paiva com a filha Ana Francisca
D.R.

Como é que de prospetor passou a treinador das camadas jovens?
Como não fazia mais nada, comecei a ter disponibilidade também para ir ver seleções distritais. E também comecei a ter a necessidade de assistir aos treinos das camadas jovens do Benfica para ter um padrão de referência, um termo de comparação, em relação ao que estava a referenciar para o Benfica. Então ia de manhã para os Pupilos do Exército, onde treinavam as equipas de formação do Benfica e só vinha embora ao fim da tarde. Entretanto, o Bruno Lage, que também é de Setúbal, estava a treinar as escolinhas. Em dezembro, o Abel Silva é despedido dos sub-16 do Benfica. O Carraça e o Jaime dizem ao Bruno: “Vais acumular os sub-10 com os sub-16”. Para os sub-16 ele não tinha adjunto e perguntou-me se eu queria ser adjunto dele.

Assim, sem mais?
Entretanto, já eu tinha falado com o Bruno sobre o Carvalhal, tinha-lhe apresentado o Carvalhal e levado-o a ir ver treinos do Carvalhal, que já estava no Belenenses.

Como correu essa primeira experiência como adjunto do Bruno Lage?
Foi excelente, como estava numa de aprendizagens, não tive problemas nenhuns em ser adjunto, aliás, foi muito bom ter sido adjunto, pude ver o outro lado.

Renato Paiva também foi adjunto de João Alves, nos juniores
Renato Paiva também foi adjunto de João Alves, nos juniores
D.R.

Quantos anos foi adjunto?
Estive como adjunto nos sub-16 até ao final desse ano. Depois o Bruno sobe com essa geração, que era a do Miguel Vítor, Miguel Rosa, André Carvalho, Ruben Lima, Romeu Ribeiro, a geração de 89, e eu subo com ele para os sub-17. Fizemos o campeonato inteiro nos sub-17, perdemos o campeonato por um golo de diferença para o Sporting e no ano seguinte o Rui Vitória não apura os juniores para a fase final do campeonato e o Carraça e o Jaime decidem que o Rui sai. Como os juniores não se apuraram para a fase final, em fevereiro ficaram sem fazer nada. Então disseram-nos que íamos acumular os juniores de manhã, com os sub-17, à tarde. Há um fim de semana em que há, ao mesmo tempo, um torneio de sub-19 em Croix, em França, e um torneio em Genebra, na Suíça, para os sub-17. O Jaime mandou o Bruno para o torneio da Suíça, dos sub-17, e a mim ao torneio de França, Croix, com os sub-19.

Sentiu que era uma espécie de teste?
O Jaime e o Manuel Bento vão comigo para esse torneio, só que nunca me disseram que ia ser eu a comandar a equipa. Como ele tinha sido treinador, pensei que eu ia também como adjunto. No avião, estou eu no meio do Jaime e do Bento, é que o Jaime diz: “Ó rapaz, quem vai orientar isto tudo, fazer equipas, etc., és tu. A gente só vem aqui para ver”. Quando ele me disse aquilo, eu ia morrendo.

O que fez?
Cheguei ao hotel, meti-me no quarto e já não saí mais, a não ser para comer. Estive a ver as equipas, planos de jogo, preparar palestras, etc.

Telefonou a alguém?
Não, fechei-me em copas. Eu nem tinha cabeça para isso. Eu só pensava: “Porra, eu vou estrear-me como treinador principal nos juniores do Benfica”. Está bem que é num torneio, mas eu nunca tinha treinado ninguém como treinador principal.

Como correu o torneio?
O Jaime estava a testar-me, porque na cabeça dele, ia meter-me já como principal dos sub-14, no final da época. Enchi o peito de ar e fizemos um belo torneio. O Jaime contou a um familiar meu que eu tinha sido impecável na comunicação com os jogadores, organização, nas substituições. Eles estiveram no banco, mas não me ajudaram em nada, cada vez que eu perguntava o que achavam de uma substituição, só respondiam: “Tu é que sabes, tu é que és o treinador” [risos].

No final da época tornou-se treinador principal dos sub-14. Foi-lhe difícil trabalhar num contexto tão jovem?
Foi difícil no sentido em que tens de ter algum cuidado com a linguagem, com os comportamentos, tens de ter sensibilidade para crianças. Mas como também já estava a ver treinos há muito tempo, via o Bruno e outros treinadores, apanhei aquilo rápido. Além disso, era pai. Tive sempre um lema quando treinei crianças: “Vou tratar esta criança como gostaria que tratassem a minha filha”. Para mim foi muito tranquilo, era uma questão de sensibilidade. A partir dos sub-14 foi uma caminhada, fomos logo campeões. Tinha na equipa o Tiago Silva, do Vitória, era o meu número 8.

Continuava a acumular como adjunto do Lage?
Enquanto estive nos sub-14, acumulei. Mas o Lage nos juniores não correu bem, baixou para os sub-15, e quem veio treinar os juniores foi o João Alves, o Luvas Pretas. Era a tal geração de 89 ainda e como eu tinha seguido essa geração, querem que fique como adjunto, porque João Alves não conhece patavina de formação, não está minimamente identificado com o futebol jovem. O Bruno vai para os sub-15, eu estou nos sub-14 e acumulo um ano como adjunto do João Alves, nos juniores.

Em 2007, Renato Paiva na foto com os pais, voltou a ser campeão com os iniciados do Benfica
Em 2007, Renato Paiva na foto com os pais, voltou a ser campeão com os iniciados do Benfica
D.R.

Como foi ser adjunto do João Alves?
Foi bom, porque aprendi muita coisa já do futebol profissional.

Mas o João Alves é de uma escola mais antiga.
Sim, é um método diferente, não havia priorização tática, os treinos eram muito na base do treino conjunto, etc. Mas aprendi muito com a experiência dele, aquela coisa de ter sido jogador, a ratice de ler o jogo. O João tem uma leitura muito rápida do jogo, mudava de sistema tático, mudava jogadores de posição e a maior parte das vezes funcionava. E depois era um treinador que, por exemplo, quando estávamos em estágio, acabávamos de jantar e ele ficava a falar de tática e de futebol, não nos deixava ir para o quarto, eram conversas e conversas sobre treino e sobre jogo, e fazia perguntas: “Se eu fizer isto assim, o que é que tu fazes?”. Nesse aspeto foi bom.

Esteve apenas uma época com ele. E depois?
Depois saio dos sub-14 e vou para os sub-16. Estou dois anos nos sub-16 e quatro nos sub-17.

Treinar sub-14 não é o mesmo que treinar sub-17. Teve de alterar muita coisa, não só a nível de linguagem e comportamentos, mas também de treino e tática?
O jogo é mais rápido, é mais físico, eles conseguem fazer passos longos, os sub-14 têm dificuldade, a bola ainda pesa, o jogo é mais lento. Mas em termos de preparação e organização do treino não muda muito coisa, só os conteúdos. E isso era uma coisa que o Jaime fazia sempre questão de alertar. Para identificarmos bem o escalão que íamos treinar, para não pedirmos coisas que eles não conseguem fazer ou pedirmos coisas fáceis demais.

Renato Paiva a ser atirado ao ar pelos jogadores de sub-16 que liderou e com quem se tornou campeão
Renato Paiva a ser atirado ao ar pelos jogadores de sub-16 que liderou e com quem se tornou campeão
D.R.

Acabou por treinar também os juniores e a equipa B. Nessas idades, em questões táticas, o que prevalece é aquilo que o treinador desse escalão quer fazer ou tem que estar em consonância com o treinador da equipa principal?
A consonância é com a estrutura. A estrutura da formação do Benfica estava padronizada de uma maneira que tinha conteúdos para cada escalão e tínhamos de respeitar essa forma de jogar, porque as contratações na prospeção eram feitas em função da forma de jogar padrão da formação do Benfica. Os laterais tinham que ser ofensivos, não podiam ser laterais que não saibam driblar, por exemplo.

Havia um modelo ou um sistema instituído?
O modelo difere do sistema. O modelo é como tu jogas. Se é mais ofensivo, se é mais em espera. O sistema serve um modelo. O modelo era da estrutura do Benfica e o sistema também. No futebol de 7, era 2x3x1; depois fazia o transfer para o 4x3x3, nos mais pequeninos e quando chegava aos sub-17, já podias ter a liberdade de ter 4x3x3 ou 4x4x2. Tinhas de começar a ensinar os jogadores a jogar em dois sistemas. Com o que eles se preocupavam mesmo era que os jogadores se desenvolvessem e entendessem o jogo.

Renato Paiva (com a taça) e Chalana, a festejar o titulo dos sub-17, em 2012
Renato Paiva (com a taça) e Chalana, a festejar o titulo dos sub-17, em 2012
D.R.

O facto de se manter como treinador no mesmo escalão e não seguir com uma geração até ao final do seu percurso não é frustrante para um treinador?
Não. A vantagem de ser treinador de formação é que todos os anos tu te adaptas a uma fornada nova de jogadores. E uma geração pode ter mais talento do que outra. Até aí tu tens que balizar os teus objetivos e as tuas expectativas. Treinei a geração de 97 em que quase tinha de inventar pretextos para parar o treino. Porque aquilo era uma delícia. Iam 12 à seleção.

Pode recordar alguns nomes dessa geração?
O Guga, Diogo Gonçalves, João Carvalho, Yuri Ribeiro, Renato Sanches, Rúben Dias, Ferro. Era uma geração de luxo. A geração que veio atrás já não era tão boa, não podes ter as mesmas expectativas. O que é bom é que nunca era igual, fui construindo o meu edifício de treinador sempre a adaptar-me.

Mas, por outro lado, também não vê de perto a evolução deles até se tornarem seniores.
Tinha pena, claro, mas conhecia a estrutura em que estava a trabalhar, só se saísse alguém ou mudassem, é que podia ter outras oportunidades. Tínhamos de esperar que a oportunidade aparecesse.

Qual era a sua maior ambição na altura?
Quando eu entro para o Benfica e vou para a prospeção peço logo para assistir às pré-épocas dos seniores. Pensei logo que, se gostava de fazer carreira como treinador, devia começar a ver como é o treino dos seniores, a relação do treinador com eles, estava a preparar-me para se a oportunidade aparecesse eu já estar mais ou menos enquadrado com o futebol sénior. Começo por ver os treinos do Trapattoni, Fernando Santos, Camacho, Quique Flores, Koeman e Jorge Jesus.

Consegue dizer o que aprendeu de cada um deles?
Do Trapattoni e com o Jesus a vertente tática do jogo. O treino do Trapattoni era quase parado e ao milímetro tático. O jogador tinha que se movimentar e estar ao milímetro onde era suposto estar. Obviamente sempre com uma base muito defensiva, muito calculista do jogo. O Jorge, um bocadinho ao contrário. Tático, mas uma vertente do jogo mais ofensiva, com muita correção aos jogadores e com um trabalho de linha defensiva também muito bom. Do Camacho e do Quique Flores, os treinos eram na base da intensidade, daquela fúria espanhola, muito jogo reduzido, muito choque, muito combate, muita raça como eles diziam. O Koeman era mesmo o futebol holandês, o jogo posicional, o intercâmbio de posições, o tal futebol total que eles falavam. Muito a potenciar a qualidade técnica do jogador, tipo, façam com que a bola chegue ao extremo para o extremo desequilibrar e ir para cima. Mas tudo muito estrutural dentro do 3x4x3 ou do 4x3x3. Muito treino na base da técnica, passe, receção, drible, tudo muito técnico. O Fernando Santos foi o que vi menos. Era uma pessoa mais fechada, mais reservada e eu também estava nessa altura com o João Alves nos juniores e vi muito pouco ou quase nada.

Em 2014, Renato Paiva voltou a ser campeão com os sub-17
Em 2014, Renato Paiva voltou a ser campeão com os sub-17
D.R.

Quem era a sua grande referência?
O José Mourinho. Ele estava em grande e foi ele que abriu as portas aos treinadores. Era aquele momento em que foi campeão pelo FC Porto, ganhou a Taça UEFA, depois foi para o Chelsea. O grande exemplo era o José Mourinho. Ainda hoje é obviamente uma trajetória imaculada. Até por ser pioneiro em muita coisa. E ser pioneiro não é nada fácil. Paralelamente, continuava a ver o Carlos Carvalhal que, para mim, foi o craque da priorização tática. E o Luis Castro. Era coordenador da formação do FC Porto e eu era treinador do Benfica na formação e fizemos uma amizade improvável, houve química entre nós. Ele saiu do FC Porto, continuei a acompanhar o trajeto dele e fui observá-lo a Chaves. De todos os que vi era o mais equilibrado em todos os aspetos. Conseguia tocar todos os pontos com qualidade, foi um treinador com quem me identifiquei, até a nível humano. E em 2011 vou a um torneio na Coreia e conheço o treinador dos sub-16 do Barcelona. Outra particularidade que ainda não contei.

Força.
Na infância, vivia perto da fronteira e apanhávamos a televisão espanhola. Eu era doente do Barcelona, a minha irmã doente do Atlético Madrid. Era uma guerra, ainda hoje [risos]. Eu adorava o Barcelona, fui sempre acompanhando a história do Barcelona e quando ia a Espanha comprava camisolas do Barcelona. Quando cheguei a esse torneio na Coreia, no mesmo hotel estava a comitiva do Barcelona, apresentei-me, disse-lhes que era o adepto mais culé que existe em Portugal e comecei a falar da história do Barcelona e a mostrar fotos das camisolas. Eles ficaram impressionadíssimos. Fiz amizade com aquele que é hoje o treinador do Sevilla, Javier García Pimienta. La Masia estava em grande, com o Guardiola a trabalhar e a bombar. Perguntei-lhes se era possível passar uma semana a ver treinos em La Masia. Disseram que sim, que iam providenciar.

E foi?
Fui. Em 2012 eu e um colega do Benfica, o Ricardo Dionísio, fomos de carro, alugámos um apartotel ao pé de La Masia e passámos lá 10 dias. Víamos de manhã o treino do Guardiola, outro treino da equipa B e depois passávamos o resto do dia até às nove da noite a ver os escalões do Barcelona a trabalhar.

 Além do Benfica Renato Paiva sempre foi adepto ferrenho do Barcelona também
Além do Benfica Renato Paiva sempre foi adepto ferrenho do Barcelona também 
D.R.

O que lhe ficou na memória e o que achou naquela altura de Guardiola?
Há um antes e um depois dessa semana, no conceito de ver o jogo.

Porquê?
Porque a partir daí o jogo fez-me sentido naquilo que os espanhóis chamam o jogo de posição ou o jogo posicional. Em Portugal tinhas as dinâmicas dos sistemas, o jogo de posição é uma coisa diferente. Por exemplo, quando atacas há zonas que têm de estar ocupadas por jogadores; mesmo que haja uma troca posicional, estas zonas nunca podem estar vazias quando tu atacas. Tem a ver com oferecer linhas de passe dentro da equipa adversária, mas, ao mesmo tempo, enquanto não ofereces linhas de passe, o teu posicionamento fixa defesas adversários. Obriga-os a não sair dali, a libertar os teus colegas e também gerar superioridades muitas das vezes no guarda-redes. Quando alguém está a pressionar e salta no guarda-redes, um colega teu já está livre e a partir daí tu começas a gerar superioridades até chegar à baliza adversária. Basicamente e de forma muito sucinta foi aquilo que aprendi quando estive em La Masia. Quer na base, quer nos seniores, porque eles treinavam todos igual. Aquilo fez-me imenso sentido e comecei a ver o futebol dessa forma. Em 2012 é quando sou pela primeira vez campeão nacional de juvenis, embora não estivesse a aplicar isto porque tinha a coordenação do Benfica. Mas aquilo já estava a moldar-se na minha cabeça quando chegasse aos seniores.

Partilhou o que viu, no Benfica?
Sim, comecei a partilhar algumas coisas daquilo que tinha visto na estrutura do futebol formação do Benfica. Eles começaram a adaptar uma ou outra coisa que trouxe de lá porque tinha sentido no desenvolvimento dos jovens. Pediram-me para fazer uma apresentação de tudo o que vi aos meus colegas.

Daquilo que trouxe, o que foi introduzido no Benfica?
Essa questão dos posicionamentos, da flexibilidade dos sistemas e das zonas estarem ocupadas não interessa por quem. Isto o que provoca é que quando começas em dinâmicas, para as zonas estarem ocupadas, o 4x3x3 durante o jogo pode passar a ser um 3x4x3, basta um dos centrais subir no terreno. É tipo dominó.

Juanma Lillo, Chalana e Renato Paiva
Juanma Lillo, Chalana e Renato Paiva
D.R.

Continuou a fazer esse tipo de observação, com outros treinadores?
Sim, fui a Sevilha ver o Sampaoli porque tinha feito amizade com o Juanma Lillo, que hoje é adjunto do Guardiola e é considerado o grande mentor de Guardiola.

Como criou amizade com Lillo?
É uma história curiosa. Ele foi fazer uma apresentação em Portugal, à Universidade Moderna, e uma das exigências que fez foi conhecer o Fernando Chalana. Curiosamente, na altura, o Chalana era meu adjunto nos sub-17. Quando me chegou aos ouvidos que o Lillo vinha cá, fiquei em histeria total, ainda não o conhecia. E quando me disseram que a universidade entrou em contato porque ele queria conhecer o Chalana, eu era a melhor pessoa para promover esse encontro. Marcámos um jantar e foi fantástico, a partir daí nunca mais deixámos de estar em contacto. Ele estava como adjunto do Sampaoli e por isso vou ao Sevilha; também fui a Madrid ver o Simeone, porque o Chalana pediu ao Futre para arranjar essa hipótese.

Como era Chalana como adjunto? O que aprendeu com ele?
Aprendi coisas que nunca tinha visto num jogador de futebol, aquela magia dele e o que ainda mais velho conseguia fazer; mas acima de tudo o grande legado que o Chalana me deixa é a humildade. Era um jogador estratosférico, que se hoje jogasse não tinha preço, onde quer que fossemos era uma loucura total com o Chalana, no estrangeiro ou em Portugal, e ele com uma humildade do tamanho do mundo.

Ele ajudava-o mais em que aspetos?
Nas questões táticas, mas sobretudo na capacidade de observação dos jogadores. Ele dizia: "Renato, este jogador, puxa por ele, porque tem aqui qualquer coisa".

Em 2018/19, Renato levou os sub-19 do Benfica à Youth League
Em 2018/19, Renato levou os sub-19 do Benfica à Youth League
D.R.

Recorda-se de algum nome para o qual tenha chamado a atenção?
O Bernardo Silva. O Bernardo estava nos sub-17 e eu ainda estava com os sub-16. O Chalana era adjunto do Lage nos sub -17, e o Bernardo Silva com o Lage não jogava praticamente. Como não jogava nos sub-17, vinha jogar aos sub-16, porque eu jogava contra os sub-17, no distrital. E o Chalana dizia-me: “Puxa por este miúdo, este miúdo é o Messizinho do Seixal”. Mas chegou um momento em que o Bernardo quando passa os juniores quer desistir, quer ir embora e o Chalana não deixa. O Chalana é decisivo para que o Bernardo não saia do Benfica naquele momento. “Não vais desistir, não te vou deixar desistir”. O Bernardo era o jogador fetiche do Chalana.

Ele queria desistir porquê?
Porque não jogava, queria sair do Benfica. Não jogava, teve muito poucos minutos nos juvenis, ia jogar comigo, mas eu era distrital, andava em campos pelados e ele queria seguir outro caminho, obviamente; mas o Benfica não deixou e ele depois vai para os juniores, julgo que era o Tralhão o treinador e é aí que começa a ascensão do Bernardo.

A verdade é que o Bernardo Silva nunca teve muitas hipóteses na equipa principal do Benfica.
Não. Não teve na equipa principal, mas isso tem de perguntar ao Jorge Jesus. A verdade é que quando sai para o Mónaco é logo figura no Mónaco.

É ainda na época 2018/19 que Renato Paiva é promovido a treinador da equipa B do Benfica
É ainda na época 2018/19 que Renato Paiva é promovido a treinador da equipa B do Benfica
D.R.

Passaram-lhe pelas mãos jogadores como Renato Sanches, Gonçalo Ramos, João Félix, Rúben Dias, entre outros. Qual o que lhe encheu mais as medidas, aquele com o qual ficou mais maravilhado?
Em termos de fantasia, capacidade técnica, imprevisibilidade de fazer coisas que deixavam de boca aberta, era o João Félix. Faltavam-lhe outras componentes que, por exemplo, o Rúben tinha, a seriedade no treino, o foco, o trabalho, “eu vou ser jogador sim ou sim”; o João era mais aquele jogador na base do “eu tenho talento, isto vai dar de qualquer maneira”. E o João comigo ainda foi umas vezes para a bancada porque não defendia.

É isso que explica ele não ter conseguido afirmar-se ainda em pleno numa equipa?
Se calhar precisa de ser mais completo em alguns itens. Eu não trabalho com ele agora. Eu falo do que vi quando trabalhei com ele. Agora já não consigo dizer o que acontece. Se calhar isto perdura, não sei. Dei uma entrevista a dizer que ele ia ser Bola de Ouro, não tinha dúvida nenhuma, naquela altura. O que ele fazia nos treinos era uma coisa do outro mundo. Nos juvenis, jogávamos contra equipas seniores da III Divisão e do Distrital, equipas perto do Seixal, para dar andamento aos miúdos, e todos os jogadores e treinadores ficavam maravilhados com ele. Ele até era um bocadinho mais fantasista que o Bernardo, o Bernardo era melhor no conhecimento do jogo, a inteligência, o João não, era de fazer coisas do arco-da-velha. Na altura estava mesmo convencido que ia ser Bola de Ouro, porque nunca tinha visto nada igual. A verdade é que de facto não se adaptou. Não sei se não se adaptou ao estilo de jogo de Simeone, se não se adaptou ao clube, se o Simeone não se adaptou a ele. Não trabalhando com eles, fico mais limitado em dizer o que aconteceu.

Renato Paiva no banco durante um jogo do Benfica B, em 2019
Renato Paiva no banco durante um jogo do Benfica B, em 2019
Gualter Fatia/Getty

Após quatro anos nos sub-17, passou aos sub-19 e de repente cai-lhe a equipa B no colo. Como e porquê?
Quando vou para os sub-19, o Lage regressa ao Benfica, para a equipa B. Em janeiro, quando eu estava preparado para ficar também uns aninhos no sub-19, o Rui Vitória sai do Benfica e o Lage é promovido à equipa A, e eu dos sub-19 para a equipa B. Aqui é que entra toda a observação de seniores. Se não me tenho preparado paralelamente a observar aqueles estágios seniores e a ter aquele contacto com tantos treinadores do futebol profissional, eu ia ter dificuldades em adaptar-me à exigência profissional da II Liga. Senti-me mega preparado.

Antes de ir para a equipa B, já tinha recebido algum convite para treinar seniores?
Não. Mas logo no final do primeiro ano na equipa B já tinha clubes da I Liga interessados.

Pode dizer que clubes?
Um deles foi público, o SC Braga, que sondou o presidente Luís Filipe Vieira. Aliás, fez capa de jornal, porque o Vieira não deixou e disse que eu era o futuro Lage. Ele disse-me: “Não te vou deixar ir porque o Lage foi campeão e mais um aninho ou dois ele vai sair e a seguir entras tu. Conheces a casa, conheces os jovens e portanto não te vou deixar sair”. Tinha contrato de cinco anos.

Encarou essa declaração como boas notícias ou ficou com pena de não ter ido para Braga?
Lembro-me de ter comentado com o meu agente: “Olhar para o futebol daqui a uns anos é um bocado utópico. O futebol é o dia da amanhã porque pode acontecer tudo”. Tive sempre a noção de que, se as coisas corressem mal ao Lage, o presidente nunca ia substituir um treinador que veio da equipa B por outro que veio também da equipa B. Tanto que depois, veio o Jorge Jesus.

O treinador ainda guarda o recorte do jornal que informa a promessa de Luis Filipe Vieira de que ele seria o sucessor de Lage
O treinador ainda guarda o recorte do jornal que informa a promessa de Luis Filipe Vieira de que ele seria o sucessor de Lage
D.R.

Antes do Jorge Jesus chegar, quem assume a liderança da equipa A foi o Nelson Veríssimo. Contava ficar à frente da equipa A nesse processo de transição?
Esse é que é o tema. Quando o presidente Luís Filipe Vieira diz que não me deixa sair para o SC Braga porque vou ser o futuro Lage e tal, quando o Lage sai, eu e toda a gente, televisões e jornais, pensava que era eu que ia assumir, porque o Jesus só vinha no final da época. Mas o presidente escolheu o Veríssimo e a partir desse momento, decidi com o meu empresário que a primeira oferta boa que tivesse, eu saia do Benfica e ia seguir a minha carreira.

Ficou chateado por não o terem escolhido para treinador do Benfica ou apenas porque não teve oportunidade de liderar o clube naqueles meses?
Entendi sempre que depois do Lage sair era lógico vir alguém com o peso do Jesus. Sei muito bem o que é o Benfica. Agora aqueles meses de transição, senti que deveria ter sido eu, pela promessa que o Vieira me fez ao não me deixar sair para o SC Braga.

Quando sentiu necessidade de ter um empresário?
Não senti necessidade nenhuma. Estava nos sub-17 e o Afzal, o empresário do Rui Vitória, quis marcar um jantar comigo. Ele tinha um dossiê bem preparado sobre o meu percurso, queriam investir em mim porque via capacidade e potencial. Eu não tinha agente, gostei da abordagem, ele não tinha muitos treinadores na altura, e pronto, aceitei.


 

Spoiler

“No Bahia senti hostilidade. Houve ameaças físicas, esperas nos aeroportos, o Instagram da minha filha cheio de ameaças e insultos”

Há mais de um mês sem clube, Renato Paiva, que vive no Rio de Janeiro, confessa estar a custar-lhe bastante não estar no ativo. Diz-se viciado no treino, até mais do que nos jogos. Nesta II parte da entrevista percorre as suas passagens pelo futebol do Equador, Brasil e México, revela razões de saídas, explica alguns maus resultados, confessa o seu amor por gatos, fala da veia da escrita (que diz ser hereditária) e conta como conseguiu que dois jogadores que não se falavam fizessem as pazes. Ainda aborda temas como Renato Sanches e Martín Anselmi

Faz a época 2019/20 à frente da equipa B do Benfica, mas não termina a seguinte, sai em dezembro de 2020. O que aconteceu?
O Independiente del Valle contactou-me. Estava lá o Ricardo Pereira, treinador de guarda-redes, que tinha trabalhado comigo na formação no Benfica e como eles ficaram sem treinador, ele perguntou-me se eu estava interessado no projeto, que era top, tinha uma grande base da formação, etc. Pensei, é agora mesmo. É aquele feeling. É o projeto que preciso para dar o próximo passo, sem ser brusco. Equador, um campeonato não muito exigente comparativamente a outros, uma base da formação importante, vamos embora.

Teve a liberdade de escolher a sua equipa técnica?
Sim. Escolhi a minha equipa técnica. Tive dois meses de entrevistas com o Independiente, falei com toda a gente, menos com o homem que corta a relva; toda a gente me entrevistou, um processo fantástico. Havia três treinadores para escolherem. Ao fim de dois meses escolheram-me. Já lá estava o Ricardo como treinador de guarda-redes e eu levei outros elementos.

Já tinha definido essa equipa técnica?
Já. O adjunto, o Luís Martins, já tinha feito sub-17, sub-19 e equipa B comigo. O analista, o David Pereira, tinha sido seis anos analista do Jorge Jesus e dois do Rui Vitória nos seniores, queria um desafio diferente, foi comigo. E o Ricardo Dionísio era o preparador físico do Peseiro, que também aceitou.

A nível financeiro foi um grande salto?
Não foi um salto gigante, mas fui ganhar três vezes mais do que ganhava no Benfica.

Renato Paiva chegou ao Independiente del Valle, do Equador, em 2021
Renato Paiva chegou ao Independiente del Valle, do Equador, em 2021
D.R.

Quais foram as primeiras impressões quando chegou ao Equador?
O que mais me chocou foi a pobreza. Um contraste muito grande entre muito pobres e muito ricos. Alguma falta de regras. No trânsito, as passadeiras não interessam. Foi a primeira coisa que me avisaram. Ninguém pára. Alguma falta de regras dos jogadores, alguma falta de profissionalismo. Jogadores habituados a festa, a estar fora do peso, regras alimentares quase nenhumas, pontualidade só às vezes.

Conseguiu alterar esses hábitos?
Consegui, paulatinamente. Não quis entrar à bruta, conseguimos por convencimento. A questão do peso e do físico, por exemplo, o preparador físico preparou um powerpoint onde explicou que estar fora do peso implica maior risco de lesão, rendimento menor, o que significa não jogar. Entrámos na base do convencimento e não na base do ditador, que é assim porque sou o treinador. Isto caiu muito bem aos jogadores. Aos poucos fomos alterando as regras ao ponto de, por exemplo, um dos telejornais abrir com a notícia de que obrigávamos os jogadores a pesarem-se quando chegavam ao clube [risos].

E obrigavam?
Sim. Dissemos-lhes mesmo: “Chegam, despem-se, pesam-se e depois é que vão equipar.” Convencemos que era melhor para todos, para o rendimento deles, se querem melhores contratos, ir para a Europa, têm que respeitar as regras e foi relativamente pacífico.

O treinador português durante um jogo pelo Independiente del Valle
O treinador português durante um jogo pelo Independiente del Valle
Pool

As condições do clube eram o que esperava?
Muito boas. Não com a modernidade do Benfica, mas tínhamos dois campos para treinar, um centro de estágio com quartos onde dormíamos, refeitório, ginásio, tudo.

Costumes, hábitos culturais, houve alguma coisa que tenha estranhado mais?
A questão da música. Completamente viciados na música deles. Reggaetons, sei lá, aquelas músicas da América Latina. É música a toda a hora e em todos os lugares, no ginásio, no balneário, antes dos jogos.

Fazia-lhe confusão porquê?
Eu fui-me habituando. Hoje é um hábito, mas fazia-me um bocadinho de confusão às vezes no balneário, antes dos jogos, a música super alta, quando tu tens outros rituais de concentração na cabeça. Os rituais de concentração deles tinham a ver com a música. E a verdade é que eles estão a equipar e aquela música está a entrar no corpo e de facto estão a ativar-se. Hoje o pessoal está agarrado aos telemóveis e vão moles para dentro do campo, eles não. Era uma coisa interessante. Depois incomodava-me a falta de profissionalismo, faltar a um treino era normal, não chegar a horas, estas coisas que tivemos de deixar de normalizar.

O campeonato ficou aquém das expectativas?
Eu fazia scouting daquela zona, já sabia que em termos táticos era menos, mas em talento era muito mais. O que fizemos foi encontrar um equilíbrio, não estrangular o talento deles com excesso de tática, mas dar alguma ordem ao jogo.

Resultou uma vez que ganharam o campeonato, certo?
Sim. Foi o primeiro título nacional deles, não sendo um grande.

O treinador (2º à esquerda) com a sua equipa técnica no Equador
O treinador (2º à esquerda) com a sua equipa técnica no Equador
D.R.

Mudou o sistema tático do Independiente del Valle?
Sim, logo à 3.ª jornada do Abertura, em 2021, passei do 4x3x3 do Miguel Ángel Ramírez, que estava instituído, para o 3x4x3 e nunca mais saímos desse sistema.

Quando percebeu que tinha hipóteses de ganhar o campeonato?
O campeonato lá divide-se em dois: o Abertura e o Clausura. O Abertura define um vencedor, o Clausura define outro e depois há uma final a duas mãos. Se o vencedor for o mesmo, não há final. Não éramos um grande, o Independiente é uma espécie de SC Braga, mas no Abertura ficámos a dois pontos do primeiro, com um plantel pouco experiente. Em momentos capitais faltou-nos experiência, a equipa tinha muitos miúdos vindos da formação. Há um mês de paragem, reuni com os diretores e disse-lhes: “Se fizermos cinco contratações, de gente experiente, ganhamos a segunda volta.” Eles ficaram a olhar para mim, mas insisti que precisávamos de um goleador, porque éramos uma equipa que criava, criava e falhava imensos golos; precisávamos de dois ou três jogadores de meio-campo experientes e de um central.

E fizeram essas contratações?
Sim. Fomos contratar o melhor marcador da primeira volta do campeonato, que jogava no Mushuc Runa, uma equipa até do meio da tabela. Pensei, se ele é o melhor marcador a jogar naquela equipa, se vier para a nossa, com o volume de jogo ofensivo que temos, vai marcar muito mais golos e vai ser o melhor marcador do campeonato. Bingo. Depois houve a possibilidade de trazer o Sornoza, um histórico que jogava no Brasil, mas tinha sido da formação do Independiente; e o Gaibor, dois jogadores super experientes; e veio um central de 24 anos, o Carabajal, capitão do Arsenal de Sarandí, da Argentina. Quando eles chegaram, disse à minha equipa técnica e ao grupo: “Vamos à final e vamos ganhar o campeonato.” E assim foi. A segunda volta foi um amasso. Entretanto, dois meses antes do campeonato acabar, aparece-me o convite do Pachuca, do México.

Colocou a hipótese de ir para lá?
Não, porque já tinha a sensação que ia ser campeão e não queria abandonar o projeto a meio. Quando já estávamos apurados para a final, apareceu o Los Angeles FC, dos EUA, também. Foram lá, viram a final, queriam contratar-me, cheguei a acordo com eles, mas os meus jogadores fizeram uma operação de charme e acabei por ficar e fazer um segundo ano, embora na realidade depois só tenha feito seis meses.

Está arrependido de ter caído na operação de charme?
Estou, porque o LA FC acabou por ser campeão nesse ano e, além de ter ouvido os meus jogadores com o coração, também ouvi a direção que ia reforçar e tal, e depois não reforçou.

Renato Paiva com a taça de campeão do Equador
Renato Paiva com a taça de campeão do Equador
D.R.

Porque saiu do Independiente?
Nesses seis meses, depois de ter sido campeão, apareceu o Léon. Ofereceram-me condições financeiras e de projeto que senti serem muito melhores. Como estava um bocadinho chateado com as contratações que não se fizeram, arranquei para o México.

É substituído pelo Martín Anselmi, que veio agora para o FC Porto. Entretanto, deu uma entrevista onde acusa o atual técnico do FC Porto de ter feito tudo para entrar no Independiente quando o Renato Paiva ainda lá estava.
Atenção que essa entrevista é dada quando saio do Independiente, em 2022. Desde que ele veio para o FC Porto já recusei 50 entrevistas para Portugal e mais 50 para o México. Republicaram essa entrevista e há quem pense que é de agora, mas não, é de 2022. Foi a última entrevista que dei para a televisão no Equador, já não era treinador do Independiente.

Não quer esclarecer o que aconteceu, tendo em conta que deu a entender que ele andou a oferecer-se para o seu lugar durante algum tempo?
Remeto para a minha única entrevista sobre o tema, em 2022, porque agora não quero falar do assunto e recusei todas as entrevistas.

Foi para o México também sozinho?
No Equador adotei duas gatas, a Happy e a Blue, que viajam comigo para todo o lado. Sempre tive gatos. Vieram para junto de mim ainda muito bebés, com dois meses.

O técnico português foi treinar o Club Léon, do México, em 2022/3
O técnico português foi treinar o Club Léon, do México, em 2022/3
D.R.

Como foi o primeiro impacto quando chegou ao Club Léon?
Boas condições de trabalho, mas muitas dificuldades para impor o nosso trabalho. Eu já era o terceiro treinador que chegava ao clube a pedir a saída de um grupo de quatro, cinco jogadores que faziam questão de não querer fazer as coisas que os treinadores pediam. Queriam menos vídeo, menos intensidade nos treinos, se pudessem chegar mais tarde... Queriam pequeno-almoço facultativo nas concentrações, para ficarem a dormir até às tantas. Um grupo de jogadores que os meus dois antecessores já tinha pedido para sair e que o clube não cedeu porque tinham contrato.

Tinha conhecimento desse grupo?
Não daquela maneira e com aquela força. Cheguei, começámos a trabalhar e rapidamente começámos a sentir estas forças de oposição e com um domínio muito grande no balneário. O balneário depois fraturou-se, estrangeiros de um lado, mexicanos do outro, uns queriam trabalhar, outros não queriam, uns gostavam dos nossos métodos, outros não. Totalmente fraturado o balneário. Coisa que era pública porque nos jogos havia um cartaz na bancada que dizia: “Este clube não pode ficar refém de um grupo de jogadores.” Toda a gente sabia em Léon o que se passava.

O que fez quando se deparou com essa realidade nas mãos?
Ao fim de seis meses e alguns problemas, a seguir a uma conversa dura com os jogadores, após um mau resultado, fui ter com o presidente e disse-lhe: “Os seus jogadores é tudo menos. É menos volume no treino, é menos vídeo, é menos intensidade, é poder chegar mais tarde, é tudo menos, menos o ordenado. Mas você já deve saber disso, isto não é novo.” No final do torneio pedi ao presidente e ao diretor-desportivo para aqueles jogadores saírem. Disse-lhes: “Com estes jogadores não consigo trabalhar, não consigo ser eu. Não sei o que querem fazer”; “Eles têm contrato, estão há muito tempo no clube.” Um deles era o guarda-redes, o meu treinador de guarda-redes com problemas graves, disse que se ia embora, e eu disse, “não”, ou vai ele embora ou vamos todos, não vais sozinho. E assim foi. Pedi, não foi possível, e pedi a admissão. Fui embora.

Durante um jogo pelo Léon, no México
Durante um jogo pelo Léon, no México
D.R.

Com que opinião ficou do campeonato mexicano?
Um nível muito superior ao do Equador. Muito dinheiro, jogadores de muita qualidade, um futebol aberto, o jogo pelo jogo, uma paixão muito grande, estádios cheios, bons estádios. Saí com a frustração de não poder ter sido eu mesmo. Mas pensei, eu não consigo fazer o meu trabalho assim, se não vai dar para eles saírem, então saio eu. Ao fim de 20 anos, estava sem uma equipa para treinar.

Sentiu receio pelo futuro?
Foi um medo do caraças. Tomei a decisão no sábado. Eles pediram-me para pensar, mas eu já estava decidido e na segunda-feira fui assinar a rescisão. A ficha caiu quando cheguei a casa. E agora? Como é que isto funciona? Terça-feira acordei com a sensação de um vazio enorme. Comecei a fazer malas para ir embora e na quarta-feira ligam-me a perguntar se queria ir para o Bahia, do Brasil. O Bahia tinha acabado de subir da II para a I divisão brasileira. Era do Grupo City, maravilhoso. Fiz a reunião com o inglês que escolhe os treinadores na quinta-feira e, no sábado, dizem-me que fui escolhido e podíamos avançar para as condições. Terça-feira arranquei para o Bahia.

Está arrependido dessa decisão?
Para o Bahia, não. Estou arrependido para o Léon. Eu não sabia do contexto todo. Sabia daquilo dos treinadores saírem por causa dos jogadores, mas acreditei que podia mudar. Fui um bocado ingénuo. Mas o meu arrependimento foi não ter ido para o LA FC. Esse foi o meu grande arrependimento até hoje.

Em 2023, Renato Paiva aceita treinar o Bahia, no Brasil
Em 2023, Renato Paiva aceita treinar o Bahia, no Brasil
D.R.

Quais foram as primeiras sensações quando chegou ao Brasil?
Único, inigualável, loucura, adrenalina... Em nenhum lado do mundo existe o que existe aqui no Brasil.

