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Estórias da História

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"O primeiro Europeu a chegar à Austrália foi o Holandês Willem Janszoon"

 

Fake. O primeiro europeu a lá chegar foi português, até porque o norte da Austrália aparece em mapas portugueses do século XVI.

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E até deu nas notícias há uns tempos que foi encontrado lá um canhão que se julga português, que alterava a ideia de quem tinha descoberto aquilo.

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"O primeiro Europeu a chegar à Austrália foi o Holandês Willem Janszoon"

 

Fake. O primeiro europeu a lá chegar foi português, até porque o norte da Austrália aparece em mapas portugueses do século XVI.

Foi quem?

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Sinceramente não sei. Há mapas portugueses que mostram um grande continente a sul de Timor, e embora possa ser a Antártida, parece improvável que depois de entrarem no Índico e até no Pacífico, os nossos navegadores não soubessem a sua real localização, portanto é provável que seja mesmo a Austrália.

 

Já nem me lembrava da notícia do canhão, btw. E por outro lado, há nativos com traços linguísticos semelhantes ao português, algumas palavras muito parecidas às nossas. E Timor fica uns 400 ou 500 km a norte da Austrália, é impensável que a esta distância não tenham dado com terra do outro lado do mar.

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Sinceramente não sei. Há mapas portugueses que mostram um grande continente a sul de Timor, e embora possa ser a Antártida, parece improvável que depois de entrarem no Índico e até no Pacífico, os nossos navegadores não soubessem a sua real localização, portanto é provável que seja mesmo a Austrália.

 

Já nem me lembrava da notícia do canhão, btw. E por outro lado, há nativos com traços linguísticos semelhantes ao português, algumas palavras muito parecidas às nossas. E Timor fica uns 400 ou 500 km a norte da Austrália, é impensável que a esta distância não tenham dado com terra do outro lado do mar.

Então como deves imaginar sem um nome nunca poderia ficar como versão oficial. :mrgreen:

Isso de vir nos mapas tem muito que se lhe diga. Primeiro pode ser outra coisa. Mas mesmo que seja a Austrália não quer dizer que tenhamos lá estado.

 

De qualquer das maneiras os primeiros foram os Aborígenes. :tongue:

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Um dia destes tropecei numa teoria da conspiração que desconhecia totalmente. Aparentemente sempre fomos um povo bastante conspirativo :lol:

 

Todos conhecem a história do nosso malogrado rei D. Sebastião. Pegou num exército desorganizado, anunciou a quem quis ouvir onde, quando e como ia atacar, enfrentou o deserto marroquino sem se preparar convenientemente para as agruras do terreno e, surpreendentemente ( :mrgreen: ) foi derrotado e morreu no campo de batalha. Não teve o cuidado de deixar descendentes directos - a família real portuguesa foi vítima de uma surreal onde de mortes, começando pela de Afonso, filho único de D. João II durante uma cavalgada, culminando com a descendência de D. João III, que viu os seus seis filhos varões morrerem antes de si, mas estas coincidências podem ficar para outra altura - e o coitado do D. Henrique já não tinha idade para fazer filhos. Filipe II, I de Portugal, tornou-se rei de Portugal.

 

Ok, agora a conspiração. No final do século XVI, não sei o ano, apareceu em Veneza um sujeito requintado, com jeito nobre, linguagem cuidada e sotaque português. Terá chamado a atenção da comunidade portuguesa presente, maioritariamente mercadores, que acabariam por o identificar como o falecido rei D. Sebastião. O sujeito negou, mas interrogado pelas autoridades da cidade teve de confirmar ser ele; interrogado sobre assuntos de Portugal, demonstrou enorme conhecimento sobre a geo-estratégia de Portugal, e conseguiu referir e descrever, um a um, todos os diplomatas portugueses enviados a Veneza nos anos anteriores ao da batalha de Alcácer-Quibir. Descreveu também vários elementos da corte portuguesa, além da árvore genealógica da família real portuguesa e outras europeias.

 

Tal conhecimento chamou a atenção do monarca espanhol. A sua pressão levou a que este sujeito fosse preso, pois como se compreende não poderia haver um pretendente legítimo ao trono que os espanhóis abocanharam, muito menos se fosse o próprio rei em pessoa. No entanto, e sem se saber bem como, conseguiu fugir do cativeiro e não se soube mais dele. Diz-se que está sepultado em Limoges, não se sabendo o que fez da vida depois deste episódio - que está documentado.

