Lebohang Publicado 6 Julho 2025 Citação O aliado que veio do frio: como a Suécia ajudou a mudar o destino de Cabo Verde Sem laços históricos nem afinidades culturais óbvias, a Suécia tornou-se um dos principais aliados das lutas de independência das ex-colónias portuguesas. Entre elas, a Guiné e Cabo Verde, que há meio século se tornava independente, forjaram uma amizade que desafiou o Estado Novo, graças a uma sequência histórica certeira e a duas figuras centrais no ambiente intelectual sueco de então. Há 50 anos, o coração da Suécia batia por África. Ao mesmo tempo que se via uma luz para o fim da Guerra do Vietname, que tinha mobilizado a sociedade civil como nunca, Portugal mantinha-se inapresentável. Por toda a Suécia, gritavam-se palavras de ordem contra a infâmia da guerra, da opressão e do colonialismo. “Portugal ut ur Afrika” (“Portugal fora de África”), lia-se num dos cartazes das inúmeras manifestações de então, convocada para as ruas de Estocolmo. “500 anos de colonialismo português”, avisava outro. Disponíveis nos arquivos do Nordic Africa Institute (NAI), um centro de pesquisa sobre o continente africano com sede na Suécia, mas fundado por vários países escandinavos em 1962, os cartazes contra Portugal dão conta do ar que se respirava no norte da Europa no princípio dos anos 1970. Num outro poster, apresenta-se um desenho com uma comparação entre mapas, levemente irónico. “Área de Portugal: 1/4 da Suécia; População: 9 milhões de habitantes”, ao mesmo tempo que Angola tinha “duas vezes o tamanho da Suécia”, com 6 milhões de habitantes, dos quais apenas 500 mil europeus. “População de Guiné-Bissau e Cabo Verde: 830.000, dos quais 6000 europeus”. Não era só nas ruas. Nas universidades, organizavam-se debates e colóquios que podiam acabar com tarjas contra os convidados, como aconteceu a Léopold Senghor, anticolonialista, primeiro presidente do Senegal independente, que nem assim se livrou das tarjas: “Marioneta dos franceses, Lacaio de Portugal.” Era comum alunos e professores convidarem líderes africanos para falar na Universidade, sobretudo a de Uppsala, onde ficava, e ainda fica, o NAI. Na organização de alguns desses encontros estava Lars Rudebeck, um investigador interessado em mobilizar apoio político para o desenvolvimento dos países do chamado terceiro mundo, que mais tarde viria a juntar-se ao Afrikagrupperna (Grupos África da Suécia), organização de solidariedade sueca fundada na década de 70 para apoiar os movimentos de libertação africanos, em particular os das ex-colónias portuguesas. “Eram tempos muito diferentes”, recorda Rudebeck, sentado num dos cafés da mesma Universidade, onde hoje é professor emérito. Já reformado, continua a ir com frequência ao escritório que lá tem. “Diria que eram tempos de menor individualismo e que, politicamente na Suécia, o coletivismo era muito forte, e o país era caracterizado pelos sindicatos e pelas organizações da sociedade civil, tanto religiosas como políticas. Por todo o país, as pessoas organizavam círculos de estudo e atividades a nível local.” Claro que não era só na Suécia. Os ventos do Maio de 68 sopraram com tanta força que aos jovens franceses, britânicos, norte-americanos e um pouco por todo o Ocidente, não faltaram causas para ir para a rua nos anos seguintes. Mas a Suécia tinha certas características que permitiam que se apresentasse como uma espécie de guia do mundo livre. Não só uma sociedade civil empenhada na luta pelo fim do colonialismo, como também o Governo, liderado à época por um partido de massas “ativo e pujante”, o Partido Social-Democrata (SAP), membro da Internacional Socialista e que governou o país quase ininterruptamente entre 1932 e 1976. A década de 70 fica, aliás, marcada por Olof Palme, figura central da social-democracia europeia, que aliava rebeldia, ao marchar ao lado do embaixador do Vietname do Norte em Moscovo, em oposição aberta aos Estados Unidos, com diplomacia e pezinhos de lã, fazendo valer a posição de não alinhado para não chocar de frente com nenhum dos blocos da Guerra Fria. É neste ambiente que os movimentos de libertação africanos começam a receber apoio financeiro e humanitário direto do Estado sueco, da Namíbia ao Zimbabué, passando pela África do Sul, na luta pelo fim do apartheid, e pelos países sob domínio português. Mas por que razão, de todas estas lutas, as independências da Guiné Bissau e de Cabo Verde mobilizaram a Suécia mais do que qualquer outra? No livro “Sweden and National Liberation in Southern Africa” (“A Suécia e a Libertação Nacional na África Austral”), o cientista político Tor Sellström mostra as contas: dos 67,5 milhões de coroas suecas, à época perto de 13,5 milhões de dólares, distribuídas aos movimento de libertação entre os orçamentos de 1969-70 e 1974-75, 45,2 milhões de coroas foram para o Partido da Independência de Guiné e Cabo Verde (PAIGC), ou seja, dois terços do total. Na entrevista que dá a Sellström para o livro, Lúcio Lara, líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), admite que esta disparidade “até nos deixou com algum ciúme”. De onde veio então a atenção a estes dois países, cujas independências são indissociáveis da Suécia? Se nem a Guiné nem Cabo Verde tinham relações anteriores com os escandinavos, ou pelo menos não mais antigas do que as de outros países, o que aconteceu? Uma sequência histórica em que tudo bateu certo, e duas personalidades que marcaram o ambiente intelectual sueco naquele tempo. Uma nascida em Bafatá, na Guiné, chamada Amílcar Cabral, que irrompeu pelas universidades, imprensa e sociedade suecas, e outra nascida em Mindelo, Cabo Verde, com o nome Onésimo Silveira, que mudou a vida do professor Lars. Uma cachupa para todos Este é um verão de festa. No dia 5 de julho, celebram-se os 50 anos da independência de Cabo Verde, que se seguiu à de Moçambique, proclamada a 25 de junho, também em 1975, e antecedeu a de Angola, em novembro do mesmo ano. A Guiné teve a independência formalmente reconhecida por Portugal em 74, mas já a tinha declarado um ano antes, ainda durante a guerra sangrenta contra o exército português. O meio século das independências é pretexto na Suécia para uma série de iniciativas que lembram a colaboração, e dir-se-ia até amizade, com as antigas colónias portuguesas, hoje feita sobretudo a partir da memória. Numa dessas celebrações, Fernanda Lopes da Silva está a servir cachupa. “É só para provar”, avisa. Vive há décadas na Suécia, para onde veio estudar, impulsionada pela presença de outros cabo-verdianos no país. Antes disso, e até sair da ilha, Fernanda “não tinha consciência política”, nem a independência lhe ocupava os dias. Mas aos 18 anos foi para Coimbra, onde encontrou vários estudantes cabo-verdianos ligados ao PAIGC, que a levaram a juntar-se ao partido. Ali, e mais tarde em Lisboa, onde trabalhou como assistente social, fez pequenos trabalhos na clandestinidade. “Havia muitos cabo-verdianos a chegar a Portugal para trabalhar nas obras, muitos viviam em barracas na zona de Benfica. Ia lá distribuir comida e alimentos.” Nunca foi do núcleo duro do partido, ao contrário da irmã, Helena Lopes da Silva, cirurgiã, feminista e anticolonialista, que também estudou em Portugal e mais tarde estaria na fundação do Bloco de Esquerda, vinda do PSR, o Partido Socialista Revolucionário. Já Fernanda, antes de se mudar para a Suécia, ainda