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Estórias da História

Publicações recomendadas

Citação de a.lopes, há 43 minutos:

 

@Black Hawk comenta 

 

O D. Duarte, coitado, será menosprezado para sempre, mas foi um óptimo rei. O Filipe I estar na linha dos seus sucessores é injusto, ele até foi um bom rei e respeitou a autonomia de Portugal.

Globalmente, está OK. Uns talvez uma linha acima ou abaixo, mas não há nada demasiado grave que se possa criticar.

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Citação de Black Hawk, há 15 minutos:

O D. Duarte, coitado, será menosprezado para sempre, mas foi um óptimo rei. O Filipe I estar na linha dos seus sucessores é injusto, ele até foi um bom rei e respeitou a autonomia de Portugal.

Globalmente, está OK. Uns talvez uma linha acima ou abaixo, mas não há nada demasiado grave que se possa criticar.

É injusto nada!

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O D. Miguel entra na lista "oficial"?

Fiquei curioso por não ver que o D. Sebastião tinha companheiros.
Uma palavra para o D. Pedro V que tanto me diz, uma pena ter morrido de forma tão precoce, o potencial estava todo lá.

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Citação de Gilberto Carlos, há 7 minutos:

Rei, só o Eusébio!

*King

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Banqueiro do rei e do diabo

Duarte da Silva (1596-1688), cristão-novo, colocou a sua fortuna ao serviço da Restauração de Portugal. Conheceu o padre António Vieira, esteve preso pela Inquisição durante cinco anos e foi responsável pelo dote do casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra. Morreu como judeu em Antuérpia.

Duarte da Silva nasceu em Lisboa em 1596, filho de um oficial cobrador da sisa, Diogo Pinto, nascido em Alter do Chão, e Catarina Henriques, ambos cristãos-novos, foi batizado na Igreja de São Nicolau, em Lisboa, e crismado na Igreja de São Julião. Os seus avós paternos eram o escrivão Duarte de Sousa e Beatriz Pinto e era sobrinho de Simão Alvarez e da mãe do nego­ciante Duarte da Silva Leão. A veia materna da família reforçou a inclinação e as oportunidades para Duarte da Silva se lançar no comércio e nos negócios.

Na década de 1620 residiu na Bahia (Brasil), onde conheceu o padre António Vieira e se cruzou com os primos/cunhados Jorge Dias Brandão e Rodrigo Aires Brandão, que faziam negócios com açúcar e representavam outros mercadores. Juntos lideravam uma vasta rede comercial que se estendia por todas as partes do Império Português e da Europa. Nesta ocasião, Duarte da Silva participou na luta contra os holandeses, que invadiram a Bahia em 1624, chegando a ser preso e levado para os Países Baixos pelos inimigos, altura em que conheceu o padre António Vieira.

Em 1626 casou-se com Branca da Silva, de Viana de Foz do Lima, atual Viana do Castelo, que era ainda sua prima, pois a sua avó materna era bisavó da esposa. Em Viana do Castelo, que até 1620/25 foi um importante porto de descarga de açúcar do Brasil, viveu durante dois anos e, depois, fixou-se em Lisboa, onde nasceu a sua prole de sete filhos: Diogo Pinto da Silva, Francisco Dias, Simão Henriques, João Henriques, D. Catarina da Silva, D. Serafina e D. Joana.

Na sua tese de doutoramento “O Banqueiro do Rei: a Trajetória de Duarte da Silva (1630-1688)”, Thiago Groh diz que, “no comércio com as Índias, Duarte da Silva não apenas acumulou dinheiro como experiência mercantil, que lhe foi útil na década de 1630 para associar-se a Francisco Botelho Chacon, que comerciava pimenta e gengibre pela Rota do Cabo, e para envolverem-se no comércio de açúcar. Juntos, Chacon e Duarte também participaram de negócios na Índia, em sociedade”.

Do Brasil vinham carregamentos de caixas de açúcar e rolos de tabaco, que de Lisboa eram reexpedidos para as principais praças de comércio europeias, como Roma, Veneza, Hamburgo, Amesterdão, Frankfurt, Nápoles, Liorne, Londres, Antuérpia, Ruão, etc., e da Índia passavam pela sua casa “fardos de seda em rama, tafetás, sacas de arroz, peças de serafina, de bombazina, quintais de bacalhau, roupas finas da Índia, caixas de banequins finos, caixas de coral, diamantes, etc.”, refere António Baião no segundo volume de “Episódios Dramáticos da Inquisição Portuguesa”.

No entanto, tirando partido da participação dos judeus sefarditas e cristãos-novos, Duarte da Silva participou nos três eixos comerciais existentes, como o de Lisboa e Índia, o mar Mediterrâneo, marcado pela circulação de pedras preciosas e especiarias, o do Norte da Europa, centralizado entre Amesterdão e Lisboa e envolvendo principalmente o comércio de tecidos, e o que bordava o Atlântico Sul, a Península Ibérica, com o comércio de açúcar e o tráfego negreiro.

A fortuna de Duarte da Silva consolida-se nos últimos anos dos tempos dos Filipes. Thiago Groh sublinha que foi na década de 1630, ainda no reinado de Filipe IV, que Duarte da Silva conseguiu “obter o seu primeiro grande negócio no reino, ao vencer Pedro Baeça na disputa pelo controlo do comércio do Brasil. Concomitantemente a isso, ele passa a emprestar dinheiro para a Coroa, principalmente para a defesa do Brasil”.

ENTRADA NO CÍRCULO DO REI

Apesar deste primeiro negócio com a Coroa espanhola, Duarte da Silva não estava no círculo dos negó­cios da Corte no período filipino, que passavam sobretudo por Pedro Baeça da Silveira, cristão-novo, que pertencia a uma tradicional família de mercadores na Península Ibérica. Tesoureiro da alfândega, Pedro Baeça da Silveira dominava, em termos de negócios, o eixo Madrid-Lisboa e arrematava a maior parte dos contratos de exclusividade concedidos pela Coroa.

Com a Restauração de 1640 anunciavam-se novos tempos. Em 1641 foi descoberta uma conspiração dos partidários do rei Filipe IV (1605-1665) de Espanha para assassinar D. João IV (1604-1656) e, assim, devolver o trono à Casa dos Habsburgos, que era considerada a legítima herdeira da Coroa de Portugal. A conjura tinha como principais cabeças o marquês de Vila Real, D. Luís de Meneses, e o seu filho, D. Miguel de Meneses, duque de Caminha, Rui Matos e Noronha, conde de Armamar, o cardeal primaz, D. Sebastião de Matos Noronha, o apoio e incentivo do inquisidor-geral, D. Francisco de Castro, e o apoio financeiro de Pedro Baeça da Silveira, que seria enforcado.

Este episódio abriu passo à influência e ao peso na Restauração de Duarte da Silva e da sua rede, como Francisco Botelho Chacon, Manuel Ferreira, Jerónimo Nunes da Costa, Jorge Dias Brandão e Rodrigo Aires Brandão, que no reinado de D. João IV se tornaram decisivos para a sobrevivência do reino de Portugal. Receberam ainda um impulso com a chegada a Lisboa do padre António Vieira, que conhecia Duarte da Silva da Bahia e a quem o jesuíta logo escreveu a pedir que emprestasse 300 mil cruzados para financiar uma armada para evitar nova invasão da Bahia.

Como assinala Thiago Groh, foi chave a proximidade de Duarte da Silva com o secretário da Fazenda, Pedro Fernandes Monteiro, que aderiu ao movimento da Restauração logo nos primeiros momentos e conquistou a confiança de D. João IV e, em pouco tempo, passou de corregedor do crime de Lisboa para cargos de governo.

Os meios financeiros, que estes homens de negócios propiciaram através do crédito e dos financiamentos, permitiram que Portugal restaurado se defendesse e sustentasse a sua independência, tanto em termos diplomáticos, com os financiamentos das embaixadas, como militares, com a compra de armas, peças de artilharia, navios, pólvora para as frentes de guerra com Espanha e Países Baixos. Esta rede empresarial atraiu ainda para a causa da Restauração os mercadores, os banqueiros e as comunidades de sefarditas e cristãos-novos espalhadas pela Europa.

DUARTE DA SILVA E A INQUISIÇÃO

Naquele tempo pairava sobre as pessoas, nomeadamente os cristãos-novos, a ameaça da malha apertada da Inquisição. Segundo António Baião, as primeiras anotações sobre Duarte da Silva existentes no Palácio dos Estaus, sede da Inquisição, foram feitas a 6 de dezembro de 1632 pelo cristão-novo Pedro da Silva, natural de Antuérpia, que ouvira, um ano e meio antes, Duarte da Silva, que morava em São Mamede, chamar cães aos padres, cristãos-velhos e inquisidores e dizer que “todos haveria de levar o diabo” e o acusava de cumprir o jejum grande, yom kipur, o que seria judai­zante. Quatro anos depois, em 19 de maio de 1636, o preso Luiz de Mello, advogado da relação de Lisboa, aludiu também a práticas judaicas de Duarte da Silva.

