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Lebohang

A Casa às Costas

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Citação de Lebohang, há 18 horas:

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Não tenho o código também, meti isso por causa do título basicamente.

Aliás, a razão pela qual já não atualizo muito isto é porque agora é basicamente tudo artigo exclusivo.

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Rafael Lopes: “Descobri que o meu filho tinha de fazer uma operação ao coração, de peito aberto, com dois anos e meio. O futebol ficou para segundo plano”

Tem algum episódio caricato passado no tempo em que esteve no Omonia?
Tenho um engraçado com o Alex Soares e o Margaça. Nós íamos juntos para o treino, no carro do Margaça e ele tinha uns 200 autocolantes dos autógrafos, que normalmente dão aos jogadores com fotografia, nome e número. Eu e o Alex colamos os autocolantes no vidro, por dentro. Então, após o treino o Margaça andou assim com o carro uns 20 minutos na autoestrada, em que só via um bocadinho através do vidro, e as pessoas apitavam quando passavam por ele, porque ele é muito conhecido no Chipre. Ele estava cheio de vergonha, foi muito engraçado [risos].

mw-768

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Citação de Lebohang, há 58 minutos:

Queres a entrevista toda (são duas partes) ou só a parte a que se refere o título?

Gostava que fosse toda se possivel

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Parte I

Spoiler

 

É natural de Lisboa. Filho e irmão de quem?
O meu pai é bancário, a minha mãe era assistente social, atualmente trabalha na Câmara Municipal de Cascais. Tenho dois irmãos, um mais velho três anos, o Vasco, da mesma mãe e pai, e tenho uma irmã, a Carolina, que tem agora 13 anos da segunda relação do meu pai. Os meus pais separaram-se quando eu tinha quatro anos, mas tive muita sorte, porque sempre tive um padrasto e uma madrasta e os quatro dão-se muitíssimo bem. O meu padrasto é padrinho da filha do meu pai com a minha madrasta.

Cresceu em que zona de Lisboa?
Grande parte da minha infância vivi com o meu pai e irmão, em Algés, depois mudámo-nos para Miraflores e acabei o meu percurso em Lisboa, a viver no Restelo com a minha mãe e o meu padrasto, dos 13 aos 17 anos.

Foi uma criança calma ou deu muitas dores de cabeça?
Era muito agitado. Parti a cabeça três vezes. Os meus avós costumam dizer que eu era o pior de todos, por isso, quando hoje vemos o meu filho, toda a gente diz que se percebe porque é assim [risos].

Gostava da escola?
Fui sempre um miúdo interessado, mas fui perdendo um bocadinho esse interesse à medida que o futebol foi ficando mais sério. Os meus pais sempre me fizeram ver a escola como um fator importante na minha educação. Tinha uma exigência mínima, tinha que ter boas notas. Hoje tenho saudades da escola, acho que é uma parte bonita da nossa infância. Jogava muito à bola na escola.

O que dizia querer ser quando crescesse?
Sempre quis ser jogador de futebol.

De onde vem essa paixão, tem ideia?
Desde os meus quatro anos que o meu pai levava-me a mim e ao meu irmão ao antigo estádio de Alvalade. Acho que o bichinho vem daí. A família é toda sportinguista. Com cinco anos tentei começar a praticar futebol, mas na altura, no Belenenses, só se podia jogar com seis anos. Eu queria fazer desporto e como a maioria dos meus colegas andava no râguebi, acabei por ir praticar râguebi, dos cinco aos 10 anos, onde fui muito feliz. Só depois fui para o futebol.

Nunca lhe passou pela cabeça enveredar pelo râguebi?
Eu tinha jeito porque comecei muito novo e quando começamos muito novos é bom porque perdemos o medo. Dizem que o râguebi é um desporto violento, mas não é, magoei-me muito mais no futebol do que no râguebi. Jogava com miúdos mais velhos dois anos e não tinha medo nenhum. Era um miúdo muito corajoso, muito destemido. Arrependo-me um bocado de não ter continuado no râguebi porque acho que tinha chegado a um bom patamar. Mas o râguebi não era profissional em Portugal e a minha paixão sempre foi o futebol. Aos 10 anos tive a sorte de ir para o futebol.

Como surgiu o futebol de novo? Voltou a pedir ao seu pai para experimentar?
Não. Lembro-me perfeitamente desse dia. O meu pai disse-me de manhã: “Afonso, hoje leva o equipamento do Sporting para a escola.” Nesse dia ele foi buscar-me mais cedo à escola e fomos ao Estádio de Pina Manique. Basicamente, fui fazer testes de captação do Sporting, mas nem sabia. Realmente vi alguns meninos com o equipamento, mas não tinha noção e acho que isso foi um dos motivos porque correu tão bem, estava muito descontraído. Lembro-me que levei as minhas chuteiras de râguebi e tudo. Acho que o meu pai trabalhou muito bem a maneira de levar-me.

Era uma criança ansiosa?
Sim, sempre fui um miúdo muito emocional e isso prejudicou-me algumas vezes no futebol.

Quando começou a treinar no Sporting o que mais estranhou?
Conhecer miúdos muito diferentes do mundo de onde eu vinha. O râguebi, não digo que seja mais elitista, mas é diferente do futebol. No futebol conheci outras realidades e foi muito bom porque comecei a dar-me com miúdos que não tinham tantas possibilidades como eu. Nunca fui um miúdo com muitas posses, mas sempre tive uma vida boa, nunca me faltou nada e tinha colegas que viviam em bairros sociais, que tinham dificuldades, e desde muito cedo comecei a ir dormir a casa deles. A partir daí dei-me com qualquer tipo de pessoa e consegui inserir-me em qualquer tipo de mundo.

Quem eram os seus ídolos?
O João Pinto. Desde miúdo pedia ao meu pai as botas da Adidas que ele usava, jogava sempre com o penso no nariz como ele [risos]. Tinha o cabelo grande como ele. Tentava imitar o género. Mas, de repente, apareceu o Cristiano Ronaldo e muda tudo. O Afonso passa a querer chuteiras da Nike, há uma mudança.

Recorda-se do primeiro jogo que fez pelo Sporting?
Claro, tinha 10 anos. Foi num pelado em Caneças, num torneio de futebol de 7. Joguei como médio esquerdo. Estava um bocado nervoso, mas tínhamos uma equipa muito boa e as coisas fluíram muito bem. Penso que marquei um golo nesse jogo. Recordo-me de ter lá os meus pais. Mas eu não percebia o que era jogar no Sporting, não tinha noção de que estava num dos melhores clubes do mundo em termos de formação. Só tinha o maior orgulho de estar no clube que eu amava. Lembro-me muito bem de, no primeiro ano, quando jogava futebol na praia com o meu irmão, virar-me para os outros miúdos e perguntar se eles jogavam em algum sítio, só para eles me perguntarem também e eu poder dizer que jogava no Sporting [risos]. Era um miúdo muito orgulhoso de estar naquele clube.

Passou seis anos na formação do Sporting. Qual o treinador que mais o marcou durante esse período?
Há dois. O treinador que melhor me conheceu é o atual treinador da seleção de Angola, o Pedro Gonçalves. O Sporting tinha pessoas com muito jeito para crianças e isso é importante na formação. O Pedro sempre me ajudou, tivemos uma relação próxima e boa. O outro foi o Tiago Capaz, um treinador mais exigente, um bocado como um sargento, mas foi alguém que me disse muita verdade na cara, era muito direto, não tinha papas na língua e isso foi muito bom. Eu achava que ele não gostava de mim porque quando somos miúdos às vezes não conseguimos perceber porque é que alguém exige tanto de nós. Hoje percebo. Se um treinador não falar connosco aí é que temos de ficar preocupados. Eu era muito emotivo e ansioso e ele, uma vez, disse ao meu pai: “O Afonso faz um golo e cansa-se tanto a festejar que não é bom. Ele vive muito as coisas e cansa-se.” [risos] Lembro-me de alguns dérbis em que as coisas não me saíam bem devido a essa vontade e ansiedade que me prejudicava.

Arranjava confusão com facilidade com os outros miúdos?
Nessa idade, não. Um bocadinho mais para a frente, sim. Mas eu era alguém que dava muito ao jogo. Essa parte da emotividade no futebol é boa porque como vivia muito as coisas, aquilo para mim era sempre até ao fim, no máximo. Dava tudo o que tinha. Mas sim, vivia as coisas a mil à hora e isso por vezes tirava-me um bocado de discernimento.

Quais os momentos mais marcantes desses seis anos?
A ida para a Academia, em Alcochete, aos 14 anos. Acabou por mudar um bocadinho a minha vida, porque de repente passo a ter que apanhar o autocarro em Lisboa por volta das quatro e meia, treinávamos em Alcochete até às seis e só chegava a casa às nove e meia, dez da noite e já jantava sozinho. A minha vida tornou-se mais séria, mas acho que nunca percebi. Penso que uma das reais causas da minha saída do Sporting é porque nunca levei aquilo, não é a sério, eu não pensava era na parte de ser jogador de futebol. Ou seja, eu com 16 anos era o mesmo miúdo de 10. Continuava a viver na inocência com os meus companheiros, iam saindo alguns, entrando outros, mas eu não olhava aquilo como “eu tenho que ser melhor que o meu colega para ser profissional e chegar lá acima”; levava as coisas muito, muito tranquilo.

Ainda não pensava fazer do futebol profissão com 16 anos?
Não. Eu estudava. Era um objetivo, mas não pensava nisso de forma muito séria. O outro momento marcante foi quando fui campeão nacional, em sub-15, no Seixal, num Benfica-Sporting. Acho que é o momento da formação que me marcou mais, foi o título mais importante.

Quando começou a fase em que se tornou mais refilão?
Quando sou dispensado do Sporting. Levei um choque.

Olhando para trás, diria que a sua dispensa do Sporting deveu-se sobretudo a quê?
Hoje que já conheço melhor o futebol, sei que saí porque alguém tinha de entrar, mas esse alguém na altura não era melhor que eu. Era um jogador, se não me engano, do V. Setúbal, mas já eram interesses do futebol, porque se calhar dava jeito a alguém que aquele rapaz fosse para lá. Nós sabíamos sempre quem ia ser dispensado no final da época. Sempre, todos os anos. Ou porque não tinha jogado tanto, ou notava-se que já começava a ficar um bocadinho para trás em termos de qualidade. Eu joguei muito na última temporada de sub-16, acabei até por fazer um último europeu de clubes pelo Sporting, brilhante. Fiz golos ao Real Madrid, ao Atlético Madrid, tenho memórias incríveis. E fui dispensado no final desse torneio.

Quem lhe deu a notícia?
Estava em casa da minha mãe e chegou o meu pai e a minha madrasta. A minha madrasta estava com olhos de choro. O meu pai veio ao meu quarto, fechámo-nos lá os dois e disse que tínhamos uma reunião em Alcochete. Ainda me arrepio a falar disso. Realmente, foi dos maiores choques que tive. Percebi logo que as notícias não seriam boas.

Tinha contrato de formação?
Não. A maioria dos miúdos que tinham contrato eram mesmo os que viviam na Academia, que já recebiam algum dinheiro. Eu não tinha contrato de formação, recebia apenas uma espécie de ajuda de custo pela deslocação para Alcochete, mas já havia miúdos com contrato de formação.

Chorou muito quando soube que estava dispensado?
Nesse dia, não porque ainda tive esperança que não fosse dispensado. Não esperava mesmo. Foi um soco gigante no estômago. Não esperava minimamente. Até tinha férias marcadas com os meus colegas do Sporting, o João Mário e outros, que depois acabaram por não chegar lá acima. Já não consegui ir com eles, eles foram e só fui ter com eles ao Algarve mais tarde. Íamos fazer um Interrail de comboio pelo Algarve. Foram umas férias marcadas por mim porque eu era muito de planear as coisas e era um miúdo despachado. Mas o choque foi tão grande que eu disse aos meus pais que não queria sair de casa. Marcou-me muito.

Na reunião em Alcochete, o que lhe disseram em concreto?
Que não havia espaço para mim na próxima época e que iria ter de procurar clube. Foi um sentimento de muita revolta na minha cabeça. Lembro-me que comecei a chorar depois de saber a notícia, porque me emocionei a falar, a agradecer. Quis sair de uma forma leve e agradeci o que tinham feito por mim e naquele agradecimento vieram-me as lágrimas aos olhos. E, de repente, olhei, estava a sala também algo emocionada. O meu pai não, mas quando cheguei ao carro lembro-me perfeitamente de o ver em lágrimas. O meu pai teve momentos difíceis na vida, a separação, perdeu um irmão, e eu nunca o tinha visto a chorar. Um miúdo de 16 anos que vê pela primeira vez o pai a chorar, foi duro. Demorei um bocado a reagir porque fiquei muito frustrado, muito revoltado e não consegui encontrar o porquê daquela decisão. Isso foi o mais difícil.

Como acabou por ir para o Belenenses?
Eu não queria jogar mais. Pensava, fizeram-me isto, não quero jogar mais, não quero saber disto. Mas o Martim Águas, que andava comigo na escola, um grande amigo meu, disse-me um dia: “Mano, anda treinar ao Benfica”; “Passados seis anos a jogar contra eles, agora vou lá?” Aquilo mexeu com o meu orgulho. Mas fui e apanhei o mister Bruno Lage, uma pessoa espetacular. Estive lá um mês inteiro. Lembro-me que o meu pai não foi ver um único jogo amigável [risos]. O meu padrasto é benfiquista e foi com a minha mãe, assim como o meu irmão. Mas foi muito difícil assimilar tudo. Gostei muito de estar lá, queria ficar no Benfica e percebi que não fiquei porque não ficava bem um miúdo que tinha sido dispensado do Sporting ir para o Benfica. Houve ali várias coisas e acabei por ir treinar ao Belenenses já em cima de começar a nova época, porque era perto de casa. Nessa altura já vivia no Restelo, podia ir a pé para os treinos, era só descer a rua. E foi a maior sorte da minha vida.

Porque diz isso?
Fui jogador de futebol porque fui para o Belenenses e apanhei as pessoas certas, na altura certa. O mister Romeu e o mister Rui Jorge foram fundamentais. Acredito muito que nada acontece por acaso. Eu não tinha sido jogador de futebol se não fosse dispensado do Sporting e não estivesse estado no Belenenses, porque aqueles dois homens, sobretudo o mister Romeu, que passou mais tempo comigo, mudaram o chip da minha cabeça.

De que forma?
Fez-me perceber que eu tinha muita qualidade, mas que, ali, era igual aos outros. Quando vimos de um Sporting, se calhar achamo-nos um bocado melhor do que os outros. Não é que eu achasse que me faltava humildade, mas ele era uma pessoa que me punha muito os pés no chão. “Aqui mando eu e as coisas são como eu quero, tu podes ter a tua opinião, mas aqui fazes as coisas como eu quero.” E eu passei a fazer. No início custou, mas fui-me moldando dentro daquilo que eram as ideias do mister Romeu e agradeço-lhe muito, porque sem dúvida que aquele miúdo, naquela altura, precisava de ouvir aquilo para se tornar diferente e passei a ser mais focado.

Nessa altura assinou o seu primeiro contrato de formação?
Não, continuei sem contrato de formação.

Há pouco revelou que foi no Belenenses que começou a ser mais refilão. Que tipo de refilão e porquê?
Eu sentia que tinha uma qualidade um bocado superior à maioria dos meus colegas, apesar de termos vindo vários dispensados do Benfica e do Sporting e termos juntado ali uma equipa muito forte, com o Ivan Cavaleiro, Tiago Silva e vários outros jogadores que atualmente são profissionais e têm boas carreiras. Mas tinha um bocado esse lado de refilar, continuava muito emotivo, lembro que fazia golos e tirava a camisola [risos]. O mister Romeu nesse ano mudou-me de posição, eu era lateral esquerdo do Sporting e passei a jogar a médio, onde gostava muito, mas, na altura, eu dizia: “Não, eu quero jogar a defesa porque era aí que eu jogava” [risos]. E ele: “Não Afonso, vais jogar a médio, não é como tu queres, é como eu quero.” Dizia-me uma coisa que ficou sempre na cabeça: “Ganha-me nervo.” Uma expressão muito nortenha.

Isso significava o quê para si, na altura?
Era ganhar aquela agressividade, não era levar uma cacetada e ficar no chão como eu fazia, era, “levanta-te e vamos à próxima”. Comecei a ganhar esse espírito, foi ele que me incutiu isso. Teve uma importância mesmo muito grande na mentalidade daquele miúdo de 17 anos.

Uma idade onde as saídas à noite ganham importância. Quando começaram as noitadas?
Muito cedo. Com 15 anos, provavelmente. Ainda jogava no Sporting.

Ia com os colegas da escola ou com os do Sporting?
Da escola mas também comecei a ser uma influência nesse sentido para os meus colegas do Sporting e nem sempre isso foi bom porque, por vezes, sabia-se no clube. Eles avaliavam um bocadinho de tudo. Eu jogava normalmente ao domingo e comecei a sair à sexta-feira. Vários jogadores da Academia vinham dormir a minha casa para sairmos à noite. Com 15 anos os meus pais davam-me essa liberdade, mas bastava a minha ligar-me às três da manhã a dizer que estava preocupada, eu atendia sempre o telefone e ia para casa. Cumpria muito as minhas obrigações de filho, já o meu irmão deu muitos sustos aos meus pais, apesar de ser um miúdo mais calmo, facilitava mais nessas coisas [risos]. Nunca fui de experimentar drogas, bebia álcool de vez em quando. Fui um miúdo normal, com uma infância normal, não muito focado em ser jogador de futebol. Mas chegou uma altura em que tinha que ser mais exigente e se calhar aconteceu com a ida para Braga.

Como surgiu a ida para o SC Braga?
Um dos meus melhores amigos do futebol, o Rúben Freitas, que esteve seis anos no Sporting comigo e foi dispensado exatamente no mesmo ano, foi logo para SC Braga. Eu tinha tido essa possibilidade na altura. Os jogadores que saíam do Sporting e do Benfica tinham muitos convites de vários clubes, sobretudo do SC Braga e do V. Guimarães que estavam muito atentos.

Não quis ir para Braga quando saiu do Sporting?
Não, era longe, tinha namorada, queria estar perto dos meus pais. Estava muito desiludido com o futebol, ir para Braga não era de todo o meu objetivo. Mas esse meu colega, o Freitas, foi para o SC Braga e foi muito feliz. Numa conversa com ele, perguntou-me porque não ia lá. No final da época do Belenenses fui lá fazer treinos de captação. Eles gostaram muito.

Ainda estudava?
Já fui fazer o 12.º ano em Braga. Entretanto, o treinador mudou, era o Dito, que infelizmente já morreu, e foi substituído pelo Artur Jorge, que até há bem pouco tempo era o treinador principal do SC Braga. Ou seja, tinha ficado no SC Braga, mas depois do verão tive de ir outra vez treinar para o novo treinador ver. Passei nos testes e fiquei.

Aí já assinou um contrato?
Sim, já tinha contrato de formação, recebia cerca de €300. Eles ofereciam casa, alimentação, estudos e nesses dois anos não toquei no dinheiro que ganhei. O meu padrasto e o meu pai davam-me, cada um, cerca de €50 a cada duas semana e chegava-me. Era um miúdo poupado, não gostava de comprar roupa, não era muito de comer fora, tínhamos sempre comida num restaurante muito bom. O SC Braga dava-nos condições incríveis.

Quando deu a notícia aos seus pais de que queria ir para Braga, como reagiram?
A reação da minha mãe não foi muito boa, não queria que eu saísse de casa. O meu pai era mais aberto. A minha mãe, se calhar, preferia que o filho fosse advogado, não incentivava tanto o futebol como o meu pai, que sempre manteve este meu sonho muito vivo. Não foi fácil porque tinha uma namorada de quem gostava muito e tinha de tomar a decisão de sair de casa, com 17 anos, para ir viver sozinho no norte do país.

Onde ficou a viver e com quem?
A primeira casa onde fiquei era num bairro social. Lembro-me de deitar-me na cama pela primeira vez e bater quase com as costas do chão porque as molas estavam partidas [risos]. De repente, estou ali, num quarto com o meu colega Rúben Freitas. Ajudou estar com ele porque nos conhecíamos, mas senti-me um adulto pela primeira vez. Chorava sempre quando ia para cima no Alfa Pendular, e tinha de me despedir dos meus pais. Mas aquilo acabou por mudar completamente a minha vida, a minha juventude. Afastei-me dos meus colegas todos da escola, dos meus amigos de Lisboa, da minha namorada, passei a ter uma relação à distância, que acabou por não durar muito. Mas o futebol passou a ser muito sério. Era o primeiro ano de júnior.

Notou muita diferença do Belenenses para o SC Braga?
Muita. Tínhamos campos para treinar, um ginásio, no Belenenses era um campo pequenino, sintético, as meias eram roxas… Um treinador incrível, mas as condições eram fracas. O SC Braga tinha uma estrutura, um balneário espetacular, jogávamos no antigo estádio do Braga, no 1.º de Maio, tínhamos vários campos para treinar, era um clube grande. Acabei por mudar de casa, para uma outra onde cada um tinha o seu quarto. Se pudesse voltar atrás no tempo, gostava de voltar a esse tempo de Braga, porque fui muito feliz. Nunca me deu aquele arrependimento, aquela saudade. Ali cresci. Penso que o futebol tem esse poder de fazer-nos crescer mais rápido, porque a exigência é grande.

E dentro de campo mudou alguma coisa também?
Mudou. O Afonso irreverente de Lisboa de repente via-se a jogar no norte, onde havia mais agressividade, mais palavrão, mais vontade. Pelo contágio desse tipo de motivação comecei a ganhar o tal nervo. Passei a jogar a extremo, mais à frente, mas no 1.º ano de júnior não joguei tanto como gostaria porque havia jogadores mais velhos, do 2.º ano. Lembro-me de fazer um golo ao Benfica, ao Ederson, tirei a camisola mais uma vez [risos]. Nesse dia liguei ao meu pai no final do jogo a dar-lhe a novidade e ele no início nem acreditou.

Gostou do Artur Jorge como treinador?
Achei um bom treinador, alguém que sentia muito o clube e passava-nos isso, tinha jeito para falar com miúdos. Essa parte é importante. Tinha um adjunto de quem eu gostava muito, o João Pedro Sousa. Apanhei duas pessoas muito boas que tinham noção de que eu era um miúdo, que estava longe dos pais. O SC Braga tinha um psicólogo, tinha pessoas que nos ajudavam a perceber o que precisávamos.

Alguma vez foi bater à porta do psicólogo por sua vontade própria?
Por vontade própria, não. Mas sempre andei muito em psicólogos desde pequenino por causa da separação dos meus pais e sempre gostei muito. Sinto que me ajudou bastante.

Como foi o 2.º ano no SC Braga?
Eu tinha terminado o 12.º ano e pedi aos meus pais para me deixarem dedicar o último ano de formação exclusivamente ao futebol, para perceber se realmente era aquilo que ia ser a minha vida. E no 2.º ano de júnior, com 18 anos, não fui para a faculdade, dediquei-me única e exclusivamente ao futebol e foi a melhor coisa que fiz.

Experimentou a noite de Braga ou estava mais regrado?
Experimentei. Era um miúdo de 18 anos, ia à Queima das Fitas, lembro-me de ter de treinar no dia a seguir e era difícil porque tinha bebido uns copos e deitado tarde [risos]. Passei por esses momentos de rebeldia e de juventude, apesar do futebol. Claro que às vezes notava-se no campo, mas acho que nunca deixei de ser o jovem divertido e que precisava também desse lado social. Depois acabei por ter uma namorada, em Braga, que me ajudou bastante porque ela era atleta do SC Braga, fazia atletismo, era uma pessoa muito regrada e contagiou-me, tive uma influência que me fazia deitar cedo, não sair com os meus colegas, o que acabou por ser positivo nesse 2.º ano de júnior.

O que aconteceu no final dessa época, 2011/12?
O Agostinho Oliveira, que era o nosso coordenador, veio falar comigo. Lembro-me perfeitamente que foi após um Boavista-SC Braga em que fiz um grande jogo no Estádio do Bessa. É engraçado, porque senti uma coisa especial nesse dia e fiz um grande jogo. Logo a seguir o Agostinho vem dar-me a notícia que querem contar comigo para a equipa B. Era o primeiro ano das equipas B de volta à II Liga. Tive cedo a confirmação de que iria fazer parte do plantel e ia ter um contrato profissional, finalmente. Ou seja, fez sentido a decisão de dedicar-me exclusivamente ao futebol nesse ano, um ano em que mudei de posição e que foi uma coisa muito importante.

Mudou de onde para onde?
O Artur Jorge pôs-me a defesa esquerdo. O nosso defesa esquerdo estava meio molinho e no primeiro jogo em que joguei a defesa esquerdo, em casa, marquei dois golos. A partir daí fiz os 35 jogos, foi a época que mais joguei na minha vida como defesa esquerdo.

E foi só nessa época que teve a certeza de que o sonho de ser profissional de futebol era mesmo realizável?
Foi. O esforço daqueles dois anos, tudo o que perdi, o tempo com os meus pais, eu cobrava muito isso porque o futebol dava-me coisas, mas também me tirava bastantes. Mas meti na cabeça que iria fazer valer a pena e esforcei-me ao máximo. Foi a melhor época da minha vida, digamos assim, porque joguei sempre e desfrutei muito. E deixei de ter também alguns problemas físicos que vinha tendo nesta parte final.

Que tipo de problemas?
Eu era um jogador com muitas cãibras. Associo isso muito à parte psicológica, a maus hábitos também, porque um jogador de futebol precisa dormir bem, alimentar-se bem, beber água. Há jogadores que não, porque têm uma genética boa, mas nunca tive genética para ser jogador de futebol, porque me cansava muito e muito rapidamente as minhas pernas começavam a doer. Tinha vários índices físicos baixos e difíceis. Na maioria dos jogos da minha carreira, os últimos 20 minutos sempre foram de sofrimento, a tentar mostrar que estava bem quando as pernas já não podiam mais; a cabeça tentava disfarçar, mas às vezes não dava porque as dores musculares eram muitas. Fui tentando perceber com nutricionistas, psicólogos, o que podia fazer mais, porque tinha muitas cãibras, o jogo tem 90 minutos e eu não podia fazer 60. Vivi a minha carreira toda com essas dificuldades, quando era jovem conseguia perceber porque bebia álcool, etc., mas quando me tornei profissional, não, porque era muito regrado, só bebia álcool no verão.

Quando lhe falaram na equipa B, então não hesitou um segundo.
Claro. Assinei contrato profissional e recebia €850, um valor muito baixo.

O que fez com esse primeiro dinheiro?
Um grande erro. Como disse anteriormente, eu não toquei naqueles €300 que ia recebendo. Na altura, tinha um Opel Corsa emprestado pelo meu padrasto, de duas portas. Pensei, não vou aparecer de Opel Corsa no Estádio de Braga, onde estão os jogadores da equipa A. Então tive a estúpida ideia de comprar um Mercedes SLK descapotável, de dois lugares. Não foi preciso pedir dinheiro a ninguém, o meu pai ajudou-me com a parte burocrática apenas. O meu padrasto ficou um bocado chateado comigo, sem me dizer. Deixou-me fazer o erro, mas não gostou porque percebia o que poderia causar.

Sentia-se o maior?
[Risos]. Pois. Eu andava nesse carro, sentia-me o maior, mas pagava uma prestação alta do carro. O pior de tudo era o julgamento das pessoas, porque quem olhasse para um miúdo de 18 anos num SLK, querendo ou não, o meu rótulo era o do menino do papá. Embora o carro tivesse sido comprado com o meu dinheiro. Mas havia muito esse julgamento, não tanto no Braga. O Éder brincava comigo: “Eish, miúdo, andas aí de descapotável”, mas muito na brincadeira, ele andava de Mini. Eu tinha carro melhor que alguns jogadores da equipa A. Mas nunca foi bom para mim, porque as pessoas achavam que eu era vaidoso e há muito julgamento de uma pessoa pelo que tem, pelo que mostra. Eu gosto de frisar isto porque não deixa de ser um erro que fiz, é algo que nunca na vida teria feito hoje. E acabei por pagar muito com esse erro, no Boavista, quando conheci o Petit.

Já lá vamos ao Boavista. Como foi jogar na equipa B?
O Artur Jorge acabou por me desiludir um bocadinho porque mudou bastante. O Artur Jorge dos juniores, que lidava com miúdos, e o Artur Jorge, que lida com seniores, era diferente. Houve uma mudança de personalidade e de escolhas, mesmo de trato connosco.

Tornou-se mais duro?
Sim. Mais duro, menos pedagógico, não explicava tanto, mais arrogante. Sofri muito porque acabei por jogar pouco. Depois mudámos de treinador, veio o António Conceição, com quem joguei mais. Mas tínhamos uma particularidade, vinham vários jogadores da equipa principal jogar, ao fim de semana, pela equipa B. Lembro-me do Emídio Rafael, um tipo espetacular, que dizia: “Eu nem quero estar aqui, quero que jogues.” Deu-me muitos conselhos, éramos da mesma posição. Chegou a haver momentos em que os meus pais iam a Braga ver o jogo e no dia do jogo era o Emídio que jogava. Atenção, não treinavam connosco, no dia do jogo vinham à nossa equipa e de repente eu estava no almoço a pensar que ia ser titular e passava para a bancada. E os meus pais já em Braga a pensar que iam ver-me jogar. Isto aconteceu mais do que uma vez. Desmotiva muito.

Pensou em desistir?
Sim, várias vezes disse que queria desistir, porque eram constantes desilusões e frustrações. Eu era um miúdo que estava a começar, vinha de uma época muito boa em que joguei sempre, via o sonho de chegar à equipa A muito perto, tinha ido várias vezes treinar como júnior.

Quem o chamou pela primeira vez?
O Domingos Paciência chamou-me muitas vezes.

Estava muito nervoso na primeira vez que foi chamado para treinar com a equipa A?
Muito, muito. No aquecimento já estava morto.

Algum jogador que tenha sido mais simpático?
Lembro-me muito do Hugo Viana. Lembrava-me de vê-lo a jogar no Sporting com 18 anos. Eu era um miúdo com alguma lata e aí fico contente porque realmente disse algumas coisas que, se fosse mais tímido e introvertido, não diria. Ao Hugo, disse: “É a ver-te aqui que percebo como o tempo passa, como estou mais velho, porque eu vi-te tinhas tu a minha idade e hoje estou aqui a treinar ao teu lado.” Tenho muita pena que o futebol na minha altura não tenha sido como hoje.

O que quer dizer?
Um miúdo de 18 anos como eu, que fez a época que fez no SC Braga, numa posição em que não havia muitos jogadores, a defesa esquerdo, se na altura houvesse as oportunidades que felizmente há hoje em que se olha para os jovens de outra forma, teria tido outras oportunidades.

Que tal o Domingos Paciência como treinador do que pode observar?
Espetacular, muito boa pessoa. Chamou-me várias vezes para fazer treinos com os que não jogavam, mas aquela experiência de ir à equipa principal… Eu voltava aos juniores com uma força, com uma motivação, aquilo valia muito. Mas, lá está, na minha segunda época, em que fiz uma temporada brilhante, só fui chamado uma vez, quase na última semana de treinos, pelo Leonardo Jardim. Também tive azar porque era um SC Braga de Champions, que foi à final da Liga Europa, eliminou o Benfica. Mas se o futebol tivesse a mentalidade que tem hoje, julgo que podia ter-me estreado pela equipa principal do SC Braga.

Foi chamado à equipa principal quando estava na equipa B?
Sim, e apanhei o Éder, esse sim, aquela pessoa que dizia: “Miúdo, estás à vontade, aqui és como um de nós, nada de ficares nervoso, eu sei que às vezes é difícil, vocês vêm com muita vontade e acabam por fazer as coisas mal, porque querem mostrar, mas tranquilo, aqui estás como queres.” Enquanto havia outros jogadores que não tinham paciência nenhuma para os miúdos, mal falhávamos um passe e era logo a insultar, metiam-nos as pernas a tremer.

Pode dar um exemplo?
O Paulo Vinicius era um deles, mas depois apanhei-o no Boavista e mudou muito. De repente, ele chegou ao Boavista e eu era um dos melhores jogadores, e já foi: “Aí, Afonsinho.” Afonsinho? Na altura olhava para mim, não me dizia nada e agora está aqui a falar comigo com uma moral. [risos]

Ainda tinha contrato com o SC Braga quando saiu para o Boavista?
Tinha dois anos de contrato, mas eu queria sair porque queria jogar. Estava na minha praia preferida, o Meco, com o meu irmão, e ligou-me o Rui Borges, diretor do Boavista, a perguntar se eu queria ir para lá. Disse logo que sim. Ia receber bastante menos do que recebia no SC Braga, mas ia para a equipa principal que estava no Campeonato Nacional de Seniores (CNS), que equivale à Liga 3. Tinha que descer uma divisão. A maioria dos jogadores que apanhei no SC Braga na equipa B já tinham passado pela II B e percebi que tinha sido bom para eles

Como foi o impacto quando chegou ao Boavista?
Quando cheguei ao Boavista foi um choque grande, porque apanhei um Boavista com dificuldades. Fui para uma casa partilhada com montes de colegas. Isso mexeu muito comigo porque já vivia sozinho em Braga. Ainda me fez duvidar se ficava, mas tive a sorte do meu padrasto me ajudar, porque me pagou um T0 em frente ao Dragão, onde pude viver sozinho, estava mais tranquilo, já era uma altura da minha vida diferente em que eu tinha a namorada de Braga, e ajudou-me porque me deu uma estabilidade muito importante.

E o Petit?
Percebi logo no primeiro dia que ele não foi com a minha cara [risos].

Então porquê?
Senti que ele não tinha ido muito com a minha cara. E, depois, cheguei ao Boavista de SLK, a uma realidade de CNS. Aquilo não foi nada bom para mim. Tínhamos salários em atraso, recebíamos só 50% do nosso salário, muitas vezes, e que era pouco. Uma realidade financeira muito difícil. Era um clube de I Liga em tudo o resto, em estádio, em balneário, em adeptos, que eram incríveis, mas cheguei e não jogava. Um jogador que vem do SC Braga, desce uma divisão, e não joga… Liguei muitas vezes aos meus pais, a chorar, a dizer que queria ir embora.

Só por não jogar?
Sim. Não joguei muito no SC Braga, agora não jogava no Boavista, desci de divisão, pensava, se calhar isto não vai dar. Mas os meus pais ajudaram-me sempre a ver as coisas de outra forma. Vai à luta. E aí também há uma mudança em mim. Lembrei-me de uma professora de Geografia do 11.º ano.

Explique lá isso melhor.
No 11.º ano, a turma toda estava a falar e o Afonso é que ia para a rua. A minha mãe dizia-me: “Afonso, és tu que tens de dar a volta às pessoas. Muda tu alguma coisa em ti e vais ver que as coisas vão dar certo.” E eu passei a não dar um milímetro para que a minha professora me mandasse para a rua. Não abria mesmo a boca. E ela mudou comigo. As coisas começaram a correr melhor. Naquela altura relembrei, o que eu podia fazer para o Petit gostar de mim?

O que fez?
Acabei por ter um grande acidente com o meu carro, que até já tinha posto à venda. Eu comprei o carro por €18.000, tinha passado um ano e ninguém me dava mais de €14.000, ou seja, estava a perder muito dinheiro. Tinha o carro à venda há algum tempo e nada. Depois acabei por ter um acidente grave com um colega meu.