O que quer dizer com isso? Explique melhor.
Quando acaba a pré-época, normalmente de três, quatro semanas, nunca mais treinas, porque começas a jogar de três em três dias. Jogas estadual, mas porque o estadual dura para caraças, chega um momento em que jogas ao mesmo tempo, estadual, Copa do Nordeste, Copa do Brasil e Campeonato. Quatro competições ao mesmo tempo, com viagens de três, quatro horas. Ou seja, quando chegas ao clube não treinas, recuperas.

O clube tinha as condições que estava à espera?
Tinha.

E os jogadores, o que achou?
Com uma qualidade que eu ainda não tinha treinado, a não ser na formação do Benfica, mas não eram homens. Só que, o plantel que fizeram não tinha a qualidade suficiente para um Brasileirão. Subiram de divisão, fizeram 25 contratações que foram chegando aos soluços, muitas delas fora da pré-época.

Durante um treino no Bahia
Durante um treino no Bahia
D.R.

Teve alguma influência nessas contratações?
Em algumas, sim, outras não. Por exemplo, aquilo que o Grupo City chamava de Emergent Talent, são miúdos brasileiros que contrataram jovens e puseram a rodar na Europa. Kayky e Arthur Salles, por exemplo, estavam no Paços Ferreira e não jogavam, o Diego Rosa estava no Vizela, não jogava. Então foram recrutados para o Brasil, para ver se revitaliza os rapazes. A questão é que o Bahia não é propriamente um clube como o Bragantino do Red Bull. O Bahia tem milhões de adeptos no Nordeste e o Red Bull nem tem quase adeptos. E os adeptos acharam, o Grupo City vai comprar-nos e isto agora vai ser só grande jogadores. Mas o Grupo City olhou para aquilo como o ano zero e foi buscar alguns para experimentar a ver se isto dá. E não deu.

Mas ganhou o estadual?
Mesmo assim, com aquele plantel, ganhámos o estadual. Não o ganhavam há três anos. Igualámos a melhor marca do clube na Copa do Brasil, que são os quartos de final. Não passámos às meias-finais e batemos o recorde do clube, porque perdemos nos penáltis, com o Grêmio. Mesmo com este plantel de 25 jogadores, - imagine o que é para um treinador ter 25 jogadores e não ter tempo para treinar uma ideia - apresentámos resultados. No Brasileirão as coisas de facto foram muito difíceis porque os adversários eram muito bons, acho que houve um erro de cálculo em relação àquilo que era a constituição do plantel, que não conseguiu dar uma resposta ao nível que estavam à espera.

Renato Paiva teve algumas conferências de imprensa difíceis no Bahia
Renato Paiva teve algumas conferências de imprensa difíceis no Bahia
D.R.

Sentiu muita pressão por parte dos adeptos?
Não, senti hostilidade, não senti pressão. O problema é esse. É que no Brasil ganha níveis de hostilidade. Invasão de centros de treino, ameaças físicas, esperas nos aeroportos, o Instagram da minha filha cheio de ameaças e insultos. E os jornalistas também. Como é Nordeste, é uma zona, não é nacional, os jornalistas são jornalistas/ adeptos. Não é como, por exemplo, o Palmeiras, o Flamengo que têm dimensão nacional. Não, o Bahia tem uma dimensão no Nordeste. O impacto é ali, tudo a nível regional. Então os jornalistas são adeptos ao mesmo tempo e entram no mesmo nível de desequilíbrio que os adeptos. Aquilo começou a ganhar contornos no campeonato que pensei, não estou para aturar isto porque já vai nas ameaças à minha filha. O ambiente no estádio era muito difícil quando não ganhávamos ou quando sofríamos um golo. Eles definiram objetivos irrealistas ao acharem que com a compra do City iam logo para a Libertadores e eram campeões. Criaram ideias desmesuradas que obviamente, na prática, não se concretizam, e depois há um bode expiatório, que não são eles. Eu passei o tempo a avisar que era o ano zero do Grupo City no Bahia. E nada. Vou definir o que o meu capitão no Brasil me disse: “Mister, a gente aqui não consegue perceber o que é a felicidade de ganhar um jogo, porque o único sentimento que a gente tem é alívio. Não é felicidade. É alívio. Porque a gente assim pode ir ao shopping, pode ir ao restaurante com a família, pode sair, pode estar tranquilo nas redes sociais.” O problema é que jogam de três em três dias e o alívio vai ao desespero rapidamente.

Quando saiu do Bahia?
A oito ou nove jornadas do fim. Estávamos um ou dois lugares acima da zona de rebaixamento. Empatámos em casa com o Corinthians e decidi, ponto final, não quero mais isto. Tinha também problemas de interferência da área da performance naquilo que era o planeamento físico do treino, porque o Grupo City tem um gabinete de performance que é transversal a todos os clubes. Queriam meter-se em coisas que nós não concordávamos, ainda mais ao jogar de três em três dias. Pensei, está aqui um monte de problemas e eu vou acabar por ser despedido. Senti já não ter condições para continuar. O [Rogério] Ceni veio substituir-me e acabou a época com o Bahia a ir para a última jornada a depender do Santos e do Vasco. Se o Santos e o Vasco ganham, o Bahia desce, o Vasco ganha e o Santos perde. Então desce o Santos e o Bahia fica. Mas não dependiam deles. No ano seguinte, vão ver o investimento do Bahia no plantel. No Bahia, ainda hoje, quem gostava de ver a nossa equipa jogar, diz: “Eu gostava de ver o Paiva com este plantel que tem o Ceni.” E, de facto, até o Everton Ribeiro eles contrataram ao Flamengo. A única coisa que fez melhor que nós foi um Brasileirão melhor, porque o estadual não ganharam e fizeram o mesmo que nós na Copa do Brasil.

O treinador português conquistou o título baiano
O treinador português conquistou o título baiano
D.R.

Regressou ao México, para o Toluca, em 2023/24. Já tinha esse interesse quando saiu do Bahia?
Saio do Bahia e havia umas sondagens do Toluca, o diretor-desportivo já me tinha entrevistado para ir para o Necaxa, outro clube onde ele foi diretor-desportivo. Ele foi transferido para o Toluca e o namoro seguiu por ali. Contactam-me mais ou menos em outubro, foi-se trabalhando as coisas e entro no Toluca, em dezembro.

Era um contrato de quanto tempo?
De um ano, com cláusula de renovação automática se chegássemos às meias-finais do campeonato. Coisa que não conseguimos, ficámos sempre nos quartos. Chegámos com o clube em 13.º lugar e fora dos play-offs. Fazemos três contratações e no torneio regular ficamos em 3.º lugar. Logo. Perdemos o 2.º lugar no último jogo, curiosamente contra o Cruz Azul, do Anselmi, em casa, perdemos 1-0 num jogo em que falhámos dois penáltis. Estávamos em 2.º e passámos para 3.º lugar. Tivemos de longe o melhor ataque do campeonato, 38 golos, e um número de pontos que já não se fazia desde 2009. Vamos para os ‘quartos’. Jogamos fora com o Chivas, um dos grandes do México, perdemos 1-0. Em casa, 0-0. Bastava-nos fazer um golo porque ficámos melhor classificados que o Chivas, e em caso de empate não há penáltis, passa o melhor classificado na fase geral. Mas foi daqueles dias em que a bola não entra. Podíamos lá estar até hoje. É poste, é barra, o guarda-redes é o melhor em campo. Temos um golo anulado, por um pé, a cinco minutos do fim. Aconteceu-nos tudo. Fomos eliminados. Perdemos por 1-0. Veio o segundo torneio, vou buscar o Paulinho, o Luan ao Palmeiras, o central, e o Helinho ao Red Bull Bragantino. Disse aos jogadores que o objetivo era melhorar tudo e, obviamente, passar nos quartos de final e lutar pelo título.

O que a aconteceu?
Melhorámos, acabamos em 2.º lugar, fizemos os mesmos 38 golos, reduzimos a metade os golos sofridos e o Paulinho é o melhor marcador do campeonato, coisa que o Toluca já não tinha há uns 12 anos.

Renato Paiva assumiu o comando o Toluca, do México, em 2023/24
Renato Paiva assumiu o comando o Toluca, do México, em 2023/24
D.R.

Estava confiante que o Paulinho ia adaptar-se tão bem?
Estava. Mesmo. Conhecendo o campeonato, com os espaços que aquilo tem e percebendo como ele joga... Mas quando sugeri o nome ao diretor-desportivo, que não conhecia o Paulinho, a primeira reação foi: “Epá, 32 anos. Não vem para aqui de férias?” Eu disse logo: “Não. Ele vem para aqui e vai ser o melhor marcador do campeonato já nesta época.” É uma reunião que ainda hoje a minha equipa técnica não esquece. Melhorámos os números todos na fase regular. Tivemos um azar. Ficámos em 2.º e o América, que era o bicampeão, fez uma época regular horrível e ficou em 7.º lugar. Quem é que levou com o América na fase a eliminar? Nós. Outro problema acrescido. Na última jornada da fase regular recebemos o América. Campeão. E ganhámos 4-0. Foi notícia de destaque. Já nos faziam campeões e isso não nos fez nada bem, porque passado 15 dias estávamos a jogar com eles a eliminar e não correu bem. Perdemos 2-0, fora. E em casa voltámos a perder 2-0, já na parte final do jogo. Curiosamente, o guarda-redes deles voltou a ser o melhor em campo. Fomos eliminados outra vez nos quartos.

Ou seja, a renovação automática perdeu efeito.
Ficou nas mãos da direção prolongar ou não prolongar o contrato. As pessoas adoravam a forma como jogávamos. Fizeram-me uma música e tudo, e quando a direção decidiu não renovar foi uma surpresa para muita gente, apesar de, de facto, termos ficado pelo caminho nos quartos de final.

O que lhe disseram?
Que o dono do clube tem 80 e muitos anos, está muito doente e não quer morrer sem ser campeão. Foi a justificação que me deram. Disseram que a equipa de facto jogava muito bem, tinha feito fases regulares extraordinárias, mas caía nas fases de eliminar e no México o que decide os campeonatos são os play-offs.

Não estava à espera deste desfecho?
Não. Ninguém estava à espera. Nem os media, nem os adeptos. Foi de facto a segunda saída que mais me custou desde que sou treinador. Foi desvincular-me do Benfica e esta.

O téncico português a mostrar os seus dotes de jogador durante um treino do Toluca
O téncico português a mostrar os seus dotes de jogador durante um treino do Toluca
D.R.

Já foi sondado por algum clube entretanto?
Nada de concreto. Sei que o meu nome está em equação no Cruz Azul. Mas não há nenhum contacto ainda. E, no meio disto, no Bahia, conheci uma psicóloga, com a qual casei. Ela foi psicóloga do Flamengo durante 18 anos, é aqui do Rio de Janeiro, onde comprei casa. Estou a viver no Rio e à espera que o telefone toque.

Quando Roger Schmidt saiu do Benfica falou-se no seu nome. Chegou a ser abordado?
Não. Tive a informação de dentro do clube que o meu nome estava em cima da mesa e disse que tinha contrato com o Toluca até dezembro, lutava para ser campeão e não ia sair do Toluca. Mas nunca ninguém falou comigo.

Qual é a sua maior ambição profissional?
Ter um balneário para treinar. Sinto muita falta. A minha maior ambição é lutar por títulos. Já cheguei a ser sondado anteriormente para treinar a seleção equatoriana, mas disse que não queria treinar seleções, porque preciso do dia a dia. Sou um viciado no treino. Gosto mais do momento do treino do que propriamente do momento do jogo. Está-me a custar não estar no ativo.

Está disposto a regressar a Portugal mesmo que não seja para lutar pelo título?
Presentemente, é difícil. Não digo impossível, mas é difícil regressar a Portugal por vários fatores. Sinto que os projetos estão um bocadinho instáveis em Portugal. Está-se a despedir com muita facilidade. É a minha sensação. E os valores financeiros que se praticam são muito diferentes do que a gente tem aqui fora. Se é para ser despedido, tem de valer a pena a nível financeiro.

Paiva a celebrar durante um jogo do Toluca
Paiva a celebrar durante um jogo do Toluca
D.R.

Do que vai observando do campeonato português, vê alguma das equipas com muito mais probabilidades de ganhar o título ou esta época está particularmente renhida?
É uma época renhida, até porque as equipas da frente estão a perder muitos pontos. A saída do Ruben Amorim equilibrou o campeonato. Se o Ruben Amorim segue no Sporting, acho que o Sporting era o maior candidato ao título. Aliás, os números diziam isso.

Atualmente, quem é o treinador que segue com mais atenção e que se tornou uma referência?
Continuo a seguir o Mourinho e o Guardiola, tenho muito interesse no Xavi Alonso e gosto muito de algumas particularidades do jogo do De Zerbi.

Tem algum sistema preferido?
[Risos] Essa pergunta os presidentes fazem-me sempre e eu respondo sempre o mesmo. O que é importante é eu dominar os sistemas todos. Isso acho que domino. Porque quem define os sistemas são os jogadores que tenho. A maior lição foi o Independiente del Valle. Cheguei lá com a equipa montada em 4x3x3 e depois senti que os jogadores que eu tinha não davam para aquele sistema. E quando mudámos para o 3x4x3 fomos campeões.

Estaria disposto a voltar a ser adjunto?
Não posso dizer que não, até porque tenho na minha equipa técnica um treinador que decidiu passar de treinador para adjunto, o Nuno Campos, e é um exemplo de grande carácter, de grande humildade profissional. Poderia ser adjunto, agora depende de quem. Teria de ser alguém que partilhasse as mesmas ideias que eu, que foi exatamente aquilo que o Nuno fez. E a nossa relação é extraordinária, dentro e fora do campo.

Paulinho e Renato Paiva, no Toluca
Paulinho e Renato Paiva, no Toluca
D.R.

Qual o campeonato que mais gostou de jogar?
O campeonato brasileiro. Em termos de qualidade individual, equilíbrio, dificuldade dos jogos, um calendário que obriga a uma gestão de plantel, de metodologia, de conteúdos, de tudo, incomparável. Brasil, de longe.

Alguma vez teve de intervir num treino devido a jogadores andarem à pancada?
Já. Tirei ambos do exercício e meti-os a correr à volta do campo, mas em sentido contrário, portanto, tinham que se cruzar. Também tive dois jogadores que não se davam e promovi um encontro casual no meu quarto do hotel onde estávamos concentrados. Quando chegaram ao meu quarto, disse-lhes: “Meus amigos, fiz isto de propósito. Podem destruir o quarto se quiserem, mas vocês vão ter que sair daqui os dois entendidos. Para bem do grupo e para bem de vocês. Não quero que durmam juntos, vão ao cinema juntos, almocem juntos. Agora, aqui dentro, ainda por cima são pesos pesados no balneário, têm de dar um exemplo para toda a gente. E a primeira atitude que vão ter quando saírem daqui é na próxima refeição sentarem-se frente a frente.”

Resultou?
Resultou. Ainda hoje me agradecem.

Em algum momento sentiu que o facto de não ter sido jogador o prejudicou?
Sim. Se eu tivesse sido jogador, se calhar seria ainda melhor treinador. Há coisas que os livros não te trazem, nem o dia a dia de quem nunca jogou. O mister Nené contava-me uma história maravilhosa.

Pode contar?
Sim, claro. Nunca pensaria naquilo, como ele fazia golos nos cantos. Ele disse-me: “Nunca ninguém me ensinou. Vai ver quantos golos de canto fiz no segundo poste. Sabes qual era o truque? Normalmente eles metem um defesa no primeiro poste e outro no segundo. Quando eu via um defesa no segundo poste, aproximava-me dele, ficava mesmo perto dele. E como às vezes havia marcações individuais, os adversários olhavam e como me viam perto daquele jogador, pensavam que eu estava a ser marcado individualmente por ele. Só que ele estava a fazer zona no poste. Como eu estava perto dele, ele também não chamava ninguém. O que acontecia? Quando a bola era batida, eu dava dois ou três passos para trás e afastava-me. Então ficava sempre sozinho. Quando a bola ali caía, era golo. E depois começava tudo a mandar vir com o rapaz do poste que, coitado, não estava a marcar ninguém.” [risos]. Este é o tipo de ratices de quem joga, que eu, de facto, não sendo jogador, acho que perdi essa etapa no meu edifício de treinador.

O treinador português num treino do Toluca, no México
O treinador português num treino do Toluca, no México
D.R.

Qual o jogo que mais lhe custou perder?
Não digo perder, ser eliminado. Foi ser eliminado no primeiro torneio, agora com o Toluca, com o Chivas de Guadalajara. O segundo jogo foi um massacre autêntico em que a bola, de facto, estava destinada a não entrar e bastava só fazer um golo. Lembrei-me de outro que me doeu muito. Juvenis, Benfica-Sporting, no Seixal. Estamos a ganhar 1-0 ao intervalo e éramos campeões, e o Sporting tinha um rapaz no banco chamado Rafael Leão. O treinador, João Couto, decide meter o Rafael Leão e o Sporting foi campeão com dois golos dele em 45 minutos. Doeu-me muito perder esse jogo.

Outro jogador que lhe passou pelas mãos e era apontado como uma grande promessa do futebol português e que, tal como João Félix, não conseguiu impor-se, é Renato Sanches. Tem alguma explicação?
O problema do Renato Sanches é físico. São as lesões. Por que é que não se consegue descobrir? Não sei. Já foi no Bayern, do Bayern foi para o Paris, do Paris veio para o Benfica e não se consegue perceber o que é. Um dos atributos essenciais que o Renato tem é o físico, ele é um comboio com bola, uma força da natureza. E a partir do momento em que o Renato começou a ter lesões, acabou. Não se fixa em lado nenhum e não consegue desenvolver aquilo que sabe bem fazer.

Acha que essas lesões passam por falta de cuidado do próprio, falta de descanso adequado, mais empenho no trabalho físico, etc.?
Não sei. O que é estranho é que foi para o Bayern, foi para o Paris Saint-Germain e foi para o Benfica. E ninguém consegue decifrar o que se passa. E as lesões continuam. Porque se há lesões no Bayern, mas não há no Paris, podia dizer-se que era o treino do Bayer; se se verificassem lesões no Bayern e no Paris Saint-Germain, mas no Benfica não há, então o Benfica trabalha melhor o físico do Renato, ou a prevenção de lesões. Mas não. É transversal aos três clubes, portanto, não sei dizer. Mas é claramente um problema físico aquilo que limita o Renato Sanches como jogador, disso não tenho dúvida.

Renato Paiva veste uma t-shirt com a foto de Jaime Graça, a pessoa mais importante na sua carreira
Renato Paiva veste uma t-shirt com a foto de Jaime Graça, a pessoa mais importante na sua carreira
D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
No México.

Já deu para investir?
Tenho esta casa no Rio de Janeiro e tenho dinheiro a render.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Sei lá, ir de férias para um dos melhores hotéis em Cancún, por exemplo, ou meter-me no avião e ir passar um fim de semana a Miami.

Tem algum hobby?
Gatos. Gosto mesmo muito de brincar com as minhas gatas. Gosto muito de ler, quando tenho tempo.

Acredita em Deus?
Acredito. Sou católico, gosto de ir à missa quando posso.

Superstições?
Não.

Tatuagens?
Zero.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Jogo padel e ténis.

As gatas Happy e Blue, que Paiva adotou no Equador
As gatas Happy e Blue, que Paiva adotou no Equador 
D.R.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ter sido jogador de futebol profissional.

E o maior arrependimento?
Não ter aceitado o contrato do LA FC.

O momento mais feliz na carreira?
O meu primeiro título nacional, de sub -7, e o meu primeiro título profissional no meu ano de estreia num clube que nunca tinha sido campeão.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho que gostava de treinar um dia?
O Benfica e o Barcelona.

Tem ou teve alguma alcunha?
Não.

Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Obrigava a tempo contado. Tempo útil. Sou completamente contra o queimar tempo no futebol e era mais rigoroso com o tempo da bola na mão dos guarda-redes.

Sem clube desde dezembro de 2024, Renato Paiva está à espera que o telefone toque
Sem clube desde dezembro de 2024, Renato Paiva está à espera que o telefone toque
Jam Media

O que pensa do VAR?
É muito importante. Não deve substituir os árbitros, mas o papel dele é ajudá-los e aí é muito importante.

Qual a equipa mais difícil que enfrentou?
O Palmeiras, do Abel. O América, no México.

Tem algum talento escondido?
Escrever. É de família. O meu avô escrevia, o meu pai escrevia, a minha filha é jornalista, escreve. A facilidade com que elaboro um texto ou faço rimas. Não digo que seja poesia, mas consigo fazer rimas com facilidade. Quando era miúdo as minhas composições eram lidas. Depois trabalhei num jornal no verão para ganhar uns trocos e já fazia textos ótimos. É uma costela hereditária porque o meu avô escrevia, o meu pai também, em jornais e éramos todos horríveis a matemática.

Quem foi a pessoa mais importante e mais marcante no seu percurso no futebol?
Jaime Graça.

 

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Citação de Jimpo, há 34 minutos:

Nem consigo ler. Parece-me um mentiroso de primeira. 

Verdade.

Impossível a família ser toda do Benfica

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Tem algum hobby?
Gatos. Gosto mesmo muito de brincar com as minhas gatas

um gajo q identifica gatos como hobby só pode ser um grande treinador

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Spoiler

“Na hora em que joguei contra o Benfica, algo mexeu comigo. Por isso escolhi o Benfica em vez do Galatasaray ou do Bordéus”

Geovanni, de 45 anos, foi dos avançados brasileiros mais acarinhados pelos adeptos do Benfica e fez parte da equipa que, sob a liderança de Trapattoni, conquistou o 31.º título do clube, após um jejum de 11 anos. Nesta primeira parte do Casa às Costas conversamos sobre o percurso que trilhou até chegar à Luz, que começou no Cruzeiro e passou pelo América Mineiro antes de voar até à Europa, para assinar com o Barcelona, onde passou a ganhar 15 vezes mais

Nasceu em Acaiaca, Minas Gerais. O que faziam os seus pais e quantos irmãos tem?
O meu pai trabalhava na rede ferroviária federal e a minha mãe era dona de casa. Somos uma família bem grande, com 11 irmãos. Mas três morreram e hoje somos oito irmãos.

Faz parte do grupo dos manos mais velhos ou dos mais novos?
Sou o mais novo, o acima de mim é 12 anos mais velho. A minha mãe descobriu que estava grávida de mim quando já estava de seis meses. Quando eu nasci ela tinha 50 anos e meu pai 54.

Como foi crescer numa família tão numerosa?
A minha infância foi ótima. Numa família grande temos muitos primos, sobrinhos, quando nasci já tinha sobrinhos mais velhos que eu e alguns da minha idade. Isso foi muito bom para mim. Os meus irmãos gostavam de jogar à bola, eu ia no campo vê-los jogar e isso incentivou-me muito. O futebol está no sangue, o meu pai gostava muito.

 

Geovanni chegou ao Cruzeiro com 14 anos
Geovanni chegou ao Cruzeiro com 14 anos
D.R.

Em casa torciam porque clube?
O meu pai era cruzeirense e santista também, por causa do Pelé. Também torcia pelo Cruzeiro, o clube no qual eu iniciei a minha carreira.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Sempre quis ser jogador.

Quando começou a jogar num clube?
Aos três anos comecei a jogar no Independente de Acaica, porque o meu pai foi o fundador desse clube, na minha cidade. Mas o primeiro campeonato que disputei foi com sete anos. Foi um marco para mim, tenho muitas lembranças de jogar com os meus sobrinhos. Fiquei no Independente dos 7 até aos 14 anos, altura em que fui para a capital, Belo Horizonte, que fica mais ou menos a duas horas e meia de casa. Vim morar com um irmão para Belo Horizonte e fazer teste no Cruzeiro.

Recorda-se desse dia?
Sim. Foi uma data muito marcante, porque saí da minha cidade no dia 1 de maio de 1994, o dia em que o Ayrton Senna faleceu, e não voltei mais para casa.

Foi muito difícil deixar o ninho, ainda que fosse viver com um irmão?
Na cabeça de um adolescente, o sonho é jogar e ser profissional num grande clube e não pensamos no preço que vamos pagar, longe da família, dos pais, dos irmãos, dos amigos. No princípio, senti muita tristeza, muita saudade de casa, mas depois acabamos por nos acostumar e, na verdade, o sonho também fala muito alto nesse momento.

Geovanni (no centro) com amigos
Geovanni (no centro) com amigos
D.R.

E qual era o seu maior sonho?
Ser jogador de futebol, claro, mas na minha cabeça era dar uma vida melhor para os meus pais. Sempre foi isso. Dar uma casa boa para os meus pais, dar-lhes melhores condições. E realmente cheguei num lugar muito grande. Não esperava chegar em lugares tão altos como cheguei, as coisas foram acontecendo e tomaram uma proporção muito grande. O Cruzeiro já é um gigante aqui no Brasil. Só esse sonho de chegar aqui no Cruzeiro já era muito grande.

Não se imaginava noutros clubes no futuro?
O Cruzeiro era um dos clubes que eu gostava. O São Paulo também era um clube onde eu tinha o sonho de jogar, foi campeão no Mundial, da Libertadores e no Brasileirão. Mas eu vinha de uma cidade muito pequena, o sonho, na verdade, não era chegar na seleção brasileira como cheguei, porque sabia da dificuldade.

Foi chamado pela primeira vez a uma seleção no Brasil com quantos anos?
A primeira seleção que fui foi a de sub-15. Depois fui à de sub-17, sub-20, à seleção olímpica e à principal.

No Cruzeiro, com 17 anos, fez parte do plantel que conquistou a Libertadores, em 1997?
Eu estava naquele grupo, sim, porém, eu não atuei na Libertadores porque, nesse ano, a seleção de sub-17 passou praticamente o ano todo a disputar o Sul-Americano. Voltámos e fomos disputar o Mundial sub-17. Então, esse ano passei cinco meses fora, a servir a seleção.

O avançado brasileiro representou a seleção brasileira desde os sub-15 ate à seleção A
O avançado brasileiro representou a seleção brasileira desde os sub-15 ate à seleção A
Adam Davy - EMPICS

Recorda-se do jogo de estreia na equipa principal do Cruzeiro?
A minha estreia como profissional foi num jogo contra o Mamoré no campeonato mineiro e ganhámos 3-1.

Estava muito nervoso?
Ficamos sempre um pouco ansiosos. Quando cheguei a profissional, tinha o Muller, o Dida, o Valdo, que jogou no Benfica, grandes craques, e estar ali no meio daqueles jogadores que fizeram sucesso no Brasil e no mundo, com 17 anos, assusta um pouco. Mas eles ajudaram-me muito na transição da base para o profissional.

Quando assinou o primeiro contrato profissional?
Foi com 17 anos. Uma alegria muito grande, meu pai estava comigo nesse dia. Passei a ganhar um dinheiro que já dava para ajudar a minha família. E pude guardar um dinheirinho nessa época para começar a pensar em comprar um imóvel pra mim.

Já tinha algum namoro sério?
Namorava à distância, a namorada estava em Acaiaca e eu em Belo Horizonte. Não havia uma ligação muito forte, até pela distância, e na altura não havia telemóveis nem internet, por isso não durou.

Do que mais se recorda dessa primeira época como profissional?
Recordo que, com 17 anos, joguei contra o Benfica, no Centenário, em Belo Horizonte, ganhámos 3-1 e eu fiz dois golos. O Benfica teve logo interesse em mim. Era o Benfica onde estava Paulo Nunes, o Preud'homme, o defesa Ronaldo, o Gamarra... Eu joguei contra eles e o Benfica fez uma proposta ao Cruzeiro, mas o Cruzeiro não aceitou.

Geovanni (à esquerda) durante um jogo do Mundial de sub-20, em 1999
Geovanni (à esquerda) durante um jogo do Mundial de sub-20, em 1999
Matthew Ashton - EMPICS

Em 1998 foi emprestado ao América Mineiro. Porquê?
O Cruzeiro fez grandes contratações, eu não ia jogar muito e decidiram emprestar-me, para disputar o Brasileirão pelo América.

Ficou chateado com o Cruzeiro por não o terem deixado ir para o Benfica e logo depois emprestarem-no?
Na altura eu não entendia muito. Só mais tarde é que percebi o tamanho do Benfica e o que são realmente os clubes europeus e o futebol em geral. Na altura o meu sonho era jogar à bola. Eu não tinha ambição, vamos dizer assim, de querer ir para determinado clube. Eu queria estar ali, no Cruzeiro, a jogar e a minha visão como menino do interior era muito simples: era talvez até ficar no Cruzeiro o resto da vida. O pensamento é esse. Quero ajudar meu pai, quero estar próximo do meu pai.

Quando começou a entender melhor o mundo do futebol, o valor dos clubes europeus, a sua dimensão e historial e que era possível jogar num deles?
Comecei a perceber que havia essa possibilidade de ir para grandes clubes e para a Europa mais ou menos com 19/20 anos, porque fui à seleção de sub-20 e muitos jogadores estavam noutros clubes, alguns já tinham ido para clubes da Itália, da Holanda e aí a minha cabeça começou a pensar que um dia poderia jogar num clube do exterior.

O avançado com um fã do Cruzeiro
O avançado com um fã do Cruzeiro
D.R.

O seu primeiro título no Cruzeiro é o Campeonato Mineiro, em 1997. Mas em 2000, conquista a Taça do Brasil, que foi um jogo especial, não foi?
Foi uma final onde tive o privilégio de marcar o golo do título. Foi um título inesquecível, aos 44 minutos do segundo tempo. Foi um dos jogos mais emocionantes de toda a história do futebol brasileiro. Empatámos o primeiro jogo sem golos. Se empatássemos 1-1, 2-2 ou 3-3, em casa, o São Paulo ganhava a Taça porque o golo fora de casa na altura valia mais. Na segunda mão, o São Paulo marcou primeiro, nós tínhamos de virar o jogo porque o empate não bastava. Empatámos aos 28/30 minutos, e aos 44' há uma falta. Eu arranquei para fazer golo, o central puxou-me e essa falta ficou próxima da área. Bati, fizemos o 2-1. Logo após a bola sair no meio-campo, a nossa equipa ainda estava desorganizada, há um cruzamento, o jogador do São Paulo estava a dois metros do golo, cabeceou, o nosso guarda-redes fez-se à bola, a bola bateu nele, ia entrando, o nosso guarda-redes consegue tirá-la... Foi uma emoção, se o São Paulo empatasse o jogo, era campeão. Foi o último jogo que teve 85 mil pessoas no Mineirão, um jogo que marcou. Imagine, o estádio lotado, o meu pai que nesse dia fazia 75 anos, na bancada, e o filho faz o golo do título. Ficou marcado.

Em 1998, Geovanni foi emprestado pelo Cruzeiro ao América Mineiro
Em 1998, Geovanni foi emprestado pelo Cruzeiro ao América Mineiro
D.R.

Qual foi o jogador brasileiro que mais o impressionou nesses primeiros anos em que jogou no Cruzeiro?
O Muller. Foi campeão mundial pela seleção, em 1994, foi campeão de São Paulo, ganhou a Libertadores, o Mundial pelo São Paulo, jogou em Itália. Foi o jogador com que mais aprendi e o melhor com quem joguei.

O que tinha de especial?
Era um jogador ambidestro. Perna direita ou esquerda, não fazia diferença, era igual, jogava com as duas. O cruzamento dele, tanto com uma como com a outra perna, era praticamente igual. E tinha outra particularidade. O Muller jogava sem bola. Às vezes ele fazia uma movimentação para abrir espaço para outro jogador. Ele não precisava de ficar a driblar; com um toque tirava os jogadores da jogada. Nunca vi fazer tão fácil, era um, dois toques na bola. A bola podia vir quadrada, ele colocava a bola redonda. O domínio dele, a inteligência, antes da bola chegar, ele já sabia o que iria fazer. Era isso que me impressionava, ele posicionava logo o corpo para dar o passe. Tinha uma inteligência de jogo como nunca vi igual.

Geovanni casou aos 19 anos com Roberta Assunção
Geovanni casou aos 19 anos com Roberta Assunção
D.R.

A propósito, quem eram os seus ídolos quando era pequeno?
O Muller era um deles. Gostava muito do estilo de jogo do Rai, gostava do Dener, que jogou na Portuguesa, no Vasco, um jogador muito rápido, o Rivaldo também é um fenómeno, Djalminha. Cresci a ver Renato Gaúcho, Marco António Boiadeiro.

Em qual deles se inspirava mais ou tentava imitar?
O meu futebol era mais do estilo Muller, com a devida proporção, porque o Muller é um fenómeno e eu considero-me um bom jogador. O Muller está muito acima daquilo que fui. Mas o meu futebol seria parecido com o do Muller, no princípio da carreira. A explosão, aquela velocidade, eu espelhava-me muito nele a jogar, mas muito também no Valdo, porque o Valdo era um jogador muito técnico. No final da carreira, eu estava mais parecido com o Valdo. Quando estive com ele no Cruzeiro era já um jogador mais cadenciado, que enfiava muito bem a bola. O próprio Paulo Nunes, que jogou no Benfica, o Edílson também, são jogadores em que me espelhava muito pela velocidade, no um contra um. Fui privilegiado ao vê-los jogar.

Em 2001/02 sai do Cruzeiro para a Espanha. Como surgiu o Barcelona?
Fiz uma boa Libertadores 2001, sete jogos, sete golos, fui o vice-artilheiro da Libertadores, só não fui o melhor marcador porque fiquei uns três jogos de fora, poupado. O interesse do Barcelona surgiu logo a seguir. Era o sonho de qualquer jogador, poder representar um clube do tamanho do Barcelona. Um jogador jovem, podendo ir para um clube onde o Romário fez sucesso, O Ronaldo Fenómeno também, onde o próprio Rivaldo, um fenómeno, jogava...Fiquei ansioso, queria que a negociação se concretizasse, porque é um dos maiores clubes do mundo.

Já tinha empresário?
Já. O meu sogro, Roberto Assunção, na época, era o meu empresário. Casei com 19 anos. Mas quando conheci a minha esposa, o meu sogro não era empresário ainda. Só um ano e meio depois ele começou a trabalhar como agente.

Em 2000, Geovanni (à esquerda) com o colega Cristian, no Cruzeiro
Em 2000, Geovanni (à esquerda) com o colega Cristian, no Cruzeiro
D.R.

Como conheceu a sua mulher?
A minha esposa chama-se Roberta Assunção e conhecemo-nos através dos Atletas de Cristo, porque temos muita fé e numa dessas reuniões de um culto a Deus conhecemo-nos. Começámos a namorar, com 18 anos e quando faltava quatro dias para eu completar 20 anos casámos. Fizemos 25 anos de casados no dia 7 de janeiro. A Bíblia fala que a mulher é sábia, ela edifica a casa, a minha esposa é meu braço direito, está do meu lado em todos os momentos.

Contava que surgiu a hipótese de ir para o Barcelona e não hesitou. O que ela achou da ideia?
Ela disse que estava comigo. Nós já tínhamos a primeira filha, a Geovana, que hoje tem 24 anos, nasceu no final de 2000. O meu sogro também deu-me o maior suporte, a minha sogra, a minha família, os amigos. Eu estava muito feliz no Cruzeiro, as pessoas admiravam-me muito, virei ídolo aqui, tenho um carinho muito grande, mas o Barcelona foi algo extraordinário na minha carreira e mudou a minha vida também financeiramente.

Foi ganhar quantas vezes mais?
Umas 15 vezes mais. A primeira coisa que fiz foi comprar o lote ao lado da casa do meu pai, deitar abaixo a casa do meu pai e construir uma casa nova para ele. Era um sonho meu, por isso foi a primeira coisa que fiz.

Quais foram as primeiras impressões quando chegou a Barcelona?
A primeira impressão é que é um gigante europeu. Onde quer que fossemos em Espanha, estavam 2 mil pessoas no aeroporto à espera. Comecei a entender a dimensão do clube. E eles trataram de tudo para mim, até a compra de apartamento, abertura de conta no banco, estacionamento, camarote para a família. O Barcelona providenciou tudo. Estamos a falar há 24 anos e já tinha essa estrutura, imagina hoje.

Com a filha, Geovana
Com a filha, Geovana
D.R.

Como foi a receção do balneário?
Quando cheguei, havia umas feras, o Luis Enrique, o Frank de Boer, o próprio Rivaldo, que foi um irmão para mim naquele clube e ajudou-me muito, o Thiago Motta, que hoje é treinador da Juventus. A minha adaptação foi boa. Tinha o Xavi, já tinha disputado um campeonato contra ele, no Chile, o Puyol, o Gabri, o Saviola, que era jovem também, o Fábio Rochembak, o Christanval, que era muito amigo, o Andersson, o ambiente era muito bom.

A adaptação ao futebol europeu, neste caso, ao futebol espanhol, foi fácil também?
Costumo dizer que fiz o caminho inverso. Se eu fosse para o Benfica primeiro, para adaptar seria melhor, porque, querendo ou não, o espanhol é um pouco diferente, não é a mesma coisa que o português, tem muitas palavras diferentes, a cultura é outra, então, se eu fosse primeiro para o Benfica, para poder adaptar ao clima também, porque em Belo Horizonte não existe frio, acho que minha adaptação seria perfeita.

O que mais lhe custou a adaptar em Barcelona?
A falta da família e dos amigos, isso pesa muito. Eu ia para algo novo, diferente, e quando é uma novidade a gente estranha um pouco. Chegamos no balneário e temos de fazer amizade de novo. Eu cheguei no Cruzeiro em 1994, passei oito anos no clube, por isso muitos dos meus amigos estavam ali. Tinha de fazer amizade de novo, adaptar à alimentação, ao estilo de jogo também.

Do que sentiu mais falta na alimentação?
Da carne. Nós comemos muita carne no Brasil. Hoje amo o fruto do mar, marisco, vou a Espanha e não quero nem saber de carne, porque a minha adaptação foi muito boa quanto a isso, mas levei um tempo. A cultura também, estranhei a sesta que fazem, em que fecha tudo depois de almoço. Não era tão agitado como o Brasil. No Brasil há muita agitação, muita gente, estamos acostumados à correria, à loucura de trânsito, e Espanha é um país bem mais tranquilo.

Em 2001/02, Geovanni assinou pelo Barcelona
Em 2001/02, Geovanni assinou pelo Barcelona
Getty Images

O que mais o marcou a nível cultural?
O profissionalismo. Não que no Brasil não tenha, mas naquela altura, em Espanha, principalmente no Barcelona, havia um grande profissionalismo. Também tinha reunião dos capitães no Brasil, mas muito menos do que aí; o capitão na Europa tem uma voz ativa muito forte. Os capitães aí estão 10 anos no clube. Olha o exemplo do Luisão, ele tinha uma autonomia muito grande dentro do balneário e foi isso que pude ver na Espanha. Os capitães, Luiz Enrique, Sérgio, Abelardo, com sete ou oito anos de clube, tinham uma liderança incrível.

Quais foram as maiores dificuldades na adaptação ao estilo de jogo?
No Brasil eu jogava como segundo avançado. Uma espécie de número 10. No Barcelona colocaram-me a jogar como extremo e não estava acostumado. Eu não tinha essa mentalidade. Poderia jogar ali tranquilamente, mas não estava acostumado a fazer o corredor direito, jogava mais próximo do golo e por isso levou um tempo a adaptar-me a essa posição. Essa foi a maior dificuldade, passar a jogar como extremo e não como segundo avançado.