 

Resta saber se seria mesmo ele ou apenas um mentiroso como tantos outros que tentaram fazer-se passar pelo rei morto. Os seus conhecimentos sobre vários assuntos confidenciais da coroa portuguesa eram assustadores, mas isso não prova que fosse o rei. Se o era, porque não voltou a Portugal e reclamou o que era seu por direito? Segundo o próprio, quando voltou o reino já estava virado do avesso com a notícia da sua morte e não foi capaz de enfrentar a vergonha do que aconteceu. Nunca saberemos a resposta certa, mas uma coisa é certa: o corpo que voltou de Marrocos tanto podia ser o do rei D. Sebastião, como o de um camponês recrutado à força para combater por ele. Seria ele?

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Por mim metias coisas dessas todos os dias aqui. Não sei o que te responder por não ter conhecimentos para isso, mas sabe-me pela vida ler sobre este tipo de assuntos vindo de quem sabe.

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Editei o primeiro post, colocando os contributos de todos por épocas, e dentro disso por ordem mais ou menos cronológica.

 

Aproveito para pedir que não deixem este tópico morrer, é dos melhores tópicos do fórum e é-o principalmente pelo excelente contributo de vários users. Não deixem de ajudar.

 

_________________________________________________________

 

O Partido Comunista Português durante a Segunda Guerra Mundial

 

Antes da guerra

 

Sabe-se, hoje, muito pouco sobre o passado do histórico Partido Comunista Português (PCP). Várias razões existem para que isso aconteça, desde o carácter clandestino que o partido teve de assumir durante o Estado Novo até à reinvenção da sua história por parte do próprio PCP, através da ocultação de acontecimentos. O período da Segunda Guerra Mundial foi especialmente atribulado para o PCP, como o foi para toda a Europa, primeiro, e Mundo, depois, mas nos registos oficiais do partido há um grande buraco e uma enorme falta de informações. Não é por acaso.

 

Voltemos à década de 30 do século XX. Portugal vivia os primeiros anos de um novo regime político, que ficaria para a história conhecido por Estado Novo, caracterizado por um forte pendor nacionalista e pela repressão a qualquer oposição política. O único partido aceite era a União Nacional, controlado totalmente pelo poder instituído. O PCP movia-se nos meandros da clandestinidade, conseguindo, apesar de tudo, um bom número de militantes e alguma boa organização, não obstante a oposição do Estado Novo, mais próximo dos regimes totalitários de direita que grassavam pela Europa e marcadamente anticomunista e antisoviético. A liderança do partido era assegurada por um Secretariado central.

 

Esse Secretariado ruiu, porém, em meados da década. Os seus ocupantes, Bento Gonçalves e José de Sousa, membros prestigiados dentro do partido e líderes carismáticos, foram presos e enviados para o Tarrafal (Bento Gonçalves não voltaria a sair com vida do cativeiro, enquanto José de Sousa só na década de 40 voltaria a ser "livre"), gerando-se o caos interno. Surgiram acusações de bufos a fornecer informações e infiltrações de Pides nas estruturas do partido; à falta de liderança de homens carismáticos juntaram-se as disputas pessoais e ideológicas de quem pretendia assumir o controlo do partido. Com as suspeitas de infiltrações e a falta de unidade interna, a prisão em 1938 de Francisco de Paulo Oliveira (mais conhecido por Pável), então o líder do Secretariado, foi a gota de água para a Internacional Comunista (Comintern), que expulsou o PCP.

 

Perante a falta de homens carismáticos, uma nova linha de dirigentes subiu ao topo da hierarquia: Álvaro Cunhal era um deles. Estávamos então na iminência de uma nova guerra mundial e Portugal ainda não definira uma posição. O PCP, assim como praticamente toda a oposição não-comunista, assumia-se como "aliadófila", isto é, que Portugal deveria colocar-se do lado de Inglaterra, França e URSS, contra os totalitarismos de direita assumidos por Hitler e Mussolini, fortes obstáculos ao avanço do comunismo.