Em 8 e 10 de março de 1644, duas testemunhas disseram que Maria Henriques lhes confessara que Duarte da Silva praticava atos de judeu e, em Goa, um preso dissera ter ouvido dizer em Antuérpia que Duar­te da Silva era judeu. Dias depois, Brites Henriques, originária de Viana do Castelo e familiar de Duar­te da Silva, regressou ao palácio da Inquisição, depois de ter estado presa entre 1618 e 1620, desta vez acompanhada pelas filhas, Maria Henriques, de 12 anos, e Francisca Henriques, de 15 anos. Estas denunciaram o banqueiro Duarte da Silva e família e a mãe de comportamentos judaizantes. Brites Henriques foi sentenciada com a morte em auto cumprido no Terreiro do Paço em 25 de junho de 1645.

Dois anos mais tarde, em Viana do Castelo, a Inquisição prendeu Domingos de Medeiros, que, um ano e meio depois, acusou a família de Duarte da Silva. Assim, a primeira instância da Inquisição proferiu em 4 de junho de 1646 um despacho em que dizia que o banqueiro se poderia ausentar para o estrangeiro, como acontecera com o filho mais velho, Diogo da Silva, e que, por isso, “se deveria dar ordem a algum ministro da justiça secular para prender no Limoeiro ao dito Duarte da Silva sem se entender que é por ordem do Santo Ofício”. Mas no próprio dia o Conselho Geral foi de parecer que as culpas não eram ainda formais. Porém, ao terceiro pedido, e com base em novos depoimentos de Maria e Francisca Henriques, considerou por fim que havia provas suficientes para a prisão do banqueiro e mercador.

Duarte da Silva soube da decisão e, durante três dias, esteve em fuga para organizar os negócios da família, garantir a manutenção da sua rede de negócios e contactar o rei D. João IV, que o aconselhou a entregar-se e que lhe terá prometido uma libertação da Inquisição em semanas, o que viria a revelar-se impossível. Este comportamento de Duarte da Silva mostrava que sabia o que se passava no Tribunal da Inquisição, e conhecer os segredos desta organização era um crime ligado à heresia.

A PRISÃO DIFICULTA O CRÉDITO DA COROA

A 9 de dezembro de 1647, Duarte da Silva entregou-se à Inquisição, e nas semanas seguintes foram presos os cunhados Jorge Dias Brandão e Rodrigo Aires Brandão, sob a acusação de judaísmo, a esposa, Branca da Silva, acusada de impedir o justo funcionamento do Santo Ofício, e, em janeiro de 1648, a filha Catarina da Silva, acusada de judaísmo e que mais tarde se casaria com Jorge Dias Brandão.

Como diz Thiago Groh, “contra qualquer sucesso da monarquia portuguesa dentro e fora do reino estava o Santo Ofício, liderado pelo inquisidor-geral D. Francisco de Castro, que se mantinha filipino, mesmo após o fracasso da insurreição de 1641 e sua prisão até 1643”. Estas prisões, sobretudo de Duarte da Silva, foram um duplo golpe da Inquisição contra D. João IV, porque atacava o ponto mais fraco do rei, que eram as finanças, e o padre António Vieira, porque rompia com as articulações para conseguir o retorno dos judeus a Portugal sem que fossem presos pelo Santo Ofício e tivessem os bens confiscados, e dificultava a política externa, que procurava o reconhecimento internacional da Casa de Bragança, e a aquisição de equipamento militar.

Em cartas ao marquês de Niza, o padre António Vieira escreveu a 20 de janeiro de 1648 que o dano da prisão de Duarte da Silva ao comércio de Portugal era “maior do que lá se considera”, a 27 de janeiro de 1648 que “a prisão de Duarte da Silva nos retirou não só o dinheiro mas o crédito de todo” e a 16 de março de 1648 que “não há quem queria passar um vintém a Portugal com estas prisões dos homens de negó­cios, e no dia em que chegou a nova da de Duarte da Silva subiu o câmbio a 5%”. Seria a partir da sua cela que Duarte da Silva conseguiria que Jerónimo Nunes da Costa, agente diplomático e mercador em Amesterdão, e o pai, Duarte Nunes da Costa, mercador em Hamburgo, ajudassem na retoma do crédito a Portugal, porque eram cristãos-novos.

O crédito da Coroa portuguesa só seria totalmente recuperado com o alvará de fevereiro de 1649, que estabelecia a criação da Companhia Geral de Comércio do Brasil e livrava os cristãos-novos do confisco do capital investido na Companhia no caso de caírem nas malhas da Inquisição. Baseava-se numa ideia do padre António Vieira em 1644, mas só se tornou realidade em 1649.

Segundo Thiago Groh, formalizava “a união comercial entre cristãos-novos e a Coroa, ao mesmo tempo que enquadrava o Tribunal do Santo Ofício, que ficava impedido de confiscar os bens dos investidores da empresa no caso de prisão e condenação desses”, tendo ficado conhecida como a companhia dos judeus, embora, como sublinha o historiador brasileiro, o capital estivesse dividido entre cristãos-novos e velhos e a Coroa, para se “formar uma elite comercial em Portugal”.

As ações venderam-se na Bolsa de Amesterdão e de Paris, mas o dinheiro arrecadado não permitiu que se criassem duas frotas, como se estabelecia no alvará de criação da Companhia, sendo necessário recorrer ao aluguer de navios e ao capital inglês. Esta nova companhia contou com a participação de Duarte da Silva e do seu grupo comercial e, em termos bélicos, foi importante para garantir a vitória e a reconquista do Nordeste do Brasil aos holandeses.

A EXPERIÊNCIA NA PRISÃO

Durante a prisão, Duarte da Silva e a família acertaram a sua estratégia de defesa através de bilhetes e mantendo-se em silêncio, mesmo depois das sessões de tormento e tortura, duas das quais suportadas por Duarte da Silva. No decorrer do processo, que se baseou em 15 testemunhos obtidos entre 1632 e 1650, Duarte da Silva teve de provar que não tinha feito a circuncisão — e os médicos, nomeados pela Inquisição, escreveram que encontraram “a dita parte inteira, sem lesão alguma”.

Enquanto esteve preso, Duarte da Silva manteve-se leal à restauração do reino de Portugal e a D. João IV, que, por exemplo, recorreu aos bens confiscados a Duarte da Silva pela Inquisição para financiar a campanha de Salvador Correia e Sá Benevides para a reconquista de Angola. Com esta ação militar, Portugal retomou o controlo sobre o comércio e tráfico de escravos no Atlântico Sul, para “garantir a mão de obra necessária para a manutenção das fazendas de açúcar, principalmente no Rio de Janeiro, onde a economia se expandia”, escreveu na sua tese Thiago Groh.

Neste período, os negócios e a rede comercial global de Duarte da Silva foram geridos pela esposa, Branca da Silva, que estivera presa pela Inquisição três meses no início de 1648, através dos bilhetes que o marido lhe enviava. Os bens de Duarte da Silva inventariados no seu processo passaram a ser protegidos após o alvará de 6 de fevereiro de 1649, em que se isentaram os cristãos-novos presos pela Inquisição do confisco de bens.

Duarte da Silva foi então sentenciado a um auto de fé, com uma vela acesa na mão, abjuração de veemente, cárcere a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé católica, penitências espirituais... A 1 de dezembro de 1652, o rei D. João IV assistiu ao auto de fé, realizado em Lisboa, em que Duarte da Silva abjurou dos seus erros e Manuel Fernandes Vila Real, outro colaborador próximo do rei que fora preso a 30 de outubro de 1649, foi condenado à morte. Por causa do segundo processo, de quebra do segredo da Inquisição, Duarte da Silva foi condenado ao degredo para o Brasil durante cinco anos, pena de que foi libertado depois de ter escrito ao Tribunal, a conselho de D. João IV, que “não podia deixar o reino por estar ocupado com serviços de Sua Majestade”, o que foi aceite.

O CASAMENTO DE D. CATARINA DE BRAGANÇA

Com a Restauração, a Casa de Bragança perdera a capacidade de gerar alianças através de casamentos e tinha dificuldades em casar os filhos de D. João IV e D. Luísa de Gusmão, o que impedia o seu reconhecimento como Casa Real. Fizeram-se tentativas para o casamento de D. Teodósio (1634-1653), herdeiro do trono de Portugal, com Anne Marie Louise d’Or­léans, herdeira do trono francês, filha do duque Gaston d’Orléans, em 1646, e depois, em 1648, com a infanta espanhola D. Maria Teresa d’Áustria.