voltou a Cabo Verde, onde sabia que estava “debaixo dos olhares do Estado Novo”, mas acabaria por se afastar do PAIGC, por discordâncias políticas das quais dispensa dar pormenores. Figuras mais ou menos proeminentes daquele tempo vão passando pela banca da cachupa, no Instituto Cervantes, no centro de Estocolmo, onde a Embaixada portuguesa e as representações dos países africanos (Cabo Verde não tem embaixada, mas Consulado Honorário na capital sueca) organizaram, em maio, sessões de cinema relacionadas com as independências. Na última, os filmes eram “Nha Mila”, de Denise Fernandes, uma curta passada entre Cabo Verde e Portugal, e “Nascimento de uma Nação”, de Lennart Malmer, com Ingela Romare, dois cineastas e jornalistas suecos, os únicos ocidentais que o PAIGC autorizou a estar presentes no dia da proclamação unilateral da independência da Guiné, em Madina do Boé. Malmer anda já devagar, apoiado num andarilho e parado por várias pessoas, a quem vai agradecendo os cumprimentos e saudações. O filme é cru e gráfico, com cenas de guineenses mutilados, operações cirúrgicas na floresta, e emboscadas que tiram a vida a soldados, de um lado e do outro da barricada. Para lá das armas, a guerra contra Portugal fazia-se na disputa da narrativa, para dentro e para fora, sobretudo no que toca ao apoio sueco, que excluía o envio ou a compra de armamento. Os produtos, e em menor medida, o dinheiro que o Governo e depois a SIDA — Swedish International Development Cooperation Agency transferia para o PAIGC não deviam ser usados para fins militares, embora os suecos soubessem que estavam a apoiar um movimento armado e que a entrega de jipes da Volvo, por exemplo, serviria para transportar soldados. Para efeitos de mobilização política e social na Suécia, o importante é que os veículos serviam também para levar à Guiné suecos da confiança do PAIGC, como Malmer, que pudessem espalhar a propaganda do partido e expor os horrores da guerra pela Europa e pelo resto do mundo. O trabalho começou a ser feito no final dos anos 1960, após uma famosa ida de Amílcar Cabral à Suécia, que para alguns protagonistas mudou tudo. Não era a primeira vez que o líder do PAIGC ali estava, mas as intervenções no congresso do SAP, de setembro de 1969, que entronizou Olof Palme, e a ida à Universidade de Uppsala dias depois, convenceram definitivamente os políticos e a opinião pública, numa altura em que o Parlamento sueco já tinha dado o aval a um apoio oficial da Suécia aos movimentos de libertação. Pierre Schori lembra-se com precisão das palavras de Cabral nesse congresso. Membro do SAP, Schori era um dos mais próximos de Palme, do qual viria a ser conselheiro para a política externa, e figura central desta história com 50 anos. “O único ainda vivo”, ri-se, quando o Expresso lhe pergunta por esse papel-chave no contacto com os países africanos e com a oposição em Portugal. Schori foi agora assistir aos filmes em Estocolmo e, no final, subiu ao palanque com alguns objetos, recuando até esses dias de 69. “A audiência perguntou ao Amílcar Cabral o que podíamos fazer por eles, e ele disse duas coisas: ‘a vossa própria revolução, porque tudo começa em casa’, e a segunda: ‘precisamos de um livro para que os nossos alunos comecem a ler corretamente’.” Schori ergue então um livrinho amarelo, chamado “O Nosso Livro, 1ª Classe”, com o desenho de uma professora a apontar para um quadro, onde se lê: “Amo a minha terra, PAIGC”. Um ano depois, em 1970, uma pequena tipografia nos arredores de Uppsala, a “Tofters/Wretmans bockiery”, começa a imprimir livros da 1ª e 2ª classes para enviar para as chamadas “zonas libertadas” da Guiné. Sem o controlo do exército português, esta era mais uma forma de espalhar a palavra do partido e convencer a população. Os materiais eram editados na Guiné, recebiam a forma final numa escola do PAIGC em Conacri, eram enviados para a Suécia, que depois os imprimia e mandava de volta em forma de livro, tudo através de recursos angariados por organizações da sociedade civil sueca e pela SIDA. Lisboa não gosta, e retalia logo após a visita de Cabral à Suécia, onde esteve também Marcelino dos Santos, vice-presidente da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique). Organizam-se manifestações em frente à embaixada sueca em Portugal, e tanto Lisboa como a então Lourenço Marques, hoje Maputo, ameaçam boicotar produtos suecos. “Nacionalistas”, “não comunistas” Para o Governo sueco, era mais ou menos indiferente, garante Pierre Schori. É certo que Portugal tinha ainda força internacional, era membro da NATO e tinha o apoio, embora às vezes com desconforto, de grandes potências. Mas a “Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais”, publicada pelas Nações Unidas, e as independências de cerca de 40 países africanos só entre 1955 e 1969, isolavam Portugal. Os sociais-democratas suecos achavam, aliás, que a posição em relação a África só mudaria se o regime caísse, hipótese na qual Schori e outros camaradas estavam empenhados. O assessor de assuntos internacionais de Palme já tinha sido enviado a Portugal em 1967 precisamente para criar pontes com a oposição, e aí esteve com Mário Soares, que estava a construir uma rede de apoios internacionais. Foi quando o SAP estabeleceu com os socialistas, na altura poucos e organizados na Ação Socialista Portuguesa (ASP), as chamadas “secções locais”, pequenas bolhas de oposição em cada cidade, conectadas com uma “cidade irmã” na Suécia. Era mais um tentáculo do apoio ao movimento de libertação africano. Ao mesmo tempo, era preciso manter a então vigorosa neutralidade sueca, hoje abandonada a favor do bloco da NATO, depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. “O anticolonialismo estava acima da neutralidade”, lembra Schori, numa espécie de bordão que servia aos socialistas suecos para ficarem ao lado dos movimentos de libertação contra países da NATO, e por outro lado manterem distância face ao bloco soviético. Não que não houvesse acusações de apoio ao comunismo e à União Soviética, que também apoiava os movimentos de libertação, neste caso com armas e soldados. Mas, para o Governo sueco, “os movimentos procuravam apoio onde quer que o pudessem ter”. “Umas vezes, recebiam esse apoio da União Soviética, e outras não”, nas palavras do próprio Schori, numa entrevista de 1996. “Alguns movimentos, como o PAIGC de Amílcar Cabral, eram muito orgulhosos e não aceitavam qualquer apoio que tivesse condições. O apoio da Suécia “não tinha condições”, à exceção do antimilitarismo, “nós sabíamos, através de estudos e contactos com essas pessoas, que não eram comunistas”, defendeu Schori. “A principal força ideológica era o nacionalismo.” “Alla folks” Embora Cabral fosse o rosto do entusiasmo dos nórdicos pela causa, Onésimo Silveira era o mobilizador. Quando chegou à Suécia, aos 30 anos, era já parte da elite intelectual cabo-verdiana, autor de artigos de jornal e alguns ensaios em que defendia a herança africana de Cabo Verde, e tinha já sido preso pela PIDE mais do que uma vez Depois de ter fugido para a Holanda, assentou arraiais em Uppsala, para estudar Ciência Política, ser representante do PAIGC na Escandinávia e procurar apoios. É imediatamente bem sucedido, tendo colaborado nas viagens de Amílcar e de outros membros dos movimentos de libertação à Suécia, e sendo também ele que, passado pouco tempo, organiza