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A controvérsia sobre um museu que ainda não existe: Descobertas ou Expansão?

Publicações recomendadas

 

A questão do nome é um pouco diferente, até porque a discussão não se prende só pelo nome em si, vai mais longe: é uma discussão já antiga sobre aquilo que levou os portugueses de então a procurar novas terras, os seus objectivos, as suas motivações...

 

Porque como o Mayday disse, ainda há uma certa franja da historiografia portuguesa a querer instrumentalizar os descobrimentos, dar-lhe significado político, construir uma narrativa desconstruindo as fontes históricas. A tal história do Portugal Glorioso por oposição ao Portugal de agora que o Daniel Oliveira refere. E isso, sim, é uma questão de revisionismo histórico gritante e criminoso para a nossa memória enquanto povo.

 

Então a questão do nome é diferente porque foi dado por historiadores (esses maricas :mrgreen:) passado uns séculos e não pelas pessoas da época?

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Não. Acho que não percebeste nada, Jimpo.

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Não. Acho que não percebeste nada, Jimpo.

 

Por isso mesmo é que lhe estou a fazer perguntas porque é um gajo interessante e que não é sobranceiro

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Quanto mais me debruço sobre a polémica que a designação do Museu suscitou mais me admiro como ainda não surgiu por aí nenhum movimento a pedir que se altere o título da obra-prima do Camões. "Lusíadas" não corresponde ao que se sabe hoje. O BH que me corrija se estiver enganado mas penso que é dado adquirido que os Lusitanos não constituem a génese dos portugueses. Nem em termos territoriais nem genéticos. Pelo que, naturalmente, fazer a associação desse povo aos portugueses que desbravaram mundo nos séculos XV e XVI é um manifesto erro histórico que deveria ser corrigido. Pelo menos a aceitar como determinantes alguns dos argumentos que agora pretendem banir o conceito dos "Descobrimentos".

 

Outra coisa é a letra do hino. Urge mudá-la porque essa história de "Heróis do Mar" e "Nobre Povo" tem apenas como objetivo engrandecer a nossa história por oposição à nossa pequenez atual além de que enaltece apenas os aspetos positivos escondendo os negativos. Uma referenciazinha ao "Povo Esclavagista e Opressor" ficaria muito bem por respeito à evidência histórica...

 

São apenas duas ideias para serem trabalhadas pelos apologistas do correto. Politicamente falando, claro...

Editado por Descartes

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Mas achas que um museu não se deve obrigar à evidencia histórica? Que história, neste caso, deve o museu contar e de que forma?

 

As ideias são bonitas, mas muito forçadas.

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Mas achas que um museu não se deve obrigar à evidencia histórica? Que história, neste caso, deve o museu contar e de que forma?

 

As ideias são bonitas, mas muito forçadas.

 

Claro que deve. Por isso mesmo interessar-me-ia muito mais ver discutido o conceito e programa museológico do que o seu nome. Para ser franco, não desvalorizando a sua importância, a mim tanto me faz. "Descobrimentos Portugueses", "Expansão Marítima", "Gesta Lusitana"... É-me indiferente embora saiba que é relevante. É tão relevante como o título de um livro, de um filme ou de uma música. Serve para sabermos o que lá vamos encontrar. No Museu de Arte Antiga não espero ver trabalhos da Joana Vasconcelos, tal como no Museu do Azulejo não espero ver peças de carpintaria. No entanto, para mim, fica-se por aí a sua importância. Para me indicar, enquanto visitante, o que lá vou encontrar. E Museu das Descobertas, na minha opinião, funciona lindamente para esse objetivo.

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Claro que deve. Por isso mesmo interessar-me-ia muito mais ver discutido o conceito e programa museológico do que o seu nome. Para ser franco, não desvalorizando a sua importância, a mim tanto me faz. "Descobrimentos Portugueses", "Expansão Marítima", "Gesta Lusitana"... É-me indiferente embora saiba que é relevante. É tão relevante como o título de um livro, de um filme ou de uma música. Serve para sabermos o que lá vamos encontrar. No Museu de Arte Antiga não espero ver trabalhos da Joana Vasconcelos, tal como no Museu do Azulejo não espero ver peças de carpintaria. No entanto, para mim, fica-se por aí a sua importância. Para me indicar, enquanto visitante, o que lá vou encontrar. E Museu das Descobertas, na minha opinião, funciona lindamente para esse objetivo.

A uma obra de ficção pode não importar se chamamos O Castelo dos Mortos ou Os Mortos do Castelo, mas com a realidade e a história não se pode ser tão lesto.

 

Concordo, só não desvalorizo a importância da discussão para encontrar o termo mais correcto. Neste caso, o próprio nome do museu é parte do programa museológico. Descobrimentos ou Expansão diz-nos logo, à partida, como queremos e se vamos vamos abordar a questão da colonização, por exemplo, esse tema tabu que os Portugueses não sabem discutir.

 

Daí que a importância do nome do museu não seja apenas mais uma chateza dos tempos. Decidir se um termo que já tem uma história de uso (basta pensar na Exposição do Mundo Português e do que já, e como, catalogámos como ideia de Descobrimentos), que para os historiadores não traduz a forma mais correcta, etc, parece-me certo e adequado. O rescaldo da história que queremos memorizar, o que ficou do que passou, sempre nos impediu de historiar e por consequência de ensinar. Este museu vem preencher uma grande lacuna e acho bem que se traga à discussão estas minudências.

 

Para mim era Museu da História Marítima Portuguesa. Nem Descobrimentos, nem Expansão.

 

Também, tanta m*rda e os Portugueses vão continuar a não entrar em museus em Portugal. A não ser para ir tirar fotos ao MAAT, mas aí nem precisam de entrar.

Editado por Mayday

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A uma obra de ficção pode não importar se chamamos O Castelo dos Mortos ou Os Mortos do Castelo, mas com a realidade e a história não se pode ser tão lesto.