Catarina de Bragança (1638-1705), nascida no Paço Ducal de Vila Viçosa, assumiu um papel importante na política matrimonial portuguesa, tendo como alvos a França e a Espanha. O príncipe francês, que já se havia tentado com D. Joana (1635-1653), foi de novo sondado. Não surtiu efeito, e o alvo seguinte foi D. Juan José de Áustria, filho legitimado de Filipe IV, que não reconhecia a independência de Portugal, considerando-a como província rebelde. Entre 1656 e 1657 negociou-se o casamento de D. Catarina com o rei de França, Luís XIV (1638-1715), e, segundo Joana Almeida Troni, na sua biografia “Catarina de Bragança (1638-1705)”, o dote proposto atingiria os 3 milhões e 300 mil cruzados, mas esta hipótese gorou-se.

Em 1660, a dinastia de Bragança ainda não tinha sido reconhecida pela Vaticano e mantinha-se em guerra com Espanha e as Províncias Unidas (Países Baixos). Por sua vez, França aproximara-se de Espanha, por isso a alternativa era fazer alianças com Inglaterra. Seguiram-se as negociações para o enlace com Carlos II (1630-1685) de Inglaterra, em que se sucederam várias tentativas de boicote. Os espanhóis faziam chegar rumores sobre a beleza, o que se resolveu com um retrato, a sua saúde e a sua infertilidade, no que acertaram, enviaram uma lista alternativa de princesas europeias e difundiram panfletos críticos pela prometida entrega de Tânger e Bombaim aos ingleses. Por sua vez, os embaixadores de França, Espanha, Dinamarca e Países Baixos reuniram-se para oferecer um dote superior aos 2 milhões cobrados a Portugal, quantia que duvidavam que os Braganças pudessem honrar.

Depois da morte de D. João IV em 1656, a regente D. Luísa de Gusmão (1613-1666) e depois D. Afonso VI (1643-1683) nobilitaram Duarte da Silva e os seus filhos. Reconheciam assim os seus serviços e apoios financeiros desde os primeiros momentos da Restauração até ao seu grande esforço no empenho de garantir o pagamento do dote de D. Catarina de Bragança, que, como sublinha Thiago Groh, se traduziria “na primeira vitória política e diplomática da nova dinastia portuguesa”.

O hábito também significava a limpeza de sangue. Segundo Fernanda Olival, no artigo “Juristas e mercadores à conquista das honras: quatro processos de nobilitação quinhentista”, no período da Restauração (1640-1669), cerca de 60 pessoas com ascendência judaica, ou seja, cristãos-novos, receberam o hábito da ordem, um reflexo do envolvimento desse grupo no processo da Restauração nas diferentes frentes, tanto militar como diplomática e económica.

Carlos II anunciou ao Parlamento o casamento com Catarina de Bragança em 19 de maio de 1661, nos termos do tratado de aliança e paz, e à noite fizeram-se “muitas fogueiras, luminárias e fontes de vinho”. O monarca deu dinheiro ao povo pelas janelas, e a artilharia troou com vigor em Londres.

A PRISÃO POR CAUSA DO DOTE

O acordo de casamento entre Catarina de Bragança e Carlos II tem 21 artigos, entre os quais um que previa a entrega de Tânger e Bombaim aos ingleses, facilidades comerciais no Brasil e um dote de 2 milhões de cruzados portugueses. Segundo o contrato de casamento, o primeiro pagamento do dote seria de um milhão de cruzados em dinheiro, pedrarias, açúcar e outras mercadorias que deveriam ser convertidas em dinheiro no prazo de dois meses e transportadas na Armada da rainha, e a segunda metade seria paga em duas vezes no prazo de um ano. O fiador do dote foi Duarte da Silva — como mostra a procuração da “Rai­nha Regente para Duarte da Silva entregar a Carlos II de Inglaterra o dote que se deu à Senhora D. Catarina” —, que conseguiu nomear o seu filho Francisco Dias da Silva como tesoureiro.

No entanto, como escreveu Virgínia Rau em “Dona Catarina de Bragança, Rainha de Inglaterra”, em abril de 1662, quando Catarina embarcou com destino a Inglaterra, tinha sido acordada uma nova forma de pagamento do dote, porque nem com empréstimos forçados, aumento de impostos e venda de joias e prataria de D. Luísa de Gusmão se conseguira juntar um milhão de cruzados. Era constituído por 70 mil cruzados, letras de crédito e mercadorias.

D. Catarina partiu a 23 de abril de 1662 e chegou a Portsmouth a 14 de maio de 1662, porém foi visitada por Carlos apenas a 20 de maio. Casaram-se a 21 de maio de 1662, em duas cerimónias — uma católica, realizada em segredo, e depois uma anglicana, em público. O matrimónio não se realizou no país da noiva porque a Casa de Bragança era reconhecida pela Igreja como ducal, e para ser um casamento régio teria de ser em Inglaterra, uma casa real.

Na comitiva de Catarina de Bragança foram Duar­te da Silva e o filho Francisco Dias da Silva, que se juntaram a uma crescente comunidade de judeus cristãos-novos com posições mercantis e financeiras cada vez mais proeminentes. Mas, em Londres, Duar­te da Silva viria a conhecer de novo a prisão, onde esteve cerca de um ano, devido a problemas com o pagamento do dote, porque o rei Carlos II recusou as pérolas e joias da infanta portuguesa e o banqueiro não foi suficientemente expedito a arranjar dinheiro.

Segundo Joana Almeida Troni, de acordo com o documento de herança de Duarte da Silva, “os problemas de conversão das joias e dos géneros em numerário conduziram à necessidade de o procurador do dote pagar ao monarca com o seu próprio dinheiro, adiantando pela Coroa portuguesa um milhão e duzentos mil cruzados”. Em abril de 1663, o primeiro milhão prometido ao monarca inglês estava quitado e, em 1669, o príncipe regente D. Pedro (1648-1706), depois D. Pedro II, mandou pagar o que faltava do segundo milhão, que era de mais 600 mil cruzados, cuja liquidação só se concluiu em 1684.

MORTE EM ANTUÉRPIA

Duarte da Silva radicou-se em Londres juntamente com os seus filhos, Francisco e João da Silva, o genro, Jorge Dias Brandão, e a filha. Através de Fernão Mendes da Costa, Duarte da Silva aproximou-se e estreitou relações com a Coroa inglesa. O filho de Fernão, Fernando Mendes, também um cristão-novo português, era médico de D. Carlos II e D. Catarina, de modo que a influência da família Mendes ajudou ao estabelecimento de Duarte da Silva e sua família.

Em Londres, Duarte da Silva converteu-se ao judaísmo, mas mantinha a vontade de regressar a Portugal. Escreveu a D. Afonso VI propondo ajuda financeira militar, por terra e mar, em troca do estabelecimento de um perdão geral a todos os cristãos-novos, mesmo ex-réus, alteração no “estilo” da Inquisição, pondo fim ao segredo inquisitorial do processo, e autorização para instalação de uma sinagoga pública em Portugal. Esta proposta era semelhante às que o padre António Vieira fizera muitos anos antes e foi recusada.

Em 1672, Duarte da Silva foi viver para Antuérpia, um protetorado espanhol, onde se instalara o filho Francisco Dias da Silva, que servia o governo de Espanha. Foi na sua casa que D. Francisco de Melo Manuel da Câmara ficou em janeiro de 1669, quando se dirigia para Haia, onde era embaixador nos Países Baixos.

Segundo António Baião, não se conhece a data exata da morte de Duarte da Silva, mas houve notícias de que fez o testamento em Antuérpia em 2 de agosto de 1676 e que, em 28 de abril de 1688, o seu filho Francisco Dias da Silva o apresentou após o falecimento do testador. O seu corpo foi levado para os Países Baixos, onde foi sepultado. Portugal restaurado era uma realidade, o padre António Vieira preparava a edição do primeiro volume dos seus “Sermões” e Duarte da Silva morrera junto da família.

