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Andebol

Publicações recomendadas

O Rui Silva está irreconhecível. Completamente fora de jogo e custou-nos o resultado. Pode ser que dê para trazer um novo selecionador que esta equipa merece muito mais.

Este lance mesmo no final do Leonel representou bem o que foi a atitude nesta partida. Absurdo.

Editado por zunaiki

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O PJP é tão nabo, Portugal a perder por completo o jogo nos últimos minutos e o homem mete o timeout quando já estava com 3 golos de desvantagem... 🤣

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Vitória por 10 contra a Bósnia no apuramento ao Mundial de 2025. Domingo é a segunda mão na Bósnia.

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Citação de HappyKing, há 13 horas:

Vitória por 10 contra a Bósnia no apuramento ao Mundial de 2025. Domingo é a segunda mão na Bósnia.

Fui ver

Estava com o Rema e o Humberto Gomes à minha beira

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Noruega, Portugal, Brasil e USA 

 

Grupo do mundial 

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No main round cruzamos com Suécia, Espanha, Japão e Chile. Se passarmos do main round cruzamos com os grupos de Dinamarca e Alemanha.

Diria que seria perto de um milagre passarmos do main round.

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Barcelona e Frade campeões europeus numa fantástica final. Semana fantástica para o português que juntou o título europeu o de ser pai. 

 

O Mikkel Hansen vai conseguir fechar uma carreira recheada de títulos, mas sem o maior título de clubes. Incrível. 

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Citação de zunaiki, há 43 minutos:

Barcelona e Frade campeões europeus numa fantástica final. Semana fantástica para o português que juntou o título europeu o de ser pai. 

 

O Mikkel Hansen vai conseguir fechar uma carreira recheada de títulos, mas sem o maior título de clubes. Incrível. 

Está a poupar-se pros JO 😎

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Citação de Hawkeye, há 1 hora:

@Lebohang consegues disponibilizar a entrevista do Paulo Jorge Pereira ao Expresso? 🙂

Infelizmente só amanhã porque não consegui o jornal nestes dias. 

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Citação de Lebohang, Agora:

Infelizmente só amanhã porque não consegui o jornal nestes dias. 

Há tempo (desde que consigas 🙂 )

Grato

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Citação de Hawkeye, há 18 horas:

@Lebohang consegues disponibilizar a entrevista do Paulo Jorge Pereira ao Expresso? 🙂

“Houve uma altura da minha vida em que estudava, dava treinos e ainda vendia joias. No FC Porto, eu era um treinador fraquíssimo”

Paulo Jorge Pereira, 59 anos, o selecionador nacional de andebol que nos últimos oito anos ajudou Portugal a alcançar feitos inéditos, revela nesta I parte do ‘Casa às Costas’ o que passou até chegar ao cargo que hoje ocupa e que durante dois anos vai acumular com as funções de treinador do clube esloveno Celje Pivovarna LASKO. Entre os muitos episódios e revelações que aqui conta, não deixa de fazer uma crítica ao Presidente da República, por ainda não ter recebido os homens do andebol, questionando a coerência de Marcelo Rebelo de Sousa

 

Nasceu em Padronelo, Amarante. Apresente-nos a família onde nasceu.
Tenho um irmão mais novo e sou filho de duas pessoas extraordinárias, que já faleceram, mas que foram de Padronelo para o Porto, ao desafio de um restaurante. Foram reconstruir um tasco, onde o meu pai matava os ratos ao pontapé, ainda hoje me lembro daquele ruído dos ratos a bater na parede. E depois, fizeram daquilo um restaurante de referência do Porto, onde diziam que se comia as melhores tripas à portuguesa à moda do Porto. Chamava-se “Rei dos Galos de Amarante”. Ainda existe, o meu irmão está a dar continuidade, embora já não seja um restaurante que esteja sempre aberto, funciona com grupos.

 

Ou seja, cresceu no Porto.
Sim, não tinha um ano sequer quando vim para o Porto. Vivia na Rua das Taipas, a rua que vai cá de baixo da Ribeira até lá acima à Torre dos Clérigos. Andávamos ali a atirar calhaus uns aos outros. Eram os da Ribeira, os da Rua Escura, os da Vitória, os da Cordoaria, tudo a atirar calhaus uns aos outros [risos].

De quem herdou o lado competitivo?
Acho que foi da minha mãe. Lembro-me que para o meu pai ganhar dinheiro, era explorar os outros. Quando eu era mais velho e já ia a restaurantes, dizia-lhe muitas vezes: “Uma garrafa de vinho que tu cobras aqui a X, ali eu paguei o dobro.” Ele respondia sempre: “Não, não, já está bem assim.” A minha mãe era mais competitiva, adorava jogar, fosse o que fosse. Já numa fase final dela, jogava dominó comigo, eu acabava as pedras todas, ganhava, e ela continuava a pôr pedras de um lado e do outro e enquanto não acabassem as pedras dela não acabava o jogo e depois dizia: “Também ganhei” [risos].

Que outras memórias de infância tem?
Jogar à bola na rua, sempre que o meu pai não vinha chamar-me para fazer alguma coisa, sobretudo em altura de férias escolares. Ele em aulas não me chateava porque tinha de fazer os deveres, mas nas férias eu tinha de pôr as mesas no restaurante e comecei a lutar contra mim próprio porque cronometrava o tempo que demorava a pôr as mesas. Isto com 13/14 anos.

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Paulo Pereira em bebé

Gostava da escola?
Mais ou menos. Não tenho ideia de não gostar da escola.

Quais as modalidades que começou a praticar primeiro?
A primeira vez que me lembro de jogar andebol na escola Gomes Teixeira, devia ter 11 anos. Lembro-me do professor colocar-me a jogar, a bola caiu no meio-campo, eu agarrei-a e tentei marcar golo logo dali. Ainda hoje não sei se foi burrice, ou se foi querer desafiar o objetivo difícil.

Nunca se interessou por outras modalidades?
Pratiquei atletismo, mas era muito fraquinho. Lembro-me que o treinador trabalhava na Polícia Judiciária e uma vez derrubei tantas vezes a fasquia do salto em altura que, às tantas, ele disse: “É a última vez que saltas e, se não passares, não venhas mais ao salto em altura” [risos]. Acabei por deixar de ir. Mas o andebol apareceu cedo da minha vida, através de um primo que me levou com 12, 13 anos, para o Clube Desportivo de Portugal, de Campanhã. Só que, no início, não gostei.

Do que não gostou?
Aquela coisa da malta tomar banho toda junta, de estarmos todos nus e eu não conhecia ninguém. Houve ali uma série de coisas com as quais não me sentia confortável e disse que não ia mais. Durante dois meses não fui, mas o meu primo insistiu e acabei por ir novamente. Depois adorei, até hoje.

Foi o único desporto federado que jogou?
Foi.

Jogava em que posição?
A lateral esquerdo. Aos 17 anos tive aquela sensação do que é ganhar, porque fomos campeões nacionais de juniores, num clube muito modesto. Fomos bicampeões nacionais, no ano seguinte voltámos a ser campeões. Aquela coisa do estrelato, do chamar a atenção das pessoas, vivi um bocadinho isso como atleta. E era um bom atleta. Mas o meu grande objetivo era entrar no ISEF.

Já tinha definido o que queria fazer profissionalmente?
Queria ser professor de Educação Física e treinador. Mas sobretudo professor, era a minha meta.

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Com a mãe

Quando começou a ser treinador?
Com 18 anos. Eu era atleta, mas já dava treino a miúdos, no mesmo clube. O Fernando Jorge Oliveira, um treinador conhecido na altura, convidou-me e ao meu primo, para pegar numa equipa de miúdos e começámos. O meu primo, Eduardo Augusto, era o treinador e eu era o adjunto. Esse meu primo era muito exigente, as palestras eram todas aos berros e recordo-me de ver os miúdos sem saber onde se haviam de meter. Aquilo fez-me confusão, porque eram miúdos de 10 anos. Ele esteve pouco tempo e eu continuei como treinador principal. Nunca mais parei. Corri os escalões todos, de infantis a seniores.

Entretanto, entrou na faculdade, certo?
Sim, fiz meio ano e uma cadeira semestral porque como tive a opção de ir para a tropa e sempre pensei que podia ser uma boa experiência, fui. Hoje posso agradecer à tropa o meu melhor amigo. Foi lá que o conheci. Além do autoconhecimento. Como eu reagia em situações adversas, como me comportava. Estive cinco meses em Mafra e depois fui dar recruta em Espinho, durante mais um ano.

Ainda vivia em casa dos pais?
Sim.

Já havia algum namoro sério?
Havia, tanto é que casei. Casei muito cedo, com 23 anos, depois de vir da tropa. Mas rapidamente os dois percebemos que aquilo não ia funcionar, porque éramos muito diferentes e tínhamos objetivos de vida diferentes. A família dela era ourives e por afinidade vendíamos joias a particulares. Quando demos por ela, aquilo dava-nos muito dinheiro. Começamos a fazer várias cidades, eu andava mais com esse negócio, ela ajudava a mãe. Até que houve uma altura em que eu estava na cama, olhei para o lado e disse-lhe: “Vou voltar a estudar.” Foi uma decisão inegociável. Ela ficou um bocado surpreendida. E voltei a estudar.

De onde surgiu essa necessidade de voltar a estudar?
Ganhávamos muito dinheiro, mas sentia que não ia ser feliz, aquilo não era para mim. E eu gostava de vender. Acho que ainda hoje vendo alguma coisa. Nós vendemos sempre alguma coisa. Mas não me preenchia completamente. Voltei a estudar para a minha paixão outra vez. Entretanto, separei-me, fizemos contas e eu continuei com o negócio da venda das joias. Aquilo não parava de crescer. Quando estudava e entrava nas aulas teóricas, os meus colegas ficavam a olhar para mim, porque eu entrava de fato. De manhã tínhamos aulas práticas e eu ia de fato de treino, almoçava em casa, vestia o fato, e tinha o saco no carro porque à noite ainda ia dar treino, ou tinha treino eu. Eram quatro atividades diferentes diárias. Chegou uma altura que percebi que tinha de fazer opções e decidi deixar de jogar. Continuei com as outras atividades, nunca deixei de ser treinador.

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Paulo (Nº10) com a sua equipa de juvenis do Clube Desportivo de Portugal onde começou a jogar andebol

A seguir ao Clube Desportivo de Portugal, para onde foi?
Para o Salgueiros, onde jogava e também treinava os juvenis. Estive quatro ou cinco anos no Salgueiros, depois fiz uma pausa de um ano e a seguir fui para a Académica de São Mamede, estive no Boavista também, mas já como treinador. Ajudava um pouco o treinador da equipa sénior e treinava a equipa júnior. Do Boavista fui para um clube de Ermesinde com um protocolo com o Futebol Clube do Porto e daí é que fui para o FC Porto.

Estava com 31 anos. É quando se torna adjunto de José Magalhães?
Fui como treinador da equipa júnior, embora ajudasse na equipa sénior e depois então, sim, como treinador-adjunto também da equipa sénior.

