Ir para conteúdo
Entre para seguir isso  
Black Hawk

[FM Mobile 2022] Um oásis no deserto da Margem Sul

Publicações recomendadas

Citação de Black Hawk, há 13 horas:

 

@RoMbA já não apareces há uns tempos, mas és gajo para achar piada a uma certa parte deste último capítulo.

Tens toda a razão amigo. Tenho andado ausente. O bebé anda mais desperto e começa a ficar farto de estar no marsúpio. 

Ver se logo à noite meto a leitura em dia. Por acaso tenho saudades de ler as tuas coisas.

Ainda por cima fiquei pior que estragado pois subi à segunda liga com o Beira e fiquei sem calendário na época 24/25 😞

Já comecei a brincar no Mobile com o Benfica mas tenho de me habituar ao modo de jogo que é "totalmente" diferente do PC.

Editado por RoMbA

Compartilhar este post


Link para o post

Eu já só acompanho o teu save porque o Sporting é campeão! 💚 Aliás, temos que falar sobre isso, porque penso que seja importante adiar certos objetivos só para ver se há penta!

Final de campeonato atribulado para as duas equipas (Amora e Vitória) e sinceramente, jogar contra uma equipa do Conceição e ter que vencer não é fácil. Ainda para mais quando vemos jogados como Dalot, Otávio, El Shaarawy...A entrada com "duas ofertas" do adversário foram uma benção dos deuses para que o Amora chegasse ao 4º lugar! Independentemente disso, o Amora foi bastante competente e agarrou os 3 pontos com enorme justiça. Palavrinha para o Watts que mostrou que as críticas feitas pela imprensa eram injustas.

Que venha essa final!

Compartilhar este post


Link para o post

Excelentíssimo resultado na cidade berço na jornada que encerrou o campeonato. Venceste de forma extremamente fácil, pelo menos muito mais do que aquilo que qualquer um de nós esperaria. Implacáveis 3x0 e o Amora a mostrar-se como uma nova força do futebol português. O 4º lugar é um excelentíssimo tónico e a Europa a chegar à Medideira, fará o clube crescer ainda mais, sobretudo do ponto de vista financeiro. O crescimento desportivo virá e estará inerente 😉 

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de F. Mota, Em 05/07/2022 at 09:25:

Grande! 4º lugar e Liga Europa diretamente para os grupos, incrível! Falta a cereja no topo do bolo, venha de lá a festa do Jamor 😎 

 

O Benfica não anda a curtir muito de títulos, há quanto tempo é que está a seco? Dá para ver histórico de vencedores? Não só do campeonato, mas das outras competições internas.

 

Sobre as referências, confesso que não sei a que te referes 😅 ainda fui reler o post, mas não percebi ahah, a única foi o Leléco que era um ex-jogador, right? 

O Benfica ainda não foi campeão neste save. A última vez foi em 2019 (com o Bruno Lage, ano em que tinham o João Félix), depois disso foram campeões o Porto e Sporting (ainda na realidade, 2020 e 2021). Já no save foram Porto (2022 e 2023) e Sporting (2024, 2025 e 2026).

Todos estes títulos do Sporting foram com o Ronald Koeman, que sucedeu ao Ruben Amorim a meio da primeira época (e ainda não faço ideia do que é feito do Ruben Amorim, nunca mais o encontrei - no Mobile não dá para procurar por treinadores, apenas por jogadores). O campeão pelo Porto foi o Niko Kovac.

Agora a relembrar estas contas é que me dou conta que o Sporting tem 22 títulos (ou 26 pelas contas do Sporting), não 23/27 como referi no Capítulo. Vou editar para corrigir.

Respondendo à tua questão, o Benfica não é campeão há sete temporadas.

Citação de Banks29, Em 05/07/2022 at 10:45:

Excelente resultado e conseguiste mesmo o 4º lugar. 

Fortes 💪

Citação de RoMbA, Em 05/07/2022 at 12:08:

Tens toda a razão amigo. Tenho andado ausente. O bebé anda mais desperto e começa a ficar farto de estar no marsúpio. 

Ver se logo à noite meto a leitura em dia. Por acaso tenho saudades de ler as tuas coisas.

Ainda por cima fiquei pior que estragado pois subi à segunda liga com o Beira e fiquei sem calendário na época 24/25 😞

Já comecei a brincar no Mobile com o Benfica mas tenho de me habituar ao modo de jogo que é "totalmente" diferente do PC.

Oh, na boa. Há coisas mais importantes. Espero que esteja tudo bem com o pimpolho.

Sobre o Mobile, pergunta sempre que precisares, a irmandade do Mobile está sempre disponível para ajudar (right @Lavrador e @Kluivert?).

Aquilo que referi não é grande spoiler, é só uma curiosidade e até te deixo aqui o print.

of0O6zM.jpeg

Citação de Kluivert, Em 05/07/2022 at 15:03:

Eu já só acompanho o teu save porque o Sporting é campeão! 💚 Aliás, temos que falar sobre isso, porque penso que seja importante adiar certos objetivos só para ver se há penta!

Final de campeonato atribulado para as duas equipas (Amora e Vitória) e sinceramente, jogar contra uma equipa do Conceição e ter que vencer não é fácil. Ainda para mais quando vemos jogados como Dalot, Otávio, El Shaarawy...A entrada com "duas ofertas" do adversário foram uma benção dos deuses para que o Amora chegasse ao 4º lugar! Independentemente disso, o Amora foi bastante competente e agarrou os 3 pontos com enorme justiça. Palavrinha para o Watts que mostrou que as críticas feitas pela imprensa eram injustas.

Que venha essa final!

Opa, se chegarmos a um ponto em que o Sporting precise de mim, não sei... será que vale sacar uma Paulo Sergisse e ir com os meninos todos? 😁

Por acaso é uma cena meio estranha. No Mobile, como sabes, todas as equipas acabam por sacar jogadores de topo, eventualmente. O Paços de Ferreira aqui está com o Icardi, o Tondela com o Rafinha, o Vitória SC com Otávio e El Sharawwy (e tiveram a seu tempo o Origi, nem sei que é feito dele), o Penafiel que vou defrontar agora tem Plattenhardt e Bruma, só para dar exemplos. O Porto tem o Kevin Volland e o Yussuf Poulsen, o Benfica tem o Marcelo Gallardo, o Aké e o Martial, entre outros.

Já o Sporting, os melhores continuam a ser o Tiago Tomás, o Matheus Nunes, o Jovane Cabral... ou seja, o núcleo duro é quase a equipa de origem com alguns retoques (Le Normand, Egribayat, Jonny, jogadores assim), mas de alguma forma estão fortíssimos. Teoricamente deveriam estar abaixo de Benfica e Porto, mas continuam a encher o bandulho de títulos e não tenho explicação para isto.

Enquanto isso, ando eu com o Isaac Monteiro, o Tiago Louro, o Papou Mendes, o Martim Watts e o Leonardo Brandão LOL. Que, já agora, são todos jogadores reais, embora na realidade ainda andem nos escalões de formação em vários clubes diferentes.

Citação de Martini Branco, Em 05/07/2022 at 17:27:

Excelentíssimo resultado na cidade berço na jornada que encerrou o campeonato. Venceste de forma extremamente fácil, pelo menos muito mais do que aquilo que qualquer um de nós esperaria. Implacáveis 3x0 e o Amora a mostrar-se como uma nova força do futebol português. O 4º lugar é um excelentíssimo tónico e a Europa a chegar à Medideira, fará o clube crescer ainda mais, sobretudo do ponto de vista financeiro. O crescimento desportivo virá e estará inerente 😉 

Carai, "cidade berço"! Andei eu com vimaranenses e castelos e coisas assim, já sem mais termos para ir variando, e esqueci-me completamente do mais usado de todos...!

Falaste do ponto de vista financeiro e nem sei o que hei de fazer quanto a isso. As competições europeias vão dar receitas, a venda de jogadores também (o Isaac sozinho vai dar 22M, é possível que não seja o único a sair no verão), eu não contrato jogadores... Construo uma caixa-forte ao estilo Patinhas? 😂

PS: sobre as referências, ninguém apanhou? Nem cruzando as citações com o título do capítulo? Aw...

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de Black Hawk, há 10 horas:

 

Sobre o Mobile, pergunta sempre que precisares, a irmandade do Mobile está sempre disponível para ajudar (right @Lavrador e @Kluivert?).

Claro que sim! Tenho de arranjar um tempinho para comentar as últimas actualizações, acabo por usar o teu save e o do Kluivert como embalo quando vor dormir e depois acabo por não dizer nada 😅

Ah! E tira um print do Joca antes de se reformar, estou muito curioso para ver os atributos dele!

Um outra curiosidade rápida, parece que o Estrela contratou na vida real o gk do Amora!

Editado por Lavrador

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de Lavrador, há 4 horas:

Claro que sim! Tenho de arranjar um tempinho para comentar as últimas actualizações, acabo por usar o teu save e o do Kluivert como embalo quando vor dormir e depois acabo por não dizer nada 😅

Ah! E tira um print do Joca antes de se reformar, estou muito curioso para ver os atributos dele!

Um outra curiosidade rápida, parece que o Estrela contratou na vida real o gk do Amora!

David Grilo? Máquina. Muito bom, ficam muito bem servidos.

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de Black Hawk, há 47 minutos:

David Grilo? Máquina. Muito bom, ficam muito bem servidos.

Guilherme Fernandes!

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de Lavrador, há 1 hora:

Guilherme Fernandes!

Sou-te sincero, nem me lembro de o ver jogar. No meu save fez meia época de altíssimo nível quando o David Grilo se lesionou e o Basileia veio logo buscá-lo.

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de Black Hawk, há 22 horas:

Oh, na boa. Há coisas mais importantes. Espero que esteja tudo bem com o pimpolho.

Sobre o Mobile, pergunta sempre que precisares, a irmandade do Mobile está sempre disponível para ajudar (right @Lavrador e @Kluivert?).

Aquilo que referi não é grande spoiler, é só uma curiosidade e até te deixo aqui o print.

of0O6zM.jpeg

Consegui ler tudo depois de várias interrupções 😄 está tudo fixe mas agora numa fase de fazer sestas só de meias horas e um gajo por muito que queira não consegue fazer quase nada.

Depois de ler, apetece-me tanto começar um save mas nem sei onde. O FM23 vou logo comprar pois aí já estamos no CdP 😄 se entretanto souberem de algum update que actualize as subidas/descidas avisem.

Agora sobre o teu save, muitos parabéns mesmo. Se não fossem aquelas derrotas, ainda ias à champions 🙂 o beira ganhou ao sporting mas depois deve ter perdido com uma da segunda divisão ahah grande final entre beira vs campomaiorense. Estive lá. Que p*ta de bebedeira 😄 

Uma pergunta estúpida, se eu fizer um save sem equipa, deixar andar e se o beira subir numa época para o CdP, consigo adicionar um treinador para treinar o beira?

