silentz Publicado 9 Setembro 2024 (editado) E já agora estas quem tiver sff https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-07-14-no-japao-vao-para-o-estadio-horas-antes-marcam-no-chao-com-fita-cola-o-lugar-na-fila-para-entrar-deixam-os-pertences-e-vao-divertir-se-a9de1a6b https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-08-04-fizemos-a-despedida-de-solteiro-do-filipe-anunciacao-apos-um-jogo-na-madeira.-como-nao-gostei-das-bailarinas-fui-eu-quem-fez-o-striptease-9c119791 Editado 9 Setembro 2024 por silentz Compartilhar este post Link para o post
kareca Publicado 9 Setembro 2024 “No Japão, vão para o estádio horas antes, marcam no chão com fita-cola o lugar na fila para entrar, deixam os pertences e vão divertir-se” Aos 28 anos, Tiago Alves está a jogar no Japão, numa aventura pelo estrangeiro que começou na Polónia, onde jogou na I e na II divisão e passou também pelo Brasil. O avançado conta como a sua carreira tem sido feita de altos e baixos, fala do gosto pelo futebol da região da América Central e Latina, e assume que teve de recorrer a ajuda psicológica. O jogador enaltece o respeito e a organização dos japoneses, revela o susto que apanhou no primeiro terramoto que vivenciou e conta uma história que mete pancada e cocaína Spoiler Quando chegou à Polónia para jogar no Olimpia Grudziadz, quais foram as primeiras impressões? Um frio descomunal, era final de janeiro. Cheguei com aquela meia curtinha, com o tornozelo a ver-se e estava tudo nevado, o clube fica numa zona mais a norte da Polónia. O diretor foi buscar-me ao aeroporto de Varsóvia, fomos de carro para cima. Parámos porque tínhamos de ir ver um jogo amigável que a minha equipa estava a fazer. Vi um pouco do jogo com ele, mas nem consegui ligar muito ao jogo porque estava com tanto frio [risos]. Ele deu-me um casaco que tinha no carro. Gostou do pouco que viu? Não me interessou o jogo, sinceramente, só pensava no frio. Depois fui para a cidade de Grudziądz e, na verdade, gostei quando conheci o clube. Tinha um relvado bom, o diretor falava inglês, eu por acaso tinha andado numa escola a aprender inglês no ano anterior, por isso o meu inglês era razoável, o que me ajudou no contacto com esse diretor. O treinador não falava inglês. Mas notava que o treinador gostava de mim. Ele demonstrou interesse que eu fosse, senti-me valorizado a nível de contratual. Tudo isso foi importante. Como foi recebido no balneário? Com desconfiança? É normal, era um português num clube onde só estavam polacos. Havia um ou outro que não ia muito com a minha cara, mas eu também não ia muito com a cara deles. Havia um que era da minha posição com o qual não havia empatia nenhuma, mas considero que era mais por culpa dele, porque eu é que estava a chegar. Geralmente existe rivalidade com quem é da nossa posição, mas acabo por me dar sempre bem com ele porque nos treinos estamos quase sempre obrigados a estar juntos nos exercícios, então acabamos por nos dar bem. Mas, ali, ele não foi com a minha cara e eu também não fui com a cara dele [risos]. Fora isso, o pessoal depois começou a gostar de mim e convidava-me para sair à noite ou para jantar em casa deles. Os polacos gostam muito de beber álcool, então havia sempre muito álcool [risos]. Fez alguma amizade em especial nessa equipa? Passado uma ou duas semanas chegou um espanhol à equipa e que hoje é um dos meus melhores amigos, o German Ruiz. Os nossos pais conhecem-se e tudo. Ele já deixou de jogar, mas todos os anos nos juntamos para passar um fim de semana, pelo menos. Na Polónia vivemos no mesmo hotel e acho que isso também ajudou na adaptação, porque éramos os únicos estrangeiros. Como era no dia a dia com os polacos, nos supermercados, restaurantes, etc.? Era mais chato. Eles têm uma personalidade fria, arrogante, e quando era para falar inglês, como não sabiam, ficavam fora da zona de conforto e conseguiam ser ainda mais arrogantes do que naturalmente já eram. Do campeonato gostou ou ficou muito aquém das expectativas? Como era uma novidade, não estava com preconceito. Pensava, “vou jogar o meu futebol, vou dar nas vistas, as coisas vão dar certo e vou conseguir subir para outro patamar”. Mas o futebol era muito físico, com jogadores mais altos e fortes fisicamente. Obviamente nem todos têm qualidade, mas notava alguma qualidade na liga. Estive lá três meses e meio, mas foi bom. Tem alguma história para contar desses primeiros tempos na Polónia? A cidade era pequena, só havia uma discoteca, que era um bar com bowling durante o dia e à noite, no fim de semana, virava discoteca. Lembro-me de ir para lá com os meus colegas e de um dia ter havido porrada. Não foi comigo. Ao lado havia um hotel e lembro-me também de ir para um quarto com umas pessoas e haver cocaína naquele quarto e eu saí logo dali. Nunca experimentei drogas, também por causa do futebol, e quando vi aquilo fiquei meio assustado, vim logo embora. Não podia abrir essa brecha, de alguém ver-me num quarto com droga e mandarem-me de volta para Portugal. Entretanto, mudou para o Piast Gliwice. Porquê? Joguei muito bem naquela reta final da época. Quando eu e o espanhol chegámos estávamos em 10.º lugar. O objetivo do clube era subir de divisão. Conseguimos subir no fim. O penúltimo jogo era contra uma equipa super-histórica na Polónia, mas que naquele momento estava na III Liga, o Widzew Lodz, atualmente já está na I Liga. Esse clube metia 20.000 pessoas no estádio, era um jogo especial porque precisávamos de ganhar e eles também. Fiz aquele que considero ser dos golos mais bonitos que marquei e ganhámos 2-1. Na semana seguinte, ganhámos e acabámos por subir. No fim da época já tinha o interesse de outro clube que é o rival do Piast, o Górnik, o clube onde joga o Podolski. Acabou por não ir para lá porquê? Nas férias estava a negociar com eles. No clube onde eu estava, se subisse de divisão, o contrato era renovado automaticamente por um ano. Portanto, tinha contrato assegurado com o Olimpia e esse clube estava a negociar o meu passe com o Olimpia. De repente, a direção do clube mudou, veio novo presidente, a nova direção pediu mais dinheiro e o Górnik acabou por desistir. Comecei a temporada no Olympia. Fiz seis jogos na II Liga e já tinha o interesse do Lechia Gdansk, mas apareceu o Piast Gliwice. Porque escolheu o Piast? Eu estava muito mais inclinado para o Lechia porque era uma cidade que já conhecia, ficava a uma hora do sítio onde eu estava. Gostava bastante de Gdansk, o primeiro ou segundo amigável que fiz foi contra o Lechia, tem um estádio super bonito, era um clube que me agradava. Só que o Piast, esse ano, tinha sido campeão e estamos a falar de I Liga. Eu tinha jogado III e estava a jogar II. O Piast chegou primeiro a um acordo com o Olimpia e só deram dois ou três dias para acertarem tudo comigo porque já era final de agosto, e só se não desse certo com o Piast é que o Olimpia ia negociar com o Lechia. Uma pessoa tem uma coisa na mão de I Liga, é claro que vai, ainda por cima tinha sido campeão. Por isso, acabei por ir para Gliwice. Assinou por quanto tempo? Dois anos. Que memórias mais fortes tem desses dois anos? No primeiro ano não joguei muito. O treinador já estava lá há algum tempo. Essa é outra das pessoas de quem eu não gosto nada. Porquê? Atenção que não sou só eu, é quase geral. Pela maneira de ser dele. É da velha guarda polaca e acaba por ser má pessoa com as pessoas. Não é que fosse má pessoa diretamente comigo, simplesmente não era sincero. Vim a saber que muitas outras pessoas que trabalhavam no clube não gostavam dele. Não era uma pessoa bem-querida, mas tinha ganhado muita moral por ter feito o clube campeão pela primeira vez. Era bom treinador, ou não? Não gostei, não é um estilo de futebol que eu goste e não gosto da metodologia de trabalho dele. É sempre igual. Todas as semanas são iguais, os treinos são sempre os mesmos, é muito cansativo, torna-se muito aborrecido. Ele tinha um grupo forte de trabalho, as individualidades acabaram fazer um bom grupo e as coisas iam andando bem. No meu primeiro ano, ficámos em 3.º lugar. Chegou a jogar competições europeias? Jogámos fase de qualificação, mas fiquei sempre no banco. Fomos jogar a Minsk na Bielorrússia, jogámos em casa, depois contra outra equipa e caímos contra o Copenhaga, na Dinamarca. Na segunda época já joguei mais, mas não corria do jeito que eu queria. O que aconteceu? Não tenho qualquer tipo de problema em dizer. Eu mantinha-me com a Gestifute, mas havia um empresário polaco com quem tínhamos uma espécie de parceria, para ele trabalhar o meu nome na Polónia. Esse empresário tinha força no clube, principalmente junto do diretor. Desde o início que eu queria ir para o Lechia, e acho que o facto de eu ter ido para o Piast foi muito por causa da força do empresário no clube. Isto para dizer que não acredito que tenha sido por vontade própria do treinador. Quando esse tipo de coisas acontece, nunca se tem a mesma força. A verdade é que sempre que eu entrava, entrava bem. Só que era daqueles treinadores que não gosta de mexer muito na equipa e não me dava muitas oportunidades como titular. Tanto é que houve uma fase na Polónia em que me chamavam o joker, porque eu entrava e mudava o jogo. Houve três jogos numa semana e eu cheguei a fazer os três golos da vitória. Mesmo assim tinha dificuldades para ser titular e nessa fase comecei a desenvolver um problema psicológico. Que tipo de problema? Não estava bem, não estava estável. Tive também algumas lesões musculares, acho que se deveram muito a esse meu estado mental. Continuava a viver sozinho? Sim. Namorei uma portuguesa no ano de 2020, ela acabou por passar muito tempo comigo na Polónia, devido ao covid-19. A propósito, foi-lhe muito difícil passar pelo confinamento? Custou-me para caraças. Custou-me porque as coisas não fluíam do jeito que eu queria no clube, não sentia que fosse valorizado pelo treinador, e não era, apesar de eu fazer a diferença. Parece que é coisa da minha cabeça porque já referi isto noutras alturas da minha carreira, mas não é. Obviamente que também terei tido culpa em certos momentos, mas houve alturas em que senti que não era valorizado o suficiente. Quando diz teve culpa em certos momentos, pode especificar? No sentido em que, se calhar, deixei-me ir abaixo e não lutei o suficiente, não tinha vontade de treinar. Não tinha motivação. Quando digo que o confinamento me custou muito, é essencialmente porque não estava feliz no clube. Depois, eu sempre gostei muito de sair com amigos. Em Coimbra não parava quase em casa; na Póvoa, comecei a ficar mais vezes em casa porque não me dava com tanta gente e fui-me habituando um pouco mais. Mas gosto de sair, de fazer outras coisas. No entanto, acho que o confinamento custou-me mais pelo meu estado mental no momento, por não me sentir valorizado, por querer sair e o clube não me deixar. O que foi algo recorrente. Conte isso melhor. Cada janela de mercado que abria eu queria sair por empréstimo porque tive sempre alguém interessado na I Liga da Polónia, e eles não deixavam. Era uma coisa super estranha para mim, e isso também me gerava revolta relativamente ao treinador, porque eles diziam: “Não vai sair porque o treinador conta com ele.” Houve uma altura em que eu queria sair e o treinador disse que queria que eu ficasse e acabei por renovar por um ano. Alguma vez questionou o treinador sobre as atitudes dele em relação a si? Não, ele nem sequer dava muito margem para isso, não me dava essa moral, não me sentia à vontade de ir falar com ele e pedir-lhe explicações. Depois, no fim do segundo ano, em que apesar das lesões correu-me melhor, fiz golos e começaram a chamar-me o 'joker de Gliwice', o clube quis encostar-me à parede. De que forma? Eu tive uma lesão e eles disseram, ou renovas, ou não vais jogar mais. Eu sabia que tinha demonstrado algo, mas os minutos que tinha não eram suficientes para ter o contrato que queria realmente. Acabei por renovar, e obviamente tive um aumento salarial, mas recordo-me que no dia em que fui renovar, eu fazia aquilo contra a minha vontade. Era um sentimento agridoce, porque ia receber mais dinheiro, tive um aumento de 40%, foi uma subida boa, mas sentia uma coisa ali que não... Era relativamente ao treinador, sobretudo, não ao clube. Só que, como ele tinha tido uma conversa comigo, disse que queria que eu ficasse, que tinha de assinar… Comecei a época e até comecei a jogar mais, mas, entretanto, houve um stress com o treinador, aí foi a gota de água, já não joguei mais o resto da época. Que stress foi esse? Aquilo já era uma bola de neve, sabíamos ambos que o relacionamento não era bom e houve um jogo em que ele me meteu a 10/15 minutos do fim, estávamos a perder, damos a volta para 3-2. Fazemos dois golos após eu entrar, mas quase não toquei na bola nesse jogo. No último lance, venho lá de trás para defender e chuto a bola para a frente, basicamente, cortei a bola e subi para fazer pressão para o meio-campo. Mas a bola sai pela lateral na zona do meio-campo. Eu tinha ido na pressão, um dos defesas fez uma diagonal para dentro da área do meio-campo, o nosso defesa falhou, há um cruzamento e a nossa defesa está mal posicionada; um jogador de 1,70 m faz golo de cabeça e empata o jogo. Começaram a criticar-me como se eu tivesse tido culpa no lance. Mas a culpa não tinha sido minha. Quem o criticou, os próprios jogadores? O nosso guarda-redes começou a criticar-me dentro de campo. Fiquei cego. Faltavam uns três minutos para a compensação e acabámos por empatar 3-3. Acabou o jogo, eu já estava chateado com a atitude do guarda-redes, tinha muito stress acumulado, era para ir bater palmas aos adeptos e não fui bater, fui direto para dentro, quando estou a sair do campo passo ao lado do banco e percebo que o treinador está a injuriar-me em polaco, eu respondi em inglês e segui o meu caminho. Ia para o balneário e o guarda-redes veio atrás de mim feito louco e quase nos pegamos à porrada. Sou zero porradas, só que ele veio, encostou-se a mim e a sorte foi que, como o segundo treinador e o delegado da equipa repararam que eu ia embora e o guarda-redes foi atrás de mim, chegaram logo a seguir e separaram-nos. Depois desse jogo nunca mais contei, nunca mais fui opção. O que aconteceu a seguir? Foi deixar chegar janeiro para procurar uma solução. Aí já o deixaram ir embora, naturalmente. Sim, porque realmente foi a gota de água, eu não jogava, o treinador tinha dito: “Ele não joga mais comigo.” Treinava com a equipa, mas havia um ou outro exercício em que ele me punha atrás da baliza. Deve ter sido um período muito frustrante. Claro. Desde o início que nunca houve aproximação com o treinador. No primeiro ano eu não jogava muito e ele dizia-me que tinha de habituar-me como jogava a equipa. Tinha sido campeão por isso ele tinha o ego super elevado, era a estrutura que ele tinha e pronto. Mas OK, tudo bem, era o primeiro ano. Pensei que o segundo ano ia ser melhor, mas não. É verdade que tive algumas lesões musculares que também não me ajudaram, mas não havia uma ligação entre mim e o treinador, não havia empatia. Recorreu a ajuda psicológica? Sim, recorri a uma psicóloga que tinha trabalhado no clube e que também tinha ficado a odiar o treinador [risos]. Ela entendeu-me, porque conhecia a pessoa em causa e o meio. Mas não tive muitas sessões com ela, porque tínhamos de falar em inglês e nunca é o mesmo. Procurei outra psicóloga, portuguesa, com quem ainda vou tendo consultas. Agora muito mais espaçadas, mas houve ali uma fase em que a coisa estava pesada e cheguei a ter duas, três sessões por semana. Às vezes ela nem cobrava quando lhe ligava porque percebia que eu só precisava de desabafar. Foi fundamental o trabalho dela, ajudou-me bastante. Sinto que hoje sou uma pessoa diferente. Em janeiro, o que lhe apareceu em cima da mesa? Como foi parar ao Montedio Yamagata, da II divisão do Japão? Como disse, sempre tive clubes interessados na Polónia. Mas, de repente, surgiu a proposta do Japão e numa fase inicial desconfiei no sentido em que não conhecia a realidade. Andei ali duas, três semanas a marinar sobre o assunto. O meu empresário ia falando e negociando, até que me pareceu bem a nível contratual. Fiz a minha pesquisa, que faço sempre, para tentar perceber quem é o clube, como é a cidade onde está, etc. E acabei por aceitar. O facto de ser II Liga não o desmotivou? Confesso que isso tem influência no ego, ficas a pensar, o que vou para lá fazer, na II Liga do Japão? Aquilo é tão longe, nem conheço o campeonato, não conheço nada. Mas foi a melhor decisão que tomei na vida, a seguir àquela de sair de Portugal e ir para a III Liga da Polónia. Explique lá porque diz isso. Porque eu vinha de anos difíceis na Polónia. Psicologicamente estava realmente mal e, quando cheguei ao Japão, senti que as pessoas me tinham contratado porque acreditavam em mim. Fiquei muito surpreendido também com a estrutura do clube. É verdade que nas primeiras semanas treinámos num campo que estava castanho, não havia relva, por ser uma zona montanhosa onde neva muito no inverno, mais do que na Polónia. Mas a estrutura do clube era muito boa. Eram instalações novas, tinham um balneário muito top, grande, espaçoso, super bonito. Tinha tudo. Ginásio, salas de fisioterapia, banheira de água quente, banheira de água fria, etc. Como é a cidade Yamagata? É uma cidade do interior, um pouco mais a norte. Diferente da experiência que estou a ter agora em Tóquio, mas acima de tudo por ser um estrangeiro numa zona interior, as pessoas desenvolvem um carinho pelo jogador muito grande, uma coisa diferente de tudo que já experienciei na vida. O meu treinador era australiano, tinha um tradutor particular e nós, os estrangeiros, que naquele momento era só eu, posteriormente é que chegou um brasileiro, tínhamos outro tradutor também, particular, que nos acompanhava no campo, nas reuniões. Toda uma estrutura muito diferente a nível de equipamentos, eram imensos, manga curta, manga cava, manga longa, casacos, havia de tudo. Foi sozinho para o Japão? Sim. Andei sempre sozinho. Como foram as primeiras semanas em que ainda não estava