Na sua cabeça já estava bem definido que queria ser treinador de andebol. Era por aí que acreditava passar o seu futuro?
Mantive alguma atividade na venda de joias, mas pouco a pouco fui deixando, até que vendi a mala ao desbarato. Era adjunto do FC Porto. Desfiz-me daquilo porque na minha cabeça já queria ser treinador de andebol profissional. Na altura também dava aulas de Educação Física no ISMAI, estava no quadro definitivo, e propus ao FC Porto pagarem-me só a parte que recebia na escola para poder dedicar-me só ao treino. Não quiseram, eram mais mil e tal euros. Fui adjunto dois anos do José Magalhães, e dois anos adjunto do Branislav Pokrajac, treinador sérvio.

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Paulo (a meio atrás) no Clube Desportivo de Portugal

O que aprendeu com cada um deles?
Com o José Magalhães aprendi que as pessoas são muito importantes. Ele também percebia de andebol, mas não era o forte dele. Para mim, o forte dele era a preocupação que ele tinha com os atletas e ajudar a resolver os problemas da vida pessoal. Ele sabia tudo deles. Isso é uma parte muito importante. É o que hoje acho que tem de ser.

E na altura já pensava assim?
Não, achava que tínhamos, sim, era de perceber de andebol. Hoje sei que nós temos de perceber de pessoas. O andebol também tem que lá estar, claro, um treinador de alto nível não pode não perceber da modalidade em que está inserido. Mas primeiro, tem que perceber de pessoas. Não quer dizer que um treinador que não perceba de pessoas não consiga obter resultados. Mas, para mim, não são resultados tão duradouros. A pessoa tem que estar sempre primeiro. Claro que isso depois traz tudo, traz compromisso, a exigência, uma série de coisas. Não estamos sempre na paz do senhor. Por vezes é preciso discutir e discute-se, por vezes é preciso exigir mais do que o normal, de vez em quando é preciso deixar as pessoas tranquilas. Tem a ver com a sensibilidade, com aquilo que vai acontecendo.

E com o Branislav Pokrajac, o que aprendeu?
Ele saia muito de andebol, tinha sido campeão olímpico, mas era um gentleman com os jogadores. Exigia deles, entrava em transe completamente no treino, ele parecia outra pessoa. Mas notava-se que tinha um respeito pelos atletas, fantástico. Aquela forma de tratar com aquela classe, também me marcou bastante. É possível sermos exigentes, sendo boas pessoas, não temos porque ser más pessoas para que as coisas resultem.

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No mesmo clube onde jogava, Clube Desportivo de Portugal, Paulo (2º atrás à direita) também começou a ser treinador

O que lhe faltou para ser um grande jogador de andebol?
Com aquilo que sei hoje, acho que poderia melhorar muito mais emocionalmente. Eu era júnior, começava a jogar, marcava dois, três golos, e na minha cabeça já estava bom, como quem diz, agora não arrisques mais. Eu tinha este mindset. Eu não ia buscar mais um golo. Andava ali só a fixar e a passar a bola, porque era um bocadinho medroso. Enquanto não conseguia ter aquele registo que achava que era mais ou menos positivo, andava à procura, mas quando tinha… . Hoje também sei que o trabalho da força é fundamental para nós atingirmos um nível elevado. Pouco fazíamos nesse sentido.

No andebol, o talento faz muita diferença?
É preciso ter talento, mas o talento também é melhorável. Ainda agora falámos dos fatores emocionais, a maioria dos atletas que chegam ao alto nível, todos têm talento. A diferença entre eles é o quanto tu consegues melhorar os fatores emocionais. A margem de melhoria está em como tu lidas com a frustração, com a derrota, com o sucesso. Em que pensas? O que dizes a ti próprio?

Quando estreou como treinador principal de seniores?
Quando fui para o Clube Propaganda de Natação, antes de ir para o FC Porto. Fomos campeões regionais, subimos à III divisão nacional, depois andamos dois anos a jogar a fase final, a tentar subir à II Divisão. Mas eu chateava-me muito com os atletas porque eles eram todos universitários e normalmente as fases finais coincidiam com a queima das fitas. Cheguei a treinar com dois jogadores numa semana em que tínhamos de nos preparar para ganhar. Eles também não estavam muito interessados em subir de divisão [risos]. Na altura não entendia e ficava completamente louco porque estávamos em patamares completamente diferentes. Eu nunca consegui percebê-los.

Nunca foi de noitadas no tempo da juventude?
Houve uma fase em que ao fim de semana saía sempre. Mas quando estudava, recordo-me que na semana da Queima das Fitas era para ir a Lisboa vender as tais jóias de que falei. Em cinco anos se terei feito duas Queimas das Fitas foi muito.

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Paulo Pereira (em pé à esquerda) de saída para um torneio no estrangeiro com a equipa do Clube Desportivo de Portugal

No tempo do FC Porto lidou com grandes jogadores, entre eles o Carlos Resende, considerado por muitos o melhor português na modalidade. O que aprendeu com os grandes jogadores com que ligou no início da carreira de treinador?
No FC Porto eu era um treinador fraquíssimo. Fomos campeões nacionais, ganhamos a Taça de Portugal e ganhámos duas Taças da Liga, já como treinador principal. Mas era fraquíssimo

Porque diz que era fraquíssimo?
Primeiro porque não entendia o jogo como devia entender. Não organizava o treino como devia organizar. O treino para mim era uma coisa muito partida. As variáveis do treino não eram variáveis que motivassem o jogador para treinar, portanto, havia ali uma série de coisas que aprendi a fazer, fazendo. Aquilo que me deu a faculdade não foi suficiente para poder chegar à prática. Eu procurava sempre melhorar o exercício que tinha feito na semana passada. Foi tudo pouco a pouco. Com alguns atletas, aprendi algumas coisas. Tive a sorte de encontrar não só o Carlos Resende como uma série de atletas, como, por exemplo, o Manuel Arezes que era uma pessoa extraordinária; tecnicamente não era muito bom, mas era impressionante a treinar. O que ele melhorou a treinar foi impressionante. Eu tive a sorte de ter um grupo de pessoas que me deixavam experimentar com eles. Porque nunca parei de experimentar. Se há alguma coisa que tenho de agradecer-lhes é isso, permitirem que fizesse experiências com eles. Andava sempre a investigar, tinha muita curiosidade.

Nesse percurso foi bebendo de várias fontes? Quem eram as suas referências?
Desde muito cedo que fui fazer clinics fora de Portugal. Seminários pontuais, de dois dias ou às vezes uma semana de trabalho numa equipa X, ou com o selecionador Y. No início, eu pagava isso. Era um investimento que fazia, o raio das jóias tinha que dar para alguma coisa [risos]. Cheguei a propor à administração do FC Porto fazer esse tipo de coisas e ser subvencionado por eles, o meu compromisso era fazer um relatório para entregar a todos os treinadores. E assim fiz. Normalmente ia três, quatro vezes por ano beber informação fora de Portugal, porque sabia que aqui não era o sítio ideal.

Porquê?
Nós ainda hoje, agora menos, temos tendência para esconder a informação. Em Espanha eles não eram assim, abriam-nos a porta. Provavelmente hoje também abrirão menos porque já começamos a ser uma ameaça. Mas eu estava lá uma semana a vê-los trabalhar. E eles promovem-se todos reciprocamente, há treinadores espanhóis espalhados por todo o mundo, porque se protegem uns aos outros. Nós cá temos uma certa tendência para dizer mal uns dos outros.

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O treinador (atrás à esquerda a segurar num balão branco)numa Queima das Fitas, em 1992 

Em 2002/03 foi campeão e ganhou a Supertaça pelo FC Porto, como treinador principal. Qual foi a sensação?
A sensação é extraordinária, é um limbo, é um sonho adquirido, para mim foi relativamente rápido.

Pensou, está feito?
Não, não. Ainda hoje não penso que já está. Há muita coisa para fazer. Fizemos algumas coisas interessantes, tenho uma série de títulos com a ajuda de todos, mas acho que há muita coisa para fazer.

O que lhe ficou da cultura do FC Porto tendo em conta que passou lá sete anos da sua vida?
A cultura do FC Porto é a raiva do "pequeno". O facto de nos sentirmos um pouco longe da capital, de quem está em segundo plano, usávamos essa energia toda para combater o pré-estabelecido. Ou seja, é tudo para eles, e nós? Aquela sensação de sermos sempre preteridos, porque, de facto, em algumas coisas acontece. Nós usávamos muito esse combustível e creio que ainda hoje é assim. Poderá ser menos porque o Porto atingiu um nível elevadíssimo em diferentes modalidades, as pessoas já não se sentem tão pequenas, entre aspas, como nos sentíamos.

O que sente um treinador campeão de uma modalidade que não é a principal do clube? Sente que também está em segundo plano, dentro do clube?
Na altura não tínhamos pavilhão, jogávamos em Santo Tirso, na Póvoa de Varzim, portanto, aquela sensação de estar dentro do clube e não ser uma modalidade preponderante, não se sentia. Agora sinto como selecionador, o que é ser treinador de andebol. Não querendo dar um registo do coitadismo, não posso deixar de sentir alguma incoerência nas receções feitas pelo Presidente da República (PR), por exemplo. Há outras seleções, e bem, que foram recebidas pelo senhor PR, algumas até mais do que uma vez, e eu pergunto: O que fez a seleção de futebol feminina até agora? As pessoas são recebidas porquê? Porque representam um país de uma forma que chama a atenção, ou são recebidas só porque lhes apetece naquele dia? Por que o râguebi é recebido quando participou em dois mundiais e ganhou um jogo? Não sei se há muitas seleções em Portugal a qualificarem-se sete vezes consecutivas, para mundiais e europeus. Não sei.

Acha que o PR vai chamá-los antes da partida para o Mundial de 2025?
Eu não faço questão de ir ao senhor PR, com todo o respeito que tenho por ele, mas parece-me haver uma certa incoerência nestas chamadas à Presidência. Somos todos portugueses ou somos só alguns e outros não? É só isso. É uma questão de incoerência, depois o resto é a questão da cultura desportiva que nós não temos. Estou plenamente convencido que 95% dos portugueses não sabem o que é preciso para render no desporto. Se formos ao Reino Unido, eles sabem quanto vale o desporto, e falamos de um valor numérico. E só estou a falar do alto rendimento, porque se falamos na questão da atividade física e do que se poupa ao nível de despesa com saúde... Os nórdicos já perceberam isso há muito tempo, lá as crianças têm educação física diariamente, nós aqui andamos a implorar.

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O atual selecionador (1º atrás à esquerda) com a equipa da Académica de S. Mamede onde terminou a sua carreira de jogador

Porque saiu do FC Porto?
Por dificuldades de comunicação, que fez com que a renovação do contrato, que foi noticiada no jornal, depois fosse revogada. Vim embora, mas fiquei felizmente sem clube por pouco tempo porque, entretanto, surgiu o convite do CB Cangas, da Espanha.

Como surgiu esse convite?
Foi diretamente o presidente do clube. Eu fui a Léon ver a final four da Taça ASOBAL e cruzei-me na bancada com o presidente do Cangas que me perguntou se eu queria ir para Cangas. Respondi logo: "Si". Nem falamos de dinheiro. No dia seguinte, já falámos um pouco de questões financeiras, liguei para casa e disse à minha mulher, "Monse (ela chama-se Montserrat), vou para Espanha".

A propósito, como e quando conheceu a sua mulher que é espanhola?
Houve uma altura em que aos fins de semana eu ia muitas vezes para Vigo. Eu e um amigo. O nosso mundo era muito fechado ainda e em Vigo estávamos mais à vontade, comia-se lindamente, as pessoas eram muito simpáticas, divertíamos-nos muito mais. Começamos a ir com muita frequência e encontrei a minha mulher três vezes, por acaso. Quando nos demos conta aquilo não foi por acaso, alguma coisa tinha de acontecer e aconteceu.