viagens em sentido contrário. Por essa altura, Lars Rudebeck já tinha feito trabalho de campo no México e na Tunísia sobre as mudanças sociais e políticas no chamado Terceiro Mundo. Estava cada vez mais interessado pelo movimento na África Austral, sobretudo depois da tal ida de Amílcar à Universidade em 1969. “Ele explicou de forma convincente que a liberdade é indivisível”, isto é, “que libertar o povo das colónias era libertar a própria Suécia, porque se a liberdade de uns depende da exploração e repressão de outros, não é liberdade”, conta Rudebeck. Como no velho ditado que servia de mote ao socialismo desde o século XIX, “não pode haver paz no mundo até que todos os povos sejam livres” (“Alla folks”, todos os povos, em sueco). Onésimo era aluno de Lars no curso de Ciência Política. “Um dia, disse-me meio a brincar: se está interessado na libertação do Terceiro Mundo, por que não vem ver como a estamos a fazer na Guiné?” No final de 1970, Rudebeck seguiu viagem para as “zonas libertadas”. Com ele ia um fotógrafo noruguês, Knut Andreassen, um representante da Juventude Social-Democrata, Gunnar Hofring, e uma jovem deputada do SAP, Birgitta Dahl, que viria a ser ministra e presidente do Riksdag, o Parlamento sueco. “Voámos para Conacri, e impressionou-me que centenas de membros do PAIGC almoçassem ao lado de prisioneiros de guerra portugueses no refeitório”, conta Rudebeck. Até os líderes. “Os presos recebiam comida nas mesmas filas que o Amílcar Cabral e o Aristides Pereira”, futuro presidente de Cabo Verde. “Isso foi impressionante e dizia alguma coisa sobre o espírito da organização e o sentimento igualitário que eles tentavam implementar”, defende o investigador sueco. “Mas claro que também governavam de cima para baixo. Havia essa bipolaridade, democracia e centralismo ao mesmo tempo.” Lars levava um pequeno caderno para tirar notas das conversas com a população, que misturavam português e francês. Num domingo de novembro, Lars e Birgitta vão juntos a uma escola e conversam com alguns alunos que, mesmo não tendo aulas, estão lá para os cumprimentar. Um deles pergunta se na Suécia as crianças também vão à escola e se têm de lutar pela própria liberdade. “A Birgitta começou por lhe contar sobre os reis da Suécia, que oprimiam a população no passado. O rapaz concluiu que o rei da Suécia no passado é como o português (‘tuga’) é hoje”, lê-se nos apontamentos de Lars. Um outro aluno quer saber se na Suécia um professor “também tem 68 alunos para ensinar” e se “os professores também são respeitados”. O aluno que faz estas perguntas tem 27 anos. “Está na segunda classe.” Por esta altura, viviam perto de 400 mil pessoas nas “zonas libertadas” da Guiné e a taxa de analfabetismo superava os 80%, a que se juntavam condições de saúde de baixíssimo nível. Ao fim de 500 anos de colonialismo, era este o retrato do país que havia para apresentar, ou pelo menos o que jornalistas, investigadores e políticos suecos trariam no regresso à Europa. Isso e as tentativas de construção de novas comunidades nas áreas sob domínio guineense. Birgitta Dahl e Knut Andreassen publicaram um livro, Lars Rudebeck começou a dar palestras em escolas e universidades suecas, e Lennart Malmer e Ingela Romare fizeram outras viagens, de onde saíram filmes e entrevistas aos protagonistas guineenses e cabo-verdianos. Às notas tiradas in loco, Rudebeck fez alguns acrescentos, como nesse domingo, 22 de novembro de 1970. “Já noite avançada, num rádio transístor estridente, ouvimos as primeiras notícias dramáticas de uma tentativa portuguesa de desembarcar tropas em Conacri às 2h da manhã (...) Só vários dias depois foi confirmado que o ataque tinha sido travado.” Era a operação “Mar Verde”, uma invasão do exército português para depor o presidente da Guiné-Conacri, Sékou Touré, atingir o centro nevrálgico do PAIGC, capturar Cabral e libertar presos portugueses. A delegação sueca, que viajava a pé à noite e passava os dias nos campos do partido, estava em Cubisseco de Cima. Em nome de Cabo Verde Tudo era parte da luta, os livros e as escolas, as clínicas de saúde, os “armazéns do povo”, onde o PAIGC armazenava e disponibilizava bens de primeira necessidade à população, até aos mais ínfimos detalhes, como as latas de sardinha produzidas por uma fábrica na Suécia, onde Onésimo Silveira arranjou maneira de pôr um rótulo com o símbolo do PAIGC. O rótulo tem escrito também “zonas libertas” e a marca sueca de onde vinham os enlatados. Chegados à Guiné, foram distribuídos por todo o território, incluindo as partes ocupadas pelos portugueses, o que dá nota da campanha psicológica que ali se travava. A história da sardinha vem contada no livro já citado de Tor Sellström, que lembra como a discussão sobre os apoios agitava os meios suecos. As negociações eram muitas vezes feitas pelo próprio Amílcar Cabral, que aparecia em Estocolmo, sob nome falso, para participar nas reuniões, onde Onésimo também estava com frequência, e onde se elaboravam as listas de produtos a enviar. A dúvida era sempre onde estava a linha entre “ajuda humanitária” e “ajuda militar”. Sellström cita uma reunião em que Amílcar Cabral terá pegado numa caneta e escrito. “Isto é também uma arma...” Os Grupos de África na Suécia, por outro lado, queriam um apoio incondicional. Defendiam, aliás, que não reconhecer a dimensão militar da luta contra Portugal era uma “forma grave de paternalismo, o que se poderá talvez explicar apenas pelo desejo de manter vínculos económicos importantes com Portugal durante o máximo de tempo possível e também pelo desejo de encontrar uma solução neocolonialista para as colónias portuguesas”. Longe de ser considerada uma arma, mas com peso decisivo para espalhar a mensagem foi o produto que a SIDA garantiu ao PAIGC: uma estação móvel de rádio, instalada em dois Mercedes fornecidos pela Suécia, que ainda deu formação aos membros do PAIGC através da empresa de telecomunicações, para começarem a emitir para a Guiné e para Cabo Verde. Cabo Verde, aliás, pode parecer um ator menor nesta história. Não tendo luta armada, nem por onde se organizar para, em solo cabo-verdiano, combater o Estado Novo, estava, no entanto, na linha da frente. E não só por causa de Onésimo. “Muitos dos ‘quadros’ eram cabo-verdianos, porque havia muito mais gente instruída de Cabo Verde do que da Guiné”, conta Rudebeck. “O responsável por nos guiar”, na viagem de cerca de um mês, “e por garantir que estávamos sempre bem, era uma pessoa chamada Abílio Duarte”, que seria o primeiro ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde. “Havia também o ‘comandante Manecas’”, Manuel dos Santos, “havia Aristides Pereira, Pedro Pires”, que seria primeiro-ministro, “Silvino da Luz, todos cabo-verdianos”, enumera. “E todos sabiam que a luta pela libertação da Guiné era a luta por Cabo Verde também.” José Luís Fernandes Lopes não foi à Suécia, mas era mais um desses quadros cabo-verdianos que desenhava a estratégia do PAIGC, a partir do Comité de Coordenação de Lisboa. Ao Expresso, fala de Boston, nos Estados Unidos, para onde foi na década de 1980 como embaixador de Cabo Verde em Washington. “A Suécia foi um grande contrapeso à política da ‘Guiné Melhor’ do general Spínola.” Nomeado governador da Guiné ainda por Salazar, António Spínola considerava que um “plano de contrasubversão não se projeta no campo imediato da força das