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Estórias da História

Publicações recomendadas

Não curto muito do período da pré-história, não ajuda o facto de não ter tido bons professores nas duas cadeiras que tive disso no 1º ano. Aliás, agora estou a repetir uma dessas, que é basicamente sobre o Neolítico, que é a passagem de caçadores-recoletores para agricultores, megalitismo e isso. É o cadeirão do curso, mas shame on me por não ter passado. Btw, estou no 2º ano de História na FLUL, que é 1º semestre Medieval e 2º semestre Moderna.

 

Btw, Black, recomendas a História de Portugal do Mattoso? Sempre ouvi falar que são excelentes livros. Como suponho que isso está na biblioteca, devo ler um pouco disso para ajudar ao estudo de uma cadeira que tenho.

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Não curto muito do período da pré-história, não ajuda o facto de não ter tido bons professores nas duas cadeiras que tive disso no 1º ano. Aliás, agora estou a repetir uma dessas, que é basicamente sobre o Neolítico, que é a passagem de caçadores-recoletores para agricultores, megalitismo e isso. É o cadeirão do curso, mas shame on me por não ter passado. Btw, estou no 2º ano de História na FLUL, que é 1º semestre Medieval e 2º semestre Moderna.

 

Btw, Black, recomendas a História de Portugal do Mattoso? Sempre ouvi falar que são excelentes livros. Como suponho que isso está na biblioteca, devo ler um pouco disso para ajudar ao estudo de uma cadeira que tenho.

 

o meu professor de medieval aprova

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Também fartei-me de ouvir falar bem da História de Portugal do José Mattoso.

 

Com foco em Portugal ou no contexto europeu?

 

Já agora, fui à FNAC no domingo e à Bertrand hoje mas não encontrei o livro que referiste.

Comprei na Bertrand no Dolce Vita das Antas.

 

Ambos. Eu sei que são contextos vastos mas sinto-me completamente fascinado por essa época.

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Também fartei-me de ouvir falar bem da História de Portugal do José Mattoso.

 

 

Comprei na Bertrand no Dolce Vita das Antas.

 

Ambos. Eu sei que são contextos vastos mas sinto-me completamente fascinado por essa época.

Se calhar é demais (são autênticos calhamaços) mas tens os do Umberto Eco. Neste momento acho que há 4 volumes publicados.

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O que é que se pode ler de forma mais detalhada sobre a Guerra Civil Portuguesa?

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Se calhar é demais (são autênticos calhamaços) mas tens os do Umberto Eco. Neste momento acho que há 4 volumes publicados.

Thanks, só vi isto agora. Mas de que livros é que estás a falar?

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Tempos estão confusos? Sim, mas já tivemos 51 governos em 16 anos...

 

Na atual agitação política, há dois mitos que se impõe desfazer: que vivemos tempos de perigosa instabilidade jamais vistos e que sempre fomos um povo de brandos costume

 

Nos últimos dias falou-se muito em traições, conspirações e golpes institucionais. No entanto, vistas da História, estas vicissitudes do Portugal contemporâneo nada são comparadas com aquilo que se passou, por exemplo, durante a I República. Vale, portanto, a pena, olhar para este passado.

 

Com a chegada ao poder, a 5 de Outubro de 1910, acentuam-se as divisões republicanas. À esquerda, apoiado no eleitorado urbano mais politizado, Afonso Costa. Ao centro, o republicanismo moderado, de António José de Almeida. A ala conservadora tinha como figura central Brito Camacho.

 

Num sistema parlamentar em que o Governo só respondia perante a Assembleia, a instabilidade vai ser a regra. Até 1914 o Executivo mais duradouro será o de Afonso Costa que se manterá em funções de janeiro de 1913 até fevereiro do ano seguinte. Um ano de governação que permite pôr em prática a reforma fiscal e apresentar um dos raros orçamentos equilibrados da República.

 

As perseguições a representantes da Igreja começam nos primeiros tempos da República e tornam-se uma constante. Estes excessos afastam de vez a Igreja Católica do novo regime. Os Governos sucedem-se de forma alucinante: 51 em 16 anos, ou seja a uma média de três por ano. Quase um por trimestre. Nem todos caem no Parlamento. Alguns são derrubados por golpes de Estado ou revoltas sangrentas. Multiplicar-se-ão os assassínios políticos: Sidónio Pais, Machado dos Santos, António Granjo ou Carlos da Maia, para só citar alguns.

 

Quando, em agosto de 1914, se disparam os primeiros tiros da Grande Guerra, o Governo centrista de Bernardino Machado não consegue gerar uma resposta maioritária. O Partido Republicano, a maçonaria e o rei exilado D. Manuel II são pró-aliados. Os católicos integristas e os monárquicos de Paiva Couceiro são pró-germânicos. O pacifismo seduz socialistas, anarquistas e sindicalistas.

 

A 21 de janeiro de 1915, Machado dos Santos, o herói da Rotunda no 5 de Outubro, encabeça o Movimento das Espadas que derruba o Governo de Azevedo Coutinho. Dois dias depois, o Presidente Manuel de Arriaga convida o general Pimenta de Castro a formar Governo. Fá-lo-á quatro dias depois governando “em ditadura”, ou seja, sem Parlamento. Manda para Angola Pereira d’Eça, adepto da entrada de Portugal na guerra. Será algo que mais tarde a ditadura de Sidónio Pais também fará, enviando para Moçambique militares em que não tinha confiança. A 14 de maio este Governo é derrubado por uma revolta encabeçada pela Marinha que, durante dois dias, põe Lisboa a ferro e fogo: 102 mortos e 250 feridos.

 

Estabilizada a situação, foi indigitado como primeiro-ministro João Chagas, que tomou o comboio do Porto para Lisboa. Durante a paragem no Entroncamento, o senador do Partido Evolucionista (formação republicana moderada liderada por António José de Almeida) José de Freitas, entrou no comboio de pistola na mão, convencido de que vinha lá dentro Afonso Costa, disposto a matá-lo. Fez fogo para dentro do compartimento onde vinha Chagas, tirando-lhe uma vista. Dominado por populares, foi atirado para o cais e linchado.

 

Seguem-se dois Governos chefiados por José de Castro, que preparam a entrada do país na guerra, o que acontece a 9 de março de 1916 após o apresamento de navios alemães surtos em Lisboa. É formado e treinado no polígono de Tancos um Corpo Expedicionário que começa a chegar a França em princípios do ano seguinte. Consequência das dificuldades que a população enfrenta, agravadas pela guerra, a 5 de dezembro de 1917 há um golpe militar de republicanos radicais mas opositores da guerra (como Machado dos Santos) e militares conservadores (como Alves Roçadas). Nesta aliança entram, ainda, anarcossindicalistas e dirigentes operários.

 

Afonso Costa, primeiro-ministro, é exilado. Emerge como líder o major Sidónio Pais, militar conservador que fora embaixador em Berlim. O sidonismo prefigura os regimes autoritários das décadas seguintes, misturando populismo (a famosa “sopa do Sidónio”, cozinha dos pobres), conservadorismo, religiosidade e apelos à ordem.

 

Como se refere em “A Primeira Guerra Mundial”, livro publicado pelo Expresso no verão de 2014, “para a província, analfabeta, crente e despolitizada era o retorno aos valores do ‘antigamente’. Para os meios urbanos, base natural da República, era a esperança do fim da instabilidade e dos tiroteios quase diários. Sintomaticamente Sidónio surge no mesmo ano que Fátima e, tal como os pastorinhos da serra dos Candeeiros, propõe um milagre”.

