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Mesut Ozil

NBA Época 2024

Publicações recomendadas

Citação de Shai, há 4 horas:

Não estava a par disto lol, que lunático.

A Team USA (ou a Nike wtv) não quer naturalmente polémicas envolvidas com esta equipa. Estou convencido que o Kyrie não anda na equipa pelas mesmas razões.

a cena de ele ter nas sapatilhas a teoria da conspiração que o Naismith não foi o criador do desporto (e escreve Nesmith, o ex-colega de equipa lmao) é surreal. O gajo sempre teve ares de pseudo-intelectual.

Citação de Rōnin, há 4 horas:

nunca pensei escrever isto, até porque não o queria nos Mavs, mas até agora, tem criado 0 problemas e quando fala bem para a imprensa, fala sempre bem

*knocks on wood

até foi às finais da NBA e o lightning rod da equipa é o Luka. Perfeito para o Kyrie.
O problema dele é quando as coisas dão para o torto.

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Wizards parecem estar bem prontos para o draft do Cooper. Boa prospect no Sarr para ajudar no tank.

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Citação de Hawkeye, Em 20/08/2024 at 20:40:
Spoiler

“Num avião, a esposa do Mário Soares chama-me e diz: ‘É por sua causa que os meus netos se levantam da mesa depressa para ver jogos na TV’”

Carlos Barroca tem 65 anos e está de regresso a Portugal após 10 anos como vice-presidente de operações da NBA, na Ásia. O técnico que viveu em Moçambique dos 5 aos 15 anos recorda o início do percurso no basquetebol, que durou pouco enquanto jogador, devido a lesões, mas ganhou consistência como treinador e comentador da famosa liga norte-americana, para a qual acabou por trabalhar e onde conheceu praticamente todas as estrelas maiores da modalidade, desde Magic Johnson, a Michael Jordan, passando por Dennis Rodman ou Kobe Bryant

Nasceu em Torres Novas. É filho de quem?
O meu pai trabalhava para uma empresa de camionagem e a minha mãe começou por ser dona de casa.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã 15 meses mais velha.

Cresceu na zona de Torres Novas?
Não. Quando eu tinha um ano, o meu pai teve um acidente de mota, ficou às portas da morte, esteve em coma meses, perdeu o trabalho e a funcionalidade do braço direito. Isso, naturalmente, afetou o rendimento da família. A minha mãe foi tirar um curso de cabeleireira e passou a trabalhar. A vida passou a ser uma coisa diferente. Entretanto, como já havia familiares do lado da minha mãe que tinham emigrado para Moçambique, os meus pais decidiram partir também para tentar melhorar a nossa vida, tinha eu cinco anos. Vivi na África dos cinco aos 15 anos. Uma fase marcante da vida em que criamos a nossa personalidade.

Qual é a primeira memória de infância?
É nadar no tanque de uns tios, quando ainda era muito pequenino. De África, a primeira memória é chegar e ser tudo tão diferente. Havia muita luz, muita gente diferente. E a diferença não era a cor, era a forma de estar e de ser. Os meus tios e a minha avó moravam nos arredores de Lourenço Marques, em frente a uma missão, a missão de S. José de Lahanguene, que frequentei.

Carlos e a irmã

Carlos e a irmã

 

D.R.

Como surgiu o basquetebol na sua vida?
Nessa missão havia um campo de futebol em terra vermelha, entre as salas de aula e a estrada, onde os miúdos mais velhos, da 4.ª classe, jogavam futebol. Eu ainda estava na 1.ª classe. Há um dia em que a bola vai para trás das salas de aulas e eu, como era rápido, fui a correr para agarrar a bola. Quando a agarrei, dei por mim num sítio onde nunca tinha estado, que tinha uma coisa esquisita, uma armação com um aro lá em cima. Olhei para aquilo e pus-me instintivamente a atirar a bola lá para cima. Claro que os mais velhos começaram a ralhar comigo porque queriam a bola para jogar futebol. Eu tentei lançar ao cesto sem saber ainda que havia um jogo chamado basquetebol.

Quando começou mesmo a jogar basquetebol?
Mais tarde fui para outra escola, a Rebelo da Silva, onde ao sábado ia um monitor da Mocidade Portuguesa, Sérgio Candeias, ensinar basquete às crianças. Comecei a jogar mini-basquete com esse senhor, foi o meu primeiro treinador, teria eu uns sete anos. Recordo o primeiro jogo que fiz, porque acabou empatado e ninguém sabia as regras de desempate. Alguém decidiu tipo futebol, cinco lances livres para cada lado e a nossa equipa ganhou. A paixão da minha vida começou assim.

Com o pai

Com o pai

 

D.R.

Consegue identificar o que mais o fascinou no basquete?
O fascínio do basquetebol é que se tu lanças e marcas, queres marcar mais, e se falhas, queres provar que és capaz de marcar. É uma relação de amor entre ti, através da bola, com o cesto, que é o alvo. Isto depois tem componentes que tem a ver com a velocidade, a técnica, leitura de jogo, a personalidade, o caráter. Mas há outra coisa da minha vida que aqui se junta. O desporto é o lugar mais democrático de todos, não interessa quem tu és, se és rico ou pobre, quem é melhor, é melhor e quem é pior, é pior. Eu como era pequenino também passei por esse desafio de “és pequenino para jogar basquete”. Ok. Então vão ter que andar a correr atrás de mim. Nunca fui de desistir.

Fez da velocidade a sua mais-valia no basquete?
Sim. Das duas uma, ou nós partimos como perdedores ou temos a noção que somos vencedores. Tem a ver com confiança.

O que dizia querer ser quando fosse grande?
Chofer de táxi. Eu gostava de viajar e naquilo que era o meu horizonte, o chofer de táxi era um tipo que viajava, conhecia e falava com pessoas.

Carlos Barroca começou a praticar desporto em criança

Carlos Barroca começou a praticar desporto em criança

 

D.R.

Gostava da escola?
Gostava de aprender. Tenho de agradecer a todos os professores e treinadores que tive ao longo da vida, mas tenho de falar aqui do professor Brito, que na 4.ª classe me ensinou quais eram as quatro principais ilhas do Japão e que me foi bastante útil nos últimos três anos, em que viajei quase todos os meses para o Japão, onde celebrei o meu 65.º aniversário. Gostava muito de aprender línguas e também de História.

Regressou a Portugal com 15 anos. Foi um período conturbado na sua vida?
Na minha e não só. Teve a ver com a Revolução do 25 de Abril e com o facto do meu nome do meio ser Delgado. Há uma relação familiar com Humberto Delgado. Antes de sairmos de Lourenço Marques, onde a minha mãe era cabeleireira, a esposa do chefe da PIDE levou-lhe umas fichas, porque desde os 12 anos que, tanto eu como a minha irmã, éramos seguidos.

Porquê?
Desde cedo percebi que se queria algum dinheiro tinha que me esforçar e o primeiro trabalho que arranjei foi no Natal, em que fui fazer de vigilante de supermercado. Tinha 12 anos, mas não era trabalho infantil, era eu que queria. Na minha função, vi um senhor a roubar uns óculos. Avisei que ele tinha metido uns óculos no bolso, veio a polícia e confirmaram. O segundo emprego, já com 15 anos, foi no Jornal de Notícias de Lourenço Marques. O meu trabalho era só no fim de semana. Ao final do dia telefonava para as delegações provinciais e recolhia os resultados dos campeonatos provinciais. Como eu tinha o nome Delgado e trabalhava num órgão de informação, era uma coisa muito suspeita [risos].

Carlos Barroca a tentar encestar pelos iniciados do Real Sociedad Moçambique, em 1973, num jogo contra o Sporting onde se vêem Carlos Lisboa (7), Paulo Prudêncio (14) e Redondo (17)

Carlos Barroca a tentar encestar pelos iniciados do Real Sociedad Moçambique, em 1973, num jogo contra o Sporting onde se vêem Carlos Lisboa (7), Paulo Prudêncio (14) e Redondo (17)

 

D.R.

Como foi a vinda para Portugal?
Foi um período de facto diferente porque vim sozinho, com 15 anos. O meu pai ficou em Moçambique, a minha mãe e irmã foram para a África do Sul, com os meus tios. Vim para casa de uma tia no Riachos, perto de Torres Novas, de onde é a família do meu pai. Mas rapidamente aluguei um quarto em Santarém para poder frequentar o liceu. Naquele tempo não havia tantos liceus como hoje e na região só havia o grande liceu Sá da Bandeira, em Santarém.

Começou a viver sozinho aos 15 anos. O que foi mais difícil e como fazia para se sustentar?
O meu pai recebia um dinheiro devido ao acidente que teve e era esse dinheiro que eu tinha por mês. Mesmo comendo na cantina do liceu, não dava para os dias todos. Havia dias em que não almoçava. Também tinha de fazer a gestão dos banhos porque quando aluguei o quarto, foi-me dito que só podia tomar banho uma vez por semana. Eu estava habituado a tomar banho diariamente, por isso também tive de arranjar maneira de tomar banho no liceu [risos].

Havia basquete em Santarém?
Não. Havia só a equipa da Académica de Santarém, mas era tudo malta que estava em Lisboa e jogava por essa equipa. Eu não conhecia ninguém no liceu, mas levava sempre a bola de basquete debaixo do braço, havia um campo de basquete exterior, lá ia eu lançar ao cesto. Até que, começaram a aparecer outros rapazes e comecei a dar treinos, porque já tinha sido monitor de mini basquetebol, em Moçambique. Comecei a dar treinos a rapazes e raparigas, a fazer equipas, e as outras escolas, a comercial, a industrial, e a escola agrícola, começaram a convidar-me para eu ir dar treinos. “Eu vou, mas têm de me dar uma senha para o refeitório.” Comecei a ser profissional, porque utilizava o basquetebol para comer [risos]. Isto foi dos 15 aos 16 anos. Depois fui para Lisboa.

Antes de irmos a Lisboa. Quando regressou a Portugal, após 10 anos em Moçambique, deve ter estranhado muita coisa por cá. A que mais lhe custou adaptar?
Estranhei o facto de eu ter um blusão cor de laranja que causava estranheza às pessoas, porque a predominância eram samarras ou capas alentejanas pretas, ou castanhas escuras. Estranhei o dizerem muitas asneiras, ver muita gente a fumar e a cuspir para o chão por tudo e por nada. E estranhei que os namorados batessem nas namoradas e era como se fosse normal, as pessoas aceitavam. Essa fase de adaptação foi muito estranha. Mas fiz amigos no liceu que mantenho até hoje, ainda nos encontramos duas vezes por ano, porque naturalmente que não era toda a gente assim.

