Sumudica by Night Publicado 11 Junho 2016 (editado) Fergunson: o líder com mão de ferroMandou Poborsky cortar o cabelo, pôs Cantona de castigo e perdeu um campeonato por causa disso. Não se cansa de elogiar Ronaldo. Liderança é o novo livro de Alex Fergunson que aqui pré-publicamos. Lançado em Inglaterra no ano passado, chega agora traduzido em português o livro Liderança, assinado por Sir Alex Fergunson com Sir Michael Moritz, seu amigo e colaborador. O mítico treinador do Manchester United conta neste livro as decisões que tomou e que voltaria a tomar durante a sua carreira, mas também fala daquelas de que se arrependeu, revelando como por vezes foi injusto. O Observador faz aqui a pré-publicação do segundo capítulo deste livro, que tem revelações surpreendentes — um delas sobre a ida (falhada) de Mourinho para o Manchester United quando Fergunson saiu, ao fim de 27 anos de liderança. No segundo capítulo que aqui publicamos, Fergunson conta como tinha mão de ferro no balneário — e essa mão ia das roupas e dos penteados dos jogadores, passando pelas saídas noturnas e acabando no mau comportamento dentro de campo. Mas a disciplina vinha sempre acompanhada da compreensão de quem subiu a pulso na vida e reconhecia nos jogadores uma força da natureza, resultado, muitas vezes, de uma infância adversa. Cristiano Ronaldo é alvo de muitos elogios do treinador que o recebeu em Manchester com apenas 17 anos. RECONHECER O APETITE DISCIPLINA A disciplina foi-me incutida desde muito novo. O meu pai era um grande disciplinador. Trabalhava na construção naval, que pode ser um mundo agreste e cruel. Não falava muito. Podia ser teimoso, e era um homem de poucas palavras, mas era muito inteligente. Era autodidata, deixara a escola aos 14 anos, mas estava sempre a ler. Queria que eu e o meu irmão aprendêssemos um ofício e não me deixou entrar para o futebol profissional antes de ter terminado o estágio como fabricante de ferramentas. Incutiu-nos disciplina desde muito cedo. Nos dias de escola acordava-me sempre às 6 da manhã. Ele próprio saía de casa às 6h45 em ponto, pois gostava de estar no estaleiro quando os portões abriam. Talvez seja por isso que, décadas mais tarde, já treinador, me habituei a chegar ao trabalho antes do leiteiro. Quando comecei a receber para jogar futebol, costumava sair ao sábado à noite. O meu pai não gostava disso. Achava que eu estava a aproveitar demasiado a vida. Passei cerca de seis meses sem falar com ele. Éramos os dois muito parecidos. Aos 14 anos, comecei a jogar para os Drumchapel Amateurs, que era a maior equipa amadora escocesa. Era gerida por Douglas Smith, um homem relativamente abastado cuja família era dona de um estaleiro de sucata náutica. Tinha um acordo com o Reid’s Tea Rooms, no centro de Glasgow, onde os rapazes almoçavam gratuitamente. Treinava cinco equipas – Sub-18, Sub-17, Sub-16, Sub-15 e Sub-14. Levava-nos todos os fins de semana para a sua propriedade em Dunbartonshire, nos arredores de Glasgow, arrastava-nos pelas pocilgas e fazia-nos jogar no recinto de bowling em equipas de cinco. Ficava tenso quando uma das equipas perdia e começava a suar, mostrando-se visivelmente zangado. Era dono de um forte sentido de disciplina e desejava profundamente vencer. A disciplina foi um problema desde o meu primeiro dia no St Mirren, que treinei entre 1974 e 1978. Logo que cheguei, o jornal local, o Paisley Daily Express, enviou um fotógrafo para registar o primeiro dia da equipa com o seu novo treinador. Na manhã seguinte, vi a fotografia no jornal, com Ian Reid, o jogador que fora capitão da equipa, atrás de mim a fazer orelhas de coelho com os dedos. Quando perdemos o nosso primeiro jogo com o Cowdenbeath, chamei Reid ao meu gabinete na segunda-feira de manhã. Ele disse que o gesto fora uma brincadeira, ao que lhe respondi: “Não gosto desse tipo de brincadeira”. John Mowat era um bom jogador jovem que começou a responder sempre que lhe dava instruções durante o jogo. Tanto Reid como Mowat foram para a minha lista negra. Um jogador disse-me que ia faltar a uma sessão de treino porque ele e a namorada tinham bilhetes para um concerto de música pop. Perguntei-lhe se havia concertos todas as noites, o ano todo. Quando ele me disse que não, respondi-lhe: “Se queres ir ao concerto, muito bem, mas escusas de voltar”. Só queria deixar bem claro perante todos os jogadores que não aceitava desobediências. Eles perceberam a mensagem. Ao tornar-me treinador, uma das minhas funções era incutir disciplina. No St. Mirren, a equipa era constituída por jogadores em part-time, mas viajávamos sempre no mesmo autocarro para os jogos fora. Certo sábado, um dos jogadores decidiu seguir sozinho até East Fife. Desanquei-o no balneário antes do jogo por se considerar demasiado importante e disse-lhe que naquele dia não jogava. Depois percebi que não tinha quem o substituísse, pelo que essa ação disciplinadora foi por água abaixo. Quando cheguei a Aberdeen, um sítio muito mais calmo do que Glasgow, percebi que teria de injetar um pouco da ferocidade e da disciplina glasgowiana na equipa. Não estive com meias medidas. Fui agressivo e exigente, e imagino que nem todos gostaram da situação, mas isso transformou os jogadores em homens e fortaleceu-lhes a personalidade. No Aberdeen, havia três jogadores que, para mim, eram um incómodo. Pura e simplesmente, não levavam o treino a sério. Assim, obrigava-os a treinar outra vez à tarde, deixava-os como suplentes e mandava-os jogar em sítios gelados, como Peterhead, à terça e à quarta-feira à noite. Acabei por dispensá-los a todos. Há décadas, a disciplina também podia ser instilada pelo facto de as equipas raramente mudarem. É difícil de acreditar (sobretudo quando vemos sete suplentes no banco durante os jogos da Premier League) que os suplentes só começaram a ser usados em meados da década de 60 do século passado. Em jovem, uma equipa raramente sofria alterações durante toda a época, e ainda hoje consigo dizer o nome de todos os jogadores dos Raith Rovers do início da década de 50. Havia também um elemento de necessidade económica que nos levava a querer ficar na equipa para garantir o prémio. Por vezes, quando mais novo, era demasiado disciplinador e fiz coisas de que me arrependo. Por exemplo, depois de o Aberdeen ter regressado da Suécia com a Taça dos Vencedores das Taças de 1983, fizemos um desfile que terminou no nosso estádio, o Pittodrie, a rebentar pelas costuras. Os adeptos queriam ver os jogadores a levarem o troféu à volta do campo, e Mark McGhee, o ponta de lança do Aberdeen, estava ansioso por lhos mostrar. Eu, todavia, achava que ele tinha celebrado um pouco de mais e proibi-o de exibir o troféu. Depois, a mãe dele chegou ao balneário, e isso fez-me sentir culpado. Assim, na manhã seguinte telefonei a McGhee, pedi-lhe desculpas, e convidei-o a acompanhar-me ao porto, onde os dois exibimos o troféu aos adeptos que haviam chegado de barco de Gotemburgo. Não fiquei com grande vontade de repetir incidentes do género. A questão da disciplina tem vindo a acompanhar-me ao longo de toda a carreira. Durante a conversa que tive com Martin Edwards antes de aceitar a oferta do Manchester United em novembro de 1986, ele referiu o hábito de alguns dos jogadores de beberem em excesso. Edwards comentou que uma das razões para o United estar interessado em mim era a reputação que eu criara enquanto treinador que sabia manter a disciplina e não tolerava comportamentos indevidos. Quando cheguei ao United, havia demasiada tolerância em relação a muitas