 

Concordo, só não desvalorizo a importância da discussão para encontrar o termo mais correcto. Neste caso, o próprio nome do museu é parte do programa museológico. Descobrimentos ou Expansão diz-nos logo, à partida, como queremos e se vamos vamos abordar a questão da colonização, por exemplo, esse tema tabu que os Portugueses não sabem discutir.

 

Daí que a importância do nome do museu não seja apenas mais uma chateza dos tempos. Decidir se um termo que já tem uma história de uso (basta pensar na Exposição do Mundo Português e do que já, e como, catalogámos como ideia de Descobrimentos), que para os historiadores não traduz a forma mais correcta, etc, parece-me certo e adequado. O rescaldo da história que queremos memorizar, o que ficou do que passou, sempre nos impediu de historiar e por consequência de ensinar. Este museu vem preencher uma grande lacuna e acho bem que se traga à discussão estas minudências.

 

Para mim era Museu da História Marítima Portuguesa. Nem Descobrimentos, nem Expansão.

 

Também, tanta m*rda e os Portugueses vão continuar a não entrar em museus em Portugal. A não ser para ir tirar fotos ao MAAT, mas aí nem precisam de entrar.

 

Não sei porque é que designar o museu como Descobrimentos ou Expansão poderá condicionar a forma como se abordará a colonização. Falha minha, com certeza. Interessa-me saber como essa questão será abordada, claro, mas não entendo porque é que a escolha do nome implicará seguir um qualquer caminho pré-definido.

 

Como já disse, tanto me faz que o nome seja um ou outro. Esse que tu escolherias também me parece bem. É-me igual...

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Não sei porque é que designar o museu como Descobrimentos ou Expansão poderá condicionar a forma como se abordará a colonização. Falha minha, com certeza. Interessa-me saber como essa questão será abordada, claro, mas não entendo porque é que a escolha do nome implicará seguir um qualquer caminho pré-definido.

 

Como já disse, tanto me faz que o nome seja um ou outro. Esse que tu escolherias também me parece bem. É-me igual...

Porque o termo Descobrimentos está associado a uma forma de tratar a colonização. Seja como essa história se nos apresenta hoje, seja nos livros de escola, seja em eventos como o que mencionei, etc. Tal como Expansão trata a ideia de colonização de outra forma.

 

Talvez se venha a chamar Descobrimentos e o programa trate a colonização da forma como aqueles que defendem Expansão entendem que deve ser tratada, mas é por isso que o nome do museu tem alguma relevância.

 

Parece que não, mas os termos representam visões diferentes.

Editado por Mayday

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Porque o termo Descobrimentos está associado a uma forma de tratar a colonização. Seja como essa história se nos apresenta hoje, seja nos livros de escola, seja em eventos como o que mencionei, etc. Tal como Expansão trata a ideia de colonização de outra forma.

 

Talvez se venha a chamar Descobrimentos e o programa trate a colonização da forma como aqueles que defendem Expansão entendem que deve ser tratada, mas é por isso que o nome do museu tem alguma relevância.

 

Parece que não, mas os termos representam visões diferentes.

 

Isso já é demasiado técnico para mim. Antes desta polémica nem sequer tinha ideia os diferentes termos implicavam visões diferentes da História.

 

Para mim Descobrimentos corresponde a um determinado período temporal. Sempre entendi que a interpretação da História sobre esse período, que foi evoluindo e nunca deixou de me fascinar e de querer saber sempre mais, se identificava como a História dos Descobrimentos. Agora é-me transmitido que determinada visão sobre a História desse período já não pode ter associado o termo "Descobrimentos". Sinto-me como se me dissessem que, afinal, a Antiguidade Clássica, a Reconquista, o Renascimento, o Estado Novo já não pudessem ser utilizados para identificar um determinado período histórico porque a esses termos está associada uma visão eventualmente ultrapassada. Só serve para me baralhar as ideias.

 

Utilizando uma analogia mais prosaica é como se me dissessem que o Estádio da Luz teria que mudar de nome porque se chegou à conclusão que, naquele local, por vezes é de noite e as luzes estão desligadas.

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Quanto mais me debruço sobre a polémica que a designação do Museu suscitou mais me admiro como ainda não surgiu por aí nenhum movimento a pedir que se altere o título da obra-prima do Camões. "Lusíadas" não corresponde ao que se sabe hoje. O BH que me corrija se estiver enganado mas penso que é dado adquirido que os Lusitanos não constituem a génese dos portugueses. Nem em termos territoriais nem genéticos. Pelo que, naturalmente, fazer a associação desse povo aos portugueses que desbravaram mundo nos séculos XV e XVI é um manifesto erro histórico que deveria ser corrigido. Pelo menos a aceitar como determinantes alguns dos argumentos que agora pretendem banir o conceito dos "Descobrimentos".

 

Outra coisa é a letra do hino. Urge mudá-la porque essa história de "Heróis do Mar" e "Nobre Povo" tem apenas como objetivo engrandecer a nossa história por oposição à nossa pequenez atual além de que enaltece apenas os aspetos positivos escondendo os negativos. Uma referenciazinha ao "Povo Esclavagista e Opressor" ficaria muito bem por respeito à evidência histórica...

 

São apenas duas ideias para serem trabalhadas pelos apologistas do correto. Politicamente falando, claro...

 

Desculpa lá mas isto é uma analogia estúpida. Uma coisa é escolher o nome que se dá a um museu novo, outra coisa é ir atrás séculos e retroactivamente alterar o nome de uma obra, o que até lhe iria adulterar o conteúdo cultural e histórico, pois a escolha de nome está no contexto da época que foi escrita etc.

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Desculpa lá mas isto é uma analogia estúpida.

 

Quer dizer que cumpre perfeitamente o meu objetivo.