 

Durante a guerra

 

Inesperadamente, porém, a URSS e a Alemanha assinaram o Pacto de Molotov-Ribbentrop, mais conhecido por Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético. A URSS, grande farol da ideologia do PCP, tornou-se então um Estado neutral no inevitável conflito bélico, o que obrigava o PCP a dar uma volta de 180º naquilo que defendia. Subitamente, o PCP, que até tinha defendido a entrada na guerra contra a Alemanha, passou a defender a neutralidade de Portugal; a "guerra contra o fascismo" passou a ser a "guerra imperialista"; a aliança era justificada com o carácter pacífico da URSS, que apenas pretendia manter a paz e as suas fronteiras, não tendo qualquer ambição territorial. Porém, quando a URSS invadiu a Polónia (e mais tarde a Ucrânia, Roménia, Finlândia e os três países bálticos: Estónia, Letónia e Lituânia), Cunhal virou novamente o discurso, e a URSS "pacífica" que só queria manter as fronteiras passou a ser a URSS que invadiu os seus vizinhos para os salvar dos nazis e para levar até eles o comunismo. No entanto, estas mudanças não foram pacíficas e, se o PCP seguiu esta inflexão do discurso de Álvaro Cunhal, os velhos líderes presos no Tarrafal não o fizeram, tendo desdenhado o Pacto e acusado a URSS de traição.

 

As consequências deste contorcionismo político, para o PCP, foram terríveis. Internamente, ficaram isolados, pois a oposição não-comunista mantinha o seu apoio aos aliados e ficaram atónitos com a neutralidade comunista; internacionalmente, o PCP fora expulso da Internacional Comunista e a guerra cortara-lhe a comunicação com a URSS. O PCP estava isolado e sem liderança - moribundo.

 

Em 1940, alguns elementos presos em meados dos anos 30 foram libertados. Chegados a Portugal, depararam com um partido moribundo, desorganizado, liderado por elementos que não conheciam. Desconfiando desses homens e das suas ideologias, criaram um novo PCP, liderado por elementos com prestígio. Ficaram conhecidos como Reorganizadores (o PCP que se mantinha ficaria conhecido por Direcção). Estas duas facções envolveram-se numa guerra pessoal e ideológica em larga escala, procurando obter maior número de militantes e o favorecimento da Internacional Comunista. Os Reorganizadores trouxeram com eles a liderança e a organização que a Direcção não tinha; porém, faltava-lhe uma linha ideológica coerente, e essa era a grande vantagem da Direcção que mantinha a ideologia soviética da URSS como linha mestra do seu discurso.

 

Esta guerra que chegou a ser marcada por ataques pessoais, terminou abruptamente em 1942, com a prisão das chefias de ambas as facções: Júlio Fogaça e Vasco de Carvalho. Nos Reorganizadores viveram-se períodos dramáticos com a prisão do seu líder. Além disso, havia falta de meios e de dinheiro, e faltava um intelectual que conseguisse chegar às massas estudantis e intelectuais. Entre a oferta existente, Álvaro Cunhal foi o escolhido, e este não desaproveitou a oportunidade de, uma vez no Secretariado dos Reorganizadores, reinventar o movimento. Os Reorganizadores passaram a ter o modelo e a ortodoxia soviética como guia, juntando a isso a organização e o efectivo que já possuía. O movimento Reorganizador encontrou, assim, um período de crescimento que sufocou a antiga Direcção (da qual o próprio Cunhal fizera parte, tendo sido um dos responsáveis pelos contorcionismos justificativos da acção da URSS). O PCP tornou-se, então, um partido nacional e pacificado.

 

O final da guerra

 

Com o aproximar do fim da guerra, em 1945, parecia certa a queda da Alemanha nazi (a Itália de Mussolini já caíra) e, com isso, a base de suporte do Estado Novo parecia ruir - a queda deste parecia evidente. Faltava saber como: se uma insurreição armada, se um golpe pacífico que se limitasse a substituir as chefias por outras de carácter democrático. O PCP procurou jogar em todo o tabuleiro, isto é, não quis assumir-se apenas numa das opções, procurando jogar em ambas para não ficar fora de jogo caso fizesse a aposta errada. Só que nem o apoio internacional das democracias ocidentais contra o estado "fascista" português surgiu, nem o regime implodiu; a oposição, e o PCP também, não tomaram qualquer decisão sobre o que fazer em tempo útil e perante a hesitação, o receio em ficar fora de jogo, foi o Estado Novo que resistiu.

 

"O PCP foi, portanto, um partido sempre à deriva nas suas políticas. Ora mudando de discurso para igualar as posições soviéticas, ora evitando decisões definitivas para não ficar “fora de jogo”, a verdade é que se nota que era um partido à deriva, que atravessou fortes convulsões internas, foi fortemente afectado e prejudicado pela Guerra Mundial e pela dança da URSS, acabando por perder uma boa oportunidade em 1945 para derrubar o regime. Faltou, também, apoio internacional, que nem o PCP nem a restante oposição tiveram no pós-guerra, apesar do isolamente cada vez mais evidente de Portugal no contexto internacional".