o colega brasileiro? Tive algumas questões burocráticas para tratar como ir à câmara assinar documentos, tratar da carta de condução porque conduzem à inglesa. Há um acordo entre o Japão e Portugal e não precisei de ter aulas de condução. Precisei, sim, de passar testes visuais e um teste teórico. Demorei um mês e pouco para ter a carta de condução e ter mais independência. Até aí era o tradutor que me ia buscar a casa. O futebol? Muito diferente do polaco? Bastante, surpreendeu-me muito, sobretudo a nível de intensidade e qualidade de passe/receção. Melhor do que esperava. Aliás, eu não sabia o que esperar, então não tinha propriamente uma expectativa. Eu vinha sem preparação física porque o meu último jogo tinha sido no final de outubro, na Polónia. Até dezembro, estive a treinar com a equipa, mas não é o mesmo treinar e jogar. Devido ao covid-19, como no Japão eram mais rígidos, só consegui viajar em março. Ou seja, passaram cinco meses em que não tive competição e eles já tinham a pré-época feita e começado inclusive a liga. Cheguei a 8 de março de 2022 e a minha estreia foi no final do mês. Então gostou de jogar na II Liga do Japão. Gostei sim e acreditem ou não, é bem mais profissional que a II Liga portuguesa, a nível estrutural. Os clubes são muito mais bem organizados e têm melhores condições. Têm muitos jogadores jovens na II Liga japonesa. Em Portugal são poucas as equipas, agora talvez um pouco mais do que na minha altura, que têm tantos jovens, só as equipas B, as outras não. É uma liga diferente e gostei. Tinha assinado por dois anos. O que mais o marcou nesse período? O respeito e o carinho das pessoas. Os estádios estão cheios? Os japoneses gostam de ir ver futebol ao vivo? Gostam. Se formos ver um jogo da II Liga de Portugal os estádios estão desertos, inclusive os da I Liga. Aqui eles trabalham muito o marketing, aquilo que é a imagem do clube. Têm muitas barraquinhas à volta do estádio, com vários tipos de comida diferentes, têm animações, é tudo super seguro, as pessoas podem ir em família, e levar as crianças. Imagine, o jogo está marcado para as seis da tarde, eles vão para o estádio às duas da tarde e ficavam lá, a divertirem-se com as crianças, porque o estádio está localizado num parque e tem tudo aquilo que já falei. E faziam uma coisa curiosa: quem chegasse primeiro, marcava no chão com fita-cola o seu lugar na fila para entrar no estádio, e inclusive deixava os seus pertences se fosse preciso, e ninguém roubava. E respeitam aquelas marcações. Todas essas experiências marcaram-me e fazem com que o Japão seja sempre um país especial para mim. Histórias para contar dessas duas épocas? Passado uma semana de eu ter chegado deu-se um terramoto, algo que nunca tinha experienciado. Eles emitem um aviso no telemóvel quando vai haver um terramoto, mas eu não sabia. Ia deitar-me, tinha acabado de pôr o alarme, estava naquela fase quase a adormecer e de repente há um alarme super forte do telemóvel, olhei para o telemóvel super assustado porque era impossível ser o alarme para acordar, e vi um sinal de perigo amarelo com um ponto de exclamação e uma coisa escrita em japonês, que não entendi. O barulho era muito forte mesmo. Passado uns segundos começo a sentir a casa a abanar. Levantei-me da cama assustado. Como reagiu? Aquilo que aprendemos em Portugal sobre terramotos é mínimo, fui para a sala, olhei para a minha mesa e pensei, “se me meter ali de baixo qual é a probabilidade de não morrer?” Tipo, “isto não se partir?” Não, não vou para ali [risos]. Comecei a mudar de roupa para sair. Agora sei que não se deve sair de casa, exceto se for um terramoto mesmo muito forte e aí temos de sair para zonas de evacuação que eles têm nas cidades. Eu vivia num 7.º andar, estava a sair de casa e as minhas vizinhas do lado, que eu ainda nem conhecia, estavam do lado de fora de casa, a rir, mas cheias de medo também, percebi isso. Uma disse em inglês: “Não há problema nenhum, fique em casa, é mais seguro.” Fui para casa, aquilo acalmou, só durou uns segundos. Entretanto, o tradutor mandou-me mensagem a perguntar se o abalo tinha sido forte e se precisava de alguma coisa. Avisou-me que podia haver réplicas e disse para eu ficar em casa. No dia seguinte, quando cheguei ao clube era toda a gente a perguntar-me como tinha sido e eu: “Foi uma m*rda.” [risos]. Começaram todos a rir. O terramoto foi mesmo muito forte, como as casas estão preparadas para os sismos, elas balançam muito, o que assusta ainda mais quem não está habituado. Foi dado alerta de tsunami e tudo, que acabou por não acontecer e mesmo que acontecesse não chegava à minha casa, felizmente. Nessa noite pensei, “eu não vim para aqui para morrer”. Pensou em vir embora? Não, mas tremi naquela noite [risos]. O que fazia nos tempos livres? Não fazia muita coisa porque aquela cidade era interior, apesar de haver ainda bastante população, não tinha muita coisa para fazer de interessante. De vez em quando, ia ver uns templos, uma montanha, cheguei a ir ver um vulcão adormecido. A região era e é muito famosa pela cereja e consegui conhecer um produtor de cerejas, com os meus pais. Comprámos-lhe cerejas. A fruta no Japão é muito cara, porque a maioria é importada. Também havia muitas plantações de arroz. No verão ia muitas vezes com um livro e a minha coluna para junto de uma cascata, para apanhar sol. Quando tinha folga, algumas vezes vinha para Tóquio, apesar de estar a três horas de comboio. Esteve duas épocas no Montedio Yamagata. Como foi parar ao Brasil a seguir? O clube tinha interesse que ficasse. Quando cheguei não tinha quase números para escolher e escolhi o 20. No final da primeira época, aquele que era o n.º 10 saiu e eles ligaram-me a dizer que queriam que eu fosse o 10. O 10 no futebol tem muita importância, mas no Japão parece ter uma importância acrescida. Só por aí mostraram o respeito pelo que eu tinha feito no ano anterior. No fim do ano, mudei de empresário, eles falavam muito com o meu empresário, que é italo-brasileiro, e sabiam que a probabilidade de eu ficar no clube era ínfima. Eu não queria ficar, mas o empresário também não lhes fechava a porta. Na verdade, sabiam que eu ia querer dar mais um passo, pensavam que eu ia para a I Liga. O meu empresário estava inclusive a falar com clubes japoneses da I Liga. Só que eu já tinha na cabeça a vontade de experimentar outra coisa, noutro país. E nada tinha que ver com gostar ou não do Japão, porque amo o Japão e adorei a maneira como fui tratado, adaptei-me muito bem. Mas queria experimentar algo diferente e queria muito que fosse no continente americano, não necessariamente no Brasil. Porquê? É uma pancada que sempre tive. Sei que quase ninguém tem o desejo de ter uma experiência num país da América Latina, mas eu tinha. O que mais queria era o México, adorava jogar no México. Por alguma razão em especial? Sempre acompanhei os campeonatos do México e da América do Sul. Houve uma viagem que fiz ao México, que foi a primeira grande viagem com amigos, passámos um bom tempo lá, e eu já gostava do país. Naquele momento também estavam a ser jogados os play-offs de campeão. Enfim, não sei, sempre gostei do idioma espanhol, gosto muito da música latina. Gosto da vibe deles. Sempre gostei de seguir a Copa Libertadores. Mas o meu empresário estava a falar com clubes do Brasil, clubes com mais nome do que o Botafogo e nos quais eu tinha mais vontade de ingressar Que clubes? Um está na I Liga, outro é um clube grande que está na II Liga, mas as coisas não avançaram, por isso prefiro não dizer os nomes. Apareceu o Botafogo-SP com um treinador português [Paulo Gomes] que me ligou e foi muito por esse motivo, não propriamente pelo contrato em si. O treinador tinha-me ligado, era português, queria contar comigo, e ia disputar o estadual de São Paulo, o melhor estadual do Brasil, em que o primeiro jogo era contra o Santos e pelo meio metia o Corinthians, o Red Bull Bragantino e, no fim, o Palmeiras. Sentiu que podia ser uma montra. Sim, sabia que fazendo um bom Paulista, a probabilidade de ser contratado no fim para um clube da I do Brasileirão era real. Só que eu não me adaptei muito bem lá. Porquê? Essencialmente devido à estrutura do clube. Eu vinha de uma realidade em que tinha tudo direitinho, era tudo super organizado, não faltava nada, cheguei lá e as coisas eram bem diferentes. Nem quero falar muito porque o treinador continua lá, mas não é uma estrutura muito boa. Não é moderna, tem muita coisa que falha. Dou um exemplo, a proteína era metida num saquinho de plástico e nós tomávamos no saquinho de plástico. Eu poderia comprar um shaker, é verdade, mas são detalhes. O campo de treinos é muito mau. Houve várias coisas às quais não estava habituado. Tive uma redução grande de salário para aceitar ir para o Brasil, parecendo que não também mexe com uma pessoa. O meu empresário estava a falar com outros clubes, com estruturas maiores, muito mais desenvolvidas. Sou uma pessoa curiosa e procuro logo perceber como são os clubes, as cidades e, de todos, aquele não era o melhor, de facto. Não gostou de viver em Ribeirão Preto? É uma cidade bem tranquila, em nenhum momento senti perigo. É do interior de São Paulo e há muita gente que se cansa do estilo de vida de São Paulo e escolhe ir para lá, porque é um sítio muito mais tranquilo. Ribeirão Preto é uma cidade bem vista no Estado de São Paulo. E realmente é tranquila, com vários restaurantes bons. A cidade não era um problema. Obviamente estava longe e os acessos no Brasil não são iguais aos do Japão. Para chegar a São Paulo, ou ia de avião, ou demorava quatro horas e meia de carro. Nunca fui a São Paulo, não tínhamos dias de descanso, de três em três dias estávamos a jogar, fazia muito calor, perdi muita massa muscular porque não treinávamos direito. Como assim? Não era culpa do treinador, simplesmente o tempo que tínhamos era mais para recuperar do que propriamente para treinar. O ritmo de jogos é absurdo, ainda por cima numa altura em que está muito calor. Ribeirão Preto é muito abafado, muito quente, o que só por si faz com que desidratamos muito mais rápido. Se não temos mais treinos de força, a massa muscular vai embora e notei que isso aconteceu comigo. Mas gostou do estilo de futebol praticado no Brasil? Essa é outra questão, não gostei muito, porque é um estilo de jogo muito mais amarrado, custa mais a construir. Custa mais que o jogo flua com naturalidade. No Japão, flui com muita naturalidade, os campos também são bons, as bolas são boas e no Brasil apanhamos campos maus, ambientes muito diferentes. Particularmente, não gostava da bola do campeonato Paulista. A bola, já nem me lembro da marca, mas parecia uma bola não profissional, campos com relvas altas, secas. As pessoas têm ideia de que o futebol no Brasil é muito um contra um, mas não. É difícil muitas vezes ir no um contra um, porque é muito agressivo, para mais, há uma ou outra porrada mais forte, há muita briga com árbitros. Estive num jogo em que inclusive dois colegas da mesma equipa começaram a stressar tanto que o próprio árbitro virou-se para um deles e perguntou: “Achas isto normal?” O Brasileirão não parece ser assim… Sim, provavelmente é outro nível porque são clubes mais estruturados, com estádios melhores, relvas melhores. Não joguei, mas tenho quase a certeza que deve ser um bom campeonato de jogar. Agora, a parte da logística no Brasil é muito complicada e só estive lá dois meses, mas pude sentir, principalmente quando é para jogar a Taça do Brasil, primeira e segundas eliminatórias, em que calhamos com equipas realmente fracas, mais amadoras. O Brasil é muito grande, para chegar a determinado sítio podemos ter de fazer duas viagens de avião e ainda andar de autocarro. Não é fácil. Então ao fim de dois meses não aguentou mais e quis vir embora? Desde o início que percebi que não me estava a adaptar bem e as coisas não fluíam na minha cabeça da forma que esperava. Logo no primeiro dia, tinha feito uma viagem super longa, acordei de madrugada em Portugal, para fazer Lisboa-Brasília, depois Brasília-Ribeirão, foram quase 24h de viagem. Quando cheguei foi um senhor da imprensa do clube que me foi buscar ao aeroporto, perguntei-lhe qual era o plano para o dia seguinte e ele não sabia, não tinha informação e eu não tinha informação nenhuma, ninguém me tinha passado nada. No dia seguinte, tive de acordar às sete, dormi pouco, estava cansado, estava muito calor e obrigaram-me logo a fazer testes físicos. À tarde havia treino no campo, eu estava ainda com jetlag, estava muito calor e comecei a sentir-me doente. Isto para dizer que logo no primeiro dia não gostei da falta de cuidado deles para com a minha situação, acho que podiam ter feito as coisas de outra forma. E houve outras coisas que não fui gostando, nada com o treinador, gostei dele e da atitude comigo também. E o balneário? 60% do plantel era novo e a verdade é que gostei, a malta era gente boa. Às vezes diz-se que os brasileiros são falsos, mas eu senti que havia gente boa mesmo. Gostei do balneário. O que me atrapalhou mais foi que eu tinha realmente uma vontade tão grande de ir, que fui com as expectativas altas e acho que foram defraudadas. Mas jogava? Sim, participei em quase todos os jogos, fiz oito em 11 possíveis. O treinador apercebeu-se da sua insatisfação? Ele percebeu que não estava a rolar como ele achava que ia ser e como eu achava que ia ser. Tanto é que um dia, depois do treino, chamou-me para falarmos. Perguntou-me o que eu achava que faltava para não estar com o rendimento que ambos esperávamos, porque também não consegui fazer nenhum golo lá. E sou uma pessoa que se cobra demasiado. Foi honesto com ele? Contei-lhe que estava desiludido com a estrutura do clube, que não era aquilo que esperava, etc. Ele disse-me que não queria problemas, que queria soluções, era a forma como encarava a vida. Penso que, no fundo, ele entendeu-me, mas é o treinador, não pode passar essa imagem, não podia concordar comigo naquilo que eu estava a dizer, apesar de achar que ele sentia o mesmo. Ele foi para o Brasil com o objetivo de chegar à I Liga e valoriza o facto de estar ali. Quando falou com o seu empresário, disse-lhe que queria voltar ao Japão ou deixou em aberto? Falei com o empresário passado um mês e só não falei antes porque achei que não faria sentido, pareceria demasiado cedo. Adiei até uma altura em que os mercados europeus estavam a fechar, era aquela fase janeiro/fevereiro, em que os clubes só contratam um ou outro jogador se sentirem necessidade. A maioria dos mercados já tinha fechado, apareceu a proposta do Tokyo Verdy, do Japão, um clube que já me queria antes e o meu empresário voltou a falar com eles. De início, disseram que já estavam sem dinheiro, o plantel já estava fechado, mas deram um jeito de conseguir um valor e acabei por aceitar o que me ofereceram porque ia voltar ao Japão, um país onde tinha sido feliz, ia ter a possibilidade de jogar a I Liga japonesa que cada vez mais é reconhecida no mundo do futebol. Pode não ser tão reconhecida em Portugal, por exemplo, mas quem trabalha no mundo do futebol já a reconhece. Há muita diferença da I para a II Liga japonesa? Um pouco. Na II liga japonesa há qualidade e há muitos jovens jogadores de qualidade, mas em quase todas as equipas é notório que há dois ou três elementos que não têm tanta qualidade, e na J1, na I liga, já não é assim, praticamente em todas as equipas que apanhamos os jogadores são nivelados, não há um ou outro que seja mais fraco. A média é boa. Está a gostar de viver em Tóquio? Já adorava Tóquio antes e agora gosto mais porque moro aqui. É uma cidade diferente e muito impactante. Onde eu estou pertence a Tóquio, mas não é Tóquio central. Mas para chegar ao centro a qualquer ponto mais famoso demoro 20, 30, 40 minutos, dependendo das zonas. É super rápido. Continua solteiro? Sim. Há uma pessoa com quem já estive, mas agora não estou. Ela por acaso tem cara de japonesa porque tem ascendência japonesa, mas é brasileira. Já cá está há alguns anos. O Tokyo Verdy também tem boas condições? Não tem as mesmas condições que eu tinha na II Liga, estruturalmente é um clube que está envelhecido, precisa ser modernizado, precisa de investimento, mas é um clube dos mais tradicionais no Japão, jogamos num estádio grande, bom, estamos em Tóquio. Tem as suas coisas que disfarçam as outras, Surpreendeu-me pela negativa, porque como tinha tido aquela experiência no Yamagata, pensei que fosse mais ou menos idêntico. Assinou por quantas épocas? Até ao fim deste ano. Eles têm uma opção de renovar por mais um ano até ao final de outubro, se o fizerem até essa data eu tenho uma cláusula de rescisão baixa. Até agora não joguei muito, estive lesionado, estou a voltar agora. Como se lesionou? Tive uma infelicidade, num lance normal no jogo, sofri uma falta nada de especial, só que, na queda, caí de joelhos no chão e com o impacto no chão com o peso do corpo senti um esticar muito forte no adutor direito, no dia seguinte fiz exames e tinha uma rotura, tinha muito sangue na zona. Tentámos acelerar o processo para eu voltar, passado duas semanas quiseram testar para ver se podia ir fazer o jogo do fim de semana e voltei a lesionar-me. Na verdade, não estava bem ainda. Voltei a lesionar-me no mesmo músculo, um pouquinho mais acima, mas as imagens da ressonância estavam praticamente iguais. Já estou na fase final da recuperação. Está com 28 anos acabados de fazer. Tem alguma meta para deixar de jogar? Acho que não vou ter uma longevidade tão grande como tem acontecido com alguns jogadores. Não acho que vá chegar aos 36 anos a jogar futebol. Não sei. Acho que vai depender do meu estado físico e mental, do tipo de lesões que possa ter e daquilo que eu possa atingir contratualmente. Já pensou no que quer fazer após pendurar as chuteiras? Tenho pensado cada vez mais. Tenho umas ideias... Gosto muito daquela zona do Caribe e há uns anos fiz uma viagem com o meu pai, para a República Dominicana, e um dia fomos conhecer uma loja de tabaco e quando chegámos o dono era um belga, que me contou a história de como foi ali parar, e essa