O avançado em ação pelo clube catalão
O avançado em ação pelo clube catalão
Sandra Behne

Quem foram os treinadores que mais o marcaram no Barcelona?
O Carles Rexach ajudou-me muito. Tive uma sequência muito boa com ele, principalmente no início, antes de ter a lesão, em dezembro. Joguei no campeonato, fui algumas vezes selecionado também para a Champions. Eu estava muito bem até essa lesão no adutor que me deixou uns dois meses de fora. O Carlos Rexach jogava como extremo também e ajudou-me muito. E o outro treinador, no segundo ano, foi o Van Gaal. Lembro-me que o Van Gaal me disse: “Geovanni, vou adaptar-te. Nós vamos jogar com três defesas e tu vais fazer a ala pelo lado direito”, como um lateral.

Gostou da ideia?
Acho que o meu maior erro no futebol foi esse: ter-lhe dito que não queria jogar naquela posição.

Porque diz que foi um erro?
Sempre tive velocidade, sempre fui um jogador muito rápido, no um contra um era muito bom, o meu chute de fora da área era muito forte e os meus cruzamentos eram muito bons. Então, era uma posição a que eu poderia adaptar-me, jogar como um ala, um lateral e se calhar tinha ficado no Barcelona por mais tempo. Na época, o Rivaldo era o melhor jogador do mundo, ele decidia os jogos, era um jogador acima da média, um craque. Eu tinha que disputar a posição com o Rivaldo e para ser correto o nível dele estava muito acima do meu. Não tem comparação. O Saviola chegou e fez muitos golos também. Na frente, se a bola caísse, fazia golo. Outro que jogava naquela posição era Luis Enrique, capitão, um líder e um guerreiro dentro de campo. Não tinha bola perdida, bom tecnicamente, atacava e defendia como ninguém, com uma mentalidade acima da média. O Kluivert, campeão europeu, era outro. Era com eles que eu tinha de disputar a posição. Se formos olhar bem, eu poderia recuar um pouco, jogar como ala ou lateral e fazer esses jogadores da frente jogar.

Ou seja, teria de abdicar de fazer tantos golos, mas podia fazer mais assistências.
E eu seria um bom jogador nessa função, por causa da minha velocidade e do um contra um. Não precisava de marcar muito, porque jogava com três defesas, ia ter liberdade para atacar e podia fazer essa função tranquilamente. Infelizmente, na imaturidade, não pensamos nestas coisas todas. Agradeço ao Van Gaal. Nunca tive problema com ele. Pelo contrário, ajudou-me muito. Insistiu comigo. Deu-me oportunidade para jogar na frente. Fiz uns bons jogos na frente. Hoje penso que podia fazer essa ala tranquilamente e ter deixado os jogadores lá da frente, Kluivert, Rivaldo, Saviola, jogar aquilo que eles sabem. Foi um dos erros que cometi.

A mulher e os dois filhos de Geovanni, Geovana e Daniel
A mulher e os dois filhos de Geovanni, Geovana e Daniel
D.R.

Foi devido a não querer jogar nessa posição que acabou por ser emprestado ao Benfica?
Foi um dos motivos. Havia também um problema de estrangeiros. Se eu estava no banco, só podia entrar no lugar de um estrangeiro. Quando eu estava a jogar, se tivesse um estrangeiro no banco, ele não podia jogar no lugar de um europeu. Isso também prejudicou. Ou eu estava no lugar de alguém, ou alguém estava no meu lugar. Conversaram comigo, avisaram que não ia ter muito espaço no Barcelona e por isso iam emprestar-me. Havia três clubes interessados: o Galatasaray, o Bordeaux, da França e o Benfica.

Porque escolheu o Benfica?
Lembra quando disse que em 1997 joguei contra o Benfica? Na hora que vi aquelas cores, aquele vermelho, e joguei contra o Benfica, algo mexeu comigo, parece que uma conexão aconteceu naquele dia. Eu não sabia o que ia acontecer, mas seis anos depois surgiu essa oportunidade de ir para o Benfica novamente. Eu não conhecia Portugal, só de passagem, mas conversando com a minha esposa, consideramos que seria um bom local para a família, alguns amigos meus que já tinham jogado em Portugal, falaram bem. E foi isso. E outra coisa que me motivou também foi o Camacho. Foi ele que pediu a minha contratação, falei com ele.

O que lhe disse o Camacho?
Disse que eu ia ser útil e um jogador importante. Quando ouves estas coisas, isto acaba por pesar também na decisão. Acertei por seis meses de empréstimo. Não sabia o que iria acontecer na temporada seguinte.

Em 2002/03, o avançado brasileiro foi emprestado ao Benfica, pelo Barcelona
Em 2002/03, o avançado brasileiro foi emprestado ao Benfica, pelo Barcelona
Mike Egerton - EMPICS

Como foi o primeiro impacto quando chegou a Lisboa e entrou no Benfica?
Na verdade, fiquei meio assustado quando cheguei ao Benfica. Devido ao Euro 2004, o estádio antigo tinha sido demolido para se construir o novo e trocávamos de roupa naquilo que parecia a garagem dos autocarros do antigo estádio [risos]. Mas senti-me muito acolhido, o Argel acolheu-me muito bem. O Cristiano, o próprio Helder, o Ricardo Rocha, o João Manuel Pinto, o Carlitos, o Andersson, ajudaram-me muito na adaptação. O que me chamou a atenção foi a chuva. Choveu durante uns dois meses, todos os dias. Eu não estava habituado [risos].

Já tinha voltado a ser pai?
O meu filho, Daniel, nasceu em Portugal, em 2005. Ele tem muito orgulho em ser português. Eu cheguei na temporada 2002/03 e nesses primeiros seis meses lembro-me de ter dito “vamos ser campeões”. Eu não tinha noção que o Benfica estava há muito tempo sem ganhar. No Brasil, quando chegamos a clubes grandes, temos de ganhar títulos, não existe clube grande que não ganha títulos. Lembro-me que falei: “vou ser campeão aqui” e alguém me disse que eu não sabia o que havia dito, porque há nove anos que o Benfica não ganhava títulos. “Mas eu vim aqui para ganhar títulos. Eu não saí da Espanha para não ganhar títulos, não”. Fomos vice-campeões. Já tinha um tempo que o Benfica também não era vice-campeão.

Quando terminaram os seis meses de empréstimo, o que aconteceu?
Fiquei a saber que o Barcelona não ia contar comigo na temporada seguinte, que seria a minha terceira temporada lá e resolvemos rescindir. O Benfica queria-me em definitivo e foi uma decisão muito acertada, tanto a do Barcelona, como a minha.

Veio para o Benfica ganhar mais ou menos do que ganhava no Barcelona?
Vim ganhar um pouco menos. Só que o Benfica deu-me quatro anos de contrato, na verdade, compensou. Há coisas que fazemos por dinheiro, mas também há coisas que não fazemos por dinheiro. Naquele momento, eu precisava sentir aquilo que sentia no Benfica.


 

Spoiler

“Antes do Bessa o Fyssas atirou-me ao chão. Chutei a bola, ameacei-o, mas ele deu-me um abraço. E o Trapattoni disse: “Ganhámos o título”

O antigo avançado brasileiro Geovanni, afastado dos relvados desde 2013, vive em Belo Horizonte, no Brasil, onde é pastor de uma igreja, tem uma empresa de construção civil e é sócio de outra, na área do agenciamento de jogadores. Nesta II parte da entrevista fala dos anos passados no Benfica, das amizades que lá fez, do regresso ao Cruzeiro e dos anos em Inglaterra, onde jogou no Manchester City e no Hull antes da aventura pela MLS, nos EUA. Ainda jogou em três clubes brasileiros antes de arrumar as botas, que agora só saem do armário para ocasionalmente jogar uma peladinha com os amigos

Lembra-se do jogo de estreia pelo Benfica, em 2003?
Não lembro. Mas lembro que cheguei ao Benfica no dia do meu aniversário, 11 de janeiro de 2003. Um amigo que jogou comigo no Cruzeiro e estava no Sporting, o Marcos Paulo, recebeu-me com a família e levou-me para casa dele.

Notou muita diferença dos adeptos espanhóis para os portugueses?
O Barcelona é um clube diferente, porque os seus adeptos não são só da Catalunha, tem muitos adeptos de fora, de outros países, que apoiam o Barcelona. Isso é muito bom. Nos primeiros seis meses no Benfica reparei que os adeptos não iam apoiar muito o clube, parecia que, como o Benfica não conseguia chegar aos títulos, perdeu um pouco esse entusiasmo dos adeptos, que foi recuperado na temporada 2003/04. Os adeptos começaram a ir ao estádio. O Euro 2004 ajudou muito e o facto do estádio ser novo também. Lembro que nessa pré-temporada quando chegámos à Suíça, pensei, nós estamos em Portugal. Havia tantos imigrantes portugueses. No Luxemburgo, o mesmo. Em Moçambique, que loucura. Fomos à França jogar contra o Paris Saint-Germain e o estádio estava lotado. Aquilo chamou-me a atenção. Esse calor.

A sua adaptação ao Benfica parece ter sido ótima. Acha que se deveu quê?
Aprendi muito no Barcelona. Tinha que dar só um, dois toques na bola. Foi uma escola para mim. Sou muito grato ao Barcelona por isso, porque pude ajudar o Benfica.

Geovanni chegou ao Benfica em janeiro de 2003
Geovanni chegou ao Benfica em janeiro de 2003
Clive Brunskill

Apercebeu-se naturalmente das rivalidades clubísticas. No balneário a maior rivalidade fazia-se sentir mais com o Sporting ou com o FC Porto?
Na minha época era mais com o FC Porto. O FC Porto estava naquela fase muito boa, o Sporting foi campeão em 2001/02, mas o FC Porto vinha daquela sequência, em que foi campeão europeu no ano que ganhámos a Taça de Portugal. O FC Porto era uma máquina também. Tinha uma equipa fantástica com Deco, Derlei, Jorge Costa… Lembro-me que quando fui jogar o primeiro clássico nas Antas, disseram-me que já há 18 anos que o Benfica não ganhava lá e há 14 que não empatava. Empatámos num ano e ganhámos no outro, nas Antas. A rivalidade era muito grande. Os jogos eram excelentes. E Deus é tão bom que nos proporcionou sermos campeões no Porto. Empatámos no campo do Bessa, com o Boavista, e fomos campeões no Porto, em 2004/05.

Sentiu ser um título muito especial para o Benfica?
Sem dúvida. Acho que a mudança de chave do Benfica foi esse título.

E a mudança do Camacho para Trapattoni? Muito diferentes um do outro?
O Camacho é espanhol, gosta de jogar, a nossa equipa tinha uma identidade muito forte, dele. Mas ele teve um privilégio muito grande também, que foi apanhar jogadores como Simão Sabrosa, um grande jogador, o Nuno Gomes... Jogar com o Nuno Gomes é fácil demais, sabia fazer golo como ninguém, um atacante muito inteligente. E Nuno Assis como número 10 também, vinha de trás com a bola e fazia a equipa jogar. O nosso ataque era um espetáculo. O Camacho construiu essa forma de jogar, esse jogo bem jogado e os jogadores amavam o Camacho. Era um pai. Ainda hoje mando mensagem para ele. Passei um momento difícil e ele ajudou-me muito.

Que momento difícil foi esse?
Minha mãe faleceu em 2004. Ele foi uma pessoa que me ajudou muito quando a minha mãe faleceu, deu-me suporte. Ficámos sem chão e o Camacho foi um pai para mim nesse tempo. Porque o luto demora um tempo e o jogador de futebol tem todas as regalias, mas ele não tem tempo nem para ficar triste, não tem tempo para ficar desanimado, não tem tempo para chorar a perda de um ente querido, porque amanhã tem de jogar. E não só jogar, mas tem de jogar bem. Esse é o problema, porque o jogador de futebol é um ser humano como qualquer outro, tem os mesmos sentimentos, as mesmas frustrações, as mesmas alegrias... O Camacho foi um dos que, com o Pepe Carcelén, o adjunto, ajudaram-me muito nessa fase difícil. Os adeptos também apoiaram-me sempre. Isso marcou-me. Se há um lugar em que pudesse morar fora do Brasil, seria Lisboa, Portugal.

E o Trapattoni?
Um estilo de jogo muito interessante. Ele gostava de como jogávamos à bola, só que os 15 minutos finais, dependendo de como estivesse o resultado e o jogo, nós mudávamos a estratégia de jogo. Aí entrava o Karadas, o norueguês, bom jogador no chão, mas no alto, de cabeça, nunca vi igual, só o Jardel. Não como o Jardel, que era um fenómeno, mas o Karadas no alto era muito bom. Outro que entrava também era o Mantorras. Ele entrava e em 15/20 minutos mudava o jogo. Entravam dois avançados, mudava a estratégia, era começar a centrar a bola na área, um jogo mais direto, nós ganhámos o campeonato assim. Na maioria dos jogos, nos minutos finais entrava Mantorras, Karadas e colocávamos em prática um estilo de jogo diferente.

Na época anterior, em janeiro de 2004, Miki Fehér faleceu, em campo. O Geovanni não estava em Guimarães nesse jogo. Como e quando soube da notícia?
Eu estava lesionado e estava em casa a ver o jogo. Quando ele caiu, foi um susto, só que não percebi muito bem o que estava a acontecer. Meia hora depois liguei para os jogadores. Foi uma tragédia e uma grande surpresa para todos porque ele era forte e os jogadores de futebol fazem sempre uma bateria de exames no início da época. Era um companheiro que acabou por virar família. Costumo dizer que nós, jogadores, convivemos mais com os amigos do clube do que propriamente com a família, porque há as concentrações, os jogos, os estágios, os treinos, há conversas diariamente. No café estávamos juntos, no almoço também... .

Essa tragédia acabou por unir ainda mais o grupo?
Com certeza. Aquele momento foi difícil, acho que comoveu não só o Benfica, como os outros clubes também. Até no Brasil as pessoas perguntavam-me como havia sido.

No balneário do Benfica quem eram os jogadores mais divertidos, que estava sempre na palhaçada e, pelo contrário, quais os mais sisudos?
O Mantorras chegava sempre com aquela alegria dele, a fazer a festa. Quando chegava calado sabíamos que alguma coisa tinha acontecido. O Miguel era outro bem-disposto, assim como o Ricardo Rocha... Vejo o Benfica como uma família. A alegria era total, não era só um jogador, o ambiente era bom e feliz. Sou suspeito ao falar dessa equipa, mas era gente muito divertida.

Geovanni regressou ao Cruzeiro, do Brasil em 2006
Geovanni regressou ao Cruzeiro, do Brasil em 2006
D.R.

Recorda alguma história engraçada?
Tenho uma com o Fyssas, o grego, em Óbidos. Fomos fazer o último treino antes do jogo no Bessa, em que podíamos ser campeões. Querendo ou não ficámos mais ansiosos e nervosos porque era a oportunidade de ganhar um título depois de tantos anos, isso mexe connosco. No final do treino, a disputar uma bola com o Fyssas, ele deu-me uma entrada, roubou a bola e atirou-me ao chão. Quando me levantei do chão, eu não vi quem era, podia até ser o Luisão, chutei ele com bola e tudo. Como pensei que ele ia para cima de mim, ameacei e tudo, mas ele veio e deu-me um abraço. Isso foi motivo de riso, o treino acabou, saímos abraçados, o pessoal pensou que ia haver uma briga naquele momento, mas ele abraçou-me e o Trapattoni diz: “Ganhámos o título.” Todo o mundo começou a rir da situação. E no outro dia fomos campeões. Lisboa parou, o Porto parou. Foi um dia muito especial.

Que recordações maiores tem do Benfica e dos anos que passou em Portugal?
Algumas recordações de pessoas. Vou citar três: a tia Anabela, que nos preparava o lanche; o senhor Zé, técnico de material, o Luís também e o filho dele, o Paulo. Às vezes contamos tantas histórias e elogiamos jogadores, mas as pessoas que trabalham nos bastidores são marcantes, como o próprio Alexandre Moura, o fisioterapeuta. O senhor Zé foi um amigo. Todos os dias que eu chegava mais cedo e nós conversávamos. No princípio, eu abraçava-o e brincava com ele e ele empurrava-me, mas depois fizemos uma amizade tão grande que a primeira coisa que eu fazia era ir ter com ele, já sabia que ele estava a tomar o café da manhã, e ficava a ouvi-lo a contar histórias do Benfica. Às vezes terminava o treino e eu mesmo ajudava-o: “Senhor Zé, deixa eu te ajudar.” Essa amizade e carinho levamos para a vida.

Petrov, Eriksson e Geovanni quando este assinou pelo Manchester City, em 2007/08
Petrov, Eriksson e Geovanni quando este assinou pelo Manchester City, em 2007/08
Martin Rickett - PA Images

Qual a maior amizade que fez no balneário?
Vamos colocar os portugueses: Nuno Gomes, Ricardo Rocha, Carlitos, João Coimbra, Moreira. Sempre fui uma pessoa de bom relacionamento com as pessoas. Fui padrinho de casamento do Hélio Pinto. O Armando Sá, ainda falamos por telefone.

Conseguiu fazer amizade também com jogadores de outros clubes?
Com o Marcos Paulo fiz amizade, e outra pessoa que me ajudou muito é o Pedro Mendes. Ele jogou no FC Porto, mas fui para o Portsmouth da Inglaterra e o Pedro Mendes foi quem me ajudou lá. Tenho grande gratidão para com ele. Fomos rivais, mas quando fui para outro país ele ajudou-me. É uma pessoa de grande caráter. Estive com ele a treinar no Portsmouth, mas acabei por ir para o Manchester City.

Do que sente mais saudades de Portugal?
De tudo. Lisboa é uma cidade maravilhosa. Da culinária, o bacalhau, sempre que vou aí vou comer um bacalhau ao Fuso, na Arruda dos Vinhos; pastel de nata, pastel de Belém e o cafezinho da tarde, quando parava a meio da tarde para tomar um café. Das pessoas também.

Qual a característica que mais gostou nos portugueses?
Os portugueses são iguais ao mineiro, onde vivo. O mineiro é um pouco desconfiado a princípio, estuda a pessoa, procura conhecer e depois de conhecer abre as portas da casa e tem convivência e amizade verdadeira. Também foi por isso que me adaptei fácil em Portugal. Os portugueses têm essa forma de querer ajudar, de querer estar junto. Quando anunciei que ia embora, alguns portugueses com quem fiz amizade até choraram.

O avançado brasileiro jogou apenas uma época no Manchester City
O avançado brasileiro jogou apenas uma época no Manchester City
Matthew Ashton

Antes de falarmos da saída, em 2005/06, ainda falta falar de Ronald Koeman, que veio treinar o Benfica precisamente nessa época. O que mudou com ele?
O Koeman foi muito bom para mim. O Nuno Gomes não jogou alguns jogos e ele meteu-me como primeiro atacante, que já não era a minha função de nove; mas eu queria estar mais próximo do golo e ele proporcionou-me isso. Colocou-me de novo nessa posição de atacante, às vezes como segundo atacante. Foram os melhores jogos meus no Benfica. Tanto que contra o Manchester United fiz o golo nessa função, ganhámos 2-1, na Luz. Fizemos uma Liga dos Campeões muito boa, eliminámos o Liverpool, parámos no Barcelona, ele conversou comigo e falou do meu potencial, mas eu disse-lhe que era a minha última temporada no Benfica.

Porque não queria ficar mais no Benfica?
Eu tinha mais um ano de contrato e estava na iminência de renovar com o Benfica, porém o Cruzeiro propôs-me um contrato de três anos, sabendo que faltava um ano para terminar o meu contrato com o Benfica. Se o Benfica renovar, pensei, não vou mais embora daqui. Porque se o Benfica renovasse comigo mais uns três anos, eu acabava provavelmente a carreira no Benfica e talvez pudesse ser um diretor. Mas eu estava com saudade do Brasil... Como eu disse há pouco, eu acabara de perder a minha mãe, em 2004, e perdi o meu pai no início de 2006, ainda no Benfica. Isso mexeu muito comigo. Mas se não fosse isso eu ia ficar mais um ano no Benfica, tenho certeza. O Luís Filipe Vieira disse-me que ia renovar comigo.

Em 2008/09 Geovanni assinou pelo Hull City
Em 2008/09 Geovanni assinou pelo Hull City
Joe Giddens - EMPICS

Sentiu necessidade de ir para perto da família com a morte dos seus pais?
Fiquei muito triste, abalado e achei que era o momento de eu respirar e eu ir para o Brasil e ficar mais próximo dos meus irmãos. O Benfica fez de tudo ara eu ficar, o Luís Filipe, todas as pessoas diziam para eu não ir embora, mas eu pedi por favor e deixei as portas abertas também para um eventual regresso. Foi isso que aconteceu, eu mesmo quis ir embora.

Está arrependido dessa decisão?
Na verdade, foi muito bom para mim esse momento que passei no Brasil, exatamente para as coisas aos poucos voltarem ao normal. Mas se for olhar bem a questão profissional, de tudo aquilo que eu vivi aí... Eu já estava adaptado, a intenção da minha esposa era morar aí, se o Benfica renova comigo eu não voltava mais para o Brasil. Mas não conhecemos os planos de Deus.

A verdade é que não cumpriu os três anos de contrato com o Cruzeiro. Porquê?
Não sei se foi a direção ou o treinador, Dorival Júnior, mas fui afastado na segunda época, comecei a treinar separado para melhorar a minha condição física porque tive uma lesão, estive três meses parado e no Natal até fui para Portugal fazer recuperação com o Alexandre Moura. Voltei em janeiro, só joguei em meados de fevereiro. Queria jogar, mas perdemos o campeonato mineiro, o treinador disse que eu ia treinar à parte para melhorar a condição física e ir para o Brasileirão. Se eu treinasse à parte e jogasse ou ficasse no banco, tudo bem. Mas fiquei bem afastado e eu não fazia estágios nem nada e isso desgastou-me. E decidi que queria ir embora. Conversei com o diretor, eles não queriam que eu saísse, era o capitão, mas eu insisti.

Wayne Rooney do Manchester United e o Geovanni, do Hull City, a disputarem um bola na Premier League
Wayne Rooney do Manchester United e o Geovanni, do Hull City, a disputarem um bola na Premier League
Martin Rickett - PA Images

Quando pediu para sair já tinha o contacto do Portsmouth?
Não. Mas eu estava bem fisicamente porque treinei separado durante um mês. Um empresário ligou para o meu sogro, falando inglês, e disse que tinha uma equipa para mim, na Inglaterra. Então, o Portsmouth queria que eu fosse lá dois dias apenas. Mandaram as passagens, fui para lá. Eu estava tão bem fisicamente, os jogadores estavam ainda a começar a pré-temporada, que me destaquei demais nos treinos. Eu estava voando. Eles gostaram muito de mim e o treinador, o [Harry] Redknapp, disse que me queria ver jogar lá. Fizemos um jogo, correu-me muito bem, só que depois havia outro jogo, em que tínhamos de viajar. E eu disse ao Pedro Mendes, eu vou jogar este jogo, mas depois vou embora, porque já estou aqui há 10 dias. Joguei esse jogo, fiz um golo e uma assistência. O Pedro Mendes disse que eles queriam conversar e assinar, estavam cinco mil pessoas no estádio a gritar o meu nome e só me tinham visto uma vez. Mas no dia em que ia acertar a contratação, não chegámos a acordo em algumas partes, e, no caminho, um amigo que estava comigo ligou para o português Amadeu Paixão. Ele ligou para o Manchester City. Mas eu disse que não ia fazer mais testes, nem treinar em mais lugar nenhum, se for só contratado porque tinha uma proposta de três anos do Mónaco na minha mão.

Porque não foi para o Mónaco?
Porque o meu coração dizia para ficar na Inglaterra. E ele disse pode vir para Manchester que está contratado. E assinei com o City, fui o primeiro brasileiro a assinar com o City. O Portsmouth, o Redknapp, ficou um pouco chateado, mas foi desgastante também ficar 10 ou 12 dias a treinar sem a situação se resolver. Por isso, quando apareceu o City, eu fui. Mas agradeço também ao Redknapp porque ele queria que eu ficasse.

Como foi a receção dos ingleses em Manchester?
Foi tremenda a receção. Era um sonho meu jogar na Inglaterra. Tinha algo no coração de um dia poder jogar na Premier League. Fui muito bem recebido pelo clube, o treinador, o [Sven-Göran] Eriksson inclusive falava um pouco de português por ter treinado o Benfica.

Com que opinião ficou dele?
Um treinador também acima da média. Fiquei bem servido de treinadores na minha carreira, não me posso queixar.

Geovanni com a mulher e os dois filhos
Geovanni com a mulher e os dois filhos
D.R.

Gostou de viver na Inglaterra?
É um país que aprendi a amar, uma cultura totalmente diferente. O frio é pesado, temos de nos adaptar àquele clima, mas fui muito feliz. Tenho boas recordações de lá.

Adaptou-se bem ao estilo do futebol inglês?
Quando cheguei na Inglaterra um rapaz que trabalha com o empresário foi-me buscar para o Portsmouth. Eu entendia muito pouco de inglês, mas algumas coisas entendia. Ele disse-me: “Você não vai jogar aqui”; “Porquê?”; “Você é muito pequeno. Vai ver o tamanho dos jogadores quando chegar lá.” Realmente eles eram grandes. Os ingleses são tecnicamente bons, mas acima de tudo são altos, fortes e muito aguerridos. Então se eu prendesse a bola demais na Inglaterra, a chance de eu falhar era grande. Como o que aprendi na Espanha e em Portugal foi dar um dois toques na bola e passar. Fazia um contra um quando tinha de fazer, mas sempre toca e passa, quando cheguei na Inglaterra comecei a fazer isso e o pessoal ficou impressionado. Eu não esperava que eles chegassem a mim, dava um toque e já saia. Levei isso para Inglaterra então a adaptação foi perfeita. Eu também já estava mais maduro, tinha uma mente diferente.

A família foi consigo para Inglaterra?
Em todos os lugares que fui a família foi sempre.

O balneário no Manchester City era muito diferente dos outros por onde tinha passado?
Por incrível que pareça a receção foi muito, muito boa. Apesar da barreira do idioma, eles faziam de tudo para nos abraçar. Uma pessoa espetacular foi o alemão Dietmar Hamann, que foi campeão europeu pelo Liverpool. Ele é um dos melhores trincos que já vi jogar. Ele ajudou muito na adaptação e no inglês também. O Dunne, defesa central, que era capitão, o Kasper Schmeichel, filho do Schmeichel que jogou no Sporting, também ajudaram muito. Depois também chegou o Petrov, o Bojinov, o Rolando Bianchi, o ambiente era muito bom. Sou um privilegiado, nunca encontrei um ambiente terrível no balneário.

O avançado jogou nos San José Earthquakes, dos EUA. Na foto, o jogador com o filho
O avançado jogou nos San José Earthquakes, dos EUA. Na foto, o jogador com o filho
D.R.

Tem alguma história para contar do Manchester City?
A história que me deixa feliz foi quando eu saí do Manchester City. O segundo treinador do Hull City, o Brian Horton, ele ligou para o pessoal do City para perguntar como eu era. O pessoal que ele conhecia disse que não sabia porque não tinha jogado mais no City, porque eu fiz cinco jogos, três golos e depois já não joguei muito, mas disseram-lhe que ele podia levar-me de olhos fechados porque eu ia ser o destaque do Hull. Só soube depois e marcou-me. É um legado. Às vezes pensamos que por não jogarmos tanto, não tem ninguém a ver, mas no treino há pessoas a ver também. Outra coisa interessante: o Eriksson chamou-me no final da época, falou comigo e depois mandou-me uma carta para casa.

O que dizia a carta e porque mandou ele essa carta?
Quando a carta chegou, assustei-me, porque vinha com a marca do City. Comecei a ler a carta e o Eriksson escreveu: “Geovanni, quero agradecer pelo seu serviço prestado ao clube. Uma pessoa incrível que conheci foi você e eu te peço desculpas por você ter tido poucas oportunidades aqui comigo. A minha intenção era você ficar connosco, pelo seu futebol. Eu pude perceber que você tem potencial para jogar em qualquer clube. Se eu pudesse voltar atrás, eu faria diferente e você ia ter as oportunidades.”

Mas quando ele escreveu essa carta já tinha tudo acordado com o Hull City?
Vamos ver. Como o meu princípio de época foi muito bom, apareceu o Paris Saint-Germain e o Deportivo La Coruña. Eu conversei com o Eriksson e disse-lhe: “Por favor libere-me. Eu amo o City mas se você não tem plano para mim aqui…” e ele dizia: “Não Geovanni, pode ficar tranquilo, vamos ver com a direção…” Foi exatamente o timing no meio do ano. Tive de esperar até o final da época para ter uma resposta do clube.

E eles não quiseram renovar?
Como no final não joguei tanto, eles não renovaram e no final da época o Eriksson escreveu essa carta. Eles não renovaram, venho para o Brasil de férias, a essa que o Corunha e o PSG podiam aparecer novamente e o Amadeu Paixão telefonou-me a dizer que havia um clube que tinha acabado de subir à Premier League, o Hull City, e perguntou se eu estava interessado. Eu respondi: “Deixa eu falar com a minha esposa, mas para mim está fechado.” Eu pedi que fosse um contrato maior porque tínhamos gostado da Inglaterra. Assinei duas temporadas com o Hull. E fui para lá em 2008\09.

Em 2011, o avançado brasileiro jogou no Vitória, do Brasil
Em 2011, o avançado brasileiro jogou no Vitória, do Brasil
D.R.

Um clube muito diferente do Manchester City?
Comecei a buscar informação do Hull, da cidade, com um amigo que já vivia na Inglaterra há mais tempo. Porque a minha familia estava adaptada em Manchester, os meus filhos já estavam adaptados ao colégio, e queria perceber se dava para ir e vir de Manchester até Kingston Upon Hull. Quando fui ver eram duas horas e meia de distância. Fui para Hull, aluguei um apartamento, a minha esposa ainda estava no Brasil, porque eles só voltavam às aulas em setembro. Quando eles voltaram, eu fiquei num dilema, ou continuava a morar em Hull, ou ia morar em Manchester com a família e todos os dias ia para Hull. Conversei com a minha esposa e resolvi sacrificar-me um pouco. Aluguei um motorista e todos os dias eu fazia 500 quilómetros, ficava cinco horas na estrada para priorizar a minha família. E até hoje sinto o carinho dos adeptos do Hull, eu fiz o primeiro golo do Hull na Premier League. Eles têm um carinho muito grande por mim. Foi um clube que, sinceramente, queria terminar a minha carreira lá.

Explique melhor como foram esses dois anos.
O primeiro ano foi muito bom, o Arsenal sondou para levar-me, uma equipa da Alemanha chegou a oferecer dez milhões de libras, eles não venderam, fiquei a saber depois. A primeira época foi muita boa. Mas na segunda época nós caímos. Eles disseram ao meu empresário que não tinham condições para me pagar. O salário que eles me ofereciam era muito, muito baixo. Para o Hull era melhor eu sair, mas para mim não era porque eu queria ficar na Inglaterra. Eu saía de casa muitas vezes às cinco da manhã, sobretudo se caía neve, outras vezes às seis, porque o treino era as 10 da manhã e quando chegava no clube acabava por falar muito com o técnico de equipamentos, com quem fiz grande amizade. Acabou por ser um carinho de pai e filho. Ele às vezes ia ao meu carro dizer para ir para o treino, porque eu adormecia. Esse senhor ia buscar-me, eu tomava café com ele e falávamos. Os adeptos eram incríveis também. Havia dias que demorava uma hora e meia para entrar no estádio, para dar autógrafos e depois do jogo a mesma coisa. Quando eu entrava em campo, os adeptos gritavam o meu nome de uma forma, como eu nunca senti antes e aplaudia de pé. São coisas que marcam.

Cléber Monteiro e Geovanni
Cléber Monteiro e Geovanni
D.R.

Como acabou por ir parar os EUA?
Eu não queria sair, mas havia essa questão do salário e apareceu a oportunidade de ir para um clube alemão, estava tudo apalavrado, eles mandaram a proposta, não foi aquilo que eu esperava; ficou aquele dilema e nesse meio-termo apareceu uma proposta que equivalia à mesma que a Alemanha fazia, só que os meus filhos tinham o sonho de ir para os Estados Unidos. E aproveitei essa oportunidade.

Como foi jogar no San José Earthquakes da MLS?
Muito bom. Outra cultura. Apanhei 45 graus de temperatura. Após uma semana de treinos eu sequei de tanto calor. Acho que nunca estive tão bem na forma física como nessa preparação para o campeonato. Eles já estavam a jogar, eu tive uma preparação pesada de duas semanas e depois integrei a equipa.

É um futebol muito diferente do europeu.
Sim. Estamos a falar de há 15 anos e já encontrei muitos jogadores americanos tecnicamente acima da média. Já tinham treinadores que queriam que trabalhassem bem a bola, já começava a entrar num novo nível e hoje podemos ver que a liga está muito interessante. Estão a levar pessoas muito capacitadas e acho que o patamar mudou.

Como era o dia a dia, muito diferente da Europa?
Por exemplo, os jogadores mais jovens que estudavam só iam jogar connosco. Eles não podiam treinar connosco porque estavam nas universidades. Não sei se hoje ainda é assim, mas eles treinavam na universidade e só vinham aos jogos. E havia muitos jogadores formados, engenheiros, pessoal de marketing e economia. Foi uma das coisas que me chamou a atenção. No balneário tínhamos três brasileiros e havia muitos descendentes de mexicanos, o que me ajudou na adaptação.

A família também se adaptou bem?
Bem demais. Os meninos não queriam vir embora. San José é uma cidade bem tranquila, pequena, tem tudo, o Daniel inclusive estuda agora nos EUA, na Universidade de Boston, faz Business e Ciências Sustentáveis, está a formar-se em duas frentes.

Geovanni com a mulher
Geovanni com a mulher
D.R.

Histórias para contar dessa experiência nos EUA?
Uma das coisas que me chamou a atenção, além o calor que nunca tinha sentido assim, nem no Brasil, foi a dimensão do país. Eu morava na Califórnia, tinha de atravessar o país praticamente todo para jogar. Às vezes eram sete ou oito horas de voo. Era muito desgastante. Sinceramente, no final da temporada eu já estava exausto, não pelo futebol, mas pelas viagens que fazíamos. Como só tinha assinado uma época, depois resolvi voltar para o Brasil, com a minha família. Voltei para Belo Horizonte, eu já estava com 30 anos, e apareceu o Grêmio de Porto Alegre, mas surgiu também o Vitória, da Bahia, outro clube que foi muito especial para mim também.

Porquê?
Todos os anos de Espanha, Portugal, Inglaterra, nas férias íamos para Salvador, antes de vir para Belo Horizonte. É um lugar lindo, muito especial, as praias, a comida, a alegria das pessoas. E apareceu essa oportunidade, fui para Salvador e fui muito feliz lá. Foram dois anos de contrato. Eu já estava quase no final da carreira e conheci muitos jogadores que começavam a carreira e foi muito interessante. Lembro que um dia eu não fui convocado, não sei porquê, estava na praia a descansar e os adeptos amigos ligaram a perguntar porque eu não estava no banco, porque a torcida estava a gritar o meu nome. Foi muito especial para mim.

A seguir ainda foi para o América Mineiro, 14 aos depois de lá ter estado.
Foi um momento muito especial também, por estar em casa, próximo da família. Comecei a estruturar, a fazer umas reformas no apartamento para me estabelecer aqui. Mas apareceu o Bragantino. Foi o Vagner Benazzi, um grande treinador, que me deu essa oportunidade. Só foi uma confirmação de Deus para mim, para encerrar a carreira.

Pressentia que seria o último contrato?
O meu coração já estava inclinado para isso. O único lugar onde a família não foi comigo foi para Bragança Paulista, porque eram três meses de contrato, mas a minha esposa de 10 em 10 dias ia lá ou eu vinha cá.

Geovanni com um amigo com quem de vez em quando ainda joga futebol, em Belo Horizonte
Geovanni com um amigo com quem de vez em quando ainda joga futebol, em Belo Horizonte
D.R.

Já sabia o que queria fazer depois de terminar a carreira?
Em Bragantino morei no cento de estágios e fiz grande amizade com os jovens que estavam a começar. Ficávamos o dia inteiro conversando, treinando junto e essa amizade foi muito intensa apesar de ser pouco tempo. Eu almoçava e jantava com eles, jogava snooker com eles, saíamos juntos, acabou por ser uma amizade do tipo eu como paizão, já com 33 anos e os meninos de 22/23 anos. Mas Deus falou comigo: “Geovanni, é o último contrato e agora eu tenho um chamado especial na sua vida, como um pastor.” Eu já tinha os meus negócios aqui também no Brasil.

Que negócios são esses?
Hoje sou pastor voluntário da Igreja Renovo Pampulha e tenho empresa de construção civil.

Nunca lhe passou pela cabeça continuar ligado ao futebol?
Também tenho uma empresa de agenciamento de jogadores com o meu sogro e com o Cléber Monteiro, que jogou no Nacional da Madeira. Para exercer o chamado de Deus na minha vida, o ministério, não tem como eu ficar preso no futebol, por isso que Deus não me levou para ser um treinador, ou mesmo um diretor.

Foi chamado à seleção A por Luiz Filipe Scolari. Mas não chegou a ir ao Mundial 2002.
Infelizmente não.

Porque ficou de fora das escolhas de Felipão? Havia muita concorrência ou por algum outro motivo?
A concorrência era muito grande. Rivaldo, Ronaldo ‘Fenómeno’, Ronaldinho Gaúcho, os Juninhos, Paulista e Pernambucano. Agora vou falar nomes que não foram e que poderiam ter ido, do meio para frente: Jardel, bota de ouro dois anos antes, Alex, Euller, o próprio Romário. Tinha muita gente boa que não foi.

O ex-avançado brasileiro hoje é Pastor da Igreja Renovo Pampulha, no Brasil
O ex-avançado brasileiro hoje é Pastor da Igreja Renovo Pampulha, no Brasil
D.R.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira?
No Barcelona.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Foi dar uma casa para o meu pai.

Tem algum hobby?
Gosto de fazer um churrasco em casa com os amigos.

Superstições, tem ou teve?
Não.

Tatuagens?
Também não.

Acompanha e/ou pratica outra modalidade?
Gosto muito de praticar beach tennis.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Talvez de não ter disputado uma Copa do Mundo.

E o maior arrependimento?
Não ter ficado no Benfica mais tempo.

Geovanni com a mulher
Geovanni com a mulher
D.R.

O momento mais feliz na carreira?
Um foi o golo da Copa do Brasil, o outro foi o primeiro golo do Hull City na Premier League.

Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
São Paulo.

Há alguma regra do futebol que se pudesse, altera ou bania?
As concentrações antes dos jogos. Por mim íamos diretos para o dia do jogo, para jogar.

Qual a pessoa que mais influenciou a sua carreira?
Meu pai.

Tem algum talento escondido?
Acho que sou um bom conselheiro.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
O Gamarra, era difícil passar por ele.

Se não tivesse sido jogador, o que teria sido?
Engenheiro civil.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Ah, são muitos. Se for citar, vai deixar alguém chateado. Mas o que quero mesmo é mandar um grande abraço para todo o Portugal, para Lisboa e os adeptos do Benfica. Eu amo essa terra. Portugal é minha segunda casa.

