Lebohang Publicado 19 Dezembro 2020 #163. Rui Fonte: “Sim, paguei meses de salários em atraso a funcionários do Vitória, que estavam no clube quando passei por lá. Agora, ajudei-os” #164. Guilherme Farinha: “Na Guatemala, um tipo apontou-me a arma à cabeça e perguntou se sabia o que era Roleta Russa. Disse-lhe que comia armas ao pequeno-almoço” #165. Litos: "Uma vez virei-me ao Oceano dentro do balneário. A sorte é que ele tropeçou e caiu entre o banco e os cacifos e não se conseguiu levantar" #166. João Meira: "Na Roménia, o treinador tirou-me da equipa, em cima de um jogo, porque quis comer ovos em vez de esparguete" 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 19 Dezembro 2020 Só para dizer que o Guilherme Farinha enganou-me bem quando disse na entrevista que quase foi campeão do Mundo de U17 em 1993, afinal a versão correta é que perdeu o eliminatória africana de acesso ao Mundial contra o futuro campeão do Mundo. 😆 Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 20 Dezembro 2020 Citação de Lebohang, Em 19/12/2020 at 22:41: Só para dizer que o Guilherme Farinha enganou-me bem quando disse na entrevista que quase foi campeão do Mundo de U17 em 1993, afinal a versão correta é que perdeu o eliminatória africana de acesso ao Mundial contra o futuro campeão do Mundo. 😆 Adorei ler a entrevista, o homem fala como um vigarista profissional 😁 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 27 Dezembro 2020 #167 (1). Manuel Fernandes, Parte I: “Deixei o pé e o Bento, que tinha levado 8 pontos na cabeça, veio cego, acertou-me e disse: ‘És sempre a mesma porcaria’” #167 (2). Manuel Fernandes, Parte II: “Íamos no avião e o Cintra a culpar os três centrais, como se percebesse daquilo. Eu disse ao Robson: ‘Tomorrow, you, I e Mourinho, out’” Compartilhar este post Link para o post
Puto Perdiz Publicado 27 Dezembro 2020 lol, tá ali um gajo que parece ter orelhas de burro Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 30 Janeiro 2021 #168. Pedro Santos: “No Leixões tive seis meses de salário em atraso, queria comer e não tinha dinheiro, tive de pedir à minha mãe que mandasse dinheiro” #169. Leonel Pontes: “O Ronaldo foi à minha casa e deixei-o andar numa acelera. Ele tinha 13 anos, fez um cavalo, roda no ar durante três metros, e desapareceu” #170. Ricardo Carvalho: “Nunca fui sociável. Era calado, fingia que bebia vinho para não me chatearem. Os meus colegas ouviam música, eu rezava antes do jogo” #171. Idalécio: “Joguei no Braga, na Europa, perdi a casa, fiquei só com a roupinha. Emigrei, trabalhei no casino, servi o Cristiano e o Neymar à mesa” Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 30 Janeiro 2021 Citação de Lebohang, há 12 horas: #168. Pedro Santos: “No Leixões tive seis meses de salário em atraso, queria comer e não tinha dinheiro, tive de pedir à minha mãe que mandasse dinheiro” #169. Leonel Pontes: “O Ronaldo foi à minha casa e deixei-o andar numa acelera. Ele tinha 13 anos, fez um cavalo, roda no ar durante três metros, e desapareceu” #170. Ricardo Carvalho: “Nunca fui sociável. Era calado, fingia que bebia vinho para não me chatearem. Os meus colegas ouviam música, eu rezava antes do jogo” #171. Idalécio: “Joguei no Braga, na Europa, perdi a casa, fiquei só com a roupinha. Emigrei, trabalhei no casino, servi o Cristiano e o Neymar à mesa” Li as últimas duas para já Do Carvalho nada a dizer, deve ser um tipo secante pa crl Já o Idalécio, a certa altura estava com pena do que lhe aconteceu, ter que emigrar e fazer trabalhos f*didos, mas o orgulho que ele tem nas conquistas de empregado do mês fizeram-me genuinamente feliz por ele 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 21 Fevereiro 2021 #172. Josué: “Cresci revoltado, aprendi sozinho, não falo com a família há 12 anos. Achava que o mundo estava contra mim. Era rude e hoje percebo isso” #173. José Sousa: “O Preud'homme punha tabaco entre os dentes e o lábio. Experimentei: ardeu-me, cuspi, fiquei branco. E ganhei um lugar à mesa do João Pinto” #174. Miguel Vítor: “Vivo a 40km de Gaza. Se toca a sirene é porque dispararam um rocket: em 45s, eu, mulher e filhas temos de ir para o bunker de betão” 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 6 Março 2021 #175. João Peixe: “Uns chavalos drogados gritaram 'oh palhaço'. Eu, burro, respondi, levei e dei socos, fugi e fiz uma rutura. Porque não fiquei calado?” #176. Zeca: “Quando representei a Grécia, cantei o hino, arrepiei-me, lembrei-me do bairro de onde vim, de tudo o que passei. E então pensei no meu pai” Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 21 Março 2021 #177. Paulo Santos: “Chamavam-me maluco, prefiro irreverente: baixei os calções e mostrei o rabo, no meio dos festejos, dos insultos e dos assobios” #178 (1). Rui Baião, Parte I: “Estava num WC, entram o Toni e o Jesualdo a falarem de mim e eu quis sair disparado para o bate-boca. Eu era assim: dizia e fazia porcaria” #178 (2). Rui Baião, Parte II: “Nasci com um dom, mas fui o meu pior inimigo. Pesei quase 100kg, tive problemas de coração, chorei muito. Hoje monto peças para carros” Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 21 Março 2021 Joguei contra o Rui Baio e não me lembrava. Da equipa dele que joguei contra só me lembrava do Rambé. Compartilhar este post Link para o post
Hawkeye Publicado 21 Março 2021 Sempre pensei que o Rui Baiao fosse irmão do Bruno. Deve ser efeito Mandela Compartilhar este post Link para o post
Diogo_CFB Publicado 22 Março 2021 Citação de Hawkeye, há 10 horas: Sempre pensei que o Rui Baiao fosse irmão do Bruno. Deve ser efeito Mandela O miúdo vivia aqui. Ele tem um irmão, mas não joga futebol. Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 22 Março 2021 Joaquin Phoenix ou Paulo Santos? Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 28 Março 2021 #179 (1). Vítor Pereira, Parte I: “Ia celebrar à frente do Jesus, vi-o cair de joelhos e não consegui. Virei-me, rasguei as calças atrás, imaginei o desgosto” #179 (2). Vítor Pereira, Parte II: “Entrei, os adeptos todos mascarados, a insultarem-me, comecei a contar passos e um deles salta para dentro do campo. E eu disse: ‘anda cá’” 1 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 3 Abril 2021 #180. Tuck: “Na Arábia, entrei no banco com a minha mulher e filha e ouviu-se logo uma voz: ‘Ladies, out’. Elas tinham de entrar pelas traseiras” Compartilhar este post Link para o post
Chandler Publicado 3 Abril 2021 Alguém com assinatura arranja estas três últimas entrevistas? Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 3 Abril 2021 Citação Tinha na equipa o Pedro Estrela e, ao que sei, há imensas histórias para contar dele. Do Pedro Estrela tenho muita história. Mas tenho uma, que só quem o conhecer é que interpreta de forma tranquila o que ele disse. O Vitor Oliveira tentava que toda a gente tivesse os dias de folga no mesmo momento, os que jogavam e os que não eram convocados. Então o que fazia? Um ou dois elementos da equipa técnica vinham mais cedo, quando estávamos em estágio, para dar o treino aos não convocados de forma a eles estarem despachados quando estivéssemos a chegar para o jogo. Normalmente nem encontrávamos os jogadores que não jogavam. E o Pedro foi um deles. Chegamos do estágio e ele ainda lá estava, sem tomar banho nem nada, porque o Pedro era assim, relaxado, tranquilo. Eu devo ter ido à casa de banho ou qualquer coisa e fiquei sozinho com ele no balneário e vou a passar por ele, e ele vira-se para mim, a pensar que eu não era dos convocados e diz: “Dragon Ball, vou-te dizer uma coisa, o futebol está todo ao contrário"; "Mas porquê Pedro?"; "Não estás a ver? O artista aqui sentado e os pernas de pau é que vão jogar, pá" [risos]. Ele nem se lembrou que eu jogava. Porque é que o chamava de Dragon Ball? Por causa do meu cabelo na altura [risos]. Mas para perceberem como era o Pedro Estrela, um dia ele estava na marginal com a namorada, no carro descapotável dele... Eles tinham um cão dálmata. Pararam num semáforo, o Pedro olha pelo espelho e diz para ela na maior das tranquilidades: “Está ali um cão na estrada que parece o nosso”. Ela quando olha para trás, era mesmo o cão deles que tinha saltado do carro enquanto estavam parados e estava a passear no meio da marginal [risos]. Mas o Pedro sempre tranquilo, nem sequer olhou para trás [risos]. Uma vez, fomos jogar aos Açores, onde estava o Manuel Fernandes, que já tinha tentado contratar o Pedro Estrela, mas o Vítor Oliveira não deixou. No saco do equipamento havia apenas uma camisola porque era o roupeiro quem tinha as outras, caso fosse preciso substituir. Mas o Pedro quando abriu o saco e viu que só tinha uma camisola começou logo: “ Isto é coisa do Manuel, mandou roubar no aeroporto, é para o artista não jogar" [risos]. Mas ele dizia aquilo confiante, acreditava naquilo. Há tantas dele… Mais uma então para fecharmos este capítulo do Pedro Estrela. Uma vez, nós já tínhamos feito mais de 20 jogos quando o Pedro começou a jogar. Ao fim de três ou quatro jogos que ele tinha feito, há um dia em que entro no balneário não o vi. Perguntei por ele e disseram-me "ele está no posto médico, vai lá vê-lo que ele está "morto"". Ele fisicamente era robusto. Cheguei lá, estava ele na marquesa a bufar e eu: "Pedro, o que é que se passa?"; "Dragon Ball, stress competitivo" [risos] Nós já com 20 e tal jogos nas pernas e ele jogou três seguidos e dizia que tinha stress competitivo [risos]. Era um puro. Ay lmao, que personagem! 😆 Compartilhar este post Link para o post
Poeira Publicado 3 Abril 2021 Citação de Chandler, há 1 hora: Alguém com assinatura arranja estas três últimas entrevistas? Reforço o pedido. Sobretudo as do VP. Compartilhar este post Link para o post
FabioK Publicado 3 Abril 2021 Stress competitivo, fdc 😂 ri muito Compartilhar este post Link para o post
Roland Publicado 4 Abril 2021 (editado) Rui Baião: Parte 1 Spoiler Expresso Tribuna Blitz Boa Cama Boa Mesa Emprego Imobiliário O Mirante A casa às costas “Estava num WC, entram o Toni e o Jesualdo a falarem de mim e eu quis sair disparado para o bate-boca. Eu era assim: dizia e fazia porcaria” Aos nove anos, Rui Baião pediu a uma estrela cadente para um dia jogar no Estádio da Luz pelo Benfica e o desejo concretizou-se mas o sonho de brilhar no clube do coração foi traído pelo feitio irreverente; a relação com Jesualdo Ferreira, diz, também não ajudou e a saída do SLB seria um dos seus dois maiores arrependimentos. O segundo, uma discussão violenta com Luís Campos Esta é a primeira parte de uma longa entrevista a um dos meninos rebeldes do futebol português Alexandra Simões de Abreu 20.03.2021 às 9h00 Ana Baiao Nasceu no Montijo. Apresente-nos a família. Os meus pais, Francisco e Inácia Baião, são ambos do alto Alentejo, da aldeia Perolivas, ao lado de Reguengos de Monsaraz, para onde eu ia todas as férias de verão. O meu pai era vidraceiro na siderurgia e a minha mãe trabalhava como empregada de limpeza. Tenho duas irmãs mais velhas, a Otília e a Elsa, temos sete e cinco anos de diferença. A minha mãe diz que eu sou o camisinha rota [risos]. Era um puto regula? Sim. Basicamente tinha tudo a ver com o futebol, embora antes de jogar futebol pratiquei atletismo, com 8,9 anos, porque os meus pais viviam, e ainda vivem, na Moita e a minha irmã do meio andava no Núcleo de Atletismo da Moita. Participei em vários corta-matos e algumas corridas. Uma vez fomos a uma corrida em Santo André e no regresso a carrinha avariou. Já todos partidos da corrida, ainda tivemos de andar a empurrar a carrinha, até pegar [risos]. Mas tenho uma história engraçada. Conte. Eu devia ter uns 12 anos e combinei com malta do meu bairro irmos todos às piscinas de Vendas Novas num fim de semana. Tínhamos de encontrar-nos às cinco e tal da manhã para apanhar o comboio de forma a chegar às piscinas à hora de abertura, às 9h. Tudo combinado, tudo certo, só que havia um problema: a minha idade. Grande parte do grupo era mais velho do que eu. Como é que eu ia convencer os meus pais, com a minha idade, a deixarem-me ir com pessoal amigo mais velho do que eu? Além de que eu só tinha dinheiro para a viagem e nada mais. Andei o que restava da semana a pensar num esquema e a solução que encontrei foi esta: não contei nada aos meus pais. Nós vivíamos num 3.º andar e para não os acordar e não fazer barulho, nessa noite não dormi, escrevi um bilhete a dizer que tinha saído cedo e ido para a praia com o meu melhor amigo; e desci do 3.º andar até ao rés do chão pelas varandas de trás, sem pensar no perigo do que estava a fazer [risos]. Como não tinha dinheiro para comprar comida, fui comendo um bocado da comida dos outros [risos]. Gostava da escola? Gostava de não ir à escola [risos]. Durante a primária e até ao 7º ano sempre fui um aluno assíduo e tirava boas notas, a partir do 8º ano é que se complicou porque coincidiu com começar a jogar futebol mais a sério. Quando era pequeno já dizia que queria ser jogador de futebol? Não me lembro de ter nada idealizado quando era pequenino, até à altura em que o meu pai comprou uma telefonia e eu comecei a ouvir os relatos de futebol. Aquilo fascinou-me imenso. Sobretudo ouvir os nomes dos jogadores. Foi a partir daí que comecei a pensar "Quem me dera a mim ser jogador de futebol", mas para que os meus pais também pudessem ouvir o meu nome na rádio. Torcia porque clube? Isto aconteceu no final da década de 80 e nessa altura quem estava na mó de cima era o Benfica. Lá em casa éramos todos benfiquistas, mas nunca me foi incutido ser de um clube. Acho que foi mesmo de ouvir os relatos. Aquele rádio dava para cassetes e no dia em que o Benfica ganhou 2-0, nas Antas, com dois golos do César Brito, resolvi fazer uma gravação de mim a fazer o relato desse jogo [risos]. Tenho pena de já não saber onde anda essa cassete, mas lembro-me de alguns anos mais tarde ouvi-la e lá estava a minha vozinha de criança a relatar. É verdade que pediu um desejo a uma estrela cadente e que se cumpriu? É. Devia ter uns nove anos, estava com os meus amigos à noite na rua e vi passar uma estrela cadente. Dizia-se que devíamos pedir um desejo e eu acreditava. O desejo que pedi foi: "Um dia gostava de ser jogador do Benfica e jogar no Estádio da Luz". Isto porque a minha irmã, que praticava atletismo, ganhou um prémio e fomos fazer uma visita ao antigo Estádio da Luz. Eu fiquei fascinado com a imponência daquilo, o terceiro anel, a grandeza. Graças a Deus consegui cumprir esse meu desejo. Quando começa a jogar futebol num clube? Eu jogava à bola com os meus amigos no ringue todos os dias. Na escola, combinávamos os jogos no ringue, aquilo era bairro contra bairro, eram grandes batalhas. Foi aí que comecei a aprender o básico, com os amigos, no bairro da Caixa. Entretanto, fizemos uma equipa e fomos a um torneio distrital, em Setúbal. Estavam lá olheiros e coincidiu estar um do Barreirense, que veio falar comigo e com o meu melhor amigo de infância, Nuno Camões, para irmos às captações no Barreirense. Qual foi a reação em casa? Os meus pais sabiam que eu gostava muito de jogar à bola e que faltava às aulas por causa disso. A minha mãe era muitas vezes chamada à escola. Diziam-lhe: "O Rui quando vem às aulas é bom aluno, mas ele falta bastante"; "Falta bastante? Mas ele levanta-se cedo e vem para a escola"; "Pois, mas ele prefere andar a jogar do que vir às aulas". A minha mãe diz que quando me confrontava eu respondia: "Pois mãe, é que eu não tenho tempo para jogar à bola" [risos]. Mas nunca me impediram de seguir o meu sonho. Como correu nas captações? Eu nunca tinha jogado futebol 11, era sempre futebol de salão, no ringue. Sabia que quando a bola saía era lançamento, mas as regras mais específicas eu não sabia. Quando fui às captações, disse que jogava a avançado e fiz como no ringue, fiquei junto da baliza à espera da bola para fazer golos. A defesa subia e eu ficava encostado ao guarda redes à espera que me passassem a bola [risos]. O treinador pôs-se aos gritos :"Miúdo, tens de vir com os defesas senão ficas em fora de jogo". E eu: "Fora de jogo? Sei lá o que é isso, fora de jogo". Tinha 11 anos. Cheguei a casa e fui perguntar ao meu pai o que era o fora de jogo e ele lá me explicou. Mas mesmo assim ficou no Barreirense? Chegou um dia em que aconteceu uma coisa que não estava à espera. O meu melhor amigo de infância jogava a defesa central, gostaram muito dele e quiseram ficar com ele. Ele vira-se para as pessoas do Barreirense: "E o Baião?"; "É bom jogador mas não contamos com ele"; "Então se não contam com ele eu também não fico. Só fico se o Baião ficar". Eles queriam muito que ele ficasse e acabaram por ter de levar comigo também [risos]. Eu e o Nuno fomos criados no mesmo prédio, onde ia um, ia o outro, só não somos irmãos de sangue, porque de resto somos irmãos e tratamo-nos como tal. Ficou no Barreirense até quando? Dois anos. Aconteceu tudo muito rápido. Tive uma evolução fora do comum, tanto que fui para lá como iniciado B, fiz quatro cinco jogos e passei logo para a equipa A e fui titular o resto do ano. Fomos campeões distritais e subimos ao nacional. No ano a seguir, jogámos contra Benfica, Sporting, Belenenses, Setúbal. Quando jogávamos na relva com os clubes grandes, como não estávamos habituados, levávamos grandes cabazadas, mas quando eles vinham jogar ao nosso pelado sofriam muito para ganhar-nos. Entretanto, como tinha feito um bom campeonato pelos iniciados, mas não passamos à fase seguinte, o treinador dos juvenis levou-me para os juvenis A. Entrei na equipa e não saí mais. Fui campeão distrital juvenil, apesar de ser iniciado. O que aconteceu depois? Como as coisas estavam a correr bem, fui tentar a minha sorte ao Vitória de Setúbal. Mais uma vez fui com o meu melhor amigo. O treinador ficou maravilhado, foi logo ter comigo: "Vamos ali à sala do diretor e vais já assinar por nós". Mas eu, com 14 anos, respondi: "Não, não quero assinar nada. Até posso continuar a treinar aqui, mas por enquanto não quero assinar". Não sei se foi alguma coisa divina a desviar-me para o que aí vinha, mas não aceitei. Passados 15 dias aparece o Zé Augusto e o Adolfo, na Moita, à procura da casa dos meus pais. Eu estava a andar de bicicleta, não estava em casa. Entretanto. um amigo vem ter comigo: "Baião, vamos à tua casa que estão lá uns homens do Benfica à tua procura"; "Eh pá, vai-te lixar, estás a gozar comigo"; "É verdade, é verdade, anda lá"; "Vai-te lixar"; "O que é que apostas?"; "O que é que aposto? Então olha, aposto a roda da frente da minha bicicleta" [risos]. Perdeu a aposta. Perdi. Estava a chegar perto da minha casa e naquela zona estão sempre pessoas à janela, as chamadas coscuvilheiras, e começaram logo: "Eles estão-se a ir embora, estão-se a ir embora". Agarro na bicicleta e vou atrás deles. Eles viram-me, pararam o carro e voltaram para casa dos meus pais. Disseram que já há muito tempo que andavam a seguir-me e que queriam muito que eu fosse para o Benfica. Os meus pais disseram que a última decisão era minha. Não hesitou, claro. "Onde é que assino?" [risos]. Não o disse mas era o que estava a pensar. Passado duas semanas ligam para a casa dos meus pais, do Sporting. Queriam que fosse para lá [risos]. Já tinha assinado pelo Benfica? Eu naquele dia assinei logo um papel. Era o meu sonho, alguma vez ia perder essa oportunidade? Nessa altura já lhe falaram de dinheiro? Sim, fui para lá ganhar 25 contos (125€). Quando ganhou o primeiro ordenado lembra-se do que fez ao dinheiro? Lembro-me muito bem. Fui comprar umas Levi's, que custavam 20 contos (100€). Fiquei com 5 contos (25€) para o resto do mês. Sabe quanto lhe oferecia o Sporting? Nem cheguei a falar com eles. O que me disseram depois é que o Benfica deu 2000 contos (10.000€) ao Barreirense mais equipamentos e bolas, e que o Sporting dava 4500 contos (22.500€) por mim. Foi o que me disseram, se é verdade ou não, não faço ideia. Obviamente que se não tivesse aparecido o Benfica e só tivesse surgido o Sporting se calhar tinha ido para lá. Mas mesmo que não tivesse assinado pelo Benfica e estivesse entre um clube e outro, nem que o Sporting me pagasse mais de ordenado, com aquela idade eu queria lá saber de dinheiro... Queria era jogar no clube de que gostava, era o sonho de qualquer criança. Eu tinha 14 anos. Como foi a adaptação à nova realidade do Benfica? Não foi fácil. Havia o centro de estágio, só que como eu morava relativamente perto, não me deixaram ir para lá. Na pré-época treinávamos de manhã e de tarde e eu tinha de me levantar muito cedo porque tinha de apanhar comboio da Moita para o Barreiro, depois o barco para o Terreiro do Paço, e antigamente não havia estes catamarãs, antes demorava quase uma hora; depois, não havia metro no Terreiro do Paço, tinha que ir a pé até ao Rossio, para apanhar o metro para o Colégio Militar. Treinava, almoçava no centro de estágio, treinava à tarde e era a volta ao contrário. Ia e vinha sozinho. Hoje, olho para os meus filhos e penso que os miúdos não têm nem metade da responsabilidade que nós tínhamos. Hoje quando eles vão brincar para a rua ficamos com o credo na boca, quanto mais eu deixar o meu filho ir do Barreiro, onde vivo agora, de transportes para Lisboa. Os meus pais deram-me uma dose de responsabilidade muito grande. É aí que deixa os estudos? Ainda não. Eu andava completamente de rastos. Não aguentava aquele ritmo. Uma vez quando acabou o treino apanhei o metro no Colégio Militar, deixei-me dormir, só acordei no Campo Grande, com o revisor a dar-me pancadas no braço. Tinha ido de um lado ao outro da linha. Nessa altura fui falar com os diretores do Benfica. E fiquei no centro de estágio. Mas foi complicado essa fase de adaptação. Com Nuno Camões o melhor amigo de infância D.R. Custou-lhe afastar-se da família? Claro. Estamos habituados ao carinho familiar, a ter tudo feito, e de um momento para o outro tens de ser responsável por ti próprio. Claro que chorei, não escondo. Cheguei a pensar em voltar para casa. Fizeram-lhe alguma partida, alguma praxe quando chegou? Não, mas fizeram-me uma espera quando fui para o Benfica. Um ano antes tinha jogado contra o Benfica no campeonato nacional e eu sempre fui um jogador agressivo, e já na altura, apesar de ser magrinho, era bastante alto. Nunca gostei de perder. Eles lembraram-se de mim e quando me viram a entrar no balneário a primeira vez - isto eles contaram-me depois -, reconheceram-me. "Olha quem está aqui. Seja bem-vindo", mas a pensar "espera aí que a gente já te faz a folha". Então, cada vez que eu tocava na bola, pumba, vai de paulada. Ainda durou alguns treinos. De certa forma eu sabia porque é que eles estavam a fazer aquilo. Adaptou-se bem à escola em Lisboa? Nessa altura a escola é que andava mal comigo, não era eu com a escola [risos]. Eu só queria bola, estava desligado da escola, já desde o Barreirense. Na Moita tinha chumbado dois anos. Quando fui para o centro de estágio do Benfica passei para a escola secundária de Telheiras, no 8.º ano. As coisas correram bastante mal, mas tiveram um fim feliz. Como assim? No 1.º período tenho oito negativas, até a educação física tive negativa porque no Benfica durante um jogo parti o braço e não podia fazer. Só tive uma positiva, ao que mais gostava, inglês. No 2.º período tive positiva a inglês e educação física [risos]. No 3.º período, ainda fui uns tempos à escola, mas quando faltava um mês e tal para acabar deixei de ir porque com aquelas notas sabia que ia chumbar. Acaba o ano letivo, estou no centro de estágio e vêm chamar-me para ir ao telefone. Era a minha diretora de turma, nunca mais me esqueci do nome dela pelo que ela fez por mim, Maria José Mota. Disse-me que independentemente de eu ter faltado às aulas e das minhas notas, ela sempre me tomou como um bom aluno porque quando ia mostrava capacidades. E resolveu falar com os outros professores, porque sabia que eu já tinha chumbado duas vezes no 8.º ano e se chumbasse mais uma vez ia entrar numa sequência de anos perdidos que não seria bom para mim. Depois de uma conversa séria, aceitaram passar-me de ano [risos]. Eu nem queria acreditar, pensava que estava a gozar comigo. Mas não, foi impecável e disse que era só eu querer que conseguia ter excelentes notas e para aceitar aquela oportunidade porque se calhar não ia ter outra. Então fiz uma promessa à professora. Qual? Disse-lhe que estava muito agradecido pelo que ela fez, por ter dado a cara por mim, e prometi-lhe que pelo menos ia cumprir a escolaridade obrigatória, que na altura era só o 9.º ano. E assim fiz. No ano seguinte, mudei de escola, fui para o externato Álvares Cabral em Benfica e passei o ano só com uma negativa e porque entrei em conflito com uma professora. Ela não ia com a minha cara e eu não ia com a dela e deixei de ir às aulas. Era professora de Física e Química. Juvenis Barreirense. Rui é o segundo em baixo à direita, com as mãos na bola D.R. Voltando ao futebol. Quando chega à equipa principal do Benfica? Tive excelentes treinadores na formação do Benfica. Não foi sempre fácil, por minha culpa também, nunca fui um jogador fácil, fui sempre muito irreverente, muito espontâneo. O que eu pensava ou sentia era aquilo que saia, não refletia. Muitas vezes também fui mal interpretado, e outras errei, não tenho vergonha de assumir. Algum treinador que o tivesse marcado mais na formação? Talvez o professor Rui Oliveira e o Jaime Graça. Depois tive o Arnaldo Cunha, que fez o que alguém devia ter feito muito mais cedo, que foi cortar-me as vazas. Se tivessem tido esta atitude comigo sempre, se calhar o meu comportamento teria sido diferente. Só que a partir de determinada altura na formação do Benfica, eles tinham mesmo muita esperança em mim, era como um diamante que eles queriam lapidar. O problema é que eu continuava a cometer erros e ninguém metia travão. Que tipo de erros cometia? Acima de tudo era um miúdo muito mimado, conseguia levar avante as coisas que eu queria, da maneira que eu queria. E quando apanhei o Arnaldo Cunha, no 2.