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Citação de Mayday, há 5 horas:

Um polícia recebeu ordens do comandante da PSP de Lisboa para registar a Revolução. As imagens inéditas agora reveladas mostram a queda do regime vista por quem perdeu. A misteriosa história das fotografias sem cravos nem festa, mas com vinho e fogo

Numa garagem em São Pedro da Cadeira, Torres Vedras, grandes folhas de cartão com fotografias coladas contam uma parte da história de Portugal. Só que não, porque ninguém sabe que as fotografias lá estão. Imagens como a da camioneta de caixa aberta que transporta dez militares e quatro pipas de vinho. Ou do aglomerado de pessoas que cercam um automóvel e batem no tejadilho. Quase se houve o som da ira contida na fotografia. Há retratos com chaimites, soldados, população civil, muitos jovens, mulheres, homens com grandes bigodes. Há turba, um carro de rodas para o ar, incinerado, e um homem que olha a destruição a sorrir. Uma Lisboa cheia de gente, excitação e espanto. Gente que olha, gente que grita. Um grupo de homens sobe a rua com garrafas de vinho nas mãos. Não há cravos, a festa não foi convidada para aquelas fotografias e, como se espera, nunca se vê o autor dos disparos, mas, pela distância com que este fixou a imagens, quase lhe sentimos o medo. Pedaços inéditos do dia 25 de abril de 1974.

A garagem que esconde essas fotografias é de Zacarias Duarte Ferreira, 87 anos, polícia aposentado, detentor do cartão vitalício com o número 115293. Na imagem congelada aparece fardado, mas Zacarias quase nunca vestiu o uniforme para trabalhar. Era polícia da PSP, usava a discrição como arma para cumprir a sua missão. Durante cerca de duas décadas foi fotógrafo do Comando Distrital de Lisboa, na Rua Capelo, Chiado. Longe de tudo explicar, Zacarias é uma caixa de surpresas, levanta mais questões do que as responde. Só conta o que quer e sempre com cautela, peso e medida. Muito continua por perceber.

A meada desta história começou a ser desenrolada quando, no início do outono do ano passado, um envelope e uma máquina fotográfica antiga foram entregues no edifício do Arquivo Nacional Torre do Tombo (ANTT). Em papel estavam imagens inéditas da ação policial que em 1972 reprimiu a tentativa de um grupo de jovens de levar em ombros até ao Cemitério da Ajuda a urna de José António Ribeiro dos Santos, estudante assassinado pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado, a polícia política do Estado Novo). Para assinalar a passagem em 2022 de 50 anos sobre o crime, o ANTT preparou uma conferência e, depois da inesperada oferta, também uma mostra documental, em que as fotografias inéditas eram o ponto alto. Expostas na entrada da Torre do Tombo, a poucos metros da Faculdade de Direito onde Ribeiro dos Santos estudou até ter sido morto, na sequência de uma rusga da polícia a uma reunião estudantil no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (atual ISEG). O autor das imagens tinha nome — Zacarias Duarte Ferreira —, mas não tinha história conhecida

A exposição esteve patente entre 7 de outubro e 10 de janeiro e nunca foi prestada ao ANTT informação detalhada sobre o autor das fotografias, já muito reproduzidas na internet. Em sites como paginavermelha.net ou ribeirossantos.net, aparece a explicação possível: “Entregues por Alberto Silva, atendendo a que o autor, por razões de mobilidade, já não se poderia deslocar ao ANTT, totalizam 11 provas em papel fotográfico de gelatina sais de prata.” Era preciso saber mais sobre o autor das imagens. A equipa da Torre do Tombo pediu autorização para ceder o número de telefone de Zacarias Duarte Ferreira, que, contactado pelo Expresso, depois de alguma insistência, aceitou receber os jornalistas.

No primeiro encontro na sua casa em São Pedro da Cadeira, Zacarias não contou que era polícia. Nem deu essa informação ao ANTT quando pediu a um vizinho que entregasse as fotografias na Cidade Universitária. À espera do Expresso tinha apenas três páginas manuscritas, em que relatava uma versão higienizada de como as fotografias do transporte da urna de Ribeiro dos Santos tinham sido tiradas. Em tom de conclusão, escreveu: “O meu objetivo era apenas fotografar e, por sorte, o caso mais relevante deu-se mesmo em frente à casa onde estava.” Tudo fruto do acaso, mas não foi assim que se passou na realidade. Já na garagem, Zacarias cedeu. “Não era para contar e não pode escrever, o que lhe vou dizer, mas fui polícia e fotografei o funeral no meu horário de trabalho.” De repente, tudo muda. A ideia de que um cidadão, eventualmente até um apoiante da causa estudantil, quisera apenas registar a luta entre manifestantes e polícias ganha outra relevância. Abrem-se caminhos inesperados de interpretação. Afinal, quem era realmente Zacarias Duarte Ferreira e porque é que fotografou aquele evento?

O impasse só se resolveu com a intervenção do Ministério da Administração Interna, que confirmou a identidade de Zacarias e assegurou ao fotógrafo que não haveria nenhuma represália por ele contar a sua história na íntegra. “Eles podem vir atrás de mim”, dissera, sem conseguir concretizar quem eram “eles” ou o que lhe poderia acontecer por contar a verdade. Ultrapassado o obstáculo, é marcado um novo encontro na garagem em Torres Vedras. Desta vez, Zacarias está mais à vontade e conta uma versão aparentemente mais completa, embora nunca se saiba realmente se será a íntegra da sua história.

O INÍCIO

Só andou na escola até à terceira classe, mas aos 18 anos comprou os livros da quarta classe, estudou-os sozinho e quando entrou para a vida militar prestou exame e foi aprovado. Entrou para o Serviço de Saúde e inaugurou o quartel da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Quando voltou à vida civil, regressou às suas funções de pintor de obras. Três anos mais tarde, em 1961, entrou para a PSP e prestou serviço no posto de socorros. “Era maqueiro e passei a enfermeiro do Hospital Militar, na Estrela, depois de tirar o curso. Foi na altura em que ficámos sem Goa. Diziam que não havia enfermeiros.” Em 1956, tinha 21 anos e não era casado, tinha chegado a Lisboa. “Em 1961 fui para a Polícia, fiz as provas físicas, clínicas e escritas.”

A fotografia apareceu quando Zacarias foi morar para a Penha de França, onde era o Comando-Geral da PSP. “Conheci um jovem que era aprendiz de fotógrafo. Ele fotografava para a igreja e convidou-me para o ajudar. Eu disse que não percebia nada de fotografia mas tinha muito gosto em aprender. Comecei a fotografar com ele e comprei logo uma máquina. Foi uma zaragata com a minha mulher, que achou que estava a gastar muito dinheiro. Andei com ele três meses e meio e depois fiquei sozinho. Havia muito serviço. Muitos batizados. Mas ele não me pagava e queixei-me ao padre. Nós dávamos um tanto para as despesas da igreja. E o padre disse que passava a ser 15 dias um e 15 dias outro, até que eu fiquei sozinho.”

Durante a semana Zacarias trabalhava na Polícia como enfermeiro e aos fins de semana era fotógrafo. Foi ganhando fama: “Gosto muito das coisas difíceis, fazia muitas reproduções de fotografias antigas e passei a ser conhecido. As pessoas vinham dos arredores de Lisboa e pediam-me para reconstruir fotografias estragadas. Eu punha um casaco novo, uma gravata. Muitas vezes rejeitava trabalho, tanto que era. Ganhei algum dinheiro, mas cheguei a deitar-me às quatro da manhã para me levantar muito cedo no dia a seguir.”

No Comando, Zacarias continuava no Posto dos Socorros até que o comandante distrital Pedro Barcelos, colega de curso de António Spínola, o terá mandado chamar. “Estávamos em 1972. Eu já tinha um laboratório em casa, mas um dia estragaram-me um flash e eu disse que não levava mais material caro para o quartel e o comandante disse que eu visse o preço das coisas e mandou-me fotografar. A GNR tinha já um estúdio e fiz ver ao comandante que a PSP não era inferior”, recorda. Passou então a trabalhar como fotógrafo da PSP, subordinado ao Departamento de Relações Públicas e Planeamento, no Comando Distrital de Lisboa, atual Comando Metropolitano.

“O comandante foi muito simpático, disse que sabia que eu era um bom profissional e que queria que passasse a ser fotógrafo da PSP. Eu disse que tinha um horário de 24 horas, dia sim, dia não, e que de vez em quando fazia serviços por fora. E que queria manter o horário e ele respondeu que, desde que o serviço ficasse assegurado, podia folgar dois dias seguidos. No início éramos três, mas depois um saiu, não tinha vontade em aprender”, explica Zacarias Duarte Ferreira, passados 50 anos. Embora no Museu da PSP não tenham ainda sido encontrados registos que confirmem essa versão, a historia­dora Maria Fernanda Rollo, que desde 2014 organiza o acervo patrimonial da Polícia de Segurança Pública, remete a criação deste departamento para um despacho de 1962. “Ainda não temos documentação que explique exatamente como funcionava”, afirma a professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

A rotina daquele período pesava sobre as costas de Zacarias: “Todos os dias fotografava presos, às vezes eram mais de 30, e caía em mim a responsabilidade para que não acontecessem erros, como enganos nos nomes e registos. Lidei com toda a espécie de cadastrados, burlões, carteiristas, assaltantes, até falsos médicos ou engenheiros, anarquistas, pedófilos, sei lá mais o quê.” Todos os dias tinha de fotografar os presos do Governo Civil, e, recorda, às 10h as fotografias tinham de estar na Polícia Judiciária. Também fotografou os presos políticos? “Não, esses eram com a PIDE.” Mas havia mais motivos de registo: “Quando surgiam dizeres nas paredes perto da Feira da Ladra, nos caminhos para o lado poente, era muito chato. Um radiopatrulha passava e avisava-me onde tinha de ir com o meu carro, depois a pé, e muito rapidamente, fotografava os dizeres. Eram funções de responsabilidade.” Ao serviço da PSP fotografou também inaugurações, tomadas de posse, acidentes de viação, visitas de altas individualidades estrangeiras e acompanhava sempre as peregrinações ou excursões organizadas pela polícia. Diz que chegou a ir à Assembleia da República fazer o seu trabalho.