Editado por RoMbA
  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de RoMbA, há 2 horas:

Consegui ler tudo depois de várias interrupções 😄 está tudo fixe mas agora numa fase de fazer sestas só de meias horas e um gajo por muito que queira não consegue fazer quase nada.

Depois de ler, apetece-me tanto começar um save mas nem sei onde. O FM23 vou logo comprar pois aí já estamos no CdP 😄 se entretanto souberem de algum update que actualize as subidas/descidas avisem.

Agora sobre o teu save, muitos parabéns mesmo. Se não fossem aquelas derrotas, ainda ias à champions 🙂 o beira ganhou ao sporting mas depois deve ter perdido com uma da segunda divisão ahah grande final entre beira vs campomaiorense. Estive lá. Que p*ta de bebedeira 😄 

Uma pergunta estúpida, se eu fizer um save sem equipa, deixar andar e se o beira subir numa época para o CdP, consigo adicionar um treinador para treinar o beira?

O Beira derrotou o Sporting e depois foi eliminado pelo Portimonense na ronda seguinte. Obrigou-os a ir a prolongamento. Se tivessem passado, teriam sido os meus adversários nos Oitavos, pois joguei precisamente contra os algarvios.

Era um miúdo na altura, mas lembro-me que nesse dia estava em viagem com os meus pais e passámos em Fátima. Encontrámos lá um monte de adeptos do Beira-Mar e a minha mãe disse logo que iam ganhar. Boas memórias.

Tenho quase a certeza que não dá para adicionar treinadores com o save a decorrer.

Compartilhar este post


Link para o post

oDSi6qf.jpg

Capítulo XLI - A festa do futebol

 

Um aroma convidativo espalhava-se pela atmosfera. Vários grupos de pessoas iam enchendo paulatinamente a Mata do Jamor, rodeando fogareiros cujas brasas torravam pedaços de carne e peixe. Alguns adeptos mais ousados levavam leitões ou pernis inteiros, assando-os e cortando fatias de carne. As cervejas retiradas de baldes cheios de água gélida, na qual boiavam pedras de gelo, eram acessório transversal a quase todos os comensais. Entre um gole de cerveja e uma dentada numa sandes, discutiam-se expectativas para o jogo desse final de tarde.

O habitual convívio na Mata do Jamor era um ritual que antecedia a final da Taça de Portugal propriamente dita - fazia parte da magia daquele dia. O velhinho Estádio Nacional do Jamor, cujas infraestrutura era antiga e claramente desadequada às exigências de futebol de alta competição no século XXI, era único ao proporcionar aquele ambiente festivo e de convívio. Era a festa do futebol em todo o seu esplendor.

Adeptos do Amora e do Penafiel misturaram-se e conviviam pacificamente, trocando bebidas e argumentando a favor das suas equipas. Aqui e além, alguns grupos de adeptos principiavam cânticos de apoio às suas equipas, aos quais rapidamente se juntavam mais vozes de outros grupos próximos. Os adeptos adversários retorquiam e cantavam também eles, gerando-se uma espécie de confronto amigável de desgarradas a favor de ambas as equipas.

A comida, a bebida, o convívio, a acolhedora Mata do Jamor e o futebol. Era um dia grande. Era dia de final da Taça de Portugal.

 

OzQWolA.jpeg

O Estádio Nacional do Jamor acolhia a final da Taça de Portugal, tendo a sobranceira Mata do Jamor recebido o habitual convívio pré-jogo

 

A final da Taça de Portugal disputava-se apenas no final da tarde de 24 de Maio de 2026, mas a festa já começara com vários dias de antecedência.

Após a vitória sobre o Vitória SC na última jornada da Primeira Liga [ver Capítulo XL - Assalto ao Castelo], os jogadores do Amora usufruíram de um merecido dia de folga, aproveitando para descomprimir com as suas famílias. No dia seguinte, uma segunda-feira, 18 de Maio de 2026, os jogadores rumaram à Medideira logo pela manhã. Fizeram um treino leve sob as instruções de Frodo Zarco, prepararam malas e bagagens e rumaram de autocarro até uma unidade hoteleira nos arredores de Lisboa, onde se concentrariam em estágio até à hora do jogo.

O horário de saída do autocarro da Medideira circulou como fogo em mato seco pelas gentes da cidade. No momento em que os jogadores entraram no autocarro e este saiu das garagens do estádio, milhares de pessoas enchiam as imediações do Complexo Municipal da Medideira. O autocarro foi circulando em marcha lenta, tentando furar pelo meio da massa de gente que se acotovelava e o faziam abanar na sua ânsia de demonstrar apoio à equipa. Tochas e fumos azuis envolviam o autocarro perante o olhar estupefacto dos jogadores, alguns filmando e partilhando o momento em directos nas redes sociais.

Os clubes motards da cidade formaram uma guarda de honra à saída daquele primeiro aglomerado de gente e encabeçaram o cortejo, guiando o autocarro pelas ruas da cidade. Eram dezenas as ruidosas motas que abriam caminho pelo meio do trânsito, os motards com cachecóis azuis a esvoaçar ao pescoço ou presos nos pulsos. Embora não tão numerosos como à saída da Medideira, grupos aguardavam nos passeios para acenar aos jogadores, e de janelas dos prédios envolventes viam-se pessoas a bater em tachos e panelas ou, até, hasteando pequenas bandeiras do clube.

A procissão dos motards acompanhou a equipa até à unidade hoteleira e despediu-se dos jogadores fazendo os seus motores rugir, provocando densas fumaradas negras que se espalhavam pela atmosfera.

A cidade de Amora estava com a equipa. Seria a primeira vez que o Amora Futebol Clube disputaria a Final da Taça de Portugal e não se pouparam esforços na hora de mostrar apoio. Aquela equipa tinha nas mãos o sonho de uma cidade. Jogavam em noventa minutos um momento histórico para toda a Margem Sul.

 

2Ve7Z6W.png

O Grupo Motard e Desportivo H2O era um dos habituais apoiantes do Amora Futebol Clube e foi novamente um dos clubes motards a marcar presença naquele dia, recebendo o agradecimento do clube

 

Na cidade de Amora, a final da Taça era o tema principal de conversa - e não se andará longe da verdade se for dito que era praticamente o único. O entusiasmo era tal que os onze mil bilhetes disponibilizados ao Amora para os seus sócios e adeptos (de um total de 32 mil, a lotação do Estádio do Jamor) desapareceram quase no momento em que foram colocados à venda.

Enquanto isso, a semana passou de forma algo tranquila no estágio do plantel. A unidade hoteleira de cinco estrelas que Bilbo Himura reservou ficava relativamente isolada do ambiente frenético da capital, isolando o plantel da excitação colectiva, e dispunha de instalações desportivas de excelência. Os jogadores mantiveram a concentração sem estímulos externos que os pudessem distrair do que estava em causa, treinando afincadamente na preparação para o jogo.

Frodo Zarco já era conhecido por ser bastante exigente com a entrega dos seus jogadores nos treinos, mas nessa semana excedeu-se. O treinador passou horas a ver vídeos de jogos do Penafiel com a sua equipa técnica. Inventou novos exercícios de treino específicos para mecanizar certas movimentações adaptadas ao estilo de jogo do seu adversário. Obrigou os jogadores a repeti-los até saberem de trás para a frente o que fazer a cada momento e como contrariar certos movimentos típicos do Penafiel. Não satisfeito, promoveu o visionamento em conjunto de lances de jogos dos penafidelenses, não se poupando a esforços para que os jogadores absorvessem toda a informação possível.

A atenção ao detalhe e o rigor catedrático tinham uma razão de ser. O Penafiel poderia ter terminado a Primeira Liga apenas na 16ª posição e nem tinham ainda a manutenção garantida - teriam de disputar um playoff contra o Feirense para apurar quem estaria no convívio dos grandes na próxima época -, mas eram uma equipa deveras complicada. Recorrendo a uma expressão corriqueira, eram uma equipa chatinha de defrontar, daquelas que quando engatam são muito difíceis de bater. Só nesta temporada, lograram roubar pontos a Porto, Benfica, Amora, Vitória SC e Braga, o que era bem representativo da dificuldade que colocavam a adversários teoricamente mais fortes.

A campanha na Taça de Portugal, de resto, dispensava mais explicações. Não tanto as eliminações de Oliveira de Frades, Académico de Viseu ou Pinhalnovense, tudo adversários de escalões inferiores, mas a vitória nos Oitavos-de-Final contra o Porto deixou o país boquiaberto e era um atestado de competência dos penafidelenses. O apuramento para a Final da Taça de Portugal foi obtido à custa da eliminação do Louletano nas Meias-Finais, o que em si próprio não parece grande feito dado tratar-se de um adversário modesto do Campeonato de Portugal (quarto escalão nacional), mas o caso já muda de figura se nos recordarmos que esse mesmo Louletano foi o responsável pelo afastamento do Benfica.

 

biUUEv7.png

Os omnipresentes Espírito Azul foram incansáveis no apoio à sua equipa naquela tarde

 

A recepção ao autocarro do Amora na tarde do jogo não fugiu muito ao que se passou alguns dias antes na Medideira. Os grupos motards aguardaram pelo autocarro na saída da unidade hoteleira e encabeçaram o cortejo rumo ao Estádio do Jamor. Os adeptos, já refastelados e bem bebidos, afluíram da Mata Nacional para o local previsto para a chegada do cortejo e receberam o autocarro com cânticos, bandeiras hasteadas e cachecóis brandidos, tochas, petardos e fumos azulados que se difundiam pela atmosfera.

As bancadas foram-se compondo à medida que a tarde avançava e a hora do início do jogo se aproximava. Cerca de três a quatro mil pessoas já ocupavam os seus lugares no topo sul, a bancada designada para os adeptos do Amora (atrás da baliza do lado direito na visão da principal câmara televisiva), quando os jogadores subiram ao relvado para os exercícios de aquecimento. Receberam-nos com aplausos entusiásticos e ensaiaram vários cânticos durante esse período, como se o jogo já estivesse a ser disputado.

Cenário semelhante, de resto, acontecia do outro lado do estádio com os adeptos do Penafiel. O jogo significava tanto para eles como para o Amora, e certamente alguém, algures, se dignará a descrever os mesmos acontecimentos sob a perspectiva dos adeptos nortenhos.

O Amora entraria em campo com o seu habitual onze de gala. Apenas Luiz Felipe e António Silva estariam ausentes: o primeiro substituído por Manuel Baldé, como era habitual em jogos das Taças, e o central dando o seu lugar ao italiano Roberto Longo devido a lesão [já mencionada no anterior Capítulo XL - Assalto ao Castelo].

Era uma equipa que já jogava de olhos fechados. Roberto Longo e Isaac Monteiro não eram estranhos a formar dupla no centro da defesa; Odailson e Tiago Louro combinavam já maquinalmente com Gabriel Capixaba e Joca, respectivamente; o trio de meio-campo reconhecia por instinto o posicionamento e as movimentações entre eles; e o trio de ataque jogava regularmente há mais de dois anos, desde que Leonardo Brandão "roubou" a titularidade ao matador renascido Flávio Silva.