O que ela faz profissionalmente?
Ela trabalha na área da alta perfumaria.

Ficou logo a viver com ela, em Vigo?
Não. Eu conheci-a ainda antes de ir para o FC Porto. Foi ela que veio viver para o Porto. Adaptou-se muito bem. Depois ficou grávida, mas planeamos ter o filho em Vigo para ela beneficiar de todos os direitos em termos de emprego. Depois do Rodrigo nascer, em 1998, voltamos ao Porto. Vivemos no Porto 10 anos e depois fui para Cangas, Espanha. Assim que acabou o ano letivo eles foram ter comigo. Nunca mais saímos de lá.

Como correu no Cangas?
Lembro-me que antes de surgir o Cangas, quando passeava com a minha mulher e passávamos à frente do pavilhão, onde já tinham jogado com o FC Porto, eu dizia-lhe "quem me dera treinar aqui". Disse-lhe aquilo várias vezes a caminho das praias de Cangas que são um paraíso. Acabei por ir lá parar, mais ou menos por acaso. Eles despediram um treinador catalão e convidaram-me para o substituir. Mais um risco que corri, porque tinha lugar no quadro definitivo da escola, como professor, e tive de pedir uma licença sem vencimento de curta duração, não fosse aquilo não correr bem. O Ministério da Educação só me concedeu de longa duração porque era a meio do ano letivo, mas isso significava eu perder lugar no quadro. Eu disse, OK, vamos lá.

Assinou por quanto tempo?
Meio ano, mais um.

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A equipa do FC Porto de 2003, que Paulo Pereira (3º atrás à esquerda) treinou

Quando chegou ao Cangas, o que mais o surpreendeu?
Foi um bocadinho desilusão. Não das pessoas do clube, porque ainda hoje tenho uma amizade enorme com elas. Mas da organização. Eu pensei que o clube tinha mais poder económico. Só tínhamos um fisioterapeuta, que não vinha aos treinos, só ia aos jogos. Não é possível. A contratação dos jogadores não era planificada, havia uma série de agentes. Não gostei de muitas coisas e na época seguinte, mais ou menos em fevereiro, falei com o presidente e disse-lhe que ia sair. Ele ficou um bocadinho surpreendido, mas eu saí. E não tinha nenhum clube para onde ir. Mas sempre soube o que não queria. Tomei a decisão no dia em que a minha mulher fazia anos, em dezembro.

Alguma razão para ser nesse dia?
Era uma semana crucial para nós, tínhamos de ganhar, eu estava tão focado no trabalho, que só quando a minha mãe ligou, à noite, e pediu para passar à minha mulher para lhe dar os parabéns, é que percebi que ela fazia anos. Os meus filhos já estavam na cama a dormir, fui acordá-los e apagámos uma vela, num bolinho que lá tínhamos. Aí é que percebi a mulher que tinha, uma pessoa extraordinária. Cantámos os parabéns eram umas dez da noite e ela disse: "Não te preocupes, eu compreendo. Esquece". Eu não me lembrei que ela fazia anos. Nesse dia, tive de sair de casa à noite para espairecer um bocadinho, fui dar uma volta e tomei a decisão de sair. Mas só dei a conhecer em fevereiro.

Já tinha sido pai novamente?
Sim, o André nasceu em 2003, em Matosinhos.

O que fez logo a seguir a sair do Cangas?
Para ganhar algum dinheiro, dediquei-me muito a sério a dar seminários. Sempre colecionavam uns euros. Passei por algumas dificuldades, mesmo quando fui para o Cangas, porque os contratos eram de 10 meses e eu tinha muitos encargos. Tinha o apartamento no Porto para pagar, uma hipoteca elevadíssima. Houve um dia, no verão, já em Espanha, estava muito calor, abri o frigorífico e tinha uma lata de cerveja. Tive de decidir se bebia a cerveja naquele momento ou ao jantar. Isto para dizer que naquele dia não tinha dinheiro para ir comprar mais cerveja. Foram dois meses críticos.

Contava que fazia seminários para ganhar dinheiro.
Sim, e num deles, na Maia, estavam lá dois angolanos que, no final, ficavam sempre a colocar questões. Fizemos uma certa amizade e passado um ou dois meses surgiu um telefonema de Angola a perguntar se eu queria ser “coach do coach”, do ASA, para o ajudar a lutar pelo campeonato. Pediram-me para organizar um estágio em Portugal e outro em Espanha. Mas avisaram-me que era andebol feminino, sendo que eu não tinha ideia nenhuma do que é trabalhar com mulheres. Comecei como “coach do coach”, eles começaram a pedir-me para ir para o banco e quando dei por ela, o coach era o meu adjunto [risos].

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Em 2006, o técnico português foi treinar o CB Cangas, de Espanha

Que tal foi trabalhar com mulheres?
As mulheres são espetaculares, ainda hoje disse isso numa palestra que fui dar a uma grande empresa no Porto. Há uma imagem que eu ponho sempre que é da Haifa Abdelhak, uma jogadora tunisina que jogou a meia-final do campeonato africano, que ganhamos, com as duas mãos partidas. Ela era especialista na defesa. Há uma foto, que eu mostro, que é ela a defender com os antebraços na atacante, com as duas mãos partidas, todas ligadas.

Como partiu as duas mãos?
Dois contactos, não se sabe muito bem porquê, naquela fase da vida dela. Ela partiu a mão direita ainda em Tunes durante o estágio e disse que ia viajar na mesma porque conseguia defender. Depois partiu a outra mão lá, foi uma coisa brutal. Nunca pus nenhum atleta a jogar lesionado, mas ela pediu-me para jogar. Isto para dizer que gostei muito de trabalhar com as mulheres africanas porque na maior parte dos casos elas davam tudo. A partir do momento em que nós as convencemos, porque a mulher tem de ser convencida, é espetacular trabalhar com elas.

Mas é muito diferente o andebol praticado por mulheres e por homens.
Claro, porque os homens têm mais força, ocupam mais espaço.

Isso obriga a táticas diferentes?
Eu não mudei muito a forma de ver o jogo. A estrutura interna do jogo, não varia muito. Claro que depois os duelos, os aspetos físicos, no caso dos homens ganha algum valor. Mas as mulheres profissionais top de hoje também têm muita força.

O que mais o surpreendeu e o que foi mais difícil para si?
Para mim foi claro que trabalhar com mulheres é controlar o ciúme e trabalhar com homens é controlar o ego. Simples. Se conseguirmos perceber como funciona o ego, como o tens de o tratar e o mesmo para o ciúme, está resolvido.

Quando fala em ciúme, é entre elas?
Entre elas e às vezes comigo. Mas sobretudo entre elas. De resto, em termos de compromisso, adorei trabalhar com mulheres.

mw-768A seleção feminina de Angola que Paulo Pereira (à direita) treinou, em 2009

Viveu em Luanda. O que mais o chocou?
A pobreza. A sujidade. Era brutal as diferenças que existiam. Eu comia num restaurante português praticamente todos os dias e como as doses eram enormes eu trazia para casa, para não ter de lá voltar e às vezes havia miúdos à minha espera. Eu não conseguia ir embora com aquilo, tinha que lhes deixar a comida. Houve vezes em que eles pegavam no saco e iam comer para trás dos carros, mas também aconteceu eu pousar o saco e, fosse onde fosse, eles começavam logo a comer com as mãos. Tinham fome mesmo, não era apetite. Impressiona qualquer pessoa. E lembro-me que havia um edifício com uns 20 andares, em que as varandas eram abertas e viam-se as crianças a correr naquelas varandas. Se caíssem cá em baixo faleciam.

Esteve sempre sozinho?
Sim, foi o único sítio onde eles nunca me visitaram. Eu tinha três sessões diárias de treino, ou com crianças, ou adolescentes, ou com as mais velhas. Eu ia estar a treinar e eles tinham de estar metidos em casa por causa da segurança, portanto, não valia a pena. Assisti lá a coisas brutais.

Pode dar mais um exemplo?
Assisti ao linchamento público de uma pessoa, o mais certo era ser um "bandido" como eles diziam. Penso que deve ter falecido porque até com uma mota lhe passaram em cima. Assisti a roubos de telemóveis com pistola à minha frente.

Alguma vez apanhou algum susto?
Felizmente, nunca. Vi, contavam-me muitas coisas, mas eu não sofri nada, embora me tivessem assaltado a casa duas vezes, pelo telhado. Entravam pelo telhado, levavam as televisões, levavam tudo o que era eletrodomésticos. Eles sabiam quando eu ia embora, quando vinha a casa de férias. Por duas vezes cheguei lá e não tinha nada dentro de casa. Depois o clube restituía.

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Em Angola nos tempos livres, o treinador português chegou a ir à pesca em alto mar, com o amigo Pedro Pinto

O andebol em Angola estava muito atrasado relativamente a Espanha e Portugal?
No feminino, não. No masculino ainda hoje nota-se uma diferença relativamente grande, mas no feminino, não. A seleção portuguesa feminina não consegue ganhar a Angola.

Que explicação encontrou para o facto de terem desenvolvido mais o andebol feminino do que o masculino em Angola?
Elas fisicamente são espetaculares, estão por cima de muitos países. Houve ali trabalho também de alguns portugueses. Eles importaram treinadores estrangeiros, que foram ajudar. Algumas delas tinham mais alguma dificuldade em perceber o jogo, em como vamos abordar o jogo, mas com trabalho não foi muito difícil. Fizemos o Mundial da China em 2009, ficamos em 11º lugar, em 24 equipas. Na altura foi a segunda melhor classificação de sempre. Tinham ficado em 7º lugar, dois anos antes, com uma equipa que foi a melhor geração de sempre. Ganhámos à Dinamarca nesse mundial em 2009.

As atletas são uma referência em Angola?
Sim, são chamadas "meninas de ouro". Estão sempre nos Jogos Olímpicos, ganham sempre os campeonatos africanos, só não ganharam quando estive na Tunísia, em que ganhamos nós a Angola, em 2014.

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Em Angola, Paulo também treinou o andebol feminino do 1º de Agosto. Na foto com a mulher e a equipa num estágio em Madrid, em 2011

Notou muita diferença da Tunísia para Angola, quando foi treinar a seleção tunisina, em 2012?
Sim. Em Angola elas vivem muito bem, na altura ganhavam muito dinheiro. Nenhum país europeu tinha dinheiro para lhes pagar. Elas ganhavam mais dinheiro em Angola do que em qualquer país europeu de topo. Hoje em dia já não é assim devido à crise que houve em Angola e já se veem algumas angolanas a jogar na Europa. A Tunísia é um país muçulmano em que as mulheres são tratadas como são, embora eles digam que não. Eu muitas vezes tive de colocar o meu lugar em risco para as defender, mas foi o melhor que fiz.

Porquê?
Vou contar só um exemplo. Há imensos casos. Houve uma atleta que decidiu mudar de clube. Ia jogar para a Argélia. Ela era atleta do clube X, com o presidente Y que achava que ela, que era uma mulher adulta, tinha de pedir-lhe para ir para a Argélia, apesar de na altura ela já não ter contrato com o clube. Ele achava que ela não podia sair.