Como aconteceu?
Eu continuava a ir ver o Sporting, mesmo jogando noutros clubes, disfarçado. Por falar nisso, no SC Braga tive um grande problema por ir ver o Sporting, porque apareci na televisão. Quando acabou esse jogo o meu telefone não parava: “Apareceste 10 segundos na televisão, na claque do Sporting.” Eu estava com outros colegas do SC Braga e pensei, ainda vou ser suspenso à pala disto. No dia seguinte, cheguei ao treino e nem me deixaram treinar. O Artur Jorge chamou-me: “Afonso, o Salvador ligou para cá. Tens noção do que isto foi? Tu só não vais embora porque és um jogador que vai para a equipa B do SC Braga.” Não treinei a semana toda, mas fui jogar no fim de semana. Mas mexeu comigo, porque eu era um apaixonado pelo Sporting, ia sempre que podia disfarçado ver os jogos e dessa vez fui apanhado. Mas, voltando ao acidente no Boavista. Ia ver o Sporting e na A28, em frente ao campo do Leça, apanho um carro em contramão, que me destruiu o carro.

Ficou ferido?
Zero. Só queimaduras do airbag. Já tinha sido atropelado, com 15 anos, quando jogava no Sporting, à porta da minha escola, por isso costumo dizer que se for como os gatos já só tenho mais cinco vidas [risos]. Continuando, eu estava na faixa da esquerda, a andar rápido, e de repente sai da minha frente um jipe e aparece-me de frente um carro. Só tive tempo de me desviar, bateu-me de lado, eu não bati em mais nenhum carro, mas batemos na berma e o carro ficou ali, com os airbags de fora, montes de fumo. Fiquei completamente em choque. Lembro-me que liguei ao meu pai e não conseguia falar, não conseguia dizer nada. Como aquilo tinha sido logo a seguir ao jogo no Bessa, vinham pessoas de Boavista, que me apanharam e fui logo para o hospital, mas não tinha nada.

Ficou sem carro e sem dinheiro.
Destruiu-me completamente o carro, mas foi a melhor coisa que me aconteceu, porque como foi perda total acabei por receber um valor maior do que paguei pelo carro, ou seja, resolveu-me um problema [risos]. E o que isto tem a ver com o Petit? Passei a ir de metro para o treino, quis mostrar ao meu treinador que chegava a pé ao treino. Também mudei de chuteiras, passei a jogar com chuteiras pretas, sempre.

Sentia que assim passava um ar de maior humildade e menos vaidade?
Não é que isso me trouxesse humildade, não achava que me faltava humildade, porque a humildade não tem a ver com as posses ou roupa de marca, não ia mudar a minha essência. O que quis foi não dar azo a que me apontassem nada.

Hoje, o que pensa sobre os jogadores de futebol irem ver jogos dos clubes dos quais são adeptos?
Como eu fazia, não faz sentido porque há um respeito que devemos ter pela instituição. Mas sempre tive amigos em claques e quando o Sporting vinha jogar ao norte, eu estava com o meu irmão, com os meus amigos, vivia um bocadinho aquilo que gostava de viver e não podia, sem loucuras nenhumas. O problema é que eu não ia ver um jogo do Sporting para a bancada central, sem nada alusivo ao clube. Eu não conseguia diferenciar e a maneira como o fazia não está certa. Acho que não há problema nenhum em gostarmos de um clube, era impossível quem estivesse num balneário comigo não saber que eu era do Sporting, porque eu cantava as músicas no balneário, sou muito transparente. Aliás, aos 18 anos fiz a minha primeira tatuagem e foi alusiva ao Sporting.

É um leão?
Não [risos]. Eu já vivia em Braga e tinha 18 anos, pensei, vou fazer uma tatuagem do meu clube, mas sem as pessoas que não me conhecem perceberem. Fiz o “S” do Super-Homem, mas em verde. Lembro-me perfeitamente do Artur Jorge, num dia em que eu treinava de manga à cava: “Que tatuagem é essa?”; “Mister, gosto muito do Super-Homem”; “Verde?”; “É que também gosto do Hulk e acabei por juntar dois super-heróis de que gosto.” [risos] Arranjei maneira de me safar. Mas esse problema no SC Braga ajudou-me a compreender e a mudar a minha atitude.

Quer dizer, não mudou muito porque acabou de contar o acidente que teve quando já estava no Boavista, quando ia ver um jogo do Sporting…
Mas já ia sem nada alusivo ao Sporting, sempre de capuz e muitas vezes com aquelas golas do frio, em que só se viam os meus olhos. Passei a sentir a adrenalina de estar na bancada com os meus amigos, com o meu irmão, mas já ninguém sabia que era eu. Mas acabou no ano seguinte, quando me tornei profissional novamente, porque houve aquele período em que não tinha contrato profissional no Boavista.

Já lá vamos. Acabe de contar como ‘conquistou’ o Petit.
Como disse, passei a ir de metro, mudei as chuteiras e passei a ser um jogador que, independentemente do que me fizessem, treinava sempre bem. E eu sentia claramente que era melhor que o meu concorrente, o Costa. Aos poucos comecei a sentir um tratamento diferente da parte dele. Mas na primeira oportunidade que me deu, fui expulso.

Então?
Inacreditável. Os meus pais foram ver. Já nem me lembro onde foi o jogo. Levei um amarelo e depois outro, mas o segundo é muito injusto. Coisas que eu dizia que só me aconteciam a mim. Chorei muito nesse dia porque pensei que nunca mais ia ter uma oportunidade. O árbitro deu-me o segundo amarelo por achar que eu estava a retardar, porque estávamos a ganhar. Mas não. O meu colega não lançou a bola, ia lançar eu a seguir e ele veio e deu-me o segundo amarelo. Reagi mal, tiveram logo que me agarrar, porque pensei imediatamente, como é possível, a minha primeira oportunidade, joguei bem, isto é injusto, não fiz nada. Chorei muito nesse dia no balneário. Os meus colegas tentaram acalmar-me. Não joguei no jogo seguinte, mas depois joguei sempre e acabei por assinar contrato profissional para jogar na I Liga. O passo atrás para dar dois à frente concretizou-se como tinha idealizado.

É a altura em que se dá a reintegração do Boavista na I Liga, em 2014/15. Qual foi o seu jogo de estreia na I Liga?
Tenho aqui tatuado no pulso. Foi no dia 4 de janeiro de 2015, contra o Arouca. Mas antes disso há mais um choque. Na altura veio um brasileiro, Anderson Correia, para o Boavista, que jogava muito bem, e eu não conseguia jogar. O Boavista volta à I Liga e o segundo jogo é um Boavista-Benfica. O estádio cheio, 30.000 pessoas a ver. Passei de uma realidade em que jogava no CNS, contra equipas muito pequeninas e, de repente, estou ali, mas na bancada, porque não fui convocado.

O Petit alguma vez teve uma conversa consigo?
Nada. Sempre foi aquela pessoa que nunca deu muita conversa. Acabei bem a época, com muita motivação, I Liga, mas à medida que os jogos iam passando, o Correia ia jogando cada vez melhor. Isso mexia com a minha cabeça, fui-me abaixo, era difícil treinar. Houve vezes em que as coisas no treino também não me corriam bem, pela desmotivação.

Recorreu a ajuda psicológica?
Não, nunca voltei a recorrer. Nós tínhamos um psicólogo no Boavista, mas já estava numa fase de negação em relação a psicólogos, achava que era uma pessoa chata, que não me ia ajudar em nada. Frustrava-me muito, embora aceitasse um pouco melhor porque estava numa realidade diferente e tinha um colega muito bom.

Como chegou a sua oportunidade?
O Correia tem uma lesão grave, parte o pé, o Petit mete-me a jogar para a Taça de Portugal e a equipa perde. Perdemos com uma equipa da II Liga, o Desportivo das Aves e eu não estive muito bem no 3.º golo, perdemos por 3-1. Ele culpou-me completamente pela derrota. Disse que os jogadores que jogaram a primeira vez não estiveram ao nível.

O que aconteceu depois?
O Petit meteu um extremo a jogar a defesa esquerdo. Matou-me completamente. Era o meu 2.º ano de sénior, é normal errar, ainda para mais uma estreia, há alguma ansiedade. Deixei de jogar. Até que chega dia 28 de dezembro, um dia que nunca vou esquecer, jogo a Taça da Liga. Foi a minha última oportunidade.

Porque diz isso?
Estava a chegar janeiro, provavelmente eu ia ser emprestado. O treinador não contava comigo porque a partir do momento que mete um jogador de outra posição a jogar na minha, mostra-me claramente que não conto. Na altura, senti que ele me pôs a jogar na Taça da Liga para mostrar às pessoas porque é que eu ia embora e não tinha qualidade para jogar no Boavista. Foi o que senti, sinceramente. Lembro-me que no Natal eu ia sempre sair à noite no dia 25 com o meu irmão e os meus primos, tínhamos esse costume, e naquele ano não fui sair. Disse, não, vou jogar dia 28 e tenho que estar bem. Vou fazer tudo bem.

Devia estar uma pilha de nervos no dia do jogo, sendo como é.
Eu estava tão nervoso que fiz febre no dia 28, estava tão ansioso pela oportunidade, o jogo ia dar na televisão, eu nunca tinha jogado um jogo televisionado. Era contra o Belenenses, clube de que gostava. Lembro-me de estar no posto médico cheio de frio, muito fraco, mas fui para o jogo e foi o jogo da minha vida.

Pode fazer o relato?
Cada corte que eu fazia o público levantava-se. Cortei uma bola em cima da linha, que ia dar golo. Senti-me a crescer de minuto para minuto. Os meus colegas, especialmente os mais velhos, ajudaram-me muito porque viram que eu sofri. E conquistei o Bessa naquele dia. Deu na televisão, foi a minha maior sorte. No dia seguinte, nos três jornais desportivos, eu tinha sido o melhor em campo. O Petit não tinha como me tirar. O treinador não gostava de mim, mas eu conquistei uma parte muito importante do clube, os adeptos. Se calhar ia correr mal para o treinador, por muita moral que ele tivesse, não dar continuidade ao miúdo que foi o melhor em campo naquele jogo e que fez por merecer estar no jogo seguinte. E depois, sim, dia 4 de janeiro, dois antes de fazer anos, joguei na I Liga, estreei-me contra o Arouca e correu bem.

Já não estava tão nervoso?
Não. A minha confiança foi aumentando de jogo para jogo e cada vez me sentia mais jogador. Tive muita sorte em cair na graça dos adeptos porque no Boavista adoram jogadores com nervo e eu era um jogador que dava a vida em cada carrinho, eu festejava muito as nossas vitórias, era muito efusivo, e tinha pessoas que viviam o futebol como eu. Acabei muito bem a época. Fui jogar a Alvalade, que sempre foi o meu sonho. Mas o meu pai, nesse jogo, mesmo assim não levou a camisola do Boavista, foi de Sporting [risos]. Estava a minha família toda no estádio de Alvalade. É um jogo que me marca também porque nunca pensei estar naquele estádio, depois de tudo o que passei. O psicólogo depois vinha falando comigo e ajudou-me nessa altura [risos]. Eu lá cedi.

Passou a ser reconhecido na rua?
Lembro-me que a primeira vez que aconteceu foi depois de um jogo contra o FC Porto. Eu tinha um cão e fui à loja onde comprava sempre a comida dele e, de repente, a pessoa conheceu-me depois daquele jogo contra o FC Porto. Não ganhava bem, mas realmente as pessoas olhavam para mim com outros olhos. De repente ‘chovem’ empresários por todo o lado. Na altura diziam que eu era o lateral esquerdo da moda, era jovem e muitos empresários queriam-me.

Saíram notícias de que ia para o Sporting. Chegou a ser abordado?
Não concretamente, até porque eu não tinha empresário, mas o adjunto do Marco Silva era o João Pedro Sousa, que foi meu treinador três anos no SC Braga e joguei muito bem em Alvalade, até podia ter feito um golo. Não o fiz, porque sou muito emotivo. Se não tivesse essa carga emocional em cima de mim, tinha parado a bola e tinha feito o golo, mas quis logo chutar e fazer golo ao Rui Patrício [risos]. Esses pequenos pormenores podem mudar uma vida. Se faço golo em Alvalade, muito provavelmente eu tinha ido para lá no ano seguinte, era alguém da formação do Sporting, era um casamento muito fácil. Mas, de repente, o Jorge Jesus vai para o Sporting e o que me foi dito pelo empresário com que assinei é que havia interesse, mas o Jesus queria jogadores mais altos, mais fortes.

No final dessa primeira época na I Liga já queria sair do Boavista?
Sim. Mas tinha contrato e não me chegou nenhuma proposta. Saiu em muitos jornais que eu ia para Espanha, Itália, comecei a época muito ansioso. Mas eu era visto quase como um ídolo no Boavista na segunda época, porque fui o miúdo sensação da primeira. Os meus colegas brincavam: “Porra, mano, tu aqui neste clube podes tudo. Até podes jogar mal que eles vão bater palmas sempre.” Na apresentação da equipa, no segundo ano, se não fui o jogador mais aplaudido, foi quase. Isso também mexia muito com o meu ego.

Como começou essa época 2015/16?
Na 1.ª jornada faço golo ao V. Setúbal, o mercado estava aberto e eu pensei se não me vou embora agora, depois disto... Mas não fui. Acabei por ficar essa época toda no Boavista. Deixei-me só acrescentar uma coisa. O meu sonho não era ser jogador de futebol, era ser jogador do Sporting. Nunca tirei esse foco. Foi por isso também que acabei por cometer alguns erros na minha carreira, porque seria muito mais fácil se eu tivesse sido mais cerebral nas minhas tomadas de decisão e não tão apaixonado. Sou uma pessoa que é muito coração. O meu maior sonho no futebol era voltar ao sítio onde comecei.

Daí os jogos contra o Sporting serem também especiais?
Sempre. Era a oportunidade da minha vida, era aquele jogo em que eu tinha que brilhar e fiz grandes jogos com o Sporting. O meu irmão, inclusivamente, chegou a ficar chateado comigo porque empatámos uma vez no Bessa contra o Sporting, no ano do Jorge Jesus, em que o Sporting podia ter sido campeão. Eu perdi tempo, fiz o que fazia contra outras equipas. Eu queria muito que o Sporting fosse campeão esse ano, mas era um profissional e fiz o melhor. A seguir a esse jogo o meu irmão estava muito chateado comigo.

Voltemos à sua última época no Boavista.
Na minha cabeça já não estava tão bem como na anterior, porque havia aquela vontade de ir para algo melhor, achava que merecia subir um patamar. E nesse ano tive uma hérnia inguinal que me chateou a época toda. Joguei sempre muito limitado e nunca parei.

Já tinha casado?
Não. Nesse ano terminei a relação que tinha com a rapariga de Braga e acabei por me refugiar no futebol, porque passei momentos maus psicologicamente. Eu era super infeliz mal saía do treino, mas tive a sorte também de conhecer aquela que é hoje a minha mulher, a Rita.

Como se conheceram?
Ela é boavisteira, conhecia-a num FC Porto-Boavista em que fui para a bancada cheio de dores. Acabei por ir para a zona dos camarotes lá em cima, onde nunca tinha ido. O pai dela tinha um camarote, acabei por vê-la, gostei muito e a partir daí começamos a falar. Na altura ela estudava numa escola de hotelaria. Comecei a namorar com ela e as coisas começaram a correr muito bem. Acho que conheci a pessoa certa na altura certa. Começou a trazer outras coisas boas e a minha vida começou a fluir. Fui chamado à seleção.

Foi a primeira vez que foi chamado?
Sim, passei a formação toda revoltado porque não era chamado à seleção. No SC Braga merecia muito ir à seleção, muito mesmo. Com aquela época de juniores é um crime eu não ter ido à seleção. Isso sempre me frustrou, porque nunca tinha vestido aquela camisola, nunca tinha estado ao lado dos melhores. E, de repente, estou na Boavista, na I Liga, e recebo uma chamada para ir à seleção. Tudo muda. Estava a sair do consultório de um médico do Porto, por causa da hérnia.

E foi mesmo assim, com uma hérnia?
Perguntei logo ao médico o que podia tomar [risos]. Tomei de tudo. Acabou por correr bem, mas estive sempre muito limitado nessa época, foi muito difícil.

O que mais o surpreendeu na seleção?
Foi bom e muito fácil porque tinha o mister Rui Jorge e o Romeu [nos sub-21], que me conheciam bem. E depois tinha os meus colegas de sempre, do Sporting. Tinha o Ricardo Pereira, que foi quem me deu a notícia e que já estava no FC Porto, o Bruno Fernandes… Quando olho para os jogadores que lá estavam, toda a gente está em sítios de muito sucesso e eu não. Mas era um grupo muito forte e senti que merecia estar junto dos melhores. Foi uma experiência inacreditável. Foi dos momentos mais felizes que tive no futebol. Desfrutei muito. Vou contar um episódio porque acho que é engraçado.

Força.
Eu recebi a convocatória da seleção antes de um Boavista-Benfica e o mister Rui Jorge é alguém que liga muito às nossas atitudes, é uma pessoa que avalia tudo. Recordo-me que, nesse jogo, o Renato Sanches embrulha-se com um jogador da minha equipa num lance e eu, se fosse o Afonso que eu era, tinha ido para cima dele para tentar sacar um amarelo para ele, mas nesse dia pensei, “eles certamente estão a ver este jogo”. Tenho uma foto em que se vê eu a pegar no Renato, que era muito forte, e a tirá-lo da confusão. Ali já pensei na seleção, em dar o exemplo. Aquilo era o que devia fazer sempre, mas fiz a pensar na seleção.

Quando fez o último jogo pelo Boavista?
Em Moreira de Cónegos, em que garantimos a manutenção e no dia seguinte fui operado. Às vezes, eles exigiam que eu jogasse e eu não conseguia. Eu tossia, espirrava e morria de dores na virilha. Não me conseguia levantar da cama muitas vezes, com dores, porque foi uma lesão que se foi agravando. Pensava que era pubalgia, fazia de tudo, levava injeções e o clube achava que era exagero meu. Isso são mágoas que guardo. E paguei a operação do meu bolso, no dia a seguir a ter garantido a manutenção.

Não renovou porque não quis ou porque o clube não quis?
Eu não quis renovar com o Boavista no final dessa época. Os jogadores em janeiro estão livres de assinar por quem quiserem, se estiverem em final de contrato, que era o meu caso, e o Boavista até lá nunca teve o cuidado de abordar-me. Eu era o jogador mais mal pago do plantel. Eu e os que subiram na altura. Nunca houve essa proposta de renovação, porque se houvesse eu tinha renovado, sem dúvida alguma, mesmo que fosse a ganhar mais 500 euros. Só nessa parte final é que mostraram interesse e aí já tinha outras coisas e fui enrolando, enrolando.

É nessa altura que surge o interesse do Benfica?
Sim, através de outro empresário.

Não aconteceu porquê?
O meu pai veio ao Porto e o empresário disse: “O Benfica tem muito interesse que vás e é isto que temos para te oferecer. É um contrato de cinco anos, vais ganhar isto e isto.” Era muito pouco e eu já tinha clubes da I Liga, como o Belenenses, a dar-me quatro vezes mais. Em casa, refleti com o meu pai, por que é que um clube grande me quer pagar tão pouco por um período tão grande?

A que conclusão chegou?
Achei, genuinamente, que ia ser mais um jogador que ia assinar pelo Benfica para ser emprestado a outros clubes e que ia ser assim o meu trajeto, como aconteceu a vários jogadores, por isso acabei por rejeitar.

Antes de passarmos à saída para o Rennes, em França, não há histórias para contar do Boavista?
Lembro-me de uma. Nós costumávamos ir para o parque da cidade correr. Achávamos aquilo uma coisa old school, do tempo do Jaime Pacheco. O jogador de futebol não gosta nada de correr. Mas tínhamos de fazer um percurso a correr, em X tempo. Saíamos por grupos. Era muito duro, chegávamos ao fim com vontade de vomitar. Metiam alguns treinadores espalhados pelo percurso, para controlar, mas nós sabíamos os sítios onde eles estavam. E eu, rebelde e meio maluco, como aquilo era pelo meio do mato, das árvores, havia um momento em que eu cortava e metia-me a correr pelo meio do mato. Depois esperava num sítio quase na reta final. Eu e o meu grupo. Nós começávamos a contar, 1,2,3, etc. a partir do momento em que começámos a correr, que era para o tempo bater mais ou menos com o que tínhamos de fazer. Era engraçado porque nos escondíamos no meio das árvores e depois chegávamos, a fingir que estávamos muito cansados [risos]. Não sei se o Petit algum dia chegou a descobrir.

 

Parte II

Spoiler

Como e quando surgiu o interesse do Rennes, de França?
Sei que eles vieram ver jogos meus do Boavista, várias vezes. Entretanto, estava de férias na Indonésia e começaram a ligar-me várias pessoas a dizer que tinham o Rennes para mim, eu no desespero dizia que queria ir, mas que tinha empresário. Até que finalmente o meu empresário ligou-me a falar do Rennes.

Ficou contente de ir para França?
Fiquei. Era um clube que não conhecia bem, mas tinha lá um português.

 

Já lhe tinha passado pela cabeça sair do país? Era algo que ambicionava?
Eu queria muito, mas confesso que achava ser uma liga que não tinha nada a ver comigo.

Para que liga gostava de ter ido?
Para a espanhola. Tinha muito a ver com o meu futebol. É importante escolhermos algo que se enquadra com as nossas características. Mas fui para França, com um contrato incrível de quatro anos.

Foi sozinho?
Não. A Rita veio comigo. Namorávamos há pouco tempo, mas veio comigo. É engraçado que das primeiras perguntas que me fizeram no Rennes foi se era casado, via-se que era importante para o clube saber. Tinha uma estrutura incrível, provavelmente se fosse solteiro precisaria de mais controle e havia esse cuidado. Foi um passo gigante na minha carreira. Financeiramente mudou-me completamente a vida. Mas nunca tive noção do passo que tinha dado, a grandeza daquilo que eu tinha atingido.

Porque diz isso?
Quando cheguei ao Rennes tinha pouquíssimo dinheiro na minha conta, não conseguia poupar no Boavista, recebia muito pouco. De repente, estou num hotel na França e tenho de procurar casa, porque o contrato é tão bom que eles não dão casa, nem carro. Quando cheguei ao clube, era só carros inacreditáveis, um centro de treinos como nunca vi, um clube gigante, com jogadores incríveis. Tive de retardar o meu tempo no hotel ao máximo, até me cair o primeiro mês de ordenado para poder dar entrada para alugar uma casa. Não era mobilada, tive de ir às compras com a minha mulher, arranjar as coisas todas. Foi uma diferença de realidades brutal.

Sabia falar francês?
Zero. Comecei a falar com o tempo.

Que tal os primeiros treinos, o primeiro impacto com a equipa e treinador?
Cheguei a Rennes mal fisicamente, porque tinha sido operado nesse verão. Uma pré-época duríssima, muito diferente do que vinha habituado.

Pode dar exemplos?
O treinador era o Christian Gourcuff, uma pessoa mais velha e lembro-me de vomitar na pré-época, não conseguia acompanhar. Já falei aqui das minhas dificuldades físicas e, de repente, chego lá e são treinos de uma exigência que nunca tinha tido, em que eu desistia e eles continuavam a fazer. Eu pensava: “Será que tenho nível para isto?.” Depois ligou-me o mister Rui Jorge: “Afonso, estás convocado para os Jogos Olímpicos no Brasil.”

Como reagiu?
Acho que ainda foi maior a emoção do que quando recebi o telefonema da seleção pela primeira vez. Porque ia, realmente, representar Portugal numa competição como uns Jogos Olímpicos. Era um sonho. Ele avisou-me que os clubes estavam a dificultar muito, porque ia coincidir com o início dos campeonatos e perguntou-me se achava que o Rennes deixava-me ir. Estava no estágio e fui logo falar com o treinador, disse-lhe que queria muito ir. E ele: “Mas não vais. Não vais porque és um jogador novo, a pré-época é importante para ti, para te adaptares ao clube, e és um jogador com o qual o clube conta muito. Vemos valor em ti, temos de apostar em ti.”

O que sentiu?
Fiquei revoltado porque queria muito ir, mesmo. Aquilo custou-me, mas pronto, tentei focar-me no lado positivo que era aquela transmissão de confiança. Entretanto, começou o campeonato e eu nunca era convocado, ia jogar à equipa B. Isso ‘matou-me’ completamente, porque nem uma coisa, nem outra. Perdi a oportunidade única dos Jogos Olímpicos e de repente nem convocado sou, nem para o banco vou.

Foi-se abaixo psicologicamente?
Sim, psicologicamente, estive no fundo, nunca me tinha sentido assim. Não tinha confiança, sentia que não tinha qualidade para estar ali, tinha medo de ter a bola, queria ir logo embora assim que chegava ao clube, comecei a entrar numa espiral negativa de que foi muito difícil sair. Procurei ajuda com o Éder, porque foi uma pessoa que passou por alguns momentos difíceis na altura do Euro 2016. Ele deu-me muitos conselhos, alguns livros para ler e aos poucos e poucos fui ganhando confiança, sozinho, fui escalando a montanha aos poucos.

A sua mulher no meio disso?
Ela deixou o curso, falta-lhe uma cadeira, o francês [risos]. Ela tinha tudo aqui no Porto, uma vida ótima e de repente via-se sozinha a viver comigo na França, em que 90% dos dias eu passava triste, porque não jogava. Foi uma companheira gigante.

E os franceses?
Difícil, são pessoas muito frias. Fiz muitos amigos em Rennes, tenho muita empatia com o presidente, acabei por conquistá-los, digamos assim, com o meu trabalho, com a minha personalidade, mas no início foi muito difícil porque eu não falava a mesma língua. Cheguei lá com o carro da Rita, um [BMW] Série 1, com matrícula portuguesa e sentia que eles olhavam para mim como se eu fosse o jardineiro. Era uma diferença de tudo e mais alguma coisa. Era um mundo em que eu me sentia aqui, em baixo, e eles lá em cima. Se eles sonhassem com o que eu recebia no Boavista... O que eu recebia no Boavista era o prémio de empate do clube.

Como era a concorrência na equipa?
Tinham um jogador fantástico na minha posição, o Baal, por isso, era fácil de aceitar. Era um jogador muito experiente. Depois, a minha competitividade e a minha forma de treinar sempre ajudou quem competia comigo. Mostrei sempre ao meu concorrente que eu estava ali. Não facilitava, treinava muito bem e quando alguém se sente assim, apertado, sente também necessidade de não relaxar, ou seja, eu fazia-o estar bem ao fim de semana. Mas acabei o ano a ter algumas oportunidades que não esperava.

Sentiu que para eles o Afonso foi uma deceção, tendo em conta até que nem a pré-época aguentou?
Sim, eu acho que eles olhavam para mim com deceção, sem grande qualidade e a verdade é que depois estreei-me contra o Paris Saint-Germain para a Taça e fiz um grande jogo. Aí, sim, as pessoas passaram a olhar-me de outra forma e passou tudo a ser mais fácil. Porque eu sou um jogador de jogos. Sempre me senti mais confortável a jogar do que a treinar e mostrei que tinha qualidade para estar ali.

A atitude dos seus colegas mudou para consigo?
Sim, passam a ver-me de outra forma.

Sentiu algum tipo de xenofobia?
Vamos lá a ver, Portugal tinha sido campeão da Europa esse ano, o que não foi bom para mim. Não é que eles tivessem raivinha aos portugueses, mas sentia que falavam de nós muitas vezes com algum desprezo, que éramos pessoas que só servimos para fazer obras. Não posso generalizar, mas ouvia-se, sentia-se. Havia muitos emigrantes e a verdade é que a maioria tinha esses papéis, por isso senti que tinha de mostrar algo mais. Mas também sentia uma coisa que acho importante dizer, entre um estrangeiro e um francês, na França, o estrangeiro só joga se realmente for muito melhor que o francês, e eu concordo com isso.

Em Portugal não é assim?
Não, é muitas vezes ao contrário. Percebi que eles têm a mentalidade certa, porque o estrangeiro vem para cá como um investimento maior para o clube e, para jogar, tem de render. Era o que eu faria como diretor-desportivo, como presidente, como treinador, só vou querer estrangeiros para vir acrescentar qualidade, porque se for ela por ela fico com alguém que é daqui, que não precisa de adaptação, que fala a língua.

Lembra-se do seu jogo de estreia na liga francesa?
Foi com o Lyon. O nosso guarda-redes colocou uma mensagem no Instagram a dizer: “Muito contente por ti, mereces.” Senti que aquilo era genuíno. Porque toda a gente viu tudo o que passei e nunca deixei de treinar bem, nunca deixei de ir com um sorriso para o treino e acabei por conquistá-los a todos com o meu trabalho e perseverança. Ganhei alguma moral no segundo ano, em que cheguei mais tarde na pré-época, devido à minha lua de mel.

E chegou bem fisicamente?
Sim. Estava nas Maldivas, mas treinava diariamente. Um calor, à noite jogava futebol e lembro-me de chegar muito bem na pré-época, o meu treinador ficou satisfeito.

Mas jogou pouco nessa época 2017/18.
Cheguei muito bem, com uma confiança e vontade enormes, quem me visse dizia “este é outro jogador”, porque cheguei sem medo nenhum, já não havia aquela adaptação, com uma confiança de impor-me, mas não fiz um jogo a titular na pré-época. O Baal mantinha-se e pensei, isto vai ser como no ano anterior. Fui jogando pouco e na altura em que comecei a jogar mais, o treinador é despedido. Mais um azar. Aquele treinador conhecia-me, estava cada vez melhor, a ser cada vez mais opção, era convocado sempre, estava sempre dentro do grupo e ele é despedido.

Como correu com o novo treinador?
O Lamouchi meteu-me num jogo e estou ligado ao terceiro golo. Mais uma vez os terceiros golos tramam-me [risos]. A partir daí nunca mais contei. Ele meteu um lateral direito como defesa esquerdo. Isso ‘rebentou’ uma vez mais com a minha cabeça. Esperei tanto. Estava há ano e meio ali, sempre a trabalhar no máximo. Já não tinha empresário, mas estando no Rennes, claro que apareciam muitos empresários a dizer tenho isto, vais para ali, Standard Liège, o Rangers, equipas boas de todo o lado e acabei por ir para a Bulgária, que foi dos meus maiores erros.

O Levski de Sófia?
Sim. Fui bater à porta do presidente do Rennes, porque nem ele, nem o diretor-desportivo atendiam o telefone ou respondiam às mensagens do empresário que tinha a proposta do Levski. Fui lá implorar-lhe para me deixar ir embora e ele não queria. Ninguém no Rennes queria que eu fosse embora, mesmo sem ser opção para aquele treinador. Lembro-me que, no último dia, antes de fazer a viagem para a Bulgária, acabei o treino a fazer sprints e eu era sempre o primeiro a acabar. O Lamouchi, que detestei porque não tinha empatia nenhuma comigo, virou-se para mim e disse: “Fogo, tu és um gajo do caraças. Tu não jogas, mas estás sempre no máximo, tens uma atitude... Dou-te os meus parabéns.” Não contou nada porque eu ia embora.

Não lhe respondeu?
Não, mas pronto, convenci o presidente a deixar-me ir e tinha outro empresário francês com uma proposta de empréstimo para a II Liga francesa, para um clube muito bom, mas estupidamente disse que não ia para a II Liga, quando é uma liga com um ótimo nível e esse clube acabou por subir. Tinha tudo para dar certo, mas aconselhei-me mal e fui para a Bulgária.

Como reagiu a sua mulher quando lhe falou na Bulgária?
Mal, estava grávida. Estávamos em França, numa casa ótima, numa cidade tranquila, perfeita para termos o nosso bebé, de repente, vamos para a Bulgária em janeiro, estão 14 graus negativos, não reagiu nada bem. Mas eu disse-lhe que estava farto de sofrer.

Porquê o Levski se diz ter tido outras propostas?
Porque tinha de ser um clube que suportasse metade do meu salário. O Rio Ave na altura queria-me, outros clubes também, mas em Portugal não dava. Tive de ir para um sítio onde eles cumprissem com isso.

Tirando o frio, qual foi o primeiro impacto quando chegou?
Onde é que eu me vim meter? [risos].

Porquê?
Um hotel muito bom, em Sófia. O clube era equiparado ao Benfica, porque era o clube com mais adeptos da Bulgária, onde há também três clubes grandes: Ludogorets, CSKA e Levski. Havia muitos portugueses no CSKA, com quem me dava muito bem. Isso ajudou a ir. Quem me dera que eles não estivessem lá, porque se calhar eu não tinha ido. Eu aconselhei-me com os do CSKA, disseram-me que o defesa esquerdo do Levski era horrível e que eu ia jogar de caras.

Confirmou-se?
Não, para mim, o defesa esquerdo, o Ivan Goranov, era um ótimo jogador. Um jogador muito forte fisicamente, búlgaro. A Rita veio comigo e passamos logo por um problema porque a Rita fica muito doente.

O que aconteceu?
Ela estava grávida e ficou super constipada. Fui ao hospital com ela e nesse dia encontrei o meu treinador, o Délio Rossi, italiano, no hospital. Cumprimentou-me e à minha mulher. Isto foi numa quinta-feira, jogávamos sábado e ele convocou-me para ir ao jogo. Só que convocou 19 ou 20 jogadores, só podem ir 18 e deixou-me de fora. Fiquei revoltado. Como é possível alguém que me viu no hospital com a mulher grávida, doente, convocar-me para ficar na bancada a ver um jogo, quando podia estar em casa com ela, que está sozinha neste país comigo? Eu, vindo de uma equipa como o Rennes, tinha um estatuto grande e fui-lhe bater à porta, na segunda-feira. Disse-lhe isto mesmo e foi a pior coisa que fiz, claro, porque comprei uma guerra.

O treinador reagiu mal?
Sim. Disse logo: “Se não queres ajudar a equipa, podes ir embora”; “Não, mister, eu quero muito ajudar a equipa, mas eu de fora não vou conseguir ajudar nunca. Se me tivesse levado para o banco em que há a possibilidade de entrar eu percebia. Aqui não estamos a falar de futebol. Estamos a falar de algo que é muito mais importante. A minha mulher está grávida, super doente, você viu e não teve esse cuidado. Isso é que me magoa.” A partir dali, quase nunca joguei. E um jogador não jogar quando está emprestado… Eu já sabia que tinha a sentença assinada e que o Rennes ia querer despachar-me. Jogava um jogo, a seguir já não jogava e foi isto a minha vida na Bulgária.

Como era a relação com os búlgaros?
Nada de especial, não me dava muito com eles. Tínhamos muitos estrangeiros e vivia num condomínio em que éramos só portugueses. A minha mulher acabou por adorar lá estar porque tinha muitas amigas portuguesas, elas juntavam-se quando nós íamos para o estágio. Fomos muito felizes, os cuidados médicos eram incríveis, as clínicas surpreenderam-me muito.

O seu filho nasceu onde?
O Mateus nasceu em Portugal, ela veio embora mais cedo. Fiquei lá sozinho. E para o final o clube já não estava tão simpático comigo, até tive algum medo que viessem a minha casa fazer algumas coisas.

Porquê?
Porque os búlgaros eram muito ameaçadores. Eu dava-me muito com os portugueses da equipa adversária, era como se fosse Benfica-Sporting, e os adeptos não gostavam disso. Não sabem distinguir as coisas.

Conseguiu assistir ao parto do seu filho?
Sim, porque me tinha lesionado e pedi ao treinador para me deixar vir. O Mateus nasceu no dia 25 de maio, o dia que tínhamos programado, que era o meu número, 25.

Porque sempre quis jogar com o 25?
Por causa do João Vieira Pinto. Ele era o 25 no Sporting e eu disse que sempre que pudesse, jogava com o 25. No Levski correu mal, porque tiraram o número a um miúdo e eu não gostei disso quando soube, eu não pedi para me darem o 25.