história marcou-me. Ele vivia na Bélgica e foi fazer Erasmus para a República Dominicana, o que só por si já é uma coisa que faz arregalar os olhos, gostou, acabou por arranjar uma namorada lá, começou a olhar para a vida de outra forma, porque na República Dominicana não existe aquela pressão nem o pensamento de casar, ter filhos, de ter o carro X ou apartamento Y. Mudou a sua linha de pensamento, decidiu ficar, abriu uma empresa de tabaco, aquilo foi crescendo e já vende online para todo o mundo. E estava super feliz. Gostei daquilo. Gosto muito de tudo o que é meio-latino. A sua ideia é ir viver para um desses países? Talvez. Talvez gostasse de ter essa experiência. Não sei se o vou fazer, vai depender do momento da vida e da mulher com quem esteja na altura. Mas há algum tipo de negócio que gostasse de desenvolver? Pensei numa espécie de um hotel pequeno, que só tivesse serviço de pequeno-almoço incluído e um bar de praia um pouco parecido com um onde estive, no México, com os meus amigos. Então não lhe passa pela cabeça continuar ligado ao futebol. Só ficarei ligado ao futebol se for alguma coisa que envolva negócios de transferência de jogadores, mas não propriamente ser empresário, se calhar trabalhar em parceria com o empresário atual. Onde ganhou mais dinheiro até agora? No Japão. Já investiu? Sim, em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Talvez apanhar um avião depois de um jogo para ir passar a noite a Barcelona, porque tinha uma ligação forte com uma mulher lá, apesar de não namorarmos. Tem algum hóbi? Viajar. Gosto muito de conhecer culturas diferentes e restaurantes locais. É um homem de fé? Não. Superstições? Geralmente entro com o pé direito e dou dois saltos. Levo café e chocolate para tomar antes do jogo e meto duas fitas adesivas nos pulsos. Qual foi a primeira tatuagem que fez? As datas de nascimento dos meus pais e do meu irmão em letra romana. Tinha 18 anos. Depois disso já fiz várias, mas não tenho propriamente aquelas tatuagens grandes. Tenho umas 12 o 13. Quais as mais importantes? A primeira. Tenho uma que fiz o ano passado, que representa a minha passagem aqui, no Japão, tenho outra que é da viagem que fiz com os meus amigos ao México, e tenho a palavra “Resiliência”, porque acho que sempre me definiu ao longo da vida, sobretudo no futebol. Tenho uma de uma viagem que fiz ao Chile, onde tenho um grande amigo, com quem joguei no Varzim. Fizemos a mesma tatuagem os dois. Segue ou pratica outra modalidade além do futebol? Geralmente sigo as retas finais do futsal, em Portugal, mas não sigo a época. Gosto, mas também não sou um seguidor, por assim dizer, de ténis. E quando era novo gostava muito do futebol de praia, ia ver os Mundialitos. Qual a maior frustração que tem na carreira? Aquele contrato que era para ter assinado na I Liga, mas que não veio como tinha de vir, do Belenenses, nos juniores. E o maior arrependimento? Não tenho grandes arrependimentos no futebol. Mas posso dizer que quando era mais novo, na formação, arrependi-me de não ter ficado no SC Braga. E também me arrependi de não ter ficado no Getafe B, da Espanha e ter optado pelo Varzim B O momento mais feliz na carreira? Um jogo que fiz pelo Varzim, no estádio de Alvalade, para a Taça da Liga. Ficou-me memorizado porque tinha jogado no Sporting. Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha além do joker na Polónia? Aqui às vezes chamam-me ‘Tchi San’. Não é propriamente uma alcunha, é só a maneira como algumas pessoas me chamavam porque eles têm dificuldade em dizer “Ti”, dizem “tchi” e como no fim usam o “san” para chamar a pessoa, dizem: “Tchi San.” Quais foram as maiores amizades que fez no futebol? O Bruno Wilson, que está na MLS, o Artur Taborda, que já não joga, e o German Ruiz que jogou comigo no Olimpia. Alguma regra do futebol que se pudesse, alterava? Mudaria de alguma forma o VAR. Não sei se metia uma margem de erro. Como é que anulamos um golo por 1 cm, numa coisa que é feita num computador que depende do ponto que a pessoa que está a analisar escolheu? Há várias coisas. Tem algum talento escondido? Não. Qual o país onde gostava de jogar a seguir? Espanha. “Fizemos a despedida de solteiro do Filipe Anunciação após um jogo na Madeira. Como não gostei das bailarinas, fui eu quem fez o striptease” Tony “Careca” ou “Pequeno Buda”, como também é frequentemente chamado, conta-nos nesta II parte do Casa às Costas como terminou a carreira de jogador, que depois do Cluj ainda passou pelo V. Guimarães, Paços de Ferreira e Penafiel. Fala sobre Manuel Machado, Costinha, Jorge Costa e Paulo Fonseca, por quem foi treinado, entre outros. Relata algumas histórias vividas enquanto adjunto da seleção dos Camarões e do cancro que o abalou e já venceu, ainda que esteja sob vigilância apertada. No comando do Politehnica Iasi, da Roménia, que há poucos meses salvou da descida, o técnico de 43 anos confessa que gostava de voltar a treinar em Portugal, para estar perto dos seus Spoiler Em 2010/11 deixou a Roménia e voltou para Portugal, para o V. Guimarães. Como surgiu o convite? Antes disso, recebi uma proposta do SC Braga. Na altura o treinador era o Domingos Paciência. É quando o SC Braga vai à final da Liga Europa contra o Futebol Clube do Porto. Só que, em Portugal, já com tudo apalavrado com o Salvador, vou almoçar um bacalhau às Taipas, onde vivi uns anos antes, e o presidente do Guimarães, Emílio Macedo, que foi meu presidente nos Sandinenses, viu-me e perguntou o que estava ali a fazer. Eu disse que ia para o SC Braga. “Para o SC Braga? Não. Tu vais para o Vitória.” Ele deu-me a volta e fui para o Vitória. Deu-lhe a volta como? O contrato que lhe ofereceu era melhor? Sinceramente, não era melhor, ia ganhar menos dinheiro. Mas eu achava que tinha uma dívida moral com ele, pela forma como me recebeu quando fui da França para Portugal. Deu-me tudo, abriu-me as portas de casa, ajudou-me muito, aconselhou-me. E o Vitória era um clube com grande massa associativa, a sua história. Hoje o SC Braga é um grande clube, mas, naquela altura, ainda não era o SC Braga que é hoje. Arrepende-se dessa escolha? Foi uma má escolha desportiva para mim, porque o SC Braga vai à final da Liga Europa e porque joguei pouco no Vitória de Guimarães. Também tive a infelicidade de me lesionar duas vezes seguidas e isso ‘matou-me’ um bocado no clube. No Vitória esteve com Rui Vitória e Manuel Machado. Que tal um e outro? O Manuel Machado é dos treinadores mais pacatos que já conheci. Uma pessoa sempre positiva, as coisas correndo bem ou correndo mal, ele tinha um equilíbrio emocional fora do normal, raramente elevava o tom ou berrava com os jogadores. Sempre muito educado, sabia fazer passar a mensagem dele com muita educação e sabedoria. Quando Rui Vitória entrou, passados 15 dias surgiu a proposta do Paços de Ferreira. Eu já estava no Vitória de Guimarães há mais de oito meses, tinha jogado pouco, o que me deixava frustrado… Jogava pouco porquê? Não era opção para o Manuel Machado? Sim, a opção dele era o Alex e eu respeitava. E, como disse, lesionei-me duas vezes, o que marcou. Lesionou-se onde e como? Fiz uma rutura logo na pré-época, no gémeo, que me deixou dois meses fora. Depois lesionei-me no tendão de Aquiles, onde fiz rutura parcial, também num treino, num lance estúpido, e estive quatro meses fora. Dos nove meses que estive no Vitória, quase seis meses foi parado. Depois apareceu a proposta para ir para o Paços de Ferreira, que estava em último lugar. O presidente Carlos Barbosa ligou-me. Dois jogadores que estavam no Paços, jogaram comigo no Cluj, o Manuel José e o André Leão, decidi ir, para jogar e ser feliz. Era um clube familiar, onde sabia que, independentemente dos resultados, ia ser feliz. Acabámos por salvar o clube quando ninguém esperava. Com Henrique Calisto? Sim. Fizemos uma segunda volta sensacional com ele, conseguimos jogar um futebol atrativo e salvar o clube. O Paços de Ferreira é um clube top a todos os níveis. No ano seguinte veio o Paulo Fonseca e fizemos o 3.º lugar, temos a famosa classificação à Liga dos Campeões. Gostou do Paulo Fonseca como treinador? Ele foi meu colega no Estrela da Amadora enquanto jogador. Depois, como treinador, a nível de competência, da preparação de jogos, estratégia, de liderança, posso dizer que foi dos treinadores mais completos que tive. Além do António Conceição, pela experiência, a sua leitura de jogo, a sua liderança. Mas o Paulo Fonseca foi alguém que me abriu os olhos para o mundo do futebol. Fez-me ver o futebol com outro olhar. O que quer dizer com isso? Pode explicar melhor? Era muito dedicado, cada pormenor é importante. Vou dar um exemplo, nós jogámos numa segunda-feira à noite contra o Estoril, estava 0-0, faltavam sete minutos para acabar e houve um problema no campo, as luzes foram abaixo. Tivemos de jogar aqueles últimos sete minutos no dia seguinte, às 15h. O nosso aquecimento foi feito no campo de treinos, onde estivemos a trabalhar uma jogada que ia acontecer em sete minutos, para poder ganhar o jogo. Só fizemos essa jogada repetidamente durante todo o aquecimento, fomos para o campo, a bola vem no ar e não é que aquela jogada na qual o Paulo Fonseca pensou a noite toda, surtiu efeito e ganhámos 1-0? É nestes pormenores que o Paulo é diferente. Fez-nos acreditar que éramos bons jogadores e, pela primeira vez, quando jogávamos com o Benfica, o Sporting, o SC Braga, o V. Guimarães, todos tinham medo de jogar com o Paços Ferreira, porque éramos uma equipa muito atrevida e jogávamos bem. A confiança era tal que era difícil parar-nos. Logicamente, não tínhamos a qualidade individual dos outros, mas a nível coletivo a equipa era fantástica. Alguma história mais para contar do Paços? Quando atingimos a Liga dos Campeões, o Paulo Fonseca prometeu-nos que, se ganhássemos na Madeira, como viajávamos no dia seguinte, tínhamos a noite livre. Ganhámos o jogo e quisemos aproveitar para fazer a despedida de solteiro do Filipe Anunciação. Queríamos levá-lo para um striptease para o pôr numa situação mais incómoda à nossa frente. Quando chegámos lá, achámos que as raparigas não tinham condições para fazer-lhe a brincadeira, então resolvi fazer eu o striptease e foi uma risada muito grande. Afinal, a bailarina da despedida de solteiro do Filipe, fui eu. Em 2013, foi pai finalmente. Sim. O meu maior troféu. Foi o melhor momento da minha vida. É a minha razão de viver, a minha vida, o meu príncipe. Agora entendo quando os meus pais diziam-me que o amor de pai é diferente. O Luka para mim é tudo. Ele vive com quem agora? Vive em Braga. Como trabalho na Roménia, ele está metade do tempo com os meus pais e com a mamã dele. Quando estou em Portugal, está metade do tempo comigo e a outra metade com a mãe. No Paços Ferreira ainda teve o Costinha e o Jorge Costa como treinadores. O que pode dizer deles como treinadores? O Costinha é uma pessoa muito inteligente, muito competente, muito incompreendido pela massa associativa. Não era fácil para ele porque veio logo a seguir ao Paulo Fonseca, a exigência era grande. Não foi compreendido, não foi ajudado. Gostava de se vestir bem e usar bons carros, mas as pessoas no Paços não entendiam isso. Era o que ele dizia, eu trabalhei a minha vida toda para poder ter aquilo que tenho e agora não posso usufruir, porquê? E é verdade. As pessoas tomaram-no de ponta logo de início por causa disso e foi um aspeto negativo no Paços, porque tanto a qualidade do treinador, como a qualidade humana que o Costinha tinha, não mereciam isso. E o ‘Bicho’ [Jorge Costa]? O ‘Bicho’ tinha um carisma que nem era preciso falar, só o olhar dele metia respeito. Ele entendia muito bem o jogador, sabia lidar com cada situação da melhor forma, por ter sido capitão de um clube como o FC Porto. Tinha uma liderança fácil pelo seu historial, pelo seu nome, era muito respeitado pelos jogadores e veio para salvar o Paços de uma descida. Entretanto, em 2014, acabava contrato com o Paços de Ferreira, certo? Sim. Mas como o Paços não sabia quem ia ser o treinador da época seguinte e eu estava com 33 anos, fiquei com medo de ficar sem nada, se calhar precipitei-me um pouco. Fui para o Penafiel, era muito desejado pelo treinador, o Ricardo Chéu. É um grande amigo e foi através dele que comecei a ser treinador. Assinei um ano pelo Penafiel, o último clube da minha carreira e, passados dois dias, ligou-me o Paulo Fonseca porque voltava do FC Porto para o Paços de Ferreira. Infelizmente, eu já tinha assinado pelo Penafiel e não pude voltar a trabalhar com o Paulo. Como foi esse ano? Passou-se muita coisa negativa. Os resultados, mudanças de treinadores, tivemos três treinadores e perdi um bocado, com todo o respeito, o ‘tesão’ de ir para o campo com alegria, com vontade. Quando acabou a época, ainda me apareceu o Gil Vicente, na II Liga, mas recebi uma chamada do Ricardo Chéu, com uma proposta para ir para o AC Viseu com ele. No início comecei a rir, disse-lhe que não ia ter dinheiro para mim, mas quando ele me disse que não era para jogar, mas para ser adjunto dele, pedi-lhe tempo para pensar. Na altura já sabia o que queria fazer após pendurar as chuteiras? Queria continuar no mundo do futebol, mas via-me mais como diretor-desportivo, ou agente de jogadores, mais na parte do negócio, do que como treinador. Por isso, quando me lançou o desafio, pedi-lhe três semanas para poder pensar. Eu estava de férias na Espanha e um dia ele liga-me, diz que será apresentado dali a dois dias, precisava de uma resposta. Já tinha algum nível do curso de treinador? Só tinha o primeiro nível, mas aceitei o desafio do Chéu. Não senti falta de jogar à bola porque estava diariamente num balneário, com os jogadores no campo, e ele ensinou-me muito no dia a dia, da gestão do próprio treino. Foi um excelente professor. Sou seu admirador e devo-lhe muito porque foi através dele que se abriu esta porta. Depois, fui-me formando até tirar o UEFA Pro. Tirei também várias outras formações, de psicologia, fisioterapia, para colher cada vez mais informação, mais conhecimento do corpo humano, da gestão das cargas. Tirei cursos de metodologia de treinos, tudo o que podia fazer eu fazia, parecia uma esponja a absorver. Depois do Académico de Viseu foi para o Freamunde também com ele e, a seguir, estreia-se como treinador principal na AD Oliveirense. Sim, na fase de subida à II Liga. Como correu essa estreia na liderança de uma equipa? Fui fazer os últimos quatro jogos da equipa. Foi muito bom a nível de jogo, de prestação, foi elogiada por toda a gente. Depois vou para Bragança, no Campeonato de Portugal. Acabei por sair antes do Natal. Devido a quê? Resultados? Devido a tudo. A resultados, a falta de condições, falei com o presidente inclusive, disse-lhe que abdicava do meu salário para poder trazer jogadores, porque precisávamos reforçar a equipa. Várias vezes fomos para jogo com apenas 13, 14 jogadores. Treinar só 13 ou 14 jogadores não é fácil num Campeonato de Portugal, que é tão competitivo. Acabei por sair e fui para um clube da distrital, o clube da aldeia da minha avó, o Vilar de Perdizes, no concelho de Montalegre. Através da minha notoriedade e de muito trabalho com o presidente, conseguimos meter o Vilar de Perdizes nos meios de comunicação, houve várias reportagens nas televisões e correu super bem. Foi um trabalho muito bom, em que tentámos valorizar os atletas da região. Estive lá ano e meio. Começou como treinador principal em clubes onde lidava com homens feitos, alguns com outros empregos… Sim, lembro-me do meu capitão, em Bragança, que muitas das vezes chegava tarde aos treinos porque tinha o trabalho dele. No Vilar de Perdizes não foi fácil, apesar de estarem com grande disponibilidade e coração. Tinha trolhas, cozinheiros, padeiros, estudantes, tinha de tudo. Quando chegavam à noite, eu tinha um treino pensado e muitas vezes ouvia “ó mister, hoje estou cansado, estive a carregar muita coisa” e tinha que ter a sensibilidade de ajustar certas cargas. Não é fácil. Tem uma coisa boa, eles estavam ali pelo amor ao futebol, pelo amor ao clube, pela amizade e não pelo dinheiro. E isso é uma vantagem muito grande. Nunca puseram em causa a sua autoridade por ser um treinador novo, sem experiência? Não, porque, graças a Deus, em Portugal tinha uma certa imagem, toda a gente conhece o Tony ‘Careca’. Fui sempre respeitado, nunca tive problemas, antes pelo contrário, a minha carreira de jogador ajudou-me bastante na de treinador. A seguir vai treinar os sub-19 do GD Chaves. Foi mais difícil treinar jovens jogadores? O que é difícil é gerir a expectativa dos pais, porque pensam que têm o Cristiano Ronaldo em casa. Acabamos por ter um papel muito mais de educador do que propriamente de treinador, porque há muita expectativa, se vão à equipa principal, se não vão. Mas não podemos esquecer que além do jogador, há um homem. Eu era muito exigente com eles na escola, queria que tivessem boas notas. Exigia também a nível de respeito, de educação, com os próprios pais, com os colegas, porque a sociedade mudou, perderam-se muitos valores e temos de voltar a mostrar exemplos de valores que se perderam. Nos juniores do Chaves tive cinco jogos, quatro vitórias e um empate. Entretanto, aparece-me uma proposta do António Conceição para ser adjunto dele na seleção dos Camarões. Aceitou logo? Sim. Por isso é que o Toni é o meu pai do futebol. Foi quem me estreou na I Liga enquanto jogador e depois deu-me oportunidade de entrar num projeto de uma seleção de topo mundial, que está sempre nos Mundiais, luta pelas Taças de África. Poder estar com jogadores como Vincent Aboubakar, Choupo-Moting, André Onana, ou Zambo Anguissa, do Nápoles, durante três anos e meio, foi um privilégio enorme. Cresci imensamente ao lado do António Conceição, do Baltazar, seu adjunto também e do professor João Renato. África é outro mundo. O que mais o chocou? Vivemos no paraíso e não sabemos. O que mais me chocou foi a falta de acessos e muita pobreza. Víamos estádios de futebol de milhões e atrás do estádio havia muita pobreza, estradas e casas sem condições. Mas víamos pessoas felizes e metia-me confusão, porque