 

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Mas senti-me muito acolhido, o Argel acolheu-me muito bem. O Cristiano, o próprio Helder, o Ricardo Rocha, o João Manuel Pinto, o Carlitos, o Andersson, ajudaram-me muito na adaptação.

q plantel

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Carlos Vaz Pinto

Spoiler

“O Recreativo do Libolo tinha um feiticeiro. Um dia disse-me: ‘Vamos ter de matar um borrego, senão vamos perder os jogos todos’”

Carlos Vaz Pinto, 50 anos, sonhou um dia ser jogador de futebol profissional, mas os salários em atraso levaram-no a ir para a faculdade tirar um curso e a abraçar mais tarde a carreira de treinador. Tem andado sobretudo por África, mas também foi diretor-desportivo do FC Famalicão durante uns meses. Nesta parte I do Casa às Costas conta como foi parar a Angola, como lidou com os feitiços de uma camisa preta, que ainda usa, e como aprendeu a dançar kizomba com uma das mulheres de um presidente, entre muitas outras peripécias

Nasceu em Penalva do Castelo. O que faziam os seus pais profissionalmente?
Quando nasci, a minha mãe era doméstica e o meu pai trabalhava num escritório de uma empresa de camionagem.

Tem irmãos?
Filho único e muito tranquilo, as únicas dores de cabeça que dei tinham a ver com o futebol, porque queria estar sempre na rua a jogar futebol.

O que dizia querer ser?
Jogador de futebol, porque na família, além do meu pai e dos irmãos dele, que jogaram a nível amador, tinha um tio, António Vaz, irmão da minha mãe, que jogou no Sporting e no FC Porto. Recordo-me de viver muito de perto essas aventuras do meu tio no mundo do futebol. Ele era guarda-redes e foi campeão pelo Sporting, em 1982. Por isso as memórias que tenho de infância estão muito ligadas ao futebol. O meu pai também era guarda-redes, os outros tios já não. Eu também não era guarda-redes, até porque não tinha altura.

Em casa torciam por que clube?
A família do meu pai sempre foi do Sporting, a da minha mãe não, é benfiquista, mas ela tornou-se adepta do Sporting depois de casar com o meu pai.

Da escola, gostava?
Gostava. Era um aluno de serviços mínimos, até entrar na faculdade, altura em que já fazia aquilo que mais gostava porque estava a estudar Educação Física. Mais tarde fiz mestrado em Treino Desportivo.

Carlos Vaz Pinto em bebé
Carlos Vaz Pinto em bebé
D.R.

Quando começou a jogar futebol num clube?
Por volta dos meus 10 anos. Havia uns torneios da Direção-Geral de Desporto, em que pequenas associações locais participavam. Do ponto de vista formal, foi a primeira experiência que tive foi através de uma associação do concelho de Penalva do Castelo. Em termos de clube, o meu primeiro clube foi o Penalva do Castelo, no escalão de iniciados. Foi ali que comecei com 12 anos. Estive lá um ano, depois fui para Mangualde, que tinha mais tradição futebolística. Nesse ano fui vice-campeão de iniciados, da distrital, e campeão de juvenis, jogava também já no escalão acima.

Em que posição jogava?
Era médio ofensivo. Mais tarde tornei-me também um médio ala, mas fui sempre um jogador de ataque, de assistência, de marcar golos.

Quem eram os seus ídolos?
Recordo-me do Ruud Gullit, jogador da seleção holandesa. Durante muito tempo era aquele que mais admirava. Mas gostei sempre muito, muito do Maradona, que se calhar foi o melhor de todos os tempos.

O que ambicionava alcançar na adolescência?
O que aconteceu nessa altura é que estive esse ano em Mangualde e acabei por vir para Viseu. O Académico de Viseu pagou, digamos assim, a minha transferência. Estive um ano no Académico e cheguei à seleção nacional de sub-16, porque tinha sido um dos melhores marcadores do Torneio Lopes da Silva. Nessa altura, acabei por começar a sonhar em chegar a um clube grande, porque estava entre os melhores da minha idade naquela altura e, portanto, sonhava grande.

Na escola primária
Na escola primária
D.R.

Quando conheceu treinou com os outros rapazes da seleção, sentia estar no mesmo nível, ou os jogadores dos três grandes eram melhores?
Naquela altura estava no mesmo nível. Fomos chamados talvez uns 30 jogadores. Alguns deles que acabaram por fazer grande carreira, o Nuno Gomes, o Sérgio Conceição, o Nuno Espírito Santo, o Quim, o Costinha, o Pedro Emanuel... Há uma série de jogadores dessa geração que fazem carreira e eu sentia que nessa altura estava, de facto, ao nível que eles também estavam.

Voltou a ser chamado?
Não, embora continuasse a ter um desempenho bom durante os quatro anos que estive na formação do Académico. Dois anos de juvenis e dois de juniores.

Porque acha que não voltou a ser chamado?
Porque a triagem era grande, ficaram os melhores dos melhores, mas acho que com 15/16 anos estava entre os melhores da minha geração.

Ainda foi chamado à equipa principal do Académico de Viseu?
Sim, com 18 anos, no meu último ano de júnior, acabei por ser chamado à equipa sénior do Académico e fiz a minha estreia, na II B, contra o Fátima. O nosso treinador era o professor José Moniz, que faleceu há pouco tempo, alguém que lançou muitos jovens em Portugal. Fomos campeões, subimos à II Divisão de Honra; e no ano seguinte, com o Académico, na II Divisão, tenho uma lesão, uma pubalgia, e a meio do ano sou emprestado a um clube da cidade de Viseu, o Lusitano, para ganhar ritmo competitivo.

Carlos (5.º atrás a partir da esquerda) foi capitão da sua primeira equipa no Académico de Viseu
Carlos (5.º atrás a partir da esquerda) foi capitão da sua primeira equipa no Académico de Viseu
D.R.

Quando assinou o primeiro contrato profissional?
Aos 18 anos faço o primeiro e único contrato profissional. Ganhava 130 contos (€650).

Qual a primeira coisa que comprou com esse dinheiro?
Durante a minha infância juntei algum dinheiro que os familiares me davam e nessa altura recordo-me que os meus pais emprestaram-me o dinheiro que me faltava para comprar um carro. Com os primeiros salários, acabei por pagar aos meus pais o carro, um Ford Fiesta comercial, verde garrafa. Tinha só dois lugares, mas permitia-me fazer as viagens de regresso a Penalva do Castelo. No período em que estive na formação do Académico, vivia num apartamento do clube, porque o meu pai não tinha carta, nem carro, para me levar e trazer. Quando subi a sénior, o clube deu-me a escolher entre receber mais algum valor ou darem-me um subsídio para uma casa, eu preferi que me dessem mais algum valor, que me dava para pagar o carro, e aí regressei à casa dos meus pais e fazia a viagem.

Quando aos 15 anos deixou a casa dos pais para viver em Viseu, num apartamento com outros miúdos, custou-lhe muito?
Sim, só via os meus pais ao fim de semana, eles vinham de autocarro para ver o meu jogo. Comia num restaurante com quem o clube tinha um acordo e à hora das refeições os meus pais aproveitavam para ligar para o telefone fixo do restaurante. Se eu precisasse de alguma coisa deles tinha de ir às cabines telefónicas fixas, meter as moedas, para poder falar, porque naquela altura não havia telemóveis. Embora a distância de Viseu para Penalva fosse curta, parecia tudo muito longe.

As primeiras saídas à noite, os primeiros namoros mais sérios, começaram quando?
Os primeiros namoros começaram por volta dos 16, 17 anos, mas nunca fui muito de sair, embora estivesse em Viseu a viver com meia dúzia de amigos. A primeira experiência de ir à discoteca foi já com 18/19 anos. Eu tinha um compromisso com o futebol, levava o futebol demasiado a sério. Por isso as saídas acabam por ser mais tarde, quando já estou na universidade e acabo por viver um bocadinho aquele espírito académico.

Carlos (à direita) com o amigo Pedro Saraiva, no Torneio Lopes da Silva
Carlos (à direita) com o amigo Pedro Saraiva, no Torneio Lopes da Silva
D.R.

Porquê e quando deixa o futebol e vai para a faculdade?
Como dizia, fui emprestado ao Lusitano Vildemoinhos, entretanto, o Académico acabou por descer e emprestou-me ao Tondela. Estou lá dois anos, nesses dois anos tivemos alguns salários em atraso e a minha namorada da altura acaba por me dizer algo do género: “Isto vai ser a tua vida, devias repensar as coisas. Tens o 12.º ano concluído, se calhar devias fazer um curso”. Acabei por me candidatar-me e entrei aqui no curso de Educação Física, em Viseu. Entretanto, regressei ao Penalva do Castelo, porque me permitia estar durante o dia na universidade e só treinava à noite.

Qual passou a ser o seu objetivo quando começou a tirar o curso?
Ser professor de educação física, ter um emprego estável.

Enquanto tirou o curso andou a saltitar de clube em clube.
Sim. Penalva, Fornos de Algodres, FC Oliveira do Hospital e Penalva novamente. Terminei o curso e concorri como contratado para Viseu, entrei em São João da Pesqueira, e passei a lecionar. Lecionava durante o dia e à noite continuava a jogar futebol, poder jogar ao domingo. No primeiro ano de serviço como professor concorri para a Madeira e acabei por vincular, ou seja, o meu segundo ano de serviço já é como vinculado, nos quadros do Ministério da Educação [ME] e vou para a Madeira dar aulas e jogar.

Porque escolheu a Madeira?
Porque era mais fácil para vincular ao ME do que no continente. Na Madeira joguei no Machico, com um treinador que no ano anterior já me queria levar para a Madeira, porque tinha sido um dos melhores marcadores na III divisão, mas eu não tencionava ser profissional de futebol novamente. Era o único jogador que não era profissional, porque eu tinha a escola. Acabou por ser um ano muito positivo, porque conciliei as duas coisas, joguei um nível ainda profissional e, ao mesmo tempo, acabei por lecionar.

Continuava solteiro?
Sim, já namorava a minha atual esposa, a Sandra, conhecemo-nos na faculdade. Ela é mais nova e foi a minha caloira no curso de Educação Física.

O médio (1.º à direita em baixo) com a sua equipa de juniores do Académico de Viseu
O médio (1.º à direita em baixo) com a sua equipa de juniores do Académico de Viseu
D.R.

Como acabou por se tornar treinador?
No ano seguinte concorri para o continente e fui colocado nos quadros de Coimbra. Estive um ano em Condeixa-a-Nova. Foi um ano difícil porque tive o meu primeiro desafio como treinador. O meu treinador no Penalva do Castelo convidou-me a começar com o futebol de sete no clube, não só a treinar a equipa de infantis, mas também a coordenar o futebol jovem. Eu acabava por ter os meus dias completamente preenchidos, porque ia de Viseu para Condeixa-a-Nova para lecionar, regressava ao fim da tarde, dava treino aos miúdos, mas já com o equipamento dos seniores por baixo do fato de treino. Ou seja, lecionava, treinava os miúdos, a equipa de sub-13 do Penalva do Castelo, coordenava o futebol jovem, e ainda jogava nos seniores. Entretanto, casei em 2003. E em 2004 nasceu o meu filho, o Guilherme.

Jogou até quando?
Até 2007. Sempre em Penalva. Em 2004 fomos campeões da III Divisão, subimos, mas apesar de todas as outras equipas serem profissionais mantivemo-nos amadores. Fiquei no Penalva até 2007, a altura em que deixei o futebol, já ia fazer 33 anos. Sentia que ainda podia jogar mais um ano ou dois anos, mas a paixão pelo treino já era muito grande. Durante este período que venho da Madeira, desde 2002 até 2007, acabei por treinar quase todos os escalões no Penalva, até aos sub-19. Em 2007, quando deixei a carreira, acabei por treinar um clube do concelho de Penalva do Castelo, já nos seniores, a Associação Sezurense.

Ainda só tinha o curso de Educação Física?
O primeiro e segundo nível do curso de treinador fiz logo em 1996, quando estava na universidade. O diretor dos cursos de treinador da Associação de Futebol de Viseu era o professor Adriano Pereira, meu professor na universidade. Foi ele que me incentivou a fazer. Aproveitei e fiz na altura, mas mais por currículo do que propriamente para ser treinador. Nunca pensei que fosse uma ferramenta tão importante para mim no futuro. Em 2007, quando deixei de jogar, acabei também por fazer o mestrado em Coimbra, estou agora a tratar de defender a tese, para terminar também esse nível académico. Em 2011 fiz o terceiro nível, já dava treino na Académica de Coimbra.

Nando Dias e Carlos Vaz Pinto jogaram juntos no Académico de Viseu, em Tondela e Oliveira do Hospital
Nando Dias e Carlos Vaz Pinto jogaram juntos no Académico de Viseu, em Tondela e Oliveira do Hospital
D.R.

Esteve na Académica de Coimbra de 2008 a 2011. Que escalões treinou?
Fui para o sub-14, e também fiquei como coordenador técnico. Entretanto, a meio do primeiro ano, o treinador dos sub-19 foi para o Catar, e o vice-presidente para a formação, o Camilo Fernandes, e o diretor da academia, o Pedro Roma, convidam-me para assumir os sub-19.

Sempre a lecionar?
Sim. Depois fui convidado para ir para o Sertanense, para onde levei alguns miúdos que estiveram comigo na Académica, muitos deles hoje são profissionais de futebol. E depois desse ano no Sertanense recebi o meu primeiro convite para ir para Angola. Pensei que seria apenas um ano, meti licença sem vencimento na escola, mas acabou por ser até hoje.

De onde veio esse convite?
Surgiu através do senhor António Luís, um português que tinha estado comigo na Académica. Em 2010/11 foi para Recreativo da Caála, de Angola, como diretor-geral. Ele estava de férias em Coimbra, por acaso encontrei-o, e ele diz-me que tinham terminado a época em Angola há pouco tempo, o treinador era o analista, não era propriamente treinador e precisavam de alguém que inicialmente fosse como adjunto, mas que de uma forma gradual fizesse a transição para treinador, mas não queriam levar alguém que fosse assumir logo como treinador principal, de modo a que se pudesse adaptar ao futebol angolano.

Em 2012 foi como adjunto para o Recreativo de Caála?
Inicialmente sim. Fui como adjunto do Luís Aires, que ainda está em Angola, a desempenhar as funções de analista. Mas a meio do ano, de facto, passei para treinador principal.

Carlos concluiu o curso de Educação Física, em Viseu
Carlos concluiu o curso de Educação Física, em Viseu
D.R.

Quando disse em casa que ia para Angola como reagiu a sua mulher?
Ela apoiou, pensava que era apenas por um ano. Fui sozinho para Angola.

Qual foi o primeiro impacto?
Foi difícil. O meu primeiro dia em Angola foi o mais difícil de todos, porque no aeroporto assisti a um assalto. Ou seja, estava cá fora com alguns portugueses que já estavam no clube, e às tantas há um homem que tinha viajado connosco no avião que se encosta a uma parede para fumar um cigarro, à espera eventualmente que alguém o fosse buscar, quando se aproximam. Um dos portugueses do clube que estava comigo, diz-me: “Olha, está ali a acontecer um assalto, vamos afastar-nos um bocadinho”. Foi logo ali à saída do aeroporto. Acabámos por ir para um hotel, porque o vice-presidente do clube estava na federação a fazer inscrições dos atletas e ficámos a descansar até ao final do dia, altura em que fomos com esse vice-presidente de Luanda para Huambo, num jipe. Fomos buscar uma lona para tapar as malas que iam em cima do jipe, e no meio de um musseque acabou por haver um tiroteio, connosco no carro, tivemos de baixar-nos, pessoas a passar por cima do capô do carro, foi um pouco assustador.

O que lhe passou pela cabeça? Pensou vir embora?
Algo desse género: “Onde é que eu meti?”. Achei que não ia ficar muito tempo. Acabámos de fazer a viagem durante a noite. Fomos para um pequeno hotel na província de Huambo, já na Caála, que era do meu presidente. Era um hotel muito familiar, uma infraestrutura muito pequena, que estava inserido na comunidade. De manhã, quando acordei e deparei-me com todo aquele cenário de pobreza à minha volta, acabou por ser muito difícil, associado às carências que o país tinha ao nível de água, saneamento, eletricidade, com os cortes constantes de energia. Uma boa casa, era uma casa que tivesse gerador.

Ficou a viver no hotel ou foi para uma casa?
Depois fui para uma casa. Os treinadores e jogadores tinham casas. Alguns jogadores estavam juntos na mesma casa, eu também fiquei numa casa com o Sérgio Mourato, que acabou por ser um parceiro nesta aventura pelo mundo, inclusive esteve comigo na Etiópia. Fiquei a viver com ele e com o Luís Aires, numa casa onde tínhamos três seguranças.

Uma das primeiras turmas a quem o professor Carlos deu aulas de Educação Física, em Condeixa
Uma das primeiras turmas a quem o professor Carlos deu aulas de Educação Física, em Condeixa 
D.R.

Como eram as condições do clube?
O clube estava a reconstruir um estádio, que tinha ficado destruído na altura da guerra. Nós jogávamos no Huambo, no estádio dos Kurikutelas, que acolhia os jogos da província do Girabola, e que era uma loucura total no dia de jogo, mas sem condições ao nível do balneário, de uma estrutura que desse condições a uma equipa profissional. Nos primeiros anos em que usámos esse estádio, os jogadores e nós íamos equipados de casa, inclusivamente nós passávamos com o nosso carro por alguns jogadores que se deslocavam de mota já equipados. Usávamos este campo para treinar e para jogar. Só no final de 2013 é que fizemos a inauguração do nosso estádio, já remodelado, com condições para uma equipa profissional.

Qual foi o principal desafio no Recreativo de Caála?
Foi adaptar-me a um contexto diferente em termos das condições de trabalho, também ao estilo de jogo que o futebol angolano tinha. Em função das limitações do número de estrangeiros, o que fizemos foi procurar em Portugal alguns jogadores que, sendo portugueses, eram filhos de angolanos, e por esse motivo conseguimos levar alguns jogadores de muito bom nível de Portugal para Angola. Eles dava-nos qualidade para permanecer no Girabola. Foram três anos que estive no clube, muito interessantes em termos de resultados, atingimos uma final da Taça de Angola, que perdemos contra o Petro, o clube mais titulado de Angola.

Voltando um pouco atrás. Chegou como adjunto, mas passou a treinador principal. Quando?
No meu primeiro ano, a meio do ano. Passei a treinador principal e fomos à final da Taça de Angola. Entretanto, sou convidado a renovar mais dois anos, mas para ser o homem da casa, digamos assim, como adjunto. Foi para lá o mister Ricardo Formosinho, que levou como adjunto o Francisco Agatão. Em 2013, a meio do ano, o treinador acabou também por sair, eu estava em Portugal na altura a fazer o UEFA Pro, o nível mais alto da licença de treinador, e o meu presidente liga-me para regressar o mais rapidamente a Angola para assumir novamente a equipa, porque os resultados não estavam dentro daquilo que era desejável, que era a manutenção. Nesse segundo ano, fomos à meia-final da Taça, conseguimos novamente a manutenção e sou convidado a assumir como treinador principal no ano seguinte. Só voltei a ser adjunto muito mais tarde, com o mister Costinha.

O treinador com os pais
O treinador com os pais
D.R.

Já lá vamos. Com que opinião ficou do jogador angolano?
Naquela altura o nível do jogador angolano era muito interessante, com jovens de muito potencial porque havia, e há, muito futebol de rua. Há um talento nato, são jogadores fisicamente muito interessantes. No Girabola havia muitos treinadores portugueses, sérvios, croatas, brasileiros que acabaram por adicionar ao jogador angolano algumas questões mais táticas que os ajudou a crescer muito.

No dia a dia eram profissionais?
Muito profissionais, muito dedicados, até porque tinham salários muito acima da média. O país do ponto de vista económico também vivia um momento interessante e apesar de muitos deles poderem jogar em Portugal, na I Liga, optavam por ficar em Angola porque tinham salários mais atrativos. Recordo-me que até acontecia o contrário, jogadores muito interessantes em Portugal que foram para Angola; o caso do Meyong, um dos melhores marcadores da liga portuguesa pelo Vitória de Setúbal e que acabou por ir para Angola porque os salários eram muito atrativos. O próprio Rivaldo, que foi campeão do mundo, também jogou no Kabuscorp de Luanda. O Kabuscorp teve o melhor jogador africano, o Trésor Mputu Mabi. Por isso os clubes eram profissionais. Obviamente em termos de organização, comparativamente aos clubes portugueses, eram muito mais amadores. Mas às vezes o dinheiro também acaba por trazer alguma organização e o facto de haver muitos portugueses, não só como treinadores, mas também nos cargos diretivos, levou alguma organização aos clubes angolanos.

Culturalmente houve algo que o tivesse chocado mais? Ou algum hábito que tenha cultivado lá?
Do que mais gostei foi das pessoas, claramente. Fui sempre muito bem tratado em Angola, vivi sempre nas províncias, no Huambo, no Lobito e também em Calulo. São realidades completamente diferentes. Enquanto o Huambo é uma metrópole com mais ou menos um milhão de habitantes, no Lobito, morava na Restinga, algo paradisíaco, com uma qualidade de vida tremenda. Já Calulo era uma pequena aldeia, no meio do nada, costumo dizer de brincadeira que tinha apenas uma estrada, uma igreja, um restaurante, um hotel e um campo de futebol. Mas as pessoas, com o pouco que tinham, eram sempre muito felizes e a querer dar-nos o que de melhor Angola tem. Gostava muito da forma de viver deles, a música, o clima. E adorei a gastronomia.

Do que mais gostou?
Gosto muito de feijão de óleo de palma. É uma bomba calórica, mas é muito, muito bom.

Mas há um fosso muito grande entre ricos e pobres.
Sim. Sentíamos isso, quanto mais não fosse através dos nossos presidentes, que eram sempre alguém com uma capacidade financeira muito acima da média.

Apesar de já dar aulas como professor de Educação Física, Carlos continuou a jogar futebol. Aqui, enquanto jogador do Machico (à esquerda), na Madeira
Apesar de já dar aulas como professor de Educação Física, Carlos continuou a jogar futebol. Aqui, enquanto jogador do Machico (à esquerda), na Madeira 
D.R.

E histórias para contar de Angola? Deve ter muitas.
Há algo que marca muito o futebol africano, a questão dos feitiços. Tive vários episódios relacionados com estas questões. No meu segundo ou terceiro ano no Caála, recordo-me que no nosso primeiro jogo da época, estava de camisa preta, porque é uma das minhas cores favoritas, se não a favorita, e ganhámos. Entretanto, no hotel onde estávamos a viver nos primeiros dias, enquanto não tínhamos as casas, era sempre assim todos os anos, estava um jogador que tinha vindo pela primeira vez para o clube. Vou sair, estou novamente de camisa preta, e esse jogador, o Cassoma, um central muito experiente e uma referência grande no futebol angolano, diz-me: “Por favor, no domingo, use outra vez a camisa preta, porque a camisa preta tem feitiço”. Ele achava que ia dar sorte. No jogo seguinte, contra o Kabuscorp, na palestra acabei por trazer isso para a questão da aspiração motivacional, dizendo que tinha outras camisas, com outras cores e tinha várias camisas pretas, inclusive, mas ia novamente usar aquela preta, porque o Cassoma me tinha dito que a camisa preta tinha feitiço e que se a usasse eventualmente ganhávamos novamente. E assim foi. Ainda hoje uso muito camisas pretas, não por acreditar no feitiço, mas porque foi uma coisa que ficou e gosto muito do preto. Mas há outras histórias.

Conte.
Uma vez, num penalti a nosso favor, o meu jogador colocou a bola na marca de penálti e o guarda-redes veio tocar-lhe na bola, como se estivesse a passar o feitiço da luva para a bola; um jogador nosso foi lá tirar a bola e andou atrás dos apanha-bolas para ir buscar bolas que não estivessem com feitiços [risos]. Recordo que num dos primeiros jogos, vi jogadores com as camisolas molhadas, ainda antes do jogo começar, porque estavam benzidas pela água do bruxo.

O médio foi campeão da III Divisão, no Penalva do Castelo, em 2003/04
O médio foi campeão da III Divisão, no Penalva do Castelo, em 2003/04 
D.R.

Em 2015 vai para a Académica do Lobito. Porque saiu do Recreativo do Caála?
O contrato acabou e era altura de mudar. Foi o presidente que me convidou. Eu tinha um amigo, o Pejô, que tinha estado comigo na Académica de Coimbra, era treinador de guarda-redes, esteve muitos anos no Interclube e foi para a Académica do Lobito como conselheiro do presidente. Eles precisavam de treinador, ele falou do meu nome e acabei por ir. Era um clube mais modesto do que o Caála, mas com tradição em termos de formação. Tinha muitos miúdos interessantes. Acabámos por lançar alguns nesse ano, que mais tarde acabaram por chegar à seleção nacional e jogaram nos melhores clubes de Angola. O clube proporcionava boas condições de vida, porque morar na Restinga era único. O presidente era alguém que tinha uma filosofia de vida muito gira. Adorava divertir-se, dançar, cantar.

Nessa altura, a sua mulher e filho já estavam consigo em Angola?
Não, estiveram sempre em Portugal, nunca foram.

Que memórias mais fortes tem dessa época no Académica do Lobito?
Recordo-me de aprender a dançar kizomba com uma das mulheres do meu presidente. O meu presidente gostava muito de dançar e no final dos jogos, costumava ligar-me para irmos beber um copo, à noite. Ele tinha mais do que uma mulher e à noite levava aquela com quem mais gostava de dançar. Íamos os três beber um copo, ele dançava uma ou duas vezes, era muito grande e anafadinho, cansava-se, já não queria dançar mais e depois começava a dizer à mulher para pegar em mim e ensinar-me a dançar. Eu gostava de dançar, mas não sabia dançar kizomba, obviamente. Também não sou nenhum expert, mas acabei por aprender a dançar um bocadinho mais estes ritmos africanos.

Só tinha assinado por uma época?
Sim. Entretanto, surgiu a possibilidade de trabalhar em Portugal, através de um amigo, o Acácio Santos, que na altura estava na Sport TV como comentador. Um dia envia-me mensagem a perguntar se eu estava em Portugal. Estava, ele liga-me, diz-me que foi convidado para ser diretor-desportivo do Futebol Clube Famalicão, mas que estava na Sport TV a comentar, era um projeto que não podia largar no momento e que eu encaixava muito bem no perfil que eles procuravam para o diretor-desportivo. Eu não queria. Não era algo que me visse a fazer. Ele pediu-me para ouvir as pessoas. Por consideração a ele, acabei por ir ao Famalicão reunir com as pessoas.

De 2008 a 2011, Carlos foi treinador dos juniores da Académica de Coimbra
De 2008 a 2011, Carlos foi treinador dos juniores da Académica de Coimbra
D.R.

O que o convenceu a aceitar?
Mais uma vez, as pessoas. Que é aquilo que de melhor encontramos ao longo da nossa vida. Tenho tido a sorte do futebol me dar a conhecer pessoas que, muitas delas, ficam na vida de uma forma muito próxima. Encontrei em Famalicão, para além do presidente Jorge Silva, dois vice-presidentes, um para o futebol profissional, o Ricardo, e outro para o futebol de formação, o Mário, que eram pessoas fantásticas. E que acabaram por convencer-me a aceitar algo que não fazia parte dos meus planos em termos de carreira, fazer direção desportiva. Acabámos por começar a desenhar, entre aspas, o projeto que hoje existe em Famalicão. O presidente tinha como objetivo criar uma sede, construir uma academia e remodelar o atual estádio. Foram projetos que ajudei a elaborar.

Quais eram as suas funções em concreto?
No papel era diretor-desportivo, mas acabei por ser muito mais do que isso. Acabava por ser um diretor-técnico em algumas coisas. Até se calhar, eventualmente, um diretor-geral. Porque na altura o Famalicão não tinha capacidade para ter uma estrutura muito grande. Todos fazíamos um pouco mais do que aquilo que eram as nossas funções.

Essa foi uma época conturbada. Tiveram quatro treinadores. Como foi para si?
Aceitei o desafio em junho, eles já tinham começado a fazer o esboço daquilo que seria o próximo ano. Não só dos jogadores, mas também do treinador. O mister Ulisses Morais já tinha assinado. Inclusive, contactei-o, disse-lhe que tinha o convite para ser diretor-desportivo, mas que só aceitava se ele me dissesse que via em mim condições para o ajudar, caso contrário não aceitava o cargo. Ele ficou todo contente, porque tinha sido jogador dele e achava que eu podia ajudar. Enquanto estive em Famalicão, tivemos dois treinadores porque eu saí em janeiro.

Porquê?
Porque tive o desafio de voltar a Angola, para o Recreativo do Libolo e acabei por deixar o Famalicão a meio do ano.

Em 2012, Carlos foi para o Recreativo da Caála, em Angola
Em 2012, Carlos foi para o Recreativo da Caála, em Angola
D.R.

O que o atraiu para voltar a Angola?
Um clube que tinha sido campeão durante dois ou três anos, nos anos em que eu tinha estado em Angola. Era um clube muito organizado, tinha uma estrutura totalmente portuguesa, desde o diretor-geral ao diretor-técnico. Os fisioterapeutas eram portugueses, a equipa técnica era toda portuguesa. Fui convidado a ir sozinho porque a estrutura estava montada. Convidam-me porque durante este período em que estive na Caála e também na Académica do Lobito acabei por lançar muitos jovens e o Libolo, já não tendo o fulgor financeiro que tinha nos anos anteriores, porque Angola a partir de 2014 começou a ter muitos problemas, inclusivamente para transferir os nossos salários era muito difícil, queria apostar nos jovens. Já fiz o meu contrato para receber o salário em Portugal porque o presidente tinha essa capacidade, caso contrário não tinha ido. Quando fui para o Libolo, coloquei no meu contrato um cartão Visa Gold, de modo que pudesse levantar o meu salário em Portugal, porque já era muito difícil fazer transferências.

E correu tudo bem com os pagamentos?
Quando vou para o Libolo já sabia que havia salários em atraso, que o clube tinha muitas dificuldades, mas atraiu-me ser um clube que, tendo tido sucesso internamente, tinha como objetivo as competições africanas, chegar a uma fase de grupos, que era algo que já não acontecia há muitos anos também em Angola. O plantel, apesar de ter algumas limitações em função das dificuldades financeiras, eu olhava e acreditava que, juntando alguns miúdos que tinham sido meus jogadores na Caála e no Lobito, podíamos fazer algo interessante. Entre janeiro e junho não recebi qualquer salário, nem eu, nem os jogadores. Foi uma situação difícil, mas conseguimos chegar a uma fase de grupos numa competição africana, o equivalente à Liga Europa, que é a Taça da Confederação, e fizemos história, porque já há muitos anos que uma equipa angolana não chegava a uma fase de grupos.

O treinador português (à direita) com De Zerbi, uma das suas referências
O treinador português (à direita) com De Zerbi, uma das suas referências
D.R.

Na 1.ª jornada, antes do jogo do Recreativo do Libolo, houve uma tragédia que levou à morte de 17 pessoas. Pode recordar o que aconteceu?
Oficialmente foi esse o número de mortos. Foi numa província junto à fronteira com o Congo, onde há muitos anos já não havia Girabola. Quando chegámos ao estádio, hora e meia antes do jogo, ainda estava fechado para os adeptos. Íamos jogar com o Santa Rita de Cássia. Havia muita gente a querer entrar no estádio, mas estavam ordeiramente em filas, à volta do estádio. Quando vamos para o jogo propriamente dito e sento-me no banco, vejo que num dos portões de acesso ao estádio havia uma confusão grande. Não nos apercebemos do que era, porque era um pouco distante, mas ao intervalo tivemos a informação que tinha morrido muita gente. Isto porque como os portões estiveram fechados durante muito tempo e as pessoas queriam entrar, começaram a empurrar o portão, este cedeu, as pessoas que estavam junto ao portão acabaram por ser espezinhadas, atropeladas, pelas outras. Faleceu muita gente. E a nossa equipa também ia falecendo nesse ano.

Então?
Fomos jogar ao Egito, naqueles aviões de hélice pequenos, com uns 30 lugares. Fizemos duas paragens, na ida e no regresso. Jogámos no Egito e parámos novamente no Sudão para reabastecer o avião. Quando voltou a levantar o voo, o avião teve como um apagão. Ficámos a navegar sem qualquer tipo de mostrador do avião. O comandante do avião era um francês que normalmente andava connosco. Felizmente, ele conseguiu sobrevoar à vista e conseguiu aterrar o avião, mas o avião ia muito de lado e sem qualquer tipo de mostrador. A sorte foi que tudo aconteceu ainda muito próximo do aeroporto, ele conseguiu dar a volta e aterrar na pista, sem qualquer tipo de mostrador a funcionar.

A equipa percebeu o que se passava?
Percebemos porque houve uma espécie de apagão dentro do avião.

Qual foi a reação dos jogadores e a sua?
Era um silêncio brutal dentro do avião. Olhávamos uns para os outros e cá para fora para ver se de facto íamos conseguir aterrar. Percebemos que o comandante estava a fazer um esforço grande porque o avião não ia estável, foi tudo manual. Foi um dos maiores sustos que apanhei na vida.

Há mais histórias do Libolo?
Há, de feitiços [risos]. O clube tinha um feiticeiro. Na altura estávamos a jogar competições internacionais, acabámos por jogar contra uma equipa do Egito, o Smouha SC, o Al Hilal Al Ubayyid, do Sudão e o Zesco United, da Zâmbia. Entretanto, sou abordado pelo feiticeiro do clube, que um dia bateu à porta do meu gabinete, no estádio, e disse: “Agora estamos na fase de grupos. Temos uma equipa do Sudão, são muçulmanos, temos outra equipa do Egito, e vamos ter que matar um borrego, porque se não matarmos o borrego vamos perder os jogos”. Eu respondi: “Como tu sabes, nós não temos salários, eu compreendo-te, percebo que tenhas de fazer isso, mas vais ter de pedir o dinheiro ao diretor. Vais aqui à porta ao lado, bates à porta ao diretor e pedes-lhe o dinheiro para que ele possa resolver a situação”. E ele lá foi bater à porta do diretor, pediu dinheiro para o borrego, para que se pudessem ganhar os jogos. Não vi se o fizeram ou não, porque nunca quis assistir a essas coisas. Mas sei que havia jogadores que contribuíam para essas coisas.

Não ficou mais do que uma época porquê?
Porque chegar a uma fase de grupos foi muito bom, não só para o clube, mas também para mim. Deu-me visibilidade. Acabamos por passar aos quartos de final porque ficámos em 2.º lugar nesse grupo e acabei por ser abordado por um agente português, que trabalhava para um grupo mexicano. Disse-me que tinha tido alguns clubes que como sabiam que ele era português e era agente, perguntaram-lhe se me conhecia porque queriam fazer-me abordagens. Um deles, o St. George SA, da Etiópia, e outro, o Smouha SC, do nosso grupo na fase de grupos, no Egito. O Libolo tinha problemas financeiros, quando passámos à fase de grupos entrou dinheiro no clube e foi nessa altura que acabámos por receber os nossos salários, mas sabíamos que o clube estava com dificuldades e que ia ter mais ainda no ano seguinte. Acabei por pedir autorização ao meu diretor, ainda com o campeonato a decorrer, durante o mês de agosto, para ir à Etiópia reunir com os diretores do St. George. Fui, gostei do que vi e abracei o desafio.

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Spoiler

“Foi bom trabalhar com o Costinha. Além de ser um excelente profissional é muito amigo, humilde e puro. É cuidador de quem está à sua volta”

Carlos Vaz Pinto saiu do CD Mafra em outubro de 2024 e ainda não abraçou novo projeto porque, diz, quer lutar para ser campeão. Com uma Supertaça da Etiópia e uma Taça do Quénia no currículo, o técnico revela nesta parte II do Casa às Costas as aventuras que viveu em clubes de países de África e da Índia e explica o que correu mal no Nacional da Madeira, onde foi adjunto de Costinha

AEtiópia não é propriamente o país onde se jogue o melhor futebol, nem sequer africano. O que o convenceu a ir para o St. George, em 2018?
É um futebol interessante, tem jogadores muito interessantes e é um clube que, segundo eles, tem 30 milhões de adeptos. As pessoas gostam muito de futebol, os estádios estão cheios. Jogar a Liga dos Campeões Africanos e lutar por títulos, alcançar títulos, era algo que eu considerava importante adicionar à minha carreira. Naquela altura via-me a fazer carreira em África. Ter estado no Libolo, chegar a uma fase de grupos e eventualmente conseguir fazer algo muito interessante a esse nível também no St. George, era interessante para crescer.

Como foi o primeiro impacto na Etiópia?
Foi difícil. Primeiro, fui três dias para reunir-me só com os diretores. Cheguei de noite, o meu inglês ainda era mau e aquela conversa básica de chegar a um aeroporto e tentar comunicar com alguém foi muito difícil. Mas o impacto com o país foi positivo porque vi o lado bom da Etiópia, Addis Abeba é uma cidade muito boa para viver. Fui muito bem recebido, colocado num bom hotel, reuni-me com as pessoas, gostei da envolvência, da academia que o clube estava a construir. Acabo por não ver a Etiópia das províncias, da pobreza, embora em Addis Abeba também se veja pobreza.

E o campeonato? Mais fraco que o angolano?
O campeonato é mais fraco, mas é mais competitivo. O nível das equipas é mais uniforme. Os jogos fora são sempre extremamente complicados porque mesmo os grandes estádios acabam por não ter bons relvados e isso nivela muito o jogo de uma equipa grande contra equipas de menor dimensão. É um campeonato onde encontrei os melhores jogadores africanos que treinei. Muitos deles são da Etiópia, mas também treinei jogadores do Gana, de Marrocos, egípcios, sul-africanos, congoleses, por aí fora. Treinei quase todas as nacionalidades africanas. Encontrei jogadores do ponto de vista técnico e tático muito evoluídos e, do ponto de vista cognitivo, daqueles que melhor entendiam o jogo. É um mercado pouco explorado, mas tem jogadores muito interessantes.

Carlos ganhou a Supertaça no St. George da Etiópia. Na foto com o troféu e o presidente do clube, Abinet
Carlos ganhou a Supertaça no St. George da Etiópia. Na foto com o troféu e o presidente do clube, Abinet
D.R.

Culturalmente, o que mais gostou e o que mais o chocou?
Gostei muito da cerimónia do café. A Etiópia tem um café incrível e eles têm uma cerimónia que é feita nos hotéis e nas ruas. A minha empregada de casa, comprava, torrava e moía o café, era tudo feito manualmente. São ortodoxos e celebram o Natal em janeiro e ela convidou-me e ao Sérgio Mourato, que tinha estado comigo em Angola e que levei para a Etiópia, para celebrar o Natal em casa da família dela. Assistirmos a todo o processo de torrar o café, bater o café, etc. Uma cerimónia muito gira, com as mulheres vestidas com as roupas tradicionais da Etiópia, sentadas numa banquinha, com as chávenas de café de barro preto. Além disso, eles têm uma refeição típica, em que usam um cereal, o teff, um dos cereais mais nutritivos do mundo, que naquela altura era uma bandeira do país. A Victoria Beckham tinha começado a ingerir o cereal e a dar-lhe visibilidade. Eles fazem um crepe com o teff, fazem uns rolinhos, há um tabuleiro que é forrado com essa ingera, e depois colocam os legumes, a carne e é um prato comunitário. Sentamos à mesa e toda a gente está a comer dali, com as mãos. No início choca um pouco, até porque eles, para dar as boas-vindas, acabam por apanhar com as suas mãos e querem colocar na nossa boca a primeira dose.

