Black Hawk Publicado 3 Setembro 2017 A luta dos trabalhadores da Autoeuropa Anunciada, e agora já realizada (e com uma tal adesão que determina a paralisação total da empresa), a greve dos trabalhadores da Autoeuropa, logo se ergueu contra estes um coro de iradas vozes. Vozes essas que, muito significativamente, foram desde a Administração da empresa, o dirigente do Bloco de Esquerda e ex-coordenador da Comissão de Trabalhadores Manuel Chora (que até já afirmou que “se não se tivesse reformado, esta greve estava desconvocada”!?) e o ex-Presidente da UGT Torres Couto, até aos habituais comentadores e “especialistas” das nossas praças, sejam eles os jornais, as televisões ou simplesmente as chamadas redes sociais. Também, para não dizer sobretudo, por isso mesmo, creio que importa reflectir com seriedade e sem primarismos fáceis sobre esta questão, para assim se poder compreender verdadeiramente aquilo que está aqui em causa. Antes de mais, estamos a falar de uma empresa com 3.580 trabalhadores com uma idade média de 40 anos, elevado nível de qualificação profissional e com um dos maiores índices de produtividade do grupo Volkswagen e cuja Administração, no regime de turnos até aqui aplicado, chegou a impor aos mesmos trabalhadores, e sob o argumento do abaixamento de encomendas, mais de 20 dias de down days, ou seja, de paragem colectiva forçada do funcionamento da fábrica. Esta é, também, uma fábrica altamente lucrativa, direccionada em mais de 99% para a (re)exportação, montagem em 4 etapas (prensas, carroçarias, pintura e montagem) com peças anteriormente importadas, tendo um impacto nas exportações nacionais na ordem dos 4%. Os regimes laborais vigentes na Autoeuropa têm sido sistematicamente negociados entre a Administração e a Comissão de Trabalhadores, apesar de esta não ter, legalmente, qualquer competência para negociar e subscrever instrumentos de regulamentação colectiva de trabalho (questão esta que, todavia, não pareceu suscitar reparos a ninguém, mesmo aos próprios sindicatos e aos juristas mais legalistas, durante décadas a fio). Acontece que, sob o pretexto do início da produção do novo utilitário desportivo da VW (o T-Rock) – que supostamente irá fazer subir em 2018 para 200 mil a produção de automóveis, a qual fora de 102 mil em 2015 e de apenas 90 mil em 2016 – a Administração da empresa pretendeu impor como obrigatórios quer o regime de 3 turnos, quer a prestação de trabalho no dia de descanso complementar (o Sábado) a troco de mais dinheiro (175€ de remuneração adicional e 25% de subsídio de turno) e de 1 dia adicional de férias. Ora a dita Comissão de Trabalhadores deu o seu acordo a este novo regime nas costas dos mesmos trabalhadores, já que não os ouviu ou consultou previamente sobre o mesmo. Perante os mais que justos protestos e denúncias, foi o dito acordo submetido, em 28 de Julho último, a um referendo, do qual resultou a sua reprovação por 74,6% dos trabalhadores. Perante tão evidente resultado, a maioria dos elementos da Comissão logo apresentou a sua demissão com efeitos a partir de 28 de Agosto. Mas ao mesmo tempo que se declarava imediatamente indisponível para tratar de quaisquer assuntos, a dita Comissão ainda teve tempo para vir defender a pretensa legalidade do novo horário de trabalho apresentado pela Administração, chegando mesmo ao ponto de referir ter para tal “consultado vários advogados”. Como se a questão não fosse muito para além da mera legalidade formal de um novo horário que a Administração pretende à viva força impor. E é evidente que, exactamente ao invés do que pretendem os seus detractores, os trabalhadores não querem mais dinheiro nem são uns malandros que não querem é trabalhar e até já ganham mais do que mereceriam. Nem a questão se reduz ao maior ou menor oportunismo da acção desta ou daquela organização sindical. Na verdade, para a empresa, do que se trata é, e muito claramente, de embaratecer os custos de mão-de-obra (aliás, dos mais baixos de rodo o grupo Volkswagen). É que, não contratando para esta nova produção mais operários e passando a impor o sábado como um dia de trabalho obrigatório (e não de descanso como até aqui, o que nos