questões, entre elas a roupa usada pelos jogadores quando se dirigiam aos jogos. Queriam usar os fatos de treino das marcas que os patrocinavam na altura: Reebok, Puma, Adidas. Uma grande confusão. Insisti de imediato que teriam de viajar com calças de flanela, o blazer do clube e a gravata. Quando Fabien Barthez se juntou a nós em 2000, como guarda-redes chegado do Mónaco, teve de se adaptar ao código de vestimenta. Fazia-o mudando de roupa no autocarro, a caminho dos jogos. Depois da partida, devolvia o casaco, as calças, a camisa e a gravata a Albert Morgan, o responsável pelo guarda-roupa, até que fosse outra vez obrigado a surgir como representante do clube. Eric Cantona quebrou uma vez o código de vestimenta, num dia em que a edilidade realizou uma grande receção à equipa, com ele a aparecer vestido de blusão de camurça com longas franjas e a imagem de um chefe índio americano nas costas. No dia seguinte, jurou-me – e eu acreditei – que pensara que ia ser uma ocasião casual, como seria o caso em França. Os jogadores dão ao treinador bastas oportunidades para usar o chicote, pelo que é melhor escolher bem quando o fazer. Não é preciso distribuir castigos com muita frequência para que todos percebam a mensagem. Por exemplo, nunca me pareceu útil castigar os jogadores por chegarem atrasados aos treinos. As estradas à volta de Manchester ficam engarrafadas com facilidade quando há um acidente ou obras, sobretudo no inverno. Os jogadores, por vezes, ficam presos no trânsito e chegam atrasados. Quando isso acontecia uma vez por outra, não me preocupava. Todavia, se alguém se atrasava constantemente, sugeria-lhe que saísse de casa dez minutos mais cedo e frisava que, ao chegar atrasado, estava a deixar ficar mal os companheiros de equipa. Não há jogador que queira fazer isso. Só me lembro de ter castigado um jogador por chegar atrasado aos treinos, o guarda-redes Mark Bosnich, que nunca chegava a horas. Nunca receei entrar naquilo que certos jogadores poderiam considerar o seu mundo privado – penteados e joias. Nunca compreendi por que motivo os jogadores quereriam cabelo comprido se passavam tanto tempo a tentar ficar tão em forma quanto possível. Qualquer coisa, mesmo umas madeixas a mais, me parecia pouco assisado. A minha primeira questiúncula sobre esse tópico foi quando Karel Poborsky chegou ao Manchester vindo do Slavia de Praga, em 1996, parecendo que se ia juntar aos Led Zeppelin e não ao United. Consegui convencê-lo a cortar um pouco as madeixas, mas, mesmo assim, estavam sempre demasiado compridas para o meu gosto. Outros jogadores chegavam com fios com crucifixos que pareciam mais pesados do que aqueles que os peregrinos carregam Via Dolorosa acima, em Jerusalém. Proibi todos. Todavia, não havia grande coisa que pudesse fazer quanto às tatuagens, pois até eu tinha dificuldade em argumentar que acrescentavam peso. Foi Eric Cantona quem começou essa loucura específica quando, certa manhã, compareceu ao treino com a cabeça de um chefe índio americano gravada no peito. Uma vez que Eric era venerado pelos colegas de equipa, foram vários os jogadores que o imitaram. Sempre me espantou que Cristiano Ronaldo nunca optasse por desfigurar o corpo. Isso é prova cabal da sua autodisciplina. Os líderes também podem distribuir castigos diferentes. Os líderes inexperientes ou inseguros sentem-se amiúde tentados a tratar todas as infrações como uma ofensa capital. Tudo isso é muito bonito, mas, depois de se enforcar alguém, acabam-se as opções. Gradualmente comecei a perceber que o castigo tem de se adequar ao crime, e, enquanto juiz, jurado e carrasco tinha muitas penas ao meu dispor. Um castigo simples mas bastante eficaz é o silêncio, tratamento que usei com frequência. Não exigia humilhação pública ou reprimendas, mas, como toda a gente gosta de ser reconhecida, o alvo do meu tratamento de silêncio percebia que estava nos chifres do touro. Multei muitos jogadores como forma de lhes chamar a atenção e mantê-los concentrados na equipa. Regra geral, estas medidas eram aplicadas depois de cartões recebidos após um comportamento idiota, como falta de educação para com o árbitro, uma carga excessivamente dura ou comportamento inadequado fora do relvado. Esses valores tornaram-se cada vez mais avultados com a inflação dos salários na Premier League, mas a natureza da multa – uma ou duas semanas de ordenado – permaneceu constante. Depois de uma festa de Natal desastrosa em 2007, multei a equipa principal e a equipa B numa semana de salário. Para os jovens que esperavam conseguir chegar à equipa, bastava recusar-me a deixá-los viajar com a equipa principal para os deixar à nora. Para os membros da equipa, dispunha de uma ou outra forma de deixar bem claro o preço das infrações. Uma era deixar o jogador de fora dos convocados, mas a mais grave era obrigá-lo a ficar nas bancadas com as roupas civis. Isso é o equivalente a um flagelo público para um futebolista. Ninguém era imune a isso. Finalmente, havia as punições mais graves de todas – a suspensão e a transferência. Talvez se imagine que a segunda era a mais dura, mas não era essa a minha opinião. Quando decidíamos que um jogador seria transferido, isso devia-se ao facto de já não corresponder ao que precisávamos no United ou então, em alguns casos, como o de Cristiano Ronaldo, estávamos a honrar compromissos. Para mim, a suspensão era, de longe, a mais dolorosa, pois o castigo era imposto ao jogador e ao clube. Isso aconteceu em janeiro de 1995, quando Eric Cantona foi suspenso durante os últimos quatro meses da época pelo United e durante outros quatro meses pela FA (a Football Association, a entidade que controla o futebol em Inglaterra). Não há jogador que goste de ser afastado da equipa principal, e essa sensação de desilusão piora à medida que o jogador vai envelhecendo e tem de se habituar à ideia de que o auge da sua carreira já ficou para trás. Todavia, nunca deixei que os sentimentos interferissem com as convocatórias para a equipa, algo ainda mais notório nos jogos mais importantes. Em 1994, não convoquei Bryan Robson para a equipa para a final da Taça de Inglaterra. Bryan estava no final da sua distinta permanência de 13 anos no United, e não me apercebi de como seria importante para ele participar na conquista da sua quarta vitória na Taça de Inglaterra. Em retrospetiva, tê-lo-ia mantido na lista de convocados e talvez permitisse que jogasse na última parte do jogo. Mesmo que eu tivesse tendência para explodir, como os meus jogadores bem sabiam, regra geral o meu temperamento não tinha um efeito destruidor. Não era esse o caso com jogadores que abandonavam o autocontrolo e a autodisciplina em campo. Se vissem uma série de cartões amarelos ou, pior ainda, um cartão vermelho como resultado da perda de controlo, isso poderia ter consequências graves para a equipa. Não só teríamos de jogar só com dez elementos, como nos veríamos privados dos serviços do jogador enquanto ele estivesse suspenso. Peter Schmeichel, Paul Ince, Bryan Robson, Roy Keane, Mark Hughes e Eric Cantona ferviam praticamente sem água. Isso não nos ajudava em nada, e nunca escondi o meu descontentamento quando eram expulsos por qualquer ato de loucura. Cantona quando jogava no Sheffield Wednesday Há pessoas que parecem, pura e simplesmente, imunes à disciplina. Juan Sebastián Verón, o meio-campo argentino, era assim. Por mais que me esforçasse, nunca consegui fazê-lo encaixar no nosso sistema. Era um jogador fantástico, com uma capacidade tremenda, mas era imprevisível. Se