 

Sidónio ascende a Presidente, revê a constituição por decreto e é tão amado como odiado. A 16 de outubro, seis republicanos dum grupo de centena e meia que haviam sido presos após um malogrado golpe anti-sidonista são mortos durante a transferência para Caxias, incluindo o visconde da Ribeira Brava, num incidente que fica conhecido como a Leva da Morte.

 

Sidónio ainda assiste aos festejos do armistício, a 11 de novembro de 1918. Escapa a um atentado a 5 de dezembro, durante uma homenagem a Carvalho de Araújo e outros tripulantes do “Augusto de Castilho”, afundado pelos alemães. É morto nove dias depois na estação do Rossio. Já com a guerra acabada, serão os republicanos da velha guarda a sentarem-se à mesa das negociações no Tratado de Versalhes.

 

A 19 de janeiro de 1919, mais uma operação de Paiva Couceiro culmina com a proclamação da Monarquia do Norte que durará até 13 de fevereiro. A 27 de abril, em Lisboa, Tamagnini Barbosa improvisa uma milícia republicana no Campo Grande que derrotará na Serra de Monsanto os monárquicos chefiados por Aires de Ornelas.

 

Nem assim a situação estabilizou. A 19 de outubro de 1921, na sequência da derrota de Afonso Costa nas eleições, é nomeado primeiro-ministro António Granjo. Quando tenta assegurar o controlo da GNR, há um movimento insurrecional em Lisboa e demite-se. Nessa noite, grupos armados prendem figuras ligadas a este efémero Executivo, ao sidonismo e aos republicanos moderados e massacram-nas. Granjo é morto no Arsenal e Cunha Leal que o tenta defender é ferido. Carlos da Maia é morto, tal como Machado dos Santos, este num veículo cheio de marinheiros armados, a Camioneta Fantasma. Tamagnini Barbosa é levado de casa para ser fuzilado mas os captores emborracham-se e deixam-no ir embora. Destacar-se-á futuramente como opositor de Salazar e presidente do Sport Lisboa e Benfica.

 

A 28 de maio de 1926, a I República estava madura para ser colhida pelo primeiro aspirante a ditador que se apresentasse. Viria a chamar-se Oliveira Salazar e a instaurar uma das mais longas ditaduras da Europa, para a qual anos de violência e instabilidade haviam estendido a passadeira vermelha.

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Pessoal, algo mais aprofundado sobre a Revolução Liberal Portuguesa e o que se seguiu até à queda da monarquia, alguém sabe? De preferência em suporte digital. :compinchas:

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O segredo dos escravos reprodutores

 

Desumanização: Documento pouco conhecido do século XVI relata criação de escravos, em Vila Viçosa, como se fossem cavalos para reprodução

 

A passagem foi escrita em italiano, no século XVI, e é assim que surge no espólio da Biblioteca da Ajuda. Traduzida, revela um português estranho aos leitores contemporâneos e uma realidade difícil de acreditar. “Tem criação de escravos mouros, alguns dos quais reservados unicamente para fecundação de grande número de mulheres, como garanhões, tomando-se registo deles como das raças de cavalos em Itália. Deixam essas mulheres ser montadas por quem quiserem, pois a cria pertence sempre ao dono da escrava e diz-se que são bastantes as grávidas. Não é permitido ao mouro garanhão cobrir as grávidas, sob a pena de 50 açoites, apenas cobre as que o não estão, porque depois as respetivas crias são vendidas por 30 ou 40 escudos cada uma. Destes rebanhos de fêmeas há muitos em Portugal e nas Índias, somente para a venda de crias.”

 

O relato da existência de escravos reprodutores no Paço Ducal de Vila Viçosa, a mais importante casa nobre portuguesa, foi feito por João Baptista Venturino da Fabriano, secretário do cardeal Alexandrino Miguel Bonello, enviado papal à corte portuguesa em 1571 para propor Margarida de Valois como noiva de D. Sebastião. A união do rei de Portugal com a filha de Henrique II e Catarina de Médici — que acabaria por casar-se no ano seguinte com Henrique IV e tornar-se a rainha Margot de França, célebre pela morte de milhares de protestantes —, não se concretizou. E quanto aos escravos, nada mais se soube.

 

No século XVI viveriam 350 pessoas no paço ducal e a criação de escravos teria lugar num terreno ao lado da casa principal, uma zona ainda hoje conhecida pelos trabalhadores locais como a “ilha”. Atualmente só resta o chão, coberto de pedras, nas imediações do picadeiro e do local onde terá estado o torreão onde, em 1512, foi degolada D. Leonor, de 23 anos, pelo seu marido, o quarto duque de Bragança, D. Jaime, acusada de ter um pajem de 16 anos por amante.

 

O paço era então liderado pelo sexto duque de Bragança, D. João I, que três anos mais tarde acompanhou D. Sebastião na primeira incursão em África, levando com ele 600 cavaleiros e dois mil infantes. Não participou, contudo, na desastrosa expedição de 1578 devido a violentas febres, tendo enviado o primogénito D. Teodósio II, que com dez anos foi ferido em Alcácer-Quibir e viria a ser pai de D. João IV, aclamado rei de Portugal em 1640.

 

O “segredo”, com mais de 400 anos, continua a ser desconhecido por muitos dos investigadores da escravatura em Portugal. Os historiadores que o conhecem defendem que o episódio tem de ser estudado para que se compreenda se foi um caso único ou se representa a ponta de um novelo espesso.

 

O primeiro a ficar incomodado com o relato foi Alexandre Herculano, no século XIX. Nos “Opúsculos”, volume VI, refere o texto de Venturino, com pudor: “Falando dos escravos, a linguagem do autor é bastante solta, e por isso não transcreveremos esta passagem. Basta saber que estes desgraçados eram considerados e tratados como as raças de cavalos em Itália, e pelo mesmo método, que o que se buscava era ter muitas crias para as vender a trinta e quarenta escudos”.

 

Foram as lacunas de Herculano que levaram Jorge Fonseca, estudioso da escravatura, a procurar o documento original. Encontrou-o na Biblioteca da Ajuda, traduziu a passagem e publicou-a em 2010 no livro “Escravos e Senhores na Lisboa Quinhentista”. Um ano depois, Isabel Castro Henriques, a maior especialista portuguesa da área, cita-a em “Os Africanos em Portugal, História e Memória, séculos XV-XXI”. E é ela quem mais se insurge com a inexistência de estudos: “Impõem-se investigações rigorosas. Este é um documento de extrema violência, em que os escravos são tratados como cavalos. A investigação é difícil mas tem de ser feita”, afirmou recentemente numa conferência sobre a escravatura, na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

 

Sinais de alerta

 

Antes de Venturino, Nicolau Clenardo escrevera cartas em que, embora não tão explícita, é referida uma estrutura de produção com fins comerciais: “Os mais ricos têm escravos de ambos os sexos e há indivíduos que fazem bons lucros com a venda dos filhos das escravas nascidos em casa. Chega-me a parecer que os criam como pombas para levar ao mercado. Longe de se ofenderem com as ribaldias das escravas, estimam até que tal suceda.” Testemunha do Portugal do século XVI, Clenardo chegou ao país em 1533 para ser mestre do infante D. Henrique, irmão do rei D. João III e sem meias-palavras, relatou: “Mal pus os pés em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do inferno: por toda a parte topava negros.”

