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Estórias da História

Publicações recomendadas

Citação de Black Hawk, há 10 minutos:

Entretanto, vai ser feita análise ADN aos restos mortais de Cristóvão Colombo, aos do seu filho e ainda aos do irmão do navegador. O objetivo é colocar um ponto final nas teorias da conspiração sobre a sua origem.

Uma rápida pesquisa sobre isto na imprensa portuguesa e já apanhei umas quantas patetices que só servem para enganar os leitores. Desde "haver dúvidas entre os académicos quanto à sua [de Colombo] origem" (quando é praticamente consensual entre a comunidade académica que ele é genovês... o que não impede que a comunidade académica esteja errada, obviamente, mas não há até ver evidências fortes para colocar dúvidas quanto à sua origem) à sua "descoberta do caminho marítimo para o continente americano", já fui lendo de tudo.

De qualquer forma, fico curioso para saber os resultados da análise.

Se concluirem que é genovês as mesmas pessoas que têm essas teorias da conspiração vão dizer que não são os restos mortais dele.

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Citação de Black Hawk, há 46 minutos:

 à sua "descoberta do caminho marítimo para o continente americano",

Queres explicar melhor esta parte? 😁

Eu entendo onde é que essa frase pode estar errada, mas não sei se é algo que eu desconheço ou se é no sentido que eu acharia a frase errada.

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Citação de Carlos Gouveia, há 3 horas:

Queres explicar melhor esta parte? 😁

Eu entendo onde é que essa frase pode estar errada, mas não sei se é algo que eu desconheço ou se é no sentido que eu acharia a frase errada.

Opa, já ando há uns anos fora destas guerras, já não me é fácil encontrar até vocabulário apropriado para posts desenvolvidos como alguns dos que fiz - alguns até neste tópico, muitos deles têm links no primeiro post.

De qualquer forma, há várias coisas erradas em dizer-se que Colombo descobriu o "caminho marítimo para o continente americano". Algumas delas por questões de lógica historiográfica, outros vão parecer apenas questões de semântica, mas são, ou deveriam ser, importantes até para a coerência dos conceitos.

Primeiro, o conceito de "descoberta" em História implica mais do que encontrar algo; o termo que que costuma ser usado por oposição é "achamento". Normalmente a "descoberta" é metódica, é fruto de estudo e análise com vista a um determinado objetivo.

Por exemplo, a expansão portuguesa não foi feita à toa. Não se atiraram barcos à sorte mar adentro à espera de se descobrir cenas aleatórias. Houve um largo período de estudo de mapas antigos, previamente identificados e adquiridos, cruzaram-se relatos, mapas e informações para se ter o conhecimento possível sobre o que havia para além da linha do horizonte. À medida que se ia avançando um pouco mais além, recolhia-se todo o tipo de informação: ventos, marés, linhas costeiras, fauna e flora, existência de nativos ou a sua ausência, constelações, tudo o que pudesse ser útil.

Foi-se desenvolvendo tecnologia naval para a construção de navios cada vez mais adaptados aos mares, às correntes e às exigências das viagens no Atlântico - a caravela, por exemplo. Desenvolveram-se ou adaptaram-se instrumentos de apoio à navegação, pela análise do grau de declinação do sol ou das constelações noturnas, para se saber com precisão onde o navio se encontrava para se poder navegar em alto mar.

Houve intensa recolha de informação junto dos povos nativos das terras novas a que se chegava para se tentar antecipar o que haveria a descobrir mais à frente.

Quando se delineou o objetivo de chegar à Índia por mar, foram enviados espiões por terra à Índia e à África Oriental para recolher o máximo de informação sobre os modos de navegação no Índico, as rotas, os povos, os costumes locais. Ao dobrar-se o cabo da Boa Esperança, a diferença entre o Atlântico e o Índico obrigou ao desenvolvimento de navios diferentes preparados para a biodiversidade própria deste último, pois era diferente da do Atlântico.