Já não voltou a Sofia?
Não. Trouxe logo as malas todas. Não queria voltar. Tinha que ficar lá até x tempo e não fiquei, não respeitei essa parte final. Eles queriam que eu voltasse por causa da lesão muscular que tinha. Entretanto, na Bulgária tinha assinado com o meu empresário, com quem fiquei até final da carreira, o António Teixeira, da Promo Sport e nunca tive de voltar a Rennes. Também porque a minha casa em Rennes foi assaltada. É estranho dizer isto porque aconteceu a outros jogadores, mas acho que aquilo foi mais ou menos programado.

Porque afirma isso?
Penso que o objetivo era causar medo. A minha mulher, por exemplo, disse logo que nunca mais queria voltar. E não levaram nada, vasculharam a casa toda, levaram só uma televisão. Tinha lá as chaves do meu carro e o carro e só levaram uma televisão, de tudo de muito valor que podiam levar.

Há pouco disse que no final o clube já não estava tão simpático consigo e sentiu medo que lhe fizessem alguma coisa. Porquê?
A lesão aconteceu mesmo, mas para eles parecia que tinha sido inventado e logo aí começaram os problemas, as intimidações.

Que género de intimidações?
As palavras que o diretor me dizia: "Pensas que estás a brincar com quem? Não tens noção do que pode acontecer". Coisas deste género. Eu era quase sempre o último a ser pago. Sorte minha que mal assinei o empréstimo, o Rennes pagou-me os seis meses de uma vez. Era um clube realmente diferente, tinha um poder financeiro enorme, e de trato também. Queria muito voltar a Rennes com o meu filho, porque criei uma relação muito boa com as pessoas. Tenho muita pena de não ter ficado os quatro anos.

Quando o seu filho nasceu, não quis voltar a Sofia e o que aconteceu depois?
O Rennes perguntou como era a minha vida na época seguinte, uma vez que tinha jogado pouco e não sabiam se ia haver espaço para mim. Eu já tinha o presidente do Rio Ave a falar comigo. O Rio Ave ia à Liga Europa. E eu, embora, vamos voltar a Portugal.

Rescindiu?
Sim, mas o meu empresário fez um bom acordo, aí, penso que pesou sempre tudo o que fiz no Rennes, porque me pagaram quase 70% do contrato. Ou seja, vim para Portugal com um salário alto no Rio Ave. E com o Rennes ainda a pagar-me as prestações. Só que eu fui para o Rio Ave pela mão do presidente, não foi o diretor ou o treinador que me contrataram. O presidente falava comigo: "Afonso, vamos à Europa juntos". Eu dizia à minha mulher, temos o nosso filho, estamos em Portugal, é perfeito.

Antes de voltarmos a Portugal, não tem histórias para contar do Rennes e do Levski?
Tenho uma engraçada de um jantar de equipa do Rennes. Era o jantar de Natal só de jogadores. Éramos mais de 20 pessoas, um jantar caro e no final os capitães tiveram a ideia de juntar os cartões de crédito de todos num saco. Aquilo foi uma festa. À medida que cada cartão saia, quem ficava livre de pagar a conta fazia uma festa, foi um momento muito bom do jantar, já todos tínhamos bebido uns copos, tudo alegre e feliz. Mas eu às tantas comecei a ficar muito nervoso porque o meu cartão nunca mais saia, azarado como sempre. Já no final, apareceu o senhor das flores, compramos-lhe as flores todas e dissemos para ser ele a tirar o último cartão. O senhor tira o cartão e era o cartão do meu colega, ou seja, o meu cartão foi o último a ficar no saco no meio de 20 e tal pessoas [risos]. Eu já nem conseguia estar alegre, só pensava no balúrdio que ia pagar por causa de uma brincadeira.

Teve de pagar a conta toda?
A determinada altura, estava eu a pensar nas minhas poupanças, estou a ir para cima para pagar e o Yoann Gourcuff que era o filho do treinador, veio muito calmamente: "Afonso, não precisas, está pago". E foi uma alegria, a partir daí voltei ao estado de loucura em que estava antes [risos]. Foi um momento engraçado, depois difícil e tive uma ação de uma pessoa fantástica.

Jogou pouco no Rio Ave. O que correu mal?
Tinha uma concorrência forte, o Matheus Reis que está atualmente no Sporting. Na pré-época, como eu estava com problemas com o Levski, só podia ser oficializado no Rio Ave a partir de uma determinada data. Até lá eu não podia aparecer nunca. Ou seja, tínhamos jogos amigáveis e eu não podia jogar. Acabei por perder muito da pré-época, porque não jogava, era o Matheus que jogava, logo aí comecei a perder o lugar. Depois, a 31 de agosto, o Fábio Coentrão assinou pelo Rio Ave. E aí arrependi-me muito mesmo, pensei, agora sim foi a machadada final, o que fui fazer à minha vida. Mas acabei essa época a jogar, já era Daniel Ramos o treinador. Mas o meu KO no Rio Ave é outra situação.

Que situação?
Joguei contra o FC Porto, porque o Coentrão não estava em condições físicas, tinha alguns problemas, fiz um grande jogo, empatamos a dois golos e pensei que ia jogar sempre até ao final. Surpresa minha, treinei a semana toda a titular e sexta-feira: Fábio titular, Afonso banco, Matheus na bancada. Era um jogo com o Moreirense e no final do jogo o diretor-desportivo veio ter comigo, viu que eu estava muito triste: “Afonso, para o ano não há Fábio”, como quem diz, para o ano és tu e mais 10. E eu respondi: “Não há Fábio, nem Afonso, porque só jogo quando vocês precisam”. Também me arrependo, porque se tivesse ficado calado... Mas eu já vinha de muito sofrimento passado, fui enchendo até que comecei a responder a certas coisas, a certas injustiças.

O que aconteceu a seguir?
Nesse verão o meu empresário ligou-me a dizer que tínhamos de procurar clube porque o Rio Ave não queria que eu continuasse. Eu tinha dois anos de contrato.

E vai para o Desportivo das Aves.
Um pesadelo, nunca quis ir para lá, mas o contrato era dentro do que eu recebia no Rio Ave, que era muito, durante três anos. Três anos em Portugal a receber aquilo, não ia ter em mais lado nenhum. Era Augusto Inácio o treinador.

E que tal?
Uma pré-época boa, as coisas correm muito bem. O capitão vai embora uma semana antes de começar o campeonato e eu sou escolhido para capitão de equipa, por todos no balneário. Não podia ter começado melhor. Comecei a jogar muito bem, mas depois o clube teve imensos problemas financeiros. E a parte de ser capitão mexeu muito comigo, porque tive de fazer muito mais do que ser jogador de futebol. Tive de ser diretor-desportivo, motorista de colegas… Eu vinha de uma realidade financeira muito boa, eles viam, não me sentia bem em não ajudar colegas que passavam por dificuldades, não recebíamos há meses e meses. Água fria no balneário. Eu pensava: como vou explicar ao filho do Zidane que Portugal não é isto? Porque os estrangeiros, que eram 90% da equipa, passavam a vida a dizer mal de Portugal. E eu a tentar apagar fogos. Depois comecei a bater de frente com a direção.

Porquê?
Porque queriam que eu tentasse amenizar as coisas, mas eu não conseguia, para mim não dava fingir que estava tudo bem. Eu via pessoas a sofrer muito no dia a dia. Eu estava bem, mas isso não me fazia sentir confortável em relação aos meus colegas.

Ajudou algum colega financeiramente?
Diretamente não porque nunca me pediram, mas arranjei pessoas para os ajudar financeiramente, o Bruno Fernandes, o Ricardo Pereira, e outras pessoas. Fui um defensor a 200% daquele grupo, até ao fim, queimei-me muito por causa disso. Comecei a não jogar, a ser afastado, mas nunca deixei de lutar por eles. Tive muitas discussões com a diretora-desportiva da altura, falei sempre à frente de todos, disse tudo o que pensava. Muitas vezes ela queria que eu lhe contasse o que diziam no balneário e nunca, nunca quis fazer esse papel. O meu empresário, disse-me milhares de vezes: “Afonso, por favor, deixa de ser capitão, porque isso é um peso muito grande, principalmente nesse contexto”. Mas levei o barco até ao fim. Muito jogador rescindiu o contrato e deixou de jogar e eu fiquei lá até acabar. Podia ter ido embora com justa causa, mas fiquei até ao fim e o clube acabou, perdi muito dinheiro e desportivamente quem fica ligado àquela descida, àqueles resultados, àqueles jogos que foram maus, porque tínhamos um plantel fraco, era muito difícil arranjar clube depois disso.

Temeu pelo futuro profissional?
Sim, apesar de estar na I Liga, porque também fui alguém que não colaborou com muita coisa, ia ser visto um bocado como um revolucionário, os clubes falam entre si. Quem perguntasse informações minhas não ia receber boas indicações porque nunca consegui pôr-me do lado da direção, estive sempre do lado dos meus colegas, mas também nenhum deles se atravessou por mim.

Acabou por ir para o Moreirense. Como?
Estive o verão todo sem clube. Entretanto, os campeonatos começaram e eu não tinha encaixado em lado nenhum, até que me ligou o empresário, porque o Moreirense tinha ficado sem lateral esquerdo, o Pedro Amador, que teve uma lesão grave no joelho. Foi a melhor coisa que me aconteceu.

Tinha Ricardo Soares como treinador, gostou dele?
Muito bom. Tive muita pena de ter trabalhado pouco com ele, porque, entretanto, ele foi embora. Veio o César Peixoto que também foi fantástico e com quem tive uma relação muito boa, gostei muito das ideias dele, mas tive lesões complicadas. Tive uma rotura de ligamentos no pé, num jogo com o Tondela, houve uma altura em que o clube parecia que não acreditava na minha lesão e tenho um acidente de mota nesse ano [risos].

Acidente de mota? Não está proibido andar de mota?
[Risos]. A mota era do meu sogro e eu usava para dar umas voltinhas aqui no Porto de vez em quando. Ia a chegar a casa e levei com um carro, parti o pulso. No dia seguinte tive de fingir, porque se o clube soubesse que eu tinha andado de mota podia rescindir o contrato, não podíamos fazer atividades de risco.

O que disse no clube?
Disse que caí a andar de bicicleta com o meu filho. Tinha gesso, não treinava, foram azares em momentos maus. Deixei de jogar. Veio o Vasco Seabra, gostei muito dele, mas também não jogava. No entanto, fui muito feliz porque tinha um grupo espetacular. Eu era uma pessoa muito importante no grupo e sentia isso, jogando ou não jogando. Dava-me bem com todos, roupeiros, fisioterapeutas, toda a gente gostava de mim. Sempre achei que no final ia renovar contrato.

Foi uma desilusão quando percebeu que não queriam renovar?
Um bocadinho. Mas não guardei rancor nenhum porque fui muito feliz. Tenho milhares de vídeos de palhaçadas, vivi muito aquele balneário, foi inacreditável e tenho grandes amigos desse ano. Foi mais um verão sem clube.

Depois veio para Lisboa porque só apareceu Estrela da Amadora?
Sim, não tive mais nenhuma proposta.

Veio sozinho?
Sim. Fui viver para um T0, em Alcântara, que era do meu padrasto. Foi uma época em que joguei muito e fui bastante feliz nesse sentido, porque tinha um treinador que me adorava e eu adorava-o, o Ricardo Chéu. Fui muito feliz em Lisboa, onde nunca tinha vivido na idade adulta. Saí com 17, voltei aos 28 anos, e foi bom estar perto dos meus pais, do meu irmão, dos meus avós. Foi bom voltar a casa, mas faltou-me a minha família. Muitas lágrimas do meu filho, porque o Mateus já tinha quatro anos. Eu vinha a casa quase todos os fins de semana, e quando tinha de voltar para Lisboa, era difícil, ele chorava muito. Acho que o traumatizou um bocadinho. Ele nunca chorou à minha frente, nas despedidas, mas mal eu fechava a porta, ele desabava. Naquele tempo em que eu esperava o elevador ouvia-o a chorar.

E desabava também?
Claro. Mas à frente dele também não. Ele sabia que ia pôr-me a chorar e não chorava, é incrível como uma criança de quatro anos tinha essa sensibilidade. Entretanto, a minha mulher estava grávida da Alice. Chegou uma altura em que disse para mim: não gosto assim tanto disto para estar longe deles. Ou estamos todos juntos, ou isto não vale assim tanto. Fiz essa reflexão no final do ano, depois nasceu a minha filha, em 2022, e tive alguns problemas porque fui assistir ao nascimento. O diretor-geral do clube não me deixou ficar no Porto, eu tive de ir treinar, mas ainda por cima tinha levado o 5.º cartão amarelo, nem podia jogar. Ou seja, a minha mulher ficou sozinha no hospital, devido ao Covid não podia entrar mais ninguém. Foram coisas que acabaram por me deixar triste.

Teve hipótese de renovar ou não?
Sim, houve a possibilidade de renovar no Estrela e arrependo-me porque a seguir o clube sobe de divisão. Mas eu não queria ficar longe da família. Não aparecia mais nenhum clube e decidi que ia deixar de jogar futebol nesse ano.

Mas ainda jogou no Penafiel.
O Penafiel ligou-me, estava eu no Algarve de férias, já sem treinar como sempre fiz. Mais uma lesão de um jogador e abriu-se outra porta. Mas já não fui com a mesma vontade. A paixão acabou por morrer um bocadinho. Cheguei, joguei, até ter uma lesão mais ou menos grave no joelho e fiquei três meses de fora. Depois chegou o Hélder Cristóvão, que me fez desapaixonar ainda mais do futebol.

Porquê?
Ele apanhou-me numa fase descendente a nível psicológico e só ajudou a afundar ainda mais. Não foi correto muitas vezes.

Em que sentido?
Cheguei a perguntar-lhe no balneário: “Mister, o que eu preciso para ser convocado?”. Porque quando ele chegou eu estava a voltar da lesão. Uma vez até brincou no posto médico. “Não apresses o Afonso que eu já tenho dois laterais esquerdos”. Meio na brincadeira, mas alguém que está lesionado, ouvir isto... Depois eu voltei e ele metia-me a treinar a lateral direito, a defesa central, muitas vezes ficava de fora. Eu não entendia e fui falar com ele, disse-lhe que estava a pensar deixar o futebol. “És maluco, com a tua qualidade…”. Mais uma vez fui à guerra mostrar que treino melhor que os outros. O defesa esquerdo que estava a jogar errou muitas vezes, em jogos seguidos, nunca joguei depois disso, as oportunidades que tinha metia-me a entrar como lateral direito, eu sou defesa esquerdo. E depois há uma semana em que me mete a treinar a defesa-central na equipa titular. Faço uma semana incrível. Chegou o fim de semana, não me convocou.

O que fez?
Fui mais uma vez bater-lhe à porta: “Mister, posso fazer tudo o que fizer, não vou ser opção. Já vi que não vou jogar, portanto, não me convoque mais”. Ele acabou por virar isso contra o grupo. Dizia: “Há aqui gente que já não quer ajudar”. Tentou que as pessoas se virassem contra mim, mas felizmente os jogadores, as pessoas viam que eu era um jogador de grupo, que sempre dei tudo, independentemente do que me fizessem e sempre os tive do meu lado. Ele pediu-me para falar várias vezes em momentos maus, à espera que eu rasgasse os meus colegas, dizia: “Afonso, o que achas que está mal aqui?”. Eu só respondia: “Nada, mister, acho que não sou a melhor pessoa para dizer”. Tentei sempre me manter neutro. Basicamente, o Hélder deu-me o pontapé final que precisava para deixar de jogar futebol, porque a cabeça já não estava bem, já não suportava injustiça.

Fez um ano, no passado dia 22, que jogou pela última vez, em Faro. Já sabia o que queria fazer depois de pendurar as chuteiras?
Não. Essa era a grande luta que tinha na minha cabeça, porque andava a pensar há dois anos nisso. Entretanto, no Moreirense, tirei o curso de treinador.

Com que objetivo?
Porque queria ter um plano B. Já que tinha a facilidade de poder ir logo para o nível 2, fui fazer. E no ano do Penafiel fiz o estágio, era treinador-adjunto numa equipa de sub-19.

Gostou da experiência?
Adorei. Eu dizia à minha mulher, infelizmente estou a gostar muito. Porque ser treinador é muito pior que ser jogador. A instabilidade, as horas... E do que eu tinha mais saudades era da estabilidade. Às tantas comecei a ir a alguns podcast e, para surpresa minha, esses podcasts começaram a ter muito sucesso. Ali tive um sinal. Porque não faço o meu podcast? Toda a gente me vê com qualidades para isso, porque não crio a minha própria coisa? Comecei a ter ideias do que queria fazer, o que queria montar…

Era o quê em concreto?
Queria trazer o melhor que vivi no futebol, ou seja, contei aqui se calhar mais episódios negativos do que positivos, mas os positivos foram todos à volta do mesmo, de pessoas fantásticas, de histórias fantásticas e isso é a única coisa que hoje tenho saudades do futebol, do balneário, das palhaçadas, sempre vivi muito os balneários onde estive. Era isso que eu queria, sentar-me aqui com colegas de profissão, amigos, treinadores e termos, não uma entrevista, mas uma conversa em que falássemos de coisas que fossem importantes para as pessoas ouvirem, os miúdos ouvirem, coisas boas, coisas más, uma conversa diferente. Não sabia o que podia dar-me em termos de rendimento, mas era isto que queria.

Já gravou quantos episódios do “Entrelinhas”?
Uns seis. No dia em que tenho a gravação sinto o mesmo nervosismo que sentia quando ia jogar. É algo que me dá adrenalina e é bom.

Arranjou forma de ter rendimento com o podcast?
Não. Tenho um patrocinador que acreditou do meu projeto e ajuda, mas os apoios é para pagar os custos que isto envolve, como a edição, por exemplo. Mas tem-me aberto portas porque vou recebendo alguns convites para ir à televisão. Tenho ido à Sporting TV. Entretanto, comecei a trabalhar para o Sporting.

Está a fazer o quê?
Estou com os eSports, os jogos virtuais. Basicamente sou o host de um novo projeto nesta área. Sempre tive o sonho de jogar no Sporting, nunca consegui, mas estou no Sporting de outra forma. Estou a aprender muito nesta área da comunicação. Estou a trabalhar para o clube que eu gosto. Vou a Lisboa duas vezes por semana. Estou uma pessoa feliz, coisa que já não era no futebol e essa felicidade e boa energia levou a que se abrissem janelas.

A ideia de eventualmente ser treinador está posta de lado?
Está e não está. Eu estou a tentar fazer quase um luto ao futebol. Voltei a jogar futebol recentemente com amigos. A minha mulher estava muito curiosa para saber como eu vinha para casa, porque acho que ela ainda tem esperança que eu volte a jogar. Percebi que o futebol nunca vai morrer dentro de mim, mas eu queria fazer um ano sem jogar. Mas eu acho que tenho características que me poderiam fazer ser bom treinador. O próprio mister Rui Jorge já teve uma conversa comigo desde que deixei o futebol, em que me disse que acha que eu tenho essas características. Ouvir isso de alguém que eu tanto admiro, acabou por mexer um bocado comigo. Acho que há um caminho a fazer nesse sentido, não sei quando. Mas eu gostava muito também de viver essa experiência, de ser treinador de uma equipa de sub-19, porque gostava muito de começar pela formação. Até porque gostava de ser um Rui Jorge também para alguns miúdos, porque os posso ajudar a ser jogador de futebol. Vamos ver.

Onde ganhou mais dinheiro?
No Rennes.

Investiu?
Investi em imobiliário, na construção de um prédio. Tenho agora um café "Flor de Cacau", em parceria com a minha mulher e o meu sogro.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Fazer a pesagem de ano no Brasil com a família. Se calhar gastei bastante dinheiro, mas sempre tive o sonho de ir ao Brasil, dou-me muito bem com brasileiros, a vida toda joguei com brasileiros e eles diziam que eu sou um brasileiro que nasceu em Portugal e eu adoro a mentalidade deles.

Tem algum hóbi?
Agora adoro jogar padel. Sou viciado, tenho aulas todas as semanas.

É um homem de fé?
Não.

Superstições?
Só com o Sporting agora, tenho de ir com o meu filho, não vou ver o Sporting sem ele, porque sem ele não correu bem.

Ele joga futebol?
Joga. Há coisas que ele tem minhas que eu não gostaria que tivesse, como este lado de pensar muito nas coisas. É muito emotivo também, festeja muito. É muito uma fotocópia minha.

Além da tatuagem do S de Sporting, que outras tem e que sejam mais importantes?
Todas, não fiz nada por acaso, tudo tem um sentido, mas se calhar a última, que são quatro leões e simboliza a minha família.

Qual a maior frustração da carreira?
Não ter chegado onde idealizei, à equipa A do Sporting.

E o maior arrependimento?
Ter saído do Rennes.

O momento mais feliz da carreira?
A minha ida à seleção.

Objetivo que ficou por cumprir?
Acaba por ser o mesmo da frustração.

Não vale perguntar qual o clube de sonho onde gostava de jogar, mesmo que pudesse escolher qualquer um do mundo…
Sporting [risos].

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Ricardo Pereira, que vem desde o Sporting, e o David Simão que apanhei no Moreirense. Martim Águas, que acompanhou também sempre o meu percurso. Tenho outros, mas estes três são os que me marcaram mais.

Alcunha, tem ou teve?
No râguebi toda a gente me chamava Afonsinho, porque eu era muito pequenino.

Alguma lei do futebol alterava ou bania?
Sim, acho que devia haver um número máximo de estrangeiros por equipa.

O que pensa do VAR?
Sou muito a favor, porque vivi o futebol sem ele. É fundamental.

Tem algum talento escondido?
Não há nada de especial. Faço bem brigadeiros, porque fui tirar o curso. Não tinha nada para fazer... Atualmente, faço brigadeiros para o nosso café. Foi um hóbi que se tornou sério porque as pessoas começaram a gostar.

Qual o momento mais difícil da sua vida?
Descobrir que o meu padrasto tinha cancro, porque ele é como um pai para mim. Descobri na altura do Desportivo das Aves. A morte do meu avô também foi um momento difícil.

Como defesa esquerdo, qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
O Ricardo Quaresma. Foi alguém que me deu muito prazer e enfrentar, era muito irreverente, muito difícil de perceber o ia fazer.

Se não tivesse sido jogador, o que teria sido?
Provavelmente advogado.

Qual o melhor conselho que pode deixar a um jogador que está agora a iniciar a sua vida profissional?
Dar sempre o máximo. Sempre. Havia jogadores muito melhores que eu, mas sei que quis mais do que muitos e o querer é muito importante. Focar-nos e estabelecer objetivos é muito importante. E serem felizes, é muito importante.

Nota-se alguma mágoa no seu discurso. Sente que foi mais infeliz do que feliz na carreira?
Acho que foi ela por ela. Mas julgo que os momentos bons superam, sem dúvida, os maus. Porque os bons são muito intensos e é fácil de os relembrar. Se falei aqui de algumas coisas menos boas, provavelmente é porque estou no tal processo de luto do futebol e porque prezo muito a verdade e dizer o que sentimos. Mas não guardo rancor a ninguém, mesmo.

Tem uma última história para contar?
Vou contar uma, que nunca contei e já sei que pode ser polémica porque vão levar isto para a clubite. Sempre fui muito odiado por adeptos do Benfica, mas tenho vários amigos no Benfica, é um clube que respeito muito e não tenho ódio nenhum, simplesmente é um rival do clube que gosto. Mas, fui suspenso dois jogos, porque a seguir a um Benfica-Rio Ave, fiz um tweet que, acredito, mudou também um pouco a minha vida. Eu escrevi qualquer coisa do género: "É triste que sempre que um pequeno assusta um grande haja sempre alguém para os ajudar". Depois escrevi um P.S. que dizia: "O campo não tinha buracos". As pessoas quiseram levar aquilo para o caso e-toupeira de que se falava na altura, mas honestamente, não escrevi com essa intenção.

Escreveu a pensar no quê?
Basicamente porque me pareceu que houve um penálti inventado, em que um avançado do Benfica tropeçou. Eu quis referir-me a isso. Nunca pensei que tivesse o impacto que teve e foi muito negativo para mim. Fizemos um jogo brilhante na Luz, foi dos jogos que mais desfrutei e, no dia seguinte, quando cheguei ao treino, o presidente do Rio Ave veio falar comigo para dizer que o Luis Filipe Vieira estava farto de ligar-lhe. Perguntou-me como fui fazer uma coisa daquelas. Eu respondi-lhe que só defendi o Rio Ave, o clube dele, porque fomos claramente prejudicados e acrescentei: “Peço-lhe desculpa se eu não consigo ser prejudicado e não falar nada”. A vassalagem dos clubes mais pequenos aos grandes, eu entendo, mas revolta, eu estou lá dentro, corri 90 minutos e custa-me muito ser prejudicado.

O que aconteceu depois disso?
Na jornada seguinte, jogou a mesma equipa, menos eu. E fui suspenso dois jogos pela Liga, quando já houve pessoas a dizer coisas bem piores. Tenho um enorme respeito pelo Benfica, como tenho pelo FC Porto, e por todos os clubes, porque não tinha graça para um clube grande não ter estes rivais. Faz parte. Tenho imensos amigos benfiquistas, mas mexi com as pessoas erradas, numa altura que não devia, e arrependo-me muito de ter escrito isso, porque me tinha protegido e não tinha recebido tantas ameaças como recebi.

 

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Esta entrevista devia era estar no núcleo do Sporting, porque o Afonso é um grande leão e muito mais sportinguista do que alguma vez foi futebolista. Ainda no Domingo esteve no Solar com o miúdo, antes do jogo.

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Bem, muita coisa da carreira dele fica explicada.

É sempre culpa dos outros; sempre que fala que podia ter feito algo diferente aparece um "mas" depois.

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Citação de Erwin, há 1 hora:

Bem, muita coisa da carreira dele fica explicada.

É sempre culpa dos outros; sempre que fala que podia ter feito algo diferente aparece um "mas" depois.

Li a entrevista e pensei em ligar para a APAV.
Não gostava de treinar, não gostava de correr, não cumpria as normas dos clubes e teve sempre grande concorrência como o Correia, lenda do Anorthosis ou o Baal.
Uma pena. 

E bloqueou-me no Twitter depois do Boavista-Sporting. 🤣

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Diz que tinha pouco dinheiro na conta e não conseguia poupar nada mas andava de férias na Indonésia?

Depois chegar atrasado á pré-epoca por causa da lua de mel? Que treinador vai gostar disto?

Gosto muito destas entrevistas porque há jogadores que se fica a pensar "mas porque é que este gajo não vingou? Porque é que os treinadores não os metem a jogar?" 

 

 

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Citação de silentz, Em 20/07/2024 at 22:44:

 

Spoiler

Nasceu em Angola. O que faziam os seus pais profissionalmente?
A minha mãe trabalhava na agricultura. O meu pai era tesoureiro da TAAG.

Tem irmãos?
Somos oito irmãos. Seis raparigas e dois rapazes.

Viveu em Angola até que idade?
Eu vivi em Luanda até aos 22 anos.

Qual é a sua primeira memória de infância?
É de uma bola que o meu pai ofereceu-me. Uma bola e umas chuteiras. O meu pai também foi jogador de futebol, jogava como extremo esquerdo, era esquerdino também. Jogou no ASA.

Lembra-se de o ver jogar?
Já não cheguei a vê-lo jogar oficialmente. Mas quando ele tirava umas peladinhas com a velha guarda conseguia vê-lo jogar e via a qualidade que ele tinha. Era bom jogador. As pessoas já me tinham dito que ele tinha um remate fantástico, quando chutava o guarda-redes nem via a bola. Ele esteve para ir para o Sporting, só que os irmãos mais velhos não o deixaram. Acho que fizeram bem, senão muito provavelmente eu não tinha nascido [risos].

Dos oito irmãos, em que lugar veio?
Sou o quinto.

Mais algum irmão jogou ou joga futebol?
Na verdade, todos jogaram, as minhas irmãs também. O meu pai teve uma escola de futebol. Eu jogava na rua, o meu pai estava a trabalhar e um vizinho ficava sempre a apreciar os nossos jogos e um dia foi dizer-lhe: “Gonçalves, tu já viste o teu filho a jogar?” O meu pai nunca tinha visto e um dia faltou ao trabalho para poder assistir aos jogos que fazíamos na rua. Ele viu que havia muito talento e quis fazer uma escola. Na altura éramos umas 50/60 crianças que ele formou. Tinha futebol feminino e masculino. A escola chamava-se ‘Flaminguinhos Futebol Clube’, era muito conhecida em Angola.

O seu pai era admirador do Flamengo?
Sim, era o clube pelo qual ele torcia. Gostava muito do futebol brasileiro, tanto que quando começou a dar os treinos, baseava-se muito no futebol brasileiros, os passes, os toques…

Manucho Gonçalves com os pais

Manucho Gonçalves com os pais

 

D.R.

Gostava da escola?
Sim, estudei até ao 12.º ano. Estava na área de Engenharia de Pesquisa e Produção de Petróleo, mas chegou uma altura em que tive de decidir se continuava os estudos. Só me faltava fazer as práticas, com as máquinas. Foi uma decisão difícil, o meu pai perguntou-me o que queria fazer e fosse qual fosse a minha decisão, ele apoiava. No fundo, ele queria que eu fizesse as duas coisas ou então que estudasse.

O que o levou a optar pelo futebol?
Uma vez fui ver o meu primo que jogava no Benfica de Luanda, na I Divisão, e o treinador perguntou-me se eu estava interessado em jogar. Nós éramos muitos irmãos, o meu pai era o único que trabalhava e as coisas estavam a ficar apertadas porque à medida que crescíamos íamos pedindo e necessitando de mais coisas. Então decidi jogar para poder ajudá-lo. Tinha 17 anos.

Antes de ir para o Benfica de Luanda só tinha jogado na escolinha do seu pai?
Ainda fui ao Petro de Luanda, mas não gostei do treinador porque ofendia muito os jogadores. Cheguei em casa e disse que já não voltava porque o treinador estava sempre a dizer “palavrota”. Foi nessa altura que o meu pai decidiu criar a escolinha.

Torcia por algum clube quando era pequeno?
Sempre fui do Petro de Luanda. Fiz um ano no Benfica de Luanda e depois fui para o Petro. Fora de Angola sempre fui do Sporting.

Tinha ídolos?
Era o Ronaldo ‘Fenómeno’.

Sir Alex Ferguson e Manucho no dia da apresentação do angolano em Manchester

Sir Alex Ferguson e Manucho no dia da apresentação do angolano em Manchester

 

JOHN PETERS

Aos 17 anos, quando foi para o Benfica de Luanda, começou logo a jogar na equipa principal?
Sim, porque a minha altura também me favorecia, já era alto. Fiz uma época bastante boa e fui contratado pelo Petro de Luanda. Aí fui jogar mesmo de coração. Fui o melhor marcador em dois anos consecutivos.

Esteve quanto tempo no Petro de Luanda?
Cinco anos.

As saídas à noite e os namoros mais sérios surgiram cedo?
O meu pai foi sempre uma pessoa muito correta, muito certa, para ele o jogador não podia beber álcool, tinha de descansar. Aprendi muito com ele porque víamos muitos jogos juntos e ele me ia incutindo essas coisas na cabeça. Mas eu fazia às escondidas. Comecei a namorar tarde, tinha medo de sofrer, tinha muitas irmãs em casa. Tinha medo de partir o coração tão cedo. O meu foco era o futebol.

Quando foi chamado pela primeira vez à seleção de Angola?
Aos 17 anos, quando estava no Benfica de Luanda. Fui à seleção de sub-20, quando ainda estava o Mantorras, o Gilberto, era uma seleção forte. A minha altura ajudou-me bastante mais uma vez, era grande.

Conviveu muito com o Mantorras na seleção?
Não, foi por pouco tempo na seleção sub-20. Na seleção de honra é que convivi um pouco mais. Mas não falávamos muito.

Foi fácil a integração na seleção de Angola?
Não foi um processo fácil. O nível de exigência era muito alto e hoje dou graças a Deus por ter tido uma educação desportiva. Quando digo educação desportiva, é porque o meu pai era muito regrado, e eu sempre fui regrado. Por mais que tenha feito algumas coisas por trás, porque tinha que ser feito mesmo para poder aprender certas coisas, a verdade é que quando fui chamado para a CAN 2008, estava lá o Akwá, o Flávio, havia muitos jogadores de peso, que jogavam fora. A maioria jogava fora. Eu fui chamado porque já era o melhor marcador do Petro de Luanda.

Cristiano Ronaldo e Manucho num treino do Manchester

Cristiano Ronaldo e Manucho num treino do Manchester

 

D.R.

Está a dizer que foi um ambiente estranho e que se sentiu intimidado?
De princípio foi. Mas como o meu nível de exigência, desde pequeno, era sempre maior porque tinha que ser um exemplo para o meu pai… Eu tinha de chegar cedo, eu tinha que estar na frente na parte física, se era para fazer um exercício novo, eu é que tinha de experimentar primeiro. Era um exemplo, porque o meu pai não queria que lhe faltassem ao respeito por ser filho dele. As pessoas viam-me como um espelho. Eu e ele nunca quisemos dar motivo para falarem coisa do género: “Só joga por ser filho do treinador.” Então eu tinha de fazer sempre o dobro. Mas, graças a Deus, isso ajudou-me a chegar onde cheguei. Porque, quando cheguei à seleção, vi os jogadores que jogavam fora e pensava que também tinha de trabalhar e fazer um esforço extra para mostrar que estava à altura deles. E só para a CAN de 2008 é que consegui convencer o treinador que eu poderia estar lá.

Porquê?
Porque quando fui convocado estava no Algarve a fazer o estágio e via que o treinador, Oliveira Gonçalves, só falava para mim, não falava com os outros e cansei-me um pouco. Houve uma altura em que liguei ao meu pai e disse: “Desisto. Vou voltar para casa porque não aguento, os outros também falham e o treinador nunca fala com eles, é sempre comigo.”

O que disse o seu pai?
“Tu já estás aí, tens que ser forte e lembrar-te de tudo o que aprendeste quando eras pequeno. Tenta não ouvir tanto e tenta fazer o teu trabalho.” Depois de ouvir as palavras dele, resolvi aguentar mais um bocadinho. Aguentei. Fomos para a CAN, eu até nem estava para ser titular e quando ele me meteu a titular, eu pensei: “Agora vou-me vingar de ti dentro de campo.” Porque eu tinha raiva, mas usava essa raiva dentro do campo. Eu pensava, “agora vou mostrar-te que tenho capacidade para jogar mesmo estando no Girabola”. Eu jogava com o Flávio, percebi que os outros jogadores já o conheciam e pensei: “ao Flávio já o conhecem, a mim ninguém conhece, por isso vou aparecer sempre nas costas dele.” O meu posicionamento era consoante o posicionamento do Flávio. Eu pensava nisto tudo. Apanhava sempre as oportunidades quando o Flávio puxava um jogador. Estava sempre no sítio certo. Por isso fiz quatro golos, menos um que o [Samuel] Eto’o que foi o melhor marcador, mas fez mais jogos.

Em 2008, Manucho (à esquerda) estreou-se na CAN pela seleção do Angola

Em 2008, Manucho (à esquerda) estreou-se na CAN pela seleção do Angola

 

BEN RADFORD

Também sentiu da parte dos jogadores da seleção que o viam como o miúdo que joga em Angola e não é tão bom como eles?
Não, também devido à minha humildade, que fez com que chegasse onde cheguei. Eu era humilde, tentava aprender com eles. Aprendi muito com o Flávio. Ele era uma pessoa difícil de lidar. Quando falhava um passe, uma desmarcação, ficava logo chateado. Uma vez disse-lhe: “Tu não tens que ficar chateado, porque é normal. Eu estou a aprender contigo. Se eu errei agora, amanhã supostamente já não vou fazer a mesma coisa.” Ele ficou a olhar para mim. A partir daí passou a falar melhor. Mas eu sabia escutar, sabia ouvir. Fizemos uma grande dupla na seleção, entendiam-nos bem, falávamos muito um com o outro.