Barroca (n.º 13 de camisola escura), no Liceu de Santarém, em 1974

Barroca (n.º 13 de camisola escura), no Liceu de Santarém, em 1974

 

D.R.

Quando, como e porquê foi parar a Lisboa?
Fui para Lisboa com 16 anos porque os meus pais regressaram a Portugal. Fui viver para um T1 na Reboleira, com os meus pais, os meus tios, primos e a minha avó. Éramos 10. O meu pai, a minha mãe e irmã dormiam no quarto e na sala dormíamos todos seguidos. Como, entretanto, fui jogar basquete para o Atlético e era o que chegava mais tarde, tinha um colchão e um saco-cama para dormir debaixo da mesa da cozinha. Era o último da fila.

Como começou a jogar no Atlético Clube de Portugal?
Estava a jogar no liceu e um rapaz que me viu perguntou se eu não queria ir jogar para o Atlético. Foi assim. Estive lá até aos 20 anos.

Quando terminou o liceu, já sabia o que queria fazer da vida?
Para mim sempre foi muito presente que queria ter uma vida relacionada com pessoas e Educação Física. Tirei o curso de que gostava, Educação Física, no antigo ISEF. Na altura queria ser professor de Educação Física. Aprendi desde muito cedo que mais importante do que a formação é o que fazemos com ela. Nunca estive muito preocupado com o que vou fazer a seguir. Recentemente, encontrei um caderno com poemas escritos por mim, quando tinha 15 anos. E há um poema que, olhando para a minha vida profissional, era indício que eu já percebia onde estariam os meus pontos fortes, sem eu perceber. Vou tentar dizê-lo: “Olha-te. Também tu poderás ser o sol cada manhã. Olha-te. Não vejas mal, vê o amor que tens para dar, toma-o, ilumina os outros à tua volta.”

Sabe de onde vem essa necessidade e esse à vontade na comunicação com o outro?
Acho que tem a ver também com o facto de, em Moçambique, não haver televisão e as pessoas conviverem bastante. Jogava-se Mikado, bingo, às cartas, ia-se à pesca, apanhava-se amêijoa e cozinhava-se na praia, brincava-se. A socialização de uma sociedade que está a olhar para a televisão e deixa de falar, não existia. A primeira vez que vi televisão foi numas férias em que vim a Portugal, em 1966. Vi o Portugal-Coreia do Norte, na casa da minha tia. Descobri a televisão e as cerejas, que na África não havia. Enquanto vi o jogo, comi as cerejas todas. Quando ela chegou perguntou pelos caroços. Eu não sabia que aquilo eram caroços, tinha comido as cerejas com os caroços [risos].

Seleção nacional juniores de 1978 no Campeonato da Europa, na Espanha. Barroca é o 3.º em baixo à direita

Seleção nacional juniores de 1978 no Campeonato da Europa, na Espanha. Barroca é o 3.º em baixo à direita

 

D.R.

Deixou de jogar muito cedo porque partiu o cotovelo duas vezes. Como?
Eu já tinha sido internacional de juvenis e juniores, estava nos seniores do Atlético, tinha 20 anos e uma vez, num treino, fui a um ressalto e o jogador que está à minha frente encolheu-se, bati-lhe com os pés nas costas e cai no chão. Parti o cotovelo, fui operado. Momentos antes da anestesia, o médico disse-me que não ia jogar mais e eu respondi-lhe: “Doutor, depois quando fizer o primeiro jogo, convido-o.” E assim foi. Voltei a jogar, mas parti o cotovelo novamente. Já estava fragilizado. Dessa vez o médico disse-me: “Se queres concluir o curso de Educação Física é melhor parares de jogar, senão isto é capaz de correr mal.” Ainda fui jogar um ano ao CDUL, porque tinha colegas no ISEF que jogavam lá, queriam subir de divisão e precisavam de um base. Ganhámos a II divisão, subimos.

Antes de passarmos à sua vida de treinador, quando foi jogar para o Atlético recebia algum dinheiro?
Recebia. Eram 500 escudos. Era uma fortuna. Comprava o meu passe, que eram 225 escudos. Um bilhete no 3.º anel dos cinemas, como eu lhe chamava, custava 7.50 escudos, um bife no Relento, em Algés, custava 7.50 escudos, portanto, eu tinha uma vida fantástica. Tinha um charme, porque tinha dinheiro [risos]. Não o gastava, ajudava a pagar contas em casa quando era preciso. Mas era muito dinheiro nessa altura.

Como começou a carreira de treinador mais a sério?
Quando deixei de jogar mini-basquete, em Moçambique, com 13 anos, fui inscrever-me num curso de monitores de mini-basquete e comecei a treinar uma equipa de miúdos que tinham 12 anos.

Qual foi a primeira equipa sénior que treinou?
Ainda como jogador, treinei a equipa do liceu de Santarém e em Lisboa, o Atlético. Eu e o Luis Magalhães reabrimos o mini-basquete no Atlético. Treinei uma geração de miúdos desde os 15 até aos 20 anos e ainda hoje temos um grupo, “os meninos do Barroca”, e encontramo-nos. A primeira vez que treinei uma equipa sénior, tinha 20 e poucos anos e foi a ADO (Associação Desportiva de Oeiras). Depois treinei o Imortal de Albufeira e por aí fora.

Carlos Barroca num momento de descontração

Carlos Barroca num momento de descontração

 

D.R.

Disse numa entrevista que foi treinador de equipas seniores demasiado cedo. Porquê?
Não tinha maturidade. Uma coisa é treinar equipas cuja aspiração é fazer o melhor possível, outra coisa são equipas cuja aspiração é ser campeão ou estar no top. Tive acesso a este tipo de responsabilidade e liderança sem estar suficientemente preparado para assumir. É preciso ter muito controle das emoções, controle das decisões, daquilo que se exerce na relação com as pessoas e para isso é preciso ter uma maturidade muito maior do que aquela que eu tinha.

Diz isso porque era um treinador muito emotivo?
Demasiado emotivo. Fui expulso vezes sem conta [risos]. Aliás, hoje, quando vejo determinados comportamentos de treinadores, penso, ainda bem que quando fui treinador não havia redes sociais, senão era crucificado. Era muito emotivo. Posso contar uma história engraçada a propósito.

Força.
Em 2013, quando organizei com a NBA o “Basketball Without Borders Europa”, em Portugal, com a federação de Mário Saldanha, o filho dele Daniel, o Manuel Fernandes, o Paulo Mamede, que era o responsável de desporto da Câmara de Oeiras, o Augusto Baganha, lembro-me que no âmbito das negociações falámos com uma entidade hospitalar e há uma senhora que olha para mim e diz: “Eu conheço-o de qualquer lado.” Às tantas: “Já sei. Você é treinador dos femininos do Algés. A minha filha anda lá na ginástica e eu via os seus treinos. Você é tão mau com as miúdas.” [risos]

Era um treinador muito exigente?
Não há normas para ser treinador. É uma profissão de desgaste, solitária, o jogo quando acaba, nunca acaba, porque ficas a ver os vídeos, ficas a pensar nas decisões que tomaste, ou ficas a preparar o próximo jogo. Mas talvez naquela altura eu fosse demasiado intenso, digamos assim, na minha forma de liderar e falar.

Barroca oi jogador do Atlético até aos 21 anos

Barroca oi jogador do Atlético até aos 21 anos

 

D.R.

Deixou de treinar os homens para treinar mulheres, porquê?
Porque tinha uma função na Sport TV como comentador profissional e não era bem-visto que eu treinasse equipas masculinas. A certa altura um amigo perguntou-me se não queria treinar as miúdas do Algés. Eu tinha curiosidade, porque quando comentava jogos da WNBA havia coisas que raramente aconteciam no jogo dos homens.

Como por exemplo?
Uma equipa podia estar seis ou sete minutos sem marcar ponto nenhum e, em dois ou três minutos, marcava 20 pontos. Eu achava estranho, porque tinha a ver com picos emocionais. Tinha a curiosidade de trabalhar com as mulheres para perceber se percebia. Trabalhei 10 anos e confesso que não percebi nada [risos]. A mentalidade feminina tem coisas que extravasam aquilo que é possível um homem perceber. É difícil perceber reações, é difícil perceber memórias. Se num treino houver uma escaramuça entre homens, passado uma hora vamos beber copos e está tudo ok. Dizes qualquer coisa de errado ou houve qualquer coisa que não ficou bem na cabeça de uma rapariga, passado seis meses ela atira-te aquilo à cara, porque nunca esqueceu aquilo que disseste naquele dia. E entre elas criam-se rivalidades que perduram, não esquecem e não desaparecem. Aprendi também a gerir os tempos de forma diferente.

O que quer dizer com isso?
Os treinadores têm conceitos técnicos e táticos de execução. As mulheres são extremamente comprometidas, são muito inteligentes a gerir o jogo, mas são menos atléticas e sendo menos atléticas condicionam os tempos de execução de determinado tipo de coisas. No basquete masculino podes atirar uma bola lá para cima que aparece um gajo a afundar e no feminino isso não acontece, pelo menos ao nosso nível, em Portugal. Por isso, os tempos de execução são diferentes.

Desde muito novo que Barroca gostou de viajar e comunicar

Desde muito novo que Barroca gostou de viajar e comunicar

 

D.R.

Treinou a ADO, Atlético, Portugal Telecom, Belenenses, Imortal, FC Porto, Barreirense, Queluz, os Estrelas da Avenida, a formação do Benfica, o basquetebol feminino de Algés. Quais os jogadores que mais o surpreenderam?
Na maior parte dos clubes que treinei, ou por dificuldades financeiras, ou por visão, tive oportunidade de explorar gente nova. No Imortal de Albufeira trabalhei com jovens como o Paulo Sérgio, o Armando, que era o jogador mais alto português. Ir buscar jovens que não eram utilizados noutros clubes ou tinham um papel marginal e fazer deles bons jogadores era algo que gostava de fazer. Em Lisboa, treinei o Sérgio Ramos, que era juvenil e subiu para os seniores. Na Portugal Telecom, o João Santos, Carlos Andrade, por aí fora. É difícil nomear e dizer qual o melhor. Tive a sorte de trabalhar com muita gente fantástica... Carlos Seixas, Raul Santos... O Raul Santos é uma história gira, porque ele jogava no Vasco da Gama e quando eu fui treinar o FC Porto decidi que queria contratá-lo. Fui espancado pela imprensa, porque “ele não jogava nada”. O Raul foi jogar para o FC Porto e até se ter retirado foi internacional todos os anos, porque tive a capacidade de perceber que ele tinha qualidades. As qualidades no jogo de basquete não são só meter a bola no cesto. Posso contar outro episódio.

