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Black Hawk

[FM Mobile 2022] Um oásis no deserto da Margem Sul

Publicações recomendadas

Citação de Bettencourt, há 8 horas:

Inacreditável. Neste save sente-se amor. Adoro ler os teus textos! 

 

 

Obrigado 🙂

É, crescer dentro da Medideira faz destas coisas. Ainda hoje digo que, não indo à Medideira há mais de uma década por hoje estar longe, ainda é o estádio em que mais vezes estive. Há coisas que ficam para sempre.

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Nota prévia:

Por qualquer motivo aleatório, a final no jogo foi disputada no Campo do Vale de Abelha, em Paio Pires. Conheço o campo e aquilo, com todo o respeito, não é recinto para uma final da Liga 3.

Para efeitos de role playing, escolhi outro palco para a final e assumi a assistência do jogo como sendo a dos adeptos do Amora.

 

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Capítulo V - Espírito Azul, parte 1

 

 

"Desde pequeno eu vou à bola!

Largo tudo p'ra te ver!

Só quero que sues a camisola!

Sou do Amora até morrer!"

Bum! Bum! Bum!

 

Foi ao som de cânticos de apoio e estrondosas batidas de tambor que a equipa do Amora entrou no relvado para o aquecimento. Uma mancha azul começava a formar-se no topo do estádio atrás da baliza norte, ruidosa apesar da sua ainda modesta dimensão - muitos dos adeptos ainda não tinham entrado. Os jogadores retribuíram a recepção com palmas e acenos para os seus adeptos, focando-se depois nos exercícios ditados pela equipa técnica.

Estavam habituados ao apoio dos adeptos amorenses, sempre presentes em todos os seus jogos, mesmo longe de casa. Não havia deslocação em que não estivessem acompanhados por pelo menos uma ou duas dezenas de entusiásticos adeptos, compensando em ruído e apoio a desvantagem numérica nas bancadas.

Estariam novamente em inferioridade numérica nas bancadas nesse dia. O adversário podia não ser a equipa principal do Sporting, mas não deixava de ser uma equipa do Sporting Clube de Portugal.

Os termómetros marcavam 26°C, mas a sensação térmica era de muito mais pela ausência de qualquer sugestão de brisa que amenizasse o sol tórrido daquela tarde de Maio à beira Tejo. Já havia homens em tronco nú nas bancadas, muitos ostentando barrigas rotundas e sem qualquer vergonha nisso. Viam-se cervejas nas mãos, indispensáveis para combater o calor, e cânticos espontâneos surgiam a cada minuto, todos contagiando, homens e mulheres, velhos e novos.

Era dia de festa e estavam todos a saboreá-la.

 

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O símbolo dos Espírito Azul

 

As bancadas também se iam enchendo nos restantes sectores, mas em tons de verde. Alguns cânticos difusos, embora cada vez mais nítidos, faziam adivinhar a chegada das principais claques leoninas. Faixas já afixadas, ostentando símbolos e nomes que todos reconheciam de tanto os verem pela televisão no Estádio de Alvalade, denunciavam o local onde haveriam de surgir, de braços erguidos e vozes já quentes.

A chegada da claque quase coincidiu com a entrada da equipa do Sporting B no relvado e os aplausos aos meninos de Alcochete não ficaram atrás daqueles que os homens de Frodo Zarco receberam.

Este circulava pelas imediações do terreno de jogo, inspeccionando o aquecimento dos seus jogadores dirigido pelos seus adjuntos e sentindo o ambiente. Mais pessoas vestidas de azul surgiam a cada minuto, mas adivinhou com precisão que o apoio às equipas seria repartido, sim, mas em maior número para o Sporting B. Olhou para a claque, que já crescera consideravelmente desde o início do aquecimento, e não conseguiu reprimir um sorriso.

Aquilo trazia-lhe recordações.

Frodo Zarco, tal como Bilbo Himura, fizera parte de uma claque improvisada nas bancadas da Medideira quando era adolescente. Chamavam-se Espírito Azul e imitavam os cânticos que as grandes claques do país faziam e que viam pela televisão. Era tudo muito amador: tinham um pequeno tambor, cujas batidas intercalavam cada verso gritado, e algumas buzinas que irritavam quem estava próximo - e raro era o jogo em que não levavam com ameaças para pararem de as fazer soar -, mas tinham principalmente muito amor e muita vontade. Como claque improvisada que eram, não tinham dinheiro para viagens ou sequer para terem uma arrecadação. Guardavam os materiais em casa e levavam-nos para a Medideira em dia de jogo.

Não esquecia um dia em que conseguiram convencer um amigo mais velho a levá-los a um jogo no Alto Alentejo no seu velho Fiat Uno, uma viagem de ida e volta com mais de 300 quilómetros. Para juntar dinheiro para financiar os gastos com a deslocação, dado serem todos adolescentes e não quererem que os pais descobrissem, tiveram de somar as poupanças de mais pessoas do que a lotação do Uno, acabando por fazer a viagem encavalitados no banco traseiro, sentados por cima uns dos outros numa confusão de pernas cruzadas e outras partes do corpo a roçar desconfortavelmente onde teriam preferido que não houvesse contacto.

Quando chegaram ao destino encontraram a comitiva do Amora junto ao autocarro do clube e estacionaram ao lado. Foi perante o ar atónito dos próprios jogadores que começaram a sair um a um do Fiat Uno, um após outro e mais outro e mais outro numa sucessão que parecia não ter fim, parecendo um carro de palhaços do qual saltavam palhaços suficientes para encher um pequeno autocarro. Mal os jogadores ficaram refeitos da surpresa, riram à gargalhada perante aquela imagem e acolheram-nos com satisfação, agradecidos pela sua presença.

Pior foi o regresso a casa. O Fiat Uno avariou na viagem e chegaram à Amora já noite cerrada para encontrar um grupo organizado por pais desesperados a bater todas as ruas, becos e pracetas à procura deles. Era a década de 1990 e não havia telemóveis... bem como preocupações com a forma de educar crianças. As expressões de alívio dos pais rapidamente deram lugar a esgares de fúria e aquele bando de palhaços que saiu do Uno foi corrido para as respectivas casas à força de palmadas, pontapés, gritos e puxões de orelha.

"Melhor dia de sempre", recordava Frodo Zarco, olhando para a claque do Amora e recordando como tinham valido a pena as nódoas negras e a orelha a arder durante dias. Eram tão inocentes na altura.

A atual versão dos Espírito Azul era um grupo já mais organizado, tendo surgido na passagem de século por ocasião da deslocação ao antigo Estádio da Luz para um jogo da Taça de Portugal - que na altura saldou-se numa goleada de sete golos sem resposta. Apesar dos anos difíceis que o Amora passou no século XXI, os Espírito Azul acompanharam sempre a equipa, muitas vezes valendo-se da carolice e amor dos seus membros ao clube. Em 2022 crescia em número e projecção, apoiados também por Bilbo Himura que garantia a oferta dos bilhetes aos membros da claque com a contrapartida de serem também sócios do clube com as quotas em dia e não causarem desacatos de qualquer ordem. Em todas as deslocações a claque organizava-se para pelo menos uma, duas ou três dezenas marcarem presença nos jogos com o seu indispensável apoio.

Naquela tarde de domingo, em meados de Maio de 2022, todos queriam marcar presença na Final da Liga 3. Só dos Espírito Azul seriam mais de uma centena, talvez duas, e começavam a dar espectáculo antes mesmo de o jogo começar.

 

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O Sporting B era considerado favorito pelos especialistas

 

Na sua época de estreia, a Liga 3 pretendia que a final fosse um grande evento, digno de espectáculo dentro e fora das quatro linhas e com honras de transmissão em directo pelo próprio canal televisivo da Federação Portuguesa de Futebol. Imaginaram-se vários locais para o evento e o preferido até seria o próprio Estádio Nacional do Jamor, mas as condições precárias do relvado e a proximidade da final da Taça de Portugal - disputada uma semana depois entre FC Porto e Sporting CP - trocou-lhes as voltas.

A decisão acabou por recair num recinto mítico: o Estádio do Restelo. Casa do eterno Clube de Futebol "os Belenenses", outro histórico com imensas histórias para contar, recebia habitualmente jogos do Campeonato Nacional de Seniores, quarto escalão do futebol português onde o Belenenses militava actualmente enquanto tentava escalar de regresso ao convívio dos grandes.

 

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A perspectiva do Estádio do Restelo a partir da bancada central, à esquerda o topo norte destinado aos adeptos do Amora...

 

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... e a deslumbrante perspectiva a partir do topo norte com o Rio Tejo e a Margem Sul no horizonte

 

Os jogadores já tinham recolhido aos balneários, ouvido últimas instrucções dos respectivos treinadores e preparavam-se para sair dos túneis e entrar no relvado. A equipa de arbitragem confirmou que estava tudo pronto e iniciaram a procissão pelo relvado em direcção ao centro do terreno, onde as equipas perfilaram para a bancada central. Os Espírito Azul e as várias claques do Sporting, agora já nas suas máximas forças, trocavam entre si despiques no apoio às respectivas equipas, contagiando todos em redor.

 

"Desde pequeno eu vou à bola!

Largo tudo p'ra te ver!"

 

Gritava-se de um lado.

 

"Uma curva belíssima!

Uma equipa fantástica!"

 

Respondia-se do outro.

 

"Só quero que sues a camisola!

Sou do Amora até morrer!"

Bum! Bum! Bum!

 

Soavam os tambores dos Espírito Azul.

 

"És a nossa fé!

Força Sporting! Allez!"

 

Milhares de vozes do outro lado do estádio sobrepunham-se aos tambores, rivalizando em volume de decibéis.

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol, acompanhado na tribuna do Restelo pelos presidentes do Sporting e do Amora, Frederico Varandas e Carlos Henriques; pelo proprietário do clube da Margem Sul, mas não presidente, Bilbo Himura [fica para um próximo capítulo], e ainda pelo treinador principal da equipa leonina, Ronald Koeman [este fica meeesmo para outro capítulo ahah], acenavam em concordância, apreciando o espectáculo dado por quase cinco mil amorenses e um número indiscriminado, mas superior, de sportinguistas.

 

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O Sporting B com o seu esquema de três centrais face a um Amora na sua máxima força

 

Os capitães de equipa escolheram campo ou bola, aproximando-se mais do que seria de esperar para se conseguirem ouvir no meio daquele chinfrim. As equipas trocaram de campo - o Amora atacaria para a baliza sul, do lado do Tejo e contrário ao dos seus adeptos -, o árbitro apitou e a final começou.

Do outro lado ouvia-se a sempre arrepiante "O Mundo Sabe Que" numa versão mais acelerada e os Espírito Azul respondiam, animados.

 

"Allez, Amora! Allez!

Nós somos a tua voz!

Queremos esta vitória!

Amora, vence por nós!"

Bum! Bum! Bum!

 

Não foi por falta de apoio que o Amora entrou encolhido e retraído em campo.

A equipa do Sporting B jogava com três centrais, mantendo o sistema táctico que utilizara durante a temporada apesar da saída de Ruben Amorim a meio do ano. Não era um sistema que fosse habitual defrontar e já causara problemas ao Amora durante a Fase Regular, com um empate na Academia de Alcochete e uma vitória dos amorenses na Medideira num jogo que poderia ter caído para qualquer uma das equipas.

 

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O sofrido empate a zeros na Academia de Alcochete...

 

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... seguido de um encontro aberto e imprevisível a demonstrar que a equipa jovem do Sporting é um adversário temível

 

Mas, naquela tarde, o Amora simplesmente não estava a conseguir lidar com os jovens leoninos. A cada bola aliviada pela defesa, os adeptos atrás da baliza festejavam, mas quando esta chegava ao avançado Flávio Silva era apenas um elemento contra três defesas. Mesmo conseguindo segurar a bola e devolvê-la jogável, havia excesso de centrais do Sporting na sua defensiva e os extremos Gabriel Capixaba e Joca não tinham espaço para explorar na zona central.

E isto quando a bola chegava ao ataque do Amora, pois Dário Essugo comandava o meio-campo e, apesar dos seus 17 anos, vencia todos os duelos e recuperava todas as bolas que surgiam na sua zona do terreno. Os alas Gonçalo Costa e Diogo Travassos surgiam frequentemente com bola em zonas adiantadas do terreno, sendo apoiados pelos avançados Marco Túlio e Youssef Chermiti que, jogando em dupla no ataque, andavam soltos e descaíam junto às linhas laterais para o apoio aos alas, provocando o pânico na defesa do Amora por não terem referências para a marcação.

Foi num desses movimentos que os adeptos do Amora viram de perto, por ser junto à zona onde estavam, Marco Túlio visar a baliza de David Grilo em zona frontal, mas para alívio de todos a bola foi bloqueada por Juary e saiu, inofensiva, pela linha de fundo.

A equipa ainda mal saíra da sua área desde o apito inicial e os Espírito Azul organizaram-se para iniciar outro cântico para a inspirar, mas este rapidamente esmoreceu. Marco Túlio marcou o canto e Chermiti saltou mais alto, encostando a testa à bola e abrindo o marcador.