Mais alguma história para contar da Etiópia?
Tive um episódio muito difícil num estádio. Fomos jogar a uma província contra aquele que foi o campeão. Fomos vice-campeões com os mesmos pontos do campeão e a meia dúzia de jornadas do fim fomos jogar a casa deles, o estádio completamente cheio, os nossos adeptos com espaço entre os adeptos locais. Fizemos 1-0 perto dos 80 minutos, gerou-se confusão no estádio, da parte de fora do estádio começaram a mandar algumas pedras para a zona onde estavam os nossos adeptos, que começaram a fugir para o relvado e gerou-se o caos total, porque a polícia começou a fazer disparos para as bancadas, para evacuar as pessoas e houve muitos adeptos feridos. O nosso cameraman, que estava na tribuna do estádio, acabou por ser agredido e o fisioterapeuta teve de suturá-lo no relvado, no meio de outros adeptos que estavam a precisar de auxílio. Foi um episódio muito difícil, de muita violência.

Em 2019/20, o treinador esteve com o plantel dos sub-23 do FC Famalicão
Em 2019/20, o treinador esteve com o plantel dos sub-23 do FC Famalicão
D.R.

No final dessa época não quis ficar ou não quiseram renovar?
Houve ali um sentimento agridoce porque não fomos campeões por questões étnicas, digamos assim. A Etiópia tem muito disso. Estávamos em 1.º lugar quando fomos para o último jogo, à porta do balneário o meu team manager, um senhor com setenta e tal anos, diz-me que não vamos ser campeões. Respondi que não, que íamos ganhar o jogo, mas ele: “Sim, sim, nós ganhamos o nosso jogo, mas eles também vão ganhar e quando fizermos aqui um golo, eles lá vão fazer dois”. Era a diferença de golos que desempatava e ele tinha informações que eu não tinha.

E foi assim?
Foi. Vencemos 2-0, o adversário ganhou 5-0, e não fomos campeões. Creio que tinha uma cláusula automática da renovação se fôssemos campeões. Tínhamos conquistado a Supertaça, tínhamos ganho o torneio de abertura, fomos à final da Taça, perdemos nos penaltis, e perder o campeonato desta forma... O campeão acabou por vencer o último jogo contra uma equipa da mesma etnia e segundo os relatos, houve como que um resultado combinado entre eles. O sentimento, tanto meu, como do clube, era de frustração. Eu, em função daquilo que tinha feito em África nos últimos anos, tinha a expectativa de poder vir para Portugal, trabalhar num contexto profissional, e optei por nem sequer tentar renovar com o clube, nem o clube fez também alguma abordagem.

Já tinha alguma proposta de Portugal?
Não. Havia uma conversa ou outra, apenas exploratórias.

Na época 2020/21, Carlos assinou pelo Gor Mahia, do Quénia
Na época 2020/21, Carlos assinou pelo Gor Mahia, do Quénia
D.R.

Entretanto, esteve praticamente um ano parado. O que fez nesse tempo?
Estive a analisar propostas que surgiam. Fiquei em casa, a aproveitar também para passar mais tempo com o meu filho. Ainda para mais, ele foi sempre jogando futebol e perdi muito disso. Na Etiópia, estive seis meses seguidos sem vir a casa, por exemplo. Entretanto, o diretor da academia do FC Famalicão, Rui Silva, era um rapaz que tinha sido analista do mister Ulisses Morais quando eu era diretor-desportivo. Fui eu inclusive que sugeri o nome dele para o cargo de diretor-desportivo, quando fui para o Libolo, porque via nele perfil para desempenhar essas funções. Mas no processo de criação da academia e da SAD, o Rui deixou de ser diretor-desportivo, com a entrada do Miguel Ribeiro em Famalicão, e passou a ser um dos diretores da academia. É ele que acaba por criar o plantel dos sub-23. O treinador que começou a época, o António Barbosa, que neste momento está na Académica, saiu em outubro e o Rui Silva indicou-me ao Miguel Ribeiro.

Como foi treinar os sub-23?
A maioria dos jogadores seria sub-20 e sub-21. Muitos dos jogadores que utilizávamos não eram convocados para os sub-19, porque também havia o objetivo de estabilizar os sub-19, na I divisão de juniores. Do meu lado havia a experiência que tive nos sub-19 da Académica e um trajeto também ligado à formação até chegar a profissional, enquanto treinador. Além da experiência que tive em Angola, onde lancei sempre jovens nas minhas equipas, muitos deles jogadores que vieram do bairro.

Nessa altura não temeu pela sua carreira nos seniores?
Sim, mas era uma liga nova, não havia ainda muito a ideia do que poderia acontecer com os treinadores que fossem para essa liga. Na verdade, muitos desses treinadores estão hoje num patamar profissional e num bom nível. Mas na altura de facto era dar um passo atrás. Embora com a expectativa de que me pudesse abrir a porta de algum clube profissional em Portugal.

s festejos da Taça do Quénia que o técnico português venceu
s festejos da Taça do Quénia que o técnico português venceu
D.R.

Entretanto, surgiu a pandemia.
Sim. Recordo-me de termos jogado em Guimarães numa terça-feira e na quarta foram suspensas todas as atividades. O meu contrato terminava em junho e não foi renovado. Internamente houve alguns problemas, em termos daquilo que era a política desportiva para a equipa de sub-23. Eu tinha uma perspetiva, as pessoas que mandavam tinham outra. Apesar de ter sido muito positivo em termos de resultados. Quando chegámos ao Famalicão, a equipa nunca tinha ganho e acabámos, por exemplo, por vencer o Sporting, em Lisboa, contra uma equipa com o Matheus, que hoje está no City, o Quaresma, que está na equipa principal e o Nuno Mendes, que está no Paris Saint-Germain. Olho para trás e sinto que foi muito positivo porque ver jogadores que este ano foram vendidos por milhões, o Luís Júnior, por exemplo, que foi alguém que lançámos na equipa de sub-23. O Clayton, que estava no Desportivo das Aves e foi vendido para o Internacional de Porto Alegre, por alguns milhões, faz-nos acreditar que fizemos um bom trabalho.

Quando terminou esse contrato já tinha propostas em cima da mesa?
Não, não tinha nada. No dia 30 de junho o contrato terminou. Tive uma conversa com o presidente, o Miguel, durante o mês de julho, ainda não estava definido aquilo que ele iria fazer, mas não havia intenção de renovar e, do meu lado, também não era o contexto onde eu achava que devia continuar.

Receou pelo seu futuro como treinador?
Não. Foi esperar novamente, ver o que ia surgir. O contexto africano não era muito bom devido à pandemia. Os clubes em África vivem muito da bilheteira, do estádio cheio. Os salários dos treinadores baixaram consideravelmente, mas regressei a África. Tive várias abordagens por ter estado no St. George, mas em termos financeiros não era muito compensador e o pior contrato que fiz, no estrangeiro, acabou por ser com o Gor Mahia, do Quénia.

Carlos atirado ao ar por alguns dos seus jogadores do Gor Mahia, após vencerem a Taça
Carlos atirado ao ar por alguns dos seus jogadores do Gor Mahia, após vencerem a Taça
D.R.

Aceitou porque não teve mais propostas e não queria ficar parado?
Não, fui recusando uma ou outra situação que me ia aparecendo de África, mas o Gor Mahia é um clube muito grande, que eu seguia de perto, vizinho da Etiópia. Tive alguns jogadores que tinham passado por lá. Estava com problemas financeiros, devido à Covid, mas era um desafiante. Já tinha começado a época, tinha começado mal, tinham sido eliminados na pré-eliminatória da Liga dos Campeões e estava, creio, em 15.º ou 16.º lugar na Liga. Toda a gente dizia que nesse ano o Gor Mahia não ia ganhar títulos. Acabámos por ganhar a Taça do Quénia, mas saio antes da terminar a época, porque tive o convite para regressar a Portugal.

Antes de falarmos do regresso a Portugal, o que achou do Quénia e do campeonato?
É interessante, com jogadores também muito interessantes. Uma paixão incrível pelo futebol. Sentíamos isso na rua e nas redes sociais, no estádio não, porque não era permitido aos adeptos ir ao estádio, devido à pandemia. Recordo-me de ter estado mês e meio fechado em casa e as duas primeiras duas doses da vacina levo-as lá, no Quénia.

O que fazia para ocupar o tempo?
Era muito difícil. Tinha a televisão portuguesa. Fazia o meu treino. Morava num condomínio muito pequenino e acabava por ir para as imediações fazer umas caminhadas e umas corridas. Entretanto, tivemos a informação de que o nosso principal rival estaria a treinar às escondidas. O meu clube acabou por querer fazer o mesmo. Começámos a treinar escondidos, às seis da manhã, num campo sintético. O nosso rival teve conhecimento e começou a querer treinar depois de nós naquele campo, onde nós treinávamos. [risos]. E um dia, depois de um treino nosso, as autoridades foram ao estádio, já estava o nosso rival preparado para treinar. A polícia começou a disparar, inclusive para alguns jogadores que estavam a fugir. Ainda houve um elemento ou outro que partiu as pernas, a saltar muros, para fugir das autoridades.

O treinador português com a Taça do Quénia
O treinador português com a Taça do Quénia
D.R.

Que mais lhe ficou na memória dessa época no Quénia?
Tive um presidente que tinha o principal escritório de advogados do país, um senhor muito experiente, já quase com 80 anos, que também me proporcionou boas condições em Nairobi, apesar dos ordenados em atraso. Foi pena a grande maioria do tempo que estive na cidade viver em tempos de Covid, porque havia espaços lindíssimos ao nível da restauração. Esse presidente tinha oficialmente duas mulheres e é estranho para a nossa cultura ver alguém que tem duas casas. Quando cheguei ao país, ele disse-me: “Vou-lhe dizer duas coisas. Uma é que neste momento você é a pessoa mais importante do país”, eu comecei a rir e ele: “Não se ria, basta ver logo à noite a televisão, você vai ver que é a pessoa mais importante do país, porque treina o clube mais mediático do país”. A segunda coisa que me disse é que era tradição dentro da tribo a que pertencia dar uma mulher ao treinador que vinha para o clube. Eu disse que não precisava de mulher, que era casado, e ele: “Se algum dia mudar de ideias, diz alguma coisa, que nós vamos dar uma mulher da nossa tribo” [risos].

A sua mulher lidou bem com isso?
Acho que nunca lhe contei esta história, não tenho certeza [risos]. A grande maioria dos jogadores do clube são oriundos da tal tribo e os nomes dos jogadores estão intimamente ligados à tribo. O segundo nome começa sempre por O e está também ligado à questão da hora do dia em que nascem. Por exemplo, vou dizer ao acaso, se nascesse entre as seis da manhã e as nove da manhã, era Odhiambo, se fosse entre as nove da manhã e o meio-dia, era Ochieng. Começa sempre por O. Eles acreditavam que os resultados do clube também estavam muito ligados à fundação do clube, que surgiu através de um homem que era um visionário; tive de visitar o túmulo desse homem quando me desloquei ao sul do Quénia, porque as origens do clube e dessa tribo eram dessa zona. Houve uma cerimónia para que eu pudesse visitar a sepultura do senhor. África tem muitas destas questões ligadas a mitos e feitiçarias.

Dizia há pouco que não continuou no Quénia porque recebeu o convite do Costinha, para ser seu adjunto no Nacional da Madeira.
Sim. Eu estava com alguns salários em atraso e acabei por falar com o meu team manager para ele me ajudar a sair do clube, caso vencêssemos a Taça, porque tinha um convite para vir para Portugal, havia os salários em atraso e já era difícil sermos campeões, porque quando fui para o clube creio que estávamos a 12 pontos do 1.º lugar. Sentia que ganhando a taça saía pela porta grande. E felizmente conquistámos a Taça.

Já conhecia o Costinha?
Não.

Quando chega, encontrou uma Madeira muito diferente daquela que deixara há 20 anos?
Muito diferente, principalmente nas ligações, as estradas melhoraram muito. Mas a qualidade de vida que existia há 20 anos permanecia. Continua a ser uma ilha muito boa para viver, com uma gastronomia incrível e um clima fantástico.

Como foi trabalhar com o Costinha?
Foi incrivelmente bom, porque o Costinha, além do excelente profissional que é, foi das melhores pessoas que encontrei na vida. Foi um amigo que me indicou, porque ele andava à procura de um assistente com o meu perfil. Gostei muito de trabalhar com ele. É muito amigo, muito puro, muito humilde. Embora seja extremamente reconhecido em Portugal, não transporta isso para a sua vida pessoal, é alguém que é afável, cuidador das pessoas que estão à sua volta. Acabamos por criar laços fora do trabalho, a amizade ficou. É alguém que tenho o privilégio de ter como amigo.

Mas a vossa passagem pelo Nacional não foi muito feliz. Porquê?
Os resultados inicialmente não estavam de acordo com os objetivos do clube, que era voltar à I Liga. Acho que não estávamos a conseguir porque tínhamos um plantel de muita qualidade, é verdade, mas com muitos jogadores com contratos vindos da I Liga, alguns deles até impedidos de poder treinar, porque havia a possibilidade de saírem do clube e diminuir a folha salarial. A diferença de orçamento da I para a II Liga é acentuada. Havia jogadores que queriam, em função do seu perfil, continuar a sua carreira na I Liga. Houve uma mistura no plantel de jogadores que tinham muita qualidade, mas não tinham motivação para estar na II Liga e isso foi difícil de gerir naquela fase inicial.

Também deve ter havido alguma pressão dos adeptos em relação ao Costinha…
É verdade que o Costinha tinha descido da I para a II Liga com o Nacional, mas também tinha subido o Nacional da II à I Liga. Havia uma divisão relativamente a ele. Mas, acima de tudo, acho que a causa de não termos tido o sucesso que desejávamos estava mais relacionado com esta parte do plantel que não estava a adaptar-se à II Liga.

O técnico português foi adjunto e Costinha no Nacional da Madeira em 2021/22
O técnico português foi adjunto e Costinha no Nacional da Madeira em 2021/22
D.R.

Quando se deu a chicotada, deitou as mãos à cabeça?
Não, o Costinha teve uma reunião com o presidente, entrou no nosso gabinete e disse que não ia continuar, eu comecei a arrumar as minhas coisas, porque independentemente da vontade do clube eu não ia ficar. Entrei com o Costinha e sairia sempre com o Costinha. Fiquei um pouco desiludido, porque a experiência durou muito pouco e eu vinha de um clube onde tinha acabado de ganhar uma Taça. Mas estava muito agradecido ao Costinha por me ter convidado. Foi a minha primeira experiência no futebol profissional em Portugal, enquanto técnico. Já tinha tido como diretor-desportivo, no FC Famalicão. Estava mais ou menos tranquilo porque tinha ainda um par de meses de contrato que me permitiam ficar em casa a escolher tranquilamente aquilo que pudesse vir a seguir.

Na altura pensava que pudessem surgir outras propostas em Portugal?
Em Portugal não. Acreditava que pudessem surgir com o Costinha. Ele também manifestou a ideia de que queria que eu continuasse com ele, mas tinha esta expectativa de poder voltar ao estrangeiro, nomeadamente a África, porque era o contexto onde eu mais tinha trabalhado e tinha tido sucesso. Já tinha dois títulos e três finais da taça, em três países diferentes, e são poucos os treinadores portugueses que têm três finais da Taça em três países diferentes. Por isso achava que o meu futuro iria passar novamente por África.

Mas não foi isso que aconteceu. Acabou por ir parar à Índia. Como aconteceu?
Quando saí do Nacional da Madeira acabei por ter o episódio mais difícil da minha vida. O meu pai é diagnosticado com uma doença e foi-me dito que não teria muitos meses de vida. Fiquei sem saber muito bem o que fazer, qual o próximo passo a dar. Estava a remodelar uma casa, tinha necessidade de estar por Viseu durante algum tempo para resolver este projeto de vida e havia a questão do meu pai. O meu pai nunca quis saber o que o futuro lhe reservava, só sabia que tinha uma doença grave, nunca perguntou aos médicos, nem a mim, quanto tempo de vida tinha. Ele estava sempre a perguntar-me quando é que eu ia para um novo projeto. Uma das médicas dele disse-me para prosseguir com a minha carreira, porque ele tinha muito orgulho em mim e na minha carreira, e não devia prender-me por ele. Acabei por aceitar um dos convites que tive, através de um português que era diretor do Sreendi FC, da Índia. O meu pai faleceu quando eu estava na Índia. Fez há pouco tempo dois anos. Tive a informação que tinha piorado, viajei, e ainda consegui estar com ele. Faleceu comigo no quarto.

Em 2022/23, Carlos assumiu a liderança do Sreenidi FC, da índia. Na foto com os adjutntos
Em 2022/23, Carlos assumiu a liderança do Sreenidi FC, da índia. Na foto com os adjutntos
D.R.

Quais foram as primeiras impressões quando chegou à Índia?
Caótico. Barulho por todo o lado, buzinas que não param, aliás, os veículos longos têm quase todos uma placa atrás a dizer “por favor buzine”; eles utilizam a buzina para sinalizar a marcha. Muita gente, obviamente, a cidade para onde fui é uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes, mais do que Portugal.

Está a falar de Hyderabad?
Sim, é uma cidade tecnológica, recente, tem sediadas grandes multinacionais como a Google e a Amazon. É uma cidade moderna, que também tem a parte histórica. Foi das melhores experiências que tive na vida, talvez o país onde gostei mais de trabalhar, porque a parte cultural é marcante.

Também tem muita pobreza.
Muita mesmo. O contexto africano acabou por me ajudar a adaptar, por esse motivo, porque é de contrastes, embora a sensação que tive durante os dois anos na Índia é que a classe média de lá vive melhor do que a classe média portuguesa, atualmente. Têm salários mais baixos, é verdade, mas o custo de vida também é muito mais baixo e eles acabam por ter um nível de vida interessante.

Quando diz que o marcou muito culturalmente, refere-se em concreto a quê?
Tem a ver com os mil e um festivais que eles têm. A filosofia de vida. Tive mais do que um indiano a dizer que viviam para ser felizes e para fazer o próximo feliz. As pessoas ligam-se muito entre elas. Era muito giro ver ao final do dia, no condomínio onde morava, homens e mulheres sentados em círculo, descalços, na relva, à conversa, sem telemóveis. Não estão ligadas às redes sociais e àquilo que hoje em dia nos ocupa tanto aqui na Europa e em Portugal. Crianças sentadas nos bancos de jardim a meditar. Este tipo de coisas. Gostei da alimentação também. Mas principalmente os festivais, porque tudo tem um motivo para ser celebrado.

O técnico português a dar um palestra à sua equipa da Índia, no relvado
O técnico português a dar um palestra à sua equipa da Índia, no relvado
D.R.

E do futebol, gostou?
O nível do futebol da Índia comparado ao português é de facto mais baixo, mas houve muitos portugueses que acabaram por passar na Índia na fase final da carreira. O Hélder Postiga, Simão Sabrosa, Miguel Garcia. Recentemente, treinadores também, o professor Neca e o Jorge Costa estiveram por lá. E durante muito tempo a Índia fez aquilo que a Arábia Saudita está a fazer neste momento. Quando foi criada a Superliga, há cerca de 10 anos, houve um investimento brutal e os clubes acabaram por contratar jogadores de grande nível. Recordo-me do Lúcio, campeão do mundo pelo Brasil. Mas a Índia percebeu que não era esse o caminho. Acabavam por pagar bem a alguns jogadores estrangeiros, mas isso não desenvolveu o futebol local. Neste momento investem também muito dinheiro na formação, com academias. A própria FIFA, no ano passado, abriu uma academia, com o Arsène Wenger como responsável.

Como é o jogador indiano?
O nível médio do jogador indiano está abaixo do nível da II Liga, em Portugal. Mas é um jogador que tem qualidade técnica e taticamente também são interessantes. O grande desafio é que até há dois anos as ligas eram fechadas, não tinham subidas nem descidas. Precisamente até ao ano em que eu fui para lá. A FIFA acabou por castigar, entre aspas, o futebol indiano, proibindo clubes e seleção de participarem em competições internacionais até se organizarem novamente e comprometerem-se a que houvesse subidas e descidas. Acho que o futebol indiano vai melhorar, mas há um caminho longo a fazer porque os quadros competitivos da formação são claramente deficitários. Por exemplo, os miúdos da nossa equipa de sub-23 tinham um par de jogos significativos por ano. A Índia ainda precisa de caminhar na organização e no desenvolvimento dos quadros competitivos.

Nas duas épocas em que esteve no Sreenidi FC, ficou sempre em 2.º lugar. O contrato era só de dois anos?
Não, era de três. Costumo dizer que o clube onde estive era um clube-bebé porque tem sete anos e contratou um diretor-técnico português, o Fábio, há cinco anos. Foi ele que criou todo este projeto no clube. Começou por ter primeiro apenas equipas de formação. As suas raízes vêm do facto do presidente ter um colégio onde também existe o curso de Desporto e o filho, por gostar de futebol, pediu ao pai para criar um clube porque fazia sentido os melhores alunos desse curso poderem estar no futebol. O clube tem uma academia com três relvados, tem o estádio muito próximo da casa do presidente e desse colégio. O colégio acabou por ceder algum espaço para se criar o dormitório do clube, onde estão os miúdos da formação. O clube já tem 50 miúdos de todo o país, que dormem, comem e fazem os seus estudos ali. E os seniores também ficam ali, exceto o staff, estávamos num condomínio. Teve um treinador espanhol no seu primeiro ano de vida da equipa sénior. Creio que ficaram em 4.º lugar. Depois quiseram um treinador português porque o diretor técnico é português e acabei por ser o escolhido.

Carlos recebido numa cerimónia de boas vindas, em Calcutá
Carlos recebido numa cerimónia de boas vindas, em Calcutá
D.R.

Histórias da Índia, o que tem para contar?
Aquelas coisas conhecidas, as vacas na rua, a pararem nos parques de estacionamento como se fossem um carro e ninguém lhes toca. É um animal sagrado. Em termos pessoais, tive dengue, que coincidiu com a altura do festival do Diwali. Inclusive, o meu team manager já me tinha oferecido uma kurta, de modo a que me vestisse da forma tradicional para esse festival. Mas não consegui celebrar o festival, que é se calhar o maior festival indiano, porque estive de ficar em casa 15 dias.

O que mais o marcou?
Os contrastes ao nível da sociedade. Andando pela Índia percebemos que as pessoas são muito diferentes de região para região. Na fronteira com a China Norte, parecem mesmo chineses, não parecem indianos. Eu tinha muitos jogadores dessa região. No futebol notamos muito isso, por exemplo, os defesas centrais eram quase todos da região de Kashmir ou da zona de Punjab, porque são mais altos. Os da zona da fronteira com a China são mais baixinhos, mais rápidos, mais perna-grossa, normalmente são extremos ou avançados. Na zona de Kashmir, a grande maioria da população é muçulmana, não são hindus, e muitos deles não querem ser indianos, querem ser paquistaneses, porque estão na fronteira com o Paquistão. É uma zona fortemente militarizada e é assustador, porque quando se aterra em Kashmir, temos a sensação de que estamos metidos num filme de guerra, há tanques e militares em todo o lado. Há uma preocupação das autoridades em perceber quantos estrangeiros estão no clube e vão estar na cidade. Alertam-nos logo para não sairmos à rua, porque podemos ser alvo de sequestros, como moeda de troca para alguma coisa. Estão sempre militares no hotel connosco e não podemos sair à rua sem ser acompanhados por eles.

Não continuou na Índia porquê?
Porque surgiu a oportunidade de ser treinador principal de uma liga profissional em Portugal, no CD Mafra, da II Liga.

Carlos (à direita) com elementos do seu staff no Festival das Cores, na Índia
Carlos (à direita) com elementos do seu staff no Festival das Cores, na Índia
D.R.

Uma experiência que durou pouco. O que não correu bem?
O planeamento para a elaboração do plantel, por exemplo, passou-me um pouco ao lado. Quando abracei este desafio o plantel estava praticamente desenhado e vincadamente direcionado para potenciar jovens, muitos deles vindos de África. Muitos dos critérios que levaram à minha escolha tinham a ver com o meu trajeto pelo continente africano e por trabalhar com jovens. Mas em janeiro senti que o CD Mafra estava a alterar ligeiramente esse projeto.

Porquê?
Porque eventualmente as pessoas perceberam que este tipo de projeto faz sentido, mas alicerçado também com base em jogadores que têm alguma experiência da II Liga. O que falhou na nossa passagem para o CD Mafra foi o contexto. Quando chegámos não era um contexto muito favorável naquilo que era o perfil dos jogadores, não tinha a ver com a qualidade deles, porque são jovens com muita qualidade, mas era importante que pudessem também ter uma base de desenvolvimento com mais jogadores com alguma experiência da II Liga. Foi aquilo que o CD Mafra tentou fazer neste mercado de janeiro, reformular o plantel nesse sentido. Para além disso, também apanhámos o CD Mafra no desenvolvimento das infraestruturas. O estádio Mário da Silveira levou um relvado, acabámos por não ter as melhores condições de treino para desenvolver estes miúdos. Em todo o caso, estávamos a fazer um pouco melhor do que aquilo que é neste momento a posição do CD Mafra.

Sentiu que não lhe foi dado tempo suficiente?
Sim. Em Portugal há muito disto, os treinadores têm pouco tempo para desenvolver as suas ideias. Nenhum treinador consegue desenvolver as suas ideias num par de meses e não nos foi concedido mais tempo. Mas fica a gratidão de termos tido o privilégio de estar num clube em Portugal, da II Liga, que nos deu a oportunidade também de nos mostrarmos no país onde queremos e gostamos de desenvolver a nossa atividade.

O técnico português a falar antes da Supertaça da índia
O técnico português a falar antes da Supertaça da índia
D.R.

Quais são as suas perspetivas agora?
Estou a analisar aquilo que vai chegando. Nestes três meses apareceram algumas abordagens de fora. Em Portugal ainda não surgiu nada concreto. Por vezes surge uma ou outra conversa, mas só isso. Recebi uma proposta para o Brasil, mas do ponto de vista desportivo não achei que fosse o que queria agora.

O que pretende presentemente?
Quero ir de facto para um país como o Brasil, gostava de ter a experiência num outro continente, é algo que me falta. Já tenho dois títulos, mas nunca fui campeão e quero ser campeão. Pretendo um clube que me permita ser campeão ou um clube que me permita trabalhar num outro continente, no sul-americano, ou então ir para uma liga de um nível competitivo que acho que mereço em função do currículo que fui construindo. Pode passar também pela Ásia, porque de facto há campeonatos na Ásia que me permitem continuar a desenvolver a minha carreira e se calhar lutar por títulos.

África está fora de hipótese?
Não, mas não são todas as ligas que me aliciam. Estou numa fase da carreira que gostava de, se fosse para África, ir para o norte ou eventualmente para a África do Sul, onde estão as melhores ligas do continente africano. Se for para a América do Sul, também não são todos os países, mas a grande maioria dos países pode ser interessante. Se for a Ásia, que sejam países que tenham ligas competitivas, onde os estádios tenham público, porque é algo que já sinto saudade.

Refere-se a que parte da Ásia?
Ligas como a da Indonésia, da Tailândia, da Malásia, são interessantes. A Superliga Indiana também. Tive o convite recentemente para regressar ao clube onde estava, esteve lá o português Rui Amorim, que saiu há duas ou três semanas. O clube contactou-me para regressar, mas não chegámos a uma base de entendimento. Há ainda a Arábia Saudita, mas teria de ser II Liga porque não tenho currículo para entrar na I Liga. E depois há aqueles clubes de países como o Irão, ou o Bahrain, o Catar, os Emirados. Ligas deste género que podem ser interessantes para continuar a carreira. Ainda sou jovem, fui vice-campeão e falta-me ser campeão nacional. E depois tenho um objetivo de carreira, que é um dia poder chegar a uma seleção. Já tive uma ou outra abordagem nesse sentido, de seleções africanas. Sinto que o meu currículo para uma seleção africana de nível médio, já é interessante. Mas na hierarquia, em primeiro lugar, obviamente, ser campeão.

Quem são os seus treinadores de referência?
O José Mourinho, porque quando comecei como treinador estava no topo. Ele foi muito importante para os treinadores portugueses. Além do Carlos Queiroz e do Artur Jorge, que no seu tempo também abriu portas no estrangeiro. Mas o José Mourinho acabou por marcar a minha geração de treinador. Por tudo aquilo que representou e ainda representa. É uma grande referência não só em termos de liderança, mas da metodologia, foi um dos principais impulsionadores da periodização tática. Depois há alguns treinadores que gosto pela ideia de jogo que têm. Gosto muito da ideia de jogo do Pep Guardiola, que neste momento não está a atravessar um grande momento, e do De Zerbi, com quem tive o privilégio de estar uma semana, em Kiev. Na altura estava no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia e estive lá uma semana a ver como trabalhava. O Costinha também foi.

Foi a única vez que assistiu a treinos de grandes treinadores?
Quando estava a começar a carreira tive uma ligação muito grande com o Sr. Aurélio Pereira, do Sporting. Comecei no Penalva do Castelo e colaborei com o Sporting. Inclusive o Tobias Figueiredo, que foi nosso atleta no Penalva do Castelo, foi nessa altura para o Sporting. Em função disso, acabei por criar uma relação muito forte com o Sr. Aurélio Pereira e permitia-me, por vezes, observar treinos na Academia. Agora vou partilhando ideias com alguns colegas, não só ao nível dos exercícios, alguns deles são professores universitários e vão-me fornecendo estudos interessantes nas diversas áreas, principalmente na área da teoria da aprendizagem.

Estaria disposto a ser adjunto de novo?
Não faz parte do meu projeto de carreira neste momento, mas dependia claro de quem fosse. Não sei se o Costinha vai voltar a treinar e se algum dia volta a convidar-me.

Durante um treino no CD Mafra
Durante um treino no CD Mafra
D.R.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira até agora?
Na Etiópia.

Já deu para investir?
Só na minha casa.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não sou muito de gastar dinheiro em bens, mas foi num carro, um BMW 420, não é extraordinário, mas é um carro bom.

Tem algum hobby?
Ouvir música.

Tem algum género preferido?
Pela minha passagem em África, o género africano, principalmente a música angolana, gosto muito. E gosto muito de música brasileira e de jazz.

Qual o maior arrependimento que tem na carreira?
Não tenho.

E a maior frustração?
Não ter sido campeão na Etiópia.

O momento mais feliz na carreira?
Se calhar o primeiro título, a Supertaça na Etiópia.

Carlos Vaz Pinto esteve até outubro de 2024 no CD Mafra
Carlos Vaz Pinto esteve até outubro de 2024 no CD Mafra
D.R.

É um homem de fé?
Sou. Não sou tão praticante como devia, mas tenho os meus momentos de reflexão, tenho os meus santos protetores, que me acompanham por todo o lado. Tenho uma bolsinha que a minha mãe me preparou quando viajei a primeira vez para Angola, que viaja comigo para todo o lado, onde tenho medalhinhas, textos, esse tipo de coisas. Foi preparado pela minha mãe, mas fui adicionando uma ou outra medalha que me diz muito. Sou muito fiel a Maria e a São Miguel de Arcanjo, acompanham-me.

E superstições?
Não. A questão da camisa preta é gira. Muitas vezes acabo por me ver vestido de preto e a pensar nisso. Na Índia, partilhei a história da camisa preta com o meu team manager e ele fazia questão, embora ele nunca vestisse preto porque lhe dava azar a ele, que eu fosse sempre de preto. Às vezes o adversário aparecia com camisola preta e ele fazia pressão junto dos árbitros para que eu pudesse estar de preto também.

Qual foi o país onde apanhou as piores arbitragens?
Em Angola. Não pela qualidade, mas muitas das vezes pela maldade. Porque sentíamos que de facto éramos prejudicados deliberadamente numa ou outra situação.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Acompanho. Não pratico. Acompanho muitas modalidades, desde o futsal, o andebol, gosto de hóquei em patins, mas não acompanho tanto como gostaria, só acompanho mais a seleção nacional, não acompanho campeonatos. Gosto de Fórmula 1 também.

O técnico lamenta não ter tido mais tempo no CD Mafra para desenvolver as suas ideias
O técnico lamenta não ter tido mais tempo no CD Mafra para desenvolver as suas ideias
D.R.

Se pudesses escolher qual o clube de sonho que um dia gostava de treinar?
Real Madrid.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
O Sérgio Mourato, que hoje é meu compadre. O Nando Dias, o Rui Almeida, o Seixas, fiz várias. Felizmente muitas.

Alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Não.

Que opinião tem do VAR?
Acho que é importante, mas ainda não está completamente afinado.

Coleciona alguma coisa?
Sim, tudo o que está relacionado com a minha carreira desde que comecei a jogar. Tenho um espólio grande. Inclusive aquela história de ir à seleção nacional. Nessa altura fui de comboio. O meu pai deixou-me na estação em Mangualde, com 15 anos, e um amigo meu de Viseu, que também foi convocado na altura, apanhou na Estação de Nelas. Fomos de comboio até Santa Apolónia, almoçámos num restaurante que havia dentro da estação e eu tenho desde o bilhete do comboio, ao recibo do almoço. Tenho o fax da convocatória da seleção que foi enviada para o Académico de Viseu. Além das muitas camisolas enquanto jogador, enquanto treinador, braçadeiras de capitão de miúdo, as medalhinhas todas, dos torneios todos.

É feliz no que faz?
Sou muito feliz. Sou um apaixonado pela profissão.

O que é mais difícil na profissão de treinador?
Andar com a casa às costas. Claramente. É muito difícil porque não podermos levar família, nem amigos, nem sabores, nem cheiros, nem o nosso lar.

Uma última história, tem?
Tenho uma no meu primeiro clube em África, o Recreativo do Caála. Havia uma comunidade portuguesa assinalável na cidade, com quem fomos fazendo amizade. Um dos grupos com quem o meu staff fez amizade era um conjunto de enfermeiros que estavam lá a dar formação. Eles já iam ver os nossos jogos. Muitas vezes reuníamos para fazer uma churrascada, um lanche ou simplesmente beber uma cerveja. A seguir a um dos jogos marcamos um lanche, e eu acabei por não ir porque estava cansado. Mas acabei por ser chamado porque se passou algo com alguma gravidade. Nesse grupo havia um ou outro angolano, tanto do meu staff como dos que trabalhavam na área da saúde. Nesse lanche havia um bolo e houve alguém do grupo, nunca cheguei a saber quem foi, que colocou no bolo umas ervas, ou seja, drogas. No final do lanche, um dos elementos do meu staff já estava em casa quando começou a sentir-se muito mal, com falta de ar. Ligou-me, fui para casa dele, vieram enfermeiras desse grupo e acabamos por levá-lo ao hospital militar. Fiquei aflito porque ele já estava a cair nos meus braços. Acabaram por chamar um médico cubano que constatou que de facto foi alguma droga em forma de erva que provocou aquilo. Foi uma brincadeira que podia ter acabado mal.

Mais ninguém teve sintomas?
Houve mais uma pessoa que teve sintomas, mas não foi tão grave. Os médicos passaram uma prescrição médica de um medicamento que não havia no hospital, ainda tivemos de andar de clínica em clínica à procura. Nos dias seguintes, mesmo com a medicação, este elemento do meu staff não conseguia parar, parecia que as pernas estavam ligadas à corrente. Uma brincadeira que podia ter acabado muito mal.

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António Oliveira

Spoiler

“No Irão conheci verdadeiramente o meu pai. Tive conversas que nunca tinha tido. Ele disse-me: 'Foi pena não te ter encontrado mais cedo'”

Após deixar o Corinthians, António Oliveira aguarda há sete meses por um projeto que o convença a regressar ao ativo. O filho de Toni explica o porquê e como deixou de ser jogador, conta que chegou a jogar na equipa principal do Benfica e faz revelações sobre o pai. Nesta parte I do Casa às Costas, o treinador de 42 anos recorda os anos no Tractor Club, já como adjunto de Toni, fala da passagem pela Eslovénia e conta várias histórias do Benfica, do Irão e do Kuwait

Nasceu em Lisboa. É filho de Toni, antigo capitão e treinador do Benfica que, curiosamente, deixou de ser jogador precisamente no ano em que o António nasceu, 1982. Está correto?
Está. Curiosamente também o meu pai no dia do meu nascimento não estava presente.

Porquê?
Estava a tirar o curso de treinador, na Alemanha. Não sei de uma forma rigorosa dizer passado quanto tempo é que ele me conheceu.

A sua mãe o que fazia profissionalmente?
A minha mãe, a partir do momento em que foi mãe, basicamente cuidou dos filhos, que é um trabalho a tempo inteiro. Nós, com a nossa profissão que nos leva a estar muitas vezes ausentes, acabamos por perceber que ela, tal como a minha mulher, acabam por ser pai e mãe ao mesmo tempo. Tratam dos filhos, educam-nos, vão levá-los à escola, aos treinos, a outras atividades, dão de comer, vão deitá-los... Ser mãe é um emprego bastante difícil.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã cinco anos mais velha. Nasceu no dia 17 de fevereiro de 1977, no dia do nascimento do meu primeiro filho, que nasceu a 17 de fevereiro de 2002.

António Oliveira em bebé
António Oliveira em bebé
D.R.

Foi uma criança tranquila ou deu muitas dores de cabeça?
Andei sempre debaixo das saias da minha mãe, também porque passei muito mais tempo com a minha mãe do que com o meu pai que, entretanto, se tornou treinador.

Quando toma consciência de quem é o seu pai?
Bastante cedo porque eu ia aos jogos com a minha mãe para ver o meu pai. Independentemente se fosse no banco, ou não, o meu pai estava ali na função, num trabalho, a representar uma instituição e um clube. E eu ia torcer por ele, eu não ia torcer pelo clube, eu ia torcer por ele. Depois, claro, as coisas acabam por ficar ligadas umas às outras. Acima de tudo comecei a perceber o respeito, o carinho e o ídolo que ele representava. Que estava ali um ser humano como os outros, uma pessoa comum como as outras, mas que representava muito.

Começou a jogar futebol com quantos anos?
O meu primeiro treino no Benfica foi aos oito anos, no campo pelado número 5, do Benfica, junto às piscinas, que já não existem. Ainda me recordo que tinha de sair mais cedo da escola para chegar a tempo ao treino, o meu pai atrasou-se um bocadinho para ir buscar-me e comecei a chorar. A ansiedade era tanta que gerou essa emoção.

Recorda-se do treino?
Recordo. Fiz um carrinho, um tackle no pelado e fiz uma ferida enorme. Limparam-me com éter, colocaram Betadine e um penso enorme. Eu até fazia questão de mostrar o penso, senti que era jogador [risos].

António de raquete na mão, com o pai, Toni, na praia
António de raquete na mão, com o pai, Toni, na praia
D.R.