Ao aportar a Calecute em 1498, pode-se de facto dizer que a armada liderada por Vasco da Gama "descobriu" o caminho marítimo para a Índia. Houve cerca de um século de preparação para aquele momento - sendo certo que na maior parte desse tempo o objetivo Índia não estaria definido, foi todo esse processo que permitiu chegar a esse desfecho.

Virando agulhas para o Colombo, o homem nem sequer sabia que a América do Norte existia. Quando partiu de Sevilha, ele ia para ocidente já tendo a base do conhecimento acumulado dos portugueses (e ele morou cá muito tempo, até casou cá), mas pensava que indo para Ocidente só parava no Japão. Durante imenso tempo após aportar nas Antilhas, ele julgava realmente estar na Ásia. É preciso ser um pouco... benevolente, vá, para se considerar isto uma descoberta no sentido historiográfico do termo.

O Colombo encontrou a (ou os arquipélagos da) América do Norte quando tentava chegar à Ásia, e com isso abriu-se uma nova via de exploração do Novo Mundo, mas não se considera normalmente que ele tenha descoberto o caminho marítimo para a América do Norte. Nem que seja pelo que já referi, ou até por não ser propriamente desconhecida a existência de terras naquela região: vários navegadores já tinham relatado haver "sinais de terra" para ocidente (coisas como madeira a boiar em alto mar, marés e climas coerente com regiões costeiras, entre outros), a zona nordeste da América do Norte era visitada por pescadores portugueses com regularidade (era conhecidas como a Terra dos Bacalhaus).

PS: eu avisei que isto parece mais uma questão de semântica do que outra coisa, mas em termos historiográficos isto é uma diferença gigantesca.

Editado por Black Hawk
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Supostamente a do Alentejo é por causa das Cubas para fazer vinho

Citação de Hawkeye, Agora:

Supostamente a do Alentejo é por causa das Cubas para fazer vinho

e o pais pode ser por causa do Colombo ser natural da do Alentejo

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Citação de Tio Hans, há 58 minutos:

@Black Hawk o facto de Cuba se chamar Cuba é coincidência ou há alguma relação com Cuba do Alentejo?

Por acaso sigo a ideia de ser coincidência. Há evidências de haver palavras de nomenclatura muito próxima à do termo Cuba nos dialetos dos povos que habitavam à data a ilha, tanto para se referirem à terra, como a eles próprios.

Houve uma altura em que ainda investiguei as teorias do Colombo português, por curiosidade e por achar que seria engraçado ele ser dos nossos, mas as evidências apresentadas não são propriamente sólidas.

O que não implica que não se venha a descobrir que afinal o gajo até era tuga, mas será necessário algo novo para o provar, pois o que há até agora não convence ninguém. Ninguém, isto é... estás a perceber 😁

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Historiadores de serviço chamados à recepção. O que este gajo diz tem pés e cabeça ou é só coisas para vender livros?

Não liguem à imagem da Fátima Lopes.

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Citação de Puto Perdiz, Em 21/05/2021 at 20:58:

 

Historiadores de serviço chamados à recepção. O que este gajo diz tem pés e cabeça ou é só coisas para vender livros?

Não liguem à imagem da Fátima Lopes.

Pah, só ouvi um bocadito, mas parece ter potencial para ser uma hora bem passada e merece ser visto com atenção.

Pelo potencial de comédia, bem entendido 😁

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Citação de Black Hawk, há 12 horas:

Pah, só ouvi um bocadito, mas parece ter potencial para ser uma hora bem passada e merece ser visto com atenção.

Pelo potencial de comédia, bem entendido 😁

Bem, consegui ouvir metade do programa, a outra metade terá de ser logo à noite. Já dava para fazer uma dissertação sobre a arte de falar do que não se sabe e talvez um mestrado em parvoíce pegada.

@Augusto, tens de ver isto. Acho que há mais alguém da nossa área por cá, mas não me lembro do nick. Vejam, que isto é muito bom.

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Citação de Black Hawk, há 12 horas:

Pah, só ouvi um bocadito, mas parece ter potencial para ser uma hora bem passada e merece ser visto com atenção.