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Museu das "Descobertas" ou da "Expansão"? Nome abre guerra entre historiadores

 

Historiadores defendem o nome "Museu das Descobertas", mas há quem o considere pouco inclusivo e uma reminiscência do Estado Novo

 

Uma promessa eleitoral acabou por criar um conflito de designações entre académicos. Como devemos baptizar um museu dedicado às navegações e explorações dos séculos XV e XVI, da colonização do Brasil às conquistas de Ceuta e de Goa? A opinião não é unânime entre especialistas: alguns historiadores, através de uma petição, defendem o nome "Museu das Descobertas", mas há quem o considere pouco inclusivo e uma reminiscência do Estado Novo, sugerindo por isso o nome "Museu da Expansão".

 

Ora, a construção de um museu dedicado à expansão portuguesa foi uma das promessas do actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML), Fernando Medina, durante a corrida à presidência da autarquia em 2017. De acordo com o programa eleitoral, o próprio designa-o de "Museu das Descobertas": uma "estrutura polinucleada na cidade que inclua alguns espaços/museus já existentes e outros a criar de novo, e que promova a reflexão sobre aquele período histórico nas suas múltiplas abordagens, de natureza económica, científica, cultural, nos seus aspectos mais e menos positivos, incluindo um núcleo dedicado à temática da escravatura".

 

Seis meses depois das eleições autárquicas, através de uma carta publicada no jornal Expresso, uma série de historiadores e investigadores sociais acusaram a designação original do museu - "Museu das Descobertas" - de "cristalizar uma incorrecção histórica", por não ser inclusivo com "os povos africanos, asiáticos e americanos" e de ser uma reminiscencia do Estado Novo.

 

"Ter-se-ão os povos africanos, asiáticos e americanos, de histórias milenares, sentido 'descobertos' pelos portugueses? E como se sentirão hoje as populações oriundas desses territórios ao visitarem um espaço museológico que priva os seus antepassados de iniciativa histórica, reduzindo-os ao papel de objecto da acção descobridora, muitas vezes violenta, dos portugueses?", lê-se na carta assinada por especialistas portugueses e estrangeiros, vinculados às universidades de Harvard, Yale, e UCLA, nos Estados Unidos, ao Collège de France, Sorbonne, EHESS, Paris e a EPHE, Paris, às principais universidades brasileiras, São Paulo, Universidade de Campinas, Universidade Federal da Baía, Universidade Federal Fluminense, o University College London, UK, ou a Universidad Complutense de Madrid.

 

Petição insiste nas "Descobertas". Jaime Nogueira Pinto critica os "obcecados da correcção política"

 

A recusa do nome "Museu das Descobertas" não é unânime. Através de uma petição do movimento Nova Portugalidade, especialistas como Jaime Nogueira Pinto e Miguel Castelo-Branco insistem em usar derivados da expressão "Descobrimentos", tal como originalmente proposto pela CML, recusando qualquer "tentativa de revisionismo ou invenção do passado". "As Descobertas foram-no, sim, pois aos portugueses coube descobrir com o seu esforço os caminhos do mundo, revelando à Europa outras galáxias civilizacionais", lê-se na petição.

 

À SÁBADO, Jaime Nogueira Pinto diz que, para si, "está muito bem 'Museu das Descobertas' ou 'Museu dos Descobrimentos'". "Quando se faz em Portugal, em Lisboa, um 'Museu das Descobertas' deve precisamente pensar-se no que para nós, portugueses, e no que para os europeus foi o encontro com esses novos mundos. Foi uma 'descoberta'," argumentou o historiador. Para Nogueira Pinto, "há neste processo um "descobridor" e um "descoberto" com diferentes percepções: "Falar em 'encontro de culturas' é muito mais falacioso".

 

Para o politólogo, não querer associar o nome do museu aos descobrimentos provém de uma "doença cultural que atravessa o Ocidente, que pretende policiar o pensamento e a linguagem": "Eu diria antes que estamos perante uma divisão entre pessoas descomplexadas, independentes, conscientes da própria identidade e subjectividade e pessoas obcecadas pela enfermidade do 'politicamente correcto'", atira.

 

Jaime Nogueira Pinto é um dos subscritores da petição do movimento Nova Portugalidade, que propõe um nome que agrega ambas expressões: "Museu dos Descobrimentos, da Expansão e da Portugalidade". À SÁBADO, o presidente da Nova Portugalidade (NP), Rafael Pinto Borges, explicou que, com este nome, pretende "apelar à inclusão": "Faz falta a Portugal uma instituição que atribua ao mundo cultural português - que é a Lusofonia, mas não se extingue na Lusofonia - o estudo e importância que ele tanto merece".

 

"A Portugalidade, como lhe chamava Miguel Torga, tem 300 milhões de pessoas. É necessária - e para ontem - uma instituição que se dedique a estes povos nossos irmãos, pois estes povos são o resultado humano dos Descobrimentos", frisa Pinto Borges.

O criador da petição, que recolheu quase mil assinaturas em menos de duas semanas, diz que "o Museu deve ser 'dos Descobrimentos', porque Portugal descobriu". "[A expressão] limita-se a afirmar uma evidência: que a globalização, a era gâmica [de Vasco da Gama] teve pioneiros, que foram os portugueses", argumenta.

 

Além de Nogueira Pinto, que o líder da NP classifica de "patriota", entre os subscritores da petição estão Dom Duarte de Bragança, o autor brasileiro Carlos Nougué e o líder da comunidade portuguesa da Tailândia, Jirawach Wongngernyuang Dias.

 

Sábado

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É sempre da escravatura que estamos a falar?

 

Seja a propósito de um discurso do Presidente seja de um museu que há-de nascer, falar sobre os Descobrimentos parece já indissociável de discutir a escravatura e o papel que nela tiveram os portugueses. Reconhecê-lo é um passo para a reparação. Fomos ouvir um sociólogo moçambicano, uma historiadora brasileira, uma portuguesa afrodescendente e o director de um museu nacional.