Conte.
Eu dei uma Clinic no Porto, no final houve uma roda de imprensa e os jornalistas perguntaram se eu estava satisfeito com o meu plantel. Respondi: “Eu tenho os melhores jogadores do mundo, tenho o melhor plantel do mundo.” O atual treinador do FC Porto, Fernando Sá, no dia seguinte, no treino, perguntou se eu tinha dito mesmo aquilo, respondi que sim, e ele: “Mas nós não somos assim tão bons”; “Então vamos trabalhar para ser melhores.” Isto para dizer que fazer uma equipa é olhar para aquilo que temos e amar aquilo que temos. Não é, “não gosto deste, gostava de outro.”

Magic Johnson a dar uma entrevista a Carlos Barroca

Magic Johnson a dar uma entrevista a Carlos Barroca

 

D.R.

Como e de que forma o basquetebol americano entrou na sua vida? Quando viu pela primeira vez um jogo da NBA?
Tenho de recuar muito no tempo para tentar encontrar o primeiro. Foi nos EUA, a meio da década de 80, ainda antes de haver NBA, em Portugal, em termos de comentários.

Como foi parar aos EUA?
Ainda era eu treinador do Imortal de Albufeira e já era convidado pelo professor Eduardo Monteiro, responsável pelo desporto nos Açores, para lá ir dar ações de formação. E, um dia, dava o estágio com a equipa feminina da Ilha Terceira, num liceu, e às tantas vejo um tipo a espreitar atrás das colunas. Naquela altura era um treinador autoritário e digo: “O senhor, o que está aí a fazer? Ponha-se lá fora.” Hoje em dia podiam lá estar 50 pessoas a ver o treino que não me importava, mas na altura... O senhor saiu, mas à noite, no hotel, vi a mesma cara e fui ter com ele, pedi-lhe desculpa e expliquei-lhe que me assustei por ele estar ali. O senhor era o Darrell Halloran, treinador da universidade de Pace, nos EUA. Criámos relação, amizade, cheguei a estar em Nova Iorque com ele e a família. Em 1988, quando saio do Estrelas da Avenida, ele diz-me que precisa de um treinador-adjunto e convida-me para trabalhar com ele. E lá fui eu para Nova Iorque. Aí começou de forma mais intensa a relação com os EUA e a NBA.

Em 1988 tinha 29 anos. Já tinha casado?
Já. E já tinha dois dos meus quatro filhos. Decidi ir um ano para Nova Iorque. Fui sozinho. A minha mulher não gostou muito da ideia. Ela sofreu mais do que eu, que me diverti imenso. Aprendi imenso. Mas não foi fácil. Lembro-me que tinha um saco azul muito grande da Adidas e, ao fim de 15 dias de lá estar, em casa do Darrell, num domingo à tarde, meti as roupas todas dentro do saco e estava preparado para vir embora.

Porquê?
Era duríssimo. Eu não sabia o que era ser treinador. Eu pensava que sabia, mas ser treinador na América é dormir quatro horas por noite, é levantar de madrugada e deitar-se às tantas, é fazer scouting e fazer recrutamento, é ter treinos individuais às sete da manhã, era ver vídeos e trabalhar nos vídeos. O ritmo de trabalho era alucinante e, ao fim de 15 dias, disse: isto é demais para mim.

O que o fez ficar?
O saco estava feito, na cozinha, olhei para o saco e pensei: eu nunca desisti de nada na vida, vou desistir disto? Não. Aguenta. E aguentei. É simples. São decisões. Aqueles momentos-chave da nossa vida em que podemos fazer uma coisa ou outra e eu não gosto de desistir das coisas. Não desistir era mais difícil.

O técnico português a ensinar basquetebol a uma criança na África

O técnico português a ensinar basquetebol a uma criança na África

 

D.R.

Foi adjunto na Universidade de Pace uma época. E depois?
Eles queriam que eu ficasse. Anos mais tarde, quando já estava na Portugal Telecom, o Darrel morreu durante um jogo e o Chris Bledsoe, que era o Athletic Director, ligou-me a pedir para eu voltar e para treinar a equipa, porque tinham gostado muito de mim. Mas eu tinha compromisso com a equipa da PT, estava a divorciar-me e não tinha cabeça para quebrar o contrato. Nessa altura não fazia sentido. Isto em 1997/98.

Nesses dez anos, apesar de ter treinado sempre em Portugal, voltou muitas vezes aos EUA?
Voltei. Na altura eu tinha uma empresa com o António Carlos e fazíamos campos de férias nos EUA com miúdos, em vários sítios, fazia Clinic com treinadores também e fui alargando a rede de contactos.

Antes disso, ainda em 1989, começou como comentador de basquetebol na RTP. Como surgiu essa oportunidade?
Quando estive nos EUA, na Universidade de Pace, apaixonei-me pela televisão americana. Em Portugal a televisão era muito cinzenta, muito séria, muito científica, não vou falar de modalidades, mas os comentadores diziam coisas que eu não conseguia perceber, era uma coisa muito erudita ou muito inventada. E, na América, comecei a ver televisão e aquilo era divertido. As pessoas que comentavam tinham piada, brincavam com o desporto, falavam de coisas positivas em vez só de coisas negativas. Longe de mim imaginar que chegava a Portugal num domingo e, na terça-feira, o professor João Coutinho, famoso pela sua expressão “sejam bem-vindos ao jogo NBA da semana”, era assim a voz nasalada dele, ligou-me a convidar-me para comentar os jogos da NBA. Aceitei.

Os míticos jogos ao domingo à tarde, após a hora do almoço.
Exato. Uma vez, a Dra. Maria Barroso, esposa do Dr. Mário Soares, numa viagem para o Brasil, alguém disse-lhe que eu também ia no avião e ela mandou-me chamar lá à frente, à executiva, para me dizer: “É por causa de si que os meus netos querem levantar-se da mesa depressa para ir ver os jogos da televisão” [risos]

Foram muitos anos a fazer comentário. Correu sempre bem?
Diverti-me sempre muito, nunca me assustei, nunca entrei em pânico. Foram 25 anos de televisão. Comunicar não tem regras, é como ser treinador, não pode haver regras para ser treinador, cada treinador é treinador à sua maneira. E cada comunicador comunica à sua maneira.

Em 2013, Carlos Barroca organizou em Portugal o o programa a NBA, Basketball Without Borders

Em 2013, Carlos Barroca organizou em Portugal o o programa a NBA, Basketball Without Borders

 

D.R.

Qual foi a cena mais caricata que lhe aconteceu nos comentários televisivos?
A mais caricata não posso contar. Mas há uma história no início da Sport TV em que no primeiro escritório havia uma cabine que era um canto pequeníssimo, que tinha duas cadeiras para mim e para o Luis Avelãs. Aquilo não tinha espaço nenhum e por qualquer motivo eu levantei os pés, ou estiquei-me, o certo é que a cadeira levantou e eu caí para trás. O problema não foi cair. O problema foi que eu não consegui levantar-me. O jogo a decorrer, um jogador a rir no chão sem conseguir levantar-se e o outro a rir que nem um perdido de tal forma que não consegui ajudar. Mas houve tantas histórias.

Conte mais uma.
Lembro-me de uma vez nos Jogos Olímpicos, creio que de 1992, o ar-condicionado avariou e era irrespirável estar debaixo de holofotes e, às tantas, estava tão incomodado que tirei a camisa [risos]. Foram sobretudo momentos inesquecíveis de trabalho de equipa, porque o giro de fazer televisão, ser treinador, ser professor, é que não é uma atividade única, é uma atividade em que tu só tens sucesso se toda a gente trabalhar para o sucesso.

Em 2013, Carlos Barroca trouxe a Portugal o programa a NBA, Basketball Without Borders

Em 2013, Carlos Barroca trouxe a Portugal o programa a NBA, Basketball Without Borders

 

D.R.

De 2000 a 2004 foi convidado pelo Ministro da Educação, Professor David Justino, para ser diretor do Desporto Escolar. Qual o desafio que lhe foi lançado?
Não tenho filiação política nenhuma, mas tenho amigos em vários partidos. Antes ainda de assumir o cargo falei algumas vezes com o Professor David Justino sobre educação. E quando ele foi eleito ministro, ligou-me a dizer que gostava que eu fosse o diretor do Desporto Escolar porque tinha percebido, sobretudo pela minha passagem na América, que havia coisas que eu achava podiam e deviam ser feitas em Portugal. Talvez a maior diferença foi não ter vergonha de falar das coisas boas do Desporto Escolar, em vez de se falar das coisas más que também havia. O desafio foi ter alguém a liderar que acreditasse nas coisas boas e que fomentasse a boa prática, as boas relações com as escolas e com os professores.

Que balanço faz desse tempo e desse cargo?
Tive a sorte durante quatro anos de fazer as coisas tecnicamente à minha maneira, apoiado politicamente, reforçando o papel dos professores, a importância do desporto nas escolas e atribuindo verbas, não para festas pomposas do desporto escolar, mas para atividades realistas. E houve um crescimento enorme do desporto escolar durante esses quatro anos, mudando coisas pequeninas, mas substanciais.

Como, por exemplo?
Acabaram-se as dormidas do Deporto Escolar em hotéis, com dois miúdos por quarto e passou a haver colchões nos centros da área educativa pelo país inteiro e as regras dos campeonatos escolares era para dormirmos em escolas, em universidades ou em quartéis, ou em Institutos da Juventude, em sítios dedicados à Juventude, Pousadas de Juventude e não em hotéis. O professor dormia com os alunos, a professora dormia com as alunas e era uma festa dos miúdos. Não é uma festa dos adultos. Posso dar outro exemplo.

Carlos Barroca com Ticha Penicheiro, Nate Robinson e Carlos Boozer durante Basketball Without Borders

Carlos Barroca com Ticha Penicheiro, Nate Robinson e Carlos Boozer durante Basketball Without Borders

 

D.R.

Força.
Lembro-me do primeiro corta-mato que vi no dia seguinte a tomar posse, na zona de Palmela. Estava a chover, não vi uma imagem do Desporto Escolar, não havia som e não havia chips para as provas. A pista estava horrível, mal marcada, porque havia logo curvas após o arranque. Quando se arranca no corta-mato, tem de haver espaço para os miúdos irem separando-se e não estarem todos a cair em cima uns dos outros na curva; havia uma pequena tenda onde os professores estavam todos lá metidos, porque chovia e os miúdos não tinham sítio para estarem. Lembro-me de ter olhado para aquilo e ter feito uma análise e um diagnóstico: se fosse aluno, se fosse professor, não queria estar aqui porque isto não tem piada nenhuma, isto é horrível. A solução é encontrar uma forma de fazer daquilo uma festa. Com imagem, com som, com pórticos, com chips, como se fosse um Campeonato do Mundo. E a verdade é que há profissionais fantásticos em todas estas áreas, só que passamos mais tempo a falar do que não presta, do que a falar do que presta.

