nopla Publicado 21 Outubro 2018 (editado) Já ninguém quer ser astronauta https://www.publico.pt/2018/10/21/p3/cronica/ja-ninguem-quer-astronauta-1848233 A 21 de Julho de 1969 o mundo não parou porque o ser humano foi à Lua. Foi com ele. Acredite-se ou não, fomos com ele. De braço dado, passo a passo e embebidos em sonhos movidos a propulsão a jacto e a cegueira de quem quer mais. Seja num estúdio da vida ou na dúvida pertinente de um crer que se diz distante, o certo é que fomos à Lua. A partir daí todos queríamos ser astronautas. Todos passámos a desejar mais do que víamos e a sentir que o caminho era mais além. Sempre. Não nascemos virados para a Lua, mas virávamo-nos para lá sempre que precisávamos de uma resposta semi-concreta a uma equação que a vida nos colocava. Com fracções que não subtraíamos, só somávamos, na esperança de que o resultado fosse sempre mais. Maior. Melhor. Durante anos todos almejámos flutuar de capacete branco e olhar ao longe para tudo o que nos perturbava. Fosse em tardes de joelhos esfolados de diversão, ou em serões passados à volta de um caderno de exercícios que só fazíamos por ser o caminho natural para nos tornarmos astronautas e podermos lavar os dentes de pernas para o ar. A fugacidade de um futuro que parecia distante, levou-nos a reajustar, nunca a desistir. Não conhecíamos a NASA. Inventávamos a nossa sigla, o nosso foguetão e lá íamos nós disparados aos sonhos que nunca estagnavam. Eram correntes, não havia margem para dúvida de nenhum rio de incerteza. Não andávamos de cabeça no ar, mas não tínhamos os pés no chão. Desbravávamos a Ursa Maior e seguíamos pé ante pé a Estrela Polar do nosso talento. O que chegava era sempre pouco para quem ainda não tinha acabado de contar as estrelas. Cem agora, trezentas amanhã, o futuro era um lugar estranho, mas que nunca assustava quem tinha um planeta inteiro entalado entre um indicador esticado e quatro dedos firmemente recolhidos para o deixarem brilhar. O futuro nunca foi manhã de nevoeiro e nunca esperávamos por quem não vinha. Caminhávamos em frente. Hoje não. Hoje já ninguém quer ser astronauta. Vivemos na monotonia do "aceitar o que nos dão sem questionar". Na incerteza do que desejamos e a certeza de que já não queremos ir ao espaço, muito menos conquistar a Terra. Navegamos num mundo de uma aceitação social premente, que funciona quase como uma injecção de motivação para uma vida que nunca pensámos viver. Voamos de objectivo em objectivo, até nos apercebermos que estamos em passo de marcha numa corrida sem meta, só com garrafas de água misturadas com bebidas energéticas, que nos são dadas de quilómetro em quilómetro para nos aguentarmos sem vacilar. A ambição colide a alta velocidade com o comboio da inércia, da aceitação e do marasmo intelectual. Contentamo-nos com o que os outros querem que sejamos, com o que fica bem sermos e com aquele arnês de segurança que nos dá uma falsa sensação de euforia e liberdade, quando, na verdade, estamos agarrados ao mesmo local de sempre. Hoje sonha-se pequeno, já não há uma contagem decrescente para descolarmos e partimos de nós, com a bandeira do desafio acoplada à vontade de conhecer. De nos conhecermos. Pintamos uma jangada com clichés e esperamos que a maré nos leve a bom porto, sem remarmos para o desconhecido. Virámos para o T com fundo azul que nos indica beco sem saída. Vagueamos por sites de empregos similares aos de engates, em que ficamos exacerbados pelo desespero de não saber o que fazer e em que o facilitismo é a feromona certa que nos faz virar para direita e aceitar o que vier. O que nos quiser. Traçamos, no nosso mapa interior, o caminho mais fácil, que não requer passagens secretas ou portas blindadas. Já ninguém quer ser astronauta. O fascínio pelo desconhecido findou-se quando passámos a aceitar sem questionar, a ir para onde todos vão e a sujeitarmo-nos ao que todos já premeditaram que devemos ser. Deixámos fugir o foguetão da vida e já tomamos a Lua como garantida. Fonte: Público(P3) Não é uma notícia, mas é o meu primeiro texto publicado. No P3, é certo, mas está lá. Estou radiante com isto. Espero que gostem! Editado 21 Outubro 2018 por nopla 67 Compartilhar este post Link para o post