Não foi por isso necessário dar grandes indicações ou palestras antes do jogo. Os jogadores conheciam-se e sabiam o que fazer. Prepararam exaustivamente aquela partida, Frodo Zarco assegurara-se que todos reconheciam a forma de jogar do Penafiel.

Nada mais havia a acrescentar em termos tácticos ou estratégicos: os dados estavam lançados.

Era hora de disputar o jogo mais importante da centenária história do Amora Futebol Clube.

 

zNVqkOV.jpeg

Os onze iniciais de ambas as equipas foram anunciados uma hora antes do início do jogo

 

Quando as equipas entraram no relvado, perfiladas lado a lado e atrás da equipa de arbitragem, o estádio irrompeu num alvoroço. Os adeptos de ambas as equipas, mais ou menos em pé de igualdade no que a números dizia respeito, entoavam cânticos de apoio. O Presidente da República levantou-se, respeitosamente, na tribuna presidencial, e com ele vários dignitários do Governo, da Federação Portuguesa de Futebol e de ambas as equipas. Bilbo Himura era um deles, bem parecido com o seu fato feito à medida e de óculos escuros.

Perto dele, alguns lugares mais abaixo, eram visíveis antigos jogadores do Amora, como David Grilo, Juary ou Rony Fernandes, que não quiseram deixar de marcar presença naquele momento histórico de uma equipa que lhes dizia muito. A acompanhá-los estava António Silva, o único indisponível do plantel amorense, parecendo bastante mais nervoso na bancada do que habitualmente estava no relvado.

Joca e Danilo Pereira, capitães das duas equipas, escolheram campo e bola enquanto os restantes jogadores iam cirandando pelo relvado, fazendo pequenos exercícios de aquecimento ou aplaudindo os adeptos. A bola do jogo foi entregue por um skate hoverboard, uma tecnologia inovadora recentemente disponibilizada ao grande público, numa acção publicitária da responsabilidade do principal patrocinador da Prova Rainha que fez Frodo Zarco suspirar - ele não achava piada nenhuma àquelas piroseiras que só serviam para atrasar o início da partida.

Aquele compasso de espera serviu para a primeira e única introspecção de Frodo Zarco em toda aquela semana. Tinha estado tão focado na análise ao adversário e na preparação da sua equipa que nem parara para pensar em si e no que aquele jogo significava.

Parecia ter sido ontem que se tinha tornado treinador do Amora. Fora uma imposição de Bilbo Himura para avançar com o Projecto Oásis [ver Capítulo XIX - O centésimo jogo]. Na verdade, quando apresentou o projecto ao seu amigo, Frodo Zarco não se imaginara como treinador. Era uma responsabilidade para a qual não tinha a certeza de ter competência, duvidando das suas capacidades para guiar, treinar e preparar uma equipa rumo ao sucesso.

Passados cinco anos, estava grato a Bilbo Himura por o ter obrigado a assumir essa responsabilidade. Descobriu uma paixão que nem imaginava ter e já nem se via a fazer qualquer outra coisa na vida. Cinco anos e 199 jogos depois, Frodo Zarco chegava ao jogo mais importante da sua carreira; uma carreira curta, mas que ele próprio entendia, modéstia à parte, que estava a ser bem sucedida.

É verdade. Passava despercebido face à importância que aquele jogo assumia para o Amora e toda a Margem Sul, mas também para Frodo Zarco seria um marco pessoal da maior relevância: a final da Taça de Portugal seria o seu jogo 200 enquanto treinador do Amora, uma efeméride que só poderia ser fruto do elaborado e intrincado guião elaborado pelos deuses do futebol.

 

7MJwX9k.jpeg

Frodo Zarco cumpriria no Jamor o jogo 200 da sua carreira de treinador [no print já está incluído o jogo da final da Taça, esqueci-me de tirar print antes do jogo]

 

Foi trazido de volta à realidade pelo burburinho nas bancadas. As equipas já estavam prontas para o início do jogo. Luís Godinho olhou para os seus auxiliares, apontou para o centro do terreno de jogo com exagerados gestos teatrais, apitou com convicção, Edi Semedo passou para Diogo Clemente e o jogo começava por fim.

Os primeiros minutos foram caóticos. Ambas as equipas entraram com toda a determinação e disputavam cada lance como se fosse o último do jogo. A bola era recuperada e rapidamente perdida, os esquemas tácticos esbatiam-se com os jogadores a cederem à tentação de sair das suas posições para disputar os lances, numa anarquia generalizada que deixavam os treinadores Frodo Zarco e Ivo Vieira à beira de um ataque de nervos.

Num desses momentos, o primeiro desequilíbrio foi criado por Bruma, o espalha-brasas do Penafiel, regressado a Portugal em busca de relançar uma carreira que ficou uns valentes furos abaixo do que se previra. O extremo surgiu nas costas de Odailson e entrou na área pela esquerda. Isaac Monteiro apareceu na dobra e foi imperial como de costume, cedendo o primeiro canto do jogo. O próprio Bruma bateu-o e dessa vez foi Roberto Longo a aliviar o perigo, vencendo nas alturas a oposição de vários adversários.

A resposta do Amora surgiu aos 12 minutos. Um bom lance de envolvimento entre Papou Mendes e Joca proporcionou a Leonardo Brandão um remate em zona frontal. O pontapé saiu com força, como era habitual com o Cavaleiro da Medideira, e o guarda-redes Pedro Silva foi obrigado a desviar a bola por cima da barra com uma defesa de recurso.

Se o jogo era disputado num ritmo frenético, o que dizer do ambiente nas bancadas? De ambos os lados ouviam-se cânticos de apoio mesclados com batidas de tambores, numa animação que obrigava os jogadores no terreno a gritar para fazerem-se ouvir. Era uma festa digna de final da Taça.

As gentes de Penafiel entusiasmaram-se quando Bruma voltou a surgir nas costas de Odailson. O extremo português já ia lançado para a área do Amora com grande perigo quando o jovem lateral amorense entrou de carrinho, derrubando-o. Luis Godinho assinalou a falta e avisou-o que não aceitaria mais entradas daquelas, até porque Bruma teve de sair para ser assistido pela sua equipa médica.

O livre marcado pelo veterano lateral Plattenhardt, antiga estrela do Hertha, embateu na barreira e sobrou para Martim Watts. A unidade de potência do Amora lançou de imediato o contra-ataque com um passe longo que isolou Joca. O capitão amorense galgou cinquenta metros e entrou na área, enfrentando o último obstáculo no seu objectivo de marcar um golo no último jogo da sua carreira.

Frodo Zarco lembrava-se daqueles momentos quando era jogador e tinha uma oportunidade tão clara para facturar. Parecia que o tempo parava em sua volta, a visão afunilava e apenas via a bola, o guarda-redes e a baliza. Tudo o resto, na sua visão periférica, ficava turvo, obscurecido, e os ruídos ensurdecedores dos excitados adeptos pareciam desaparecer, dando lugar a um silêncio irreal.

Joca deveria estar a viver um momento semelhante. Na cara de Pedro Silva, puxou a bola para o seu pé direito e disparou com convicção, apontando ao canto superior esquerdo da baliza, o único espaço deixado aberto pela mancha do guarda-redes penafidelense.

A bola ultrapassou o guarda-redes e os adeptos do outro lado do estádio gritaram golo.

 

Yhiyg3x.gif

 

Os festejos antecipados deram lugar a urros de frustração quando a bola passou ligeiramente por cima da barra, para grande consternação de Joca. O capitão ficou ajoelhado no relvado, de mãos a cobrir o rosto, tentando processar como desperdiçara tão flagrante ocasião de golo.

Só os gritos de Frodo Zarco o despertaram do torpor em que caíra. O Penafiel não perdeu tempo e já saíra a jogar. Joca voltou a correr para o seu meio-campo, ainda abanando a cabeça em descrença com o que acontecera, chegando a tempo de ver de perto Bruma a ganhar as costas de Odailson, num lance tirado a papel-químico do que acontecera há um minuto.

Odailson desta vez não entrou de carrinho, mas puxou claramente a camisola do seu adversário. Bruma caiu e, desta vez, Luis Godinho sacou da cartolina amarela para a exibir ao menino - ele bem o tinha avisado.

Frodo Zarco estava incrédulo. Aquela movimentação de Bruma era o principal desenho ofensivo do Penafiel. Tinham passado horas a ver e a rever aquele lance, a treinar posicionamentos para o evitar, mas já era a terceira vez em vinte minutos que Odailson deixava Bruma fugir-lhe. Joca terá reparado na reacção de Frodo Zarco e foi trocar algumas palavras com o menino - e, só por esse motivo, o treinador não lhe deu uma descasca.

O livre era perigoso e foi batido novamente por Plattenhardt. Manuel Baldé saiu de entre os postes e captou a bola no ar, segurando-a de forma segura junto ao peito. Os adeptos celebraram a intervenção do guarda-redes guineense e organizaram novo cântico de apoio.

 

"Seja no estádio que for

Eu estarei sempre presente

Para defender o meu grande amor!"

Bum! Bum! Bum!

 

A primeira meia-hora de futebol chegava ao seu término com o Amora a dispor da única grande ocasião de golo. O ritmo de jogo começou a diminuir, o que era natural - seria impensável manter-se aquele ritmo durante noventa minutos. O que convinha ao Amora. A equipa de Frodo Zarco sentia-se tão melhor quanto mais controlado o jogo estivesse, podendo circular a bola entre os seus elementos e envolvendo o adversário na sua teia.

O trio de meio-campo - Dino Leão, Papou Mendes e Martim Watts - eram fulcrais nesse papel, apoiados por Joca que derivava várias vezes para a zona central, envolvendo-se nesse processo, e pelos apoios de Isaac Monteiro e Odailson, sempre dispostos a oferecer linhas de passe aos colegas. Passavam poucos minutos da meia-hora quando a equipa acelerou subitamente, cheirando a oportunidade criada por um erro de posicionamento adversário, ingenuamente atraídos pela troca de bola do Amora. Odailson subiu no terreno, encontrou Gabriel Capixaba solto e endereçou-lhe a bola.

O avançado viu pelo canto do olho a intenção de Leonardo Brandão. Fez um passe de ruptura e o Cavaleiro da Medideira, o goleador da Primeira Liga, ficou isolado. Levantaram-se ao mesmo tempo os adeptos e a comitiva do Amora no banco de suplentes. Leonardo Brandão não costumava desaproveitar lances daqueles.

Pedro Silva foi rápido a sair da baliza. Leonardo Brandão viu-o e desviou a bola para a sua direita, de forma a tirar o guarda-redes do caminho. Sem se saber bem como, porém, trocou os pés e a bola fugiu-lhe para a linha de fundo.

Ainda tentou alcançá-la em desespero de causa, mas a oportunidade estava perdida. Vários jogadores em campo levaram as mãos à cabeça, gesto emulado por milhares nas bancadas que não acreditavam no que acabara de acontecer.