o colocasse como médio-central, acabava como extremo-direito. Se o colocasse à direita, acabava à esquerda. Faltava-lhe a autodisciplina necessária, pelo que o trocámos passados dois anos e 82 jogos. Não é possível construir uma equipa com almas irrequietas. Também há jogadores que seguem as instruções à risca. Ji-sung Park, o nosso meio-campo sul-coreano, era assim. Se lhe desse uma ordem, ele era como um cão com um osso – não o largava. Quando jogámos com o AC Milão em 2010, para a Liga dos Campeões, pedi a Ji-sung Park que marcasse Andrea Pirlo, o meio-campo deles e sua grande força criativa. Pirlo estava habituado a ser o centro das atenções do Milão, mas Ji-sung conseguiu sufocá-lo. Sempre pus a disciplina acima de tudo, e isso pode ter-nos custado alguns títulos, mas, se tivesse de repetir a minha vida, faria exatamente a mesma coisa, pois assim que ignoramos a disciplina dizemos adeus ao êxito e abrimos caminho à anarquia. Pouco depois do Natal de 2011, descobri que três jogadores do United tinham passado a noite em bares no dia a seguir ao Natal, aparecendo de rastos no treino da manhã seguinte. Mandei-os então fazer um treino adicional e não os convoquei para o jogo seguinte, com os Blackburn Rovers. Já contávamos com muitas lesões, e, embora essa decisão ainda nos tenha enfraquecido mais, pareceu-me o mais correto a fazer. Perdemos o jogo com o Blackburn, 3–2, o que nos custou três pontos preciosos, e acabámos por perder a Liga para o Manchester City, por diferença de golos. Muitos anos antes, em 1995, a nossa decisão de suspender Eric Cantona pelo resto da época, depois da sua briga com um adepto na sequência da expulsão em Crystal Palace, custou-nos o campeonato e a taça de Inglaterra. Quando suspendemos Eric (suspensão essa que, posteriormente, foi agravada pela FA), estávamos apenas a um ponto do primeiro lugar, e tenho a certeza de que teríamos vencido por uns dez pontos, caso ele tivesse jogado durante o resto da época, em vez de termos perdido por um ponto para o Blackburn Rovers. A longo prazo, os princípios são mais importantes do que a conveniência. Reunir uma equipa de 11 jogadores talentosos que se concentram profundamente nos treinos, cuidam da dieta e do corpo, dormem o suficiente e nunca se atrasam é quase meio caminho andado para se conquistar um troféu. É sempre espantoso a quantidade de clubes que se revelam incapazes de o conseguir. Antes de vencermos o Liverpool por 1-0 na final da Taça de Inglaterra de 1996, pressenti que venceríamos o jogo devido à maneira como os nossos adversários compareceram para a inspeção pré-jogo do campo. Toda a equipa do Liverpool, à exceção do treinador e do adjunto, apareceram de fato branco fornecido por uma marca de roupa. Isso pareceu-me uma quebra na disciplina e revelou que a equipa se distraíra com um espetáculo frívolo. Comentei-o com o meu responsável pelos equipamentos, Norman Davies, e a previsão revelou-se correta quando Eric Cantona marcou, a poucos minutos do apito final. Um exemplo diferente ocorreu anos antes, quando, em setembro de 1985, o Aberdeen venceu os Rangers por 3–0 em Ibrox Park, depois de dois dos nossos adversários terem sido expulsos durante a primeira parte do jogo. Os Rangers tentaram intimidar-nos e, com o público aos gritos, perderam a cabeça. Foi um verdadeiro pandemónio, e tivemos de nos refugiar nos balneários durante um período da segunda parte enquanto a polícia retirava os adeptos enlouquecidos do relvado. Este foi um daqueles casos clássicos em que os nossos adversários provocaram a sua própria perdição. Sempre senti que os nossos triunfos eram a expressão da aplicação constante de disciplina. Talvez haja quem se surpreenda ao saber que grande parte do êxito vem de não nos deixarmos levar ou de tentarmos fazer o impossível e correr demasiados riscos. Sempre tive o hábito de parar em janeiro e olhar para os jogos restantes tanto do United como dos principais adversários e contabilizar os pontos que imaginava que cada clube iria obter. Nunca falhei por muito, e esse exercício ajudava-me a perceber a importância de processar o aparentemente pouco digno 1–0. Durante esses jogos, concentrávamo-nos em manter um estado de espírito sólido e em não ceder um milímetro. Recordo-me de um jogo específico: em março de 2007, fomos a Middlesbrough, durante um período de três meses em que tivemos o avançado sueco Henrik Larsson emprestado do Helsingborgs. Não lhe poderia ter pedido mais: sob uma pressão imensa, ele abandonou a posição de avançado e recuou para o meio campo para ajudar a conseguir o resultado. Quando, no final do jogo, Henrik entrou no balneário, os jogadores e os técnicos levantaram-se e aplaudiram espontaneamente pelo esforço tremendo que ele fizera naquela posição a que não estava habituado. No final da época, pedimos uma medalha adicional para Henrik pela vitória na Premier League, mesmo sem ele ter participado nos dez jogos que na altura eram obrigatórios para se ter direito ao prémio. RITMO DE TRABALHO Os meus pais sempre trabalharam. O meu pai trabalhou nos estaleiros navais de Glasgow, enquanto a minha mãe começou por trabalhar numa fábrica de arame e depois numa fábrica que produzia peças para aviões. O meu pai chegava a fazer 60 horas semanais no que era uma existência dura, fria e perigosa. Glasgow fica aproximadamente à mesma latitude de Moscovo, pelo que, quando os ventos invernais fustigavam o rio Clyde, os estaleiros tornavam-se sítios brutais. Regra geral, tirava duas semanas de folga por ano. Em 1955, trabalhou 64 horas por semana por um salário de £7 e 15 xelins ou cerca de £189 em valores atuais. Depois de ter morrido de cancro, em 1979, a minha mãe passou a limpar casas. A dedicação dos meus pais ao trabalho seria, provavelmente, exacerbada pela falta de uma rede de segurança social. Os padrões de segurança eram ridículos, os benefícios de saúde irrisórios, e a indústria de advogados que se especializam em fazer queixas ridículas pela mais ínfima razão ainda não existia. Não me lembro de uma altura em que os meus pais não estivessem a trabalhar. No verão, pelas férias, apanhávamos um autocarro para Saltcoats, onde eu e o meu irmão passávamos o dia a jogar futebol, damas ou xadrez. Como os meus pais se matavam a trabalhar, acabei por absorver a ideia de que eu só teria uma vida melhor se me esforçasse bastante. Isso ficou-me nos genes. Era incapaz de me ficar por meias medidas e sentia-me irritado com as pessoas que desperdiçavam os talentos naturais por não estarem dispostas a aplicar-se. Há muita satisfação a obter com o facto de sabermos que estamos a dar o nosso melhor, e ainda mais quando esse esforço começa a compensar. Imagino que isso explique o motivo por que joguei no dia em que me casei e no dia em que o meu primeiro filho nasceu. De 1500 jogos do United, só faltei a três – o primeiro para estar em Glasgow ao lado do meu irmão aquando da morte da mulher dele, em 1998, depois por causa do casamento do meu filho mais velho na África do Sul, em 2000, e, finalmente, quando fui observar David de Gea, em 2010. Tanto no St Mirren como no Aberdeen, costumava ver tantos jogos quanto possível. Regra geral fazia-o com Archie Knox, treinador-adjunto do Aberdeen. Os pais de Archie eram agricultores, e ele cresceu numa quinta nos arredores de Dundee, pelo que sempre teve horários de campo e partilhava a minha ética de trabalho. Íamos juntos aos jogos, e, se viajássemos para Glasgow, Archie conduzia à ida, comigo a dormir, e eu seria o condutor durante o regresso, com Archie a