O que aconteceu?
Nós estávamos em estágio e o presidente da federação de então ligou para o nosso team manager a dizer que aquela atleta tinha de abandonar o estágio imediatamente. Qual era o motivo? Não se sabia. Eu sabia que era esse o motivo, então eu disse ao team manager: "Se ela tiver de sair, eu também saio. Vocês arranjam outro treinador para ir fazer o mundial por mim, não há problema nenhum." Até hoje não aconteceu rigorosamente nada. Ela continuou, eu continuei, fomos ao Mundial, jogamos tudo normal. Quando estivemos no Mundial com outra atleta, passou-se outro episódio.

Conte.
Nós tínhamos uma jogadora espetacular, mas que eu não convoquei porque a maioria das minhas atletas jogava na França, uma na Noruega, outra na Dinamarca, ou seja, tinha miúdas de eleição. Essa miúda jogava na Tunísia, a lateral, e tinha 1,70m de altura. Ou seja, ela na Tunísia podia jogar naquele posto porque a oposição era baixa. Mas eu tinha uma extrema melhor do que ela. Para jogar numa grande competição a lateral não tinha hipótese e para jogar na ponta, como jogava a lateral na Tunísia, perdeu referências, perdeu competências para jogar na ponta e não a convoquei. Outra vez telefonema do presidente a dizer que havia muita pressão na Tunísia, que eu tinha de levar aquela jogadora e que eu mandasse uma determinada jogadora embora porque eles iam enviar aquela. Isto foi na meia-final da President Cup.

O que fez nesse caso?
Fomos para o balneário e disse: "Recebemos uma chamada, para tu ires embora e vir a tua companheira substituir-te. Eu disse ao presidente que se tu fores embora, eu também vou". Aconteceu uma coisa interessantíssima. Tecnicamente as pessoas não entendem, mas os extremos normalmente estão lá só para finalizar as ações não estão para construir jogo, mas ela sendo extrema foi a MVP do jogo. Ganhámos à Argentina e ela foi a MVP. A jogadora que eles queriam mandar embora. Os jogadores e as jogadoras também concedem-nos poder quando percebem que pomos o nosso lugar em risco por eles.

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Mounir Hammami, team manager da Tunisia Paulo Pereira com a Taça das Nações Africanas conquistada em 2014

Conquistou vários troféus em África. Quer destacar alguns?
Primeiro ganhámos o Campeonato Africano, por Angola, em 2010, no Cairo. Vencemos na final à Tunísia. Num ano em que fizemos renovação de cerca de metade da equipa, eram todas miúdas mais jovens. Em 2011, já como treinador do 1º de Agosto, ganhámos o campeonato nacional, pela primeira vez na história do clube. Saio em 2012 e sou convidado para ir para a Tunísia, onde estive três anos. Aí a minha mulher e os meus filhos já me visitaram imensos vezes.

O que mais o chocou na Tunísia?
A forma como tratam as mulheres. Percebi que não se pode confiar em toda a gente e em Angola é igual. Há muita gente a lutar todos os dias para sobreviver e para ter um bocadinho mais de bem-estar. Fazia-me confusão a ideologia religiosa. Para serem aceites entre eles, escondem-se uns dos outros. Havia vários que bebiam cerveja comigo, mas à frente dos outros muçulmanos não bebiam. Muita incoerência. Também senti o contrário, pessoas que são altamente fiéis, seguem tudo à risca, fazem as cinco rezas diárias e não bebem mesmo álcool. O meu adjunto, por exemplo. Eu respeitava-o. Mas vi muita incoerência.

O que fazia nos tempos livres nesses países?
Em Angola raramente tinha tempos livres, só às vezes ao fim de semana é que íamos a uma praia distante de Luanda, a praia dos surfistas, que ficava mais para sul. Fui algumas vezes à pesca, em alto mar. Foi espetacular, cruzámo-nos com uma baleia. Na Tunísia tive mais tempo livre, e é um país extraordinário. Tem paisagens, tem praias, é espetacular e a cidade de Tunes é muito, muito interessante. Até ao dia do atentado em que morreram dezenas de pessoas na praia, em Sousse, alvejadas por uma metralhadora de um rapaz. A partir daí foi tudo muito mau.

Estava lá quando esse episódio aconteceu?
Estava em casa, mas tinha de viajar no dia seguinte para lá. Telefonaram-me logo a ver se estava tudo bem. Fui. Mas aquilo depois foi um caos. Viver com recolher obrigatório sistematicamente, estar em casa e não ver ninguém na rua, nem um carro, zero. Tínhamos jogos e não havia público. Aquela sensação no aeroporto de que pode rebentar uma bomba a qualquer momento. Lembro-me de um colega visitar-me, fomos ao Museu Bardo e na semana seguinte houve lá um atentado em que também morreram não sei quantas pessoas. Até que a minha mulher ligou-me a dizer que o meu filho mais novo, quando viu as notícias na televisão sobre o atentado no museu Bardo, virou-se para ela e perguntou: "O que o pai está ali a fazer?". Naquele dia, pensei realmente não faz sentido eu estar aqui.

mw-768O selecionador nacional de andebol com os pais

Nessa altura ainda estava com a seleção?
Não, já estava a treinar um clube masculino, o Espérance de Tunis, que era o clube mais medalhado em termos africanos. Mas vi logo que era muito difícil trabalhar ali com os homens.

Porquê?
A questão dos egos. Eles eram estrelas. Os atletas de andebol estão para a sociedade como os atletas de futebol aqui. Eles não podiam andar na rua, eram abordados logo para fotos. Mas são estrelas sem suporte. Muitos saiam das favelas africanas, apanhavam-se com dinheiro rapidamente e não sabiam lidar. Na altura eu também não tinha tanta experiência como tenho agora e se calhar tinha feito as coisas de outra maneira. Agora preocupo-me muito mais em conhecer a história da pessoa. Sem isso, não tenho nada. Na altura era, tu estás aqui, recebes muito dinheiro, só tens de fazer aquilo que eu digo, mais nada. Era assim que eu pensava. Como eu estava enganado. Isso não é suficiente. Havia gente extraordinária, tive atletas espetaculares que entenderam o que eu queria fazer, mas havia ali quatro ou cinco, as estrelas da companhia, que quando chegava hora de trabalhar, ficavam em ponto morto. Tive uma série de problemas e estive lá meio ano. Depois chateei-me com o presidente.

Quer contar porquê?
Por uma coisa simples. Ele era muito rico, era médico, tinha várias clínicas em Tunes. Tive várias reuniões com ele e como nós não tínhamos gelo no pavilhão e os atletas precisavam de gelo porque tinham mazelas, algumas antigas, outras mais recentes, pedi-lhe uma máquina de gelo, que para ele custava dez tostões. Ele disse que não punha nenhuma máquina, eu insisti, e ele resolveu meter uma pessoa a fazer duas horas no trânsito diariamente para ir buscar gelo. Às vezes chegava atrasado, porque apanhava mais trânsito. Qual é a lógica disto? Até que houve um dia em que ele levou lá um grupo de pessoas para me propor colocar no pavilhão umas câmaras para fazer controle do treino, ver o tempo em movimento, quantos quilómetros os jogadores percorriam no treino. Eu disse-lhe que não precisava de nada daquilo, porque tínhamos um protocolo com a universidade de Tunes, e que o que precisava mesmo era de uma máquina de gelo. Aquele olhar lancinante de mim para ele e dele para mim, acabou com a relação ali. Ele levantou-se, foi embora, nunca mais falei com ele. Passado umas semanas perdemos por um golo com um clube e não me mandaram embora, mas fizemos uma rescisão amigável.

Quando veio embora da Tunísia, não tinha nenhum clube interessado?
Vim embora sem ter nada. Não me lembro de nenhum sítio de onde eu tenha saído para outro já planificado. Fiquei livre, mas estive sempre pouco tempo sem trabalhar. Entretanto, surgiu o projeto da seleção nacional.

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A 2ª Parte @Hawkeye

“Se a morte do Quintana não nos tivesse acontecido, não sei se conseguíamos apurar-nos para os Jogos Olímpicos. Foi um combustível”

O atual selecionador nacional de andebol, Paulo Jorge Pereira, que durante dois anos vai acumular o cargo com o de treinador de um clube esloveno, assume que irá ao Mundial 2025 para lutar por uma medalha. Nesta II parte da entrevista, o técnico fala da mudança de mindset, do choque que foi a morte do guarda-redes Alfredo Quintana, das conquistas e das derrotas da seleção, que o deixaram várias vezes lavado em lágrimas. Conta também como foram as passagens por clubes da Roménia e do Kuwait e revela qual o maior handicap do andebol em Portugal

Em 2016, tornou-se o selecionador nacional de andebol masculino. Ficou surpreendido com o convite?
Fiquei, sinceramente, não estava à espera. Andava a ver outras opções.

Sentiu um friozinho na barriga?
Eu já tinha sido selecionador de dois países, mas ser selecionador do nosso país é diferente, é uma sensação espetacular. Sempre que canto o hino, ainda hoje, aquilo é… Se calhar as pessoas veem-me a rir, mas é de felicidade. Embora uma vez, num jogo, acho que foi contra a Suíça, tivemos uma situação caricata. Puseram o hino, mas numas rotações acima. Muito rápido. Não conseguimos parar de rir porque não conseguíamos cantar o hino naquela velocidade [risos].

Quando assumiu a seleção, quais os primeiros objetivos que traçou na sua cabeça?
Eu tinha visto os jogos que Portugal tinha feito com a Islândia. O falecido Quintana fez um jogo brutal, mais de 20 defesas, e mesmo assim Portugal não conseguiu ganhar. Senti que podia haver mais alguma entrega ao jogo da parte dos jogadores, pareceu-me que não estavam a dar tudo e que podíamos fazer um bocadinho mais, com todo o respeito que tenho pelo treinador que estava antes de mim. Isto não tem a ver só com o treinador, tem a ver com tudo. Como agora, se fazem as coisas bem, ou mal, não tem só a ver comigo. Por isso, quando aceitei o convite, a minha preocupação foi indagar o que é isto de vir à seleção para aquela malta.

A que conclusão chegou?
Percebi que eles vinham para perder. O mindset deles era, lá vamos nós perder outra vez. Até o esquema corporal deles a entrar no estágio o demonstrava. Eu via que iam fazer um frete, porque os colegas dos clubes iam descansar e eles iam para mais uma semana de trabalho com a seleção e ainda por cima para perder. Foram muitos anos a perder, 18 anos sem ir ao Mundial e 15 anos sem ir aos Europeus, sempre o mesmo grupo de jogadores ou a variar pouco. Aquilo já estava enraizado.

Como conseguiu mudar esse mindset?
Primeiro com alguma paciência, mas, ao mesmo tempo, com algumas atitudes que eu também tinha e que hoje não tenho. Andar aos pontapés às coisas e a insultar, entre aspas, toda a gente. Eu parecia um maluco. E às vezes perguntava: “Mas eu tenho que ser maluco ou parecer um gajo maluco para nós mudarmos todos isto? Tenho de andar aqui aos pontapés a insultar toda a gente? Que é isto?” Eu próprio não gostava de ter aquele tipo de comportamentos, mas recordo-me que naqueles dois primeiros anos tive este tipo de atitude. Mas pouco a pouco o mindset mudou.