 

Quando a polémica estalou nos jornais, depois de publicada no semanário Expresso uma carta aberta em que dezenas de académicos portugueses e estrangeiros se insurgiam contra o nome do futuro museu onde o presidente da câmara quer ver contada a história dos Descobrimentos, já Lisboa estava cheia de turistas. Será que sentem falta desse museu que há-de vir ou basta-lhes uma visita à Torre de Belém, tirar umas fotografias junto ao Padrão, com os pés assentes no planisfério, e ficar uns minutos em frente dos Painéis de São Vicente, tentando, com ou sem sucesso, identificar o Infante D. Henrique?

 

De Museu das Descobertas, assim se chamava no programa com que o socialista Fernando Medina se candidatou à autarquia, passou a Museu da Descoberta (assim, sem “s”) nas propostas para a cidade pós-eleições. Um projecto que fora já muito discutido quando o agora primeiro-ministro presidia a Lisboa e tinha Medina como número dois. O mesmo António Costa que dizia na sexta-feira em entrevista ao Ípsilon, de forma algo surpreendente num chefe de Governo português, que "é preciso descolonizar a expressão Descobrimentos".

 

Do que há-de ser o Museu da Descoberta – a acreditar que se concretiza, uma vez que os que já estiveram previstos à volta do mesmo tema ficaram pelo caminho – pouco ou nada se sabe. Contactados pelo PÚBLICO, nem o presidente da autarquia nem a sua vereadora da Cultura quiseram pronunciar-se. “O projecto ainda está a ser desenhado, pelo que a CML entende que é prematuro falar sobre ele”, disse Catarina Vaz Pinto. Medina optou por remeter qualquer questão para o seu programa de governação, onde reitera o compromisso de incluir no futuro museu um núcleo dedicado à escravatura.

 

Foi precisamente porque a retórica política habitualmente associada aos Descobrimentos, mesmo no Portugal de hoje, tem tendência a centrar-se nos aspectos positivos, deixando de fora temas difíceis como o da escravatura ou abordando-os com brevidade, que não tardou a que muitos académicos, políticos, cronistas, directores de museus e outros responsáveis públicos se juntassem ao debate.

 

Tinha sido assim quando, em Abril do ano passado, o chefe di Estado esteve na ilha de Gorée, no Senegal, um dos maiores centros africanos do comércio de escravos entre os séculos XV e XIX, fundado a partir de uma feitoria portuguesa. Foi o facto de Marcelo Rebelo de Sousa ter, então, preferido sublinhar o contributo do Marquês de Pombal para os esforços abolicionistas a aproveitar a oportunidade para reconhecer as responsabilidades que o país teve durante séculos no comércio de milhões de pessoas – a coroa portuguesa dominou por completo o negócio transatlântico nos séculos XV e XVI – que instalou a polémica. Ainda para mais quando o cenário era de grande simbolismo, um local património da humanidade onde o Papa João Paulo II pedira já perdão pela escravatura.

 

Houve quem defendesse o Presidente e houve quem o criticasse duramente. Nessa altura, como agora, o pano de fundo da discussão é a capacidade – ou a incapacidade – de Portugal em reconhecer o seu passado esclavagista. Nessa altura, como agora, falava-se da necessidade de actualizar o discurso em relação à Expansão para que se tornasse menos eurocêntrico (ou lusocêntrico) e para que se afastasse de uma retórica que começou a ser construída no fim do século XIX e que se consolidou com o nacionalismo do Estado Novo, baseada na associação dos Descobrimentos a uma sucessão de actos heróicos, corajosos, que se traduziu no apogeu improvável de um pequeno país que contribuiu como poucos para dar a conhecer o mundo ao mundo. Mas falava-se também, e por oposição, de orgulho na história nacional, numa relação descomplexada com o passado que dispensa quaisquer actos de contrição e, sobretudo, um pedido de desculpa.

 

De um lado e de outros as posições extremaram-se, mesmo quando alguns insistiam em criar consensos. A história, também aqui, repete-se.

 

Afinal, o que quer a autarquia com este Museu da Descoberta? Será que é efectivamente um museu ou uma rede de espaços que já existem com uma espécie de centro interpretativo a fazer a síntese, carregado de multimédia e para consumo rápido, essencialmente destinado aos turistas que cada vez mais visitam a cidade? Se é um museu a criar, com que peças se vai fazer? E, se a sua ambição é, ao que parece, nacional, que sentido faz ser de iniciativa camarária?

 

Sem respostas de qualquer entidade oficial – contactados pelo PÚBLICO, a Direcção-Geral do Património Cultural, que tutela os museus do Estado, e o Ministério da Cultura também não foram além do comentário de circunstância a elogiar qualquer iniciativa que se destine a preservar o património português e a reforçar a cooperação entre o poder central e Lisboa –, não há nada a fazer se não reflectir sobre o programa. O que deve ser o novo museu? E que história ou histórias deve ele contar?

 

O director de um museu português com uma colecção particularmente ligada à época da Expansão, um sociólogo moçambicano que é professor de Estudos Africanos na Suíça, e uma historiadora brasileira que se tem dedicado ao estudo da diáspora africana nas Américas contribuem, a pedido do PÚBLICO, para o debate. A eles junta-se a presidente de uma associação portuguesa de afrodescendentes que vai construir um memorial de homenagem aos escravos em Lisboa.

 

A discussão que o nome levantou, defendem os três primeiros, é sintomática do quão importante é falar sobre este passado partilhado, complexo, sem adoptar posições extremadas ou maniqueístas, insistindo numa leitura múltipla e aberta da história, com muitos narradores, numa leitura capaz de fazer a ponte com o presente. Ainda que pareça prematuro, discutir o nome do museu, acrescentam, ajuda a pensar no que ele pode e deve vir a ser. Tornar visível este passado histórico no que à escravidão diz respeito, procurando estabelecer essas ligações com a contemporaneidade, é o que a presidente da Djass quer fazer a partir do memorial.