temos tudo em Portugal e às vezes queixamo-nos. De quê? Vi crianças a quem o facto de oferecer uma laranja, parecia que elas tinham ganho a Liga dos Campeões. Têm uma abordagem à vida muito diferente. Desde que haja pão na mesa são pessoas alegres, felizes, só querem ganhar um dinheirinho para ter cervejinha ao fim de semana e poder ver um jogo de futebol. A alegria deles é essa. Mas tive a sorte de viajar por vários países de África, fui um privilegiado e aprendi muito. Vi países muito desenvolvidos e outros onde ainda há tudo por fazer. Apesar da maior parte ter uma mentalidade ainda muito fechada, há muito talento bruto. E histórias para contar desses anos em África? Há um episódio que me marcou, quando fomos jogar a qualificação do Campeonato do Mundo, no Catar. Íamos jogar contra Moçambique, em Marrocos, porque o estádio deles não tinha sido homologado. Quando chegámos ao aeroporto para embarcar, não tínhamos avião. É África. Vieram dizer-nos que a solução era viajarmos em dois aviões, um atrás do outro. A seguir ao jogo, para voltar aos Camarões, não havia combustível para o avião, tivemos de esperar a noite toda no aeroporto, até que de manhã viesse alguém abastecer o avião. Dormimos no chão. Estamos a falar de uma seleção que tem jogadores que ganham cinco e seis milhões de euros ao ano. Tem mais algum episódio que possa partilhar? Quando fomos jogar a Moçambique para a qualificação do CAN, o autocarro foi buscar-nos ao aeroporto e a meio do caminho para o hotel ficámos sem gasolina também. A nossa sorte é que dali até ao hotel era uma descida, senão ficávamos ali. Há muitas histórias dessas em África. Mas o jogador africano é mentalmente muito forte e preparado para as adversidades. Eu ficava frustrado e eles diziam: "Ó mister, esteja tranquilo, isso é África, é normal. Estamos habituados. Amanhã vamos ganhar na mesma, esteja tranquilo." [risos] Fez-me crescer a nível de gestão de emoções, a nível humano também, valorizar certas coisas que normalmente não valorizamos. Mas a equipa técnica passava a maioria do tempo em Portugal, ou não? Estávamos muitas vezes em Portugal, sim, mas de dois em dois meses íamos para África. Quando havia jogos da seleção, íamos 15 dias antes e também viajávamos pela Europa para monitorizar os nossos jogadores e ver novos jogadores, com dupla nacionalidade, que pudessem vir à seleção. Por exemplo, os franceses-camaroneses, íamos falar com alguns deles. Continua a viver sozinho? Estou com uma pessoa há sete anos. Não temos filhos em comum, mas ela tem uma menina do lado dela, eu tenho um menino e somos uma família muito bem equilibrada. Ela é franco-espanhola, mas vive em Braga, na nossa casa, eu é que vim trabalhar para a Roménia, no ano passado, no dia 1 de abril [risos]. Não é brincadeira, foi mesmo no dia 1 de abril que assinei contrato. Antes de passarmos à Roménia, quais foram os principais feitos que alcançaram com a seleção dos Camarões? Conseguimos a qualificação para o Mundial do Catar, mas depois, infelizmente, mudou o presidente da federação, entrou o Samuel Eto'o que, com um conflito com o governo, mandou-nos embora. Mas fizemos um excelente trabalho. Conseguimos o 3.º lugar da Taça de África, que se jogou nos Camarões, em 2021, onde fomos a equipa com mais golos, com os dois melhores marcadores. Passou onde o ano em que surgiu a covid-19? Quando apareceu a primeira vaga do covid estávamos em África, mas viemos rapidamente para Portugal. Estive em Montalegre, na aldeia do meu pai. Tive sorte porque a casa dos meus pais é no meio de uma montanha e, portanto, nunca estive preso. Acho até que foi dos melhores momentos que tive na vida, porque passei muito tempo com o meu filho, com o meu pai, com as pessoas que eu amava e estávamos confinados, mas em liberdade, porque estávamos no meio da montanha. Como se entretinham? Muitos passeios pela montanha, no rio, muitos jogos de cartas, muita televisão, muitos momentos passados juntos, para criar laços. Construímos muitas coisas, muitas barraquinhas para os meninos, muito passeio, andar de bicicleta, jogar à bola, o jardim é tão grande que permitia isso tudo. Quando veio embora dos Camarões foi adjunto de quem no Paços de Ferreira? Do César Peixoto. Mandaram-nos embora dos Camarões, mas ainda tínhamos ano e meio de contrato e defendemos os nossos interesses na FIFA. Depois, no Paços, as coisas não corriam bem, o presidente Paulo Meneses achava que eu podia trazer algo positivo para ajudar os jogadores a nível mental e fiz parte do staff técnico do César Peixoto. Conseguimos fazer uma segunda volta razoável. Deu-se bem com o César Peixoto? Sim, sem problema. O César é um jovem treinador muito ambicioso, com excelentes ideias, muito bem organizadas. É um romântico do futebol, gosta sempre de futebol bem jogado e, portanto, não tenho mais nada a dizer. Tentámos fazer o nosso melhor. Se a primeira volta tivesse corrido como a segunda, o Paços Ferreira tinha-se safado, mas, infelizmente, não conseguimos os pontos suficientes. Saiu no final da época também? Sim, e fui para Montalegre, para o clube da terra do meu pai, como treinador principal, estava tudo a correr bem até que chegou uma fase em que tive um pequeno problema de saúde. Apareceu-me um tumor na próstata, mas, no azar, tive muita sorte, porque foi detetado muito cedo e há novas tecnologias que me permitiram fazer um tratamento de laser. Com cinco tratamentos consegui dar cabo do tumor. Mas continuo em vigilância, de seis em seis meses faço alguns exames. Apanhou o susto da sua vida… Confesso que na altura não quis que ninguém soubesse, só os familiares e amigos mais próximos. Tive muito medo, só pensava no meu filho, não voltar a ver o meu filho era uma coisa inconcebível. Decidi sair do Montalegre por causa disso, faltavam seis jogos para acabar o campeonato. Quando recebi a notícia do médico, após os cinco tratamentos, de que estava tudo bem, só precisava continuar a fazer medicação durante mais 45 dias, entretanto, apareceu a proposta para ser treinador na I Liga da Roménia, para salvar um clube que ia descer de divisão. O Politehnica Iasi? Exatamente. Eu tinha uma excelente imagem na Roménia, devido à minha passagem pelo Cluj, posso dizer que sou idolatrado aqui, não posso sair à rua, toda a gente quer tirar fotografias. Na altura ainda hesitei porque acabara de ter o problema de saúde, mas como era só por sete jogos e o objetivo era salvar o clube da descida, quando toda a gente dizia que já tinha descido, pensei, não tenho nada a perder, tenho tudo a ganhar. Quem conseguiu vencer um cancro pode vencer qualquer coisa e acabei por aceitar, no dia 1 de abril. E correu bem. Muito bem. Não havia muito tempo para mudar muita coisa, era mais o aspeto psicológico. Consegui através da minha personalidade, trazer coisas positivas, unir o clube quando toda a gente desconfiava de toda a gente, ninguém dizia “bom dia” a ninguém. Fiz questão de abraçar e beijar toda a gente, desde as cozinheiras, a mulher da limpeza, abraçava e beijava toda a gente, porque eu também tinha passado há pouco tempo um momento difícil a nível de saúde e dizia-lhes que nós temos uma oportunidade de vida, temos de fazer tudo para as coisas saírem bem. Através disso tudo conseguiu criar-se uma atmosfera tão boa, tão boa, que quando todos pensavam que íamos cair conseguimos safar-nos. Falou-lhes no cancro? Só no fim. No último jogo, precisávamos de ganhar para não descer de divisão. Antes disso, nunca falei disso a ninguém. Mas, no último jogo, disse-lhes para estarem tranquilos, que ia correr bem, que íamos ganhar porque Deus é sério com quem é sério também. E contei-lhes que antes de ir para o clube tive aquele problema de saúde. O certo é que ganhámos o último jogo e conseguimos a inesperada manutenção. Pediram-lhe para ficar, certo? Mal acabou o jogo, o presidente do clube queria renovar comigo, mas eu disse que precisava aliviar a cabeça um ou dois dias e pensar nas coisas. Entretanto, apareceu-me também um clube da II Liga, na Arábia Saudita. É moda agora toda a gente ir para a Arábia Saudita, a nível financeiro é melhor, mas preferi dar continuidade ao projeto aqui, estar na I Liga num clube que tenta dar-nos as condições todas. Não é um clube de topo, é um clube médio da tabela. Digamos que é um Gil Vicente, um Paços Ferreira ou um Chaves. Traçaram-lhe algum objetivo? O objetivo é não passar pelos calafrios que passámos o ano passado. Quero tentar desenvolver um bom futebol e sermos felizes, que para mim é muito importante. E tentar valorizar jogadores para vender um ou outro, porque os clubes de média dimensão precisam disso para sobreviver. Assinou por quanto tempo? Este ano, e mais um. Está sozinho na Roménia? Sim, a minha namorada tem de ficar em Portugal, mas vem passar uns dias aqui, o meu filho também. Quando os meninos têm escola é complicado. O meu filho já vai fazer 12 anos, a escola começa a ser algo sério. Estamos a fazer um sacrifício, não posso esconder, ganho um bom dinheiro, não é um salário milionário, mas é um bom dinheiro para poder dar estabilidade à família e o meu filho mais tarde poder ter bons estudos, boas universidades. Ele joga futebol? Treina no SC Braga semanalmente. Revê-se nele? No feitio, sim, a jogar, não. Não é tão lutador como o pai. Se fosse lutador com o meu pai, era melhor. Mas tem muito de mim, é muito carinhoso, muito de abraçar, muito sentimental, somos muito parecidos nesse sentido. Ele também diz que quer ser jogador de futebol? Diz, mas tenho de ser honesto, acho que vai ter de trabalhar muito para ser jogador de futebol. Onde ganhou mais dinheiro na carreira? No Cluj. Investiu? Sim, comprei apartamentos e uma bomba de gasolina. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprar um Porsche Cayenne. Tem algum hobby? Jantar com os amigos. É um homem de fé? Muita. Aqui na Roménia, não, mas em Portugal cada vez que posso estou sempre na igreja. Superstições? Não. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quantos anos tinha? A primeira foram umas asas de anjo nas costas. Tinha 27 anos, estava no Cluj. Foi para fazer uma homenagem à minha mãe, porque ela dizia que eu era o anjo da família. De lá para cá tenho mais umas oito. Tenho também uma tatuagem no antebraço de uma foto comigo e com o meu filho. Segue ou pratica outra modalidade? Pratico padel, gosto muito de ver ciclismo e ténis. Com os Jogos Olímpicos vou passar os dias a ver desporto, porque acho que nós no futebol temos muito a aprender das outras modalidades, a nível mental. Qual a maior frustração na carreira? Não ter sido internacional para Portugal? E o maior arrependimento? Se calhar, não ter assinado pelo SC Braga. O momento mais feliz? O primeiro jogo da Liga dos Campeões, na Roma, quando ganhámos 2-1. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Manchester United. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Muitas. Posso destacar o Cadú, o André Leão, Manuel José, Filipe Anunciação, Caetano. São pessoas de grande amizade. Além de ‘Careca’, tem ou teve mais alguma alcunha? O ‘Pequeno Buda’. Não me chateio. Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava, ou bania? A vinda do VAR tem coisas muito negativas, por isso, se calhar bania. Perdeu-se muito a essência do futebol. A tomada de decisão tem de ser humana e não sempre através das novas tecnologias, porque mesmo com as novas tecnologias, vai-se buscar aquilo que se quer. Tem algum talento escondido? Falo um ótimo arroz de cabidela, gosto de cozinhar. O momento mais difícil da sua vida? Foi quando a minha mãe teve um acidente muito grave e esteve perto de morrer. Foi o pior momento da minha vida até agora. Teve um acidente de viação? Não. Bebeu um líquido que a queimou toda por dentro. Tiveram de tirar-lhe o estômago e reconstruir o esófago, foi um momento muito complicado para nós. Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Robben, do Bayern de Munique. Era muito rápido e tecnicista. Mas quero destacar também o Ricardo Quaresma, porque era imprevisível. Quais são os seus objetivos futuros? Continuar a ser feliz e voltar a ter a oportunidade de trabalhar num clube de I Liga, em Portugal, perto da família. 1 Compartilhar este post Link para o post
RAG Publicado 9 Setembro 2024 Citação de RAG, há 11 horas: Alguém consegue arranjar a do André leão? https://tribuna.expresso.pt/a-casa-as-costas/2024-09-08-o-petit-como-pessoa-e-cinco-estrelas.-quanto-a-ideias-de-jogo-ainda-hoje-nao-sei-ao-certo-quais-eram-7990007a Compartilhar este post Link para o post
Lebohang Publicado 9 Setembro 2024 Citação de RAG, há 12 horas: Alguém consegue arranjar a do André leão? Spoiler “No FC Porto até alteravam o meu nome, não punham André Leão na ficha de jogo, punham André Dragão. O árbitro mal via o nome começava a rir” André Leão, de 39 anos, está de regresso à casa de partida, o Freamunde, onde iniciou o seu percurso. Nesta I parte do Casa às Costas, além dos primeiros 14 anos no clube da terra natal, falamos ainda sobre a passagem pelo FC Porto B e Beira-Mar, antes da partida para o estrangeiro, onde criou amizades para a vida e conquistou títulos no Cluj da Roménia. No regresso a Portugal, veio ganhar menos €10.000 por mês para jogar no Paços de Ferreira, onde assume ter vivido os melhores anos da carreira. Sem rodeios, diz o que pensa sobre os treinadores que teve e revela algumas histórias Nasceu em Freamunde. Comece por nos apresentar a família onde cresceu. O meu pai trabalhava na construção civil, na área das casas de banho e a minha mãe era costureira. Tenho um irmão dois anos mais velho, o Hélder, e outro 15 anos mais novo do que eu, o Vítor. Foi uma criança tranquila ou deu dores de cabeça? Dizem que dei algumas. Era do tipo de esconder-me para não ir ao infantário. O meu avô ajudava-me [risos]. A minha mãe já sabia que quando ele estava muito calmo era porque tinha sido ele a esconder-me. De resto, dizem que andava sempre de bola na mão, mesmo com chuva, muitas vezes ia de calções e galochas lá para fora, para jogar à bola. Tinha alguém na família ligado ao futebol? O meu padrinho e tio era diretor do Freamunde, mas não tinha ninguém que jogasse ou tivesse jogado. Sempre quis ser jogador de futebol? Sim, sempre disse querer jogar futebol e ser médico, mas isso do médico passou rápido. André Leão em criança D.R. Em casa torciam porque clube? O meu falecido avô era sportinguista ferrenho. O meu pai e eu éramos mais FC Porto, já o meu padrinho era do Benfica. Havia de tudo. O meu pai é portista, a minha mãe torce pelo Sporting e o meu irmão mais velho é benfiquista. Quem eram os seus ídolos? Gostava muito do Paulo Sousa e do Steven Gerrard, do Liverpool. Também gostava do Fernando Redondo, do Real Madrid. E da escola, gostava? Sim. No 12.º ano deixei matemática para trás, porque já estava nos seniores. Mas quando mais tarde tive oportunidade, acabei a matemática e concluí o 12.º ano. Sempre tive boas notas até ao 9.º ano. Não era daqueles alunos que só queria saber da bola e não da escola. Sempre me dediquei um bocadinho também à escola. Como e quando começou a jogar futebol no Freamunde? O antigo campo do Freamunde era perto da minha casa. Eu tinha seis anos, o meu irmão Hélder tinha oito e ele foi lá fazer captações. Eu não tinha idade, mas fui com ele. Faltava um jogador para fazer o jogo que o falecido Senhor Andrade queria e perguntou-me se eu queria entrar para jogar. Aceitei logo e no final do jogo ele pediu que eu fosse para lá e ao meu irmão, não. Aquilo foi um bocado triste para o meu irmão, não reagiu muito bem, ele também era mais gordinho, não é que não tivesse jeito para jogar, mas custava-lhe correr. Comecei logo a jogar. Com seis anos? Pois, eu não podia jogar oficialmente com essa idade, só a partir dos oito, por isso durante dois anos tive de jogar com nome de outros jogadores. Normalmente era com o nome do Cunha. Os árbitros não olhavam muito para a ficha do jogo, só liam o nome e siga. Quando ia para a chamada diziam o nome do outro colega e eu assumia [risos]. Ou seja, habituei-me a jogar com jogadores mais velhos e foi assim quase a formação toda. André entre o avô e o irmão mais velho D.R. Dos anos todos que passou em Freamunde, dos 8 aos 20, quais são as principais memórias que tem? São só memórias felizes. Quando era para ir para os iniciados soube que o FC Porto e o Boavista queriam-me, mas a minha mãe não me deixou ir. Disse que eu era muito pequeno para ir sozinho para o Porto. Aos 16 anos, apesar de ainda ser juvenil, comecei a treinar com os seniores, com o mister João Mário, que agora é adjunto do mister Carvalhal no SC Braga. Depois, quando chegou o mister Vaqueiro, pôs-me logo a jogar. Tinha quantos anos? Penso que tinha 17 anos e foi contra o FC Porto B. Mas o meu primeiro jogo a titular foi em Leça, também com 17 anos e fiz golo, ganhámos 3-2. Nessa idade quais eram os seus sonhos? O que ambicionava? Aí eu já tinha noção que queria ser jogador de futebol e trabalhava muito para isso, mas também tentei seguir os estudos. Quando fiz 18 anos abriram as piscinas exteriores municipais de Paços Ferreira e o meu primeiro emprego foi lá, nas férias de verão. Tinha de conciliar com o futebol e as pessoas ajudavam-me. A partir daí comecei a receber dinheiro dos seniores no Freamunde. Foi o seu primeiro contrato profissional? Sim, os meus pais é que me ajudavam em quase tudo, o dinheiro que eu recebia dava toda à minha mãe e ela punha numa conta no banco. Recorda-se do valor do seu primeiro ordenado? Eram €600. Comecei logo a juntar para tirar a carta, porque os meus pais não tinham possibilidades de me ajudar nisso. E depois juntei para comprar carro. Com os pais no dia da 1ª Comunhão D.R. Quando começaram as primeiras saídas à noite e os namoros mais sérios? Nunca fui muito de sair à noite. Quando saía era com o meu irmão mais velho, para cafés. Discotecas só por volta dos 18/19 anos, mas só quando podia. E não ia muito. Ainda agora sou muito de estar em casa. Já nem me lembro da última vez que fui a uma discoteca. A minha primeira namorada também foi por essa altura. Já tinha empresário? Tinha, primeiro foi o Toninho Cruz, que depois foi trabalhar para o scouting do Manchester United, e fiquei com o Amaro Valente. Foi através dele que fui para o FC Porto B. Eu já tinha ido à seleção sub-20. Qual é a sensação de ser convocado para uma seleção? Na altura foi um sentimento diferente e estranho. Tive essa experiência depois no FC Porto B e nós não precisávamos de jogar muito bem no FC Porto para ir à seleção, era chamado de qualquer maneira. No Freamunde, não. Para sermos chamados é porque tínhamos de nos evidenciar muito em relação aos outros. Como reagiram os seus pais quando decidiu abandonar os estudos e dedicar-se apenas ao futebol? Quando saí da escola já estava como profissional e depois fui logo para o FC Porto B. Eu já estava a jogar e a ganhar dinheiro no futebol e sempre disse que queria terminar o 12.