Quando foi para a CAN 2008 já sabia que ia para o Manchester United.
Sim, as coisas já estavam arranjadas antes da CAN.

Tinha algum empresário?
Não. O Delcio Costa, diretor para o futebol no Petro de Luanda, que era amigo do Carlos Queiroz, é que mandou uns vídeos meus, daqueles dois anos em que fui o melhor marcador. Antes disso, quando eu estava no Petro, durante os treinos, eu dizia muitas vezes que o meu futebol era para a Inglaterra, que não era para Angola. Eles chamavam-me de maluco e diziam: “Tu vais ficar aqui connosco.” Eu insistia: “Não, eu ainda vou jogar na Inglaterra.” Nessa altura o treinador era o Pedroto. Ele ouvia eu dizer essas coisas. Ele também me ensinou muitas coisas de base. Por exemplo, eu pegava na bola e muitas vezes queria girar, para fintar três ou quatro, e ele dizia: “É assim que tu queres ir para Inglaterra e para a Europa? Passa a bola e desmarca-te para ires fazer golo.” Deu bem na cabeça também. Mas aquilo que ele me ensinou foi o que vi quando cheguei a Inglaterra.

Como soube que o Manchester estava interessado em si e como reagiu?
O mais engraçado é que, na véspera de me falarem alguma coisa sobre Inglaterra, eu sonhei que jogava no Manchester United, porque o Manchester também era a minha equipa de coração, sempre apoiei. Quando cheguei ao treino, o Delcio Costa veio ter comigo e disse-me: “Dá-me o teu passaporte, temos de tratar dos teus documentos, tu vais para Inglaterra.” Só podem estar a brincar comigo. Eu acabo de sonhar com uma coisa destas e logo em seguida vêm dizer-me que vou para Inglaterra? Isso não é possível. Eu não acreditava muito nos dirigentes, em Angola, mas o Delcio Costa sempre foi diferente, teve sempre um carinho muito grande por mim. Mas, naquele momento, não acreditei. Só pensava, não me vou emocionar, só vou acreditar quando tiver o passaporte e o bilhete de avião na mão.

A festejar um dos quatro golos que marcou na CAN 2008

A festejar um dos quatro golos que marcou na CAN 2008

 

GIANLUIGI GUERCIA

Disseram-lhe logo qual era o clube?
Disseram, mas pediram-me para não dizer nada a ninguém. Por isso fiquei desconfiado se seria verdade. Passada uma semana ele veio ter comigo e diz-me que na terça-feira seguinte vou para Inglaterra fazer um teste no Manchester United. Como?. Eu tremia todo. Tremia todo. Não consegui dormir, nem comer nesse dia.

O que disse o seu pai?
O meu pai também ficou emocionado.

Foi para Inglaterra sozinho?
Fui com o Delcio Costa, ele é que conhecia o Queiroz.

Quando chegou a Manchester, como foi o primeiro impacto?
Fui direto à cidade desportiva e quando entrei e vi as instalações, não tinham nada a ver com a minha realidade e comecei a tremer, porque sabia que ia ver jogadores que só via na televisão e de que o meu pai falava. Às tantas entrei no ginásio e estavam todos a fazer bicicleta. Estava o Cristiano, o Nani, o Paul Scholes, o Giggs… Logo que abri a porta e vi aquilo, pensei: “Não! Onde é que estou? Isto não é possível, alguém tem de me beliscar, estes são os jogadores que vejo pela televisão. Onde é que eu estou?” [risos]. Quem me deu moral foi o Cristiano que começou logo: “Está aí o angolano, está aí o angolano, vem para cá, vem para cá.” Se o Cristiano já me está a dar essa moral, epá, eu também sou um deles! [risos]. Fiquei junto dele e do Nani, a fazer bicicleta.

Recorda-se das primeiras conversas que tiveram?
Perguntaram quando tinha chegado, onde estava a jogar e disseram-me logo que ali fazia muito frio e chovia muito. Eu nem sabia o que falar, estava em choque.

Falava alguma coisa de inglês?
Não, era muito básico. Mas como encontrei o Cristiano e o Nani, estava em casa.

Ficou a viver onde e com quem?
Primeiro estive num hotel, quem me apoiou foi o Gil Gomes, que foi jogador e jogou na seleção portuguesa. Ele vivia em Manchester e deu-me apoio. Levava-me e trazia do treino. Depois arranjaram-me uma casa no bairro onde estavam os jogadores e aí já ia com o Cristiano para os treinos.

Munucho chegou ao Manchester United com 24 anos

Munucho chegou ao Manchester United com 24 anos

 

TOM PURSLOW

Além do Cristiano e do Nani houve algum outro jogador que tivesse sido particularmente simpático ou, pelo contrário, algum que fosse muito carrancudo?
Quem tinha mais a cara de carrancudo era o Paul Scholes. O Rio Ferdinand é uma pessoa excelente, assim como o Patrice Evra. Mas eu estava mais com o Nani e o Cristiano. Também havia dois gémeos brasileiros, o Fábio e o Rafael, e naturalmente estava mais no meio dos que falavam português.

O Cristiano nessa altura já demonstrava a ambição e a obsessão pelo trabalho que vemos hoje.
Já. Quando terminava o treino ele dizia-me muitas vezes: “Manucho, vamos bater umas faltas.” E ficava ali pum, pum, pum. Sempre teve essa dedicação impressionante. Era sempre o primeiro a chegar no ginásio. Ele dizia-me: “Vocês já nascem com os abdominais definidos, eu não, tenho de fazer isto todos os dias, julgas o quê? Isto é trabalho, não é como vocês que já nascem com isso” [risos].

Sobre o que conversavam mais? Quais eram os vossos sonhos na altura?
Naquela altura falávamos muito de bola, da nossa família, dos namoros, essas coisas. Comi muitas vezes na casa dele, conheci a mãe e as irmãs. As pessoas que não conviveram com ele podem achar que é arrogante, mas muitas vezes o que nos faz ser arrogantes são as outras pessoas. Nós mudamos consoante as pessoas. Ele foi sempre cinco estrelas comigo, tem um coração fora do normal. Tenho muita admiração por ele. Tenho-o como um espelho. E acho que não o é só para mim, é o espelho de muita gente. Por mais que muitos não queiram aceitar. Ele é um bom exemplo para as crianças por causa da dedicação dele. Até para os próprios pais é bom, porque quando os miúdos dizem que querem ser como ele, eles podem responder: “Mas tu tens de trabalhar para isso. Porque o Cristiano trabalha, trabalha muito. Se queres ser como ele, tens de trabalhar.”

Recorda-se do primeiro dinheiro que ganhou em Inglaterra e o que fez com o dinheiro?
Penso que foram €30.000. Mandei logo para os meus pais. Comprei um carro para o meu pai. Isso já fazia parte do contrato, era o meu sonho, oferecer um carro em condições ao meu pai. Fiz-lhe uma surpresa, levaram-lhe o carro e ele nem queria acreditar. Na verdade, o meu pai é uma pessoa que merece tudo. Podia dar-lhe até o que não tenho porque é uma pessoa que esteve sempre comigo, que me educou bastante bem.

Com Ronaldo, com quem desenvolveu amizade na Inglaterra

Com Ronaldo, com quem desenvolveu amizade na Inglaterra

 

MARTIN RICKETT - PA IMAGES

Quando saiu do hotel e foi viver para uma casa, como correu?
Custou-me um pouco viver sozinho. No primeiro dia de treino tive logo um problema, porque estava a nevar, um frio de rachar. Eu tinha saído de um país quente, nunca tinha visto neve. Treinei naquele frio, não sentia os pés, e quando saí do treino fui logo tomar banho com a água muito quente. Eu não sabia que isso não se deve fazer. Resultado, comecei a não sentir as mãos, nem os pés, mas não queria dar parte fraca. Para o segundo treino, tive de calçar umas meias e uns chinelos até chegar ao balneário porque não consegui calçar os ténis. Como é que ia falar que não consegui calçar as botas e que me doíam os pés e as mãos? Chorei para meter as botas, eu chutava a bola e as lágrimas praticamente saltavam, o que vale é que se confundia com o frio e a neve. Eu não sabia que ao não deixar o corpo arrefecer antes de me meter na água quente podia ter um choque térmico, que foi o que tive. Fiquei com dores nas articulações.

Como resolveu a situação?
Foi o médico que me disse depois que tinha de deixar o corpo arrefecer a seguir ao treino, antes de me meter na água quente. Mas ainda fiquei dois dias cheio de dores.

Que tal o primeiro contacto com o Sir Alex Ferguson?
Foi bom, um senhor amável, super educado. Foi um pai para mim desde o primeiro dia de testes. Sim, porque eu fui fazer teste. Ainda me lembro que passei no teste porque passei no meio do Rio Ferdinand, que era grande. Mesmo cheio de dores. Fiz um bom treino e ele disse: “Fica mais duas semanas.” Na semana seguinte, disseram-me que ia ficar. Foi quando disse ao meu pai: o sonho está realizado. Foi algo histórico, foi a primeira vez que um jogador sai do Petro de Luanda para jogar no Manchester United.

O que mais estranhou nos primeiros tempos na Inglaterra?
Acho que estranhei tudo. Era tudo novo. O equipamento, o nível de treinos, os campos. Por exemplo, havia um teste em que tínhamos de fazer um passe rápido e a bola não podia fugir mais de dois metros. Eu vinha de uma relva totalmente seca por causa do calor e ali a relva estava sempre molhada, a bola escorregava muito mais rápido, portanto, era uma diferença grande. E só não senti mais dificuldade porque tinha boas bases e porque sempre gostei de ver jogos e de aprender.

O avançado angolano estreou-se pelo Manchester United num jogo da FA Cup

O avançado angolano estreou-se pelo Manchester United num jogo da FA Cup

 

MARTIN RICKETT - PA IMAGES

O Queiroz comunicava mais consigo do que sir Alex Ferguson?
Sim, até porque era o Queiroz quem dava os treinos. O Alex Ferguson descia umas duas vezes, mas quem dava treino era o Queiroz.

Os treinos eram muito mais puxados do que estava habituado?
Eram mais com mais bola, em Angola treinava-se muito o físico.

Chegou a estrear-se pelo Manchester?
Sim, na FA Cup. Foi um jogo em que o Cristiano até marcou. Tenho uma foto com ele, nesse jogo.

Mas na primeira época foi emprestado ao Panathinaikos, da Grécia, certo?
Sim. Porque não tinha o número de jogos suficientes pela seleção angolana para poder jogar na Premier League. Por isso fui para o Panathinaikos e só depois regressei ao Manchester.

Ficou muito desiludido quando percebeu que ia ser emprestado?
Não, percebi a situação. Além de que o Panathinaikos era uma equipa que estava no auge e eu também necessitava de me adaptar ao futebol europeu.

 

Manucho chuta para golo, pelo Hull City, o clube o qual foi emprestado pelo United em 2008/09

Manucho chuta para golo, pelo Hull City, o clube o qual foi emprestado pelo United em 2008/09

 

ANNA GOWTHORPE - PA IMAGES

Também foi sozinho para a Grécia?
Sim. As condições do Panathinaikos eram boas. Mas já me sentia como jogador do Manchester [risos].

O treinador era José Peseiro. Como foi lidar com ele?
Tive uma boa relação com ele. Ele entendeu que eu vinha de Angola e que me custava um bocadinho apanhar algumas coisas. Mas até tive uma adaptação rápida.

Gostou do futebol grego?
Era diferente. Não tinha nada a ver nem com o inglês, nem com o angolano. Mas gostei, porque não era tão agressivo como vi depois que era o futebol inglês.

E os adeptos gregos?
Fora de série. Mas cheguei a sentir algum medo quando eles atiravam aqueles fogos para a relva. Eram coisas que nunca tinha vivido.

Fez amizade com algum jogador em particular no Panathinaikos?
Estava lá o Karagounis. Também estava o Simão Mate que é moçambicano. Fiz amizade com alguns jogadores.

A festejar um golo marcado pelo Hull City, na Premier League

A festejar um golo marcado pelo Hull City, na Premier League

 

GLYN KIRK

Viveu sempre sozinho na Grécia?
Não, estavam lá a minha mãe e irmãs e a mãe do meu filho.

Quando foi pai?
Eu fui pai do Marlon aos 24 anos, ainda não tinha assinado pelo Manchester. Na altura vivia com a mãe do meu filho, que é angolana. Hoje já não estamos juntos.

Esteve seis meses no Panathinaikos, onde fez nove jogos e marcou quatro golos, e voltou a Manchester. É nessa altura que se estreia pelo Manchester, certo?
Sim, o primeiro jogo foi para a FA Cup. Eu só pensava, isto é real? Quando o Cristiano marcou dei-lhe um abraço e nem o queria soltar porque tudo me parecia um sonho. Depois fiz mais dois jogos e acabei por ser emprestado ao Hull City. Aí é que percebi o que era o futebol inglês.

Porque diz isso?
Porque quando cheguei, eu jogava quase sem agressividade nenhuma. Foi o próprio treinador que me disse: “Assim, não vais jogar.” Percebi que tinha de ser mais duro e só quando comecei a treinar assim é que passei a ser opção. No meu primeiro jogo com o Arsenal fiquei com o olho inchado porque levei uma cabeçada do central. Eu nem via nada. Acabei com as vistas fechadas da inflamação. Aí comecei a perceber como era a liga inglesa, para recuperar às vezes levava três dias. Os contactos físicos eram constantes, uma loucura.

 

Manucho com o pai

Manucho com o pai

 

D.R.

Quando a época 2008/09 terminou, não voltou mais ao Manchester. O que aconteceu?
Eu pedi para sair. Foi a decisão mais tonta que tomei na minha vida.

Pediu para sair porquê?
Eu estava em Angola e encontrei-me com o Manuel José, na altura era o selecionador de Angola, e ele disse-me: “Manucho, se não arranjares uma equipa para jogar eu não vou convocar-te para a CAN.” Eu era miúdo, a CAN 2010 era em Angola, eu queria fazer estar lá. Aí já estava com o empresário Jorge Mendes e comecei a pressioná-lo, disse-lhe que tinha de sair para poder jogar a CAN. Falei com o Alex Ferguson, ele disse-me: “Tranquilo, tu estás numa fase de adaptação, não saias agora.” Mas eu expliquei que tinha a CAN e que se não fosse para uma equipa para jogar o selecionador não me convocava.

O que disse ele?
Disse para ter calma, para esperar mais um bocadinho. Foi uma decisão precipitada da minha parte. É das coisas de que mais me arrependo na vida, até hoje. Insisti com o Jorge Mendes. E saí para o Valladolid.

Como foi o primeiro embate com Valladolid e os espanhóis?
Foi agressivo. Eu vinha de um futebol mais de choque e em Espanha não era assim. Logo no primeiro jogo deram-me um cartão vermelho. O presidente chamou-me: “Manucho, aqui não é Inglaterra, aqui tens de ir mais suave, senão vais levar sempre com o vermelho.” Nossa Senhora, outra adaptação. Voltei a ter que ser mais soft.

Foi sozinho para Espanha?
Sim, já não estava com a mãe do meu filho, fiquei a viver sozinho.

Como o receberam no balneário?
Bem.

Não olharam de lado por vir de onde vinha?
Não, até porque eu entrei já com moral, não é? [risos]. Mas sou muito fácil de lidar, porque sou humilde. E sempre digo que a humildade é o melhor que uma pessoa tem. A pessoa tem que ser humilde e nunca estar de cabeça alta.

Na época seguinte foi emprestado ao Bucaspor, da Turquia. Porquê?
Porque descemos e o meu contrato era dos mais altos e não queria baixar o contrato. A melhor opção foi eles emprestarem-me ao Bucaspor. Mas fiz só seis meses.

Após a saída do Manchester United Manucho foi jogar para o Valladolid

Após a saída do Manchester United Manucho foi jogar para o Valladolid

 

GONZALO ARROYO MORENO

Quando lhe apresentaram a proposta de ir para a Turquia reagiu bem?
Sim, porque também já não estava a jogar, não me convocavam, faziam pressão para eu sair. Por isso, quando vi que era a opção que eu tinha para pelo menos um ano jogar fora, aceitei.

Que tal a Turquia?
Uma realidade totalmente diferente. Não só a língua, como a alimentação. Os jogos também não tinham nada a ver com Espanha e Inglaterra, eram mais fraquinhos. Jogos bons eram só com o Galatasaray, Besiktas ou Manisaspor. Mas depois adaptei-me bem. Eu era muito caseiro também. Depois dos seis meses fui para o Manisaspor e já foi um pouco diferente, porque já estava com o Makukula. Encontrei um grupo totalmente misto, tinha mais africanos, brasileiros, dava para conviver mais.

Histórias para contar da Turquia e da Espanha, não tem?
Da Espanha, o que posso contar é que eu tinha um problema com as horas [risos]. O treinador dizia-me sempre: “Vou-te comprar um relógio.” Uma vez, antes de um Valladolid-Barcelona, tínhamos um treino às 10h e eu cheguei tarde, já estavam na preleção. O problema é que eu tinha sempre a hora de Angola, menos uma hora. Quando o treinador disse que eu estava atrasado, eu respondi: “Não, no meu relógio está a marcar 10h”; “Se estás com a hora de Angola tens de mudar já isso, porque estás na Espanha, não estás em Angola.” Os meus colegas começaram a olhar e a rir.

Da Turquia não tem nada para contar?
Eu e o Makukula temos uma altura similar, somos ambos grandes e às vezes, dentro de campo, olhávamos um para o outro e ele dizia: “Hoje vamos chocar os dois. Vamos fazer com que os defesas fujam de nós” [risos]. Os defesas quando nos viam aproximar, fugiam e ele “agora, agora, agora” [risos]

O avançado angolano no CAN 2013

O avançado angolano no CAN 2013

 

CHRISTIAN LIEWIG - CORBIS

Após a passagem pela Turquia voltou ao Valladolid, que estava ainda na II divisão, certo?
Sim. Queriam emprestar-me novamente, mas comecei a treinar, a treinar, a treinar bem porque não queria ir mais para nenhum lado. Comecei a treinar forte e chegou a uma altura que eles precisavam de mim e juntei-me ao grupo. E subimos de divisão nessa época de 2011/12. Na época seguinte marquei dois golos ao Real Madrid de José Mourinho. Não é qualquer pessoa que marca golo ao [Iker] Casillas. Estava num momento um pouco em baixo, porque não me punham a jogar, mas o treinador resolveu meter-me nesse jogo a titular. Como sempre, agarrei a oportunidade e fiz dois golos. A partir daí comecei a fazer mais jogos a titular.

A época seguinte foi o seu último ano no Valladolid. Como e por que saiu?
Nessa época fiz um jogo com o Rayo Vallecano em que eu próprio pensava que era o Cristiano Ronaldo, até me admirei [risos]. Também não estava a jogar e meteram-me a titular, marquei dois golos e fiz duas assistências. Ganhámos por 6-1. O presidente do Rayo Vallecano quis saber quem eu era. Estava no meu último ano de contrato e o Rayo contratou-me.

Antes de passarmos ao Rayo Vallecano e a Madrid, gostou de viver em Valladolid?
Sim, gostei. Eu também era muito caseiro. Eu sou muito fã de música, gosto de pôr música nos tempos livres, estou sempre com a música. Kizomba, Semba, Reggaeton, toco tudo. Aprendi a tocar alguns instrumentos, não sou muito bom, mas dou uns toques. Adoro música e ser DJ.

Foi a mais duas CAN, 2012 e 2013. Dos quatro em que participou, qual o mais memorável?
Foi o de 2008, pelas razões que já expliquei. Foi sofrido para mim e estrear-me numa CAN com quatro golos, não havia nenhum jogador angolano que o tivesse feito. Fui um dos melhores jogadores e marquei um dos melhores golos na CAN. Foi muito bom.

Manucho fez três épocas no Valladolid

Manucho fez três épocas no Valladolid

 

NEAL SIMPSON - EMPICS

Passou quatro épocas no Rayo Vallecano. Quais são as principais memórias que tem?
A melhor memória que tenho é dos adeptos. A forma como me receberam e trataram nesses anos. Quando eu levantava para aquecer, o estádio todo levantava. Era uma coisa assombrosa. Até no banco do rival perguntavam “quem é? quem é?”, porque o estádio todo levantava. Das primeiras vezes até eu me admirei. Isto é para mim? Eles gostavam muito da minha entrega e dedicação.

Desceu e subiu de divisão com o Rayo Vallecano. No final da época 2017/18, em que o clube subiu novamente à La Liga, acabou por sair. Porquê?
Não continuei por causa do treinador, o Míchel. Ele não contava comigo, porque também tive uma lesão. Rompi o adutor e foi difícil essa situação. O presidente queria que eu continuasse, porque sempre fui muito de balneário, e o próprio Michel também gostava da minha forma de ser dentro do balneário, da forma como transmitia as coisas, da minha alegria. Mas preferiu ter outros jogadores.

Nessa altura, quem era o seu empresário?
Estava com uma agente espanhola.

Entretanto, acabou por ir jogar para o UE Cornellà, da II Divisão B.
Sim, para não estar parado, porque eu ia voltar para o Rayo. O que aconteceu é que me lesionei no [tendão] rotuliano. Era o último jogo. Empurraram-me pelas costas, ao cair o pé ficou preso na relva e dei cabo do rotuliano. Depois surgiu o covid-19. E quando chegou a altura de ter de recuperar, já em campo, não podia, tive de fazer a recuperação na clínica Gaspar, em Portugal. Como não podia sair, tive de fazer certos exercícios em casa.

Já tinha voltado a ser pai?
Sim. Conheci a mãe dos meus filhos mais novos também em Angola. Fui pai do Muriel em 2017, que nasceu na Espanha e voltei a ser pai em 2018, do Marcel. Têm pouca diferença um do outro. Mas o Marcel já nasceu em Portugal, porque aí já me tinha lesionado e já estava a pedir socorro [risos].

Em 2014/15, o avançado foi contratado pelo Rayo Vallecano

Em 2014/15, o avançado foi contratado pelo Rayo Vallecano

 

MB MEDIA

Ficou a viver em Portugal enquanto se recuperava?
Fiquei, mas já antes eu ia a Portugal muitas vezes. Eu saía da Espanha muitas vezes para ir comer a Portugal. Adoro um bom peixe e por isso ia a Portugal. Na Espanha a comida é muito à base de batata, não tem aquele poder da cozinha portuguesa.

Voltou a jogar?
Não. Quando me lesionei já não voltei a jogar. Tinha assinado com o Racing de Madrid, mas não cheguei a fazer nenhum jogo. Decidi parar.

Tinha quantos anos, quando decidiu parar?
37.

Custou-lhe muito tomar essa decisão?
Custou-me, até agora ainda custa. Quando vejo jogos no campo dói-me mais do que ver na televisão. E muitas vezes ainda sonho que estou a jogar.

O que faz agora no seu dia a dia?
Estou como empresário. Tenho à volta de cinco jogadores.

Qual é o seu mercado de eleição?
É aqui, na Espanha, por enquanto.

Os jogadores são todos espanhóis?
Não, tenho angolanos e espanhóis, e colaboro também com a agência que era minha representante. E em princípio vou passar a colaborar com a seleção de Angola, mas não posso revelar mais nada.

O reencontro com Cristiano Ronaldo, num jogo entre o Rayo Vallecano e o Real Madrid

O reencontro com Cristiano Ronaldo, num jogo entre o Rayo Vallecano e o Real Madrid

 

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro?
Na Espanha, no Valladolid.

Já investiu?
Sim, em imobiliário e estou a pensar investir na agricultura, em Angola. Mas é só um projeto ainda.

Qual a maior extravagância que fez na vida?
Acho que foi pagar um jantar à equipa, no Rayo Vallecano, num restaurante.

Acredita em Deus?
Acredito, não sou praticante, mas leio muito a Bíblia.

Superstições?
Não.

Qual foi a primeira tatuagem que fez?
Foi uma serpente que fiz na Inglaterra por sentir-me sozinho. Fui sentir alguma dor. Estava a passear, vi uma loja de tatuagens, entrei e pedi: “Faz-me uma serpente grande aqui no braço.”

Porquê uma serpente?
Porque gostava. Mas depois tapei a serpente com uma palanca-negra e tenho um leão também no braço. Tenho o mapa de África e um menino que me representa com o pai e uma bola.

Segue ou pratica outra modalidade?
Sim, basquetebol. NBA. Gosto dos Lakers. Acredito que se não tivesse sido futebolista tinha sido jogador de basquetebol. Cresci muito a jogar basquete, acho que a minha altura vem também daí.

Em ação pelo Rayo Vallecano onde jogou durante quatro épocas

Em ação pelo Rayo Vallecano onde jogou durante quatro épocas

 

DENIS DOYLE

Qual a maior frustração que tem na carreira?
As lesões.

O maior arrependimento foi ter saído do Manchester United?
Foi.

E o momento mais feliz da carreira?
Foi quando eu assinei pelo Manchester United.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Real Madrid.

Quais são as maiores amizades que fez no futebol?
Na Inglaterra, Cristiano Ronaldo e Nani. Tiago Bebé. São poucas.

Tem ou teve alguma alcunha?
“Sangue de Leão”, porque quase não me lesionava e eu dizia que tinha sangue de leão. Cheguei a jogar com uma rotura, em Valladolid, e os fisioterapeutas não entendiam como eu conseguia jogar. Eles picavam com a seringa para tirar o líquido e de repente aquilo fechava e eles não entendiam. Eu só dizia: “Eu tenho sangue de leão, ninguém vai entender este corpo” [risos]. Então ficou sangue de leão.

Alguma regra do futebol que se pudesse, alterava?
O VAR. Tirava. O futebol fica muito parado.

Tem algum talento escondido?
Padel. Jogo muito bem Padel.

Manucho num foto recente

Manucho num foto recente

 

D.R.

Qual o momento mais difícil que passou na vida?
Foi quando perdi o meu irmão mais pequeno. Íamos ser três rapazes. Eu chateava sempre o meu pai que queria irmãos, que tinha muitas meninas já. Mas ele nasceu já com um problema respiratório. Faleceu com dois anos, eu tinha 16.

Como soube da notícia?
Como ele era rapaz, eu estava sempre com ele. Eu acabava de treinar, acabava de fazer qualquer coisa, ele estava sempre comigo, eu cuidava muito dele. Mas um dia ele sentiu-se mal, foi para o hospital e acabou por não aguentar. Nem conseguia acreditar quando me disseram, fiquei em choque, não consegui ir ao cemitério.

De todos os treinadores que teve, de qual gostou mais?
Paco Jémez. Aprendi muito com ele, foi dos treinadores com quem mais joguei também. Ele sabia quando me utilizar. Queria ver-me sempre bem e contente, porque ele era a alegria do balneário. Ele era duro, os outros colegas tinham medo dele, mas eu não, eu sempre me dei bem com ele.

O seu filho mais velho joga futebol?
Sim.

Revê-se nele?
Sim, um pouco. Tem 17 anos, já me passou na altura, só não é [pé] esquerdo como eu. Joga na ala esquerda dos juvenis num clube em Sacavém.

 

Citação de silentz, Em 20/07/2024 at 22:44:

 

Spoiler

Nasceu em Vila Franca de Xira. O que faziam os seus pais profissionalmente?
O meu pai era jogador de futebol. A minha mãe não me recordo.

Tem irmãos?
Tenho duas irmãs e um irmão mais velhos.

Como era em criança?
Era uma criança calma, tranquila. Estava sempre a jogar à bola na rua com os meus amigos.

Chegou a ver o seu pai jogar?
Não.

Gostava da escola?
Mais ou menos. Gostava mais dos intervalos para ir jogar à bola.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Sempre tive muito claro o que queria ser e, por acaso, concretizou-se.

Quando e onde começou a jogar futebol sem ser na rua?
Comecei aos seis anos no Villafranquense. Foi a minha mãe que me levou. Como era perto de casa, fui para lá. A partir daí não quis outra coisa.

Aos 13 anos foi parar ao Benfica. Como?
Antes de ir para o Benfica, fui ao Sporting, mas não chegaram a acordo entre eles.

Porque foi ao Sporting primeiro?
Foram eles que chegaram primeiro.

Em casa torcia-se por algum clube?
Eram todos do Benfica e eu também, por arrasto.

Diogo (à esquerda) estreou-se na I Liga pelo Paços de Ferreira, em 2011

Diogo (à esquerda) estreou-se na I Liga pelo Paços de Ferreira, em 2011

 

MIGUEL RIOPA

Como surgiu depois o Benfica?
Na semana a seguir ao Sporting ligaram-me do Benfica para lá ir às captações. Havia mais de 20 miúdos, foram dois ou três dias de captações.

Estava nervoso?
Não. Naquela altura, com 13 anos, não sentia nervosismo, só queria jogar à bola.

Como ia para os treinos?
Até aos 14 anos era a minha mãe que me levava, a partir dos 14/15 anos já ia sozinho, de transportes. Apanhava muitos colegas pelo caminho.

Esteve seis anos na formação do Benfica, onde foi campeão por duas vezes, até chegar aos juniores. Quais os momentos mais marcantes desse período?
Lembro-me de ter sido campeão com 15 anos e depois com 17 anos, mas do que me recordo mais é dos torneios que fazíamos no estrangeiro.

Algum treinador que tivesse sido mais importante para si?
Não houve nenhum que me tivesse marcado, até porque praticamente todos os anos mudávamos de treinador.

Foi no Benfica que começou a ganhar o primeiro dinheiro do futebol. Recorda-se do valor do seu primeiro ordenado?
Penso que foram uns €300. Dava sempre à minha mãe.

Em que altura começaram os primeiros namoros e saídas à noite?
Comecei a namorar a partir dos 15 anos, mas não era muito de sair à noite. Fui uma vez ou outra com os colegas do futebol, por volta dos 16/17 anos.

Terminou os estudos quando?
Fiz até ao 9.º ano, mas não terminei. Optei pelo futebol.

A decisão foi pacífica em casa?
A minha mãe disse-me que era uma coisa ou outra. A partir do momento em que os treinos passaram a ser no Seixal, eu chegava a casa muito tarde, às onze e meia da noite, e para acordar às sete para ir para a escola era complicado. Ela deu-me a escolher. Eu optei pelo futebol.

E o que disse o seu pai, que já tinha passado pela experiência de ser jogador?
Nessa altura os meus pais já estavam separados e ele não teve voto. Eles separaram-se ainda nem tinha começado a jogar futebol.

 

O lateral (no meio) tenta fugir a Gaitan do Benfica

O lateral (no meio) tenta fugir a Gaitan do Benfica

 

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Quem foi o primeiro treinador a chamá-lo para treinar com o plantel principal do Benfica?
Penso que foi o Quique Flores. Também fui chamado pelo Jorge Jesus.

O que se recorda dessas chamadas e desses treinos?
Aí lembro-me que estava nervoso. É normal. Ainda por cima havia muito bons jogadores, era o tempo do Aimar, Saviola, Reyes, era normal haver algum nervosismo.

Algum deles foi mais simpático consigo?
Eram quase todos simpáticos, tentaram ajudar e deixar-me à vontade. O Luisão era o que dava mais duras. Estava sempre a dizer para sermos nós próprios. Se passasse a bola devagar, ele dizia para passar com mais força. Essas coisas.

Do que se recorda do Quique Flores e do Jorge Jesus?
Quando eu ia lá treinar eles não falavam muito connosco.

Nunca levou nenhum berro do Jesus?
[Risos] Sei que alguns levaram, mas eu por acaso não.

Já jogava como defesa?
Nos juniores, já. Comecei a jogar a defesa quando fomos campeões em juvenis. Foi num jogo em casa com o FC Porto, eu tinha vindo de lesão e nesse jogo entrei para lateral direito porque estávamos a perder 1-0, em casa. Marquei um golo e fiz assistência para o segundo, fomos campeões e a partir daí comecei a jogar sempre a lateral. Antes jogava a extremo direito.

Quais são as maiores amizades que fez no Benfica?
O Roderick, o Delfino, o Vicente, o Graça, o Pinto, sobretudo o grupo que fazia a travessia de barco para ir para o Seixal.

Nessa altura, qual era a sua maior ambição, o seu maior sonho?
Era chegar à equipa principal, apesar de saber que era muito difícil, porque não apostavam muito nos jovens da formação. Mas claro que tive a esperança e o sonho de lá chegar.

Diogo Figueiras assinou pelo Sevilla em 2013/14. Aqui com o vice-presidente Pepe Castro e o diretor-desportivo Monchi

Diogo Figueiras assinou pelo Sevilla em 2013/14. Aqui com o vice-presidente Pepe Castro e o diretor-desportivo Monchi

 

CRISTINA QUICLER

Quem lhe deu a notícia de que não ia ficar no Benfica?
Foi um diretor, mas não me recordo bem.

Como reagiu?
Até não reagi assim tão mal. Se não ficasse ali, tinha que continuar. Não tinha o pensamento de desistir só porque não tinha ficado na equipa principal. Até que me ligou o Paulo Fonseca, que estava no Pinhalnovense, e aceitei ir para lá.

Tinha empresário?
Sim, era a ProEleven. Estava com eles desde os 15 anos.

Foi jogar na II Divisão B, para uma realidade muito diferente do Benfica. Como foi essa mudança?
Encontrei homens feitos, que trabalhavam, o relvado era sintético, treinávamos ao final do dia. Cresci bastante como homem e jogador no Pinhalnovense, os jogadores mais velhos davam muitos conselhos no dia a dia por serem homens feitos.

O que fazia durante o dia?
Ficava em casa ou ia dar uma volta. Não tinha carro ainda, ia sempre com o André Martins para os treinos.

Continuava a viver em casa da mãe?
Sim, mas já nos tínhamos mudado para o Estoril.

Como foi ser treinado pelo Paulo Fonseca?
Foi um dos treinadores de que mais gostei. Gostava da ideia que ele tinha do futebol, da maneira de jogar, deixava-me à vontade. Para mim foi ótimo. Vai ficar sempre marcado, porque foi com ele que dei o salto para a I Liga.

Que amizades mais forte ficaram dessa época?
O André Martins, Gonçalo Quinaz e Pedro Alves, que era o diretor do Estoril. Com o resto já não tenho contacto.

Diogo (5) tenta roubar a bola a Messi, num Sevilla-Barcelona de 2014

Diogo (5) tenta roubar a bola a Messi, num Sevilla-Barcelona de 2014

 

GONZALO ARROYO MORENO

Como surgiu o Paços de Ferreira?
Através do Carlos Gonçalves, da ProEleven. Disseram-me que havia interesse do Paços, que o treinador era Rui Vitória. Fiquei contente com a notícia, porque estava a dar o salto da IIB para a I Liga.

Não o assustava ir sozinho para o Norte para estrear-se na I Liga?
Não. Mas no início foi difícil porque não estava habituado a estar sozinho e a fazer tudo, mas a minha mãe ia muitas vezes lá cima.

O que foi mais difícil nesse início?
A solidão mesmo.

Como foi o primeiro impacto no clube e com o Rui Vitória?
Foi bom. O Rui Vitória era bom treinador, só não gostava dele quando não jogava, como é normal [risos]. Os treinos eram mais puxados, mais táticos. Era um clube que queria ficar perto dos quatro primeiros e a exigência era muita.

Recorda-se do primeiro jogo na I Liga?
Não, não me recordo.

Foi emprestado ao Moreirense entretanto.
Sim, após seis meses. Ia ter mais hipótese de jogar, de ganhar mais experiência, para voltar ao Paços de Ferreira e conseguir ser a primeira escolha.