º ano de juvenil, houve um jogo nas Antas em que se ganhássemos éramos automaticamente campeões. E nessa semana portei-me mal outra vez. O que significa, em concreto, portar-se mal? Às vezes tinha más atitudes com os meus colegas. Infelizmente sempre fui um jogador muito emocional, deixava as emoções tomarem conta de mim. Mandava todos para o "baralho" e para a "coisa" da mãe deles ou passava-me uma coisa pela cabeça, um colega passava por mim e mandava-lhe um grande pau e depois não pedia desculpa. Já não me lembro em concreto qual a situação, sei que me portei mal e o Arnaldo Cunha: "Ai é?". Chegou o dia da convocatória e o nome do Baiãonito não estava [risos]. Os meus colegas foram às Antas, ganharam, eu fui campeão na mesma, mas não fui a esse jogo. Depois desse jogo o Arnaldo Cunha veio com um discurso claramente dirigido a mim. "Quando temos uma maçã podre no grupo, essa maçã pode apodrecer as outras maçãs. Qual o melhor remédio para as maçãs não apodrecerem todas? É tirar a maçã podre do meio das outras". Na seleção nacional de sub-16. Rui está atrás, no meio D.R. Nos juniores correu melhor ou nem por isso? Apanhei o mister Nené, que foi a primeira alavanca para eu ir à equipa principal. Era meu treinador nos juniores e os seniores entraram numa fase de transição e enquanto não vinha o novo treinador. Foi o Mário Wilson que assumiu os seniores, com o Nené como adjunto dele. Começámos o campeonato nacional e o Nené tinha uma confiança cega em mim. Tanto que, mesmo sendo mal comportado e tendo em conta que havia colegas há mais tempo no clube, meteu-me como um dos capitães da equipa, para me dar responsabilidade. O Nené enquanto treinador, dentro de campo era uma pessoa de regras muito rígidas. Só para dar um exemplo: na relva éramos obrigados a treinar com pitons de alumínio porque se fôssemos com os de borracha e tivéssemos o azar de escorregar, íamos logo tomar banho. Tínhamos de andar com o equipamento bem lavadinho, camisola dentro dos calções. E com as horas então… Eish. Tenho uma história a propósito. Conte. Íamos jogar a uma das ilhas, tínhamos de apanhar um avião e a hora de saída era às duas. O Baiãonito chegou três minutos atrasado e o autocarro já não estava [risos]. Lá consegui que uma pessoa conhecida me levasse ao aeroporto. Pedi desculpa ao mister e embarquei. Mas ele era muito rígido nas regras. Tinha também o outro lado. Era uma pessoa que a mim, particularmente, dava muita confiança, acreditava muito em mim. Chegou a treinar na equipa principal nessa altura em que ele acumulava como treinador principal dos juniores e adjunto dos seniores? Sim. Ele ensinava-me muita coisa. "Nos cantos, posicionas-te ali e vais ver que vais fazer golo". E era. Nesse ano de juniores fartei-me de marcar golos. Nessa fase em que ele era adjunto de Mário Wilson, levou-me a treinar com a equipa principal tinha eu 17 anos. Quem eram as figuras da equipa principal que o impressionavam mais? Acima de tudo o João Pinto. Na altura era Deus no céu e João Pinto no Benfica [risos]. Nunca tinha entrado no balneário dos seniores, entrei mudo e calado. Era um respeitinho. Era chegar dizer bom dia, equipar e estar caladinho, mais nada. Rui Baião tem 40 anos Ana Baiao Continuou a treinar com os seniores a partir daí? Só nessa fase de transição e não todos os dias. Quando veio o novo treinador voltei aos juniores, fiz dois anos e entretanto surgiu a equipa B. Estive um ano na equipa B. Claro que subir à equipa principal era um objetivo, mas naquela altura era muito mais complicado para um jovem da formação conseguir entrar diretamente na equipa A, a não ser que fosse algum fora de série. Depois da equipa B vai para Alverca, onde estava o professor Jesualdo Ferreira. Deram-se bem? Sinceramente não tenho muitas coisas abonatórias a falar dele. O professor Mariano Barreto era um excelente homem, muito boa pessoa, e vou fazer aqui uma confidência. Muito daquilo que o Pedro Mantorras foi, deve-se ao Mariano Barreto e não ao Jesualdo Ferreira. Por que razão diz isso? Quando fui para o Alverca, fiz uma excelente pré-época, digamos que era eu e mais dez, e quando chegou a altura do campeonato, o primeiro jogo foi contra o Marítimo, em casa, fui para o banco mas não entrei. Depois tive azar porque num jogo durante a semana contra os juniores do Alverca tive uma entorse muito grave, tive de andar de canadianas e estive mais de um mês parado. Fiz a recuperação, comecei a treinar, mas durante esse período em que estava fora dos treinos, estava eu e o Mantorras. Nós os dois, enquanto os outros treinavam, aquecíamos os guarda-redes. Entretanto comecei a recuperar, mas passado pouco tempo tive de ser operado a uma apendicite de emergência. Perdi meia época praticamente. E o Mantorras? Voltando ao Mantorras. Ele nunca contou para o Jesualdo, era um jogador que estava quase sempre à parte e o Mariano Barreto era das pessoas que mais acreditava no Mantorras e fazia muito trabalho específico com ele, dava-lhe muita confiança, dizia para nunca desistir. Na altura os avançados eram o Caju, o Anderson e outro que não me recordo o nome. O Mantorras era um jogador que andava ali, que não contava. Só que, por causa de lesões ou castigos, o Jesualdo foi praticamente obrigado a meter o Pedro Mantorras a jogar e foi o que se viu. Explodiu completamente. Mas o grande obreiro para aquela explosão foi o Mariano Barreto. Sou testemunha disso. O Jesualdo se calhar é que ficou com os louros de ter apostado nele. Não tenho nada contra o Jesualdo Ferreira, simplesmente quando trabalhei com ele infelizmente nunca tivemos coisas boas, não sei se lhe fiz alguma coisa mas... Porque mais tarde voltei a encontrá-lo no Benfica. Ao lado da mãe e da sobrinha ainda bebé D.R. Já lá vamos. Continuava solteiro? Já estava com a minha atual mulher, a Teresa. Começámos a namorar em 2000. Ela vivia com a mãe no prédio em frente ao dos meus pais, que eu visitava muitas vezes porque já tinha carro. Muitas vezes dormia em casa dos meus pais, e como saía muito cedo, para ir para Lisboa, via-a quase sempre de manhã. A Teresa é alta, tem 1,77m, e fiquei intrigado e interessado, porque não me lembrava dela quando vivia com os meus pais. Passado uns tempos, estava com o melhor amigo de infância e a Teresa estava com uma amiga que ele conhecia. Perguntei ao meu amigo quem era ela e ele não vai de modas e chama a duas. Convida-as para tomar café, à noite. Elas não apareceram. Fomos à procura e lá as encontramos. Começou a partir daí. Mas isto para dizer que quando estava em Alverca fiz um contrato promessa de compra e venda de um apartamento em Sacavém, mas nunca cheguei a comprá-lo, e a Teresa ia lá de vez em quando. Depois do Alverca volta à equipa B? Depois de ser operado à apendicite já não quis voltar ao Alverca porque não gostava de como as coisas estavam a correr. Havia alguns jogadores que tinham comportamentos que eu não achava adequados. Para ser simples e direto, nunca gostei de "chibos" no grupo de trabalho. Nunca fui "chibo". No Alverca tinha alguns jogadores que iam chibar tudo o que se passava dentro do balneário. Para mim o que se passa no balneário é sagrado, o que acontece lá, fica lá. Uma coisa é se todos tomarem uma decisão comum de dar conhecimento ao treinador, ao diretor, presidente, a quem quer que seja, outra é haver três, quatro jogadores que se vão chibar sem conhecimento dos outros só para ter proveito próprio. Não aceito isso. Mas houve alguma situação consigo diretamente? Felizmente, não. Mas não gostava do ambiente e por outro lado vi que o meu espaço, também em função das lesões que tinha tido, tinha acabado. Sempre pensei pela minha cabeça. Entretanto, voltei ao Benfica, para a equipa principal. Curiosamente o meu primeiro dia, foi o último dia do José Mourinho, no Benfica. Eu treinava com a equipa principal e jogava pela equipa B ao início. No final do treino o Mourinho despede-se de todos um a um. Disse-me: "Não te conheço, mas olha, boa sorte". Foi assim. Em ação pela seleção de sub-16 D.R. Entra Toni. Gostou dele? Gostei muito. Entretanto, o campeonato parou, já não sei porquê, e a equipa principal vai fazer uma digressão ao estrangeiro, com dois jogos. Fomos à Bélgica jogar contra o Lierse, onde estava o Pepa, e depois fomos fazer um jogo à Polónia, contra o Wisla Cracóvia. E marquei um golo em cada jogo. Fui chamado a uma conferência de imprensa quando cá cheguei e uma das perguntas foi: "Quando é que a aposta recai em si?". E eu não vou de modos: "Para mim é já". Mas não foi logo. Depois comecei a ser convocado para a equipa A, já não para a B, e entretanto aconteceu um momento muito triste. Que foi? O Benfica foi jogar a Campo Maior e eu tinha sido convocado - na altura normalmente ficava como 18º e ficava de fora, mas para mim já era excelente ir com a equipa principal -, e nessa semana o Toni tinha-me dito que se tudo corresse bem se calhar ia-me estrear em Campo Maior. Nesse jogo eu ia para o banco e quem ficava de fora era o Geraldo, o irmão do Bruno Alves. Eu estava todo contente, ia para o banco, se calhar ia estrear-me na equipa principal. Só que, no aquecimento, o Paulo Madeira lesionou-se, para meu azar. O Geraldo era central. Ou seja, o central que ia para o banco passou a titular e o Geraldo que ia ficar de fora é que vai para o banco. Quem é que fica de fora? Aqui o Baiãonito. Quando o Toni vem falar comigo nem sei como é que me consegui aguentar diante dele. Começaram a vir as lágrimas aos olhos, mas aguentei. Assim que acabou de falar comigo, saí de pé dele, fui para um sítio sozinho e chorei baba e ranho. Nunca ninguém soube. Mas chorei tanto. Com a bola durante um jogo dos juvenis do Benfica D.R. Mas estreia-se logo a seguir, não foi? Nesse jogo o Roger leva o 5º amarelo e na semana seguinte jogávamos em casa contra o Marítimo e o Toni veio falar comigo para estar tranquilo que em princípio eu é que ia ocupar o lugar do Roger no 11 inicial. Acho que durante essa semana não dormi, praticamente [risos]. Era tanta ansiedade e medo que algo pudesse acontecer novamente, foram muitas emoções, tinha medo de disputar bolas no treino, de me lesionar. Tremeram-lhe as pernas? Bastante. Até à altura os únicos jovens que tinham transitado da formação para a equipa principal e entrado logo como titular tinha sido o Diogo Luís e depois fui eu. Estava nervoso. Por muito bonito que o estádio da Luz de hoje seja, nunca vai ter a imponência que o antigo tinha, não tem nada a ver, aquilo impunha respeito. Ir por aquele túnel, subir aquela escada de acesso ao relvado e ouvirmos os adeptos a gritar e a puxarem por nós, a gritar o nosso nome... Eh pá... É difícil descrever. Muitas emoções inexplicáveis. Para mim que sempre foi o que tinha desejado, cumprir isso, foi... Foi o ponto mais alto da minha carreira. Correu-lhe bem o jogo? Correu. Nos primeiros minutos, basicamente queria mostrar que não errava para ganhar confiança. Passados dez minutos o nervosismo passa. Podia ter feito dois golos e tudo. Fiquei feliz. Nos juniores do Benfica D.R. Depois disso jogou mais até final da época, ou não? Fiz mais alguns jogos. Fiz o meu primeiro golo, contra o Salgueiros, mas foi num dia triste para mim porque foi no dia em que faleceu a minha avó paterna. Dia 20 de maio. Jogámos em casa e o meu melhor amigo costumava ir com os meus pais ver o jogo. A minha avó estava mal, já estava tudo mais ou menos à espera, e os meus pais avisaram: "Se nós não formos, já sabes o que é que aconteceu". Durante o jogo não soube o que tinha acontecido, só no final do jogo quando percebi que só lá estava o meu amigo. Acaba a época e o que aconteceu? Fui de férias, sabia que tinha contrato com o Benfica, e como tinha feito um final de época bom, estava à espera de continuar na equipa A, não estava à espera de ir para a B e começar tudo de novo. Ligam-me para o dia da apresentação. O Benfica desportiva e financeiramente não estava bem e em 2001/02 nem tivemos jogo de apresentação, ou melhor, a apresentação foi o plantel a jogar uns contra os outros. Fizemos a pré-época, ainda com Toni, na Suíça. Foram buscar alguns jogadores que tinham mais nome do que aquilo que a meu entender poderiam oferecer desportivamente ao clube, nomeadamente o Drulovic e Zahovic. Tinham mais estatuto do que realmente podiam oferecer dentro de campo, porque já estavam em final de carreira. E essa foi uma das razões porque mais tarde quis sair do Benfica. Num derbi pelos juniores do Benfica D.R. Deixou de ser opção por causa dessas contratações? Sem dúvida. Voltei a jogar pela equipa B, coisa que eu não queria. Não porque sentisse que era despromoção, mas porque sentia que estava numa forma ascendente da minha carreira e não estavam a reconhecer que eu estava melhor do que eles. O que fazia com que eles jogassem era apenas o estatuto que tinham. Nos treinos eu sabia que treinava melhor, estava melhor física e taticamente do que eles. Mas eles é que jogavam. Isso foi corroendo por dentro. Fui acumulando, acumulando. Os resultados não ajudavam. Entretanto fomos fazer um jogo da Taça, ao norte, já não sei contra quem, e faço um grande jogo. Depois do jogo tenho mais uma história para contar. Força. Ainda era Toni o treinador, mas aí é que eu me apercebi realmente que não ia ter futuro com o Jesualdo. Depois do jogo fomos jantar a uma unidade hoteleira e no fim do jantar fui à casa de banho. Estou na sanita a fazer as minhas necessidades e oiço entrar na casa de banho o Toni e o Jesualdo. Vinham a falar. O Toni dizia: "Eh pá o miúdo, viste o jogo que ele fez? Grande jogo que o miúdo fez. Vou apostar no miúdo pá, que o miúdo está com uma grande confiança, uma grande moral". Quando os ouvi a falar, para eles não verem que eu estava na casa de banho, levantei os pés e encostei-os à porta. O Toni começou a falar de mim e eu a ouvir aquelas palavras estava todo contente e orgulhoso. Mas depois começa a falar o Jesualdo e começa a pôr um travão às pretensões do Toni: "Tem calma, não vás já apostar no miúdo". O que fez? Aquilo causou-me uma revolta muito grande. A minha vontade foi sair disparado da casa de banho e ter um bate boca com o Jesualdo, mas não o fiz. A verdade é que o Toni começou a apostar em mim. Mas tive a infelicidade dos resultados não serem bons e depois veio coincidir com o Jesualdo assumir o cargo de treinador principal. Pediu logo para sair? Não. A partir do momento em que o Jesualdo assumiu, acho que ainda fiz um jogo, mas eu sabia que enquanto ele estivesse à frente da equipa eu não tinha futuro no Benfica. No Alverca ainda lhe dei o benefício da dúvida porque tive a entorse e a apendicite. Mas a partir do momento em que ouvi aquela conversa... Quando o Jesualdo assumiu, eu sabia que ia ter muitas dificuldades, já nem digo em jogar, em permanecer sequer no plantel principal. Foi o que aconteceu. Chegou a ter algum bate boca com ele? Nada. Prefiro não comentar o que se passou depois, para não dar azo a ... Posso dizer que fiquei com uma imagem que se calhar não corresponde totalmente à verdade. É a minha forma de ver, se outros veem de outra forma, tudo bem. A partir do momento em que ele entrou, obrigou-me a ir jogar para a equipa B. A verdade é essa. Ele não pediu. Eu era um jogador que tinha sido apresentado no plantel principal, fazia parte do plantel principal, para mim não era vergonha nenhuma ir jogar pela equipa B, porque tinha lá muitos colegas da minha formação, foi a postura que ele teve para comigo que me revoltou. Porque uma coisa era ele dizer: "Rui, neste momento não estás bem, as coisas não estão a sair bem". Ou: "Eu não conto contigo", uma coisa de forma mais respeitável. Não. Obrigou. Como? "Ou vais para a equipa B ou nunca mais treinas com a equipa principal". E eu recusei-me a ir para a equipa B. Veio o processo disciplinar, houve ali muitas coisas, já diziam que eu era jogador da equipa B e não da principal. Em contraponto tinha como prova em como fui apresentado como jogador da equipa principal e que não era obrigado a ir jogar à equipa B, se não quisesse. No que resultou esse processo? Não resultou em nada. O que resultou foi que eu depois fui mesmo para a equipa B, cumprir o resto da época. A festejar a conquista de um torneio na Holanda pelos juniores do Benfica D.R. Tinha empresário? Sim, o Paulo Barbosa. Foi o único que tive. O contrato com o Benfica era até quando? Até 2004. Mais dois anos. Só que o Jesualdo continuou à frente do Benfica, o que é que eu ia lá ficar a fazer? Nada. Eles não queriam emprestar-me também. Não queria perder dois anos da minha carreira numa fase em que precisava de jogar, de crescer e amadurecer. Vamos conversar, chegamos a um acordo. Cada um foi para seu lado. Como surge o Varzim? Nessa altura era Vilarinho presidente, mas quem mandava já quase naquilo tudo era Luís Filipe Vieira, que entrou para diretor. Entrei em acordo com ele. Ele fez logo aquelas cláusulas anti-rivais. É uma coisa que não percebo. Quer dizer, se não servimos para o clube onde estamos, então têm medo do quê? Que vamos jogar para o FC Porto ou para o Sporting? Só que quando assinei a rescisão com o Benfica, foi através do Sindicato dos Jogadores e os advogados de lá deixaram-me à vontade: "Podes incluir essa cláusula anti-rivais, que isso não tem validade nenhuma em termos legais". Na altura, rescindi eu, o Pepa e o Jorge Ribeiro e os "profetas" começaram logo a profetizar que íamos para o FC Porto. O FC Porto chegou a entrar em contacto consigo? Anos antes os jogadores que rescindiram ou que eram emprestados e nunca regressavam ao Benfica, iam para o FC Porto e cresciam; o FC Porto aproveitava-os muito bem e conseguia rentabilizá-los bem. Essa imagem também ficou colada a nós. Ainda por cima fomos jogar para um clube que é o primeiro clube satélite do FC Porto, o Varzim. Mas chegou a ser abordado pelo FC Porto, ou não? Numa primeira fase isso nunca aconteceu. Só falo por mim. No meu caso o que aconteceu foi que tinha contrato com o Varzim, começamos a fazer uma excelente época e é normal que haja interessados. Apareceu o FC Porto, mas a única coisa que ficou estabelecida, não com os jogadores, mas entre clubes, era que se houvesse algum interessado em qualquer um de nós, o FC Porto teria sempre uma primeira palavra a dizer. Agora, o FC Porto nunca me abordou diretamente para ir para lá. Vai sozinho para a Póvoa do Varzim? Depois de arranjar habitação, a minha mulher foi viver comigo. A irmã ofereceu-lhe uma guitarra e Rui diz que no centro de estágio do Benfica ficava tudo maluco com as suas guitarradas e gritos em altos berros D.R. Quem era o treinador quando chegou ao Varzim? Era o José Alberto Costa que no ano anterior já queria que eu fosse meia época para lá, emprestado. Foi uma pessoa extremamente afável, muito bem educado, e em toda a minha carreira foi o treinador que conseguiu tirar o melhor proveito desportivo de mim. Essa época no Varzim foi realmente a minha melhor época em termos individuais. Infelizmente acabamos por descer de divisão. Viramos a 1ª volta em 4º ou 5º lugar, era o FC Porto, Benfica, V. Guimarães, Sporting e 5º, nós. Depois não sei o que é que se passou, mas a 2ª volta foi o oposto da 1ª. A bola não entrava, acabamos por descer de divisão na última jornada. Já com Luís Campos como treinador. Sim. O Luís Campos em termos de métodos de treino era muito bom, mais atual, com mais bola, só que ele era um treinador que não percebia que no futebol, em equipas que estão a lutar pela permanência, quando não se consegue ganhar, empata-se. Um pontinho aqui, outro ali e no fim do campeonato esse pontinho vai fazer muita diferença. Mas ele apostava sempre tudo para ganhar. Infelizmente, perdemos mais vezes do que ganhamos. Tinha assinado por quanto tempo pelo Varzim? Acho que por três anos. No primeiro treino pela equipa principal do Benfica, aos 17 anos D.R. Mas na época seguinte vai para o Estrela da Amadora. Porquê? Derivado à época que tinha feito, que foi muito boa.Na altura estive quase a ir para o FC Porto. Mas só vim a saber desta história uns anos mais tarde, pelo meu grande amigo Pepa. Somos grandes amigos, ele é padrinho do meu filho mais novo e eu sou padrinho de uma das filhas dele. Só um aparte para dizer que estou muito feliz e muito orgulhoso do que ele está a fazer como treinador. Ele sempre foi muito resiliente. Em relação ao FC Porto, ele contou-me que eles estavam muito interessados que eu fosse para lá. Durante os jogos que fizemos contra o FC Porto, o Mourinho e o Pinto da Costa vieram falar comigo, mas nunca disseram: "Para o ano vais para o Porto". Não. Apenas deram-me os parabéns e que devia continuar assim. Sei que houve contactos entre os clubes, só que o Varzim pelos vistos pediu mundos e fundos ao FC Porto. Não sei o valor em causa. Sei que pediam bastante dinheiro que o FC Porto não estava disposto a pagar. E quem acabou por ir para o FC Porto foi o Pedro Mendes. Eles estavam indecisos entre mim e ele. Então como é que surge o Estrela da Amadora? O Varzim desceu e eu informei os responsáveis que não queria ir para a II divisão. Claro que tinha contrato com eles, não eram obrigados, mas eu e o meu empresário fizemos ver que em função da época que tinha feito, ir para um clube da I liga podia ter mais visibilidade e futuramente o Varzim podia ser ressarcido de algum valor. Ainda comecei a treinar no Varzim, à espera que se encontrasse alguma solução e apareceu o E. Amadora que tinha o João Alves como treinador. E vem de armas e bagagens para Lisboa novamente. Eu já tinha comprado a minha atual casa no Lavradio, Barreiro. O E. Amadora era perto de casa, foi fácil chegamos todos a acordo. Mas as coisas não começaram a correr bem logo de início. Porquê? Porque desde a pré-época que estive sempre lesionado, comecei a ter pubalgias e isso limitava-me muito. Mas fui jogando. Todos os dias tomava anti-inflamatórios para poder treinar e jogar. Mas foi uma decisão minha, ninguém me obrigou. Eu queria mostrar-me. Fazia trabalho preventivo, para não aprofundar ainda mais a lesão, mas a verdade é que joguei a época praticamente toda com pubalgia. O primeiro jogo é contra o FC Porto do José Mourinho e empatámos. Ficámos entusiasmados, tínhamos um plantel com muita experiência, o Paulo Madeira, o Marinho, o Paulo Fonseca, o Rogério, entre outros. Tínhamos uma mescla de jogadores maduros, uma faixa intermédia e outros mais jovens. Mas o que é facto é que depois disso não ganhámos a ninguém [risos]. Foi uma época horrível. Em Itália a apoiar Rui Costa na Fiorentina. Rui (3º a partir da direita) está ao lado do grande amigo Pepa D.R. O que aconteceu à pubalgia? Foi piorando, até que chegou um momento em que eu já não conseguia andar sem dores. Tinha de dormir com as pernas encolhidas, se estivesse esticado estava sempre cheio de dores. Andar doía-me, nos treinos parecia que tinha uma faca a espetar-me na zona inguinal. O João Alves já tinha saído e ficou o Miguel Quaresma, que foi adjunto do Jorge Jesus, disse-lhe que dei tudo o que podia e que não aguentava mais, que tinha de parar. Ele confrontou-me com uma coisa que não esperava ouvir, mas que tocou-me bastante: "Rui, eu compreendo a tua situação mas peço-te que faças mais um esforço, porque prefiro que jogues tu a 50% do que outro colega". Deixou-me orgulhoso ouvir aquilo, mas por outro lado também não gostei de ouvir. Porque os meus colegas trabalhavam todos os dias no máximo para tentar jogar e eu não treinava todos os dias, mas quando chegava ao fim de semana era eu que jogava. Estava a viver o outro lado da situação com que se deparou no Benfica, com Zahovic e Drulovic? Pois. Tive ali sentimentos distintos, porque já tinha passado por isso. Eu estava a jogar pelo estatuto que tinha conseguido e acho que não é correto. Já tinha passado pelo que os outros estavam a passar, não é correto. Eu disse: "Mister, não dá. Fiz tudo o que estava ao meu alcance mas eu não aguento mais, não consigo jogar". Fui fazer exames e o que eu tinha já não era pubalgia, mas uma hérnia inguinal. Foi operado? Fui. Como sou supersticioso, fui operado numa sexta-feira 13 [risos]. Curiosamente o Feher tinha morrido há pouco tempo e eu estava cheio de medo de ser operado, mesmo cheio de medo. Graças a Deus correu tudo bem. E tenho uma história para contar da operação. Conte. Fui para o hospital. Como era na zona inguinal tive que me depilar na zona púbica, mas depilei-me com máquina. Quando a enfermeira viu, disse que não estava bem porque tinha de ser com gilette, não podia ter pêlo mesmo nenhum. Eu pensava que ela é que me ia depilar e então baixei as calças quase todas, todo descascado [risos]. Pensava que era ela que ia raspar a zona. Mas ela na maior das descontrações: "Não, não. Você é que vai depilar os pelos a si próprio". [risos]. Cheio de vergonha, levantei as calças, pedi desculpa e fui embora. Num jogo pela equipa principal do Benfica D.R. O que aconteceu depois da cirurgia? Fui operado em fevereiro. A recuperação leva um mês e meio até poder jogar. Ou seja, em finais de março já podia estar a jogar outra vez. Mas pensei: "Não. Estou aqui como emprestado, não quero estar a fazer as coisas à pressa, quero recuperar bem. Falei com o treinador e a direção do Estrela e disse-lhes que ia fazer a minha recuperação na FisioGaspar e que já não queria jogar mais naquela época. As pessoas do Estrela não aceitaram muito bem mas compreenderam a minha decisão e cumpriram-na. Depois o Varzim não subiu e comecei a falar com o meu empresário porque eu não queria voltar ao Varzim para continuar na II liga. Então chegamos a acordo com o Varzim, com quem ainda tinha um ano de contrato. Que tipo de acordo? Ou eu voltava para o Varzim e cumpria o último ano e eles não tinham dinheiro para me pagar ou eles chegavam a acordo com o Gil Vicente, porque o Luís Campos tinha ido para lá, e como tinha gostado de trabalhar comigo no Varzim, queria-me. As coisas já estavam mais ou menos apalavradas com o Gil Vicente, faltava só o acordo com o Varzim. O acordo foi que eu não recebia nada do Varzim do último ano mas saía como jogador livre. Com as duas irmãs D.R. E vai para Barcelos. Sozinho? Por onde andei, fui sempre com a minha mulher. Assinei quatro anos com o Gil Vicente. Mas esteve lá só meia época. Porquê? Fiz um excelente contrato. A cada ano o meu ordenado ia subindo. Nessa altura já estava a ficar muito desiludido com o que se estava a passar na minha carreira e com certas coisas do futebol. A partir do momento em que saí do Varzim aquilo que passei a ter em mente era fazer bons contratos e ganhar muito dinheiro para ter uma vida futura boa. E perdi a ética desportiva, em ter prazer em treinar e jogar, toda essa ética e esse prazer foi-se desvanecendo. Fui desvalorizando a parte desportiva, em prol da parte financeira. Começou a época no Gil Vicente. A mim correu bem, estava a jogar, mas o Alverca e o Gil Vicente foram os únicos plantéis onde apanhei pessoas com aquelas características de que eu não gostava. Fui para ali com estatuto e os jogadores que lá estavam há mais anos começaram a olhar de lado para mim, porque fui para conquistar o espaço deles, de que não queriam abrir mão. Tinha um treinador que me defendia e apostava em mim. Só que o Luís Campos é como eu já disse... Metia sempre a carne toda no assador para ganhar e acabou por ser vítima disso. Sai e veio Ulisses Morais. Sim, mas antes disso passou-se uma situação entre mim e o Luís Campos, que foi grave, a coisa mais grave que tive na minha carreira enquanto jogador e que é das coisas que mais me arrependo, à parte de ter saído do Benfica, que foi o maior erro da minha carreira. É o maior arrependimento que tenho de ter faltado ao respeito a um treinador. No jogo contra o Marítimo D.R. O que aconteceu? Durante um treino, as coisas estavam a sair-me bem, e não sei se foi por ordem do Luís Campos, se foi por iniciativa dos meus colegas, a partir de certo momento no treino cada vez que tinha a bola comecei a levar pau a torto e a direito. Levo uma, calei-me, levo duas, calei-me, levo três, calei-me, à quarta reagi porque faziam falta e o Luís Campos não apitava. Aquilo começou a ficar-me atravessado na garganta. Comecei a refilar: "Então? Não é falta?" e ele "Está calado, segue, continua". Isto repetiu-se várias vezes até que às tantas rebentei "f*da-se, crl, mas o que é esta m*rda, sou algum boneco de pancada ou quê?"; "Está mas é calado, continua a jogar que nos jogos também vai acontecer"; "Mas não quero saber de jogos nenhuns, mas que m*rda é esta...". Ficamos ali num bate boca até que, como aquilo veio numa sequência de maus resultados, saiu-me tudo: "Tá calado, crl, tu com os maus resultados, vais com o crl primeiro que eu do clube". O que fui dizer, com toda a gente a assistir. Ele: "Vai já para o banho". Perdi a razão toda e obviamente levei com um processo disciplinar. Eles tinham justa causa para rescindir comigo depois de tudo aquilo que disse. Nem eu tinha como provar que não tinha dito aquilo porque os meus colegas, adjuntos, todos assistiram. No que resultou esse processo? Fui tomar banho, vi a porcaria toda que tinha feito. Eu era assim, dizia e fazia as porcarias, mas depois quando me acalmava pensava: "O que é que eu fui fazer? Rui, tu estás f*dido". Quando aconteciam essas coisas o meu empresário ligava-me, mas eu nunca atendia o telefone [risos]. Já sabia o que ia ouvir. Chegava a casa não contava nada à minha mulher, só que ele já tinha ligado para ela porque não conseguia falar comigo. Ela vinha logo direta a mim: "O que é que tu fizeste? O Paulo Barbosa está a ligar para mim porquê?" [risos]. Depois falei com o meu empresário. E ele disse-me: "Rui, vais ter de pedir desculpas pessoalmente e publicamente". E assim fiz. Eles com muita renitência e depois de muita insistência e só por reconhecerem o valor que eu tinha é que fui reintegrado na equipa. Mas já sabia que não ia ficar no final da época? Não. Se o Luís Campos tivesse continuado, ficava. Não comecei logo a jogar, mas passado algum tempo conquistei o meu lugar outra vez com o Luís Campos porque ele conhecia-me, sabia o valor que eu tinha. Na equipa B do Benfica. Rui é o 3º atrás, a partir da direita D.R. E com o Ulisses Morais? Eu costumo dizer que o Ulisses Morais foi treinar o Gil Vicente por causa das, entre aspas, "ratas velhas", que viram os seus lugares ocupados. Jogadores mais velhos, o Casquilha, o Paulo Alves, o Luís Coentrão... Não tenho medo de dizer nomes. Fizeram muita força para que fosse para lá o Ulisses Morais. A partir daí, quando o treinador é posto no clube em função de alguns jogadores, claro que esses jogadores vão ter de jogar. Não sei o que contaram ou não ao Ulisses Morais, mas acabei por perder o meu espaço. Não tive problemas nenhuns com ele, simplesmente perdi o meu espaço. Chegou dezembro e aconteceu mais uma história bonita da minha carreira [risos]. Então? Conte. Chegou a dezembro e deixei de fazer parte do plantel. Infelizmente o presidente do Gil Vicente faleceu e quem assumiu foi o Fiuza, que sempre foi um contestatário à minha reintegração. Nunca aceitou, só que na altura era diretor. Quando ele assumiu, depois aconteceram uns episódios. Que episódios? Eu sofro de uma doença há muitos anos e aconteceu uma coisa quando estávamos a regressar de um treino. E vou assumir publicamente pela primeira vez. Sofri durante muitos anos de ataques de pânico. Hoje já não, está controlado porque entretanto fui à procura de ajuda para o meu problema, mas sofria de ataques de pânico, que não sei se as pessoas sabem o que é, mas o coração fica a bater a 200 e uma pessoa pensa que vai morrer. Nós tínhamos ido treinar a Santa Maria, uma freguesia ao pé de Barcelos e no regresso eu comecei a ter um ataque de pânico no autocarro, pensava que ia morrer ali. Vou a correr aflito em direção ao motorista e digo-lhe: "Abra a porta, abra a porta", saí do autocarro e começo a correr para ir para o hospital. Porque quando tinha ataques de pânico era isso que fazia, queria fugir e ir direito a um hospital porque pensava que ia morrer. Paranoias, mas pronto, na altura é o que pensamos: "Não quero morrer, não quero morrer". E por acaso sei que há pouco tempo o Nandinho, que foi meu colega no Gil Vicente, gozou comigo acerca disso no programa do Bar da SportTv. Gozou como? Contou esse episódio e gozaram comigo. Não gostei mesmo nada de saber isso, não tenho problemas em assumir que tive esse problema, que está controlado. Mas uma coisa é gozar com situações engraçadas, outra coisa é gozar com doenças de pessoas, que afetam e bastante as pessoas, e que me afetou bastante durante a carreira. É uma coisa que se tiverem de saber sabem por mim, ninguém tem nada de andar a expor a minha vida pessoal e os meus problemas na praça pública. Se alguém tem de o fazer sou eu. O Nandinho foi meu colega no Benfica e eu também sei uma história da vida pessoal dele e também podia andar aí a contar, mas não o vou fazer. Seja de quem for, coisas pessoais, ainda para mais gozar, não se faz e não gostei mesmo nada. No apartamento de Sacavém, quando jogava no Alverca D.R. O que aconteceu depois desse ataque de pânico? Depois o Ulisses Morais, não sei se lhe foram dizer que eu era uma pessoa emocionalmente desequilibrada, mas há um dia em que chego ao campo, vou pedir a roupa ao roupeiro e ele diz-me: "Rui, antes de te equipares, vai ao gabinete do mister que ele quer falar contigo". Fui, bati à porta, entrei e ele: "Não te preocupes que já falo contigo no balneário". Fui para o balneário, equipei-me normalmente. O Jorge Ribeiro estava lá comigo e há toda uma sequência de acontecimentos do meu caso e do Jorge. Há uma determinada altura em que o Jorge Ribeiro deixou de aparecer no Gil Vicente. Para os media, o Gil Vicente queria dar a imagem que o Jorge estava a faltar ao respeito ao clube, não ia treinar e que iam rescindir com ele, mas basicamente o que se passava é que o Jorge Ribeiro, mais o Jorge Mendes, o Gil Vicente e o Lokomotiv de Moscovo tinham todos chegado a um acordo para o Jorge ir para o Lokomotiv, só que para não parecer mal para o clube, puseram as "culpas" no Jorge e que iam rescindir com justa causa. Isto encadeia na conversa do Ulisses Morais que começa a falar no balneário: "Andam aqui meninos que andam a brincar com o clube, a faltar ao respeito, o Jorge Ribeiro não mete aqui os pés, ninguém sabe onde é que ele anda". E depois vira-se para mim: "E tu Rui Baião, o que é que estás aqui a fazer? Não sei porque é que te equipaste, porque para mim já não contas mais". Isto a falar agressivamente. Não sei o que é que lhe disseram, se disseram alguma coisa do género "fala com ele agressivamente que ele passa-se e vai para cima de ti". O que fez? Eu cometi muitos erros na minha vida pessoal e profissional, mas em muitas ocasiões parece que tive sempre alguma coisa que me disse o que havia de fazer. E naquele momento aquilo que senti que