Todo o Restelo reagiu em simultâneo: os adeptos do Sporting gritando golo e os do Amora soltando impropérios de frustração. O golo adivinhava-se face à pressão exercida pelos meninos de Alcochete e o Amora via-se a perder logo aos oito minutos de jogo.

A maioria dos membros dos Espírito Azul eram jovens e nem sequer eram nascidos quando a actual versão da claque do Amora surgiu há mais de vinte anos, mas alguns outros faziam parte da mesma há uma década ou mais e um pequeno punhado tinha estado lá desde o início. Tinham metido dinheiro do próprio bolso para a financiar, em material e em viagens, por amor ao clube. Tinham histórias fantásticas para contar como a de Frodo Zarco: viagens em autocarros velhos que perderam os travões a meio da viagem, em autocaravanas alugadas a soltar densas baforadas de fumo negro que encobriam o trânsito como nevoeiro, ou em automóveis privados que excediam largamente a lotação de ocupantes; assistiram a jogos em estádios que nem bancadas tinham, apoiando de pé durante noventa minutos sem qualquer protecção contra os elementos, apanhando queimaduras solares ou voltando a casa encharcados até aos ossos de tal forma que até os boxers e cuecas pareciam saídos da máquina de lavar roupa.

Passaram por tudo isso e muito mais por amor ao clube. Não ia ser agora que falhariam no apoio. Foi um dos mais velhos elementos dos Espírito Azul a dar o mote: "Aos três! Bora lá, carai! Não vamos falhar agora! Até ao fim! Boooora! UM! DOIS! TRÊS!"

 

"AMORA! AMORA! AMORA! AMORA!"

 

Foi assim mesmo, sem versos bonitos, sem métrica poética, sem rimas; simplesmente o nome do clube e da cidade cantado a plenos pulmões, com orgulho e amor, o sentimento espalhando-se pelo topo norte do Restelo como fogo em mato seco. Em menos de nada já eram cinco mil pessoas a gritar "AMORA!", ecoando por toda a zona de Belém.

A equipa não estava sozinha e os adeptos acreditavam nela.

O Amora reagia e procurava ter bola. Da bancada ouviam-se os gritos do sempre energético Frodo Zarco, que como habitualmente era um espectáculo por si próprio, correndo ao longo da linha e dando instruções gesticulando ostensivamente no ar, parecendo mais estar a enxotar moscas do que a dirigir uma equipa de futebol.

A defensiva amorense recuperou a bola, estava-se quase a atingir o primeiro quarto de hora, pelo jovem central João Carvalho. Com apenas 19 anos, foi o primeiro reforço do projecto de Bilbo Himura e Frodo Zarco: um jovem de uma família carenciada da região que estava sem clube, tendo abandonado o futebol aos 18 anos para encontrar emprego com que a sustentar. Entrou na equipa já com a época a decorrer e conquistou a titularidade com tamanha personalidade que obrigou Frodo Zarco a deslocar Juary para a lateral direita.

 

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O menino à chegada ao Amora...

 

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... e o homem após conquistar a titularidade

 

[Pequeno aparte offstory: o crescimento dos atributos dele deixou-me perplexo, especialmente na Força, nunca tinha visto nada assim em mais de vinte anos de CM/FM, não sei se é por ser versão mobile]

O jovem endereçou a bola a Joca na zona central e João Goulart acorreu ao lance, entrando impetuosamente sobre o capitão do Amora. O sector de adeptos amorenses reagiu com fúria e esta deu lugar à ansiedade quando Joca continuou estendido no relvado, agarrado ao seu tornozelo direito.

"Joca! Joca! Joca!", gritavam, dando ânimo ao capitão que reentrava em campo após ser assistido e borrifado com abundância com spray milagroso. Mas não havia milagre que mudasse algo que era inevitável: o tornozelo de Jorge Monteiro, Joca para os amigos e no mundo do futebol, capitão do Amora e há mais de vinte anos jogador da equipa, inchara demasiado e ele não conseguia apoiar o pé no chão. O jogo terminara para o capitão Joca. Saiu de maca, lágrimas nos olhos e o seu nome entoado pelos adeptos.

Era injusto. Toda a sua carreira parecia um build up para este jogo. Fizera toda a formação e carreira sénior no clube, jogara em campos com mais terra do que relva para assistências de vinte pessoas nas Distritais, contribuíra com o seu talento para a promoção do Amora aos campeonatos nacionais, primeiro, e à Segunda Liga e àquela final, por fim. Este jogo era o seu momento, o clímax de um filme que começara há mais de vinte anos no pelado do Campo N°2 da Medideira, mas tudo ruiu em menos de quinze minutos.

O desalento era quase palpável no topo norte do Restelo. Não só porque todos sabiam o que aquele jogo significava para Joca, mas também porque, embora não houvesse dados concretos para o comprovar, sentia-se que poderia ser o último jogo de Joca pelo Amora.

Correram rumores ainda durante o mês de Janeiro que o capitão amorense fora assediado por diversos clubes, dizendo-se pelas ruas que foi o próprio Bilbo Himura a vetar uma proposta concreta que terá chegado à Medideira. Não que quisesse cortar as pernas ao jogador; não, Joca conquistara o direito de dar o salto e procurar melhores condições para a sua carreira depois de tudo o que já fez pelo Amora. A proposta que chegou, dizia-se, era insuficiente para a importância dele na equipa.

O assédio de várias equipas mantinha-se, equipas com outra dimensão e capacidade de propor condições salariais que o Amora não tinha. Os adeptos sentiam que na reabertura do mercado de transferências durante o Verão poderia ser impossível segurar o capitão caso alguma dessas equipas decidisse formalizar propostas por ele.

 

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A proposta em Janeiro foi vetada por Bilbo Himura, mas continua a haver vários interessados no capitão do Amora

 

A saída de Joca foi uma machadada na equipa da qual não recuperaria durante o resto da primeira parte. Juancho entrou para o seu lugar, mas fê-lo a frio e não se integrou na dinâmica do encontro, parecendo um elemento estranho ao mesmo.

Os Espírito Azul continuaram a apoiar incessantemente. Reagiram com festejos como se de um golo se tratasse quando o Amora conquistou o seu primeiro pontapé de canto aos 29 minutos, com aplausos ao primeiro e inofensivo remate protagonizado por Gabriel Capixaba aos 33 minutos, com irritação após o central Rony Fernandes parecer ter sido agarrado na área adversária num pontapé de canto e com palmas ritmadas a dar ânimo a Gabriel Capixaba na marcação de um livre directo em zona frontal já em cima do intervalo, o qual poderá ter acabado com a bola nas águas azuis do Rio Tejo.

 

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Os jogadores recolheram aos balneários e, apesar da pálida prestação durante aqueles 45 minutos em que se viram dominados pelo Sporting B, foram aplaudidos de pé pelos cinco mil amorenses no topo norte do Restelo. Frodo Zarco aguardou pelo último dos seus jogadores antes de ele próprio entrar no túnel de acesso aos balneários, acenando aos adeptos que o aplaudiam. Os adeptos acreditavam na equipa. Os jogadores não estavam sozinhos no Restelo.

O Amora não perdia desde Dezembro de 2021, na altura com duas derrotas consecutivas contra o Caldas e o Marítimo para a Liga 3 e a Taça de Portugal, respectivamente. Seguiram-se treze jogos sem derrotas: dez vitórias e três empates. O cenário ao intervalo, porém, não parecia famoso.

Fosse por falta de qualidade, por pressão de estar a jogar uma final ou nunca terem actuado para tanta gente num evento com interesse à escala nacional, o Amora não parecia capaz de inverter o rumo dos acontecimentos e a série de jogos sem perder poderia estar prestes a terminar.

Editado por Black Hawk
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Epa antes de mais, gostava de saber se essa peripecia com o Fiat Uno é mesmo verdadeira e no caso de ser...foste um dos tripulantes/passageiros na tua juventude?

Depois de facto um estadio belissimo para essa final...ao intervalo a coisa nao esta boa, com 3 defesas o Sporting B esta muito fechado...mas quem sabe se nao ha uma reviravolta inesperada no segundo tempo.

 

Como aparte @Black Hawk tu devias escrever um livro, ou cronicas...ja tentaste ir por esse caminho?

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Estou como o @Burkina2008, essa história do Fiat deve ter algum fundo verídico, não?

Em relação ao encontro, não está fácil. Uma equipa do Sporting jovem mas com muita qualidade frente a um Amora que tem surpreendido mas que vai para o intervalo sem uma das suas estrelas da equipa.

Grande evolução por parte do teu central (natural? Ou tem aí dedo teu e da tua equipa técnica?). O @Lavrador já tinha falado qualquer coisa, que nesta versão, quando os jogadores são utilizados e têm boas prestações evoluem bastante! Mas ele pode esclarecer isso! Eu também já me apercebi de algumas diferenças mas esse João Carvalho melhorou imenso !

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Já se está a ver que aconteceu algo com o fiat uno. 

De resto, não está fácil mas eu ainda acredito. 

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Histórica incrível a do Fiat Uno (carrinho lendário, tive um) e que me lembrar muitos dos momentos e boleias partilhadas para jogos da minha AD Ponte da Barca. Excelentes memórias que me fizeste lembrar. Hoje em dia, a minha profissão e o facto de estar a trabalhar a mais de 400km de casa, não me permite (infelizmente) tal coisa.

Mas é ótimo ver a formação de claques como este "Espírito Azul"! 😄 Eu próprio já ajudei a liderar os cânticos de uma claque do clube da minha terra numa final da Taça Distrital, infelizmente perdida e que me fez derramar muitas lágrimas. 

Primeira parte muito dura, com a equipa a atuar algo assustada e com a lesão do grande capitão Joca a deixar mágoa na equipa.

Eu acredito na reviravolta 😄 

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Citação de Kluivert, há 6 horas:

Estou como o @Burkina2008, essa história do Fiat deve ter algum fundo verídico, não?

Em relação ao encontro, não está fácil. Uma equipa do Sporting jovem mas com muita qualidade frente a um Amora que tem surpreendido mas que vai para o intervalo sem uma das suas estrelas da equipa.

Grande evolução por parte do teu central (natural? Ou tem aí dedo teu e da tua equipa técnica?). O @Lavrador já tinha falado qualquer coisa, que nesta versão, quando os jogadores são utilizados e têm boas prestações evoluem bastante! Mas ele pode esclarecer isso! Eu também já me apercebi de algumas diferenças mas esse João Carvalho melhorou imenso !

Confere! Por vezes acabou por ser até um pouco irrealista, mas pegando um pouco no exemplo desse João Carvalho, imagina que o tinhas num dos 3 grandes tal e qual como quando começa o save, provavelmente nunca jogaria e serie dispensado e se fizesse carreira no CNS já era uma sorte. Agora no Amora, partindo do pressuposto que irás evoluir ao longo do save ao ponto de o Amora ser campeão nacional, se ele for sempre titular e tiver boas classificações provavelmente chega ao nivel de ser convocado para a seleção 2 ou 3 vezes. Um outro promenor a ter em conta é o relatório dos olheiros, esse relatório é baseado quase sempre na forma dos jogadores, tenho por exemplo um save com o Newcastle onde tenho o Kalvin Philips que é dos melhores trincos do jogo, chegou-me com 5*, mas como existe uma especie de bug na posição de trinco (raramente têm classificação acima de 6) ao final de meia época já so tem 3*. 

 

Durante a semana depois comento a actualização, foi só mesmo para deixar esta nota de curiosidades do fm mobile, mas tendo em conta que um dos teus objetivos no save é apostar na formação vai ser optimo para ti esta possbilidade de evolução.

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Citação de Burkina2008, há 15 horas:

Epa antes de mais, gostava de saber se essa peripecia com o Fiat Uno é mesmo verdadeira e no caso de ser...foste um dos tripulantes/passageiros na tua juventude?

Depois de facto um estadio belissimo para essa final...ao intervalo a coisa nao esta boa, com 3 defesas o Sporting B esta muito fechado...mas quem sabe se nao ha uma reviravolta inesperada no segundo tempo.

 

Como aparte @Black Hawk tu devias escrever um livro, ou cronicas...ja tentaste ir por esse caminho?

Sobre a história do Fiat Uno respondo em conjunto no quote do Kluivert.

Sobre os livros, quando andava na faculdade tive essa ideia e de vez em quando regressa essa vontade, até tenho uns quantos rascunhos começados, mas nunca concretizei nada. Nos dias de hoje falta-me o tempo para me dedicar a sério a isso.

Sou bastante exigente e quando releio as cenas também não me parece digno de publicação. Se é para escrever algo normal, o que não falta por aí são livros publicados de qualidade mediana. Talvez um dia acerte em alguma história que sinta valer a pena partilhar.

Citação de Kluivert, há 7 horas:

Estou como o @Burkina2008, essa história do Fiat deve ter algum fundo verídico, não?