 

Mudanças no Brasil

 

No Brasil, onde o tema da escravatura é muitíssimo mais estudado do que em Portugal, a palavra “Descobrimentos” tem sido criticada por pressupor que ali não havia ninguém antes dos portugueses, diz Martha Abreu, professora da Universidade Federal Fluminense, no estado do Rio de Janeiro. No seu lugar tem-se generalizado o uso de “chegada”. Este, explica, é um dos reflexos da mudança que tem vindo a acontecer no país. “A história do negro no Brasil foi até há pouco tempo contada a partir do olhar branco e de forma muito incompleta. Muitas conquistas e muitos protagonismos da população negra depois da abolição não foram reconhecidos. Mas a situação tem mudado.”

 

Abreu, que coordena vários projectos sobre a história e a memória da escravidão, diz que a Lei 10639, diploma em vigor que torna obrigatório o estudo da história do continente africano e da cultura afro-americana nas escolas, tem sido um valioso “instrumento de reeducação das relações raciais para brancos e negros”, ajudando a identificar o racismo no quotidiano de hoje.

 

Um museu como o que a autarquia propõe para Lisboa, se souber tratar a memória da escravatura na óptica da reparação simbólica e histórica, também pode contribuir para uma mudança, acrescenta esta investigadora que está envolvida na criação do Museu da Escravidão e Liberdade (nome provisório) no Rio de Janeiro, um projecto do governo da cidade a que está associada a UNESCO (sigla em inglês da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e que deverá estar pronto em 2021. “Reparar é reconhecer a participação de Portugal no tráfico e a violência desta actividade. Essa reparação é fundamental para que se possa escrever uma nova história da colonização sem a reprodução de distorcidas e preconceituosas explicações sobre os africanos e afro-americanos.”

 

Não se trata, acrescenta o sociólogo moçambicano Elísio Macamo, de criar um museu da escravatura para que Portugal possa pedir desculpa pelo seu passado histórico, mas de olhar para ele como uma oportunidade para demonstrar um “sentido de moral atento à história e à diversidade que ela produziu”. Os nomes, esses, serão sempre controversos, reconhece este professor de Estudos Africanos. O importante é a intenção que sustenta o projecto e a forma como se documenta a dificuldade de tratar estes assuntos.

 

“Se os europeus quiserem ter o mérito de terem contribuído para um novo sentido de humanidade, algo que o Iluminismo sempre propalou, então não é aos africanos que devem pedir desculpas, mas sim a si próprios porque com a escravatura e com o colonialismo teriam violado os seus próprios princípios éticos. [...] Reconhecer um erro histórico é saber aprender com a História.” O que Portugal precisa, defende o investigador, tal como outros países que tiveram um passado semelhante, com impérios coloniais, é um “museu da Redescoberta, isto é, da redescoberta da sua própria humanidade”, algo que só poderá resultar de uma reflexão ética séria e da certeza de que a moral é algo que precisa de ser constantemente negociado.

 

“Espero que tenham aprendido que o mal que eles fizeram aos outros devolveu-os à sua condição humana, mas ao mesmo tempo, e através da abolição e da descolonização, lhes deu a possibilidade de se reconciliarem com os valores que eles conscientemente violaram. É esse, em minha opinião, o passado que precisa de ser reflectido e celebrado. A grandeza de Portugal está na sua consciência moral.”

 

A historiadora Martha Abreu também recusa uma narrativa limitada à denúncia e à vitimização das pessoas escravizadas, lembrando que o esforço do Brasil vai hoje no sentido de sublinhar o contributo dos africanos na construção da identidade do país. “A memória da escravatura é ainda uma coisa muito sofrida, mas está sendo exposta e divulgada. Não mais está sendo colocada debaixo do tapete. Precisamos de falar na violência, mas também na colossal obra construída pelos africanos apesar dela. A resistência e as inúmeras formas de reconstrução da vida e da esperança, como as famílias escravas, a música negra, as religiões afro-americanas, são fundamentais para que se possa contar uma história mais verdadeira e onde todos, mas especialmente as crianças e jovens negros, possam ter orgulho do seu passado.”

 

É também o contributo dos africanos para a construção de Portugal que Beatriz Gomes Dias, presidente da Djass, a associação que vai construir um memorial da escravatura no âmbito do Orçamento Participativo (OP) de Lisboa, quer ver sublinhado.

 

O monumento que homenageia os milhões de pessoas escravizadas e que quer pôr o país a reflectir sobre esta herança pesada que tem reflexos óbvios no racismo que marca a sociedade portuguesa e que muitos se recusam a reconhecer ou a discutir em profundidade, deverá ser construído no próximo ano.

 

Memorial e Museu da Descoberta não têm nada que ver um com o outro, sublinha Beatriz Gomes Dias, que ainda não perdeu a esperança de ver o projecto promovido pela associação construído num dos relvados da Ribeira das Naus, junto à Praça do Comércio, tal como previsto na candidatura ao OP. “Temos tido reuniões com a câmara e estamos a estudar as formas de implantação. Queremos que nasça de uma discussão com a sociedade civil porque, ao contrário deste museu de que se fala, foi da sociedade civil que o memorial partiu. Isto porque o Estado português continua a resistir em reconhecer a escravatura como um capítulo longo e muitíssimo violento da história do país.”

 

Reparar, insiste a historiadora Martha Abreu, exige este movimento de auto-reflexão, “uma história verdadeira pelo lado europeu” que reconheça também a pilhagem e a violência, algo fundamental para a reeducação de todos, brancos e negros, europeus e não-europeus.