Uma coisa é a equipa e os jogadores, outra é toda a estrutura à volta da seleção. Aí também teve de fazer mudanças?
Tive. Nós temos um vice-presidente que é espetacular, tem feito muito pela federação, tem muito peso e, na altura, perguntei-lhe: “Mas tu queres ganhar ou queres perder?”; “Eu quero ganhar”; “Então, se queres ganhar, tens de fazer aquilo que eu digo. Porque até agora não ganhaste.” Lembro-me perfeitamente, estava em Vigo, no pavilhão, a falar com ele sobre isto. Ele ainda hoje diz que aprendeu muitas coisas comigo, como eu aprendi com ele. Nós tínhamos seis elementos no staff e agora somos 10. A federação debate-se com muitas dificuldades financeiras, mas, mesmo assim, conseguimos mais quatro elementos.

Em que áreas?
Não tínhamos treinador de guarda-redes, nem analista de vídeo, que são fundamentais. Não tínhamos um segundo fisioterapeuta, só tínhamos um para toda a gente. E depois entrou também a Ana que é do departamento de comunicação. Tudo isto são coisas fundamentais. E ainda não temos psicólogo. Quem me dera a mim ter psicólogo, para me ajudar a mim também e saber se há alguma coisa que possa melhorar em termos de comunicação, se estou a dizer alguma coisa que não devia dizer, ou se ele estão a perceber a mensagem. Há muitas coisas que podíamos melhorar, até no treino, se fosse um psicólogo que percebesse de andebol, por exemplo.

Que mais coisas implementou?
Temos muita comunicação interna por WhatsApp. Acaba uma competição, mando-lhes sempre qualquer coisa, ou antes de começar. Recordo-me que, quando todos diziam que nós éramos uma equipa extraordinária, que estávamos a fazer uma coisa brutal, eu perguntava-lhes: “Ganhaste alguma medalha?” Nós não somos maus, mas não somos os melhores do mundo, ainda podemos fazer melhor que isto. Sem entrar em obsessões, mas tentar gerar aquela sensação de que ainda podemos fazer melhor. Numa das mensagens dizia-lhes: “Se não acabarmos a nossa história é como se não tivéssemos história nenhuma.” Isto é duro, porque para eles sou um chato. Mas é a vida e eu faço os possíveis para não andar em banho-maria. É um risco que corremos, mas também se não corrermos riscos que andamos aqui a fazer?

No primeiro ano falharam o apuramento para o Europeu 2018. Já sabia que dificilmente o conseguiriam, certo?
Sim, mas há uma história engraçada nesse apuramento. O primeiro jogo que fiz com a seleção foi contra a Alemanha, na Alemanha, num ano em que a Alemanha foi campeã da Europa. A Alemanha estava no nosso grupo, assim como a Eslovénia, que também tinha sido vice-campeã do mundo, ou seja, era impossível. O vice-presidente que me contratou disse logo para esquecer o apuramento, porque era impossível. Perguntei-lhe: “Mas é impossível porquê?” Ele próprio já estava a assumir, como todos os jogadores, que vinham para perder. Eu disse que íamos combater e que depois logo se via.

Quais os momentos-chave desse apuramento?
Fomos jogar à Alemanha, perdemos por 11 no primeiro jogo. Eu não estava satisfeito e o nosso presidente, que também tinha acabado de entrar, pediu para falar com os jogadores no final do jogo e fez um discurso positivo. O presidente acabou de falar e eu virei-me para eles: “Vocês acham que não podíamos ter feito melhor do que isto? Parecemos os cabeçudos no meio da festa. Os gajos todos a bater palmas e nós ali a parecermos uns cabeçudos.” Eles ficaram todos a olhar para mim, provavelmente a pensar que eu era maluco. Mas o que é certo é que quando jogámos com a Alemanha em casa, no pavilhão de Gondomar, eu pedi para porem uma música de Leonard Cohen a tocar em looping, cujo refrão é: “First we take Manhattan, then we take Berlin.” Os gajos a aquecer e o Cohen sempre a cantar a mesma canção. Perdemos por três golos e tivemos a disputar o jogo até ao final. Acabámos por empatar em casa com a Eslovénia e depois fomos perder à Eslovénia no jogo seguinte. Não tivemos hipótese nenhuma lá, mas em casa não ganhámos porque não calhou.

Também introduziu alterações táticas?
Cada um tem a sua forma de ver o jogo, mas hoje digo que toda a gente joga quase tudo igual. Varia um pouco no detalhe e na capacidade que os jogadores têm para explorar o jogo.

Quem eram as mais-valias da equipa quando assumiu a seleção?
O Quintana era um deles e os cubanos que vieram dar à equipa mais altura, mais peso, um perfil que nós não tínhamos. Agora temos o Salvador Salvador, o Cavalcanti, que estavam a começar. E o Rui Silva, que tem uma forma de interpretar o jogo espetacular. Tecnicamente são fantásticos.

Entretanto, em 2018, vai para Bucareste treinar uma equipa. Porquê?
Sim, porque é possível acumular. Quando há atividade de seleção, o trabalho do clube pára em termos de competição. O CSM Bucareste convidou-me e para mim foi excecional, foi dos anos em que me senti mais em forma, porque o treinador também precisa sentir-se em forma. Se eu estiver quatro, cinco meses sem ir ao pavilhão dar treino, depois, quando vou dar treinos, parece que estou a fazer uma coisa que não sei fazer. Perdemos aquela rotina. Por isso é que às vezes até peço para dar treinos aos mais novos, para me manter mais ativo. O CSM era um clube que tinha um orçamento elevado, eram três milhões de euros. Era um projeto muito interessante, mas fui percebendo que a Roménia é um país especial.

Em que aspetos?
Eles podiam ser fantásticos no desporto e são, mas podiam ser muito melhores.

O que lhes falta?
Chegaram a propor-me combinar um resultado com o adversário, por exemplo. Eu tinha contrato por mais um ano, mas havia uma cláusula que podia acionar para não continuar no ano seguinte. Foi o que fiz. Eles ainda hoje ficam abismados como foi possível eu ter um ano mais de contrato, com aquele dinheiro, e dizer não quero. A Gabriela Szabo, ex-maratonista, era a presidente do clube. Fiz três ou quatro reuniões com ela e ela não entendia. Eu aqui só dei um exemplo, mas há muitos exemplos que nem quero falar deles e que foram acontecendo. Expliquei-lhe as razões por que não queria continuar e ela não entendia. Eu adoro aquilo que faço, faço isto por paixão. Às vezes dou por mim a correr da cozinha para o escritório porque ainda tenho uma coisa para acabar, vou entusiasmado. Como ia estar ali só por dinheiro? Não podia.

Os jogadores romenos são muito diferentes dos portugueses?
Eu tinha nove nacionalidades na equipa, romenos, iranianos, bósnios, espanhóis... Muito difícil. Os romenos ainda pensam que são a Roménia dos anos 60. Eu dizia-lhes: “Malta, vocês perdem com Portugal. Têm que mudar a vossa forma de pensar.” Aquilo era uma luta constante, faziam uma barreira aos estrangeiros e ganhavam mais dinheiro do que eles, auto-protegiam-se, era um ambiente um bocado estranho de trabalho. Estive dois meses, para finalizar a época, abril/maio, e fiz mais uma época. Ganhámos a Taça Challenger nessa época 2018/19.

Pelo meio, a seleção portuguesa iniciou o apuramento para o Europeu 2020 e garantiu a qualificação, ainda em 2019. Quando é que os jogadores acreditaram que era possível a qualificação para esse torneio?
Recordo-me que há uma declaração do Figueira, um dos guarda-redes, a um jornal, em que dizia que só eu é que acreditava naquilo. Por um lado achei curioso, mas eu preferia que mais gente acreditasse naquilo. Quando digo “naquilo” é o ganhar à França. Isto começa tudo em 2018 quando vamos ganhar à Lituânia que tinha uma equipa fortíssima Eu disse, “pronto, está feito?” Tínhamos ganho em casa à Roménia por bastantes golos. Garantimos logo no terceiro jogo, tanto que aquele dia foi espetacular para toda a gente, num ambiente extraordinário, em Guimarães. Parece que tudo começou ali, mas não, para mim, foi na Lituânia, quando faltavam sete minutos, estávamos a perder por cinco golos e acabamos a ganhar por um. Naquele dia, pensei logo, isto vai dar.

Os jogadores só acreditaram quando foi uma certeza?
Penso que sim. Acho que sempre duvidaram um bocadinho.

Foi a partir desse apuramento que a mentalidade dos jogadores mudou?
Pode ter sido. Depois há uma série de acontecimentos também. Não podemos esquecer que, nos clubes, o Magnus Andersson também ajudou porque trouxe outro mindset também diferente. A maioria dos jogadores que eu tinha eram do FC Porto. Eles conheciam-se bem entre eles. O Magnus percebe de andebol, aquilo foi um conjunto de situações que ajudou bastante. Mesmo o Sporting e o Benfica foram organizando-se cada vez melhor. A seleção beneficia dos clubes assim como os clubes também beneficiam dos atletas virem à seleção sistematicamente a competir a este nível. É um benefício mútuo.

O 6.º lugar no Europeu de 2020, pessoalmente, soube a muito ou a pouco?
Na altura soube muito bem. Foi um ciclo olímpico. Nós já fomos duas vezes em dois ciclos olímpicos, jogar os pré-olímpicos e jogar o pré-olímpico implica ficar no top 8 mundial do ano anterior aos Jogos Olímpicos [JO] ou no top 8 europeu do ano dos JO, que foi que aconteceu este ano em que ficamos em 7.º, por isso é que fomos ao pré-olímpico. O crivo para chegar aos JO é brutal. Primeiro, tens de ficar no Top 8 e depois tens de ir ao pré-olímpico e normalmente jogamos fora de casa e temos de ganhar.

Os JO valem mais do que um Mundial para um jogador e treinador de andebol?
Valem. Uma medalha olímpica vale muito mais do que a medalha do Mundial. Só não acontece no futebol porque para eles os JO é campismo. O futebol foi três vezes aos JO. Atenção, que é uma modalidade espetacular e têm feito muito pelo país, temos que ser claros. Não é inveja o que estou a dizer. Agora, nós sabemos que quando vão aos JO, vão com jogadores sub-23. Vão dar experiência aos putos para os JO. Eu acho que o futebol nem sequer devia ser considerada modalidade olímpica. Tinha mais sentido considerar o futsal modalidade olímpica do que o futebol. Eles não dão importância nenhuma aos JO. Nas outras modalidades, ir aos JO é o topo do topo. Até porque são 12 seleções a nível planetário que são apuradas. 12, de todos os continentes.

Deu a entender que o 6.º lugar soube-lhe a muito. Mas considera que podíamos ter feito ainda mais?
Com essa transformação de mindset eu acho que podíamos ter ido ao 5.º.

Não fomos porquê?
Jogámos com a Alemanha, uma seleção fortíssima. Mas eu senti que já estávamos no nosso limite em termos daquilo que os jogadores podem dar.

Em termos físicos ou psicológicos?
Ambos. Nós estávamos deslumbrados com aquilo que estávamos a conseguir fazer. Quando nós fomos ao quinto e sexto lugar, já estávamos no pré-olímpico, o nosso objetivo estava mais do que atingido. No balneário, normalmente falo quatro, cinco minutos antes dos jogos, mas antes desse praticamente não falei. O que fiz foi: “Malta, hoje o que temos de fazer é…” e escrevi no quadro: Amor. “É isto que temos de sentir hoje entre nós.” Lutámos até ao fim, mas acabámos por perder. Não é o mesmo ficar em 5.º ou em 6.º, mas, naquele momento, tendo em conta que cumprimos todos os objetivos, sobretudo a qualificação para o torneio pré-olímpico, o 6.º lugar já era mais do que suficiente, portanto, estávamos saciados com o que fizemos.