devia fazer era ignorar. Parecia que me estavam a dizer: "Rui mantém-te calmo, não respondas, isso é o que eles querem, que faças qualquer coisa para terem um motivo para rescindir contigo". Ele depois de dizer isso ficou tipo à espera. O balneário ficou calado, em silêncio. E noto mesmo que ele estava à espera que eu fizesse alguma coisa. Lixou-se. Não reagi. Simplesmente acenei com a cabeça e calmamente comecei a desequipar-me, tomei o meu banhinho e fui para casa. A partir daquele momento deram-me ordens para que não aparecesse mais nos treinos. A partir desse dia, eu e mais três jogadores dispensados tínhamos de nos apresentar no estádio antigo todos os dias às 8 da manhã para treinar. Numa foto atual Ana Baiao E cumpriu? Claro. Alguma vez ia dar azo a que tivessem alguma oportunidade para rescindir? Entretanto fui estando sempre em contacto com o Sindicato, que muito me ajudou, para saber se aquilo era legal. Transmitiram-me que era ilegal. Isto em 2005. A única situação em que um jogador podia não estar incluído no grupo de trabalho era quando estava lesionado e mesmo assim não era dispensado. Mesmo os jogadores que são dispensáveis, tinham de estar integrados no grupo de trabalho e não podiam ser colocados a treinar à parte. Não sei se hoje ainda é assim, mas foi isso que me foi transmitido pelo Sindicato. Eu ia avançar para tribunal, só que como eu já tinha falado com o meu empresário e tinha-lhe dito que queria ir para fora porque sentia que estava com uma imagem muito escaldada em Portugal, a três, quatro dias de fechar o mercado, apareceu a oportunidade de ir para a Grécia. O Gil Vicente não se opôs, obviamente. Claro que não. Chegamos a um acordo. O clube grego ia pagar o meu ordenado, portanto, na boa. E fui para a Grécia emprestado. Na altura a internet não era como hoje e eu não tinha informação praticamente nenhuma do clube para onde eu ia, o Kerkyra. Nem nunca tinha ouvido falar. www.impresa.pt Sites do Grupo Impresa SIC Opto SIC SIC Internacional SIC Notícias SIC Radical SIC Mulher SIC K SIC Caras SIC Esperança Fama Show Expresso Blitz Boa Cama Boa Mesa Tribuna Advnce Volante SIC GMTS InfoPortugal Olhares Impresa Novas Soluções de Media Gesco SIC International Distribution IMPRESA © Todos os direitos reservados Apresentação do Grupo Contactos Investor Relations Responsabilidade Social Lei da Transparência Sobre o Nónio Parte 2 Spoiler Expresso Tribuna Blitz Boa Cama Boa Mesa Emprego Imobiliário O Mirante A casa às costas “Nasci com um dom, mas fui o meu pior inimigo. Pesei quase 100kg, tive problemas de coração, chorei muito. Hoje monto peças para carros” Nesta 2ª parte Rui Baião confessa que Jorge Costa, o treinador que lhe propôs jogar como médio defensivo, foi o líder que mais o marcou, apesar de ter chegado junto dele com quase 100 kg, na sequência de uma depressão. Recuperado, ainda foi campeão no Olhanense, mas acaba por pendurar as botas mais cedo do que queria, para não colocar a vida em risco. De lá para cá já trabalhou num arquivo, foi repositor em supermercados e agora monta peças para automóveis e faz comentários de futebol Alexandra Simões de Abreu 21.03.2021 às 9h30 Ana Baiao Chegou ao Kerkyra, da Grécia, ainda na época 2004/05. Como foi o impacto? Foi uma grande desilusão. Aquilo é na ilha de Corfu. Fui com a minha mulher e, vou ser sincero, quando aterrei no aeroporto, de um lado era só canavial com muito mau aspecto, e pensamos: "Vamos apanhar imediatamente o avião de volta" [risos]. Os voos para Corfu eram só ao domingo e eu fui numa sexta-feira. Estive de sexta à noite até domingo em Atenas, que é lindo e adoramos. Quando chego a Corfu e deparo-me com aquela imagem [risos]. Tinha gente do clube à vossa espera? Tinha, mas o estádio era quase ao lado do aeroporto. Andamos dois minutos de carro estávamos num motel, nem era hotel, que era em frente ao estádio. Eu e a minha mulher nessa noite só ouvíamos os gemidos do quarto ao lado [risos]. O Kerkyra jogava em casa e fui ver o jogo deles, que se não me engano era contra o AEK. Quando acabou pensei para mim "Onde é que me vim meter?". Só pensava, vão ser cinco meses de penitência aqui. O mês de fevereiro esteve praticamente todo a chover. Que depressão, uma pessoa não saía de casa, só chovia. Depois o meu passe internacional demorou um mês para chegar, portanto durante um mês só estive a treinar. Sei que só fui convocado para três jogos. Porque só esteve na Grécia pouco mais de dois meses? O primeiro jogo foi em casa. Depois fomos ao Panathinaikos e no último que joguei, em casa, tínhamos obrigatoriamente de ganhar. Só quando cheguei lá é que vi que o clube estava em último ou penúltimo. Empatamos e fomos de vela. O presidente vai ao balneário e: "É só para dizer que a partir de hoje os jogadores que não tenham contrato com o Kerkyra não jogam mais". Veio embora? Não, continuei a treinar, mas não jogava. Mas só pensava "não vou ficar aqui dois meses e tal a treinar. Para isso vou chegar a acordo com eles, recebo menos mas vou para o meu país". Fui falar com o diretor, eles deixavam-me sair mas não queriam pagar nada. Andamos quase três semanas a negociar. Levaram-me ao limite. Acabei por abdicar de dinheiro para me pagarem as passagens aéreas para vir embora. Deixei lá quase o dinheiro todo que tinha a receber porque já não aguentava mais. Pepa e Rui Baião D.R. E vai para o Portimonense. Eu ainda tinha contrato com o Gil Vicente, mas entretanto como o Gil Vicente não me dizia nada, eu próprio tomei a iniciativa de telefonar ao diretor, que disse que ia falar com o treinador e depois dizia-me alguma coisa. Ainda era o Ulisses Morais? Sim. Disse que não contava comigo e que não era preciso apresentar-me. Mas para me precaver, exigi que mandassem um papel assinado com isso, para não terem provas contra mim, de que não me tinha apresentado no clube. Deram-me mais um período de férias e quando passou esse período entrei em contacto novamente. Continuaram a dizer que eu não iria fazer parte do plantel e eu disse-lhes que me ia apresentar no clube. Marcaram uma data para me apresentar, só que ia continuar como tinha acabado a meio da época, a treinar à parte, num sítio diferente, a horas diferentes. Apresentei-me no dia que eles estipularam. No meu contrato tinha uma cláusula em que ou me davam um apartamento ou tinham de pagar a mensalidade para onde eu fosse morar. Só que durante esse tempo em que estive lá, nem uma coisa, nem outra. Tive de ir para um hotel, às minhas custas. Estive sempre em contacto com o Sindicato dos Jogadores. O Paulo Barbosa continuava a ser seu empresário? Sim, continuava, só mais tarde é que deixei. Não apareciam propostas? Estava complicado porque a minha imagem estava muito beliscada. Era a de um jogador que tinha muito talento, muita qualidade mas era problemático. Os clubes começaram a ficar reticentes em contar comigo. Passado uma semana e tal, sempre em conformidade com aquilo que os advogados do Sindicato me diziam, mandei um fax para o clube, disse que o que estavam a fazer comigo era ilegal e que tinham obrigatoriamente de reintegrar-me no grupo de trabalho. Responderam que não. Outro fax, a exigir o mesmo, e eles recusaram novamente. A partir desse momento, entrei com o processo de rescisão de justa causa com o Gil Vicente, ainda tinha mais três anos de contrato. Entretanto, quando assinei esse processo de justa causa, já tinha as coisas mais ou menos alinhavadas com o Portimonense. Depois da Grécia Rui foi jogar para o Portimonense D.R. Que surge através de quem? Através do empresário. Na altura quem estava no Portimonense era o Diamantino, que me conhecia. Eu nunca tinha trabalhado com ele, mas conhecia-o porque ele vivia na Moita. Ele conhecia-me como jogador e mostrou interesse. Fiz um pré- acordo com o Portimonense: se eu ganhasse o processo contra o Gil Vicente, o contrato com o Portimonense entrava em vigor. Fiz ainda um bocado da pré-época, treinava normalmente com o grupo, só que não podia competir, estava à espera que saísse a decisão da Comissão Arbitral em relação ao meu processo. Saiu em fins de outubro ou início de novembro. Ganhei o processo e comecei logo a ser utilizado. Como foi a sua relação com o Diamantino? Gostei muito de trabalhar com ele. Tinha bons métodos e adorei estar em Portimão, uma cidade espetacular com vida o ano todo. A minha mulher foi lá ter mais tarde porque entretanto começou a trabalhar num shopping. E foi para lá também trabalhar num shopping. Assinou quanto tempo com o Portimonense? Dois anos. Nos primeiros cinco jogos marquei três ou quatro golos, só que como não apanhei aquela fase principal da pré-época, que tem mais carga física, comecei a ter muitas lesões. Tive muitas roturas e isso acabou por afetar o meu rendimento. Estivemos até ao fim a lutar pela manutenção e o treinador queria contar comigo sempre. Eu também queria ajudar a equipa e então fazia recuperações rápidas. Lesionava-me, passado duas, três semanas voltava a jogar, jogava uma, duas semanas e voltava a ter outra rotura. Chegou uma altura em que o preparador físico, o Fidalgo Antunes que esteve no Sporting, já não sabia o que havia de me fazer [risos] "Não sei o que é que se passa contigo!". Fui fazer vários exames de medição muscular para ver se havia algum problema, mas não deu nada de anormal. De férias no Algarve D.R. Como foi então a segunda época? Quando acabou essa época, meti na cabeça que não queria passar pelo mesmo e praticamente não parei para férias. Tive uma semana para descansar, mas depois estive sempre a treinar e quando cheguei ao clube estava bem e fiz uma época muito boa. Ainda com o Diamantino? Sim, começamos com o Diamantino, estávamos a fazer uma época mediana, nada de extraordinário, mas entretanto entrou outra direção no clube, que vinha com outras ideias em relação à equipa técnica. Como os resultados não eram muito abonatórios, a direção resolveu mudar. O Diamantino saiu e entrou o Luís Martins da formação do Sporting. E? Não tenho nada a dizer. Correu tudo de maneira normal, mas no fim da época, pessoalmente as coisas começaram a não correr bem, até que para o fim deixei de jogar. Há fases em que não estamos bem, não sei o que é que se passou comigo. Entretanto apareceu uma oportunidade, através do meu empresário, de ir treinar à Escócia e fui treinar ao Hearts, no final da época. Que tal essa experiência? Espetacular, adorei aquilo. Esteve lá quanto tempo? Uma semana e vou ser sincero, fui para lá como um jogador desconhecido, mas naquela semana trataram-me como nunca me tinham tratado. Fizeram-me exames a tudo e mais alguma coisa. Exames físicos, testes médicos, exames de resistência, exames de velocidade, exames de impulsão, impulsão com balanço e sem balanço de várias posições, testes de velocidade, de cinco, dez, vinte e cinquenta metros, senti-me jogador ali, pela forma como fui tratado. Com o filho mais velho recém nascido D.R. Estava tudo bem? Eu estava sem competir e não estava com os índices físicos que deveria ter. Eles são muito metódicos, é por sectores, a defesa tinha de ter uma capacidade de resistência “X”, os médios normalmente são aqueles que têm de ter maior capacidade de resistência, porque tem de atacar e defender. Eu estava um bocado abaixo daquilo que esperavam, mas expliquei-lhes que já não competia há algum tempo e que era normal não estar com os índices físicos que esperavam. Não quiseram ficar consigo por causa disso? Calma, isto tem etapas [risos]. Depois fui falar com o médico e com os fisioterapeutas que me perguntaram como é que tinha sido a minha carreira em termos de lesões. Contei-lhes tudo. O fisioterapeuta esteve a examinar o meu corpo, a minha postura e chegaram à conclusão de que eu tinha muitas roturas porque quando era miúdo parti a clavícula duas vezes. Como? A primeira vez estava no 5º ano, estávamos a brincar à apanhada, o chão era de gravilha e a fugir de um colega, virei-me de repente, os meus pés escorregam, ele faz o mesmo movimento atrás de mim, eu caio de lado e ele cai em cima de mim. Parti a clavícula. A segunda vez foi um ano depois. Tinha ido andar de bicicleta com o meu melhor amigo, na altura usavam-se cabelos compridos e nós tínhamos esse corte; parámos numa bica para beber água. Quando acabei de beber, molhei o cabelo todo e comecei a sacudir a cabeça de olhos fechados, com os pés em cima dos pedais e de repente quando dou por mim estou a bater com o ombro no chão [risos]. Parti a clavícula. Estava a uns cinco quilómetros de casa, tive de ir o caminho todo só com uma mão a guiar a bicicleta. Foi sempre a mesma clavícula? Foi. Isto para dizer que as lesões musculares que tinha, foram em função disso. Porque ao partir a clavícula, os músculos das costas estavam muito esticados, isso afetava a coxa e fazia com que eu tivesse roturas com facilidade. Foi a causa que eles encontraram para as minhas constantes roturas. Depois fizeram-me ressonância magnética a tudo. Aos tornozelos, aos joelhos, às ancas, até deixei-me dormir dentro da máquina [risos], tal o tempo que não demorei a fazer o exame. Na semana em que foi entrevistado Ana Baiao Mas ainda não explicou porque não ficou na Escócia. Durante os treinos as coisas correram muito bem. Fomos treinar também à academia deles. Adorei o ambiente da cidade, a cultura, foi mesmo espetacular. Gostaram tanto de mim que me convidaram para fazer a pré-época com eles. Estava encantado da vida, vou fazer a pré-época com eles, que se não me engano foi na Alemanha. Vou com o Paulo Madeira que era colaborador do Paulo Barbosa, ele é que me levou à Alemanha. As coisas aí já não correram tão bem. Porquê? Acontece. Os treinos eram muito complicados, eles eram treinados por um russo qualquer, que rebentava connosco. Começaram a aparecer-me dores, tinha algumas dificuldades físicas durante os treinos... Entretanto o que foi treinador durante a pré-época passou para outra posição e veio outro treinador. Aconteceram várias coisas que não me beneficiaram e para meu desgosto, acabei por não ficar. Mas adorei essa experiência que tive. Regressa e depois? Entrei em contato com o Paulo Barbosa para arranjar uma solução. Como nunca mais me dizia nada tomei a iniciativa de começar a ligar para treinadores que conhecia. A resposta politicamente correta que davam era que já tinham o plantel fechado. Para alguns se calhar era essa a razão, mas acredito que para outros, era não querer contar com um jogador problemático. Entendo o lado deles, mas para mim custou-me. Com o passar do tempo as portas foram-se fechando e acabei por ficar sem competir um ano. Foi isso que aconteceu. O que fez durante esse período? Fiquei em casa. Tomei a decisão de voltar a estudar, à noite. Mas acabei por não terminar o ano letivo. Desleixei-me, perdi o interesse também. Estava desmotivado, entrei um bocadinho em depressão. Rui Baião esteve uma semana no Hearts da Escócia D.R. Procurou ajuda? Não. Estava triste, mas fui deixando passar. Em dezembro liguei para o Diamantino que estava no Olhanense. Ele disse-me: "Gostava que viesses mas não depende só de mim. Não te vou prometer nada, vou falar com a direção". E? Fui ganhando peso, treinava mas fui ganhando peso. Ele falou com a direção e não houve possibilidade de ir para lá durante o mercado de inverno. As pessoas do Olhanense também estavam muito chateadas comigo. Porquê? Já lhe conto a seguir. Ele disse que não havia oportunidade naquele momento, mas que em princípio, se tudo corresse normalmente no início da época seguinte seria diferente. Só que, quando eu fui para o Portimonense, não assinei logo os dois anos. Assinei uma época e depois uma segunda época. E no fim da primeira época do Portimonense estive para ir para o Olhanense. As pessoas do Olhanense entraram em contacto, fui ter com eles a Olhão, mas quando lá cheguei, não gostei da primeira imagem que tive. Em Portimão há movimento dia e noite, toda a gente consegue fazer uma vida boa. Em Olhão é uma coisa mais recatada, têm outro tipo de mentalidade, as pessoas são mais bairristas e aquilo não me cativou. A realidade é essa. Não aceitou a proposta deles? Sentei-me com as pessoas à mesma, só que já tinha a minha decisão tomada, não ficar. Eles davam-me "x" e eu exigia mais. Fizeram um esforço e chegaram ao valor que eu pretendia. Depois quis que me dessem um apartamento, sempre a arranjar desculpas para não ficar lá, mas eles iam sempre ao encontro daquilo que eu ia pedindo. Tudo aquilo que exigia, eles davam-me. Rui Bi (à direita) com um colega escocês às costas, quando esteve à experiência no Hearts D.R. Mesmo assim assinou pelo Portimonense outra vez. Às tantas, eles dizem: "Então vá, vamos assinar". Disse-lhes que não queria ficar lá. Ficaram muito desiludidos e chateados porque tudo aquilo que exigi era um esforço grande para eles e no fim de contas fugi com o rabo à seringa. Ficaram chateados mais pela minha atitude porque recusei o esforço que eles tinham feito por mim. Isso para eles foi uma falta de respeito. Na altura negociei com o senhor Isidoro Sousa que ainda não era o presidente, era diretor. Desta segunda vez ele já era presidente, e só uma pessoa com grande coração é que conseguiu esquecer aquilo que eu fiz ao Olhanense. Está arrependido? Arrependo-me da atitude que tive, sim. Não da decisão de não ter ido para lá naquela altura, isso é uma coisa que qualquer um pode fazer. Arrependo-me é da atitude que tomei perante as pessoas. Mas aceitaram-no de volta. Sim. As coisas correm bem ao Diamantino, eles conseguem a manutenção e eu volto a ligar-lhe para saber se posso ir para o Olhanense. E o Diamantino diz-me: "Ó Rui, eu vou sair do Olhanense. Mas independentemente daquilo que se passou entre vocês, deixei lá as coisas alinhavadas para poderes regressar. Agora isso já não depende de mim, fiz aquilo que pude. Telefona ao presidente para ver se dá para ires para lá". Ele ia regressar ao Benfica, não sei se para a equipa B ou para os juniores. Telefonou ao presidente? Não telefonei logo, porque tinha vergonha. Comecei a ligar novamente para todas as pessoas para quem eu já tinha ligado e para outras, no final dessa época. Para ver se podiam contar comigo. A resposta foi sempre a mesma. Que já tinham o plantel definido. A única hipótese era o Olhanense [risos]. Eu já estava tão farto de ouvir recusas, de ouvir desculpas, virei-me para a minha mulher e disse: "O não é garantido por isso vou ligar para o presidente do Olhanense. É o último para quem vou ligar. Se me disser que não, não ligo a mais ninguém e esqueço a minha carreira, não quero saber mais de futebol". Liguei para o Isidoro de Sousa. Estava com medo, estava nervoso, como é que ia ser a reação dele depois de tudo o que se tinha passado? Qual foi a reação? Atendeu-me de uma forma que eu não estava à espera, pensava que ia receber-me de uma forma fechada, chateado, mas não, a reação dele até foi de contentamento. "Presidente, sei que está a par da minha situação, o Diamantino já falou consigo"; "Pois, eu sei, mas aconteceu esta situação do Diamantino ter ido para o Benfica e estamos em negociação com um treinador. Mas Rui, vou ser sincero, enquanto direção gostávamos que viesses, mas isso vai depender do que o novo treinador quiser para o plantel”. Disse-me para ligar três ou quatro dias depois. Com os dois filhos D.R. E quando ligou de volta? “Rui, estivemos a falar, com o treinador já está tudo acertado, vou já dizer-te quem é o treinador mas não digas nada a ninguém porque ainda não é público. Vai ser o Jorge Costa" [risos] O que pensou nessa altura? O que é que eu pensei? Desculpe lá a expressão, mas é que já tinha ido com o crl [risos]. Porque o Jorge Costa dentro de campo era mais ou menos como eu, uma pessoa muito efusiva, falava muito e mandava muita gente para muitos sítios. Nos jogos contra o FC Porto tive alguns bate bocas com ele [risos]. Pensei, ele vai lembrar-se das m*rda todas que eu fiz e vai dizer que não me quer. Mas o presidente continuou: "Apresentámos o teu nome ao treinador e ele concordou que viesses para cá". Quando ele me disse isso foi um alívio, como se fosse uma salvação [risos]. "Agora temos de falar de números, do contrato". Eram muito abaixo do que esperava? Aquilo que lhe disse era tão verdadeiro e tão simples quanto isto: “Presidente, eu não quero saber de números, não quero saber de valores de contrato, eu apenas quero voltar a jogar futebol. Quando chegar aí, pessoalmente falamos disso, mas isso não é prioridade para mim neste momento. A prioridade é saber que vou fazer novamente parte de um plantel, de um grupo de trabalho e poder mostrar o meu valor". Fiquei todo feliz, combinámos o dia da apresentação. Quando cheguei, as pessoas não me reconheciam. Quer dizer, reconhecer, reconheciam só que não estavam a acreditar que era eu. Porquê? Porque o meu peso enquanto jogador andava à volta dos 82, 83 quilos. E quando cheguei a Olhão estava com quase 100kg [risos]. Tinha dois queixos, duas barrigas, um rabo que pareciam três. Desleixei-me, deixei mesmo de treinar. Até dezembro ainda corria, mas a partir de janeiro desleixei-me completamente, estava mesmo desmotivado. Rui Baiao num jogo pelo Olhanense, contra o Benfica. D.R. O Jorge Costa quando o viu o que disse? Antes de assinar o contrato, tive de assinar um papel em como eles podiam ao fim de 30 dias, caso as coisas não estivessem de acordo com o que queriam, rescindir comigo. Aceitei na boa. Uma espécie de período à experiência. Digamos que sim. Tinha o contrato assinado, mas tinha ali 30 dias experimentais. Basicamente o que aconteceu foi que durante dois meses eu fazia treino integrado no grupo, mas depois fazia muito trabalho extra para perder peso. Muita corrida, muito treino aeróbico. Foi muito difícil esse período? Sim, passei muita fome. E o Jorge Costa? Tenho muito respeito pelos treinadores que apanhei durante a carreira, mas há sempre aquele que nos marca e o Jorge Costa, já o disse publicamente, para mim, foi o melhor treinador que tive. Porque defendia os jogadores, era de uma geração mais moderna, apanhou aquela fase do Mourinho, sabia como é que havia de tirar o melhor dos jogadores e ao mesmo tempo também retribuía isso com outras coisas. Nunca mais me esqueço que no dia da apresentação, a primeira coisa que estava escrita no quadro, eram duas palavras: liberdade e responsabilidade. Com ele tínhamos a liberdade toda para fazer o que quiséssemos, dentro e fora de campo, só que era exigida também responsabilidade. E um jogador quando sabe que tem alguém ali ao lado, que tem essas atitudes, vai para dentro de campo até à morte por essa pessoa. Equipa do Olhanense num jogo de celebração da subida à I Liga. Rui é o 3º atrás, a partir da esquerda CARLOS VIDIGAL JR. Teve duas boas épocas com ele? Sim. A questão do peso foi complicada de início porque atrasou ter o meu espaço na equipa. Também foi uma coisa muito pessoal para mim, porque ao longo da minha carreira, fui sempre o meu pior inimigo porque metia objetivos sempre muito altos. Nesse ano fui mais responsável. Foi a partir do Olhanense que a minha vida desportiva e pessoal deu uma grande volta. Aquele ano em que estive sem jogar, fez-me pensar muito. E uma das coisas que percebi é que tinha de ter objetivos exequíveis a longo prazo. Não podia querer logo atingir o objetivo maior. Propus a mim mesmo objetivos curtos. Se fosse antigamente o meu pensamento era: eu sou o Rui Baião sei que tenho valor para jogar nesta equipa, o que quero é entrar já de caras na equipa. Mas dessa vez pensei, cheguei com excesso de peso, o meu primeiro objetivo é chegar ao meu peso ideal. Foi por etapas. Exatamente, fui seguindo etapas e objetivos realistas. Cheguei ao meu peso ideal, 82, 83 quilos. Segundo objetivo, começar a treinar em condições normais para entrar nas contas do treinador e ser uma opção real. Estar em condições físicas e mentais para o treinador começar a olhar para mim, como uma opção. Cheguei a esse objetivo. Objetivo seguinte, conquistar o meu espaço na convocatória. A seguir, entrar no jogo. Depois só faltava o objetivo de conquistar o meu espaço na equipa titular. Acabou por conseguir? Fui conquistando o meu espaço. Houve uma altura em que não tínhamos tão bons resultados fora e o Jorge Costa viu que eu já estava numa fase boa e veio falar comigo: “Rui, vou ser sincero contigo, tu estás bem, mas na tua carreira sempre foste médio ofensivo e neste momento os maiores problemas na nossa equipa não estão no capítulo ofensivo. Com a tua estatura física, com a leitura do jogo que tu tens, a qualidade técnica e a formação que tiveste, acho que tu dás um excelente médio defensivo e a nossa equipa está a precisar de alguém como tu ali no meio campo. Quero saber se estás interessado, já que não é a posição que tiveste ao longo da tua carreira". O que respondeu? Nem sequer pensei, disse logo que sim, o que eu queria era jogar, fosse a médio defensivo, defesa esquerdo, avançado, só a guarda-redes é que não [risos]. Tive a sorte de, felizmente, a partir daí, a equipa começou a ter bons resultados, tanto em casa, como fora. Começamos a andar nas duas primeiras posições até que chegamos ao 1º lugar e já não saímos de lá. Fomos campeões. Não era o objetivo que tínhamos porque o que tinha ficado definido, era que o 1º ano seria de construção de grupo e de equipa, e na segunda época sim, iríamos lutar pela subida. Mas fomos uns justos campeões. A festejar a conquista do título da II liga pelo Olhanense D.R. A época seguinte foi tranquila na I liga? Primeiro foi uma festa de todo o tamanho quando fomos campeões, em Gondomar. Parávamos em quase todas as estações de serviço para festejar com bebidas [risos]. E nunca mais me esqueço da receção em Olhão. Eram altas horas da manhã e a cidade estava completamente cheia à nossa espera. Foi uma receção apoteótica. Nessa semana ainda íamos jogar contra o Gil Vicente, acho que só treinamos sexta-feira [risos]; de resto foi a semana toda em almoços e jantares nos restaurantes que nos ofereciam para felicitar termos sido campeões. Na segunda época, sabíamos que ia ser difícil, porque era um clube que não estava há trinta e tal anos na I liga. O objetivo era a manutenção, mas sem andar a sofrer até ao fim. As coisas acabaram por acontecer nesse sentido, conseguimos a manutenção na I liga. Não fica no Olhanense e vai para o Fátima porquê? O que aconteceu? Depois o Jorge Costa decide que não quer continuar no Olhanense, o trabalho dele estava feito, queria partir para outros objetivos na carreira dele; assim como muitos jogadores que lá estavam e eu acabava o meu contrato com o Olhanense. A direção queria que eu continuasse, mas estava sempre dependente do novo treinador que viesse. Quem foi? Daúto Faquirá. Não quis ficar consigo? Sim, deu a entender que não queria ficar comigo. Estava no direito dele. Cada treinador tem as suas ideias, tem os seus jogadores, há que respeitar isso. Obviamente não gostei, mas respeitei. Comecei a ligar para os clubes, deixei o Paulo Barbosa. Pensei: se eu é que ando a ligar para os clubes, se eu é que ando a fazer pela minha vida, não preciso de empresário para nada. No jogo de despedida, no Pinhalnovense D.R. Vai para o Fátima através do Diamantino? Sim, foi através dele. Mas antes disso, houve uma pessoa que me dececionou muito. Quem? Na altura, o Manuel Fernandes estava no Vitória de Setúbal e eu liguei para ele. O Vitória estava na I liga, era perto de casa, um clube histórico de que eu gostava. Falámos, eu disse-lhe que tinha acabado contrato com o Olhanense, mas que tinha feito duas boas épocas em Olhão e queria dar continuidade à minha carreira na I liga. Ele mostrou abertura para eu ir para lá, mas que ainda havia coisas por definir porque havia muitos problemas diretivos, mas que da parte dele contava comigo. Fiquei com isso na cabeça, que era uma questão de tempo. Passado pouco tempo ligo novamente para saber como é estava a situação e ele diz que já não contava comigo. Fiquei muito desiludido com ele porque num dia diz uma coisa e no noutro já diz completamente o contrário, que eu era um jogador que não lhe interessava. Não gostei, sinceramente. Mais valia ter sido sincero e ter dito as verdadeiras causas de eu não não ir para lá, mas cada um vive com a sua consciência. Entretanto o Diamantino foi treinar o Fátima, falei com ele, chegámos a acordo e fui. Mas vou ser sincero, fui para lá desmotivado. Porquê? Ia fazer 30 anos, tinha feito duas boas épocas e sentia que tinha qualidade para estar num patamar melhor. A turma de Rui Baião no curso de treinador nível II. Rui é o 1º em pé à esquerda D.R. Como correu a época no Fátima? Infelizmente, não correram bem. Nunca fui mau profissional, nunca faltei ao respeito a ninguém, simplesmente, não estava com motivação e isso é meio caminho andado para que desportivamente as coisas não corram bem. E no Fátima quiseram fazer uso da imagem que eu tinha antigamente para tentar encontrar motivos para usar contra mim. Isso eu nunca iria admitir, porque a partir do momento em que fui para o Olhanense disse a mim próprio que nunca mais iam ter motivos para me atirar à cara. A partir do momento em que as pessoas do Fátima, que eram umas pessoas completamente amadoras, quiseram fazer uso disso contra mim... De que forma é que eles quiseram fazer uso disso contra si? Aquilo era um clube profissional dirigido por pessoas amadoras. Só para lhe dar um exemplo: eu fazia parte de um grupo de jogadores que tinha de ir a Alverca apanhar uma carrinha de nove lugares, que todos os dias ia e vinha para Fátima. Eu vou da minha casa no Barreiro para Alverca, que são uns trinta e tal quilómetros, depois a carrinha tinha de fazer mais cento e tal quilómetros para Fátima. Chegava lá, treinava, acabava o treino e tinha de fazer aquele caminho todo de volta. A nível desportivo e de rendimento isso vai ter repercussões obviamente. Os resultados não foram bons, o Diamantino acabou por sair. Entretanto, em dezembro ou janeiro, os diretores do Fátima vêm falar comigo em tom ameaçador. Eu não estava a ter o rendimento que eles pretendiam e dizem-me que ou eu começava a ter o rendimento que eles queriam ou então rescindiam com justa causa, porque era o jogador mais bem pago do plantel. E era? É assim, houve uma altura em que eu exigi um apartamento em Fátima, não tinha vida para andar todos os dias a fazer 300 quilómetros, e render o que eles queriam que eu rendesse dentro de campo. Só que eu depois não ficava em Fátima