 

Na publicação “A herança africana em Portugal”, Isabel Castro Henriques explica que “desde o início de quinhentos, os autores sobretudo estrangeiros davam conta de uma atividade de produção, marcada por um carácter insólito e cruel: a criação de escravos, como se de animais se tratassem, destinada a abastecer o mercado nacional, mas também para exportação”. E transcreve uma passagem da Collecção da Legislação Portuguesa (1763-1790), que denunciava a existência de pessoas “em todo o Reino do Algarve, e em algumas províncias de Portugal (que tinham) escravas reprodutoras, algumas mais brancas do que os próprios donos, outras mestiças e ainda outras verdadeiramente negras, (designadas) ‘pretas’ ou ‘negras’, pela repreensível propagação delas perpetuarem os cativeiros”.

 

Questionada sobre as razões da falta de estudos sobre os escravos, Mafalda Soares da Cunha, professora da Universidade de Évora e considerada a mais importante estudiosa da Casa de Bragança, não tem dúvidas: “A investigação histórica mais recente, incentivada pelas novas agendas historiográficas internacionais, começa a tratar de forma mais sistemática e menos dependente ideologicamente da questão da presença dos escravos na história de Portugal. Os resultados são manifestamente insuficientes, mas o tema deixou de ser maldito e silenciado como o foi no passado mais recente. Creio mesmo que desperta interesse entre as gerações mais jovens de historiadores que, de certa forma também entendem o estudo da escravatura como uma forma de participação nas lutas pelos direitos humanos. Mas ainda estamos num estádio muito embrionário.”

 

Fantasmas históricos, os escravos não são personagens principais. “O estudo de populações com pouco acesso à escrita e aos recursos de poder é sempre difícil. Não sendo atores reconhecidos pelo sistema político, pouco falam por si, a menos que colidam com o sistema instituído. As referências de época são muitas vezes indiretas e distorcidas e os conhecimentos desses grupos, e em particular dos escravos, exige sempre um esforço grande de desconstrução das visões dominantes da época e dos contextos em que se produziram as referências”, explica a especialista.

 

Há pouca informação, por exemplo, sobre os escravos agrícolas porque a sua existência não tinha outro interesse para a época senão como parte dos equipamentos de uma qualquer exploração agrícola. Mas como sublinha Mafalda Soares da Cunha, “eles existiam e agiam”. Num artigo na revista “Callipole”, Jorge Fonseca relata que o duque D. Teodósio I, em 1564, teria 48 escravos, dos quais 20 serviam na estrebaria, quatro na cozinha e na copa e quatro eram varredeiros, entre outras funções. A contabilização parece ser o mais longe que se consegue ir.

 

Quanto ao episódio dos reprodutores, relatado por Venturino, Mafalda Soares da Cunha desconhecia-o antes do contacto do Expresso e alerta ser necessário perceber o contexto do relato para compreender a intencionalidade da narrativa e a sua veracidade, mas conclui: “Não excluo evidentemente a possibilidade. A documentação que conheço da Casa de Bragança é totalmente omissa quanto a isso, mas a probabilidade de acontecer parece-me evidente.”

 

Perguntas & Respostas

 

Quando chegaram a Portugal os primeiros escravos africanos?

 

Os primeiros escravos negros entraram em Portugal ainda no século XV, através de Marrocos, havendo registo de apreensões desde 1441, embora o uso de mão de obra escrava fosse largamente difundido desde o século XIV. Em 1444 teve lugar o primeiro carregamento de 235 escravos, trazidos do Golfo de Arguim, atual Mauritânia. O próprio Infante D. Henrique terá estado presente no primeiro leilão de escravos em Lagos, o passo inaugural para um importante negócio de exportação sobretudo para Sevilha, Cádis e Valência.

 

Quantos escravos existiam em Portugal no século XVI?

 

Lisboa abrigava quase dez mil escravos, o que equivaleria a cerca de 10% da população da capital na altura. A maior parte dos escravos encontrava-se no Algarve, região seguida pelo Baixo Alentejo, Vale do Tejo e pelo distrito de Évora. No século XVII, o número diminuiu substancialmente devido ao desvio para o cultivo de açúcar no Brasil.

 

Qual a influência da procura de escravos no continente americano no seu preço?

 

A partir de 1540, o aumento da procura de escravos para as plantações de açúcar nas Antilhas, primeiro, e depois no Brasil, fez com que o preço dos escravos aumentasse exponencialmente, tendo sido registada uma valorização de mais de 500% em três décadas, segundo o historiador António de Almeida Mendes.

 

Quais os escravos mais cobiçados pelo tráfico negreiro?

 

Os escravos “minas”, originários da Costa da Mina, no Golfo da Guiné (Gana, Togo, Benim e Nigéria), eram os mais procurados nos mercados consumidores, devido à maior resistência física. Os “angolas” eram considerados mais frágeis e com uma maior tendência a cometer suicídio. Em 1644, um decreto do D. João VI autorizaria os comerciantes a comprarem diretamente a mão de obra àquela região, como explica o historiador João Pedro Marques no livro “Portugal e a Escravatura dos Africanos”.

 

Quantos escravos morriam nas viagens nos navios negreiros?

 

Cerca de um quarto dos escravos morria durante o transporte transatlântico. Outros, cujo número é difícil de precisar, morriam nas viagens do interior até aos portos de embarque. Alguns, ainda, não resistiam à espera pelo embarque nos navios. Chegados ao destino, a vida nas colónias também os matava, o que permitiria totalizar a morte acumulada em todo o processo num patamar superior a 70%.

 

Qual o maior destino mundial de escravos?

 

O Brasil, entre meados do século XVI e até cerca de 1850, quando 42% do tráfico negreiro, o equivalente a cinco milhões de pessoas, terá partido de África em direção ao território brasileiro. Estima-se que atualmente cerca de um terço da população brasileira descenda de angolanos. Os maiores traficantes mundiais de escravos foram os portugueses radicados no Brasil.

 

Portugal foi o primeiro país a acabar com a escravatura?

 

Não. Em 1761, o marquês de Pombal, através de um alvará régio, acabou com o tráfico de escravos para a metrópole. A 10 de dezembro de 1836, uma lei proibiu o tráfico de escravos nos domínios portugueses ao sul do Equador. A escravatura continuou no Brasil até 1888, quando o país já era independente. Portugal só a aboliu totalmente em 1875. Em 1794, o Haiti foi o primeiro país a abolir a escravatura na sequência de uma revolta de escravos, seguindo-se a Dinamarca em 1804.

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Afonso de Albuquerque é o português mais conhecido no Sudeste Asiático depois de Cristiano Ronaldo

 

Afonso de Albuquerque morreu faz nesta quarta-feira exactamente 500 anos e é recordado em Malaca, cidade que conquistou em 1511, pela sua visão estratégica.

 

Afonso de Albuquerque, que morreu faz quarta-feira 500 anos, é recordado em Malaca (Malásia), cidade que conquistou em 1511, pela sua visão estratégica. “Tudo o que os descendentes de portugueses [de Malaca] sabem é que Afonso de Albuquerque era um grande homem”, diz Colin Goh, que é também membro do Clube da História e do Património Malaio.

 

A imagem que existe de Afonso de Albuquerque, provavelmente o português mais conhecido do Sudeste Asiático depois de Cristiano Ronaldo, é que “tinha uma mão forte aqui em Malaca”, mas não mostrava uma atitude tirânica. Enquanto muitos indonésios acreditam que os portugueses colonizaram o seu arquipélago, quando na verdade a presença lusa ali nunca assumiu contornos de colonização, na Malásia há livros escolares que justificam a tomada de Malaca como uma acção meramente religiosa, do catolicismo contra o islão, esquecendo os fins comerciais.

 

Para muitos habitantes de Malaca, Albuquerque é apenas o nome da rua principal do Portuguese Settlement, o bairro onde ainda hoje resiste uma comunidade de cerca de mil pessoas que se apresentam como os “portugueses de Malaca”. Mas, para Colin Goh, um malaio apaixonado pela história das conquistas na sua região e que tem sido convidado para dar palestras sobre a presença dos portugueses, Afonso de Albuquerque era muito mais que isso: “Era um homem bom” com uma estratégia eficaz.