Em 1993/94 o Benfica foi campeão, era o seu pai o treinador. Lembra-se de algum momento marcante dessa época?
O jogo da consagração foi em casa, com mais de 120 mil pessoas, no estádio antigo, contra o Vitória de Guimarães. Ficaram empatados a zero, o Benfica já era campeão, fui apanha-bolas nesse jogo e estava mesmo colado ao meu pai. Atenção que eu, mais do que benfiquista, percebi que era tonista. Tanto sou tonista, que o meu pai vai para outros clubes a seguir e eu torcia por essas equipas, por causa do meu pai. Era “Toni FC”, ponto final. Mas recordo-me também um Benfica-FC Porto, que ficou 2-0, com golos de Rui Águas e Rui Costa. As pessoas conheciam-me e no final do jogo deixaram-me passar para a zona dos balneários. Entrei no balneário, onde estavam Vítor Paneira, Mozer, o saudoso Neno, Schwarz, Rui Costa, João Pinto, os ídolos da altura. Meti-me com os jogadores que estavam na farra e, entretanto, o meu pai entra no balneário. Vê-me e diz: “O que é que tu estás aqui a fazer?”. E de uma maneira “simpática” convidou-me a sair. Eu fui logo dali para fora a chorar para junto da minha mãe. O meu pai obviamente não fez aquilo por mal, ele também ainda estava com a adrenalina do jogo, mas os jogadores depois daquela atitude dele resolveram recompensar-me.

De que forma?
Eu gostava de pedir tudo, as meias, calções, camisolas, para ficar com recordações dos ídolos. E, talvez com pena de mim, mandaram-me duas camisolas, do João Pinto e do Vítor Paneira, como recompensa. Ainda hoje guardo essas camisolas, como outras, com um carinho enorme.

Fez toda a formação no Benfica. Sempre como defesa?
Não. A minha primeira posição foi como ponta de lança. No meu primeiro jogo pelo Benfica até fiz dois golos. Foi no torneio São João de Brito. É evidente que naquelas idades temos de experimentar todas as posições. Iniciei como ponta de lança, depois vim por aí abaixo, fui médio centro, o chamado trinco, depois fui para central. Mas quando era pequenino, ainda antes de começar a treinar no Benfica, tive a maluquice de querer ser guarda-redes. Tanto que tinha os equipamentos todos de guarda-redes. Gostava que o meu pai, quando chegava a casa, fizesse alguns exercícios para eu fazer aqueles voos que via os guarda-redes fazer [risos]. Era fã do Silvino.

António com o pai
António com o pai
D.R.

Gostava da escola?
Não era o maior fã da escola, mas percebia a responsabilidade e a importância dela. Os meus pais estavam atentos e eu sentia que tinha a responsabilidade de ter os serviços mínimos para com eles.

Na adolescência, como se projetava no futuro?
Sempre tive o sonho de ser jogador de futebol e nessas idades temos sonhos muitas das vezes até desmedidos. A partir do momento em que estamos no Benfica, o que queremos é chegar à equipa principal do Benfica. Esse era o meu grande objetivo, o meu sonho.

Foi algo que nunca aconteceu. Tem ideia porquê?
Cheguei a estrear-me pela equipa principal do Benfica, num jogo em Famalicão. Era um particular, mas cheguei à equipa principal do Benfica. O meu pai era treinador. Entrei a 15 minutos do fim, para médio centro.

Estava muito nervoso?
Muito, muito ansioso. Era o número 49, nas costas escrito Toni. É um momento que guardo com muita alegria, muita saudade e muito orgulho também. Fui aquecer durante a segunda parte toda, já estava em ebulição e só pensava: ele não me põe? [risos]

António começou a jogar no Benfica com oito anos
António começou a jogar no Benfica com oito anos 
D.R.

Acha que o facto de ser filho do treinador jogava contra si?
É possível. O meu pai é uma pessoa muito reservada, nunca experimentei confidenciar isso com ele, mas também não o quero pôr desconfortável. Acima de tudo foi um dia que nos marcou, fica na nossa história e isso orgulha-nos imenso.

Nessa altura já estava na equipa B?
Estava. Faço dois anos de equipa B até ir para o SC Braga, em 2003/04.

Não continuou no Benfica porquê?
Porque o contrato terminou e cada um seguiu os seus caminhos. Não há interesse do Benfica e também temos de perceber se existe espaço para continuarmos ou não.

Ainda estudava?
Fiz até ao 12.º ano e quando vou para Braga não vou logo para a faculdade porque quis seguir o meu sonho e ver até onde dava. Tinha de perceber se o futebol, enquanto jogador, podia dar-me a independência para prosseguir a minha vida. Nessa perspetiva terminei o 12.º ano, vou para Braga, depois fui para o Santa Clara e a seguir é que decidi regressar à minha cidade e aí, sim, aos 23 anos, inscrevi-me na faculdade e foi uma das decisões mais felizes da minha vida.

Dos treinadores que teve na formação do Benfica, qual o marcou mais?
Não quero ser injusto, mas o Fernando Chalana é uma pessoa que me marcou muito. Ao longo do meu percurso na formação do Benfica não foi tudo um mar de rosas e ele, em alturas mais desafiantes, foi uma pessoa muito importante, além de ser um agregador. Fui campeão nacional de juniores pelo Benfica com ele a treinador. Mas também tenho de falar no Bastos Lopes, do José Morais. Não me posso esquecer do meu primeiro treinador, o Arnaldo Teixeira. E podemos falar do José Paisana, do Arnaldo Cunha.

Com a irmã
Com a irmã
D.R.

Quais foram as maiores amizades que fez?
Um deles é o meu padrinho de casamento, o Ruben Cruz. O Ricardo Pires, que estudou comigo desde os oito anos e é hoje psicólogo do Benfica. Mas há outros. Ainda recentemente veio aqui a casa alguém que também quer iniciar a sua carreira como treinador, e que foi o meu colega, o Joel Alves. Há um conjunto de jogadores, não quero estar a ser injusto, foram muitos.

Durante os anos de formação no Benfica, o seu pai foi-lhe dando sempre conselhos?
Sim. Há uma coisa que ele disse e que nunca mais me esqueci: “Não desistas dos teus sonhos, sempre olhando para o futuro”. Ele nunca me arranjou clubes, arranjou-me faculdades. Foi sempre uma preocupação dele. E é hoje uma preocupação também que tenho com os meus filhos. Arranjar conhecimento, arranjar ferramentas, bases sustentáveis para um futuro cada vez mais desafiante. É por isso que digo que foi uma das melhores decisões da minha vida, ter ido para a faculdade. Continuei a jogar na minha cidade, tirei a minha licenciatura, o meu mestrado, e a par disso fui fazendo os cursos de treinador. O meu primeiro nível de treinador foi feito quando eu ainda jogava no Benfica.

Quando assinou o primeiro contrato profissional?
Aos 16 anos, com o Benfica.

Qual o valor do seu primeiro ordenado?
€1250.

Houve algo especial que quisesse comprar?
Não. Naquela altura nem educação financeira tinha. E ainda hoje sou uma pessoa poupada. Aquele dinheiro dava para fazer tudo aquilo que eu quisesse com os meus amigos, porque eu tinha uma almofada grande, vivia com os meus pais.

António com os pais
António com os pais
D.R.

Quando começaram as saídas à noite?
A minha primeira saída à noite foi com 16 anos. Fomos a um bar/discoteca, em Santos, o Álcool Puro. Era a Lady's Night. Juntavam-se ali os jogadores daquela idade do Benfica e do Sporting. Mas nunca fui um fã incondicional da noite. Gosto muito mais de estar num local mais recatado, com música ambiente, onde posso conversar com as pessoas.

E namoro sério? Já havia?
Nunca fui de grandes namoros.

Mas foi pai muito cedo, aos 19 anos. Foi um acaso?
São paixões que vivemos de uma forma muito intensa e que acabou por gerar o primeiro grande amor da minha vida, o António Simão. Todos os nomes dos meus filhos começam por A. É claramente devido ao meu nome e do meu pai. O meu primeiro filho chama-se António, o segundo Afonso e o terceiro Adrien.

Naquela altura ainda vivia em casa dos pais?
Sim.

Como eles reagiram quando receberam a notícia de que ia ser pai?
É o mesmo que o meu filho chegar agora aqui a dizer que vai ser pai. Vou-lhe dizer que se calhar não é a melhor idade para isso, porque as pessoas têm de viver a vida primeiro. Ainda não tinha vivido o suficiente da vida para poder constituir família. Mas ser pai fez-me crescer muito mais rápido e ganhar outras responsabilidades que não tinha.

Quando assinou pelo SC Braga, a mãe do seu filho e o seu filho foram viver consigo para Braga?
Sim.

António fez toda a formação de jogador no Benfica
António fez toda a formação de jogador no Benfica
D.R.

Como foi essa experiência no SC Braga B?
Foi uma cidade e um clube onde gostei muito de estar. Fui muito bem recebido e o calor daquela gente de Braga é muito especial. Deixou-me uma marca grande. As coisas correram muito bem do ponto de vista desportivo.

Chegou a estrear na equipa principal do SC Braga?
Não. Treinava sempre com a equipa principal e jogava ao fim de semana pela equipa B.

Porque no final da época acabou por sair para o Santa Clara?
Terminei o meu contrato e tinha a ambição de ir para outro patamar. Houve outras situações, da Académica havia muitas conversas, mesmo antes de terminar a temporada as coisas estavam praticamente concretizadas para eu dar o salto para a I Liga, mas não se concretizou. O Santa Clara acabou por ser o recurso ou a alternativa. Abracei esse projeto, mas já fui sozinho para os Açores, o relacionamento com a mãe do meu filho tinha terminado.

Como correu no Santa Clara, que estava na II Liga em 2004/05?
Não foi das melhores experiências, não pelo clube, é um clube com história, uma cidade e uma ilha fantástica, mas do ponto de vista desportivo, individual e coletivo, as coisas não foram ao encontro daquilo que eram as minhas expectativas. Quando saí do Benfica o meu pai disse-me que ia perceber que o futebol não é um mar de rosas. E ali experimentei muitas nacionalidades, onde se criaram vários mini-grupos, dentro do grupo. Esses mini-grupos podem ser saudáveis, mas ali não foram. As relações criadas dentro do grupo foram mais maléficas do que benéficas para o desenrolar da temporada. Comecei a ver situações que não estava habituado.

Pode dar exemplo de uma situação?
Tive três treinadores, vi situações que entendia não serem saudáveis para o grupo e para o sucesso. Cheguei a perguntar a um colega o que ia fazer depois do futebol? Ele disse que não sabia e aquilo deixou-me a pensar muito. Comecei a perceber também o estilo de vida que cada um levava. O Santa Clara tinha descido da I para a II Liga, pagava bons salários. Eu via que a vida daquelas pessoas era chapa ganha, chapa gasta. Houve muitos episódios que me deixaram a pensar que o futebol não era tudo aquilo que eu eventualmente tinha vivido até então e que não me estava a identificar. Assistir àquilo fez-me querer voltar à minha cidade e inscrever-me na faculdade.

A equipa de juniores em que António Oliveira (5.º atrás a partir da direita) jogou
A equipa de juniores em que António Oliveira (5.º atrás a partir da direita) jogou
D.R.

Tirou o curso de Educação Física?
Sim, na Universidade Lusófona de Lisboa, no ramo do treino desportivo.

E regressou a casa dos pais?
Sim. Até conhecer a minha mulher, vivi em casa dos meus pais.

Quando conheceu a sua mulher?
Conheci a Márcia aos 27 anos, em 2009, estava a jogar no Oriental onde, aliás, joguei enquanto fiz a faculdade e praticamente até final da carreira de jogador. Ainda existe uma incursão no Fabril do Barreiro, no último ano.

Histórias engraçadas de balneário que tenha vivido, recorda-se de alguma?
Eu adorava o ambiente de balneário, era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Sempre fui alguém que se entregou. Lembro-me que, no Benfica, com o Ricardo, fazíamos vários vídeos a imitar as vozes e os comportamentos dos treinadores. Recordo-me que uma vez tinha jogo às três da tarde contra o Sporting, era um jogo da fase final do campeonato nacional de juniores e jogávamos em casa, no campo número três. Tínhamos de lá estar às 13h45. Eram 14h e eu, nada. O José Moreira ligou-me. Eu tinha adormecido. Quando vejo as horas, pus-me a andar, no carro que era do meu pai. Comecei a acelerar e numa das curvas bati com o carro, com a jante na lateral e partiu-se o eixo do carro.

Falhou o jogo?
[Risos] O volante ficou todo desregulado, mas mesmo assim cheguei ao estádio da Luz, com o carro quase todo arrebentado. Estava o Chalana a dar a palestra, eu peço desculpa a todos pelo atraso e pensei, já não vou jogar. O Chalana vira-se para mim: “Toni, equipa-te e vai aquecer”. Foi um alívio e também uma demonstração de confiança, porque nunca fui de chegar atrasado, antes pelo contrário.

O que disse o seu pai quando soube?
Acho que ficou mais preocupado com o carro do que com o atraso [risos]. Mas isto tudo para dizer que também aprendi que na vida temos direito a uma oportunidade. Lembrei-me de outra coisa engraçada.

O filho de Toni (à esquerda) durante um jogo pelos juniores do Benfica
O filho de Toni (à esquerda) durante um jogo pelos juniores do Benfica
D.R.

Conte.
No Oriental, o primeiro ano foi com o mister Vítor Móia, mas terminou já com o Paulo Henrique. O ano seguinte começa com ele, mas ao final de seis, sete jogos estávamos em último e entrou o Pedro Gomes, uma pessoa fantástica, que disse ser o Dr. House. “Esta equipa está em coma e vou recuperá-la”, dizia ele. O que é facto é que estávamos em último e acabámos em 1.º. Ele tinha muitas superstições e fazia palestras grandes, que ele escrevia.

Que tipo de superstições ele tinha?
Aquela de não fazer marcha atrás quando chegávamos aos campos. Se ganhássemos, fazia exatamente a mesma semana de trabalho. Passámos semanas e semanas a fazer a mesma coisa. Tenho um episódio engraçado com ele. Ele estava a dar a palestra para um jogo e começou a elogiar-me: “Toni, no último jogo estiveste muito bem fizeste isto aquilo…”, tá, tá, tá. E depois: “A equipa que vai jogar, jogam os mesmos, sai o Toni e entra o Semeano” [risos]. Os meus colegas começaram a rir e eu fiquei azul. Aconteceu que o jogador que ele colocou a jogar foi expulso e eu entro. Tínhamos vindo de duas derrotas, a a equipa ganhou nesse jogo e a partir daí nunca mais saí. Com certeza também teve a ver com superstições. Fizemos oito jogos, oito vitórias e fomos campeões.

Porque deixou de jogar em 2010/11?
Fui para o Fabril do Barreiro porque cheguei ao final do ano, no Oriental, e tinha várias cadeiras do curso por fazer. Ao mesmo tempo que estava a terminar a licenciatura estava a tirar o meu primeiro ano de mestrado. Tinha de dedicar-me durante o dia só à faculdade. O Fabril fez-me o convite, eu sabia que eles treinavam às oito da noite e como o meu pai tem uma casa na Aroeira fui para o Fabril do Barreiro. Fiquei a viver na Aroeira. Só que eu nunca tinha tido o hábito de chegar a casa às tantas da noite, jantar e ir para a cama. Comecei a perceber que às vezes ficava mal disposto, com o bife entalado. Em dezembro falei com o treinador e disse que para mim chegava, queria ficar focado naquilo que era a minha formação e não me estava a adaptar à situação de treinar à noite.

António Oliveira foi pai pela primeira vez aos 19 anos. Na fotocom o filho mais velho, António Simão.
António Oliveira foi pai pela primeira vez aos 19 anos. Na fotocom o filho mais velho, António Simão.
D.R.

Na época seguinte, 2011/12, o que fez?
Fiz o estágio de mestrado com o Bruno Lage, nos sub-17 do Benfica, onde o Chalana era o adjunto, e o Pedro Valido, que mais tarde foi meu adjunto na equipa B do Benfica, também trabalhava nessa altura com o Bruno Lage.

Gostou do estilo do Lage?
Gostei. Ao longo da minha caminhada fui ganhando o gosto pelo treino, percebendo que o jogo pode ser organizado e que o futebol tinha organização. Fui aprendendo como se fazia mas também como não se devia fazer.

Pode dar exemplo de algo que aprendeu que não devia fazer?
[Risos] Isto tem a ver com questões não só específicas do treino, da sua direção, da sua gestão, não vou especificar. O Lage é alguém a quem sempre reconheci capacidade, principalmente de gestão, da organização daquilo que é o planeamento de uma sessão de treino. E também me instigou essa paixão. Porque para estar no treino é preciso ter paixão; é o primeiro caminho para sermos bem-sucedidos na nossa profissão.

Em 2012, António vai como adjunto do pai para o Tractor Clube, do Irão
Em 2012, António vai como adjunto do pai para o Tractor Clube, do Irão
D.R.

A seguir vai com o seu pai para o Tractor Club, do Irão. Pediu-lhe para ir com ele ou foi ele que o convidou?
Quando terminei o estágio, em 2012, o meu pai recebeu o convite do Irão e convidou-me a ingressar na sua equipa técnica. Ele sabia do meu percurso como jogador, sabia daquilo que eu estava a fazer a nível académico, mas ainda não sabia das minhas competências porque nunca tinha estado no terreno comigo.

O que sentiu quando ele lhe fez o convite?
Senti-me extremamente empolgado de poder estar no futebol profissional e poder aprender com um dos melhores treinadores portugueses. É incontestável. Isso motivou-me. Nem o facto de ser o Irão em algum momento me assustou.

Como foi o primeiro impacto quando chegaram ao Irão?
O primeiro impacto é mais desafiante. Temos de perceber a história do Irão. O Irão outrora foi um destino turístico, procurado por muita gente, até entrarem os Aiatolá. Parece que o mundo parou de alguns anos para cá. Veem-se coisas muito antigas, péssimos acabamentos, não só dos edifícios, mas de estradas, os carros e o aviões extremamente antigos; parece que recuámos no tempo e há um choque inicial. Mas depois a adaptação é muito fácil porque sempre fui alguém que vou para trabalhar e não preciso de grandes luxos para viver.

A sua mulher foi consigo?
Ela ia e vinha. E ficou a amar o Irão. Ainda não tínhamos o nosso primeiro filho. Ela apaixonou-se pela cultura, o calor das pessoas foi importante para nos sentirmos bem. Fomos muito bem recebidos, ainda hoje há uma legião enorme de gente que não nos esquece, principalmente o legado que o meu pai deixou. É um povo carinhoso, apaixonado, muito emocional, eles viram que fomos para lá para defender uma causa que era deles, digamos assim, porque o Tractor é uma bandeira muito grande daquela província.

Em 2015, António (ao centro, de polo branco) festejou o aniversário no Irão
Em 2015, António (ao centro, de polo branco) festejou o aniversário no Irão
D.R.

Quais eram as suas funções em concreto?
Fui como analista de desempenho da própria equipa e do adversário, mas também tinha funções no campo, auxiliava na direção e gestão do treino.

Logo nesse primeiro ano viveram vários episódios marcantes. Pode recordar alguns?
O mais marcante foi o facto de eu e o meu pai vivermos no mesmo apartamento, foi a partir daí que conheci verdadeiramente o meu pai, de uma outra forma. Ser filho do Toni para mim sempre foi uma bênção e nunca um fardo. No Irão conheci verdadeiramente o meu pai porque vivemos muito tempo sozinhos, tínhamos de conviver. Estávamos os dois sozinhos em casa quando vivemos a experiência do terramoto. Eu estava deitado num sofá mais comprido, o meu pai estava num sofá individual e estávamos a preparar-nos para ir para o treino. Quando rodo, para colocar os pés no chão, parece que o chão está a sair dos meus pés. Olhámos um para o outro, bastante assustados. O meu pai estava agarrado à parede e diz-me: “Filho dá-me a mão”. Olhei em frente e estava um prédio em construção onde estavam alguns trabalhadores e aquilo parecia lego, tudo a tremer.

O que fizeram?
Nunca vi tanta gente a descer tão rápido as escadas. Até as mulheres que têm algumas restrições, principalmente em termos de vestuário, foram lá para baixo, sem tempo de se vestir completamente. Descemos e passado 15 minutos houve um sismo de 6.5 na escala de Richter, olhei para o prédio da frente e só pensei, tão pequeninos que nós somos. Num ápice a natureza engole-nos e tem uma força absurda. Sabemos que no epicentro morreu muita gente, principalmente mulheres e crianças porque estavam em casa, e as casas naquela região eram em argila muitas delas e cederam.

 

António com a mulher, Márcia, no Irão
António com a mulher, Márcia, no Irão
D.R.

Voltaram ao apartamento?
O meu pai quis voltar para o apartamento. Mas eu dormi na rua, numa zona relvada, com o João Vilela, o Flávio Paixão e o Anselmo, que estavam lá. Passámos a noite ao relento, com medo de outra réplica. Os candeeiros da minha casa tinham uns pendentes e a minha mulher um dia estava lá comigo, eu já estava habituado, porque todos os dias a terra treme no Irão, e chamei-lhe a atenção para o candeeiro, que estava a abanar; ela saltou da cama foi para fora do edifício, tive de andar com ela durante o dia inteiro fora de casa porque já não conseguia voltar [risos]. Outra coisa interessante é que aprendi a cozinhar no Irão. Eu que nem um ovo sabia fazer.

E o seu pai sabe cozinhar?
Nada. Um dia fui buscar hambúrgueres e como não tinha noção de como se fazia, enchi uma frigideira de óleo. Mergulhei os hambúrgueres no óleo, fiz um arroz e uns ovos. Perguntei ao meu pai, como estava, ele disse que estava um espetáculo [risos]. Entretanto, chegou o treinador do guarda-redes, o Paulo Grilo, para confraternizar um bocadinho, e pergunta o que fiz para jantar. Ele sabe cozinhar muito bem e tem gosto. Chegou junto do fogão, viu a frigideira: “Ó António não me digas que tu mergulhaste os hambúrgueres no óleo”; “Sim. Não é assim que se faz?”; “Mas tu és louco? Queres matar o teu pai ?”. Ele depois falou-me dos vários tipos de gordura e disse para não voltar a fazer em óleo.

Filho e pai com a Taça do Irão, conquistada pelo Tractor Club
Filho e pai com a Taça do Irão, conquistada pelo Tractor Club
D.R.

Como eram as condições do Tractor Club?
Básicas. Treinávamos dentro da fábrica dos tratores, onde havia um campo e uma área de balneários e departamentos técnicos, mas tudo rudimentar. Tivemos de ajustar algumas situações para ter os materiais necessários para desempenharmos a nossa função.

E os jogadores iranianos, como eram?
Não falavam nada de inglês. Um ou outro arranhava o inglês. Não é fácil a comunicação, tem de ser através de um tradutor. Apesar de dizer-se que a linguagem do futebol é universal, é, em algumas situações, mas a comunicação, principalmente em termos de vínculo, de agregação, de compromisso, de motivação, é fundamental. Mais tarde viemos a perceber que o tradutor nem sabia o que era um defesa, um médio, um atacante.

Como assim?
Uma vez o meu pai teve de fazer uma determinada intervenção e começou “papapá, papapá, papapá, papapá” e o tradutor: “pim, pim”. O meu pai olhou para ele: “Eu estou aqui a falar há meia hora e tu falas e dizes duas palavras? Tu percebes alguma coisa do que eu disse?” [risos]. Isto só para dizer que muitas das vezes um bom tradutor é melhor que um bom jogador. Tivemos três tradutores, o primeiro percebia de futebol e ajudou-nos muito; o segundo era espanhol, foi aquele com quem aconteceu aquela célebre conferência de imprensa. Eu nem estava lá, nem o meu pai sabia da repercussão que aquilo tomou. Mas hoje, com o poder das redes sociais, é inacreditável. Passado 13 anos ainda é falada.

Ele estava mesmo irritado.
Estava, estava. Porque muitas vezes enfrentamos gente que nem de futebol sabe e isso irrita.

António deixou o Tractor Club, em 2016
António deixou o Tractor Club, em 2016 
D.R.

Com que opinião ficou do campeonato?
Extremamente competitivo. Jogadores sob o ponto de vista físico extremamente robustos, com uma capacidade de treino enorme, taticamente também muito recetivos e muito rigorosos, tecnicamente de qualidade. Defrontámos lá o Taremi, que teve muito sucesso em Portugal.

O primeiro jogo da história do Tractor para a Liga dos Campeões da Ásia também tem um final caricato. Quer recordar?
Foi um jogo em casa, contra o Al Jazeera, dos Emirados, o jogo era às quatro da tarde e ao meio-dia o estádio já estava com 70/80 mil pessoas, mais aqueles que estavam nas montanhas. Ganhámos esse jogo 3-1. No final, um trânsito enorme. Não viemos no autocarro, metemo-nos num carro e ficámos presos no trânsito. O meu pai em Tabriz é tipo o Gandhi, alguém muito idolatrado, são capazes de lhe beijar os pés. Então ofereceram-lhe a possibilidade de ele entrar numa ambulância e pronto lá foi ele na ambulância em modo de urgência para fugir ao trânsito. Realmente chegou muito mais rápido que nós. Foram quatro temporadas, de 2012 a 2016, com três apuramentos para a Liga dos Campeões da Ásia, a conquista do primeiro troféu da história do clube, a Taça do Irão, em 2014, no ano em que nasceu o meu segundo filho, o Afonso.

Conseguiu assistir ao parto?
Não, só conheci o meu filho passado dois ou três meses.

Esqueceu-se de mencionar os dois segundos lugares no campeonato.
Um deles porque o 1º. lugar foi-nos gamado.

Em 2014/14?
Sim. No final do primeiro ano, o meu pai não renovou, foi embora e no início da segunda época aquilo começou mal e chamaram o meu pai novamente.

Em 2016/17, esteve no Rudar, da Eslovénia como treinador adjunto
Em 2016/17, esteve no Rudar, da Eslovénia como treinador adjunto
D.R.

Nesse intervalo em que estiveram em Portugal, foi treinador-adjunto do Pedro Henriques, no Oeiras, certo?
Sim, foi uma experiência muito curta, era até o meu pai voltar ao ativo. Basicamente foi para estar envolvido no futebol. Mas foi a melhor campanha da história do Oeiras no campeonato nacional de juniores, que acabou com os mesmos pontos na primeira fase regular do Benfica. Uma experiência gira, com malta de trabalho. Trabalhei com um dos adjuntos do Jorge Jesus, o Rodrigo. Um contexto diferente, de ir buscar a casa alguns meninos para poderem treinar, ir levá-los a casa, cheguei a ir às compras para lhes comprar alguma comida e a minha mulher chegou a fazer sopa para alguns. São realidades diferentes, que marcam. É experienciando esses contextos que quando chegamos a determinados patamares percebemos também de onde é que vimos.

Após quatro anos como adjunto do seu pai, qual foi o maior ensinamento que teve?
Nós rimos, chorámos, abraçamo-nos, ajudamo-nos, consegui ter conversas que nunca tinha tido com ele até então, de situações mais pessoais, mais de futebol, contrapor alguém que para mim é um ícone do futebol. Coisas que nunca pensei eventualmente estar a desafiar o meu pai, a pô-lo a pensar, acho que isso também foi mais uma chave de sucesso e muitas vezes guardo esta frase dele: “Foi pena não te ter encontrado mais cedo”. Isso orgulha-me imenso e dá sentido àquilo que estou a fazer.

Enquanto treinador, o que mais aprendeu com ele?
A sua capacidade de liderança, de comprometer e agregar grupos, a sua capacidade de comunicação e de perceber que além do jogador, há um ser humano. O tratar os jogadores como homens, sabendo que cada caso é um caso.

Na época 2017/18, Toni aceitou o convite para treinar o Kazma SC do Kuwait e o filho foi novamente seu adjunto
Na época 2017/18, Toni aceitou o convite para treinar o Kazma SC do Kuwait e o filho foi novamente seu adjunto
D.R.

É o seu grande ídolo enquanto treinador, mas, naturalmente, teve e tem outras referências também. Quais são?
O Ancelotti, é alguém que marca também a minha forma de ser, a minha forma de estar. É evidente que temos a nossa identidade própria, mas a sua forma tranquila de liderar é qualquer coisa de extraordinário. Percebe-se claramente que podem existir muitas lideranças que não são impostas, mas que são aceites por todos e que não é preciso andar aos berros para ganhar respeito. Pelo carisma que têm. E o carisma não se compra, é algo que tens, ou não. Muitas vezes pelas suas expressões, pela sua forma de ser, pela sua forma de estar, quase com um olhar, às vezes os jogadores nem precisam de ouvir, basta o olhar da pessoa e ele já sabe o que ela quer. O José Mourinho também sempre foi uma das grandes referências; o Paulo Autuori, o professor Jesualdo Ferreira. São pessoas e treinadores intemporais.

Desses anos no Irão, pessoalmente quais são os momentos mais marcantes?
Evidentemente recordo-me da conquista da taça, porque no segundo ano estava apenas com o meu pai e basicamente acumulei funções e tarefas. Fui ganhando cada vez mais autonomia e mais confiança do meu pai. Foi um treino para a vida. O meu pai era o gestor e eu era basicamente aquele que operacionalizava. A conquista desse troféu foi algo que me marcou para sempre; por mais troféus que possa vir a ganhar, aquele troféu que ganhei com o meu pai é algo único, que me orgulha e como já disse várias vezes, hoje já poderia morrer feliz. Porque é com ele, e com ele é especial.

António olha para os apontamentos durante um treino no Kazma
António olha para os apontamentos durante um treino no Kazma
D.R.

E o tal 1.º lugar "gamado" como lhe chamou. O que aconteceu?
Perdemos o campeonato na última jornada, após um conjunto de episódios que se passaram nesse dia. Chorei muito. Foi uma cavalgada tão grande para depois ser uma desilusão. Depois de estarmos a ganhar 3-1, empatámos 3-3. Eles diziam que o outro jogo estava empatado 2-2, mas afinal estava 2-0 e isso garantia o campeonato à outra equipa. Foi um conjunto de mentiras, foi o próprio árbitro, que a partir daquele momento nunca mais apitou um jogo no Irão. Hoje apita até campeonatos do mundo de clubes, mas não apita na sua liga, está na liga australiana. Nunca mais pôde ir a Tabriz, se o veem lá, não sei se sai de lá vivo, porque se percebeu que aquilo foi manuseado, foi algo que era nosso e que nos tiraram de uma forma propositada. Houve um conjunto de situações mais técnicas e disciplinares que causaram aquilo, e mais, houve a troca para esse árbitro no dia anterior.

Como reagiram?
Quando acabou o jogo, festejámos porque a indicação que tínhamos é que a outra equipa tinha empatado, porque as comunicações foram todas abaixo. Nós vivemos uma mentira, festejámos, o povo invadiu o campo, eu até senti algum medo, parecia que estava claustrofóbico, até entrarmos no balneário. O meu pai entra no balneário, olha para os jogadores e vê-os cabisbaixos. Disseram-lhe: “António, não ganhamos”. Foi um choque tão grande que ainda hoje eles lembram como o "black day".

Mais algum episódio que se recorde do Irão?
Posso contar uma situação caricata, da primeira vez que fui ao talho. Eles comem sobretudo frango e carneiro, nós estamos habituados a comer a vaca. Como não falam inglês, é um desafio grande conseguir trazer o que queremos. Um dia vou ao talho e digo lamb e cow. Ele não percebia nada. Tive de usar sons. Fazia "meéé, mééé, no" e abanava a cabeça a dizer não. Depois fazia "ummm, ummm, yes" e abanava a cabeça em tom afirmativo [risos]. Tinha de representar por sons aquilo que queria. Entretanto, ainda tive um episódio com o meu filho, que na altura tinha pouco mais de um ano.

O que aconteceu?
Teve uma convulsão. Pensava que ele ia morrer nos braços da minha mulher, porque esteve durante cinco minutos sem respirar, com os olhos revirados, devido a uma convulsão febril. Foi uma guerra para chamar a ambulância. Também teve de ser por sons. Cheguei à receção do prédio e tive de fazer "tinóni, tinóni". A sério. O meu pai chorava, a minha mulher só dizia “o meu filho vai morrer, vai morrer”. Lá chegou a ambulância, deram-lhe logo uma injeção e seguimos para o hospital.

No hospital foi bem tratado?
Apesar de eu saber que a medicina no Irão é das mais avançadas no mundo, aquilo parecia um hospital de refugiados. Não tem nada a ver com o que estamos habituados. Mas fomos super bem tratados. A partir do momento que era o neto do Toni Oliveira a única coisa que não queriam é que aquilo corresse mal. Fomos super bem tratados, claro.

Pai e filho com a Taça do Kuwait que conquistaram em 2017/18
Pai e filho com a Taça do Kuwait que conquistaram em 2017/18
D.R.

Em 2016 veio embora do Irão e foi para a Eslovénia. Foi fazer o quê?
Fui para a Eslovénia com o intuito de fazer o UEFA A, porque o UEFA B fiz durante a minha vigência no Irão.

Que tal foi esse ano no Rudar, da Eslovénia?
O Irão é extremamente poluído, Lisboa é menos, mas a Eslovénia é ar puro, é muito bonita, muito fresca, têm muitas cataratas, muitos espaços verdes, tem sítios paradisíacos. Como o país faz fronteira com diversos países, isso possibilitou-me conhecer muitos países ali à volta como a Croácia, Áustria, Itália, de carro. Em termos desportivos, fui para adjunto de um treinador sérvio, que tinha também o seu auxiliar sérvio. As culturas são diferentes, eles vinham de países mais frios, tinham alguma desconfiança. O treinador sempre me tratou bem, mas acho que me sentiu como uma ameaça. Embora o meu intuito sempre tenha sido o de ajudar. Fui dando as minhas opiniões se eventualmente ele me pedisse. Aquilo foi andando, mas a equipa não estava a obter os resultados que queriam.

O que aprendeu com essa experiência?
Nesse caso aprendi como não se deve fazer, não só em termos de treino, mas também em termos de liderança. Era uma liderança fria, muito longe dos jogadores, sob o ponto de vista ético custa-me estar a falar, mas, por exemplo, senti que treinávamos um grupo de exercícios e não treinávamos uma ideia. Senti muitas dúvidas nos próprios jogadores. Um dia estava em casa a preparar a minha análise do adversário e mandei uma mensagem ao auxiliar a dizer que tinha o material pronto. Entretanto, recebo um telefonema do diretor-executivo do clube a dizer que queria falar comigo. Ele perguntou-me qual era a relação que eu tinha com o treinador. Eu não tinha ido com o treinador, o treinador já tinha a sua equipa técnica, eu fui agregar-me a essa equipa técnica. Perguntou-me também qual era a relação que eu tinha com o treinador, disse-lhe que era de respeito e profissional. À tarde ligou-me outra vez e chamou-me ao gabinete para me perguntar se eu queria assumir a equipa até ao final da temporada.

A saborear a medalha após a conquista da Taça do Kuwait
A saborear a medalha após a conquista da Taça do Kuwait 
D.R.

Faltavam quantos jogos para o final?
Dois jogos e estava a lutar pela manutenção. Há valores para mim de lealdade, solidariedade que são inquestionáveis. Só que, neste caso, eu não pertencia à equipa técnica do treinador, não foi ele que me convidou, foi o clube e o investidor que me impuseram à sua equipa técnica. Por isso aceitei. Mas a primeira coisa que fiz foi ter com o treinador e explicar toda a situação. Almoçámos e estive com eles até ao último momento, até irem embora. Só que eu tinha o UEFA B e na Eslovénia o treinador principal tem de ter UEFA-Pro e o treinador adjunto o UEFA A portanto eu nem sentar-me no banco podia.

Como resolveram?
Há um período de carência de um mês até eles encontrarem um treinador com essa licença. E esse mês correspondia aos jogos que faltavam. Por isso pude ficar até ao final da temporada. Eles depois convidaram-me a ficar, mas depois de ser treinador principal, como já conhecia o grupo, já não queria ir para treinador adjunto novamente.

O que foi mais difícil nessa estreia como líder de uma equipa profissional?
Eu senti um entusiasmo enorme, uma motivação enorme, por ir ao encontro das necessidades deles. Naquela altura o que eles precisavam mais era de amor e menos cobrança. Foi a minha primeira intervenção, foi em inglês, foi algo que me marcou para sempre e que me fez sentir, nasceste para isto. Nós, treinadores, somos influenciadores e o que dizemos tem que ter um sentido, porque as palavras podem influenciar positivamente ou negativamente; como dizemos, quando dizemos, onde dizemos e de que forma dizemos, é fundamental para quem tem esta função.

A mulher de António com os dois filhos de ambos, Adrien e Afonso e
A mulher de António com os dois filhos de ambos, Adrien e Afonso e
D.R.

A seguir vai para o Kuwait, novamente como adjunto do seu pai.
Esse convite é aceite pelo meu pai, mais por mim do que por ele.

Explique lá isso?
O meu intuito de ir para a Eslovénia foi para terminar o terceiro nível. Só que o meu estágio do terceiro nível não foi aceite, porque havia uns requisitos obrigatórios: estar presente no banco. Eles não reconheceram que eu estive na Eslovénia, independentemente de mostrar toda a documentação, porque eu tinha de estar sentado no banco e, com o UEFA B, na Eslovénia, não me era permitido sentar no banco, portanto, não aparecia nas fichas de jogo. Não aparecendo nas fichas de jogo, que era um requisito, acabaram por não validar o estágio. Tive que, mais uma vez, ir para um espaço profissional que me permitisse fazer o estágio e o Kuwait foi esse espaço. Foi um convite que fizeram ao meu pai e ele só aceitou para me ajudar.

Estiveram no Kazma SC e acabaram por conquistar mais um título, a Taça do Kuwait. Que recordações tem dessa passagem?
É um contexto americanizado, muito virado para o turismo, à imagem dos Emirados e do Catar. Eles tentam americanizar-se em tudo o que fazem, até em maus hábitos.

Que maus hábitos?
Principalmente alimentares, os fast food. É um país com uma qualidade de vida extraordinária, um custo de vida altíssimo também. A minha mulher viveu lá comigo e adorou também.

Os filhos mais novos de António com o avô Toni e o pai
Os filhos mais novos de António com o avô Toni e o pai 
D.R.

O futebol é mais fraco que no Irão.
Sim, mais fraco. É um futebol semi-profissional, todos os jogadores locais trabalham. Mas muitos trabalham em altos cargos, têm muitas regalias do Estado. Eu olhava para o parque automóvel do Kazma e parecia o do Real Madrid. Estamos a falar de jogadores que complementam a sua atividade profissional do dia a dia com o futebol. Essa foi uma das situações com que nos deparámos apenas quando estivemos perante a realidade, não a soubemos antes. O meu pai ficou surpreendido. Uma vez, um jogador chegou atrasado à concentração e vinha de fato-macaco vestido, porque trabalhava numa petrolífera. Foi uma situação que sensibilizou muito o meu pai, era uma rotina a que o meu pai não estava habituado.

Enquanto jogadores eram profissionais, no sentido de chegarem a horas, cumprirem com tudo?
Não. Às vezes ausentavam-se para isto ou para aquilo, porque tinham os seus compromissos, apesar de mesmo em contexto de clube, terem bons salários.

E o campeonato?
Há duas ou três equipas que são hegemónicas. Conquistámos a Taça ficamos em 5.º e 4.º lugar. Infelizmente, após a nossa saída, foi ladeira abaixo.