Pelo potencial de comédia, bem entendido 😁

já chegaste à parte do: "tá na internet!"

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Citação de Puto Perdiz, há 2 minutos:

já chegaste à parte do: "tá na internet!"

Yah, e da pesquisa dos mapas por alta definição 😁

Nesse vídeo, eles meteram alguns comentários de pessoal no Facebook sobre a intervenção do José Gomes Ferreira e... pah, há uma passagem numa obra de Hemingway em que uma personagem a certa altura está preocupada em saber quem vai lutar ao seu lado nas trincheiras. Quando lhe perguntam o que importa isso, ele responde que é mais importante do que a própria guerra.

Quando este José Gomes Ferreira, como as Raqueis Varelas e outros assim, defendem determinada opinião e os que os acompanham lado a lado são os maluquinhos das teorias da conspiração (a certa altura estava um até a comentar que a História é controlada por sociedades secretas LOL), se calhar seria altura de pararem, olharem em volta e perceberem que se calhar ultrapassaram os limites da racionalidade...

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Citação de Black Hawk, há 28 minutos:

Acho que há mais alguém da nossa área por cá, mas não me lembro do nick. Vejam, que isto é muito bom.

Eu licenciei-me em História, mas já não estou na área. Não sei se havia mais alguém por aqui. Tenho de ver isso desse maluco ahah

Editado por Spikey

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fiquei com a ideia que o JGF é um bocado das teorias da conspiração quando ele começou a falar das fotos de marte.

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Citação de Black Hawk, há 19 minutos:

Bem, consegui ouvir metade do programa, a outra metade terá de ser logo à noite. Já dava para fazer uma dissertação sobre a arte de falar do que não se sabe e talvez um mestrado em parvoíce pegada.

@Augusto, tens de ver isto. Acho que há mais alguém da nossa área por cá, mas não me lembro do nick. Vejam, que isto é muito bom.

O José Gomes Ferreira, o tudólogo com maior tempo de antena do país? Não posso 😮 

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Hum. Foi ainda pior do que esperava. A primeira metade do vídeo ainda vi numa perspetiva de ir achando piada; a segunda parte, se calhar por já estar cansado depois de um dia de trabalho, já a paciência para disparates foi mais ténue. E no final, quando ponderei bem sobre o que acabei de ver, já senti alguma revolta com a situação.

Indo por partes.

Primeiro de tudo, não há mal algum em haver malta fora da área de História a interessar-se por ela - bem pelo contrário, é um óptimo sinal. O problema, como acontece noutras áreas, é haver muita gente que vem sem interesse em aprender a "fazer História", com um total desprezo pela forma como a mesma é trabalhada por quem dedica uma vida inteira à investigação e ainda se arrogam ao direito de criticar arrogantemente o trabalho destes... apesar de nem terem sequer ponta de ideia de como se faz investigação histórica.

O caso do José Gomes Ferreira é quase o exemplo modelo disto tudo.

A História é uma Ciência Social que, como qualquer ciência, é metódica. A História faz-se pela análise das fontes, pelo cruzamento de informações, pela formulação de questões; há uma metodologia apropriada. Nos cursos de História ensina-se tudo isto, no meu tempo num autêntico cadeirão chamado Historiografia. Neste aspeto, a História, mesmo sendo uma Ciência Social, não é diferente de outras ciências. Aprende-se a matéria, sim, mas também a exercer a profissão.

Quando estes Zés Ferreiras aparecem do nada a criticar o trabalho dos historiadores e a apresentar o seu próprio trabalho, arrogando-se ao epíteto de "historiadores alternativos", geralmente esbardalham-se ao comprido logo à primeira oportunidade porque não sabem "fazer História".

Este "fazer História" é difícil. A História não é, nem ambiciosa ser, um retrato fiel do que aconteceu no passado. Nem tal seria possível: há sempre factos que se perdem, estórias mal contadas, manipuladas ou que nunca chegaram a ficar gravadas em qualquer fonte histórica.