 

Afonso de Albuquerque, que foi nomeado vice-rei e governador da Índia Portuguesa, desenhou uma política de expansão para o Oriente e foi o responsável pelas estratégias que permitiram consolidar o império luso na região, defende o investigador. Era conhecido por ser implacável com os traidores do reino, mesmo quando lhe ofereciam avultadas somas de dinheiro para os poupar, e temperamental, sendo-lhe inclusive atribuída por algumas fontes a ideia de tomar Meca, a cidade mais sagrada do islão.

 

Joseph Sta Maria, que faz parte da comunidade portuguesa de Malaca e que hoje é o representante das minorias junto da administração de Malaca, realçou que “Albuquerque era uma pessoa muitíssimo honesta” e “nunca trairia” o rei de Portugal.

 

Os dois especialistas destacaram a estratégia de miscigenação iniciada por Afonso de Albuquerque para defender a posição portuguesa em Malaca, na altura um dos locais mais estratégicos do mundo devido ao lucrativo comércio das especiarias. “Foi ele que entendeu que Portugal não tinha mão-de-obra para um império. Logo depois da conquista de Malaca, ele começou a encorajar a miscigenação”, contou Colin Goh.

 

Os homens e mulheres portugueses que chegaram à região com o propósito de constituir famílias aumentaram a população de origem portuguesa na região e “em tempos de batalha todos os mestiços ou casados eram chamados a defender Malaca”, explicou Colin Goh. O especialista recordou ainda que esses mestiços acabaram por tornar-se pessoas influentes, porque “tinham a capacidade de comunicar com diferentes comunidades”.

 

O idioma kristang

 

Os portugueses perderam Malaca a favor dos holandeses em 1641, mas mesmo depois disso o idioma kristang (cristão-português) — que ainda hoje é falado por uma minoria dentro da comunidade portuguesa de Malaca — continuou a ser uma das línguas de negócios. Joseph Sta Maria concordou que, para além dos casamentos mistos, o que favoreceu a continuidade da presença portuguesa, mesmo contra a vontade holandesa, foi a cultura, presente não só na língua, mas também na religião.

 

Os descendentes de portugueses em Malaca, uma comunidade iniciada com a conquista da região por Afonso de Albuquerque em 1511, herdaram do conquistador do Oriente a lealdade a Portugal, um país que nunca conheceram. “Nós queremos ser portugueses”, justificou Christopher De Mello, um dos promotores da herança de Portugal naquele canto do mundo. E dá um exemplo quotidiano que é visível nas ruas de Malaca: aqueles que se afirmam descendentes de portugueses continuam a cumprimentar-se com dois beijos, uma saudação que não é vulgar na Malásia.

 

“Não queremos saber do país, se é rico ou pobre, não interessa”, diz, referindo-se a Portugal. “O mais importante é quem somos. Isso é a riqueza que temos em nós”, acrescenta. No bairro dos portugueses, o idioma está a perder espaço para o inglês, num país onde o malaio é a língua oficial, mas o orgulho em ser português é passado de geração em geração através da música e dos costumes.

 

Para Joseph Sta Maria, a lealdade a Portugal é uma herança de Afonso de Albuquerque, embora não tenha a ver com patriotismo, mas com uma ligação cultural. “Nós nunca morremos, nós somos portugueses. Amamos os portugueses, ainda que eles não tenham feito assim muito [por nós]. É a afinidade e o orgulho de nos chamarmos portugueses”, vincou, reconhecendo ainda que “Portugal tem os seus próprios problemas” e está “muito longe de Malaca”.

 

“Repare em quanto os portugueses fizeram por Timor-Leste: foram 450 anos de administração e quando eles devolveram Timor-Leste, o país estava em ruínas: logo, eu não espero que Portugal faça muito [pelos portugueses de Malaca]”, diz.

 

A visão que os portugueses de Malaca têm de Portugal é muito própria e, ainda que exista um desejo de um contacto maior com os portugueses de Portugal e o sonho de visitar terras lusas, há também um orgulho em manter a portugalidade específica de Malaca.

 

Um padre português?

 

Joseph Sta Maria, autor do livro Pessoas Proeminentes na Comunidade Portuguesa em Malaca, acredita que o seu povo nunca irá desaparecer, a menos que o Portuguese Settlement, o bairro onde residem, seja destruído. Também a religião católica os mantém unidos, segundo destacou, defendendo que para quem não é católico é difícil fazer parte da comunidade, porque tem de comemorar o Natal, o São Pedro ou o São João”.

 

O forte catolicismo leva Christopher De Mello a pedir a Portugal um padre português — “talvez reformado, para viver connosco no Portuguese Settlement e para nos ensinar” — porque há poucos presbíteros na Malásia, país de maioria muçulmana.

 

O padre Michael Mannayagam, de origem indiana, é um dos sacerdotes da região que se desdobram em celebrações numa cidade com “cerca de 20.000 católicos”, sobretudo de origem chinesa e indiana, dado que os portugueses não representam mais do que mil. O presbítero considera que a expansão do catolicismo através dos portugueses não foi muito notória na região, já na altura maioritariamente muçulmana, mas destaca a resistência dos católicos durante as perseguições holandesas. “Alguns fugiram da cidade. Dispersaram-se por aqui e ali. Mantinham-se clandestinos e onde houvesse um padre, eles teriam uma missa”, recordou.

 

Na visão de alguns malaios, disse Christopher De Mello, o povo português adora beber e, tendo dinheiro ou não, sabe divertir-se e “celebra um Natal muito bonito”, convidando toda a gente a participar e oferecendo comida e bebida nas suas casas. “Na verdade, os malaios admiram-nos e também têm inveja de nós, porque tudo o que fazemos em Malaca é diversão, é festa, é prazer, mas algumas coisas são demasiado sensíveis para nós falarmos aqui”, referiu.

 

Um museu

 

Um museu preserva, desde há três anos, a memória portuguesa num canto de Malaca. Há três anos, Christopher De Mello, juntamente com Jerry Alcântara, decidiu pegar num museu antigo que tinha "apenas fotografias" e transformá-lo num espaço de exposição de memórias que hoje recebe pessoas de todo o mundo.

 

O Portuguese Settlement Heritage Museum (Museu da Herança do Povoado Português), como é conhecido localmente, fica precisamente no centro do Portuguese Settlement, situado a cerca de três quilómetros de centro de Malaca, que foi criado na década de 1930 para os descendentes de portugueses espalhados pela região.

 

Entre o espólio, com largas centenas de peças, há objectos e colecções pessoais, como biberões e fotografias, e artigos comprados ou "encontrados no mar" pelos pescadores, que podem ser "portugueses, chineses ou indianos", conta Christopher De Mello.

 

Após ter ficado desempregado, o engenheiro de manutenção, que agora trabalha em part-time, encontrou uma oportunidade para "melhorar o museu" fazendo uso dos seus variados talentos, como a carpintaria para montar expositores e a comunicação para contar as histórias da comunidade que não cabem no museu. É também ele o responsável pelo barco de madeira Flor de la Mar (Flor do Mar, em português), que se encontra no centro do museu para lembrar a famosa nau com o mesmo nome que naufragou em 1511 no estreito de Malaca, com um imenso tesouro, que nunca foi encontrado.