No caso do funeral de Ribeiro dos Santos, Zacarias teve mais tempo e maior preparação. “Fui chamado a assistir a uma reunião do Comando, explicaram-me que os estudantes diziam nos panfletos que iam percorrer a cidade e que era importante que ficasse nas fotografias.” Foi à civil, como sempre: “Eu não andava com uniforme porque tinha de andar escondido, se andasse fardado e soubessem que eu era polícia, davam cabo de mim.” E chama a si o protagonismo nas missões atribuídas pela chefia: “Era sempre eu que ia ao barulho. O comandante preferia que fosse eu. Ele decidia para onde eu ia. Houve uma situação no Campo Grande em que tivemos de fugir, porque levávamos da Polícia de Intervenção da Ajuda. Eram todos novos e não nos conheciam.”

Naquele outubro de 1972, Zacarias teria um papel determinante. O funeral de Ribeiro dos Santos transformara-se numa grande manifestação de protesto contra o regime e numa forte ação de resistência às forças policiais. Milhares de pessoas juntaram-se à porta da casa onde o jovem vivia, para lhe prestar homenagem. Panfletos foram espalhados pela cidade, anunciando a manifestação, mas a PIDE e a polícia de choque cercaram o local e apoderaram-se da urna, desencadeando uma reação vio­lenta da multidão, que seguiu os operacionais até ao Cemitério da Ajuda, também cercado pela polícia. Apesar dos 87 anos, a memória de Zacarias ainda é aguda, recorda-se, por exemplo, que o funeral de Ribeiro dos Santos “foi numa quinta-feira”.

“Levei uma máquina de fole no bolso. As pessoas observavam tudo o que se passava do interior das casas. A certa altura, apoiei-me no parapeito de uma janela e simulei estar maldisposto. Fiz sinal a que me dessem água, um senhor com má cara fez-me um gesto para me dirigir à porta do lado, discretamente mostrei o meu cartão de polícia e ele convidou-me a entrar, dizendo logo que pertenciam à União Nacional [partido que apoiava o regime de Salazar]. Fiz as fotografias de lá, por trás do vidro da janela. Só depois de os estudantes irem embora é que saí. Revelei as fotografias na minha casa, porque ainda não havia laboratório no Comando.” E conta ainda mais: “Fiz duas cópias, uma entreguei e outra ficou comigo. Quis guardar porque sabia que não havia mais fotografias daquele acontecimento.”

25 DE ABRIL SEMPRE

Outro momento alto foi o registo do 25 de Abril. Desde as seis da manhã daquele dia que a PSP se tinha colocado às ordens de Salgueiro Maia, mas, apesar das ordens rigorosas para os agentes não saí­rem dos seus locais de trabalho, Zacarias pediu ao comandante Pedro Barcelos para fotografar o que se passava nas ruas. “Ele disse: ‘Vá, vá, é até interessante.’ Só me disse para, de vez em quando, voltar ao Comando para lhe contar como estava a andar. Fui ao Quartel do Carmo, estava à civil, incógnito, e numa altura em que abriram um bocadinho da porta ouvi um oficial dizer que só havia 20 minutos para se renderem.” Diz que nem todas as imagens agora mostradas ao Expresso terão sido feitas por ele, que o genro de um subcomissário terá feito algumas, não sabe dizer quais são de quem.

Ele ficou com todas. “Fiz duas coleções e ele disse que eu podia ficar com uma para mim. Não sei se eles ainda são vivos, mas o genro era mais novo do que eu. Eu tive autorização para ficar com as fotografias. Ainda vi o Marcello Caetano a espreitar pelo vidro da chaimite que o transportou. Mas não pude fotografar.” Zacarias tinha medo da reação da população, diz ter usado uma máquina pequena, incapaz de fazer registos à distância e que as fotografias “ficaram tremidas”.

O polícia-fotógrafo não acabaria o dia sem uma aventura memorável. “Quando estava à entrada do Governo Civil a conversar com um amigo, ouvi um tiro que me passou ao lado. Tau! O tiro era para mim, acertou na perna de um colega meu, também polícia. Fiquei nervoso, fui rodeado pelos colegas. A PIDE já estava ocupada e no terraço do Comando ouviu-se outra vez. Tau, tau! Os tiros passaram ao lado da minha cabeça, devem ter vindo da PIDE. Eu estava a ser vigiado, eles conheciam-me. Um indivíduo de um partido da oposição morava no meu prédio e sabia quem eu era. Fui até ao Serviço de Morse [Código Morse], que era no terraço, de gatas. Fiquei sem fala, ouvi o ruído das balas passarem rentinho da minha cabeça. Estive ali um bocado, depois regressei ao meu serviço e contei a história.” Zacarias Duarte Ferreira diz que nunca foi convidado para integrar a PIDE e que, se fosse, não aceitaria. “Não gostava desta polícia, a PSP não se dava com eles, que se armavam em muito importantes. Nunca me pediram as fotografias. E mesmo que pedissem, não dava”, garante ao Expresso.

REVOLUÇÃO As fotografias guardadas na garagem de Zacarias Duarte Ferreira reforçam o carácter misterioso do autor das imagens. O fotógrafo da PSP não as assume totalmente, mas também não consegue identificar quais as que não são suas. Mais relevante do que o nome do autor é o olhar de quem as fez, distinto das imagens do 25 de Abril até agora conhecidas

No dia a seguir ao 25 de Abril recorda-se de terem aparecido no Comando quatro fotojornalistas, porque queriam os rolos que lhes tinham sido apreendidos na véspera. “Eram fotografias de polícias em cima dos telhados, que me tinham mandado destruir, mas como sou muito prudente, guardei-os bem. Quando os jornalistas apareceram, fui buscar os rolos e devolvi-os aos jornalistas.” Diz não se recordar dos nomes dos fotojornalistas e não quer aprofundar o tema. Encerra a conversa.

No livro “Polícia(s) e Segurança Pública — História e Perspetivas Contemporâneas”, coordenado por Maria Fernanda Rollo, Pedro Marques Gomes e Adolfo Cueto-Rodríguez, fica evidente a forma como a generalidade da população olhava para as forças policiais. A primeira Companhia Móvel da Polícia foi criada pela PSP em 1960. Zacarias integrou este corpo um ano mais tarde. Quando a companhia surgiu veio “motorizada, treinada e equipada com modernos meios para eliminar as perturbações públicas que surgiam em qualquer ponto do país”, como se pode ler na obra citada. Onde pode ler-se ainda que a PSP era um “braço do Estado, um dos principais instrumentos de vigilância da população e responsável pela ordem pública nas zonas urbanas”, e que “chega a 1974 claramente associada à repressão e violência devido ao seu passado de estreita colaboração com a ditadura.” A edição de março/abril da revista interna da corporação, intitulada “Polícia Portuguesa”, refere mesmo que a PSP era “tida como força repressiva e fascista” e que aparecia com “uma imagem denegrida, por virtude de certos desvios e desmandos graves que se cometeram, desvirtuando a sua missão específica de força eminentemente cívica, em obediência a uma ordem político-jurídica instituída, que dela fez, como de outras forças, um instrumento da sua política.”

Após o 25 de Abril, Zacarias diz ter continuado a fazer o seu trabalho de fotógrafo da PSP, mesmo depois de Pedro Barcelos ter sido afastado do Comando Distrital, substituído por Casanova Ferreira, também ele substituído em 1975, na sequência do golpe do 11 de março, por José Aparício. Apesar da mudança política, os momentos mais difíceis para este agente não tinham ainda chegado ao fim. “Certa vez levei uma tareia nos Restauradores. Já tinha avisado o comandante de que as companhias móveis tinham de conhecer os fotógrafos ou ia haver chatices. Queriam sanear um major de um serviço qualquer com estrangeiros. Eu tinha duas objetivas, mas tive de me aproximar, e na altura em que esse major chegou, veio a polícia e deu-me uma tareia da meia-noite. Eu dizia que era colega, mas eles não ouviam nada e tive de ser suturado. A minha camisa branca ficou vermelha.”