O desafio seguinte acabou por ser o Mundial de 2021, no Egito, uma vez que os JO de Tóquio foram adiados para o verão de 2021, devido à pandemia. Acabaram por fazer o melhor resultado de sempre em mundiais, o 10.º lugar. Iam com esse objetivo definido, de ficar nos dez primeiros?
Íamos com o objetivo de primeiro passar todas as etapas da fase inicial e depois conseguir o melhor resultado de sempre. Foi mais um objetivo alcançado.

Ficou dentro das suas expectativas ou pessoalmente pensava também que podíamos ter ido um pouco mais longe?
Eu achava que podíamos ter feito um bocadinho melhor.

O que falhou então?
Tivemos alguns jogos com equipas de topo em que podíamos ter feito um bocadinho melhor. É como se nos faltasse um pouco aquela experiência de jogar nas grandes competições. Porque uma coisa é fazer qualificações. Todos aqueles jogadores que estavam lá a jogar, nunca tinham participado num mundial. Portanto, não sabíamos muito bem o que era isso de jogar jogos consecutivos com um dia de intervalo e às vezes sem intervalo. Preparar jogos freneticamente, ver erros freneticamente de um dia para o outro, foi um ritmo competitivo diferente para toda a gente. Foi uma adaptação que foi preciso fazer. Como treinador já tinha feito dois mundiais femininos, sabia mais ou menos como era o ritmo da competição, mas eles não.

O guarda-redes Alfredo Quintana faleceu, inesperadamente, em fevereiro de 2021. Como soube da notícia e onde estava?
Estava em casa quando me ligaram a dizer que ele tinha falecido. São coisas difíceis de entender. Recordo de um dia em que fui caminhar, de máscara, porque estávamos ainda em pandemia, e só depois reparei que tinha a máscara encharcada de lágrimas e que estava muito longe de casa. Tive de pedir à minha mulher para me ir buscar. Apetecia-me andar, era como se estivesse a fugir de alguma coisa. Isto foi passado dois ou três dias de saber da notícia. Entretanto, fui falando com os atletas, sobretudo mais os do FC Porto. Fui-me preparando porque íamos ter estágio passados 15 dias. Íamos ter o pré-olímpico logo a seguir. Foi um momento muito crítico porque não sabia se estávamos prontos para ir jogar um torneio tão importante para nós e para o desporto nacional.

Como sentiu que estavam os jogadores quando chegou ao estágio?
Aquilo que fiz foi ligar a dois ou três psicólogos que conhecia, para perguntar o que podia fazer, ou o que não devia fazer. A opinião deles foi unânime, disseram que são situações que é preciso enfrentar, não podemos fugir delas. Lembrei-me logo da minha caminhada, parecia que estava a fugir. Antes do estágio ainda falei com alguns atletas, sobretudo com o capitão, abri o jogo e disse que se eles sentiam que não estavam em condições de poder abordar a competição, podíamos abandoná-la. A resposta que eu queria ouvir, ele deu-ma: “Não, não, nem pensar, nós vamos competir, e vamos competir sobretudo por ele.” Fiquei um pouco aliviado, porque me deu também mais força para preparar aqueles jogos.

Foi para o torneio pré-olímpico com a fasquia mais baixa?
Não, pelo contrário. Após aquela conversa, achei que ia ser um combustível para nós, inesgotável. Foi o que aconteceu. Não sei se, se aquela fatalidade não nos tivesse acontecido, conseguíamos apurar-nos. Nós vamos buscar força e energia em situações limite. Em situações de sobrevivência ou em situações de muita injustiça, que era o caso. A revolta e a raiva fez com que tivéssemos esse combustível que foi necessário para ganhar à França, na França, e temos perdido só por um golo contra a Croácia, num jogo muito polémico em relação à arbitragem, que foi uma coisa brutal. Conseguimos superar isso. Foram três jogos consecutivos sem descanso. Com a Tunísia ganhámos facilmente, no dia seguinte perdemos por um com a Croácia e logo a seguir ganhámos à França. Estávamos todos muito focados em dar tudo o que podíamos.

As questões de arbitragem nas grandes competições também têm a ver com o peso das camisolas?
Pode ter, nunca sabemos. Arbitrar jogos de andebol é muito difícil, porque são muitas situações, muito rápidas, em pouco tempo. Os árbitros não têm uma tarefa fácil e depois é muito aberto à interpretação. Nós vemos muitas vezes os dois bancos aos saltos na mesma situação. Quem tem razão? Mas o que pergunta tem uma certa lógica, porque há estatutos, um histórico, e isso também influencia os árbitros, nem que seja de uma forma inconsciente. Creio que agora vamos tendo um estatuto cada vez mais consolidado em termos internacionais, agora chateio-me muito menos com os árbitros do que antes. Não é por acaso, pode ter um pouco a ver com esse estatuto que fomos adquirindo. Mas ainda há muito trabalho a fazer. Temos que consolidar a nossa posição em termos internacionais.

Nos JO de Tóquio, houve algum jogo que tenha sido mais marcante para si?
O jogo do Japão, por exemplo. A participação nos JO foi um calvário. A começar logo pelo facto de termos viajado tão tarde. Não é possível ir para o Japão com quatro, cinco dias de antecedência, quando estamos a 10/12 horas de jetlag. A ciência diz que tínhamos de lá estar, no mínimo, com 10 dias de antecedência.

Não foram mais cedo porquê?
Por questões financeiras. Fomos a última seleção a chegar ao Japão. Todas as outras chegaram antes e algumas com uma distância de jetlag ainda mais curta do que nós. Portanto, alguma coisa está mal. A questão foi que a aldeia olímpica só abria sete dias antes do primeiro jogo e só teríamos pavilhão para treinar cinco dias antes do primeiro jogo. Teríamos de estar dois dias dentro de Aldeia Olímpica, sem treinar ou só a fazer ginásio. Se quiséssemos ter pavilhão, tínhamos de pagar cerca de €10.000 por dia, para trabalhar fora da aldeia olímpica. Foi o que algumas seleções fizeram, as que têm mais possibilidades financeiras. Mas a viagem para lá também foi caótica porque estagiamos em Melgaço, no Minho, viajámos de autocarro para Lisboa para sair no dia seguinte com parte da comitiva olímpica e houve uma greve da Ground Force. Não pudemos seguir nessa manhã, fomos para outro hotel almoçar. Viajámos para Faro de autocarro e saímos de Faro para Paris e de Paris é que fomos para Tóquio. Vejam as viagens que fizemos. Fomos só com cinco dias de antecedência, metade do que devia ter sido, porque os níveis fisiológicos só normalizam após 10, 11 dias quando há um jetlag tão grande.

Que consequências é que isso trouxe para a equipa?
Fomos jogar todos a dormir, era impossível ter uma certa produtividade quando as pessoas ainda não conseguiam dormir durante a noite, por exemplo. Nós até tínhamos planificado indutores de sono durante a viagem para tentar acertar a questão dos horários. Mas como não viajámos no dia seguinte, como programado, todo o plano caiu. Víamos todos os dias a urina e percebemos que só passados 10 dias é que os níveis estavam normais. No jogo contra o Japão nós estávamos completamente ausentes do jogo, acabámos por perder por um.

E perderam também só por um contra a Suécia.
Sim, mas passámos à fase seguinte. Eu dizia às pessoas que quem vai aos JO, quando há 12 seleções em jogo, é para lutar por ganhar uma medalha. Acho que poderíamos perfeitamente lutar por uma medalha, tal como agora lhes disse, quando acabámos a qualificação para este Mundial, que o nosso objetivo é lutar por uma medalha. Mas, naquelas condições… Recordo-me que tivemos uma discussão logo no início porque os atletas queriam ir ao desfile de abertura. Só que uma coisa é ir ao desfile em Paris, no Rio Sena, com uma temperatura amena, outra coisa é ir ao desfile em Tóquio, com 50° graus e com jetlag, com quatro horas para organizar o desfile. No Comité Olímpico disseram-nos logo que quem tem competição no dia seguinte, por norma, não vai ao desfile porque não consegue competir no dia seguinte. Os atletas queriam ir e chateei-me com todos.

Proibiu-os de ir ao desfile?
Expliquei-lhes as razões e depois deixei ao critério deles. Eles decidiram não ir, mas houve bastante tensão logo no início. Tudo é uma aprendizagem. Este ano já lhes tinha dito que se nos qualificássemos para ir aos Jogos Olímpicos, ir ao desfile era inegociável, mesmo que tivéssemos jogo no dia seguinte, ou seja, podiam ir. Porque são circunstâncias diferentes.

Em 2021/22 foi treinar o Kuwait SC.
Sim, foi a última experiência que tive em acumulação, antes desta agora no Celje Pivovarna LASKO, na Eslovénia. Mas foi uma experiência curta de dois meses. Aceitei por questões financeiras e também porque era aliciante poder lutar para ser campeão asiático de clubes. Foi uma experiência em que aprendi muito, consegui ver o que é viver numa parte do Globo onde há seres humanos espetaculares, mas também humanos que não entendem os outros seres humanos. Encontrei pessoas espetaculares, mas, ao mesmo tempo, senti que estavam sedentos de valores. Pessoas boas, mas sedentas de valores.

Que tipo de valores?
Sobretudo o respeito pelo outro, altruísmo. Não ser invisível. Uma série de coisas que ali não existiam.

Conseguiu atingir os objetivos. Foi campeão asiático, certo?
Conseguimos atingir objetivos, só que despediram-me três dias antes da final.

Porquê?
Aquilo foi um processo relativamente complicado, se eu voltasse lá hoje provavelmente reagia de forma diferente, o que evitava muita coisa. Houve muitos pormenores que não encaixam na nossa forma de funcionar. Por exemplo, num grupo de trabalho normal, o balneário é um local sagrado, em que nem toda a gente pode entrar. No jogo dos quartos de final, que vencemos facilmente, entrei no balneário e havia cinco ou seis pessoas lá dentro a falar com os jogadores, quando estavam a vestir-se para o jogo. Parecia uma feira. Pessoas que eu não sabia quem eram. Comecei a falar à Porto, andava para trás e para a frente a insultar toda a gente, parecia uma barata tonta [risos]. Falar à Porto dá uma energia muito grande. Não é o mesmo dizer “Salta” ou dizer "Salta” e depois aquela palavra mágica logo a seguir. Passado um pouco, eles começaram a sair porque viram que eu estava a ficar muito nervoso com aquilo. Ficou lá um encostado, com o joelho dobrado e o pé na parede.

Como reagiu?
Esperei mais um bocadinho, quando vi que ele não saía, fui ter com ele: “Desculpe, mas você quem é?” Ele ia responder, mas um dos dois team manager disse logo: “Ele está comigo.” Mas isto é como ir à discoteca, está com ele pode entrar? Respondi-lhe: “Desculpe, mas eu não o conheço de lado nenhum para estar aqui dentro.” O rapaz ia sair e eu disse: “Não, agora pode ficar. Mas amanhã, no próximo jogo, aqui dentro só estão os atletas, o presidente e o vice-presidente, mais ninguém. Isto não é uma feira.”