Nos dias seguintes, a imagem de Frodo Zarco a fazer um facepalm tornar-se-ia viral e daria origem a diversos memes nas redes sociais.

 

JsFGqDS.gif

 

O Amora cresceu nos últimos quinze minutos, empurrando o Penafiel para a sua defesa. Os nortenhos estavam agora mais recuados, não conseguindo manter a pressão alta que mantiveram durante a primeira meia-hora. Vendo-se batidos pela rápida troca de bola dos jogadores amorenses, recuavam para manter a integridade da sua linha defensiva.

Com naturalidade, a bola começou a circular mais próxima da área defensiva do Penafiel e as oportunidades para visar a baliza sucediam-se. Joca cabeceou mal na resposta a um cruzamento de Odailson e Gabriel Capixaba, pouco depois, teve espaço do lado direito da área, mas o seu remate enviou o esférico para o meio dos adeptos adversários.

Cheirava a golo no Jamor e, quando isso acontece, Leonardo Brandão costuma estar envolvido. A bola circulou depressa entre vários elementos azuis até chegar a Martim Watts. A unidade de potência colocou-a em Leonardo Brandão e o goleador nem hesitou - disparou de fora da área, em força como tanto gostava.

A bola descreveu uma trajectória estranha rumo à baliza. Apesar de ter ido quase à figura, surgiu com tanto efeito e tão depressa junto ao guarda-redes Pedro Silva que este só teve tempo de lhe apontar os punhos, rezando a todos os deuses do futebol que a bola fosse rechaçada para longe da baliza.

A bola ressaltou nos punhos e seguiu para o lado, paralela à linha de golo. Joca apareceu, oportuno, mais rápido do que toda a gente. Debaixo do chinfrim proveniente das bancadas, desviou a bola com o seu pior pé, o esquerdo, na direcção da baliza.

Os rugidos nas bancadas foram um misto de frustração e celebração. A bola fez agitar as redes, mas do lado de fora, deixando o capitão novamente incrédulo e os colegas de equipa a suspirar com nova oportunidade desperdiçada.

Só alguns segundos depois se aperceberam que o lance foi invalidado por fora-de-jogo de Joca. O que também não permitia passar uma borracha pelo que acontecera: fosse o lance legal e teria sido outro desperdício do Maior da Margem Sul.

 

T4VldCU.gif

 

Não havia muito mais tempo para jogar. O Amora procurava capitalizar o ímpeto adquirido nos últimos minutos. Chegar ao intervalo a vencer seria meio caminho para vencer aquele jogo.

O discernimento, porém, já não era o melhor após as ocasiões recentes. Os jogadores perderam a concentração e era evidente que precisavam do intervalo para recuperar o foco.

Assim, quando o árbitro apitou para o intervalo, Frodo Zarco suspirou de alívio e abandonou rapidamente o relvado, entrando nos balneários e deixando para trás o ruído dos adeptos, excitados com a pressão que o Amora estava a exercer sobre o Penafiel.

O resultado era um desolador empate a zero, sim, mas o Amora estava a dominar em toda a linha. Faltou apenas assertividade na finalização para converter algumas ocasiões em golo, o que Frodo Zarco atribuía à ansiedade natural de executar num jogo de alta tensão.

A equipa precisava de marcar um golo para ultrapassar o bloqueio psicólogico em que estava enredada.

 

J0kenul.jpeg

 

Os jogadores despiram os equipamentos empapados em suor assim que chegaram ao balneário, trocando-os por camisolas lavadas e secas. Frodo Zarco circulava por entre eles, de mãos nos bolsos e em silêncio, organizando as ideias para estruturar o discurso.

"Está tudo? Posso falar?", perguntou por fim. "Anda lá, Louro, veste lá isso. Estamos todos? Óptimo!"

>> "Malta, estamos a jogar bem. Estamos a fazer aquilo que treinámos, a manietá-los por completo e a sufocá-los sempre que eles tentam jogar", adiantou, com um sorriso confiante. "As oportunidades estão a aparecer, algum azar na finalização, mas se continuarmos assim e se nos mantivermos focados como na primeira parte, vamos marcar."

Os jogadores soltaram alguns urros em concordância.

"Não se desconcentrem. Odailson, aqueles erros no início do jogo não podem acontecer mais. Nós treinámos isto! Corrigiste bem o posicionamento, eles não criaram mais perigo. É continuar assim. Mas tem noção", alertou Frodo Zarco, encostando ambos os dedos indicadores na sua testa, "que já tens um amarelo e o Bruma é um 'espalha-brasas' do pior. Sem erros, com concentração, evitar as faltas."

Odailson anuiu com a cabeça. Frodo Zarco endireitou-se e falou para todos.

"Estou a sentir alguma ansiedade. Esqueçam! Não pensem no que estamos a jogar, pensem apenas no que fazer em campo. Estão aqui por mérito próprio. Confiem em vocês. Vocês são bons e é por isso que aqui estão."

Fez um compasso de espera para os jogadores assimilarem a mensagem de confiança antes de lhes perguntar, com o mesmo tom de quem convida um amigo para um café:

"Vamos ganhar isto?"

Os jogadores reagiram como esperava. "Bora!", "Vamos!", Siga!", foram as respostas que obteve. Formaram um círculo, juntaram as mãos no centro e gritaram "Amora! Amora! Amora!", seguindo porta fora em direcção ao túnel de acesso ao relvado.

Frodo Zarco ficou propositadamente para trás e foi o último a abandonar o balneário. Apesar de sentir que o jogo estava controlado, sentia algum receio que não saberia explicar.

Não seria a primeira vez que jogos com aquele perfil, com o domínio claro de uma equipa que tardava em convertê-lo em golos, resultavam na equipa a ceder à frustração e terminavam com o adversário a marcar um golo fortuito.

Fechou a porta atrás de si e prosseguiu para o terreno de jogo, levando o coração apertado pelo mau pressentimento.

(Continua...)

Editado por Black Hawk
  • Like 2

Compartilhar este post


Link para o post

Primeira parte de claro dominio do Amora, se continuarem assim na segunda a vitória e a Taça claramente irá cair para esse lado, é continuar a acreditar.

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post

O intervalo nesse jogo é de quanto tempo?!

Zarco está desconfiado do que pode vir aí, como eu o percebo! Equipa por cima, a jogar em todo o campo mas a falhar no momento decisivo. Já podia ter feito o golo por mais que uma vez. Joca atirou para fora e o Leonardo perdeu o tempo de remate numa das jogadas.

Que venha a segunda parte com um golo madrugador para dar o click que a equipa está a necessitar! E essa conversa com Odailson faz lembrar a história do Mourinho com o Balotelli, será que tem ligação?!

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de Black Hawk, há 12 horas:

O Beira derrotou o Sporting e depois foi eliminado pelo Portimonense na ronda seguinte. Obrigou-os a ir a prolongamento. Se tivessem passado, teriam sido os meus adversários nos Oitavos, pois joguei precisamente contra os algarvios.

Era um miúdo na altura, mas lembro-me que nesse dia estava em viagem com os meus pais e passámos em Fátima. Encontrámos lá um monte de adeptos do Beira-Mar e a minha mãe disse logo que iam ganhar. Boas memórias.

Tenho quase a certeza que não dá para adicionar treinadores com o save a decorrer.

Velhos tempos amigo. Obrigado pela informação.

Boa primeira parte. Acho que vai haver chuva de golos na segunda parte ✌️ vai haver invasão de campo 😅

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post

Eish a fazer intervalos mais longos que os da TVI! Falta o golo, siga, está no papo! Ainda fui espreitar no perfil do treinador o número de títulos, mas tapaste 😑 Significa que foi atualizado, for sure 😎

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post

Domínio claríssimo do Amora em todas as incidências do jogo, ao longo da primeira parte. Mais bola, muitas oportunidades criadas, bom futebol e boa capacidade em criar jogo, no entanto, estão a falhar sempre (quando é chegado o momento de finalizar).

Creio que na 2ª parte ficarão dissipadas todas as dúvidas, tal é a tua superioridade 😉 

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post

Vou buscar mais uma imperial e uma bifana que o intervalo está demorado! 🍺

  • Like 1
  • Concordo! 1

Compartilhar este post


Link para o post
Citação de Kluivert, Em 12/07/2022 at 10:26:

Vou buscar mais uma imperial e uma bifana que o intervalo está demorado! 🍺

Está a ter lugar o espectáculo do intervalo. Dezenas de trabalhadores montaram um palco em pleno relvado e estão a actuar alguns artistas da moda, com música e coreografias e cenas assim.

Enquanto isso, o Frodo Zarco está a falar com os jogadores 😁

Não tive tempo para escrever desde sábado, surgiram-me uns imprevistos. Mais para o final da semana já devo fazê-lo e posto o próximo capítulo.

Entretanto recomendo mais um fino ou dois ou cinco, que está um calorão insuportável.

  • Like 1

Compartilhar este post


Link para o post

Com um espetáculo de intervalo tão longo, já me arrependi de não ter comprado bilhete para a festa. Isso já é mais que o intervalo do Super Bowl. Para mim pode ser umas 5 Sumol Ananás, já que não bebo bebidas alcoólicas 😄 Mas valerá a pena se o grande Amora levar o troféu para casa.

Compartilhar este post


Link para o post

oDSi6qf.jpg

Capítulo XLII - Movidos a adrenalina

 

Há quem diga que o número 42 é a resposta para o sentido da vida, do Universo e de toda a existência. Muitos ridicularizam a ideia - afinal de contas, foi uma invenção de um autor numa célebre obra de ficção. Outros, porém, defendem que a conclusão não é aleatória, justificando que em linguagem ASCII o número 42 representa o caractere do asterisco. Este pode ser usado para substituir qualquer outro caractere em existência, como no lugar dos caracteres de passwords usadas em sistemas informáticos ou para pesquisar todas as respostas num motor de busca - e, dessa forma, justificando que o número 42 representa tudo e tudo aquilo que quisermos que a vida seja.

Frodo Zarco não era um indivíduo dado a grandes introspecções metafísicas. O sentido da existência nunca foi tema que o absorvesse por aí além, muito menos o significado do número 42. Mas, por ironia do destino, era chegado ao Capítulo 42 desta história que ele e o Amora Futebol Clube disputavam a maior prova nas suas existências - era nele que seria colocado em equação todo o sentido do trabalho desenvolvido nos últimos cinco anos.

Os primeiros quarenta e cinco minutos foram largamente dominados pelo Maior da Margem Sul. Tiveram mais posse de bola, mais remates, pontapés de canto e ocasiões de golo. O Penafiel ainda nem fizera um remate naquela tarde... mas o resultado mantinha-se num teimoso empate a zeros que fomentava uma certa inquietude no coração de Frodo Zarco. Ele já tinha muitos anos de carreira enquanto jogador e treinador. Assistira muitas vezes a equipas a massacrar os adversários, mas que acabando por não concretizar sofriam inesperadamente um golpe fatal, muitas vezes causados por desconcentrações fruto da frustração acumulada.