O que fez para alterar essa forma de estar?
Montei uma estratégia de comunicação. Fizemos acordos com o Jornal de Notícias, com o jornal O Jogo, com uma rádio, com uma televisão e produzimos conteúdo para esses canais. E íamos falar de quem fazia bem. E ao falar de quem fazia bem, o bem propaga-se, tal como o mal se propaga. Outra coisa que mudámos foi a distribuição das verbas. Se a tua escola tem 10 equipas e a minha escola só tem 2, tu tens de ganhar mais do que eu, porque tens mais despesa. Antes não era assim, era quase matemática, era o mesmo valor para qualquer escola, o que para quem trabalhava muito era penalizador e quem não fazia nada esfregava as mãos porque não precisava fazer mais. Criámos uma equipa no país inteiro que trabalhava para os miúdos, para as escolas e para os professores. Quando eu entrei as escolas só podiam mandar ao corta-mato 40 alunos e muitas vezes não mandavam nem metade, a partir do momento em que começámos a fazer as coisas com classe tínhamos que pedir para não mandarem mais, porque em vez de 40 queriam mandar 50, 60, 70 alguns, isto ao nível de todos os campeonatos, em todo o país. Adorei a experiência, mas depois fiquei magoado.

Porquê?
Sempre achei que na mudança de Governo, porque aquilo era um Governo do PSD e a seguir vinha o Governo do PS, com estas medidas que foram tomadas, por ser um Governo socialista, ainda mais virado para a população, para o bem-estar, para a prática desportiva, estavam criadas as bases para que fosse feito um aproveitamento fantástico e o Desporto Escolar fosse ainda melhor. Para surpresa, aconteceu aquilo que é recorrente quando há substituição de governos, quem vem a seguir estraga aquilo que foi feito por quem estava antes. É deprimente, porque, como técnico, o que queremos são resultados melhores, independentemente de quem são as séries políticas, para a população, e não estejam dependentes da agenda política de cada vez que muda um Governo.

Os treinadores portugueses que participaram no Basketball Without Borders realizado em Portugal

Os treinadores portugueses que participaram no Basketball Without Borders realizado em Portugal

 

D.R.

Em 2004, foi convidado para fazer parte do “Basketball Without Borders” (BWB) da NBA, um programa Internacional. Esse convite surgiu como?
Eu viajava muito para os EUA. Houve uma altura em que os meus amigos conheciam todos os sítios do mundo onde iam passar férias e eu não conhecia nenhum, porque ia sempre para a América. Nisso penalizei muito os meus filhos mais velhos, porque não tinha outro destino de férias. As minhas férias era aprender mais, criar mais relações, conectar mais com as pessoas. Relativamente a esse convite, em 1989, há um Campeonato da Europa em Zagreb e já havia muita tensão no ar na antiga Jugoslávia. Lembro-me que comentava para a RTP, com o professor João Coutinho. Estávamos no Hotel Intercontinental em Zagreb, onde havia um raio-x para entrar no hotel e muitos homens com armas na mão. Havia um ambiente de pré-guerra. Quando se entrava no hotel os elevadores eram do lado esquerdo, a receção do lado direito, ao fundo havia umas casas de banho que tinham um elevador por trás, que não era utilizado, ou só era utilizado pelo pessoal do hotel. Um dia, os jogos acabam, as pessoas estão a entrar no hotel e, de repente, estou encostado a uma parede, há uns gritos, umas armas que se puxam, e o pessoal ficou todo aflito. Ao meu lado direito estava uma senhora mais alta do que eu e ao lado dela um senhor afroamericano. Era um momento de tensão e eu, como tenho muita lata, virei-me para ela e perguntei: “Tu não és daqui, pois não?”; “Não”; “Americana?”; “Sim”; “Não é boa altura para ser americana aqui. Confiem em mim e sigam-me, podemos sair por este lado.” Eles seguiram-me, apanhámos o elevador e pirámo-nos. Ele era o Johny Davis, adjunto do Mike Fratello nos Atlanta Hawks, e ela era a Kim Bohuny que, na altura, era gestora de um produto fantástico criado pelo Ted Turner.

Que produto?
Naquela época, cada vez que havia Jogos Olímpicos, alguém boicotava. Se era no Leste, boicotavam os americanos e os seus aliados, se era na América boicotavam os russos e os seus aliados. E o Ted Turner decidiu criar os “Goodwill Games”, Jogos da Boa Vontade e contratou a Kim Bohuny para ir pelo mundo fora contratar os melhores atletas, as melhores equipas para fazer os Goodwill Games. Fiquei amigo dela e do Johny Davis. A Kim tornou-se depois vice-presidente da NBA e foi ela que me convidou para fazer o “Basketball Without Borders” (BWB) e para entrar na NBA. É uma pessoa especial na minha vida. Um dia, ao sairmos de um All-Star Game, ela virou-se para mim no avião e disse que precisava de mim em África e fui desenvolver o BWB na África do Sul.

Barroca com Kirie Erving durante um Basketball Without Borders a África do Sul

Barroca com Kirie Erving durante um Basketball Without Borders a África do Sul

 

D.R.

Foi para a África do Sul fazer o quê em concreto?
O BWB é um programa que acontece em quatro continentes, Europa, América, Ásia e África e que junta o melhor talento desse continente, já tivemos anos em que havia mais dinheiro e eram 120 miúdos, recentemente são 40 rapazes, 40 raparigas ou 30/30, depende dos orçamentos. Durante muitos anos eram só rapazes e eu chateei-lhes tanto a cabeça, que o primeiro Clinic que se fez para raparigas, foi na África do Sul, numa parceria com a Nike. Hoje é o mesmo número de raparigas e de rapazes que participam no programa.

Com que idades?
Tenta-se que seja 17/18 anos, sendo que às vezes abre-se a possibilidade a mais novos, se forem, de facto, talentos. Desde 2015 que os melhores dos quatro continentes juntam-se no “Global Camp” durante o All-Star Game. É a nata da nata de todos os continentes que se junta, para os miúdos se mostrarem. Normalmente as equipas todas da NBA estão lá para ver os miúdos.

O técnico português num momento divertido durante uma aula num evento do Basketball Without Borders

O técnico português num momento divertido durante uma aula num evento do Basketball Without Borders

 

D.R.

O que a NBA tem de tão especial e diferente? Qual o motor do seu sucesso?
A excelência. Lembro-me do primeiro treino que vi em Atlanta. Fiquei muito desiludido, porque estava à espera de ver um treino fantástico, com exercícios fantásticos e não vi nada. Era tudo igual ao que a gente fazia. Mas fui para casa a pensar, tem de haver aqui uma diferença. Do primeiro dia para o segundo não dormi porque fiquei baralhado da cabeça. Refletia, ou eu sei muito, ou eles não sabem nada. No dia seguinte, com outros olhos, percebi a diferença. Os detalhes fazem a diferença.

Que tipo de detalhes?
Nada é deixado ao acaso. O ângulo, se é de 45.°, é de 45.°, o sítio de fazer o bloqueio é aqui, não é ali; o jogador que te faz do bloqueio tem que ver e tem que olhar; o jogador que tem a bola quando há um bloqueio, tem que ver quem corta e tem que ver quem desfaz. Tudo é ao detalhe. Aquilo que se passa no jogo da NBA obviamente é mais rápido, porque os atletas são melhores e mais rápidos, saltam mais, correm mais, mas tem a ver com a capacidade de ler e de interpretar o jogo. E depois, na preparação dos treinadores. Quando era treinador do Atlético, isto foi pouco tempo depois de voltar, ganhámos o grupo B e o Luís Avelãs, que era meu adjunto, usava uma expressão: “Quando nós jogamos com outra equipa, nós sabemos melhor o que eles vão fazer do que eles próprios.” Não tinha esta experiência antes de viver nos EUA e de ser contratado pela NBA, foi lá que aprendi, através dos vídeos, a perceber o que é o diagnóstico, a fazer o plano e depois executar o plano. Como neutralizar o adversário ou como surpreender o adversário. Foram ensinamentos importantíssimos. Essa é uma dimensão da NBA.

Que outras tão ou mais importantes existem?
Outra dimensão é o marketing que é feito à volta do produto. Como o produto é vendido, assim como todos os subprodutos que a NBA tem. É um mundo completamente fantástico.

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Spoiler

“A primeira vez que estive com o Dennis Rodman ele tratou-me cinco estrelas. Estavam 25 graus negativos e ofereceu-me a limusina dele”

Carlos Barroca regressou a Portugal onde espera ter oportunidade de devolver tudo o que aprendeu ao longo das últimas duas décadas com a NBA, mas garante que não vai bater à porta de ninguém. Apreensivo com que tem ouvido sobre o basquetebol português, diz ser benéfica a criação de uma liga profissional e que faltam projetos a 10 anos, não só no basquetebol como em muitas outras áreas. Nesta segunda parte conta várias histórias, fala de Neemias Queta, do significado da condecoração do Presidente da República e da vontade em passar tempo com os quatro filhos e quatro netos, entre outros temas

Disse numa entrevista que, nos anos 80, a NBA estava à beira da falência e foi salva por dois jogadores. Quer explicar o que aconteceu e que jogadores foram esses?
À beira da falência porque não produzia suficiente interesse, tinha regras obsoletas. Não havia tempo de ataque, o jogo era chato, não havia grandes figuras, era uma altura em que socialmente na América vivia-se o "sex, drugs and rock and roll", não havia nada que elevasse os jogadores de basquete como referências sociais; o jogo era tão bom dentro do campo da NBA, como nas ruas de Nova Iorque ou de Chicago. Havia jogadores com tanto talento fora da liga como dentro da liga e não havia marketing do produto, não havia elevação do produto. Na década de 80, os jogadores iam muitas vezes aos parques dos supermercados fazer ações de promoção para vender bilhetes e para angariar pessoas para a NBA. Era uma empresa que queria crescer, mas não tinha encontrado maneira de crescer.