armas, mas sim da promoção social e cultural das populações”. Tentar melhorar as condições de vida das populações para ganhar a narrativa era uma política “que tinha pés para andar”, considera Fernandes Lopes. Mas é aí que as coroas suecas entram para “mostrar que havia uma política alternativa à do Spínola”. “No campo não militar, a Suécia era de longe o nosso maior apoio”, lembra Fernandes Lopes, “o que nos permitiu equilibrar a situação política” e “evitar problemas”, já que “as corporações combatiam, mas queriam ver as suas vidas melhoradas”. Nas “zonas libertadas, continua o diplomata, “havia escolas e hospitais que não estavam em condições de eficiência, quer de equipamentos, quer de quadros, para a prestação de um serviço à altura”. Para este ator direto dos acontecimentos, “a luta política em Cabo Verde não foi mais leve”. “As condições de repressão é que eram mais eficientes, porque o país era pequeno, toda a gente se conhecia e a PIDE estava em cima e prendia facilmente”, contextualiza. Estando na estrutura do PAIGC que fazia a ligação entre Conacri, a frente de luta armada, e Cabo Verde, conta que chegou a haver um certo “deslumbre por introduzir a questão da luta armada em Cabo Verde, não em forma de guerrilha, mas de luta urbana, do que hoje chamaríamos terrorismo”. “Treinou-se gente para isso, mas não havia condições”, nem geográficas, num país sem fronteiras terrestres, nem de homens, muitos fugidos para a emigração ou, no caso dos membros do PAIGC, para participar na luta na Guiné. Em nome de Cabo Verde. “A luta continua!” À medida que os acontecimentos se precipitavam em África e em Portugal, aceleravam também as histórias dos homens comuns, que raramente vêm nos jornais. A de Val Xalino lá chegaria. Tinha saído de Cabo Verde em 1970, com 17 anos, para fugir à guerra. “Eu estava na lista para ir combater para Angola no exército português, porque nós éramos portugueses”, lembra Xalino, mais um cabo-verdiano nascido no Mindelo, ilha de São Vicente, que acabou na Suécia. O que o fez escapar da guerra foi um curso de marinheiro que tinha feito pouco antes. “Tinha uma cédula marítima que me permitia trabalhar nos barcos estrangeiros, quando houvesse vaga. A primeira foi num barco grego e aceitei logo. Só queria conhecer o mundo.” Foram três anos assim, barco quase sempre no mar e paragem nos portos de várias cidades, sobretudo na Europa e na América Latina. “Quando chegava ao porto, ia dançar, tinha umas meninas correndo atrás de mim, e a gente depois voltava para o barco”, ri-se. Algum destino que o prendesse? “Colômbia, Colômbia”, responde, muito depressa. “Amei, as pessoas eram como as de Cabo Verde, a música era quase idêntica, o ritmo era quase o mesmo, a comida. Pensei que me ia casar com uma colombiana.” Acabou a casar com uma sueca, aos 24 anos. É difícil imaginar um cabo-verdiano que se encanta pela Colômbia a partir do ritmo e da música e que depois acaba voluntariamente a viver na Escandinávia. Mas Val Xalino desembarcou primeiro em Roterdão, na Holanda, onde a presença do PAIGC e o fervor da luta pela independência nunca o convenceram. “Concordava com o meu avô, que estava muito incerto se a independência era a coisa certa, porque Cabo Verde é um país pequeno, são 10 ilhas pequenas, de meio milhão de pessoas, e sem recursos.” A prioridade de Xalino era “enviar dinheiro para a mamã”, que tinha ficado na ilha, e afastar-se de um país onde não via futuro. Nas viagens entre Roterdão e Gotemburgo, apaixonou-se duas vezes: uma pela cidade sueca, para a qual se mudou, deixando a vida no barco, outra pela mulher sueca com quem casou e teve dois filhos. Entretanto separou-se da mulher, mas nunca mais largou a cidade. Mais do que isso, começou a conjugar o trabalho como auxiliar de educação com a música. Um cabo-verdiano a tocar mornas na Suécia? “O álbum ‘Dança, Dança’ teve um grande sucesso aqui, porque foi distribuído pela editora Waxhol, que distribuiu para toda a Escandinávia.” Foi aí, já Cabo Verde era independente, que Xalino apareceu nos jornais e televisões de um e de outro país. Os anos passaram e o cabo-verdiano voltou a apaixonar-se, agora por uma conterrânea também a viver na Suécia, com quem se cruzou num dos vários encontros da comunidade. A amizade entre os dois países consolidou-se no pós-independência, e continuou nas décadas de 80 e 90, quando nasceu a associação sueca “Amigos de Cabo Verde”. Antes disso, como mostram as cartas no arquivo do Movimento Operário Sueco, em Estocolmo, centenas de suecos foram, através do Afrikagrupperna, trabalhar para as ex-colónias portuguesas. Nos finais de 1977, começam a chegar os primeiros a Cabo Verde, com a organização sueca responsável por pagar salários, despesas de viagens e outras necessidades. Em África, partia-se praticamente do zero, como se percebe numa carta enviada por uma cooperativa cabo-verdiana, que agradece o envio de um contabilista chamado Goran Jonason. A carta está escrita em português e fornece detalhes sobre a casa que a cooperativa encontrou para ele, acrescentando. “A cozinha não tem nenhum equipamento e nem podemos encomendá-lo, porque não há à venda no país. Por isso, sugeríamos que a vossa organização comprasse tudo o que o senhor Jonason precisasse para o efeito e a nossa empresa restituía o valor da despesa em pesos.” As necessidades eram imensas. Tal como na Guiné. “Achamos muito importante informar os cooperantes, antes de chegarem à Guiné-Bissau, que são bem-vindos no nosso país, que o trabalho de construção de um país não é fácil e que os cooperantes não estão autorizados a interferir na nossa política interna.” O Afrikagrupperna respondia, normalmente em inglês, fechando as cartas em português: “A luta continua!” Era a hora de construir dois países novos, um saído de uma guerra de mais de uma década, com milhares de mortos, a começar pela do líder Amílcar Cabral, assassinado meses antes da declaração de independência da Guiné. E outro a braços com a falta de recursos, saída em massa de população em idade ativa e problemas de seca permanentes. Passados 50 anos, momentos de alta expectativa parecem ter desaguado em algumas desilusões. Pierre Schori mostra-se preocupado com a social-democracia e lamenta o que considera a falta de debate acerca da entrada da Suécia na NATO. Lars Rudebeck continua a escrever sobre a democracia nos países africanos que derrubaram o colonialismo no século XX, e onde “a rápida libertação não correspondeu a uma rápida democratização, apesar das expectativas, esforços, boa vontade e colaboração internacional”. Também aqui, Rudebeck lembra a observação de Amílcar Cabral, de que para que houvesse “desenvolvimento pós-libertação a favor dos interesses da maioria, a pequena burguesia teria de cometer suicídio de classe”. “Não cometeu”, conclui o investigador, nem “foi forçada” a fazê-lo. Em Boston, Fernandes Lopes preocupa-se com o futuro de Cabo Verde, sobretudo pelas políticas de imigração mais restritivas em países com grandes diásporas cabo-verdianas, casos dos Estados Unidos, da Holanda e de Portugal. Mas lembra-se de como Portugal resistiu, mesmo depois do 25 de Abril, a incluir Cabo Verde na descolonização, e vê com bons olhos este meio século. “A Suécia já não é um parceiro notável, até porque julga que Cabo Verde tem menos necessidade que outros países. Acho que não é exatamente assim, embora tenha alguma verdade”, afirma ao Expresso. “Cabo Verde beneficia de grande ajuda da União Europeia, e o desenvolvimento tem sido razoavelmente bom, com a ajuda do turismo” — o país recebe hoje cerca de um milhão de turistas por ano —, “que tem impacto na vida das pessoas”. Até Val Xalino, que sempre disse à mãe que haveria de viver fora do país, fez as pazes com Cabo Verde, onde agora passa metade do ano. Um coração dividido entre as origens e o país que o acolheu. “Quando escrevo a letra de uma música, penso em crioulo. Mas também já disse aos meus filhos: se eu morrer em Cabo Verde, tragam o corpo para a Suécia.” Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 9 Julho 2025 [A História repete-se] D. António, Prior do Crato foi, ou não, Rei de Portugal? [A História repete-se] A guerra entre portugueses e holandeses pelo controlo do nordeste do Brasil (1630-1654) Compartilhar este post Link para o post