 

J0kenul.jpeg

As estatísticas ao intervalo confirmavam a supremacia do Amora durante a primeira parte

 

Quando a equipa retornou ao relvado - depois de um intervalo que pareceu demorar uma eternidade - os adeptos receberam-nos em apoteose. Aprovavam a entrega dos seus jogadores durante o primeiro tempo e acreditavam que seria uma questão de tempo até o golo aparecer. Frodo Zarco tentara passar essa mensagem ao intervalo, retirando a pressão dos seus jogadores e procurando evitar ao máximo que os receios que o inquietavam se espalhassem até aos seus meninos.

Não era crente na existência de entidades divinas, mas naquele momento não conseguiu evitar rezar aos deuses do futebol que pudessem existir para que intercedessem pelos seus meninos. "Por favor, por favor, não nos deixem ficar mal", implorou humildemente. "Os meninos excederam-se e fizeram tudo bem, não os punam agora. Eles merecem isto."

 

OzQWolA.jpeg

A segunda parte estava prestes a recomeçar no Estádio do Jamor

 

Seria o Amora a retomar a partida. Leonardo Brandão aguardou no centro do grande círculo que Luís Godinho desse a ordem. O árbitro apitou, os adeptos responderam com uma sonora onda de aprovação e a segunda parte tinha o seu início.

Retomando de onde haviam parado na primeira parte, o Amora circulou a bola entre os seus elementos mais recuados, procurando tecer nova teia em que enrolasse o seu adversário. Odailson, Isaac Monteiro, Roberto Longo, Dino Leão, Papou Mendes e Martim Watts foram trocando o esférico de olhos postos nas movimentações sem bola dos elementos mais adiantados, sempre muito dinâmicos na procura de espaços livres. Foi a unidade de potência, Martim Watts de seu nome, quem primeiro o encontrou - uma linha de passe segura para Gabriel Capixaba que o deixou com espaço entre as linhas da defesa e do meio-campo penafidelenses.

O avançado brasileiro acolheu a bola com uma recepção orientada para o interior do terreno, ganhando posição em relação ao lateral Plattenhardt. Hesitou por ausência de linhas de passe curtas, ficando de imediato rodeado por vários adversários. O lance parecia condenado ao fracasso, mas, inesperadamente, viu uma linha de passe bem no coração da defensiva adversária. Colocou a bola com precisão. Leonardo Brandão estava à frente da baliza!

Os adeptos levantaram-se de imediato à visão do goleador do Amora com a baliza à sua mercê. Era uma penalidade em movimento; apenas avançado e guarda-redes num frente-a-frente, como um duelo de um filme western. Frodo Zarco já estava para além da sua área técnica e atrás de si todo o banco do Amora se levantara também.

Leonardo Brandão encheu o pé e desferiu um remate em força, como era seu apanágio, apontando ao canto inferior esquerdo da baliza. O guarda-redes Pedro Silva não teve tempo para mais do que esticar a perna direita na esperança de bloquear a bola.

Não lhe chegou.

 

1heDVVj.gif

 

A bola embateu com estrondo num dos placards publicitários atrás da baliza, deixando a sua imagem electrónica a piscar como um pirilampo. Leonardo Brandão não foi o único a cair de joelhos no relvado - vários dos suplentes do Amora fizeram o mesmo, desalentados com o desperdício logo no primeiro lance da segunda parte.

Após alguns segundos de reacções frustradas e iradas, os adeptos voltaram à carga. A bola não entrou daquela vez, mas o Amora estava a pressionar e aquela entrada no segundo tempo deixava antever que a equipa continuaria a carregar sobre o adversário - e isso gostavam eles de ver.

"Leonardo Brandãããão! Leonardo Brandãããão!

Leonardo!

Leonardo!

Leonardo Brandãããão!"

O avançado levantou-se e acenou para os adeptos. Estes continuaram a cantar o seu nome, animando-o. Equipa e adeptos viviam uma espécie de lua de mel, natural depois de uma temporada de bons resultados e muita entrega que os amorenses reconheciam. Seria preciso muito para estragar aquela relação.

Foi uma pena que Leonardo Brandão não tivesse aproveitado aquela ocasião para colocar o Amora vantagem, aproveitando a desconcentração inicial do Penafiel. Os adversários sentiram o perigo e acertaram marcações. Pressionavam alto e com muitos tal como haviam feito na primeira meia-hora do jogo enquanto as pilhas duraram, desdobrando-se em esforços para estarem em todo o lado ao mesmo tempo. O futebol rendilhado do Amora deixou de fluir e o jogo caiu na mesma toada do início da partida, com muita correria, passes falhados e bolas perdidas.

Foi nessa fase que os adeptos começaram a sentir os primeiros apertos no estômago. O ímpeto do Amora esmoreceu e durante quinze minutos não houve remates à baliza - a nenhuma das balizas. O olhar mais desatento poderia levar a concluir que o Amora perdera o domínio do jogo. E era legítimo que assim se pensasse.

Mas Frodo Zarco parecia tranquilo na sua área técnica. Reconhecido por ser bastante interventivo e exuberante nas instruções aos seus jogadores, acompanhava porém o jogo em pé, ora de braços cruzados, ora com o queixo apoiado na sua mão direita e os dedos a cobrirem-lhe a boca. Parecia a imagem da tranquilidade em pessoa.

A evolução do jogo pareceu dar-lhe razão. O  Amora estava bem organizado em campo. O Penafiel continuava a não conseguir criar perigo e aos poucos, quase sem se dar por isso, a pressão do Penafiel ia ficando mais curta; a área de acção dos seus jogadores era cada vez mais limitada; as linhas do adversário foram recuando e o Amora voltou a circular a bola com maior à vontade. Tal como na primeira parte, o Penafiel estava a começar a pagar o esforço físico da pressão alta.

Os buracos na organização do Penafiel começaram a surgir. Um primeiro lance de entendimento entre Martim Watts e Joca, por volta dos 62 minutos, permitiu a Leonardo Brandão nova chance de visar a baliza de Pedro Silva, mas o remate foi bloqueado por um defesa e chegou inofensivamente às mãos do guardião português.

Nem dois minutos depois, Joca viu Leonardo Brandão a movimentar-se no limite da linha defensiva adversária e lançou-lhe a bola em profundidade. O central Gonçalo Loureiro falhou a intercepção e Leonardo Brandão saiu em velocidade na direcção da baliza, apenas com Plattenhardt a importuná-lo.

O topo sul do Jamor já estava novamente de pé com nova investida do avançado amorense. Leonardo Brandão tinha espaço para progredir para a área, mas preferiu não arriscar face à proximidade de Plattenhardt e disparou em força, de longe.

A bola foi direccionada ao ângulo superior direito da baliza. Pedro Silva nem fez qualquer menção de se estirar, fiando-se no golpe de vista como se pudesse desviar a bola por artes mágicas. Gritou-se golo no Jamor quando a bola passou pelo guarda-redes.

Um rugido de satisfação chegou do outro lado do campo, do lado dos adeptos do Penafiel. A bola passou novamente por cima da barra e caiu na pista de atletismo entre a baliza e a claque do Amora, os Espírito Azul, dando vários saltos até embater no muro de pedra da bancada onde estes batiam com punhos cerrados no chão, soltando impropérios.

Decididamente, aquela não era a tarde de Leonardo Brandão.

 

TwPDAtM.gif

 

7RlZjMp.gif

 

Ivo Vieira, treinador do Penafiel, sentiu o mesmo que Frodo Zarco e já tinha dois jogadores prontos a entrar para refrescar a equipa, aproveitando para proceder às alterações durante a paragem para o pontapé de baliza.

Do lado do Amora, Frodo Zarco aproveitou o momento para chamar Diego Raposo. Quando a placa subiu e mostrou o número nove, ninguém ficou surpreendido. A entrada de Diego Raposo significava habitualmente a saída de Leonardo Brandão e o próprio avançado já estava à espera disso, correndo na direcção da linha lateral antes mesmo de a placa ser levantada. Frodo Zarco aguardou junto à linha lateral para lhe dar um abraço e uma palavra de conforto - o goleador amorense estava visivelmente abatido por não ter conseguido marcar naquela tarde, no jogo mais importante da sua carreira.

Diego Raposo iria oferecer coisas diferentes ao ataque do Maior da Margem Sul. Mais irrequieto e rato de área, o menino dava bom uso à sua velocidade para se antecipar aos defesas e oferecer profundidade aos colegas. E não demorou muito a causar impacto no jogo.

O Amora empurrava cada vez mais o Penafiel para a sua área. Estavam decorridos 73 minutos quando Diego Raposo surgiu solto em zona frontal. Recebendo a bola de costas para a baliza e atraindo a si a atenção dos centrais, o menino viu Joca a surgir inteligentemente no espaço criado, endereçando-lhe a bola. Jorge Monteiro, Joca para os amigos e no mundo do futebol, ficou com espaço para visar a baliza e não se fez rogado, disparando com força na direcção das redes adversárias.

O guarda-redes Pedro Silva estirou-se e defendeu como pode. Só teve tempo de bloquear a bola, rechaçando-a para onde estava virado. O esférico ficou solto na área e surgiu um vulto vestido de azul pronto para a recarga. Pedro Silva até foi rápido a levantar-se, mas foi por demais evidente que não iria conseguir reagir a tempo da finalização de Gabriel Capixaba.

Foi tudo tão rápido que a maioria das pessoas presentes no Jamor nem tempo tiveram para processar a informação. Por instinto, milhares de gargantas no topo sul gritavam face ao golo iminente. O banco do Amora pulou como o Sonic impulsionado por molas. Se fosse um filme, as câmaras apenas mostrariam os globos oculares de Frodo Zarco a rodar em câmara lenta, com os braços a erguerem-se enquanto dava um salto para dentro do relvado.

"Marca! Marca!", gritava-se na curva atrás da baliza.

Gabriel Capixaba ergueu o pé e encostou-o à bola. Era o momento de todas as decisões.

 

CO479uV.gif

 

O volume de decibéis no Jamor poderia ser comparado ao de um avião comercial a fazer um vôo rasante.

Sem que se percebesse bem como, a bola passou inutilmente ao lado da baliza, embatendo mais uma vez nos placards publicitários e aninhando-se nas redes da baliza, mas do lado de fora. Gabriel Capixaba, tantas vezes o elemento diferenciador do Amora, herói de vários momentos, era agora o infeliz vilão. Enquanto o avançado se estatelava ao comprido de mãos na cabeça, escondendo a cara na relva, uma vasta panóplia de reacções estupefactas percorria as gentes afectas ao Maior da Margem Sul.

O facto era que o cronómetro avançava inexoravelmente rumo ao minuto 90 e o Amora, apesar de todo o domínio e ocasiões de golo criadas, não marcava. A confiança ia dando lugar à ansiedade. Os falhanços consecutivos provocavam a acumulação de nervos e frustração. Não faltava apoio das bancadas, mas começava a ser audível alguma irritação, e mesmo entre a comitiva do Amora no banco de suplentes havia quem roesse as unhas, batesse os pés no chão ou mandasse um grito desesperado a cada lance desperdiçado.