Quando e como se deu essa mudança?
O clique vem da rivalidade. O basquetebol universitário nos EUA é incrível. As universidades são uma arma potente, numa altura em que o ser de uma universidade era a network, não havia redes sociais, não havia internet. E há dois jogadores que trazem a rivalidade da universidade, o Magic Johnson e o Larry Bird. E entram para a NBA por coincidência para as duas equipas que são as mais famosas da NBA, o Larry para os Boston Celtics e o Magic Johnson para os Lakers. De repente, passou a haver um motivo em duas cidades que são macro cidades. Esta elevação do produto fez crescer o produto. No final da década de 80, num All Star Game apareciam jogadores que não sabíamos quem eram. Hoje, a conversa é sobre os que ficaram de fora, porque toda a gente sabe quem é quem. O aparecimento destes dois jogadores aliado à visão do David Stern, que era um homem que percebia de marketing, foi o que fez a mudança. Os Jogos Olímpicos de 92 atiram a NBA para o topo. O Dream Team é a continuação disto. De repente o produto deixa de ser um produto americano e passa a ser um produto internacional e começam a abrir escritórios pelo mundo inteiro.

Entretanto, apareceu o fenómeno Michael Jordan.
Se os outros ajudaram a lançar a liga, o Michael Jordan disparou em foguetão para o mundo inteiro.

Carlos Barroca tornou-se um dos responsáveis pelo Basketball Without Borders e tem percorrido o mundo a ensinar basquetebol para milhões de jovens

Carlos Barroca tornou-se um dos responsáveis pelo Basketball Without Borders e tem percorrido o mundo a ensinar basquetebol para milhões de jovens

 

D.R.

A rivalidade que Magic Johnson e Larry Bird suscitaram nos EUA tinha só a ver com questões profissionais, formas de jogar ou havia questões raciais pelo meio?
Quando se fala da NBA, diz-se que é um jogo mais afro-americano, assistido por maioritariamente brancos. Na América dos anos 80, havia equipas que contratavam jogadores brancos para equilibrar a coisa, como hoje, recentemente houve uma grande contestação à volta do treinador que uma determinada equipa contratou porque é branco. Ainda bem que não somos todos iguais, porque a diversidade é que faz a beleza que o planeta tem. É normal que um atleta como o Magic arraste gente de todas as raças, de todas as cores e o mesmo do lado do Larry Bird. Conheço muito bem o Magic Johnson, veio a Portugal duas vezes e neste momento estou a tentar convencê-lo a vir cá outra vez, decorridos 30 anos.

Também conheceu Michael Jordan. Quando e como?
Tive a oportunidade de estar com ele em várias circunstâncias. A primeira foi num balneário do Madison Square Garden, com a credencial da Gazeta dos Desportos, devido a uma crónica que eu escrevia.

Como ele era fora daquele retângulo de jogo?
Vítima dele mesmo. Vítima do que é a sociedade americana que adora os ídolos e ele era refém. No dia em que o vi pela primeira vez, ao vivo, lembro-me de ter entrado no balneário, e todos os jogadores da equipa estavam a tomar banho, a vestir-se, sem problema nenhum, e ele estava praticamente encurralado no cacifo dele, com toda a gente em cima dele. Era assim que ele vivia.

Há uns que alimentam mais o vedetismo do que outros…
Ele não gostava, ele tentava passar despercebido, o Kobe Bryant era o mesmo. Eles tentam, mas para isso acabam por criar barreiras, com seguranças à volta deles. Ele tinha pouca capacidade de sorrir. Tinha de estar num ambiente muito controlado para ser ele mesmo. E tanto se isolam que acabam por ser pessoas diferentes.

Em que era diferente?
Era protetor da imagem. Muito figura e pouco pessoa. Era uma defesa.

O técnico português a fazer uma das coisas que mais gosta: ensinar basquetebol a jovens

O técnico português a fazer uma das coisas que mais gosta: ensinar basquetebol a jovens

 

D.R.

O documentário "Last Dance" faz jus ao que Jordan era e é?
Faz. Ele dentro do campo era um cão. Eu gosto de cães, atenção. O Kobe também, não é por acaso que comparam muito o estilo deles. Eles não querem saber se tu gostas ou não gostas. "This is my team, this is my way" [esta é a minha equipa, isto é à minha maneira] e se tu não trabalhas como eu, vai-te lixar e trabalha. Quando se tem esta atitude e se alcança os resultados que eles alcançaram, tem que se ter o maior respeito, goste-se ou não.

O Jordan era, sem dúvida, um líder?
Sem dúvida. E era o líder por exemplo, porque trabalhava mais, porque se esforçava mais. Há uma história do Kobe, em que o Mike D'Antoni era o treinador-adjunto da seleção dos EUA, eles tinham jogo às seis da tarde e disseram que de manhã não havia treino. Às sete da manhã, o Mike D'Antoni está a ler o jornal enquanto toma o pequeno-almoço e vê o Kobe sair com a sua entourage - hoje em dia todos os jogadores têm o seu preparador físico, o manager, várias pessoas - e perguntou-lhe: "Está tudo bem? Alguma coisa errada? Sentes-te mal?". Ele respondeu: "Não, não. Vou fazer a minha rotina". Ou seja, enquanto os outros dormiam, ele esteve cinco horas a lançar ao cesto e a fazer a rotina dele. As pessoas que fazem este tipo de coisas é difícil dizeres-lhes que estão errados, porque o nível de esforço, de comprometimento, de detalhe, de execução, de mentalidade é tão grande que têm autoridade para fazer as coisas à maneira deles. Não gostas? Vai-te embora.

Quando e como conheceu Kobe Bryant?
A primeira vez que o conheci, foi enquanto jogador do Atlético. Fomos jogar um torneio no norte de Espanha, contra uma equipa onde jogava o pai dele, em Itália. Ele era miúdo. Mais tarde, quando o conheci mesmo, disse-lhe que conheci o pai dele, que joguei contra ele, e a reação imediata foi: "Did he beat you?"; "Yes"; "Good". Foi logo a primeira coisa que quis saber, quem ganhou? [risos].

A equipa dos Golden State Warriors numa das Clinic organizadas por Barroca

A equipa dos Golden State Warriors numa das Clinic organizadas por Barroca

 

D.R.

Pelo meio surgiu outra lenda da NBA que saiu dos padrões, por outros motivos: Dennis Rodman. O que nos pode dizer sobre ele?
Um grande jogador, grande ressaltador, grande jogador de equipa e, possivelmente, das pessoas mais excêntricas que alguma vez jogou na NBA. O grande inimigo dele, enquanto jogador da NBA, é um senhor chamado Joe Crawford, que já se retirou como árbitro e que é um grande amigo meu. Hoje Crawford reconhece: "I use to be an asshole" [eu costumava ser um idiota]. É uma pessoa extraordinária, tem histórias das mais incríveis que já ouvi na minha vida, adoro-o. Também conheço o Dennis Rodman e tenho uma relação com ele.

E tem alguma história que possa contar?
A primeira vez que estive com ele tratou-me 5 estrelas, estava frio, 25° abaixo de zero, ofereceu-me a limusina dele para eu ir ao restaurante e nunca o tinha visto na vida antes. Só posso dizer bem. Acabou a carreira ainda como jogador a fazer noites sem regras, em discotecas, e recebia um milhão de dólares por noite. É uma pessoa diferente. Foi um precursor de um estilo de vida e de uma forma de estar que levou a NBA a ter hoje muito mais regras. Regras de vestir, regras de comportamento. Porque não importa apenas os pontos marcados dentro do campo, mas também o teu viver fora do campo.

Foi só o comportamento de Dennis Rodman que levou à necessidade da NBA criar essas regras?
Não. Eu recordo que num All Star Game, em New Orleans, estava a conversar com o David Stern, comissário da liga e, de repente, abre-se uma cortina e entra um jogador da NBA com os seus capangas atrás todos vestidos de cabedal preto e de óculos escuros, parecia que íamos ser assaltados. Poucos dias depois, o David Stern dá uma conferência de imprensa em que diz: "League must change from gang style to business style" [A liga tem de mudar do estilo gangster para o estilo executivo]. Para quê? Para obrigar a qualificar os jogadores. No próximo ano, o salário mínimo da NBA são quase dois milhões de dólares, as pessoas têm que ter alguma responsabilidade. A NBA não quer voltar a ter um Dennis Rodman ao nível do comportamento, mas não se importa de ter ao nível da excentricidade. Hoje, antes do jogo, a máquina dos social media quer filmar o carro em que os jogadores vêm, a roupa que trazem vestida e há jogadores que adoram criar roupa excêntricas, outros criam marcas de ténis. É tudo produto. O Dennis Rodman tem um papel nisto. E um papel político também.

Está a referir-se à ida dele à Coreia do Norte?
Posso dizer que houve uma altura em que havia uma aproximação da política norte-americana com a Coreia do Norte porque o responsável Kim Jong-un era fã do Michael Jordan. Questionou-se o Michael Jordan se poderia lá ir e ele disse que não. Depois encontrou-se uma outra plataforma que eu conhecia, estava lá; entretanto, o Dennis Rodman faz aquela aparição lá, cantou o hino, embebedou-se e estragou tudo o que estava a ser feito por baixo da mesa para melhorar as relações com a Coreia do Norte. Ele é um ator. E tem sido ator dentro e fora do campo.

Carlos Barroca a dar uma aula de basquete para professores de Educação Física

Carlos Barroca a dar uma aula de basquete para professores de Educação Física

 

D.R.

Vamos voltar ao seu percurso. Depois da África do Sul, o que se seguiu?
A partir daí fui todos os anos ao BWB. Continuava a treinar basquete feminino no Algés e a ser comentador. Fui treinador 10 anos no Algés, no total treinei 14 equipas do Algés.

Sempre femininas?
Treinei algumas masculinas também. Ajudei. Sobretudo quando não havia treinadores, lá ia o Carlos ajudar até se encontrar treinador. Mas sempre a colaborar com a NBA no BWB. Ia à África do Sul todos os anos, houve um ano em que foi no Senegal, também fui à Ásia, Europa, a vários países.

Qual era a sua função no "Basketball Without Borders"?
No princípio era ajudar os treinadores a comunicar, mais tarde passei a ser treinador de campo, inovei algumas coisas, o primeiro Clinic de treinadores fui eu que dei, o primeiro campo de basquetebol feminino fui eu que dei e lutei por ele. Acabei por mudar conceitos, mais horas de treino para os miúdos, menos jogos, mais educação para os árbitros e para os treinadores locais para aproveitarem o tempo que ali estavam. A criação de um produto paralelo como um campo de jovens para aproveitar o talento dos jogadores da NBA, que estão lá. Passei a ter um papel mais na estratégia. E em 2013, o BWB da Europa, aconteceu em Portugal.

O técnico português com o certificado do Guinness, por ter lecionado com Kevin Durant a maior aula do mundo para 3459 participantes, em 2017

O técnico português com o certificado do Guinness, por ter lecionado com Kevin Durant a maior aula do mundo para 3459 participantes, em 2017

 

D.R.