º ano, por isso eles apoiaram-me sempre. Na altura não havia aquela coisa de ir para a universidade, até porque se calhar não tinham possibilidades de nos pagar a universidade. Nunca me disseram para não ir, mas como as opções não foram essas, também não falaram no assunto. Foi tranquilo. André ( 2º jogador atrás à esquerda) iniciou o seu percurso no Freamunde D.R. O FC Porto B foi a primeira e única proposta que teve aos 20 anos? Antes do FC Porto eu fui treinar com o Antunes, ao Tottenham, durante uma semana. Foi um empresário que nos levou. Na altura, nas reservas inglesas podiam jogar jogadores à experiência, só que a época estava a terminar quando fomos e já não havia esses jogos. Fizemos apenas um jogo-treino. Como foi pouco tempo, eles não viram tudo o que queriam e disseram-me para voltar no ano seguinte para treinar outra vez à experiência. Na altura também se falou na hipótese do PSV, mas nunca me chegou nada. Do que mais se recorda dessa semana no Tottenham? Alguma história para contar? Por acaso tenho uma história. O nosso inglês não era muito bom e ainda por cima perdemo-nos. No último fim de semana tínhamos folga, o empresário foi visitar a família que tinha em Londres e deixou-nos sozinhos. Tínhamos um amigo que era filho do presidente do Senhor Manuel, presidente do Freamunde, em Londres e fomos ter com ele. Fomos para o centro de Londres, o nosso amigo disse-nos qual era a estação de metro que tínhamos de apanhar. Vimos o jogo da Champions, entre o Liverpool e o Chelsea, onde estava o Mourinho. Quando viemos embora, ninguém nos disse que o metro fechava às 23h. Sabíamos apenas qual a estação em que tínhamos de sair, mas o comboio parou uma estação antes. Além de termos muito que andar, nem sabíamos o caminho que tínhamos de fazer. Quando nos disseram que só no dia a seguir é que havia metro, ficámos um bocadinho à toa. O Antunes na altura tinha 16 anos e eu 18 anos. O que fizeram? Fomos à procura de um táxi a quem pudéssemos dizer o nome da estação, porque daí sabíamos o caminho para o hotel. Nisto passou um autocarro, mandámos parar e foi a nossa sorte. No nosso pouco inglês conseguimos dizer para onde queríamos ir, como a pessoa com quem falámos também não sabia muito bem onde era a tal estação levou-nos até uma bomba de gasolina, perguntou ao senhor da bomba que explicou que era 1km à frente. E pronto, fomos a pé até ao hotel, os dois sozinhos, já era perto da meia-noite [risos]. Mas foi um bocado assustador. O médio defensivo fez toda a formação no Freamunde D.R. Teve esperança de ficar no Tottenham? Quando fomos, sim. As primeiras impressões que nos passaram foram positivas, mas no ano seguinte apareceu o FC Porto B, como era certo fui para lá e já não fui treinar outra vez ao Tottenham. Assinou por quanto tempo? Fui por empréstimo do Freamunde essa época, mas com opção de compra. Só que esse foi o ano em que acabaram com a equipa B. Não podiam subir de divisão, só podiam jogar na II B, acharam que não era bom para a equipa e acabaram. Só anos mais tarde é que voltam a entrar na II Liga diretamente. Quais foram as primeiras impressões com que ficou assim que entrou no FC Porto? Só a bateria de exames médicos que fizemos foi incrível, desde raio-x a ancas e tudo e mais alguma coisa, enquanto no Freamunde era um eletrocardiograma e pouco mais. Depois, entrar no centro de estágio e ver aquelas relvas todas direitinhas. A qualidade aumentou, era outro peso. Também sabia que isso ia ajudar-me a evoluir mais. Depois tive sorte no treinador que apanhei, o Aloísio, e no adjunto, o Bandeirinha. Eram 5 estrelas. Foi aí que passei de jogar como médio ofensivo, n.º 10, para jogar como 6 ou 8. Não o chateou recuar no campo? Nada. Ele achava que eu tinha qualidade para construir a partir de trás e, como sou alto, podia ajudar mais a equipa atrás. Adaptei-me muito bem e a partir daí fiz a carreira toda nessa posição. Em ação pelo Freamunde D.R. Percebeu o que é a mística do FC Porto? Claro. O ter de ganhar a todo custo foi ali que aprendi. Chegar a casa e fechar-me num quarto se empatasse ou perdesse, foi ali que aprendi. Eles até o meu nome alteraram. Na ficha de jogo não punham André Leão, punham André Dragão. O árbitro mal via o nome começava logo a rir. Chamavam-me André Dragão durante a semana e tudo. Esse querer ganhar, passam a toda a gente e é de todas as pessoas que trabalham lá dentro que vem diariamente essa pressão de ganhar para os jogadores, o que nos faz crescer muito. Alguma vez treinou com a equipa principal? Não, treinávamos contra eles, mas treinar com a equipa principal, não. O Co Adriaanse nunca me chamou, penso que nesse ano só o Hélder Barbosa é que foi chamado. Como foi estar perto das grandes estrelas do FC Porto? Estávamos todos os dias com eles e o Quaresma, o Pepe e o Bruno Alves vinham sempre para o balneário da equipa B, porque se davam muito bem com o Vieirinha. Estavam sempre ali a brincar connosco. Foi no ano em que chegou o Anderson, que tinha 16 anos. Eram os nossos ídolos que estavam ali muito perto. Foi muito bom. Quando soube que não ia ficar no FC Porto ficou frustrado e triste? Por um lado fiquei, mas logo a seguir surgiu o Beira-Mar e vou para a I Liga. Uma das equipas de André Leão (3º atrás à esquerda) no Freamunde D.R. O seu contrato subiu substancialmente quando foi para a I Liga? [Risos] Não, fui receber muito menos do que recebia no FC Porto B. A diferença foi de €2000. Fui receber menos €2000. Mas ia fazer 21 anos, queria ir para a I Liga e mostrar-me. Só estou uma época lá porque fui logo vendido para a Roménia. Antes de irmos à Roménia. Foi viver para Aveiro sozinho? Sim. Nas férias a minha mãe foi para lá e depois disso eu ligava-lhe algumas vezes a perguntar como se fazia isto ou aquilo. A partir daí comecei a aprender a cozinhar e a fazer as coisas de casa. Quando ela lá foi depois ficou surpreendida porque antes, em casa, eu não fazia nada [risos]. Entrou no Beira-Mar com Augusto Inácio a treinador. Com que opinião ficou dele? Fora do campo não era muito amigável. Dizia “bom dia”, “boa tarde”, não dava muita margem para falar. Mas dentro de campo gostei muito. À 11.ª jornada ele saiu do Beira-Mar, mas ficámos com uma boa relação, apesar de não ter sido de muitas falas. É com ele que faz a sua estreia na I Liga? Sim, estreei-me na 1.ª jornada com o Aves. Entrei já o jogo decorria. A estreia a titular foi no estádio da Luz. Ele até deu uma entrevista onde disse: “Amanhã vai ser André Leão e mais 10.” Isto veio numa página, em grande, e ficou-me muito marcado. Estava um bocado ansioso, mas foi só até entrar em campo. Acabou por ser um jogo bom, porque não tínhamos a pressão de ganhar ao Benfica. O médio (à direita) chegou a ser convocado para a seleção de sub-20 ERIC ESTRADE A seguir ao Inácio veio Carlos Carvalhal. Muito diferentes? Completamente diferentes em termos de treino. As ideias não eram totalmente diferentes, mas o treino era muito mais tático. Enquanto o Inácio tinha mais jogo e mais jogos de pressões, o mister Carvalhal não era tanto assim. Pegava no 11 que achava que ia jogar logo no início da semana e os outros ficavam um bocadinho de fora. Ele fazia de vez em quando umas peladinhas com todos, mas trabalhava muito taticamente aquele 11 que achava que ia jogar. Era mais comunicativo com os jogadores, gostava de brincar mais. Dava-se mais aos jogadores que o mister Inácio. Ainda foi treinado nessa época pelo Paco Soler. Certo. Vem com a empresa espanhola que entrou no Beira-Mar. Começaram a chegar jogadores, começou a ser muita coisa para gerir e acabou mal, acabámos por descer de divisão. Tem alguma história que possa contar do Beira-Mar? Tínhamos um jogador que um dia chegou ao treino, não treinámos no nosso estádio, treinámos noutro, e o mister começou o treino com os famosos ‘meiinhos’. Esse jogador não saía do meio, acabou essa parte do treino, ele foi falar com o mister, disse-lhe que estava mal disposto, que o melhor era ir tomar banho, e o mister deixou-o ir para o banho. Nisto, estamos a treinar, olhamos para o campo que ficava mais abaixo e estava ele a treinar sozinho, a fazer aberturas à volta do campo [risos]. Entretanto, nesse fim de semana, tivemos jogo à noite e fizemos concentração para almoçar e lanchar como é normal, o mister aproveitou, chamou os jogadores para dar a tática. Fez primeiro só defesas, depois os médios e avançados; o mister disse quem ia jogar e esse jogador não estava na equipa inicial. O mister começou a dar a tática a quem ia jogar e esse jogador no fim dele falar virou-se para ele e perguntou: “Mister, e quando eu entrar o que tenho de fazer?” O mister ficou sem saber o que lhe dizer, claro [risos]. A sua ambição havia aumentado, já se via noutros patamares? Sim. O meu sonho sempre foi jogar pela seleção A, que nunca aconteceu, infelizmente. Era para isso que eu trabalhava para subir de patamar e ir para equipas melhores. Na altura falava-se do Palermo, que estava na Série A. Em 2007/08, André Leão (3.º atrás à direita) foi jogar para o Cluj, da Roménia D.R. Mas acabou no Cluj, da Roménia. Porquê? O Cluj chegou a acordo com o clube e fez muita pressão para eu ir. O meu empresário dizia-me que a Roménia não tinha muita visibilidade e que havia interesse do Palermo. Mas como ele não me apresentou uma proposta concreta da Itália, disse-me para ser eu a resolver com as pessoas do Cluj. Pedi ao Cluj ainda mais dinheiro, a ver se diziam que não, mas eles disseram que sim. Aí não tive mais nada a dizer. Informei o meu empresário que aceitara a proposta da Roménia. Esse dia foi uma confusão, havia muita pressão, eu era muito novo, tinha acabado de fazer 22 anos e era a primeira vez que passava por uma situação daquelas. Vai para o Cluj em 2007/08. Foi sozinho para a Roménia? Sim. Havia muitos portugueses no clube. Éramos 11. Foi uma das razões que o levou a aceitar? Claro. Ainda por cima o Cadú e o Dani eram aqui de Paços de Ferreira, o Manuel José jogava no Boavista, ou seja, conhecia-o mais ou menos e fiquei muito amigo dele lá, hoje sou compadre dele. Na Roménia fiquei muito amigo também do Tony, que me ajudou muito no segundo ano, quando me lesionei. Vim para Portugal tratar-me e quando voltei já tinham dado a minha casa a outro jogador. Quando regressei fui viver praticamente na casa do Tony, o dono do clube tinha um hotel, mas ainda estava em obras e não havia Internet, por isso eu mal ficava lá. Tony, Manuel José, Leão e Semedo a festejarem um título pelo Cluj D.R. Quando começou a treinar notou muitas diferenças nos treinos e no ambiente de balneário? O ambiente de balneário era mais estranho, porque não percebia o que eles diziam, mas como tinha muitos portugueses acabava por ser um bom balneário. Os romenos não ganhavam muito de ordenado, mas ganhavam muitos prémios de jogo e começaram a juntar-se aos portugueses porque, se ganhássemos, eles ganhavam muito mais do que ganhavam de ordenado. À conta disso começou a criar-se um ambiente muito bom e nesse ano ganhámos tudo. Ganhámos a taça e o campeonato, no ano em que o clube fazia 100 anos e pela primeira vez foi alcançado o acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões. O que achou do futebol romeno? Era muito mais físico. Tirando a nossa equipa e mais duas, as outras jogavam muito futebol direto e físico. Mas no ano seguinte começaram a ter muito mais estrangeiros em todas as equipas e começou a mudar um bocadinho. E dos romenos, com que impressão ficou? São frios, se corre bem somos os melhores do mundo, se corre mal, a casa fica a arder [risos]. Mas nunca tive problemas com os adeptos. Semedo, Dani Soares, o fisioterapeuta Muri, Tony, Cadu, Fredy e André Leão num estágio do Cluj D.R. Na segunda época o Cluj teve quatro treinadores, mas, como disse há pouco, lesionou-se. Como? Foi logo no início da época. Fiz uma rutura do cruzado anterior, do colateral interno, do menisco externo e interno do joelho. O lateral interno não foi total. Foi num jogo pela equipa B. Às vezes íamos jogar pela equipa B porque havia prémios também. Num jogo com eles levei uma pancada por trás, do lado de fora do joelho e comecei a sentir o joelho um bocado preso. Continuei a jogar. Na segunda parte há uma bola que vem pelo ar, pousei-a no chão e quando apoio o pé para começar a conduzir a bola, senti o joelho a… Parecia um pano a rasgar. Fiz ressonância e pronto. Acabei por falar com o médico da seleção romena, porque eles foram jogar a Cluj, perguntei-lhe se não era melhor eu vir para Portugal fazer a cirurgia e estar perto da família e ele disse-me que o devia fazer, sem dúvida. Como o médico do Cluj ouviu a conversa, não dificultou nada e vim para Portugal. Estive cinco meses cá. Ou seja, perdi a fase da Liga dos Campeões. Assinou por quantos anos com o Cluj? Cinco. Ainda iniciou a época seguinte? Sim. Fiz cinco meses de recuperação, quando voltei o treinador era o Toni Conceição, mas foi embora no final da época e veio o italiano Mandorlini. Fiz alguns jogos com ele, e a meio da época querem que eu seja emprestado. Ou melhor, eles já queriam emprestar-me quando voltei da lesão, porque acham sempre que não voltamos nas mesmas condições. Queriam emprestar-me ao clube que estava na última posição na I Liga. Davam-me mais dinheiro do que o Cluj, mas eu não quis. Acabei por perder muito dinheiro, porque estive no Cluj só dois anos e meio e vim embora sem mais dinheiro nenhum. Tem alguma história para contar desses tempos na Roménia? Tenho uma da segunda época, quando fomos jogar fora a final da Taça e ganhámos. O Tony tinha-se aleijado num braço, andava de braço ao peito e, no regresso a Cluj, a esposa dele, a do mister Toni Conceição e uma amiga desta fizeram a viagem de regresso de carro, enquanto nós viajamos num voo charter. A mulher do Tony ligou-me durante a viagem e pediu para eu estar atento ao telemóvel porque já sabia que se ligasse para ele o provável era ele não ver. Quando elas chegassem, ela queria ir ter connosco ao local onde estivéssemos a celebrar. OK. Fui para a discoteca, às quatro da manhã e às cinco fui ver o telemóvel e nada, às seis da manhã fui ter com o Tony e perguntei-lhe se a mulher tinha falado com ele. E ele: “Ela disse que já não vinha para aqui porque chegou tarde e estava cansada.” Meti o telemóvel no bolso e nunca mais estive atento. Às sete da manhã peguei no telemóvel e tinha 15 chamadas dela. Fui à beira dele: “Tony, tens a certeza que a tua mulher disse que não vinha?” Ele olhou para o telemóvel dele, se eu tinha 15 chamadas ele devia ter o dobro [risos]. Virou-se para mim: “Temos de ir embora, temos de ir embora”, todo apressado. Eu ia ficar a dormir em casa dele. Quando fui à casa de banho lavar os dentes, vejo-o a entrar no quarto, de braços no ar e a gritar “Campeões, campeões.” Ela começou a gritar com ele, passado pouco tempo ele saiu do quarto cabisbaixo, chegou à minha beira, tirou a aliança, meteu em cima do lavatório e disse: “É desta que me vou separar.” Olhei para ele e ele desatou a rir que nem um tolo. Às 11h da manhã estava ela a bater com as portas para acordarmos [risos]. Nem me disse “bom dia”, estava zangada comigo também. Mas ele depois disse comprou-lhe um carro, um Mini Cooper S. Após a Roménia, André Leão (à equerda) ingressou no Paços de Ferreira, em 2009/10 MIGUEL RIOPA Quando veio embora já tinha o interesse do Paços de Ferreira? Assim que falaram a primeira vez em emprestar-me, comecei logo à procura de alternativas. Tinha a Naval 1.º de Maio e depois apareceu o Paços de Ferreira. Mas posso dizer que em termos de ordenado vim ganhar menos €10.000 [risos]. É uma diferença enorme. Vim para o Paços ganhar pouco dinheiro, mas tinha 24 anos, queria estar perto da família e apesar do Paços ser rival do Freamunde, sabia que era um clube familiar, que podia ajudar-me a crescer muito e a voltar a ser visto. Foi o treinador Ulisses Morais que o quis ou foi a direção? Acho que fui uma aposta do presidente, o senhor Fernando Sequeira. Quando vim ao Paços jogar pelo Beira-Mar ele já tinha gostado muito de mim. Foi viver para onde e com quem? Eu já tinha comprado casa em Freamunde e fui viver para lá, sozinho. Que tal o Ulisses Morais? Quando cheguei, como vinha de um período de férias da Roménia, fiz os primeiros jogos e tive logo uma pequena rutura, tive de parar algum tempo e só joguei no fim da época. Ou seja, não joguei assim muito nessa meia época. No ano seguinte veio o Rui Vitória, que como pessoa e treinador é espetacular. Só tenho coisas boas a dizer. É uma pessoa que tem uma relação com os jogadores, incrível, dá-se muito a conhecer. Dou-me mesmo muito bem com ele e com os dois adjuntos, o Arnaldo e o Serginho. Foi se calhar a partir daí que começámos a ver o jogo de outra forma. O sair a jogar de trás, às vezes em risco, foi com ele. Apesar de, claro, ele dizer para quando estivéssemos muito apertados, batermos na mesma na frente. Mas aquele futebol bonito foi com ele que comecei a jogar. O médio (à esquerda), a disputar a bola com Danny, do Zenit. EuroFootball A temporada 2011/12 foi mais complicada, cheia de mudanças de treinadores. Qual foi o mais marcante? O mister Henrique Calisto. Quando ele chegou acabámos por fazer uma metade de época muito boa. Qual a mais-valia dele? Ele é um excelente psicólogo. Acabou por nos soltar daquela pressão de ter de ganhar. Começámos a jogar muito melhor e a soltar-nos mais. Entretanto, veio o Tony para a equipa e o Ricardo, que regressou. Passámos a fazer almoços todas as quartas-feiras e aquilo começou a engrenar. Até que ponto esses convívios dos jogadores são importantes para a equipa? Não acho que seja o mais importante porque para mim o mais importante é darmo-nos bem no treino e dentro do balneário. Mas esses almoços, na minha opinião, são importantes para conhecermo-nos muito melhor. Criando uma amizade com o meu colega, se calhar num lance qualquer vou dar mais um bocadinho para ajudá-lo, porque sei que é meu amigo e quero ajudá-lo ao máximo. As ligações que fizemos nesse ano ainda hoje as tenho. Não iam treinadores nem nada, era só jogadores e só ia quem queria. Íamos quase sempre os mesmos e ainda hoje almoçamos e jantamos ocasionalmente, agora com as nossas famílias. O que alcançámos nessa época e na seguinte, quando entra o mister Paulo Fonseca, é muito devido a toda a amizade que se criou ali, aliado ao treino e ao compromisso de todos. André festeja o 1.