ressonar pelo caminho. A viagem de ida e volta podia demorar seis horas. Sempre que nos sentíamos tentados a faltar a um jogo e a tirar a noite de folga, dizíamos um ao outro que, “se perdemos um jogo, são dois jogos entre nós que não vemos”. Na maior parte dos clubes de futebol, os treinadores trabalham muito mais do que imagina o comum dos mortais. A pressão na Premier League é ininterrupta, e fora da Premier não há dinheiro suficiente para que os treinadores disponham de grandes equipas técnicas. Era garantidamente esse o caso quando comecei a minha carreira como treinador. No St Mirren tinha uma equipa de quatro elementos, onde se incluíam o treinador-adjunto, um treinador de reserva, o fisioterapeuta e um responsável em part-time pelos equipamentos. No Aberdeen, Teddy Scott era responsável pelos equipamentos, treinador das reservas e, basicamente, oleava qualquer roda que precisasse. Também lavava e engomava os equipamentos. De vez em quando ficava a dormir na mesa de bilhar porque perdia o último autocarro. Até no United, quando comecei, só dispunhamos de uma equipa técnica de oito elementos. Em Aberdeen, houve alturas em que toda a equipa técnica, os aprendizes e até o presidente se levantaram às seis da manhã para tirar a neve do relvado. Em março de 1980, demos início à nossa campanha pelo meu primeiro título num dia em que tínhamos tirado perto de vinte centímetros de neve do campo. Vencemos o Morton por 1–0. Foi a única partida que se jogou nesse dia na Escócia. Todos os treinadores de topo, Carlo Ancelotti, José Mourinho e Arsène Wenger, têm uma ética de trabalho formidável. Todavia, são os heróis anónimos quem eu mais admiro – os treinadores que nunca desistem, embora a vida e o destino não lhes tenham concedido uma das equipas de topo. Na Escócia, costumava cruzar–me com Alex Smith e Jim McLean nos cantos mais remotos que se pode imaginar, em noites em que chovia a cântaros e teria sido muito mais agradável ficar em casa a ver televisão. Alex passou quase 40 anos a treinar clubes a norte da fronteira, e Jim foi treinador do Dundee United durante 22 épocas. Lennie Lawrence e John Rudge são dois homens de cujos nomes a maior parte das pessoas que não pertencem ao mundo do futebol nunca ouviu falar, mas Lennie é um dos poucos técnicos que treinou mais de 1000 jogos para clubes como o Charlton Athletic, o Bradford City, o Luton Town e o Grimsby Town, ao passo que John treinou o Port Vale por 16 épocas, passando depois outros 14 como diretor de futebol do Stoke City. Nunca nenhum deles desistiu. Via-os muitas vezes a assistir aos jogos da nossa equipa de reserva, a par de um punhado de adeptos. À fantástica perseverança destes homens devemos juntar a de alguns jogadores em campo. Três pelos quais desenvolvi uma grande admiração foram Tony Adams, do Arsenal, Gianfranco Zola, quando jogou pelo Chelsea, e Jamie Carragher, do Liverpool. Sempre pensei em Adams como um jogador do United com a camisola errada. O álcool arruinou a carreira e a vida de muitos jogadores, e, no United, o triste legado de George Best ficará para sempre na memória coletiva, pelo que o corajoso confronto de Tony com os seus demónios em finais da década de 90 foi, por si só, extraordinário. Claro que aquilo que chamou a minha atenção foi o que fez em campo. Aquilo que lhe faltava em talento e ritmo ele compensava em atitude. Era um jogador mediano que se transformou num líder espantoso unicamente graças ao trabalho e à dedicação. Sempre teve uma atitude vitoriosa, e compensou bastante a fé que George Graham e Arsène Wenger depositaram nele. Para mim, Zola foi um exemplo fantástico de trabalho. Sempre nos deu problemas, mas nunca desistiu. Embora seja um homem baixo, era mais do que capaz de ir à luta com defesas dez ou vinte centímetros mais altos e bastante mais fortes. Era um jogador astucioso, profundamente criativo e incansável. A abordagem que tinha em relação ao jogo equiparava-se à minha. Jamie Carragher treinou com o United em jovem. Quando esteve connosco era um médio banal, mas depois de assinar pelo Liverpool transformou-se na alma e no coração da equipa, e na sua força motriz. Na minha última época entrou como suplente num jogo que estávamos a controlar e sussurrei-lhe “só uma coisa, deixa lá de dar pontapés aos nossos rapazes”, ao que ele respondeu: “Vou apanhá-los a todos”. Já estive com ele depois de deixar de jogar e fiquei muito impressionado. Não me surpreenderia se um dia viesse a ser treinador do Liverpool, mas primeiro terá de decidir se pretende deixar o estúdio de televisão e assumir um papel mais importante no futebol. No United fomos abençoados com muitos jogadores com este tipo de atitude vencedora. Quando ganhar se torna um modo de vida, os verdadeiros vencedores são incansáveis. Por mais lamechas que isto soe, os melhores jogadores competem consigo próprios para serem cada vez melhores. Não foi por acaso que jogadores como Ronaldo, Beckham, os irmãos Neville, Cantona, Scholes, Giggs e Rooney tiveram de ser arrastados para fora do campo de treino. Todos dispõem do desejo inato de melhorar cada vez mais. Gary Neville, por exemplo, levava-se ao limite porque sabia que não possuía o talento natural de alguns dos colegas de equipa. Nunca me preocupei com o que poderia estar a fazer à sexta-feira à noite porque sabia que às nove e meia estaria de certeza na cama, sobretudo quando era mais novo. David Beckham também era extraordinário. Quando veio para a nossa equipa, vivia em pensões e treinava de manhã e à tarde, e ainda aparecia à noite, para treinar com os miúdos da escola. Quando, no início da época, fazemos aos jogadores aquilo a que em Inglaterra chamamos “bleep test”, para avaliarmos o seu nível de capacidade aeróbica, Beckham rebentava sempre com a escala. O mesmo é válido para Ronaldo. Tinha o desejo de se tornar o melhor jogador do mundo e possuía a determinação para o conseguir. Prestava sempre uma atenção profunda à nutrição, que já vinha de antes de se mudar para Inglaterra. Hoje em dia é religioso quanto aos banhos gelados depois de cada partida para continuar a jogar ao nível que exige de si próprio. Não toca em álcool e mantém-se sempre cerca de três quilogramas abaixo do peso normal porque percebeu que, agora que chegou aos trintas, isso ajuda a manter o ritmo. Num mundo perfeito, cada jogo meu seria feito por uma equipa com 11 jogadores com tanta determinação como talento. Todavia, a vida não é assim, e, se eu tivesse de escolher entre alguém bastante talentoso, mas com pouca garra e desejo, e outro jogador apenas bom, mas com uma grande determinação e ímpeto, optaria sempre pelo segundo caso. O primeiro caso pode trabalhar bem durante um breve período, mas nunca dispõe da resistência que dá estabilidade e consistência a um grande clube. A ética de trabalho que acabei de descrever para esta meia dúzia de treinadores e jogadores surge nos melhores atletas de todas as modalidades. Estes têm um apetite imenso pelo trabalho e uma autodisciplina extraordinária. Vejamos, por exemplo, o caso de A. P. McCoy, o jóquei que venceu mais de 4000 corridas e que, ao longo da sua carreira, fraturou cada costela e muitos outros ossos. O seu peso natural é de cerca de 75 kg, mas durante 25 anos manteve-se com cerca de 63 kg. Quando anunciou que ia afastar-se das corridas, a mulher disse que finalmente podia aprender a cozinhar batatas. Novak Djokovic, o campeão de ténis amigo do há muito defesa do United Nemanja Vidić, é dono de uma intensidade semelhante. Ficamos maravilhados quando ouvimos a