A História é a leitura que se faz das fontes históricas disponíveis. Analisam-se as fontes e, com base na investigação das mesmas, formulam-se teorias que são debatidas. Recorrentemente, novas teorias vão surgindo que explicam melhor as fontes de que dispomos, substituindo outras teorias mais antigas que deixam de reunir consenso.

O José Gomes Ferreira faz o *exato oposto* disto: ele formula a sua teoria e tenta escolher as fontes que melhor se lhe aplica, ignorando as fontes que não lhe servem. Neste aspeto, ele faz na sua... cof cof... "investigação histórica"... o mesmo que faz qualquer teórico da conspiração dos alienígenas do Canal História: molda por completo os factos, deturpa-os para encaixarem na sua narrativa e ignora convenientemente os que a colocam em causa. Isto é perceptível quando diz que há períodos históricos que não são investigados pelos historiadores, alegando que se o fossem, estes teriam de mudar o paradigma histórico.

Ser investigados, são. As conclusões dessas investigações é que não validam as narrativas que o Zé Ferreira quer implementar e ele opta por ignorá-las, o que é um pouco diferente. Por outro lado, se ele de facto fez grande parte da sua pesquisa na internet, como o próprio afirmou orgulhosamente, é natural que depois quando tenta confrontar os conhecimentos aí adquiridos com a obra de historiadores a sério descubra, surpreendentemente, que as teorias que construiu de parvoíces de blogs e vídeos do youtube não têm qualquer sustentação no mundo real da análise histórica...

Bem, mas isto está a ficar longo e, de forma a abreviar isto, quero só referir que nada do que ele disse é propriamente novo: quase tudo o que ele disse são teorias velhas e recauchutadas que já se conheciam, a esmagadora maioria já amplamente refutadas pelas fontes históricas ou sem evidências que as sustentem.

A teoria do Colombo espião, a de Portugal ter descoberto o mundo todo e ter escondido esse segredo do mundo, a origem do nome de Portugal, tudo isso já é por demais conhecido e já altamente descrebilizado excepto pelos doidinhos das teorias da conspiração. A do Magalhães ser um espião português e ter "descoberto" as Filipinas para as dar a Espanha apanhou-me de surpresa, confesso, e é das coisas mais parvas que já ouvi até hoje.

Quanto às acusações dele à comunidade histórica, é precisa uma audácia do carvalho para um sujeito sem qualquer conhecimento de análise histórica e/ou do meio académico sa História vir falar como se tivesse conhecimentos de causa.

Já tinha uma opinião bem reservada dele por não gostar propriamente de "tudólogos", mas como até aqui ele falava de assuntos fora da minha zona de conforto, não podia tecer grandes considerações. Agora, depois de o ver atacar o trabalho de historiadores com vidas inteiras dedicadas à investigação, acusando-os de fraude académica, apresentando teorias velhas, caquéticas e recauchutadas como novas e suas, adulterando o ónus da investigação e manipulando as fontes para construir voluntária e conscientemente narrativas falaciosas, fiquei com a certeza que este gajo é tão desonesto quanto se o pode ser. E se o faz nisto, é provável que também o faça noutras áreas.

PS: mas vejam o vídeo que vale a pena. A parte em que ele diz que a NASA manipula as imagens de Marte para o planeta parecer vermelho, quando na verdade é verde e azul, é de longe a minha favorita. Que grande palerma LOL

Se alguém tiver curiosidade em esclarecer alguma das teorias do tipo e eu souber explicar, também é tranquilo.

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por momentos pensei que ele fosse falar da rábula do D. Sebastião em Alcácer do Sal com o "urso". Não sei se foi aí nessa entrevista que alguém falou que em Marrocos ensinam aos putos o que aconteceu ao D. Sebastião, mas que aqui não ensinam.

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Muito canal História e Discovery para a cabeça, com uns laivos fortes de nacionalismo bafiento. Como não amar.

Confesso que tinha esse nabo como um gajo minimamente sério e até extremamente aborrecido, pelos vistos não, é um teórico da conspiração a sair do armário. Isso ou precisa de ganhar uns trocos rapidamente.