 

Afonso de Albuquerque também está representado, porque foi ele um dos "primeiros pais da aldeia". "É por causa dele que estamos aqui hoje", frisou Christopher, que se sente "incomodado" quando lhe dizem que se assemelha aos malaios. "Prefiro que digam que eu pareço mais português. Nós aqui nunca dizemos que somos malaios, dizemos que somos malaio-portugueses", sublinhou, explicando que, apesar do sangue português já se ter perdido há muito, ainda predominam os sobrenomes lusos na comunidade de cerca de mil habitantes, como Sousa ou Gomes.

 

No museu, encontram-se mobílias, louças, redes de pesca, fotografias, documentos históricos e até vinho produzido pelo próprio Christopher, uma bebida alcoólica feita de maçã que dizem fazer lembrar "o vinho do Porto". Aos trajes tradicionais lusos oferecidos por portugueses juntam-se trajes semelhantes desenhados e usados pelos grupos de música e de dança locais que disseminam o folclore português na Malásia e no exterior.

 

Além das três salas de exposição, há ainda um espaço que guarda dezenas de prémios conquistados por pessoas da comunidade em concursos de beleza ou de fatos de Pai Natal ou em torneios de futebol durante os santos populares. Entre os visitantes do museu, que nem sempre está aberto, há grupos de estudantes de todo o país e turistas estrangeiros, que vêm conhecer o Portuguese Settlement, localmente famoso pelo ambiente de festividade no Natal, no Carnaval e nos Santos Populares.

 

Os visitantes pagam dois ringgits malaios (0,42 cêntimos) de entrada, um valor insuficiente para sustentar o projecto, que precisa do apoio de voluntários.

 

O governo local já apresentou uma proposta para apoiar o museu, mas com a condição de assumir a administração do espaço e pagar um salário aos voluntários, algo que os promotores recusaram. "Eu não quero que no futuro a história malaia entre no Portuguese Settlement. A nossa história portuguesa seria abolida", justifica. Pedir apoios a Portugal também é visto com algumas dúvidas, pois essa eventual ajuda implicaria o envolvimento das autoridades malaias no museu, acrescentou.

 

Malaca, que em 2008 foi declarada Património Mundial pela UNESCO, é hoje uma cidade fortemente turística, retratando a história dos vários povos que por aqui passaram. Entre as grandes atracções figuram o Museu Marítimo, a Igreja de São Paulo e a Porta de Santiago, o que resta da fortaleza mandada construir por Afonso de Albuquerque.

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Considero que a História fundamenta a nossa identidade nacional (na maioria de nós, portuguesa), como é uma matéria importantíssima para o conhecimento político e cultural do presente, assim como para perceber certas diâmicas que vêm do passado e se vão transportar para o futuro. Os registos históricos permitem-nos perceber a evolução da mentalidade dos humanos e da civilização, assim como respondem a questões diversas e fundamentam a razão de existência de diferentes países, monumentos, cidades, etc...

Para tal, vou começar uma série de discussão temática, em que vou lançar um tema inicial, em que gostaria que falássemos do seu impacto no mundo contemporâneo.

O primeiro desses temas, que gostaria de lançar tem uma relação muito forte com o cenário mundial que vivemos de terrorismo, esse tema é o conjunto de lutas religiosas de iniciativa cristã que ocorreram do século XI ao século XIII e que são comummente conhecidas como Cruzadas, podendo-se adicionar ainda a Jihad Islâmica existente desde o século VII e a sua resposta por parte dos cristãos.

 

Tema de Discussão 1: Guerras Religiosas - Cruzadas vs. Jihads: Parte 1 - O Início das Cruzadas

 

As Cruzadas iniciaram-se após o apelo do Imperador Bizantino Aleixo ao Papa, reminiscente das derrotas Bizantinas perante os Turcos Seljúcidas, quando se estabelece o Sultanato de Rum ( uma tentativa de gozo, com a analogia a Roma, da qual Bizâncio era herdeira. Perante isto e com o fato de os Turcos maltratarem os peregrinos católicos que iam a Jerusalém, posteriormente proibindo-os de pisar a sua ''Terra Santa'', e esperando uma possível reconciliação de ortodoxos e católicos, o Papa respondeu afirmativamente, apelando à união dos católicos de toda a Europa, exceto os de países fronteiriços a islâmicos/pagões, às quais o papa considerava serem tão ''santas'' como as combatidas em solo do Oriente Médio , de forma a unir os esforços, muitas vezes gastos em guerras internas, num inimigo comum : O Islão. Formaram-se assim inicialmente 2 Cruzadas, a Cruzada dos Pobres, que reunia sobretudo numerosos camponeses e cavaleiros de baixa estirpe, mulheres e crianças e a cruzada oficial dos nobres, mais organizada e rica. Assim partiram na segunda metade da década de 90 do século XI, os mais pobres.

Eram comandados por Pedro o Eremita e (penso) por um cavaleiro apelidado de Sem-Haveres.

Sem ordem nem preparação mas movidos por uma fé irredutível, chegaram às porras de Bizâncio ( que seria a atual Grécia+ parte da Turquia e parte dos Balcãs), sem provisões de alimentos, começaram a pilhar as terras envolventes, para desagrado dos Bizantinos. O Imperador levou-os até à fronteira com a Turquia, recomendado-lhes a espera pelos cruzados oficiais e deu-lhes provisões, apesar de estarem a testar a sua paciência. Contrariando o suposto conselho do Imperador, partiram à Aventura, começando a atacar a região de Edessa e Antióquia, com muitos pensando que em cada cidade por onde passavam, estavam a chegar a Jerusalém, assim estiveram 1 mês, até que o Sultão esperando o melhor momento, os atacou, matando-os, mas poupando as crianças e mulheres ( que foram escravizadas), de cerca de 30.000 a 50.000 Cruzados, só sobraram cerca de 1.500, que se refugiaram num castelo ou forte ,dos quais se incluia Pedro o Eremita, posteriormente se juntaram à Cruzada Nobre e assim acabou a Cruzada Popular.

 

Próxima Parte - A 1ª Cruzada.

 

Atenção: A minha narrativa pode conter erros, não consultei fontes externas diretas quando escrevi o texto, corrijam-me onde me possa ter enganado ou omitido informação importante. Estas possuem uma função didática e de discussão ( não sou formado em História ).

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O dia em que Portugal tomou posse dos navios alemães

 

Quarta-feira, a desconfiança aguça-se pelas três da tarde. Uma multidão junta-se à beira-rio e será tomada por uma grande comoção ao ver 35 bandeiras alemãs serem arriadas para serem içadas outras tantas portuguesas - a Alemanha perderia numa hora os navios refugiados no Tejo. Faz esta terça-feira precisamente 100 anos.

 

Os olhos estão postos no Tejo, a multidão à beira-rio vai do Terreiro do Paço ao molhe de Santa Apolónia. Os pormenores escapam à maioria, desconfia-se que a Armada está a apreender os navios alemães ancorados em Lisboa, dissipam-se as dúvidas ao ver-se a bandeira portuguesa substituir a germânica na primeira embarcação abordada. A tarde de 23 de fevereiro de 1916 jamais será esquecida pelos intervenientes, testemunhas e leitores de jornais, nem podia ser — 15 dias depois a Alemanha fez chegar a declaração de guerra.

 

“Os nossos marinheiros estão tomando conta dos navios alemães”, corre boca a boca por toda a parte, conta “A Capital” dessa noite. Entre as três e quatro horas da tarde, a multidão vai enchendo a praça do Comércio e o Cais das Colunas, e estendendo-se pelo entreposto da alfândega até Santa Apolónia. Parecendo alheio ao movimento, “um pequeno vapor arrasta na sua esteira, a reboque, duas fragatas carregadas de emigrantes, pobres criaturas que, acossados pela fome, talvez, fogem para o Brasil”, relata “O Século” da manhã seguinte.