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Spoiler

“No Brasil tive uma arma apontada à cabeça. A matrícula do meu carro foi clonada. Fiquei com as pernas a tremer durante dois dias”

António Oliveira partiu para o Brasil em 2020, como adjunto, e foi lá que teve os primeiros sucessos como treinador principal. Precisou apenas de quatro anos até chegar ao Corinthians, um dos grandes do país, e pelo meio viveu muitas peripécias que não se coibiu de contar. Pai de três filhos, confessa ter o sonho de treinar no top 5 das ligas europeias, elege Carlo Ancelotti como um modelo de liderança e diz que, ao contrário do que acontece no Brasil, precisava ganhar 10 Ligas dos Campeões para ser reconhecido em Portugal

Em 2020, foi adjunto de Jesualdo Ferreira, no Santos, do Brasil. Como reagiu quando recebeu o convite?
Quando o professor Jesualdo Ferreira convidou-me para ingressar na sua equipa técnica, eu só dizia ao meu pai: “Eu vou para o Santos, vou para a equipa do Pelé” [risos]. Era um sonho que se tornava realidade e queremos aproveitar ao máximo todos os segundos, todos os minutos, todos os dias, cada momento no clube, vivê-lo intensamente e aproveitar essa oportunidade. Desde então, o meu percurso tem sido desenvolvido, tirando os seis meses no Benfica B, no futebol brasileiro. Mas não foi o António que escolheu o futebol brasileiro, foi o futebol brasileiro que escolheu o António. Através das oportunidades que foram surgindo, tive de mostrar a minha qualidade e competência e felizmente as pessoas reconheceram isso.

Quais foram as primeiras impressões que teve do jogador brasileiro?
Uma curiosidade enorme por treinar com alguém que vinha do futebol europeu. Uma vontade enorme de trabalhar, de aprender, de experimentar coisas novas. E isso foi algo que me marcou. Mas também houve uma ligação enorme e forte entre mim e o jogador brasileiro e os brasileiros em geral. Houve um carinho enorme, uma forma especial de me receber. No Brasil sinto-me bem. Tenho um reconhecimento que, por exemplo, em Portugal, independentemente das pessoas irem seguindo o meu caminho através dos meios de comunicação social, não é tão valorizado, infelizmente.

Em 2020, António Oliveira vai para o Santos, do Brasil, como adjunto de Jesualdo Ferreira
Em 2020, António Oliveira vai para o Santos, do Brasil, como adjunto de Jesualdo Ferreira
D.R.

Chegou ao Santos como adjunto de Jesualdo Ferreira, mas começou logo a treinar os sub-23. Porquê?
Os sub-23 que lá chama-se equipa de aspirantes. Passado uma ou duas semanas de lá estarmos, essa equipa de aspirantes ia iniciar os trabalhos. Eles andavam atrás de um treinador do Internacional, que acabara de ganhar a Taça São Paulo. O diretor-executivo, William Thomas, perguntou ao professor Jesualdo se tinha alguém na equipa técnica que pudesse garantir os trabalhos até à chegada do novo treinador. O professor delegou-me essa função, se eu não me importava. Eu disse que sim. Não exigi nada em termos financeiros por ter mais uma função, apenas aceitei porque achei interessante a ideia. Iniciei a minha experiência com os meninos da vila, foi uma maneira de exercitar a minha forma de trabalhar, a metodologia, a gestão do treino, a liderança, a comunicação. Comecei também a construir um modelo de jogo para os meninos porque, por mais que se fale da formação do Santos, ela tem talento, mas não tem organização.

O que aconteceu depois?
Passada uma semana e meia, o William Thomas perguntou-me se queria continuar. Porque começas a trabalhar e aquele que melhor avalia o teu trabalho será sempre o jogador. Palavra puxa palavra e chega a quem manda. Aceitei de forma perentória. Prossegui o meu caminho com eles, só tinham competição lá mais para a frente, mas, entretanto, chegou a pandemia.

Permaneceu no Brasil?
Não. Apanhei o último avião, no dia em que Portugal entrou em estado de emergência. Se não apanhasse aquele avião, ficava por lá na pandemia, sem a família, porque aquilo parou durante esses três meses. Mas quando cheguei cá, entrei em choque.

Porquê?
Porque a pandemia no Brasil ainda não tinha estourado como na Europa e em Portugal. O facto de começar a ver na televisão, 24 sobre 24 horas, o número de infetados, número de mortos, número de internados, começou a mexer muito comigo. Comecei a mergulhar naquilo, a pensar só naquilo, fiquei com alguns laivos de depressão.

O treinador português assumiu a liderança da equipa de Sub 23 do Santos
O treinador português assumiu a liderança da equipa de Sub 23 do Santos
D.R.

O que fazia em casa para se manter ocupado?
Difícil, difícil, nem sei dizer, acho que nós todos tentámos sobreviver. Tinha aqueles treinos online com os jogadores, tentava manter alguma comunicação com eles, mas foram momentos difíceis até chegar a altura da chamada de regresso, no final de julho, para retomarmos o campeonato paulista. Retomou-se nos quartos de final do Paulista e acabámos por ser eliminados. Um dia, termino a minha sessão com a equipa de aspirantes, eu treinava de manhã, e recebo uma chamada do professor Jesualdo: “António, é para dizer que tudo terminou. Eu daqui a pouco estou aí e já conversamos melhor.” O professor chegou e entretanto o clube fez-me um convite para eu continuar lá. Só que essa situação era diferente da outra, da Eslovénia. Foi o professor Jesualdo que me convidou, eu vou embora com quem me trouxe. Prezo muito a lealdade e a solidariedade.

Como foi parar ao Athletico Paranaense depois?
Passado dois dias, o diretor-executivo William Thomas também pediu a demissão, ele já me tinha dito que queria contar comigo. Passado um mês, ele vai para o Athletico Paranaense. Eu passo por uma seleção de entrevistas e o William acaba por me convidar para ir para o Athletico, como adjunto do Paulo Autuori. Tinha acabado de sair o Dorival Júnior, hoje selecionador do Brasil, e também o Eduardo Barros, que é o adjunto do Fernando Diniz, no Cruzeiro.

Que tal foi trabalhar com Paulo Autuori?
Fantástico. Senti-me muito útil no que estava a fazer e no processo que me foi pedido, porque o Paulo Autuori deu-me uma autonomia extraordinária. Ele era o gestor e eu era o que operacionalizava o treino dentro dos conteúdos que, eventualmente, ele pedia. Mas foi alguém que me deu essa liberdade porque fui gerando confiança nele.

Ainda em 2020, António Oliveira torna-se treinador do Athletico Paranaense, do Brasil
Ainda em 2020, António Oliveira torna-se treinador do Athletico Paranaense, do Brasil
D.R.

Passou de Santos para viver em Curitiba. Notou muitas diferenças?
Santos e Curitiba parece que estamos em dois países diferentes. Curitiba é a cidade modelo, a cidade europeia, digamos assim, do Brasil. É uma cidade muito mais organizada, extremamente limpa. É uma cidade com classe. As pessoas um bocadinho mais fechadas. Temos as quatro estações do ano lá. Gostei muito.

E os clubes também devem ser muito díspares, o Santos tem uma história e uma grandiosidade que não tem um Athletico Paranaense.
Sim, o Santos tem uma história que é conhecida mundialmente. O Athletico infelizmente este ano desceu, mas nos anos em que estive por lá ganhou a Taça do Brasil, a Sul-Americana e foi uma equipa que se preparou estruturalmente. Tem um estádio fabuloso, tem um centro de treinos que é uma das grandes referências da América do Sul.

Como chegou a treinador principal?
Quando chegámos, estávamos em 19.º lugar, com 16 pontos, no final da primeira volta. Depois temos os quartos de final com o River Plate, para a Libertadores, temos os quartos de final da Taça do Brasil, com o Flamengo. Felizmente, de uma forma digna, até fomos eliminados nas duas: 1-0, 1-1; 1-1, 3- 2. Foi bom no sentido de termos mais tempo de treinos para consolidar comportamentos, termos mais tempo de repetição daquilo que são os conteúdos que passávamos aos jogadores, e assim podermos ganhar uma estabilidade maior e termos mais tempo de recuperação entre competições. Só tínhamos uma competição a partir daí, que era vital para nós, a permanência na Série A. E fizemos uma segunda volta fantástica. Acabámos em 9.º lugar, com 52 pontos e fomos à Sul-Americana. Que no ano a seguir acabámos por conquistar. Acontece que no final de um treino, passado dois meses, o Paulo Autuori empurra-me para dentro do gabinete, fecha a porta e diz: “António, queria fazer-te uma pergunta. Na próxima temporada tu queres ser o treinador do Athletico Paranaense?”

O que pensou no momento?
Andei uma vida inteira a preparar-me para ter essa oportunidade. No final dessa temporada 2020/21, curiosamente, acabei já como treinador principal porque o Paulo Autuori teve covid-19 durante algum tempo. Depois faz-se a transição. Treino duas equipas ao mesmo tempo, a equipa de aspirantes e a equipa principal, até em termos estruturais dividirem as situações. Eu fiquei como treinador principal e arranjaram um treinador para a equipa de aspirantes, de sub-20, etc. O Paulo Autuori passou a ser o coordenador técnico do clube.

Durante um jogo pelo Athletico
Durante um jogo pelo Athletico
D.R.

Foi uma estreia auspiciosa como treinador principal no Brasil, mas que não saboreou até ao fim. O que aconteceu?
Nesse ano, o Athletico Paranaense ganhou a Sul-Americana e foi à final da Taça do Brasil. Quando eu pedi para sair, estávamos em 9.º no Brasileirão e nas meias-finais das duas competições, com hipótese de ganhar pelo menos uma competição. Hoje teria gerido as situações de outra forma e nunca teria pedido para sair. Porque é que pedi para sair? Há uma coisa que para mim é inegociável, intrometerem-se naquilo que é o meu trabalho, principalmente numa ou outra escolha. Percebo que é um clube que tentava rentabilizar para vender, mas sou eu que decido. Ninguém interfere nas minhas escolhas. A quente, disse que não estava disposto a aceitar, fiquei desconfortável naquela situação, porque aprendi uma coisa, a perder ou a ganhar é à minha maneira, para eu dormir de consciência tranquila. Agi a quente e aprendi que a quente não se fala nada, nem se toma decisões.

Quando tem de tomar decisões mais difíceis e mais sérias, como essa, recorre ao seu pai?
Devia fazê-lo mais. Mas, às vezes, quase por uma questão de orgulho... Não falei com ele, mas os meus empresários fizeram tudo para eu ficar. Infelizmente, levei a minha avante. O Paulo Autuori ficou chateado comigo. Hoje está tudo bem, eu chamo-o de meu pai brasileiro.

Porque ele ficou chateado?
Por não ter falado com ele, ele acabava por resolver a situação. Guardei tudo para mim, não o partilhei. Devia ter gerido a situação de outra forma. Repare que o treinador que veio e que acabou por ganhar a competição, fez um jogo, a final da Sul-Americana, e ganhou. Eu fui lá roer o osso e o outro foi comer a carne. Mesmo o viver a final da Taça do Brasil, com o Atlético Mineiro, independentemente de termos perdido, também não estive. Fiz 90% das competições e acabo por não saborear o bom daquilo, que é tocar na taça. Mas tive o reconhecimento, principalmente dos jogadores, no momento da conquista, até publicamente.

Veio para Portugal a pensar em fazer o quê a seguir?
O meu intuito era regressar ao Brasil. Tinha essa meta traçada. Venho embora em setembro e em janeiro já estava a trabalhar novamente, através de um convite que o Benfica me fez.

Como foi passar do Athletico Paranaense para o Benfica B?
Naquela situação o Benfica é Benfica. Mas quando aceitei as pessoas já sabiam que eu ia sair a seguir, porque o meu objetivo era regressar ao Brasil. Era uma altura em que o Benfica passava pela transição da saída do Jorge Jesus e a promoção do Veríssimo para a equipa principal. O Benfica pediu-me uma ajuda, entre aspas, para continuar o trabalho da equipa B até ao final da temporada.

Teve de mudar muita coisa na sua forma de trabalhar, no seu sistema e modelo de jogo, para se adaptar ao Benfica B?
A minha maneira de ser e estar não se altera, ela pode eventualmente ajustar-se um pouco. A forma de jogar alterou-se um pouco como é evidente, porque o Benfica dentro dos seus quadros já tem uma forma de jogar enraizada, que os meninos aprendem desde a base. Taticamente são jogadores extremamente aptos e inteligentes. Mas foi uma experiência extraordinária, conheci meninos fantásticos, acho que é uma das grandes gerações do Benfica, com jogadores de grande qualidade.

Que jogadores lhe passaram pela mão a quem reconhece essa qualidade?
António Silva, Tiago Gouveia, João Neves, Rafael Brito, Martim Neto, Cher Ndour, Henrique Araújo, muitos.

Algum que o tenha impressionado mais?
Há muitos, felizmente tive oportunidade de treinar uma geração de jogadores que tem um futuro extraordinário. Está-se a provar. Uns de uma forma mais imediata, outros mais tarde ou mais cedo vão aparecer. Continuo a torcer muito por eles.

O treinador com a mulher e os filhos de ambos
O treinador com a mulher e os filhos de ambos
D.R.

Ficou no Benfica B até final da época 2021/22 e parte o Brasil novamente. Como foi a primeira experiência em Cuiabá?
Foi um bocadinho ir no escuro. Era o segundo ano que o clube estava na Série A brasileira. É um clube muito jovem, que estava em penúltimo. Vou direto para São Paulo, estou lá com os meus empresários, depois vou para Belo Horizonte ver o Cuiabá jogar com o América Mineiro, que acabou com a vitória do América por 2-1. No final do jogo fui ao balneário cumprimentar os jogadores e fiquei logo desconfortável e incomodado.

Porquê?
Porque eles perderam o jogo e estavam a rir-se. Mexeu muito comigo. É evidente que tive de pegar na palavra. Disse logo como é que as coisas iriam ser, para perceberem ao que íamos, porque ganhar ou perder não é a mesma coisa. A seguir vamos para Cuiabá. No dia seguinte é o primeiro treino. Estava marcado para o meio-dia. Em Cuiabá o calor é abrasador. São 40 graus todos os dias. O treino era dentro do centro de treinos (CT) velho, porque eles agora têm o novo, que é dos melhores que há no mundo. Na altura ainda não estava feito. Quando chego, colocam-me e à minha equipa técnica dentro de um quarto, onde íamos mudar de roupa, com quatro camas. Assustei-me. Saio, vou dar o treino. O relvado, uma lástima. Termino, vou para o gabinete, chamo um dos meus adjuntos e digo: “Eu não vou ficar aqui nem mais um minuto. Já viste este gabinete?” Ele começou: “Mister, tenha calma, você já disse que sim, já saiu nas notícias, olhe a sua imagem.” Mas nem pensar em trabalhar num local como aquele durante 10 horas do meu dia.

Como era o gabinete e o que fez?
Era bastante precário. Móveis do tempo do Pelé, cadeiras de verga, uma cadeira da Brahma daquelas vermelhas, do boteco. O relvado era mau. Acabei por voltar ao gabinete e a minha primeira tarefa no Cuiabá não foi de treinador, foi de arquiteto. Peguei no computador, fiz um croquis de como eu queria a disposição daquilo, a lista de materiais que queria, televisões, computadores, tudo e mais alguma coisa e enviei ao presidente.

E qual foi a resposta?
Acredita que no outro dia estava tudo lá como eu queria? Verdade. Acabei por criar um vínculo muito forte com o presidente. É evidente que os resultados ajudaram, porque os objetivos foram sempre conseguidos. Mas ele viu que eu era alguém que me dedicava à causa, ao trabalho. Ele não é um indivíduo muito fácil, é bastante exigente e criámos um vínculo para a vida. Ele deu-me a chave do clube. Se eu quisesse eu morria ali, essa é a realidade. Conseguimos feitos fantásticos, quase impossíveis, manter o Cuiabá durante dois anos na I divisão.

Como foi o jogo de estreia à frente do Cuiabá?
Cheguei à 10.ª jornada. O primeiro jogo foi contra o Corinthians do Vítor Pereira, ganhámos 1-0, em casa. Estive lá até ao final da temporada e depois meti na cabeça que queria sair, porque achava que iam aparecer grandes clubes.

Antes de falarmos do passo seguinte, assistiu a uma invasão de campo enquanto esteve no Cuiabá. Quer recordar o que aconteceu?
Isso foi num jogo com o Ceará. O treinador do Ceará era o Lucho González, que foi meu jogador no Athletico Paranaense, fui o último treinador dele. Era um jogo determinante para a fase de permanência, ambas as equipas lutavam pelo mesmo objetivo. O Arena Castelão estava totalmente cheio, o Ceará tem uma torcida enorme. Aos 50 minutos ficámos com menos um jogador e aos 80 o Deyverson fez 1-0 para nós. Começa a haver desacatos nas bancadas, vejo um clarão na parte superior da bancada por trás de uma das balizas e começo a ouvir tiros. Numa primeira fase pensei serem balas verdadeiras, depois percebi que eram de borracha, para dispersar as pessoas. Só que comecei a ver crianças e mulheres, famílias a entrar no campo, como defesa. Vou ser honesto, fiquei assustado. Disse ao árbitro: “Você tem que terminar agora o jogo, eu não quero morrer aqui.” Ouvi mais uns tiros e fui-me embora para o balneário.

Com o jogo a decorrer?
Sim, com o jogo ainda a decorrer. Só pensava, eu não vou morrer aqui, para morrer prefiro morrer no meu país [risos].

Na época seguinte vai para o Coritiba, grande rival do Athletico Paranaense.
Sim, tinha tudo para correr mal. Não correu mal nos resultados, porque em 15 ou 20 jogos só perdemos três vezes.

Então o que correu mal?
Tem a ver com a rivalidade que existia entre o Athletico e o Coritiba. Eu criei um laços grandes com o Athletico, quase fiz juras de amor ao Athletico, fui alguém que passou por ali e teve sucesso. E portanto, em Curitiba, o clima era muito hostil. Eu podia ganhar, podia perder, empatar, nunca fui bem recebido. Eles chamavam-me “Athleticano infiltrado”. A rivalidade era como FC Porto-Benfica, ou Sporting-Benfica, porque a distância entre os estádios era de cinco minutos. Por exemplo, quando fomos jogar o Athletico-Coritiba, fui otimamente recebido pelo Athletico, e não é normal. Foi algo que inflamou ainda mais as coisas para o lado do Coritiba. Acabou por não haver condições para continuar, pelo clima que estava instalado.

Não houve condições da sua parte ou da parte do clube?
Fui despedido. O projeto estava muito atrasado e o Coritiba acabou nessa temporada por descer de divisão. Eu saio do Coritiba e passado 15 dias volto ao Cuiabá.

Mas sei que não esteve para acontecer. Quer contar como lá foi parar de novo?
Numa primeira fase o Cuiabá oferece X. Eu disse à minha equipa técnica que entre 29 de maio e 23 de junho não podia trabalhar porque estava a fazer o UEFA Pro, em regime de internato, em Quiaios. Por isso, quando o empresário disse X, eu disse que só ia por Y, para dizerem que não. E à primeira o presidente disse que não. Mas a seguir perderam em casa 4-0, com o Atlético Mineiro. E ele diz que dá Y. Eu disse ao empresário que o problema não era dinheiro, que não podia estar no Brasil naquele momento e que no futebol ninguém trabalha por Zoom. Ele diz-me para eu dizer isso diretamente ao presidente.

Em 2022, António torna-se treinador do Cuiabá, do Brasil
Em 2022, António torna-se treinador do Cuiabá, do Brasil
D.R.

Como reagiu o presidente?
Quando disse ao presidente que o problema não era dinheiro, que até podia ficar mais barato, e expliquei-lhe o porquê, ele deixou de falar durante 30 segundos. Depois volta a falar e diz: “Faça o seguinte, António, você vem aqui durante 15 dias, prepara a equipa, faz os jogos com Cruzeiro e o Coritiba e depois pode ir à sua vida, não precisa nem sequer vir aos jogos, a sua equipa técnica garante aqui os treinos.” Eu pensei, é impossível eu dizer não a uma pessoa que está a fazer tudo para eu ir. A confiança que ele estava a depositar era enorme. Tenho que ser grato. E lá fui. Preparei a equipa, fiz aqueles dois jogos, ganhámos um e empatámos o outro. Depois viajo para Quiaios e andei a fazer piscinas nos três jogos seguintes.

Como assim?
Era um jogo com o Goiás, com o Corinthians e com o Botafogo. De segunda a sexta tinha de estar em Quiaios. Sexta à noite apanhava o avião das 23h45 para São Paulo, chegava às seis da manhã. O primeiro jogo foi no domingo, sábado dei o treino, faço o jogo no domingo, depois só tenho viagem na segunda-feira, chego terça-feira às seis da manhã, apanho o carro para Quiaios. O jogo seguinte é sábado, com o Corinthians, apanho o avião na sexta, chego sábado de manhã, o jogo é à noite. No outro dia já estou a viajar. Tive de ir de carro de Goiânia até a Brasília para apanhar um voo para Lisboa. Cheguei segunda às seis da manhã, fui para Quiaios. Andei todo rebentado. Na semana seguinte, o jogo era numa quarta-feira, contra o Botafogo.

Também conseguiu ir a esse?
O jogo dava no Canal 11, o canal da federação, pedi para me liberarem. Com o consentimento da turma, lá me permitiram viajar para estar presente no jogo. Também eram os últimos dias do curso. Foi de grande sacrifício, mas tenho uma paixão enorme por aquilo que faço. Só que aquele curso tinha de ser feito, porque é a minha independência enquanto treinador.

António é católico. Na foto, a rezar após uma vitória do Cuiabá
António é católico. Na foto, a rezar após uma vitória do Cuiabá
D.R.

Fica até final da época no Cuiabá. Como correu?
É a melhor temporada da história do Cuiabá. Terminámos em 12.º lugar no Brasileirão, com 51 ou 52 pontos. Fomos a equipa com mais goleadas dessa temporada, ganhámos seis vezes por 3-0. Acabo por ganhar o prémio de melhor treinador do mês de julho. Foram quatro vitórias e um empate, em julho, uma coisa absurda, ganhámos ao Fortaleza, ao Inter, ao Flamengo 3-0, em casa. Foi algo extraordinário que os jogadores acabaram por fazer. Quando terminou a época, acabei por ser o treinador da vez, ou seja, o treinador da moda. No Brasil funciona um bocadinho assim, o treinador da vez. Virei o treinador da moda. Já tinha feito duas permanências, uma delas dá o apuramento para a Sul-Americana, em 2023. Mas houve uma coisa que coloquei na minha cabeça, que eu tinha de começar a temporada.

Porquê?
Para não acontecer a mesma coisa que aconteceu da outra vez. Então eu disse, quero começar uma temporada de início. Apesar de ter estado muito próximo de fechar com São Paulo.

E não fechou porquê?
Os meus empresários na altura acharam que não era a melhor situação. É engraçado, nesse ano de 2023, há um jogo marcante entre o Coritiba e o Cuiabá. Geralmente não costumo ir aos aquecimentos, fico a meditar comigo mesmo no balneário, gosto de estar sozinho. Quando as equipas estão para entrar em campo, eu mal coloquei um cabelo fora do túnel, o estádio veio abaixo. O Coritiba estava a lutar para não descer de divisão e era a última esperança que eles tinham; tinham de nos ganhar. Mal coloquei um cabelo de fora, começam “Eh, António vai tomar no …” O estádio inteiro. Não reagi, em nenhum momento. Ganhámos 3-0 e eu não festejei nenhum dos golos, para não inflamar o clima. Aquilo é tão apaixonante e irracional que a nossa equipa começou a trocar a bola, já com o 3-0, e o público começou a dizer “Olé”. Só quando cheguei ao balneário é que pude libertar-me e dei um berro. Cumpri 50 jogos pelo Cuiabá nesse jogo.

O técnico português durante os festejos de uma vitória do Cuiabá
O técnico português durante os festejos de uma vitória do Cuiabá
D.R.

Quando iniciou a época seguinte no Cuiabá teve influência na construção do plantel?
Tudo. O clube praticamente passei a ser eu, com a anuência do presidente que confiou cegamente. A construção do novo CT, as estruturas, os gabinetes, foi tudo com anuência minha. Treinámos nos campos do CT novo, mas ainda não tínhamos acesso às infraestruturas. O gabinete foi desenhado por mim e para mim e acabo por nunca o utilizar.

Não o utilizou porque, entretanto, foi para o Corinthians. Foi um convite irresistível?
Foi. Honestamente não estava à espera. Eu queria ainda fazer o estadual ali, porque sabia que mais cedo ou mais tarde iria sair, porque era o treinador da moda. Mas o Corinthians acaba por ter cinco derrotas seguidas no Paulista, o Mano Menezes é despedido e eles vêm ter comigo diretamente, nem foi através dos meus empresários. O Corinthians, a par do Flamengo, é o maior clube do Brasil e é um dos maiores clubes do mundo. É muito difícil dizer não, independente do momento que o clube vivia, através de mudança de gestão, com poucos recursos financeiros e com uma janela de transferências praticamente fechada. Ponderei muito, mas acabei por aceitar pela grandeza do clube.

Acreditava que conseguia dar a volta?
E em certa medida foi conseguido. Estávamos dentro de todos os objetivos do clube. Fomos a segunda melhor campanha da Sul-Americana; passámos três eliminatórios da Taça do Brasil, estávamos em zona de rebaixamento do estadual e quase nos apurámos para os quartos do Paulista.

O que o penalizou, então?
Foram seis jogos sem pontuar no Brasileirão. À medida que aquilo foi andando, os recursos foram sendo cada vez menos. Sem receber. Cada vez fomos perdendo mais jogadores, lideranças importantes saíram do clube. Houve um conjunto de situações, muitas notícias más sobre o clube... E no Corinthians eu fui muito mais do que treinador. Era eu e os jogadores, porque os problemas eram tantos. Um treinador tem que ser um influenciador, um motivador, psicólogo, terapeuta... Eu fui de tudo um pouco. Mas sabia que quando chegasse a janela as coisas iriam alterar-se, porque vinham outros jogadores para ajudar os que lá estavam. E ia construir uma equipa ainda mais forte. Eles costumam dizer que fui o homem certo, na hora errada. Eu digo de outra forma, eu fui o homem certo, no momento mais desafiante da história do Corinthians.

Em 2023, António assinou pelo Coritiba
Em 2023, António assinou pelo Coritiba
D.R.

Que tipo de situações mais complicadas teve de gerir?
Houve alturas em que os jogadores chegaram a não querer concentrar, porque não recebiam. Tive de sair do treino para ir falar com o presidente, porque ele prometia que pagava no dia seguinte. Eu disse ao presidente: “Se você só pode pagar daqui a um ano, não diga que pode pagar amanhã porque eles não vão receber e vão ficar ainda mais chateados.” E aos jogadores que não queriam concentrar tive de dizer: “Há um direito e um dever. Vocês têm o direito de receber e eles de vos pagar. Vocês têm razão. Agora, se passa lá para fora que vocês não querem concentrar, em vez de virar para eles, vai virar contra vocês. Vamos ser profissionais. Eu estou aqui, do vosso lado, estarei sempre e vou tentar sensibilizar o presidente para resolver os problemas.” O meu dia a dia era um pouco isto.

Chegou a ser expulso mais do que uma vez, no Brasil. Que opinião tem da arbitragem brasileira?
A minha forma de ser e de estar na área técnica é de alguém que é muito apaixonado e vive o jogo de uma forma intensa. Muitas vezes tenho o sangue à flor da pele. E também comecei a ficar marcado pelos árbitros. Praticamente nem podia abrir a boca ou levantar um braço, a tolerância já era pouca. Mas aos poucos também comecei a ganhar algumas relações com eles e foram tendo alguma condescendência. Há bons e maus árbitros em todo o lado. Cometem erros, como todos os outros cometem. Os árbitros são responsáveis pela saúde do jogo. A comunicação é essencial. Puxar logo de um cartão amarelo ainda pode inflamar mais uma situação. Se ao invés tiverem uma atitude de “ajuda-me”, acho que funciona muito melhor. Se eles me cativarem eu vou ajudá-los, agora se me vai dar amarelo, sem me dizer nada, acho que ainda vou ficar mais agitado em relação a qualquer atitude que ele vai tomar.

Quando o Corinthians lhe comunicou que estava despedido, foi um grande balde de água fria ou já esperava?
Naquela situação, honestamente, não estava, até pelas conversas que ia tendo com o presidente. Basicamente o que ele quis foi salvar a pele dele. Sempre lhe disse que não estava ali para trabalhar naquele caos e depois vir outro com outros recursos para comer a carne. E foi isso que aconteceu. Passado cinco ou seis dias vieram 11 jogadores novos.

Porque não veio para si e veio para outro?
Basicamente porque o presidente quis salvar a pele. Eles têm de tomar algum tipo de decisão para fazer valer aquilo que estão a fazer. O que é facto é que foi a equipa que mais investiu na janela de transferências e aumentou a sua folha salarial em não sei quantos milhões de reais.

De onde veio essa injeção de capital?
Através da angariação do patrocínio Esportes da Sorte, que acabou, por exemplo, por contratar o Memphis Depay e um conjunto de jogadores importantes, alguns até jogaram em Portugal, como o [André] Carrillo, o Hugo Souza; o Ramalho que jogou 12 anos na Europa. Um conjunto de jogadores que realmente vieram dar qualidade e melhorar os outros.

Como reagiu quando foi demitido?
Ninguém gosta. Mas sabemos que nestas situações quem fica mais frágil é o treinador e ele quis salvar a pele porque também já estava frágil. Mas basta seguir o que as pessoas falam sobre mim e percebem o carinho e o afeto que o torcedor corinthiano tem, teve e continua a ter por mim.

Depois do Coritiba, o técnico regressou ao Cuiabá, ainda em 2023. Na foto com os dois filhos mais novos, Afonso e Adrien
Depois do Coritiba, o técnico regressou ao Cuiabá, ainda em 2023. Na foto com os dois filhos mais novos, Afonso e Adrien
D.R.

Veio embora em julho de 2024 e até agora não abraçou nenhum projeto. Já rejeitou muitas propostas?
Surgiram de diversas situações do Brasil, da Europa e do Médio Oriente, mas depois de estarmos no Corinthians temos de ter algum cuidado no passo seguinte. É evidente que o passo certo nunca existe, mas há uns mais sustentáveis e mais estáveis do que outros. Este tempo dá-me a possibilidade, com mais critério, com mais calma, de poder escolher aquilo que acho ser o melhor para o meu projeto de carreira. Estou muito tranquilo relativamente a isso.

Mas já passaram sete meses. Não tem receio de cair no esquecimento?
Não. Cheguei a este patamar porque me vou regendo por sonhos. Cheguei a um grande no Brasil. Agora é tentar procurar um projeto mais estável, porque me considero treinador de projetos e não treinador de passagem, sabendo que esses clubes são mais políticos, são clubes de massa e a única situação que sustenta são os resultados. Nessa perspetiva, quero encontrar um espaço onde me deem condições para trabalhar de uma forma estável, sustentada.

Gostava mesmo que fosse no Brasil?
Esses projetos existem em vários sítios. O Brasil não é o único lugar do mundo onde eu vou trabalhar. A Europa é um espaço possível, o Brasil também, mas não é o único destino que tenho para a minha carreira.

Teve propostas de Portugal?
Tive, mas nesta altura não é fácil, com toda a humildade, arranjar um espaço que me encha em todas as dimensões. Há um ou outro que, além dos três grandes, obviamente, terão sempre espaço para o meu projeto de carreira.

Fabinho Soldado, diretor do Cortinthians e António, quando este assinou pelo clube brasileiro, em 2024
Fabinho Soldado, diretor do Cortinthians e António, quando este assinou pelo clube brasileiro, em 2024
D.R.

Qual é o seu grande objetivo de carreira, o seu sonho?
Tenho vários, ainda tenho muitos por cumprir. Por exemplo, estar presente nas ligas top 5 da Europa é um dos objetivos que tenho. Quero estar junto dos melhores e os melhores estão na Europa, não tenho dúvida nenhuma. A primeira liga de futebol inglês fascina-me muito e como sempre coloquei objetivos e até agora os alcancei, esse também é um dos que vou perseguir. Já joguei a Liga dos Campeões da América do Sul, já joguei a Liga dos Campeões da Ásia, agora também gostava de jogar a Liga dos Campeões da Europa. Vou criando objetivos, as coisas na minha vida foram acontecendo de forma natural, muito pelo trabalho e pelo reconhecimento que as pessoas vão tendo sobre aquilo que faço.

Tem algum modelo e sistema de jogo preferido?
Temos sempre o nosso preferido, mas muitas das vezes temos de nos adaptar, como é óbvio. Pelas experiências que vou vivendo a multi diversidade estrutural que já vivi permite-me jogar em qualquer modelo ou sistema, independentemente de preferir assim, assado ou cozido. Agora, independentemente da estrutura, existem grandes princípios que são as diretrizes da minha forma de trabalho e isso são coisas pessoais e intransmissíveis.

Os treinadores de referência mantêm-se?
Sim. O Ancelotti é um deles pela sua forma de liderar. Os treinadores muitas vezes falam da forma de jogar, mas ela depende da forma como tu lideras. 20% é essa forma, é o treino, é o jogo, é a identidade que tu crias, porque tudo aquilo que tu treinas é representado em jogo e aquilo que é representado em jogo está-te a representar a ti enquanto treinador; mas 80% é essa liderança, é a gestão de recursos humanos, é a gestão de emoções dos jogadores, porque atrás do jogador há o homem. É tentar comprometer 30 cabeças num objetivo comum. Se nós não tivermos esses 80%, podemos até ter a melhor forma de jogar do mundo, ninguém vai agarrar. Mas há outras referências, continuo a falar do José Mourinho, que foi o grande impulsionador e aquele que abriu as portas para os treinadores portugueses. Ele é que foi, os outros vão tentando abrir as suas portas dentro dos diversos contextos onde trabalham, mas o grande boom do treinador português, além-fronteiras, não tenho dúvida nenhum que o responsável é o Mourinho. Jesualdo Ferreira, Paulo Autuori e o meu pai continuam também a ser referências.

O técnico português durante um treino do Corinthians
O técnico português durante um treino do Corinthians
D.R.

Qual foi a situação mais difícil que teve de resolver enquanto treinador?
Vou contar um episódio. Cheguei no Cuiabá, o primeiro jogo foi passado duas ou três semanas e ainda estava a conhecer bem o grupo; durante um exercício dois jogadores andaram à pancada mesmo ao meu lado. Ao soco mesmo. Depois começaram a lavar a roupa suja, eu terminei o treino imediatamente e mandei os dois jogadores embora. Do centro de treinos novo para o velho, são cinco minutos. Um foi de carro e o outro de autocarro, para não estarem juntos. Depois mandei-os ficar um dia em casa e disse-lhes que quando voltassem, viessem vestidos à civil e fossem ao meu gabinete, à vez. Quando vieram falei-lhes da má conduta e disse-lhe a cada um separadamente: “Vou reunir o grupo no auditório e você vai bater à porta, pedir desculpa e fazer a seguinte pergunta: ‘Aceitam-me de novo no grupo?’ E vai esperar pela resposta deles.”

E fizeram-no?
Fizeram. Eu reuni o grupo, primeiro entrou um, falou o que tinha a falar, pediu desculpa, fez a pergunta e o grupo disse em uníssono “sim”. Parecia uma coisa de escola. Aquilo é difícil para quem tem um ego grande. Depois foi o outro, a mesma coisa. No fim disse-lhes: “Da próxima vez não têm nem tempo de vir fazer este tipo de questão, podem ir logo embora e não aparecer mais." A verdade é que a partir dali criámos um vínculo, criamos uma família fantástica e foi por isso que tivemos sucesso. Ainda hoje agradecem-me por aquela aprendizagem e nunca mais tive nenhum problema naquele clube.

A observar o desenrolar do jogo
A observar o desenrolar do jogo
D.R.

Tendo em conta que o Brasil é um país com um grau de violência elevado, alguma vez apanhou algum susto?
Apanhei. Lembro-me de apontarem-me uma pistola à cabeça. Eu vinha no meu carro, após o aniversário do filho do treinador de guarda-redes do Corinthians, olhei pelo espelho e vi um carro da polícia atrás. Mas eu estava tranquilo. Viro à direita e ele continua a seguir-me, e de repente liga as luzes. Pensei que podia ter as luzes desligadas, porque era de noite. Parei o carro para perceber o que se passava. O polícia que estava a guiar saiu logo com a pistola armada, disse-me para sair do carro, meter as mãos atrás das costas, portanto, aqueles procedimentos normais que eles fazem. Sempre com a arma apontada à minha cabeça. O pendura do polícia saiu e diz-lhe: “Epá, cuidado, ele é o técnico do Corinthians.” O polícia com a pistola responde: “Eu sei lá se ele é técnico do Corinthians, eu não percebo nada de futebol.” E continuou, mandou-me abrir as pernas, entretanto, chegaram mais carros de polícia.

Como acabou essa história?
O que aconteceu é que a matrícula do meu carro tinha sido clonada e estava associada a um furto de relógios. Como tinham chegado outros policiais, confirmaram a minha identidade, e já queriam falar mais do Corinthians do que propriamente daquela situação [risos]. O polícia com a pistola mesmo assim falou para a central, ainda revistou o meu carro inteiro e só depois é que me pediu desculpa. Eu disse-lhe que não tinha de pedir desculpa, que sou um cidadão comum e que ele fazia o trabalho dele.

Deu para assustar.
Fiquei a tremer naquelas pernas durante dois dias [risos]. Uma pistola apontada à cabeça é complicado, nunca tinha experimentado.

António a agradecer à massa associativa do Corinthians
António a agradecer à massa associativa do Corinthians
D.R.

Algum dos seus filhos joga futebol?
Os dois mais novos jogam no Belém. O mais velho já jogou, mas apanhou a fase da pandemia e praticamente deixou de jogar, agora está a tirar o curso de treinador também.

Revê-se em algum deles?
No pequenino, não. Nos outros dois, sim. O pequenino é canhoto, não tenho ninguém canhoto na família, é super autónomo, desenrascado, é muito rápido, não tem nada a ver comigo, nem com o irmão de 10 anos, que é dependente dos pais.

Enquanto jogador foi sempre tratado por Toni, mas como treinador ficou conhecido por Antonio Oliveira. Foi escolha sua?
Em Portugal muitos ainda me tratam por Toni. No Brasil é que começaram a tratar-me sempre pelo nome, António Oliveira, e ficou. Foi coisa com que nunca me preocupei. Já disse que para mim ser filho de Toni nunca foi um fardo, é uma bênção. No Brasil, num país tão distante e num contexto desportivo se calhar dos mais difíceis do mundo, sou reconhecido por um povo onde ninguém sabe o que representa verdadeiramente o meu pai em Portugal. Aquilo que as pessoas me reconhecem e a visibilidade que tenho lá, foi por aquilo que fiz. E é engraçado que em Portugal, sinto que tenho de demonstrar sempre muito mais do que os outros. Em Portugal a sociedade é um bocadinho diferente, aqui eu tinha de ganhar 10 Champions League.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira até agora?
No Corinthians.

Investiu?
Sim, em imobiliário e aplicações financeiras.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Não sei. Tenho de perguntar à minha mulher... [A mulher de Toni intervém para dizer que ele é forreta].

O técnico português vie intensamene os jogos
O técnico português vie intensamene os jogos
D.R.

Tem algum hobby?
Ver jogos de futebol, embora sempre com o meu olhar profissional. Outra coisa de que gosto muito é de almoçar e jantar com os amigos.

É um homem de fé?
Sou. No Brasil habituei-me a ir a cultos, por exemplo. São religiosos, falam de Deus, cantam e até comecei a ouvir e a cantar uma música deles antes dos jogos.