O que aconteceu depois?
O presidente ficou chateado, porque aquele rapaz era irmão do team manager e também tinha uma certa função no clube, só que eu nunca o tinha visto na vida. Eles ficaram tão chateados com aquilo que deixaram que nós jogássemos, empatámos o jogo, mas apurámos para a meia-final. Como empatámos, eles invadiram o campo, um dos team managers foi sancionado, queriam bater no árbitro, foi uma feira. Nessa noite, como empatámos o jogo e já ninguém foi ao balneário, disseram que não havia condições para eu continuar [risos]. Um dos team managers subiu para o papel de treinador e, como o trabalho já estava feito, ganharam a meia-final e a final. Havia uma cláusula no contrato em que eles podiam despedir sem justa causa, embora com direito a indemnização.

Recebeu o dinheiro da indemnização?
Andei quase um ano para me pagarem. É assim que funciona naqueles sítios. Tenho uma história uma interessante que aconteceu no Kuwait.

Força.
Estávamos a jogar a Taça do Golfo e perdemos um jogo. A mim nunca me atiraram ao ar por ficar em 3.º lugar, mas, no Kuwait, atiraram-me ao ar por ficar em 3.º lugar. Foi interessante. Perdemos a hipótese de ir jogar a final, perdemos o jogo e o presidente ordenou que o treinador fosse a casa dele. Aquilo não era uma casa, era uma coisa brutal. Subimos escadas, descemos escadas, andámos às voltas com não sei quantas pessoas, parecia um centro comercial, a casa dele. Entrei numa sala retangular, enorme, que tinha bancos encostados à parede. Eu, o presidente e os team managers estávamos numa ponta a conversar e, ao redor da sala, estariam mais 10/15 pessoas de todas as idades, mas, sobretudo mais novos. Depois percebi que um deles era filho do presidente, os outros deviam ser amigos. Mas achei aquilo curiosíssimo porque tive a sensação do que são os jogos de poder e do que é tentar reduzir a uma insignificância humana o outro, aos olhos de outros.

Porquê? O que disse o presidente?
Ele começou por me perguntar porque é que perdemos. É muito difícil um médico explicar, quando faz uma intervenção cirúrgica, todos os pormenores e procedimentos de porque está a fazer assim; e eu não consigo falar com o presidente de um clube, do Kuwait, ainda por cima, sobre andebol. Há presidentes que até sabem de andebol, porque jogaram e foram treinadores, mas aquele senhor nunca jogou, nunca foi treinador de nada. Respondi: “Perdemos, porque eles marcaram mais um golo do que nós.” Ele diz: “Sabe porque é que perdemos? Foi ‘bad management’.” Ou seja, culpa do treinador, que não administrou bem as trocas de jogadores. Mas, o melhor jogador nem podia jogar porque tinha levado um vermelho, tive jogadores com medo, houve um miúdo que me pediu para sair, os lábios a bater um no outro, tremia com medo de falhar, dizia que não conseguia jogar. Mas, o que ele estava a fazer ali era uma tentativa de exposição pública às pessoas que ali estavam e de demonstração de poder, de uma forma muito arrogante.

O que lhe respondeu depois, ou o que fez?
Eles estavam todos recostados para trás, quase deitados naquele banco comprido, e como me apercebi daquela tentativa de ‘chacina’ do treinador, a determinada altura disse-lhe: "Sabe porque perdemos? No ‘balls’." E coloquei as mãos nos meus genitais. A malta que estava toda deitada, sentou-se, direita. Falaram em árabe entre eles. E eu continuei: “Mas não há problema, amanhã vou para casa.” Ele começou a dizer: “Ok, ficamos amigos como dantes, você tem aqui uma porta aberta.” Depois quiseram continuar a reunião no escritório do presidente. Ele perguntou se conseguimos ganhar o campeonato asiático. Eu disse-lhe que sim. Perguntou se comigo também conseguiam [risos], disse que imaginava que sim e ele conclui: “Então pronto, vamos continuar consigo, afinal já não vai embora” [risos]. Foi surrealista. Mas aprendi que quando eu reajo de forma ‘selvagem’ as pessoas respeitam-me muito mais. É giríssimo.

Em Portugal também é assim?
Também já reagi de forma selvagem em Portugal, mas naqueles contextos, da Ásia e de África, percebi que é assim. Temos que saber adaptar-nos aos contextos. Temos de ser camaleões.

Tanto o Europeu de 2022 como o Mundial de 2023 não correram tão bem. Porquê?
O Europeu de 2022 foi surrealista. Aí tive a perceção clara de que, aquilo, validou o treino.

O que quer dizer com isso?
Tivemos cerca de 11 casos de covid. Entramos em Rio Maior, no estágio, aliás, eu não cheguei a entrar porque me aconteceu uma coisa que também foi surreal. Na noite de Natal fui dar um passeio de 10/15 minutos após o jantar, junto à Ria. Estava um bocadinho de frio e imagino que tenha sido por isso, e no dia seguinte tive um episódio de síndrome vertiginoso agudo. Caí na casa de banho e não conseguia levantar-me. Veio o INEM, entrei na emergência no hospital e fiquei lá essa noite. Supostamente, no dia seguinte íamos entrar em estágio.

Já não foi?
Avisei as pessoas que não podia ir para o estágio. Mas, em casa, tinha reuniões com o staff antes do treino e com os atletas logo a seguir, para explicar o treino. Eu não conseguia mexer-me muito rápido, estive dois meses sem poder conduzir. Ainda hoje ocasionalmente tenho umas vertigens, mas nunca mais tive um episódio daqueles. No último dia de estágio, um amigo foi-me buscar a Vigo, levou-me a Rio Maior para eu dar o último treino. No dia 1 de janeiro de 2022, um atleta que tinha vindo com outros atletas no carro no regresso do estágio, acusou covid. Tivemos que separar esse atleta e os dois que vinham com ele. No dia seguinte houve mais casos. Como estávamos a ser avaliados quase diariamente, às tantas houve um erro do laboratório que disse que havia três ou quatro casos de covid no staff. Depois verificou-se que não tinham covid, mas que devido ao erro, tiveram de ficar em confinamento. Não conseguimos treinar.

O que fizeram?
O que fizemos foi dividir os grupos por cores, os verdes, os laranjas e os vermelhos. Os vermelhos tinham covid, os laranja ainda não sabíamos, e os verdes não tinham. Os verdes iam treinar e eu cheguei a dar treino a três atletas, todos separados uns dos outro, um no meio-campo, outro numa baliza e o outro na outra baliza. Montávamos os exercícios com algum material, aqueles três vinham, treinavam meia hora, eu na bancada, eles iam embora, limpávamos o material e vinha outro grupo de três. Isto foi brutal. Não conseguimos preparar nada. Zero. Chegamos à Hungria, acabámos por perder por um, com 20.000 pessoas a assistir. A diferença entre fazer o 19.º ou passar à fase seguinte, estamos a falar de um golo.

E o Mundial de 2023?
Há aquele impacto com o Brasil, porque fizemos uma viagem relativamente longa que não foi fácil para ninguém e fomos jogar às três da tarde no dia seguinte, não tivemos nenhum tempo de recuperação. Fizemos um mau jogo, mas ainda por cima houve aquela decisão das árbitras francesas, também algo polémica, mas que eu compreendo, e esse empate fez com que não ficássemos no top 8 mundial. Ficamos em 13.º lugar, o primeiro dos últimos, daqueles que não apuram.

Pode recordar a polémica com as árbitras francesas?
Nem foram tanto elas. Elas terminaram o jogo, começámos todos aos saltos porque tínhamos ganhado por um. E depois o delegado disse que era preciso ver as imagens porque provavelmente os nossos jogadores não estariam na distância correta quando foi marcado livre. Era um livre de nove metros, os nossos jogadores tinham de estar a três metros e havia dois jogadores que estavam a dois metros e meio. Como o regulamento diz que os últimos 30 segundos de jogo são sempre olhados com mais rigor, elas foram ver. Só que se esqueceram de ver que o jogador brasileiro também estava a pisar a linha de nove metros e não podia. Portanto, o livre teria de ser repetido. Utilizei esse jogo e coloquei uma questão aos nossos atletas, se aquilo era obra do acaso, ou se podíamos ter feito melhor as coisas. Chegámos à conclusão que podíamos ter feito melhor as coisas. Supostamente éramos mais fortes e adiámos tudo para os últimos segundos. Será que era preciso? Ficar no top 8 ou em 13.º foi aquela coisinha ali.

No Europeu deste ano, a seleção ficou em 7.º lugar, a segunda melhor classificação de sempre e conseguiu o regresso ao pré-olímpico de apuramento. Ficou satisfeito?
A questão é que se tivéssemos ficado no top 8 mundial, já estávamos apurados para o torneio pré-olímpico. Não conseguimos, deixámos tudo para este Europeu, em que tínhamos de ficar também no top 8.

Mas, infelizmente, o pré-olímpico não correu bem. Que explicação tem?
Depois deste pré-olímpico confesso que, quando cheguei ao quarto, chorei como uma criança. Também havia alguns atletas nossos a chorar no balneário. Não nos passa ao lado algo que lutámos muito para ter e depois não conseguimos. Mas a mensagem que lhes mandei logo a seguir foi que o fracasso, entre aspas, está sempre a caminho do sucesso. Se não tivermos este mindset não nos conseguimos levantar no dia seguinte. Porque os jogos são contínuos. Hoje temos uma derrota, amanhã temos uma vitória e se ficarmos catastroficamente abalados com uma derrota ou exageradamente felizes, não conseguimos andar nisto. O que lhes disse foi isso, temos de pensar que o mau dia está a caminho do bom dia, ou que a fadiga extrema está a caminho da vitalidade extrema ou que a doença está a caminho da saúde. Senão, não conseguimos viver bem. Temos que ter esta forma de pensar diariamente.

Mas onde viu as maiores falhas no torneio pré-olímpico?
Ganhámos à Noruega no Europeu. Mas jogámos cinco vezes com a Noruega desde 2020 e ganhámos uma vez apenas. Ou seja, a Noruega é uma das melhores seleções do mundo e pensámos que, como ganhámos no Europeu, se calhar vamos ganhar-lhes outra vez. Eles foram com um central, que não tinham no Europeu, remodelaram um pouco a forma de jogar e chegaram lá, ganharam à Hungria fácil e ganharam-nos. Depois, jogámos na Hungria, contra a Hungria. Fisiologicamente está mais do que estudado que até a testosterona sobe quando estamos a jogar em casa. O engraçado disto é que nós agora consideramos que é um fracasso jogar o pré-olímpico na Hungria e perder. Para nós é um fracasso e eu não sei se é um fracasso quando nunca na nossa vida tínhamos ido a um pré-olímpico. Em 2020, nenhum jornalista, nem ninguém, falou em ir aos Jogos Olímpicos. Acho que nem nós estávamos muito conscientes disso, até percebemos que aquilo podia dar acesso aos JO. Em dois ciclos olímpicos, fizemos dois pré-olímpicos. Daqui a pouco tempo vai sair também um documentário feito pela RTP.

Sobre a seleção?
Sim. Na altura, disseram-me que queriam fazer o documentário, mas só se conseguíssemos o apuramento para Paris 2024. Ao que respondi: “Desculpem lá, ir a dois pré-olímpicos não chega para fazer um documentário dos Heróis do Mar, num país como o nosso em que vale tudo menos o Desporto? Isso é pouco? Não chega?” Acabaram por fazer o documentário, porque as pessoas não têm noção do que é apurar para dois pré-olímpicos em dois ciclos olímpicos consecutivos. Digam-me qual é a empresa portuguesa no top 8 europeu ou no top 8 mundial?