todos os dias, mas se calhar dois, três dias por semana. Foi por causa disso que começaram a ficar, sei lá, com raiva de mim, não sei, eles lá tinham as razões deles e começaram a querer arranjar coisinhas, uma coisinha aqui, outra ali, para tentar usar contra mim e foi quando essa reunião aconteceu. Que eu era o jogador mais bem pago do plantel, que tinha um apartamento em Fátima quando os outros não tinham, que o meu rendimento dentro de campo não ia ao encontro do que eu ganhava e que se isso não mudasse, que eles iam rescindir com justa causa comigo. Com a mulher e os filhos D.R. Como reagiu? Só lhes dei uma reposta: "Querem rescindir com justa causa comigo? Não podem, não têm motivos porque não lhes dei motivos nenhuns para vocês rescindirem comigo. Se querem que eu me vá embora, só têm uma coisa a fazer, é pagarem o que me têm de pagar até ao final do contrato e eu vou já embora". Entretanto eles continuaram a tentar arranjar algum motivo para rescindir, até que houve uma situação. Que foi? Íamos jogar aos Açores ou à Madeira, já não me recordo bem, e o que estava previsto era que quem fosse convocado ficava ali e tinha de estar logo preparado para viajar. Houve o treino, treinamos normalmente, chegou a convocatória e eu não fui convocado. Aqueles que não eram convocados iam voltar para Lisboa na carrinha e eu que tinha ido na carrinha nesse dia, felizmente. Porque se fosse sozinho aí é que tinha sido um bico de obra. Quando estamos a vir na carrinha, telefonam para mim, a dizer que um colega meu não se estava a sentir bem, que tinha saído da convocatória e eu tinha entrado. E eu "Tudo bem", só que, depois há coisas que são coincidências do caraças. Eu nesse dia tinha-me esquecido da carteira em casa e não podia viajar sem documento. Transmiti isso. Tive a felicidade de ir na carrinha com colegas meus que ouviram a conversa que eu estava a ter. Entretanto o que eles dizem: "Se não tens carteira, não vale a pena"; "Tudo bem, OK". Na semana seguinte quando vou apresentar-me para treinar, tinha um processo da direção contra mim. Eles afirmavam que eu me tinha recusado a viajar com a equipa. O que aconteceu depois? Obviamente que o processo foi para tribunal e aí tenho de agradecer aos meus colegas porque foram homens com H grande, porque se fossem outros se calhar para não comprometer o seu lugar na equipa ou coisa assim, poderiam ter testemunhado a favor do clube. Mas não, felizmente, portaram-se muito bem. Se fosse um jogador ranhoso de quem não gostavam, se calhar testemunhavam contra mim, mas não, eles viram que eu tinha razão e ganhei o processo. E tiveram de me pagar tudo o que deviam. A equipa do Sindicato dos Jogadores, de que Rui (1º em pé à direita) fez parte D.R. Segue-se o Pinhalnovense? Sim, mas numa fase em que o futebol para mim já não era coisa para levar tão a sério, era uma coisa de que eu queria tirar prazer, algo que não tive durante muitos anos na minha carreira. Depois do Fátima, fiquei sem clube e fui treinar para o Sindicato dos Jogadores, em vez de andar a correr sozinho. Há um colega que está a treinar lá também e que vai para o Pinhalnovense. Como era um bocado dispendioso para mim estar a ir e vir quase todos os dias para Lisboa, porque treinávamos no Jamor, liguei para ele e pedi-lhe para falar com o treinador do Pinhalnovense para ver se eu poder treinar lá porque estava mais perto de casa. Ele falou, ligou-me, no dia a seguir integrei os trabalhos do clube, mas nunca foi com intenção de lá jogar. Mas acabou por ficar lá três épocas. Sim. O treinador que estava à frente do Pinhalnovense na altura era o Francisco Barão, uma excelente pessoa que eu não conhecia, só de nome. Comecei a treinar, íamos conversando, criamos uma relação engraçada e passado um tempo começou a chatear-me todos os dias: "Rui, aqui é que estavas bem". Estive dois anos e meio no Pinhal Novo e foram dos anos em que tive mais prazer em jogar, porque não me impus qualquer pressão, estava imune às pressões exteriores, tudo o que eu queria era ter prazer e ser feliz a jogar. Já tinha pensado no que queria fazer depois de pendurar as chuteiras? Quando estive no Fátima exigi um apartamento porque entretanto quis tirar o curso de treinador, e o único que estava disponível nessa altura era na Associação de Futebol de Leiria, que era perto de Fátima. Pedi o apartamento mais por causa disso. Durante esse tempo fiz o nível I, que na altura durava quatro, cinco meses. Depois tirei o nivel II já mais tarde na Associação de Futebol de Setúbal, quando estava no Pinhalnovense. Quando foi pai pela primeira vez? O meu primeiro filho, Santiago, nasceu quando eu estava no Olhanense, em 2010. O segundo, o Salvador, costumo dizer que é um milagre de Fátima porque ele foi feito quando eu estava em Fátima [risos]. Eles têm diferença de 16 meses. Assisti ao parto dos dois e adorei. Algum deles joga futebol? O mais novo estava a jogar no Moitense, mas com a pandemia, não está a jogar. O mais velho só quer computadores e tecnologias. Depois de deixar de jogar Rui trabalhou num arquivo, onde às vezes tinha de andar de lanterna D.R. Quando resolveu pendurar mesmo as botas? Eu não resolvi, fui obrigado. Como assim? No Olhanense, quando fomos jogar ao Santa Clara, senti-me mal do coração. Na 2ª parte comecei a sentir umas batidas muito estranhas e irregulares, depois de uma jogada. Assustei-me, pensava que ia morrer em campo. Fui a correr direito ao banco de suplentes e saí logo do jogo. Estive uma semana parado e fui fazer exames complementares. Viram umas arritmias, mas não era nada de anormal. Aquilo passou, voltei a competir normalmente. Anos mais tarde, no Pinhalnovense, fomos jogar a Montemor e voltou a passar-se a mesma coisa, mas um bocadinho mais grave. Aí já foi no fim do jogo. Do nada começo outra vez a sentir as tais batidas mas pior do que da outra vez e a faltar-me o ar. Uma pessoa pensa logo: "Vou morrer aqui". Depois vem logo à cabeça os jogadores que morreram. Fui ao banco de suplentes e disse ao treinador que tinha de sair do jogo porque estava a sentir-me mal e ia morrer ali. Ele olha para mim, começa-se a rir. "Não brinques comigo, vai lá para dentro de campo que o jogo está quase a acabar". Mas quando olhou para minha cara, viu que eu estava muito sério. Saí do campo, fui para o balneário, deitei-me numa maca, continuei a sentir aquelas batidas. Foram lá os bombeiros e tudo. Afinal o que tinha? Fui fazer exames novamente e acusou uns problemas e umas arritmias outra vez mas um bocadinho mais gravosas. Eu estava com 33 anos e o especialista de cardiologista disse-me: "Estas arritmias não te impedem de jogar futebol, mas já não pode ser futebol de alta competição. Podes ter uma vida normal, jogar futebol de recriação e convém que continues a fazer exercício físico, mas tudo o que envolve desporto de alta competição, esquece. Não é proibitivo, mas não é aconselhável". Avisou-me que dali para a frente era provável que aquilo voltasse a acontecer com mais frequência. Não valia a pena estar a pôr a minha vida em risco, até porque não estava no início da profissão, estava em final de carreira. Foi difícil tomar a decisão de deixar o futebol? Foi. Porque não era a maneira como eu queria acabar a carreira. Já tinha dito a mim mesmo que ia acabar a carreira com 35 anos e nos meus próprios termos. Não da forma como me foi imposto e a maneira como tudo aconteceu, de um dia para o outro. Ainda por cima numa altura em que ainda tinha muito prazer naquilo que estava a fazer, é sempre muito mais doloroso. Rui com o pai, filhos e sobrinha D.R. Quando colocou o ponto final, já tinha definido o futuro? Nos meus dois últimos anos no Pinhalnovense eu acumulava a função de jogador com a de treinador de formação. Treinei um ano os iniciados e no 2.º ano treinei os juvenis. Aquilo que pensava do meu futuro era isso porque já estava nessas funções. Isso não veio a acontecer porquê? Tive um desgosto enorme com essa situação e chorei muitos dias. Quando fui comunicar aos meus colegas, estava a direção e os treinadores, grande parte deles estava a chorar baba e ranho. Pelo meu passado e por tudo o que eu era dentro daquele balneário, as pessoas consideravam-me e havia muita gente nova que olhava para mim como um exemplo, como um pai, porque eu já fazia muitas vezes a função de treinador dentro de campo. Fui-me um bocado abaixo quando deixei de jogar. Já estava a tirar o nível II do curso de treinador. Só que comecei a desligar-me um pouco do futebol. Mas não continuou na formação porquê? A questão da formação é que na minha altura se eras bom ficavas, se não eras, não ficavas, ponto. Hoje o futebol de formação é todo pago e tinha de estar constantemente a levar com os pais a perguntar porque é que os filhos não eram convocados, porque é que não jogavam, isto e aquilo. Eu percebo a questão dos pais porque para muitos é um sacrifício enorme pagar uma mensalidade e equipamentos, só que muitos deles querem ver nos filhos a salvação da vida deles; e se calhar grande parte dos miúdos não têm a qualidade e esperteza que havia na minha altura, também fruto se calhar de não praticarem futebol na rua. Muitos deles não têm qualidade para jogar futebol, mas os pais querem obrigar à força os filhos a jogar ou a ser alguém na vida para que um dia venham a ganhar muito, porque vêm os Ronaldo's, e Messi's e Neymar's a ganhar aqueles balúrdios. Rui Baião (atrás de branco) chegou a praticar Kenpo com o filho mais velho D.R. Fartou-se? Sim, tudo isso foi-se acumulando até que chegou uma altura em que me desliguei completamente do futebol. Não via futebol, não queria ouvir o que quer que fosse relacionado com o futebol. O que foi fazer então? Através de uma amiga da minha mulher, apareceu a oportunidade de ir trabalhar para um arquivo, em Palmela, através da Esegur. Aquilo é um depósito de documentos de vários clientes e quando estes precisam de ter acesso aos mesmos, enviam um mail e nós vamos buscar para ser enviado. Esteve aí quanto tempo? Estive lá dois ou três meses, era trabalho temporário, depois através da mesma empresa fui para a Tranquilidade, em Lisboa, nas férias de outros colaboradores, trabalhar na parte do correio. Depois regressei ao arquivo onde estive quase dois anos. A seguir fui trabalhar como repositor no Continente e no E. Leclerc. Ainda estive quase três meses no fundo de desemprego. E a seguir fui para o Parque Industrial Autoeuropa, em 2017. Onde estou a trabalhar até hoje. O que faz em concreto? Estou na Benteler onde monto peças que vão ser utilizadas nos carros produzidos na Autoeuropa. Trabalho por turnos, fisicamente é muito cansativo e desgastante. As minhas costas e os meus pulsos estão feitos num oito. Tenho de trabalhar com ligaduras nos pulsos. O futebol ficou completamente de parte? Há um ano tive a felicidade de A Bola TV ter feito o programa "Lembras-te de mim", em que fez uma reportagem comigo. Teve boa repercussão e as pessoas começaram a entrar em contacto comigo. Tinham gostado muito da honestidade da entrevista e tinham conhecido um lado em mim que não tinham visto antes porque ficaram sempre com aquela imagem de um jogador que poderia ter tido um grande futuro, com muita qualidade, mas problemático, irreverente. Na reportagem disse que o bichinho do futebol pode adormecer mas nunca morre. E a partir daí o bichinho acordou outra vez. Recomecei a acompanhar o futebol e de vez em quando vou à Bola TV comentar. É uma coisa que gosto de fazer e que gostava que continuasse porque acho que tenho qualificações e experiência para o fazer. Além de comentador, se houvesse oportunidade de voltar ao futebol diretamente, gostava obviamente. Atualmente Rui Baião monta peças para automóveis D.R. Onde ganhou mais dinheiro? No Gil Vicente. Investiu em alguma coisa? Infelizmente foi tostão ganho, tostão gasto. Qual foi a maior extravagância que fez? Talvez a maior foi ter comprado um BMW descapotável. É um homem de fé? Sou. Já fui mais praticante. Quando era jogador, orava muito. Mas devo dizer que, embora não seja uma religião, sou praticante de Reiki. É um à parte, não é uma religião, mas acho que é uma coisa que muita gente devia aderir, quer acreditem quer não mas é algo que dá muito autoconhecimento e auto-ajuda. Superstições? Benzia-me sempre antes de entrar em campo. E hoje em dia quando vou trabalhar benzo-me sempre antes de sair de casa e quando chego a casa. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Acima de tudo gostava de ter jogado na liga inglesa. Acho que é a melhor do mundo. Tem ou teve alguma alcunha? Fora do futebol a minha alcunha de infância era o alentejano, porque os meus pais são alentejanos. No futebol, nunca tive. Tatuagens? Tenho duas. Só vou dizer uma. A primeira que fiz foi quando fui operado à minha hérnia, porque na altura tive muito medo e resolvi fazer a tatuagem de Jesus Cristo no meu peito. Segue ou pratica outro desporto além de futebol? Sigo muitos desportos, agora praticar... Sigo ténis, gosto muito de ciclismo também. Rui também faz comentários para a Bola TV Ana Baiao Tem algum hóbi? Amo música. A minha irmã ofereceu-me uma guitarra quando tinha 16 anos. O que aprendi foi quase tudo sozinho. Agora com as redes sociais e canais da internet é muito fácil de aprender a tocar. Mas atualmente não toco guitarra com muita frequência, não há muito tempo disponível e também depende do meu estado de espírito. Também pratiquei Kenpo. Eu e a minha mulher queríamos uma atividade física para o nosso filho mais velho, que não é muito dado ao desporto e encontramos na net o Kenpo, uma arte marcial japonesa, cultura de que gosto muito. O meu filho começou a frequentar e eu gostei tanto que também me inscrevi. Atualmente não frequento por causa do meu horário laboral e por estar a comentar para a Bola TV. Mas se tiver oportunidade, volto. Ainda sobre a música, de que tipo de música gosta? O meu tipo de música é muito vasto, bandas sonoras, pop-rock, rock, heavy metal e outras definições que nem eu sei, mas o preferido, é sem dúvida, o grunge. Grupos de música, Nirvana, Foo Fighters, Alice in Chains, Soundgarden, Pearl Jam, Stone Temple Pilots, Smashing Pumpkins, Queens of the Stone Age, Audioslave, Metallica, o velhinho Peter Frampton que toca mesmo muito guitarra, oh pá, nunca mais saía daqui... Se não fosse jogador de futebol, o que acha que teria sido? Nunca pensei nisso. Acho que nasci com um dom para ser jogador de futebol, infelizmente, não aproveitei da maneira como devia, mas acho que nasci única e exclusivamente para ser jogador de futebol www.impresa.pt Sites do Grupo Impresa SIC Opto SIC SIC Internacional SIC Notícias SIC Radical SIC Mulher SIC K SIC Caras SIC Esperança Fama Show Expresso Blitz Boa Cama Boa Mesa Tribuna Advnce Volante SIC GMTS InfoPortugal Olhares Impresa Novas Soluções de Media Gesco SIC International Distribution IMPRESA © Todos os direitos reservados Apresentação do Grupo Contactos Investor Relations Responsabilidade Social Lei da Transparência Sobre o Nónio Vítor Pereira: Parte 1 Spoiler Vítor Pereira: “Ia celebrar à frente do Jesus, vi-o cair de joelhos e não consegui. Virei-me, rasguei as calças atrás, imaginei o desgosto” Nesta primeira parte de uma longa conversa, o treinador recorda a dureza de lidar com a morte do pai, conta histórias da tropa, revela como foi iniciar o percurso de treinador no FC Porto, com o seu ídolo de infância João Pinto - sobre quem escreveria dois livros -, como aquele jogo com o Benfica lhe mudou a vida e a relação com Jorge Jesus alexandra simões de abreu (texto), josé cedovim pinto (vídeo) e fernando veludo (fotografia) 27.03.2021 às 8h12 Nasceu em Espinho. Filho e irmão de quem? O meu pai, o senhor Olívio, deixou-nos quando eu estava a treinar o SC Espinho. Foi muito cedo, com 58 anos, estava muito bem, nunca imaginei, nunca me passou pela cabeça que ele nos deixasse tão cedo. Queixou-se de uma dor no ombro, levei-o ao médico do clube. Entretanto foi fazer um exame e tinha um tumor alojado na parte superior do pulmão e já tinha passado para os ossos, por isso é que começou a sentir a dor no ombro. Lembro-me que na consulta da especialidade, quando a médica pediu para o meu pai sair, fiquei eu e ela disse-me que o tempo de sobrevida eram seis meses. Aquilo foi o maior choque da minha vida. Não estava à espera de uma coisa daquelas, nem queria acreditar. Tinha quantos anos e o que fazia na altura o Vítor? Isto foi há 15 anos. A minha vida era dar aulas na Feira, levar o meu pai à quimioterapia, ao Porto, vinha dar o treino à tarde, no SC Espinho, e depois ia buscá-lo ao final do dia. Andámos assim um ano, apanhou duas épocas. Tinha os miúdos pequeninos... tenho três filhos e aquilo que aconteceu ao meu pai, foi um impacto tremendo na minha vida, porque o meu pai parecia que tinha muita saúde, estava a tratar de reformar-se, ele gostava de cantar fados, tocava viola e ia dedicar-se um bocadinho àquilo de que gostava. Por isso é que a vida tem de facto de ser vivida sem grandes planos. É filho único? Não, tenho um irmão mais novo do que eu, seis anos. Vive em Sintra já há alguns anos. O meu pai conheceu a minha minha mãe, e quando eu nasci a minha mãe ainda era solteira, tinha 19 aninhos, tiveram de casar logo. Acabei de nascer e o meu pai foi para o Ultramar, para a guerra, durante três anos. Fiquei com a minha mãe e os meus avós. Entretanto o meu pai voltou e foi trabalhar para o hotel Praiagolfe, que ainda existe. Trabalhou trinta e muitos anos na receção, à noite. Quer dizer que cresci um bocadinho na ausência do meu pai, porque ele dormia durante o dia. À noite pagavam mais qualquer coisa e era importante. A sua mãe trabalhava em casa? A minha mãe foi muitos anos costureira. Era um puto reguila ou sossegado? Eu cresci numa zona que não dava muito para ser calminho. Acho que era um bom menino, mas cresci num meio muito competitivo. A minha avó Eulália foi uma grande referência para mim. Ela não era mãe biológica da minha mãe, adotou-a com 15 dias. Da parte da família da minha mãe praticamente não conheço ninguém e do meu pai também, porque houve umas confusões. Dava uma novela a história de ambos [risos]. Os meus avós maternos, a minha avó Eulália e o meu avô Tolinhas, viviam na parte sul do campo de Espinho, que é uma zona de pesca e fabril, com a fábrica de conservas onde trabalhava a minha avó. A casa dos meus pais era na parte norte do campo de Espinho. Tinha os avós na parte sul e os meus pais na parte norte, mas onde eu cresci foi na parte sul, a chamada a zona da mata, de gente que ia ao mar ou que trabalhava nas fábricas. O dia-a-dia era de rua, com a seitinha, muito competitivo, não havia espaço para alguém que não fosse "macho", que não lutasse pelo se lugar, tínhamos de crescer muito depressa, íamos para a escola, mas a nossa vida era jogar. Da escola, gostava? Gostava, aliás fiz o meu curso, numa zona onde ninguém faz cursos, ninguém estuda ali. Quando era pequenino quem eram os seus ídolos? Era muito engraçado porque eu jogava como lateral direito, portanto o meu primeiro ídolo foi o Gabriel, do FC Porto, depois o João Pinto. A minha família era portista, mas só se ia ao Porto, sei lá, uma vez ou duas por ano. O meu pai uma vez levou-me ao estádio das Antas, às cavalitas dele, e só via o Cubillas. O ídolo do meu pai era o Pavão e eu fiquei sempre com aquela coisa do FC Porto na cabeça. Uma vez fiz uma permanente no cabelo para ficar parecido com o João Pinto [risos]. Foi uma risota. Que idade tinha? Eu jogava nos iniciados, devia ter os meus 13 anos. E mais tarde vim a trabalhar com o João Pinto. D.R. Quando é que começa a jogar futebol num clube pela primeira vez? Nós jogávamos nessa mata, havia aqueles clubes amadores, de bairro. Era o Cantinho da Ramboia, depois a seguir numa zona mais piscatória eram os Leões Bairristas. Eu acabei por começar a minha carreira no Cantinho da Ramboia, jogámos em frente ao campo do Espinho e depois ainda fui fazer um ano aos Leões Bairristas, portanto joguei nos dois rivais daquele tempo. Entretanto fomos ao Espinho, queríamos ir todos para o Espinho, mas éramos muitos, e os melhores ficaram no Espinho. Joguei nos infantis do Espinho, depois nos iniciados e de repente a formação acabou, provavelmente por falta de dinheiro. O SC Espinho parou com a formação e vou, não sei como, com uma série de jogadores que estavam ali no clube, parar à Avanca. De Espinho a Avanca tínhamos de apanhar o comboio, ainda eram umas estações, era longe. Tinha 13 anos e ia e vinha quatro vezes por semana. Fiquei no Avanca cinco anos. Sozinho? Comecei a ir nesse grupo, mas depois não dava porque os horários de treinos eram diferentes. Sei que o meu comboio de regresso era às dez menos vinte da noite e eu, miúdo, às vezes estava sozinho naquele apeadeiro da Avanca, sem luz. Quantas vezes os comboios não paravam porque iam cheios de tropas. No início ainda tive um colega que também ficou nos iniciados mas entretanto eu fiquei nos juvenis e ele deixou de ir. O meu treinador era o pai do Semedo, que jogava no FC Porto. Às vezes eu perdia o comboio, o pai do Semedo ligava ao filho, o filho vinha de Ovar, vinha-me buscar e ia levar-me a Espinho. Tratavam-me como família, eles gostavam tanto de mim, que quando acabávamos o treino à sexta feira, ficava a dormir na casa dos diretores. Fiz muitos amigos, marcou um bocadinho a minha adolescência e ainda joguei nos seniores do Avanca. Mas pelo meio tem uma passagem pelo UD Oliveirense? Sim. Isso acontece porquê? Porque entretanto no Avanca tínhamos equipas de formação muito fortes. O Avanca estava no distrito de Aveiro, ao nível de um Beira Mar, discutíamos finais com o Beira Mar. Íamos àqueles torneio a França, tínhamos sempre histórias muito engraçadas nesses torneios e quando ainda era júnior, acabei por ter uma proposta do Beira Mar, eu e outro rapaz, o Jorge Rocha. Só que o Avanca gostava tanto de nós que ofereceu-nos um ordenado, o primeiro ordenado da minha vida, seis contos (30€). O que fez com esse dinheiro? Naquela altura dava para muita coisa. Mais os prémios dos jogos que eles pagavam num envelopinho, logo a seguir… O que posso dizer, é que a partir dos meus 15, 16 anos nunca mais pedi um tostão a ninguém. Acho que foi com 16 anos que fiz o meu primeiro contrato e nunca mais precisei de dinheiro, nunca mais. E quando precisava fazia uns biscates. Que tipo de biscates? De trolha e de tudo onde eu sentisse que podia fazer um dinheirito para ir à discoteca e para ir com os meus amigos. Trabalhava no sábado de manhã com o meu tio nas obras, ele dava-me um dinheirito e já dava para o sábado todo. Tenho uma história engraçada, uma vez a minha mãe, ela não sabia bem o que é que eu ia fazer, vê-me a passar de quico na cabeça e um saco de cimento de 50 quilos às costas. Aquilo era muito pesado para mim, mas eu lá ia com o saco... Vieram-lhe as lágrimas aos olhos [risos]. "Não acredito que tu andas a fazer isso!"; "Ó mãe, não te preocupes que eu tenho força". Às vezes também fazia umas caixas de peixe. Eles pagavam por caixa. D.R. Nessa altura o seu sonho era ser jogador de futebol? Era. Do Avanca vou para o Oliveirense, passei de seis contos, para sessenta contos (300€). Saiu-me o totoloto [risos]. Isto porque eu entretanto fui ao Oliveirense, que era um clube já com outras aspirações. Só que nesse ano do Oliveirense, eu entro na faculdade. Foi um ano marcante da minha vida porque faleceu o meu melhor amigo. Como? Vou chamá-lo para irmos jogar futebol para um campo que havia na parte norte de Espinho. Fomos a correr, mas como o campo estava ocupado, começamos com umas trocas de bola e ele caiu à minha frente. Tinha acabado de fazer os fuzileiros, o João era... não sei, foi uma coisa fulminante, um aneurisma ou uma coisa assim. Uma coisa fulminante, cai à minha frente e eu, que era nadador salvador na altura, sabia fazer as manobras. Era outra coisa que eu fazia, nadador salvador, pagavam muito bem, na altura acho que eram 32 contos (160€). Eu juntava o dinheiro do futebol, mais o dinheiro de nadador salvador e nunca me faltou dinheiro, graças a Deus, fui auto suficiente desde muito cedo. Vitor, no meio, fez a formação de jogador no Avanca D.R. Entra na faculdade em que curso? Entrei para Desporto, era o que eu queria, na faculdade do Porto. Os treinos no Oliveirense eram de manhã e eu não podia treinar de manhã porque tinha aulas práticas de manhã e teóricas à tarde, só podia treinar ao final da tarde e regressei ao Avanca. O comboio era às 5 e 45 da manhã. Hoje é tudo concentrado num sítio, junto a São João, mas no meu tempo não era assim. No meu tempo uma aula de futebol era no Inatel, no CDUP era o andebol e o basquete, na Boa Hora era a natação, as biomédicas eram em frente ao Santo António, no antigo ISEF era a ginástica. E eu como não tinha carro, andava com um saco para as modalidades todas às costas. Eu andava de autocarro no Porto de um lado para outro, quando chegava às aulas teóricas normalmente não aguentava, adormecia quase sempre. Mas às quatro da tarde tinha de despertar, tinha de sair a correr com o saco, e como não conseguia apanhar o comboio em São Bento, tinha de ir até Gaia a correr [risos]. Só que muitas vezes estava a chegar à estação e o comboio estava a arrancar. Isso aconteceu-me muitas vezes. Acontecia várias vezes adormecer no comboio e passar Avanca, só em Aveiro é que dava por ela [risos]. Falhei alguns treinos assim, estava muito cansado. Chegava a Avanca, se chegasse a tempo tinha a carrinha para me levar, o campo era a cinco quilómetros do apeadeiro, senão, tinha de ir a pé. Chegava a casa por volta das onze horas da noite, para comer, fazer o saco e levantar-me outra vez às cinco da manhã. Já havia namoros? Eu conheci a minha mulher, a Fátima, nesse ano da faculdade. Ela estava em matemática, era nossa amiga, do nosso grupo. Como é que passa para o Esmoriz? Fui jogando até aos 29 anos. Entrei na faculdade em 1988 e acabei em 1993. Pensei que já não ia à tropa, mas fui chamado. Para Tavira, Algarve. Vou para Tavira cinco semanas, na altura era um atleta, jogava no Fiães. Houve um ano em que me lesionei e fui dar aulas. Estava no 3º ano da faculdade, vim dar aulas aqui para Espinho. Dava aulas e estudava ao mesmo tempo, era para compensar o ordenado do futebol porque tive de parar com a lesão. Entretanto, no ano seguinte fui para o Estarreja, de Estarreja, Fiães, Fiães, São João De Ver, São João de Ver, Lobão e acabei no Lobão. Acabei na III divisão no Lobão. Fernando Veludo/NFactos Quando acabou a faculdade, o que lhe passava pela cabeça, continuar a ser jogador de futebol? Não, queria ser treinador. Comecei a perceber que a minha qualidade não dava para mais, sinceramente. Mas não era só isso, cá dentro queria mesmo ser treinador. Mesmo enquanto jogador sentia que me estava a preparar para ser treinador. O que é que o fascinava? Fundamentalmente organizar, organizar os outros, organizar a equipa com feedbacks constantes. Tinha algum treinador modelo? O Mourinho, o Carlos Queiroz. Primeiro o Carlos Queiroz que teve um impacto muito grande. Porque antigamente para se ser treinador era preciso ser jogador e jogador de determinado nível. Normalmente os clubes entregavam a quem tivesse sido jogador de I liga. Com o Carlos Queiroz houve uma mudança. Tinha vindo da faculdade, não era um ex-jogador. Ele até deve ter chegado a jogar, mas como eu joguei, como o Mourinho jogou, nas III divisões. Começou uma certa abertura para gente que vinha associar a teoria à prática e o científico ao empírico. Depois ele ganhou, teve sucesso. Mas o grande boom foi com o Mourinho. No Estarreja D.R. E a experiência da tropa? Foi engraçada porque aquilo era competitivo, quem tivesse a melhor nota, escolhia a primeira vaga e dos noventa e tal, fui o melhor. Porque na altura era um atleta, estava a jogar, tinha acabado a faculdade, estava na minha forma. Passei logo a ser aspirante. Só que eu não sabia nada de tropa, fui para o quartel-general que era a única vaga que havia no Porto. Tem histórias da tropa? [risos] Então não tenho? A primeira vez que me puseram como oficial do dia, nunca mais me esqueci. Fiquei responsável pelo quartel uma noite. Quando me puseram um pelotão à frente eu nem sequer sabia dar ordens ao pelotão. Tinha cinco semanas de tropa. Entretanto fico de oficial de dia, e à noite era eu o responsável pelo quartel quando aparece-me a Polícia Militar com um preso. Eu é que tinha de mandar o preso para algum lado. Mas eu não fazia a mínima ideia do que fazer. A PM é que me explicou que tinha de preencher umas papeladas. Estive naquilo até às três ou quatro da manhã. E quando pensava que a noite tinha acabado, que podia descansar um bocadinho, recebo um telefonema. Tinha feito alguma coisa mal? Tinham morrido dois militares numa explosão de uma botija de gás e eu tinha de ligar para as famílias. Nem sabia o que havia de dizer. E tinha de organizar meia dúzia de tropas para ir para lá, por causa daquilo da bandeira, daquelas coisas. Para mim era outra confusão, eu não sabia nada do que tinha de fazer. O capitão tinha-me dito "ó aspirante Pereira, quando depois der para descansar, vai ver que é tranquilo, tem ali uma cama na messe de oficiais". Eu chego à cama, puxo as mantas para trás e aquilo estava cheio de pêlos, mas tanto pêlo, tanto pêlo que eu só pensava dormiu aqui um macaco de certeza [risos]. Fiquei toda a noite acordado, à espera de fazer a troca. Aquilo foi uma aventura muito grande. Depois da tropa e da faculdade o que fez? Tornei-me treinador-jogador no Lobão. Sou convidado para jogar e para ser adjunto do treinador que lá estava. Fizemos uma belíssima equipa, pela primeira vez comecei a planear treinos. O treinador dava-me essa liberdade, eu jogava e treinava. Andamos ali em 2º lugar, veio muita gente de Espinho, jogadores que tinham jogado comigo. Chatearam-se com o treinador por causa de um assunto qualquer, o treinador foi embora e eu também disse, acabou-se para mim, passo só a ser jogador e deixei de ser treinador. No ano seguinte decidi parar de jogar, já chegava de lesões, e com 29 anos acabei com a minha carreira de jogador. Não lhe custou? Andei ali quatro meses com uma adrenalina tremenda, a planear treinos, dia e noite, não conseguia dormir. A adrenalina era tanta que eu acordava durante a noite, acho que a minha cabeça não parava, mesmo durante a noite conseguia construir exercícios. Mas porquê? Não sabia o que queria fazer da vida? Porque a