No Moreirense o treinador era o Jorge Casquilha. Que recordações tem desses seis meses no Moreirense?
Foi um clube de que gostei imenso, com pessoas muito boas, simpáticas, que me ajudaram em tudo. O Casquilha também era bom treinador, falava mais comigo do que o Rui Vitória. Avisava-me que as coisas não eram fáceis no futebol e que, como estava a começar, tinha que dar às pernas. A partir daí, acho que saiu tudo naturalmente. Essa conversa foi um clique porque comecei a jogar com mais confiança e a empenhar-me mais nos treinos.

Entretanto, no final da época regressou ao Paços de Ferreira onde tinha ingressado um treinador que já o conhecia, Paulo Fonseca. Foi mais tranquilo?
Sim, foi uma alegria enorme, já tinha sido meu treinador, já me conhecia bem e fiquei muito mais à vontade no Paços Ferreira.

Ao nível do futebol, que diferenças maiores notou na I Liga?
Tenta-se sempre jogar à bola, enquanto nas divisões inferiores o futebol é mais direto e físico. Fisicamente nunca fui muito forte. É normal ter sentido um bocado mais dificuldades na II Liga.

Correu-lhe bem essa época?
Sim, começou a correr muito bem, sentia-me à vontade com o Paulo, ele sabia o que eu podia dar e isso dava-me confiança. Comecei a jogar como eu sabia.

Diogo agradece ao guarda-redes Beto, emocionado, o herói da final da Liga Europa, que o Sevilla ganhou ao Benfica

Diogo agradece ao guarda-redes Beto, emocionado, o herói da final da Liga Europa, que o Sevilla ganhou ao Benfica

 

CLIVE ROSE

Terminava contrato com o Paços Ferreira no final dessa época?
Não, ainda tinha mais um ano, mas na pré-época para o terceiro ano, o meu empresário veio ao norte e disse-me que havia o interesse do Sevilla. Ainda fui de estágio com o Paços de Ferreira, cujo treinador já era o Costinha. Estive duas semanas com ele apenas.

Os treinos eram muito diferentes dos do Paulo Fonseca?
Os treinos de pré-época são praticamente todos iguais. O Paulo metia mais bola que o Costinha.

Como reagiu quando lhe falaram do Sevilla?
O Carlos Gonçalves quando veio falar comigo, veio acompanhado do diretor do Sevilha, o Monchi, fomos almoçar e depois da conversa fiquei com vontade de ir para lá. Ainda voltei a treinar com o Paços mais uns dias e, entretanto, ligou-me o Paulo Fonseca, que tinha ido treinar o FC Porto, a perguntar se eu não queria ir para lá.

Ficou dividido?
Na verdade, não. Disse ao Paulo que não ia para o FC Porto porque sabia que não ia jogar, os laterais eram o Danilo e Alex Sandro, dos melhores laterais da Europa, na altura.

A proposta do Sevilla era melhor financeiramente?
Eram iguais. Era um contrato de quatro anos.

Mas era muito superior ao que ganhava no Paços de Ferreira.
Sim, fui ganhar 10 vezes mais. Mas eu não ganhava assim muito no Paços porque vinha da II B.

Arrancou para Sevilha sozinho?
Sim. Quando assinei eles não estavam em Sevilha, estavam em estágio no Equador. Fui a Sevilha fazer os testes médicos e depois fui ter com eles. Foi uma viagem bem longa. Ainda por cima o tempo de ligação entre aviões era muito curto e quando cheguei a São Paulo, no Brasil, perdi o voo de ligação. Tive de apanhar o seguinte. Depois, cheguei à Colômbia e tive de passar lá a noite para seguir para o Equador. Demorei 3 dias para chegar.

Quando conheceu a equipa e o treinador com que impressões ficou?
Percebi que já tinha chegado a um nível superior. Foi completamente diferente de chegar à I Liga, em Portugal. Mas senti-me mais confiante, já não me sentia tão nervoso. O facto de não estar numa equipa portuguesa fez com que sentisse mais liberdade para fazer o que podia fazer. E depois também tinha o Beto e o Carriço, que me ajudaram muito no início. Foi tudo muito melhor do que quando cheguei à I Liga e até do que estava à espera, porque nem sabia que o Beto e o Carriço estavam lá. Quando os vi senti-me muito mais à vontade.

Que tal o treinador, o Unai Emery?
Era um amor-ódio. Foi assim sobretudo a partir do segundo ano.

Porquê?
Ele gostava muito de mim, mas chocávamos muito. Ele é uma pessoa muito espontânea e muito nervosa, a partir de um determinado momento se ele me dizia alguma coisa eu respondia também. Mas gostava muito de mim, joguei muito. Só que era como um amor-ódio porque ou estávamos a discutir, ou estávamos bem, era sempre assim.

Daniel Carriço, Beto e Diogo Figueiras a festejar a Liga Europa pelo Sevilla

Daniel Carriço, Beto e Diogo Figueiras a festejar a Liga Europa pelo Sevilla

 

GOGO LOBATO

Logo na primeira época estreou-se na Liga Europa. Era outro patamar. Isso deixou-o mais tenso?
É outro patamar, mas não me senti nervoso. Talvez algum nervosismo antes do jogo, mas assim que começou, desapareceu.

A liga espanhola era muito diferente da portuguesa?
Sim, tinha mais qualidade. Há muitas equipas a lutar pelos 10 primeiros lugares e são todas equipas boas. Vou tirar o Real Madrid, o Barcelona e o Atlético, o resto eram todas equipas muito boas, tanto podíamos ganhar ao primeiro como perder com o último. Há muitos jogadores de topo.

Chegaram à final da Liga Europa, com o Benfica. Queria muito jogar a final, para tentar vingar-se do facto de não terem apostado em si?
Exatamente, eu ia dizer isso mesmo. Queria jogar, queria ganhar, por isso mesmo, para ser uma pequena vingança porque aos 19 anos não apostaram em mim. Foi isso que senti naquela final.

Mas só entrou aos 110m. Enquanto estava no banco, o que foi sentindo ao longo do jogo?
Nunca fui pessoa de estar nervoso, mas na final da Liga Europa, estava, até porque jogava sempre e nessa altura estava no banco e não tinha entrado.

Disse alguma coisa ao treinador?
Não.

Foi um jogo difícil, que só se resolveu nos penaltis.
Sim, foi um jogo difícil para nós. Acho que o Benfica durante muito tempo esteve por cima, esteve melhor que nós. O Beto salvou-nos algumas [risos].

Ficou encarregue de marcar algum jogador?
Penso que na final entrei para extremo e não para lateral, porque estávamos a sofrer um bocado daquele lado. Ou seja, jogámos com dois laterais. Mas nem me lembro que jogador marcava. Não sentíamos que éramos os favoritos, mas sabíamos que podíamos ganhar. A partir do momento em que não entrava nenhuma começámos a acreditar que podíamos ganhar. Nos penaltis tivemos a estrelinha e tivemos o Beto também.

Do que mais se recorda dessa noite?
Acho que nunca festejei tanto na vida como a conquista da primeira Liga Europa. Só me lembro de pôr a bandeira de Portugal à cintura e um cachecol na cabeça e foi festejar até não poder mais. No dia seguinte fizemos a festa aqui, em Sevilha.

O lateral português a dar autógrafos a adeptos do Sevilla

O lateral português a dar autógrafos a adeptos do Sevilla

 

HANDOUT

Que mais episódios marcantes recorda da sua primeira época no Sevilla?
Gostei logo da cidade, tem muita vida, muito ambiente. Uma das coisas que me marcou foi o calor que faz aqui. No primeiro ano acho que chegou praticamente aos 50 graus. O meu nível de vida também começou a ser diferente.

Diferente como?
Já não era o menino do bairro de Vila Franca de Xira. Fui viver para uma boa casa, com piscina, também comprei um carro, um X6. A partir daí, senti que estava noutro patamar. Mas no primeiro ano foi complicado. Saía à noite, vinham amigos de Portugal para cá e não parávamos em casa.

O Unai Emery deu por esse tipo de comportamento? Alguma vez deu-lhe um puxão de orelhas?
Deu-se conta muitas vezes, porque houve um momento em que saía bastante e ele chamava-me ao gabinete para falar comigo.

O que lhe dizia?
Eu dizia-lhe que ele tinha de compreender que eu estava cá sozinho, que era jovem e não ia ficar fechado em casa. Ele dizia-me que não podia chegar tarde ao treino e que há momentos para tudo, que tinha de ver quando era o momento de sair e quando não era.

Quando percebeu que tinha de parar com essa vida?
Quando na segunda época conheci a mãe da minha filha. Foi uma relação que durou nove anos.

A sua filha nasceu em que ano?
A Adriana nasceu em 2016. A minha vida passou a ser mais tranquila. A coisa mudou e já não fazia essa vida.

Na segunda época voltou a ganhar a Liga Europa com o Sevilha. Que outras memórias tem?
O que mais me marcou foi mesmo poder ganhar a segunda Liga Europa. Poder competir contra os melhores, em estádios incríveis, apesar do amor-ódio com o Unai [risos]. Ele puxava por mim, eu respondia-lhe e era sempre assim.

Como era o balneário?
Era um balneário jovem, com muito bom ambiente, a malta começava a rir quando eu e o treinador nos picávamos, porque ele é muito nervoso, se tu olhas para o lado ele é capaz de agarrar numa bola e atirá-la contra ti. Mas era um bom ambiente.

Diogo (de frente) foi emprestado ao Génova, da Itália, durante seis meses

Diogo (de frente) foi emprestado ao Génova, da Itália, durante seis meses

 

GABRIELE MALTINTI

No final da segunda época foi para Itália. Porquê?
Fiz a pré-época já com o Génova. Mas em janeiro voltei ao Sevilla, por isso ainda tenho uma terceira Liga Europa.

Voltou ao Sevilla porquê? Não se adaptou a Itália?
Voltei porque o Unai ligou-me, disse que precisava que eu voltasse.

A sua ida para Génova deveu-se a quê?
A esse amor-ódio. Mas fui mais eu que quis sair.

Porquê?
Eu jogava praticamente tudo e nas fases finais da Liga Europa, nos quartos de finais, nas meias-finais, ele tirava-me sempre. Nunca lhe perguntei porquê, mas tirava-me sempre. Na reta final desse ano eu já nem lhe falava, nem respondia. Chegou o interesse do Génova e eu disse logo que sim.

Como foi o primeiro impacto em Génova?
Foi bom, apesar de não saber falar italiano. Mas havia muitos jogadores na equipa que falavam espanhol, o Diego Perotti, que já tinha conhecido no Sevilla. Havia vários argentinos. Também chegou o Diego Capel, por isso a adaptação foi muito boa. A maior dificuldade que senti no Génova foi o físico. Eles treinam muito o físico, é praticamente só correr, com pouca bola. Nunca gostei de estar só a correr. Essa foi a maior dificuldade que senti em Itália.

O futebol que se joga na Itália também é muito diferente do espanhol.
Sim, as equipas italianas são muito físicas, não se preocupam tanto em jogar mas sim em correr, em ir ao choque.

Gostou dos italianos?
Por acaso gostei. Ali também viviam bem o futebol porque Génova tinha um estádio à inglesa, com um ambiente muito bom.

E o treinador, Gasperini, que tal?
Era muito difícil. Não era uma pessoa de falar contigo de forma calma, era uma pessoa difícil de levar. Nos treinos estava sempre a gritar, quando alguma coisa não saía bem, então, parecia que saía fumo da cabeça [risos]. Pelo menos eu tive muita dificuldade em lidar com ele.

Por ser também um jogador que gosta de responder?
Não, aí já estava mais tranquilo.

Que outros momentos registou dessa passagem por Itália?
Tínhamos um grupo fantástico. Foi bom aprender outro idioma, mas o que mais me marcou foi ter que andar a treinar na rua, a correr com todos os dispositivos no corpo. Isso matava-me, ficava logo de mau-humor [risos].

Diogo tenta roubar a bola a Ronaldo, num Real Madrid-Sevilla

Diogo tenta roubar a bola a Ronaldo, num Real Madrid-Sevilla

 

ANGEL MARTINEZ - REAL MADRID

Em janeiro regressou ao Sevilha e fechou o ano em beleza com a terceira Liga Europa. Mas não jogou muito.
O Unai ligou-me para regressar ao clube, mas não voltei como lateral, voltei como extremo e já não joguei tanto, porque a equipa estava feita.

Então porque acha que ele o quis de volta?
Não sei. Sei que precisava de mim, mas afinal não joguei assim tanto.

Nunca o questionou?
Não, já não estava nessa fase. Comecei a ver os jogos a passar, a não jogar, percebi que não ia jogar muito, e quando jogava mandava-me aos tubarões, por assim dizer. O primeiro jogo que fiz quando voltei foi com o Real Madrid, no Bernabéu. A partir daí, percebi que não ia jogar muito. E nos últimos meses nem sequer estava com a cabeça no Sevilla.

Porquê?
Já estava com vontade de mudar de ares, de ir para outro sítio para voltar a sentir-me importante.

Nas três épocas em que esteve no Sevilha jogou contra as maiores estrelas do futebol. Qual foi aquele adversário mais difícil de travar?
Como lateral apanhei sempre os melhores, como o Cristiano Ronaldo, o Messi, o Neymar. Estes três foram os piores, ou os melhores, que apanhei.

Qual deles mais dores de cabeça lhe deu?
O Ronaldo, sem dúvida. É muito completo. Eu tenho 1,70m, ele tem 1,85m e era complicado para mim [risos].

Em 2016/17 assinou pelo Olympiacos, da Grécia. Queria sair do Sevilla ou foi empurrado?
Eu disse ao meu empresário que queria sair. O interesse do Olympiacos veio em março de 2016 e assinei logo, ou seja, mais de um mês antes da época terminar. Também assinei por quatro anos. Vi o Olympiacos como uma rampa para voltar a ser importante e dar o salto outra vez. Quando cheguei, apesar de ser um clube grande da Grécia, percebi que não era tão grande como um Sevilla ou como um Génova. Não tinha muito peso na Europa. Mas, na Grécia, era um clube enorme, como se fosse um Real Madrid, aqui na Espanha.

E o futebol grego, que tal?
Muito diferente de Espanha e de Portugal. Um nível muito mais baixo.

Isso facilitou-lhe a vida, ou não?
Não sei se facilitou porque não era uma liga muito competitiva, acho que me acomodei um bocado àquele nível de jogo e por isso acho que não ajudou.

Que memórias tem desse primeiro ano, em que foi campeão?
Fomos campeões com muitos pontos de avanço do segundo. Mas o que mais marcou foi despedirem o treinador por perder um jogo. Eles eram assim. Tive três ou quatro treinadores esse ano.

Dos quatro de qual gostou mais e com quem se entendeu melhor?
Do Paulo Bento. Entendíamo-nos muito bem. Gostei muito de trabalhar com ele. Tem aquele ar de zangado, mas não é nada assim, não sei se era porque estava no maior clube da Grécia... Apesar de ser um clube com muita pressão porque eles querem ganhar, sim ou sim, e se não ganham parece que vai acabar o mundo. Foi o que aconteceu ao Paulo. Tínhamos muitos pontos de avanço, ainda estávamos na Liga Europa, perdemos um jogo fora, com o PAOK, e no dia a seguir ele foi despedido, sem sentido.

Em 2016/17, Diogo Figueiras (1º em baixo à direita) assinou pelo Olympiakos

Em 2016/17, Diogo Figueiras (1º em baixo à direita) assinou pelo Olympiakos

 

AFP CONTRIBUTOR

Que tal os adeptos gregos?
São malucos pelo clube, o ambiente no estádio era sempre fantástico e se era dérbi, era uma coisa de malucos, o jogo atrasava sempre meia hora, devido aos adeptos.

Alguma vez foi abordado na rua?
Sim, eles conheciam-nos bem, até porque vivíamos todos no mesmo sítio. Quando as coisas iam bem, eram simpáticos, quando as coisas não iam tão bem, já era mais complicado. Nós tivemos um episódio mais ou menos idêntico ao que aconteceu na Academia do Sporting. Julgo que foi no meu segundo ano. Ainda não tínhamos começado a treinar. No dia anterior tínhamos perdido um jogo ou com o Panathinaikos, ou o AEK, e no dia seguinte eles entraram por ali adentro. Começamos a correr para o balneário e ficámos lá uma hora mais ou menos. Os diretores, entretanto, reuniram os adeptos, começaram a falar com eles e pouco depois começámos nós a sair.

Sentiu medo?
Um bocado. Não sabíamos o que podia sair dali. São pessoas extremistas.

Na segunda época, 2017/18, acabou por sair para o SC Braga. Porquê?
Eu estava bem no Olympiakos. O nível de vida era muito bom, a mãe da minha filha também gostava muito de lá estar, mas ligou-me o Pedro Alves, o diretor do SC Braga e começou a dizer-me que queriam que fosse para lá, que era para fazer só seis meses e que depois vendiam-me a Inglaterra. Eu caí na história. Não aconteceu nada disso.

O lateral português num momento acrobático pelo Olympiakos

O lateral português num momento acrobático pelo Olympiakos 

ARIS MESSINIS

Como foi regressar a Portugal e ao futebol português depois de cinco anos fora?
Foi estranho. Como saí tão jovem de Portugal, para mim foi estranho, parecia que já não era português; a mãe da minha filha é espanhola, sevilhana, eu já falava espanhol. Fiz boas amizades em Braga, mas, dentro de mim, já não havia aquela vontade e curiosidade de voltar a Portugal. Pelo menos tão cedo.

Encontrou um futebol muito diferente daquele que tinha deixado?
Acho que com os anos melhorou. Já havia equipas mais competidoras.

O que achou do treinador Abel Ferreira?
Como treinador gostava dele, como pessoa não tanto.

Porquê?
Porque não ia de frente. Não ia de cara. Não dava a cara. Eu quando vim para o SC Braga não sabia que ia jogar como terceiro central, como jogava o Abel, com três centrais. E a partir desse momento senti que não era o meu sítio.

Tentou falar com ele?
Tentei sempre falar com ele e ele nunca quis, essa é a verdade. Pelo menos comigo nunca deu a cara, nunca falou comigo. Fui ao gabinete dele e nunca quis falar. A partir daí as coisas correram muito mal para mim no SC Braga.

Como assim?
Nos treinos eu já não era o que devia ser. Ele não me metia a jogar ou nem sequer me convocava, sem explicação nenhuma, apesar de eu pedir explicações.

Começou a baixar de rendimento?
Houve momentos que sim, fui-me abaixo. Porque nos momentos em que estava bem, não jogava, e não entendia o porquê; até hoje não tenho uma explicação.

Mesmo assim ficou até final da época e a seguinte toda. Tinha assinado por quanto tempo?
Por quatro anos também. Na segunda época voltei a jogar como lateral e de um momento para o outro não joguei mais. Isso deixava-me bastante frustrado, até porque alguns dos meus companheiros também se perguntavam como era possível eu não jogar, eles também não entendiam porquê.

Em 2018, Diogo Figueiras assinou pelo SC Braga

Em 2018, Diogo Figueiras assinou pelo SC Braga

 

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Até que foi emprestado ao Rio Ave.
Sim, já levava dois anos em que praticamente não jogava. Ia jogando um jogo ou outro, mas isso não era para mim. Lembro-me que estava de férias no Algarve, com o Paulinho e o Esgaio, e as nossas famílias, quando me ligou o [Carlos] Carvalhal. Falei com ele e mais uma vez acho que foi a conversa que precisava ouvir naquele momento. Apesar de ser para o Rio Ave, precisava ir para lá, para jogar.

O que ele lhe disse?
Disse a verdade, que eu não estava a jogar no SC Braga e se fizesse mais um ano assim, sem jogar, ia desaparecer. Comecei a pensar nisso. Ainda demorei uma semana para voltar a falar com ele, porque a minha intenção era sair de Portugal.

E tinha propostas para fora?
Ainda não tinha comunicado ao meu empresário que queria ir para fora. Mas o Carvalhal conseguiu convencer-me e fui para o Rio Ave.

Gostou dele enquanto treinador?
Acho que foi um dos treinadores de que mais gostei. Uma pessoa muito próxima, que está no futebol há muitos anos e entende bem o futebol. Ajudou-me muito e é um dos melhores treinadores que tive.

Começou logo a jogar?
Não. Não estava em forma, porque estive muito tempo sem jogar em Braga e acho que nem pré-época fiz. Quando cheguei ao Rio Ave precisei de umas semanas para voltar a estar bem.

A época correu-lhe bem?
Correu, e à equipa também porque terminámos em 5.º lugar, mas foi o ano da pandemia. Depois ou treinávamos em casa, ou íamos treinar aos pares.

Diogo tenta travar Yacine Brahimi do FC Porto, num jogo da Liga 2017/18

Diogo tenta travar Yacine Brahimi do FC Porto, num jogo da Liga 2017/18 

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O que fazia nos tempos livres nesse ano de pandemia?
A mãe da minha filha e a minha filha já estavam em Sevilha e eu estava sozinho. Em casa fazia bicicleta, jogava PlayStation, via um filme ou uma série, não havia muito mais a fazer.

Porque não continuo no Rio Ave?
Voltei ao SC Braga porque fui emprestado por um ano. O Sá Pinto já estava no SC Braga, queria que eu ficasse, mas a direção não queria, não sei se era por ter um salário alto ou se por outras razões. Também não cheguei a perguntar porque queria ir embora. Foi quando surgiu o Famalicão.

Não teve propostas da Espanha ou de outro país?
Nessa altura, não. Foi por isso que tomei a decisão de ir para o Famalicão. Até porque ainda estive seis meses em Braga, sem jogar.

E como foi essa época e meia no Famalicão?
Pessoalmente foi bom, mas, no clube, foi com altos e baixos. Era um clube que aspirava a mais e nunca aconteceu, também porque vinham sempre 10, 11, 12 reforços.

Dos treinadores que teve algum que queira destacar?
O Ivo Vieira marcou-me, é um bom treinador. Tanto ele como a equipa técnica eram muito próximos. Ainda sou amigo do Miguel Romão, que era o adjunto. Tive muita pena que tivessem ido embora.

Diogo foi emprestado ao Rio Ave, em 2019

Diogo foi emprestado ao Rio Ave, em 2019

 

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No final do ano e meio, o que aconteceu?
Eu não tinha intenções de renovar porque queria voltar para o estrangeiro.

Queria voltar para algum clube ou liga em particular?
Não tinha preferência. A partir do momento que experimentei estar fora de Portugal, gostei. Essa foi sempre a minha intenção, estar fora, porque gosto. Fiquei à espera que aparecesse um bom contrato. Apareciam coisas do Chipre, por exemplo, mas sentia que não era o momento de ir para o Chipre. Fiquei à espera que aparecesse uma coisa boa e não apareceu.

O que fez?
Continuei à espera, confiei nos meus empresários que já não são da ProEleven, é a PromoSport.

Porque mudou?
Foi no meu segundo ano de Sevilha que mudei. Fiquei a saber que o meu contrato com o Sevilha não aumentava com o passar dos anos, não tinha objetivos, e no primeiro ano as coisas correram muito bem. Depois soube do interesse do Barcelona, mas como levava um nível de vida que não era o apropriado, porque estava sozinho, saía à noite com os meus amigos, isso soube-se tudo e transferência não se deu. Depois mudei de empresário.

Está arrependido?
Sim e não, porque tu também tens de viver. Mas é verdade que essa situação levou-me a pensar de outra maneira, que não podia ser sempre assim, e serviu de lição, claramente.

O lateral em ação pelo Rio Ave

O lateral em ação pelo Rio Ave

 

CARLOS RODRIGUES

Ainda tem esperança de voltar a jogar futebol a um nível profissional?
Esperança tenho porque ainda sou novo.

Mas tem noção de que é cada vez mais difícil?
Sim. Sei que tenho de dar um passo atrás, para voltar a estar bem.

Tem algum plano B?
Ainda não pensei nisso porque ainda tenho a esperança de voltar a jogar.

O que fez nestes dois anos?
Estive a treinar porque há mercado de seis em seis meses. Limitei-me a treinar, a estar bem. Treinei com um amigo que tem um ginásio, sempre à espera que os meus empresários dissessem alguma coisa. Tento falar com eles e parece que desapareceram. Tem sido muito difícil falar com eles. E são aqui de Sevilha, vivem perto de mim. Não percebo o porquê de não falarem, porque afinal de contas empresários há muitos e clubes também. Se não querem estar comigo, podem dizer, porque temos uma relação de 10 anos.

Está disposto a ficar nesta situação até quando?
Já não estou mais disposto. Se não encontrar algum clube neste mercado de verão, vou tentar arranjar um plano B.

Entretanto, está há dois anos sem ganhar dinheiro. Já investiu o seu dinheiro?
Sim, em imobiliário.

No dia em que tiver de pendurar as chuteiras, o que se vê a fazer a seguir?
Penso que vai ser algo ligado ao futebol. Seja como empresário, como scout, qualquer coisa assim, desde que seja ligado ao futebol. Mas por enquanto ainda não tenho uma ideia, porque ainda tenho esperança de voltar a jogar.

Em 2020/21, Diogo assinou pelo FC Famalicão. Aqui com João Mário (à direita) do Sporting

Em 2020/21, Diogo assinou pelo FC Famalicão. Aqui com João Mário (à direita) do Sporting

 

CARLOS RODRIGUES

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
No Génova, na Itália.

Tem algum hóbi?
Viajar. Ir a uma esplanada, almoçar e jantar.

Dos países para onde viajou, qual aquele de que mais gostou?
As Seicheles.

Qual foi a maior extravagância que fez até hoje?
Comprar um Porsche.

Acredita em Deus?
Mais ou menos.

Superstições tem, ou teve?
Não.

Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez?
A primeira foi aos 17 anos, nas costas, é uma jota em árabe. Mas já fiz mais de 30 tatuagens.

Quais são as mais importantes?
É a da minha filha, tenho a mão e o pé dela, a data e hora de nascimento e o nome dela. No outro gémeo tenho as três Liga Europa.

Segue ou pratica outra modalidade além do futebol?
Neste momento, não. Tentei o padel, mas não é para mim.

Diogo Figueiras (à esquerda) do FC Famalicão com Ricardo Rodrigues do FC Alverca em ação durante a Taça de Portugal, em 2021

Diogo Figueiras (à esquerda) do FC Famalicão com Ricardo Rodrigues do FC Alverca em ação durante a Taça de Portugal, em 2021

 

GUALTER FATIA

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ter representado a seleção é uma delas.

E o maior arrependimento?
Ter regressado a Portugal.

O momento mais feliz da carreira?
Sem dúvida ter assinado pelo Sevilha e conseguir as três Ligas Europa.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Real Madrid.

Tem alguma alcunha?
Não.

Qual ou quais as maiores amizades que fez no futebol?
Beto, Carriço, André Martins, Ricardo Esgaio, Stephen Eustáquio e Rúben Lima.

Existe alguma regra do futebol que se pudesse, alterava ou acabava com ela?
Retirava o VAR. Tira toda a emoção ao futebol.

Tem algum talento escondido?
Não.

O momento mais difícil porque passou na vida?
Quando perdemos o primeiro filho, a gravidez já estava adiantada, de cinco meses. Na altura jogava na Itália.

Se não tivesse sido jogador, o que teria sido?
Não tenho ideia.

 

Citação de silentz, Em 20/07/2024 at 22:44:

 

Spoiler

Nasceu em Esposende. É filho de quem?
O meu pai era advogado, faleceu no ano passado. Suicidou-se. Nos últimos anos já não tinha relação com ele. Há uns anos, devido a problemas entre nós, cortámos relações. É sempre complicado perder um pai, mesmo não tendo uma relação próxima, porque no nosso subconsciente sabemos que está lá. Mas para mim foi mais complicado tomar a decisão de cortar relações do que saber da notícia de que faleceu, porque cortar relações é uma decisão nossa, o resto já não está no nosso controle.

E a sua mãe?
Eles estavam separados há uns anos. A minha mãe trabalhava com crianças, num ATL.

Tem irmãos?
Tenho um irmão mais novo quatro anos.

Cresceu onde?
Numa aldeia chamada Belinho, que faz parte do Concelho de Esposende. Parte da família do meu pai era dessa aldeia e parte da família da minha mãe era de Esposende e nós andávamos ali entre Esposende e Belinho.

Qual a primeira memória de infância que tem?
Tenho de puxar muito pela cabeça… Não sei porquê, custa-me lembrar de certas coisas, o meu irmão tem muito mais facilidade nesse aspeto. Ele às vezes conta uma coisa e depois é que vejo, epá, era mesmo isso, agora que falaste nisso... [risos] Mas, lembro-me que tive uma infância feliz. As memórias de infância rodam muito à volta de amigos próximos e primos a jogar futebol dentro de casa, no jardim, na rua. Recordo-me dos verões em que íamos ajudar os nossos avós a trabalhar no campo, porque sou de família de agricultores, com muito orgulho. Da minha mãe eram mais pessoas da cidade, tenho um bocado os dois mundos.

Foi uma criança tranquila ou era muito traquina?
Fui pai há nove meses e tenho falado com a minha mãe sobre isso, ela diz-me que eu era relativamente tranquilo, nunca dei muitos problemas. O meu irmão deu mais dores de cabeça. Eu era uma criança que brincava com os brinquedos e depois punha tudo no sítio e não estragava. Em contrapartida, o meu irmão partia tudo.

Dinis em criança, na praia

Dinis em criança, na praia

 

D.R.

O que dizia querer ser quando crescesse?
Eu sei que uma vez disse a uma professora que queria ser jogador de futebol e que se riram de mim.

Em casa torcia-se porque clube?
A minha família é benfiquista. E eu cheguei a apoiar o Benfica, mas nunca fui tão fervoroso como os meus pais e irmão.

Quem eram os seus ídolos?
Cresci a ver o Rui Costa, Luís Figo, Fernando Couto, por exemplo. O Euro 2004 marcou-me bastante porque era um menino de nove anos. Lembro-me de chorar, mas também me lembro de ver, por exemplo, a final do Mundial de 2002, em que fiquei fascinado com o Ronaldo ‘Fenómeno’.

Gostava da escola?
Gostava de estar na escola, gostava de umas disciplinas mais que outras, obviamente, mas não era muito estudioso.

Qual foi o primeiro desporto federado que praticou?
Sempre joguei futebol. Houve uma altura que queria ser guarda-redes porque me ofereceram umas luvas iguais às que o Oliver Kahn usou no Mundial de 2002 e fiquei fascinado. Mas, ao fim de um ano, achei demasiado aborrecido e fácil e decidi que queria jogar à frente. Todos os dias jogava no jardim de casa com os meus primos e era sempre o guarda-redes até as luvas se estragarem.

Quando foi jogar pela primeira vez para um clube?
Aos seis anos, no Marinhas.

Foi lá que fez a sua formação?
Sim. Chegámos a jogar em iniciados no campeonato nacional, o que para um clube como Marinhas é espetacular e em juvenil é que fui para o Varzim, tinha uns 15/16 anos.

Antes de jogar num clube e tornar-se central, houve uma fase em que Dinis gostava de jogar como guarda-redes

Antes de jogar num clube e tornar-se central, houve uma fase em que Dinis gostava de jogar como guarda-redes

 

D.R.

Como surgiu a hipótese de ir para o Varzim?
A minha madrinha e o marido vivem na Póvoa de Varzim. Na altura, o meu primo jogava no Varzim e foi através desses meus tios que fui lá fazer um treino à experiência e fiquei.

Notou muita diferença do Marinhas para o Varzim?
Sim, o Varzim é um clube histórico, o nível da formação é maior e melhor. Notou-se que deu para eu evoluir mais do que era possível evoluir no Marinhas. Não é que eu pensasse em ser futebolista nessa altura, mas foi um passo necessário para eu agora estar onde estou, obviamente.

Quanto tempo esteve no Varzim?
Dois anos. Fiz um ano de sub-15 e um ano de juniores.

Disse que não tinha como objetivo ser jogador profissional. Tinha outro?
Continuei a focar-me na escola, dos 17 aos 18, ou seja, o 12.º ano escolar, fiz os exames para entrar na universidade.

Em que curso?
Entrei em engenharia eletrónica, na Universidade do Minho. Tinha um plano B, porque não via como principal objetivo ser jogador, naquela idade.

Pensava em ser o quê em concreto?
Eu não tinha um plano específico, mas sabia que ser jogador profissional de futebol era complicado para ter sucesso. Então eu tinha de preparar alguma coisa, embora sem saber ao certo o que seria. Sou sincero, eu gostava da área da eletrónica, mas havia pessoal que tinha muito maior conhecimento do que eu ao entrar na universidade, mas também eu ia lá aprender.

Dinis e o irmão, quatro anos mais novo

Dinis e o irmão, quatro anos mais novo

 

D.R.

A seguir foi para o GD Ribeirão. Como?
Sinceramente, não sei como é que foi feita a transferência, eu era um miúdo. A transferência foi para o Ribeirão, mas fui emprestado logo ao GD Joane.

Tinha empresário?
Sim, era o Mário Loureiro, que foi ter comigo ainda eu estava no Varzim. Ele veio com a hipótese de ir jogar no CNS, que é a Liga 3, no meu último ano de júnior e eu pensei que era um upgrade em relação à liga nacional de juniores e quis experimentar. E sempre foi falado que era para eu ir para o GD Joane, agora como é que eles fizeram com a papelada e com que clube é que eu não sei. Sei que fui jogar no Joane.

Os seus pais nunca se opuseram a que continuasse no futebol ou colocaram condições?
Nessa parte foi mais o meu pai que me apoiou, porque me levava todas as semanas para a Póvoa de Varzim. Éramos três miúdos de Esposende, os pais alternavam uma semana cada. Os meus pais sempre demonstraram apoio, se eu quisesse continuar com essa carreira, mas também lembravam sempre que tinha a escola, que tinha de ser feita. Deram-me asas, mas mantiveram-me os pés na terra. Sempre me disseram que ser jogador profissional é complicado acontecer, exige muito trabalho e dedicação e mesmo assim posso não ter o sucesso que desejo, por isso, convinha ter um plano B, que era a escola.

Quando foi para o GD Joane já tinha ingressado na universidade?
Sim, no ano em que vou para lá, entrei no polo de Guimarães da Universidade do Minho. No início tentei conjugar as duas coisas, treinar em Joane e ir a Guimarães, mas como quase todas as aulas eram de manhã e é um curso que exige muito trabalho de casa, porque tem muita álgebra, muita matemática, percebi que não conseguia dedicar-me à universidade. Tinha treinos de manhã, falhava a maioria das aulas e ter de, à tarde, repor toda essa matéria tornou-se impossível. Portanto, entrei, mas basicamente não fiz nada porque vi que para fazer as coisas bem-feitas era impossível.

Foi aí que optou pelo futebol.
Optei por testar o futebol sabendo que tinha ali aquela parte, porque a matrícula estava feita.

Dinis iniciou o seu percurso no futebol, no Marinhas

Dinis iniciou o seu percurso no futebol, no Marinhas

 

D.R.

Como correu a época de júnior de 2.º ano no GD Joane?
Correu bem, foi uma época em que marquei oito golos, o que sendo defesa central e a jogar contra avançados que tinham experiência de I e II Liga, foi muito bom. Eu tinha 18 anos e o outro central tinha 38 anos. Mas, com essa época, consegui ser chamado à seleção sub-19, pelo selecionador Hélio Sousa.

Quem lhe deu a notícia e qual foi a sua reação?
Eu não estava à espera, foi o clube que me disse que a FPF tinha enviado um e-mail. No início pensei que fosse uma brincadeira.

Antes de irmos à seleção, como foi passar de um balneário de juniores para outro de homens já feitos, pais de família, alguns deles com outros trabalhos e com bastante mais anos de carreira?
Foi um choque. Antes estava rodeado de meninos da minha idade e ali tinha homens experientes, com carreiras de 15 ou mais anos. Lembro-me de perceber que para eles era difícil, por exemplo, estar sem receber o salário. Se havia atraso já lhes fazia muita diferença porque dependiam desse dinheiro e tinham responsabilidades, enquanto para mim, não.