Como se tornou vice-presidente de operações da NBA na Ásia, função que terminou recentemente, ao fim de praticamente dez anos?
Surgiu a nadar numa piscina, debaixo do olhar de altos dirigentes da NBA, no casamento de um deles, no México. Chamaram-me e disseram: “Tu eras a pessoa ideal para ir para a Índia". Como há tantos treinadores na América, perguntei-lhes “Porquê eu?”. A resposta foi que não tinham nenhum treinador capaz de construir pontes como eu o fazia. Foi o início de uma aventura.

Qual era o objetivo?
Mercado prioritário. Primeiro a Índia, num projeto de dez anos, ao que respondi: não vou estar 10 anos na Índia, aquilo que têm no plano para fazer em dez anos, faço em três e ao fim de três, escolho para onde quero ir.

E para onde queria ir?
Para a Ásia. Porque a Índia era independente, já não é, e o escritório da Ásia, em Hong Kong, era para mim muito mais atrativo, porque trabalhava com todos os outros países da Ásia, exceto a Índia.

Na Índia encontrou talento?
É um mercado muito difícil, porque assim como o futebol em Portugal é dominante, lá é o críquete. E depois é um país de extremos, com as pessoas mais ricas do mundo e as mais pobres. Fracas condições de instalações desportivas, a educação é muito dura, a competição é muito dura, a organização é muito débil. Muito difícil. Todos os dias tens 20 razões para desistir e 20 razões para continuar. Após um choque inicial, porque a Índia choca, decidi, OK, eu não vou mudar o mundo, mas vou fazer o meu melhor naquilo que me pedem para fazer.

O que mais o chocou?
A disparidade social. Chocou ver pessoas em frente a um hotel de 5 estrelas a dormir do outro lado do passeio, no chão, chocou ver crianças a fazerem xixi e cocó na rua, sem condições de vida. Mas se pobreza ao princípio te choca constantemente, depois quase crias uma barreira de indiferença e quando te preparas para sair, voltas a chocar-te outra vez, quase como justificação psicológica, é por isso que eu quero ir embora. É um país muito duro, as assimetrias são absurdas, mas é um país fascinante, lindo, tenho amigos que ficaram para a vida.

Barroca num Junior Camp da NBA em Jacarta, Indonésia, em 2019

Barroca num Junior Camp da NBA em Jacarta, Indonésia, em 2019

 

D.R.

Não encontrou muitos atletas dotados para o basquetebol?
É o país mais populoso do mundo, tem muita gente grande, particularmente no Sul, onde há bons atletas e grandes. No Norte, em Punjab, também há muitos atletas muito grandes. Há é poucas estruturas de qualidade e os programas são débeis. Daí termos aberto uma Academia na Índia para tentar acelerar o processo e hoje há muitos atletas indianos a jogar em universidades norte-americanas.

Ao fim de três anos foi para Hong Kong fazer o quê?
Fui fazer o que fiz na Índia, mas em vários países. Maioritariamente no princípio trabalhei em seis países onde tínhamos programas da NBA: Vietname, Tailândia, Singapura, Indonésia, Filipinas e Malásia.

Em todos esses países onde encontrou mais talento?
Se calhar mais recentemente no Japão e na Austrália, onde tínhamos poucos programas. Houve uma evolução muito grande, ao princípio eram esses seis países e era trabalhar pura e simplesmente um programa de escola que era "Teach the Teachers to Teach de Game" [Ensinar os professores a ensinar o jogo]. Nesta década trabalhei com cerca de 135.000 professores que afetaram 50 milhões de miúdos.

Alcançou vários recordes do Guinness com essa atividade, certo?
Sim. Chegamos a ter 5079 professores numa ação de formação, que é recorde do Guinness, e em 2017 dei uma aula com o Kevin Durant a 3459 miúdos e não foram mais porque na véspera ficámos sem o pavilhão inicialmente previsto, fomos para outro mais pequeno e tivemos de dizer a 1500 miúdos que não podiam vir, senão o recorde seria de 5000.

Em qual desses países o basquetebol gerou maior entusiasmo?
Gerado pelos programas que criámos, diria que foi nos países onde o basquetebol era menos importante: o Vietname, a Tailândia e a Indonésia. Porque era onde havia menos negócio e menos atividade de basquete. No Japão, onde estive nos últimos três anos, adoram basquetebol. Ser responsável por um programa desses é um título. É estar associado a uma coisa extremamente positiva. Fizemos questão de fazer ver aos professores que isto não é só ensinar, é ensinar, mas com valores e que a atitude a ter com os miúdos é de reforço positivo e não de puxão de orelhas constante.

Com Hakeem Olajuwon

Com Hakeem Olajuwon

 

D.R.

Quais os episódios mais caricatos que viveu nestes dez anos?
Tenho duas histórias giras. Uma na Índia. Estava lá há pouco tempo, tinha passado o fim do ano em Goa, fui ver pela primeira vez o campeonato nacional em Rajastão, numa terrinha pequena. Eu não sabia nada daquela cidadezinha, mas comecei a ficar assustado quando a agência de viagens me ligou a perguntar se tinha a certeza de que queria ficar ali. Eles aconselhavam ficar em Daipur, mas eram três horas de carro entre as cidades. Não ia andar seis horas de carro por dia. Quando cheguei ao aeroporto de Daipur, às seis da manhã, contrariamente a Goa, onde estavam 30°, lá estavam zero graus e eu só tinha uma t-shirt e um blusão fininho. Apanhei um táxi, começámos a andar, estava muito frio, nevoeiro, o motorista estava bem encasacado e eu cheio de frio; às tantas virei-me para ele e perguntei se podia ligar o aquecimento do carro. E ele: "Posso, mas tens que me pagar".

O que fez?
Eu podia pagar, mas não gostei da resposta. Não foi simpático. Abri os dois vidros de trás, fechei bem o blusão e apesar de estar cheio de frio, pus um sorriso na cara. O motorista olhava para o espelho e eu de sorriso nos lábios. Passado um bocado ele diz: "Está frio". E eu respondo: "Eu gosto, costumo fazer esqui". Passado mais um bocado, ele não aguentou e perguntou: "Podes fechar as janelas?"; "Posso, e tu ligas o aquecimento". Ele começou a rir e disse “OK” e ligou o aquecimento depois de eu fechar as janelas.

E a outra história?
Foi na Indonésia. A Indonésia tem regiões especiais, uma delas é Joguejacarta, que sempre teve um estatuto especial dentro do país e tem um sultão, que é o rei, mais a rainha e os filhos. Há um evento que fazemos com cerca de mil professores em que quem vai assistir é a princesa, que aparece com o seu batik tradicional e de saltos altos. Eu faço sempre uns aquecimentos inspiradores em que toda a gente participa, aquilo estava muito giro, olho para a princesa, ela olha para mim, e sem dizer nada faço-lhe sinal para ela vir. Ela queria vir, dava para perceber, mas tinha os sapatos. Eu não disse nada, descalcei os meus ténis, ela viu, tirou os sapatos e veio. Esteve a fazer as brincadeiras connosco. Acabou por fazer uma foto que a NBA diz que ser uma "Million dollar picture". É ela a lançar ao cesto, com o seu batik, descalça, e mil pessoas atrás dela. Mais recentemente, o Japão e a Austrália, que são países que só começamos a trabalhar mais nos últimos três anos, deixaram uma marca em mim.

Porque o marcaram tanto?
São países brutais em termos de desporto, de economia. O Japão, de hábitos e cultura completamente diferentes. Hoje conheço as quatro maiores ilhas do Japão e outras. Conheci umas 20 cidades e foi um privilégio.

Em mais um evento do BWB, desta vez com Jason Richardson

Em mais um evento do BWB, desta vez com Jason Richardson

 

D.R.

Sabia que era um trabalho de apenas 10 anos?
Não. Podiam ser 15, ou 20.

Quem decidiu a sua saída?
Eu e a NBA. Eles fazem o merging com a China e nessa altura houve condições para sair. Atualmente não fazemos tanta atividade como antes, o social media e o marketing está muito mais ativo do que propriamente ações de campo e no último ano havia da minha parte menos felicidade porque não gosto de estar sentado na secretária, gosto de ser ativo. Criaram-se condições de terminar antes com alguma vantagem para mim.

O que pensa fazer agora?
Aquilo que tenho na cabeça em relação ao meu país, é o mesmo que tive quando saí em 1988, que é devolver o que aprendi. Tenho quatro filhos, três homens e uma mulher, e quatro netos, uma delas é vice-campeã da Europa de patinagem artística. Tenho 65 anos, quero passar mais tempo com eles. Tenho convites para voltar para o estrangeiro, a perspetiva internacional agrada-me porque estou habituado a viajar pelo mundo fora, mas quero passar mais tempo com aqueles que me são mais próximos e com quem não tive essa relação nestes últimos dez anos. Os meus planos profissionais passam por devolver ao meu país, o que aprendi nas minhas áreas, o basquetebol, a comunicação, o ensino e a liderança de projetos.

Está à espera de ser convidado ou vai bater à porta de alguém?
Não estou à espera que me batam à porta. Já não funciona dessa maneira. Neste momento estou a dar umas aulas na pós-graduação do ISCTE, em Gestão de Desporto e estou a dar aulas na licenciatura em Gestão de Desporto na Universidade Europeia. Estou a colaborar com uma organização na Indonésia, a escrever um livro de basquetebol para crianças. Tenho tido muitas conversas relacionadas com basquetebol com vários países da Ásia, do Japão.

Com Jarrett Allen, dos Cleveland Cavaliers

Com Jarrett Allen, dos Cleveland Cavaliers

 

D.R.

Passa-lhe pela cabeça candidatar-se um dia à presidência da Federação Portuguesa de Basquetebol?
A presidência da federação já me passou pela cabeça e é uma pergunta pertinente que acontece nos últimos anos. Digo a brincar que atualmente sinto-me um bocadinho o Dom Sebastião, porque toda a gente que fala comigo acha que eu vou ser o próximo presidente da federação. Eu não quero ser presidente da federação, eu quero ajudar onde puder ajudar. Não me move aquele sentido de quero ser o presidente da federação. Eu quero servir o meu país naquilo que são as coisas que aprendi. Pode ser um caminho? Pode. Não nego.