minha vontade de ser treinador era tão grande, eu já dava aulas na altura, fui professor em São João da Madeira, numa secundária; depois fui para Paços Brandão, entretanto fui para a Feira e fiquei dez anos na Feira, dei aulas 15 anos. Só deixei de dar aulas quando assinei o meu primeiro contrato na II Liga, com o Santa Clara. Vitor Pereira esteve no Estarreja de 1991 a 1993 D.R. Antes disso começa como preparador físico no Esmoriz. Sim, depois de deixar de jogar, passado quatro meses fui com o Artur Quaresma para o Gondomar, zona norte, II divisão. Estivemos até à última para subir de divisão. Ficamos em 2º. Já tinha casado? Casei logo quando acabei a tropa, com 26 anos. Mas o meu primeiro filho, o João, só nasceu quando tinha 29 anos. Depois foi o Pedro e o Tiago. O João está com 24 anos, o Pedro, 21 e o Tiago vais fazer 19 agora em abril. Já são homens. Depois do Gondomar, vai para onde? Para o Arrifanense também II divisão, zona centro e depois vou para o Esmoriz com o Zé Guilherme, que dá aulas na faculdade e está agora na seleção, não sei em que escalão. Conheci-o na faculdade. Naquele ano em que estive lesionado, ele era treinador do Cortegaça e eu fui lá treinar algumas vezes para recuperar da lesão, identificamo-nos claramente, ele era aluno do Frade e eu também era aluno do Frade. O Frade foi a nossa grande referência em termos de faculdade. O Zé Guilherme convida-me para ir para o Esmoriz, para adjunto. Entretanto o Zé é convidado para os juniores do Porto e eu vou para o Ovarense, II Liga, para adjunto do Bruno Cardoso. Já era o meu quarto ano como adjunto. Estávamos também a fazer um belíssimo campeonato, andávamos nos primeiros lugares e recebo um telefonema do José Guilherme para ir para o FC Porto, para o lugar dele nos juniores, e trabalhar com o João Pinto, porque ele ia passar a treinador principal dos juvenis. Vitor, em pé com a bola, no Fiães SC, em 1993/94 D.R. Foi uma emoção trabalhar com um ídolo de criança? Sim. Eu não conhecia o João Pinto pessoalmente, mas foram dois anos... Eu escrevia facilmente um livro dos dois anos a trabalhar com o João. Então porquê? Aquilo era uma aventura diária, eu nunca sabia bem o que ia acontecer [risos]. Porque ele tinha muito aquele espírito de miúdo, de adolescente, e estava sempre a pregar partidas, sempre, sempre. Ele era capaz de estar uma hora ou duas a preparar uma partida para mim ou para um jogador. Recorde lá uma que ele lhe tenha feito. Ele era capaz de estar de joelhos atrás de um carro à espera que eu chegasse ao treino, com uma mangueira, para me molhar todo. Estava ali de joelhos à espera, à espera, não sabia bem quando eu vinha, às vezes telefonava "Estou, o prof já está a chegar?"; "Estou, estou". E quando eu chegava... Uma vez, tínhamos ido jogar um torneio a São Pedro de Moel e quando ele se levantava antes da mesa, alguma coisa ia acontecer. Tinha chovido e nós íamos a passar debaixo da árvore e ele estava sentado em cima da árvore, para abanar a árvore e nos molhar [risos. Eram tantas… Como é que ele era como treinador? Era eu que planificava o treino, agora em termos de jogo ele conseguia criar um espírito competitivo.. Todos os treinos acabavam com o jogo pago a dinheiro. Ele apostava com os jogadores, apostava comigo, ao fim de cinco vitórias da minha equipa contra a dele, pagavas um jantar. Aquilo era assim, era extremamente competitivo e os jogadores assumiram o espírito dele e nós íamos a qualquer lado e ganhávamos tudo. Nesse ano ganhámos tudo, no último jogo acho que foi 6-0 ao Benfica. Fomos campeões. Foram duas épocas com o João Pinto? Sim, foram duas épocas com ele. Depois o FC Porto convidou-me a segunda equipa de juvenis do FC Porto, no Padroense. Fui como treinador do FC Porto para o Padroense, aí foi o meu primeiro ano como treinador principal. Depois estive nos iniciados, depois fui para a Sanjoanense, a meio da época, pedi porque queria ser treinador de seniores, tinha cinco anos de FC Porto, de formação, e achei que tinha chegado a altura de ir para os seniores. Estive lá e depois vim para o SC Espinho, onde estive dois anos. Gostou da sua primeira experiência como treinador de sénior? Foi boa, mas não havia dinheiro na Sanjoanense. Troquei o ordenado certinho do FC Porto na formação, que já ganhava bem. Estivemos quatro ou cinco meses com ordenados em atraso e foi quando cai com os pés na terra, porque comecei a sentir as dificuldades dos clubes. Entretanto fui para o SC Espinho dois anos a lutar para subir, não conseguimos, dois anos em 2º lugar. Foi a altura da morte do meu pai que me marcou muito, até queria deixar o futebol, mesmo na escola não falava com ninguém, foi um ano muito difícil. Durante a entrevista a Tribuna Fernando Veludo/NFactos Quando o seu pai faleceu estava com ele? Estava. Já com dores horríveis, com morfina, um sofrimento horrível... Entretanto, fui para os iniciados de 2º ano do FC Porto. Já tinha sido treinador de seniores, já tinha feito este percurso todo, e depois de ter sido campeão de juniores, voltei ao FC Porto para ser treinador na equipa de iniciados no distrital. Ganhamos esse campeonato e eu depois saltei daí, diretamente para o Santa Clara, onde estive dois anos. Foi quando deixei de ser professor. Meti licença sem vencimento e nunca mais. Foi com a mulher e com os filhos? Os primeiros dois anos fui sozinho. A minha mulher era professora de matemática, os miúdos eram pequeninos e foram dois anos em que ela ficou com os miúdos pequeninos. Gostou dos Açores? Adorei. A equipa era muito boa, fizemos duas épocas fantásticas, perdemos a subida no último jogo do campeonato. Gostei muito de lá estar porque ali trabalhei como queria. Como surge o regresso ao Porto? Eles falavam sempre comigo. "Vítor, o que é que vais fazer agora?". O Ilídio também me ligava muitas vezes. Eles não queriam que eu saísse do FC Porto para o Santa Clara, ofereceram-me contrato profissional na formação, só que eu já não queria mais a formação, queria seniores. Foi a primeira vez que conheci o Antero Henrique, que me chama ao gabinete e diz-me: "Ó Vítor nunca falamos, mas o FC Porto está muito interessado em fazer um contrato profissional contigo, portanto tu não vais sair daqui porque nós temos outras ideias para ti, não vais sair daqui". Eu agradeci muito, mas disse-lhe: "Eu quero ser treinador de seniores". Só que fiquei sempre com ligação a eles, eles ligavam: "Ó Vítor queres voltar?" e eu acabei por voltar nesse ano difícil. Joern Pollex Sabia que o André Villas-Boas ia ser o treinador principal? Aceitei antes dele, não sabia quem ia ser o treinador. Convidaram-no mesmo só para ser treinador adjunto? Sim, adjunto da primeira equipa. E nos dois anos em que fui treinador do Santa Clara tive propostas da I liga. De onde? Eu tinha três anos de contrato com o Santa Clara, portanto o último ano já não o cumpri. Eu ia para o Paços de Ferreira nessa altura. Já tinha tido reunião com o presidente do Paços de Ferreira, era só a questão de tentar a desvinculação com o Santa Clara. Só que recebo o telefonema do FC Porto. "Vítor precisamos da tua experiência". Eu tinha lá trabalhado cinco anos, eles conheciam-me bem. Disseram-me: "Vamos contratar um treinador jovem, um treinador com futuro que precisa de alguém com a tua experiência de clube e de treino". Não dormi toda a noite e decidi não aceitar porque não me estava a ver como treinador adjunto, sinceramente não me estava a ver como treinador adjunto. Solicitei uma segunda reunião para dizer que não aceitava. Foi aí que o Antero disse: "Ó Vítor tem que ser, o teu percurso um dia há de chegar aqui outra vez e tu nesta hora podes ajudar-nos, precisamos de ti". Acabaram por me convencer. Ele disse-me depois que era o André. O André tem menos dez anos do que eu, tinha estado com o Mourinho, tinha quatro meses de Académica. Achou injusto não o terem convidado para treinador principal? Não. O que achei claramente é que não tinha perfil para ser treinador-adjunto, porque para mim esse tempo já tinha passado. Mas também senti que devia alguma coisa ao FC Porto, era um ano da minha vida. E foi aquele ano em que ganhámos tudo. Qual foi a primeira impressão que teve do André Villas-Boas? O André cria logo uma empatia muito grande. Ele tem aquela capacidade inata de comunicar. Identifiquei-me com as ideias, com o futebol ofensivo, de ataque, de domínio, com a ambição dele, com a ambição do clube. Ele cria empatia quase automaticamente e disse-me também que eu não ia ser um adjunto de carregar material. Ia ser um adjunto para discutir tática e estrategicamente. E foi assim? Fui sempre um adjunto de muita discussão. Mas é isso que eu quero dos meus adjuntos. Eu às vezes tenho quatro horas de reunião porque quero que discutam comigo e que tenham ideias. E fui sempre esse adjunto, eu e os outros que lá estavam, fomos sempre adjuntos que fomos discutindo as coisas. É claro que a decisão era sempre dele, agora houve sempre discussão na estratégia, na tática, no como é que vamos encarar isto, como é que vamos abordar este jogo ou este. Ele sempre foi e é uma pessoa aberta, uma pessoa que ouve. Rui Quinta e Vítor Pereira, treinador adjunto e treinador principal, respetivamente, do FC Porto, em 2011/12 e em 2012/13 MIGUEL RIOPA/GETTY Esse é o ano das luzes apagadas e da molha no relvado, quando festejaram o campeonato na Luz. Apercebeu-se do que aconteceu? Apagaram as luzes e ligaram a água, porque estavam chateados, não é? [risos]. Eu nem sei bem o que aconteceu, estava lá no meio a festejar, com as luzes apagadas e a levar com a água. Nós quando íamos ao Benfica, não sei, o FC Porto parecia que se transformava. Já se sentia durante a viagem. Durante a viagem a música ia numa altura tremenda, já surgiam uns "gritos de guerra". Quando chegamos parecia que já estava incendiado e nós começamos a sentir que íamos ganhar. A rivalidade com o Benfica parece ser maior do que com o Sporting. Porquê? Porque o Benfica foi sempre o candidato mais candidato, o candidato que discutia sempre os títulos. O Sporting como esteve aqueles anos todos sem ganhar... Apesar de ser um clube dos grandes, o Benfica é que era o grande rival. E no Porto há um bocadinho esta cultura, nós contra todos. A nossa força vem porque nos unimos contra os outros e isso é uma coisa fomentada. Quando se fala no ADN, no espírito, é quase como encarnar aquele espírito do norte. E isso é uma coisa que se sente e que se vai fomentando, que se vai estimulando, é um bocadinho assim. Aqueles festejos na Luz iam dando para o torto. Pois iam, porque se não me engano houve uma invasão ou tentativa, por parte dos adeptos do Benfica, houve ali qualquer coisa, não me recordo muito bem. O que me recordo é de estar às escuras, agarrado aos jogadores, a levar com a água. Esse ano foi um ano fenomenal. Nesse ano ganhámos o campeonato com 21 pontos de diferença para o Benfica. Não é uma coisa normal. Depois fomos jogar a Taça. O Vitória de Guimarães fez um estágio de uma semana e nós viemos de ganhar a Liga Europa, não dormimos, encontramo-nos para viajar para Lisboa, chegámos lá, estavam 30 graus e ganhámos 5-2. Por isso é que o futebol não tem lógica absolutamente nenhuma [risos]. O V. Guimarães em estágio uma semana, a preparar muito bem o jogo e nós chegamos ali... Muitas vezes a parte emocional...Quando se vem de tantas vitórias, aquilo criou-se ali uma dinâmica de vitória que parecia que era imparável. Tanto fazia estarmos cansados como não. O que mais o marcou enquanto adjunto do André Villas-Boas? Foi um ano de antecâmara para eu perceber o que era jogar com uma densidade de jogos tão grande, com muita pressão, por serem jogos de um nível tão alto. E depois, treinar àquele nível, o comunicar, o André tinha uma forma de comunicar muito própria, aquilo de facto foi um ano importante para me preparar para o que vinha a seguir. Numa conferência de impresa antes de um jogo da Liga dos Campeões, em 2012 AFP Como passa a treinador principal? Quem o convida? O André convida-me para ir para o Chelsea com ele. O Chelsea foi uma coisa muito rápida, surgiu de repente. Ainda não tínhamos jogado a final da Taça e o André chega lá um dia e diz: "Tenho um convite do Chelsea e gostava que viesses comigo". O FC Porto quando se apercebe que não havia volta a dar, que ele ia mesmo e que o Chelsea ia pagar a cláusula de rescisão, o Antero vem aqui a Espinho e: "O André vai, mas tu é que vais ser o treinador principal. Aceitas?". Qual foi a primeira reação? Eu disse logo que sim. Disse logo que sim, porque eu não tenho caraterísticas para ser adjunto. Em determinada altura da minha vida ser treinador adjunto tudo bem, agora, eu naquele ano com o André, claro que tive liberdade para discutir as coisas, mas eu sou um líder, gosto de tomar decisões. Naquele ano foi um bocadinho eu anular-me como treinador principal, esquecer que era treinador principal e estar ao serviço de alguém, no sentido de ajudar o clube e ajudar o treinador, ajudar o André. Eu provavelmente discutia o pormenor dos pormenores, provavelmente era chato nas discussões, mas acho que foi importante, para ele foi muito importante. Mas a parte da comunicação não lhe correu muito bem. O tático, o estratégico, o que é treino, o que é jogo, eu estava mais do que preparado. Agora o comunicar, a parte da comunicação, nunca liguei muito. E comunicar no Santa Clara é diferente de comunicar no FC Porto e senti que de facto, andei ali meio perdido porque ia para uma conferência de imprensa e as perguntas muitas vezes são ratoeiras que eu, na minha honestidade, não estava à espera e muitas vezes caía numa, caía noutro, entrava ali em discussões com o Jesus. Se fosse hoje, com a experiência que tenho, já não. O Vítor e o Jesus hoje falam-se? Falamos, sem problema nenhum. Dou-me bem com o Jesus, aliás eu depois daqueles dois anos, daquela do Kelvin, encontrei-me com ele naquela coisa dos treinadores da UEFA e pedi-lhe desculpa. Porquê? É assim, ele vai picando, picando, picando e nós não somos de ferro e chega uma altura que... Eu um dia disse-lhe que ele era um egocêntrico, só olhava para o umbigo, era sempre ele, ele, ele e o clube não tinha mérito nenhum, os jogadores não tinham mérito nenhum, era sempre ele. Disse aquilo, mas sinceramente arrependi-me, senti que não era eu. Respondi, fui reativo e depois pedi-lhe desculpa: "Ó Jorge não leves a mal, porque aquilo não foi…”; "Oh pá, esquece isso, nós já sabemos que os clubes...". Porque às vezes é a rivalidade entre os clubes que nos leva a interpretar determinados papéis, dizer determinadas coisas. Damo-nos bem, ele de vez em quando liga-me: "Ó Vítor este jogador esteve contigo?”. Já falámos várias vezes sobre isso. "O jogador tal, o que é que tu achas?". Ou eu para ele ou ele para mim, não tenho problema absolutamente nenhum. A festejar com Pinto da Costa a conquista do título, em 2012 AFP Quando fala do seu problema de comunicação, era apenas para a comunicação social, para o exterior, ou também sentia que dentro do balneário lhe faltavam algumas coisas? Do ponto de vista tático, estratégico, de treino, metodologia estava mais do que preparado. Estava mais do que preparado porque tive anos e anos a experimentar. Sabia o que queria, não tinha dúvidas. Agora, voltando o filme atrás, eu tinha sido treinador do Santa Clara na II liga [risos]. Saltei de treinador do Santa Clara para adjunto. Fui um adjunto que passou a treinador principal do FC Porto, depois de uma época de tantas vitórias. Com tantos jogadores a quererem sair para campeonatos e para clubes, ou porque tinham promessas, ou porque tinham expectativas ou criaram expectativas porque tinham ganho a Liga Europa. Metade do plantel estava com um pé lá e um pé cá, e isso foi um grande problema que eu tive de gerir nos primeiros meses. Tive de gerir muitas expectativas frustradas dos jogadores. O facto de ter sido adjunto e de supostamente estar mais próximo deles no ano anterior, poderá tê-los levado a não respeitá-lo tanto no início? Acho que não. Eu como adjunto já me tinha chateado com muitos deles [risos]. Não era aquele adjunto de andar a abanar a cabeça, não era esse tipo de adjunto. A minha personalidade não dá muito para faltas de respeito. Eu mesmo como adjunto não dava muito para excessos de confiança. Não sou treinador, nem era adjunto de mão por cima do pescoço. Voltando às falhas na comunicação. Eram só para fora? Especialmente para fora. Para dentro fui sempre estimulando o nosso jogo de domínio, agressivo, para ganhar em qualquer lado. Foi sempre isso que fui metendo na cabeça deles. Aliás, julgo que houve ali uma fase no primeiro ano e outra fase no segundo ano, em que eles próprios já estavam um bocadinho descrentes, quando estivemos atrás do Benfica uns pontos. Explique melhor. Eu tive de injetá-los e se não fosse essa força interior e essa capacidade de transmitir a mensagem e de fazê-los acreditar, teria sido difícil. Agora, também não há dúvida nenhuma que a capacidade e a personalidade deles foi decisiva no andar sempre atrás do prejuízo durante dois anos, no primeiro quase até ao fim, no segundo mesmo quase no fim. E acabar por ganhar os dois campeonatos numa fase já final não é para qualquer treinador. Costumo dizer que só se consegue avaliar um treinador, quando se vê o treinador sob pressão, passar um período mau e a dar a volta a esse período. Porque já vi muitos treinadores, enquanto aquilo está bem, eles são os maiores, mas quando está mal, não conseguem dar a volta. Já vi muitos assim. Vitor Pereira, ao centro, durante um treino no Dragão MIGUEL RIOPA O que é preciso para dar a volta a um balneário como o do FC Porto? É preciso uma força interior muito grande. É preciso acreditar muito no que se está a fazer e para se acreditar, é preciso saber o que se está a fazer e ter a capacidade de transmitir isso. De transmitir a emoção, essa força interior que vem de dentro. E para mim, vem da minha infância, da minha adolescência. Na sua primeira época, qual foi o momento em que sentiu que aquilo estava a descambar? A meio. Havia o problema da gestão das expectativas. Se eu criar expectativa de que vou para Inglaterra e à última da hora não vou, isso já me aconteceu duas ou três vezes, é uma pancada muito forte. Nessa altura, eles criaram expectativas, uns de irem para Itália, outros de irem para Espanha para grandes clubes, outros de irem para Inglaterra para grandes clubes. E o Porto não é um clube fácil de negociar, não é, os jogadores querem ir e vão. É muito difícil negociar com o FC Porto e os jogadores até pensavam que já estavam nesses clubes e o FC Porto depois não chegava a acordo. Porque o FC Porto tinha de defender os seus interesses. E se as coisas não se conjugavam, eles tinham de ficar, mas muitos deles ficaram contrariados e essa gestão é que foi mais difícil. Quando sentiu que deu a volta? No mercado de janeiro tivemos que deixar sair alguns que estavam insatisfeitos e ajustar o plantel. Só quando o mercado de janeiro fechou é que se pensa: “Bem, agora vou ter de ficar aqui, portanto se vou ter de ficar aqui, vamos lutar para conseguirmos o título”. Só aí é que algumas cabeças estabilizaram. Na segunda volta, fomos atrás, atrás, atrás, sem perder, sem perder, sempre na perna do Benfica até eles cederem. Não é para uma equipa qualquer, não é para uma personalidade qualquer andar atrás do prejuízo, com cinco pontos de atraso, sempre mantendo a pressão no adversário que ia na frente, até o adversário cair, e passarmos à frente. E depois, chegar a casa deles, ganhar e ficar com o campeonato... Porque de facto o Benfica tinha uma super equipa, mas não era só uma super equipa, era um super plantel e conseguiu também uma vantagem porque empatamos duas vezes. Recordo-me que o Jackson falha dois penáltis consecutivos, minha responsabilidade porque eu é que o escolhi, mas voltava a escolher; com a falha dos penáltis o Benfica está quatro pontos à frente. Portanto, com um empate do Benfica e vitória nossa em casa, ganhamos o campeonato. Mas para ganhar o campeonato foi preciso andar sempre ali, a morder os calcanhares, a colocar pressão e pressão e isso não é fácil. Houve algum momento em que teve uma conversa mais dura, mais decisiva? Houve momentos, houve. Lembro-me perfeitamente que no primeiro ano, eu ia para a conferência de imprensa e colocava sempre a tónica em, nós vamos ganhar e vamos ver se o Benfica falha. Mas eles ganhavam. Fui sempre colocando pressão no Benfica, mas este discurso não estava a resultar. A sensação é que eu ia pondo chama, ia-lhes dando combustível para eles ganharem. E uma vez, estou no meu gabinete, e achei que o melhor era “entregarmos” o campeonato. Vou para uma conferência de imprensa e digo que provavelmente o Benfica seria campeão porque não estavam a ceder pontos e nós tínhamos de continuar a lutar, mas que o título provavelmente iria ser para eles. Isso foi um escândalo porque nem a equipa sabia. Ao colo dos jogadores, em Paços de Ferreira, após conquistar o titulo, em 2013 MIGUEL RIOPA O presidente sabia que ia mudar o discurso? Recordo-me perfeitamente que me lembrei de fazer isso numa sexta-feira, antes de ir para a conferência de imprensa, sem perguntar nada a ninguém, sem falar disto com ninguém e no sábado tive de reunir com os jogadores porque estava tudo incrédulo a olhar para mim. Tive de dizer-lhes qual era a estratégia. "Nós vamos fazer como a cobra. Vamos estar quietinhos como se isto já não fosse para nós. Eles vão a passar e nós mordemos. Nós vamos morder e eles vão ceder". Pelos vistos, resultou. Não sei se resultou, provavelmente nem teve nada a ver com isso, mas empatam em casa com o Estoril. Nós ganhámos. Vamos ganhar à Luz e ganhamos o campeonato. Depois daquela conferência de imprensa em que mudou o discurso, o Pinto da Costa disse-lhe alguma coisa? Não, nunca me disse nada. A parte técnica e estratégica é entregue ao treinador. Em dois anos de FC Porto não me lembro nunca do presidente se meter seja no que for. Voltando um pouco atrás, quando fala nas dificuldades de comunicação no início, não teve ninguém da estrutura do FC Porto que lhe desse uma palavra, que o ajudasse, que o encaminhasse? Claro, tentavam, tentavam ajudar, tentavam preparar, mas a questão é que aquilo não se tira um curso num dia. E nem eu tinha tempo para preparar as conferências. Tinha tanto trabalho, tinha de preparar tantas coisas que não tive tempo. O André Villas-Boas era diferente. Lembro-me de o ver a preparar as conferências, com tempo. Eu, sinceramente, cinco minutos antes é que pensava um bocadinho no que ia dizer. "Rui achas que vai surgir alguma coisa?" [risos]. Sempre fui um treinador tático ou estratégico e menos de comunicação. É claro que hoje tenho outra experiência, tenho outra capacidade de comunicar. Hoje vêm com a pergunta deste lado e eu vou com a resposta do outro lado e não tem problema. Na altura não, eu queria ser honesto na resposta. Mas também muito daqueles ataques, daquelas coisas que surgem montadas, construídas, muitos daqueles cenários é para atacar o clube e eu levava um bocadinho por tabela. MIGUEL RIOPA Mas sentia que o fragilizava enquanto treinador ou não? Eu vou ser sincero. Houve uma fase da minha carreira que eu sentia a crítica. Nesse ano senti a crítica porque vinha de ser um treinador de futuro, no Santa Clara as minhas equipas jogavam bom futebol. Um futebol bonito, organizado, e eu estava numa fase claramente ascendente da minha carreira. Sabia o que queria da minha carreira e sabia que aquilo era só uma passagem para mim. Se conversar com jogadores daquele tempo, eu sempre disse que era uma passagem, que ia chegar a um grande e que aquilo era uma passagem. O que é que eu pensei: saio do Santa Clara e vou para o Paços de Ferreira, faço um bom trabalho no Paços de Ferreira, vou para um V. Guimarães ou para um SC Braga, faço lá um bom trabalho e depois chego ao FC Porto, preparado de outra forma. Só que o FC Porto surgiu de repente. Eu comunicava bem no Santa Clara, agora não estava preparado para aquelas críticas no Porto, que vinham de todo o lado. Se calhar para comunicar para fora, para os adeptos, provavelmente não estava preparado, nem preocupado. Aí, esse impacto da crítica, magoou-me. Quem vier falar comigo sobre tática e estratégia, neste país ou em qualquer lado, tem que vir muito preparado porque eu estudo tanto, leio tanto, eu sei do ínfimo pormenor, portanto se vierem falar comigo têm que se preparar porque senão eu desmonto aquilo num instantinho. O que quer dizer com isso? Quero dizer que o aspeto do futebol a que dei sempre importância foi àquilo que é treino e o jogo. E para isso, podem vir de onde quiserem. Se me pedem para falar para o sindicato de treinadores, para o sindicato dos jogadores, para isto, para aquilo, para a revista tal, para falar de tático e estratégico, é porque de facto reconhecem que deste ponto de vista… Agora, a comunicação, fundamentalmente para os adeptos, é uma coisa que é preciso passar por isso. Nunca copiei ninguém, sou quem sou. Tudo o que fui aprendendo na minha vida foi por bater com a cabeça na parede. Tenho que cair para aprender, para corrigir, construi toda a minha vida assim. Fernando Veludo/NFactos Na altura sentiu-se mal amado pelos adeptos do FC Porto? Senti que eram injustos. Senti uma injustiça muito grande. Lembro-me de um jogo com o Nacional, em casa. O Nacional era um clube que já tinha vindo ganhar ao Dragão, que já tinha eliminado o FC Porto nas Antas, portanto era uma equipa que historicamente já tinha criado muitos problemas ao FC Porto. Lembro-me de um jogo em que choveu torrencialmente o jogo todo, ganhámos 5-0 e fomos assobiados do primeiro ao último minuto. Ms para não perder o fio à meada, nisso da critica, o que é que acontece? Provavelmente para os jogadores que nós tínhamos, criámos um jogo que não era entendido pelos adeptos. Como assim? Nós criámos um jogo de domínio. Aquelas duas equipas do Porto eram dominadoras, eram equipas que com a bola, não dávamos a bola a ninguém. Guardávamos a bola, tínhamos uma capacidade de posse de bola e de fazer golos nos momentos certos e de não sofrer golos, de defender, de defender com bola, éramos uma equipa muito consistente. Em dois anos, dois campeonatos. Eu quero ver quem é que vai estar dois anos com uma derrota, estou para ver quem é que vai fazer isso. E isso vinha de quê? Vinha de uma posse de bola elevada. Como não é um jogo de transições, de perde bola, ganha bola, de andar sempre na área do adversário, não era esse jogo, era um jogo de domínio, domínio, domínio, isso se calhar chateava um bocadinho o adepto. Se calhar foi um bocadinho isso, a expectativa do adepto se calhar era outra, provavelmente os adeptos do FC Porto queriam outro tipo de futebol. Mas eu hoje sinto-me mais reconhecido pelos adeptos do FC Porto, do que na altura por exemplo. Hoje vou a qualquer lado e eles fazem-me uma festa. Naquela altura eu saí do Porto porque de facto não sentia a química. Sentia que apesar dos dois campeonatos, da forma como ganhamos os dois campeonatos...Eu tenho de me sentir bem onde estou, tenho de sentir que de facto as pessoas estão contentes. O FC Porto queria renovar comigo e eu decidi não renovar o contrato. Para terminarmos este capítulo do FC Porto. Neste dois anos, qual o jogador que o surpreendeu mais? Tenho dificuldades. Eu tive jogadores de grande nível. Tínhamos um 11 muito forte, tínhamos 11, 12, 13 jogadores, pá... Não voltou a ter uma equipa assim? Não, não voltei a ter uma equipa deste nível. Agora o plantel não era todo do mesmo nível. O Benfica nesse ano tinha um plantel do mesmo nível, muito forte. Mas o nosso 11 era muito forte, com personalidade e eu percebia claramente que havia ali jogos que marcávamos um golo e os adversários não tinham mais hipóteses, não conseguiam criar uma oportunidade de golo porque guardávamos a bola. Mas naquele jogo como Benfica, já o disse numa entrevista que acha que foi Deus que lhe disse para meter o Kelvin e o Liedson. Foi um momento incrível, que não consigo explicar. Sou muito intuitivo, o que sinto para mim é fundamental. Muitas das minhas decisões são pelo que sinto, por isso é que eu às vezes até decido mal para a minha carreira. Eu hoje acredito que já podia estar em Inglaterra há algum tempo, ou num grande campeonato, em Itália, se tivesse aquilo que estou a ter agora, um bocadinho de paciência e resistir aquilo que me tem surgido. Muitas das grandes decisões que tomei na minha vida foram emocionais e intuitivas. Mas está arrependido de ter decidido emocionalmente naquele jogo? Não. Porque um treinador que pensa muito acaba por ficar bloqueado e não decide nada. Se começarmos a pensar: "Vai ser assim, mas pode ser assim e pode ser assado". Não conseguimos tomar decisão sob pressão. Ser treinador é tomar decisões sob pressão e é nisso que nos vamos tornando experts, vamos fazendo disso quase um hábito. Quando os outros estão meio bloqueados, nós desbloqueamos e a decisão vem. E ali, como sou católico e como tenho uma relação com Deus que é muito própria, eu senti quase que ele estava a falar comigo naquele momento e o que me estava a dizer é que tinham de ser aqueles dois. Eu não conseguia ver mais ninguém, só conseguia ver os dois. E por dois motivos. Quais? Um porque o Kelvin taticamente não estava amarrado. Ele era aquele jogador irreverente, que faz o que lhe vem à cabeça, se calhar por isso é que não foi mais longe. É quase como um cavalo selvagem taticamente, para o domar e para o colocar ao serviço do coletivo é um bocadinho difícil porque o jogo vai ser sempre para ele de um contra um. E disse-lhe: "Entra e vai para cima deles. Se tiveres junto à área vai para cima deles, saca um pénalti, saca qualquer coisa". Era o momento em que era preciso qualquer coisa diferente. Ele quando remata à baliza, eu estava a pedir-lhe para cruzar porque do outro lado estávamos a aparecer com dois ou três para encostar e ele lembra-se de atirar à baliza. Só da cabeça dele porque outro provavelmente cruzava. Na Luz, a celebrar a vitória e a conquista do título, em 2013 MIGUEL RIOPA E o Liedson? O Liedson que veio para o FC Porto já não era o Liedson que jogava no Sporting. Há muita coisa também que falhava em termos de comunicação porque eu tinha de defender o clube. Muitas vezes não podia falar porque ia expor coisas que não podia. Havia coisas que tinham de ficar dentro, mas depois como é que eu me defendia para fora? Era difícil. O