Superstições, teve ou tem?
Benzo-me regularmente, alguma situação que veja, algum episódio. Antes dos jogos, por exemplo, nunca vou ao aquecimento, para mim é quase como uma superstição.

Tem tatuagens?
Tenho. A primeira que fiz, foi o nome dos meus dois filhos mais velhos, na zona interior do bicepe direito. Depois fiz a do Adrien, no outro braço. E tenho uma pequenina, da minha mulher, na zona das costelas.

Acompanha ou pratica outra modalidade sem ser futebol?
Praticar só futebol, agora, gosto de ver outras modalidades, sempre fui muito eclético, muito interessado por todas as modalidades. Gosto de ver a NBA, por exemplo. E gosto de acompanhar Portugal em todas as modalidades, até o boccia, nos Paralímpicos.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ter vivido, por culpa própria, a conquista da Sul-Americana, em 2021, pelo Athletico Paranaense.

E o maior arrependimento?
Ter pedido para sair em 2021 do Athletico Paranaense.

António com os três filhos
António com os três filhos
D.R.

O momento mais feliz na carreira?
A conquista do primeiro troféu com o meu pai, no Irão. É o momento que digo que já podia morrer feliz.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho que um dia gostaria de treinar?
O Real Madrid.

Tem ou teve alguma alcunha?
Em pequenino era o “Tota”, porque eu não conseguia dizer António e dizia qualquer coisa parecida com isso.

Há alguma lei do futebol que se pudesse, alterava, ou bania?
Contabilizava apenas o ball in play para punir o anti-jogo. Talvez desta forma teríamos de reduzir o tempo de jogo, mas aumentaríamos com certeza a velocidade dos jogos, melhores espetáculos e maior entretenimento, promovendo a verdade desportiva.

Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo?
O Palmeiras, do Abel.

Tem algum talento escondido?
A minha mulher está a dizer que não.

Se não fosse jogador/treinador, o que teria sido?
Nunca pensei ser nada a não ser ligado ao futebol.

O que pensa do VAR?
Podemos estar a falar aqui muito tempo, mas acho que acima de tudo vem tentar colocar verdade desportiva nas situações. Agora, temos é de saber utilizar.

Qual o ponto mais importante no futebol?
As relações que és capaz de criar nos diferentes países, culturas e realidades. A capacidade que tens de ter de lidar com o outro, pois as pessoas cada vez têm menos capacidade de se relacionarem. Podes ter um conhecimento técnico abrangente, com diferentes dinâmicas e ideologias, mas a tua relação com eles é que faz tudo. Acima de tudo como pegas o jogador, percebes e motivas o homem.

 

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Spoiler

“Quando vim para o Estoril Praia e cheguei a Cascais só pensei: ‘Vim para o paraíso, agora é só jogar e desfrutar’”

Jefferson ficou conhecido pelos anos que jogou no Sporting, mas foi no Estoril Praia que se estreou no futebol português, ainda na II Liga. O médio brasileiro conta como tudo aconteceu até chegar aos “canarinhos estorilistas". Um percurso que iniciou aos 11 anos, quando teve de engolir o choro para dar seguimento ao sonho, e que passou por clubes como o Palmeiras e o Fluminense antes de assentar em Portugal, onde, aliás, ainda vive

Nasceu em Campo Formoso, no estado da Bahia, Brasil. É filho de quem?
O meu pai trabalhava numa empresa de cimento e a minha mãe trabalhava numa escola.

Tem irmãos?
Tenho, somos cinco. Sou o mais novo, o caçulinha.

Qual a primeira memória de infância que tem?
Jogar futebol na rua.

Sempre sonhou ser jogador de futebol?
Sim, pelo fato de não ter uma condição tão boa, sempre tive esse sonho de ser jogador de futebol.

Havia alguém na família já ligado ao futebol?
Não. Segundo falam, o meu pai e o meu avô jogavam, mas não profissionalmente. Mas não cheguei a vê-los jogar.

Jefferson de calção azul, com os irmãos e um primo
Jefferson de calção azul, com os irmãos e um primo
D.R.

Em criança quem eram os seus ídolos?
Roberto Carlos, pela posição.

Nunca quis ser avançado?
Na verdade, eu comecei como médio, como camisa 10. Depois, o diretor de um clube onde eu jogava, na Bahia, colocou-me como lateral esquerdo, pela força que eu tinha, pela qualidade de bater na bola. Graças a Deus engrenei nessa posição e tornei-me profissional.

Gostava da escola?
Gostava pelas amizades com os miúdos, mas estudei sempre.

Quando e como foi jogar num clube pela primeira vez?
Eu saí da minha casa com 11 anos, fui para Salvador jogar no clube Vitória da Bahia.

Como isso aconteceu?
Eu jogava numa escolinha da minha cidade e havia muitas competições fora, no interior, e eu destacava-me muito, o que chamou a atenção dos clubes. O meu treinador da escolinha recebeu algumas propostas de fora, de São Paulo, do Rio, mas optou por levar-me para Salvador, para o Vitória, porque estava mais perto da minha casa. Eu era muito novo ainda. Fui fazer testes no Vitória e nunca mais voltei para casa.

O médio brasileiro aos 11 anos, junto do emblema do Vitória da Bahia, primeiro clube onde jogou
O médio brasileiro aos 11 anos, junto do emblema do Vitória da Bahia, primeiro clube onde jogou
D.R.

Deve ter sido muito difícil sair de casa com 11 anos. Chorou muito com saudades da família?
Foi difícil. Não estamos perto da mãe quando estamos doentes, não temos o colo da mãe, queremos desabafar com alguém e não temos com quem desabafar. Lembro que quando cheguei lá e quis logo vir embora, chorava para vir embora no primeiro dia e o meu treinador disse-me: “OK, você quer voltar, você vai voltar, mas você vai perder o seu sonho, vai voltar para a mesmice da sua cidade, vai trabalhar em fábrica, não vai realizar o seu sonho e não vai poder ajudar a sua mãe.” Aquilo tocou-me, mexeu muito comigo, engoli o choro e disse que ia ficar. Fiquei, mesmo triste, fiquei. Depois o tempo foi passando, fui-me acostumando, fazendo amizades… Mas claro que sentimos saudade, sente falta de ter uma infância. Praticamente não tive infância, não tive essa fase da rebeldia, de namorar, aquela vida de um adolescente “normal”. Às vezes eu não sei se agradeço a Deus por isso, porque pelo que vejo nos jovens de hoje, é complicado… Então acho que agradeço a Deus.

Quanto tempo ficou nesse clube?
Um ano e pouco depois, fui para outro clube também em Salvador, o Real Salvador.

Mudou porquê?
Porque não era muito utilizado. Eu era muito pequeno, tinha muitos jogadores de qualidade acima de mim, então optaram por me liberar, para poder tentar jogar noutro lado. Havia um diretor que esteve comigo esse ano e pouco no clube e estava para sair também, queria abrir o próprio clube dele; como viu que eu tinha qualidade, disse-me: "Vou abrir um clube. Vai para casa que dentro de dois ou três meses eu entro em contacto com você e você volta.” E assim foi. Fiquei no Real Salvador durante dois anos. Foi uma passagem muito boa, fui campeão de várias competições da minha categoria e vivia no centro de treino também.

Com 12 anos, Jefferson (à direita), em Salvador
Com 12 anos, Jefferson (à direita), em Salvador
D.R.

Como era viver num centro de treinos? Difícil ou divertido?
Era divertido, para mim tudo era maravilhoso porque eu estudava, brincava, ia para a praia, treinava. Lógico, com saudade do pai, da mãe e dos irmãos, mas gostei muito daqueles tempos, de poder sair para jogar futebol na praia, ter aquela vida que na minha cidade nunca ia ter. Depois desses dois anos fui fazer uma avaliação no Cruzeiro, de Minas Gerais, estive lá um ano e pouco, a seguir voltei para Salvador, para o Bahia, onde só fiquei uns três meses, mais ou menos. Disputei só a taça São Paulo.

Porquê?
Eles atrasavam muito os ordenados, não tinham uma boa estrutura, e nessa altura, com 14 anos, eu já tinha um empresário. Fui para o São Caetano, em São Paulo.

Nessa fase, com 14 e 15 anos, qual era o seu maior sonho, a maior ambição?
Chegar ao futebol profissional, mostrar a minha qualidade, o meu potencial.

Torcia por algum clube em particular?
São Paulo. O meu sonho era jogar lá e joguei no rival, no Palmeiras.

Do São Caetano, passou para onde?
No São Caetano estive na formação a disputar o Campeonato Paulista e subi a profissional, tinha 17 anos. O jogo de estreia foi contra o Brasiliense, salvo erro.

Estava muito nervoso?
Não, porque eu tinha subido e já tinha ido para alguns jogos, já sabia como era o clima. É lógico que dá aquele friozinho na barriga, mas eu estava preparado.

Quando assinou o primeiro contrato profissional?
Quando cheguei ao São Caetano. Normalmente, os clubes do Brasil já têm contrato profissional mesmo na formação.

O que aconteceu após subir a sénior?
Fui emprestado ao Guaratinguetá, porque o treinador que me subiu para o profissional foi embora. Fui para o Guaratinguetá disputar o campeonato estadual, primeira divisão, um dos mais disputados do Brasil. Fiz um excelente campeonato. Fui um dos destaques da minha equipa e acabei por ser comprado pelo Palmeiras.

O ex-jogador brasileiro, em Braga, na semana em que foi entrevistado para Tribuna
O ex-jogador brasileiro, em Braga, na semana em que foi entrevistado para Tribuna
FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

Foi ganhar quantas vezes mais do que ganhava no São Caetano?
Umas 20 vezes mais.

Já namorava?
Sim, já namorava a Sara, hoje a minha esposa.

Como e quando se conheceram?
Conheci-a em Minas Gerais, por meio de um colega. No início só tinha amizade, não tinha nada com ela, na altura ela era casada. Ela é cinco anos mais velha. Depois fui embora de Minas Gerais e passado um ano entrei em contacto com ela novamente para saber como estava. Ela havia acabado o relacionamento dela, então começámos a conversar mais e foi aí que surgiu o interesse de estarmos juntos.

Em que trabalhava a Sara?
Na altura prestava serviço para uma empresa de telecomunicações. Agora é empresária.

Ela já tinha filhos?
Tinha dois filhos pequenos.

Quando foi para o Palmeiras a Sara foi viver consigo?
Não, eu morava em São Paulo e ela ia de vez em quando ver-me.

Em 2008, Jefferson assinou pelo Palmeiras
Em 2008, Jefferson assinou pelo Palmeiras
D.R.

O Palmeiras é um clube de uma dimensão bem maior do que aqueles por onde tinha passado. Como foi entrar num “gigante”?
Muito top. Tinha muitos ídolos que via na televisão a jogar pela seleção brasileira, como o Denilson e o guarda-redes Marcos, por exemplo. Você fica deslumbrado, só pensa “será que isso é verdade? Será que isso está acontecendo mesmo comigo?” Foi muito bom, fui bem recebido porque os jogadores de alto nível, que sempre jogaram na seleção e em grandes clubes, são diferentes; a humildade é muito diferente de outros jogadores que não jogaram em lado nenhum e que ainda tentam ser alguma coisa.

Disse que foi ganhar 20 vezes mais. Não se deslumbrou?
Sempre fui um menino muito controlado, por ter saído tão cedo de casa aprendi a viver muito, sozinho, sem ter condições para poder fazer as coisas. Apesar de ser muito novo, a minha cabeça já era muito boa, eu conversava com muitas pessoas, a minha esposa também me ajudava muito. Eu dizia que quando fosse profissional a primeira coisa que ia fazer era comprar uma casa para a minha mãe. Mas, quando recebi o primeiro ordenado, eu disse: "Ah, vou comprar um carro." [risos] A minha esposa disse logo: “Se você comprar o seu carro, nunca mais me vai ver. Antes você falava que queria comprar a casa, agora você vai comprar um carro?” Aí fiz a casa da minha mãe e só depois comprei o meu carro. Um Peugeot [risos].

O médio brasileiro (à direita) em ação pelo Palmeiras
O médio brasileiro (à direita) em ação pelo Palmeiras
D.R.

Quando chegou ao Palmeiras o treinador era Vanderlei Luxemburgo. Como era ele?
Gente boa, brincalhão, um dos melhores treinadores com quem trabalhei. Ensinou-me muita coisa. Muito bom treinador taticamente, fora de campo muito brincalhão, ajudava muito as pessoas com a sua experiência, não tinha como ter sido melhor para mim chegar num grande clube, com um grande treinador.

Assinou por quanto tempo com o Palmeiras?
Quatro anos.

Só ficou dois. Quais os momentos-chave?
Num grande clube como o Palmeiras, para mim foram todos os jogos, todas as concentrações, todas as viagens, os treinos, tudo.

Porque não permaneceu no clube?
Sendo o Palmeiras um grande clube, com excelentes jogadores que contrata jogadores com facilidade, na altura contrataram mais laterais e eu vi que não ia ter muito espaço. Era muito novo. Com o meu empresário decidimos sair. Até poderia ter ficado, mas vi que não ia ter muito espaço e ficar num clube só para dizer que está lá, também não é bom. Fui emprestado para o Grêmio Prudente. Estive lá uns três, quatro meses e acabei por vir para Portugal.

Até essa altura já tinha pensado em sair do Brasil para jogar na Europa? Era um objetivo?
Não, nunca, não sonhava, nem passava pela minha cabeça. É claro que via os jogos da Champions League, da Liga Europa e pensava “será que um dia eu vou jogar ali?” Mas não sonhava em vir para Portugal.

Em 2010/11, Jefferson estreou-se no futebol português, na II Liga, com o Estoril Praia
Em 2010/11, Jefferson estreou-se no futebol português, na II Liga, com o Estoril Praia
D.R.

Como reagiu quando o seu empresário lhe falou no Estoril Praia?
Na altura eu não conhecia o clube, nem Portugal. Mas como foi um treinador que estava comigo no Grêmio Prudente, o Vinícius Eutrópio, que me falou... Ele vinha para cá, gostava muito de mim, eu vim com ele.

A Sara veio consigo?
Sim, ela já estava grávida da minha princesa, a Beatriz.

A Beatriz nasceu em Portugal?
Nasceu em Cascais, em 2010.

Quando chegou a Portugal, quais foram as primeiras impressões que teve?
A minha primeira sensação foi muito top, porque diziam que a Europa é muito fria, mas como cheguei no verão, estava sol, e quando vi Cascais e o mar, a praia, nossa, que lugar lindo. Fui morar em Cascais e só pensei: "Vim para o paraíso, agora é só jogar e desfrutar."

No clube, as expectativas também se mantiveram altas?
Mantiveram. Sempre fui de projetos novos, nunca fui de chegar num lugar e não gostar das condições, das instalações. Para mim está tudo bom demais.

Veio jogar para a II Liga, um campeonato muito diferente do brasileiro?
Com certeza. Um campeonato onde tinha mais pegada, mais físico.

Foi difícil a adaptação?
Não, porque os campeonatos estaduais são meio-parecidos com o campeonato da II Liga. No Brasil há muita equipa pequena, muito contacto físico também, um estilo semelhante.

O que mais estranhou na cultura portuguesa?
Por incrível que pareça, não estranhei nada não.

Entendia tudo o que os portugueses diziam?
[Risos] No começo não, porque falava muito rápido, mas não demorou muito para perceber.

Jefferson está a ver em Braga, onde tem uma barbearia, mas no verão regressa ao Brasil
Jefferson está a ver em Braga, onde tem uma barbearia, mas no verão regressa ao Brasil 
FERNANDO VELUDO / NFACTOS (EXCLU

O ambiente no balneário era muito diferente do brasileiro?
Um pouco. Os europeus são mais fechados, até ter aquela confiança, demora. Mas como fizemos a pré-época no Brasil, facilitou bastante a nossa estadia aqui em Portugal. A equipa também tinha muitos brasileiros e os portugueses eram top. Até hoje tenho amizade com muitos, o Marco Silva, o João Coimbra, o Gonçalo, tive muita sorte em termos de grupo.

O empréstimo foi só de um ano. Teve de regressar ao Brasil. Teve pena ou queria regressar ao Brasil?
Para mim era igual voltar ou ter ficado. Naquela altura a Traffic investiu num plantel muito bom, como eu tinha um bom ordenado, eles disseram que tinha de voltar para o Brasil, que não dava para ficar mais na II Liga. Voltei para o Fluminense.

Onde só fez um jogo. Porquê?
O Fluminense tinha sido campeão brasileiro na época anterior e eu cheguei quase no meio da época, em maio. O lateral esquerdo da altura, o Carlinhos, era muito bom jogador e jogar no lugar dele era muito difícil, a equipa já estava montada. Depois, eu tinha contrato com a Traffic, eles mandaram-me para o Náutico, disputei o Campeonato Pernambucano e a seguir regressei ao Estoril Praia.

Que já estava na I Liga e tinha como treinador o Marco Silva, seu colega de equipa em 2010/11. Foi estranho tê-lo como treinador?
Não. Inclusive, ele ligou-me quando foram campeões da II Liga e disse que contava comigo para a próxima época, queria muito que eu voltasse. Não pensei duas vezes.

O Marco Silva surpreendeu-o enquanto treinador?
Bastante. Pelos treinos, pelos posicionamentos que ele nos dava. Basta dizer que ficámos em 5º, em lugar de disputar a Liga Europa.

Notou muita diferença da I Liga para a II Liga?
Muito. Tem mais qualidade, jogadores que desequilibram mais.

 

Spoiler

“Quando estava no Sporting, só não fomos campeões porque nos roubaram. Se houvesse VAR, tínhamos sido campeões vários anos seguidos”

Aos 36 anos, Jefferson prepara-se para iniciar uma nova etapa, após ter tirado o curso de treinador UEFA B. Ainda não recebeu convites para ser treinador ou treinador-adjunto, mas vai continuar à espera e a aprofundar os conhecimentos. Dono de uma barbearia em Braga, o ex-médio conta nesta parte II do Casa às Costas como foram os anos vividos no Sporting, onde ganhou três taças e uma Supertaça, e as passagens pelo SC Braga, Suíça e Casa Pia AC, antes de terminar a carreira de jogador no Brasil

Como foi parar ao Sporting em 2013/14?
Tinha feito uma excelente época no Estoril Praia. Na verdade, já havia um boato que o Sporting queria contratar-me quando vim para a II Liga, porque eu era um dos jogadores mais falados da II Liga. Mas nesse ano de 2012/13, na I Liga, eu fiz golo contra o Benfica, contra o Sporting, acabei por me destacar muito.

As condições de contrato eram muito melhores?
Devia ter sido melhor, na altura, mas não reclamo, porque depois melhorou muito.

O mundo do Sporting era completamente diferente do Estoril Praia?
Claro, é um clube grande, com uma massa associativa maior, uma estrutura muito maior que a do Estoril.

O treinador era Leonardo Jardim. Muito diferente do Marco Silva?
O trabalho é diferente, mas como pessoa também era muito brincalhão, gostava de estar com os atletas.

Alguma vez foi praxado nos clubes portugueses?
Não, quem fazia era eu, para ninguém fazer comigo [risos].

O que fazia?
Metia talco nas cuecas ou aquelas pomadas que ardem. Cortava as camisolas que eu achava que eram feias.

Nunca nenhum jogador ficou chateado a sério?
Não.

Jefferson foi contratado pelo Sporting em 2013/14
Jefferson foi contratado pelo Sporting em 2013/14
NurPhoto

Qual a maior lembrança que tem da primeira época no Sporting?
Muito desafio, porque quando cheguei o clube estava numa crise, tinha ficado muito mal classificado na época anterior. Então foi um desafio muito grande para mim. Ou eu ia afundar com o Sporting, ou ia subir com ele.

Sentia-se esse peso no clube?
Sim, tinha muito peso no clube. Também decidi ir para o Sporting porque estava chegando um presidente novo. Eu queria fazer um grande campeonato e ser muito bem reconhecido. E só não fomos campeões porque nos roubaram.

Como assim?
Não posso falar ainda. Mas acho que se houvesse VAR na altura tínhamos sido campeões vários anos seguidos.

Acha que a arbitragem portuguesa na altura não era séria?
Não é questão de ser séria… Eu não gosto muito de falar sobre isso, porque cada um faz o seu trabalho e eles acham que estão fazendo certo e cada um faz de acordo com a sua consciência.

Mas considera que o Sporting foi muito prejudicado.
Ah, com certeza. Não só nesse ano, como em vários anos seguidos.

Porquê acha que isso acontecia?
É difícil falar. Acho de verdade que devia falar, mas não posso falar, infelizmente.

Durante um treino dos "leões"
Durante um treino dos "leões"
D.R.

Na época seguinte reencontrou o Marco Silva, no Sporting. Era o mesmo treinador do Estoril Praia?
Estava mais evoluído porque já tinha disputado a Liga Europa, era mais experiente, mas como pessoa, o mesmo jeito, o mesmo convívio, as mesmas conversas e brincadeiras. Foi bom ter chegado nessa altura.

Conquistaram a Taça de Portugal e ficaram em 3.º lugar. Esperava mais?
Foi muito especial poder ganhar a taça com ele. Foi o primeiro título como jogador do Sporting e marcou-me muito. O estádio estava lotado, foi top. Muita brincadeira, muita alegria.

A saída do Marco Silva foi inesperada?
O que posso dizer é que tive muita pena que ele tivesse ido embora, porque acho que se tivesse continuado teríamos muito êxito nos anos seguintes, era um treinador muito bom, muito boa pessoa, ótimo com o grupo e tem um excelente trabalho.

Seguiram-se duas épocas com Jorge Jesus, um treinador com um temperamento especial. Como foi lidar com ele?
Para mim foi muito top. Um treinador de nome, com muita moral.

Em que se diferenciava dos outros?
Cada treinador tem o seu estilo e método de trabalho, uns gostam mais de conversar com os jogadores, outros gostam mais de cobrar. O Jorge Jesus é aquele que puxa pelo jogador, é mais focado na tática, nas jogadas ensaiadas. Ele vai na cobrança, muita cobrança. Isso para mim foi bom, eu gostava de ser cobrado, porque jogava melhor. Quando fui trabalhar com ele, acho que evoluí ainda mais. Tanto física, como taticamente.

Tem alguma história com ele que possa contar?
Ele era engraçado, às vezes virava-se para alguns jogadores e dizia: Mas tu jogas à bola? Tu és burro?”. E dois segundos depois: F...da-se, és inteligente, car...ho! Afinal, és inteligente!. Era de extremos. Cobrava-te, parecendo que te humilhava, mas em seguida elogiava. E dava nomes aos jogadores. Ao Gelson, por exemplo, chamava-o de enguia: Pareces uma enguia. Ele era demais.

E consigo, também implicava?
Não, eu procurava não dar muita abertura para poder falar comigo porque via que a cobrança era muita, então fazia tudo certinho para não chamar a atenção. Mas todo o dia era uma surpresa com ele. Surpreendia sempre as coisas que ele falava e nós morríamos a rir.

Ele reagia bem quando os jogadores começavam a rir?
[Risos] Nós ríamos escondidos. Mas acho que ele gostava. Às vezes ele inventava, queria falar em italiano, inglês, e era muito engraçado, porque ele não fala língua nenhuma. É um cromo. A vontade dele de querer ganhar sempre, as cobranças no treino… Jogávamos num dia, no outro dia de manhã tínhamos treino e ele tinha a mesma cobrança, ganhando ou perdendo. Isso marcou-me muito. É um treinador que quer sempre ganhar, não que os outros não queiram, mas muitas vezes os outros quando ganhamos jogos, depois é mais tranquilo. Com ele não, ganhando ou perdendo era a mesma coisa, cobrava na mesma. Puxava. Isso era muito positivo.

No seu terceiro ano no Sporting, acabou por ser emprestado ao SC Braga. Quem quis e decidiu esse empréstimo?
Na segunda época chegou um ponto em que eu só estava a jogar quando ele precisava mesmo. Tinha o Marvin [Zeegelaar], tinha o Bruno César, depois ele queria trazer jogadores, acho que o presidente é que não deixava eu sair. Mas eu só jogava quando alguém era suspenso ou quando apertava também. Como a terceira época ia ser com ele, falei com o presidente, porque o Abel Ferreira e o presidente do SC Braga ligaram-me e eu quis ir para lá. Ficar no Sporting sem jogar só para dizer que jogo no clube não faz sentido nenhum. Saí e fiz uma excelente época no SC Braga.

O Abel Ferreira é muito diferente do Jorge Jesus?
É. Mas é um excelente treinador também. Tem um trato com os jogadores completamente diferente, é mais tranquilo, é muita conversa, muita explicação tática. É aquele treinador que muda muito os jogadores, rodava muito os jogadores para poderem descansar ou pela estratégia de jogo. Isso fazia muita diferença. Ele sabia gerir isso muito bem.

O médio brasileiro com a Supertaça em 2015
O médio brasileiro com a Supertaça em 2015
Carlos Rodrigues

Adaptou-se bem à cidade?
Sim, tanto que vivo em Braga agora. Só não gostava muito da chuva, porque choveu muito esse ano.

A mulher, filhas e enteados foram viver consigo?
Sim, sempre. Eles são meus filhos porque quando comecei a namorar a Sara eles eram muito pequenos, um tinha quase dois anos e a Luísa, a mais velha, tinha sete, oito anos. Para mim são meus filhos.

Como correu a época no SC Braga?
No começo tivemos bons jogos na fase de grupos da Liga Europa. O resto do ano foi muito bom, fizemos uma das maiores pontuações de sempre do SC Braga.

Os adeptos do SC Braga eram muito diferentes dos do Sporting?
Muito, muito. A cobrança no Sporting é muito maior, porque num clube de Lisboa que tem mais massa associativa, a cobrança é maior. Mas os adeptos do Braga são fantásticos também.

Voltou ao Sporting na época 2018/19. Preferia ter ficado em Braga?
Eu não me arrependo de ter voltado. Tive até uma conversa com o presidente do SC Braga, só que ele não chegou a acordo comigo; conversámos em relação a salário e tudo, mas ele não quis melhorar as condições. Pelo futebol que eu estava a apresentar se calhar podia ter sido melhor eu ter ficado aqui em Braga, mas não me arrependo de ter voltado, porque o Sporting é um clube onde joguei muitos anos, onde os adeptos gostavam muito de mim, então não me arrependo.

Regressou já depois da invasão à Academia de Alcochete?
Sim. Cheguei no meio daquela bomba, de um novo presidente, uma reformulação em curso, tudo a acontecer. Era Peseiro o treinador. Não era muito fã dele como treinador, mas até gostava dele. Também esteve pouco tempo, acho que não estávamos a apresentar um bom futebol. É muito complicado porque nesses grandes clubes não sabemos o que se passa nos bastidores.

A seguir chegou Marcel Keizer. Mudou muita coisa?
Sim. Muito bom treinador, excelente trabalho, muito boa pessoa. Gostei muito de ter trabalhado com ele. A forma dele trabalhar, de se comunicar, apesar de falar inglês e eu não falava. A equipa técnica dele era excelente. Logo que chegou, era só goleada, 5-0, 4-0, fez um excelente trabalho. Acabou por sair não sei porquê. Ganhámos a Taça da Liga e a Taça de Portugal com ele. Não sei o que se passou.

Em 2017/18, Jefferson foi emprestado ao SC Braga
Em 2017/18, Jefferson foi emprestado ao SC Braga
Michael Campanella

E o que se passou consigo para não continuar no Sporting?
Acho que foi o atual presidente, não sei. Quando ele chegou, ainda tinha mais um ano e pouco de contrato e ele afastou-me da equipa, assim como a outros jogadores. Começámos a treinar à parte. Mandaram-me mensagem nas férias a dizer para não me apresentar na equipa principal, mas na equipa B.

Foi uma grande desilusão?
Eu sabia do meu potencial, o Keizer gostava de mim. Foi uma grande surpresa. Depois de tantos anos estava à espera de uma outra atitude, que conversassem comigo, não assim, por mensagem. Acho que foi uma falta de respeito. Mas cada um sabe o que faz. Também não questionei muito, é a vida, é o futebol.

Estava com 30 anos, a sair do Sporting, teve receio pelo futuro?
Não. Eu estava muito bem, não tive receio nenhum, mas tive azar de ter feito a rescisão de contrato por pressão deles. Foi burrice minha eu ter assinado no fecho da janela, fiquei parado até janeiro e, entretanto, veio a pandemia. Depois de passar o período mais crítico da pandemia é quando surge um clube da Suíça, o FC Lugano.

Como foi essa experiência na Suíça?
Muito top. Cheguei na segunda parte do campeonato. A família ficou em Portugal devido à pandemia. Mas foi bom.

Com que opinião ficou do campeonato suíço?
Tem algumas equipas fortes, que disputam até a Liga Europa e entram na Champions. É um campeonato bom de disputar, os estádios são bons, os relvados são top. Ao longo dos anos eles estão a evoluir muito.

E dos suíços, gostou?
Sim. São pessoas mais frias, é um país rico e as pessoas são mais reservadas. É um país tranquilo, não tem baderna, nada dessas coisas, é extremamente seguro, tranquilo. Gostei muito, a cidade é linda.

Com quem fez maior amizade lá?
Com o Noah, o pai era brasileiro e a mãe suíça. Fui à casa deles. Também fiz uma amizade boa com o Joel Untersee, sul-africano. Estivemos no mesmo hotel, íamos para o treino juntos. Ele já esteve em Portugal, veio visitar-me e esteve na minha casa.

O que aconteceu após o final dessa época no FC Lugano?
Fiz-lhes uma proposta, mas achavam que era um valor muito elevado, porque não pagam muito lá. Entretanto, recebi uma chamada do Tiago, do Casa Pia. Já o conhecia há algum tempo, ele assumia as rédeas do clube, fez-me o convite e eu aceitei. Era em Portugal, perto de casa.

Mas era II Liga, não lhe criou nenhuma resistência interna?
Não, foi tranquilo. Eu gosto de desafios. Pensei que podia tentar fazer um grande campeonato com os meus companheiros para subir de divisão e que isso ia dar uma visibilidade maior.

O médio regressou ao Sporting e conquistou a Taça da Liga (2018/19). Na foto com os filhos
O médio regressou ao Sporting e conquistou a Taça da Liga (2018/19). Na foto com os filhos
D.R.

A II Liga tinha evoluído desde que tinha jogado a primeira vez no Estoril Praia em 2010/11?
Sim, tinha evoluído bastante, vai tendo mais jogadores de qualidade, os treinadores já não são aqueles mais antigos, daquele futebol mais direto, mais truncado. Agora alguns treinadores já têm a cabeça mais aberta, gostam de ter mais posse de bola.

Só assinou por uma época com o Casa Pia AC?
Sim.

Alguma história que se lembre desse ano?
A única história é que foi uma correria para poder inscrever jogadores, eu lembro-me que nos primeiros jogos, só tínhamos 14 jogadores acho eu, muitos não podiam jogar porque estavam com covid-19, foi uma confusão. Fiquei uns dois meses para poder voltar a treinar porque os meus testes davam inconclusivo/negativo e depois positivo/inconclusivo. Tive que ficar 15 dias num hotel, sozinho.

Chegou a ter covid-19?
Sim, logo no começo. Fui um dos primeiros a ter na minha casa. Quase morri, estive muito mal, só não fui para o hospital e não estive entubado, mas estive mal mesmo. Três dias de febre, dor na garganta, sem sentir cheiro, nada.

Em 2019/20 Jefferson assinou pelo FC Lugano, da Suíça
Em 2019/20 Jefferson assinou pelo FC Lugano, da Suíça
D.R.

Não continuou no Casa Pia AC porquê?
Foi um problema porque como eu já conhecia o Tiago... Não sei o que aconteceu de verdade, foi uma época que não foi muito boa para muita gente. Fui conversar com o Tiago, ele disse que tinha de ver com o treinador, que eu ganhava bem... Eu já tinha 32 anos. Mas não sei o que aconteceu ao certo, não posso explicar, é muito complexo.

O Casa Pia AC não quis renovar?
Isso. Mas também não fiz muita questão, não.

Ficou sem clube e resolveu voltar para o Brasil?
Sim, fui para o Paysandu. A família ficou em Belo Horizonte, onde temos casa. Estive quatro meses no Paysandu. Comecei bem, fui a alguns jogos com o Vinícius Eutrópio, mas não entrava porque estava mal fisicamente ainda. Depois o Vinícius saiu e logo a seguir lesionei-me no joelho, fiquei um mês e tal parado e quando ia voltar a jogar, lesionei-me de novo no joelho. Fui para casa, fiquei um mês em casa, depois ainda fui para o XV de Piracicaba, onde disputei o Campeonato Paulista, da segunda divisão. O facto de ter 33 anos e ter estado muito tempo parado, ter jogado pouco... sabe que hoje não joga mais quem é o melhor, mas quem tem minutagem. Hoje a linguagem do futebol é minutagem: Quantas minutagens você tem?”. Se você tiver 20 mil minutos, pode ser o maior perna de pau, mas jogou, então tem de jogar. Eu joguei alguns jogos no XV de Piracicaba, mas acabei por me lesionar novamente, não nos classificamos para a fase seguinte e tive de ir embora.

Nessa altura percebeu que a carreira tinha terminado.
Na minha cabeça não. Fiquei um tempinho na minha casa, decidi aproveitar dois, três meses, treinava e curtia, treinava e curtia. Aproveitava para sair, comer, tomar umas cervejinhas, aproveitar mais a vida, mas sempre a pensar que podia surgir alguma coisa. Depois tive de vir a Portugal para resolver alguns problemas da minha casa, para poder alugar. Na altura tinha três barbearias. Abri-as quando vim para Braga.

Porquê barbearias?
Foi a minha esposa que abriu, foi ideia dela. Tínhamos de fazer alguma coisa relativamente ao futuro, fazer algum investimento. A minha esposa é que faz essa parte de gestão.

As três barbearias ficam em Braga?
Não. Eu tinha uma em Lisboa, outra em Guimarães e em Braga. Mas passei duas e só fiquei com a de Braga.

E acabou por ficar por cá?
Fiquei, esperava que aparecesse algum clube também. Mas o futebol mudou muito, os jogadores com mais de 30 anos estão a ficar um pouco para trás. Acham que jogadores dessa idade já não rendem, nem correm mais. Às vezes as pessoas ligavam-me Ah, não te liguei antes porque achei que você ia pedir muito.... Muita história que inventam. Infelizmente há ótimos jogadores com mais de 30 anos que estão sem jogar, por causa dessa mentalidade. Hoje só querem jogador novo para fazer dinheiro. Não está errado, mas acho que tem que ter aquela mescla, com jogadores mais experientes.

Jefferson em ação pelo Casa Pia AC
Jefferson em ação pelo Casa Pia AC
Gualter Fatia

Entretanto, passaram três anos desde que deixou de jogar.
Já. No primeiro ano que vi que não ia ter nada parei de procurar, foquei-me mais em outras coisas, fiz o meu curso de treinador, foquei-me mais na minha família.

Pretende ser treinador?
Também. Mas tem que ter sorte, hoje o mercado é muito dominado por empresários.

Qual o nível do curso de treinador que possui?
UEFA B. Na verdade, eu fiz para poder exercer caso algum treinador me chame, para poder ser auxiliar, mas também para voltar a estudar, ter a cabeça ocupada.

Já surgiu algum convite?
Por enquanto não. Os treinadores com quem tenho mais contacto, alguns estão sem clube. O Fabiano Soares, que trabalhou no Estoril Praia, o Vinícius Eutrópio…

Vai continuar por cá?
Não, quero voltar para o Brasil dentro de poucos meses. Os meus filhos estão lá a estudar.

Que outros negócios tem, além da barbearia?
Tenho apartamentos. Abri barbearias no Brasil. Estou a levar umas marcas da Europa para lá também. Quero estudar mais, fazer os outros cursos, para poder estar mais preparado.

Onde ganhou mais dinheiro na carreira?
No Sporting.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Acho que nunca fiz.

Tem algum hobby?
Comer [risos].

Algum prato preferido?
Polvo à lagareiro.

É um homem de fé?
Muito. Sou católico. Sempre que posso vou à missa.

Superstições, tem ou teve?
Quando entrava em campo, entrava com um pé só. Mas era mais porque todos faziam.

Tem tatuagens?
Não.

Acompanha ou pratica outra modalidade?
Gosto de ver futsal e voleibol também.

Qual a maior frustração na carreira?
Não ter sido campeão nacional pelo Sporting e ter saído da maneira que saí.

E o maior arrependimento?
Não ter feito as coisas como devia ser numa determinada altura da minha carreira. Houve uma altura em que não me foquei como devia, porque estava a jogar e achava que podia relaxar, dar uma saidinha, por exemplo. Devia ter focado mais em mim e ter trabalhado mais nos treinos.

O momento mais feliz na carreira?
Todos. Só não cheguei na seleção, mas joguei em vários clubes grandes, no Palmeiras, no Sporting, no SC Braga, no Fluminense.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Num clube grande da Inglaterra. No Arsenal, Chelsea, Liverpool, no City... Mas também gostava de ter jogado no Real Madrid ou no Barcelona, da Espanha.

Há alguma lei do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Acabava com o VAR. Atrasa o futebol, o jogo fica parado, não tem mais aquela emoção como antes do VAR.

Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
O Salvio, Gaitan, aquela equipa do Benfica daqueles anos em que estive no Sporting, era muito forte.

Gostava de ter jogado ao lado de algum jogador em particular?
Do Ronaldinho Gaúcho e do Cristiano Ronaldo.

Tem algum talento escondido?
Acho que não, nunca descobri, mas quero descobrir.

Se não fosse jogador de futebol o que teria sido?
Não faço a mínima ideia.

Há alguma frase que o tenho marcado para o resto da vida?
Só faça o que está no seu alcance. Foi o Abel Ferreira que disse.

 

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Citação de smashing_pumpkin , Em 28/01/2025 at 15:14:

Espelha bem a gestão absurda que era feita no tempo do JJ e do BdC. 

Uma gestão fatawu para o desenvolvimento do jogador

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Citação de Lebohang, Em 28/04/2025 at 09:25:

Como assim?
Não posso falar ainda. Mas acho que se houvesse VAR na altura tínhamos sido campeões vários anos seguidos.

Citação de Lebohang, Em 28/04/2025 at 09:25:

Há alguma lei do futebol que se pudesse, alterava ou bania?
Acabava com o VAR. Atrasa o futebol, o jogo fica parado, não tem mais aquela emoção como antes do VAR.

Oh Jefferson... 😂

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Citação de Simeone, há 35 minutos:

Oh Jefferson... 😂

Hahahaha, acabei agora de ler a entrevista e também fiquei assim, wtf. 😂

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Citação de Simeone, há 52 minutos:

Oh Jefferson... 😂

Ele realmente sempre olhou para duas direções diferentes simultaneamente

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Se alguém quiser falar pessoalmente com ele, ao sábado à tarde está sempre sentado na barbearia dele no Minho Center, em Braga. (não recomendo a barbearia por ser 20€ o corte tho)

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Citação de Robe, há 2 horas:

Se alguém quiser falar pessoalmente com ele, ao sábado à tarde está sempre sentado na barbearia dele no Minho Center, em Braga. (não recomendo a barbearia por ser 20€ o corte tho)

É ele que corta? Estou mesmo a ver uma patilha ficar maior que outra.

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Citação de bug, há 1 minuto:

É ele que corta? Estou mesmo a ver uma patilha ficar maior que outra.

não, fica só sentado a falar com os clientes e a tirar fotos com quem passa e lhe pede uma foto

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