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Citação de Black Hawk, há 46 minutos:

O José Gomes Ferreira faz o *exato oposto* disto: ele formula a sua teoria e tenta escolher as fontes que melhor se lhe aplica, ignorando as fontes que não lhe servem. Neste aspeto, ele faz na sua... cof cof... "investigação histórica"...

O José Rodrigues dos Santos faz o mesmo, e depois vem dizer que o que mete nos livros é sustentado com fontes e passa a ideia que todos defendem aquilo quando são pequena uma minoria.

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A página de Facebook "Repensando a Idades Média", que volto a recomendar vivamente, publicou há momentos um post sobre o tema que aproveito para transpor para aqui.

Aprofundam melhor o tema do que eu alguma vez conseguiria fazer e conseguem fazer contraditório a algumas passagens do infame livro que desconhecia, pois ainda não o li e apenas me baseei no que o Zé Ferreira disse no Prova Oral.

Parece que o livro é ainda pior do que imaginava...

Como já será bem sabido do nosso público, José Gomes Ferreira publicou ainda este mês um livro chamado “Factos Escondidos da História de Portugal”.

Depois de termos ouvido um episódio absolutamente chocante no Prova Oral – até com direito a teorias da conspiração sobre a atmosfera de Marte baseadas em “astrónomos amadores”! – e motivados pelos nossos amigos Roger Lee de Jesus e Paulo Dias, consultámos uma cópia do livro em questão. Ora bem, cingindo-nos a medievalidades, nada do que o autor escreveu é novo, mas sim uma espécie de compilação de algumas das maiores doidices escritas sobre a Idade Média portuguesa, sem qualquer critério, muito menos jornalístico. Muito nos surpreende que um jornalista da craveira de Gomes Ferreira cite a “Nova Acrópole” ou outros “websites” cheios de incorrecções, dando-lhes o mesmo peso que investigadores reputados como o Professor João Paulo Oliveira e Costa ou Luís Filipe Thomaz? Que saibamos, um jornalista deve saber seleccionar as informações que recolhe com espírito crítico, o que Gomes Ferreira demonstra não ter feito nesta obra, quer se trate da História de Portugal, quer se considere assuntos astronómicos.

Sobre a Expansão Marítima em si, remetemos todos os comentários para os nossos amigos do Falando de História Podcast, onde foram bem assertivos, e do mesmo modo subscrevemos por baixo os comentários sobre “o desastre de Arzila” em 1437, completamente inventado por Gomes Ferreira a partir da verdadeiramente catastrófica campanha de Tânger nesse mesmo ano. Já quanto aos Painéis, a única coisa em que o jornalista acertou é no facto de o homem do chapeirão não ser o Infante D. Henrique... para disparatar com uma identificação espúria sobre o Infante D. Pedro e depois seguir Fernando Branco numa série de teorias painelistas sem base científica. Acerca deste tema, remetemos para os nossos artigos sobre o assunto para não nos repetirmos sem necessidade:

Parte 1: https://www.facebook.com/RepensandoMedievo/posts/1349895668535979

Parte 2: https://www.facebook.com/RepensandoMedievo/posts/1349895668535979

Parte 3: https://www.facebook.com/RepensandoMedievo/posts/1349895668535979

Como se não bastasse, Gomes Ferreira recua uns séculos, repentinamente, para insinuar que a origem de Portugal seria “Por tu Graal” e que Portugal seria um projecto Templário, copiando as teses de um chalupa americano chamado Freddy Silva. Como prova, apresenta um suposto “selo” de Afonso Henriques datado de 1159.