sua rotina de treino e o regime dietético. Os melhores futebolistas do mundo são igualmente disciplinados, embora a ocasional fotografia a tomar banhos de sol no Dubai ou numa discoteca ao lado de uma jovem possa sugerir o contrário. Eles precisam de trabalhar sem tréguas, não só por ser isso que os leva ao topo, mas porque há sempre alguém ansioso por ocupar o seu lugar na equipa. Isso também explica o motivo por que quase todos os jogadores de futebol têm raízes operárias. Como é óbvio, os pais de classe média querem certificar-se de que os filhos vão para a faculdade ou adquirem outras competências, o que significa que o futebol nunca merece tanta atenção nas suas casas. Um pouco por todo o mundo, o futebol atrai jovens que pouca probabilidade terão de prosseguir os estudos e cuja única alternativa é trabalharem bastante para adquirirem e melhorarem as capacidades futebolísticas como rumo para uma vida melhor. Hoje em dia, a expressão “classe operária” não tem as mesmas conotações de há décadas, mas a maioria dos jogadores do United veio daquilo a que hoje em dia se chama “agregados familiares com menores rendimentos”. Não quero parecer um bota de elástico, mas a melhoria global do padrão de vida significa que os jogadores atuais cresceram com água quente, televisão, telefones, computadores, carros e companhias aéreas low cost, e em ambientes físicos bastante mais confortáveis do que aqueles em que eu cresci. Desde há muito tempo que tenho um fraco por pessoas com antecedentes operários, pois acredito que isso as prepara para os problemas da vida. Para quase todos os jogadores britânicos com que trabalhei, o futebol foi o seu bilhete de saída de condições lastimáveis. Ryan Giggs teve um início de vida conturbado. Nasceu em Cardiff, e a mãe tinha apenas 17 anos quando o deu à luz; como o avô materno era da Serra Leoa, em pequeno, Ryan teve de lidar com racismo. Ainda criança, teve de sair do País de Gales, quando o pai, Danny Wilson, deixou a união do râguebi para se tornar jogador profissional, no Norte de Inglaterra. O pai saiu de casa, e Ryan foi criado pela mãe, de nome Lynne Giggs, em Salford, onde o jovem desenvolveu o talento futebolístico. Lynne tinha dois empregos – como empregada de mesa e como auxiliar de enfermagem –, mas como mãe solteira nunca conseguia juntar dinheiro para comprar as melhores chuteiras a Ryan; no entanto, instilou-lhe a capacidade de trabalho. A senhora é uma verdadeira santa, e Ryan mostrou-lhe a sua eterna gratidão trocando o apelido Wilson. David Beckham veio de uma pequena casa na zona oriental de Londres, e o pai trabalhava como engenheiro de aquecimento. Paul Scholes cresceu num bairro social em Langley, e Nicky Butt veio de Gorton – sítios onde nunca veremos um Bentley estacionado à porta. Wayne Rooney vem de um bairro complicado de Liverpool e chegou a pensar seriamente em tornar-se pugilista profissional. Danny Welbeck e Wes Brown cresceram em Longsight, um bairro de Manchester conhecido pela violência de gangues. O pai de Bryan Robson era motorista de pesados. Rio Ferdinand cresceu em Peckham, uma das zonas mais pobres de Londres. A lista é interminável. Ao longo dos anos, comecei a avaliar melhor a influência dos antecedentes nos jogadores britânicos, pois conhecíamos a história da família e as escolas frequentadas. Esse tipo de questões, bem como o carácter de um jogador, tornaram-se mais complicados de avaliar quando começámos a recrutar na América do Sul e na Europa de Leste. Até cerca de meados da década de 90, os jovens tinham noção da sua posição na hierarquia do clube. Eram responsáveis por eliminar a lama das chuteiras, limpar o balneário e tratar das “bolas e coletes” – recolher as bolas e os coletes que os jogadores haviam deixado espalhados pelo campo de treino. Os jovens compreendiam que o balneário da equipa principal lhes estava vedado. É possível que esse tipo de rituais os fizesse ansiar ainda mais pelo sucesso. Na minha última década como treinador, comecei a identificar as características que até então encontrara nos jogadores britânicos em jovens que haviam crescido no estrangeiro. Cristiano Ronaldo soube, sem dúvida, o que eram dificuldades, pois cresceu numa aldeia da Madeira. A família tinha muito pouco dinheiro, e foi criado pela mãe. Tim Howard, que jogou 77 vezes à baliza pelo United, foi criado em Nova Jérsia pela mãe solteira, que emigrara da Hungria para os Estados Unidos e que teve de aceitar dois empregos simultâneos depois de o pai de Tim se ter ido embora. Os gémeos Da Silva foram outro caso. Cresceram em Petrópolis, no Brasil, e tinham uma ética de trabalho magnífica. Nos dias mais frios de Manchester, Rafael comparecia aos treinos de manga curta e calções, enquanto todos os outros, incluindo a minha pessoa, estavam com várias camadas de roupa. No final da época, disse-lhe para descansarem bastante no verão e vim a descobrir que o pai deles lhes construíra um campo de dimensões profissionais para que passassem os dias a jogar com os amigos. A maioria dos jogadores estrangeiros também vê o futebol como o passaporte para o futuro. Os melhores têm uma diligência profundamente arraigada e percebem intuitivamente que, quando se consegue fundir o talento e o esforço, o céu é o limite. Sou do tempo em que era o meu pai que fazia os meus brinquedos de Natal, e imagino que alguns dos jogadores estrangeiros se reveem nisso. Muitos dos jogadores que contratámos vinham de antecedentes tão complicados, por vezes até mais, como os dos colegas de equipa britânicos. Adnan Januzaj, que contratámos aos 16 anos, em março de 2011, nasceu na Bélgica, depois de os pais terem fugido da brutalidade da ex-Jugoslávia. O equatoriano Antonio Valencia veio de uma família muito pobre, tal como o brasileiro Anderson. Andrei Kanchelskis, que jogou connosco na década de 90, cresceu na União Soviética. Carlos Tévez veio do desolado bairro de drogas “Forte Apache”, em Buenos Aires. Quinton Fortune foi criado numa municipalidade na África do Sul do apartheid. É uma pena, mas há exemplos de jogadores com antecedentes semelhantes aos de Giggs ou de Cristiano Ronaldo que, apesar do seu enorme talento natural, carecem da força emocional ou mental para ultrapassarem o sofrimento da infância e os seus demónios interiores. O caso de Ravel Morrison será, porventura, o mais triste. Era dono de um talento natural tão grande como muitos dos jovens que contratámos, mas estava sempre a meter-se em apuros. Custou-me muito vendê-lo ao West Ham em 2012, pois poderia ter vindo a ser um jogador fantástico. Todavia, com o passar dos anos, os problemas no relvado continuaram a sua escalada, e não nos restou outra hipótese senão cortar a ligação. Não há grandes indícios de que Ravel tenha amadurecido, e o contrato foi cancelado pelo West Ham em 2015. Acredito piamente que se deve canalizar a fome e o esforço encontrados nas pessoas com antecedentes mais complicados. Sempre que o United sofria um revés e a equipa precisava de um incentivo, acabava as minhas conversas antes de uma partida a recordar aos jogadores que todos eles vinham de antecedentes operários, em que as pessoas não tinham grande coisa. Dizia-lhes que quase de certeza que os avós, ou alguém da família, já haviam pertencido à classe operária e trabalhado muito todos os dias para garantir a sobrevivência, ao passo que eles só tinham de se esforçar por 90 minutos e recebiam muito dinheiro. Em retrospetiva, talvez a expressão “classe operária” não significasse grande coisa para alguns deles, sobretudo os