 

“O Século” foi avisado por telefone, em cima da hora, para fazer aquilo a que o jornalista destacado chamará curiosa e bizarra reportagem. Depois de uma corrida até ao Arsenal, aguarda a oportunidade de navegar atrás do acontecimento. Enquanto isso, observa a multidão “compacta, embevecida”, no Cais das Colunas, onde “vai como que uma ânsia enorme de adivinhar o que irá suceder”. As águas do Tejo mostram-se barrentas e agitadas, à beira-rio encontram-se “gente do mar, simples curiosos, mulheres e crianças agitam lenços e dos olhos de alguns soltam-se lágrimas de comoção”.

 

E repara ainda o jornalista que, de algumas vedetas, saltam em terra grupos de oficiais e soldados franceses, os já conhecidos poilus, sinónimo de coragem e virilidade que ficou associado aos combatentes gauleses sem divisas na I Guerra Mundial. Desembarcam do transatlântico “Tubantia”, onde navegarão até Dakar, para um rápido passeio pela cidade. “O povo saúda-os e descobre-se ao ver no peito de alguns a Legião de Honra”. Junto ao pontão da alfândega, descortina um grupo de alemães, capitães e imediatos de alguns dos navios. Os germânicos “gesticulam, berram, indignam-se, acolitados por umas tantas senhoras da mesma nacionalidade, vermelhas de ira”, quem assiste ri.

 

A ordem chegara pelo meio-dia ao comandante da divisão naval Jaime Daniel Leote do Rego. O capitão de fragata, que estaria de sobreaviso (constava que já tinha no bolso há alguns dias a ordem da apropriação), deu de imediato início à operação convocando oficiais e praças para bordo do “Vasco da Gama”.

 

Quatro horas depois, os marinheiros concentravam-se no cruzador-couraçado adquirido a Inglaterra há 60 anos, em 1876, a fim de defender a barra do Tejo. E prepararam-se para enfrentar as tripulações de 35 navios que “somente devem ter estranhado que este ato se não houvesse feito logo depois de aqui terem fundeado”, como dirá o oficial ao diário republicano da noite.

 

O jornalista de “O Século”, cujo nome não aparece no fim da peça, não ficará com aquela impressão quando participar na tomada dos navios; viu os tripulantes surgirem às amuradas, boquiabertos, pareceu-lhe que “sabiam a sorte que os esperava, mas indicando claramente que a não esperavam tão cedo”. Nas mesmas circunstâncias estaria o povo, já que o assunto andava a ser falado há algum tempo entre países e nos jornais - Inglaterra declarara o bloqueio aos portos alemães no ano anterior, a 11 de março, a partir daí começara a pressão aos aliados e neutros.

 

“Estabeleceu, esta é a verdade, duas espécies de bloqueios. Um com navios, outro sem navios, muito embora esta distinção se afigure paradoxal. Com os seus barcos de guerra isola das vias marítimas os impérios centrais, que são os seus inimigos na luta em que está empenhada. Aos neutros, não lhes opõe barreiras no mar, mas como os deixa entregues aos seus próprios recursos, que em matéria de navegação mercante são insuficientes, implicitamente os inibe de receberem, pelo mar, os géneros e as matérias primas de que necessitam”, explica “A Capital” na véspera da requisição.

 

No dia decisivo, antes das quatro da tarde, três navios de guerra irão posicionar-se no Tejo para seguir os passos de Inglaterra, onde reina Jorge V, que, ao contrário da carreira na Marinha como lhe estava destinado, herdou o trono por morte do irmão mais velho, em 1911. O “Vasco da Gama”, o “S. Gabriel” e o “Almirante Reis”, que durante a monarquia se chamou “D. Carlos”, colocam-se estrategicamente em triângulo, fundeando junto à estação do Sul e Sueste (a nova, aberta ao público em setembro de 2011, fica ao lado), deixando ver bem os cascos negros e elevando para o ar o fumo negro das suas chaminés. As guarnições dos navios estão reforçadas, preparadas para qualquer eventualidade.

 

A requisição, como se refere oficialmente a apreensão dos navios mercantes alemães, foi uma operação bem montada. Os mais críticos diriam até que foi surpreendentemente eficaz. Depois de oficiais, praças e mais dezenas de operários se reunirem no “Vasco da Gama”, cuja tripulação ultrapassa os 250 homens, seis vapores acostam ao portaló e os oficiais, vestidos de azul e armados de espada e pistola, acompanhados por quatro ou seis praças de espingarda, saltam para as embarcações. Leote do Rego sobe a bordo do ‘detroyer' “Douro” e, seguido pelo “Guadiana” e dois torpedeiros, aproxima-se da frota germânica.

 

“Um catraeiro barqueiro providencial aparece-nos no momento. É quase correndo por toda a muralha da Alfândega que nós conseguimos chegar depressa à doca, onde nos metemos num bote. Quatro braços robustos impelem a frágil embarcação. Estamos em pleno Tejo, junto aos navios alemães”, conta o jornalista de “O Século”, que em breve será recebido a bordo do rebocador “Cisne”, um dos vapores incumbido de apreender seis embarcações.

 

“Os barquitos entram agora a singrar por entre o exame das bisarmas e aço, umas estreitas, esguias, metidas na água, de mastros curtos e costados, negros; outras, enormes, altaneiras, de castelos altos, de chaminés pintalgadas e cascos vermelhos”, descreve o jornalista de “O Século”, enquanto o seu camarada de “A Capital”, também a bordo do mesmo vapor, olha para trás: “Ao fundo, na direção das embocaduras do Tejo, a curta distância, as unidades da divisão naval impõem respeito”.

 

Quanto às tripulações, “O Século” faz-lhe o retrato: “Alguns são rapazes muito novos ainda, imberbes muitos deles, mal enroupados, em mangas de camisa, ‘bonnets’ velhos e usados, cabelos louros, muito brancos. Outros, gente das máquinas, são chineses e japoneses, e os mais velhos, tipos a que a vida do mar enegreceu a pele, mostram-se estáticos diante do espetáculo, caminhado a largos passos sobre os conveses e esperando, não sem constrangimento, a chegada dos marinheiros portugueses”.

 

O primeiro alvo é o vapor “Santa Úrsula”, que viera comboiado de Leixões (onde ainda se encontra um navio, o Vesta, que será requisitado no dia seguinte), depois de servir durante meses de ponto de encontro da colónia alemã no porto. O oficial português lança a intimação, o comandante hesita na resposta, mas olha para o torpedeiro e responde “Ya!”. Um oficial da armada, outro maquinista, um sargento e vários praças sobem ao navio para lhe entregar a ordem assinada por Leote do Rego: “Por ordem de s. ex.ª o ministro da Marinha, fica notificado o encarregado do navio X surto neste porto que o governo português resolveu requisitar esse navio, em conformidade com o decreto 2229, de 23 de fevereiro de 1916”.

 

“É a primeira bandeira verde-rubro que tremula em barco alemão”, aponta “A Capital” referindo-se ao Santa Úrsula que há de passar a ser Estremadura - aliás, toda a frota apreendida será rebatizada com nomes de terras portuguesas. Apenas um dos 63 navios que serão apreendidos até 3 de março levará o nome de uma pessoa. O Newva, por ser vapor de salvação, ganhou o nome de Patrão Lopes, em honra de Joaquim Lopes, que à sua conta salvou centenas de pessoas, primeiro como remador de falua no Tejo, depois como Patrão Salva Vidas, o que lhe valeu a Ordem da Torre Espada, a patente de 2º tenente da Armada e uma condecoração do governo britânico. Nascido em Olhão em 1798, o algarvio a quem uma experiência falhada como pescador em Gibraltar mudará o rumo da vida mas não a atração pelo mar, onde navegava desde os dez anos, morrerá em Paço de Arcos com 92 de idade.