O coração de Frodo Zarco apertava cada vez mais. Ele vira aquele filme tantas vezes. O mau pressentimento que trouxera do intervalo crescia, e crescia, e crescia...

Não que do outro lado fosse diferente. Os amorenses desesperavam, mas os penafidelenses sofriam em igual medida perante o massacre a que estavam sujeitos. Na perspectiva deles, o cronómetro avançava devagar e sentia-se que um golo sofrido poderia surgir a qualquer momento, com a sua equipa cada vez mais recuada e em pânico para salvar aquele jogo.

Pouco depois do falhanço de Gabriel Capixaba, os adeptos do Amora voltaram a entusiasmar-se com a conquista de um pontapé de canto. Diego Raposo saltou mais alto e cabeceou com força, calibrando mal a direcção da bola que saiu por cima da baliza. A pressão amorense intensificava-se. Nova investida, agora pelo lateral Odailson ao longo da linha, com o jovem internacional sub21 francês a cruzar para a pequena área.

Quatro homens do Amora surgiram prontos a finalizar. Gabriel Capixaba saltou ao primeiro poste, não acertando na bola por muito pouco - ainda sentiu a bola passar-lhe rente ao cabelo. Atrás dele, Diego Raposo fez um gesto técnico perfeito para cabecear para a baliza - e àquela distância era impossível falhar - mas o defesa Vasco Braga desviou a bola de raspão, o suficiente para a bola passar a milímetros da cabeça do avançado. O desvio levou a bola na direcção do segundo poste onde Joca se atirou de carrinho, quase em cima da linha de golo, falhando-a sem perceber ao certo como.

Inacreditavelmente, a bola atravessou toda a pequena área com três jogadores do Amora a falharem o desvio por distâncias inferiores ao da grossura de uma agulha, perdendo-se pela linha de fundo para desespero generalizado das hostes da Margem Sul.

 

ybFLLPY.gif

 

ronmd1f.gif

 

A tensão constante estava a começar a trazer consequências ao Amora. Depois de quase noventa minutos de alta intensidade e de desilusões constantes, já não havia fôlego para muito mais. Os jogadores continuavam a tentar, há que dar-lhes mérito, mas o discernimento já ia faltando. Lances eram perdidos por más decisões ou precipitações, para desespero de todos os presentes.

O jogo atingiu o minuto 90. Só um milagre evitaria o prolongamento.

A falta de discernimento não era específica do Amora. Joca levava a bola pela esquerda e derivou para a zona central, como tantas vezes fazia. O capitão estava enredado numa teia de defesas e dificilmente sairia dali com perigo, mas foi derrubado em falta. Uma falta inútil que transformou um lance inofensivo num perigoso livre à entrada da área.

Foi o lateral Tiago Louro quem primeiro chegou ao local. Um dos elementos mais cobiçados do plantel do Amora - o interesse do Sporting era um dos segredos mais mal guardados do futebol português -, o lateral esquerdo, que por acaso era destro, poderia muito bem estar a fazer o seu último jogo pelo Maior da Margem Sul e queria despedir-se em grande. Pegou na bola com tamanha convicção que ninguém teve coragem de lha tirar.

Por um momento, o Jamor caiu num silêncio ansioso. A barreira foi formada enquanto Tiago Louro tirava as medidas à baliza e fazia cálculos mentais à trajectória que levaria a bola às redes e o Amora ao sucesso.

O árbitro apitou. Tiago Louro partiu, deu três passadas e disparou com convicção, fazendo a bola transpor a barreira. O tiro saiu na direcção do segundo poste e Pedro Silva ficou especado na linha de golo, observando o rumo do esférico. Da linha lateral, Frodo Zarco inclinava inconscientemente a cabeça para a sua direita, como se pudesse com isso influenciar o desfecho do lance.

A bola seguiu imparável rumo ao seu destino...

 

fRq4tGn.gif

 

... passando a rasar o poste. Gritou-se golo no Jamor. De facto, tanto atrás da baliza na perspectiva dos adeptos, como da linha lateral de onde o banco do Amora via o lance, parecia que a bola ia entrar, mas fora apenas ilusão de óptica e vontade, extrema vontade, de que aquele imponente remate tivesse outro desfecho.

Não houve tempo nem capacidade para mais. Depois de quinze remates do Amora para nenhum do Penafiel, o árbitro Luis Godinho apitava e o jogo iria para prolongamento.

 

695ew4h.jpeg

O nulo persistiu no marcador até ao final do tempo regulamentar

 

Os jogadores caíram no relvado logo após o apito, exaustos. Tinham sido noventa minutos de alta rotação, tensão permanente e um carrossel de emoções que os esgotara física e mentalmente.

Mas ainda havia meia hora por jogar.

O principal trabalho de Frodo Zarco e sua equipa técnica durante aquela pausa foi recuperar os índices físicos e motivacionais dos meninos. Não havia muito a dizer-lhes sobre questões tácticas. Todos eles sabiam o que fazer - e estavam de facto a fazê-lo, as estatísticas não mentiam quanto à superioridade do Amora em campo.

Faltava o golo.

Repostos os jogadores, ou pelo menos repostos tanto quanto possível ao fim de noventa minutos no quadragésimo quinto jogo oficial da temporada - ao alcançar as finais de ambas as Taças, o Amora conseguiu a proeza de disputar todos os jogos de todas as competições em que participou nessa temporada -, formaram uma roda para um rápido incentivo dado pelo capitão Joca.

Os próprios adeptos estavam exaustos com as emoções daquela tarde e precisaram de alguns minutos para recuperar o fôlego. O Jamor caiu num silêncio tenso, a tensão no ar quase palpável, que só seria quebrado quando a equipa reuniu em círculo no relvado.

 

"Amora! Amora! Amora!"

 

Assim mesmo, sem preocupações pela lírica ou letras originais; apenas o nome do clube e da cidade, cantado com o vigor que as gargantas ainda permitiam, relembrando aos jogadores que eles estavam ali e acreditavam neles.

O prolongamento teve início e foi o Penafiel quem saiu a jogar.

Os primeiros minutos da primeira parte do prolongamento revelaram que se tratava de um jogo diferente. Num prolongamento, as diferenças tendem a atenuar. A capacidade física começa a pesar tanto ou mais do que o talento individual, não sendo raro ver-se equipas mais modestas surpreenderem adversários mais renomados.

O Amora passou largos minutos a tentar pegar na bola, como tanto gostava, mas havia jogadores já em claras dificuldades. O cansaço toldava o discernimento e o jogo não fluía como era habitual, ficando engasgado e lento como se de um jogo de pré-época se tratasse.

Não foi surpresa que o perigo surgisse num lance de bola parada. Diego Raposo conquistou um livre quase no limite da grande área adversária - o defesa que o marcava, talvez já sem paciência para a irreverência do menino, virou-o do avesso com um pontapé nas canelas. Vários jogadores quiseram assumir a responsabilidade da marcação, mas capitão era capitão e foi Joca quem teve a última palavra.

Ao contrário de Tiago Louro, que poderia estar a disputar o seu último jogo pelo Amora, Joca estava de facto a fazer a sua última participação pelo Maior da Margem Sul. Aliás, a última enquanto futebolista profissional. E que melhor forma de se despedir do que saindo com o golo que garantiria o primeiro grande título da história do seu Amora?

A barreira formou bem dentro da grande área. A curva do Amora emudeceu do outro lado do estádio, expectante, ansiosa, nervosa. Viram o capitão dar dois passos antes de bater uma folha seca na bola. Ela sobrevoou a barreira. Pedro Silva fiou-se novamente no golpe de vista. A redondinha saiu na direcção do ângulo superior esquerdo da baliza.

Desta vez não houve ilusão de óptica.

 

cRPTrpA.gif

 

A bola passou tensa, sim, mas falhou a baliza ainda por alguns palmos de distância, perdendo-se na pista de atletismo atrás da baliza do Penafiel para (mais) desespero entre os adeptos. O próprio Joca cerrou os punhos e gritou para o relvado, extravasando a frustração que sentia.

Era como bater numa parede. O Amora tentava e tentava e tentava, mas o golo não aparecia.

O cronómetro estava quase a apontar para o intervalo do prolongamento e já não havia inspiração para muito mais. O Amora já ia cedendo à frustração e falta de pernas, bombeando bolas em busca de um milagre. Sinal disso mesmo, Roberto Longo marcou um livre ainda no seu meio-campo lançando a bola em chuveirinho para a área adversária.

A defesa do Penafiel estava de frente para o lance e em posição ideal de aliviar a bola. Estavam, porém, tão cansados quanto os amorenses e a falta de discernimento também lhes toldava a leitura dos lances. De alguma forma, abriu-se um buraco na zona central e Diego Raposo apareceu na cara de Pedro Silva.

O menino não se fez rogado. Atacou a bola com ímpeto. Enquanto saltava, viu que Pedro Silva saiu da baliza e instintivamente procurou fazer-lhe um chapéu. Cabeceou a bola para cima. Todos no estádio perceberam imediatamente a sua intenção.

A bola subiu, subiu... e Pedro Silva, em desespero de causa, esticou a ponta dos dedos para a tentar defender.

 

wvJ4MiL.gif

 

Foi quase por milagre. O guardião dos nortenhos desviou a bola subtil, mas decisivamente, por cima da baliza. Nova explosão de raiva no Jamor - já ninguém tinha explicação para o que estava a acontecer.

Frodo Zarco sentia-se como se tivesse acabado de correr uma maratona. Exausto, já com dificuldade em raciocinar e a suar por todos os poros do corpo, esbracejava no ar enquanto discutia com figuras invisíveis. Culpava os deuses do futebol pelo que estava a acontecer.

Que raio mais queriam eles dele?

Se nada mais, a sucessão de lances desperdiçados teve o condão de enervar os jogadores. A fúria que sentiam tinha acumulado durante os cento e cinco minutos já disputados e tinha atingido os píncaros, extravasando como a pressão magmática resultava numa explosão vulcânica. Estavam furiosos!

Mal Luís Godinho apitou para dar início à segunda parte do prolongamento, lançaram-se num lance ofensivo com todo o ímpeto que conseguiram reunir. Ignorando as dores musculares que sentiam, a fúria amorense abateu-se sobre os jogadores do Penafiel que, apanhados de surpresa, nem conseguiram reagir. Os meninos de Frodo Zarco já nem pensavam - estavam movidos por adrenalina pura.

Aos trinta segundos de jogo já a bola estava na área do Penafiel. Gonçalo Loureiro afastou a bola, mas Tiago Louro recolheu-a e lançou nova vaga. Uma sucessão de passes rápidos levou a bola até Martim Watts à entrada da área. Combinou rapidamente com Jéferson, que tinha entrado na primeira parte do prolongamento para o lugar de Gabriel Capixaba; uma tabela simples que desmontou a organização defensiva do Penafiel.