estrangeiros, mas acho que todos conheciam alguém que houvesse passado por alturas difíceis. Todos nos sentíamos párias de alguma forma, e as pessoas que se sentem assim fazem uma de duas coisas: ou se sentem rejeitadas, carregam rancor no coração e queixam-se de que a vida não é justa ou então usam essa sensação de isolamento e trabalham como mouros. Sempre disse aos jogadores que “assim que deixamos de nos esforçar mais do que a outra equipa, deixamos de ser o Manchester United”. ENTUSIASMO Passei anos a tentar perceber por que motivo algumas pessoas têm mais entusiasmo do que outras. Não sei se porventura estarei mais perto de uma resposta do que há 30 anos, mas já aprendi a canalizar essa energia e, tal como disse, sei que, se tiver de escolher entre entusiasmo e talento, opto por aquele. Para mim, o entusiasmo significa uma combinação de vontade e de trabalho, de força emocional, um enorme poder de concentração e a recusa em admitir a derrota. Pelo United já passaram muitos jogadores que servem de exemplo ao entusiasmo necessário para se ser bem-sucedido. Em primeiro plano tivemos jogadores como Bryan Robson, Roy Keane, Steve Bruce, Mark Hughes, Brian McClair e Patrice Evra. O entusiasmo de um jogador por ter um efeito poderoso sobre uma equipa – o ímpeto vencedor é como uma poção mágica que se espalha entre jogadores. O risco passava ao lado de Bryan Robson. Vinha de Chester-le-Street, County Durham, uma zona mineira no Norte de Inglaterra, e atirava-se de cabeça a situações que outros procurariam evitar. O resultado era passar muito tempo na lista de lesionados, mas isso também fazia dele um líder valioso. Apesar de ter deslocado o ombro várias vezes durante a carreira, tinha por hábito realizar mil flexões por dia. Costumava mostrar aos jogadores uma fotografia de Robson a defender um canto. Ficava com os olhos quase vidrados; isolava-se do resto do mundo, e a única coisa em que se concentrava era em garantir que o canto era bem defendido. O entusiasmo imparável de Roy Keane era inspirador. Steve Bruce jogou 414 partidas no centro da nossa defesa, era destemido e um grande organizador de jogo, mas não tinha grande velocidade. Contudo, e à semelhança de Tony Adams, compensava os defeitos com uma vontade arraigada de vencer que se tornava contagiosa. David Beckham tinha uma grande sede de vitória, tal como Nicky Butt, que jogou 387 partidas pelo United e era um rapaz local. Os dois irmãos Neville, chegados de Bury (nos arredores de Manchester), e Denis Irwin, que, à semelhança de Roy Keane, vinha de Cork, possuíam um entusiasmo característico. Partilhavam traços semelhantes: dedicavam-se de corpo e alma ao clube; eram jogadores de confiança, e podíamos contar com eles em 80 por cento dos jogos; e todos contagiavam o resto da equipa com a sua força de vontade. Nenhum destes jogadores gostava do sabor amargo da derrota. Felizmente, com o passar dos anos, fomos tendo mais jogadores assim na equipa principal. Ao destacar estes jogadores, não pretendo minimizar os outros que treinei. Refiro-os porque não possuíam o talento inato de jogadores como Hughes, Cole, Cantona, Verón, Scholes, Giggs e Ronaldo. Uso-os como exemplo do entusiasmo porque, graças à aplicação da força de vontade pura, de uma coragem absoluta e de determinação, conseguiram ultrapassar quaisquer defeitos que tivessem. Por vezes o entusiasmo descontrolava-se, e eu era obrigado a intervir. Certa vez, num jogo contra o Middlesbrough, um grupo de jogadores foi atrás do árbitro como uma matilha de cães, o que me fez perder a cabeça com eles. No entanto, também precisava de ter cuidado para não os desmotivar inadvertidamente. Se formos longe demais, drenamos o entusiasmo do jogador. Acreditem que é mais fácil conseguir isso do que entusiasmar alguém que não o sinta naturalmente. Regra geral, não conseguimos dar ímpeto a um jogador que não o tenha adquirido antes da adolescência. De vez em quando surge um exemplo que nos dá esperança. Lembro-me do caso de Ole Gunnar Solskjaer. Ole cresceu numa pequena aldeia piscatória norueguesa e, quando em 1996 chegou ao Old Trafford, com 23 anos de idade, parecia um menino de coro de 14 anos; todo ele denotava uma certa gentileza. O United ofereceu-lhe a primeira amostra do sabor da vitória. Ole foi-lhe tomando o gosto e, consequentemente, tornou-se cada vez mais agressivo enquanto jogador e desenvolveu uma grande convicção. CONVICÇÃO A maior parte das pessoas não tem grande convicção. A sua confiança é facilmente abalada, deixam-se levar e podem ficar atormentadas com dúvidas. Não consigo imaginar como alguém privado de convicções firmes e de uma crença profunda possa ser um líder eficaz. Enquanto jogador, a minha confiança ficou abalada quando o Rangers se quis desfazer de mim e estava disposto a entregar-me como parte do negócio em troca de outro jogador. Contudo, estava decidido a não deixar que eles me derrubassem, pelo que antes dos treinos costumava ir jogar nove buracos de golfe para clarificar as ideias, após o que ficava pronto para enfrentar o dia. Decidi-me a não ceder, e, quando em 1969 me venderam ao Falkirk, foi segundo as minhas condições. Quando me deixava abalar, ou pelo menos quando não era sincero para comigo, por vezes precisava que alguém me arrancasse ao torpor. Certa vez, durante os meus primeiros tempos no United, em 1991, Jock Wallace, antigo treinador dos Rangers, telefonou-me e disse que ia ver-nos jogar com o Southampton. Jock sofria de Parkinson, mas estava lúcido como sempre e, depois do jogo, fomos jantar e disse-me: “Aquela não era uma equipa à Alex Fergunson. Quando voltares a ter uma equipa à Alex Fergunson, as coisas correm bem”. Foi um conselho fantástico, pois não estava a ser fiel às minhas crenças. Sabia que alguns dos jogadores não eram suficientemente bons, mas, em vez de os vender, tentara transformá-los em algo que eram incapazes de ser. John Lyall, treinador do West Ham, disse-me algo semelhante: “Tens de ver o Alex Fergunson na tua equipa”. Tanto Jock como John diziam-me implicitamente que tinha de me manter fiel às minhas crenças e convicções. Hoje em dia digo algo parecido aos treinadores que pretendo encorajar. Não me recordo de grandes períodos de dúvidas pessoais, sobretudo depois de ter saído do Aberdeen. Trabalhara muito e tivera um percurso de aprendizagem que durou mais de 29 anos desde que começara a jogar até sair da Escócia, e alcançara um sucesso considerável no Aberdeen. Estas experiências ajudaram a firmar as minhas crenças e a fortalecer a confiança que tinha na minha convicção. Quando me ofereceram o cargo no United, senti-me muito orgulhoso e confiante nas minhas capacidades e julgamento. Todavia, quando cheguei ao Old Trafford e vi aquilo com que teria de lidar no que diz respeito à cultura da bebida, fiquei apreensivo. Pensei: “No que me vim meter?”