Em relação ao encontro, não está fácil. Uma equipa do Sporting jovem mas com muita qualidade frente a um Amora que tem surpreendido mas que vai para o intervalo sem uma das suas estrelas da equipa.

Grande evolução por parte do teu central (natural? Ou tem aí dedo teu e da tua equipa técnica?). O @Lavrador já tinha falado qualquer coisa, que nesta versão, quando os jogadores são utilizados e têm boas prestações evoluem bastante! Mas ele pode esclarecer isso! Eu também já me apercebi de algumas diferenças mas esse João Carvalho melhorou imenso !

Tem, a história tem fundo de verdade, embora não comigo. Na altura era puto, andava na primária, mas lembro-me de um dia ouvir na escola e nas ruas uma história sobre um bando de malucos que fizeram o que relatei.

A cena teve uma aura de mito urbano mesmo naquela altura. Aquilo que se dizia era que "eles", sem se dizer quem, fizeram "aquilo", e este "aquilo" variava conforme quem contava a história, ora tinha sido num Fiat Uno, ora numa autocaravana (por isso é que mais tarde falei numa autocaravana noutra história), ora eram dez gajos ou menos, ora tinham chegado de noite ou de madrugada...

Muitos anos depois, já andava no secundário, esta história surgiu em conversa e um colega de turma disse-me que tinha sido verdade porque o irmão mais velho tinha sido um deles. Que tinha sido um Fiat Uno, que chegaram já de noite mas também não muito tarde, e que os pais tinham-lhe dado uma tareia tal que até um cabo de vassoura partiram. Anos 90 ❤️

A descrição do evento com a analogia a um carro de palhaços e a reacção dos jogadores foi uma liberdade criativa minha, mas acompanhem o meu raciocínio: imaginem que estão algures a mais de 300 kms de distância (não me souberam dizer onde foi, mas pela distância há de ter sido Elvas ou naquela zona?) e chega um Fiat Uno (que para já ser velho nos anos 90 devia ser um dos primeiros lançados no início dos anos 80, daqueles em que três pessoas no banco de trás já ficam apertadas e que deve pesar uns 600 kgs) e de repente começam a sair daquela carripana pessoas atrás de pessoas.

Eu só de imaginar já me estou a rir, só faltava os gajos terem um nariz vermelho! 😁

Citação de Banks29, há 4 horas:

Já se está a ver que aconteceu algo com o fiat uno. 

De resto, não está fácil mas eu ainda acredito. 

Aconteceu, mas lá está como disse na resposta anterior, a aura de mito urbano fez com que haja várias versões da história. Umas dizem que ficou sem combustível, outras que avariou o motor (que duvido imenso, como raio teriam voltado?), ou um furo...

Como não sei o que foi, disse apenas que foi uma avaria sem especificar muito. Fica também uma aura de mistério na narrativa, também não lhe fica mal.

Citação de Martini Branco, há 2 horas:

Histórica incrível a do Fiat Uno (carrinho lendário, tive um) e que me lembrar muitos dos momentos e boleias partilhadas para jogos da minha AD Ponte da Barca. Excelentes memórias que me fizeste lembrar. Hoje em dia, a minha profissão e o facto de estar a trabalhar a mais de 400km de casa, não me permite (infelizmente) tal coisa.

Mas é ótimo ver a formação de claques como este "Espírito Azul"! 😄 Eu próprio já ajudei a liderar os cânticos de uma claque do clube da minha terra numa final da Taça Distrital, infelizmente perdida e que me fez derramar muitas lágrimas. 

Primeira parte muito dura, com a equipa a atuar algo assustada e com a lesão do grande capitão Joca a deixar mágoa na equipa.

Eu acredito na reviravolta 😄 

Não é? Quem acompanhou clubes mais pequenos tem sempre, ou pelo menos conhece, histórias assim.

Lembro-me de outra, esta mais recente, um grupo de gajos que foi ao Barreiro ver um jogo... de barco. Com tambores, faixas, cartazes, buzinas, de barco!!! Depois no regresso parece que se enganaram e em vez de apanharem o barco que ia fazer escala em Lisboa e ia para o Seixal de seguida, foram noutro que parou em Cacilhas (perto de Almada para quem não conhece) e aí ficou.

Tiveram de apanhar outro barco, um cacilheiro, para Lisboa, e depois um terceiro barco de Lisboa para o Seixal. Chegaram de noite, também, e fizeram isto tudo com todo o material atrás, os tambores, as bandeiras, as faixas, tudo.

Futebol local, pah.

Citação de Lavrador, há 23 minutos:

Confere! Por vezes acabou por ser até um pouco irrealista, mas pegando um pouco no exemplo desse João Carvalho, imagina que o tinhas num dos 3 grandes tal e qual como quando começa o save, provavelmente nunca jogaria e serie dispensado e se fizesse carreira no CNS já era uma sorte. Agora no Amora, partindo do pressuposto que irás evoluir ao longo do save ao ponto de o Amora ser campeão nacional, se ele for sempre titular e tiver boas classificações provavelmente chega ao nivel de ser convocado para a seleção 2 ou 3 vezes. Um outro promenor a ter em conta é o relatório dos olheiros, esse relatório é baseado quase sempre na forma dos jogadores, tenho por exemplo um save com o Newcastle onde tenho o Kalvin Philips que é dos melhores trincos do jogo, chegou-me com 5*, mas como existe uma especie de bug na posição de trinco (raramente têm classificação acima de 6) ao final de meia época já so tem 3*. 

 

Durante a semana depois comento a actualização, foi só mesmo para deixar esta nota de curiosidades do fm mobile, mas tendo em conta que um dos teus objetivos no save é apostar na formação vai ser optimo para ti esta possbilidade de evolução.

Cena estranha.

Bem, para o objectivo do save é fixe, mas corre-se o risco de ser mais fácil do que deveria.

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Descrição emocionante, mas agora falta a segunda parte. Domínio verde até agora. No intervalo vais dizer que antes de olgar para a montanha tens de olhar para ti?

PEACE

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Agora analisando com mais atenção, realmente o crescimento do teu central em 1 época é absurdo, desde da força, á movimentação, tecnica, deesarme...Acho que nunca tinha apanhado uma evolução tão grande em apenas 1 época...Entretanto a proposta que recebeste pelo Joca era bem interessante para a realidade do clube, não sei se alguma vez conseguirás uma proposta superior por ele.

Quanto ao jogo, acabou por ser o primeiro tempo a sofrer e o Sporting chega ao intervalo a vencer merecidamente e a lesão de uma das estrelas da equipa tambem não ajuda nada, vamos ver se a equipa tem capacidade de dar a volta agora na segunda parte, mas creio que o treinador alguma coisa terá de fazer se quiser dar a volta ao jogo!

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Citação de six_strings, há 5 horas:

Descrição emocionante, mas agora falta a segunda parte. Domínio verde até agora. No intervalo vais dizer que antes de olgar para a montanha tens de olhar para ti?

PEACE

A segunda parte vem a caminho. Os jogadores do Sporting B já estão no relvado, mas da equipa do Amora nem sinais. O árbitro já voltou aos balneários à procura deles ihih

Citação de Lavrador, há 4 horas:

Agora analisando com mais atenção, realmente o crescimento do teu central em 1 época é absurdo, desde da força, á movimentação, tecnica, deesarme...Acho que nunca tinha apanhado uma evolução tão grande em apenas 1 época...Entretanto a proposta que recebeste pelo Joca era bem interessante para a realidade do clube, não sei se alguma vez conseguirás uma proposta superior por ele.

Quanto ao jogo, acabou por ser o primeiro tempo a sofrer e o Sporting chega ao intervalo a vencer merecidamente e a lesão de uma das estrelas da equipa tambem não ajuda nada, vamos ver se a equipa tem capacidade de dar a volta agora na segunda parte, mas creio que o treinador alguma coisa terá de fazer se quiser dar a volta ao jogo!

O puto comeu esteróides ao pequeno-almoço, não há outra explicação. Está bem que era um miúdo de 18 anos sem clube, pode ser plausível que ao assinar pelo clube tenha enchido no ginásio, mas porra... LOL

A técnica também tinha visto, mas a movimentação nem tinha reparado. A certa altura foi-me sugerido que o Juary fosse mentor dele, pode ajudar a explicar o que aconteceu.

A proposta do Joca consegui levar o Académico a esticá-la até 150 mil euros, mas desistiram quando depois acrescentei uma cláusula de percentagem em venda futura. A verdade é que 150 mil euros é pouquito, para se ter uma noção tenho 670 mil euros de ordenados anuais no clube, nem um quarto disso é. Preferi na altura ver se conseguia subir e com isso inflacionar o valor do jogador, se alguém o quiser levar no Verão talvez saque algo mais próximo do orçamento anual.

Foi essa a minha ideia. Felizmente consegui renovar com ele poucos dias antes de ficar livre para assinar a custo zero por outras equipas.

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Capítulo V - Espírito Azul, parte 2

 

O som dos seus passos ecoava pelos corredores vazios do Restelo. O burburinho proveniente das bancadas chegava ali, embora apenas como uma sugestão daquilo que seria o ambiente animado ao nível do relvado, pelo que o toc toc toc produzido pelos seus sapatos clássicos impecavelmente engraxados sobrepunha-se, envolvendo-o naquele labirinto de corredores de tom azul.

Ele nem deveria andar ali. O protocolo não previa a presença de elementos estranhos ao jogo naquela zona reservada às equipas, mas o estatuto sempre servia para alguma coisa, aparentemente. O nome Bilbo Himura tinha alguma influência.

Havia já muitos anos que não percorria os corredores do Restelo. Jogara lá no início da sua carreira, na altura um jovem e promissor jogador, quando ir ao Restelo defrontar o Belenenses era uma das deslocações mais difíceis da temporada. Isso fora, porém, há vinte anos, e encontrar agora o balneário em que a sua equipa estaria reunida revelou-se uma tarefa hercúlea.

Desapertou os botões do casaco do seu fato, fazendo uma nota mental para perder uns quilos que estariam a mais, e foi mais aliviado que encontrou aquilo que procurava. A porta estava fechada; através dela ouviu uma voz familiar. Soava-lhe abafada, como se estivesse a ouvir alguém falar do fundo de um poço. Fazendo um esforço de concentração começou a apanhar uma ou outra palavra e entendeu as linhas gerais do que estava a ser dito.

Não querendo interromper a palestra, encostou-se à parede oposta à porta, fitando a ponta dos seus sapatos enquanto remexia nervosamente no maço de tabaco que tinha escondido no bolso do casaco. Apanhara o vício pouco depois de deixar de jogar. Ainda não admitia ser fumador, acreditando que podia deixar de o fazer quando quisesse, mas algo no seu subconsciente já assumia o vício que conscientemente lutava por negar.

Não teve de esperar muito até mais vozes tornarem-se audíveis, seguidas de três gritos consecutivos: "Amora! Amora! Amora!". A porta abriu-se pouco depois. Levantou a cabeça para encontrar Frodo Zarco na sua ombreira a fitá-lo, traços de surpresa desenhados no seu rosto.

Sorriu-lhe. Frodo Zarco recompôs-se da surpresa e entendeu o que pretendia.

"Malta, temos aqui uma surpresa."

Bilbo Himura afastou-se da parede, entrando no balneário pomposamente, com gestos melodramáticos. O cheiro a suor e roupa suja invadiu-lhe as narinas, trazendo-lhe memórias. "Meu Deus, a falta que sinto disto", pensou, tão distraído pelo súbito ataque de nostalgia que nem notou o assombro nas caras dos jogadores do Amora.

"Eu não devia estar aqui, mas não podia ficar parado lá em cima a ver o que está a acontecer."

Frodo Zarco ocultou um sorriso. Conhecia aquele discurso, ouvira-o tantas vezes que conseguiria acompanhar mentalmente o que o seu amigo iria dizer.

"Vocês são uns c0nas."

Desta vez foi impossível não ver a comoção com que os jogadores reagiram àquela frase. Ouviu uma gargalhada engasgada atrás de si; Frodo Zarco sem dúvida adivinhara que ele iria dizer aquilo. De alguma forma conseguiu suster o ataque de riso e ficou-lhe agradecido por isso.

"Ouviram-me? Vocês são uns c0nas! Estão com medo, cheirava o vosso medo lá de cima", disse, apontando para um qualquer ponto aleatório atrás de si, não fazendo ideia se estava a apontar para a tribuna do Restelo ou na direcção oposta. "Se eu o cheirava lá de cima, os vossos adversários também o cheiravam no campo."

"Eu também joguei finais. Estive numa final de um Europeu, estive em finais de Ligas dos Campeões e de Mundiais de Clubes. Ganhei umas e perdi outras. Também tive medo de errar e falhar aos adeptos. Sabem o que ficou dessas finais que perdi?"

Recebeu um silêncio comprometido como resposta.