 

BlackHawk

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história gira, avô blacóque.

 

Devia ter sido o Desc a contá-la, testemunhos de quem esteve lá são muito mais valiosos.

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. O PCP, assim como praticamente toda a oposição não-comunista, assumia-se como "aliadófila", isto é, que Portugal deveria colocar-se do lado de Inglaterra, França e URSS, contra os totalitarismos de direita assumidos por Hitler e Mussolini, fortes obstáculos ao avanço do comunismo.

 

Durante a guerra

 

Inesperadamente, porém, a URSS e a Alemanha assinaram o Pacto de Molotov-Ribbentrop, mais conhecido por Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético. A URSS, grande farol da ideologia do PCP, tornou-se então um Estado neutral no inevitável conflito bélico, o que obrigava o PCP a dar uma volta de 180º naquilo que defendia. Subitamente, o PCP, que até tinha defendido a entrada na guerra contra a Alemanha, passou a defender a neutralidade de Portugal; a "guerra contra o fascismo" passou a ser a "guerra imperialista"; a aliança era justificada com o carácter pacífico da URSS, que apenas pretendia manter a paz e as suas fronteiras, não tendo qualquer ambição territorial. Porém, quando a URSS invadiu a Polónia (e mais tarde a Ucrânia, Roménia, Finlândia e os três países bálticos: Estónia, Letónia e Lituânia), Cunhal virou novamente o discurso, e a URSS "pacífica" que só queria manter as fronteiras passou a ser a URSS que invadiu os seus vizinhos para os salvar dos nazis e para levar até eles o comunismo. No entanto, estas mudanças não foram pacíficas e, se o PCP seguiu esta inflexão do discurso de Álvaro Cunhal, os velhos líderes presos no Tarrafal não o fizeram, tendo desdenhado o Pacto e acusado a URSS de traição.

 

 

grande versatilidade da coluna vertebral... :lol:

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Só sei que o Álvaro Cunhal foi um dos homens mais inteligentes no país. De sempre.

 

Ah, mas sem dúvida nenhuma. Já disse noutro tópico, admiro-o pela coragem, inteligência, integridade e fidelidade aos seus ideais (ou aos ideais soviéticos, mesmo em tempos onde era mais fácil ignorá-los). Não coloquei isso em causa, de todo.

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Por mim metias coisas dessas todos os dias aqui. Não sei o que te responder por não ter conhecimentos para isso, mas sabe-me pela vida ler sobre este tipo de assuntos vindo de quem sabe.

Isto.

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Eu bem peço para não deixarem morrer o tópico, mas ninguém me liga :(

 

Não é necessário muito, pode ser até um simples copy/paste da Wikipedia sobre um assunto que vos interesse, pode ser o bastante para fazer surgirem boas discussões e dar a conhecer acontecimentos que outras pessoas não conheçam. É para isso que este tópico serve, para dar a conhecer factos e acontecimentos e trocar conhecimentos :happy:

______________________

 

O Renascimento Medieval

 

Este contributo não está bem dentro daquilo que é habitual quando se fala de História. Não é uma batalha, nem um acontecimento de ruptura, não tem sequer uma data definida, mas acho que pode ser interessante... pelo menos para quem se interesse por estes temas. É um dos patinhos feios da História, a maioria não gosta porque não é "emocionante" como uma batalha ou a descrição dos feitos de um "herói", mas teve provavelmente maior importância que qualquer grande vitória militar.

 

O final da última glaciação, a de Würm há perto de 10 mil anos atrás (dito assim por simplicidade de linguagem, porque isto dava pano para mangas :mrgreen: ) foi acompanhado por transformações no meio físico. Os glaciares regrediram, o nível médio das águas dos oceanos e mares aumentou, a temperatura média do planeta subiu exponencialmente. Apareceram as condições ideais para a prática da agricultura em determinados locais - para o "nosso" caso específico, importam referir: os crescentes férteis do rio Nilo; o terreno entre os rios Eufrates e Tigre, no actual Iraque; e a faixa costeira do que é hoje Israel. Não foi por acaso que surgiram nesses locais civilizações milenares e cuja cultura ainda hoje nos preenche a imaginação, desde os Sumérios aos Babilónios, dos Egípcios aos Cartagineses.