 

Disneylândia dos Descobrimentos

 

António Filipe Pimentel, historiador de arte e director do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), defende que a investigação tem vindo a distanciar-se de uma leitura que isenta o império português de responsabilidades na escravatura e noutras formas de violência, embora reconheça que o discurso público, mesmo aquele que é feito através do que mostram os museus, tem sido lento a acompanhar o que se vai produzindo nas universidades.

 

Pimentel não tem dúvidas de que falta um grande museu em Lisboa em que a época dos Descobrimentos seja abordada de forma consistente em todas as suas valências, “sucessos e tragédias”. Diz, no entanto, que esse museu não precisa de ser criado, mas recriado – e que é o de Arte Antiga, para o qual há já um plano de ampliação que nenhum poder administrativo, nem local nem central, parece apostado em desbloquear, em financiar. “Os museus públicos são, por natureza, coisas vivas, não são jazigos. Claro que, na subnutrição a que são obrigados, esta urgência do novo sem que se pense em tirar os que já temos da quase indigência choca os que neles trabalham.” É neste cenário, assegura o historiador de arte, que importa parar para pensar: “Queremos um road show da Expansão que já deu origem a uma zaragata ideológica, feito a pensar só em quem vem de fora, ou queremos um museu sério onde muitos portugueses, que pouco sabem sobre Descobrimentos, apesar de terem decorado uns nomes e umas datas, aprendam sobre o seu país? Esse museu sério já existe, só não existe a sério.”

 

Com “80 a 90% do seu acervo relacionado com os Descobrimentos”, o MNAA assume essa vocação, acrescenta o seu director, falando de outras instituições em Lisboa com quem, nesta matéria, é chamado a dialogar: os museus nacionais de Etnologia e do Azulejo, o da Marinha ou a Igreja de São Roque, no Bairro Alto.

 

Do pouco que sabe sobre o projecto – a partir do que leu nos dois programas de Medina e nos jornais –, Pimentel diz que o mais provável é haver uma grande confusão em torno do que é, ou não, um museu. E do que é, ou não, um centro interpretativo, um sítio patrimonial e um programa em rede. “Parece-me que o que a câmara quer é uma rede, que terá como estrutura física um novo centro interpretativo, com muito multimédia, virado para o turismo e de consumo rápido”, acrescenta. “Ora, isso está longe de ser um museu e perto de uma Disneylândia dos Descobrimentos.”

 

A definição de museu está feita pelo ICOM, sigla inglesa do Conselho Internacional de Museus, e inclui, entre outras coisas, uma colecção, um programa científico rigoroso, uma equipa capaz de produzir exposições e investigação de referência, explica. “O papel de um museu não é captar turistas, embora seja muito importante pensar no turismo e no que esta nova oportunidade económica pode significar para as colecções públicas. E enquanto o fazemos há que decidir se queremos apoiar a marca Portugal no sol, praia, sardinha e país barato, ou se vamos insistir no legado patrimonial que nos distingue e que começa muito antes dos Descobrimentos.”

 

Seja o que for que venha a nascer do programa de Medina – há quem defenda que o museu é um objectivo demasiado ambicioso para ser atingido num mandato –, certo é que não será fácil de pôr de pé. E em boa parte porque, como escrevia o historiador António Hespanha nas páginas do Jornal de Letras, os portugueses raramente ouviram o que os outros diziam deles.

 

Público

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Visitante

Não pode ser Museu da Sífilis?

 

Não. Se "A Viagem" não for aprovada, fica Museu do Escorbuto.

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O descobrimento de Portugal

 

O debate sobre o nome do museu "Das Descobertas" descobre-nos um país obstinado no negacionismo

 

"Em memória dos milhares de judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso assassinados no massacre iniciado a 19 de abril de 1506 neste largo". A frase lê-se numa estrela de David recortada em pedra, monumento inaugurado a 23 de abril de 2008, no Largo de São Domingos, Lisboa. O erigir deste memorial era uma antiga aspiração da Comunidade Israelita Lisboeta, cuja presidente, Esther Mucznik, dois anos antes, no mesmo largo e na celebração do quinto centenário do pogrom que matou entre dois mil e quatro mil "cristãos novos", lamentava a inexistência, na cidade, de "um único marco público relacionado com a perseguição dos judeus". Políticos identificáveis, nesse assinalar de um acontecimento terrível de que a maioria dos portugueses nunca teria ouvido falar, só três deputados do BE, incluindo Francisco Louçã, que disse ao DN ter ido "fazer um encontro com a história" e o ex Provedor e ex ministro da Justiça, Menéres Pimentel. Também referida nas notícias foi a comparência do então diretor do Público, hoje "publisher" do Observador, José Manuel Fernandes, e da filósofa Maria Filomena Molder, que, questionada pelo DN sobre a razão pela qual estaria ali tão pouca gente, falou da "supressão da memória como um problema muito português."

 

É pois talvez por sofrer de supressão de memória que não recordo qualquer acrimónia pública face a tal desejo da comunidade judaica portuguesa de que a perseguição aos judeus fosse reconhecida no espaço público, nenhuma irritação com as "vitimização" ou "culpabilização extemporânea", nenhuma revolta contra o "encarar de factos históricos com os olhos de hoje", nenhum apelo à "contextualização" - do tipo "até parece que foi Portugal que inventou o antissemitismo" -- nenhuma recusa de "pedidos de desculpas por coisas ocorridas há cinco séculos", nenhumas piadas furiosas sobre "a onda de histerismo do politicamente correto". Pelo contrário: pessoas que agora rasgam as vestes contra o debate sobre a expansão portuguesa, a escravatura e o colonialismo e entram em transe face à discordância de vários cientistas sociais, historiadores e representantes da comunidade negra quanto ao nome proposto de "das Descobertas" para um museu lisboeta, pugnaram pelo reconhecimento oficial do horrível tratamento dos judeus.