Ora bem, sem nos querermos meter por enquanto nas intermináveis (e talvez insolúveis) controvérsias sobre se “Cale” corresponderia ao Porto ou a Vila Nova de Gaia na Antiguidade e os significados do “castrum antiquum” e do “castrum novum” mencionados no “Parochiale Suevorum”, o facto é que Portugal deriva de “Portucale”. Este nome, originalmente usado para o porto de Cale, importante na Antiguidade Tardia, designava em finais da Alta Idade Média os territórios de boa parte do litoral do Norte de Portugal, mais ou menos entre os rios Lima e Vouga, associados aos primeiros condes portucalenses (provavelmente sem jurisdição territorial, ao contrário do que frequentemente se insinua). Este território daria nome ao condado territorial concedido por Afonso VI ao conde Henrique e à sua filha Teresa, em finais de 1095 ou inícios de 1096, que evoluiria ao longo dos séculos seguintes para formar o reino de Portugal. Não são necessárias explicações místicas para esta questão. E qual o sentido de um reino periférico ser escolhido pelos Templários, como se estes tivessem uma bola de cristal que previsse a sua perseguição futura? Será que os outros reinos da Cristandade eram todos projectos Templários pela instalação da Ordem no século XII? Esta ideia não passa de uma amálgama cronológica entre a instalação da Ordem e a formação do reino, sem base documental alguma, aproveitando-se do papel da Ordem do Templo na defesa e povoamento de boa parte dos vales do Zêzere e Tejo assim como da Beira Interior.

Quanto ao suposto “selo”, na verdade trata-se de um sinal rodado constante da doação do Castelo de Ceras à Ordem do Templo em Fevereiro de 1159, mas este não tem nada de especial para além do seu grafismo. Diz meramente “Portugal” no círculo interior, ladeado por “Rex Alfonsus” e “Cum filis suis”, indicadores da confirmação da doação tanto pelo rei como dos seus filhos, de modo a garantir consenso à volta deste acto solene, dando assim maior solidez à doação feita ao Templo. E a maior ironia? Estes sinais rodados são inspirados nas “rota” das bulas papais...

Poderíamos continuar a dissertar sobre o Templo, mas estaríamos a perder o objectivo do texto de hoje: alertar para a asneirada de José Gomes Ferreira. Ele não só demonstra não seguir sequer as “leges artis” da profissão de jornalista, como ainda parece desprezar completamente a formação universitária de historiadores profissionais com o argumento de que são comprados pelo poder político dos partidos do Centrão, como se Gomes Ferreira não fosse ele próprio um comentador político cujas opiniões partidárias são bem conhecidas. Mesmo assim, como se trata de uma personalidade bem conhecida entre as elites mediáticas de Lisboa, a SIC e boa parte da imprensa portuguesa dão publicidade gratuita ao livro, apesar da sua notória mediocridade. Ou seja, não poderíamos estar em presença de melhor indicador da baixa qualidade dos órgãos de comunicação social neste país. Quem fica prejudicado no final de tudo isto? Os leitores, enganados por uma obra que não só não acrescenta nada de novo, como perpetua os mesmos mitos de sempre. Por isso, a equipa do “Repensando a Idade Média” não pode deixar de condenar esta reciclagem de uma visão glorificante da História de Portugal, sem factos e a cheirar um bocado a mofo salazarento, e de recomendar o novo episódio do “Falando de História Podcast”, onde temos uma primeira refutação historiográfica desta obra, com argumentos sérios, baseados nos trabalhos de verdadeiros investigadores.

Ligação para o “podcast”: https://www.youtube.com/watch?v=yZ8XxHb17sE&t=104s

Bibliografia recomendada pelos nossos amigos: https://drive.google.com/file/d/1yD3xyajhe7CBQkhg58dziiO75ZPDMqjQ/edit

Bibliografia recomendada por nós em acrescento:

Alarcão, Jorge de (2018). “O nome e os lugares de Portucale”.In “Revista de Portugal”, Vol. 16, pp. 8-15. Disponível em: https://pt.slideshare.net/queirosiana/revista-de-portugal-n-16

Costa, Paula Pinto (2019). “Templários em Portugal: Homens de Religião e de Guerra”. Editorial Presença – Manuscrito Editora, Lisboa, 1ª edição.