Foi no GD Joane que começou a ganhar dinheiro com futebol?
Sim, foi o meu primeiro contrato. Eram €500 por mês, mas só recebi metade do contrato. Houve problemas financeiros no clube. A maioria do dinheiro era usado para chegar aos treinos, porque quando entrei na universidade ainda vivi no dormitório do polo universitário uns meses, mas depois congelei a matrícula e voltei a casa dos meus pais. Aí já tinha de fazer Esposende-Joane.

Dinis passou pelo GD Joane em 2013/14

Dinis passou pelo GD Joane em 2013/14 

D.R.

Custou-lhe sair de casa dos pais essa primeira vez?
Custou. É um choque muito grande não ter o almoço e o jantar feito, o saber que está ali a mãe e o pai, que tudo está minimamente organizado e em ordem. Por isso a primeira vez é sempre um choque.

Passou a ir para os treinos de carro?
Ia no carro de dois colegas de Vila do Conde, o Marafona, irmão mais velho do Marafona do Paços de Ferreira, e o André Carvalho, que nos ajudaram bastante na adaptação àquilo que é um balneário sénior e as suas dinâmicas. Foi muito bom esse tempo em que fazíamos as viagens com eles porque deu para aprender certos valores que hoje os miúdos, quando entram nas equipas profissionais, se calhar já não têm. A parte de respeitar os mais velhos, a velha história de limpar as chuteiras, de não entrar no posto médico.

Limpou muitas chuteiras?
Não é que tenha limpado muitas, limpei algumas, mas não entrava no posto médico.

Porquê essa ideia de que não podia entrar no posto médico?
Eu acho que era um misto de brincadeira e não ser mesmo preciso por ser um miúdo, senão era logo: “O que vens aqui fazer?”. Felizmente, não precisei de ir lá. Foi um ano muito bom, apesar de termos descido de divisão, porque essa equipa levou muita gente para as divisões superiores. Estávamos cheios de miúdos com talento, com potencial e tínhamos três, quatro senhores do futebol que nos ajudaram a fazer essa transição para o futebol profissional.

Passou a acreditar ser possível fazer do futebol profissão?
Sim, porque via o nível que eu conseguia apresentar, as pessoas também falavam comigo. Chegar à seleção, parece que não, também dá mais motivação para continuar atrás deste sonho.

Disputou algum apuramento ou competição com a seleção?
Fui convocado para o Mundial sub-20, no ano seguinte, mas lesionei-me já com a seleção na Austrália, num treino, e perdi o Mundial.

Lesionou-se como?
Eram campos de râguebi, a relva estava muito alta e tive azar ao fazer um carrinho, a chuteira prendeu e fiz uma futura parcial no ligamento colateral medial do joelho direito e, apesar de não ter sido uma lesão grave, foi impeditiva de disputar o Mundial.

Apesar de ter sido convocado, o central não disputou o Mundial de Sub 20, na Austrália, devido a lesão

Apesar de ter sido convocado, o central não disputou o Mundial de Sub 20, na Austrália, devido a lesão

 

D.R.

Em 2014/15 saiu do GD Joane para o CF Reus, da Espanha. Ainda tinha o mesmo empresário?
Não, foi através da Gestifute. Entraram em contacto comigo, compram o meu passe, na altura ainda era possível os agentes comprarem os passes, e eu mais o lateral-direito, o Eliseu Nadjack, que foi o meu companheiro de casa na Espanha, fomos colocados lá.

Quando lhe apresentaram a proposta da Espanha, o que pensou?
Fiquei com um bocado de receio por sair de casa. Sabia que a Espanha tem umas divisões inferiores muito fortes. O projeto era bom, era ambicioso, mas tinha essa parte de sair de casa e não foi uma decisão fácil. Mas quando vi além desse medo de sair de casa, tornou-se claro que era um bom passo para a possível carreira no futebol.

Chegaram a estar muitos portugueses no CF Reus, o Rúben Semedo, Victor Silva, Alexandre Guedes, Ricardo Vaz…
O Rúben chegou no segundo ano e o Alexandre Guedes saiu nesse ano, mas estávamos sempre quatro portugueses.

Como foi a adaptação?
Foi complicado porque o ritmo, a qualidade e o nível eram muito superiores aos do CNS. Nos primeiros tempos não joguei muito porque também era o meu primeiro ano de sénior. Mas é uma fase normal da carreira de um jovem, adaptar-se a um nível superior.

Não pôs em causa o seu futuro como futebolista?
Não, sempre fui muito crítico e analítico e tinha noção de que era uma adaptação. Que tinha de desenvolver a parte física, mental e a inteligência tática. Aprendi bastante com o treinador que tive na Espanha.

O Natxo González?
Exatamente, que depois passou pelo Tondela. É um treinador com muito nome lá e que me ensinou muitas coisas úteis, que ainda levo hoje.

Como, por exemplo?
Hoje percebo que a maneira como os espanhóis veem e preparam o jogo é muito profissional, muito correta. Há diferentes fases de um jogo, há diferentes aspetos que mudam de jogo para jogo, se é em casa, se é fora, se este oponente está a lutar por subir, se está a lutar para descer. Foi a equipa técnica na Espanha que me introduziu essas noções, são tudo elementos que vão alterar a forma como se desenrola o jogo e nós temos que estar preparados.

Dinis (à direita) tinha 20 anos quando foi comprado pelo Monaco e emprestado ao CF Reus

Dinis (à direita) tinha 20 anos quando foi comprado pelo Monaco e emprestado ao CF Reus

 

D.R.

Os espanhóis no balneário não olhavam para os portugueses com ar desconfiado?
No início, penso que olhavam e pensavam: “Eles acham-se maiores e melhores que nós.” E houve um bocadinho de atrito. Mas, ao fim de um mês, ou nem isso, já tinham entendido que éramos boas pessoas, que estávamos ali para ajudar, não nos sentíamos mais que eles e fomos naturalmente integrados no grupo. Eu apanhei muito bem o espanhol e o catalão e notava, sem os catalães perceberem, que eles falavam em catalão quando os outros espanhóis não estavam por perto. Por vezes, percebia que se referiam a nós portugueses de uma forma algo depreciativa, até que um dia disse-lhes: “Sabem que estou a entender o que vocês estão a dizer? Não é preciso referirem-se a nós assim” [risos].

Mas de que forma é que falavam dos portugueses?
Se, por exemplo, algum fosse dar-nos uma boleia para casa, dizia ao telemóvel: “Estou aqui com o raio dos portugueses e tenho que os levar…”.Mas nunca houve problemas grandes.

Como foi jogar na II divisão da Espanha?
O nível de profissionalismo das equipas é muito maior em Espanha. O número de equipas históricas nessa divisão é gigante. Equipas que levam 15.000/20.000 adeptos nos estádios em todos os jogos, se estiverem a fazer uma boa época. Por aí vemos que têm muito mais capacidade financeira para desenvolver a liga. Havia certas equipas que se estivessem na I liga portuguesa não desciam de divisão e se estivessem na II Liga em Portugal iam subir com alguma facilidade. Era uma diferença de nível muito grande, mas também é um país muito maior, com uma grande cultura de futebol.

Nadjack, Ricardo Vaz, Raul Ernabeu, Vitor Silva e Dinis, os portugueses do CF Reus na época 2015/16

Nadjack, Ricardo Vaz, Raul Ernabeu, Vitor Silva e Dinis, os portugueses do CF Reus na época 2015/16

 

D.R.

Como foi viver com o Nadjack e a adaptação ao dia a dia dos espanhóis?
Éramos dois miúdos. O Eliseu é um rapaz espetacular e foi muito bom sair de casa e não ficar sozinho. Recordo-me do primeiro arroz que fizemos, nem eu, nem ele tínhamos cozinhado antes e deu para rir. As primeiras comidas que nós fazíamos eram praticamente intragáveis, mas nós tínhamos de comer. Mas percebemos que uma coisa é ler uma receita ou ver um vídeo, outra é fazermos nós mesmo, porque há vários tipos de arroz e formas de fazer [risos].

Foi nessa altura que começaram as primeiras saídas à noite e os namoros mais sérios, ou já tinham começado em Portugal?
Eu já namorava a minha esposa, tínhamos começado a namorar no verão antes de ir para Espanha. Chama-se Bruna Vilarinho, na altura estava na universidade a estudar medicina dentária. Já nos conhecíamos de vista da escola secundária. Os primeiros dois anos da nossa relação foram à distância. Não foi fácil, mas fez-nos ver que se conseguimos fazer resultar era porque havia alguma coisa que valia a pena.

E das saídas à noite, era ou é fã?
Nunca fui. É óbvio que com os meus amigos de infância é um bocado diferente nesse aspeto, mas com o pessoal do futebol não sou grande fã. Quando é para celebrar um campeonato ou uma conquista, sou o primeiro a dizer que sim, mas, além disso, não sou muito de sair à noite. Nunca fui.

Tinha assinado por quantos anos com o CF Reus?
Fui chamado para o Mundial sub-20, tenho a lesão, mas nesse verão o Mónaco tinha começado a negociar por mim e, mesmo depois da lesão, avançaram com o negócio. Como eu estava lesionado, o acordado foi que iria emprestado ao CF Reus, por isso, o meu segundo ano no Reus já é a empréstimo do Mónaco.

Dinis (à direita) esteve duas épocas no CF Reus

Dinis (à direita) esteve duas épocas no CF Reus

 

D.R.

Não ficou com pena de não ter ido para o AS Monaco?
Confesso que estava mais triste por perder o Mundial sub-20, porque representar o nosso país é mais importante que qualquer clube. Isso marcou-me mais do que pensar no que teria acontecido se não tivesse a lesão. Entretanto, recuperei da lesão, comecei a jogar e fazemos play-off de subida. No segundo ano de empréstimo do Mónaco conseguimos a subida de divisão, o objetivo principal, que me atraiu quando me foi apresentada a proposta de ir para Espanha.

No segundo ano os comentadores começaram a chamar-lhe Franz Beckenbauer. Porquê?
Na minha forma de jogar consigo roubar bolas e fazer condução para a frente, ou seja, faço a transição ofensiva a conduzir a bola e suponho que os comentadores na altura acharam que se assemelhava a alguma coisa que o Beckenbauer fazia e devem ter feito essa ligação por aí.

Eram só os comentadores que o chamavam assim ou os colegas também?
Fiz um golo que andou a correr na net, em que os comentadores começaram a chamar-me Beckenbauer e houve ali uns tempos em que eles também me chamavam assim, em jeito de brincadeira, mas passou. Não era uma coisa que eu também quisesse, porque ele é uma lenda do futebol e eu sou um simples jogador de futebol, não queria ter de sentir esse peso. É um nível demasiado alto para mim [risos].

Acabou por receber o seu primeiro ordenado como sénior na Espanha. Recorda-se do valor?
€3000, se não me engano.

O que fez com esse primeiro dinheiro?
Comprei um iPhone e um iPad sem perguntar nada a ninguém.

Quando terminou a segunda época esperava ir jogar para o AS Monaco? Quais eram as suas expectativas?
Eu sabia que o Mónaco é um nível muito superior e não quis meter essa expectativa em mim, no subconsciente era otimista e queria ir, mas sabia que a realidade era outra. Nunca me senti magoado por não ser chamado a treinar com a primeira equipa. Não levo isso como algo negativo na minha carreira, foi o que foi.

Em 2016/17, o central foi emprestado ao Belenenses e estreou-se na I Liga

Em 2016/17, o central foi emprestado ao Belenenses e estreou-se na I Liga 

D.R.

Como e quando acabou por ir para o Belenenses?
Durante as férias, soube que havia essa possibilidade. O Mónaco estava interessado em fazer acontecer o negócio porque consideravam ser um bom passo para mim.

Concordava ou preferia ter continuado em Espanha?
Eu queria ir. Não acho que tenha sido a decisão mais acertada, mas queria porque era o cumprir de um sonho de menino, jogar na I Liga portuguesa. Era o sonho que todos os meus amigos tinham quando éramos pequenos.

Porque diz que talvez não tenha sido a decisão mais acertada?
Porque é sempre mais complicado entrar numa equipa nova do que seguir na mesma. Se eu tivesse forçado para ser emprestado na Espanha, ia jogar na II Liga espanhola, que em nada podemos dizer que é inferior à I Liga portuguesa do meio para o fundo da tabela. Se ficasse na Espanha mais um ano, já me conheciam, podia ter tornado as coisas muito mais fáceis e podia ter jogado muito mais do que o que acabei por jogar no Belenenses.

Porque no Belenenses não correu tão bem?
Nós tínhamos quatro bons centrais, o Gonçalo Brandão, Domingos Duarte, Gonçalo Silva e eu. Nesse ano tivemos três treinadores, começou com o Júlio Velasquez, como eu vinha da Espanha já sabia mais ou menos como os treinadores espanhóis trabalham e foi fácil trabalhar com o Júlio. Foi basicamente uma continuação da aprendizagem que eu vinha a fazer. Com pena minha ele saiu ao fim de seis ou sete jornadas. A nível pessoal, tinha sido mais benéfico ele ter continuado do que ter entrado o Quim Machado. Com o Júlio ia jogando e com o Quim Machado não joguei. Tivemos três treinadores e aquele que ficou mais tempo foi aquele para quem eu não contava.

E porquê? Alguma vez lhe explicou?
Não, nunca teve uma conversa comigo nesse sentido.

Isso desmotivou-o?
Não me desmotivou, agora, se é a forma correta de fazer as coisas, a meu ver, não. Sendo eu um jovem jogador acho que ficava mais fácil tentar mostrar a razão e o porquê de não fazer parte das contas dele ou o dizer o que me fazia falta para entrar na luta para jogar. Era mais fácil ter falado do que não dizer nada e simplesmente eu entender, ao fim de algumas jornadas, que não contava para ele.

Vivia sozinho em Lisboa?
Foi o primeiro ano em que vivi com a minha namorada. Foi um ano muito bom porque Lisboa é uma cidade ótima. Vínhamos de dois anos de uma relação à distância e conseguir estar juntos tornou a relação mais fácil e proveitosa. Ela tinha uma semana por mês em que tinha de ir para a universidade, mas o resto do tempo estava comigo.

Dinis em ação pelo Belenenses num jogo frente ao Sporting, em 2017

Dinis em ação pelo Belenenses num jogo frente ao Sporting, em 2017

 

GUALTER FATIA

Voltando ao futebol, concluiu que o Belenenses foi um mau passo na carreira?
Em teoria era um bom próximo passo. E continuo a achar que foi um bom passo no sentido de que mesmo não jogando houve outras coisas que aprendi. Mas era muito melhor ter jogado, se calhar a carreira podia ter sido um bocado diferente.

Que outras coisas é que aprendeu?
Aprendi a ser profissional. Não é que não o fosse, mas levei a outro nível de profissionalismo. Aprendi que não somos treinadores e não estamos ali para tomar a decisão de quem joga, ou não. Temos que fazer tudo o que conseguirmos para estar disponível para o treinador escolher quem quer que seja.

Aprendeu isso através do que aconteceu com Quim Machado, ou de outra forma?
Acho que aprendi com quem estava à minha volta. Havia quem estivesse em situação similar à minha e entre nós dizíamos que tínhamos de estar preparados para jogar e treinávamos no máximo, para ser opção. Um dia estava eu mais desmotivado e outro que não jogava tanto, se calhar, ajudava-me, dizendo: “Hoje vamos treinar bem porque não vamos deixar que seja por esse motivo que não jogamos.” Queríamos pôr a responsabilidade no treinador no sentido de que treinámos, fizemos tudo o que tínhamos de fazer e ele simplesmente escolheu outro.

Houve algum momento em que pensou em sair do Belenenses?
Houve momentos mais complicados que outros, mas sentia que estava a evoluir, mesmo não jogando, estava a aprender diariamente, por isso não senti necessidade de sair.

Quando o Domingos Paciência assumiu a equipa, alterou alguma coisa?
Sim. Deu-me oportunidade de jogar. Joguei os dois ou três jogos finais.

Como era o balneário do Belenenses, comparando com o do Reus?
Era um balneário mais brincalhão. Talvez mais fechado no sentido de as pessoas de fora não saberem o que se passa no balneário.

Tem alguma história para contar dessa época no Belenenses ou algo que o tenha marcado mais?
Em todos os clubes por que passei, os roupeiros são pessoas espetaculares. No Belenenses, tínhamos o senhor João, um velhinho que era uma pessoa de um coração enorme, apesar de, de vez em quando, dar aqueles gritos e reclamar, mas era espetacular. Acho que foi o que mais me marcou, o senhor João. Nós tentávamos fazer-lhe algumas partidas, mas ele já levava muito ano daquilo, não era fácil apanhá-lo.

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D.R.

No final da época já sabia que ia para o SC Braga B?
O Mónaco comprou ou fez parceria com o Cercle Brugge para usar como equipa satélite ou equipa B e eu estive lá a fazer pré-época. Ao falar com os diretores e com os treinadores, o Mónaco dizia que era para ficar ali, para estar perto do clube e ser observado mais facilmente. Concordei com essa ideologia de trabalho. Mas, nas últimas semanas antes do fecho do mercado, como o Cercle Brugge estava na II liga belga, eles, do nada, decidiram que precisavam de jogadores experientes e uma das posições que quiseram reforçar com alguém experiente que conhecesse a liga, era a minha, defesa central. Basicamente, disseram-me que tinham de arranjar uma solução porque ali não ia conseguir jogar. Assumiram que era mais importante terem dois centrais experientes e conseguir subir de divisão, do que desenvolver jovens jogadores. Foi aí que no fecho do mercado acabou por surgir a opção do Braga B.

Ficou muito desiludido?
No início fiquei um bocado, mas levei muito para o lado de: eu vinha de um ano que não joguei muito e queria jogar. E o Braga B também estava na II liga, entre duas II ligas não havia muito por onde ficar desiludido. Encarei com bons olhos ir para Braga que tinha acabado de inaugurar a cidade desportiva e estava a meia hora de casa. Foi fácil aceitar a solução que foi a possível no fecho do mercado.

Voltou para casa dos pais?
Não, por normas do SC Braga tínhamos de viver a X quilómetros e, por outro lado, eu já tinha a minha independência há três anos, decidi em conjunto com a minha esposa que fazia mais sentido viver em Braga.

Como foi o primeiro impacto quando chegou ao SC Braga B?
Foi impactante porque era uma cidade desportiva ao nível de poucas na Europa e não estava à espera. Confesso que não pensei que fosse tão boa. O primeiro impacto foi de um profissionalismo enorme. De um querer desenvolver o clube e a formação, muito grande. Isso torna as coisas mais fáceis para ter sucesso no futebol.

Passou de um balneário da I Liga, no Belenenses, onde fazia parte dos mais novos, para um balneário onde, apesar de ter apenas 23 anos, já era dos mais velhos. Foi estranho?
Foi estranho, sobretudo porque tudo aconteceu no espaço de um ano. Quer se queira, quer não, ganhamos outras responsabilidades. No Belenenses seguia a liderança de certos jogadores, aprendia através de ver, ouvir e seguir. Ali, fazia parte dos que tínhamos de ensinar o que é ser profissional, que a equipa está acima de tudo, que temos de treinar no máximo todos os dias, de ir ao ginásio, ter cuidado com a alimentação, essas coisas básicas que se tem de mostrar aos miúdos. Foi estranho a princípio, mas é um trabalho gratificante porque estamos a ajudar jovens jogadores que estavam tão perdidos como eu quando comecei no futebol sénior.

Qual era o objetivo da equipa?
O objetivo era desenvolver talento para a equipa principal e o mínimo dos mínimos era manter-se na II Liga. Como eu estava emprestado, deram-me a entender que era mais fácil dar oportunidade a quem era do Braga porque fazia mais sentido para o clube. No início foi um bocadinho assim, fui jogando, como cheguei tarde também é sempre difícil apanhar o comboio da equipa onde já há dinâmicas impostas. Demorou o seu tempo para estar bem fisicamente e estar pronto para ajudar. Nessa altura tentaram introduzir os bons jogadores que tinham mais jovens. Mas, com a entrada do mister Wender Said, mudou bastante para mim, porque deu-me mais autoridade para assumir esse papel de ser o jogador experiente, ser um dos líderes. Foi aí que passei a jogar praticamente todos os jogos, de meio para a frente, quando as coisas apertaram um bocadinho e começaram a pensar que era melhor tentar manter a equipa na II Liga. A nível pessoal foi bastante bom porque joguei bastante e não descemos. Ser campeão é bom, mas não descer também é uma sensação espetacular, ainda por cima num grupo cheio de miúdos.

Como foi parar à Grécia em 2018/19?
Havia duas ou três opções que podiam ter acontecido, mas como o Xanthi, da Grécia, era a primeira escolha, nem quis saber no que pudessem estar a trabalhar como plano B e C. Eu vinha de um ano sem jogar muito no Belenenses, depois joguei na II Liga e queria uma I Liga, num país que fosse desafiante e que desse para jogar e evoluir. A I Liga grega é boa, com muita capacidade, muitos adeptos, por isso foi fácil dizer que sim.

Foi novamente por empréstimo do Mónaco?
Sim.

Foi sozinho ou com a sua namorada?
Fui com ela. A partir de Lisboa veio sempre comigo. Passámos a viver juntos e a decidir as coisas em conjunto.

Que tal o primeiro impacto quando aterrou na Grécia?
Nós pesquisámos as equipas e as cidades, tentámos saber o mais possível antes de nos comprometermos com o que quer que seja, por isso vimos que não era a Grécia que estamos habituados a ver. Não era uma Grécia de Atenas, de Creta ou Corfu, era uma cidade no interior, muito perto da Turquia e da Bulgária, muito mais ao estilo turco do que ao estilo grego. Mas o clube tinha umas instalações muito boas para a realidade grega. Tínhamos um estádio ótimo, uma cidade desportiva boa e nesse sentido foi fácil, aquele primeiro choque ao chegar foi mais positivo do que pesquisámos, era melhor do que parecia na Internet.

A comunicação foi fácil?
Sempre tive facilidade no inglês e nas línguas em geral. Era muito mais problemático eles não falarem inglês.

Na época 2018/19, Dinis Almeida jogou no Xanthi na Grécia

Na época 2018/19, Dinis Almeida jogou no Xanthi na Grécia

 

D.R.

Como foi recebido no balneário?
No balneário tinha dois espanhóis, um argentino e um cabo-verdiano. Os gregos eram mais fechados, mas como havia estrangeiros a adaptação tornou-se mais fácil. Era estrangeiros de um lado e gregos do outro. São fechados e não tomam iniciativa, mas se formos atrás deles e puxarmos um bocadinho por eles, abrem-se, gostam de falar e convidam para o típico café freddo, que tomam a toda a hora. São um bom povo, se calhar não gostam muito de trabalhar, mas gostam de aproveitar o sol, o seu bom café, de almoçar bem, de jantar fora, sabem aproveitar o dia além do trabalho.

O futebol correspondeu às expetativas?
Tive um treinador sérvio, com uma forma de trabalhar totalmente diferente do que estava habituado.

Em que sentido?
Se calhar, mais trabalho físico, um estilo de futebol diferente, mais direto. Os espanhóis e os portugueses gostavam de ter bola e ele era um treinador mais à antiga, em que a parte física era muito importante, que queria jogar um futebol mais direto e mais pragmático porque o resultado é que importa, não tanto a forma como o consegues. Foi a primeira vez que tive contacto com esse pragmatismo de querer os pontos e o resto que se lixe.

Para si foi mais difícil adaptar-se a esse estilo de jogo?
Sim, porque sou um jogador que gosta de ter a bola e gosto que a equipa tenha a bola. Mas serviu para desenvolver outras coisas em que se calhar era mais débil. A parte defensiva, a parte dos duelos. Aprendi outra forma de jogar o mesmo jogo, o que deu para desenvolver o jogador e a pessoa que sou.

O central jogou no Lokomotiv Plovdiv, da Bulgária de 2019 a 2021

O central jogou no Lokomotiv Plovdiv, da Bulgária de 2019 a 2021

 

D.R.

Que tal os adeptos?
A cidade não era muito grande e não tínhamos muitos adeptos, mas os adeptos das equipas grandes eram de outro nível para quem vinha da II Liga portuguesa. É um choque grande. Os adeptos do PAOK são incríveis, os do Olympiakos também e jogar nesses estádios é uma atmosfera diferente do que tinha experienciado até ali. A forma como vivem o futebol é de fanatismo puro, tanto para o bom como para o mau. O primeiro jogo contra o PAOK na nossa casa foi incrível, parecia que estávamos a jogar no estádio do PAOK. Um barulho ensurdecedor, não param de apoiar a equipa do início ao fim. Para mim, é uma das melhores coisas do futebol.

Sabia que era um empréstimo só de uma época?
Não sabia quando assinei, mas ao dar-me conta da realidade do clube comecei a entender que era impossível ser ativada a opção de compra.

Por que diz isso?
Não era um clube que estava mal financeiramente, mas a sua ideologia de contratações não passava por pagar transferências, era muito à base de jogadores livres e jogadores emprestados. Com o decorrer da época comecei a entender que por mais que quisessem que continuasse, não iam exercer nunca a opção de compra, porque simplesmente não têm a possibilidade de gastar esse dinheiro em transferências.

Gostava de ter ficado mais tempo?
No final dessa época comecei a entender que, se calhar, para mim o mais importante era arranjar um clube que me desse estabilidade. Queria ter a estabilidade de, no mínimo, dois, três anos. Estava cansado de ser emprestado, de ter de me adaptar ano após ano.

Tem alguma história para contar da Grécia?
Cheguei numa altura de pós-crise e dizem-me que só posso levantar €200 por mês no Multibanco [risos]. Lembro-me de pensar, como assim tem limite para levantar o dinheiro que é meu? O FMI entrou com muita força na Grécia. Mas, felizmente, logo a seguir eles aumentaram os limites. Essa parte de haver limite de levantamento de dinheiro por mês chocou-me. Não sabia que um país pudesse estar tão mal e que fosse possível impedir as pessoas de fazer o que quisessem com o dinheiro que é delas. A parte positiva é que também fui explorar as ilhas gregas e são espetaculares. Não fui à tradicional Mykonos, mas fui a outras que são igualmente espetaculares, ou mais ainda. Aproveitei também a Grécia dos filmes, do ‘Mamma Mia!’.

Connor, Dinis e Lucas Masoero com a Taça da Bulgária, conquistada pelo Loko Plovdiv em 2019/20

Connor, Dinis e Lucas Masoero com a Taça da Bulgária, conquistada pelo Loko Plovdiv em 2019/20

 

D.R.

No final dessa época 2018/19 terminava o vínculo com o AS Monaco?
Não, ainda tinha mais um ano. Foi nesse verão que me casei e não quis pensar sobre futebol. Tínhamos um casamento e a lua de mel para preparar e isso foi mais importante para nós. Só tinha a certeza que queria arranjar forma de me desvincular do Mónaco e de ter estabilidade. Esse era o requisito mínimo que eu e a minha esposa tínhamos, ter estabilidade fosse onde fosse, porque tínhamos acabado de casar. Quando voltei da lua de mel é que começámos a trabalhar nas hipóteses que pudessem surgir para a nova época.

O que apareceu?
Tive uma opção da Ucrânia, ainda antes da guerra, e da Roménia também. Mas a que nos fez mais sentido foi a da Bulgária.

Porquê?
Porque quando comecei a investigar sobre a Roménia soube que havia vários problemas financeiros, que tinham a fama de não pagar a horas e não eram valores muito grandes, por isso, ao fim de dois, três meses, se calhar faz diferença. Temos que ter essa segurança de que é pago minimamente a horas. A Ucrânia, como casal, entendemos que não era o melhor sítio para continuarmos a nossa vida, apesar de não termos a noção do que era a Ucrânia. Quando fomos investigar a proposta do Lokomotiv Plovdiv, da Bulgária, ficamos encantados, primeiro com a cidade, pareceu-nos muito boa, e depois o que ouvimos do clube também agradou, que era cumpridor e com uma base adepta muito forte; os objetivos eram de lutar por uma taça e por ficar nos três primeiros. Foi fácil de escolher.

Correspondeu ao que tinham visto e ouvido?
Foi melhor do que tínhamos pesquisado. A cidade tinha sido Capital Europeia da Cultura e foi espetacular. O custo de vida era muito inferior ao que estávamos habituados e deu para aproveitar a vida de uma forma diferente. No clube também correu bem no início.

O central português a festejar um golo pelo Plovdiv

O central português a festejar um golo pelo Plovdiv

 

D.R.

E o futebol?
A liga tinha duas, três equipas boas. Éramos nós, o CSKA de Sófia e o Ludogorets, depois o nível descia um bocadinho. Basicamente, eram como se fosse duas ligas, uma em que estavam as três, quatro primeiras equipas, com bons jogos, equilibrados, competitivos, e depois, quando se tinha que jogar contra as outras equipas, já era diferente, era um nível inferior e isso afetava o nível geral da Liga.

Os búlgaros, como são?
No balneário são um bocadinho como os gregos, fechados no início e têm os seus grupos, mas depois acabam por abrir-se. Mas são boa gente. Aqui têm muita influência ainda do comunismo russo, mas são um povo que está a tentar evoluir. É um país muito atrasado a nível de infraestruturas e de hospitais, por exemplo, mas está a avançar a um ritmo muito grande. Temos muito o contraste entre o senhor que passa num cavalo e numa carroça e o que passa num Ferrari, logo ao lado. É um país de contrastes muito acentuados. Tive um choque grande quando fui fazer os habituais testes médicos e o hospital parecia um hospital português de há 30 ou 40 anos. Para tirar três ampolas de sangue tiveram de espetar-me a agulha três vezes. Foi um grande choque, até tendo em conta que era uma cidade escolhida para Capital Europeia da Cultura em 2019.

O clube tinha boas infraestruturas?
Sim, não é que sejam as melhores, mas tínhamos um estádio bom ao estilo dos Balcãs, tipo estádio olímpico grande, com a pista à volta, que leva muita gente. Tínhamos uns bons campos de treino e toda a estrutura do clube e das pessoas era de um profissionalismo grande.

O que mais estranhou na cultura búlgara?
Às letras do alfabeto cirílico. No início é difícil de entender. Ler instruções em cirílico no primeiro ano foi complicado. No clube falavam relativamente bem inglês, mas havia muitas pessoas mais velhas que falavam russo.

Dinis com a mulher e a Taça conquistada pelo Plovdiv

Dinis com a mulher e a Taça conquistada pelo Plovdiv

 

D.R.

Tem alguma história para contar desse primeiro ano na Bulgária?
Nada de especial. Lembro-me que eu e o meu colega argentino todas as semanas levávamos um pack de cervejas para o roupeiro. Só assim é que ele começou a tratar-nos bem. Ele não falava nada de inglês, o que serviu para aprender mais rápido o búlgaro, porque tive de arranjar forma de comunicar com ele. Mesmo fora do clube o nível de inglês era muito mais reduzido. Era complicado pedir frango num supermercado. Eu não sabia ler cirílico nem falar búlgaro e eles não sabiam inglês [risos].

Para a sua mulher também deve ter sido complicado. O que fazia ela durante o dia?
Vivíamos perto de um centro de canoagem de alta competição e ela todas as manhãs ia dar uma volta de alguns quilómetros, ou correr, depois eu chegava do treino e a partir dali íamos para o nosso dia em conjunto. Mas claro que era complicado para ela e eu já lhe agradeci várias vezes o esforço que ela faz, porque não é fácil abdicar da sua vida profissional para apoiar outra pessoa, ainda por cima numa situação difícil.

Como correu essa primeira época no Loko Plovdiv?
Correu bem, ganhámos a Taça e foi uma festa enorme na cidade. Eles são mais malucos e fanáticos do que nós a festejar. Foi na altura da covid, em 2020. A propósito, lembrei-me de uma história.

Força.
Foi nesse primeiro ano na Bulgária, 2019/20, ano de covid, na final da Taça, em Sófia, ganhámos nos penáltis e começou a festa com as famílias e amigos no campo, tudo normal. Entretanto, fazemos a viagem para Plovdiv, a festa começa a aquecer no autocarro, depois do jantar da equipa fomos a uma discoteca. Era um local que estava fechado devido às regras da covid, mas conseguimos contornar as regras para celebrar a taça. Uma noite espetacular de celebração e diversão. O problema é que as regras foram estabelecidas por alguma razão… Naquele momento ninguém pensou nisso. Uma das empregadas tinha o vírus, sem saber, e mais de metade da equipa ficou contagiada, no mínimo uns 15 jogadores, mais alguns do staff. Concluindo, tivemos de jogar o último jogo da temporada com os miúdos da formação e os búlgaros aprenderam que afinal a covid era real [risos].

Em 2021/22, Dinis foi jogar para o Royal Antwerp, da Bélgica

Em 2021/22, Dinis foi jogar para o Royal Antwerp, da Bélgica

 

BSR AGENCY

Passaram juntos o primeiro confinamento, na Bulgária?
Eu passei sozinho o confinamento.

Porquê?
A minha esposa nessa altura estava em Portugal e já não conseguiu viajar para a Bulgária. Ela tinha voo dali a dois dias, quando cancelaram os voos todos. Durante dois ou três meses estivemos a tentar arranjar formas de ela viajar e foi completamente impossível.

O que fez durante o confinamento para se entreter?
O primeiro mês foi muito difícil. Muita PlayStation, tentava fazer exercício físico, podíamos ir às compras, o que era bom porque podia sair de casa. Mas, de repente, a Bulgária parou com o confinamento, porque a maioria das pessoas acreditava que não era tão grave como se dizia. Eles diziam que se fosse uma coisa tão grave já estávamos todos mortos. Obviamente que tínhamos de usar máscara e respeitar o distanciamento, e havia coisas com lotações limitadas, mas não ao ritmo de Portugal. Fizemos um confinamento de um mês e qualquer coisa e depois a vida começou logo a voltar à normalidade. Quando se lhes perguntava se queriam ser vacinadas diziam que não, então não fazia sentido estar com tantas restrições, era melhor para a economia e para o país.

Foi vacinado?
Fui. Mas foi muito estranho para mim em Portugal dizerem que não havia vacinas e na Bulgária, quando fui levar a vacina, não tinha literalmente ninguém comigo. No clube fomos vacinados cinco pessoas, os jogadores estrangeiros, porque eles achavam que não era necessário. Se em Portugal não havia vacinas que chegassem, na Bulgária, sobraram, não havia filas, nem espera para levar uma vacina. Eu não sofri com confinamentos longos, só sofri porque estava afastado da família.

Assinou por quantos anos pelo Plovdiv?
Desvinculei-me do Mónaco. Eles ficaram com uma percentagem do passe e assinei por dois anos.

O central (no centro)a festejar um golo da sua equipa do Royal Antwerp

O central (no centro)a festejar um golo da sua equipa do Royal Antwerp 

DIRK WAEM

O segundo ano foi melhor que o primeiro?
No segundo ano ficámos em 2.º lugar. Normalmente, o Ludogorets, o clube onde estou agora, é campeão, e depois então há uma luta pelo segundo lugar, por causa do acesso à Europa. Ganhámos a Supertaça. Por isso foram dois anos muito positivos em que joguei tudo e joguei bem.

Até aí ainda não tinha jogado competições europeias?
Não. E nesse segundo ano recebemos o Tottenham do José Mourinho, na nossa casa. O jogo foi feito à porta fechada devido à covid. Só que os adeptos juntaram-se todos à volta do estádio. Meteram ecrãs gigantes no meio da rua [risos]. Nós tínhamos apoio, ouvíamos o som, os gritos, os cânticos, só que vinham de fora para dentro do estádio. Foi uma experiência espetacular.

E o jogo?
Perdemos 2-1.