"Não foi ter perdido, do outro lado também está uma equipa forte e naquele dia calhou serem melhores. O que ficou foi a memória de ter dado tudo em campo, ter vencido o medo e ter tentado. Ficou o apoio dos adeptos, o ambiente que vivi, o ter estado lá. No final é isso que os adeptos reconhecem. No meio da frustração da derrota, os adeptos reconhecem quando deixámos a pele em campo por eles."

"Estão ali cinco mil pessoas que vos aplaudiram de pé quando saíram de campo. Aquelas pessoas vão aplaudir-vos no final qualquer que seja o resultado. E sabem porquê? Porque vocês vão dar tudo em campo por eles. Há ali gente que não sabe o que é uma trivela, uma compensação ou uma sobreposição, mas sabem o que é suar a camisola e é só isso que vos pedem porque é aquilo que teriam para dar se estivessem no vosso lugar."

"Não sejam c0nas. Não tenham medo de errar. Joguem o que sabem, que o sabem fazer bem. Se no final perdermos, que se f0da, perdemos. A outra equipa também é boa. Mas não deixem de fazer o que sabem fazer por medo de falhar, e se perdermos vão ser aplaudidos de pé por aquela linda gente que ali está. Escutem", disse, colocando o dedo à frente da boca a pedir silêncio.

"Amora! Amora! Amora!", ouvia-se à distância, quase como um sussurro.

"Eles estão a gritar por vocês. Subam ao campo e deixem-nos orgulhosos. Aproveitem e desfrutem, que isto é um momento que vão levar para a vida toda. Se ganharmos, vão lembrar-se de terem ganho; se perdermos, querem lembrar-se deste momento como um dia em que b0rraram as cuecas e ficar com o arrependimento de não os terem tido no sítio para tentar ganhar?"

Ouviram-se três batidas na porta. Esta entreabriu-se e pela frecha espreitou o árbitro. "Estão atrasados, está tudo...", a voz morreu-lhe na garganta, visivelmente surpreendido ao ver Bilbo Himura ali. Recuperou a compostura e concluiu: "estão atrasados, o jogo já deveria ter recomeçado."

A equipa abandonou o balneário, um a um até Bilbo Himura e Frodo Zarco ficarem sozinhos, este último colocando o braço em volta dos ombros do primeiro.

"Achas que o discurso que fizeste na final do Europeu vai ajudar-nos a ganhar isto?"

"Fomos campeões europeus, não fomos?"

"Não é o mesmo discurso que também fizeste no último jogo das velhas glórias da selecção? E no jogo das velhas glórias antes desse, e ainda na peladinha contra a equipa do Ronaldo no Verão?", perguntou Frodo em tom trocista.

"Sou futebolista, não um poeta."

Frodo Zarco riu-se, olhando de soslaio para o amigo, notoriamente desconfortável dentro do seu dispendioso fato.

"Esse fato faz-te gordo".

"F0de-te", foi a resposta lacónica de Bilbo Himura, encolhendo instintivamente a barriga.

 

***

 

Os jogadores do Sporting B recriavam-se com a bola no relvado. A demora no regresso do Amora levara o árbitro à procura deles no balneário e, enquanto isso, a equipa técnica leonina procurava garantir que os jogadores não arrefeciam. Os adeptos entretinham-se numa troca de cânticos que começara espontaneamente, uma claque cantando, a outra respondendo, resvalando para uma troca de picardias.

 

"Cheira bem...

Cheira a Lisboa!

Cheira mal...

Cheira ao Seixal!"

 

Cantavam as claques do Sporting, logo seguidas por mais uns milhares de sportinguistas, mal imaginando o quão habituados àquele cântico jocoso estavam os amorenses, eles próprios cultivando uma rivalidade com os habitantes do Seixal.

 

"Amora! Amora! Amora!"

 

Respondia a mancha azul no topo norte, procurando abafar os adeptos do Sporting, não fazendo a mínima ideia que naquele preciso momento os jogadores do Amora os escutavam em silêncio desde os balneários, a pedido de Bilbo Himura.

O reaparecimento do árbitro causou burburinho nas bancadas e foi o primeiro sinal do regresso da equipa do Amora, logo confirmado quando surgiram vários homens envergando a camisola azul do clube.

 

"Seja no estádio que for

Eu estarei sempre presente

Para defender o meu grande amor!"

Bum! Bum! Bum!"

 

Milhares de cachecóis e bandeiras azuis eram animadamente agitados enquanto os jogadores ocupavam as suas posições. Frodo Zarco foi o último a entrar. Atravessou o relvado com uma pequena corrida, pousou no banco de suplentes a garrafa que trazia na mão e ergueu um punho para Papou Mendes.

O menino, a outra contratação feita além de João Carvalho já com a temporada a decorrer, respondeu-lhe com um aceno. Olhou para a placa que anunciava a sua entrada para o lugar do médio Fidelis Irhene, aguardou permissão do árbitro para entrar e fê-lo, por fim, com um sprint até perto de Léléco.

 

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O jovem luso-guineense Papou Mendes foi a outra contratação do Amora durante a temporada, chegando a custo zero

 

O árbitro consultou os seus assistentes, confirmou que estavam todos prontos e apitou com convicção.

Flávio Silva fez a bola rolar. Jogava-se no Restelo a segunda parte da final da Liga 3.

A equipa procurou sair a jogar e isso animou os adeptos. Lucas Silva correu com a bola pela linha lateral bem à frente de Frodo Zarco e arrancou um cruzamento largo ao segundo poste. Juancho surgiu rápido como uma flecha na antecipação. Milhares de pessoas levantaram-se atrás da baliza como se impulsionadas por milhares de molas quando o extremo colombiano desviou a bola com a cabeça.

Gritou-se golo, mas as vozes esmoreceram ao verem a bola sair pela linha de fundo. Juancho tinha-lhe acertado apenas de raspão, nem de perto o suficiente para causar perigo para a baliza de Renan Ribeiro.

Este primeiro movimento ofensivo teve, porém, o condão de incendiar os adeptos do Amora.

"Amora! Amora! Amora!", gritavam na bancada, puxando pela equipa e esta puxando pelos adeptos. A bola circulava agora mais pelos flancos, o Amora rodando o jogo por fora da sobrepovoada zona central do Sporting B procurando criar situações de dois para um nas alas. Lucas Silva e Gabriel Capixaba pela esquerda, Juary e Juancho pela direita, procuravam situações de superioridade numérica; quando não o conseguiam não tinham problemas em atrasar a bola para Martim Maia ou Papou Mendes, os quais davam linhas de passe seguras atrás e rapidamente variavam o flanco de jogo, procurando o desequilíbrio do outro lado.

Os Espírito Azul batiam palmas e cantavam. Os adeptos, contagiados, viviam o jogo e gritavam sugestões aos jogadores.

"Aguenta, Juary!", gritava alguém, e o lateral direito do Amora saía de um duelo físico com a bola e atrasava-a para Martim Maia.

"Roda, Martim! Roda!", ouviu-se uma voz anónima sugerir, e Martim Maia fez um passe lateral para Papou Mendes, que orientou a bola de primeira para a centro-esquerda do meio-campo.

"Vai, miúdo!", e Papou Mendes esticou o jogo para o flanco esquerdo.

"Bora, Lucas!", e Lucas Silva arrancou em velocidade, contornando a defensiva do Sporting B e entrando com a bola na área junto à linha de fundo.

"Vai! Vai! Vai!", e Lucas Silva cruzou rasteiro por entre as pernas do lateral Diogo Travassos, colocando a bola na pequena área.

Quem estava sentado, levantou-se, agarrando com força os ombros de quem estava à sua frente ou o braço de quem estava ao lado, acompanhando de olhos esbugalhados a movimentação da bola e de Flávio Silva.

"Chuta, carai!"

Flávio Silva desviou a bola subtilmente, fazendo-a entrar na baliza junto ao poste mais distante.

A tensão acumulada e a frustração recalcada deram lugar à exaltação. Pessoas abraçavam-se, saltando em conjunto no mesmo lugar, enquanto outras gritavam o que lhes viesse à alma ou simplesmente assobiavam de felicidade. Os jogadores formaram uma roda na sua celebração junto ao banco de suplentes, Frodo Zarco entre eles, toda a equipa por lá.

O Amora empatava o jogo apenas quatro minutos após o intervalo.

O golo tranquilizou a equipa, que passou a conseguir maior taxa de acerto nas bolas divididas e critério na circulação da bola sobre o bem tratado relvado do Restelo. Ambas as equipas atacavam nesta fase. O Sporting B apercebeu-se subitamente que o Amora podia feri-los na resposta, algo que não aconteceu durante a primeira parte e que permitiu aos meninos de Alcochete atacar com uma tranquilidade que agora já não sentiam.

Mas não se pense que a iniciativa de jogo tinha virado por completo; longe disso. O coração dos amorenses quase lhes caiu aos pés meros minutos depois quando viram, do outro lado do campo, Babacar Fati ganhar uma bola perdida dentro da área do Amora na sequência de um canto e disparar para corte de alguém vestido de azul em cima da linha.

O Sporting B eventualmente recompôs-se depois de uns primeiros quinze minutos de domínio do Amora, voltando a tentar pegar na bola. O jogo podia cair para qualquer um dos lados.

 

"Não te deixo mais!

Não te deixo mais!

Vim p'ra te ver!

Amora até morrer!"

Bum! Bum! Bum!

 

O topo norte do Restelo vibrava com os saltos de centenas de pessoas. Passaram-se vários minutos sem que o Amora saísse a jogar e sentiam que os jogadores precisavam do seu apoio. Logo foram recompensados com uma cavalgada de Gabriel Capixaba, levando a bola desde a saída da sua área, galgando metros atrás de metros, até ser desarmado por uma entrada em carrinho já quase na área adversária.

A bola perdeu-se, saindo lentamente pela linha de fundo. Gabriel Capixaba levantou-se e agitou as mãos no ar na direcção deles, incitando-os, e recebeu um urro em resposta.

 

"Amora! Amora! Amora!"

 

Os defesas mais altos do Amora subiram à área para o pontapé de canto ao som da exaltada torcida, que via um lance de ataque pela primeira vez em vários minutos. Todos os olhos estavam postos em Juary, João Carvalho e Rony Fernandes, os elementos mais altos da equipa.

Gabriel Capixaba bateu o canto, mas todos eles foram bloqueados por defensores do Sporting B.

Juancho não foi. Ninguém o viu aparecer até já estar no ar ao primeiro poste e, desta vez, a acertar em cheio com a testa na bola. O cabeceamento foi tão inesperado que o desamparado Renan Ribeiro nem teve tempo de reagir.

A bola acertou em cheio nas redes no preciso momento em que se gritou golo no Restelo.

É um pouco difícil definir o que passa pela cabeça de uma pessoa em momentos como aquele. É o libertar das amarras da consciência, um estado de êxtase em que toda a tensão acumulada, os temores e receios, são vencidos e dão lugar à euforia. Vista à distância, aquela moldura de cinco mil pessoas parecia um prado de erva alta a agitar violentamente em todas as direcções pelas rajadas de um vendaval. Havia água e cerveja projectados pelo ar, objectos atirados em todas as direcções no meio de uma barafunda que fazia lembrar um mosh pit de um concerto de metal. Dezenas de adeptos galgavam fileiras de cadeiras na direcção de Juancho, que saltara os placares de publicidade e já se agarrava a um cada vez maior número de mãos que o envolviam num gigantesco abraço colectivo.

O resto da equipa do Amora chegava até àquele abraço e atrás vinham os elementos do banco de suplentes. Até Joca, com o tornozelo enfaixado, corria quase ao pé coxinho ignorando as dores provocadas por cada apoio do seu pé direito no chão. Frodo Zarco lá andava pelo meio também; Bilbo Himura, na tribuna, festejava com o presidente do Amora, Carlos Henriques, perante o olhar inexpressivo dos elementos da comitiva do Sporting, numa quebra de protocolo - que previa algum decoro nas reacções - impossível de evitar.

 

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Juancho, que substituiu o capitão Joca durante a primeira parte, aqui representado no início da temporada

 

Faltavam pouco mais de vinte minutos para jogar e a verdade é que poucos foram os que se voltaram a sentar, fossem novos ou velhos. Especialmente os mais velhos, gente que já era adulta da última vez que o Amora foi campeão da antiga Segunda Divisão B, o escalão que é hoje a Liga 3, e passaram quase trinta anos a ver o clube definhar entre os últimos lugares dos campeonatos nacionais e os distritais.

Trinta anos - ou vinte e oito, para ser mais preciso - é demasiado tempo de espera para voltar a ver o clube na ribalta. É uma vida. Estes adeptos sabiam o preço que pagaram e mal aguentavam a ansiedade, agora que o Amora estava tão perto de repetir o feito alcançado por Ricardo Formosinho e sua equipa em 1994. Eles gritavam, apoiavam e insultavam, tão activos como os jovens que viviam aquela experiência pela primeira vez, juntando-se aos Espírito Azul que, pela amostra, crescera imenso em números ao longo do jogo.