Martim Watts surgiu isolado pela direita. O menino lançado por Frodo Zarco com apenas 17 anos que, três anos depois e já com 20 primaveras vividas, era a unidade de potência do meio-campo do Maior da Margem Sul, fazendo jus ao seu apelido.

Estava toda a gente em pé no Jamor. Todos gritavam. Martim Watts não ouvia ninguém. Como um touro enraivecido, apenas via a bola e a baliza. Tudo o resto era difuso, desfocado.

Encheu o pé e disparou com a força dos cinquenta mil habitantes da cidade de Amora a embalá-lo.

Um chuto para a História.

 

k0F8irO.gif

 

...

...

...

A fúria amorense extravasou em revolta cega. Vários jogadores ajoelharam-se no relvado, incrédulos. Da linha lateral, Frodo Zarco já não teve reacção. Ficou especado a ver a bola subir mais e mais, passando inofensiva enquanto subia como um balão cheio de hélio, com a cabeça vazia de pensamentos, um vácuo de ideias.

Martim Watts, esse, teve de ser levantado do relvado por Jéferson para que o pontapé de baliza pudesse ser marcado. Poderia ter sido herói, mas falhara no momento da decisão. Há que dar o devido desconto ao menino: aos vinte anos e depois de cento e cinco minutos de um jogo que estava a ser uma montanha-russa de emoções, não teve nem discernimento, nem compostura, para fazer mais do que aquilo que tentou fazer: encher o pé e rematar com força.

Tivesse sido aos cinco minutos de jogo e provavelmente teria marcado, como já o fizera tantas vezes no passado.

Seria legítimo pensar que após aquele falhanço, o Amora poderia quebrar mentalmente. Mas, tal como Frodo Zarco, os jogadores já nem pensavam. Agiam por instinto e jogavam movidos a adrenalina, o combustível para se realizar acções que habitualmente se classificam como sobrehumanas. Como tal, o Amora continuava a carregar, confundindo quem esperava ver o jogo baixar de ritmo.

E o Amora lá continuava a atacar, procurando espaços que os jogadores do Penafiel pudessem deixar livres. Martim Watts já parecia ter esquecido o lance desperdiçado há momentos e ia correndo, fazendo um manguito metafórico a quem o acusara recentemente de ser "preguiçoso em campo". Foi ele, mais uma vez, a criar um desequilíbrio na zona central, dando a bola em Jéferson.

O menino Jéferson, internacional Sub20 brasileiro e campeão sul-americano desse escalão, foi lesto a soltar a bola na zona central em Diego Raposo, seu compatriota. Estava fora da grande área e rodeado de adversários, sem soluções de passe.

Ou assim pensaram os jogadores do Penafiel.

Era um lance tão mecanizado entre os jogadores do Amora que já o faziam por instinto. Ao recuo posicional de Diego Raposo correspondia imediatamente Joca com uma progressão sem bola para a zona central, explorando a profundidade. Diego Raposo nem precisou de olhar para saber onde estava o seu capitão e para onde direccionar a assistência.

Os poucos adeptos sentados naquela fase do jogo levantaram-se de imediato. Havia um frisson a percorrer a atmosfera do Jamor. Os amorenses também sabiam o que estava a acontecer - na segunda parte do tempo regulamentar, o Amora fizera um lance igual que resultara numa oportunidade escandalosamente desperdiçada por Gabriel Capixaba. Um defesa do Penafiel, Gonçalo Loureiro, também se terá recordado do lance e adivinhou a intenção de Diego Raposo.

Disputava-se o minuto 109 da Final da Taça de Portugal. Os jogadores no terreno poderiam estar movidos a adrenalina, mas os seus músculos estavam no limite, cheios de ácido láctico, e todos o sentiam. Conseguiam andar, até correr um pouco, mas tudo o que envolvesse esticar as pernas era um limite para além do que lhes era humanamente possível fazer.

Gonçalo Loureiro apercebeu-se disso quando esticou a sua perna para interceptar a bola. Os músculos não lhe responderam como tencionava. Na sua atrapalhação, no meio das dores que lhe percorreram o corpo, apenas conseguiu desviar a trajectória da bola, que lhe passou por entre as pernas.

A redondinha ficou solta no coração da grande área. A ela acorreram todos os que estavam nas suas imediações. Frodo Zarco viu, como se o tempo subitamente avançasse em câmara lenta, Joca a inclinar o seu corpo para a sua direita, alterando o rumo da corrida que fazia. Edson Farias, o seu marcador directo, perseguiu-o, mas arrancou uma fracção de segundo tarde demais. Joca nem olhou para a baliza. Ergueu o seu pé direito sempre a olhar para a bola.

Jorge Monteiro, Joca para os amigos e no mundo do futebol, começou a jogar futebol no Amora aos nove anos de idade. Estreou-se pela equipa principal aos dezanove anos. Jogou pelo Amora Futebol Clube nas Distritais, na III Divisão, no Campeonato de Portugal, na Liga 3, na Segunda Liga e na Primeira Liga. Pagou equipamentos do seu bolso e tomou banhos de água fria nos balneários da Medideira quando o clube não tinha dinheiro nem para pagar as contas da água e da luz.

Mais de vinte anos com o símbolo do Maior da Margem Sul ao peito e despedia-se do futebol profissional naquela tarde, com a braçadeira de capitão em pleno Estádio Nacional do Jamor.

Rematou com toda a fúria amorense que lhe corria nas veias.

 

jW2ImPf.gif

 

O vulcão explodiu de vez.

Pessoas saltavam filas inteiras na curva sul. Os Espírito Azul erguiam bandeiras e cachecóis, envoltos numa massa humana disforme que varria o sector de adeptos do Amora como se de um mosh pit de um concerto de metal se tratasse. Havia pessoas a chorar compulsivamente, libertando por fim as emoções reprimidas.

Desconhecidos abraçavam-se; pais abraçavam filhos; avôs envolviam netos, com lágrimas nos olhos.

Estava feito. Foram necessários dezanove remates, mas o Amora estava finalmente na frente do marcador.

Joca saiu disparado logo que a bola agitou as redes. Saltou os placards publicitários e foi festejar junto aos seus adeptos. Frodo Zarco foi abraçado por um aglomerado de gente que não conseguiu identificar, sob o peso dos quais caiu no relvado, rebolando no meio de um novelo humano.

Foram momentos indescritíveis que se viveram no Jamor. O Amora Futebol Clube, um modesto e centenário clube desportivo que fizera das margens da Baía do Seixal o seu lar, estava a dez minutos de alcançar o maior momento de glória da sua História.

Mas ainda faltavam disputar dez minutos.

O Penafiel ainda não fizera um único remate naquela tarde. Viram-se remetidos à sua defesa face à pressão incessante do Amora e apenas conseguiram ir adiando aquele desfecho com muito sacrifício e alguma sorte à mistura. O golo sofrido foi um rude golpe e mudar o chip, passando da ideia vincada de aguentar sem sofrer para passar a procurar o golo do empate, implicava discernimento e agilidade mental. Mas estavam disputados cento e dez minutos de futebol; discernimento e agilidade mental era algo que já rareava.

Ivo Vieira, treinador do Penafiel, reagiu como mandavam as regras não escritas do futebol: colocou toda a carne no assador. Na ausência de pernas para percorrer a distância até à baliza de Manuel Baldé - cuja ausência de referências até ao momento era demonstrativa da inoperância ofensiva do Penafiel durante cento e dez minutos -, o Penafiel começou a despejar bolas para a área do Amora. Todos os jogadores de campo com altura considerável subiram no terreno, causando o caos na disputa aérea de cada chuveirinho nortenho.

Numa inversão de 180 graus em relação ao jogo até aí, o cronómetro parecia agora procrastinar, avançando lenta e vagarosamente. Frodo Zarco olhou em sua volta e viu Gabriel Capixaba de pé a gritar instruções para dentro de campo. Ao lado dele, Filipe Diogo, a jovem pérola do Amora que não saiu do banco nessa tarde, saltitava com as mãos a cobrirem-lhe o topo da cabeça e uma expressão de pânico na face. Léléco, o afroastro, avançava e recuava do banco para o relvado e vice-versa, tentando lidar com a pressão do momento.

Frodo Zarco não os veria dali, mas na curva sul havia quem roesse as unhas, tapasse a cara ou hiperventilasse. Bilbo Himura, no camarote, já ignorava olimpicamente o protocolo e assistia ao jogo de pé, gritando como um comum adepto de bancada. Algumas filas abaixo, António Silva, indisponível para o jogo por lesão, sofria como bom amorense em que se tornara, acompanhado por antigos jogadores como David Grilo, Juary ou Rony Fernandes. À distância, na Dinamarca, o matador renascido Flávio Silva gritava para a televisão como se os seus antigos colegas o pudessem ouvir.

Era uma cidade e uma região inteiras a sofrer, vendo a luz ao fundo do túnel surgir clara e cada vez mais brilhante, mas ainda temendo que algum obstáculo os impedisse de a alcançar.

O tempo avançava devagar... mas avançava. O Penafiel despejava a bola, Isaac Monteiro aliviava-a; menos alguns segundos para o final. Dino Leão antecipava-se a um adversário que, na ânsia de a recuperar, derrubava o menino; menos meio minuto. Um passe em profundidade mal medido devido ao desespero, bola saía pela linha de fundo e Manuel Baldé demorava o seu tempo a recomeçar o jogo; outro meio minuto que o cronómetro avançava.

Contava-se cada segundo, e de segundo em segundo se avançou até ao minuto 120.

Ninguém conseguia estar sentado naquele momento. O banco do Amora estava em peso junto à linha lateral e via o Penafiel lançar um último ataque. A bola chegou ao seu elemento diferenciador, Bruma. O extremo português recebeu a bola perto da área e enfrentou Tiago Louro, que foi quem lhe saiu ao caminho. Ainda lhe sobrava estranha agilidade para o tempo de jogo decorrido, agilidade que o menino do Amora já não tinha. Bruma flectiu para dentro e tirou-o do caminho.

Um arrepio frio percorreu a espinha de Frodo Zarco - recordou-se que na primeira volta da Primeira Liga, o Penafiel marcou o golo do empate no último minuto num remate de longe. Bruma encontrou um espaço livre para visar a baliza do Amora e disparou dali mesmo, com força, na direcção de Manuel Baldé. O guardião guineense do Amora deu dois pequenos passos no mesmo local para dar balanço ao corpo e poder responder ao remate do internacional português.

Era o primeiro remate do Penafiel no jogo e seria o último também.

A bola fez um efeito estranho, parecendo ir em ziguezague. Havia quem jurasse que a bola levava um rasto de chamas, como um cometa ao atravessar o espaço estelar em torno da Terra. Manuel Baldé deu os dois passitos iniciais e... estacou.

Gritou-se no Jamor. Urros de alegria e celebração. Tinha sido o único remate do Penafiel em todo o jogo. A bola saiu forte e Manuel Baldé não teria hipótese de a alcançar.