treinador não toma decisões e vai buscar o A, B ou C, o treinador dá opinião, agora se o clube disser "esse não é possível porque não há dinheiro", o que é que eu vou fazer? Então vem aquele. Mas aquele se calhar já não me servia a mim. É assim que um treinador muitas vezes para defender o clube depois não expõe. Isso aconteceu-me variadíssimas vezes em todos os clubes, não foi só no FC Porto. Voltemos ao Liedson. Quando veio para o Porto, veio com problemas. Problemas no joelho. Só que eu estava convencido que naquele momento o jogo era resolvido ou por um rasgo individual, tipo Kelvin, ou por uma segunda bola que ia cair na área e que ele, o Liedson, como cheirava o golo, podia num instante metê-la lá dentro. Portanto, eu olhava e via sempre os dois. A minha intuição parecia que estava conectada com Deus, parecia que ele dizia "São esses". Eu dizia para os meus adjuntos (o meu adjunto já está comigo há 18 anos) "São estes" e eles "Ó Vítor, pensa bem, pensa bem. Já sabes como o Liedson está e o Kelvin é um miúdo de 19 anos"; "Oh pá, mas não há"; "Ó Vitor, mas é com eles que vais ganhar?"; "É com eles, é com eles, não há mais ninguém, são eles". E eu como rezei muito, comuniquei profundamente com Deus, estou convencido de que ele me iluminou. Parte 2 Spoiler “Entrei, os adeptos todos mascarados, a insultarem-me, comecei a contar passos e um deles salta para dentro do campo. E eu disse: ‘anda cá’” Na segunda metade da conversa: as aventuras de Vítor Pereira no estrangeiro, dos beijos e abraços entre árabes, o vídeo viral "i speak the truth", as peripécias gregas e com a polícia de choque, o atentado na Turquia e a fuga de Istambul, e a vida na China e o medo da pandemia. Não faltam histórias Alexandra Simões de Abreu 28.03.2021 às 9h36 Diz que não quis ficar no FC Porto... ...Fui eu que decidi não ficar no Porto. Muita gente ainda pensa que não. Fui a quatro reuniões para renovar contrato com o FC Porto, porque eles não se convenciam de que eu não ia continuar. Disse-lhes que estou muito grato ao clube e a gratidão para mim é uma coisa para a vida toda, mas que não queria continuar. Já tinha contactos com a Arábia Saudita? Não tinha nada. A única coisa que tinha marcado era uma reunião com o Everton. Mas a questão não era essa. Eu tenho de me sentir bem onde estou. Não quero estar onde não sou reconhecido, prefiro ir para outro lado. Nunca tive medo de aventura, quem lutou como eu lutei, e ainda continua a lutar, tem medo de alguma coisa? Eu não tenho medo de nada. De hoje para amanhã vou para outro país qualquer e estou convencido de que temos sucesso na mesma. Sentiu que podia estar a fechar definitivamente uma porta no FC Porto? Eu estive oito anos no clube. É muito tempo na carreira de um treinador. Estive cinco anos na formação, três anos na equipa principal. Virei a página, satisfeito com a minha vida, segui o meu caminho. Dessa decisão eu não me arrependo absolutamente nada. Não respondeu. Sentiu que podia estar a fechar a porta do FC Porto por estar a dar uma "nega"? Mas eu assumi isso sem problema nenhum. Aliás, quando saí a primeira vez do FC Porto, da formação para ir treinar a Sanjoanense, eles disseram-me: "Olha que normalmente quem sai não volta ao FC Porto". Um ano depois estavam a convidar-me para voltar. Quando saí a segunda vez, para o Santa Clara, voltaram a dizer-me a mesma coisa. Mas eu voltei outra vez ao FC Porto. Na terceira vez, voltaram a dizer? Não. Acho que ficou ali uma mágoa, é natural. Porque dizer não ao FC Porto... Mas isso não é um problema meu, é um problema deles. Eu dei tudo de mim ao FC Porto. Como ficou a história do Everton? Fui à entrevista. Na altura eu não sabia como se processavam as entrevistas em Inglaterra. Em Portugal estava habituado a que quando alguém me pede para ir a uma entrevista, é para ser contratado. É uma questão de chegarmos a acordo. Lá não é assim. Eles entrevistam 10 para escolher um. Em Inglaterra já tive duas vezes o contrato definido, para mim e para os meus adjuntos, com anos de contrato. E ainda não fui para lá. Quando fui aquela primeira vez ao Everton acabaram por contratar o Martinez que está agora na seleção da Bélgica. Vitor Pereira a festejar o último título que conquistou pelo FC Porto, em 2013 AFP E o Al-Ahli da Arábia? Surge-me à porta de casa um emissário do príncipe da Arábia com um advogado. Bateram-me à porta, de sandálias, com aquele estilo árabe. Dizem-me que querem que eu vá para a Arábia Saudita. Começo a rir e digo que não, porque na minha cabeça eu queria ir para uma grande liga europeia. Mas eu nunca tinha lidado com árabes na minha vida e não fazia ideia. Quando se diz não a um árabe, bom, todos os dias vinham bater-me à porta: "Vamos caminhar um bocadinho e vamos conversar". "Temos aqui uma lista, tu és o 1º e nós não saímos daqui enquanto não disseres que sim". Fui dizendo sempre que não. Ao 6º dia, veio bater-me à porta o neto do rei da Arábia Saudita. Um príncipe. "O meu pai disse para vir cá para o contratar e eu não posso aparecer lá sem o contrato consigo. Está aí o contrato em branco, ponha aí o dinheiro que quiser". E pôs? Levaram-me para o hotel onde estava o príncipe. Fecharam-me lá o dia todo e já foi por desgaste que acabei por colocar o valor. Pus dez vezes mais do que ganhava no FC Porto [risos]. Pensei que não iam aceitar. E eles: "Então está feito o contrato". Na altura não é como hoje em que a Arábia investe mais, eu era o treinador mais bem pago de lá. E foi assim. Quando chegou, como foi o embate? Ui. Logo dentro do aeroporto era uma comitiva, fui tratado como um príncipe. Quando o Jorge Jesus conta aquelas histórias, de facto aquilo é assim, e ele esteve lá menos tempo do que eu. Ia dar o primeiro passo fora do aeroporto e pegam logo em mim às cavalitas, com flores. Eu a pensar: "Mas nós vamos para algum jogo, ganhamos algum jogo?". Depois, vamos fazer pré-época. Chegamos a umas montanhas, vêm uma data de jeeps, aquilo parecia um filme, só carros e carros a apitar. Foi na altura do Ramadão, então não via os jogadores de dia, à meia noite ainda estávamos a treinar e às duas da manhã a jantar. Às três estavam a bater-me à porta para reunir comigo. Eu ainda com jetlag, completamente baralhado. Só lhes dizia: “Se estamos o dia todo até à noite sem treino, como é que vocês querem reunir comigo às três da manhã?” Só que eles iam dormir depois da última reza, às cinco, e ficavam a dormir o dia todo. Durante o dia aquilo parecia um hotel-fantasma. Mas há mais. Conte. O primeiro jogo em Meca. Primeiro, não podia ir com a equipa porque havia um caminho sagrado para os muçulmanos e outro para os estrangeiros, pelas montanhas. Quando ia dar a palestra, não tinha jogadores. Estava tudo a rezar. À hora a que eu estava habituado a estar com os jogadores, para lhes ir dando instruções táticas e para os ir picando. No FC Porto, naquele momento a música já está numa altura enorme, jogam à bola dentro do balneário, já estão a criar um clima de "guerra" entre aspas. Ali, estavam deitados no chão, tapados com toalhas em cima da cabeça [risos]. Não estou a perceber o que é que vou fazer aqui. O capitão deitado, outro metido no chuveiro, sozinho... Ó valha-me Deus, o que é que vou fazer aqui? [Risos). Depois, começou o chamamento, desapareceram todos. Bom, vou lá para dentro. Só estava eu e os estrangeiros. É um choque cultural muito grande. Brutal. Aqui num FC Porto - Benfica, quando estamos a alinhar para entrar em campo, nem olhamos uns para os outros, nem falamos, cria-se logo aquele clima. Lá, vamos jogar com o maior rival e eles todos aos abraços, aos beijos, que eles dão muitos beijos uns aos outros, os meus a alongar os da outra equipa e vice-versa. Eu a tentar picá-los e eles a olhar para mim [risos]. Eles só querem paz e sossego. Depois lá dentro do campo até vão à luta, mas cá fora são todos amigos. A nível técnico-tático ficou surpreendido com as equipas? Logo nos três primeiros treinos foi um choque metodológico tremendo. Cheguei a impôr a minha metodologia, mas no início eles rebentavam-me com os exercícios todos, não tinham capacidade de dar resposta. Fui adaptando, dando passos atrás, passos à frente. Marquei muito aquela gente. Quantas vezes é que já fui convidado para regressar? Todos os anos. Vitor Pereira no Al-Ahli, em 2013/14 D.R. Para os portugueses, marcante foi aquela conferência de imprensa em que termina com "I speak the truth", tornou-se viral na net. [Risos] O meu inglês na altura era muito fraco. Enervado ainda pior. Fez algum curso de inglês entretanto? O meu inglês hoje não tem nada a ver com aquele. Não é refinado porque é um inglês mais técnico, mas é diferente. Na altura não sabia falar bem porque eu estudei francês. Quando era miúdo, o meu pai tinha medo que eu não desse nada na escola e como o meu tio vivia em Paris e tinha uma pequena empresa, o meu pai dizia-me: "Vais estudar francês porque se um dia não der aqui, vais trabalhar com o teu tio para França". Por isso, o inglês eu mandava sempre para canto. Agora, há um problema: é que o inglês dos árabes é um inglês que em vez de evoluirmos ainda ficamos pior, a falar como eles [risos]. O que motivou aquela discussão toda? Eu não sabia o que tinha acontecido no ano anterior, em que o meu lateral esquerdo tinha-se pegado à batatada feia com um jogador deles. A mim ninguém me contou. Eu andava um bocado frustrado com aquilo. Se nós nos metermos com um árbitro árabe, o que vai acontecer a seguir é que ele vai gozar connosco. Vai errar outra vez e vai-se rir para ti. E eles andavam a expulsar, em todos os jogos, um jogador nosso. Naquele jogo, fora, estávamos numa fase crucial da liga, eu a sentir claramente que eles queriam afastar-nos do título. Nunca tinha saído de Portugal na altura. Hoje sei como lidar. Por exemplo, na China, não se fala dos árbitros. Ai de alguém que vá para uma conferência de imprensa falar num árbitro. Ele pode errar as vezes que quiser, se falar de um árbitro leva-se logo com 10 jogos de castigo. Fácil. E se falar a seguir, vai logo embora, porque é a imagem do país que está em causa. Na Arábia é igual, só que eu na altura não percebia e "derretia" os árbitros, porque ia com a cultura portuguesa e pensava que aquela coisa de ir picando eles até iam melhorar. Não. Ainda era pior. Mas o que aconteceu naquele jogo? Mesmo à minha frente, logo que começou o jogo, o jogador deles dá um banano no meu. Um soco na cara, mesmo. Ficou estendido à minha frente. Eu sem perceber nada. A seguir, quando o outro vem numa jogada, eu a dizer ao meu "tem calma, tem calma, tem juízo", e ele faz-lhe uma tesoura valente. O árbitro expulsou o meu e nem sequer tinha dado cartão ao outro. Vamos para a conferência, eu queria falar sobre aquilo. Aquele senhor com quem me chateei era do clube onde tínhamos ido jogar. Ele é que estava a moderar e não estava a querer permitir-me falar sobre aquilo. Enervei-me. Mas tive outra que ainda foi pior do que aquela. Pior? Então? Não foi gravado, foi a minha sorte [risos]. Passei-me completamente, se tinham gravado...Fiquei maluco, fiquei doido. Eles vão para lá e vão fazer aquelas perguntas mesmo para chatear. Eu fui acumulando uma certa frustração porque aquilo não correspondia às minhas expectativas. Já sabia que ia ser muito diferente, mas quem tinha disputado a Liga dos Campeões no ano anterior e a seguir leva com aquilo... . Havia alguns campos, alguns jogos e o nível de arbitragem, tudo junto... . Estava sem a família? No início fui sozinho. Fiquei num hotel durante três meses, depois a família foi lá ter e esteve quatro ou cinco meses comigo. Adaptaram-se bem? O meu filho mais velho teve de ficar em Portugal, os outros dois foram e ficaram numa escola internacional. É uma vida diferente. É uma vida de compound. Temos piscinas, ténis, temos tudo. A minha vida resumia-se a isto: de manhã ia para o ginásio e para a piscina, almoçava e às três da tarde ia para o clube. O treino era às seis. Por volta das dez da noite estava em casa. De tudo, a que é que lhe custou mais habituar-se? Aquilo que me frustrou era eu querer ter as condições de trabalho e as promessas constantes...O árabe é muito engraçado. Estamos a dizer que queremos a relva em condições e eles respondem sempre "insh allah", se Deus quiser. Isto sistematicamente "mata" uma pessoa. Depois o não profissionalismo. O jogador que falha o treino porque morreu a tia, e noutro dia, é o tio, noutro dia qualquer morreu o primo... Na verdade eles só querem estar sentados com os amigos a beber um chazinho e a falar. Falta, falam, falam. Paz e sossego. Um erra, o outro vai lá, calma... . Eles falhavam sistematicamente e havia a cultura do desculpar tudo. Não ia a contar com aquilo. Assinou por quanto tempo? Dois anos. No final do 1.º ano vim embora. Tive de pagar uma fortuna para vir embora. Depois estive quatro ou cinco meses em casa. Outra coisa que me "matou" foi a final da Taça. Então? No dia anterior era a inauguração do estádio de Jeddah. Uma coisa grandiosa. Eles queriam que eu fosse ao estádio no dia anterior ao jogo. A viagem era longa. Lá fui com a equipa. Cansamo-nos para lá, cansamo-nos para cá. A relva do estádio estava toda estragada. O que era? Andavam a ensaiar mil e tal pessoas em cima da relva porque o Rei ia ver jogo e eles tinham de entrar e fazer um desfile. Entretanto, eu disse: “Atenção, calculem bem a distância e tudo o mais porque eu quero chegar ao estádio uma hora e meia antes do jogo, pelo menos”. Chegamos 15 minutos antes do jogo. Porquê? Porque só havia uma estrada, aquilo era no meio do deserto, eram carros e carros, carros. Já íamos pela areia em vez de irmos pela estrada. Gente atrás a vomitar...Chegamos lá, nem aquecimento, nem nada. Aos 15 minutos de jogo já estávamos a perder 2-0. Quando começamos a entrar no jogo, entra o Rei, parou o jogo. Viemos 30 minutos para dentro, houve o tal desfile. E o meu guarda redes é que entrega o ouro ao bandido porque a relva estava toda estragada. Atrasaram-lhe uma bola e ele entrega a bola ao adversário, a bola aos trambolhões... No final desse jogo disse: "Para mim acabou o contrato". Expliquei-lhes. "Ó Vitor vais, um dia voltas quando a tua vida estiver mais tranquila", porque entretanto houve um problema de saúde com a minha sogra. Eu não era para pagar a indemnização, mas depois foram para tribunal, FIFA e lá tive de pagar. Como vai parar a seguir à Grécia? Tinha empresário? Na altura tinha agente sim e agora tenho outro. Fui para o Olympiacos a meio da época, estava em 2º lugar, mas o clube nessa posição na Grécia cai a casa, vem o prédio abaixo. A grande prioridade era o campeonato e ganhamos com 13 pontos de vantagem. Agora na Grécia também tive umas peripécias. Todos os anos sai no jornal que tem oito meses de pena de prisão suspensa. O que se passou? Nunca mais saímos daqui para contar isso [risos]. Resuma. Jogamos para a final da Taça com o AEK, empatamos em casa, jogo com a segunda equipa, mudei nove jogadores. O presidente disse que eu estava maluco. Os dérbis para eles é a loucura total. Fomos lá e aos 88 minutos quando eles estavam todos a saltar, a comemorar a passagem à final porque estava 0-0, fizemos 1-0 aos 88m. O Jara faz 1-0 e vai a correr para a bandeirola de canto do meu lado, a equipa vai toda a correr para lá e eu também fui com os braços no ar. Só que para onde ia era onde estava a claque do AEK e só vejo aquela vaga amarela e preta a vir por ali abaixo, a invadir o campo e nós todos a fugir para dentro do balneário. E agora tenho pena suspensa por causa desse jogo. Ganhamos 1-0, fomos à final e ganhamos a Taça. Ganhamos o campeonato e a Taça. Entretanto, estava lá e fui a tribunal uma vez. O juiz disse que aquilo não tinha ponta por onde se lhe pegasse. Fui três vezes a tribunal enquanto lá estive, pensei que estava mais do que resolvido. Nunca fui intimado para ir a lado nenhum, mas aparece-me a pena suspensa no jornal. Isto surge nos jornais da Grécia. Agora meti um advogado a tratar do assunto. Senão, nunca mais me livro da pena suspensa. Mas a pena existe ou não? Eu pelos visto era convocado, mas a mim ninguém me convocava diretamente. Uma vez foi ter uma carta à Turquia, já eu estava em Portugal. Da Turquia mandaram-me a carta para Portugal e já tinha passado o prazo, já tinha sido a audiência. Tenho um advogado a tratar. Estou à espera. Era suposto estar quanto tempo no Olympiacos? Um ano e meio. Essa época, em que ganhamos, e mais uma. Só que com estas questões todas comecei a sentir que não ia ter segurança para estar lá. Eu até comecei a ter algum receio de estar em casa, porque eram todos clubes de Atenas. Entretanto, o presidente também tentou meter-se um bocado no meu trabalho e eu disse logo que comigo não dava. A família estava consigo? Na Grécia nunca estiveram comigo porque só estive lá seis meses. Veio embora como? Deixei lá o dinheiro todo. Paguei o contrato. Tinha mais um ano e deixei o dinheiro todo. Já sabia que ia para a Turquia quando saiu da Grécia? Não, eu tinha a Red Bull e o Salzburgo. Explique como surgiu isso. A Red Bull propôs-me ser o treinador do Salzburgo um ano, aprender alemão, e no ano seguinte ir para o Leipzig. No Leipzig, diziam-me que ia ser para lutar pela Liga do Campeões e pelo campeonato alemão. Mas o Leipzig nesse ano em que fui contactado estava a lutar para ser campeão na II Liga. O Ralf Rangnick chama-me para uma reunião em Londres e com uma hora de reunião diz-me: "Vais ser tu o treinador. Não vou entrevistar mais ninguém". Fui à Áustria, ficou tudo definido, menos o contrato dos meus adjuntos. Eles queriam que eu fosse o treinador do Salzburgo mas eu tinha de ficar com três adjuntos da Red Bull. Eu disse que não havia hipótese, que se fosse tinha que ir com os meus três adjuntos. O que disseram? Acertaram o contrato comigo e a seguir disse-lhes: "Agora vamos discutir o contrato dos meus adjuntos". Na minha opinião eles pegaram em um salário e dividiram por três. E a casa tínhamos de ser nós a pagar. Achei que não estavam a ser corretos. No dia a seguir viajo para Portugal e estou numa ação de treinadores em Fátima, quando recebo um telefonema a informar que o diretor do Fenerbahce queria vir cá no dia a seguir falar comigo. E veio? Veio. Ofereceu-me não sei quanto mais dinheiro do que a Red Bull. Mas não sei se fiz bem ou se fiz mal. Fui também pelo entusiasmo dos turcos. Não era para pagar a indemnização ao Olympiacos, mas quando o presidente soube que eu ia para a Turquia obrigou-me a pagar [risos]. Dei dois títulos ao Olympiacos e não recebi um euro. Tive que devolver o dinheiro todo para sair [risos]. Vítor Pereira, no Olympiacos em 2014/15, onde conquistou o campeonato e a Taça da Grécia Pacific Press Na Turquia a realidade é muito diferente da grega e da árabe? É uma mistura das duas. Eu vivia no lado europeu, em Istambul, e treinava do lado asiático. Foi com a família? Sim. Mas foi na altura das bombas. Foi tudo perto de minha casa. De minha casa vi a tentativa de golpe de Estado, na ponte. Estava na rua a jantar quando começo a ouvir tiros por todo o lado. Bombas também. Aquela bomba à porta do estádio do Galatasaray... a minha casa ficava a cinco minutos dali. Os meus filhos tinham de fazer todos os dias hora e meia de autocarro para a escola. Aquilo começou a fazer-me confusão. Sabia lá onde é que a próxima bomba ia rebentar. E o futebol? Adorei a paixão deles pelo jogo. Eles adoram futebol. Eles adoravam-me. Os árabes quando gostam idolatram uma pessoa e na Turquia é igual. Ficou uma ligação no Fenerbahce, com os adeptos, muito forte. O campeonato deles é melhor do que o grego? Para mim o nível é mais alto. Porque têm mais dinheiro e capacidade de contratar melhores estrangeiros, por isso há ali equipas boas. Agora, falta-lhes, e vai faltar-lhes sempre, aquilo que é tático, porque eles são de tal forma emocionais que é difícil. O jogo torna-se emocional. Na Arábia também, os últimos cinco minutos do jogo era sempre uma caixinha de surpresas. Os jogos podiam andar ali meio mortos até 10 minutos do fim. A partir daí começava a ir tudo para o ataque, fazia-se dois, três golos e ficavas a pensar: "Mas de onde é que isto apareceu? O que é que aconteceu?" [risos]. Na Turquia, taticamente o jogo pode estar controlado mas de repente acontece qualquer coisa, há uma faísca, e começam a projetar-se laterais, médios, jogam todos no ataque. Termina em 2º lugar, perdeu a final da Taça e foi acusado de fugir do país. Mas é que fugimos mesmo. Tivemos de fugir. Porquê? Nós tínhamos um presidente, o Aziz, de quem eu gostava, mas a forma como vive as coisas é extremamente emocional. Ele parecia que tinha duas personalidades. Tanto barafustava e levava tudo à frente, como de repente se acalmava. O que aconteceu é que no primeiro ano foi buscar muita gente para sermos campeões. Não conseguimos, ficamos em 2º lugar porque o Besiktas tinha o Mário Gómez na frente e fartou-se de marcar golos esse ano. Tinha outro argentino que fartou-se de marcar golos de livre. Fizemos um belíssimo campeonato mas não conseguimos ser campeões. Eu estava convencido de que no segundo ano tínhamos reunidas as condições para o ser. Só que apanhamos o Mónaco na pré-eliminatória da Liga dos Campeões e eu não tinha extremos. Comecei a trabalhar o 3x5x2, sem extremos. Em casa ganhamos 1-0 ao Mónaco, aquele que foi às meias finais da Liga dos Campeões nesse ano e tinha uma super equipa. Quando vamos lá levamos com 1-0 logo a começar, depois eles voltam a marcar 2-0, ficaram em vantagem. Fazemos 2-1. E mesmo a acabar atiramos uma bola à barra, tivemos um penálti que não foi marcado, e eles marcam o 3-1 e eliminaram-nos. Mandaram-nos da Liga dos Campeões para a Liga Europa. O presidente entra-me pelo hotel adentro, estávamos todos a jantar, e começa a dizer "roubaste-me 30 milhões de euros. E isto e aquilo e mato-te....", estava a ter um ataque daqueles. Eu continuei a jantar. Ele ficava doido. No dia a seguir viajamos para a Turquia e ele chega com uma comitiva. Estamos a falar de um presidente que às vezes andava com 10 guarda-costas. E diz-me: "Tu vais estar cinco dias sem treinar. Só vais ver a equipa a treinar. A equipa não está bem fisicamente e eu vou pôr aqui umas pessoas". Quem? Pôs o adjunto do ginásio, que era turco, a treinar a equipa e não queria que eu treinasse [risos]. E dizia-me: "Porque devias ter dado 5-0 ao Mónaco. Temos equipa para dar 5-0 ao Mónaco". Eu comecei a ver que não tínhamos condições. Depois foi agressivo com dois adjuntos meus. Começou a ameaçar. De tal maneira que eu disse aos meus adjuntos para irem todos para o meu apartamento. Entretanto a minha família já não estava. Por causa das bombas já os tinha mandado embora. A meio da noite começamos a pensar que ele não nos ia deixar sair, que ia enviar os seguranças. Liguei ao advogado em Portugal, eu já tinha recolhido provas suficientes de que ele não me deixava fazer o meu trabalho. E vim embora. Tive pena porque acho que nesse ano íamos ser campeões. Foi para tribunal depois? Sim. Tiveram de pagar-me. Chegamos a acordo, não me pagaram tudo, mas tiveram de pagar. A seguir vou para a Alemanha. Vitor Pereira assinou pelo Fenerbahçe na época 2015/16a OZAN KOSE Para o TSV 1860 de Munique. Essa foi a sua pior decisão? Foi. O clube tinha um passado e uma história na Alemanha muito grande. Só que eu nunca imaginei que o clube estivesse naquele estado. Convidaram-me para ir e eu disse que tinha de ver a equipa primeiro. Fui ver um jogo e quando voltei disse aos meus adjuntos que não havia hipótese nenhuma, o nível era muito baixo. Mas fui uma segunda vez porque podia ter sido só aquele jogo. Ainda pior. Só que entretanto, dizem-me que a ideia era conseguir a manutenção naquele ano, eram só mais uns meses até ao final da época e que no ano seguinte faziam uma equipa boa para subir da II à I liga. Só que havia uma guerra muito grande entre o investidor, que era jordano e não percebia nada de futebol, e os alemães que queriam mandar no clube mas não tinham dinheiro. E eu fui apanhado no meio. Os jogadores, havia a fação dos alemães e havia os estrangeiros que estavam do lado do jordano porque foi ele que meteu dinheiro para ir buscá-los. Foi um erro tremendo na minha carreira. De facto a única mancha na minha carreira foi ali. Eu assisti a coisas que nunca tinha visto na minha vida e nem pensei que fosse possível. O quê? Tive a sensação que eles queriam descer o clube. Eu tive jogos em que o jogo estava ganho e eles, ou faziam penáltis, ou a bola passava, coisas incríveis. Eu vi coisas incríveis. Os golos pareciam para os apanhados. Por isso vim embora logo a seguir. E vai para a China? Não. Como tinha sido uma asneira grande, decidi pensar um bocadinho no que ia fazer a seguir. Estávamos a estudar uma outra possibilidade para Inglaterra. Para onde? Já tive vários clubes interessados. O ano passado em janeiro tive dois anos e meio de contrato acordado com um grande clube da Premier League. Eu já estava a preparar o jogo seguinte, com o Manchester United, e de repente surge outro treinador que foi despedido de outro lado e pronto o contrato que tinham definido comigo já não valeu. Nessa altura não me passava pela cabeça ir para a China. Só que surge-me a possibilidade de lutar pelo título, o Shanghai SIPG tinha condições financeiras para lutar pelo título. O Guangzhou tinha sido campeão sete vezes consecutivas, ia para o 8º título. Achei que era um desafio. E financeiramente, uma coisa que não existe na Europa. Só se for nos grandes clubes europeus, mas pouquíssimos, contam-se pelos dedos. Como foi o primeiro impacto? Eu já tinha a experiência da Arábia por isso não fui com expectativas altas. Mas acabei por perceber que se conseguisse mudar um bocadinho a mentalidade deles, de fazê-los acreditar mais neles próprios e tornar a equipa mais consistente defensivamente, havia possibilidade de lutarmos por alguma coisa. Acabamos por ser campeões. Um feito enorme. A cidade já não via um campeão há 23 anos. Recebi logo o prémio Magnólia, ou seja, sou um cidadão ilustre de Xangai. Entrei num grupo onde só entram os grandes arquitectos, os grandes engenheiros, os grandes cientistas, médicos. O que o fez ficar tanto tempo na China? Era só por um ano. Só que as coisas correram tão bem e trataram-me tão bem... Na China a questão das hierarquias é levada muito a sério. Quem manda, manda. Não sei qual era o valor do orçamento do clube, mas aquilo era uma coisa do outro mundo. Nem na Arábia. Fui tão bem tratado, com tanto respeito que aceitei renovar mais um ano. Vitor Pereira durante uma conferência enquanto treinador do Fenerbahçe, da Turquia Anadolu Agency Esteve com a família na China? Não, mas tinha tantas viagens que estávamos muitas vezes juntos. No segundo ano ganhamos a Supertaça, perdi o melhor marcador da equipa, que era chinês, foi para o campeonato espanhol. Valeu 30 e tal golos na 1ª época portanto aí já foi um choque tremendo porque não fomos buscar ninguém. No meio da época perco o outro ponta de lança, o brasileiro, para o Guangzhou. E veio o Arnautovic, fora de forma. Acabamos por perder o campeonato, quase a acabar. Por que ficou ainda mais um ano? No final dessa época dei indicações ao meu agente que já chegava, queria seguir o meu objetivo desportivo que é ir para Inglaterra, ou para Itália, Espanha. Um dia, ainda na segunda época da China, ele diz-me para ir a Londres. Vou a Londres, tenho três reuniões com três clubes ingleses. Um, se quisesse podia assinar logo contrato e começava a trabalhar no dia seguinte. Mas como achei que era um risco porque o clube estava a lutar pela manutenção e ia entrar naquela fase em que estava abaixo da linha de água... E acabaram por descer de divisão. Outro, era um grande clube para lutar pela entrada na Liga dos Campeões e o outro este ano também está a lutar a esse nível, pela Liga dos Campeões. Um mandou-me esperar até ao fim de semana para tomar decisões porque iam entrevistar outro treinador; o outro, vou a uma reunião, começam logo a tratar-me como se fosse o treinador, no dia a seguir vou discutir o contrato. Viajo para voltar na semana seguinte para preparar o jogo da Liga. Fico à espera, entretanto há um treinador consagrado que sai de outro lado e eles decidem assinar com esse. Entretanto, nessa semana os chineses sempre a ligar para mim, com uma proposta financeira de outro mundo. Eu a levar com aquela dos ingleses, resolvi que ia ficar mais um ano na China. Mas era de facto o último. Foi um ano difícil por causa da pandemia. Foi um ano muito complicado. Eu quando viajo, viajo com medo, em janeiro. Podia ter ido mais tarde. Mas o meu clube diz que tínhamos de ir logo senão já não entrávamos no país. Eu vou para lá em janeiro porque tínhamos um jogo de pré-eliminatória da Liga dos Campeões para jogar. Fiz três pré-épocas. Como assim? Uma no Dubai, uma na Austrália e outra no Dubai. Andamos a fazer pré-épocas umas atrás das outras. Estivemos quatro ou cinco meses sempre à espera de notícias para começar a liga, mas só a treinar. Nos outros clubes os estrangeiros não viajaram, ficaram nos seus países. Os meus jogadores estrangeiros, na China, sem jogos e a ver os outros cada um no seu país com as suas famílias, foi um desgaste terrível. Eu também sem poder viajar para ver a minha família e vice-versa... Foram 10 meses sem poder ver a família. E depois de já estarmos saturados, começa o campeonato. Em que moldes? Fechados. As equipas todas juntas, nós a trabalharmos aqui e o nosso adversário a trabalhar do outro lado da rua. A filmarmos os treinos de cima e sempre a ver se não viravam a câmara para o nosso lado. Foram quatro meses de liga com os jogos todos seguidos. Ganhamos a 1ª fase e não levamos os pontos para a 2ª. Foi um campeonato decidido e feito em condições muito especiais que me desgastaram imenso. E depois, foi de manhã à noite sempre com jogadores, todos os dias, durante quatro meses. Que episódio foi aquele com Hulk quando o substituiu. O que aconteceu realmente? O que aconteceu realmente é fruto de já estarmos tão saturados. Porque uma coisa é treinar, ir para casa, estar com a família, aliviar a cabeça, jantar fora, etc. Este ano comecei a ver alguns comportamentos que não tinha visto nos anos anteriores. O que é natural porque as pessoas estão saturadas desta coisa de estarmos fechados. Eu conheço o Hulk, ele é bom coração mas muito emocional. O que ele quis dizer quando atira "acabou". Mas não foi só o “acabou”. Se fosse