 

“Os oficiais postam-se em continência, as praças apresentam armas e tudo está acabado. Os tripulantes velhos do navio mal deixam dissimular as lágrimas, que lhes saltam dos olhos; os novos encolhem os ombros, sorriem imbecilmente e descem às suas câmaras para prepararem a saída”. Têm meia hora para abandonar o navio, tal como os tripulantes dos restantes irão também ser informados, num cerimonial que, sendo igual em todos os barcos, “é sempre tocante, majestoso, impressionante”, como sente o jornalista de “O Século”.

 

Em terra, os milhares de curiosos veem içar as bandeiras. “Até que enfim, já não era sem tempo”, ouve-se. O assunto andava em maturação desde o ano anterior. O governo de Afonso Costa considerava ser do interesse da nação entrar na guerra. Portugal e a Inglaterra mantêm há muito uma relação de amor e ódio, porém, são de facto aliados desde o século XIV, com tratado assinado em Windsor. Abandonar a neutralidade mantida desde o início do conflito mundial em 1914, apesar de o país ter sido logo atacado em Angola, é visto também como um meio de fortalecer a posição da República, com seis anos de vida e os obreiros desavindos, e de manter o império colonial.

 

Perante a necessidade de manter as suas frotas, França e Inglaterra trocaram impressões entre si sobre a considerável tonelagem imobilizada nos portos portugueses, no final do ano de 1915, a 30 de dezembro. Passado um dia, o governo inglês assegura oficialmente a Portugal que, em caso de se achar em estado de guerra com a Alemanha, protegeria as costas de Portugal e das colónias, mas não poderia fornecer munições nem apoio financeiro, a não ser “por meio de afretamento ou compra dos navios mercantes alemães que sejam apreendidos em águas portuguesas”. Os ingleses, segundo o “Daily Telegraph”, até ao final de fevereiro perderam 485 navios, os aliados 167, a Alemanha 601, a Áustria 80 e os países neutros um total de 736 navios.

 

No dia 17 de fevereiro, os ingleses fizeram chegar ao Governo português um pedido formal para que, em nome da aliança, apreendesse os navios alemães que tanta falta faziam aos aliados. No dia seguinte, o ministro em Paris, João Chagas, tem uma reunião com o o ministro da Agricultura. Falam da possibilidade de serem contratados em Portugal alguns trabalhadores, para o amanho das vinhas, e, à saída, o português diz que o seu Governo “estaria disposto a chamar ao seu serviço os navios alemães fundeados no Tejo”. Jules Méline responde-lhe a sorrir: “Eu não ousaria pedir isso. Muito bem. Fazem muito bem!”.

 

Na véspera do acontecimento, “A Capital” reproduziu um artigo do francês “Le Temps”, publicado dois dias antes, sobre o facto de a Alemanha andar a tentar libertar os seus mais de 700 navios em portos neutros para transformá-los em corsários ou fazê-los render de alguma forma. Ainda nessa edição de dia 22, no editorial, o diário português era perentório: “A questão dos navios alemães está sobre nós, e não há senão uma maneira de resolver. É a que a necessidade impõe, e contra necessidades desta ordem não há argumentos”. O remate do texto é revelador, contudo, não é uma posição unânime entre os obreiros da República.

 

Os jornais “A Vanguarda”, onde o diretor-político Pedro Muralha não se cansará de criticar a medida do governo de Afonso Costa, e “A Luta”, do divergente fundador do Partido da União Republicana Brito Camacho, são exemplos da fação discordante. Este último periódico, até, é o único que podia entrar na Alemanha do imperador Guilherme II, contará Sidónio Pais depois de representar os interesses portugueses em Berlim, durante quatro anos, até à declaração de guerra.

 

“As suas propriedades não poderão ser sequestradas, nem os seus navios, carregamentos, mercadorias ou efeitos retidos para qualquer uso público, sem que lhes seja previamente concedida uma indemnização a combinar entre as partes interessadas sobre bases justas e equitativas”, determinava o acordo luso-germânico. Este era o argumento contra a tomada de posse dos navios, o tratado feito entre os dois países em 1908. Mas nessa data ainda o império austro-húngaro e a Alemanha não tinham desencadeado a primeira guerra mundial, pondo em causa as convenções internacionais. A Grande Guerra, como será conhecida até eclodir o segundo conflito mundial, teve na origem o assassinato do arquiduque Fernando da Áustria, em Sarajevo, em junho de 1914, tendo os combates começado no mês seguinte.

 

“Portugal, no ponto de vista do articulista do ‘Le Temps', não pode deixar de ver nos barcos alemães a compensação aos prejuízos que a Alemanha lhe causou. É que, entre nós, não se esquecerá nunca que, sem declaração de guerra, os corsários germânicos afundaram dois dos seus barcos de comércio; que, em Naulila, os soldados do kaiser vitimaram muitas centenas de soldados nossos”, diz o jornalista, interpretando a opinião e adaptando-a, extrapolando, já que o francês não se refere a Portugal no artigo integrado na coluna do “Ponto da Situação sobre a Guerra”, debaixo do subtítulo “Situação Diplomática”. A seguir à tomada dos navios, o país passaria a ocupar com mais frequência algum do espaço do influente diário francês.

 

“A bas les boches! Vive Le Portugal”

 

No Tejo, naquela tarde de quarta-feira, quando a bandeira preta, vermelha e amarela começou a ser substituída, o navio “Vasco da Gama” deu uma salva com 21 tiros de canhão. “A hora é singularmente solene. Há pessoas que levam instintivamente a mão ao chapéu, e se descobrem, visivelmente emocionadas”, conta o jornalista de “A Capital”, cujo nome não aparece. Ouvem-se vivas à República vinda da cada mais volumosa concentração de cidadãos. Nesta altura, alguns dos poilus, terminado o passeio à cidade, estão junto à muralha, num pequeno vapor, de regresso a bordo do seu navio, cuja partida estava prevista para a noite. “A comoção é contagiosa: a breve trecho, compreendem nitidamente o sentimento geral que domina a multidão, e ao passo que lá longe novas bandeiras portuguesas flutuam sobre as popas dos navios, um ‘marechal logis’ ergue vitoriosamente o seu ‘kept’ cinzento, bradando: ‘A bas les boches! Vive Le Portugal’. Respondem-lhe aclamações”.

 

No espaço de uma hora, ficaram os 35 navios notificados e com novos comandantes. Chegado a terra, o jornalista de “A Capital” regista o momento: “A tarde vai a caminho, e o sol, no ocaso, espreita um momento por entre as nuvens. O escudo das bandeiras tem cintilações de ouro. São enormes: veem-se a milhas de distância sobre o vulto escuro dos vapores, entre os quais a linha ténue de um torpedeiro perpassa, cruzando e deixando atrás de si rolos negros de fumo”.

 

De volta ao Terreiro do Paço, o homem de “A Capital” vê luz nas janelas do Ministério das Finanças e resolve bater à porta. Pergunta se se encontra o “senhor presidente dos ministros” e a resposta não só é afirmativa como Afonso Costa se dispõe a recebê-lo. “Como? Pergunta-me se tivemos qualquer negociação com a Alemanha? Não, não. O ato que acaba de se passar foi a consequência lógica do decreto de hoje publicado no Diário do Governo. Fizemos o que fez a Itália e dando até mais garantias. Usamos de um direito. A requisição dos navios, determinada pelos interesses da economia nacional, foi devidamente notificada aos representantes dos armadores”.