"Derruba o gajo!", e aplaudiram quando Juary rasteirou Babacar Fati, cortando um contra-ataque perigoso.

"É bem! É bem!", ouviu-se após David Grilo rechaçar como pôde um remate perigoso e a defesa do Amora despachar a bola para fora do Restelo.

"F0da-se!", fugiu-lhes da boca após o susto provocado por um cabeceamento de Youssef Chermiti, sozinho e à entrada da pequena área, que felizmente saiu inofensivo por cima da baliza.

"O filho da put@ atirou-se ao chão, oh patego de merd@!", gritava um indivíduo de bigode, já nos seus sessentas, após Rony Fernandes derrubar claramente um adversário à entrada da sua grande área.

O Amora sofria dentro e fora do terreno de jogo.

O árbitro assistente mostrou uma placa com um "quatro" que provocou reacções iradas dos adeptos do Sporting. Pretendiam mais tempo de compensação, mas a decisão era justa - o Amora não fizera antijogo. Não por sua decisão, bem entendido; simplesmente, o jogo estava a ser tão intenso e disputado que, por mais paradoxal que possa parecer, não houvera tempo para isso. Os jogadores assumiram uma mentalidade de ser hora de dar tudo por tudo. Quando alguém caía, de imediato levantava-se para apoiar os colegas. Se alguém estivesse em dificuldade, logo surgiria quem lhe protegesse as costas. Ficar no chão, perder tempo, só prejudicaria os colegas.

Era um por todos e todos por um.

O árbitro apitou para a marcação do livre resultante da falta de Rony Fernandes, em zona frontal e perigosa. Havia uma tensão quase palpável no ar, pessoas encolhidas na bancada, algumas optavam por nem sequer olhar. A bola embateu na barreira. Sobrou para Dário Essugo que pontapeou com violência novamente contra alguém que, sem qualquer preocupação pessoal, atirara-se literalmente para a frente da bola, qual super-homem sem capa.

A bola foi deflectida e ficou à solta na grande área. Babacar Fati sentiu a oportunidade e puxou a culatra para empatar o jogo.

Muitos levaram as mãos à cara, tapando o rosto em desespero no topo norte do Restelo, enquanto outros saltavam das suas cadeiras e gritavam golo.

Juary apareceu vindo sabe-se lá de onde. Atirou-se em carrinho num movimento kamikaze tão desesperado que poderia ter qualquer desfecho; por sorte, falhou as pernas do adversário e serviu para bloquear o remate. Antes que a bola saísse pela linha de fundo, David Grilo mergulhou e agarrou-a, ficando enrolado sobre o relvado, fazendo conchinha com ela.

 

"Amora! Amora! Amora!"

 

Aquele ribombar que provinha do outro lado do Restelo era o sinal de milhares de pulmões a funcionar de novo depois de vários minutos a suster a respiração.

A frustração dos sportinguistas avolumava-se com David Grilo, que demorou o seu tempo a levantar-se e a decidir retomar o jogo, lançando a bola para Lucas Silva. O lateral foi de imediato pressionado, mas tal era a ânsia do Sporting B em recuperar a bola que deixaram demasiado espaço livre, permitindo-lhe entregar a redondinha a Gabriel Capixaba. Já sem qualquer rigor na marcação, este facilmente encontrou espaço para furar pelo meio de dois adversários e um deles, Diogo Travassos, derrubou-o quando atravessava a linha de meio-campo.

Cartão amarelo e mais meio minuto perdido. A frustração dos adeptos estendia-se aos jogadores no terreno.

A falta foi marcada, Papou Mendes sentiu alguém nas suas costas e rodou sobre o adversário. Sentiu uma pancada e viu o mundo girar sobre si próprio, caindo no relvado. Dário Essugo viu cartão amarelo, mais meio minuto perdido e festejavam os Espírito Azul como se fosse um golo. Os meninos de Alcochete estavam a acusar a pressão do momento e a sua inexperiência.

Na linha lateral apareceram três homens prontos a entrar, naquela que seria a primeira substituição de Frodo Zarco desde que lançara Papou Mendes ao intervalo, claramente agradado com a união e entreajuda da equipa em campo ao ponto de não mexer até ao último minuto.

O jogo foi retomado antes das substituições e o Sporting B ainda recuperou a bola, despejando-a na frente... onde não estava ninguém, acabando por sair pela linha de fundo sob a próxima supervisão de David Grilo.

O próprio David Grilo foi um dos substituídos, dando o seu lugar ao suplente Guilherme Fernandes que assim seria também ele campeão - só tinha acumulado minutos nos jogos da Taça de Portugal.

Os relógios já marcavam 94 minutos quando as substituições se processaram. Todo o banco do Amora estava em pé junto à linha lateral, apontando para o pulso; todos os adeptos do Amora estavam em pé, gritando "ohhhhhhh" em crescendo para pontuar a marcação do pontapé de baliza por Guilherme Fernandes.

O guarda-redes pontapeou a bola, a sua primeira interacção em jogos da Liga 3. E a única.

O árbitro deu dois apitos a plenos pulmões, mas que foram completamente abafados pelo rugido que ecoou por todo o Restelo oriundo do topo norte.

As reacções foram semelhantes às dos dois golos com que o Amora se sagrava campeão da Liga 3, vinte e oito anos depois.

 

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A recuperação operada pelos amorenses durante a segunda parte...

 

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... catapultada por exibições de nível elevado de alguns dos seus jogadores (e de Juancho, que tendo começado no banco não surge na imagem)

 

O cenário no relvado era o habitual em finais: os meninos de Alcochete, cabisbaixos, alguns sentados ou deitados no relvado, eram reconfortados pela sua equipa técnica; os do Amora corriam sem critério, formando aqui e além pequenos grupos que se abraçavam e choravam. Frodo Zarco felicitava-os e era felicitado; Bilbo Himura fazia o mesmo na tribuna antes de ele próprio descer ao relvado.

Desta vez não houve invasão de campo, muito por culpa do batalhão de stewards que se acumulava à frente do topo norte do Restelo, formando uma linha compacta. Após vários minutos de celebração emotiva, os adeptos começaram a organizar cânticos a chamar pelos jogadores, que corresponderam e começaram a chegar até eles.

 

"Desde pequeno eu vou à bola!

Largo tudo p'ra te ver!

Só quero que sues a camisola!

Sou do Amora até morrer!"

Bum! Bum! Bum!

 

E os jogadores saltavam e dançavam, erguendo os braços para os adeptos, cantando com eles. Frodo Zarco juntou-se-lhes com o capitão Jorge Monteiro, Joca para os amigos e no mundo do futebol, coxo e lavado em lágrimas.

 

"Bilbo Himura! Bilbo Himura!"

 

A lenda do futebol português, Bilbo Himura, o Battosai, assim conhecido pelo seu pontapé canhão capaz de resolver jogos tão rapidamente como um golpe de battojutsu, chegara por fim e os adeptos entoavam o seu nome. Saltou a pedido deles e tão descontraído estava que nem se apercebeu de um grupo de jogadores atrás de si empunhando um balde com água e gelo que lhe despejaram pela cabeça abaixo, deixando-o completamente encharcado.

"Perdeste o respeito da equipa" sussurrou-lhe Frodo Zarco, rindo-se.

"Pelo contrário, finalmente vêem-me como um deles" respondeu-lhe Bilbo Himura alegremente.

 

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Frodo Zarco instruiu os seus jogadores a fazerem um túnel de honra aos seus adversários quando estes se dirigiram para receber as suas medalhas, trocando-se apertos de mão numa demonstração de fair play de ambas as partes. Quando foi a vez dos jogadores do Amora, os do Sporting retribuíram o gesto.

Foi ao som da majestosa voz de Freddie Mercury a interpretar a intemporal "We Are the Champions" que Joca ergueu a taça, coxeando depois como pôde até aos adeptos para um momento de comunhão entre jogadores, equipa técnica e adeptos.

Naquela altura, na Cidade de Amora, havia pessoas na rua a festejar e no Estádio da Medideira havia festa preparada que se prolongou pela noite fora, enchendo-se as bancadas e o antigo peão do velhinho estádio que voltava a ser o coração das festividades do Amora Futebol Clube.

Era já madrugada quando a festa terminou na Medideira, continuando em celebrações improvisadas em bares, casas e ajuntamentos espontâneos, com música, dança e claro, muito álcool.

Bilbo Himura e Frodo Zarco foram os últimos a abandonar a Medideira. Eram miúdos da última vez que o Amora vencera a Segunda Divisão B, pelo que não recordavam com clareza a sensação de o clube da sua terra, e em que deram os primeiros pontapés na bola, vencer troféus. Aproveitaram cada minuto daquela conquista, uma primeira página de história num livro de glórias que ambos queriam protagonizar naquele clube.

Reuniram a família, abraçados às respectivas mulheres e com os filhos a cirandar em seu redor. Quando por fim abandonaram a Medideira, as luzes dos projectores foram desligadas e deixaram a zona ribeirinha da Cidade de Amora entregue às trevas, ansiosa por novos capítulos e conquistas para celebrar.

Editado por Black Hawk
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Bem grande reviravolta que o teu Amora conseguiu nesse jogo, depois de uma primeira parte em que o Sporting dominou não estava a espera de uma reação tão forte, chegaste a fazer alguma alteração tactica ou foi só mesmo a substituição do medio centro? Nota ainda para o Juancho que me parece ser um jogador com qualidade.

Pelo que entendi o Papou Mendes foi uma contratação a custo 0, foram os teus olheiros que o recomendaram ou usaste a barra de pesquisa? Não consigo ter relatórios quando os meto a procurar jogadores livres...

Agora que venha a 2ª liga que será bastante dura para este recem promovido Amora, e pelo que tenho visto do teu plantel talvez venhas a precisar de alguns reforços para conseguires uma época tranquila, ou talvez tenhas sorte e te aparece uma perola na formação.

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Parece que esse discurso "tao batido" sortiu efeito e o Amora embalado pelo publico fez a reviravolta muito sofrida no final! Parabens pelo titulo da 3a Liga. Sera uma volta do Amora ao grandes palcos assim como pessoalmente para o Frodo e o Bilbo

Muita emocao nesse final e mais uma vez digo, quando acabares o save, vou pegar nos teus textos e publicamos um livro!

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Uma segunda parte que demonstrou a força do Amora. Uma entrega em campo que não se viu no primeiro tempo, os jogadores motivados pelo discurso ao intervalo arriscaram tudo perante os adeptos e conseguiram trazer o caneco!

Depois de uma festa bonita segue-se uma preparação para uma época que se adivinha complicada! Curioso pelos próximos capítulos!

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Grande segunda parte que te levou a uma vitória importantíssima para levantar o caneco. 

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Citação de Lavrador, Em 10/02/2022 at 11:18:

Bem grande reviravolta que o teu Amora conseguiu nesse jogo, depois de uma primeira parte em que o Sporting dominou não estava a espera de uma reação tão forte, chegaste a fazer alguma alteração tactica ou foi só mesmo a substituição do medio centro? Nota ainda para o Juancho que me parece ser um jogador com qualidade.

Pelo que entendi o Papou Mendes foi uma contratação a custo 0, foram os teus olheiros que o recomendaram ou usaste a barra de pesquisa? Não consigo ter relatórios quando os meto a procurar jogadores livres...

Agora que venha a 2ª liga que será bastante dura para este recem promovido Amora, e pelo que tenho visto do teu plantel talvez venhas a precisar de alguns reforços para conseguires uma época tranquila, ou talvez tenhas sorte e te aparece uma perola na formação.

O Papou Mendes foi uma de duas recomendações feitas por um dos meus olheiros. Pedi para encontrar jogadores portugueses sem clube logo no início de época, indicou-me o João Carvalho e o Papou Mendes.

Diga-se que é regra que tenciono seguir no âmbito do save: os jogadores têm de ser recomendados por um observador. Mesmo algum que me chame a atenção, pedirei relatório e contrato se mo recomendarem.

Sobre o jogo, a troca do Fidelis Irhene pelo Papou Mendes foi apenas porque o primeiro já estava amarelado e não quis correr riscos desnecessários. A principal alteração foi nas instruções.

A equipa começou a reagir pela meia hora de jogo (foi a parte do outro capítulo em que referi que ganhámos o primeiro canto e fizemos o primeiro remate) e finalmente houve acção perto da baliza do Sporting B para me permitir ver no motor de jogo o que raio se estava a passar (até à meia hora nem bola tínhamos, estava completamente às escuras).

O que notei? Três coisas: o Sporting B jogando com três centrais, três médios e dois avançados em dupla, tinha imensa gente encafuada na zona central; os dois alas estavam completamente isolados do resto da equipa, eram os únicos que não estavam metidos na faixa central; e por qualquer motivo, a minha equipa continuava a teimar entrar dentro da área do Sporting B furando por dentro onde estava toda a gente.