 

3reouML.gif

 

Não que precisasse, na verdade. A bola passou bem longe da baliza, inofensiva, originando celebrações na curva sul, no banco de suplentes e no relvado.

Estava na hora. Estava esgotado o tempo de compensação. Vários elementos do Amora apontavam para o pulso, tentando pressionar Luís Godinho a terminar a partida, mas o árbitro estava mais interessado em ameaçar Manuel Baldé pela demora na marcação do pontapé de baliza.

Manuel Baldé avançou e chutou a bola.

A bola subiu.

Os adeptos gritavam.

A bola subiu mais um pouco.

Ninguém olhava para a bola.

Todos olhavam para o árbitro.

O árbitro...

O árbitro...

Apitou!

Terminava no Jamor a epopeia do Amora Futebol Clube na final da Taça de Portugal 2025/26 e a Prova Rainha era do Maior da Margem Sul!

O relvado foi invadido em força pela comitiva do Amora. Jogadores corriam em ziguezague pelo relvado, abraçando colegas, dando largas às emoções há muito reprimidas. Alguns caíram e choravam prostrados na relva ao som do vulcão que entrara em erupção na curva sul.

Frodo Zarco e Léléco abraçavam-se na linha lateral. A restante equipa técnica envolveu-os logo de seguida. Aquela vitória também era deles, que faziam parte do projecto desde o início: os adjuntos Bruno Caires, Miguel Aleixo e Bruno Silva Lopes, que trabalhavam na sombra, longe dos holofotes mediáticos, mas cujo trabalho nos treinos fora essencial para todos os sucessos alcançados por Frodo Zarco e restante equipa.

O abraço desfez-se e Frodo Zarco deu dois passos na direcção do relvado. De súbito sentiu um choque. Sem dar conta, um grupo de jogadores aproximara-se sorrateiramente e despejaram-lhe um balde de água e gelo pela cabeça abaixo. Os miúdos fugiram antes que pudesse reagir, rindo-se como perdidos. O treinador ficou imóvel enquanto água lhe pingava do cabelo, da ponta do nariz e dos dedos.

Refeito do choque, Frodo Zarco riu-se, claro. Mas, mentalmente, anotou: "no próximo treino pagam com juros, seus bandalhos."

Os jogadores não tardariam a reunir-se e a correr na direcção da curva sul, onde milhares de amorenses aguardavam por eles em absoluta apoteose.

Afinal de contas, era dia de festa para a Margem Sul.

 

 

Por insistência de Frodo Zarco, todos os jogadores do Amora fizeram guarda de honra aos jogadores do Penafiel quando estes subiram a escadaria do Jamor para receberem as suas medalhas de finalistas. O gesto seria depois retribuído pelos penafidelenses quando foi a vez dos jogadores do Amora.

Um a um, os meninos de Frodo Zarco subiram e cumprimentaram os dignitários presentes na zona da entrega da taça. Todos eles paravam para tocar ao de leve na taça, rindo como os meninos que eram. Frodo Zarco sentiu um calor acolhedor invadir-lhe o coração. Os seus meninos estavam a crescer a olhos vistos.

Recordava-se de alguns deles nos seus primeiros treinos, envergonhados e tímidos. Das dificuldades que muitos tiveram nos primeiros meses, das dúvidas sobre as suas próprias qualidades, do esforço para melhorarem e corresponderem às expectativas que neles depositara.

Aquela Taça era deles. Mereciam-na mais do que ninguém.

Ficou para trás e foi o último a subir a longa escadaria. De ambos os lados multiplicavam-se mãos estendidas de adeptos do Amora desejosos de o abraçar ou simplesmente tocar-lhe. A única barreira a impedi-los eram duas linhas de stewards que mal chegavam para os segurar. Frodo Zarco abriu os braços e foi dando high fives pelo caminho, fazendo as delícias de fãs e adeptos.

Chegado ao alto, cumprimentou os vários dignitários e ouviu parabéns de todos eles. Bilbo Himura era o último deles. Esperava por ele com um largo sorriso estampado na face. Um sorriso que reconhecia de olhos fechados, que conseguia desenhar na sua imaginação.

Era um sorriso que conhecia desde criança. O mesmo que vira quando desceram juntos as ruas da Cruz de Pau numa bicicleta sem travões. O mesmo que vira quando saltavam do primeiro andar de prédios em construção para montes de areia amarela despejada na rua. Bilbo Himura tinha, naquele momento, o mesmo sorriso inocente e infantil de quando eram duas crianças travessas sem noção dos arriscados disparates que faziam, e pelos quais os pais lhes puxavam as orelhas - tantas vezes que se admiravam de nenhum deles ter ficado com orelhas de abano.

Chegou por fim ao pé do amigo.

"Senhor Bilbo Himura, grande honra em conhecê-lo", disse, sarcasticamente.

"A honra é minha, senhor Frodo Zarco."

Olharam um para o outro por um longo momento, forçando uma expressão séria. Frodo Zarco foi o primeiro a ceder; primeiro um sorriso contido, depois a expressão de quem está a conter um ataque de riso... e ambos sucumbiram a uma gargalhada gutural, caindo nos braços um do outro.

"Eu disse-te, carai. Eu disse-te que eras o gajo certo para treinar a equipa neste projecto!", trovejou Bilbo de lágrimas nos olhos.

Frodo Zarco amava aquele homem.

 

vghAZP6.jpeg

uEBedUN.jpeg

 

A festa seria longa e prolongar-se-ia pela noite fora. Àquela hora já as ruas da cidade de Amora estavam cheias de foliões a celebrar a inédita conquista da Taça de Portugal. O autocarro haveria de chegar com a festa no auge, abanando em todas as direcções pela multidão enlouquecida que o envolveria, avançando aos tombos pelo meio de tochas e fumos azuis que obscureciam o ambiente.

Mas a cerimónia da entrega da Taça seria a mais viva recordação que Frodo Zarco guardaria daquele dia.

Foi o último a chegar próximo da taça. Mirou-a de perto, viu o seu reflexo no metal acinzentado e sorriu. Só naquele momento teve a certeza que a Taça de Portugal era do Amora. Tentou ocultar uma lágrima marota que teimou em brotar para fora do olho e afastou-se para deixar os seus jogadores serem o centro das atenções.

Joca encabeçava o grupo. A taça vinha a caminho. Frodo Zarco viu a mancha azulada que preenchia parte da bancada central e toda a curva sul. Estavam todos de pé e gritavam algo que lhe soava como "ôôôôôôôôô", que tinha o efeito semelhante ao rufar de tambores a antecipar o clímax.

O capitão Joca recebeu a taça. Olhou-a, embevecido. Ninguém mais do que ele merecia levantá-la. Terminava a sua carreira profissional com mais de vinte anos a jogar pelo Amora, e terminava-a como capitão, vencedor da Taça de Portugal e marcador do golo decisivo que assinava a maior página de glória da História centenária do seu clube do coração.

Olhou para os adeptos. Os colegas avançaram, envolvendo-o. O capitão Joca, Jorge Monteiro para os amigos e no mundo do futebol, ergueu a taça no exacto momento em que milhares de confettis azuis foram disparados para o ar.

Os adeptos gritavam o nome do seu clube e dos seus heróis, saltando e dançando no Jamor, enquanto a taça circulava de mão em mão, pois todos queriam tocar-lhe e erguê-la. Quando chegou às mãos de Frodo Zarco, o treinador esperou pelo incitamento dos adeptos, provocando-os.

"Frodo! Frodo! Frodo!"

Naquele momento, com a taça erguida, rodeado pelos seus meninos, por Bilbo Himura e pelos largos milhares dos maravilhoso adeptos do Maior da Margem Sul, sentiu-se como tendo alcançado o topo da sua carreira no futebol.

  • Like 4

Compartilhar este post


Link para o post

Por algum motivo a minha net falhou quando estava a carregar a página e li tudo sem poder visualizar imagens ou gifs. Tornou a leitura ainda mais emocionante mas ao mesmo tempo, o pequeno almoço já estava a cair mal! Tava difícil carai!

Não sabia dessa curiosidade relativa ao número 42 (vou investigar) mas parece que foi feito para a tua história! Tal como o desfecho desta final ficar ligada ao Joca. Acho que os deuses se uniram, pregaram uma pequena partida para assustarem o Frodo Zarco, mas no final tudo saiu perfeito!

Pena a tarde desinspirada do Leonardo Brandão, talvez se uma das bolas entra, o resultado teria sido mais confortável. No entanto fica uma grande demonstração de futebol por parte do Amora, por parte do todos os meninos (e não só) que fazem parte deste projeto!

Que seja a primeira grande conquista de muitas! Agora vou ver os lances!

A tua manobra ofensiva, apesar de táticas diferentes, acaba por ser idêntica à minha. Mas vejo combinações e um futebol muito mais rápido (posso estar a ser iludido pela velocidade do motor de jogo) e fluído no teu jogo! Dá gosto ver!

Editado por Kluivert

Compartilhar este post


Link para o post

Valeu a pena a espera! E ainda temi, quando vi que tinhas empatado nos 90min, que viesse aí mais uma pausa 😅

 

O Brandão fez de tudo para o post ficar longo, temos de lhe agradecer porque ler o que escreves sabe sempre bem. Mas também foi o responsável por te ter dado uma ansiedade tremenda, foi daquelas tardes não mesmo. Ainda bem que isso é a exceção e não a norma dele. 

 

E era óbvio quem ia resolver o jogo! Grande Joca, a melhor despedida possível! Muito merecido mesmo! E é como o Kluivert disse, a tua movimentação ofensiva, por mais "óbvia" que pareça, é daquelas sempre difíceis de defender. Faz lembrar o Robben, toda a gente sabia o que ele ia fazer mas mesmo assim... Fundamental o ponta de lança em formato de last pass.

 

Que não fiquem por aqui as conquistas! Parabéns!

Compartilhar este post


Link para o post

Foi preciso ir a prolongamento mas foi uma excelente final e muito bem disputada. O vencedor foi mais que justo e o Amora continua nas bocas do mundo

Compartilhar este post


Link para o post

Porra, que foi tudo menos "fácil". Domínio total do Amora na segunda parte e no prolongamento, mas o nervosismo e desacerto de alguns jogadores (o ponta de lança então foi desastroso) quase levava a que pudesse ocorrer uma surpresa. Foi o capitão e filho da casa, Joca, quem acabou por acalmar as hostes e dar esta Prova Rainha ao seu clube do coração. Excelente trabalho! 

Compartilhar este post


Link para o post

Crie uma conta ou entre para comentar

Você precisa de ser membro desta comunidade para poder comentar

Criar uma conta

Registe-se na nossa comunidade. É fácil!

Criar nova conta

Entrar

Já tem uma conta? Faça o login.

Autentique-se agora
Entre para seguir isso  

  • Todo o Mundial 2026 no CMPT
  • Outros membros neste tópico

    Nenhum utilizador registado está a visualizar esta página.

×
×
  • Criar Novo...