Jpa Publicado 21 Outubro 2018 Citação de Diogo_CFB, há 1 minuto: Escreves tão bem. Tão isto. Enquanto estava a ler, até me estava a questionar quem teria sido o conhecido e conceituado jornalista que tinha escrito o artigo. Compartilhar este post Link para o post
Bashir Publicado 21 Outubro 2018 Boa nopla! Que seja o primeiro de muitos, e que continues a partilhar aqui. Compartilhar este post Link para o post
johan Publicado 21 Outubro 2018 Excelente, nopla. Muito sucesso!!!! 1 Compartilhar este post Link para o post
O Pastel Publicado 21 Outubro 2018 Muito bom, Nopla. Parabéns! Compartilhar este post Link para o post
Visitante Publicado 21 Outubro 2018 Parabéns Nopla! Espero que seja o primeiro de muitos 🙂 Compartilhar este post Link para o post
nopla Publicado 21 Outubro 2018 Não tenho reputações para agradecer a todos, mas gostava que soubesse que significa muito. Este será sempre aquele cantinho especial. Aquele cantinho que serve de marco temporal: quando cá entrei escrevia com 'x' e 'k'; hoje tenho um texto no Público. Obrigado a todos, pessoal! 1 Compartilhar este post Link para o post
Poeira Publicado 22 Outubro 2018 Muito, muito bem escrito. Parabéns, nopla! Compartilhar este post Link para o post
Kendrick Lmao Publicado 22 Outubro 2018 Parabéns nopla, no entanto devo confessar que fiquei confuso a ler a frase inicial :mrgreen: já agora não eras tu que andavas no mundo da aviação? já largaste esse mundo? Compartilhar este post Link para o post
Hammerfall Publicado 22 Outubro 2018 Muitos parabens! Boa leitura 🙂 Compartilhar este post Link para o post
tozequio Publicado 22 Outubro 2018 Muito bom! Nem sabia que tinha sido tu a escrever o texto e já o tinha partilhado no facebook. Compartilhar este post Link para o post
nopla Publicado 22 Outubro 2018 Citação de Kendrick Lmao, há 8 horas: Parabéns nopla, no entanto devo confessar que fiquei confuso a ler a frase inicial :mrgreen: já agora não eras tu que andavas no mundo da aviação? já largaste esse mundo? Quis dizer que na data em que o Armstrong foi à lua, o mundo não parou em frente à televisão a vê-lo aterrar, foi com ele à lua, porque tinha esses objectivos que não se confinavam ao palpável, à Terra em si, queriam - também eles -, ser astronautas e ir onde ninguém tinha ido e conquistar o que ninguém tinha conquistado. Engraçado que a única coisa que eles me corrigiram no texto foi, exactamente, nessa primeira frase. Eu escrevi "quando o Homem foi à lua" (com o H certo) e eles mudaram para "ser humano". Não deixa de ser engraçado :mrgreen: Quanto à aviação, cá continuo. Quero só fazer mais uns meses disto e depois tento arranjar algo relacionado com o que gosto efectivamente: a escrita. Obrigado, mais uma vez, a todos. São incríveis. Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado 22 Outubro 2018 Que belo texto, vejo isto num prólogo de uma distopia. Já agora, como "chegaste" até ao Público, se puderes partilhar, claro. Compartilhar este post Link para o post
Mesut Ozil Publicado 22 Outubro 2018 Parabéns nopla, excelente! Compartilhar este post Link para o post
Kendrick Lmao Publicado 22 Outubro 2018 Citação de nopla, há 52 minutos: Quis dizer que na data em que o Armstrong foi à lua, o mundo não parou em frente à televisão a vê-lo aterrar, foi com ele à lua, porque tinha esses objectivos que não se confinavam ao palpável, à Terra em si, queriam - também eles -, ser astronautas e ir onde ninguém tinha ido e conquistar o que ninguém tinha conquistado. Engraçado que a única coisa que eles me corrigiram no texto foi, exactamente, nessa primeira frase. Eu escrevi "quando o Homem foi à lua" (com o H certo) e eles mudaram para "ser humano". Não deixa de ser engraçado :mrgreen: Quanto à aviação, cá continuo. Quero só fazer mais uns meses disto e depois tento arranjar algo relacionado com o que gosto efectivamente: a escrita. Obrigado, mais uma vez, a todos. São incríveis. Sim eu percebi a ideia, mas tiltei com o facto de não estar lá o "parou para ver" ahah Compartilhar este post Link para o post