º golo do Paços de Ferreira na Liga dos Campeões, no Estádio do Dragão D.R. Essa época com Paulo Fonseca foi memorável, terminam em 3.º lugar e garantem a Liga dos Campeões. O que pode dizer sobre o Paulo Fonseca? Muito diferente de todos os treinadores que teve até aí? Sim. Com o grupo era parecido com o Rui Vitória na forma de lidar com os jogadores, quando dava uma dura, em quem dava, como a dava. Lembro-me de uma, por exemplo, com o Tony, que jogou com ele no Estrela da Amadora. O Caetano na altura veio da seleção e vinha com as pilhas todas e o treinador meteu o Tony a fazer dois contra um, era o Caetano e o nosso lateral contra o Tony. O Tony tinha de defender os dois e estava ‘cego’. Ele disse qualquer coisa e o Paulo Fonseca mandou-o logo para o banho. Nem lhe respondeu, mandou-o logo para o banho. Só depois percebemos o porquê. Como ele fora colega dele e eram amigos, ele quis passar logo a mensagem de que se o meu melhor amigo vai para o banho, qualquer outro pode ir. Essas técnicas de lidar com o grupo fazia com que a malta no treino se empenhasse a 200%. Mas depois era palhacinho; enquanto antes, com o mister Calisto, os almoços eram só dos jogadores, aí já ia a equipa técnica, porque dávamos-nos mesmo muito bem. Jogávamos às cartas com ele e tudo. Mas sabíamos separar as coisas, quando chegávamos ao treino éramos o mais sérios possível. Foi nisso que ele ganhou, responsabilizando-nos ao máximo, em tudo. Ele não se importava que nos almoços bebêssemos vinho, mas no treino e no jogo era o máximo rigoroso que podia ser, nas ideias dele, que eram de jogar futebol bonito e de arranjar maneira de sair a jogar. Acho que foi o ano em que evolui mais em todos os aspetos do jogo, de conhecimento, de jogo, de tática, de espaços. De tudo. Ele era muito obcecado com o ensaio de jogadas? Sim, o nosso aquecimento muitas vezes era fazer jogadas para o jogo. Lembro-me de um jogo, com o Estoril-Praia, em casa. Essa história já foi contada várias vezes, em que faltavam 15 minutos para o jogo acabar e teve de ser adiado para o dia seguinte devido ao nevoeiro. O jogo estava empatado, sem golos. Só tínhamos 15 minutos para jogar no dia seguinte e, quando entrámos em campo para aquecer, todo o aquecimento foi utilizado para treinar uma única jogada. A bola saía do guarda-redes para o Josué que jogava na esquerda e o Josué vinha para dentro e nem olhava, chutava para a frente, na rutura do Hurtado e do Manuel José. O lance no treino nunca resultou a 100%, mas no jogo resultou logo à primeira. Ganhámos 1-0 [risos]. Tínhamos tanto treino daquilo tudo, tanto conhecimento das jogadas que ele treinava, tanto conhecimento das características dos jogadores, como da posição em que iam estar no campo e dos espaços que podíamos encontrar, que aquilo saia naturalmente. Com os pais e irmãos no dia do casamento D.R. Quando ele saiu para o FC Porto foi uma grande desilusão para a equipa? Pelo contrário, ficamos contentes por ele. Apesar de ter corrido muito mal depois. Soube no dia do meu casamento. Gozámos um pouco com ele, porque ia do Paços para o FC Porto, onde havia muitos egos e notava-se que ele estava um pouco apreensivo com isso. E acabou mesmo por correr mal, consta que devido a egos. Penso que sim. Se calhar ele não tinha experiência para apanhar uma equipa daquelas. Eles foram a equipa com a melhor defesa da Europa, é um fardo um bocado grande para um treinador que vinha do Paços de Ferreira. Falou no seu casamento. Quando e como conheceu a sua mulher? Eu conhecia-a de vista porque ela é a melhor amiga da esposa do Dani, que é irmã do Cadú. A irmã do Cadú estava sempre a dizer que eu tinha de a conhecer porque éramos muito parecidos. Quando venho para Portugal, para o Paços, ela estava sempre a mandar-me mensagens, a dizer para eu enviar mensagens à amiga dela. Houve um dia em que mandei mesmo uma mensagem. Ficámos a falar até às quatro ou cinco da manhã por mensagens. Namorámos três anos e meio e estamos casados há 11 anos. O que ela faz ou fazia profissionalmente? A Joana trabalhava numa solicitadora. Em 2013, num jogo pelo Paços de Ferreira contra o FC Porto MIGUEL RIOPA Depois do Paulo Fonseca veio o Costinha. Não correu bem. Porquê? Em termos de ideias ele não é assim tão diferente do Paulo Fonseca, mas não é tão metódico. Tem boas ideias de jogo, uma personalidade muito sociável também com os jogadores, só que, houve um problema. Os adeptos do Paços. Eles não gostaram daquela imagem dele do ‘ministro’ e de andar de Lamborghini, diziam que só tinha dinheiro e não treinava ninguém. Tudo o que se começou a falar era muito negativo. Fomos jogar com a Fiorentina, perdemos 3-0 e quando chegámos os adeptos começaram a atirar petardos para o autocarro, por exemplo. O ambiente que se criou à volta do Costinha, a ideia de que era vaidoso, só queria mostrar que tinha dinheiro, esse tipo de coisas, foi tudo tão negativo que as coisas acabaram por correr mesmo muito mal. Os jogadores pensavam o mesmo que os adeptos? Não. Pelo menos da minha parte, nunca pensei isso, até porque no treino vivenciávamos outras coisas. Notávamos que percebia e que toda a experiência que tem no mundo do futebol aportava para os treinos e os treinos eram bons. Só que os resultados começaram a ser negativos, os primeiros jogos foram com o FC Porto, o SC Braga… Ou seja, em quatro ou cinco jornadas não tivemos jogos ditos do nosso campeonato. Como garantimos a Liga dos Campeões, pensavam que ia ser sempre a lutar pelos lugares de cima e o Paços não é uma equipa dessas, é uma equipa familiar. A propósito, estreou-se na Liga dos Campeões? Sim, contra o Zenit e fiz o golo, no Dragão, porque não jogávamos no nosso estádio. O que significou jogar a Champions? Só ouvir aquela música... Ainda por cima contra o Zenit, que tinha o Hulk, o Witsel e esses jogadores que sabíamos que eram de outro nível… A atmosfera é muito diferente. Foi pena não ter sido no estádio da Mata Real, agora Capital do Móvel. Foi muito bonito ver tanta gente de Paços na bancada. Com a mulher D.R. A seguir ao Costinha entrou o Henrique Calisto e terminaram a época com o Jorge Costa no comando da equipa. Muito diferentes um do outro, certo? Completamente. Com o mister Calisto correu mal, ele acabou por colocar processos disciplinares no Filipe Anunciação e no Ricardo. Porquê? Por problemas no treino. Ele pedia uma coisa e às vezes eles não faziam e respondiam, porque eram jogadores mais velhos. Depois fomos a Setúbal, perdemos 4-0 e o mister Calisto foi embora. Estive lesionado e nesse ano quase não joguei com o mister Calisto. Depois veio o mister Jorge Costa, muito mais pragmático e com uma liderança mais dura. Como era o relacionamento dele com os jogadores? Ele é aquela cara mais sisuda, mas falava bem com os jogadores, não era só bom dia e boa tarde. É nessa altura que nasce o meu primeiro filho, o Francisco. Nasceu no fim dessa época, em 2014. Assisti ao parto, a minha esposa foi às três da manhã para o hospital e ele nasceu às três da tarde e nesse dia não fui ao treino. Estávamos a entrar para o play-off de descida de divisão com o Aves. Acabou por correr bem para o nosso lado. O filho mais velho de André Leão, Francisco, com Maria, a irmã recém nascida, ao colo D.R. Acabava contrato com o Paços nesse ano. Esperava renovar? Eles queriam renovar, mas no ano anterior já se falava de eu ir para o Copenhaga e para o FC Porto quando o Paulo Fonseca foi para lá, mas comigo nunca ninguém falou. O presidente do Paços dizia que o Fernando ia embora e eu ia para o FC Porto. Na altura, além do Copenhaga, falou-se do interesse do Bétis de Sevilha também, mas o presidente disse sempre que não, que o Fernando ia embora e eu ia para o FC Porto. Mas o Fernando nunca foi embora e eu nunca fui para o FC Porto [risos]. Em quatro anos e meio de Paços de Ferreira, deve ter mais histórias para contar… Não é fácil lembrar. Mas, olhe, tive um colega que era filho de pais com dinheiro e ele tinha um grande carro, mas com a vergonha de mostrar que tinha um grande carro e como havia outros jogadores com carros bem mais modestos, ele deixava o carro fora do estádio e ia a pé para o balneário [risos]. Spoiler “O Petit como pessoa é cinco estrelas. Quanto a ideias de jogo, ainda hoje não sei ao certo quais eram” André Leão continua a jogar futebol no “seu” Freamunde, onde já é adjunto da equipa de juniores, e pondera arrumar as botas no final desta época, quando já tiver 40 anos. O médio, que passou pelo Valladolid antes de regressar a Portugal para descer e subir com o Paços de Ferreira, revela a sua forma de estar no futebol, diz o que pensa sobre quem o treinou, conta algumas peripécias curiosas e revela estar à procura de emprego porque não consegue estar sem fazer nada durante o dia No final da época 2013/14, quando sai do Paços de Ferreira, foi abordado por que clubes? A meio da época, apareceu o Dnipro, da Ucrânia. Falei com o mister Henrique Calisto porque me ofereciam bastante mais dinheiro do que eu ganhava no Paços, ele disse que não me cortava as pernas, mas que tinha de falar com o presidente. Como estávamos a lutar pela descida, o presidente não me deixou sair. Depois, quando o meu contrato terminava, é quando o mister Paulo Fonseca regressa ao Paços. Ele ligou-me para eu renovar pelo Paços, só que eu já tinha acertado tudo com o Valladolid. Quando aceitei o Valladolid estava na I Liga, seis pontos acima da linha de água, faltavam quatro ou cinco jornadas. O salário era muito superior ao que ganhava no Paços, claro. Nisto eles descem de divisão na última jornada. Pensou desistir e já não ir para Espanha? Assim que desceram de divisão, o presidente do Valladolid ligou-me. Fui ter com ele a Bragança. Ele disse que gostava muito que eu fosse para lá, mas que não podia dar-me o mesmo ordenado da I Liga. Reduziu para metade. Mesmo assim ainda era mais do que ganhava no Paços de Ferreira? Ainda era bastante mais do dobro [risos]. Mas gostei foi da forma como ele lidou com a situação e por isso disse que ia na mesma. Sou muito assim, muitas vezes não penso com a cabeça, porque se o fizesse se calhar podia ter muito mais dinheiro hoje do que tenho, mas as relações sempre foram mais importantes, embora agora o dinheiro quando acaba faz falta, reconheço, mas nunca consegui ser muito só dinheiro, só dinheiro, sempre meti coração e como gostei tanto dele aceitei. Ficámos com uma relação muito boa por causa disso. Assinou por quantas temporadas? Primeiro assinei três. O primeiro ano até correu bem, fomos ao playoff de subida, mas acabámos por não subir e no ano seguinte chegaram mais portugueses. André Leão representou o Valladolid de 2014 a 2017 MB Media Como foi a receção no balneário quando chegou a Valladolid? Foi boa. Eu era tranquilo, a minha personalidade acaba por ser fácil de lidar. Digo o que tenho a dizer, mas nunca fui muito de conflitos, estava no meu canto, sossegado. A verdade é que não tendo lá portugueses no primeiro ano fui obrigado a aprender espanhol muito rápido. Gostou do futebol na II Liga espanhola? É muito parecido com a I Liga. A maneira como eles veem e pensam o futebol é completamente diferente da nossa. As pessoas não vão ver futebol só para criticar. Também criticam, se correr mal, mas são mesmo apaixonadas pelo jogo em si. Não é como aqui, que só se fala em árbitros, lá não, gostam mais do jogo, não se fala tanto dos árbitros. Todas as equipas tentam jogar um futebol bonito, não existem aquelas que se metem lá atrás, tentam disputar o jogo pelo jogo. Além do facto de haver muito mais espectadores do que cá. Lembro-me de chegar ao estádio do Bétis, em Sevilha, e estarem 46.000 pessoas. Em Portugal, tirando os três grandes, nem na I Liga isso acontece. As salas de imprensa sempre cheias de jornalistas. Aqui às vezes temos um jornalista e muitas vezes nem fazemos antevisões. A mulher e filho foram consigo para Espanha? Sim, nos primeiros dois anos. No terceiro ano, o presidente pediu-me para renovar por mais dois. Eles queriam inscrever o Raul de Tomás, que vinha emprestado do Real Madrid, só que o orçamento financeiro deles estava cheio, então pediu-me para reduzir o ordenado nesse ano, mas dava-me em prémios de jogos o que eu reduzia em ordenado. Disse que aceitava, porque normalmente fazia sempre muitos jogos e o Raul de Tomás foi para lá. Num jogo-treino pelo Valadolid D.R. Por que é que na 3.ª época a sua família não esteve consigo? O meu filho teve de ficar em Portugal com a minha esposa, porque ele estava muito agarrado a iPads e essas coisas em Espanha, não ia à creche, estava só com a minha mulher em casa, e começámos a achar que a evolução dele não era normal. Ele tinha dois anos e não falava quase nada. Às vezes falávamos para ele e parecia que ele estava no mundo dele. Começámos a ter medo que tivesse algum espectro de autismo. O que fizeram? Quando viemos a Portugal de férias na transição do 2.º para o 3.º ano em Valladolid, levamo-lo a uma especialista. Ela disse não achar que ele tivesse algo relacionado com autismo, podia ter um ligeiro défice de atenção, e aconselhou-nos a metê-lo no infantário, enquanto estivéssemos de férias, em Portugal. Ele num mês deu um pulo muito grande. Então decidimos ser melhor continuar cá esse ano e depois, se fosse possível, iam para lá e eu fazia os outros dois anos. Eu já tinha combinado com o presidente quando renovei por dois anos que se eles não fossem eu vinha embora porque não conseguia estar lá sem eles. O Francisco deu um pulo enorme, evoluiu muito, falamos de novo com a pedopsiquiatra e ela disse ser melhor ele não ir para Espanha, devido à língua, porque tinha começado a aprender o português, e em Espanha podia regredir um pouco e ter de começar quase tudo do zero. Falei com o presidente, que me disse que arranjava psicólogo para ele, tudo, e mais alguma coisa, mas, sabendo que o melhor para o meu filho era ficar cá, não quis. Comecei a procurar clube por aqui, e voltei a Paços. Mas voltei a perder bastante dinheiro para vir para Paços. Episódios marcantes em Valladolid, recorda-se de algum? Nada de especial. Lembro-me que uma vez o meu primo Pedro, que é como se fosse meu irmão, foi ter connosco, fomos ao shopping almoçar com a minha mulher e o nosso filho e quando chegámos à zona da restauração a minha mulher deu por conta que se tinha esquecido da mala no carro. Eu e ele descemos para ir ao carro buscá-la e demorámos mais de uma hora para ir e voltar, porque fui parado por uma excursão de crianças que me reconheceu e quis tirar fotos e autógrafos, depois vieram mais pessoas, o meu primo ficou impressionado, só se ria, nunca tinha visto tal coisa. O médio regressou ao Paços de Ferreira, em 2017/18 AFP Contributor Quando regressou a Paços de Ferreira encontrou o mesmo clube que tinha deixado? Não. As pessoas eram as mesmas, mas mal cheguei a Nelas, ao estágio de pré-época, o Ricardo disse-me logo: “Isto não está igual”. Não lhe perguntei muito porquê, mas aquele aspeto familiar que o Paços tinha perdeu-se mesmo muito. O meu pai avisou-me, disse para eu não ir para Paços porque não devia voltar a um sítio onde tinha sido feliz e porque eu tinha o interesse do Chaves também. O que o levou a optar pelo Paços e não pelo GD Chaves? Já conhecia o Paços, era o coração a falar mais alto, porque passei lá quatro anos e meio espetaculares. Apesar do último não ter sido. Tinha lá amigos, conhecia quase toda a gente. E como queria vir para perto de casa e o Chaves ficava a uma hora, teria de dormir lá muitas vezes e isso também pesou. O que mudara em concreto no Paços? Os aspetos familiares e a cobrança dos adeptos, que era muito maior. Disseram-me que fez muito mal ao Paços ter ido à Liga dos Campeões e ter feito aquela época logo a seguir outra vez com o Paulo Fonseca, que quase ia à Liga Europa. Ou seja, os adeptos habituaram-se a uma coisa que não era o Paços. As infraestruturas começaram a crescer muito, o que é bom, mas começou a perder-se aquele aspeto familiar de toda a gente se conhecer, adeptos, direção...Foi o que me disseram mal cheguei e comprovei isso. A festejar com a mulher e filhos a subida do Paços de Ferreira à I Liga, em 2019 D.R. Entrou com o Vasco Seabra a treinador. Gostou dele? Top. Ideias de jogo ótimas. A liderança, como ele tem aquela cara de menino, as pessoas às vezes não o levavam a sério, mas digo isto relativamente às pessoas de fora, não os jogadores. Depois criou-se ali aquela ideia, é primo do presidente... O maior erro que o Paços cometeu nessa época em que descemos de divisão foi mandá-lo embora à 11.