A minha equipa joga habitualmente com um estilo misto de passe e imensa liberdade criativa. Habitualmente isso permite à equipa optar por várias alternativas diferentes, e ora exploram os flancos, ora atraem os defesas (aquele movimento do Flávio Silva que falei no capítulo dele) e abrem espaços para passes de ruptura nas costas da defesa, ora fazem passes curtos pela zona central até surgir oportunidade de remate.

Neste jogo estavam estúpidos. Decidi tirar-lhes a liberdade criativa e dei instruções para jogarem pelos flancos, para procurarem os cruzamentos da linha de fundo (no mobile é a opção "procurar sobreposições" ou algo do género) e passei o Gabriel Capixaba e o Juancho de interiores para extremos (os meus laterais já são alas ofensivos). Quis obrigá-los a explorar os desgraçados dos alas adversários que estavam sozinhos.

Não sei se foi relação causa/efeito, mas nos primeiros vinte minutos fizemos sete remates e criámos pelo menos três ocasiões de golo claras (a do Juancho e o golo de que falei no capítulo e uma outra do Capixaba que não entrou na história), todas em lances em que os meus laterais ganharam as costas dos alas do Sporting. Aliás, os dois golos nasceram de lances assim, o primeiro com o Lucas Silva a ir à linha cruzar, o segundo foi o Capixaba a levar a bola pelo flanco e a ganhar o canto.

Foi um jogo que deu gostinho ganhar, daqueles que um gajo fica com a sensação de ter influenciado o rumo dos acontecimentos.

Citação de Burkina2008, há 17 horas:

Parece que esse discurso "tao batido" sortiu efeito e o Amora embalado pelo publico fez a reviravolta muito sofrida no final! Parabens pelo titulo da 3a Liga. Sera uma volta do Amora ao grandes palcos assim como pessoalmente para o Frodo e o Bilbo

Muita emocao nesse final e mais uma vez digo, quando acabares o save, vou pegar nos teus textos e publicamos um livro!

Obrigado, Burkina!

Só espero não cair para o ano. Como disse no quote anterior, a equipa joga com liberdade criativa, agora contra adversários mais fortes corro o risco de apanhar no contra-ataque. Mas o que for será, não gosto de jogar de outra forma ahah

Citação de Kluivert, há 4 horas:

Uma segunda parte que demonstrou a força do Amora. Uma entrega em campo que não se viu no primeiro tempo, os jogadores motivados pelo discurso ao intervalo arriscaram tudo perante os adeptos e conseguiram trazer o caneco!

Depois de uma festa bonita segue-se uma preparação para uma época que se adivinha complicada! Curioso pelos próximos capítulos!

Vêm já a caminho!

Vou só publicar mais um para finalizar a temporada e depois parto para a nova época. Quero ver se os publico em rápida sucessão, já lá vão quase dez dias desde que joguei a final e ainda não avancei no jogo, estou ansioso por disputar a Taça da Liga e a Segundona.

Citação de Banks29, há 1 hora:

Grande segunda parte que te levou a uma vitória importantíssima para levantar o caneco. 

 É nosso e já está na vitrina da Medideira, reluzente e majestoso 🙂

Obrigado a todos.

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Capítulo VI - Uma torrada e um galão

 

A manhã ainda não ia a meio e já era penoso andar pela rua. A onda de calor que invadira a Península Ibérica estava para durar. Não chovia há meses; rios e albufeiras registavam caudais em mínimos históricos. A culpa, diziam os meteorologistas, era de uma massa de ar quente que vinha do norte de África, trazendo ar seco e abafado e partículas de areia que se acumulavam nos carros e nas janelas.

Foi com visível alívio que entraram no café.

"Bom dia!"

"Ora, bom dia!", respondeu afavelmente o dono do café. "Como vão, hoje?"

"Está calor lá fora."

"Uh!, se está. Aqui dentro está-se melhor. É o habitual?"

"Sim, por favor."

"Sentem-se, sentem-se, que já os sirvo."

Era a conversa de circunstância habitual. O dia começava com a rotineira visita ao café da rua para tomarem o pequeno-almoço, trocarem dois dedos de conversa com o afável dono ou com vizinhos e amigos que por lá estivessem e, no caso dele, ler o jornal desportivo.

"Já leu?", perguntou ele, acercando-se de uma mesa onde alguém pousara o jornal, dobrado, enquanto a sua esposa se sentava numa mesa vaga.

"Sim, sim, pode levar."

"Obrigado."

Sentou-se ao pé da esposa e desdobrou o jornal, lendo a manchete.

"Garra de leão... a equipa de Alvalade soube sofrer... Sarabia deu recital na despedida..."

A esposa lia uma revista cor-de-rosa enquanto ele ia folheando as primeiras páginas do jornal. O dono do café chegou entretanto.

"Ora, uma torrada e um galão para o meu amigo, e outra torrada e um galão clarinho para a minha amiga. Viu o jogo, ontem?"

"Hum... enquanto não limparem aquela equipa do Benfica nem quero saber de futebol", anunciou, para logo após corrigir: "Só do nosso Amora."

"Ora, não seja assim. Não se pode ganhar sempre. E foi um jogo incrível, nunca pensei que o Sporting se conseguisse aguentar, quanto mais ganhar a Taça!".

"Aquele espanhol é um jogador dos diabos. Ainda bem que se vai embora."

"O meu amigo disse o mesmo quando o Ruben Amorim saiu, que agora é que o Sporting ia por ali abaixo, mas os gajos continuam a ganhar."

"Mas já não foram campeões este ano. Para o ano é que se vê se aquele holandês tem mãos. Ele já esteve no Benfica e tivemos de correr com ele."

"Olhe, faz favor!", alguém chamou de outra mesa.

"Já cá volto. Bom apetite", disse o dono do café, antes de rodar nos calcanhares para responder ao chamamento do cliente.

Voltou à sua leitura, virando uma página enquanto dava uma dentada numa fatia de torrada a escorrer manteiga.

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FC Porto voltou aos títulos, segurando a liderança por dois pontos após pressão intensa do Sporting CP; ambos venceram os seus últimos seis jogos, levando a indecisão até aos últimos minutos do campeonato...

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... e a vingança surgiu no Estádio do Jamor, onde Pablo Sarabia decidiu a favor do Sporting CP uma final em que estiveram a jogar com menos um elemento mais de 80 minutos

 

Aquela era a rotina do casal desde que se reformaram depois de uma vida de trabalho e atribulações. Nascidos e criados numa pequena vila do Baixo Alentejo, mais conhecida pelo seu (bom) vinho do que pelas oportunidades dadas aos seus jovens, migraram para a Margem Sul à procura de melhores condições para criar os seus filhos. O destino levou-os a abrir um snack-bar, então um conceito muito em voga, que prosperou, conquistando clientes habituais atraídos pelos petiscos alentejanos, os caracóis e a simpatia natural de ambos.

Totalmente integrado na Margem Sul, toda a família criou raízes na região, adoptando a terra que os adoptara a eles. Os anos passaram, os filhos formaram-se e seguiram o seu rumo. O casal continuou sozinho a explorar o seu negócio, mas sem o apoio dos filhos, agora com as suas próprias famílias e os seus empregos. Chegou uma hora em que decidiram que era o momento de repousar e aproveitar uma bem merecida reforma.

Virou mais uma página e franziu a cara. "Não servias para o Benfica e agora tenho de te aguentar na selecção", pensou, agastado, ao ver um rosto bem conhecido no jornal. Um rosto com o qual chegara a privar nos anos 90, numa altura em que ele era Director no Amora e aquela personagem treinador do clube.

O ano 2022 tinha sido atípico e viu não apenas os três grandes, mas também a própria selecção principal de futebol, trocar de treinador. As saídas do campeão europeu Fernando Santos era aguardada após resultados modestos - e a de Jorge Jesus do Benfica acabou por ser natural pelo mesmo motivo -, mas as saídas de Rúben Amorim e Sérgio Conceição de onde eram idolatrados apanhou todos de surpresa... embora não tanto quanto as opções tomadas para os substituir.

O ano 2022 ficou conhecido como O ano da dança das cadeiras.

 

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Jorge Jesus foi a surpreendente escolha da Federação Portuguesa de Futebol para ocupar a vaga do demissionário Fernando Santos...

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... após ter sido despedido pelos maus resultados obtidos na primeira volta na Luz, dando lugar ao consagrado Marcelo Gallardo...

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... mas as mudanças mais surpreendentes ocorreram em Alvalade, com a entrada de Ronald Koeman para o lugar de Rúben Amorim...

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... e no Dragão, onde Sérgio Conceição foi substituído por Niko Kovac

 

Encontrou o que pretendia nas páginas centrais do jornal. Pousou-o para beber um gole do galão e dar outra dentada numa fatia da torrada, ficando com o dedo gorduroso da manteiga. Na folha cinzenta do jornal distinguia-se um sorridente Bilbo Himura.

"A ler sobre o nosso menino?", perguntou o dono do café, que entretanto aproximara-se.

"Quero ver o que diz ele sobre a próxima época. Passou por cá?", perguntou por curiosidade com o sotaque alentejano que nunca o abandonou.

"Já não o vejo há uns tempos, parece que anda ocupado em reuniões por causa do Amora, do estádio ou de contratações, qualquer coisa assim. Mas ontem esteve aqui o Frodo antes da final da Taça."

"Ah sim?"

"Comeu uma pratada de caracóis com cerveja, esteve cá com a mulher e os filhotes. O gaiato é a cara chapada dele quando era pequeno, aquele é mesmo dele, não engana ninguém."

Riu-se do comentário. Era verdade: o filho de Frodo era igualzinho ao pai quando este era daquela idade.

Ainda se lembrava de quando Frodo e Bilbo apareciam, duas crianças envergonhadas, à porta do seu café para chamar o seu filho. Eles lá iam mais o seu grupo de amigos jogar à bola para a praceta atrás do café. A praceta estava coberta a toda a volta por portões de garagens e os gaiatos desenhavam com giz uma grande área à frente da garagem escolhida para servir de baliza, não faltando sequer a marca de penalidade - de vez em quando ecoava com estrondo o som da bola a bater no portão seguido de gritos infantis a celebrar um golo.

Os vizinhos eram atraídos pelo barulho e entretinham-se a ver as jogatanas a partir das janelas dos prédios. Foram as primeiras assistências de Bilbo e Frodo. Não era incomum surgir em alguma janela o infeliz proprietário da garagem escolhida como baliza, quando não surgia do interior da própria garagem, insultando os gaiatos e gerando uma fuga improvisada destes para o café, no meio de risos e galhofa.

Voltou a olhar para o jornal com um sorriso nos lábios. O sorridente Bilbo Himura estava mais velho, cabelo a ficar grisalho e algumas rugas de expressão eram já notórias, mas ainda via o sorriso travesso de quando era uma pequena criança.

O artigo era uma análise à equipa do Amora Futebol Clube, apresentando estatísticas, análise táctica e até um resumo da história do clube.

Leu alguns dos destaques da reportagem.

 

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Amora a liderar a tabela de golos marcados na Liga 3...

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... e a das melhores defesas...

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... Zequinha foi o melhor marcador da competição, mas Flávio Silva terminou bem colocado apesar de ter feito apenas dezanove jogos em vinte e nove possíveis...

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... e como curiosidade, o Amora foi a equipa menos amarelada da Liga 3

 

"O Amora venceu a Liga 3 e os números comprovam a justeza dessa conquista. O histórico da Margem Sul foi o melhor ataque e a melhor defesa de ambas as séries por larga margem, o que é ainda mais notável quando se nota que foi também a equipa que menos cartões viu durante a temporada"

 

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A equipa-tipo que iniciou a maior parte dos jogos na segunda metade da temporada

 

"Frodo Zarco brilhou ao comando do Amora, na sua primeira experiência como treinador. Depois de uma pré-temporada atribulada, montou uma equipa coesa e isso reflecte-se nos números equilibrados de toda a equipa."

 

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O Amora disputou 33 jogos entre Liga 3 e Taça de Portugal - e alguns dos jogadores entraram em campo em quase todos eles, fosse como titulares ou suplentes

 

"O treinador amorense montou um núcleo duro de confiança e, por esse motivo, não será se estranhar que nove jogadores tenham participado em vinte e oito ou mais dos trinta e três jogos disputados pelo Amora entre Liga 3 e Taça de Portugal.

O médio defensivo Martim Maia foi o pêndulo da equipa em campo e Frodo Zarco apenas por uma ocasião abdicou da sua presença, terminando a temporada como o elemento mais utilizado do plantel."

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O plantel ordenado pelos golos marcados em todas as competições...

 

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... e por assistências para golo

 

"Flávio Silva foi o destaque no ataque à baliza adversária, acertando quinze vezes nas redes das balizas adversárias em vinte e dois jogos - treze na Liga 3 e duas na Taça de Portugal. Mas não foi o único; os setenta golos marcados pelo Amora na temporada foram divididos por quinze jogadores, denotando o futebol colectivo que Frodo Zarco cultivou na sua equipa.