Aposentado da PSP em 1984, Zacarias Duarte Ferreira abraçou então plenamente as funções de fotógrafo, agora no sector privado, dando impulso à loja que abrira na Penha de França, bairro onde viveu 41 anos. “Fui fotógrafo exclusivo das comunhões durante 31 anos em cinco igrejas: Sé, Santa Engrácia, São Vicente, Penha de França e Igreja de São Francisco. Os padres não queriam mais ninguém, porque eu sabia movimentar-me, não andava a estorvar. Cheguei a ter comunhões de 90 crianças”, conta com a saudade na voz. Mas, para alguém que mantém uma memória tão atenta, é surpreendente o que Zacarias diz sobre os negativos do seu trabalho: “Não tenho os negativos. Tinha outra casa, que vendi há uns oito anos, e coloquei cerca de 100 quilos de negativos no lixo. Separei os que interessavam numa caixa, mas a minha mulher trocou com a caixa dos que não interessavam e mandou tudo fora.”

MEMÓRIA SEM ARQUIVO

A preservação da memória apresenta-se como o elemento mais frágil desta história. Quantas fotografias de momentos históricos relevantes do país permanecem inéditas em locais desconhecidos? “Apesar de todas as diligências, as condições de acesso, o conhecimento do material é escasso”, sublinha o historiador Miguel Jerónimo, que coordenou com a realizadora Joana Pontes a exposição fotográfica “Visões do Império” no Padrão dos Descobrimentos, em 2021. Mesmo o trabalho jornalístico enfrenta dificuldades em cumprir a regra do contraditório, não só devido à falta de provas documentais como ao desaparecimento de fontes primárias.

O comandante Pedro Barcelos já morreu, o comandante José Aparício, com 86 anos e contactado pelo Expresso, já não está em condições de prestar declarações. A história acaba por ficar refém do testemunho de uma pessoa.

Para Miguel Jerónimo, o caso de Zacarias Duarte Ferreira é emblemático. O historiador vê nas imagens um 25 de Abril diferente do habitual e chama a atenção para a necessidade de se reconhecer “a diversidade de olhares, interesses, posições que foram marcando o período revolucionário e que, ainda por cima, não foram estanques”. Identifica nas fotografias momentos da Revolução e sublinha o que considera serem os diferentes pontos de vista que vê nas fotografias agora divulgadas, que, diz, “documentam os anos turbulentos da transição democrática, a partir das quais é preciso revisitar a história”. E questiona: “O que haverá por descobrir? Muito, como este caso mostra.” E a impossibilidade de se fazer “uma história do fim do regime e da democratização sem incluir os olhares de quem estava em situações de poder, de vigilância, de controlo, visando evitar o curso dos acontecimentos ou minimizar os seus efeitos”.

“Este é um caso extraordinário de uma informação histórica que é como se não existisse. É preciso pensar o 25 de Abril de forma diferente, com pontos de vista distintos.” Levanta a questão da utilização do trabalho de Zacarias, que afirma limitar-se a cumprir as missões que lhe eram destinadas, mas, posteriormente, não se sabe que uso era dado às suas fotografias. “Nada é dito sobre as intenções de quem o nomeou. Mesmo que as fotografias não fossem conscientemente ideológicas, há sempre um olhar ideologicamente vinculado.” Considera que algumas destas imagens têm como propósito a identificação e a vigilância de alguns indivíduos, outras são um registo informativo genérico, outras parecem ter uma preocupação estética. “São vários olhares, que parecem resultar de diferentes autores. O mais importante é que estas fotografias nos permitem ter acesso a como as forças do Antigo Regime olham para o 25 de Abril. É um olhar de quem está a ver a desintegração de um mundo de privilégio. Mas não é um olhar elitista, o que as torna mais relevantes, porque a nossa história tem sido feita a partir das elites.”

Aproveita para assegurar a necessidade de se aprofundar a investigação: “Esta história também levanta uma questão muito importante, relacionada com o cerimonial das comemorações em curso dos 50 anos do 25 de Abril. Sem sabermos os usos passados desta documentação visual, que riscos corremos nos seus usos presentes? Se não investigarmos mais os contextos de produção e uso destas imagens, que lugar têm elas no presente, na memória e nas comemorações? Saberemos o suficiente? Este caso mostra muito bem os limites deste conhecimento, pela escassez de informação, pelas reservas em partilhar o que se sabe, pelo silêncio em abordar certos problemas.” Também Silvestre Lacerda, diretor da Torre do Tombo, vê cenas do 25 de Abril nas fotografias de Zacarias, mas não se sente capaz de identificá-las plenamente, localizando-as na geografia do dia revolucionário.

Zacarias levanta a ponta do véu. Diz que não gostava do Antigo Regime e que ficou “feliz” com o 25 de Abril. “Eu não tinha partido político. No início dos anos 80 abri a loja de fotografia e na porta ao lado havia um sapateiro, que diziam que era uma sede do PCP. Eu pensei que eles não soubessem quem eu era, dizia-se que eles não podiam nem um bocadinho com a Polícia. Eu dizia bom dia e ninguém respondia. Certa vez, um disse que se mandasse, pegava uma metralhadora e matava os polícias todos, mas eu não respondi. Ao fim de um tempo, eram os melhores amigos que tinha. Eles viram que eu não me exaltava nem me enervava. Depois de tantos anos, convidaram-me para tomar um café, depois uma cerveja, nunca me deixaram pagar. Um dia vieram-me avisar que tinham rasgado os toldos da loja, mas não acredito que tenha sido por eu ser polícia ou pensarem que eu era da PIDE. Nunca fui informador. Era apenas um polícia que fazia o seu trabalho.” No ANTT, depois de uma pesquisa solicitada pelo Expresso, não foi encontrada nenhuma referência que indicasse que Zacarias Duarte Ferreira tivesse colaborado com a polícia política.

O polícia-fotógrafo passou à reserva com 48 anos, em 1984, desligando-se da corporação aos 65 anos, quando saiu para se dedicar totalmente à loja. Vendeu-a em 2002 e desde então tem-se dedicado a fazer quadros com “pedrinhas do mar e vidros”, atividade que aprendeu com a neta. Escreveu um livro em edição de autor — “No Caminho Que Tomei, Com Gosto Não Me Cansei” — em que revela algumas das imagens aqui referidas. Termina a autobiografia com um poema, em que resume o seu percurso. “Fotografei sem ter vontade para isso/ E não me esquecerei mais/ Para não faltar ao compromisso/ Fotografei no dia do funeral do meu pai” é uma das estrofes. As fotografias de Zacarias registam pedaços da História do país, revelam perceções da Revolução até agora desconhecidas. Numa imagem, um homem passa de costas no sentido contrário da turba. De casaco branco, com um capuz puxado pela cabeça, poderia ser qualquer um de nós, viajantes do tempo, dependentes do olhar do polícia que ‘disparou’ sobre o 25 de Abril.

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Tive o prazer de finalmente terminar o podscast "Agora, agora e mais agora" do Rui Tavares. Que tratado. Já mandei vir os livros.

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Rulership: 8 - As the first king of Portugal, Dom Afonso Henriques established a strong central government and implemented policies that helped to unify the country.

Business: 4 - There is not much information available about Dom Afonso Henriques' business skills or experience, so it is difficult to evaluate him in this category.

Hunting: 6 - As a nobleman and monarch, Dom Afonso Henriques likely participated in hunting expeditions and was skilled in this activity.

War: 9 - Dom Afonso Henriques is known for leading the Portuguese army in the Reconquista, a series of wars against the Moors in the Iberian Peninsula. He was a skilled military strategist and tactician.

Family: 7 - Dom Afonso Henriques was the son of a nobleman and had a large family, including several children. He also had to navigate family relationships and alliances in his role as king.

Carousing: 4 - There is not much information available about Dom Afonso Henriques' social life or tendency to engage in carousing activities.

Seduction: 3 - There is not much information available about Dom Afonso Henriques' romantic life or abilities in seduction.

Intrigue: 7 - As a ruler during a tumultuous time in history, Dom Afonso Henriques likely had to navigate complex political intrigue and alliances in order to maintain his power and expand his kingdom.

Scholarship: 6 - Dom Afonso Henriques was educated and had knowledge of several languages, including Latin, which was a key language for scholarship at the time.

Theology: 6 - Dom Afonso Henriques was a devout Catholic and supported the establishment of the Portuguese church. He likely had knowledge of theology and religious doctrine.