nopla Publicado 22 Outubro 2018 Citação de kareca, há 2 horas: Que belo texto, vejo isto num prólogo de uma distopia. Já agora, como "chegaste" até ao Público, se puderes partilhar, claro. Muito obrigado, kareca! Posso, sim! É uma história um tanto ou quanto cómica. Sou um idiota, nos vários sentidos da palavra. Tenho ideias a rodos. De todos os tipos. Porém, o meu 'processo criativo' é sui generis. Tive esta ideia há uns tempos largos, mas a única coisa que estava no word era o título. Até que um dia cheguei a casa e, num curto espaço de tempo, vomitei tudo para o computador. Depois de ler, reler e ter cinquenta e seis opiniões diferentes sobre a qualidade do mesmo, achei que era um 'texto vencedor'. Posto isto, tentei pensar em plataformas que partilhassem este tipo de 'coisas'. Com alguma visibilidade, diga-se. A minha primeira ideia foi enviar para a 'Comunidade Cultura e Arte'. Assim foi. Recebi uma resposta do género: "obrigado pela partilha e pelo interesse. Envia o texto para o nosso e-mail". Pensei que era uma resposta standard e que iam 'cagar' no que tinha escrito. Pedi feedback e disseram: "tentaremos". Ainda pior fiquei. Até que me lembrei do Público (do P3, mais precisamente), mas achei que ia cair no esquecimento. No entanto, uma hora depois tinha resposta a dizer que adoraram o texto e que queriam que fosse publicado. Pediram-me uma foto, uma biografia e para ver se o texto correspondia aos regulamentos. Ora bem, nos regulamentos dizia "não pode ter sido partilhado por nenhum outro meio de comunicação"... Apressei-me e enviei mensagem para a Comunidade Cultura e Arte a pedir para não publicar (achei que nem sequer tinham lido), ao que eles me responderam: "já publicámos". Entrei em parafuso. Pedi, por favor, para retirarem, eles acederam facilmente. Depois o problema foi a Google, ou seja, apesar de não estar publicado, estava nas pesquisas. Fui ver à net como se fazia para retirar e, pronto, lá consegui. Passados estes percalços todos, a jornalista do Público nunca mais me respondia ao que lhe tinha perguntado e pensei logo que tinha desistido da publicação. Um dia acordo e lá está o texto. Fiquei radiante, sobretudo pelas reacções das pessoas. 8 1 Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado 22 Outubro 2018 Lá está, torna-se melhor sabendo que não foi "apenas" o texto, mas todo o processo que levou à publicação. Essa secção Megafone é para textos esporádicos até teres um espaço teu ou já vais escrever periodicamente? Compartilhar este post Link para o post
Visitante Publicado 22 Outubro 2018 Citação de Bashir, há 23 horas: Boa nopla! Que seja o primeiro de muitos, e que continues a partilhar aqui. x2 Compartilhar este post Link para o post
Mr.Shelby Publicado 22 Outubro 2018 Que incrível Nopla!! Nossa 😲 Digo-te já que não sou gajo de ler grandes textos mas está top! 🙂 1 Compartilhar este post Link para o post
nopla Publicado 23 Outubro 2018 Citação de kareca, Em 22/10/2018 at 15:48: Lá está, torna-se melhor sabendo que não foi "apenas" o texto, mas todo o processo que levou à publicação. Essa secção Megafone é para textos esporádicos até teres um espaço teu ou já vais escrever periodicamente? Não sei. Este texto teve uma repercussão que nunca esperei. Posto isto, é sempre difícil escrever "o a seguir". Gosto muito do Megafone, contudo, por ser um leitor relativamente assíduo, não confiro grande qualidade às pessoas que costumam lá escrever. Ou são já "batidos" no P3 e têm o lugar reservado, ou são pessoas que querem promover os seus blogues, e etc; ou, de quando em vez, são pessoas efectivamente com talento e qualidade escrita. Dito isto: não sei o que fazer. Talvez volte a escrever para lá, mas o meu objectivo futuro é fazer da escrita vida. Seja de que forma for...e há tantas! Obrigado a todos, pessoal! Compartilhar este post Link para o post
Puto Perdiz Publicado 23 Outubro 2018 enviaste o texto para o [email protected] ? Compartilhar este post Link para o post