 

Mais: também não tenho memória de, em 2015, quando o governo de então exarou uma lei possibilitando a que descendentes dos judeus expulsos de Portugal em 1496 pudessem obter a nacionalidade portuguesa, ter dado por qualquer levantamento contra esta forma de reparação de um mal com 500 anos e ouvido que "o país de hoje não tem culpa do que os nossos antepassados fizeram". Aliás caberá recordar que esse decreto nasceu de um projeto de lei do CDS-PP - o mesmo partido que agora quer que o Estado indemnize os lesados da descolonização.

 

Parece pois que podemos dar como assente que a aversão à discussão sobre os horrores do passado histórico e seu reconhecimento -- e até reparação, simbólica ou em espécie --, não é de princípio. É o quê, então? Que raiva é esta que ressuma de dezenas de comentadores face à irrupção, no espaço público, de vozes que põem em causa o silenciamento e mitigação dos horrores perpetrados, ao longo de séculos - e até ao século XX, já que à escravatura oficial e legal se sucedeu a escravatura disfarçada sob a forma do Estatuto do Indígena, que recusava cidadania aos negros africanos "não emancipados" e os obrigava ao trabalho forçado --, por Portugal contra os africanos negros? Que leva tanta gente a recusar sequer debater a forma como o país insiste em se narrar a história da expansão portuguesa, em pôr em causa mitos como o de que "fomos o primeiro país a abolir a escravatura" ou "o nosso colonialismo foi muito menos bárbaro que o dos outros"?

 

Confesso que não me chateou sobremaneira o primeiro nome escolhido pela Câmara de Lisboa para o museu sobre a expansão portuguesa: para mim, o fundamental é que o projeto permita finalmente desmitologizar quer os acontecimentos quer a própria nomenclatura; vi-o, pois, como um título paradoxal, irónico, envolto em muitas aspas. Mas a discussão sobre o assunto veio demonstrar como é necessário pô-lo em causa, porque grande parte do país leva-o à letra, congelada que está na ideia do excecionalismo lusitano e do nacionalismo bacoco. É preciso mesmo explicar tudo, como faz brilhantemente, num artigo no Público da semana passada, o historiador de arte Afonso Ramos, lembrando logo no título -- "Filipe II também mandou usar a palavra Descobrimentos" - que o nome dado ao processo nada tem de "natural" ou "indiscutível"; foi construído politicamente, e por decreto real, para o beatificar, para "camuflar a violência". Que seja preciso dizer isto, que seja preciso repetir que Portugal sozinho (como nos recorda um notável documentário do canal francês Arte), foi responsável por quase metade dos 12,5 milhões de negros escravizados e traficados de África para as Américas entre 1501 e 1875, e que o grosso desse recorde mundial decorreu entre 1826 e 1850, ou seja, já após a mítica abolição da escravatura por Pombal (1761), descobre-nos um país obstinado no negacionismo. Que, como qualquer defensor do monumento ao pogrom de Lisboa poderá explicar-nos (e quiçá a si mesmo), é outro nome para racismo. É de um descobrimento desse Portugal tão negado que precisamos.

 

Portugal e a escravatura: dois mal-entendidos

 

Se o fito de Fernanda Câncio for esclarecer a opinião pública, então deve parar um pouco para se informar melhor. Mas se a sua intenção for flagelar Portugal, então não precisa de se informar.

 

A jornalista Fernanda Câncio, que, em Abril de 2017, na sequência da ida de Marcelo Rebelo de Sousa à ilha de Gorée, no Senegal, foi uma das iniciadoras do debate em torno da questão da antiga escravatura, esteve longos meses alheada desse tema, mas regressou agora a ele num artigo publicado no DN, no qual fez duas afirmações enganadoras. Disse, nomeadamente,“que Portugal sozinho (…) foi responsável por quase metade dos 12,5 milhões de negros escravizados e traficados de África para as Américas entre 1501 e 1875”; e acrescentou que “o grosso desse recorde mundial decorreu entre 1826 e 1850, ou seja, já após a mítica abolição da escravatura por Pombal (1761)”.

 

Comecemos pelo fim. Há, da parte de Fernanda Câncio, um mal-entendido quanto ao alvará abolicionista de Pombal. O dito alvará nada tinha a ver com tráfico transatlântico, aplicava-se apenas a Portugal metropolitano. Mas não é mítico. Existiu e produziu efeito. Deixaram de se importar escravos para o território metropolitano e um alvará posterior (1773) extinguiu gradualmente o estado de escravidão em Portugal continental. Foram os primeiros passos no sentido da abolição que, no âmbito do império português, só décadas depois seriam continuados. Mas esses passos deram-se e não foram revertidos. Fernanda Câncio parece ignorar que as leis abolicionistas foram muitas vezes graduais e sucessivas, abolindo parcela a parcela. A própria Inglaterra, a incontestável campeã do abolicionismo, aboliu o seu tráfico de escravos em anos sucessivos e não de uma só vez. Fernanda Câncio parece ignorar, também, que na terminologia do século XVIII, a palavra escravatura significava geralmente tráfico de escravos (e não escravidão, como significa para nós). Daí, talvez, alguma da sua confusão.

 

Mas a mais importante e mais enganadora confusão de Fernanda Câncio é a que a leva a afirmar que Portugal terá sido o recordista de negros escravizados e traficados de África para as Américas, sendo que o grosso desse horrível recorde teria acontecido entre 1826 e 1850. A jornalista esqueceu-se que nesse período Portugal já não tinha colónias nas Américas. Como é do conhecimento geral, o Brasil tornara-se independente em 1825. O que quer dizer que o grosso do tráfico de escravos foi feito por e para um novo país chamado Brasil. Ou seja, não foi Portugal sozinho que escravizou e traficou 5,8 milhões de pessoas africanas. Muito menos foi Portugal sozinho que escravizou e traficou os 2,5 milhões de africanos que, no século XIX, atravessaram o Atlântico em direcção ao Rio, a Pernambuco, à Bahia. Foram Portugal, o Brasil e muitas entidades políticas africanas, que já tinham escravizado aquelas pobres pessoas antes de as venderem para a costa e, daí, para a coberta dos navios negreiros.