Marques, José (1996). “A influência das bulas papais na documentação medieval portuguesa”. In “Revista da Faculdade de Letras”, Nº 13, 1996, pp. 25-62. Disponível em: https://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2154.pdf

Mattoso, José (1993). “História de Portugal”, vol. I, “Antes de Portugal”. Círculo de Leitores, Lisboa.

Mattoso, José (1993). “História de Portugal”, vol. II, “A Monarquia Feudal (1096-1480)”. Círculo de Leitores, Lisboa.

Mattoso, José (2014). “D. Afonso Henriques.” Temas e Debates, Lisboa, 2ª edição.

Mattoso, José (2015). "Identificação de um País". Temas e Debates, Lisboa, 6ª edição.

Real, Manuel Luís; Silva, António Manuel P. (2018). “ “Portucalem castrum novum” na época sueva”. In López Quiroga, Jorge (Coord.), “In tempore Sueborum. El tiempo de los Suevos en la Gallaecia (411-585). El primer reino medieval de Occidente. Volumen de Estudios”. Ourense, Deputación Provincial, pp. 205-210. Disponível em: https://www.academia.edu/39883136/REAL_Manuel_L_SILVA_António_Manuel_S_P_2018_Portumcalem_Castrum_Novum_na_época_sueva
_____
~ José

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Citação de Black Hawk, Em 24/05/2021 at 11:53:

Bem, consegui ouvir metade do programa, a outra metade terá de ser logo à noite. Já dava para fazer uma dissertação sobre a arte de falar do que não se sabe e talvez um mestrado em parvoíce pegada.

@Augusto, tens de ver isto. Acho que há mais alguém da nossa área por cá, mas não me lembro do nick. Vejam, que isto é muito bom.

Ainda não tive oportunidade de ouvir o programa, mas quando o fizer, digo alguma coisa. 

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Btw, no outro dia perguntaram por podcasts de História e estes disparates do Zé Ferreira fizeram-me descobrir o "Falando de História Podcast".

É muito bom, um dos tipos é meu amigo e posso atestar que o gajo sabe do que fala. Está disponível no YouTube.

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Citação de Black Hawk, há 23 minutos:

Btw, no outro dia perguntaram por podcasts de História e estes disparates do Zé Ferreira fizeram-me descobrir o "Falando de História Podcast".

É muito bom, um dos tipos é meu amigo e posso atestar que o gajo sabe do que fala. Está disponível no YouTube.

Também está no Spotify. 

Baseia-se muito no séc. XIV e XV

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@Black Hawk qual é a tua opinião sobre o Oliveira Marques?

 

queria comprar uns livros dele sobre época medieval

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Citação de Seferogol, há 23 horas:

Também está no Spotify. 

Baseia-se muito no séc. XIV e XV

É natural, é a área de especialidade pelo menos do meu amigo, algures ali na passagem do século XV para o XVI. Mas o gajo é muito bom, vale a pena ouvir.

Citação de Hawkeye, há 23 horas:

@Black Hawk qual é a tua opinião sobre o Oliveira Marques?

 

queria comprar uns livros dele sobre época medieval

É uma das referências, mas já estará um pouco desatualizado. Dependendo do que pretenderes fazer, deverá haver alternativas mais recentes e dentro das novas interpretações das fontes históricas. O Augusto fez uma lista porreira de historiadores portugueses há pouco tempo neste tópico, diria para explorares os nomes.

Se os livros que estás a pensar comprar forem os volumes de "A História de Portugal", valerá sempre a pena nem que seja como síntese e como base de conhecimentos, pois é bastante boa. Mas depois recomendaria obras mais recentes para aprofundar os conhecimentos adquiridos.

Btw, isto é longo e demora a ler, comecei ontem e só terminei há pouco - também fui lendo aos bocados por falta de tempo -, mas façam um favor a vós próprios e leiam o artigo:

https://observador.pt/especiais/quem-anda-a-falsificar-a-historia-de-portugal/

Isto é demasiado bom. O Zé Ferreira se tivesse vergonha na cara enterrava-se num buraco fundo e nunca mais falaria do assunto depois desta enrabadela a sangue frio.

Editado por Black Hawk
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