La Flame Publicado 28 Agosto 2025 Remnants of 2,000-year-old sunken city lifted out of the sea off Alexandria Compartilhar este post Link para o post
Mayday Publicado 28 Agosto 2025 Citação de La Flame, há 24 minutos: Remnants of 2,000-year-old sunken city lifted out of the sea off Alexandria Existe a teoria de que o túmulo da Cleópatra estará numa zona da cidade que hoje estaria submersa. Não sei se está relacionado ou não. Compartilhar este post Link para o post
challenger Publicado 12 Novembro 2025 Safári humano: 'turistas' saíam de Itália ao fim de semana e iam matar bósnios em Sarajevo Compartilhar este post Link para o post
Tio Hans Publicado 10 Dezembro 2025 O Observador fez uma entrevista de 4 horas ao Vasco Lourenço. Para quem gostar dos temas relacionados com o 25 de abril e o PREC, está muito interessante. Compartilhar este post Link para o post
Dominator Publicado Janeiro 17 https://www.youtube.com/@nightshift_kurzgesagt Nao sei bem qual o melhor tópico para isto, mas é só para partilhar que Kurzgesagt têm um novo canal "Kurzgesagt after Dark", para quem acompanha de vez em quando o canal. Compartilhar este post Link para o post
Vaart10 Publicado Janeiro 18 Citação de Tio Hans, Em 10/12/2025 at 10:20: O Observador fez uma entrevista de 4 horas ao Vasco Lourenço. Para quem gostar dos temas relacionados com o 25 de abril e o PREC, está muito interessante. É das poucas figuras de referência vivas desse período, ele e o Sousa e Castro. Compartilhar este post Link para o post
Tio Hans Publicado Janeiro 18 Citação de Vaart10, há 39 minutos: É das poucas figuras de referência vivas desse período, ele e o Sousa e Castro. E o Sousa e Castro não parece especialmente lúcido. Mas há mais, Sanches Osório, o único que resta de entre os que estiveram no posto de comando, Pezarat Correia, etc. Compartilhar este post Link para o post
Vaart10 Publicado Janeiro 19 Citação de Tio Hans, há 10 horas: E o Sousa e Castro não parece especialmente lúcido. Mas há mais, Sanches Osório, o único que resta de entre os que estiveram no posto de comando, Pezarat Correia, etc. As intervenções públicas do Sousa e Castro, por exemplo, no documentário A duas voltas, e online, demonstram que ele está consciente do que o rodeia. O Sanches Osório, após o 25-abril, entrou numa toada duvidosa em termos políticos. Essa toada atingiu um ponto alto quando ele fundou o PDC (Partido da Democracia Cristã), que apresentava uma postura claramente anti-comunista. Mais tarde, teve também uma passagem pelo CDS. Parece-me que a figura dele, enquanto capitão de abril, não tem a mesma preponderância que o Vasco Lourenço, Sousa e Castro e Pezarat Correia. Aliás, ele nunca esteve muito ligado ao movimento, acaba por entrar numa fase pré-25-abril porque era militar de Estado Maior. Nessa altura havia uma disputa entre os militares de campo, como os que estavam na guerra colonial, e os militares de gabinete e ar condicionado, como aqueles que pertenciam ao Estado Maior. No entanto, era muito importante haver gente do Estado Maior no Movimento, já lá estava o Vítor Alves, porque este era um serviço que continha informações e dados essenciais para a preparação do plano operacional da operação Viragem Histórica. O Pezarat Correia é, de facto, uma figura incontornável e que ainda se encontra vivo. Compartilhar este post Link para o post
Spikey Publicado Janeiro 19 O Sousa e Castro até há pouco tempo andava a partilhar tretas do Orban, Qanon e afins, aquilo dá para tudo. Compartilhar este post Link para o post
Tio Hans Publicado Janeiro 19 Citação de Spikey, há 2 horas: O Sousa e Castro até há pouco tempo andava a partilhar tretas do Orban, Qanon e afins, aquilo dá para tudo. E é todo Putinista. Compartilhar este post Link para o post
Ego Sum Publicado Fevereiro 13 Não sabia onde meter, mas considerando as ligações históricas deixo aqui 2 Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado Maio 22 Citação 28 de maio de 1926: A história do golpe da ditadura militar que abriu as portas a Salazar A 6 de junho de 1926 realizou-se uma das maiores paradas militares da História de Portugal. À cabeça vinha o general Gomes da Costa, montando a cavalo e a brandir a espada, atrás seguiam 13 mil homens que marcharam pelo Campo Grande e pela Avenida da República, em Lisboa Museu da Presidência da República A República que tantas esperanças tinha criado vivia dias difíceis. As crises sucediam-se, os inimigos multiplicavam-se. Este foi o ambiente ideal para um golpe que se transformou em ditadura, e que se deixaria encantar por um jovem Salazar Corria o ano de 1926, e Portugal vivia sob um clima de ansiedade. Nos cafés e nos quartéis, nos bancos de jardim e nos bancos das igrejas, o tema de conversa era recorrente: quando seria o próximo golpe. Discutiam-se planos, desenhavam-se cenários, debatia-se até quem seria o próximo líder golpista como quem discute futebol ou política. Do Presidente da República ao ardina de rua, todos sabiam que era uma questão de tempo até rebentar mais um golpe de estado, seguramente militar, e o nome do seu líder era comentado abertamente, o general Gomes da Costa. O velho cabo de guerra nem tinha sido a primeira opção, talvez por ser monárquico e de temperamento explosivo, mas com a morte de Alves Roçadas converteu-se na mais credível. Era uma figura popular entre os militares e de oratória fácil, habituado a agir de forma arriscada e impetuosa, pelo que era a pessoa certa para uma empresa daquelas. Também se sabia que já tinha recebido vários convites, e entrevistar o líder do futuro golpe era um dos furos mais procurados pelos jornalistas de todos os quadrantes. A ocasião proporcionou-se em finais de maio, quando Manuel Múrias do jornal “A Época” se encontrou com o general para uma entrevista que registou no estilo lírico da época: “— General, ‘A Época’ desejava ouvi-lo sobre o movimento militar... — Que movimento? — Eu não sei se o general conspira, se não conspira, mas diz-se que está prestes a rebentar um movimento de que V. Ex.