O Mourinho sabia que estava na equipa do Plovdiv?
Sim, ele cumprimentou-me, disse: “Já sei que fazes muitos golos. Vê lá se hoje não fazes nenhum.” Falámos uns cinco minutos. Mas foi muito bom enfrentar um dos melhores treinadores de sempre.

Foi uma emoção diferente jogar competições europeias?
Sim, tem outro perfume, é uma sensação diferente de qualquer outra.

A seguir foi jogar para o Royal Antwerp, na Bélgica.
Fiz duas boas épocas e tinha interesse das equipas grandes aqui da Bulgária, estive muito perto de assinar pelo Ludogorets, mas houve algumas divergências nos contratos, meteu-se o Antwerp pelo meio e foi muito rápido e muito fácil fazer acontecer a minha ida para lá. Era uma liga muito melhor, um clube histórico, um projeto muito ambicioso de ser campeão e foi fácil dizer que sim ao Antwerp.

Mais uma mudança de casa. Que tal as primeiras impressões?
O primeiro impacto foi: esta liga é muito forte, o clube é super profissional e ainda está em crescimento, é um gigante adormecido que o presidente comprou na II liga e conseguiu fazer subir. A evolução do projeto que eles tinham era incrível e foi espetacular chegar lá e ver que a realidade era de um nível em que nunca tinha estado.

Dinis tenta segurar a bola, à frente de Rafael Borre, do Eintracht Frankfurt, durante um jogo Liga Europa, em 2021

Dinis tenta segurar a bola, à frente de Rafael Borre, do Eintracht Frankfurt, durante um jogo Liga Europa, em 2021

 

BSR AGENCY

O campeonato belga foi o que estava à espera?
Superou um bocadinho porque eu não tinha noção das equipas de meio da tabela para baixo e é um bocado à inglesa, em que toda a gente pode ganhar a toda a gente e os jogos nunca estão acabados. Para o espetador é um dos melhores campeonatos para se ver.

Um futebol muito diferente do búlgaro e do português?
Sim, muito físico, muitas transições, muito ao estilo da Premier League e do Championship, em que se têm avançados extremamente fortes e rápidos e bons tecnicamente, em que há muitos golos, muitas transições, coisas que em Portugal não acontecem muitas vezes. Jogos a acabar com resultados de 3-4, 5-2. É um futebol que valoriza mais marcar golos, do que defender bem. Em Portugal é mais ao contrário. Lá o pensamento é: só preciso marcar mais golos que o adversário.

Jogou bastante nessa época, que finalizaram em 4.º lugar. Ainda inicia a época seguinte?
Sim. A adaptação não foi fácil porque o nível era muito alto e o plantel tinha muita qualidade, mas correu bem. Joguei a fase de grupos da Europa pela primeira vez e, no segundo ano, o ano em que eles são campeões, ainda faço uns jogos, faço parte da equipa até janeiro e sinto que os títulos também são um bocadinho meus. Não estive na parte decisiva com eles, mas, se calhar, sem eu ter jogado um ou outro jogo, não podiam ser campeões, por isso sinto que é um bocado meu terem sido campeões da Bélgica e ganhado a taça.

Porque sai para o Ludogorets a meio da época?
Eu saí porque naquela altura estava a jogar um bocadinho menos, o Ludogorets já estava interessado antes de eu ir para o Antwerp, mantiveram sempre o interesse vivo e tentaram várias vezes. Estava a jogar menos porque chegou um central, o Toby Alderweireld, de topo mundial, e é difícil competir com ele. Não que me sinta magoado por não ter jogado, porque fui jogando, mas notei que ele era melhor do que eu. Tentei aprender com ele, mas ele dava mais à equipa do que eu conseguia dar. Falei com os treinadores e os diretores, não queriam que eu saísse, mas pedi-lhes para que, se chegasse uma oferta que fosse boa para o clube e para mim, iríamos pensar nisso. Assim foi. A oferta foi boa para todos os envolvidos, foi um negócio que se fez relativamente fácil. Eu já conhecia a realidade do clube, da liga e sabia o que me podia oferecer, todos os anos tinha como objetivo entrar na fase de grupos da Liga dos Campeões.

No início de 2023, Dinis assinou pelo Ludogorets

No início de 2023, Dinis assinou pelo Ludogorets

 

D.R.

Ainda jogou o resto dessa temporada no Ludogorets?
Infelizmente não, porque me lesionei no estágio de inverno, nos cruzados do joelho direito. Lesionei-me num amigável, ainda não tinha feito a estreia oficial. Mas assinei por três anos e meio, o que me deu uma estabilidade diferente. O primeiro ano foi de fisioterapia, de estar afastado do jogo, foi um ano complicado e difícil, tanto para mim como para o clube, porque tínhamos expectativas muito altas. Chegar e lesionar-me gravemente, em que fico um ano de fora, não foi fácil, nem para eles, nem para mim.

Voltou a jogar quando?
Em fevereiro ou março deste ano. Estive um ano e dois meses para conseguir estrear oficialmente. Porque a lesão depois teve complicações, se calhar devido a erros meus e do clube, ou se calhar foi simplesmente má sorte. Não vamos saber o que foi especificamente. Mas, por outro lado, a minha esposa estava grávida da nossa filha e o estar lesionado permitiu-me acompanhar mais de perto a gravidez.

Quando nasceu a sua filha?
A Constança nasceu em setembro de 2023 e assisti ao parto. Muitas noites sem dormir, mas é das melhores coisas da vida. Vê-la crescer é um sentimento agridoce, por um lado está a crescer demasiado rápido para nós, mas por outro está a crescer saudável, bem, é uma bebé muito energética, curiosa, amável e sociável.

Este ano foi campeão. Que tal a sensação?
Celebrei o do Antwerp porque fiz parte e por ver a festa à distância, ver os meus amigos e colegas a terem o sucesso que nós sempre quisemos e pelo qual trabalhávamos; mas, no Ludogorets fui parte efetiva da vitória. É diferente. A primeira vez campeão dentro do campo é marcante. Oxalá se repita no próximo ano porque ao fim de 13 anos consecutivos a vencer é uma luta que temos, continuar a ter ambição de ser campeão constantemente, podemos correr o risco de facilitar e é perigoso.

Gostam de viver em Razgrad?
Já sabíamos que a cidade não era propriamente a melhor cidade, porque é uma cidade no meio do nada, pequena, mas estamos muito focados na bebé. Mas sim, não é a melhor cidade para viver, a minha esposa tem sofrido com isso porque faltam soluções, falta ter o que fazer.

Dinis (à esquerda), em ação pelo Ludogorets

Dinis (à esquerda), em ação pelo Ludogorets

 

D.R.

Onde ganhou mais dinheiro até agora?
No Ludogorets?

Já investiu?
Sim, em imobiliário.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Provavelmente ter comprado alguma roupa mais cara e um relógio.

Tem algum hobi?
Montar puzzles.

Qual foi o maior já concluiu?
Um de 3000 peças, mas não foi sozinho.

É um homem de fé?
Tem dias.

Superstições?
Não.

Tatuagens?
Nenhuma.

Segue ou pratica outra modalidade?
Gosto de futebol americano. Atualmente gosto do Kansas City, os campeões.

O central português tem contrato com o Ludogorets ate 2026

O central português tem contrato com o Ludogorets ate 2026

 

NURPHOTO

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ter jogado o Mundial sub-20.

E arrependimento?
Não ter saído antes do Mónaco.

O momento mais feliz da carreira?
A Taça com o Lokomitiv Plovdiv.

O objetivo que ainda está por cumprir?
Jogar a Champions League.

Se pudesses escolher, qual o clube de sonho onde gostava de jogar?
Real Madrid.

Tem ou teve alguma alcunha?
Além daquela do Beckenbauer dos comentadores, acho que não.

Quem são as maiores amizades que fez no futebol?
O português que estava aqui comigo no Ludogorets, o Claude Gonçalves, o argentino que esteve comigo no Lokomotiv, Lucas Masoero.

Alguma regra do futebol que alterava ou bania?
Aquelas mãos estúpidas que nós fazemos num carrinho e que nunca é intencional ou raramente é intencional, e umas vezes conta, outras não. Não devia ser marcado.

O que pensa do VAR?
Corta um bocado a emoção do jogo, mas ajuda.

Dinis com a filha Constança, nascida em setembro de 2023

Dinis com a filha Constança, nascida em setembro de 2023

 

D.R.

Tem algum talento escondido?
Tenho facilidade com os idiomas.

Como defesa central, qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?
Deniz Undav.

Se não fosse jogador de futebol, o que teria sido?
Suponho que seguiria a universidade, então seria engenheiro eletrónico ou algo relacionado com isso.

Quem é ou foi a sua referência como defesa central?
Eu gosto muito do Nesta. Talvez não o melhor, mas o que mais prazer deu-me de ver jogar.

E atualmente quem é o melhor central?
É uma pergunta muito difícil. Para mim durante muito tempo o Pepe foi o melhor central do mundo, o Rúben Dias pode substituí-lo.

Qual é a sua mais-valia enquanto jogador?
A minha inteligência.

Já pensou no que quer fazer no dia em que tiver de pendurar as chuteiras?
Não. Provavelmente alguma coisa relacionada com futebol. Gostava de experimentar ser treinador.

De todos os treinadores que teve, de qual mais gostou?
O Mark van Bommel, no Antwerp, pela forma direta e próxima com que trata os jogadores.

É verdade que no início desta entrevista disse logo que não tinha grande memória, mesmo assim, pergunto-lhe: Não se recorda de mais uma história que possa partilhar?
Lembro-me de uma na Austrália, quando lá fomos para o Mundial de sub-20 e que aconteceu antes de me lesionar. Os jogadores, divididos em pequenos grupos, foram passear pelo centro de Sidney. Já não me recordo quem estava comigo, mas parámos num semáforo a conversar e um de nós solta um típico palavrão em português mais alto, pensando naturalmente que ninguém ia entender. De repente, a senhora que estava parada ao nosso lado pergunta se somos portugueses [risos]. Ficámos em estado de choque, sem saber como agir. A senhora era portuguesa, imigrante na Austrália e entendeu perfeitamente tudo o que dissemos naquele espaço de tempo, incluindo o palavrão. Pedimos desculpa pelo palavrão, muito encabulados, mas quando nos afastámos começámos a rir com o insólito da situação. Foi uma lição para a vida, há mesmo um português em todos os cantos do mundo [risos].

 

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Alguém me consegue arranjar a entrevista do João Pedro que começou hoje e vai acabar amanhã?

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Citação de Simeone, Em 26/08/2024 at 12:37:

Confesso que fiquei com alguma curiosidade para ler o resto da entrevista ao Diogo Figueiras depois de ver a resposta à primeira pergunta:

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A entrevista completa está dois posts acima deste, numa resposta que fiz ao post do silentz

Citação de Hawkeye, há 23 horas:

Alguém me consegue arranjar a entrevista do João Pedro que começou hoje e vai acabar amanhã?


 

Spoiler

“Tive uma questão com o GPS. Os batimentos cardíacos não chegavam onde era suposto. Passava por baldas. Na verdade, era a minha fisionomia”

João Pedro, 31 anos, começou a jogar futebol a conselho do médico e nunca mais tirou as chuteiras. Do Juventude de Ronfe foi para o clube do coração, o Vitória de Guimarães, onde fez toda a formação e estreou-se como profissional. Ainda entrou na universidade, mas nunca frequentou. Nesta I parte do Casa às Costas explica o processo da saída de Guimarães, para os LA Galaxy, assim como a importância da aposta de Pedro Martins nele, apesar do GPS indicar que, aparentemente, não era um jogador que se esforçasse muito

Nasceu em Guimarães. É filho de quem?
O meu pai é técnico de máquinas industriais e a minha mãe era encarregada de uma secção numa confeção de costura.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã cinco anos mais nova, que hoje é nutricionista no Vitória.

Cresceu mesmo em Guimarães?
Sou da periferia, da freguesia Vermil, já na fronteira com Vila Nova de Famalicão.

Deu muitas dores de cabeça aos seus pais?
Não. Eu era um morcão, não fazia mal a ninguém, sempre fui tímido. A minha irmã é que era a reguila, eu pagava as faturas dela muitas vezes.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Passei por várias fases. Houve alturas em que dizia que queria ser bombeiro, outras queria ser médico. Sinceramente, só comecei a pensar em ser jogador de futebol profissional no meu primeiro ano de júnior. Sempre fui educado a concentrar-me nos estudos.

Gostava da escola?
Da escola gostamos sempre, das aulas é que não [risos]. Estar na escola, com os amigos e fazer as palhaçadas toda a gente gosta. O problema é as aulas, mas consegui conciliar sempre. O esforço que fiz foi enorme, porque houve alturas em que chegava a casa às onze da noite e ainda tinha de estudar para testes no dia seguinte; às vezes ficava a fazer madrugadas para ter tudo pronto para o próximo dia. Não era fácil, mas sempre deu para conciliar tudo, também graças ao esforço dos meus pais e de familiares que me ajudaram no processo. Tinha uma tia, por exemplo, que me deixava ficar na casa dela em Guimarães a estudar e a descansar até chegar a hora do treino.

João Pedro em pequeno com o equipamento do V. Giumarães

João Pedro em pequeno com o equipamento do V. Giumarães

 

D.R.

Quando era pequeno torcia porque clube?
Fomos sempre Vitória.

Costumava ir ao futebol com o seu pai?
Sim. Em pequeno era mais o meu padrinho que me levava e aos meus pais.

Quando e como começou a praticar futebol?
Comecei com cinco ou seis anos, no Juventude de Ronfe. Fui para lá pelo facto do meu pediatra ter dito à minha mãe que me ia fazer bem, porque eu tinha alguns problemas de alergias e respiratórios. Nunca tive asma, mas tive alguns problemas respiratórios. Ele aconselhou a fazer algum desporto e o meu padrinho era treinador das equipas mais novas e fui para lá. Mas nunca pensei que fosse ser muito mais do que aquilo.

Tinha ídolos?
Fui tendo. Jogávamos aqueles jogos da Nintendo, o FIFA ou PES e ia tendo. Mas o futebol para mim naquela altura era um mundo pequeno, muito à base do que Vitória tinha para apresentar, então os meus ídolos eram o Djurdjevic, Fangueiro, Nuno Assis, Hugo Cunha, Pedro Mendes, por aí. À medida que fui crescendo, o Cristiano Ronaldo tornou-se obviamente a referência, especialmente por ser português. Mais velho, comecei a admirar mais os jogadores da minha posição, como o Iniesta e o Xavi.

Como foi parar ao Vitória?
O Vitória antigamente tinha uma área de recrutamento muito grande, nem o SC Braga tinha na altura a capacidade do Vitória de ir aos clubes mais pequenos ali da zona buscar jogadores promissores. Fui chamado para fazer captações no Vitória, eu e um colega de equipa. Tinha uns 12, 13 anos e jogava a ponta de lança. Entrei num mundo diferente. No Ronfe, os equipamentos eram pessoais, no Vitória já eram fornecidos pelo clube, inclusive até nos davam chuteiras. O nível de futebol também era completamente diferente. Foi uma mudança drástica.

Ainda em criança na praia

Ainda em criança na praia

 

D.R.

Acabou por recuar no campo e ficou a jogar como médio. Porquê?
A minha primeira época no Vitória é como avançado e até faço uma boa época. Era futebol de 7 e cheguei a fazer 72 golos. No ano seguinte foi a transição para o futebol 11 e o treinador achou que se calhar eu não tinha perfil para ser ponta de lança de área e nesse ano começou a recuar-me no campo. Primeiro baixei para extremo, depois começou a meter-me a 10. Até que, no ano seguinte, com o mister Daniel Barreira, dos treinadores que mais significado tem para mim, colocou-me a jogar na posição 8 e foi aí que me fixei.

De todas as posições que experimentou, em qual se sentiu mais confortável a jogar e porquê?
Sempre a 8, porque gosto de estar envolvido nos processos todos, tanto no processo defensivo como no ofensivo. Como n.º 10, passa-se muitas vezes o jogo sem tocar na bola, e a 8 dá sempre para baixar e sente-se mais a bola, está-se mais envolvido.

João Pedro (1º à esquerda em pé) começou a jogar futebol no Juventude de Ronfe

João Pedro (1º à esquerda em pé) começou a jogar futebol no Juventude de Ronfe

 

D.R.

Fez toda a formação no Vitória, sempre a par com os estudos?
Sim. Levei os estudos até ao último ano de sub-19. Completei o 12.º ano com uma média de 17 e entrei na faculdade, em Viana do Castelo, no curso de Desporto e Lazer, mas nunca frequentei. Congelei a matrícula porque já no 1º ano de júnior pensei que se calhar podia fazer do futebol vida, profissão. E estudar, a qualquer momento, poderia voltar. Por isso, quando fui para o 2.º ano de júnior, optei só pelo futebol.

Como reagiram os seus pais a essa decisão?
A minha mãe sempre teve a ideia de eu tirar um curso superior, porque infelizmente ela não teve essa possibilidade; o meu pai se calhar já teve, mas não quis. Mas como ela sempre confiou em mim, nunca lhe dei motivos para não o fazer, compreendeu. Apoiou. Obviamente na altura gostaria também que eu tivesse concluído a parte académica, mas hoje já pensa de uma forma diferente; até eu também penso de forma diferente, porque fui educado na perspetiva de que a universidade é que permitia ter uma vida boa, e já todos vimos que não é assim. Como comecei bem essa época, pensei que se calhar podia estar ali a minha oportunidade de fazer do futebol a minha vida.

Aos 12 anos, o médio (2º à esquerda) foi jogar para o V. Guimarães

Aos 12 anos, o médio (2º à esquerda) foi jogar para o V. Guimarães

 

D.R.

E como se projetava no futuro? O que ambicionava?
Sinceramente, ambicionava, como muitos e muitos miúdos do Vitória, estrear-me na equipa principal. Tive de deixar de fazer muita coisa que gostaria de ter feito.

Nomeadamente?
Nomeadamente, por exemplo, a minha viagem de finalistas. Não pude ir. Os meus colegas já podiam sair e eu não o fazia. Comecei a sair bastante tarde. Embora não seja uma coisa que me puxe muito, ir a discotecas. Mas havia muita coisa que não podia fazer.

Quando foi chamado pela primeira vez para treinar com a equipa principal?
Fui chamado nesse ano de sub-19. O treinador era o Professor Manuel Machado e fomos chamados não para treinar, mas para jogar pela equipa principal, na Liga Intercalar. Fomos vários juniores. Para treinar mesmo com a equipa principal, já é com o Rui Vitória, no ano seguinte [2012/13].

Estava muito nervoso?
Claro que estava [risos]. Ele chamou quase todos os jogadores que estavam no 2.º ano de sub-19, fui eu, o Luís Rocha, o Pedro Lemos, o Areias, o Vieirinha. Foi antes do Vitória assumir que tinha dificuldades financeiras. A equipa tinha nomes pesados, tinha o João Paulo como central, o Pedro Mendes, Bruno Teles, havia nomes de peso e claro que a perna treme sempre um bocadinho, mas as coisas acabaram por correr bem.

Lembra-se de alguma conversa que o Rui Vitória tenha feito com vocês?
O Rui Vitória sempre soube integrar muito bem os jovens, não sei se pelo facto de ter trabalhado no futebol de formação do Benfica, sempre teve esse toque de saber integrar muito bem os jovens. Sempre que ia treinar com a equipa principal sentia-me à vontade, mesmo no ano seguinte em que surgiu a equipa B, quando nos chamava, era sempre muito afável connosco, muito porreiro.

João Pedro jogou quatro anos na equipa B do Vitória

João Pedro jogou quatro anos na equipa B do Vitória

 

D.R.

Esteve quatro anos na equipa B, de 2012 a 2016. Não é muito tempo?
Sim. O ano antes da minha afirmação na equipa principal estive meio, meio. A primeira meia época estive envolvido com a equipa principal mais até do que com a equipa B, apesar de ir fazer alguns jogos. Foi no ano do Sérgio Conceição. Mas, em janeiro, acabei por regressar à equipa B.

Porquê?
São escolhas. Na altura recebemos três reforços para o meio-campo, havia jogadores a mais e tive de regressar à equipa B para continuar a jogar, continuar o meu processo.

O Sérgio Conceição é muito diferente do Rui Vitória, certo?
Sem dúvida. O Sérgio Conceição foi dos melhores treinadores a nível tático e de treino que tive. Nesse aspeto era incrível. O grau de exigência era elevadíssimo, como tem que ser ali no Vitória. Faz parte do feitio dele querer ganhar sempre e ele queria ganhar mais do que ninguém. O Rui Vitória era mais calmo, mais comedido, o Sérgio Conceição é mais explosivo.

Recorda-se do jogo de estreia pela equipa principal do Vitória?
Foi ainda com o Rui Vitória, no meu segundo ano de profissional, em Coimbra, contra a Académica. E, claro que me tremeram as pernas quando entrei. Foram só cinco minutos, se não me engano. Estava tão focado, por ir acontecer o momento que tanto sonhara, que nem me lembro de nada que o Rui Vitória tenha dito [risos]. Há de ter-me dito alguma coisa.

Na apresentação da equipa do V. Guimarães

Na apresentação da equipa do V. Guimarães

 

D.R.

Qual o valor do seu primeiro ordenado como profissional?
Seria entre os €700 e os €800. Foi no meu 2.º ano de sub-19, quando surgiu o projeto da equipa B.

Houve alguma coisa que quisesse comprar com esse primeiro dinheiro?
Nunca fui de gastar. Mesmo os carros, fui mais impulsionado pelo meu pai. O meu primeiro carro foram os meus pais que pagaram. O segundo, fiz uma das maiores asneiras em termos financeiros, que foi pedir empréstimo para o comprar. Sabendo o que sei hoje, nunca se faz isso. Ou compras com o dinheiro que tens, ou então não compras.

Que carro era?
Era o DS4. Continua na família. É a minha irmã que anda com ele. Mais tarde troquei de carro, mas sempre impulsionado pelo meu pai para trocar; não por vaidade, mas por conforto e segurança.

Já havia algum namoro sério?
Namoros mais a sério só surgiu mesmo com a minha mulher, já estava na equipa B. Como lhe disse, sempre fui um morcãozinho, tímido. A primeira vez que vi a Paula foi na praia. Estava na Póvoa de Varzim com uns amigos e comentei: “Aquela miúda é bonita.” O amigo que estava ao meu lado virou-se para mim: “Ela é minha prima.” Como assim é tua prima? [risos]. Era mesmo. Mas aquilo ficou ali. Só mais tarde é que lhe pedi o número dela. Começámos a conversar e estamos juntos até hoje.

O que fazia ou faz ela profissionalmente?
Trabalhava numa ótica. Acabou por abandonar o trabalho dela, quando nos mudámos para os LA Galaxy, nos EUA.

O médio passou um década no Vitória

O médio passou um década no Vitória

 

D.R.

Já lá vamos. Nos juvenis e nos juniores foi treinado por Armando Evangelista e chegou a tê-lo também como treinador na equipa principal do Vitória, antes de chegar o Sérgio Conceição, na época 2015/16. Gostou dele enquanto treinador?
Sim, gostava e gosto. Ele na altura não tinha o peso atual. Vinha da equipa B e não sei se por isso não ficou muito tempo. Mas, sinceramente, acho que ele não estava assim tão despreparado como as pessoas pensam, embora devia ter tido mais pulso.

Em que aspeto? Porque diz isso?
Dentro daquilo que era o campo e o treino, se calhar as ideias dele não foram implementadas como sei que ele gostaria. Eu já tinha trabalhado com ele. Mas, ali, as questões dos egos, é sempre complicado...

Que momentos ou episódios marcantes se recorda desses anos no Vitória?
Lembro-me das jantaradas que fazíamos sobretudo na equipa B, onde houve sempre um grande espírito de fraternidade. A equipa B do Vitória desceu no 1.º ano e voltou a subir logo a seguir e foi memorável. Mas histórias em concreto, assim de repente não me recordo.

João Pedro, com a bola,nNum jogo do campeonato com o FC Porto

João Pedro, com a bola,nNum jogo do campeonato com o FC Porto

 

D.R.

É verdade que o FC Porto teve interesse em contratá-lo no final da época de 2015/16?
O meu empresário disse-me na altura que sim, que o Antero Henriques tinha-lhe ligado. Mas, atenção, era FC Porto, mas era projeto da equipa B. Eu estava a afirmar-me com o Pedro Martins, que era o novo treinador. Aliás, posso contar essa história, por exemplo, esse processo da passagem da equipa B para a equipa principal, porque, como sempre disse, o treinador faz o jogador. Mesmo que trabalhes a 100% e tenhas sucesso, o treinador tem sempre a última palavra e pode amordaçar-te esse sucesso e esse trabalho que estás a desenvolver. O treinador faz o jogador e vice-versa. Sou muito dessa opinião.

Conte então o que se passou.
Em todas as pré-temporadas eu frequentava um conjunto de preparadores físicos que havia em Braga, onde iam muitos jogadores fazer uma espécie de pré pré-época. Mas, nesse ano, disse para mim que não ia fazer, porque eu pensava que ia sair do Vitória por empréstimo para o Feirense ou Arouca. Era o que se falava. Só que veio o Pedro Martins e, tanto quanto soube, ele disse que me queria ver na pré-época e chamou-me. Tirando a primeira época da equipa B, de resto já fiz todas as pré-épocas com a equipa principal. Mas havia uma questão no meu GPS.

O médio deixou o V. Guimarães em 2017

O médio deixou o V. Guimarães em 2017

 

D.R.

Que questão?
Os meus batimentos cardíacos não chegavam a uma zona que era suposto chegar. Ou seja, eu passava por ser baldas quando, na verdade, era a minha fisionomia. Mesmo que eu corresse que nem um desalmado, os meus batimentos cardíacos não chegavam àquela frequência que era para chegar. O Pedro Martins foi informado da situação, mas quis observar-me à mesma. Faço a pré-época e depois fomos de estágio para o complexo de Fão.

E?
Eu sentia sempre o olhar do Pedro Martins em cima de mim, mesmo quando eram trabalhos físicos, em que tínhamos de correr. Sentia o olhar deles em cima de mim, que me observavam, quase a tentar perceber se realmente havia algum problema. Depois do estágio, quando chegámos a Guimarães, estava sozinho no banho de gelo e o Pedro Martins apareceu. Disse-me saber que havia um problema com o GPS e os meus batimentos cardíacos, mas que me tinha visto e que eu trabalhava, corria, fazia tudo o que tinha de fazer e por isso não ia sair. “Vais ficar connosco. Digo-te já que se o campeonato começasse esta semana, tu jogavas no meu meio-campo.” Isto deu-me uma confiança brutal, encheu-me o peito e marcou-me muito. Mais tarde surgiu então essa tal situação do FC Porto, mas nunca foi sequer opção para mim, porque era o FC Porto B e eu estava a afirmar-me na equipa principal do Vitória.

João Pedro saiu do V. Guimarães para os LA Galaxy, dos EUA

João Pedro saiu do V. Guimarães para os LA Galaxy, dos EUA

 

NurPhoto

Porque acabou por sair para os LA Galaxy, da MLS?
As coisas estavam a correr bastante bem, jogava sempre de início, o Pedro Martins dava-me muita confiança e, em dezembro, o meu empresário ligou-me a informar desse interesse. Isto porque a empresa do meu empresário, a ProEleven, tinha começado também a divulgar-se nos EUA. Disseram-me que o LA Galaxy tinha vindo ver uns jogos, gostou de mim e provavelmente iriam avançar com uma proposta. Mas nem pensei muito no assunto, era Natal e para mim o Natal é das alturas do ano mais sagradas.

Até lhe falarem nessa hipótese dos EUA, já alguma vez equacionara a possibilidade de sair do país, era uma vontade que tinha?
Não. Sinceramente, eu pensava mais na renovação com o Vitória e que o clube ia oferecer-me a renovação. Eu ainda estava com o contrato da equipa B; para ter noção, um dos meus suplentes recebia cinco vezes mais do que eu. Pensei que iam oferecer-me uma renovação pelo trabalho que estava a fazer. Acabou por não acontecer, porque essa conversa do interesse do Galaxy surgiu em dezembro, mas a proposta só veio no final de janeiro. É em janeiro que eu faço o meu primeiro golo pela equipa principal, frente ao V. Setúbal. Perguntei ao meu empresário se o Vitória não ia fazer uma proposta de renovação e ele disse-me que ainda não tinha nada nesse sentido, que só tinha a possibilidade do Galaxy e que precisava saber se era para dar continuidade, ou não. Eu disse-lhe para negociar.

Ficou magoado com o Vitória?
Não. Eu também percebi a situação de não renovarem o meu contrato e preferirem vender, porque o Vitória tinha muitas soluções para o meio-campo e precisava fazer algum encaixe financeiro. Compreendo a situação deles. Eu fiquei magoado com a reação de uma pessoa em específico e vou meter nomes, porque tenho de o fazer.

Que nome?
Na Rádio Santiago, que é a rádio local, o Laureta disse que sabia de fonte segura que eu tive uma oferta de renovação e que não quis renovar com o Vitória por livre e espontânea vontade. Isso é mentira, eu não tive nenhuma oferta de renovação. Em Guimarães, a maioria das pessoas ouve a Rádio Santiago e magoou-me bastante, o que ele fez não perdoou, porque afeta-me. Não gosto que metam o meu nome em causa. O facto de não me terem oferecido a renovação não me magoou porque é o futebol, e se fosse gestor de um clube se calhar também tinha preferido fazer algum encaixe financeiro sabendo que tinha no plantel várias soluções para colmatar a minha saída.

Numa foto recente com os pais e a irmã

Numa foto recente com os pais e a irmã

 

D.R.

Não se defendeu na altura, porquê? Não teve possibilidade de o fazer?
Tive, mas preferi não o fazer porque achei que não era a altura. Fui despedir-me a Guimarães e a Rádio Santiago queria falar comigo. Eu disse precisar de falar com o meu novo clube para perceber se podia falar ou não. Como não era coisa que pudesse resolver ali com um telefonema, devido à diferença horária, não aconteceu. Mas essa foi a mágoa maior, eu ter passado por uma pessoa que não queria renovar ou que não queria ficar em Guimarães. Aliás, disseram que fui ganhar muito, muito, muito dinheiro. Isso também é mentira. Eu consegui ganhar mais dinheiro em Tondela do que no Galaxy, para as pessoas terem a noção. Os salários são públicos nos EUA, quem quiser pode ir à Internet confirmar.

Mas foi para os LA Galaxy ganhar mais do que ganhava no V. Guimarães não foi?
Obviamente. A ida para os EUA foi ótima porque me permitiu chegar a um patamar salarial que em Guimarães, ou em Portugal, ia ser muito mais difícil lá chegar.

Passou a ganhar quantas vezes mais?
No Vitória ganhava mais ou menos €2200, e na ida para os EUA recebi um prémio de assinatura de €50.000 brutos e o salário limpo era de €6000 dólares. Mas no ano seguinte esse valor dobrou. Já foi mais vantajoso em termos financeiros.


 

Spoiler

“Depois de um jantar de equipa dos LA Galaxy, só me lembro de acordar nu num hospital, em Las Vegas, com a enfermeira a tirar-me o soro”

O médio João Pedro, que saiu do V. Guimarães para os LA Galaxy, dos EUA, revela nesta II parte da entrevista alguns episódios que viveu com Zlatan Ibrahimović na equipa e que mostram o tamanho do ego do sueco, além de falar da ida para a Grécia e porque se arrependeu dessa decisão. Conta também alguns pormenores das três épocas e meia que passou no Tondela e confessa que gostava de estar a jogar mais na Roménia, país onde joga e vive com a mulher e a filha. A terminar, ainda fala de investimentos e relata um momento marcante que viveu em Las Vegas

Saiu diretamente de casa dos pais, em Guimarães, para ir jogar nos LA Galaxy, da MLS, e viver nos EUA com a namorada. Foi uma mudança grande. Como foi a adaptação?
Guimarães comparado com Los Angeles é uma cidade muito pequenina. Eu não tinha noção. A minha namorada primeiro teve de convencer os pais para ir comigo [risos]. Para ter noção do quão inconsciente foi tudo, para ela não estar a sair do país de três em três meses, devido ao visto, resolvemos casar no civil. As patroas dela arranjaram-nos umas alianças de ferro, que fizeram na loja delas, e apareceram lá. Só sabiam os nossos pais, as patroas dela e uma tia minha. Foi tudo muito de urgência, porque eu tinha de viajar para Los Angeles. Mas acho que as coisas acabaram por correr bem.

Qual foi o primeiro impacto quando lá chegou?
Houve outro fator muito importante na minha adaptação e que prova, mais uma vez, que o mundo é mesmo pequeno. Havia uma pessoa nos EUA, que viveu a dois minutos da minha mulher, em Guimarães, mas que nós nem conhecíamos. É bracarense, ainda por cima, mas tornou-se um grande amigo. Ele facilitou bastante a adaptação porque já vivia em LA.

Que tal o clube?
Fora de série em termos de infraestruturas e organização. A organização da liga americana, de tudo, é fantástica. Foi de longe o melhor sítio onde estive e a melhor liga que há no mundo nesses aspetos: infraestruturas e organização. Tínhamos uns seis campos para treinar, um mini-estádio, o estádio, um ginásio enorme, uns 12 balneários, sala de estar, lounge, comíamos lá, tinha tudo. Eu só tinha de pensar em jogar futebol. Davam-nos os bilhetes para a época toda, já com as datas definidas; o plano de treino era para dois, três meses; ou seja, uma pessoa podia organizar-se, se quisesse, por exemplo, ir dar uma volta a algum sítio. Percebi porque é que os EUA é um dos principais países do mundo. A facilidade com que tudo se faz...Precisas de ir às finanças ou tratar de coisas mais burocratas e tratas de tudo com uma facilidade doida, através de uma app. O nosso team manager dizia faz isto, isto e isto, e eu resolvia os problemas em cinco minutos. Em Portugal complica-se tudo.

Gostou de viver em Los Angeles?
Adorámos. A cidade era fantástica, tinha a praia, a parte citadina, a parte do glamour...Tinha uma qualidade de vida muito maior.

João Pedro foi jogar para os LA Galaxy em 2017

João Pedro foi jogar para os LA Galaxy em 2017

 

D.R.

E dos americanos, com que opinião ficou?
Incrivelmente calorosos a receber. Podemos dizer que somos bons a receber, mas comparado com os americanos, não somos. Pelo menos naquela zona da Califórnia. Se me disserem que no Texas não é assim, se calhar não é, mas na Califórnia, em Los Angeles, são super calorosos, super amáveis e simpáticos. A minha mulher às vezes ia na rua e era abordada por pessoas que lhe diziam “gosto do teu outfit”, só porque sim. Encontrei uma cultura totalmente diferente. Pensei que ia encontrar pessoas mais arrogantes por serem americanas, por ser os EUA, e foi completamente o contrário. Muito amáveis, sentimo-nos sempre muito bem.

Como foi chegar a uma equipa onde estão estrelas como Ashley Cole, Emmanuel Boateng, entre outras?
O Ema [Boateng] era meu vizinho. Foi fácil também. No ano em que fui para o Galaxy, uma das coisas que me convenceu a ir para a MLS foi eles quererem mudar o paradigma de que só os jogadores em fase de reforma é que iam para os EUA. Queriam mudar isso com contratações mais jovens. E têm-no feito. Portugal tem passado mal nesse aspeto porque éramos um dos grandes importadores dos jogadores sul-americanos e atualmente os EUA conseguem ir buscar os maiores valores da América do Sul, porque tem maior poder de compra. Basicamente, deixam os restos para as equipas portuguesas; os sul-americanos já sabem que indo para os EUA conseguem na mesma entrar na Europa. Por isso, era uma equipa com muitos jovens americanos e de origem mexicana, encontrei o Giovani dos Santos, que falava português porque o pai era brasileiro salvo erro, o que facilitou ainda mais a minha adaptação no clube.