Editado por Ticampos

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Who Was Killed—and Why

 

The majority of the people swept up in the raids were not “terrorists,” as the rhetoric claimed, but rather the people whom the juntas had identified as posing the most serious barriers to their economic program. Some were actual opponents, but many were simply seen as representing values contrary to the revolution’s.

The systematic nature of this cleansing campaign is clearly corroborated by matching the dates and times of the disappearances documented in human rights and truth commission reports. In Brazil, the junta did not begin mass repression until the late sixties, but there was one exception: as soon as the coup was launched, soldiers rounded up the leadership of trade unions active in the factories and on the large ranches. According to Brasil: Nunca Mais (Never Again), they were sent to jail, where many faced torture, “for the simple reason that they were inspired by a political philosophy opposed by the authorities.” This truth commission report, based on the military’s own court records, notes that the General Workers Command (CGT), the main coalition of trade unions, appears in the junta’s court proceedings “as an omnipresent demon to be exorcised.” The report bluntly concludes that the reason “the authorities who took over in 1964 were especially careful to ‘clean out’ this sector” is that they “feared the spread of … resistance from the labor unions to their economic programs, which were based on tightening salaries and denationalizing the economy.”

In both Chile and Argentina, the military governments used the initial chaos of the coup to launch vicious attacks on the trade union movement. These operations were clearly planned well in advance, as the systematic raids began on the day of the coup itself. In Chile, while all eyes were on the besieged presidential palace, other battalions were dispatched to “factories in what were known as the ‘industrial belts,’ where troops carried out raids and arrested people. During the next few days,” Chile’s truth and reconciliation report notes, several more factories were raided, “leading to massive arrests of people, some of whom were later killed or disappeared.” In 1976, 80 percent of Chile’s political prisoners were workers and peasants.

Argentina’s truth commission report, Nunca Más (Never Again), documents a parallel surgical strike against trade unions: “We notice that a large proportion of the operations [against workers] were carried out on the day of the coup itself, or immediately after.” Amid the list of attacks on factories, one testimony is particularly revealing about how “terrorism” was used as a smoke screen to go after non-violent worker activists. Graciela Geuna, a political prisoner in the torture camp known as La Perla, described how the soldiers guarding her became agitated by an impending strike at a power plant. The strike was to be “an important example in the resistance to the military dictatorship,” and the junta did not want it to happen. So, Geuna recalled, the “soldiers in the unit decided to make it illegal or, as they said, to ‘Montonerize’ it” (the Montoneros being the guerrilla group the army had already effectively broken). The strikers had nothing to do with the Montoneros, but that didn’t matter. The “soldiers at La Perla themselves printed leaflets they signed ‘Montoneros’—leaflets calling on the power workers to strike.” The leaflets then became the “proof” needed to kidnap and kill the union leadership.

 

Corporate-Sponsored Torture

 

Attacks on union leaders were often carried out in close coordination with the owners of the workplaces, and court cases filed in recent years provide some of the best-documented examples of direct involvement by local subsidiaries of foreign multinationals.

In the years prior to the coup in Argentina, the rise of left-wing militancy had affected foreign companies both economically and personally; between 1972 and 1976, five executives from the auto company Fiat were assassinated. The fortunes of such companies changed dramatically when the junta took power and implemented Chicago School policies; now they could flood the local market with imports, pay lower wages, lay workers off at will and send their profits home unhindered by regulations.

Several multinationals effusively expressed their gratitude. On the first new year under military rule in Argentina, Ford Motor Company took out a celebratory newspaper advertisement openly aligning itself with the regime: “1976: Once again, Argentina finds its way. 1977: New Year of faith and hope for all Argentines of good will. Ford Motor of Argentina and its people commit themselves to the struggle to bring about the great destiny of the Fatherland.” Foreign corporations did more than thank the juntas for their fine work; some were active participants in the terror campaigns. In Brazil, several multinationals banded together and financed their own privatized torture squads. In mid-1969, just as the junta entered its most brutal phase, an extralegal police force was launched called Operation Bandeirantes, known as OBAN. Staffed with military officers, OBAN was funded, according to Brazil: Never Again, “by contributions from various multinational corporations, including Ford and General Motors.” Because it was outside official military and police structures, OBAN enjoyed “flexibility and impunity with regard to interrogation methods,” the report states, and quickly gained a reputation for unparalleled sadism.

It was in Argentina, however, that the involvement of Ford’s local subsidiary with the terror apparatus was most overt. The company supplied cars to the military, and the green Ford Falcon sedan was the vehicle used for thousands of kidnappings and disappearances. The Argentine psychologist and playwright Eduardo Pavlovsky described the car as “the symbolic expression of terror. A death-mobile.”

While Ford supplied the junta with cars, the junta provided Ford with a service of its own—ridding the assembly lines of troublesome trade unionists. Before the coup, Ford had been forced to make significant concessions to its workers: one hour off for lunch instead of twenty minutes, and 1 percent of the sale of each car to go to social service programs. All that changed abruptly on the day of the coup, when the counterrevolution began. The Ford factory in suburban Buenos Aires was turned into an armed camp; in the weeks that followed, it was swarming with military vehicles, including tanks and helicopters buzzing overhead. Workers have testified to the presence of a battalion of one hundred soldiers permanently stationed at the factory. “It looked like we were at war in Ford. And it was all directed at us, the workers,” recalled Pedro Troiani, one of the union delegates.

Soldiers prowled the facility, grabbing and hooding the most active union members, helpfully pointed out by the factory foreman. Troiani was among those pulled off the assembly line. He recalled that “before detaining me, they walked me around the factory, they did it right out in the open so that the people would see: Ford used this to eliminate unionism in the factory.” Most startling was what happened next: rather than being rushed off to a nearby prison, Troiani and others say soldiers took them to a detention facility that had been set up inside the factory gates. In their place of work, where they had been negotiating contracts just days before, workers were beaten, kicked and, in two cases, electroshocked. They were then taken to outside prisons where the torture continued for weeks and, in some cases, months. According to the workers’ lawyers, at least twenty-five Ford union reps were kidnapped in this period, half of them detained on the company grounds in a facility that human rights groups in Argentina are lobbying to have placed on an official list of former clandestine detention facilities.

In 2002, federal prosecutors filed a criminal complaint against Ford Argentina on behalf of Troiani and fourteen other workers, alleging that the company is legally responsible for the repression that took place on its property. “Ford [Argentina] and its executives colluded in the kidnapping of its own workers, and I think they should be held responsible for that,” says Troiani. Mercedes-Benz (a subsidiary of DaimlerChrysler) is facing a similar investigation stemming from allegations that the company collaborated with the military during the 1970s to purge one of its plants of union leaders, allegedly giving names and addresses of sixteen workers who were later disappeared, fourteen of them permanently.

According to the Latin American historian Karen Robert, by the end of the dictatorship, “virtually all the shop-floor delegates had been disappeared from the country’s biggest firms … such as Mercedes-Benz, Chrysler and Fiat Concord.” Both Ford and Mercedes-Benz deny that their executives played any role in the repression. The cases are ongoing.

Excerpt from "The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism", by Naomi Klein

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Ford on Ford

 

The refusal to connect the apparatus of state terror to the ideological project it served is characteristic of almost all the human rights literature from this period. Although Amnesty’s reticence can be understood as an attempt to remain impartial amid Cold War tensions, there was, for many other groups, another factor at play: money. By far the most significant source of funding for this work was the Ford Foundation, then the largest philanthropic organization in the world. In the sixties, the organization spent only a small portion of its budget on human rights, but in the seventies and eighties, the foundation spent a staggering $30 million on work devoted to human rights in Latin America. With these funds, the foundation backed Latin American groups like Chile’s Peace Committee as well as new U.S.-based groups, including Americas Watch.

Prior to the military coups, the Ford Foundation’s primary role in the Southern Cone had been to fund the training of academics, mostly in economics and agricultural science, working closely with the U.S. State Department. Frank Sutton, the deputy vice president of Ford’s international division, explained the organization’s philosophy: “You can’t have a modernizing country without a modernizing elite.” Although squarely within the Cold War logic of attempting to foster an alternative to revolutionary Marxism, most of Ford’s academic grants did not betray a strong right-wing bias—Latin American students were sent to a wide range of U.S. universities, and funding for graduate departments was provided to diverse Latin American universities, including large public ones with left-leaning reputations.

But there were several significant exceptions. As discussed earlier, the Ford Foundation was the primary funder of the University of Chicago’s Program of Latin American Economic Research and Training, which churned out hundreds of Latino Chicago Boys. Ford also financed a parallel program at the Catholic University in Santiago, designed to attract undergraduate economics students from neighboring countries to study under Chile’s Chicago Boys. That made the Ford Foundation, intentionally or not, the leading source of funding for the dissemination of the Chicago School ideology throughout Latin America, more significant even than the U.S. government.