ª é o chefe. Gomes da Costa não nos deixou continuar. Encarou-nos. Ergueu lentamente a mão pesada, deixou-no-la cair pesadamente no ombro: — Você tem visto muitos conspiradores? Tem visto? Era no Rossio, à porta da estação, à hora em que sob a luz acre das lâmpadas e dos arcos voltaicos uma multidão constante se comprime, preguiceia e cochicha. Apontamos vagamente à volta: — Em Portugal quem não conspira ou conspirou ou está para conspirar... — Olhe bem para mim então. Olhe para mim; acha que o homem que nunca ninguém viu curvar-se diante das balas inimigas, na África e em França, em mais de trinta anos de vida militar e através de mais de trinta batalhas, acha que esse homem é capaz de conspirar? De se insinuar sub-repticiamente, de se ocultar apavoradamente para caçar o inimigo desprevenido? Um silêncio. — Amigo: eu não conspiro, revolto-me! Passavam criaturas para o comboio que olhavam espantadas para aquele sujeito alto, forte, de rosto enérgico, as feições contraídas, apertando convulsivamente os punhos, no gesto enérgico, violentíssimo de quem vai esmagar. — Mais baixo, general, que o podem ouvir! — Mas que me importa que me oiçam se eu quero que Portugal inteiro me escute? Olhe... Procurou nos bolsos e tirou um papel: — Dentro de 48 horas Portugal de norte a sul ouvirá a minha voz a bradar-lhe: ‘Às armas!’” Às armas também era o mote da República, mas em 1926 eram poucas as que a iriam defender. A Primeira República, que tanta esperança criou, somou inimigos desde a sua génese; a começar pelos monárquicos que não desistiam do propósito de restaurar a monarquia e recuperar os direitos perdidos. Foi num desses golpes que ocorreu a efémera Monarquia do Norte, em 1919, que ameaçou converter-se em guerra civil, mas acabou sufocada quando se tornou notório que não havia apoio popular para um retorno ao passado. As várias alas do Partido Republicano entraram em conflito, o que levou ao rotativismo: foram 45 governos em menos de 16 anos. E a fome e o desemprego eram dos maiores de sempre A Igreja Católica também foi uma acérrima adversária, devido ao laicismo militante do novo regime que não hesitou em confiscar boa parte do património eclesiástico, proclamar a liberdade de culto e legalizar o divórcio. Os grandes grupos económicos juntaram-se à oposição após os governos da Primeira República instituírem o direito à greve, a jornada de oito horas de trabalho e o descanso semanal — liberdades e direitos que consideravam um perigo mortal para os lucros das suas empresas. Além de uma oposição orgânica, a República teve de lidar com a ascensão de movimentos políticos ancorados em ambos os extremos do espetro político, como os comunistas e os anarquistas, à esquerda; e uma direita radical que gerou o Integralismo Lusitano — defensor de uma monarquia em que o rei governa sem limites constitucionais. Eram inimigos poderosos para uma democracia que procurava consolidar-se, mas o seu maior desafio era de ordem interna. As várias alas do Partido Republicano Português entraram em conflito sobre o que deveria ser a República e a cisão foi inevitável, levando a um rotativismo que não sanava as divergências e feria a sua legitimidade: foram 45 governos em menos de 16 anos, à média de um a cada quatro meses. E a fome e o desemprego eram dos maiores de sempre, talvez os maiores de toda a História de Portugal. O clima de tensão constante acabou por produzir um rol de crises que minou a confiança pública no novo regime, porque apesar de todas as liberdades e progresso social que tinha criado, faltava-lhe a estabilidade política e económica que era essencial para uma sociedade funcional. A 18 de abril de 1925, e após muitos avanços e recuos, um grupo de 61 oficiais decidiu sublevar-se. Era uma operação de grande escala que juntava homens de diferentes latitudes políticas, como o capitão de fragata Filomeno da Câmara, que não escondia a sua admiração por Mussolini e desejava um governo de matriz fascista, e o general Sinel de Cordes, que tinha ascendência aristocrata e um interesse particular por finanças. A ideia era tomar a capital e assumir o poder, mas o plano tinha falhas que se revelaram fatais: várias unidades de Lisboa eram fiéis ao governo, além disso, a GNR agiu como se esperava, como a guarda pretoriana do regime. Dominada a ameaça, seria de esperar que o governo democrático punisse severamente aqueles que o tentaram derrubar, mas o que aconteceu a seguir só revelou a sua fragilidade. Num julgamento militar em que o promotor de justiça era o general Óscar Carmona, os réus foram recebidos como heróis e a audiência serviu de plateia para os acusados virarem acusadores. Carmona dirigiu-se aos réus num tom que raiava a reverência e propôs a sua absolvição (que foi plenamente aceite), sendo-lhe atribuída a frase que simboliza todo o processo: “A Pátria doente manda acusar e julgar neste tribunal os seus filhos mais diletos!” Sucedeu então um fenómeno inesperado. Os golpistas eram tratados na imprensa conservadora como heróis e o governo mantinha-se impávido perante a impunidade com que era ameaçado, os derrotados eram afinal os vencedores. Ao longo do ano seguinte as conspirações que se teciam nem mereciam essa qualificação, eram feitas de forma pública. O único obstáculo para a sua concretização passava pelas diferentes visões de governação que cada fação militar defendia e até Óscar Carmona se permitiu conspirar abertamente contra o regime que deveria defender: “Estreitei ainda mais as relações que já mantinha com os meus camaradas que haviam tomado parte naquele movimento. Reunimo-nos, alguns, na Leitaria Suíça, à esquina do Rossio para a Rua do Amparo. Dia a dia verificávamos que era mesmo preciso fazer alguma coisa para pôr termo à situação em que se estava – a qual, todos concordávamos, era impossível de continuar. Mas não se saía de conversas, não se assentava um plano.” A solução acabou por surgir quando o comandante Mendes Cabeçadas o interpelou a caminho da leitaria Suíça e lhe expôs o que ele e outros oficiais tinham em mente. A ideia era simples, usar um general popular para galvanizar os militares, iniciar a operação fora da capital para evitar as forças fiéis, e depois convergir nela para tomar o poder. Gomes da Costa seria o líder, Braga o ponto de levantamento, e Lisboa o destino final. O golpe em curso Era já noite quando Gomes da Costa chegou à Cidade dos Arcebispos; com ele vinham dois ajudantes e ao volante estava Charters de Azevedo, antigo visconde de São Sebastião e um devoto conspirador. Era o dia 27 de maio, e Braga era palco do Congresso Mariano Nacional que juntava os principais líderes da Igreja Católica, mas Gomes da Costa não vinha para rezar. Vestidos à paisana, os quatros seguiram para a casa de Miguel Couto, um civil que fazia a ligação com os militares, e foi ali que encontrou o major Mendes Norton e um grupo de oficiais que o aguardavam com ansiedade. Queriam informar o líder que podia contar com a guarnição da cidade para iniciar o golpe. O general ficou entusiasmado e começou a partilhar os seus planos. Declarou que no dia seguinte iria marchar sobre o Porto para esmagar quem lhe resistisse, e depois seguiria para Lisboa. Era ainda madrugada quando os soldados do Regimento de Infantaria 8 (RI 😎 foram acordados a toques de corneta para formarem na parada, onde lhes foi dada a razão para uma alvorada tão repentina: iriam participar numa revolução, um anúncio que não terá surpreendido muitos, habituados que estavam às intentonas da época. Por aquela altura já outras unidades se tinham sublevado, o Regimento de Cavalaria 11 uniu-se com entusiasmo aos infantes e os homens do RI 29 iam a caminho do quartel-general, que ocuparam sem resistência e que passou a servir de centro nevrálgico das operações. A grande dúvida seria a postura do batalhão da GNR, mas até este se