termos da lei implicava que quando o trabalhador fosse trabalhar recebesse a respectiva remuneração como trabalho suplementar prestado em dias de descanso), mesmo com o supra citado e prometido complemento remuneratório, a empresa teria sempre menores custos salariais. Dito de outra forma, com o novo horário e tendo de trabalhar 3 sábados num mês, cada trabalhador ganharia menos do que receberia, com o actual horário, caso fosse trabalhar 1 único sábado. Em contrapartida, para os trabalhadores – que, com tal novo horário só poderiam ter 2 dias de descanso seguidos de 3 em 3 semanas, e teriam ainda de suportar uma enorme rotatividade horária durante mais de 2 anos – do que se trata sobretudo é de salvaguardar adequadamente os seus direitos fundamentais ao descanso semanal, ao repouso e aos lazeres, bem como à prestação de trabalho em condições de segurança e de saúde e à organização do trabalho em condições socialmente dignificantes, de forma a facultar a realização pessoal e a permitir a correcta conciliação da actividade profissional com a vida pessoal e familiar. Tudo direitos expressamente consagrados, e para todos os trabalhadores, nas alíneas b), c) e d) do nº 1 do artigo 59º da Constituição da República Portuguesa. A qual, ao que eu saiba, não foi revogada nem suspensa… É isto que verdadeiramente está aqui em causa. Perante esta situação, os vários sindicatos representativos dos trabalhadores – que, é certo, até aqui sempre tinham aceite a tal legalmente inexistente competência negocial da Comissão de Trabalhadores – reuniram com a Administração da empresa e, perante a intransigência desta e a ausência de acordo, convocaram então a greve em causa, a qual decorreu, com elevadíssima adesão, entre as 22h30 de terça-feira e as 24h00 de quarta-feira. E a ameaça de que se os trabalhadores da Autoeuropa não se agacham e não aceitam as imposições da Administração, a Volkswagen ainda deslocaliza a fábrica e os manda a todos para o desemprego, mais os trabalhadores das 47 empresas fornecedoras de peças e componentes para a fábrica, constitui, sem tirar nem pôr, uma verdadeira chantagem. Chantagem à qual há que não ceder – por muito que gritem e até insultem os opinantes e “especialistas” da política, da comunicação social e das redes sociais – não só porque à chantagem nunca se deve ceder como por que, em última instância, uma eventual cedência à mesma representará aceitar a lógica de que é sempre possível encontrar um país onde os direitos sociais e laborais são mais espezinhados que no nosso, e, logo, para “manter a fábrica em Portugal” e “manter os postos de trabalho” todos os espezinhamentos se tornavam afinal justificáveis e aceitáveis… E, por isso, vamos ver também como se comportam os sindicatos que agora convocaram a greve. Compartilhar este post Link para o post
lordbifana Publicado 3 Setembro 2017 o engraçado aqui é que no facebook muita gente acha que os trabalhadores deviam comer e calar e estar contentes por terem trabalho Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado 3 Setembro 2017 Facebook tem gente assim? Não posso! Compartilhar este post Link para o post
lordbifana Publicado 3 Setembro 2017 Facebook tem gente assim? Não posso! isso já sabemos..o problema é que espelha a opinião de muita gente e é triste ver que a sociedade está assim... Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado 3 Setembro 2017 O ser humano sempre foi um animal egoísta e mesquinho. Welcome to life. Compartilhar este post Link para o post
Detlef Publicado 3 Setembro 2017 o engraçado aqui é que no facebook muita gente acha que os trabalhadores deviam comer e calar e estar contentes por terem trabalho Misery loves company Compartilhar este post Link para o post
Adriano17 Publicado 4 Setembro 2017 o engraçado aqui é que no facebook muita gente acha que os trabalhadores deviam comer e calar e estar contentes por terem trabalho Comer e calar não é bem a expressão para quem vai ganhar mais e trabalha menos. por ex. Compartilhar este post Link para o post