 

Para concluir rapidamente esta introdução, que já vai grandita e depois ninguém lê isto tudo, as primeiras cidades, ainda que algo rudimentares, surgem já há vários milhares de anos. Factores como a fertilidade dos solos e a boa produção agrícola contribuíram, tal como a aumento do comércio que a abundância permitia. Nos milhares de anos que se seguiram, salvo alguns recuos pontuais, as cidades floresceram, tornaram-se enormes focos de comércio e cultura; Roma terá sido o seu expoente máximo, tendo chegado a atingir o milhão de habitantes ainda na sua fase Imperial (é um número discutível).

 

No entanto, vários factores levaram a um forte retrocesso neste movimento. Eu destaco a queda do Império Romano, as invasões bárbaras e a expansão árabe. As cidades passaram a ser locais perigosos e alvos fáceis dos invasores; a expansão árabe levou a que toda a costa sul do Mediterrâneo se tornasse sua, e o comércio entre árabes e cristãos não foi pacífico, tendo diminuído drasticamente. Com a constante instabilidade política e social, guerras constantes e menor rendimentos comerciais, as cidades encolheram e perderam influência. A população reduzida produzia pouco e, por consequência, dava apenas para auto-consumo (e apenas se fosse um bom ano agrícola, porque em caso de mau ano agrícola a fome era certa). Era com este panorama desolador que se entrava no século X.

 

Com o final das vagas de invasões, em finais do século X (relembrando que neste período nos encontrávamos já em plena Reconquista na Península Ibérica), começam a surgir os primeiros indícios do renascimento medieval, que se foi consolidando ao longo do século XI. Partindo da zona dos rios Reno e Loire, na actual França, surgiram várias inovações agrícolas que se espalharam pela Europa:

 

- novas forças motrizes (o uso das energias eólica e hidráulica com moinhos), melhoria na utilização da tracção animal (destaco a introdução do sistema de atrelagem em fila), o uso do ferro no fabrico de enxadas, foices, gadanhas e outros instrumentos agrícolas em vez da madeira, e o uso da charrua em vez dos arados;

- novas técnicas de irrigação dos solos e o sistema de afolhamento trienal das culturas (que consiste em dividir os terrenos em três: um com cultura de Inverno, outro com cultura de Primavera, outro em pousio);

- os cavalos passaram a ser utilizados juntamente com os bois, e substituiu-se a aveia pela cevada nas suas alimentações.

 

Estas inovações técnicas levaram a uma série de transformações na Europa. Subitamente a produção agrícola aumentou, bem como a qualidade de vida das populações; daí a um significativo crescimento demográfico foi um passo (a população europeia entre os séculos XI e XIV terá duplicado ou até triplicado). Estes foram factores importantes para o que se seguiria.

 

As melhores condições de vida que então se viviam levaram, obviamente, ao aumento do consumo. Os preços subiram; a circulação monetária tornou-se mais frequente e efectiva; assistiu-se, pela primeira vez desde a construção das estradas romanas, a uma melhoria das vias de comunicação e ao surgimento de estalagens, fruto do crescimento do número de peregrinos (que viajavam preferencialmente para cidades como Santiago de Compostela ou Jerusalém) e mercadores; estes últimos uniam-se em associações de mercadores, as guildas, com o objectivo de melhor protegerem os seus interesses económicos e garantir a segurança física dos seus membros.

 

Os mercadores viajavam, obviamente, em busca do lucro. Se inicialmente se centravam em produtos de luxo, com o tempo passaram a "comerciar" de tudo um pouco, de armas a metais, de panos a especiarias, de vinho a cereais. As populações, como se compreende, já produziam excedentes para exportação; o tempo do auto-consumo passara. Certas cidades, como as da Flandres (Ypres, Lille, Gand e Bruges) ou do norte de Itália (Vezena, Amalfi, Génova e Pisa), floresceram imenso com o comércio dos seus produtos e eram locais de excelência para os mercadores.

 

O movimento dos mercadores levou ao surgimento dos primeiros mercados e feiras, geralmente em locais de forte circulação de mercadores. Assim, as zonas entre a Flandres e o norte de Itália, e em especial as regiões de Champagne e Brie (no nordeste da actual França) acolheram feiras onde mercadores das mais diversas origens e nacionalidades (novamente por facilidade de linguagem, pois o conceito de nacionalidade é algo posterior a este período), geralmente englobados em guildas, vendiam os seus produtos.