Em junho, deu uma formação sobre o guarda-redes, a peça principal do xadrez. O guarda-redes é mesmo a peça principal do xadrez andebol?
É muito importante. No futebol também, mas no andebol mais. Porque, no futebol, se calhar pode haver um jogo em que o guarda-redes não recebe nenhum remate e se defender um pénalti é muito visível. Só que, no andebol, é permanente, os penáltis, os livres e as situações em que tem de intervir.

Para ser um guarda-redes de sucesso no andebol qual é a principal característica que é preciso ter?
Há exceções em termos do que é o perfil antropométrico. Por exemplo, o Gonçalo Peres de Vargas, que é o guarda-redes do Barcelona e da seleção espanhola, tem um perfil muito similar ao nosso Diogo Rêma. Mas é uma exceção em termos de perfil antropométrico. Os jogadores do topo mundial têm todos 1,95/2 metros de altura, não têm 1,86 ou 1,88m como tem o Diogo. Aqueles sete, oito centímetros, não só de altura, mas também de envergadura, fazem com que o melhor perfil de guarda-redes seja esse. Nós estamos com dificuldade em encontrar um perfil parecido com o do Quintana, que era de nível mundial também em termos antropométricos. Convém que ocupem muito espaço, depois vêm as questões técnicas, que também são muito importantes e que é preciso trabalhar desde pequeno. Pouco a pouco estamos a dar-nos conta que temos de trabalhar não só os jogadores de campo, mas também os guarda-redes na fase inicial de formação.

Até hoje, de todos os jogadores que já treinou, qual o que mais o surpreendeu?
É muito difícil responder a essa pergunta. O que nós treinadores pensamos sempre é: de que forma é que eu posso ajudar este atleta a ser melhor? Não consigo destacar nenhum jogador pela negativa ou pela positiva. Claro que à memória vem logo muitas pessoas, eu poderia dizer gostei muito de trabalhar com este atleta e muito menos de trabalhar com aquele, mas não quero destacar nenhum.

Qual é o nosso maior handicap?
A base de recrutamento. É como se nós não pudéssemos perder nenhum atleta com perfil, identificado. Nós tentamos identificar os atletas o mais cedo possível, para depois enquadrá-los o mais rapidamente também nas seleções, nos centros de treino. O nosso maior handicap é a quantidade de atletas. Os países de topo têm todos uma base de recrutamento enorme. Se perderem aquele atleta, têm outro. Na nossa seleção, dentro da lista dos 35, temos atletas extraordinários, todos eles, mas nota-se um pouco quando há duas ou três lesões. Porque têm menos experiência. Quando houve aqueles casos de covid de que eu falava há pouco, em 2022, a Islândia teve oito a dez casos de covid durante a competição e os atletas tiveram de abandonar a competição. Mas eles trouxeram outros jogadores, alguns nem conhecíamos de lado nenhum, e mantiveram o nível. Na Islândia, que não é um país com muita gente.

Tem alguma solução para esse problema? O que é preciso ser feito a base de recrutamento ser maior?
Eu acho sempre que se pode fazer mais, mas tem de haver um trabalho, não só ao nível do andebol. Temos de ser muito mais sérios em encarar o que é o Desporto, primeiro como atividade física, pensando um pouco na saúde e isso tem de ser feito nas escolas em tenra idade. Os países nórdicos já perceberam isso há muito tempo. Nós é que ainda achamos que isto da atividade física se calhar não é assim tão importante na aprendizagem dos miúdos. Numa fase posterior é preciso organizar um bocadinho melhor o Desporto Escolar. Estamos sempre a dizer que não temos dinheiro, mas quando vejo que grande parte das aulas de Desporto Escolar são para acertar os horários dos professores que ainda têm horas para cumprir, porque até percebem um bocadinho de voleibol ou de futebol… Enquanto estivermos assim, não é possível. Posso estar a ser demasiado ingrato com os meus companheiros que lideram o Desporto Escolar, porque eles fazem o esforço deles, mas acho que ainda não é suficiente. A partir do momento em que isto que referi acontece sistematicamente em muitas escolas, não posso dizer que aquela escola está a pensar no Desporto Escolar, não, ela está a pensar em fechar o horário àquele professor, que até percebe um bocadinho de uma modalidade. Devíamos funcionar um bocadinho ao contrário. Pensar nos alunos e não nos professores. Se calhar ajudava que, no contexto da escola, o desporto fosse encarado como algo mais sério e os miúdos pudessem acabar por aproveitar para se formar numa determinada modalidade. Mas, felizmente, que ainda há muita gente que por carolice e paixão ao andebol também ajuda a identificar atletas naqueles clubes mais modestos.

A próxima grande competição é o Mundial em 2025. Já traçou o objetivo?
Não vamos deixar nunca de lutar por uma medalha. Já sei que podemos ter as desculpas todas do mundo para dizer que não é possível, mas não vamos deixar de lutar por estabelecer metas quase impossíveis. É mais cansativo, ficamos mais expostos, corremos mais riscos, mas também temos mais borboletas na barriga.

Qual a sua maior ambição enquanto treinador de andebol?
Eu gostava de trabalhar num clube de topo europeu. Acho muito difícil enquanto eu estiver na seleção portuguesa, porque os clubes de topo europeu não aceitam a acumulações. Querem completa disponibilidade para o clube.

Onde ganhou mais dinheiro até hoje?
Na seleção portuguesa, onde já estou há oito anos e vou estar pelo menos mais dois.

Já deu para investir?
Não ganhei assim tanto dinheiro para fazer grandes investimentos, mas investi na minha casa.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Sou muito moderado e quando estou a comer algo que acho que é muito caro, eu lembro-me se os meus filhos também estão a comer tão bem como eu. Eles já vivem fora de casa há alguns anos.

Tem algum hobi?
Adoro viajar e ler. Muitas vezes não consigo encontrar tempo para ler, mas gosto muito de ler tudo o que tenha a ver com pessoas, com gestão de pessoas, com o conhecer melhor os seres humanos.

Acredita em Deus?
Não. Sou um bocadinho como o São Tomé. E ao ver tantas coisas, custa-me acreditar. Se houvesse essa intervenção divina as coisas podiam ser um bocadinho diferentes.

Superstições?
Não tenho superstições, mas é como dizem os galegos: “No creo en brujas, pero que las hay, las hay.” [risos] Há dois anos estive em Nápoles, eles têm lá aquele pimento vermelho que supostamente afasta os maus olhados e eu dei por mim a comprar um pequenino. Ainda hoje uso o uso na minha pasta. Há uns anos também usava sempre as mesmas cuecas nos jogos. Às vezes tinha de lavar à pressa e tudo. Nessas cuecas tenho escrito MAR. O meu pai chamava-se Rodrigo, a minha mãe Rosa, o meu filho chama-se Rodrigo, o A é de André, que é o mais novo, e a mulher chama-se Monserratt. Tudo isso deu MAR. Achei giro, escrevi MAR e de vez em quando tenho de ir lá com a caneta reforçar, para a tinta não sair. São manias [risos].

Tatuagens, tem?
Tenho uma dos JO de Tóquio. Escrevi Tóquio 2021, o 1 é mais grosso, como o 1 dos guarda-redes, e num dos zeros, tenho o tracinho de Quintana.

Segue ou pratica outra modalidade?
Gostava de jogar padel, mas um dos joelhos já não está autorizado.

Qual a maior frustração que tem na carreira?
Este não apuramento para estes Jogos Olímpicos de Paris é uma delas, mas a maior de todas já tem muitos anos. Nesse dia senti e percebi que podia morrer-se de tristeza. Nós estávamos a jogar a Taça das Taças, eu era adjunto do FC Porto, ganhámos em casa ao Valladolid por 10 e fomos perder a Valladolid, por 11. Fiquei num estado caótico, trabalhei muito para ajudar a preparar aquele jogo. Nestes Jogos Olímpicos foi duro porque tivemos o pássaro na mão, mas recuperei mais rápido.

E o maior arrependimento?
Sempre gostei de correr riscos, sempre em consciência com aquilo que são os meus valores, o que significa que não me lembro de nada. Há coisas da relação com as pessoas que hoje faria diferente, provavelmente era muito mais paciente agora, mas, em traços gerais, naquelas decisões mesmo duras, acho que decidiria da mesma forma.

Em competição, qual foi a decisão mais difícil que teve de tomar?
É muito difícil responder essa pergunta. Quando era treinador do FC Porto, o Carlos Martingo tinha uma relação com os árbitros difícil. Ele tem um carácter forte. Eu já o tinha avisado para ele não falar com os árbitros daquela forma porque era pior para nós e, no final de um jogo, em que ele repetiu, disse-lhe: “Tu na próxima semana estás fora da equipa.” Ele ficou anos zangado comigo. Aquilo custou-me. Mas o meu ego marcava muito o dia a dia. Eu hoje já consigo sacrificar o meu ego, mas, na altura, não conseguia. E ele ficou fora da equipa durante a semana. Os jogadores na segunda-feira pediram-me para eu o integrar como sempre, mas não permiti. Ou seja, ele treinava à mesma connosco, mas se nós estávamos a treinar ataque, por exemplo, ele ia para a defesa e vice-versa, era como se não contasse com ele. É engraçado que no fim de semana seguinte fomos jogar ao ABC, ele não jogou a primeira parte toda. No intervalo, no balneário, perguntei-lhe: “Estás pronto?”; “Estou”; “Então vais jogar.” Ele fez um jogaço na 2.ª parte, ganhámos. Depois tive uma conversa com ele.

O momento mais feliz da carreira?
Tenho muitos, mas aquela vitória contra a França, em Guimarães foi… Mas também adorei ganhar o campeonato africano com a Tunísia, com mulheres muçulmanas e com 16.000 pessoas a assistir.

Tem ou teve alguma alcunha?
Que eu saiba, não. Há uns bons anos havia um jogador de futebol brasileiro que era o Paredão, que jogava no FC Porto, e de vez em quando fazia uns jogos de futebol com amigos, eles chamavam-me o Paredão.

Há algum clube que gostasse muito de treinar?
Eu gostava muito de treinar o Barcelona. Conheço-o por dentro e, para mim, é o melhor clube do mundo.

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Citação de Lebohang, há 38 minutos:

Fisiologicamente está mais do que estudado que até a testosterona sobe quando estamos a jogar em casa.

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Citação de Lebohang, há 59 minutos:

 

Ele tem razão nessa parte. Há alguns estudos que mostram isso.

De resto, é uma entrevista que vem reforçar a opinião que tinha dele. Na série de episódios que não correram bem não apresenta uma única vez o seu desempenho como razão para não ter corrido bem. Há sempre alguma coisa extra que aconteceu. Se tivesse um nível de qualidade semelhante ao seu ego a seleção estaria muito melhor servida. 

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O meu avô era um dos directores dessa equipa bicampeã nacional de juniores, vou aproveitar para guardar as fotos 😀

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5 lugar no mundial sub-20 feminino derrotando para o efeito a Suécia. Grande trabalho que se está a fazer no feminino também, com destaque para o professor José António Silva. Era impensável discutir um jogo sequer com a Suécia há pouco tempo. 

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