Tendo em conta o seu know-how, que extravasa o basquetebol, acha que devolveria mais ao país na federação, no Comité Olímpico ou num outro órgão do Estado?
Primeiro, não me vou candidatar a nada que não queira. Segundo, não vou andar a bater às portas, não tenho nenhuma filiação política, sou um técnico. Era técnico quando fui diretor do Desporto Escolar. No meu dia a dia sou professor, alguém que trabalha em equipa e tem o objetivo de ensinar e mudar comportamentos. Hoje sinto-me com mais equipamento para o fazer, em maior escala. Quero ser membro de uma equipa que provoque diferença na vida das pessoas. O desporto pode ser uma ferramenta, a educação é uma ferramenta, a comunicação é uma ferramenta. O que aprendi nestes últimos 20 anos de relação com a NBA permite-me ser um profissional mais qualificado, um líder e um comunicador mais qualificado e admito ser uma melhor pessoa.

Já não se vê como treinador de uma equipa?
Não. Vejo-me como treinador de grandes equipas. Treinador de uma equipa é para o resultado, para ganhar jogos e para efeitos imediatos. Hoje vejo-me mais como uma pessoa que pode fazer diferença em mais pessoas.

Com Dwight Howard

Com Dwight Howard

 

D.R.

Olhando para o basquetebol português, o modelo do campeonato devia ser revisto?
Não tenho qualificações suficientes para falar dos modelos, tenho qualificações para falar dos resultados. O que me deixa apreensivo é que não encontro ninguém ligado ao basquetebol que não fale mal da estrutura do basquetebol. Isso é negativo. É estranho quando gostamos de uma modalidade e toda a gente fala mal daquilo que é a direção da modalidade. Alguma coisa de grave está a acontecer e urge mudar internamente. E, atenção, não quero com isto estar a dizer mal também da federação, até porque muita coisa boa tem sido feita na federação. Mas de alguma maneira falta aqui uma capacidade ou de comunicar as coisas que fazem ou das pessoas entenderem as coisas que se fazem. Não é valorizado o que se faz de bem. Fala-se muito mais do que é mal feito.

Há demasiados estrangeiros no basquetebol nacional, que podem tapar e impedir o crescimento dos jogadores portugueses?
É uma conversa sem fim, porque há regras de mercado, de livre circulação de trabalhadores, o que leva a conversa que nunca mais acaba, porque a modalidade não é profissional, portanto, como isso funciona? É bom ter atletas estrangeiros, é bom ter só portugueses ou é era melhor ter só dois atletas estrangeiros que fossem muito bons e que influenciassem mais os portugueses? Como digo, é uma conversa que nunca mais acaba.

Não ter uma liga profissional é um erro?
É. Porque a função de uma federação é ter mais praticantes, melhores praticantes, melhores árbitros, melhores dirigentes, melhores treinadores e cuidar da formação de toda essa gente. Continuamos a viver numa verdade que não é verdade. Ou se é profissional, ou não. É simples. E se pensarmos que ser profissional não é só ganhar dinheiro, é uma série de outras circunstâncias, acho que está na altura de pensarmos se não ter uma liga profissional é o melhor caminho.

Acredita que com uma liga profissional seria tudo mais transparente?
Sem dúvida. É como a história das pessoas que dizem, estou aqui, mas não ganho dinheiro, está bem, não ganha dinheiro porque não recebe vencimento, mas depois recebe desta maneira, daquela e da outra. Há muita coisa encapotada, e se queremos que uma modalidade, seja qual for, seja respeitada, a transparência é fundamental. A NBA tem esse privilégio, os contratos são públicos. Toda a gente sabe quanto é que o treinador ganha, quanto é que o manager ganha, quanto é que o jogador ganha.

Com Gheorghe Muresan, um dos jogadores mais altos de sempre na NBA

Com Gheorghe Muresan, um dos jogadores mais altos de sempre na NBA 

D.R.

Quando é que a NBA começou a perder a hegemonia?
A NBA não perde hegemonia porque a NBA não concorre com ninguém em termos de competição. O modelo de competição da NBA é único. A NBA concorre com a Netflix ou a Disney, é um produto de entretenimento e, portanto, não perde com ninguém.

Mas nas competições internacionais os EUA já fraquejaram.
Sim, porquê? Porque há uma evolução no jogo, tremenda. Hoje eles jogam com outras seleções que têm tantos jogadores da NBA como eles. As nações que jogam contra a América têm o extra de quererem ganhar aos Estados Unidos, não se ponham a jeito, senão eles vão mesmo ganhar. Não chega levar 10 ou 12 jogadores da NBA, é preciso levar uma equipa. O exemplo no último Mundial é que perderam três jogos e podiam ter perdido mais, porque não se pode achar que chega levar os jogadores.

A NBA não está obrigada a deixar os jogadores participarem na seleção e por norma falham sempre as fases de qualificação. Isso devia ser alterado?
Os jogadores da NBA podem representar as suas seleções em períodos que não coincidem com os períodos da competição. Os EUA nas fases de apuramento não participa com a seleção que leva jogadores da NBA. O peso da NBA é enorme e os melhores jogadores do mundo de todas as seleções estão lá. Não é um problema só para a seleção dos EUA. A seleção portuguesa também não pode utilizar o Neemias Queta sempre que haja compromissos que coincidam com a competição da NBA. As regras estão definidas. A diferença na NBA é que a influência dos jogadores é tão grande que, por exemplo, quando o LeBron James diz que quer ir aos Jogos Olímpicos de Paris, ele vai a Paris. E mais, imediatamente uma série de jogadores diz eu também vou, e vão os melhores. Mas, atenção que têm de jogar como equipa porque, repito, vão apanhar seleções que têm tantos jogadores da NBA quanto eles, caso da França, da Austrália, do Canadá, de alguns países de Leste. Ou jogam a sério, ou não ganham.

Barroca à conversa com Greg Popovich, treinador dos Spurs

Barroca à conversa com Greg Popovich, treinador dos Spurs

 

D.R.

O Neemias Queta é o primeiro português na NBA. Os Boston Celtics são a equipa à medida dele?
Qualquer uma é equipa à medida dele. Digo isto desde que ele entrou para os Sacramento Kings. Tudo o que aconteceu com ele é fantástico. A competição é terrível. A competição não é só com os melhores jogadores da América, é com os melhores do mundo. Estima-se que haja 450 milhões de jogadores de basquete no mundo, mas só 450 é que jogam na NBA. Por isso, ser jogador da NBA, seja em que equipa for, é bom. O funil é tão apertado, tão apertado. Ele é grande, é bom atleta, é esperto, aprende rapidamente e é um jovem espetacular. Tem sentido de humor, toda a gente gosta dele. Se ele não jogar na NBA, de certeza que vai ganhar muito dinheiro pelo mundo fora, o que é importante é que seja feliz.

Mas tem condições para vingar na NBA?
Tem. O facto de ser um talento que chega tarde, não faz dele um talento pior. É muito bom a fazer aquilo que ele faz. Podia lançar um bocadinho melhor de fora, porque hoje em dia toda a gente lança de fora, mas ele não se tem exposto a isso. Com certeza que trabalha para melhorar o seu lançamento todos os dias porque é um trabalhador tremendo. Tem uma personalidade magnífica, se continuar a fazer o que tem feito, já tem nome no mundo inteiro, tem um bom manager, o contrato é válido até ao final dos playoffs, a equipa pode não estender o contrato para a próxima época, mas vamos criticar? Não. A equipa vai escolher o que for melhor para ela. Espero que o escolha. Ele gosta de estar em Boston, onde há muitos portugueses, a comunidade portuguesa tem tratado muito bem dele, convidou-o para fazer coisas, para ser ativo, ele corresponde e tem apoio de empresas portuguesas. Espero que lá continue.

Ele tem feitio para a máquina NBA?
Ele é uma máquina, é muito simpático, os primeiros a testemunhar isso são os colegas. Assim que renova contrato ou faz um bom jogo, os próprios colegas estão sempre a falar dele nas redes sociais. Quando os líderes da equipa gostam do jogador, o presidente só se não puder é que não vai ficar com ele.

Barroca com Luol Deng (à esquerda), ex-jogador da NBA e presidente da federação de basquete do Sudão

Barroca com Luol Deng (à esquerda), ex-jogador da NBA e presidente da federação de basquete do Sudão

 

D.R.

O Rúben Prey pode seguir as pisadas do Neemias?
Pode. Gosto muito da raça do Rúben. Conheço-o há alguns anos, foi o primeiro atleta português a ir ao Global Camp do BWB, em Salt Lake City. Consegui fazer uma foto histórica, em que juntei o Neemias, a Ticha Penicheiro, a Mery Andrade, o Rúben e a Inês Vieira, que joga na universidade de Utah. O Rúben é um miúdo que tem características físicas notáveis, tem uma raça muito grande, tem de trabalhar algumas coisas da técnica, mas está no sítio certo, Espanha, que é um país onde fazem jogadores, onde trabalham as qualidades individuais. Ele não vai participar neste draft, parece-me, mas é um candidato.

Qual é a idade em que tudo se decide?
Acho que é pelos dos 16 aos 18 anos que se percebe onde é que eles estão. Mais do que isso é difícil, só se for um caso extraordinário é que é possível lá chegar, porque hoje a máquina de scouting da NBA está no mundo inteiro e os jogadores são apanhados mais cedo em termos de visibilidade. O Rúben tem estado muito bem nesse aspeto, desde que foi para Espanha que vai aos campos das marcas, está referenciado, vamos ver.

Neemias Queta, Ticha Penicheiro, Carlos Barroca, Ruben Prey, Mery Andrade e Inês Vieira

Neemias Queta, Ticha Penicheiro, Carlos Barroca, Ruben Prey, Mery Andrade e Inês Vieira 

D.R.

Nota-se nos jogos da NBA que há cada vez mais lançamentos de três pontos. De onde surgiu este fenómeno?
Matemática pura e simples. É uma estratégia das equipas. Às vezes o jogo até é um bocadinho feio porque é correr e lançar de três. Hoje, poucas vezes se vê um jogador a fazer um corte nas costas para receber e há uma sistemática procura de lançar três pontos, porque o nível de eficiência também subiu estrondosamente. Depois de 1992 e 96, as seleções que iam representar os EUA quando apanhavam defesas de zona viam-se aflitas para lançar de três pontos porque não tinham bons lançadores. Hoje a liga tem lançadores impressionantes e tem a ver com a estratégia baseada em números. Se marcares cinco lançamentos de três são 15 pontos, se converteres cinco lançamentos de dois são só 10. Como admirador de basquete muitas vezes não gosto de ver quando é sistemático, e a lançarem mal, a falhar e continuam a lançar e a falhar. Mas hoje nenhum treinador da NBA diz que o lançamento de três pontos não é uma boa arma.