Os números de Gabriel Capixaba revelam a extrema importância que assumiu, tendo sido o segundo melhor marcador e um dos melhores assistentes, logo secundado por Joca e pelos seus respectivos suplentes Gildo e Juancho - que ainda foram a tempo de deixar os seus nomes ligados ao título do Amora, influenciando jogos entrando a partir do banco ou mesmo assumindo a titularidade quando necessário, terminando a temporada com números dignos de um titular indiscutível.

Destaque-se ainda os papéis do criativo médio-centro Léléco e do lateral esquerdo Lucas Silva, ambos com bons registos de assistências para golo, e do avançado António Xavier que marcou alguns golos importantes na primeira fase da temporada antes de perder a titularidade para Flávio."

 

Terminou o galão e deu uma última dentada na fatia remanescente da torrada. Afinal a reportagem não era nada do que esperava, tinha sido apenas um levantamento de números e estatísticas da equipa e dos jogadores. De qualquer forma, era bom ver o Amora ter destaque em jornais de tiragem diária e de alcance nacional.

"Já vai, amigo?", perguntou o dono do café, recebendo o dinheiro e registando as contas na máquina registadora.

"Tem de ser, vamos dar um passeio. É importante mantermo-nos activos, a máquina não pode parar ou emperra."

"É esse o espírito!", respondeu-lhe, entregando o troco. "Até amanhã!"

"Adeus!", disse ele, saindo porta fora de braço dado com a esposa, logo sentindo o sufocante abraço da vaga de calor que já se sentia àquela hora da manhã.

Editado por Black Hawk
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Conversa de cafe mais portuguesa nao podia existir...bola, familia, saude e saudade de outros tempos que ja la vao

Pensei que a noticia sobre o Amora fosse mais ao estilo de Gabriel Alves a resumir uma epoca, mas foi como ja disseste apenas um enumerar de estatisticas...claro que ja é bom que se fale do clube mas esperamos sempre um pouco mais.

Em relacao ao jogo das cadeiras infelizmente isso é uma coisa que o FM nunca conseguiu operar de forma realista...

E o senhor do cafe, depois de se "reformar" vai fazer o que? Triste quando nenhum dos filhos quer saber do negocio de familia...

 

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Citação de Burkina2008, há 6 horas:

Conversa de cafe mais portuguesa nao podia existir...bola, familia, saude e saudade de outros tempos que ja la vao

Pensei que a noticia sobre o Amora fosse mais ao estilo de Gabriel Alves a resumir uma epoca, mas foi como ja disseste apenas um enumerar de estatisticas...claro que ja é bom que se fale do clube mas esperamos sempre um pouco mais.

Em relacao ao jogo das cadeiras infelizmente isso é uma coisa que o FM nunca conseguiu operar de forma realista...

E o senhor do cafe, depois de se "reformar" vai fazer o que? Triste quando nenhum dos filhos quer saber do negocio de familia...

 

Não é? É uma cena transversal a todo o país, entras num café na Margem Sul, em Lisboa, no Porto ou numa aldeia da Beira Litoral e a conversa há de ser bola, quem tem mais doenças, os sacanas do governo, família e a vida dos outros. Toda a gente pode identificar-se com isto 😁

Do Gabriel Alves, deixa esperar por outras épocas com mais sumo. Este primeiro ano foi mais para enquadrar o pessoal no contexto do Amora e criar world building, assim como quem não quer a coisa já meti na história coisas do passado, da história do clube, da claque, do estádio... também tenho de deixar material para o futuro 😛

Sobre o senhor, é também baseado em coisas verídicas, não quis expor muito mas era (infelizmente, era) uma boa alma e um bom amigo para toda a gente. Os filhos não é que não quisessem saber do negócio, ajudaram sempre, mas seguiram outros sonhos... sabes como é.

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Citação de six_strings, há 6 horas:

Digo apenas isto: E O SPORTING É O NOSSO GRANDE AMOR

PEACE

😁❤️

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Contextualização prévia:

Na versão mobile não há, pelo menos no Amora, equipa de Júniores. Há uma equipa B. Embora não dispute um campeonato e não tenha jogos visíveis, aparecem estatísticas, pelo que deduzo que joguem ingame "nas sombras".

Vou assumir que esta equipa B é outra coisa, conforme explicarei de seguida.

 

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Capítulo VII - A revelação de Bilbo

 

"Tu! Qual é o teu nome?"

"Bilbo."

"És gordinho, vais para a defesa. E tu?"

"Frodo."

"És magrito, jogas com que pé?"

"Esquerdo."

"Jogas no ataque junto à linha esquerda."

 

O ataque de nostalgia atingiu Bilbo Himura com força. Foi assim, simplesmente assim, que algures nos anos 90 entrou no Amora, acompanhado do amigo de infância Frodo Zarco. Duas crianças encolhidas, nervosas, ele cheinho, o amigo magríssimo, no primeiro dia de captações para a equipa de Infantis do Amora Futebol Clube, no meio de um bando de outros miúdos igualmente envergonhados.

Bilbo deu uns passos no relvado sintético do Campo n°2 da Medideira, olhando em redor enquanto aguardava. Memórias, tantas memórias.

Na altura, aquele recinto não era sintético; era um campo pelado de terra batida rija, replecta de pequenos calhaus que magoavam nos joelhos quando caíam. O piso não era nivelado, havia depressões em alguns locais onde se formavam poças de água e lama quando chovia e que retiam a bola sempre que por lá passava. A toda a volta do campo havia um muro que lhe chegava quase ao peito e, para além dele, havia um descampado num plano mais elevado do que o campo e que era utilizado como parque de estacionamento. Não era incomum - era, aliás, bastante habitual - os pais das crianças estacionarem os carros virados para o campo para assistirem aos jogos do seu interior, especialmente quando chovia.

Ouviu uma voz inconfundível atrás de si.

"Bom dia, senhor... ia dizer presidente, mas és mais o nosso sugar daddy, não é?"

Bilbo nem precisou de olhar para trás para saber quem era.

"Mal posso esperar que percas dois jogos seguidos para te despedir e trazer um treinador a sério."

"Oh, logo agora que suei tanto para tirar o grau de treinador para a Segunda Liga? Nem para os exames na faculdade estudei tanto!"

 

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Frodo Zarco obteve o grau de treinador necessário para treinar na Segunda Liga durante o Verão

 

"Quero lá saber se estudaste, o que não faltam por aí são treinadores que não me chateavam tanto a cabeça como tu."

"Oh, e ias buscar quem?", questionou Frodo com um riso escarninho.

"Talvez o Jorge Jesus queira dar uma perninha como treinador do Amora, agora que tem muito tempo livre quando não há jogos da selecção."

"Boa sorte a conseguir que ele aposte na formação", e Frodo riu-se à gargalhada.

Sempre fora aquela a dinâmica entre os dois; complementavam-se na perfeição.

Bilbo não era necessariamente austero, mas tinha uma personalidade mais séria, mais calculista. Enquanto crianças, Bilbo entrava nas brincadeiras e nos disparates, embora nunca fosse ele a começá-los. Foi, no entanto, essa forma de ser que o transformou num jogador fantástico com uma capacidade de trabalho e treino que impressionava os colegas. Era um daqueles líderes que dava o exemplo dentro e fora de campo por ser sério e instilar respeito nos outros.

Frodo, por outro lado, era um palhacito. Metade do que dizia era ironia ou sarcasmo, a outra metade eram piadas ou provocações amigáveis. Muitos dos disparates que fizeram enquanto crianças foram impulsionados por ele: desde saltar de segundos andares de prédios em construção para montes de areia amarelada no meio da rua, até descerem os dois uma das ruas mais inclinadas da Amora numa velha bicicleta sem travões, Bilbo agarrado ao guiador e Frodo atrás dele a tapar-lhe os olhos e a dar instruções sobre os obstáculos que lhes apareciam à frente.

Tinham sobrevivido à infância por milagre apesar das tentativas de Frodo em que tal não acontecesse. Mas reflectindo nisso, Bilbo acabou por concordar que as boas memórias, as melhores memórias, não surgem de histórias começadas por "ficámos em casa a beber leite com chocolate e a ver televisão" e, muito por acção de Frodo, Bilbo tinha memórias de infância exóticas que guardava com carinho.

O seu amigo aprendera com a maturidade da idade a saber dosear a sua personalidade extrovertida, crescendo para se tornar um futebolista discreto e profissional dentro de campo. A sua boa disposição natural fora dele tornaram-no, porém, um dos mais importantes e respeitados jogadores em todos os balneários por onde passou.

Caminhavam em silêncio ao longo dos velhos muros do Campo n°2 da Medideira e Bilbo não teve dúvidas que o amigo foi atingido pelo mesmo ataque de nostalgia.

"Lembras-te do mister Augusto no nosso primeiro dia aqui?"

Bilbo riu-se. Claro que se lembrava, era precisamente o que estava a recordar antes da chegada de Frodo. O velho mister Augusto vira nele um miúdo rechonchudo e mandara-o para a defesa. Segundos depois de começarem a jogar, a bola chegou-lhe aos pés, arrancou em velocidade - que no caso dele seria quanto muito um caminhar mais acelerado - e fintou meia equipa adversária, alguns deles mais do que uma vez, sempre a passo e com a bola colada ao pé direito, até isolar Frodo para este marcar golo.

"HEY! PAREM! Tu, oh rechonchudinho", gritou-lhe, de mãos na cabeça, atónito, "por que é que não disseste que sabias jogar à bola?"

Bilbo encolheu os ombros, envergonhado com a questão como se estivesse a ser repreendido. Ninguém lho tinha perguntado...

"Vais já para o ataque. Como é que disseste que te chamavas?"

Não saiu do Campo N°2 da Medideira naquele dia, algures nos anos 90, antes de os responsáveis do Amora falarem com os seus pais e convencerem-nos a deixá-lo jogar pelo clube.

"Tenho saudades do mister Augusto. Era um bom homem, uma boa alma", suspirou Frodo com melancolia na voz.

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O Campo n°2 da Medideira, hoje em dia com um relvado sintético, visto do antigo estacionamento

 

Um grupo de jogadores correu para dentro do relvado sintético. Quase todos olhavam de soslaio para Bilbo Himura, o qual, habituado como estava a ser alvo de olhares indiscretos, nem ligou. Ouviu-se um apito e começaram alguns exercícios de aquecimento. Frodo e Bilbo afastaram-se para não importunar os trabalhos.

"Li a tua entrevista", disse subitamente Frodo, interrompendo o silêncio que entretanto se abatera.

"E que tal?"

"Muito bom. Aprendeste a dizer umas coisas", disse Frodo num inesperado elogio, para logo de seguida completar: "quanto tempo treinaste aquele discurso ao espelho até te sair aquilo?"

Bilbo riu-se. Bem estranhara o primeiro elogio... mas Frodo não estava longe da verdade.

Desde que comprou o Amora Futebol Clube, Bilbo Himura foi bombardeado com perguntas sobre o que ia fazer. "Quando é que começa a investir na equipa?", "vai comprar jogadores de topo para levar o Amora até à Primeira Liga?", "contamos consigo para colocar o Amora rapidamente na Primeira Divisão!", ouvia Bilbo perguntarem-lhe recorrentemente.

Já esgotara as várias conjugações possíveis para explicar que não ia investir na equipa principal, mas como dizia amiúde, ele era futebolista, não um poeta. Talvez não tivesse a destreza para ser claro na sua mensagem e tivesse deixado incertezas sobre o seu projecto.

Isso teria de ficar esclarecido naquela entrevista e sim, treinara ao espelho o que queria dizer.

 

Jornalista: As pessoas perguntam-se se irá investir na equipa para melhorar a competitividade do plantel. Podemos esperar contratações financiadas por si para atacar a Segunda Liga?

Bilbo Himura: Desde o primeiro dia tenho dito que o nosso projecto para o Amora é um projecto de futuro. Não temos como objectivo o sucesso imediato artificial.

 

Jornalista: O que quer dizer com "sucesso imediato artificial"?

Bilbo: Como é que hei de explicar isto... [silêncio pensativo]... Há trinta anos era uma criança nas bancadas da Medideira a assistir às subidas do Amora à Segunda Liga...

 

Jornalista: Em 1992 e 1994.

Bilbo: Exactamente. O Amora subiu em 1992 e desceu no ano seguinte, voltou a subir em 1994 e desceu novamente. Caímos nas Distritais e demorámos trinta anos a regressar. O que quero garantir é que o Amora não ande neste vai-e-vem constante e que os jovens Bilbos Himuras que hoje vêem o Amora subir não tenham de esperar trinta anos, como eu, para o voltar a ver acontecer. Não queremos ter sucesso a curto prazo à custa de hipotecar o futuro do clube.

 

Jornalista: Em que medida investir no clube pode hipotecar o seu futuro?

Bilbo: É um cenário comum, especialmente em Portugal, ver-se um ou outro clube surgir pujante com o apoio financeiro de alguém. Mas depois quando o dinheiro deixa de entrar e o clube fica entregue à sua sorte, não tem meios de sustentar esse crescimento artificial e acaba por colapsar. O meu receio é que um dia saindo do Amora por decisão dos sócios, o Amora não seja autosuficiente para manter o nível competitivo e volte a cair, como há trinta anos.