só isso não tinha havido problema nenhum. Para mim foi uma coisa que me ofendeu, que passou para além do que posso admitir. Eu posso admitir algumas reações, é natural, até eu as tenho, agora há outras que não se pode. É um bocadinho fruto da instabilidade emocional em que vivíamos. Mas desejo-lhe muita sorte. Já falaram depois disso? Logo a seguir falamos. Chamei-o para conversarmos. Eu também tenho a minha personalidade. Mas o que fica do Hulk para mim é que é boa pessoa, foi sempre bom profissional, ajudou-me a conquistar títulos, como eu o ajudei a ele. Nós estivemos juntos uns quatro anos. E agora, daqui para frente? Estou numa fase de querer ter a paciência que muitas vezes me faltou e resistir a determinadas propostas. Já tive vários convites nestes meses que estou em casa. Vitor Pereira liderou o TSV 1860 München, em 2016/17 Marcos Borga É verdade que foi sondado pelo Sporting e pelo Benfica? Para esclarecer. Eu quase todos os dias tenho um telefonema de algum agente que me diz que o clube tal está interessado. Já me ligaram agentes, não estou a dizer agora, mas noutras fases, a dizer que o Benfica estava interessado. Quando eu estava na China ainda. O Sporting igual. E eu fui dizendo sempre: "Se tenho contrato com os chineses, como é que vou estar a ouvir outros e sair da China?". Estava desgraçado com o valor da indemnização [risos]. Portanto, nunca cheguei a saber se de facto o interesse era real ou não. Porque não faltam aí agentes que inventam também. Eu não posso dizer que fui abordado pelos presidentes dos clubes ou por alguém próximo deles. Estava a dizer que tem sido abordado. Por que clubes? Mais lá de fora. Cá os clubes estão mais ou menos estáveis. Em Portugal temos muitos treinadores de qualidade para tão poucos clubes. Não acredito que nos próximos tempos volte a trabalhar em Portugal. Sinceramente, não acredito. Acredito muito mais que a minha carreira vai continuar lá fora e espero que desta vez, por isso é que tenho rejeitado muitas coisas, consiga um clube destas ligas europeias de que falei. Já tive algumas sondagens para o Brasil... Falou-se no S. Paulo. É verdade? Houve um período que recebi muitos contactos do S. Paulo e de outros clubes no Brasil. O que é natural por causa do sucesso do Jesus e do Abel. Mas eu nunca deixei que fosse para além disso. Nunca fui a nenhuma reunião, por exemplo, e fui convidado para ir. O futebol brasileiro não o atrai? A minha prioridade é a Europa, ficar perto de casa e estar num bom projeto europeu. Eu fiz um bocadinho ao contrário. Do ponto de vista financeiro eu tenho a minha vida e a dos meus filhos resolvida. Neste momento não vai ser o dinheiro que me vai convencer. O que me vai convencer é o projeto desportivo. E no Brasil os projetos desportivos normalmente são de curta duração. Por acaso aconteceu o sucesso do Jesus e do Abel, mas um projeto é um mês, dois meses e não estou muito inclinado. Não quero dizer que daqui a uns tempos até não esteja disponível, mas neste momento não. Qual é a sua maior ambição? É lutar para ganhar uma Liga dos Campeões e um grande campeonato europeu. A minha ambição é ir para um bom projeto na Europa, numa boa liga, a inglesa, italiana, espanhola, a francesa eventualmente. Eu ainda não fiz o que quero fazer. Eu tenho de ir para o meio dos melhores, provar-me com os melhores e provar a mim próprio que estou ao nível deles. Mas para isso tenho que ter paciência. Eu acho que fui à China para aprender a ter paciência [risos]. O que tem feito? Tenho estudado muito. Estou a analisar, gravo jogos, puxo atrás, volto a analisar, tendências evolutivas, o que está a surgir ali? Penso nas minhas coisas. Rabisco muito. Toda a minha vida. Eu, se estiver com um papel e uma caneta, sinto-me sempre acompanhado. Neste momento há algum treinador que esteja a encher-lhe mais as medidas? Normalmente não são treinadores que me enchem as medidas. São treinadores em determinado projeto. O que posso dizer é o que tenho visto, porque sou muito seletivo no que vejo. Vejo só mesmo aqueles jogos que penso que me trazem alguma coisa. Liga inglesa tenho visto muito. Liga italiana também. Depois o Bayern de Munique, o Leipzig, o Frankfurt, o Dortmund, aquelas equipas da frente da liga alemã; liga espanhola também seleciono os bons jogos, e uma ou outra equipa francesa. Do campeonato português não vê nada? Vejo os jogos grandes. Os clubes da frente. O que acha deste Sporting? É bom para o campeonato português, claramente. Porque andámos a disputar liga atrás de liga entre duas equipas. E o SC Braga também está a atingir um nível e a jogar um jogo com nuances que estou a achar engraçadas. Tenho visto o SC Braga, o Sporting, o Benfica, o FC Porto. No dia da entrevista a Tribuna, em Espinho Fernando Veludo/NFactos E sobre a polémica à volta do Ruben Amorim e das qualificações dele, qual é a sua opinião? Eu uma vez chateei-me com a Associação Nacional de Treinadores, até estive uma data de tempo sem pagar contas. Porquê? Porque inscrevia-me nos cursos e não era aceite e eu não entendia. Como é que me inscrevo no terceiro nível e depois vejo tanta gente a entrar, gente que não tem as habilitações que eu tenho? Quando me inscrevi já tinha treinado uma série de clubes, já tinha sido campeão nacional no FC Porto em juniores, já tinha treinado o SC Espinho, a Sanjoanense, mas não entrava e isso limitava-me. Lembro-me que para ir para o Santa Clara eu já precisava do nível III. Entrei mas tive de fazer aquilo à pressa porque senão ficava fora. Quer dizer, ia deixar de ir para o Santa Clara, que era o meu sonho de ser profissional de futebol, porque ainda não tinha o nível III? Acredito que ao Ruben tenha acontecido o mesmo. As pessoas vão-se inscrevendo, não entram… Em relação ao Ruben consigo ver as duas perspetivas. Consigo colocar-me no lugar da Associação Nacional de Treinadores e dos outros treinadores todos. Não acha estranho tanto alarido agora? Já houve outros casos para trás... Claro, isto é um caso muito mais mediático. Antigamente havia menos treinadores, agora toda a gente quer ser treinador, há inscrições, inscrições, inscrições e depois não se entra. Eu também não acho justo que ele, tendo mostrado competências, não possa abraçar os projetos porque não tem acesso aos cursos. Noutros anos, lembro-me de alguns que estavam a treinar sem habilitações. Mas não quero aqui fazer de árbitro, porque consigo perceber as duas perspetivas, sinceramente. Como reagiu às palavras do Sérgio Conceição sobre aquilo que o Vítor disse do FC Porto? Peguei logo no telefone e liguei-lhe. O Sérgio é muito impulsivo. Eu estava a elogiar o Ruben, elogiei o Jorge Jesus e elogiei-o a ele. Eu não consigo encontrar nenhum campeão que não seja defensivamente consistente. E era isso que eu estava a dizer. Não sei como é que ele inferiu que eu estava a dizer mal dele. O que ele lhe disse no telefonema? "Ó Vítor pá, interpretei de outra forma"; "Então mas se interpretaste de outra forma, antes de ires para uma conferência de imprensa falar sobre o assunto, pegavas no telefone. Nunca nos demos mal, eu sempre elogiei o teu trabalho no FC Porto, nunca dei palpites, nem estou aqui para criticar os clubes, portanto tinhas pegado no telefone e ligavas-me"; "Mas também não disse nada de especial"; "Mas eu não gostei de ver o meu nome ali. Qualquer dia vamos almoçar e pronto, esquecemos isso tudo". Sinceramente não sei que reação foi aquela, mas também não é nada de especial. Vitor Pereira esteve três anos na China, à frente do Shanghai SIPG VCG Partilha da opinião dos que consideram que Jorge Jesus veio diferente do Brasil? Ou realmente a Covid-19 deu cabo dos planos dele no Benfica? Ponto de partida: ele de certeza que é melhor treinador do que foi há uns anos. Jogar contra as equipas dele dá muito trabalho, ele é bom no que faz. Tática e estrategicamente é bom. Portanto, em termos de treino e de jogo, acredito que esteja ainda mais competente. Agora, veio de uma época no Flamengo. As pessoas não conseguem entender muito bem o que é viver com jogos de três em três dias, sistematicamente a tomar decisões. O stress para um treinador é fundamentalmente esse. E isto quando é durante um período longo, com grandes decisões, a jogar aquelas competições todas como ele fez no Flamengo, cria um desgaste tremendo, um desgaste grande. Associado a isto, se em termos de saúde também não estava muito bem. Também penso que houve outra falha, que foi, um criar de expectativas. Porque se pomos as expectativas aqui em cima, é claro que depois estas vão andar sempre atrás de nós, a exigir de nós. Depois, há alguns jogadores novos, que até têm qualidade, mas precisam de perceber a cultura do clube, precisam de perceber o campeonato português, que é um campeonato difícil. Isto tudo junto e a Covid... Eu acredito muito no treino. Os treinadores que são de treino, precisam de treinar para promover certos comportamentos. E se não treinarem, não é só pôr e as coisas surgem. Ele estava com essa dificuldade, numa fase em que ele precisa construir um modelo, pôr em prática a ideia, precisa de treino, é fundamental. O que aconteceu foi um bocadinho disto tudo. Mas agora já se começa a ver o Benfica a melhorar. E o Sporting é muito mérito do Ruben Amorim ou de alguma forma beneficiou deste período pandémico e de não ter adeptos a pressionar? Também, mas não só. É mérito dele e da equipa técnica dele, não há dúvida. Eu disse há dias, e continuo a manter, que o Sporting por estar estes anos todos sem ganhar, cria nos adeptos uma certa ansiedade, que era sistematicamente passada para os jogadores, para a equipa. Isto era claro, logo que a época começava, no primeiro mau resultado começa a crescer à volta do clube uma onda, depois diz-se que no Sporting há muitas divisões, e que é dentro do próprio clube que se criam as divisões e isso de facto sentia-se. O que aconteceu este ano? Teve a sorte de não levar com a ansiedade dos adeptos. Porque estou convencido de que naquela fase em que são eliminados pelos polacos, aquilo já ia ser um 31. O que é certo é que por muito mérito dele e da comunicação dele também o Sporting tem sido uma equipa consistente do ponto de vista defensivo e acaba sempre por marcar. Acho que a estrutura 3x4x3 foi capaz de esconder alguns defeitos iniciais, deu-lhes alguma estabilidade e conseguiu colmatar alguns problemas até pela juventude da equipa e eles foram ganhando confiança. Agora parece que tudo corre bem porque mesmo quando o jogo não está a sair eles acabam por marcar. É a tal estrelinha? Mas a estrelinha de que se fala é de quem está ali e acredita até ao fim. Essa é que é a estrelinha, acreditam até ao fim. Porque se estiver lá à espera a estrelinha não vai aparecer. Eles acreditam até ao fim. Instalou-se aquela dinâmica de vitória, que já não se via no Sporting há anos. Acredita que vão ser campeões ou isto ainda pode dar uma volta? Acredito que vão ser campeões. Pep Guardiola e Vítor Pereira D.R. Qual a derrota que lhe custou mais até hoje e a vitoria mais saborosa? A derrota que me custou mais até hoje foi a com o Santa Clara na Vila da Feira. Porque isso tirou-me um título. Andámos a época toda nos dois primeiros lugares e no último jogo perdemos a subida de divisão. E a vitória mais saborosa? Essa foi a daquele golo do Kelvin [risos]. Do ponto de vista emocional foi uma coisa que me marcou, e acho que marcou muita gente, os portistas nunca mais esqueceram, nem os benfiquistas. Eu também apanho tantos benfiquistas que me dizem “eh pá eu nunca mais vou conseguir esquecer aquilo” [risos]. Aquele dia foi uma explosão para os portistas. Eles dizem-me: “Eu nunca mais senti o que senti ali”. De facto quem lá esteve sentiu, nem sei, acho que a terra a vibrar. Acho que aquilo deve ser parecido com o que as pessoas sentem num tremor de terra. Eu senti ali a terra a vibrar. Quando se vê um treinador adversário cair de joelhos à nossa frente é com se estivesse a espetar a lança no coração? É verdade, foi uma imagem que nunca mais se vai perder, podem passar muitos anos, mas nunca mais se vai perder. Onde é que ganhou mais dinheiro até hoje? Na China. Já investiu? Agora é que estou a começar a investir em qualquer coisa, o dinheiro não pode estar parado [risos]. Não posso inventar muito. Eu não quero muito mais dinheiro do que aquilo que tenho agora. Este dinheiro chega e sobra, eu quero é que os meus filhos saibam que custou muito ao pai e que eles podem de facto, deixar para os filhos deles, se as coisas forem bem feitas. Tem algum hóbi, alguma coisa que goste muito de fazer, além do futebol? Gosto de cinema. Qual o filme da sua vida? A Vida é Bela foi um filme que adorei. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Sou um triste [risos]. Sabe porquê, porque a vida para mim é o mais simples possível. Vou-lhe dizer do que é que eu mais gosto. É ir à Aguda que é uma zona em que os barcos ainda estão na praia, porque me faz sentir em casa. Espinho há 50 anos era assim e, quando lá chego, parece que estou no paraíso. Aqui, não há melhor lugar do mundo do que este. Tem tatuagens? Não. Tive uma tatuagem, que fiz quando tinha 12 anos [risos]. A seitinha. Pegámos nas agulhas, juntámos as agulhas todas, comprámos tinta da China e fizeram-me um "V" no braço. Porque quem não fizesse era maricas, tínhamos de fazer. E eu com 12 aninhos fiz o "V". Só que depois andei não sei quantos anos com vergonha disto. Um dia estava a jogar no Fiães e pedi ao médico "ó doutor tire-me lá isto, eu nem ando de manga curta que eu tenho vergonha desta porcaria". Fez um corte profundo, com aquele spray das lesões, e fiquei com a cicatriz. Foi a única que tive até hoje [risos]. Já sabemos que é um homem de fé. Sou. E superstições tem ou teve? Não, não ligo muito a isso. Pratica ou praticou algum outro desporto para além do futebol? Eu praticava tudo. Fui federado em voleibol, era distribuidor, era pequenito, mas eu gostava, era criativo e eu gosto de ser um técnico criativo. Fui federado em andebol também e tenho jeito para os desportos quase todos. E hoje pratica algum desporto? Ando de bicicleta. Hoje ando de bicicleta, já não me posso juntar muito com os amigos para jogar futebol porque fico aflito das articulações, tive muitas lesões. Qual foi a pior lesão que teve? Tive tantas, só não tive aquela da rotura dos cruzados e do tendão de Aquiles, graças a Deus. Mas tive uma tendinopatia, tive menisco, tive colateral interno, tive arrancamento do tendão, sei lá. Agora ando aqui com a anca meia... De coluna foram várias. Há pouco tempo, na China, parti um braço, ando a fazer fisioterapia. Partiu o braço como? Escorreguei, caí, bati no chão e fraturei o cotovelo. Estive dois meses de gesso e agora para ter isto em condições outra vez, não está fácil. Alcunha, tem ou teve? Era o Tá, chamavam-me "Tá" porque o meu irmão, o Nuno, quando era pequenino, não conseguia dizer Vítor e dizia Tá. Um dia, um dos da seitinha ouviu aquilo e ficou. Os meus amigos aqui de Espinho, para eles eu sou o "Tá". Tuck: Parte 1 Spoiler Expresso Tribuna Blitz Boa Cama Boa Mesa Emprego Imobiliário O Mirante “Na Arábia, entrei no banco com a minha mulher e filha e ouviu-se logo uma voz: ‘Ladies, out’. Elas tinham de entrar pelas traseiras” João Carlos Gonçalves herdou a alcunha do irmão, Tuck, e fez carreira como médio, até aos 35 anos, em apenas dois clubes: Gil Vicente e Belenenses. Tornou-se treinador logo de seguida e ainda não conseguiu vingar na liga maior do futebol português, mas já teve uma experiência das Arábias, na equipa técnica liderada por Jorge Jesus, no Al-Hilal. Voluntário da Refood há três anos, Tuck revela que o seu talento escondido não tem nada a ver com futebol: é fazer bem limpezas Alexandra Simões de Abreu 03.04.2021 às 8h00 Ana Baiao Nasceu em Barcelos. Quem são os seus pais? Os meus pais são os dois professores primários, reformados naturalmente. Conheceram-se no magistério primário, em Braga. O meu pai é de Trás-os-Montes, a minha mãe de Barcelos. Eu sou o terceiro de quatro filhos. O meu irmão mais velho é radiologista, a minha segunda irmã é contabilista e o mais novo é agente de seguros. É uma família de classe média de pessoas respeitadoras e muito amigos uns dos outros. Era um puto calminho? Era muito tranquilo. Gostava da escola, mas a partir dos 17, 18 anos comecei a embicar, por causa do futebol. Quando era pequeno torcia por que clube? É normal que goste muito do Gil Vicente porque fui habituado a ir de mão dada ao Gil. O meu pai sempre teve uma afinidade, que já vinha do meu avô, pelo FC Porto, mas nada de doentio. Depois, quando te tornas profissional, a parte emocional começa a deixar-nos um bocadinho. Quem eram os seus ídolos? Como gosto muito de brincar e de me divertir, curiosamente gostava muito do Herman José. Lembro-me de, mesmo pequenino, gostar da forma de humor dele. Não é humor negro, é um humor sarcástico. Gosto de brincar com tudo, inclusive com a morte e com situações menos normais. Em termos de jogadores, sempre gostei muito do Redondo, do argentino que jogava na mesma posição do que eu, e mais tarde, já com outra idade, do Guardiola. São jogadores da minha posição. O futebol começou na rua? Sim, naturalmente. Passava o dia a tirar pedras e a pôr pedras para os carros passarem [risos]. Quando é que se torna um bocadinho mais sério? Em termos oficiais, não havia competições antes dos 12 anos, nos escalões normais. No meu tempo era: dos 12 aos 14 anos os iniciados, dos 14 aos 16 anos os juvenis e dos 16 aos 18 anos os juniores. Mas como o meu irmão também lá estava, e o Gil tinha começado a ter escolas de animação, quem quisesse ia. E eu, embora fizesse natação também no Gil, porque os meus pais sempre nos incentivaram a aprender a nadar, com oito anos comecei a ir de vez em quando aos treinos do Gil. Entre os oito e os 12 anos fui um dos selecionados para ir ficando e a partir dos 12 anos comecei a jogar federado. Já na posição de médio? Sim, embora tenha trabalhado como médio ofensivo e depois médio defensivo. Não só pelas características, na altura se calhar tecnicamente seria dos jogadores mais evoluídos e os treinadores punham-me nessa posição. Com o decorrer da minha vida profissional, em função das minhas características fui passando para médio defensivo. Em bebé D.R. Fez toda a formação no Gil Vicente? Sim, vim aos 28 anos para o Belenenses, só estive um ano emprestado ao Grupo Desportivo do Prado. No meu primeiro ano de sénior, já tinha contrato com o Gil, mas na altura achei que era importante rodar, por duas razões: primeira, porque efetivamente o Gil tinha uma equipa muito forte, apostou para subir de divisão, da antiga II B, que não havia liga de honra. O Gil tinha feito nesse ano um acordo com uma equipa da distrital, onde ia colocar seis ou sete jogadores, mais os jogadores dessa equipa distrital e eu achei, com todo o respeito, que o distrital era descer duas divisões e pedi para ser emprestado. Nessa altura, o treinador era o professor Fernando, que tinha sido treinador do meu irmão mais velho e é amigo do meu pai, e eu perguntei-lhe se não precisava de um médio e fui emprestado. O seu nome é João Carlos, mas quando entra no Gil Vicente já vai com a alcunha de Tuck. Sim. De onde é que surgiu essa alcunha? As informações que tenho são dos amigos do meu irmão, porque nem o meu irmão sabe bem como é que aconteceu. O meu irmão mais velho que tem uma diferença de idade de seis anos e essa alcunha era dele, mas depois acabou por passar para mim. Mas como é que ele ganhou essa alcunha? Aquilo que me disseram é que foi por brincar aos cowboys, o meu irmão ao disparar em vez de fazer 'pum pum', dizia 'tuck tuck'. A partir daí foi ficando. Então estreia-se como sénior no GD Prado? É verdade. Tinha 18 anos, ia fazer 19 poucos dias depois. Tuck é o terceiro de quatro irmãos D.R. Como é que estava a escola nessa altura? Estava no 11º e foi ficando por aí. Comecei a facilitar um bocado, queria ser profissional de futebol e dedicar-me a isso. Já havia namoros e saídas à noite? Das saídas à noite nunca gostei muito. Sempre gostei de me juntar com casais amigos e beber uns copos, mas nunca gostei de discotecas. Vivi numa fase em que se podia fazer tudo na discoteca, como fumar, e eu não me dou muito bem com o fumo. E depois, a partir da uma da manhã, o que é que andamos a fazer na noite, em vez de estarmos no aconchego do lar? Mas isso sou eu, é a minha forma de ser. Agora, em relação ao namoro, já brincava. Curiosamente, nessa altura do Prado, pouco antes de subir a sénior, comecei a namorar com a minha atual mulher. Como a conheceu? Eu e a Isabel éramos praticamente vizinhos. Ela tem mais quatro anos do que eu, e quando eu tinha 10 anos e ela 14 já lhe mandava bilhetinhos. Inclusive a minha mãe pouco antes de casarmos entregou-nos um bilhete que a minha professora apanhou [risos]. Estreia-se como sénior no Gil Vicente pela mão de Rodolfo Reis. Sim. Como foi regressar ao Gil Vicente, notou muita diferença para o GD Prado? Sim, a intensidade e qualidade dos jogadores é completamente diferente, embora no ano do Prado tenha feito treinos com a equipa, mas o Mário Reis não conseguiu subir o Gil, subiu depois com o Rodolfo. E há uma situação curiosa, o Famalicão tinha subido de divisão no ano em que fui para o Prado, só que por uma situação administrativa desceu e teve de ir para a III divisão, ou seja acabou por descer duas divisões e nós, o GD Prado, tivemos alguns jogos contra o Famalicão. Aparentemente o Rodolfo gostou de alguma coisa que viu e quando foi saber dos jogadores que estavam emprestados ou que pertenciam ao Gil, deram-lhe a informação de que eu pertencia ao clube. Modéstia à parte, fiz um campeonato interessante no Prado, e o Rodolfo insistiu que eu ficasse. Estreei-me no campeonato, nos jogos de apuramento de campeão, mas oficialmente não aparece. Eu estava no plantel, eu e mais dois ou três colegas meus. Eram quatros jogos de apuramento de campeão e eu fiz três jogos. E que tal era o Rodolfo Reis como treinador? O Rodolfo era uma pessoa boa, mas naquela altura a forma de treinar era dura. Os métodos de treino eram praticamente consensuais. Treino sem bola a maior parte do tempo, não era? Sim, muito treino sem bola, muita dureza, muita carga física e depois um treinador extremamente exigente com todos e qualquer situação menos positiva. As relações, a forma de olhar era muito mais para o jogador do que para o homem, coisa que agora se inverteu. Tuck (à esquerda de camisa e calções) com os pais e os irmãos D.R. Subiram de divisão. Houve grandes alterações na equipa? Houve algumas alterações boas e eu estreei-me nos últimos seis jogos do campeonato, o primeiro jogo foi em casa, com o Famalicão. Naquela altura os estádios estavam praticamente lotados e o velhinho Adelino Ribeiro Novo, numa fase em que estávamos a disputar a manutenção e o Famalicão também, estava cheio. Foi um jogo de adrenalina grande porque ansiava jogar na I divisão. Foi uma ansiedade grande e uma emoção enorme depois do apito inicial. Tremeram-lhe as pernas antes de entrar? No decorrer do jogo essa ansiedade vai desaparecendo, mas, antes do jogo, suou-me um bocadinho as mãos e acho que mesmo agora, enquanto treinador, se não suar um bocadinho as mãos falta paixão do jogo e acho que é importante. Destas duas épocas com o Rodolfo Reis há algum momento mais marcante? Lembro-me de uma história com o Chico Nelo, que tinha uma relação de amor-ódio com o Rodolfo. Eles já se conheciam dos juniores do FC Porto e o Chico era muito terra a terra, era um rapaz das Caxinas e era um bocadinho naif. Logo que souberam que ele ia dar uma entrevista, no ano da subida, o pessoal começou "Eh pá, temos que estar atentos à entrevista do Chico". Como era na rádio Barcelos onde às vezes estava sintonizado ouvi e o Chico falou que gostava de jogar vagabundo e não sei o quê, e depois perguntaram-lhe: "Ó Chico, desculpe lá, acha que o Gil Vicente tem condições para subir de divisão?" E ele respondeu: "Tem. Então, tem campo, tem bolas, tem equipamentos, tem todas as condições para subir de divisão" [risos]. Gravaram a entrevista e puseram a dar no balneário. O Chico que é uma pessoa excecional, aceitou na boa, lá está, por ser muito terra a terra, aceitou. Lembrei-me de outra com ele [risos]. Conte. Num jogo, já não sei se foi na I ou na II divisão, o Rodolfo queria fazer uma estratégia com ele, mas o Chico não gostava muito de jogar no corredor, ele era um canhoto que sentia-se muito mais confortável a jogar por dentro e o Rodolfo, num jogo-treino, a meio da semana, disse-lhe: "Preciso que vás jogar na linha e que depois faças movimentos para dentro, que é para arrastares o lateral deles e o Cabral passar (o Cabral era o nosso lateral esquerdo)". O Chico não fez movimento nenhum, fez 45 minutos em cima da linha [risos]. Mas é que fez mesmo, para trás e para a frente sempre em cima da linha. Esse jogo-treino foi no Andorinhas, que ficava a uns três ou quatro quilómetros do Gil, acabámos o jogo e depois íamos de autocarro, mas o Rodolfo no sítio dele, no primeiro banco, quando o Chico vai para entrar: "Vais a pé por aí acima. Podes continuar a correr" [risos]. Então era ele de chuteiras, a correr no alcatrão por ali acima. No dia da entrevista a Tribuna Ana Baiao A época seguinte é com António Oliveira. Um estilo muito diferente do Rodolfo Reis? Sim, muito mais, não digo humano, mas mais de relações e menos a olhar para a equipa em termos de homem a homem, mas mais de zona. O Rodolfo era mais: "Tu tens que agarrar aquele homem, nem que vá para a cabine, tens de ir atrás dele". O Oliveira era mais próximo de nós, uma relação muito próxima dos jogadores e um bocadinho mais de organização de zona da equipa. Fizemos uma boa época. Mas ele sai, vai para a seleção ou para o FC Porto, e vem o Vítor Oliveira, o meu mentor da gestão do grupo. O que quer dizer com isso? Tenho umas saudades dele enormes, ainda me emociono um bocadinho porque foram quatro anos e meio com ele. Não são quatro dias, foram anos, e continuamos a privar. Três ou quatros dias antes de ele falecer, combinámos um almoço para dois ou três dias depois de ele ter falecido. O Vítor era uma pessoa ainda mais próxima dos jogadores. A minha forma de liderança no balneário é um bocadinho a ideia dele, que é, uma exigência sempre grande, mas com proximidade dos jogadores, sem esquecer aquela linhazinha de distanciamento. Fizemos três épocas boas com ele. Com dificuldades, uma ou outra em que estivemos mesmo quase até à última para nos mantermos, mas sempre com um espírito de equipa muito forte e ele era claramente um senhor. Um homem com "H" grande. Tinha alguma característica que fosse muito própria? Era um contador de histórias. Ele queria era rir. Era supersticioso ou tinha alguns rituais de balneário? Não. Mais supersticioso se calhar era o António Oliveira. Corria mal um jogo, depois de uma derrota mudava o tipo de treino ou o hotel ou a refeição no estágio, coisas desse género. Não, o Vítor era um contador de histórias e procurava sempre animar toda a gente. Ele às vezes fazia uma coisa [risos]. Nós jogadores temos o hábito de, quando vemos uma bola, parece que temos um íman e temos de chutar. Havia a caixinha das multas e uma das regras era, acabava o treino e era sagrado parar, para depois o roupeiro ou os treinadores não andarem à procura das bolas. E o Vítor punha sempre duas ou três bolas à nossa volta, mandava mesmo bolas às vezes para o nosso meio, e quem estivesse distraído, pumba, dois euros [risos]. Ele criava este tipo de situações de propósito. No dia do casamento D.R. Quando foi pai pela primeira vez? Tenho um filho de 25 anos, o João e uma menina, a Inês, com 22. Entretanto o Vitor Oliveira sai e vem o Bernardino Pedroto. Sim, o Bernardino arriscou. Eu louvo a qualidade humana da máxima liberdade, máxima responsabilidade, mas há alguns jogadores que não a sabem utilizar. Não sabem a grandeza humana da pessoa que têm à frente e aproveitam, ou tentam forçar para ver até onde vai a liderança do treinador. Mas o Bernardino, em termos táticos, uma pessoa muito dedicada, muito interessada e com quem gostei muito de trabalhar. Mas descem. Isso foi no segundo ano dele, ele começou a meio e depois veio o Festas. No primeiro ano do Bernardino tivemos uma época boa, houve jogadores que saíram para boas equipas, outros que tiveram propostas mas que, como o Gil não abdicou de uma verba boa, não conseguiram sair. A partir daí criou-se algum, não é atrito, mas algumas situações em que a tal liderança de máxima liberdade, máxima responsabilidade, foi perdendo influência. Embora nós, os capitães, tentássemos fazer ver a alguns jogadores que não estavam a agir bem, havia alguma irreverência. O Festas quis mudar algumas situações, uma delas achei curiosa, passou o treino de recuperação à segunda-feira, para as sete da manhã, se calhar para que nenhum de nós tivesse a tentação de ir para a noite. Mas infelizmente ele já apanhou a equipa numa fase menos positiva. Vem o Henrique Nunes para a temporada a seguir? Vem o Henrique Nunes e terminou com o Diamantino. Não conseguimos subir por um ponto ou dois. Em condições normais subíamos. O que aconteceu é que o Alverca era satélite do Benfica, a dois ou três meses do fim, como sentiu que podia subir de divisão, terminou o vínculo para depois ser dado como confirmado na I liga. Na altura os clubes satélites não podiam subir de divisão ou pelo menos encontrarem-se na mesma divisão, podiam subir mas desde que não colidisse com a equipa mãe, digamos assim. Terminaram o vínculo a dois ou três meses do fim e nós não conseguimos materializar a subida de divisão. E o Tuck também vai embora. Sim. Tinha empresário? Nunca tive. Porque se nós nos entregamos a um empresário, ele enquanto tiver contrato, se calhar não vai fazer aquilo que deve. Agora, eu posso assinar contrato com algum deles, se eles me pagarem. Se, quando acabar o contrato, eles continuarem a pagar-me, se calhar vão fazer mais pela vida. Eu tinha colegas meus que assinavam com grandes empresários e diziam, por exemplo, “sou jogador do Jorge Mendes”, mas ele nunca lhes ligava. Cheguei a dizer a um colega, se tu assinares dois anos e não obrigares o empresário a que te dê mais dinheiro do que os 2.500 euros que recebes, não vais ter vantagem nenhuma, só se um clube te quiser e aí vai ser o empresário a negociar por ti, não és tu a obrigá-lo a negociar. Agora se ele tiver de te pagar, vai