. Houve uma altura em 1989 e no início de 1990 em que as coisas não correram bem ao United. Só conseguiríamos vencer seis dos primeiros 24 jogos da League, e, entre finais, de novembro de 1989 e início de fevereiro de 1990, a situação foi bastante sombria. Não vencemos nenhum dos 11 jogos da League. Com efeito, depois de termos vencido o Nottingham Forest, a 12 de novembro de 1989, só ganhámos outro jogo em casa quando derrotámos o Luton Town, a 3 de março de 1990. Os adeptos estavam a ficar impacientes, e os media a afiar as facas. Comparada com os êxitos consistentes obtidos no Aberdeen, a situação em que me encontrava foi um choque. O meu filho Jason, na altura um adolescente, lembra-se de estar lavado em lágrimas na cozinha, durante este período de fome, e de perguntar se podíamos regressar a Aberdeen. Ele diz-me que lhe respondi: “Não. Vamos conseguir. As coisas vão resultar”. Uma coisa é ter confiança nas nossas capacidades; outra completamente diferente é tentar instilar confiança nos outros. Todos os jogadores estão sempre a competir pelo seu lugar no clube. Se saíram da academia, passaram pelas reservas e chegaram à equipa principal, havia sempre a possibilidade de aparecer alguém vindo das camadas mais jovens, ou do mercado de transferências, que fosse melhor. No final de cada época havia sempre jogadores da equipa que iam de férias sem saberem se o seu lugar estaria assegurado no jogo inicial da League, em agosto. Os jovens costumam sentir-se intimidados pelos veteranos, em parte por estarem a jogar ao lado dos ídolos de juventude, ao passo que os jogadores mais velhos estão sempre angustiados com o fantasma da idade e das lesões. Mesmo que uma lesão não acabe bruscamente com uma carreira, ou, pior ainda, com a promessa de uma carreira, tal como aconteceu com o joven Bem Thornley em 1994, isso corrói a confiança e o espírito do jogador. Muitos jogadores, sobretudo os mais novos, contam com o corpo como um aliado garantido. Contudo, no caso de uma lesão, entram de imediato numa terra de ninguém, em que deixam de acompanhar a equipa, passam pelo processo de reabilitação sozinhos e veem-se a braços com a incerteza de virem a recuperar ou de o clube poder encontrar quem os substitua. Alguns chegam mesmo a sentir-se atormentados por serem pagos quando, na sua opinião, não estão a contribuir com nada. Lembro-me de dois exemplos: quando Fernando Redondo foi para o AC Milão saído do Real Madrid, sofreu uma lesão profunda no joelho durante uma das primeiras sessões de treino e recusou-se a ser pago até voltar a jogar. Passaram-se dois anos e meio até que fez a sua estreia no clube e não recebeu um tostão durante esse período. Quando Martin Buchan deixou o Manchester United em 1983, após 11 anos de serviço, foi para o Oldham Athletic e recebeu uma soma avultada à cabeça ao assinar o contrato. Logo na segunda época, Buchan percebeu que já não tinha a capacidade necessária para continuar no futebol profissional, pelo que foi bater à porta do treinador, afastou-se dos relvados e devolveu o recebido. Dois gestos de classe por parte de homens honrados. Qualquer jogador pode ficar com a confiança abalada durante um jogo. Podem estar em dia não, não querem que a bola venha na sua direção e, acreditem ou não, podem até querer ser substituídos. Já percebi que são os avançados e os guarda-redes que sentem mais dúvidas, e, quando ficam com a confiança abalada, sofrem uma transformação total. Quando os avançados não marcam, ficam convencidos de que nunca mais voltam a fazer um golo, e, quando marcam, nem imaginam que alguma vez possam voltar a falhar uma oportunidade. Todos os meus avançados eram assim, incluindo Mark Hughes, Eric Cantona e Ruud van Nistelrooy. Mark Hughes, que nos últimos anos tem trabalhado como treinador, jogou pelo United entre 1983 e 1986 e entre 1988 e 1995; era duro como aço e um homem de grande determinação. Mark nascera para ser um jogador excelente, e podíamos sempre contar com ele nos jogos mais importantes, mas ficava profundamente afetado quando não marcava. A identidade de Van Nistelrooy enquanto homem estava ligada aos golos que marcava. Quando passava um jogo sem marcar, mesmo que ganhássemos, o humor tornava-se sombrio. Tinha uma atitude calvinista e sentia que não merecia ser pago quando não marcava. De todos os avançados que treinei, não há dúvida de que ele era o mais obstinado. A sua existência girava em torno dos golos marcados. Depois de vencermos o Everton e de ganharmos a League de 2003, Ruud foi a correr para o balneário para saber se fora ele ou Thierry Henry a vencer a Bota de Ouro, o prémio concedido ao jogador que marcou mais golos durante a época. Descobriu que nesse ano fora ele o vencedor, pelo que poderia apreciar as férias. Quanto aos guarda-redes, Tim Howard tem tido uma carreira excelente no Everton desde que saiu do United, em 2006. Todavia, embora tenha tido um bom início durante a primeira época no Old Trafford, depois de o trazermos da América, a sua confiança parece nunca mais ter sido a mesma desde que cometeu um erro em 2004 contra o FC Porto que nos eliminou da Liga dos Campeões desse ano. Isso abalou-o profundamente, e, embora tivesse regressado à boa forma, não voltou a parecer inexpugnável. Tenho pena dos guarda-redes, pois assim que deixam entrar um golo passam a ser observados por toda a gente no estádio. É fácil esquecer a finta mal calculada, os três maus passes ou o atraso errado que levaram ao golo. Quando David de Gea se juntou a nós, em 2011, teve a tarefa nada invejável de ocupar o lugar do fantástico holandês Edwin van der Saar, que defendeu as nossas redes durante seis anos. David tinha apenas 20 anos de idade e, embora fosse alto, ainda não desenvolvera a força muscular necessária para lidar com alguns dos mais fortes avançados da Premier League. Os primeiros meses foram irregulares, e tinha a imprensa e os adeptos em cima dele. Depois de um certo jogo, percebi que estava tão em baixo que, em vez de falar diretamente com ele, decidi tecer os meus comentários perante toda a equipa. Disse-lhes que David era o exemplo perfeito do carácter do United e que fora para Inglaterra sem falar uma palavra de inglês, que nem sequer tinha a carta de condução e que todas as semanas era massacrado por avançados que recebiam ordens para lhe tornar a vida um inferno. Quando acabei, percebi que o meu discurso o animara. Hoje em dia, é um dos melhores do mundo, graças ao trabalho de Eric Steele, treinador de guarda-redes, entre outros. A outra altura em que o nível de confiança individual se revela é durante os pontapés de grande penalidade durante uma final com morte súbita. Alguns jogadores, como Patrice Evra, marcavam penáltis fantásticos nos treinos, mas abominavam a perspetiva de serem chamados a fazer o mesmo durante um jogo. Com Paul Ince acontecia a mesma coisa, e Wes Brown, o nosso magnífico defesa de longa data, preferia jogar descalço a marcar um penálti. Acho que Wes rezava para que o jogo ficasse decidido antes de chegar a vez dele. Depois temos os jogadores que transbordam confiança. Na rara ocasião em que Eric Cantona falhava um penálti, a expressão no seu rosto parecia dizer ao mundo “como é que isto aconteceu?”