juntou aos revoltosos e engrossou as suas fileiras. Estava assegurado o primeiro passo, a eclosão não seria sufocada à nascença, agora vinha a parte difícil. De Braga começaram a ser enviados telegramas para unidades de todo o país, apelava-se à insubordinação contra o governo, além de ativar as que já estavam comprometidas. Contudo, nem todos os oficiais se assumiram no primeiro dia da revolta. Óscar Carmona foi um dos que preferiram esperar pelos acontecimentos, até porque, mesmo que impunes, poderiam ver as suas carreiras estagnarem e muitos ainda privilegiavam os seus interesses particulares. Naquele primeiro dia de revolta, a maioria dos quartéis manteve-se neutro, mas entre os jovens oficiais era inegável o entusiasmo com que receberam as notícias. O então alferes Humberto Delgado (que anos mais tarde perderia a vida a lutar contra a ditadura) deslocou-se até Mafra acompanhado por dois tenentes O trio tentou convencer os camaradas da Escola Prática de Infantaria a revoltar-se, mas os veteranos aconselharam-lhes calma e preferiram seguir o exemplo do Carmona. Apesar das reticências de muitos, a aritmética das armas começava a pender para o lado dos golpistas. As guarnições de Valença e de Viana do Castelo juntaram-se a Gomes da Costa e várias pareciam prestes a seguir o mesmo caminho, mas nem todos os militares tinham abandonado a República. Quando a notícia do golpe chegou ao Porto, o general Sousa Dias decidiu enfrentar os rebeldes com as forças de guarnição da Invicta e organizou duas colunas que entregou ao comando do coronel David Rodrigues. O objetivo passava por ocupar a estação ferroviária da Trofa e bloquear a passagem para sul, ganhando tempo até chegarem reforços de Lisboa para os esmagar. O plano era simples, mas a execução foi complicada. Logo à saída do Porto, começaram os rumores de que nem todos os oficiais estavam contentes com o seu papel, muitos desejavam estar do outro lado da barricada e o coronel viu-se obrigado a dispensar uma dezena. Apesar dos contratempos, as forças governamentais chegaram a Trofa antes do adversário e as forças de Gomes da Costa limitaram-se a ocupar posições defensivas nas estradas de Nine e Famalicão. O dia 28 de maio chegava ao fim sem a vitória fácil que muitos esperavam, mas em Lisboa o ambiente era pesado. No dia seguinte saiu o artigo n’ “A Época”, e o timing não podia ser melhor. O golpe tinha começado e Gomes da Costa estava longe de Lisboa, já ninguém o podia deter, o curioso é que todo aquele cenário lírico tinha sido encenado. O general não tinha sido casualmente interpelado no Rossio, ele tinha-se deslocado propositadamente à casa de Manuel Múrias para dar a entrevista, o episódio com o general a esbracejar e aos gritos no meio da rua nunca aconteceu e Manuel Múrias não era um jornalista convencional, era um seguidor comprometido com os ideais do Integralismo Lusitano, e consta que terá sido ele a redigir a proclamação que Gomes da Costa efetuou em Braga; aquele artigo foi apenas uma peça de propaganda. Entretanto, continuava o jogo de xadrez em que se transformara a revolta. A guarnição de Guimarães estava com o governo e 300 marinheiros estavam a caminho vindos de Lisboa, o coronel David Rodrigues contaria com cerca de 3 mil homens e decidiu avançar sobre Nine, mas depois vieram as más notícias: Penafiel revoltou-se, o chefe da sua artilharia parecia decidido a disparar para o vazio em vez de apontar aos rebeldes, e um grupo de oficiais vindo do Porto tinha uma mensagem para lhe entregar: “Senhor coronel, nós viemos aqui para o informar que a maioria da guarnição do Porto deseja que V. Ex.ª ponha termo a isto...”, o isto era resistir a Gomes da Costa, e o coronel percebeu que a sua retaguarda estava em risco, que as suas forças tinham uma moral baixa, e a batalha que se avizinhava poderia acabar ainda antes de começar. Enquanto se mediam forças a norte, o comandante Mendes Cabeçadas minava a resistência em Lisboa. O oficial já contava com apoios suficientes para iniciar a revolta em Lisboa e declarou-se em rebelião, mas não deixou de manter em aberto a comunicação com um governo que já se sabia perdido. No dia 30, consciente de que as suas forças não aguentariam o embate, o governo apresenta demissão e Bernardino Machado entrega a presidência ao comandante Cabeçadas, que também assume o poder executivo sem qualquer resistência do governo demissionário. A lógica da rendição radicava numa premissa algo ingénua: ele era republicano e maçom, já Gomes da Costa era monárquico e radical, ele representava a esperança de continuidade do regime liberal, ainda que numa versão “diminuída”. A Revolução devora os seus heróis Mendes Cabeçadas não perdeu tempo, tomou posse no dia seguinte e emitiu uma série de decretos que estabeleceram o modus operandis da nova ditadura militar: o parlamento foi dissolvido e a imprensa passou a estar sujeita à censura. De seguida fez as suas forças virem para a rua para garantir que a sua autoridade seria respeitada. Se impor a sua vontade aos vencidos foi fácil, gerir as sensibilidades dos vencedores era uma tarefa destinada à frustração. Ele era o líder de um triunvirato que representava as várias fações militares, incluindo os generais Sinel de Cordes e Gomes da Costa, mas quando o Ministério da Guerra recebeu os representantes das diversas instituições para se discutir os nomes que iriam formar o novo governo, Luiz Charters de Azevedo assistiu exasperado às quezílias que deixavam claras as profundas diferenças daquele grupo, assim descritas, em 1937, no livro “Os que arrancaram em 28 de Maio”, de Oscar Paxeco: “Estando a escolher-se ministros, alguém apontou em certa altura o nome do Dr. José Pequito Rebelo para ministro da Agricultura. E logo uma voz a discordar: — Esse não que é monárquico. Mas a seguir um dos presentes lembrou um nome para substituir a indicação do Dr. Pequito Rebelo. E soou o nome do Dr. Ezequiel de Campos, o que levou o comandante Ferreira do Amaral, que a um canto analisava a balbúrdia, a exclamar: — Esse não que é republicano.” Para Gomes da Costa que observava a instauração do novo regime à distância, a vitória era agridoce. Não iria ser o herói que derrotava o inimigo no campo de batalha, e como se não bastasse, o seu camarada tinha-se antecipado na tomada do poder. Mas quem julgava que ele iria sujeitar-se sem dar luta estava muito enganado. Nesse mesmo dia escreveu uma carta a exprimir “o receio que elementos de várias ordens possam especular; deturpar, intervir neste movimento a cuja frente me acho. E por isso conservarei as forças militares do norte concentradas aqui no Porto”. Estava dado o toque, ele era o líder e Cabeçadas não devia esquecer quem tinha o controlo do exército. Para o “centurião africano” era necessário criar algo similar à ditadura espanhola de Primo Rivera, ou o modelo fascista de Benito Mussolini, mas Mendes Cabeçadas tinha uma ideia diametralmente oposta, acreditava ser necessário suspender as liberdades democráticas apenas temporariamente; para regenerar as instituições e criar as condições para uma governação saudável. O duelo era simples: Cabeçadas podia ter o poder da razão, mas Gomes da Costa tinha o poder da força, e seria a razão da força a prevalecer. Gomes da Costa não fizera a revolução para outros terem os louros e por isso decidiu imitar os fascistas com uma “marcha sobre Lisboa”. A 6 de