 

Apesar das melhorias das vias de comunicação, era ainda arriscado deambular de cidade em cidade, já para não falar das viagens marítimas e do risco de pirataria e naufrágio. Aproveitando o nicho de mercado, surgem as primeiras companhias de seguros, de crédito e até os primeiros Bancos (algumas com agências em várias cidades europeias), que já nesta altura aceitavam depósitos de dinheiro e faziam câmbio de moeda. Muitos comerciantes recorriam, já nesta altura, ao crédito bancário para investir em novas oportunidades de negócio, fosse investimento em produtos exóticos ou simplesmente compra de embarcações para transferir os seus produtos. Havia já uma classe mercadora bastante activa - na verdade foi o nascimento de um novo grupo económico - e uma efectiva actividade bancária a suportá-la. A base da riqueza deixou de ser exclusivamente a posse da terra, pois agora o dinheiro também já o era.

 

Este período de notáveis inovações tecnológicas, sociais, financeiras e demográficas, teria um final abrupto durante o século XIV com o desencadear da Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra. Ficava para trás uma época de ouro medieval, a comprovar que a Idade Média não é o período das trevas e ignorância que a sociedade actual tanto tenta cultivar.

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Fake. O primeiro europeu a lá chegar foi português, até porque o norte da Austrália aparece em mapas portugueses do século XVI.

Bem me parecia

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Realmente é incrível o quão pouco sei (e o quão pouco é abordado na História que se dá na escola) desde o Império Romano até ao século XIV.

 

Fala-se da fundação de Portugal, da reconquista cristã e pouco mais.

 

Mais um excelente post, Black :prayer:

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Ficava para trás uma época de ouro medieval, a comprovar que a Idade Média não é o período das trevas e ignorância que a sociedade actual tanto tenta cultivar.

 

por acaso é.

está relacionado com certos avanços mais científicos, filosóficos e artísticos.

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É crença popular que Nero, o 5º Imperador do Império Romano, causou um incêndio particularmente violento que devastou, durante uma semana, grande parte de Roma, no ano de 64 dC.

 

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Desde o início do incêndio que ele alastrou com grande rapidez, pelo que o acaso não podia ser o causador da catástrofre e continuaram-se procurar culpados. Houve gente que disse ver homens a lançar tochas para as casas, enquanto outros acusaram Nero como culpado. Segundo eles, como Nero desejava refazer de raíz a sua capital, teria encontrado um meio eficaz de arrasar os velhos bairros. Vozes mais difamadoras afirmavam que o tinha feio para encontrar inspiração para compor a sua epopeia: "A Tomada de Tróia".

Mal soube os rumores que circulavam a seu respeito, Nero entra em pânico e dá um bode expiatório à multidão. Aponta um culpado que o iliba completamente, oficializando a acusação a uma pequena seita religiosa cristã, cujos rituais teriam irado os deuses tutelares de Roma. Prendem e executam-se 200 deles e o seu martírio foi um espetáculo, em que se transformaram em tochas humanas e iluminam as festas que Nero ofereceu ao povo nesses dias.

Nada, nos nossos dias, pode provar com segurança a culpa do imperador. A única coisa verosímil na explicação é que o fogo tinha começado nos armazéns de azeite e trigo construídos nas docas e se propagou rapidamente por causa do vento. Como foi no Verão e as reservas de água eram escassas, foi difícil combater o incêndio, ao longo de 9 dias de catástrofe. Existiram consequências económicas imensas, mas ninguém liga a isso, pois todos se sentem sobretudo tocados pela hipótese de Nero ser um pirómano e pela execução pouco ortodoxa de inocentes.

 

(adaptado de "Memória do Mundo", Círculo de Leitores)

 

Btw, fala-se aí em cima de um bode expiatório. Sabem como surgiu? Antigamente, em Jerusalém, nas festividades da Páscoa estava amarrado um bode (ou, por vezes, um carneiro) à porta do templo. As pessoas ao entrarem, tocavam a cabeça do bode para expiar os pecados. Ou seja, passavam os seus pecados para o bode que, depois, era atirado por um penhasco abaixo. E sabem o que estava no fundo desse penhasco? Um fogo ardente para onde o lixo, orgânico ou não, era atirado. E, quando havia batalhas, os soldados inimigos eram atirados para lá, ainda meio mortos. Como estavam a sofrer com ferimentos e com as labaredas, havia um "choro e ranger de dentes" que se ouvia na cidade. É daí que vem a designação de Inferno, porque esse fogo ardente é para onde se atirava o bode com os pecados e onde os inimigos de Israel encontravam a morte. Os pecados e o inimigo pertencem ao fogo. A Igreja é que, mais tarde, distorceu esta designação para um local no pós-morte.

Editado por Samurai Apocalypse

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