Como era o ambiente no balneário? Muito diferente do que estava habituado?
Sim, é um ambiente muito mais leve porque falamos de uma liga onde existe competitividade, mas não há aquela cobrança e peso da descida de divisão. Por isso o discurso é mais no sentido, não ganhaste este, mas ganhas o próximo, não te preocupes.

Isso não desresponsabiliza os jogadores? Abandalhar se calhar é uma palavra muito forte, mas não pode levar a que relaxem demais?
Pode usar a palavra abandalhar. Eu entrei lá com um treinador que, como o Armando Evangelista, tinha vindo da equipa B, e lembro-me do despedimento dele. Na semana em que foi despedido, ele chamou-me ao balneário e a outro médio, o Rafa, de origem mexicana. Ele andava chateado com o Jermaine Jones porque apesar de ser um n.º 6, no máximo um 8, às vezes queria jogar a 10 e a ponta de lança. Era esse o nível de abandalhamento, por assim dizer. Ele chamou-nos para dizer que íamos jogar porque o Jermaine não tinha o rendimento, nem a postura que devia ter. Só que nos EUA o estatuto, muitas vezes, joga. A verdade é que no dia seguinte o treinador tinha sido despedido. Não digo que foi despedido porque ia deixar o Jermaine de fora, mas realmente quando ele resolveu bater o pé, mandaram-no embora. Nessa época, só eu e o Ashley Cole é que jogámos e estivemos disponíveis o campeonato todo, de resto, tivemos muitas lesões e andámos a jogar com muitos miúdos da equipa B. Houve uma altura que, mesmo com a equipa B, estávamos a fazer uma boa campanha, mas a partir de um certo momento as coisas começaram a cair.

O médio encontrou-se com José Mourinho em LA

O médio encontrou-se com José Mourinho em LA 

D.R.

Que tal o Ashley Cole?
Foi a maior surpresa no sentido positivo que tive. Apesar dos seus 36 anos, tinha a alegria da criança em estar dentro do campo, em jogar futebol. Era incrível. Ele só queria estar dentro do campo com uma bola, a jogar. Houve uma altura em que ele pegou nas luvas do guarda-redes, antes do treino, chamou os ponta de lança e disse: “Venham comigo, vamos fazer a finalização, eu vou para a baliza.” Fiquei mesmo surpreendido, porque vou para aquele nível e penso, estes gajos já conquistaram tudo, devem ser arrogantes, se calhar nem vão falar para mim. Completamente o contrário, são os mais acessíveis. São mais fáceis de lidar do que alguns jogadores que tive, por exemplo, no Vitória, que já pensavam que eram tudo e não tinham conquistado nada. Ali estavam pessoas que conquistaram realmente tudo. Quanto maior é o nível, mais fácil é de lidar com as pessoas.

Jogou bastante nesse ano. Significa que se adaptou bem ao estilo de jogo praticado na MLS?
Não. Individualmente foi bastante positivo, joguei muitos jogos na primeira época, mas não foi fácil porque taticamente é muito desorganizado. O Pedro Santos chegou a meio da época para o Columbus e um dia estamos a falar do campeonato e ele diz: “Isto aqui é, durante 20 minutos o jogo está encaixado, está organizado, mas a partir daí é uma correria que ninguém percebe nada” [risos]. Felizmente, o futebol nos EUA está a evoluir nesse aspeto, tático. Ainda por cima fui encarregado de jogar numa posição mais recuada, a n.º 6, e para mim era difícil quando tinha o Jermaine Jones a ir para onde queria, o Giovani era o nosso n º10 e basicamente era bola no pé, então eu às vezes ficava ali como uma ilha. Havia alturas em que o meu central do lado esquerdo também se punha a fazer overlap ao Ashley Cole, ou seja, a passar nas costas do Cole. Nunca tinha visto nada disso. Não era pedido pelo treinador, faziam porque queriam e porque podiam, porque em alguns casos eram jogadores com algum estatuto.

Acabou por só ficar ano e meio. Assinara por quanto tempo?
Tinha um contrato de três anos, mais um de opção.

O que aconteceu na segunda época, em que acabou por jogar mais na equipa das reservas do que com a principal?
Uma série de coisas. Um novo treinador, que chegou ainda na minha primeira época. Supostamente era grande conhecedor do futebol americano, da MLS, ganhou alguns títulos, e trouxe jogadores da confiança dele. Perfeitamente normal. Eu sabia que ia começar a correr pelo lado de fora da pista. Mas sabia que tinha qualidade para estar ali a jogar, os jogadores que ele trouxe não eram de qualidade superior à minha.

Quem é que ele trouxe?
O Servando Carrasco e o Perry Kitchen, dois norte-americanos mais recuados e o clube já tinha ido buscar o Jonathan dos Santos, irmão do Giovani. Havia só um lugar naquele meio-campo, porque o Jonathan e o Giovani tinham lugar garantido à partida. Ainda fiz o último jogo de pré-época a titular, mas lesionei-me para o primeiro jogo e não pude jogar.

Que lesão foi essa?
Foi um pequeno estiramento, nada especial, mas tive de parar por duas semanas.

A equipa dos LA Galaxy de que João Pedro(3º atrás à esquerda) fez parte juntamente com Zlatan Ibrahimovic (à esquerda a segurar a camisola 9)

A equipa dos LA Galaxy de que João Pedro(3º atrás à esquerda) fez parte juntamente com Zlatan Ibrahimovic (à esquerda a segurar a camisola 9)

 

D.R.

Entretanto, na sua segunda época chegou à equipa essa grande figura que é Zlatan Ibrahimović.
Isso é a outra grande questão. Na MLS só podem ter oito jogadores de fora dos EUA e Canadá e, quando ele veio, passámos a ser nove. Alguém tinha de sair. Fui eu. Depois acabou por se lesionar um lateral-direito que também era extra comunitário e eu voltei a entrar na equipa, mas já o campeonato decorria há muito tempo e eu estava bastante desgastado com aquela situação de ter de jogar com a equipa B. Não é que me obrigassem, mas perguntavam se eu queria ir e, para manter a forma, fui algumas vezes. Ainda acabei por jogar uns jogos da Taça, pela equipa principal, mas foi um bocado desgastante essa situação.

Como é lidar com Ibrahimović? Como ele era no balneário, por exemplo?
Foi bom ele ter vindo porque trouxe uma exigência que até então não havia. Uma exigência mesmo para o próprio treinador. Aliás, não foi bom para o treinador a vinda do Ibra.

Explique lá porquê?
Porque o treinador tinha medo do Ibra. A maneira como ele via o futebol, não era a maneira como na Europa se via o futebol. Havia alturas que o treinador dizia “esquerda”, e o Ibra dizia: “Não, é para a direita”, o treinador era capaz de dizer: “Sim, sim, tens razão é para a direita. Desculpa, tens razão.”

Só pelo facto do Ibrahimović ser a figura que era?
Por ser a figura que era e porque se calhar tinha mesmo razão. A verdade é que o futebol que praticávamos não era nada de outro mundo. Ele trouxe bastantes jogadores e nesse ano o Galaxy acaba por não fazer na mesma os play-offs. E tínhamos um Ibrahimović na equipa. É porque realmente as coisas não funcionavam como ele pensava.

O Ibrahimović alguma vez se dirigiu a si diretamente, conversavam?
Só coisas corriqueiras de treino, não era das pessoas com quem mais me dava.

Mas havia ambiente de balneário ou chegavam só para treinar e quando acabava o treino cada um ia logo à sua vida?
Havia muito ambiente de balneário. Aliás, o Ibra contribuía muito para isso. No campo ele era exigência máxima, máxima. Fiquei até surpreendido com a qualidade técnica e agilidade de uma pessoa que é tão grande como ele. Para a idade e a altura que tem, a elasticidade, a técnica, a agilidade é incrível. No balneário, fazia aquelas palhaçadas e aquelas brincadeiras arrogantes que ele tem. Mas acabas por saber que aquilo que ele está a dizer é verdade e faz sentido.

O médio a ser felicitado pelos adeptos americanos

O médio a ser felicitado pelos adeptos americanos

 

D.R.

Que tipo de brincadeiras eram essas?
Uma vez, na altura do All Star Game da MLS, ele estava em negociações com a liga, se ia ou não, porque na altura ia também acontecer o Mundial da Rússia e apesar de já não estar na seleção sueca há algum tempo, ele dizia: “Eu vou estar presente no Nundial da Rússia.” Ele dizia isso porque tinha o patrocínio da marca Visa e ele era a cara desse patrocínio. Ele teve que ir para lá, para a Rússia. Nós a jogar nos EUA e ele lá [risos]. Nessa altura estava a negociar com a Liga se ia ou não ao MLS All Star Game, e disse-nos: “Se a Liga me der o que eu estou a pedir, eu meto num saco, atiro para o meio do balneário para vos ver a lutar pelo dinheiro.” Eram brincadeiras desse género. Há várias.

Conte mais uma ou duas.
Posso contar uma que já contei muitas vezes. Fomos jogar a Houston, estávamos a perder 1-0, empatámos a um, eles voltaram a marcar, empatámos 2-2 e eles acabaram por vencer por 3-2. Eu e outro colega meu havíamos ficado de fora nesse jogo, mas fomos ao balneário e, quando chegámos, estava toda a gente com cara fechada. Entretanto, chegou o Ibra e começou a dar-nos uma dura. Às tantas, disse: “Digam-me se realmente querem continuar com isto assim. Se querem que eu venha para aqui só passear na praia, apanhar sol, digam, porque se for só para isso, eu consigo fazer sem problema absolutamente nenhum. Agora, o primeiro filho dá p... a dizer-me alguma coisa, que não corro, ou que não estou a produzir, ou isto, ou aquilo, eu mato o cabrão, mas mato mesmo. Eu tenho 300 milhões na minha conta, tenho uma ilha no meu nome, não preciso disto para nada.” [risos].

Mais alguma?
Lembro-me de outra. Eu e o Alessandrini fazemos anos no mesmo dia e no dia do nosso aniversário, a acabar o treino, íamos fazer um torneio de três equipas. Eu estava numa equipa, o Alessandrini noutra e o Ibra noutra. A equipa do Alessandrini ia ficar de fora, era a minha e a do Zlatan que iam começar. O adjunto pergunta e responde ao mesmo tempo: “Começa quem? Ah, vai começar o João, porque ele faz anos e…”; o Zlatan, tira-lhe a bola e diz: “Não, o meu aniversário é todos os dias, começou eu.” [risos]

Foi embora a meio da segunda época, porquê?
Eu tinha 25 anos e pensei, não posso estar aqui só a jogar na equipa B do Galaxy, porque nos próximos mercados não sei o que vou encontrar. As minhas decisões de sair ou ficar nos clubes é sempre em função se estou a jogar, ou não. O que quero é jogar. Agora, nesta fase da minha carreira, se calhar já olho a outras coisas também, mas na altura eu queria jogar, não importava o dinheiro. Disse-lhes querer sair e arranjaram uma solução de última hora, na Grécia.

João Pedro (à direita) conheceu o guitarrista Nuno Bettencourt, ao seu lado, nos EUA com quem festejou um Halloween, mais as respetivas mulheres

João Pedro (à direita) conheceu o guitarrista Nuno Bettencourt, ao seu lado, nos EUA com quem festejou um Halloween, mais as respetivas mulheres

 

D.R.

Quando lhe apresentaram a proposta do Apollon Smyrnis, da Grécia, aceitou logo?
Aceitei de bom grado, mal sabia no que me estava a meter. Pensei, vou regressar à Europa, vou estar num país bom, pensava eu, numa cidade boa que era Atenas, se as coisas me correrem bem, pode ser que dê o salto para uma equipa melhor na própria Grécia, ou então volto aos EUA, porque fui por empréstimo.

Como foram as primeiras sensações quando chegou à Grécia?
Foi totalmente o contrário daquilo que tinha sentido nos EUA. Fui conhecer o campo de treinos, ficava numa montanha enorme e o campo era fraco, horrível, as condições muito mais fracas. Obviamente, eu sabia que vinha de um nível altíssimo, não estava à espera que se mantivesse, mas também não estava à espera que fosse pior que da Juventude de Ronfe. Depois, nos EUA tinha um team manager que me ajudava a tratar de tudo e mais alguma coisa e ali não encontrei ninguém que realmente me quisesse resolver os problemas. Ninguém se preocupou com a casa para arrendar. Tive hotel durante uma semana, depois deixei de ter. A minha mulher chegou com a minha irmã para nos ajudar na mudança e tivemos de ir para um hotel por nossa conta. Na primeira noite que elas chegaram tivemos de dormir os três numa cama de solteiro. Até que, um colega argentino, que já tinha encontrado casa, ofereceu-nos estadia. Ficamos com ele umas duas semanas.

Foi assim tão difícil encontrar casa?
Foi, porque acordávamos contratos de arrendamento com duas ou três casas e à última hora cancelavam, porque descobriram que eu era jogador de futebol e já não queriam arrendar com receio de poder haver salários em atraso e eu deixar de pagar a renda.

E teve salários em atraso?
Não, por acaso nunca existiu. Só que o argumento que o clube usava não era o mais indicado, porque faltava o resto. Faltava tudo o demais, mas nós não podíamos queixar-nos porque recebíamos o salário em dia. Era a premissa que eles usavam.

João Pedro dos LA Galaxy, a disputar a bola com Freddy Montero, num jogo da MLS

João Pedro dos LA Galaxy, a disputar a bola com Freddy Montero, num jogo da MLS

 

Shaun Clark

O que achou do campeonato grego?
Muito fechadinho, defensivo. Todas as equipas jogam para o pontinho, quase não havia jogo. É muito mal jogado. Não fiz a pré-época, mas cheguei no primeiro jogo do campeonato e logo após esse jogo despedem o treinador. No primeiro jogo. Fazemos uma semana com o treinador dos sub-21, veio um treinador espanhol, fazemos dois jogos com ele e mandam-no embora também. Fazemos mais duas semanas com o treinador dos sub-21 e veio um treinador romeno que, Deus me livre. Não há palavras.

Como assim?
Romeno puro, com métodos super antiquados, fazíamos o mesmo exercício durante 45 minutos, sem sentido absolutamente nenhum.

Acabou por ficar quanto tempo na Grécia?
Fiquei só até dezembro. Eu e o Shikabala no último jogo, antes de irmos de férias, pegamos em dois sacos de lixo pretos, metemos as nossas coisas lá dentro e dissemos que não voltávamos mais. Fui para Portugal, ele foi para o Egito e não regressámos mais. Ele ainda teve problemas, queriam que ele regressasse. Havia uma comunidade egípcia na Grécia que ia ver os jogos e era do interesse deles que ele lá continuasse. Por muito que não jogasse ou não tivesse rendimento, pelo menos havia sempre essa vertente de marketing. Eu não tive problemas porque havia essa abertura para sair, também não estava a jogar muito.

Deve ter muitas histórias para contar desse período na Grécia. Lembra-se de algum episódio?
Ainda na sequência da situação da casa, para instalar a Internet tive de esperar mais de um mês. Era sempre, “vamos para a semana”, “vamos para a semana”. O que identifiquei foi um país com pessoas muito mentirosas, com uma falta de respeito e de compromisso incrível. E o país é bom. Só em turismo aquele país podia ser riquíssimo, tem as ilhas, tem Atenas, a parte histórica e cultural, e eu só pensava: como é que um país como este, tem gente que faz deste um país corrupto e que é o que é. Podia ser muito melhor, mas eles são tão preguiçosos que os supermercados fecham tipo uma terça-feira à tarde, por exemplo, ou quinta de manhã. Não precisam de ganhar dinheiro? Não faço ideia. Na Grécia não percebi mesmo a cabeça deles. Outra situação. No final de um treino, eu e mais uns estrangeiros ficamos para o fim, estávamos a tomar banho e de repente passa uma ratazana à frente do chuveiro, à minha frente. Chamámos o roupeiro, ele chega, pega na ratazana pelo rabo, como se fosse a coisa mais natural deste mundo, e vai dá-la a uns cachorros que tínhamos adotado, que começaram a brincar com ela. Isto não é normal. Não tinha condições para ficar lá.

Na época 2018/19, João Pedro chegou ao CD Tondela

Na época 2018/19, João Pedro chegou ao CD Tondela

 

D.R.

Quando decidiu ficar em Portugal já tinha interesse do CD Tondela?
Não. Estive um período de férias, entre dezembro e janeiro, também não ia haver jogos na Grécia. Entretanto, surgiu o interesse do Tondela e não fiquei muito tempo sem clube; apesar de eu ter clube, porque ainda não tinha rescindido.

Agradou-lhe a opção Tondela ou esperava arranjar um clube maior?
Não, só esperava voltar a sentir-me útil e jogar. Acaba por acontecer em Tondela com o Pepa que me deu bastante confiança sempre. Com todas as dificuldades que um clube como o Tondela tinha, foram muito bons comigo. Tenho o Tondela no coração, porque foi o clube em Portugal que me deu a mão numa altura em que a minha carreira estava a ir um bocado pela eira abaixo.

Na segunda época teve Natxo González como treinador. Gostou dos métodos dele?
Gostei muito, nem sempre joguei de início, mas gostei muito. Eu gosto quando os treinadores me acrescentam alguma coisa e ele acrescentou-me muito.

Em que aspetos?
No aspeto de ver futebol de outra maneira. Ensinou-me coisas que nunca tinha pensado que eram assim, trabalhou coisas que eu nunca tinha pensado trabalhar e o sentido das coisas que ele punha nos exercícios e nas jogadas, faziam sentido. É muito engraçado, porque os meus colegas criticavam a personalidade dele, porque era um bocado rude a falar com as pessoas. Só que eu já tinha apanhado o nível de exigência do Sérgio Conceição, já estava vacinado. E dizia-lhes: “Isto para mim não é nada, ele não falta ao respeito a ninguém, está a ser exigente, está a ser o que tem de ser, se apanharem o Sérgio Conceição então estão lixados.” Lembro-me de ter essa conversa com o Cláudio Ramos, que mais tarde assina com o FC Porto, e ele depois diz-me: “Tinhas razão, afinal há pior do que o Natxo” [risos]

Em Tondela tinha outros objetivos?
Sim. Em Guimarães o objetivo é lutar pela Europa, o nível de exigência era totalmente diferente. Em Tondela, o objetivo era lutar sempre pela manutenção. Tive manutenções super saborosas e tive a descida fatídica, que me deixou completamente de rastos.

Aliás, no final dessa época foi muito contundente na crítica que fez. Disse haver muita coisa mal feita e muita coisa que não se sabia. Já pode revelar ao que se referia?
Poder posso. O que acho é que o clube na altura ficou entregue a uma pessoa só, que fez o que quis e isso custou-nos muito. Enquanto nas minhas outras três épocas havia uma organização, uma estrutura já criada, no último ano, essa estrutura foi totalmente desmembrada.

No dia em que completou 100 jogos na I Liga

No dia em que completou 100 jogos na I Liga

 

D.R.

Essa pessoa a quem se refere é o treinador Pako Ayestarán?
Sim. Houve muita gente que pensou que aquilo era para o Nuno Campos e nunca foi. O Nuno Campos só chegou já para tentar apagar os fogos. Ele até teve bastantes conversas comigo porque sabia do meu sentimento. E o meu sentimento não é só da última jornada, já tinha surgido antes. Eu era capitão daquela equipa e fui “um bom capitão” até ao ponto em que me insurgi com algumas coisas e a partir daí já não era um bom capitão, já não era um bom jogador.

Contra que tipo de coisas se insurgiu?
Tenho várias situações, mas conto só uma. Houve um colega que teve um comportamento incorreto, que deu origem a que o treinador falasse no assunto e dissesse que ia haver consequências. Prometeu que ia haver consequências e mais consequências e a verdade é que esse jogador, no jogo seguinte, jogou de início, como se nada tivesse acontecido. Como eu era capitão, houve colegas de equipa que vieram ter comigo a dizer que não podia ser assim, porque senão fazíamos todos o mesmo e ainda éramos de certa forma recompensados. Aquilo podia ter sido resolvido de outra forma. Se ele próprio não tivesse dado tanta importância ou se tivesse relativizado, mas não, ele disse que ia haver consequências e mais isto e aquilo, um sem fim de coisas, e não houve nada. A única consequência foi positiva para o jogador que fez a infração, porque jogou como titular. Eu disse ao treinador que achava que ele tinha procedido mal, mas disse-o de forma respeitosa, e que havia insatisfação de alguns jogadores. Ele levou aquilo a peito. Foi uma perseguição sempre para tudo, qualquer coisa que eu fizesse, qualquer sorriso, ele pensava logo que eu estava... Houve uma altura que me disse que eu já não acreditava na mensagem dele.

Porquê?
Tínhamos no plantel o Babacar e o Bebeto e ele confundia muito os nomes deles. E houve uma altura em que ele chamou Baba ao Bebeto e eu ri-me. Ele pensou que eu não estava a acreditar naquilo que ele estava a dizer. Tive de explicar-lhe que só me ri porque ele se confundiu com os nomes deles outra vez. Mas ele achava que não, que eu me ri porque já não acreditava na mensagem dele. Parece que deixou de haver a confiança que até então tinha existido. Entre outras coisas, mas não quero alongar-me muito porque o fator principal foi mesmo a destruição da estrutura que estava montada. O Tondela é um clube muito familiar e as pessoas que lá estavam já eram família há muito mais tempo do que quando eu lá cheguei. Foram essas pessoas que subiram o Tondela das distritais até à I liga. Acho que devia ter havido um bocadinho mais de respeito por certas pessoas e não as ter descartado da maneira como o fizeram.

João Pedro a festejar com os adeptos de Tondela

João Pedro a festejar com os adeptos de Tondela

 

D.R.

Quando desceram ainda tinha contrato?
Não. A minha intenção nunca foi renovar em Tondela, porque eu tinha 29 anos e em janeiro tive uma proposta muito vantajosa para ir para a Arábia Saudita, sim. O Tondela não me deixou sair. Já sabiam que eu queria fazer um contrato que me permitisse preparar o futuro, isso sempre foi assumido por mim. Mas o clube preferiu tirar o rendimento desportivo do que ter rendimento financeiro. Tudo bem. Compreendi, nem fiz força para sair, sinceramente. Também pensei, estamos em janeiro e se já apareceu uma proposta destas, as coisas estão a correr bem, se continuarem a correr bem individualmente, há de aparecer uma proposta semelhante, ou melhor no final da época.

Mas não foi isso que aconteceu.
Não. A nível individual as coisas pioraram um bocado e a nível coletivo foi um desastre. Acabei depois por ficar meio ano sem jogar. Felizmente, coincidiu com o nascimento da minha filha, a Leonor. Pensei, se tivesse ido para fora se calhar perdia esses momentos todos, por isso, às vezes as coisas acontecem quando têm de acontecer. Mas foi um momento duro, ficar tanto tempo sem jogar. Entretanto, surgiu o CD Chaves, em janeiro.

É o treinador Vítor Campelos quem o quer ou é a direção?
Tanto quanto percebi acho que era bastante pretendido pelas duas partes. Acabei por ir para Chaves. Assinei por ano e meio.

O Chaves é um clube muito diferente do Tondela?
Não. É também bastante familiar. Com uma cidade se calhar mais ativa naquilo que é o dia a dia do clube. Essa se calhar foi a principal diferença.

Em Chaves foi treinado por Vítor Campelos, José Gomes e Moreno. O que pode dizer sobre cada um deles?
O Vítor Campelos já conhecia das equipas B do Vitória, por isso foi fácil a adaptação. A equipa era bastante boa. Comecei bem, depois lesionei-me, fiz novamente um estiramento. A equipa, entretanto, entrou numa espiral positiva na última reta do campeonato e fui tendo só oportunidades esporádicas, é normal. Depois veio o José Gomes. Bastante bom homem, um lado pessoal muito agradável, mas as coisas dentro de campo não estavam a funcionar e não era exclusivamente por culpa dele. Aliás, acho que era mais por culpa nossa do que por culpa dele.

O que quer dizer por culpa vossa?
Sinceramente, não fazíamos o que um jogador profissional de futebol tem de fazer dentro de campo, nós nem correr parecia que conseguíamos.

Que explicação tem para essa atitude?
É das poucas coisas que não sei dar resposta. Nós nem o básico conseguíamos fazer. E não era porque não tivéssemos condições de o fazer, era porque parecia que não queríamos. Obviamente que queríamos, mas não sei, não sei o que se passou. Muito sinceramente, não tenho resposta.

Com a mulher na praia a celebrar a gravidez a filha do casal, Leonor

Com a mulher na praia a celebrar a gravidez a filha do casal, Leonor 

D.R.

O José Gomes saiu e veio o Moreno. Correu melhor?
A equipa reagiu logo à entrada do Moreno, fizemos sete pontos em três jogos, antes de uma pausa para seleções. Toda a gente estava a gostar bastante do discurso, da maneira do Moreno estar e de como as coisas estavam a correr. Foi tudo muito bom no início, mas depois também acabaram por não correr da melhor maneira.

Também não tem explicação?
Aí acho que fomos nós que não soubemos interpretar aquilo que o Moreno queria. Porque mudámos de sistema com a vinda dele. Lembro-me que ele nos perguntou, aos capitães, se fazia sentido mudar o sistema tático. Dissemos que sim, porque a equipa sofria muitos golos. Éramos a pior defesa, o score de golos sofridos era desastroso. Normalmente jogávamos em 4x3x3, estava bastante enraizado e ele mudou para 3x4x3, e bem na minha opinião. As coisas correram bem nos primeiros jogos, mas depois não conseguimos interpretar a ideia do 3x4x3. É uma tática que só funciona bem se for bem interpretada por todos e nós não tínhamos ainda essa química construída.

Como seu deu a saída para a Roménia?
No mesmo sentido de todas as outras minhas saídas, eu queria jogar. Em Chaves já não jogava muito. Eles tinham assinado com o [Raphael] Guzzo e pairava também no ar a vinda do [Dário] Essugo. Num 3x4x3 só jogam dois médios. Sabia que provavelmente ia ter poucas oportunidades, então decidi que se me dessem a possibilidade de sair, eu saía. Saí bem de Chaves, com o respeito de todos. Agradeço a compreensão deles de eu querer sair para a Roménia.

Quando o seu empresário falou-lhe no UTA Arad, da Roménia, não torceu o nariz?
Não torço o nariz a nada se for para jogar e ter mais minutos. A única coisa que tenho de saber é se realmente não corro o risco de ficar com salários em atraso, porque agora tenho uma filha. Primeiro está a minha filha e depois vem o futebol.

O médio chegou ao GD Chaves em 2022/23

O médio chegou ao GD Chaves em 2022/23

 

Luis Martins

Como foi recebido na Roménia?
Fui bem recebido, deram-me condições, o início foi bastante bom. Ao contrário do que aconteceu na Grécia, vi um estádio muito bom, as condições de balneário, de ginásio boas. O primeiro impacto foi muito diferente. O clube faz-me lembrar um bocadinho Guimarães, a uma escala menor, mas com adeptos muito apaixonados pelo clube. Temos sempre 8000/9000 pessoas a ver o jogo. Eles não são como os gregos, não mentem tanto, mas são mais cagões [risos]. Falando dos meus colegas romenos, preferem a segurança de ter um contrato para o ano, do que arranjar problemas, mesmo que os calquem. Tirando isso, não tenho razão de queixa nenhuma. São mais fechados que os portugueses.

E o campeonato?
Surpreendeu-me na medida em que tem uma visibilidade enorme para países como Dubai, Arábia Saudita, Catar. O campeonato é pior do que o português e tem mais visibilidade nesses países, o que é estranho, não faz muito sentido. O campeonato é como nos EUA, nos primeiros 20 minutos ainda está ali mais ou menos encaixadinho, mas depois é a anarquia total, contra-ataque contra contra-ataque. Estamos sempre em transições. Os jogadores ofensivamente são bons, defensivamente não são assim tão bons. É a ideia que tenho do campeonato em geral. A cidade não é muito grande, mas é porreira. As pessoas tratam-me muito bem, abordam-me na rua. Tenho o carinho deles também aqui, o que é bastante importante.

Quais são os seus objetivos daqui para a frente?
Ainda não sei. Queria jogar mais do que estou a jogar, apesar de já ter feito um golo e algumas boas exibições. Aqui há muita coisa por trás que é mais descarado do que em Portugal. Não estou a dizer que em Portugal não acontece, mas aqui acontece muito mais. Comissões, agentes que conhecem agentes, filhos de treinadores que são agentes, enfim. Há umas coisinhas que desgastam e apesar de eu ter o carinho dos adeptos, essas coisas sempre pesam um bocado, até porque o carinho dos adeptos não paga contas no final da carreira. No futebol há muitos caos de jogadores que demonstraram sempre um carinho brutal pelo clube e depois o clube, quando é altura de retribuir esse carinho, nem sempre o faz. Consigo dar três exemplos muito rápido: Tarantini, Marco Reus e Totti. O mercado ainda está aberto, vamos ver. Como disse, tenho uma filha agora.

Pensam ter mais filhos?
Sim. O plano depois de sair de Tondela era termos três, mas já reduzimos para dois [risos].

João Pedro durante um jogo pelo GD Chaves

João Pedro durante um jogo pelo GD Chaves

 

Luis Martins

Onde ganhou mais dinheiro?
Depende da perspetiva, porque em termos salariais declarados ganhei mais no Galaxy, mas gastava muito mais em impostos e no dia a dia. Se a perspetiva for onde juntei mais dinheiro, foi em Tondela.

Já investiu?
Sim. Invisto em imobiliário, tenho 10 apartamentos, seis deles estão arrendados. Estamos a pensar entrar numa estratégia diferente, de compra, renovação e venda. O imobiliário é uma área que me agrada muito. Também me agrada muito a bolsa e estou a dedicar-me um bocado à bolsa, mas ainda não investi. Sou muito interessado por investimento e o dinheiro comigo não fica à sombra da bananeira nem o gasto em coisas indevidas.

A propósito, qual foi a maior extravagância que fez?
Foi a festa do meu casamento, recentemente, em que aproveitámos também para fazer o batismo da minha filha, e a lua de mel, fomos para as Seychelles e Maurícias.

Tem algum hobby?
Gosto cada vez mais de ler livros sobre investimento. Gosto de jogar padel, apesar de aqui na Roménia não o poder fazer, porque não há. Gosto de ver filmes e séries.

É um homem de fé?
Não acredito em Deus, acredito nos meus familiares que partiram e que estão sempre de olho em mim. Se isso é ter fé…

Superstições tem ou teve?
Já tive de todo o tipo. Na equipa B do Vitória houve uma altura em que eu e uns colegas pensávamos que o jogo só ia correr bem se fossemos ao McDonald's, nem que fosse só comprar um gelado. No final de cada fim de semana que tivéssemos jogo, tínhamos de ir lá para as coisas correrem bem no fim de semana seguinte. A verdade é que durante algum tempo resultou [risos]. Depois é aquelas pequenas coisas de entrar com o pé direito.

Tem tatuagens?
Não, mas gostava. Já disse à minha mulher que gostava de tatuar um braço, por exemplo.

O médio com a mulher e a filha

O médio com a mulher e a filha

 

D.R.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Não ter conseguido manter o Tondela na I Liga e não ter conseguido o tal contrato da minha vida, quando saí do Tondela.

Alguma vez foi chamado para representar Portugal?
Fui chamado para um estágio da seleção de sub-18.

O maior arrependimento da carreira?
Ter ido para a Grécia.

O momento mais feliz?
O primeiro golo pelo Vitória, o primeiro jogo nessa época contra o SC Braga, que apesar de termos perdido, fiz um bom jogo e senti que realmente foi a concretização do sonho, porque até então tinha tido pequenas oportunidades; e todas as manutenções no Tondela que aconteceram na última jornada.

O objetivo que ficou por cumprir?
Provavelmente, ganhar alguma coisa pelo Vitória.

Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado?
Tem de ser clube? É que presentemente o que gostava mesmo era de ter um workshop com o Guardiola [risos]. Mas, se for clube, teria de ser o Real Madrid.

Já pensou no que quer fazer quando pendurar as chuteiras?
Acho que seria um bom treinador, já tenho o II Nível do curso, mas não sei se vai ser isso que quererei fazer. O investimento imobiliário vai ser provavelmente o que vou fazer.

Quais as maiores amizades que fez no futebol?
Rafael Barbosa, Guima, Queiroz, Benny, Pina, Fábio Vieira, Deénis Duarte, Areias, Luís Rocha e o Diogo aqui no UTA.

Tem ou teve alguma alcunha?
Quando era mais novo o mister Rui Vitória meteu-me a alcunha de Witsel, por causa do cabelo.

João Pedro joga atualmente no UTA Arad, da Roménia

João Pedro joga atualmente no UTA Arad, da Roménia

 

D.R.

Há alguma regra do futebol que alterava ou bania?
Acho que esta regra de só o capitão poder falar para os árbitros só veio alimentar o ego dos árbitros. A arrogância deles já é grande o suficiente para só permitirem que seja o capitão a falar com eles. Percebo a ideia, percebo o que querem, mas acho uma estupidez, só serve para alimentar a arrogância do árbitro.

Qual a pessoa que mais influenciou a sua carreira?
O Pedro Martins, o Natxo e o Sérgio Conceição.

Qual o momento mais difícil porque passou na vida?
O ter ficado desempregado. Foi stressante.

Qual adversário mais complicado e mais difícil que apanhou pela frente?
O Pogba. Fizemos um amigável contra o Manchester United do Mourinho e ele era forte como tudo, e técnico.

Tem algum talento escondido?
A minha mulher diz que é tomar muito bem conta das nossas finanças [risos].

Se não fosse jogador, o que teria sido?
Teria sido alguma coisa relacionada com desporto.

Com a mulher e a filha na praia

Com a mulher e a filha na praia

 

Isfaaq Caunhye

Tem mais alguma história que possa contar para finalizar?
Tenho um engraçada e que não teve muita graça. Logo que cheguei ao Galaxy. Cheguei numa quinta-feira a Los Angeles e na sexta de manhã treinamos. De Portugal para lá são oito horas de diferença, o jet lag bate mesmo pesado. Às cinco da manhã já estava acordado, não conseguia dormir mais. Mas treinei na sexta-feira de manhã e viajei nesse mesmo dia à tarde para Las Vegas, porque íamos ter um jogo amigável no sábado. Fizemos o jogo e no final a malta com mais moral, os Ashley Cole, Giovani 's, os Jermaine’s Jones decidiram pagar um jantar à equipa. Fomos a um sushi todo requintado, em que só comes quatro ou cinco peças quando vais em grupo. Depois de um jogo, não é suficiente. Fui bebendo, depois fomos sair porque tínhamos folga no dia seguinte e estávamos autorizados pelo clube a sair. Fomos para a discoteca, mais bebida, mais misturas. Resumindo. Só me lembro de acordar no dia seguinte no hospital, em Las Vegas. Acordei completamente desorientado, não sabia onde é que estava, levanto os lençóis, estava nu. Acordei com a enfermeira a tirar-me o cateter da veia. Estava a soro, porque estava a limpar [risos]

Estragou-se mesmo com as misturas…
Eu não bebi nada de especial, aquilo foi a mistura do cansaço, do jogo, do jet lag, de ter comido pouco e ter misturado algumas bebidas. O meu sistema fez shut down e os meus colegas mandaram-me para o hospital, a soro. À saída, quando fui pagar, pedem-me 1400 dólares. Mas o que é que eu parti? [risos]. Paguei, liguei para o team manager e, claro, foi uma palhaçada no avião, toda a gente a rir e a gozar, mas a malta escondeu a história do treinador. Pelos visto era praxe. Havia sempre quem chegasse de novo que ia parar ao hospital. Não ganhei para o susto, logo nos primeiros dias acordar num hospital em Las Vegas… [risos]

 

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