junho, uma semana após ter dado início ao golpe, uma salva de artilharia deu o sinal de arranque para uma das maiores paradas militares da História de Portugal. À sua cabeça vinha o general Gomes da Costa, montando a cavalo e a brandir a sua espada, atrás seguiam 13 mil homens vindos de todo o país que marcharam pelo Campo Grande e a Avenida da República. Aquela era a celebração da vitória, mas contrariamente ao que seria de se esperar, Gomes da Costa não mandou desmobilizar os seus homens após a parada, pelo contrário, organizou patrulhas em redor da cidade para marcar a sua presença. Só faltava a jogada final, que chegou no dia 17 de junho. Alegando que o comandante Cabeçadas se opunha ao seu plano de governo, o general fez-lhe um ultimato: ou saía a bem, ou saía com a ajuda do “seu” exército. Sabendo de antemão que não tinha hipóteses de lhe resistir, o comandante optou pela opção do bem. A revolução destruía o seu primeiro herói. Gomes da Costa decidiu imitar os fascistas com uma “marcha sobre Lisboa”. A 6 de junho, uma salva de artilharia deu o arranque para uma das maiores paradas militares da História de Portugal Não se pode dizer que a queda de Mendes Cabeçadas tenha criado um vazio de poder, porque o poder era agora de um só homem e todos sabiam o seu nome. Gomes da Costa era senhor dos destinos do país e sentia-se o seu líder indiscutível, um estado de espírito que o levou a agir de forma autoritária sem medir as consequências. A lógica era a mesma que usava no quartel: as suas ordens tomavam a forma de decretos cujo cumprimento deveria ser imediato e inquestionável, a sua política era inspirada no Integralismo Lusitano, com cedências à Igreja Católica e o favorecimento dos militares, sem ter em conta a difícil situação financeira do estado nem as diferentes correntes de pensamento dos seus apoiantes. Nas semanas seguintes a situação agravou-se rapidamente, a sociedade começava a ganhar anticorpos contra um caudilho que tentava impor a civis a disciplina militar, mas o seu maior erro foi pensar que o Exército seria um mero instrumento ao seu dispor, um erro que se tornou claro quando tentou demitir os ministros afetos a Sinel de Cordes e mostrou aos conservadores que ele só contava com a ala radical. Foi neste ambiente de tensão que se desenhou o seu destino. A 8 de julho, um grupo de generais e coronéis apresentou-se ao caudilho para lhe dar a conhecer a sua última conspiração, tinham decidido que poderia ficar como presidente, mas teria de ceder o poder executivo. Gomes da Costa parecia acreditar que ainda era chefe dos homens que tinham marchado com ele por Lisboa e recusou-se a aceitar, mas no dia seguinte foi preso e teve a ingrata surpresa de ver que o Exército se manteve impassível. Caía o segundo herói da revolução. Resolvida a depuração, ficou assente que o seu substituto teria de ser uma figura consensual e Óscar Carmona foi o escolhido. Ele era o general que se absteve de participar no “18 de abril de 1925” para absolver quem nele participou, que se tinha mantido neutro a 28 de maio, quando o golpe era incerto, e agora recebia de bandeja o poder pelo qual não se arriscara. A sua missão passava por apaziguar as hostes e começar a resolver os problemas do país, e nenhum era mais importante que a questão financeira. Inicialmente, atribui a missão de equilibrar as contas a Sinel de Cordes, mas o general revelou-se incapaz de lidar com um cargo técnico que exigia conhecimentos profundos. O regime decide então convidar um jovem professor com um brilhante percurso académico. Chamava-se Oliveira Salazar, mas só ficou 13 dias e voltou a Coimbra. A razão era simples, queria o controlo absoluto das contas públicas para as conseguir equilibrar. Na sua ausência as finanças pioraram, e Óscar Carmona convida-o uma segunda vez com a atribuição dos poderes que tinha exigido. Salazar voltava com aura de salvador e desta vez não voltaria a largar o poder, muito pelo contrário, proferindo um discurso que se revelou premonitório: “Sei muito bem o que quero e para onde vou, mas não se me exija que chegue ao fim em poucos meses. No mais, que o País estude, represente, reclame, discuta, mas que obedeça quando se chegar à altura.” Chegada a altura os militares obedeceram-lhe, e Salazar fez o seu caminho. “Pai Nosso”: os últimos dias de Salazar deram um filme Após meses de internamento, a 1 de maio de 1969, António de Oliveira Salazar saiu do Hospital da Cruz Vermelha para a sua residência oficial, enquanto presidente do Conselho, em São Bento. Desde setembro, verificada a incapacidade definitiva de Salazar para a governação, que Marcello Caetano fora nomeado para o substituir, mas ele nunca soube. O regime deixou-o ficar na casa do Estado que ocupava há décadas e os seus próceres foram encenando a realidade de modo a enganar o velho ditador de Santa Comba. Havia ministros a despacho, reuniões, atividade. Até 27 de julho de 1970, data da sua morte, a vida de Salazar foi uma farsa trágica. A RTP tem em arquivo imagens terríveis da tentativa de gravação de uma comunicação ao país nesta fase: Salazar nem conseguia ler em continuidade um pequeno texto apesar de sucessivas paragens e recomeços. É um velhinho atarantado a não querer sair de cena. Fazer um filme sobre o ocaso do mais importante político português do século XX é propósito ousado. Atreveu-se José Filipe Costa, cineasta com uma filmografia essencialmente centrada nos anos do PREC: “Pai Nosso — Os Últimos Dias de Salazar” tem estreia agendada para 28 de maio. Os riscos do empreendimento são muitos e de variado recorte. O maior é o do tom assumido pelo olhar. Podia ser hagiográfico se o autor fosse um saudosista, ou de combate, se estivesse do lado de um empedernido antissalazarismo. Posturas, uma e outra, bafientas, sobretudo porque, à distância de mais de meio século, o que importa é compreender, não pelejar. Escolheu José Filipe Costa situar-se em modo factual, num registo figurativo fundado no naturalismo, opção difícil para um protagonista de rosto massivamente conhecido. Curioso, todavia: o filme não claudica por esse lado. O espectador que sou sentiu-se, todo o tempo, disposto a aceitar Jorge Mota enquanto Salazar e Catarina Avelar como a fiel governanta Maria de Jesus. Já o mundo das criadas parece apenas destinado a arejar a soturnidade da casa (o realismo pintalga-se de quase comédia), enquanto o dos dignitários do regime surge bastante desprovido de ossatura (não se acredita naquele Américo Thomaz com João Lagarto enfiado numa farda que lhe não serve — nenhuma culpa para o ator, está bom de ver…). As coisas esfarelam-se, porém, na indecisão dramatúrgica. O naturalismo não consegue estar à altura da aura do personagem (aura de que o autor está consciente, ou não teria chamado ao filme “Pai Nosso”), nem ser bastante para materializar a tragédia, ou dar conta da farsa. O realizador intuiu a limitação e, a espaços, introduz cenas de delírio, todavia sempre ancoradas no registo verista de onde nunca sai. Teria sido preciso um golpe de asa em direção à lucidez alucinada, a mesma de que se apoderou Aleksandr Sokurov quando filmou os últimos dias de Lenine (“Taurus”, 2001) ou se aproximou de Hitler (“Moloch”, 1999). Salazar é uma figura histórica demasiado pesada para ficções resvés ao soalho, à cama, ao cadeirão, à mesa de jantar. Jorge Leitão Ramos Compartilhar este post Link para o post