A Caitlin Clark é o Michael Jordan feminino?
Ainda não. Mas é a mistura do Magic Johnson e do Larry Bird quando a liga estava falida. O efeito dela já é mais forte do que todos os anos da WNBA até agora. As Las Vegas Aces já disseram que vão jogar num pavilhão maior e os bilhetes em vez de custar 18 dólares vão custar 32 nos jogos que fizerem contra Indiana, para onde ela vai. O efeito Caitlin Clark pode provocar mais audiências, mais dinheiro, mais riqueza, mais visibilidade para as equipas, para as jogadoras e para toda a gente.

A NBA perdeu um bocadinho da sua aura, ou não?
Não. Cada vez melhor. Cada vez há mais talento, cada vez os pavilhões estão mais cheios, a tecnologia à volta do jogo é maior, toda a gente quer estar associada à marca.

Qual foi o jogador com quem trabalhou que mais lhe encheu as medidas?
Todos diferentes. O Giannis era impecável, o Chris Paul, David Robinson, conheci tantos... O ano passado, quando saiu aquela lista dos 75 melhores jogadores da NBA, mais de metade eu conheço e trabalhei com eles. É um privilégio. Um dos últimos Clinics que dei foi com o treinador dos Miami Heat antes do Campeonato do Mundo. A seguir à Clinic deu uma entrevista à CNN, onde me elogiou. É um privilégio. Mas se a vida me deu o que deu, a qualquer um pode dar, façam as coisas certas, estejam no momento certo, não percam as oportunidades, mas preparem-se. Não há sorte, há trabalho, há contínuo investimento, nunca paramos de aprender.

Marcelo Rebelo de Sousa condecorou Carlos Barroca com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique

Marcelo Rebelo de Sousa condecorou Carlos Barroca com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique

 

D.R.

Que importância tem a atribuição, por parte do Presidente da República, do grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique?
Responsabilidade acrescida de aqueles que são os valores que eu defendo terem de estar mais vezes presentes. E tentar utilizar essa nova plataforma para aumentar a possibilidade de devolver mais coisas ao meu país.

Marcelo Rebelo de Sousa é fã de basquetebol. É verdade que lhe ligava às três ou quatro da manhã para comentar jogos da NBA?
É. Muitas vezes a meio dos meus comentários e eu não podia atender [risos]. Como éramos dois a comentar, às vezes vinha cá fora ligar ao professor. Dizia-lhe que estava a comentar, mas ele continuava: “Mas esses gajos, pá, estão a jogar mal, pá…” [risos]. Eu sabia que era ele porque ligava sempre de número privado. Alguém a ligar-me às três da manhã durante um jogo, só podia ser ele. Ele gosta do jogo, tem opinião. É um espectador especial.

Gostava de voltar a comentar com regularidade os jogos da NBA?
Não sei se com regularidade gostava. Mas não é uma coisa que desapareceu da minha vida.

Tem algum hóbi?
Adoro fazer esqui. Gosto de vela, tenho carta de patrão de costa, mas não tenho barco.

É um homem de fé?
A minha relação com a fé é estar bem comigo mesmo, em qualquer sítio. Descobri que todos os templos ou igrejas de inverno são mais quentes lá dentro e de verão são mais fresquinhos. Estou bem com todas as religiões. Haverá qualquer coisa que une as pessoas para a necessidade disso. Eu, particularmente, não tenho necessidade de ir à igreja, mas tenho um gesto que as pessoas ficam a olhar para mim, quando ando de avião. Nos últimos 10 anos andei muito de avião, tirando os dois anos de covid-19 dei quase sete voltas ao mundo por ano. E benzo-me quando levanto e quando aterro. Não tenho vergonha nenhuma de o fazer. Não frequento a igreja, mas já estive em templos, em mesquitas e igrejas de todas as religiões, sem julgamento.

Superstições?
Não.

Com os netos

Com os netos

 

D.R.

Qual o sonho que ainda está por cumprir?
Espero que esteja para breve: escrever um livro. Estou a trabalhar num livro para crianças sobre basquetebol. Não tenho assim muito mais sonhos, quero ter tempo na minha vida para ver crescer os meus filhos e os meus netos. Acho que a vida já me deu tanto mais do que aquilo que eu pensava, que tenho de ser agradecido e não ambicioso por mais.

A NBA faz projetos a 10 anos, como aquele em que esteve envolvido. O desporto português devia seguir o mesmo exemplo?
Faz falta a Portugal pensar a 10 anos, em todas as áreas. Nós temos legislação a mais e política a mais e projetos a menos. Há quantos anos se fala na criação do novo aeroporto em Lisboa? Não há ninguém que tenha caráter, personalidade para assumir e começar a fazer? É preciso o quê acontecer? A medicina é politizada, os institutos são politizados, etc. Os dirigentes políticos têm de servir é a população não a eles próprios. Nós temos um país maravilhoso, mas que sobrevive em vez de viver. Era bom que todos sentissem orgulho no seu país.

Com os filhos e netos

Com os filhos e netos

 

D.R.

Tem mais histórias da NBA que possa contar para fechar esta entrevista?
Lembro-me de um jogador que era muito sisudo e eu estava a trabalhar com a equipa dele em Pequim. Ele tem um feitio especial e pode criar problemas porque gostam de fazer as coisas à maneira dele. Eu tinha de fazer um Clinic com o miúdo e com a equipa dele e em vez de o pôr como responsável das várias estações do Clinic, pus os outros e controlei-o como? Disse a ele, e a mais alguns que ficaram de fora, vocês agora juntam-se ao grupo que quiserem e a única coisa que vos cobro é que têm que sorrir para os jovens e aquele que tiver um sorriso melhor, eu pago o almoço. Foi engraçado que não o pressionando e não entrando em conflito com ele, cada vez que eu passava pela estação dele, ele virava-se para mim: "Coach, o meu sorriso é o melhor de todos" [risos]. Tenho outra história engraçada.

Força.
Estava na Indonésia com um grande jogador dos Boston Celtic que me pediu um pavilhão para treinar. A minha obrigação enquanto treinador é perguntar se ele queria que eu lhe desse treino, ele disse que não, que tinha a rotina dele. E comecei a reparar que ele driblava, parava e só depois de parar é que levantava a cabeça para o cesto. A certa altura, perguntei-lhe: "Posso dizer uma coisa?"; "Claro, coach"; "Se tu estás a driblar a olhar para baixo e o defensor aparecer e alguém cortar nas costas, tu não estás a ver"; "Não, coach, eu estou a ver o cesto, não estou a olhar para baixo". Eu tinha gravado, mostrei-lhe e ele "Uau, nunca ninguém me tinha dito isso". Tenho outra.

Para terminar.
Uma história gira com o Luol Deng, que foi jogador dos Chicago Bulls e hoje é o presidente da federação de basquetebol do Sudão. Em 2004, o primeiro ano do BWB, tínhamos 120 miúdos na bancada, eu entro no pavilhão da escola americana e o Luol Deng está a lançar ao cesto, mas sem tirar os pés do chão. Eu não o conhecia de lado nenhum, nunca tinha falado com ele. Vou direito a ele, digo-lhe olá, que sou treinador e pergunto-lhe o que está a fazer. Ele diz que está a lançar ao cesto e eu digo: “Não, não estás a laçar ao cesto, estás a envergonhar-te e a dares uma imagem péssima aos miúdos. Os miúdos nunca viram um jogador da NBA antes e tu estás a lançar a esta velocidade, sem tirar os pões do chão, eles acham que ser jogador da NBA é isto”; “Ah, nunca tinha pensado nisso. Tem razão coach. Vamos a isto?”. Comecei-lhe a passar a bola, a pedir para fazer fintas. Quando acabámos, ele virou-se para mim: “Coach, obrigado. Agora pode vir todas as manhãs dar-me treino?”; “Claro que sim. A que horas?”; “Às seis da manhã” [risos]. Lixei-me. Todos os dias às seis da manhã lá ia ele bater-me à porta para lhe dar treinos individualizados.

 

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Citação de Kaz, Em 11/09/2024 at 08:52:

Al Horford anunciou a sua retirada.❤️

Afinal parece que era fake news, vamos tê-lo mais um ano.

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O Wojnarowski anunciou a sua retirada.

Goste-se ou não, o gajo mudou o mundo do jornalismo para sempre.

Não teríamos Fabrizios e afins sem o impacto que o Woj teve.

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Citação de Kaz, há 9 horas:

O Derrick Rose retirou-se

Já não acompanho a NBA a sério há muito tempo mas vou me lembrar sempre de que em 2011 ele parecia que ia ter o mundo aos pés e iria acabar por voltar a dar um título aos Bulls.

Infelizmente o corpo não deixou 

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Citação de FabioK, há 10 horas:

E o mano dos hawks (?) com 21 anos ? Que aconteceu ?

Ele não é assim tão bom e é um maluquinho da religião, as equipas hoje em dia não querem estar associadas a essas polémicas fora de campo a não ser que sejas uma mais valia para a equipa dentro do campo.

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Aconteceu uma troca esta noite:

Knicks recebem:
Karl-Anthony Towns

Timberwolves recebem
Donte DiVincenzo
Julius Randle

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Citação de Kaz, há 5 horas:

Aconteceu uma troca esta noite:

Knicks recebem:
Karl-Anthony Towns

Timberwolves recebem
Donte DiVincenzo
Julius Randle

Wtf

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É daquelas trades que á partida não fazem sentido para ambas as partes.

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Dá ideia que os Wolves só queriam livrar-se do KAT e até acho o Randle não fica lá.

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Citação de Lage_Effect, Em 28/09/2024 at 19:48:

Dá ideia que os Wolves só queriam livrar-se do KAT e até acho o Randle não fica lá.

exato.

Naz Reid é o objetivo dos Wolves. Mexem o Randle eventualmente.

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Citação de Shai, Em 28/09/2024 at 15:47:

É daquelas trades que á partida não fazem sentido para ambas as partes.

Não concordo muito, acho que os Knicks melhoram. O KAT é melhor que o Randle e mais adequado ao jogo de hoje. O DiVincenzo era útil, mas este ano têm o Mikal.

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Citação de andriy pereplyotkin, há 2 horas:

Não concordo muito, acho que os Knicks melhoram. O KAT é melhor que o Randle e mais adequado ao jogo de hoje. O DiVincenzo era útil, mas este ano têm o Mikal.

Pensando melhor tens razão. Até porque só me apercebi mais tarde que a rotação de postes dos Knicks é um Robinson que está cronicamente lesionado e o Jericho Sims. Além do spacing que o Brunson vai ter para operar na próxima época.

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Lenda! 58 anos é demasiado novo, bolas. 😞

Ainda me lembro perfeitamente de o ver jogar uma carrada de vezes, já aqui se comentava basket no CMPT. Estamos a ficar velhos.

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O taunt dele vai ficar para sempre na história. E fora de campo parecia ser um gajo 5 estrelas.

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