. Acho que para ele não era concebível poder falhar um pontapé da marca de grande penalidade. Denis Irwin, Steve Bruce, Brian McClair, Ruud van Nistelrooy, Robin van Persie, Wayne Rooney: todos adoravam marcar penáltis. Rooney parecia exceder-se quando sob pressão. Em maio de 2011, estávamos a perder com os Blackburn Rovers por 1–0, precisávamos de um ponto para vencer a League, e, a 17 minutos do fim do tempo regulamentar, foi marcada uma grande penalidade a nosso favor. O pontapé de Rooney pareceu um canhão a disparar para o canto superior. Imagino que deve ajudar o facto de Wayne já ter decidido onde vai colocar a bola se tiver de marcar uma grande penalidade, mesmo antes de o jogo começar. De vez em quando, se pressinto que nos estamos a dirigir para um final de morte súbita, troco jogadores nos últimos minutos do tempo regulamentar. Fi-lo na final da Liga dos Campeões de 2008, quando mandei o médio brasileiro Anderson marcar uma grande penalidade. Na altura ele só tinha 20 anos de idade, mas tinha toda a confiança do mundo e marcou o nosso sexto penálti, ajudando-nos a derrotar o Chelsea e a conquistar o nosso terceiro título na competição. Por vezes, a ocasião consegue deixar assoberbado até o mais experiente dos jogadores. Será possível imaginar a tensão associada ao que porventura terá sido a mais importante partida da carreira de um jogador. Não é realista pensar que todos são capazes de ignorar a pressão da imprensa, bloquear a atmosfera que se sente no interior do estádio e tratar uma final – sobretudo uma final da Liga dos Campeões – como apenas mais um jogo contra 11 mortais. A vida, pura e simplesmente, não funciona assim. Quando jogámos contra o Barcelona em Roterdão, na final da Taça dos Vencedores das Taças de 1991, Paul Ince, na altura com 23 anos de idade, estava uma pilha de nervos. Não ajudou que o início da partida houvesse sido atrasado para permitir que os adeptos acabassem de entrar no estádio. Paul fez uma primeira parte irregular, com Bryan Robson sempre em cima dele. Ao intervalo, disse-lhe: “Incey, concentra-te no jogo. Esquece tudo o que se passou antes do jogo. Não vai acontecer nada de mal. Descontrai-te e aprecia a partida”. Na segunda parte esteve muito melhor e foi brilhante a proteger a nossa defesa com Robson. Tivemos igualmente situações peculiares, em que um jogador dificultava voluntariamente a sua própria vida e aumentava os níveis de ansiedade. Isso aconteceu em 1995, quando fomos afastados da Taça UEFA no Old Trafford pelo Rotor Volgogrado. Pusera John O’Kane, um jogador dotado, mas que jogara meia dúzia de vezes na equipa principal, a jogar como defesa-direito. Dez minutos antes do início da partida, depois de a composição das equipas ter sido submetida, ele disse-me que queria jogar a defesa-esquerdo. Era óbvio que se sentia abalado com a perspetiva do jogo, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Era uma má escolha, pois assim ficava à sua frente com um lateral do Volgogrado que até voava. Pus Phil Neville como defesa-direito, O’Kane como defesa-esquerdo e retirei-o antes da primeira meia hora de jogo, já ele estava de rastos. De vez em quando há qualquer coisa que nos escapa ao controlo e abala a confiança de todo o clube. Nesses momentos é vital incentivar a confiança coletiva. Quando o Manchester City começou a desembolsar as maiores somas de sempre na Grã-Bretanha, foi natural que todos os elementos do United lessem os jornais com um misto de choque e de respeito. Essa sensação foi exacerbada quando, em 2012, demos a vitória na League ao Manchester City por diferença de golos, depois de só termos conseguido dez pontos em 18 possíveis nos últimos seis jogos da época. Sei que as pessoas vão interpretar mal as minhas palavras ou considerá-las dor de cotovelo, mas não foi o City que venceu esse campeonato; fomos nós que o perdemos. No fim desse verão, usei o título do City para fortificar a confiança de todos. Quando nos reencontrámos, na época seguinte, fui repetindo que o United esperava que vencêssemos todos os jogos, sem exceção. Não importava se o adversário era o atual campeão da Premier League, o vencedor da Liga dos Campeões ou uma equipa da quarta divisão distrital que nos calhasse em sorte na Taça de Inglaterra. Consegui reforçar a ideologia de que não havia maior clube do que o United – quer o dono controlasse todo o petróleo no golfo Pérsico ou todas as minas de carvão da Rússia. Observador Editado 11 Junho 2016 por Sumudica by Night Compartilhar este post Link para o post
Che Publicado 11 Junho 2016 É o melhor treinador de sempre. Conseguir passar a mensagem e não saturar quem o rodeia durante 25 anos é algo fantástico e inatingível. Especialmente quando se é um crónico vencedor. Nas suas pisadas e num estilo mais libertário estão o Ancelotti e o Rui Vitória. Compartilhar este post Link para o post
P. Chagas Freitas Publicado 11 Junho 2016 fergunson? :lol: e está assim na notícia toda, incrível Compartilhar este post Link para o post
John Bonifácio Publicado 11 Junho 2016 É o filho do Fergus, porra!! Compartilhar este post Link para o post
malaquias Publicado 11 Junho 2016 Vindo de quem vem, bom replace :mrgreen: Compartilhar este post Link para o post
Enzo Dios Perez Publicado 11 Junho 2016 Custa assim tanto escrever Fergusson? :roll: Compartilhar este post Link para o post
Puto Perdiz Publicado 11 Junho 2016 não sabia que o Cantona tinha sido jogador do Shefifeld wednesday Compartilhar este post Link para o post
Lip McBoatface Publicado 11 Junho 2016 Sumudica, um pouco doentio andares a mudar o nome dele. Já agradeceste ao Ctrl+F? Btw, "À fantástica perseverança destes homens devemos juntar a de alguns jogadores em campo. Três pelos quais desenvolvi uma grande admiração foram Tony Adams, do Arsenal, Gianfranco Zola, quando jogou pelo Chelsea, e Jamie Carragher, do Liverpool." "Para mim, Zola foi um exemplo fantástico de trabalho. Sempre nos deu problemas, mas nunca desistiu. Embora seja um homem baixo, era mais do que capaz de ir à luta com defesas dez ou vinte centímetros mais altos e bastante mais fortes. Era um jogador astucioso, profundamente criativo e incansável. A abordagem que tinha em relação ao jogo equiparava-se à minha. Sabes tanto :heart: Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 11 Junho 2016 depois de ver o que aconteceu com o Mourinho, dou um valor do crl ao Ferguson, que máquina :prayer: Compartilhar este post Link para o post
Simeone Publicado 11 Junho 2016 Melhor de sempre. Espero que dê uns conselhos ao Mourinho para ver se este volta a ser o que já foi. Compartilhar este post Link para o post
noikeee Publicado 11 Junho 2016 O meu distúrbio obsessivo-compulsivo por diagnosticar impede-me de ler o artigo sem desmanchar o portátil à porrada, até arranjares o nome dele. Compartilhar este post Link para o post
ZeroZeroPeras Publicado 11 Junho 2016 Não foi só o nome dele que ele alterou :lol: Prefiro ler no Observador directamente Compartilhar este post Link para o post
noikeee Publicado 11 Junho 2016 Não foi só o nome dele que ele alterou :lol: Prefiro ler no Observador directamente Se eu não li como é que queres que eu saiba :mrgreen: Compartilhar este post Link para o post
ZeroZeroPeras Publicado 11 Junho 2016 Basta olhar para a legenda da imagem do Cantona :lol: Compartilhar este post Link para o post
Sumudica by Night Publicado 11 Junho 2016 Para os que se queixaram. Compartilhar este post Link para o post
SAS_Robben Publicado 11 Junho 2016 (editado) Sumudica, porque motivo "dia" na penúltima frase está com letra minuscula e na ultima maiúscula? Queres nos comunicar algo de ainda mais relevante à nossa existência? Editado 11 Junho 2016 por SAS_Robben Compartilhar este post Link para o post
Sumudica by Night Publicado 11 Junho 2016 Porque o Dia tem que terminar sempre em grande. Começa fraquinho, mas termina super topzão. Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 12 Junho 2016 Li e gostei apesar de não me parecer bem escrito mas pode ser da tradução. Concordo com a disciplina mas não concordo totalmente com a visão dele do "jogador filho de operário" que por ter tido menos condições de vida, joga com mais empenho. O que acontece é que um Neymar teve mais horas de futebol de rua num mês que eu na minha vida toda se calhar. E isto era mais evidente antigamente. Mas concordo que um pai com € vai querer que o filho estude em vez de jogar futebol. E isso vai ser quase sempre assim mas não creio que tenha influência máxima na qualidade e na entrega. Compartilhar este post Link para o post