 

Dir-se-á que boa parte do tráfico de escravos realizado entre 1826 e 1850 foi levado a cabo por negreiros portugueses residentes em cidades brasileiras, homens como José Bernardino de Sá, Tomás da Costa Ramos, Manuel Pinto da Fonseca e vários outros; e que, num determinado período, entre os anos 1830-1840, esse tráfico foi em larga medida feito sob a protecção da bandeira portuguesa, que se obtinha no consulado português no Rio de Janeiro, por meios ilícitos e fraudulentos. Sim, é verdade que assim foi. Mas é igualmente verdade que o tráfico era feito com capital e gente de várias origens, com têxteis ingleses, em navios segurados em companhias de seguros europeias, etc. O tráfico nessa época envolvia pessoas e meios de muitas proveniências.

 

Para que se fique com uma ideia da complexidade e modernidade da actividade negreira no período em causa, valerá talvez a pena transcrever uma pequena passagem do livro de David Eltis, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade: “No início de 1859, vários marítimos espanhóis e portugueses viajaram de comboio, de Londres a Hartlepool, um porto na costa nordeste inglesa, para aí receberem e tripularem o Wilhemina, um recém-construído navio a vapor. Navegaram nele até Cádiz e daí até à costa ocidental africana, onde adquiriram um carregamento de escravos que, depois, desembarcaram em Cuba. Nos quatro anos seguintes, este e outros vapores de construção inglesa fizeram várias viagens negreiras. Muitos desses navios eram propriedade de uma sociedade por acções com sede em Cuba e accionistas de várias nacionalidades. Tinha uma rede de agentes que ia de Nova Iorque a Quelimane. Os escravos levados para Cuba eram vendidos a produtores de açúcar que já utilizavam a mais sofisticada maquinaria de construção britânica, e o açúcar que produziam era vendido para os países mais desenvolvidos”.

 

Ou seja, no século XIX o tráfico transatlântico de escravos foi uma actividade multinacional, ligada a uma economia global e que se servia de tudo o que havia de mais moderno no mundo de então. Daí a enorme dificuldade em pôr-lhe fim, o que ainda assim se conseguiu, após décadas de esforços continuados de políticos, diplomatas e marinheiros europeus e americanos. Portugal teve uma pequena quota parte desse esforço. Mas foi um processo lento e complexo, e por isso o tráfico prosseguiu até à década de 1850, para o Brasil, e até à de 1860, para Cuba, apesar de já ser, em ambos os casos, ilegal.

 

Há dezenas de bons livros de História, escritos por historiadores competentes, onde qualquer pessoa pode aprofundar o seu conhecimento sobre esta matéria. Estranho, por isso, que Fernanda Câncio continue a reproduzir o mesmo mal-informado discurso, sem alterações assinaláveis de Abril de 2017 até agora. Fala em mitos e exige que se conte a verdadeira história, mas não parece estar a par da verdade histórica e não se dá conta de que ela própria perpetua mitos que invertem os mitos que diz combater. É interessante ver que no quadro quantitativo do tráfico transatlântico de escravos em que Fernanda Câncio se apoiou está bem explícito que se trata de números de Portugal e do Brasil, como pode verificar-se neste link. Mas, no seu artigo no DN, Câncio cortou a referência ao Brasil e Portugal ficou “sozinho” — como ela própria diz — no pelourinho da opinião pública. Estou convencido de que o corte da referência ao Brasil não foi intencional ou malicioso, com o propósito de manipular o leitor. Julgo, isso sim, que Fernanda Câncio o terá feito devido a uma mistura de desconhecimento dos factos e de preconceito ideológico.

 

E é sobretudo isso que estes quinze meses de debate sobre a antiga escravatura nos têm mostrado à exaustão: gente cheia de ideias apressadas, que mal conhece os factos de que fala e que tem toneladas de preconceitos ideológicos. O diálogo com essas pessoas é difícil e improdutivo, porque de um lado está o saber histórico e do outro a ideologia política e os preceitos morais.

 

Se o fito de Fernanda Câncio for esclarecer a opinião pública, então deve parar um pouco para se informar melhor. Mas se a sua intenção for flagelar Portugal, torná-lo responsável por muito do que de mau existiu na história, fazê-lo campeão das iniquidades, se o seu propósito for culpabilizar os actuais portugueses, fazendo-os crer que os seus antepassados eram invulgarmente nocivos e cruéis, então não precisa de se informar, é só continuar na mesma senda.

 

João Pedro Marques, Historiador e romancista

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O nome tem pouca relevância. Mas parecia-me importante ser um museu construído em conjunto com as antigas colónias. Já sabemos muito sobre a nossa perspectiva, mas do outro lado ainda se vivem resultados da presença portuguesa nos territórios e não se fala muito disso. Se a coisa for feita com o contributo de todas as partes, tem muito para ser genuinamente didáctico.

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Tentei ver o Prós e Contras sobre este assunto. Tentei, mas desisti logo que percebi que um dos grupos convidados para debater foi a Nova Portugalidade. Que anedota de programa.

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Tentei ver o Prós e Contras sobre este assunto. Tentei, mas desisti logo que percebi que um dos grupos convidados para debater foi a Nova Portugalidade. Que anedota de programa.

 

Que tem? A Nova Portugalidade parece-me um movimento acima de qualquer suspeita. 🤷

 

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São uns palermas aldrabões. Resquícios da visão enviesada inventada pelo Estado Novo a quem a televisão publica decidiu dar tempo de antena.

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