 

O decreto de que o primeiro-ministro, nos padrões atuais, fala é o tal 2229, publicado na manhã de 23, num suplemento do “Diário do Governo”. Representa uma resolução engenhosa para tomar conta dos navios alemães, e posteriormente dos austríacos, surtos em portos portugueses e que somarão 72 no total. Insinuada por Inglaterra, trata-se de uma “lei de circunstância”, como a apelidará o ministro dos Negócios Estrangeiros em entrevistas aos jornais. “O apropriamento dos navios alemães obedece à necessidade absoluta que temos de navios para transportes. Simplesmente a isso. Repito - não pode nem deve ser encarado como ato de hostilidade”, dirá Augusto Soares, na certa adivinhando guerra...

 

O diploma determina a requisição de meios de transportes marítimos, “atendendo aos interesses da economia nacional, no que respeita aos meios de transportes marítimos, que cada vez se tornam mais difíceis e dispendiosos, sendo um dos motivos dessa dificuldade a falta de navios que façam esse serviço; e a que semelhante assunto se prende diretamente com o atual problema de subsistências, que é de salvação pública e por isso reclama instantemente medidas urgentes e adequadas às imperiosas necessidades do país”. Na base, está a lei de 7 de fevereiro que dá carta branca ao Governo em “todas as providências destinadas a promover o abastecimento do país de matérias primas e mercadorias de primeira necessidade e a normalizar os mercados internos”.

 

Afonso Costa está convicto da solução, di-lo ao jornal republicano que lhe é favorável: “Para o Governo alemão, não tínhamos outra coisa mais a fazer além do que já fizemos: telegrafar ao nosso representante em Berlim a fim de que ele faça a respetiva comunicação ao governo germânico. E deixe-me acrescentar ainda: as coisas estão feitas por forma a que delas não poderá resultar qualquer dificuldade justa”.

 

Alemães apanhados desprevenidos

 

No consulado alemão não há respostas. Não receberam quaisquer instruções, limitam-se a receber os protestos de alguns capitães afetados. Não estavam à espera do sucedido, não antes de uma tentativa de entendimento com os armadores ou os proprietários. Os navios alemães presentes no Tejo estão consignados a companhias portuguesas, com ligações germânicas. “Como sabe, as dificuldades de comunicação com a Alemanha são grandes, enormes; só podemos entender-nos com Berlim por intermédio da telegrafia sem fios ou ainda via Madrid. Da legação, até agora, não recebemos ordens.”

 

Pelas oito horas da noite, continua em Xabregas o desembarque das tripulações alemãs. Um oficial doente fora autorizado a permanecer no navio, juntamente com a sua mulher, que servia de enfermeira; um cão e uma galinha também foram deixados num dos cargueiros, tendo os tripulantes pedido aos portugueses que cuidassem deles. Os funcionários da Alfândega passarão a noite a verificar as bagagens dos desalojados e a arranjarem-lhes quartos em hotéis e hospedarias. À meia-noite, os cafés do Rossio “estão apinhados de frequentadores que discutem o acontecimento do dia, uns apoiam outros já veem os petardos atacar a cidade”. Mas ainda há muito a saber: o jornalista telefona ao oficial de serviço do Arsenal a pedir autorização para ir a bordo do “Vasco da Gama”; é-lhe concedida passados alguns minutos. Pouco tempo depois, entra no escaler que o espera no Arsenal.

 

Já é uma da madrugada, a bordo do navio-chefe encontra-se o comandante da divisão naval, com quem o jornalista de “A Capital” trava uma “conversa amigável”, de uma hora, na sala de jantar, onde fora preso o ditador Pimenta Machado. Há menos de um ano, a 14 de maio de 1915, Leote do Rego liderara outra ação vitoriosa, mas sangrenta. Tomara conta do cruzador e capitaneara um bombardeamento à cidade para exigir a demissão do Governo que tomara posse há cinco meses e seguia um caminho ditatorial que desagradou a uma fação dos republicanos. A pretensão foi conseguida - contudo, a revolta custou a vida a cerca de duas centenas de pessoas.

 

Desta vez, diz Leote do Rego, “tudo correu naturalmente, nem qualquer outra coisa era de esperar”. Quanto a eventuais “indemnizações” aos alemães, frisa que “já as tiveram adiantadamente: são as vidas de Naulila, os dois barcos torpedeados e as colossais despesas que o governo está fazendo com a posse dos barcos”. E o dia de amanhã? “Será como o de ontem, será como o de hoje: ao lado da nossa velha aliada Inglaterra. Esse galante gesto de salut e neutralité acabou… e o nosso caminho está, como lhe disse, desde o princípio da guerra, vincadamente designado”. No dia seguinte, descobre-se que os homens dos cargueiros alemães tinham retirado algumas peças essenciais ao funcionamento de seis navios.

 

O contentamento é geral entre os aliados. Ainda no dia 24, o embaixador inglês felicita o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Soares. No dia 25, segundo João Chagas aponta no seu diário, “a novidade portuguesa do dia, que fez sensação em Paris — todos os jornais falam disso — é a apreensão dos navios mercantes alemães refugiados nos portos portugueses”. A 26, o ministro de Portugal em Londres, Manuel Teixeira Gomes, envia um telegrama a Augusto Soares: “Apreensão navios alemães causou aqui ótima impressão em círculos políticos e opinião publica”.

 

Nada contente está a fação republicana contra a entrada na guerra. Pedro Muralha escreve na “Vanguarda”: “Pode o país continuar a ser dirigido por gente que, sem o mínimo governo, está atirando um povo para um conflito que nos poderá trazer no futuro graves complicações?”. E, claro, os alemães estão danados. A 27, o embaixador protesta junto do governo português, dando o prazo de horas para a devolução dos navios. A primeira fase das requisições prosseguirá até 3 de março; no dia 4, o protesto sobe de tom, o Governo alemão chama Sidónio Pais; a 9, Portugal é obrigado a entrar na I Guerra Mundial.

 

Na véspera da declaração de guerra, cerca de uma centena de marinheiros alemães, saídos de Lisboa, chega a Bilbau, onde se gabam de terem inutilizado as máquinas dos seus navios com o objetivo de impedir o Governo português de os utilizar. De facto, perdeu-se algum tempo em reparações e em negociações com Inglaterra, mas quando foram entregues aos ingleses (os primeiros nove em setembro), em troca de um empréstimo de três milhões de libras, já navegavam. Um quinto da frota ficou ao serviço de Portugal.

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Para quem estiver interessado, o canal História está a transmitir The World Wars. São 6 episódios, os primeiros dois ainda conseguem ver se tiverem box para voltar atrás. O 3 e 4 dão amanhã acho eu, e os restantes para a semana. A qualidade é muito boa.

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Conseguem me arranjar em Pdf a revista de história do JN de fevereiro?? :compinchas:

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Como é que ninguém assinalou, neste tópico, durante a semana passada, a comemoração do 11 de março?

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http://expresso.sapo.pt/iniciativaseprodutos/2016-03-16-Colecao-Os-Descobrimentos-Portugueses-gratis-com-o-Expresso

 

De 25 de Março a 14 de Maio, não perca, grátis com o Expresso, a obra “Os Descobrimentos Portugueses”, de Jaime Cortesão, dividida em 8 volumes. Esta é uma obra há muito esgotada – desde 1991 – e um marco na historiografia portuguesa. A não perder.

 

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Não sou o Puro, mas tenho tido História da Arte no Mestrado, com um professor doutorado em História, e ele tem falado muito bem do Jaime Cortesão.

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