 

Jornalista: Então qual é o seu projecto para o Amora?

Bilbo: O meu projecto é aquele que propus aos sócios amorenses, com o qual concordaram e por isso aceitaram a compra do clube. É importante realçar que os sócios continuam a mandar no clube; há uma cláusula que prevê a recompra do Amora pelos sócios caso uma maioria de dois terços assim o decida. O presidente Carlos Henriques continua a ser o presidente do clube e os sócios a tomar as decisões quanto ao destino do clube.

 

Jornalista: Essa cláusula não coloca em risco aquilo que fizer e o seu próprio investimento no clube?

Bilbo: Nunca foi meu objectivo ser dono do Amora; o clube pertence aos amorenses, à Cidade de Amora e à Margem Sul. Aquilo que quero é dotar o Amora e a Margem Sul com infraestruturas de excelência para que os jovens tenham oportunidade de praticar desporto, tirá-los das ruas, do ócio e de maus caminhos. Quero que estes jovens sejam integrados na sociedade e o desporto é uma das maiores ferramentas de inclusão social.

 

Jornalista: E onde entra o Amora nesse projecto?

Bilbo: O Amora entra aqui enquanto beneficiário dessas infraestruturas. Nenhum clube tem futuro sem juventude. Este projecto beneficiará a comunidade, dando aos jovens uma via para uma vida mais saudável e um potencial futuro no desporto de alta competição; e beneficiará o Amora com a potenciação de jovens desportistas em várias modalidades que assegurarão o futuro do clube.

 

Jornalista: E quanto ao futuro imediato?

Bilbo: No imediato, o Amora irá competir fazendo a gestão desportiva e financeira dos recursos que tem. Injectar dinheiro para investir na equipa profissional de futebol desvirtuaria a verdade desportiva e seria injusto para as outras equipas que subsistem à custa de muito esforço e sacrifício. Além disso, quero ter a certeza que no dia em que o Amora voltar aos sócios, deixo um clube autosuficiente e capaz de se manter no patamar competitivo que tiver alcançado. Um clube pujante, jovem e uma potência desportiva eclética, não só a maior a nível regional, mas também uma das maiores a nível nacional.

 

Bilbo não poderia ter sido mais claro e esperava que desta vez a mensagem passasse.

 

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A composição da Segunda Liga para a temporada 2022/23, incluindo os despromovidos Boavista e Vizela; destaque para o Leixões, que garantiu a manutenção ao bater o Vitória de Setúbal no playoff

 

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O Amora é visto como um dos principais candidatos, se não mesmo o principal, à despromoção, mas os jogadores estão ansiosos por entrar em campo

 

Frodo, embora conhecendo o projecto desde o início e estando comprometido com o mesmo, ia insistindo com Bilbo... que já não o podia ouvir.

"Bilbo, a nossa ideia não passava por disputar a Segunda Liga logo no segundo ano. A equipa está espremida até ao limite. Toda a gente, incluindo a própria equipa, sabe que as nossas hipóteses de alcançar a manutenção esta época são escassas."

"Teremos de batalhar com o que temos."

"Não se arranjam dois ou três reforços?", pedinchou Frodo. "Mete uma cunha com o Ronaldo, dás-te bem com ele, foram colegas de equipa no Manchester United e na selecção, ele até está meio insatisfeito por lá."

"Teríamos de hipotecar a Medideira, a cidade, o Município, o Cristo-Rei, a baía do Seixal, a ti e a mim e mesmo assim não chegava. E nem assim ele vinha."

"Passava bem sem o Ronaldo, mas podias trazer, sei lá, o Moutinho ou o André Gomes. Até aceitava o Paim", suspirou Frodo, irónico, "precisamos é de reforços!"

"Por algum motivo te trouxe aqui hoje", respondeu Bilbo, apontando com o queixo na direcção do relvado sintético.

A nova equipa de Sub23 do Amora treinava afincadamente. Metade da equipa corria em ziguezagues num circuito que lembrou a Frodo os concursos de cães treinados para ultrapassar obstáculos, enquanto a outra disputava um exercício de posse de bola numa área reduzida de terreno.

"Estão aqui os teus reforços", informou Bilbo com um sorriso. "Com a subida de divisão conseguimos criar uma equipa Sub23 e inscrever-nos na Liga Revelação. Muita desta juventude veio das nossas camadas jovens ou de clubes da região que não tinham meios para lhes oferecer contratos profissionais." Estendeu um braço para silenciar Frodo que se preparava para falar. "Passei muitas horas ao longo de vários dias em salas fechadas a reunir apoios financeiros e a meter cunhas para podermos registar a equipa já esta época. Nem te atrevas a dizer nada!"

Bilbo Himura caminhou na direcção da equipa técnica enquanto continuava a falar com Frodo.

"Se tudo correr bem, alguns destes miúdos serão o futuro do Amora e reforçarão a nossa equipa principal", concluiu.

 

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O plantel Sub23 com quinze jogadores principais, de idades compreendidas entre os 16 e os 19 anos, contratados a custo zero por recomendação dos observadores do clube (e alguns sombreados que assumimos para efeitos da história serem das camadas jovens que a versão mobile não tem)

 

Trocaram algumas impressões com a equipa técnica dos Sub23 sobre os jogadores. As primeiras impressões tinham sido boas e alguns dos miúdos surpreenderam, embora ainda fosse cedo para ter certezas quanto à real valia dos meninos.

Ficaram satisfeitos com o que ouviram e afastaram-se, deixando a equipa técnica voltar toda a sua atenção para o treino.

Frodo suspirou.

"Espero que os adeptos entendam o que estamos a fazer e que não exijam mais do que aquilo que temos para dar neste ano", suspirou Frodo.

"Confia neles. A cidade vai apoiar-nos como nunca, as pessoas vão ter orgulho no Amora."

"Eu confio, mas elevámos as expectativas com a tua chegada, as pessoas pensavam que ias meter dinheiro em força. E depois subimos logo no primeiro ano..."

"Não tens confiança na equipa?"

"Tenho, muitos deles têm estaleca para mais do que a Liga 3, mas a Segunda Liga é outro andamento, outra rodagem, e nenhum deles tem essa experiência. Faz-nos falta pelos menos dois ou três gajos com essa experiência até para dar dicas e ajudá-los a dar o salto..."

"Frodo, sabes bem que suámos imenso para conseguir renovar com a maior parte do plantel. Todos os jogadores ficaram a ganhar mais dinheiro. O Amora está no limite do que pode orçamentar para uma equipa de futebol profissional, se viesse mais alguém estaríamos a ir além do que o clube pode pagar."

Frodo sabia. O Verão de 2021 foi atribulado, o Amora não tinha dinheiro e a chegada de Bilbo Himura aconteceu já quase com o campeonato a começar. A maioria dos jogadores da época anterior cansou-se de esperar e o plantel para a nova época, já sob o seu comando, era quase todo novo - como consequência, todos os jogadores do plantel assinaram apenas por uma temporada.

Quando chegou a hora de renovar quase toda a equipa exigiu aumento salarial, o que num clube como o Amora, que já estava no limite orçamental que podia suportar, obrigou a enormes engenharias financeiras para comportar as exigências dos jogadores.

 

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A saída de onze excedentários foi fulcral para criar a folga financeira para renovar com os principais jogadores e investir no plantel Sub23...

 

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... mas foi a saída dos emprestados Jéferson Bahia e Pedro Martelo, cujos ordenados o Amora pagava por inteiro e eram significativamente superiores aos dos mais bem pagos do clube, o que mais ajudou a libertar fundos...

 

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... para a renovação dos principais jogadores da equipa (na imagem vêem-se os ordenados anuais dos jogadores mais bem pagos após as renovações, em alguns casos duplicando aquilo que recebiam)...

 

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... deixando o Amora com uma folga orçamental de 42 mil euros anuais

 

O Amora, à custa da redução do número de jogadores e em especial dos dois emprestados - cujos ordenados eram proibitivos para a realidade do clube e eram suportados inteiramente pelos amorenses - conseguiu a folga orçamental necessária para financiar um plantel principal de vinte jogadores e uma equipa Sub23 de quinze.

Mas não era suficiente. A folga orçamental era diminuta e deixava o Amora sem margem de manobra para qualquer renegociação de emergência que fosse preciso operar - como por exemplo se algum dos jovens talentos mostrasse qualidade e fosse necessário segurá-los.

Por esse motivo, o Amora viu-se numa posição fragilizada quando um conhecido empresário ligado ao Famalicão surgiu com uma proposta por um certo jogador...

"Foi pena a saída do Joca", lamentou-se Frodo Zarco. "Ele merece e vai ter finalmente a oportunidade que tanto desejava, mas era um símbolo para os adeptos e daria imenso jeito na Segunda Liga."

"A saída do Joca pagou o nosso orçamento para o ano inteiro. Era uma proposta irrecusável, para nós e para ele."

 

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O Famalicão, sexto classificado da Primeira Liga em 2021/22, surgiu com uma proposta formal pelo capitão do Amora...

 

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... e perante o interesse do jogador, restou negociar para obter o melhor negócio possível...

 

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... conseguindo-se 750 mil euros e uma percentagem de 10% de uma futura venda...

 

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... e assim Joca tornou-se oficialmente jogador do Famalicão com um ordenado anual bem convidativo

 

"Bem, temos o Gildo e o Juancho para assumir o lugar dele, mais o Gabriel Capixaba e esperemos que algures ali", disse Frodo, olhando para os Sub23 que continuavam a treinar arduamente, "esteja um miúdo que assuma a vaga livre."

"Frodo, se descermos, descemos. Voltamos para o ano mais fortes", disse energicamente Bilbo Himura. "Isto é um projecto de futuro. A Academia está projectada e aguardamos os pareceres das entidades competentes para arrancar com a construcção das infraestruturas. Quanto à Câmara do Seixal e à Medideira...", calou-se, ficando a ecoar em fundo o funcionamento de guindastes, antes de concluir. "Vamos à guerra com o que temos."

Frodo suspirou. Ele sabia de tudo aquilo e estava enquadrado com o projecto. Os pedidos e o pedinchar tinham sido mais para chatear Bilbo e, não havia como o negar, para ver se pingava alguma coisa.

Sabia que os jogadores poderiam sofrer com o impacto inicial da diferença de andamento para a Segunda Liga, mas estava satisfeito com a sua equipa e acreditava que apanhariam o ritmo rapidamente. E até lhe parecera ter visto qualidade no plantel daqueles miúdos que treinavam, o que o deixara de bom humor.

E quando Frodo está de bom humor...

"Bilbo."

"Sim?"

"Não queres aproveitar e treinar com a miudagem? Abatias a banha que estás a ganhar, só te fazia bem."

"Até quando vais fazer piadas sobre isso?", respondeu Bilbo, agastado, encolhendo a barriga.

"Até não teres de encolher a barriga para não pareceres gordo."

Bilbo chutou uma bola na direcção de Frodo e este esquivou-se, rindo à gargalhada, por momentos parecendo ambos novamente as duas crianças travessas de outros tempos.

 

*****

 

Nota Extra

 

Para termos um registo da evolução dos meninos e para quem tiver curiosidade, deixo os prints dos atributos dos jogadores da equipa Sub23 à chega ao clube.

De notar que todos eles foram contratados a custo zero depois da observação dos meus olheiros, que me deixaram nove páginas de jogadores recomendados - mais de noventa atletas.

Os critérios para a contratação não foram propriamente exigentes: tinham de estar interessados e de exigir pouco ordenado anual, para não lixar as contas do clube. Havia alguns jogadores interessantes que optei por ignorar porque assim que abri negociações pediam tanto ou mais do que os principais elementos da equipa titular.

Consegui reunir catorze jogadores, aos quais se juntou o Vitor Melro que foi o único regen que se graduou das minhas camadas jovens. Para efeitos da história, vamos fingir que a maioria deles são da formação do Amora ou de clubes da região que terminaram a sua formação e não tinham onde jogar enquanto Seniores.

Por fim, de notar que os ordenados que aparecem nos prints são ordenados anuais.

Guarda-redes

Martim Remédios (17 anos)

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Defesas

Simão Rosete (DD, 17 anos)

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Gustavo Pinto (DC, 18 anos)

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Isaac Monteiro (DC, 18 anos)

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Lucas Dias (DC, 17 anos)

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Diogo Aqueu (DE, 18 anos)

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João Gonçalinho (DE, 16 anos)

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Tiago Louro (DE, 18 anos)

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Médios

Martim Watts (MC, 16 anos)

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Rodrigo Pinheiro (MC, 19 anos)

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Extremos

Abas Djaló (MO DE, 19 anos)

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Robert Miller (MO DE, 19 anos)

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Tiago Torres (MO D, 19 anos)

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Vitor Melro (MO DE, 16 anos)

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Avançados

Leonardo Brandão (PLC, 19 anos)

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Editado por Black Hawk
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