andar a fazer pela tua vida. Mas estava eu a dizer, não tinha empresário, não. Tuck fez toda a formação no Gil Vicente e só saiu do clube em 1998 D.R. Como é que vai parar ao Belenenses? O mundo é pequenino. O Luís Campos tinha trabalhado ou dava-se muito bem com o Manuel Cajuda e o Cajuda foi para o Belenenses e infelizmente o Belenenses desceu de divisão, no ano em que nós, no Gil, não conseguimos subir. E o Vital que jogava comigo no Gil, costumava encontrar-se muitas vezes com o Luís Campos. Naquelas conversas de café, estava a falar com o Luís Campos e disse-lhe: "Olha, um gajo que quer sair do Gil e que gostava de experimentar outras situações, é o Tuck. Gosta muito de Barcelos, gosta muito do clube, tem uma proposta de renovação mas está a estudar outras situações.". O Luís Campos falou com o Cajuda e pronto, ligaram para mim, do Belenenses. Aceitou de pronto? Aceitei. Tinha uma outra proposta, não vou negar, da I liga. De que clube? O U. Leiria fez-me uma abordagem. Mas as pessoas do Belenenses foram muito francas com o projeto que queriam, que era subir de divisão e depois estabilizar o clube no meio da tabela para cima. Isso, além da envolvência do clube, chamou-me. Fiz uma aposta que me agradou. Veio de armas e bagagens para Lisboa com a mulher e com o filho? Com a mulher, com o filho e com a pequenina no ventre. A sua mulher trabalhava? Nessa altura já não trabalhava. O parto do meu filho foi um parto pré-termo, ele passou algumas agruras no início da vida dele. Nasceu prematuro, pequenino, tinha dificuldades em mamar, o leite da minha mulher secou, ele perdeu peso, quiseram voltar a interná-lo, teve icterícia... Mas felizmente, entre os seis e os oito meses, voltou ao normal, só que entendemos que era necessário a minha mulher estar muito próxima dele e eu com uma exigência profissional tão grande, ela deixou de trabalhar. Era assistente dentária. A adaptação à capital foi fácil? Nos primeiros dois anos, fomos viver para a Parede, porque gostamos muito da zona. O menos fácil de lidar foi o trânsito. Eu adoro Barcelos mas gosto muito de Lisboa, acho que é uma cidade lindíssima, bonita para se passear, bonita para se visitar, mas o trânsito.... Era uma hora na marginal para ir para o treino. O que vale é que esta estrada da marginal é um quadro, é uma fotografia lindíssima, principalmente com raios de sol. Diminui o impacto do trânsito, mas foi claramente o menos fácil. Depois viemos morar para Carnaxide, onde ainda vivemos. Os filhos de Tuck, Inês e João D.R. Como foi o primeiro embate no Belenenses, muito diferente daquilo a que vinha habituado no Gil Vicente? É a exigência ainda maior de um clube que tem uma implantação muito mais vasta que o Gil Vicente. Só depois de vir para cá e de começar a jogar aqui é que comecei a perceber quantos Belenenses é que tinha em Barcelos, por exemplo. Havia pessoas que eu conhecia mas que não sabia que eram do Belenenses. Nunca mais me esqueço do nosso primeiro jogo. Já tinha relatos de que na outra época em que o Belenenses já tinha estado na II liga, arrastava ainda mais gente do que na I Liga, principalmente nos jogos fora, porque as pessoas unem-se mais na dificuldade. O primeiro jogo foi no Jamor por causa dos concertos no Restelo, que deixaram a relva em mau estado, e lembro-me de sair do aquecimento e já estava o estádio composto, mas quando voltamos (até me estou a arrepiar) para entrar no jogo, estava uma faixa da Fúria Azul a dizer "sentido obrigatório" e todas as pessoas que estavam naquela bancada tinha um placa com a seta do sentido obrigatório para cima. Foi um grande impacto. E o Manuel Cajuda? Dele deve ter muitas histórias para contar. Tenho uma do Murça, adjunto do Cajuda, que é engraçado e gosta de pensar que é o mais giro do mundo. O Cajuda uma altura para nos pôr a rir e desanuviar o ambiente começou a dizer: "Temos aqui um modelo na cabine, mas vou dizer-vos, eu concordo com vocês, a equipa técnica é das mais feias do futebol português, principalmente por causa do Murça. Aquilo caiu que nem uma bomba ao Murça [risos]. O Cajuda foi um treinador se calhar do mais próximo que tive, até em termos destas brincadeiras. E com as filosofias dele, ele tem aquelas tiradas filosóficas. Uma vez, vínhamos de um ou dois jogos que correram menos bem, ele estava chateado connosco e fomos para o Estádio Nacional, para treinar, mas a palestra demorou tanto que alguns jogadores já estavam com cãibras. Ele dizia: “Os jornalistas e os dirigentes pensam que vocês vieram levar uma coça, mas afinal viemos conversar”. Tuck jogou no Belenenses de 1998 até final da carreira de jogador, em 2005 D.R. Mas ele não termina e reencontra Vitor Oliveira. É verdade, veio o Vitor Oliveira, com quem subimos de divisão. Uma parte do feito veio do Cajuda, claro. Tenho uma história do Vitor Oliveira engraçada. Força. Antes dele vir, eu estava no obstetra, no Porto. Tínhamos jogado na Feira e íamos ter treino na segunda-feira, mas como a minha mulher estava no final do tempo da minha filha Inês, eu tinha pedido para ficar a acompanhá-la. E nisso o Cajuda foi impecável, só tenho de agradecer-lhe porque muitas vezes deixou-me ficar lá em cima. A minha mulher a partir do quinto/sexto mês ficou em Barcelos, para que se houvesse alguma situação, estava perto da família. Eu normalmente acabava o treino à segunda-feira e ia para cima. Ia lá todas as semanas. E muitas vezes o Cajuda libertou-me dos treinos à segunda-feira e agradeço-lhe por isso. Mas voltando à história, essa segunda-feira de manhã ligam-me a dizer que o Cajuda tinha chegado a acordo para ir embora. À tarde, estava eu na consulta e liga-me o Vítor Oliveira, que estava a caminho de Coimbra para falar com os dirigentes do Belenenses. E vira-se: "Olha lá, tu mandas treinadores embora?"; "Mas porquê?"; "Então, és expulso no jogo, mandaste o treinador embora, não conseguiram ganhar" [risos]. Eu fui expulso quase no fim, ele estava a brincar. Ligou-lhe só para dizer isso? Não. O que ele me pediu não foi informação nenhuma do grupo, porque ele é excecional, não gosta de chibarias; ele só me perguntou como era das casas, dos prémios, se estavam metidos no contrato ou não, só esse tipo de informações para ele negociar. Era impecável. Fez-me uma que nunca mais me esqueço também. Conte lá. Foi curiosamente no dia de nascimento da minha filha, ela nasceu na madrugada de uma quinta-feira, mas às nove e tal da noite de quarta rebentam as águas à minha mulher e ela liga-me a avisar. Eu preparei-me logo para fazer-me ao caminho para cima, mas telefonei ao Vitor Oliveira. E ele pergunta assim: "Quando vai nascer?"; "Não sei, de madrugada"; "E tu vais fazer o parto?"; "Claro que não, mas quero ir ter com ela"; "Mas olha lá, pensa bem, não é melhor fazeres o treino (o treino de quinta-feria era um dos mais importantes) e no sábado, que já te dou a dar uma borla, já te estou a dizer que vais ser convocado, vais ter ao hotel (íamos jogar a Paços de Ferreira)? Vais lá ter no sábado à tarde, assim ainda tens a quinta à noite, a sexta toda e o sábado quase todo para estar com elas". Eu não tive cabeça para dormir naquela noite, mas a verdade é que ele pensou bem, porque deu-me dois dias. Aquele treino era importante para ele, mas em termos práticos se eu fosse para cima na quarta à noite e depois viesse para treinar na sexta, se calhar perdia mais tempo. Ele teve um excelente sentido profissional e humano ao mesmo tempo. Como foi essa época na I liga? Foi um campeonato estável. No dia da entrevista a Tribuna Ana Baiao Tinha na equipa o Pedro Estrela e, ao que sei, há imensas histórias para contar dele. Do Pedro Estrela tenho muita história. Mas tenho uma, que só quem o conhecer é que interpreta de forma tranquila o que ele disse. O Vitor Oliveira tentava que toda a gente tivesse os dias de folga no mesmo momento, os que jogavam e os que não eram convocados. Então o que fazia? Um ou dois elementos da equipa técnica vinham mais cedo, quando estávamos em estágio, para dar o treino aos não convocados de forma a eles estarem despachados quando estivéssemos a chegar para o jogo. Normalmente nem encontrávamos os jogadores que não jogavam. E o Pedro foi um deles. Chegamos do estágio e ele ainda lá estava, sem tomar banho nem nada, porque o Pedro era assim, relaxado, tranquilo. Eu devo ter ido à casa de banho ou qualquer coisa e fiquei sozinho com ele no balneário e vou a passar por ele, e ele vira-se para mim, a pensar que eu não era dos convocados e diz: “Dragon Ball, vou-te dizer uma coisa, o futebol está todo ao contrário"; "Mas porquê Pedro?"; "Não estás a ver? O artista aqui sentado e os pernas de pau é que vão jogar, pá" [risos]. Ele nem se lembrou que eu jogava. Porque é que o chamava de Dragon Ball? Por causa do meu cabelo na altura [risos]. Mas para perceberem como era o Pedro Estrela, um dia ele estava na marginal com a namorada, no carro descapotável dele... Eles tinham um cão dálmata. Pararam num semáforo, o Pedro olha pelo espelho e diz para ela na maior das tranquilidades: “Está ali um cão na estrada que parece o nosso”. Ela quando olha para trás, era mesmo o cão deles que tinha saltado do carro enquanto estavam parados e estava a passear no meio da marginal [risos]. Mas o Pedro sempre tranquilo, nem sequer olhou para trás [risos]. Uma vez, fomos jogar aos Açores, onde estava o Manuel Fernandes, que já tinha tentado contratar o Pedro Estrela, mas o Vítor Oliveira não deixou. No saco do equipamento havia apenas uma camisola porque era o roupeiro quem tinha as outras, caso fosse preciso substituir. Mas o Pedro quando abriu o saco e viu que só tinha uma camisola começou logo: “ Isto é coisa do Manuel, mandou roubar no aeroporto, é para o artista não jogar" [risos]. Mas ele dizia aquilo confiante, acreditava naquilo. Há tantas dele… Mais uma então para fecharmos este capítulo do Pedro Estrela. Uma vez, nós já tínhamos feito mais de 20 jogos quando o Pedro começou a jogar. Ao fim de três ou quatro jogos que ele tinha feito, há um dia em que entro no balneário não o vi. Perguntei por ele e disseram-me "ele está no posto médico, vai lá vê-lo que ele está "morto"". Ele fisicamente era robusto. Cheguei lá, estava ele na marquesa a bufar e eu: "Pedro, o que é que se passa?"; "Dragon Ball, stress competitivo" [risos] Nós já com 20 e tal jogos nas pernas e ele jogou três seguidos e dizia que tinha stress competitivo [risos]. Era um puro. Tuck atirado ao ar pelos jogadores do Sacavenense, nos festejos da subida de divisão em 2016/17 D.R. Tem dois anos com Marinho Peres no Belenenses. Enquanto o Vitor era o gestor de grupo, o Marinho é o verdadeiro gestor do plantel porque sabe levar. Bonacheirão, queria jantares, e às vezes convidava os dirigentes para ver se pagavam o jantar em vez de ser a caixinha das multas, que era para fazer outro jantar [risos]. Mas sabia gerir em função da qualidade humana e tática de alguns jogadores, sabia dar responsabilidade e autonomia para que tomássemos algumas decisões no bom sentido do grupo de trabalho. Dava essa liberdade para gerirmos taticamente, fazermos uma ou outra correção posicional. Era amigo dos jogadores. Também há histórias com ele. É sempre bom ouvi-las. Força. Uma vez íamos ter um jogo nas Antas, numa sexta-feira. Ele já tinha autorizado dois dias de folga e acho que lhe pedi mais um ou dois dias, porque precisava de tratar de umas coisas na segunda-feira, em Barcelos. Mas antes desse jogo, jogamos com o Beira-Mar e levamos um grande amasso, perdemos 5-1. O Fary saiu, e bem, ovacionado depois de fazer quatro golos. Devia ser mais vezes assim, mas infelizmente em Portugal temos o síndrome da clubite e não da desportivite. Mas, levar 5-1 em casa, upa, upa. Vamos para as Antas a seguir e não sei se lhe começou a bater, mas a verdade é que pouco antes do lanche pré-competitivo o Marinho perguntou-me com aquele jeito brasileiro "Pô, garoto, você tem de ficar cá em cima, né?"; "É. já falamos"; "Pô, garoto, não sei se pode ser não. Se a gente perde e leva outra abada eu não sei como é que consigo dizer aos dirigentes que a gente não vai treinar amanhã ou depois"; "Ó mister, por favor, já combinei as coisas e tenho de tratar de uns assuntos e acho que os resultados não devem influenciar o nosso processo. Mas, estou aqui para respeitar"; "No fim do jogo a gente fala". Fomos ganhar 2-1 e ele no fim queria dar-me mais dias de folga. E eu "Pó, c...., agora sou eu que não quero" [risos]. Tuck orientou o Camacha em 2017 D.R. A época seguinte começa com Marinho mas depois chega Manuel José. Como foi? Tivemos alguns altos e baixos. A gestão de expectativas foi alta e ficamos praticamente até ao fim a lutar para nos mantermos e conseguimos, com uma liderança diferente. O Manuel José extremamente exigente comparativamente com o Marinho na forma de gestão, no relacionamento, bom, mas muito menos próximo. Gostava de brincar mas não tanto como o Marinho. Um modelo de treino um bocadinho diferente, uma estrutura tática também diferente. Mas felizmente conseguiu implementar as suas ideias. Manuel José sai para Arábia e vem Bogicevic. Esteve pouco tempo, acho que não se adaptou. Estava na MLS, tinha outra forma de abordar o treino e a liderança, claramente a comunicação não conseguiu chegar com facilidade a todos nós e os resultados não ajudaram. Depois veio o Inácio. O que pode dizer dele? [Longo silêncio] Em função das expectativas de um campeão nacional, de um treinador que no V. Guimarães tinha feito um trabalho brilhante, infelizmente não conseguimos materializar a qualidade de jogo. Ficamos assim. Estava com 34 anos e faz a sua última época com Carlos Carvalhal. Com que opinião ficou dele? Eu já o conhecia pessoalmente de algumas tertúlias em Braga, em que conversamos sobre futebol. Acho que é uma pessoa extremamente inteligente e confirmei que taticamente e nos métodos de treino é excecional. Foi dos treinadores que mais me marcaram em termos táticos e técnicos de treino. Ele e a equipa técnica, onde estava o Miguel Cardoso. Não me admira a ascensão e o sucesso que tem tido. Nessa altura já tinha um jovem na equipa que hoje também está a dar cartas como treinador, o Rúben Amorim. Claramente um miúdo que se eu tivesse de dizer se seria um potencial treinador, se calhar não, mas daquilo que é ao nível de balneário, sempre foi agregador, muito divertido, muito amigo do seu amigo, muito sincero, competitivo, e tenho de lhe dar os parabéns pelo trajeto que tem tido. Tuck integrou a estrutura técnica que Jorge Jesus levou para o Al Hilal, da Arábia Saudita D.R. Desses anos todos do Belenenses o que mais o marcou? Há vários momentos. Mas as duas coisas que me marcaram foram o primeiro jogo, aquele tal impacto, com o Paços de Ferreira, e a outra foi a homenagem que a claque do Belenenses me fez. Eles exibiram uma faixa já depois de eu ter deixado de jogar e puseram as costas da minha camisola com o meu nome e a braçadeira, que dizia “Eterno capitão”. Ofereceram-me recentemente a faixa no jogo do centenário com o Real Madrid. Esteve muito tempo no estádio e agora no centenário a Fúria Azul veio ao relvado oferecer-me. É o Tuck que decide que está na hora de pendurar as chuteiras ou aconteceu por força de alguma lesão? Foi o projeto que o Belenenses me apresentou, o Carvalhal, o Rui Casaca e o engenheiro Barros Rodrigues, de projetar um clube a médio e longo prazo, a todos os títulos top. Propuseram-me coordenar o gabinete de prospeção e estive nessas funções durante um ano. Integrar a estrutura técnica, próximo da equipa técnica em que o objetivo era criar uma e se possível duas equipas sombra em função dos jogadores que tínhamos. Mas custou-lhe pendurar as chuteiras ou não? Custou muito. Muito. E esta proposta que me fizeram foi nesse ano em que estive com o Carvalhal. Fizeram a proposta logo em janeiro ou fevereiro, portanto tive quase quatro meses para decidir. Mas no dia do jogo com o V. Setúbal em que efetivamente me despedi... Não vou dizer que me arrependi, até porque depois tive propostas para voltar a jogar passado uma semana ou duas... Mas não voltei, porque só tenho uma palavra. Embora não tenha nada contra quem volta porque isto é mesmo um bichinho que parece que se está a injetar todos os dias. Mas custou-me. Quando fui à conferência de imprensa após o jogo, acho que nem acabei a conferência tal era já a minha nostalgia. Quando lhe fizeram a proposta em janeiro, já tinha pensado alguma vez no pós final da carreira? Não. Porque eu tinha mais um ano de contrato. Só que o Belenenses foi tão excecional para mim que não mexeram em nada em termos financeiros. Quiseram aproveitar as minhas capacidades humanas e profissionais numa outra função. Teve essa função um ano. Porque não continuou? Porque entretanto o Belenenses nesse ano começa com o Carvalhal, termina com o Couceiro, desce de divisão e acontece o caso Mateus. E o presidente Cabral Ferreira, que infelizmente já faleceu, foi buscar o Jorge Jesus. A proposta seria o Jesus subir de divisão, mas o Belenenses sobe rapidamente porque ganha o caso Mateus. E o Belenenses precisava, na opinião do Cabral Ferreira e do Jesus, de uma pessoa próxima dos jogadores e próxima dele também e escolheram-me para secretário técnico. Tuck (de azul) a correr com os jogadores do Al Hilal durante um treino D.R. Que tal o Jorge Jesus? É uma pessoa com quem tens de trabalhar a 200% e 36 horas por dia. Ele é claramente uma pessoa focada na qualidade do treino e de tudo o que envolve a equipa. Nada pode falhar. O trabalho dele é sempre de excelência. Não é por acaso o sucesso que tem tido. Tem alguma história com ele? Uma das que tenho foi um célebre jogo Benfica-Académica, em que estávamos em estágio e eu achava-o claramente competente para outros voos que não o Belenenses; apesar do Belenenses estar com uma equipa boa, porque nas duas épocas com o Jesus o Belenenses foi à final da Taça e ficou em 5º lugar; e no ano seguinte ficamos em 6º porque perdemos aquele três pontos do Meyong. Nesse 2º ano, o Benfica perdeu 3-0 com a Académica em casa. E conforme iam entrando os golos, estávamos a ver o jogo, eu dizia-lhe e ao adjunto: "Mister, preparem-se que vocês têm de fazer as malas. É só o que vos desejo". Ele riu-se. Por acaso não foram nessa época, foram um ano e tal depois, porque ainda foram para Braga. Não vai com ele nem para Braga, nem para o Benfica. Só depois, para a Arábia. Fui trabalhando com os outros treinadores. Porque eu estava na estrutura técnica do Belenenses, não era do Jesus. Estive mais três ou quatro anos e curiosamente depois de ter terminado o vínculo com o Belenenses, passados 15 dias ou três semanas disso acontecer o Rui Gregório, por quem eu tenho uma estima enorme, e se um dia eu for um treinador de sucesso muito a ele o devo, chamou-me para adjunto, no Belenenses, na liga de honra. Com a mulher e os filhos D.R. Já tinha feito o curso de treinador? Tinha o nível III do curso. Comecei a tirar enquanto jogador. Sempre gostei de perceber o porquê dos treinos, o porquê de fazer aquele exercício em vez de fazer o outro. Ficou com o Rui Gregório quanto tempo? Infelizmente só lá estivemos cinco jogos. Ele regressou um ano e tal depois aos juniores. Digo que tenho de agradecer ao Rui porque ele chamou-me para o campo, como adjunto dele. Ele chegou a acordo com o Sintrense e ainda na pré-época por motivos pessoais entendeu que precisava de se desvincular e os dirigentes perguntaram-lhe quem é que ele achava que podia ser o seu substituto. Ele indicou o meu nome. E é assim que me torno treinador principal. Estava ansioso? Estava. Mas essa época em termos de expectativas correu muito melhor do que se perspectivou. Éramos claramente um dos candidatos a descer de divisão, mas no último jogo da primeira fase empatamos e se tivéssemos ganho íamos à fase de subida. Como não conseguimos, o desafio que lancei aos jogadores foi sermos a equipa que mais rapidamente garantiria a manutenção. Claramente que conseguimos a manutenção. Mas não ficou. Passou pelo GS Loures, o Casa Pia, Sertanense, depois esteve duas épocas no Sacavenense, ainda passou pela Camacha e Sintrense antes de ir para Arábia com Jorge Jesus. Sim. No Sacavenense ficou uma grande ligação. Porque no ano em que lá chegamos eles estavam praticamente "mortos" e conseguimos a manutenção, em que quase ninguém acreditava. Só eu, os jogadores e a direção que me foi buscar. No ano a seguir, numa equipa com um dos orçamentos mais baixo dessa série, conseguimos entrar na fase de subida, que não conseguimos depois concretizar. Os portugueses que estiveram no Al Hilal na época 2018/19 D.R. E a passagem pela Camacha, na Madeira? Era o projeto do Maniche? Sim. Ele comprou o clube mas depois, infelizmente, não se materializou as expectativas que ele nos criou. A ideia dele era fazer da Camacha um clube médio alto e infelizmente não aconteceu. Porquê? Poderíamos ter sido mais felizes e o Maniche também claramente muito mais presente. Acho que poderia ter sido mais presente. A ausência dele se calhar também ajudou a que não houvesse tanto sucesso. Eu dei um “deadline” até ao fecho do mercado de janeiro, as coisas não se concretizaram em termos de jogadores e viemos embora. Acabei no Sintrense nessa época. E depois é convidado pelo Jorge Jesus para ir para a Arábia. Como foi essa aventura? Antes de mais tenho de agradecer e enaltecer o Rui Pedro Soares, o Silas e o Zé Luis, porque não rubriquei um vínculo oficial mas fui convidado, chegámos a acordo para eu treinar os sub-23 do Belenenses, e passado três dias o Jorge Jesus convida-me para integrar a estrutura técnica dele no Al-Hilal e eles deixaram-me ir. O que o fez mudar de ideias e aceitar? Basicamente a proposta de um treinador top, para um clube top, com uma cultura diferente e com condições financeiras 10 vezes maiores do que ia auferir. Daí o meu agradecimento à estrutura do Belenenses porque acho que é de enaltecer, libertaram-me do vínculo, não oficial, mas emocional, e para mim a palavra basta. Tuck com Jorge Jesus D.R. Como foi o impacto quando chegou à Arábia? Vamos procurando obter informações, seja pela internet ou amigos que já lá estiveram, mas o impacto impacto cultural é muito grande. Mas agora está muito melhor porque, por exemplo, as mulheres já conduzem, já podem ir ao futebol, ao cinema, etc. A sua mulher foi consigo? Foi passar o Natal e a passagem de ano. E tive uma situação... Ela e a minha filha foram expulsas do banco. Fomos ao banco para levantar dinheiro, entrámos e nem me lembrei que elas não podiam entrar no banco pela porta da frente. Tinham uma entrada por trás, nas catacumbas. Assim que entramos foi logo: "Ladies, out". Curto e grosso. Foi um choque. Por outro lado, se não lidasse com 50 graus, não acreditava que havia [risos]. Foi outra situação que não conseguimos estar habituados. Os treinos eram à noite? À noite e com 42/43 graus. O Jorge Jesus foi extremamente sensível. No início não muito mas depois foi-se adaptando e muito bem aos costumes, às rezas, aos horários das rezas. A sexta-feira é nosso domingo, com os seus rituais religiosos. Eles saíam do estágio, tinham uma Mesquita incluída no centro de treinos, para ir à missa. Agilizava-se os horários das refeições em função disso. Não vinham, por exemplo, ao pequeno-almoço porque acordavam às cinco da manhã para rezar e tomavam o pequeno-almoço logo e ficavam a dormir até à hora de almoço. Já não apanhámos foi com o Ramadão. Qual era o seu papel na estrutura? Era estar próximo nos treinos, como um elemento da equipa técnica, mas tudo o que envolvesse a parte de secretaria da equipa técnica, para gerir com a administração, ou alguma situação que acontecesse com as casas, era eu o gestor dessa parte burocrática da equipa técnica. Tinham assinado por um ano mais um de opção? Sim, mas em fevereiro o Jesus entendeu que seria melhor interromper o vínculo o mais cedo possível porque não ia renovar. E eles queriam meter um novo treinador para a Liga dos Campeões. O que aconteceu entretanto? Viemos para cá e eu fui trabalhar para o Amora FC. Esta época iniciei no GS Loures mas voltei agora ao Sacavenense em janeiro. No Amora FC quis vir embora por diferentes formas de abordar a gestão do plantel. No Loures foram os resultados menos positivos e agora vamos tentar fazer uma gracinha boa no Sacavenense, que é a manutenção. Com a medalha da vitória da Supertaça da Arábia, em Londres D.R. Onde ganhou mais dinheiro até hoje? No Belenenses. Investiu? Em imobiliário. Tem algum hobby? Gosto de ler e de passear com a minha família. A leitura é claramente direcionada para o futebol, dentro da parte técnica do exército do treino, de formas de liderança, de abordar o jogo. E de psicologia do desporto e da motricidade. São os livros que mais procuro porque além da parte técnica e tática do treino para mim a evolução cada vez maior do treinador é na influência emocional e na liderança e motivação. Tem algum treinador modelo? Eu fui bebendo de muita gente. O meu protótipo de liderança é o Vitor Oliveira, proximidade e exigência. E depois em termos de treino, as pessoas com que gostei muito de trabalhar porque têm uma ideia de jogo muito próxima da minha foi o Rui Gregório e depois Jesus, Carvalhal e Rui Jorge. Estes quatro treinadores trabalham em função do 4-4-2, embora o Carvalhal possa variar mais. Qual foi a maior extravagância que fez? Nunca fui pessoa de deitar dinheiro fora, mas a maior extravagância foi comprar um relógio com que gosto de correr. Há muitos mais caros, mas para mim, quase 500€ por um relógio é muito dinheiro. É um bom garfo? Sou e por isso corro para poder comer. Os meus pratos favoritos são arroz de cabidela e bacalhau cozido. Acredita em Deus? Acredito naquilo que faço e acredito nas pessoas. Fui educado na religião católica, mas não sou claramente praticante. E superstições? As superstições têm duas coisas, e eu lido com isso todos os dias, respeito quem as tem e anulam-se a elas próprias. Com a tarja que a claque do Belenenses lhe dedicou durante anos, no Belenenses D.R. Qual foi o adversário mais difícil que apanhou pela frente enquanto jogador? João Vieira Pinto. E o maior rival? O meu maior rival seria eu se não acreditasse em mim. Segue ou pratica algum outro desporto além do futebol? Agora faço corrida de manutenção. E gosto muito de todas as modalidades, as únicas que não sou grande fã são as de luta. Qual a maior frustração da carreira? Não ter sido internacional. O momento mais feliz? A estreia na Liga. E o mais triste? Ter descido também com o Gil Vicente. Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol? O Rui Gregório? Se pudesse escolher de todos os clubes do mundo qual aquele onde gostava de ter jogado? No Barcelona. Gosto da cultura do clube, ganhar mas a jogar bem. Tem algum talento escondido? O meu talento, e não sou grande fã, é fazer limpezas. Quando me dedico sou tramado. Qual foi o momento mais fácil da sua vida? Foi ir visitar o meu filho e ter de tocar a uma campainha para poder aproximar-me dele. É uma sensação... Ele esteve sempre bem, mas nós pensamos que ele está muito mal. As pessoas foram excecionais. Se não fosse jogador de futebol o que teria sido? Com a paixão que tenho pelo desporto ia tentar ser professor de educação física. Tuck e a filha Inês são voluntários da Refood, em Carnaxide D.R. Qual a sua maior ambição enquanto treinador? Ter sucesso na profissão e conseguir um trajeto bom para conseguir treinar um clube da I liga e depois manter-me muitos anos lá. A pior partida que lhe fizeram? Como eu era dos que fazia mais, se calhar eles tinham medo que eu lhes fizesse. Então qual foi a pior que fez? Foi pegar nas chaves do carro de um colega, tirar-lhe o carro do sítio e depois ele andar à nora. Também já pus carros à venda de colegas, eles depois fartavam-se de receber telefonemas. Meter espuma nos sapatos, mas isso também me fizeram. A sua mulher voltou a trabalhar? Sim, ela trabalha como assistente operacional numa creche. E os seus filhos fazem o quê? A minha filha está a terminar fisioterapia e o meu filho terminou Economia e o ano passado terminou mestrado em gestão desportiva, mas ainda não conseguiu entrar no mercado de trabalho. Ele ainda jogou até aos 17 anos mas depois viu que seria melhor ir para outros campos. O que lhe dá mais prazer fazer nos tempos livres? Se puder vou ver jogos de futebol. Depois é ler. Há uma semana acabei de ler o “O Tatuador de Auschwitz”. E outro livro que já li duas vezes foi o Equador do Miguel Sousa Tavares. O livro apaixonou-me, tem uma sensibilidade muito boa. E há uma coisa que gosto muito também: faço voluntariado. Sempre tive vontade de ajudar, acho que devemos dar-nos um bocadinho aos outros e tentei procurar uma associação que se enquadrasse nos meus valores humanos. Encontrei a Refood, que é uma associação que serve para ajudar quem tem dificuldades económicas. Mas tem uma coisa que para mim foi fundamental, com todo o respeito por todas as outras instituições, é que não gira dinheiro na Refood, ela trabalha só com os excedentes dos parceiros, principalmente restaurantes, supermercados, padarias e pastelarias. Os voluntários têm três formas de ação: a recolha, a preparação e distribuição das refeições/produtos alimentares. A distribuição e a quantidade é feita em função de cada agregado e respectivas idades. Eu faço este voluntariado há três anos em Carnaxide, uma vez por semana. São cerca de duas horas por semana. Felizmente a minha filha, que foi comigo uma ou duas vezes começou a gostar, e também faz. www.impresa.pt Sites do Grupo Impresa SIC Opto SIC SIC Internacional SIC Notícias SIC Radical SIC Mulher SIC K SIC Caras SIC Esperança Fama Show Expresso Blitz Boa Cama Boa Mesa Tribuna Advnce Volante SIC GMTS InfoPortugal Olhares Impresa Novas Soluções de Media Gesco SIC International Distribution IMPRESA © Todos os direitos reservados Apresentação do Grupo Contactos Investor Relations Responsabilidade Social Lei da Transparência Sobre o Nónio Editado 4 Abril 2021 por jplobo 8 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 11 Abril 2021 #181 (1). Pedro Mendes, Parte I: “No Sporting, quando o Paulo Bento falava comigo só me lembrava dos sketches do Ricardo Araújo Pereira. Eu tinha de me conter, senão...” #181 (2). Pedro Mendes, Parte II: “O Pepe estava com o Cristiano e micou-me: ‘O puto é tuga, é do Jorge Mendes, vamos lá’. É um sarrafeiro, mas um paz de alma, bom coração” Compartilhar este post Link para o post