mike Publicado 4 Setembro 2017 O pessoal da AE sao mesquinhos.. toda a gente na margem sul sabe que quem la trabalha tem boa vida (tento em conta as habilitacoes que teem). A AE e basicamente a maquina que faz mover a margem sul, os trabalhadores sabem disso e sabem que podem esticar a corda porque o estado vai sempre ter de abrir as pernas a AE cso contrario 20/30% dos trabalhadores da margem sul vao para o desemprego.. No fundo eles fazem bem em lutar pelo que acham correto, mas sao dos que menos razoes teem para reclamar. Compartilhar este post Link para o post
Black Hawk Publicado 4 Setembro 2017 (editado) Comer e calar não é bem a expressão para quem vai ganhar mais e trabalha menos. por ex. Fdx, até podiam meter-te sinalização luminosa e neons a brilhar à noite a indicar alguma coisa e mesmo assim não a encontravas. God damn... Editado 4 Setembro 2017 por Black Hawk Compartilhar este post Link para o post
Peplin Publicado 5 Setembro 2017 O pessoal da AE sao mesquinhos.. toda a gente na margem sul sabe que quem la trabalha tem boa vida (tento em conta as habilitacoes que teem). :lol: Quero ler mais disto, por favor. Compartilhar este post Link para o post
El Colosso Publicado 5 Setembro 2017 Que mesquinhos, não aceitarem aumentar os lucros da empresa diminuindo os seus lucros e a sua qualidade de vida, cambada de inconscientes Compartilhar este post Link para o post
Pickle Rick Publicado 5 Setembro 2017 É a conversa dos operadores de supermercado all over again, não há paciência nenhuma. Compartilhar este post Link para o post
Enzo Dios Perez Publicado 5 Setembro 2017 Que mesquinhos, não aceitarem aumentar os lucros da empresa diminuindo os seus lucros e a sua qualidade de vida, cambada de inconscientes Como é que diminuem os seus lucros se vão ter um aumento mínimo de 16% do salário? Compartilhar este post Link para o post
Che Publicado 5 Setembro 2017 Como é que vão ter lucros se não detêm os meios de produção? Compartilhar este post Link para o post
Visitante Publicado 5 Setembro 2017 Como é que diminuem os seus lucros se vão ter um aumento mínimo de 16% do salário? Porque esses 16% são menos do que aquilo que pagariam se os Sábados continuassem como horas extraordinárias, creio. E o problema reside aí - não é tanto o ter de trabalhar ao Sábado, mas o de insistir que o Sábado tem de ser pago com horas extraordinárias e não como mais um dia de trabalho no novo horário. Isto, pelo que percebi das notícias. Compartilhar este post Link para o post
Puto Perdiz Publicado 5 Setembro 2017 O pessoal da AE sao mesquinhos.. toda a gente na margem sul sabe que quem la trabalha tem boa vida (tento em conta as habilitacoes que teem). A AE e basicamente a maquina que faz mover a margem sul, os trabalhadores sabem disso e sabem que podem esticar a corda porque o estado vai sempre ter de abrir as pernas a AE cso contrario 20/30% dos trabalhadores da margem sul vao para o desemprego.. No fundo eles fazem bem em lutar pelo que acham correto, mas sao dos que menos razoes teem para reclamar. acabaste de insultar um membro do fórum, ban. Compartilhar este post Link para o post
Enzo Dios Perez Publicado 5 Setembro 2017 Porque esses 16% são menos do que aquilo que pagariam se os Sábados continuassem como horas extraordinárias, creio. E o problema reside aí - não é tanto o ter de trabalhar ao Sábado, mas o de insistir que o Sábado tem de ser pago com horas extraordinárias e não como mais um dia de trabalho no novo horário. Isto, pelo que percebi das notícias. Sei que o código do trabalho trata o Domingo como um dia especial mas creio que não haja nada em relação aos Sábados. Se vão trabalhar menos de 40 horas semanais, no máximo 8 horas por dia, e vão ter os dois dias de descanso acho que essas horas ao Sábado não podem ser consideradas horas extraordinárias. Actualmente são pagas como horas extraordinárias porque deve tratar-se de facto de trabalho adicional. Compartilhar este post Link para o post