When the Chicago Boys came to power in a hail of gunfire alongside Pinochet, it did not reflect particularly well on the Ford Foundation. The Chicago Boys had been funded as part of the foundation’s mission to “improve economic institutions for the better realization of democratic goals.” Now the economic institutions that Ford had helped build in both Chicago and Santiago were playing a central role in the overthrow of Chile’s democracy, and its former students were in the process of applying their U.S. education in a context of shocking brutality. Making matters more complicated for the foundation, this was the second time in just a few years that its protégés had chosen a violent route to power, the first case being the Berkeley Mafia’s meteoric rise to power in Indonesia after Suharto’s bloody coup.

Ford had built the economics department at the University of Indonesia from the ground up, but when Suharto came to power, “nearly all the economists that the program produced were recruited into the government,” a Ford document notes. There was practically no one left to teach the students. In 1974, nationalist riots broke out in Indonesia against “foreign subversion” of the economy; the Ford Foundation became a target of popular rage—it was the foundation, many pointed out, that had trained Suharto’s economists to sell Indonesia’s oil and mineral wealth to Western multinationals.

Between the Chicago Boys in Chile and the Berkeley Mafia in Indonesia, Ford was gaining an unfortunate reputation: graduates from two of its flagship programs were now dominating the most notoriously brutal right-wing dictatorships in the world. Although Ford could not have known that the ideas in which its grads were trained would be enforced with such barbarism, uncomfortable questions were nonetheless raised about why a foundation dedicated to peace and democracy was neck-deep in authoritarianism and violence.

Whether as a result of panic, social conscience or some combination of both, the Ford Foundation dealt with its dictatorship problem the way any good business would: proactively. In the mid-seventies, Ford transformed itself from a producer of “technical expertise” for the so-called Third World to its leading funder of human rights activism. That about-face was particularly jarring in both Chile and Indonesia. After the left in those countries had been obliterated by regimes that Ford had helped shape, it was none other than Ford that funded a new generation of crusading lawyers dedicated to freeing the hundreds of thousands of political prisoners being held by those same regimes.

Given its own highly compromised history, it is hardly surprising that when Ford dived into human rights, it defined the field as narrowly as possible. The foundation strongly favored groups that framed their work as legalistic struggles for the “rule of law,” “transparency” and “good governance.” As one Ford Foundation officer put it, the organization’s attitude in Chile was, “How can we do this and not get involved in politics?” It wasn’t just that Ford was an inherently conservative institution, accustomed to working hand in hand, and not at cross purposes, with official U.S. foreign policy. It was also that any serious investigation of the goals served by the repression in Chile would inevitably have led directly back to the Ford Foundation and the central role it played in indoctrinating the country’s current rulers in a fundamentalist sect of economics.

There was also the question of the foundation’s inescapable association with the Ford Motor Company, a complicated relationship, especially for activists on the ground. Today, the Ford Foundation is wholly independent of the car company and its heirs, but that was not the case in the fifties and sixties when it was funding education projects in Asia and Latin America. The foundation was started in 1936 with donations of stock from three Ford Motor executives, including Henry and Edsel Ford. As the foundation’s wealth expanded, it began to operate independently, but its divestment of Ford Motor stock was not completed until 1974, the year after the coup in Chile and several years after the coup in Indonesia, and it had Ford family members on its board until 1976.

In the Southern Cone, the contradictions were surreal: the philanthropic legacy of the very company most intimately associated with the terror apparatus—accused of having a secret torture facility on its property and of helping to disappear its own workers—was the best, and often the only, chance of putting an end to the worst of the abuses. Through its funding of human rights campaigners, the Ford Foundation saved many lives in those years. And it deserves at least part of the credit for persuading the U.S. Congress to cut military support to Argentina and Chile, gradually forcing the juntas of the Southern Cone to scale back the most brutal of their repressive tactics. But when Ford rode to the rescue, its assistance came at a price, and that price was—consciously or not—the intellectual honesty of the human rights movement. The foundation’s decision to get involved in human rights but “not get involved in politics” created a context in which it was all but impossible to ask the question underlying the violence it was documenting: Why was it happening, in whose interests?

That omission has played a disfiguring role in the way the history of the free-market revolution has been told, largely absent any taint of the extraordinarily violent circumstances of its birth. Just as the Chicago economists had nothing to say about the torture (it had nothing to do with their areas of expertise), the human rights groups had little to say about the radical transformations taking place in the economic sphere (it was beyond their narrow legal purview).

The idea that the repression and the economics were in fact a single unified project is reflected in only one major human rights report from this period: Brasil: Nunca Mais. Significantly, it is the only truth commission report published independently of both the state and foreign foundations. It is based on the military’s court records, secretly photocopied over years by tremendously brave lawyers and Church activists while the country was still under dictatorship. After detailing some of the most horrific crimes, the authors pose that central question so studiously avoided by others: Why? They answer matter-of-factly: “Since the economic policy was extremely unpopular among the most numerous sectors of the population, it had to be implemented by force.”

Excerpt from "The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism", by Naomi Klein

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Pode nao ser exactamente o topico adequado mas para quem ja tirou o curso de historia tenho uma questao/duvida:

As cadeiras no curso Universitario sao sobretudo sobre a historia de Portugal com alguns toques nas Colonias, civilizacoes antigas do Mediterraneo e algumas potencias europeias (Espanha, Franca e Inglaterra) ou existem cadeiras diferentes como Historia da India, China, Japao, Africa pre colonial, etc?

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Citação de Burkina2008, Em 08/05/2023 at 06:37:

Pode nao ser exactamente o topico adequado mas para quem ja tirou o curso de historia tenho uma questao/duvida:

As cadeiras no curso Universitario sao sobretudo sobre a historia de Portugal com alguns toques nas Colonias, civilizacoes antigas do Mediterraneo e algumas potencias europeias (Espanha, Franca e Inglaterra) ou existem cadeiras diferentes como Historia da India, China, Japao, Africa pre colonial, etc?

@Augusto

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Citação de Burkina2008, Em 08/05/2023 at 06:37:

Pode nao ser exactamente o topico adequado mas para quem ja tirou o curso de historia tenho uma questao/duvida:

As cadeiras no curso Universitario sao sobretudo sobre a historia de Portugal com alguns toques nas Colonias, civilizacoes antigas do Mediterraneo e algumas potencias europeias (Espanha, Franca e Inglaterra) ou existem cadeiras diferentes como Historia da India, China, Japao, Africa pre colonial, etc?

Na licenciatura no Porto (FLUP) o curso é muito centrado na Europa, bem como, nas raízes das das primeiras civilizações. Exceção feita à história do Brasil. Recordo-me de estudar um pouco da História do Japão para realizar um trabalho em História da Expansão, mas não havia nenhuma cadeira dedicada a essa temática. 

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Citação de Burkina2008, há 8 horas:

Um pouco como o @Augusto, na FLUC na minha altura era muito centrado na historiografia europeia. História de Portugal Medieval, Moderna e Contemporânea; História de Grécia e Roma Antigas; Origens do Homem e das Sociedades dedicada a civilizações pré-clássicas (Grécia e Roma); cadeiras opcionais como História da Expansão ou Militar; e claro, cadeiras específicas para aprender a analisar fontes e os processos historiográficos.

História de outras paragens, por norma eram cadeiras opcionais.

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Estive na FLUL e foi a mesma coisa. Havia opcionais sobre História de África, Brasil e Ásia, porém.

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Citação de Black Hawk, há 1 hora:

Um pouco como o @Augusto, na FLUC na minha altura era muito centrado na historiografia europeia. História de Portugal Medieval, Moderna e Contemporânea; História de Grécia e Roma Antigas; Origens do Homem e das Sociedades dedicada a civilizações pré-clássicas (Grécia e Roma); cadeiras opcionais como História da Expansão ou Militar; e claro, cadeiras específicas para aprender a analisar fontes e os processos historiográficos.

História de outras paragens, por norma eram cadeiras opcionais.

 

Citação de Augusto, há 6 horas:

Na licenciatura no Porto (FLUP) o curso é muito centrado na Europa, bem como, nas raízes das das primeiras civilizações. Exceção feita à história do Brasil. Recordo-me de estudar um pouco da História do Japão para realizar um trabalho em História da Expansão, mas não havia nenhuma cadeira dedicada a essa temática. 

Obrigado aos dois

E normalmente o programa seria diferente noutras universidades europeias? americanas?

Voces nao sentem uma "lacuna" por existirem partes geograficas que nao sao estudadas? (eu sei que seria necessario mais 10 semestres para caber 1% do que pode ser estudado)

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