Visitante Publicado 5 Setembro 2017 (editado) O pessoal da AE sao mesquinhos.. toda a gente na margem sul sabe que quem la trabalha tem boa vida (tento em conta as habilitacoes que teem). A AE e basicamente a maquina que faz mover a margem sul, os trabalhadores sabem disso e sabem que podem esticar a corda porque o estado vai sempre ter de abrir as pernas a AE cso contrario 20/30% dos trabalhadores da margem sul vao para o desemprego.. No fundo eles fazem bem em lutar pelo que acham correto, mas sao dos que menos razoes teem para reclamar. Que stretch tão grande meu deus. Essa então da AE empregar 20/30% da população da Margem Sul devia dar barbaridade post do ano mas como o teu registo é de 2004 no pasa nada. Na AE não é só pessoal carne para canhão, tens muito e bom profissional qualificado a trabalhar lá é que caso não saibas a AE não é só linhas de montagem (e mesmo que fosse precisarias de pessoal qualificado na mesma). Nem vou pegar na questão das habilitações que é outra percepção ingénua do mundo do trabalho. Editado 5 Setembro 2017 por Visitante Compartilhar este post Link para o post
El Colosso Publicado 5 Setembro 2017 Sei que o código do trabalho trata o Domingo como um dia especial mas creio que não haja nada em relação aos Sábados. Se vão trabalhar menos de 40 horas semanais, no máximo 8 horas por dia, e vão ter os dois dias de descanso acho que essas horas ao Sábado não podem ser consideradas horas extraordinárias. Actualmente são pagas como horas extraordinárias porque deve tratar-se de facto de trabalho adicional. Está na noticia que o BH meteu ai atrás, o Sábado, ao passar de um dia facultativo para um dia obrigatório, passa a deixar de ser considerado como um dia de descanso (sendo pago como horas extras) para passar a ser pago como um dia normal. Portanto, vão passar a ter menos dias de descanso e efetivamente a empresa vai ter de pagar menos aos trabalhadores, mesmo "aumentando-os" Compartilhar este post Link para o post
Vision Publicado 5 Setembro 2017 Mas afinal teriam uma folga rotativa por semana + domingo, ou apenas domingo e trabalhavam a semana + sabado? Compartilhar este post Link para o post
Che Publicado 5 Setembro 2017 (editado) Deixam de 400 e tal euros por sábado ao mês para receber 100 e tal euros pelo mesmo trabalho, se não estou em erro. Editado 5 Setembro 2017 por Che Compartilhar este post Link para o post
Puto Perdiz Publicado 5 Setembro 2017 Sei que o código do trabalho trata o Domingo como um dia especial mas creio que não haja nada em relação aos Sábados. Se vão trabalhar menos de 40 horas semanais, no máximo 8 horas por dia, e vão ter os dois dias de descanso acho que essas horas ao Sábado não podem ser consideradas horas extraordinárias. Actualmente são pagas como horas extraordinárias porque deve tratar-se de facto de trabalho adicional. No caso da AE isso já depende do contrato colectivo de trabalho, se eles têm como dia de folga o sábado então é trabalho extra. Compartilhar este post Link para o post
G1njas Publicado 5 Setembro 2017 Completamente off-topic: Leio sempre AE como Associação de Estudantes e estava aqui a tentar perceber como é que a conversa tinha chegado lá. :estrelas: Peço desculpa pelo aparte, eu sei onde é a saída. Boa continuação. Compartilhar este post Link para o post
JoaoFer Publicado 5 Setembro 2017 Porque esses 16% são menos do que aquilo que pagariam se os Sábados continuassem como horas extraordinárias, creio. E o problema reside aí - não é tanto o ter de trabalhar ao Sábado, mas o de insistir que o Sábado tem de ser pago com horas extraordinárias e não como mais um dia de trabalho no novo horário. Isto, pelo que percebi das notícias. Está na noticia que o BH meteu ai atrás, o Sábado, ao passar de um dia facultativo para um dia obrigatório, passa a deixar de ser considerado como um dia de descanso (sendo pago como horas extras) para passar a ser pago como um dia normal. Portanto, vão passar a ter menos dias de descanso e efetivamente a empresa vai ter de pagar menos aos trabalhadores, mesmo "aumentando-os" Deixam de 400 e tal euros por sábado ao mês para receber 100 e tal euros pelo mesmo trabalho, se não estou em erro. Nunca na vida, a não ser que seja um ordenado bastante alto. As horas extra de um sábado não são "grande coisa". Se se fizer as contas, o sábado em horas extra, dependendo do ordenado base, não é melhor que estas compensações. E, com isto, não digo que as pessoas não devam lutar pelos seus direitos. Dinheiro não é tudo. Compartilhar este post Link para o post