ª jornada, quando não estávamos sequer na zona de descida. Perdemos 6-1 no FC Porto e ele vai embora. Acho que foi embora muito por causa desse laço familiar que tinha com o presidente. E como assumiu após ser adjunto... Todos os jogos eram um tumulto muito grande porque “és primo do presidente”, és isto e aquilo. Quando não há um ambiente sossegado em que os jogadores só se têm de preocupar em jogar, acaba por dar asneira. A seguir veio o Petit. Que tal? Como pessoa é cinco estrelas. Quanto a ideias de jogo, ainda hoje não sei ao certo qual era. Estou a ser sincero. Já disse isto numa entrevista, em que colocaram o título: “O pior treinador que apanhei”. Mas quando disse isso do pior treinador que apanhei, foi em termos de ideias de jogo, do que penso do futebol. Para outros pode ser muito bom. Agora, na minha ótica de ver o futebol, não me identificava com as ideias dele e com como ele queria pôr a equipa a jogar, porque também não percebia muito bem qual era. Em termos de treino, era tudo muito físico, trabalhava muito bem, mas as ideias, como eu também vinha de Espanha, habituado a ter bola, ao jogo de posse, quando apanhei aquele jogo muito direto de procurar sempre os da frente… Se calhar a culpa também é minha, que tive dificuldade de entrar nesse jogo. Ele também não esteve muito tempo no Paços. Esteve oito jogos, se tanto. Depois veio o João Henriques. Esse ano foi tudo de extremos, enquanto o Vasco só queria jogar futebol bonito, o Petit já era totalmente o contrário, foi isso que eu não consegui perceber, como é que se muda completamente a ideia daquilo que se quer para a época. Porque contratam-se jogadores para jogar na ideia do mister Vasco e depois vão buscar um treinador que tem ideias completamente diferentes e no fim vão buscar o meio-termo. O João Henriques, era bom treinador e um meio-termo entre os outros dois, gostava de jogar futebol bonito, mas também pragmático em algumas ações do jogo; atrás não gostava de facilitar, não gostava muito de sair a jogar. Foi tudo tão diferente, que acho que o Paços nunca descia de divisão se não tivesse mandado o mister Vasco embora e se não tivesse feito uma mudança tão grande depois. Na época 2019/20, André Leão (3.º atrás à direita) jogou no Trofense Diogo Oliveira Tinha mais quanto tempo de contrato? Esse ano e mais dois anos. Sentiu vontade de sair após a descida? Não. Eu não queria deixar o Paços, um clube que me dizia muito, onde estive muitos anos, apesar de ser o rival do meu clube de coração, o Freamunde. O que procurei saber foi o treinador que iam buscar e que equipa queriam fazer. Foram buscar o Vítor Oliveira, ele chamou-me logo, disse que queria que continuasse, mas tinha de reduzir o ordenado, não podia ganhar o que ganhava. Eu disse que reduzia o ordenado, mas que se subíssemos de divisão, essa metade do ordenado que reduzia, teriam de pagar-me como prémio. Assim foi. Embora depois tenha lá deixado 25 ou €30.000 quando rescindi com eles. Porque rescindiu em 2019? Eu estava no último ano de contrato, eles falaram em renovar, mas teria de baixar o ordenado, porque voltei a ganhar o que ganhava no último ano na I Liga, e eu disse que ia pensar. Depois fiz uma proposta de baixar o ordenado e renovar mais um ano ou mais dois. Ou seja, baixava, por exemplo, €2000/mês se renovasse só mais um ano, se renovasse dois, baixava €3000. É apenas um exemplo. No último dia de transferências, o timing acabou por me prejudicar muito. Tinham-me ligado do Farense, queriam subir à I Liga, eu disse que não porque ganhava mais no Paços, estava em casa e ia jogar I Liga. No último dia de transferências acabei por rescindir, porque queriam ir buscar outro jogador. Mas ainda iniciou a época 2019/20 no Paços? Iniciei. Joguei o primeiro jogo da Taça da Liga e depois fui três jornadas para o banco e à 4.ª jornada o mister Filó vai embora, até antes de eu rescindir, mas é nessa semana em que ele vai embora que falam comigo para rescindir. Em 2020/21 o médio vestiu a camisola do Varzim Gualter Fatia Voltando uma época atrás, à 2018/19, com Vítor Oliveira. O que pode dizer sobre essa temporada? O Vítor Oliveira era um senhor do futebol. Ele entrou ali e não havia egos nenhuns, porque ele não deixava ninguém abusar. Estava sempre nas palhaçadas dele, quando o treino parava, velhinho, já chato, mas era cinco estrelas. Tinha boa relação com ele, apesar de não ter jogado muito porque tive duas lesões nesse ano e fiz uns 11 ou 12 jogos. Mas ele perguntava-me sempre a opinião. O conhecimento que ele tinha do futebol e da II Liga principalmente, fazia os jogadores acreditarem. Assim que ele entra nós sabemos que é para lutar para subir. Era conhecido como “o rei das subidas”. A mais-valia dele era no campo técnico e tático ou mais a nível psicológico? Acho que era mais psicologia. Ele era um bocadinho tipo Henrique Calisto, mas criava melhor relação com os jogadores porque brincava mais. Em termos de treino tático, acho que também treinava melhor. E depois tinha uma coisa importante: não tinha rodeios. O que tivesse a dizer aos jogadores dizia em frente a toda a gente. Lembro-me da palestra dele no último jogo da pré-época, em que disse um a um, do guarda-redes ao ponta de lança, o que achava de cada um deles. Acaba por conquistar os jogadores também com isso. Além do grupo que tínhamos ser bom. Começamos a ganhar e estamos na frente do campeonato a época toda. Mesmo aqueles que podiam aziar mais um bocadinho, não diziam nada porque a equipa ganhava. Tudo o que ele dizia toda a gente aceitava. Pôr 20 e tal cabeças a pensar no que ele quer, é o mais difícil de fazer. Se não foram todos, foram quase todos a pensar no que ele queria e o resultado é que fomos campeões da II Liga. Em ação pelo Varzim Gualter Fatia E do Paços, não há histórias para contar? Lembro-me de uma, da minha primeira passagem no Paços, com um jogador cujo nome não vou dizer. Nos almoços que tínhamos à quarta-feira, bebíamos vinho, bebíamos tudo, e havia um jogador que estava a recuperar de uma lesão a um joelho e andava com uma botija térmica que tinha uma mangueirinha, para fazer gelo no joelho. Ele chegou ao restaurante e achou interessante tirar o gelo e meter vinho lá dentro e começar a beber vinho de mangueira. Claro que o estado dele não era o melhor no final do almoço. Na altura ele estava zangado com a esposa e chegou um momento em que ele disse: “Vou embora”. Ele vai embora, passado 15 minutos, liga-me, pensei logo, queres ver que bateu com o carro? Atendi e ele: “André tens de vir ajudar-me. Rebentei o motor do carro”; “Como?”; “Entrei na autoestrada, vinha a discutir com a minha mulher, meti a 2.ª mudança, mas não meti a 3ª e continuei a acelerar” [risos]. Claro, o motor rebentou. Lá fomos nós ter com ele [risos]. Veio embora do Paços em 2019, sem ter clube para onde ir? Sim. Eu já tinha jogado a Taça da Liga e depois fiquei seis meses a treinar no Maia. Passou-lhe pela cabeça terminar a carreira nessa altura? Passou. Mas depois pensei, não vou acabar nada, vou treinar no Maia, cujo treinador era o Bock, que tinha lá jogadores que tinham jogado comigo, o Cadú, o Dani, etc. Treinavam de manhã, na relva, então estive lá seis meses. Às tantas, o Nuno Silva, um jogador que lá estava, mas já fazia alguma coisa de agenciamento, perguntou-me se não queria ir para o Trofense, que estava no Campeonato de Portugal. Pelo menos podia fazer meio ano para tentar subir a patamares superiores novamente, embora eu já tivesse 35 anos. Falou com o João Tomás que ia entrar como presidente da SAD, e ele foi à Maia falar comigo. Aceitei fazer meia época, na perspetiva de subir de patamar, ou até ali subir de divisão, o que acabou por acontecer na época seguinte, depois de eu já ter saído para o Varzim. Após o Varzim, André Leão jogou no SC Salgueiros D.R. O Campeonato de Portugal revelou-se muito diferente do que estava à espera? Sim, para melhor. Já tem muito jogador com qualidade, gente jovem que quer chegar lá acima, e os treinadores trabalham muito melhor do que antigamente nessas divisões. Surpreendeu-me o nível de qualidade que havia. Mas nesse ano só fizemos quatro jogos, porque, entretanto, surgiu a pandemia. Como lidou com a pandemia e o confinamento obrigatório? Foi difícil. Até sou uma pessoa que gosta de estar muito por casa, mas uma coisa é fazê-lo por opção, outra, por obrigação. Temos um espaço exterior até grande e acabei por fazer treinos de manhã. Nessa altura já tinha também a minha filha. Nasceu quando? A Maria nasceu em 2018, quando voltei para o Paços. Também consegui assistir ao parto, que foi bem mais fácil e rápido do que o do Francisco. Ainda iniciou a época 2020/21 no Trofense, mas depois vai para o Varzim. Como surgiu? O mister António Barbosa foi para o Varzim e ligou-me a dizer que precisava que fosse ajudar. Como eu tinha uma cláusula no contrato com o Trofense em que podia sair caso fosse para uma liga superior, acionei essa cláusula, apesar da direção não ter ficado muito satisfeita. Como correu essa meia época e a seguinte? No 1.º ano, em que conseguimos a manutenção, tinha o vice-presidente Sr. Américo, que era espetacular, mas no 2.º ano ele saiu e foi um ano muito mau. Chegámos ao ponto de jogarmos em casa e o presidente nem ir ao jogo, por exemplo. Acabámos por descer de divisão. A estrutura era muito má. A fisioterapeuta Patrícia é que tinha de tratar de tudo, das viagens, até do lanche para levar para as viagens, era ela que tratava. Foi um ano muito complicado. Acho que tínhamos equipa para lutar pelos lugares de cima e acabámos por descer de divisão. Quando o Varzim desceu terminava contrato e surgiram-me alguns clubes do Campeonato de Portugal, entre eles o Salgueiros. Em 2023/24 o médio vestiu a camisola do Leça FC D.R. Aceitou logo ir para o SC Salgueiros? Eu não queria muito, porque não sabíamos ao certo o que esperar dali. Mas o grupo era bom e todas as dificuldades que foram aparecendo o grupo superou-as. Só como exemplo, houve um jogo em que fomos à Madeira, e nós, os jogadores, tivemos de chamar um Uber para ir para o aeroporto, porque ninguém no clube se lembrou de verificar se o autocarro, que era da Câmara, estava disponível. Quando chegou a hora de partir, o diretor-desportivo veio ter connosco e perguntou quem tinha a aplicação do Uber, para chamar. E lá fomos, aos quatro e cinco, com os joelhos todos apertados, dentro de Ubers. Mas os roupeiros, as pessoas que trabalham no clube são incríveis, são ótimos, trabalham muito para que não nos falte nada, mas depois em termos logísticos faltava-nos muita coisa. Unimo-nos ali de tal forma, o treinador nisso foi muito inteligente, na forma como lidava connosco, porque não punha muita pressão. Só não subimos de divisão por três minutos, porque sofremos o golo do empate, em Lourosa, aos 93 minutos. Foi um ano incrível, mas passámos muitas dificuldades. Não ficaram com salários em atraso? Foram sempre pagando. Nunca chegou a um mês de atraso. A seguir foi parar ao Leça FC. Como? Antes ainda do termo do campeonato fui operado ao pé, porque rebentei os ligamentos do pé, num treino. Ou seja, na fase final não consegui jogar, estava há quatro meses parado. Entretanto, o diretor-desportivo foi para o Leça, e ligou-me, ainda eu estava lesionado, a dizer que eu era importante para o projeto do Leça. O Salgueiros também queria renovar. Eu queria um contrato profissional porque tinha comprado uma casa e tinha de pedir um pequeno empréstimo. O Leça ofereceu-me contrato profissional e o Salgueiros não. Fui para o Leça. Com a camisola dos 500 jogos oficias como profissional D.R. Como correu a época, 2023/24, no Leça? Foi top. Não nos faltava nada. Trabalhei mais do que em alguns clubes da I Liga. É muito forte o trabalho de ginásio e de campo que fazem lá. Na minha opinião até era exagerado, trabalhava-se muito e muito profissional. Havia psicólogos, nutricionistas, salários sempre em dia. Em termos de condições, apesar da divisão ser inferior, era muito melhor que o Salgueiros. Porque não continuou no Leça? Tinha 38 anos, passei muito tempo lesionado. Pensei em acabar a carreira e a mensagem que lhes transmiti foi essa, de querer acabar. Ao mesmo tempo, não queria acabar lesionado, preferia terminar a jogar. Eles convidaram-me para ser adjunto, mas o salário que me ofereciam não chegava para o gasóleo de ir para lá diariamente [risos]. O presidente do Freamunde estava sempre a chatear-me, porque eu já treinava os juniores do Freamunde com o Mauro Silva, agora o treinador de seniores. Além disso, ele jogou comigo nas camadas jovens do Freamunde, por isso chateou-me tanto que achei que fazia sentido acabar a carreira em casa. Vai colocar o ponto final na carreira quando esta época terminar? Não sei se vai ser nesta ou na próxima, mas tudo indica que será esta. O meu pensamento está para aí virado, porque no final da época já terei 40 anos. Esta época começou com o pé direito, marcou um golo logo no primeiro jogo do campeonato. É verdade. Eu já disse que quem viu, viu, porque normalmente não há muito mais do que um golo por época [risos]. Leão (à esquerda) com os amigos Manuel José, Filipe e Tony D.R. Já pensou no que quer fazer após pendurar as chuteiras? Penso em continuar no futebol, embora o futebol esteja muito diferente do que era, é muito negócio. Gostava de continuar como adjunto, como treinador principal não me vejo porque não sou uma pessoa que goste de falar muito em público. Mas para isso tenho de tirar o curso e este ano não consigo inscrever-me no nível 2, aquele por onde posso começar, porque treinamos à noite. Porque não tirou o curso antes? O futebol foi-me dando muita pancada que ainda não sei se quero continuar. Vejo-me no futebol, mas numa área de scouting ou como adjunto. A minha personalidade não se vai identificar com estar sempre a atender o telefone e às vezes a ter de enganar os jogadores, não consigo ter que mentir a um jogador, não me vejo nisso. O mister Oliveira dizia que eu devia tirar o curso de treinador por isso mesmo. Dizia: “O futebol precisa de pessoas que pensam como nós. Se toda a gente que pensa como nós sair do futebol, ele vai ficando cada vez pior.” Era o que ele dizia. Acaba por ter razão. No último ano, como o Mauro convidou-me para ser adjunto e gostei de treinar e de conviver com os miúdos, se calhar é uma coisa que vou seguir, ser adjunto. Mas na formação ou numa equipa principal? Numa equipa principal, claro. Os juniores são uma porta de entrada para conseguir coisas mais altas. O que vai fazendo agora durante o dia? Estou a procurar emprego. Gostava que fosse na área do Desporto. Na Câmara de Paços de Ferreira, por exemplo. Mas se tiver de ser outra coisa, será. Também gosto de contabilidade. Estou à procura porque não consigo estar em casa sem fazer nada e só treinar à noite. O treino dos miúdos é às 17h30, ou seja, tenho de encontrar alguma coisa que dê para conciliar tudo. Ando à procura. Com a mulher e os dois filhos D.R. Onde ganhou mais dinheiro na carreira? No Valladolid. Investiu? Investi numa loja de desporto com um primo, mas vamos passar a loja. De resto, comprei a minha casa de solteiro, depois vendi para comprar a minha casa de família, em Paços de Ferreira. Qual a maior extravagância que fez na vida? Ter comprado o meu primeiro Mercedes, que ainda tenho. Já tem 11 anos. Tem algum hobby? Adoro jogar padel e ir ao cinema com os meus filhos É um homem de fé? Sim. Sou crismado, mas já não vou à missa com regularidade. Superstições tem ou teve? Não. Mas, por exemplo, se jogar com umas meias e o jogo corre bem, depois tento usar essas meias até não poder mais. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quando a fez? O nome do meu filho, um ano depois dele nascer. Entretanto, já fiz as caras dos meus filhos. Há alguma modalidade que goste de acompanhar? Ténis. Era grande fã do Federer. Esta época André Leão (2.º atrás à direita) regressou ao Feamunde D.R. Qual a maior frustração na carreira? Nunca ter representado a seleção A. E o maior arrependimento? Ter ido para a Roménia tão novo. O momento mais feliz na carreira? A estreia nos seniores do Freamunde e ter alcançado a Champions com o Paços. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Manchester United. Quais as maiores amizades que fez no futebol? São algumas. Manuel José, Tony, Ricardo, Filipe Anunciação, Vítor, Mika, Bock, Pedrinho, Barbosa, Nené, Rui Vingança, Rui Costa, Filipe Neto, João Coelho. Tem ou teve alguma alcunha? Além de “Dragão" no FC Porto, chamavam-me o "cabecinhas" quando era pequeno, porque tenho a cabeça muito alta e estreita. Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O FC Porto do Falcão e o Benfica do Aimar. Uma foto recente de André com a família D.R. Existe alguma regra do futebol que, se pudesse, alterava ou bania? Assim, de repente, não me lembro de nenhuma. O que pensa do VAR? Veio estragar muito a beleza do futebol, mas veio também ajudar ou promover alguma justiça; já vimos que é tudo uma questão de interpretação. Olha, se calhar até bania o VAR [risos]. Pelo menos os árbitros quando erravam era sem querer e agora com as imagens as pessoas pensam que eles são obrigados a ver tudo e a verdade é que deviam ver tudo, mas mesmo assim por vezes falham e é complicado. O aspeto bonito do futebol torna-se a perder porque só se vai falar ainda mais dos erros. Tem algum talento escondido? Cuidar da minha família. Qual o momento mais difícil da sua vida? A fase de não saber o que o meu filho tinha e as lesões. Se não tivesse sido jogador de futebol, o que teria sido? Se calhar professor ou estava ligado à psicologia, porque gosto dessa área. 2 Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 9 Setembro 2024 Citação de kareca, há 8 horas: “No Japão, vão para o estádio horas antes, marcam no chão com fita-cola o lugar na fila para entrar, deixam os pertences e vão divertir-se” Aos 28 anos, Tiago Alves está a jogar no Japão, numa aventura pelo estrangeiro que começou na Polónia, onde jogou na I e na II divisão e passou também pelo Brasil. O avançado conta como a sua carreira tem sido feita de altos e baixos, fala do gosto pelo futebol da região da América Central e Latina, e assume que teve de recorrer a ajuda psicológica. O jogador enaltece o respeito e a organização dos japoneses, revela o susto que apanhou no primeiro terramoto que vivenciou e conta uma história que mete pancada e cocaína Mostrar conteúdo oculto Quando chegou à Polónia para jogar no Olimpia Grudziadz, quais foram as primeiras impressões? Um frio descomunal, era final de janeiro. Cheguei com aquela meia curtinha, com o tornozelo a ver-se e estava tudo nevado, o clube fica numa zona mais a norte da Polónia. O diretor foi buscar-me ao aeroporto de Varsóvia, fomos de carro para cima. Parámos porque tínhamos de ir ver um jogo amigável que a minha equipa estava a fazer. Vi um pouco do jogo com ele, mas nem consegui ligar muito ao jogo porque estava com tanto frio [risos]. Ele deu-me um casaco que tinha no carro. Gostou do pouco que viu? Não me interessou o jogo, sinceramente, só pensava no frio. Depois fui para a cidade de Grudziądz e, na verdade, gostei quando conheci o clube. Tinha um relvado bom, o diretor falava inglês, eu por acaso tinha andado numa escola a aprender inglês no ano anterior, por isso o meu inglês era razoável, o que me ajudou no contacto com esse diretor. O treinador não falava inglês. Mas notava que o treinador gostava de mim. Ele demonstrou interesse que eu fosse, senti-me valorizado a nível de contratual. Tudo isso foi importante. Como foi recebido no balneário? Com desconfiança? É normal, era um português num clube onde só estavam polacos. Havia um ou outro que não ia muito com a minha cara, mas eu também não ia muito com a cara deles. Havia um que era da minha posição com o qual não havia empatia nenhuma, mas considero que era mais por culpa dele, porque eu é que estava a chegar. Geralmente existe rivalidade com quem é da nossa posição, mas acabo por me dar sempre bem com ele porque nos treinos estamos quase sempre obrigados a estar juntos nos exercícios, então acabamos por nos dar bem. Mas, ali, ele não foi com a minha cara e eu também não fui com a cara dele [risos]. Fora isso, o pessoal depois começou a gostar de mim e convidava-me para sair à noite ou para jantar em casa deles. Os polacos gostam muito de beber álcool, então havia sempre muito álcool [risos]. Fez alguma amizade em especial nessa equipa? Passado uma ou duas semanas chegou um espanhol à equipa e que hoje é um dos meus melhores amigos, o German Ruiz. Os nossos pais conhecem-se e tudo. Ele já deixou de jogar, mas todos os anos nos juntamos para passar um fim de semana, pelo menos. Na Polónia vivemos no mesmo hotel e acho que isso também ajudou na adaptação, porque éramos os únicos estrangeiros. Como era no dia a dia com os polacos, nos supermercados, restaurantes, etc.? Era mais chato. Eles têm uma personalidade fria, arrogante, e quando era para falar inglês, como não sabiam, ficavam fora da zona de conforto e conseguiam ser ainda mais arrogantes do que naturalmente já eram. Do campeonato gostou ou ficou muito aquém das expectativas? Como era uma novidade, não estava com preconceito. Pensava, “vou jogar o meu futebol, vou dar nas vistas, as coisas vão dar certo e vou conseguir subir para outro patamar”. Mas o futebol era muito físico, com jogadores mais altos e fortes fisicamente. Obviamente nem todos têm qualidade, mas notava alguma qualidade na liga. Estive lá três meses e meio, mas foi bom. Tem alguma história para contar desses primeiros tempos na Polónia? A cidade era pequena, só havia uma discoteca, que era um bar com bowling durante o dia e à noite, no fim de semana, virava discoteca. Lembro-me de ir para lá com os meus colegas e de um dia ter havido porrada. Não foi comigo. Ao lado havia um hotel e lembro-me também de ir para um quarto com umas pessoas e haver cocaína naquele quarto e eu saí logo dali. Nunca experimentei drogas, também por causa do futebol, e quando vi aquilo fiquei meio assustado, vim logo embora. Não podia abrir essa brecha, de alguém ver-me num quarto com droga e mandarem-me de volta para Portugal. Entretanto, mudou para o Piast Gliwice. Porquê? Joguei muito bem naquela reta final da época. Quando eu e o espanhol chegámos estávamos em 10.º lugar. O objetivo do clube era subir de divisão. Conseguimos subir no fim. O penúltimo jogo era contra uma equipa super-histórica na Polónia, mas que naquele momento estava na III Liga, o Widzew Lodz, atualmente já está na I Liga. Esse clube metia 20.000 pessoas no estádio, era um jogo especial porque precisávamos de ganhar e eles também. Fiz aquele que considero ser dos golos mais bonitos que marquei e ganhámos 2-1. Na semana seguinte, ganhámos e acabámos por subir. No fim da época já tinha o interesse de outro clube que é o rival do Piast, o Górnik, o clube onde joga o Podolski. Acabou por não ir para lá porquê? Nas férias estava a negociar com eles. No clube onde eu estava, se subisse de divisão, o contrato era renovado automaticamente por um ano. Portanto, tinha contrato assegurado com o Olimpia e esse clube estava a negociar o meu passe com o Olimpia. De repente, a direção do clube mudou, veio novo presidente, a nova direção pediu mais dinheiro e o Górnik acabou por desistir. Comecei a temporada no Olympia. Fiz seis jogos na II Liga e já tinha o interesse do Lechia Gdansk, mas apareceu o Piast Gliwice. Porque escolheu o Piast? Eu estava muito mais inclinado para o Lechia porque era uma cidade que já conhecia, ficava a uma hora do sítio onde eu estava. Gostava bastante de Gdansk, o primeiro ou segundo amigável que fiz foi contra o Lechia, tem um estádio super bonito, era um clube que me agradava. Só que o Piast, esse ano, tinha sido campeão e estamos a falar de I Liga. Eu tinha jogado III e estava a jogar II. O Piast chegou primeiro a um acordo com o Olimpia e só deram dois ou três dias para acertarem tudo comigo porque já era final de agosto, e só se não desse certo com o Piast é que o Olimpia ia negociar com o Lechia. Uma pessoa tem uma coisa na mão de I Liga, é claro que vai, ainda por cima tinha sido campeão. Por isso, acabei por ir para Gliwice. Assinou por quanto tempo? Dois anos. Que memórias mais fortes tem desses dois anos? No primeiro ano não joguei muito. O treinador já estava lá há algum tempo. Essa é outra das pessoas de quem eu não gosto nada. Porquê? Atenção que não sou só eu, é quase geral. Pela maneira de ser dele. É da velha guarda polaca e acaba por ser má pessoa com as pessoas. Não é que fosse má pessoa diretamente comigo, simplesmente não era sincero. Vim a saber que muitas outras pessoas que trabalhavam no clube não gostavam dele. Não era uma pessoa bem-querida, mas tinha ganhado muita moral por ter feito o clube campeão pela primeira vez. Era bom treinador, ou não? Não gostei, não é um estilo de futebol que eu goste e não gosto da metodologia de trabalho dele. É sempre igual. Todas as semanas são iguais, os treinos são sempre os mesmos, é muito cansativo, torna-se muito aborrecido. Ele tinha um grupo forte de trabalho, as individualidades acabaram fazer um bom grupo e as coisas iam andando bem. No meu primeiro ano, ficámos em 3.º lugar. Chegou a jogar competições europeias? Jogámos fase de qualificação, mas fiquei sempre no banco. Fomos jogar a Minsk na Bielorrússia, jogámos em casa, depois contra outra equipa e caímos contra o Copenhaga, na Dinamarca. Na segunda época já joguei mais, mas não corria do jeito que eu queria. O que aconteceu? Não tenho qualquer tipo de problema em dizer. Eu mantinha-me com a Gestifute, mas havia um empresário polaco com quem tínhamos uma espécie de parceria, para ele trabalhar o meu nome na Polónia. Esse empresário tinha força no clube, principalmente junto do diretor. Desde o início que eu queria ir para o Lechia, e acho que o facto de eu ter ido para o Piast foi muito por causa da força do empresário no clube. Isto para dizer que não acredito que tenha sido por vontade própria do treinador. Quando esse tipo de coisas acontece, nunca se tem a mesma força. A verdade é que sempre que eu entrava, entrava bem. Só que era daqueles treinadores que não gosta de mexer muito na equipa e não me dava muitas oportunidades como titular. Tanto é que houve uma fase na Polónia em que me chamavam o joker, porque eu entrava e mudava o jogo. Houve três jogos numa semana e eu cheguei a fazer os três golos da vitória. Mesmo assim tinha dificuldades para ser titular e nessa fase comecei a desenvolver um problema psicológico. Que tipo de problema? Não estava bem, não estava estável. Tive também algumas lesões musculares, acho que se deveram muito a esse meu estado mental. Continuava a viver sozinho? Sim. Namorei uma portuguesa no ano de 2020, ela acabou por passar muito tempo comigo na Polónia, devido ao covid-19. A propósito, foi-lhe muito difícil passar pelo confinamento? Custou-me para caraças. Custou-me porque as coisas não fluíam do jeito que eu queria no clube, não sentia que fosse valorizado pelo treinador, e não era, apesar de eu fazer a diferença. Parece que é coisa da minha cabeça porque já referi isto noutras alturas da minha carreira, mas não é. Obviamente que também terei tido culpa em certos momentos, mas houve alturas em que senti que não era valorizado o suficiente. Quando diz teve culpa em certos momentos, pode especificar? No sentido em que, se calhar, deixei-me ir abaixo e não lutei o suficiente, não tinha vontade de treinar. Não tinha motivação. Quando digo que o confinamento me custou muito, é essencialmente porque não estava feliz no clube. Depois, eu sempre gostei muito de sair com amigos. Em Coimbra não parava quase em casa; na Póvoa, comecei a ficar mais vezes em casa porque não me dava com tanta gente e fui-me habituando um pouco mais. Mas gosto de sair, de fazer outras coisas. No entanto, acho que o confinamento custou-me mais pelo meu estado mental no momento, por não me sentir valorizado, por querer sair e o clube não me deixar. O que foi algo recorrente. Conte isso melhor. Cada janela de mercado que abria eu queria sair por empréstimo porque tive sempre alguém interessado na I Liga da Polónia, e eles não deixavam. Era uma coisa super estranha para mim, e isso também me gerava revolta relativamente ao treinador, porque eles diziam: “Não vai sair porque o treinador conta com ele.” Houve uma altura em que eu queria sair e o treinador disse que queria que eu ficasse e acabei por renovar por um ano. Alguma vez questionou o treinador sobre as atitudes dele em relação a si? Não, ele nem sequer dava muito margem para isso, não me dava essa moral, não me sentia à vontade de ir falar com ele e pedir-lhe explicações. Depois, no fim do segundo ano, em que apesar das lesões correu-me melhor, fiz golos e começaram a chamar-me o 'joker de Gliwice', o clube quis encostar-me à parede. De que forma? Eu tive uma lesão e eles disseram, ou renovas, ou não vais jogar mais. Eu sabia que tinha demonstrado algo, mas os minutos que tinha não eram suficientes para ter o contrato que queria realmente. Acabei por renovar, e obviamente tive um aumento salarial, mas recordo-me que no dia em que fui renovar, eu fazia aquilo contra a minha vontade. Era um sentimento agridoce, porque ia receber mais dinheiro, tive um aumento de 40%, foi uma subida boa, mas sentia uma coisa ali que não... Era relativamente ao treinador, sobretudo, não ao clube. Só que, como ele tinha tido uma conversa comigo, disse que queria que eu ficasse, que tinha de assinar… Comecei a época e até comecei a jogar mais, mas, entretanto, houve um stress com o treinador, aí foi a gota de água, já não joguei mais o resto da época. Que stress foi esse? Aquilo já era uma bola de neve, sabíamos ambos que o relacionamento não era bom e houve um jogo em que ele me meteu a 10/15 minutos do fim, estávamos a perder, damos a volta para 3-2. Fazemos dois golos após eu entrar, mas quase não toquei na bola nesse jogo. No último lance, venho lá de trás para defender e chuto a bola para a frente, basicamente, cortei a bola e subi para fazer pressão para o meio-campo. Mas a bola sai pela lateral na zona do meio-campo. Eu tinha ido na pressão, um dos defesas fez uma diagonal para dentro da área do meio-campo, o nosso defesa falhou, há um cruzamento e a nossa defesa está mal posicionada; um jogador de 1,70 m faz golo de cabeça e empata o jogo. Começaram a criticar-me como se eu tivesse tido culpa no lance. Mas a culpa não tinha sido minha. Quem o criticou, os próprios jogadores? O nosso guarda-redes começou a criticar-me dentro de campo. Fiquei cego. Faltavam uns três minutos para a compensação e acabámos por empatar 3-3. Acabou o jogo, eu já estava chateado com a atitude do guarda-redes, tinha muito stress acumulado, era para ir bater palmas aos adeptos e não fui bater, fui direto para dentro, quando estou a sair do campo passo ao lado do banco e percebo que o treinador está a injuriar-me em polaco, eu respondi em inglês e segui o meu caminho. Ia para o balneário e o guarda-redes veio atrás de mim feito louco e quase nos pegamos à porrada. Sou zero porradas, só que ele veio, encostou-se a mim e a sorte foi que, como o segundo treinador e o delegado da equipa repararam que eu ia embora e o guarda-redes foi atrás de mim, chegaram logo a seguir e separaram-nos. Depois desse jogo nunca mais contei, nunca mais fui opção. O que aconteceu a seguir? Foi deixar chegar janeiro para procurar uma solução. Aí já o deixaram ir embora, naturalmente. Sim, porque realmente foi a gota de água, eu não jogava, o treinador tinha dito: “Ele não joga mais comigo.” Treinava com a equipa, mas havia um ou outro exercício em que ele me punha atrás da baliza. Deve ter sido um período muito frustrante. Claro. Desde o início que nunca houve aproximação com o treinador. No primeiro ano eu não jogava muito e ele dizia-me que tinha de habituar-me como jogava a equipa. Tinha sido campeão por isso ele tinha o ego super elevado, era a estrutura que ele tinha e pronto. Mas OK, tudo bem, era o primeiro ano. Pensei que o segundo ano ia ser melhor, mas não. É verdade que tive algumas lesões musculares que também não me ajudaram, mas não havia uma ligação entre mim e o treinador, não havia empatia. Recorreu a ajuda psicológica? Sim, recorri a uma psicóloga que tinha trabalhado no clube e que também tinha ficado a odiar o treinador [risos]. Ela entendeu-me, porque conhecia a pessoa em causa e o meio. Mas não tive muitas sessões com ela, porque tínhamos de falar em inglês e nunca é o mesmo. Procurei outra psicóloga, portuguesa, com quem ainda vou tendo consultas. Agora muito mais espaçadas, mas houve ali uma fase em que a coisa estava pesada e cheguei a ter duas, três sessões por semana. Às vezes ela nem cobrava quando lhe ligava porque percebia que eu só precisava de desabafar. Foi fundamental o trabalho dela, ajudou-me bastante. Sinto que hoje sou uma pessoa diferente. Em janeiro, o que lhe apareceu em cima da mesa? Como foi parar ao Montedio Yamagata, da II divisão do Japão? Como disse, sempre tive clubes interessados na Polónia. Mas, de repente, surgiu a proposta do Japão e numa fase inicial desconfiei no sentido em que não conhecia a realidade. Andei ali duas, três semanas a marinar sobre o assunto. O meu empresário ia falando e negociando, até que me pareceu bem a nível contratual. Fiz a minha pesquisa, que faço sempre, para tentar perceber quem é o clube, como é a cidade onde está, etc. E acabei por aceitar. O facto de ser II Liga não o desmotivou? Confesso que isso tem influência no ego, ficas a pensar, o que vou para lá fazer, na II Liga do Japão? Aquilo é tão longe, nem conheço o campeonato, não conheço nada. Mas foi a melhor decisão que tomei na vida, a seguir àquela de sair de Portugal e ir para a III Liga da Polónia. Explique lá porque diz isso. Porque eu vinha de anos difíceis na Polónia. Psicologicamente estava realmente mal e, quando cheguei ao Japão, senti que as pessoas me tinham contratado porque acreditavam em mim. Fiquei muito surpreendido também com a estrutura do clube. É verdade que nas primeiras semanas treinámos num campo que estava castanho, não havia relva, por ser uma zona montanhosa onde neva muito no inverno, mais do que na Polónia. Mas a estrutura do clube era muito boa. Eram instalações novas, tinham um balneário muito top, grande, espaçoso, super bonito. Tinha tudo. Ginásio, salas de fisioterapia, banheira de água quente, banheira de água fria, etc. Como é a cidade Yamagata? É uma cidade do interior, um pouco mais a norte. Diferente da experiência que estou a ter agora em Tóquio, mas acima de tudo por ser um estrangeiro numa zona interior, as pessoas desenvolvem um carinho pelo jogador muito grande, uma coisa diferente de tudo que já experienciei na vida. O meu treinador era australiano, tinha um tradutor particular e nós, os estrangeiros, que naquele momento era só eu, posteriormente é que chegou um brasileiro, tínhamos outro tradutor também, particular, que nos acompanhava no campo, nas reuniões. Toda uma estrutura muito diferente a nível de equipamentos, eram imensos, manga curta, manga cava, manga longa, casacos, havia de tudo. Foi sozinho para o Japão? Sim. Andei sempre sozinho. Como foram as primeiras semanas em que ainda não estava o colega brasileiro? Tive algumas questões burocráticas para tratar como ir à câmara assinar documentos, tratar da carta de condução porque conduzem à inglesa. Há um acordo entre o Japão e Portugal e não precisei de ter aulas de condução. Precisei, sim, de passar testes visuais e um teste teórico. Demorei um mês e pouco para ter a carta de condução e ter mais independência. Até aí era o tradutor que me ia buscar a casa. O futebol? Muito diferente do polaco? Bastante, surpreendeu-me muito, sobretudo a nível de intensidade e qualidade de passe/receção. Melhor do que esperava. Aliás, eu não sabia o que esperar, então não tinha propriamente uma expectativa. Eu vinha sem preparação física porque o meu último jogo tinha sido no final de outubro, na Polónia. Até dezembro, estive a treinar com a equipa, mas não é o mesmo treinar e jogar. Devido ao covid-19, como no Japão eram mais rígidos, só consegui viajar em março. Ou seja, passaram cinco meses em que não tive competição e eles já tinham a pré-época feita e começado inclusive a liga. Cheguei a 8 de março de 2022 e a minha estreia foi no final do mês. Então gostou de jogar na II Liga do Japão. Gostei sim e acreditem ou não, é bem mais profissional que a II Liga portuguesa, a nível estrutural. Os clubes são muito mais bem organizados e têm melhores condições. Têm muitos jogadores jovens na II Liga japonesa. Em Portugal são poucas as equipas, agora talvez um pouco mais do que na minha altura, que têm tantos jovens, só as equipas B, as outras não. É uma liga diferente e gostei. Tinha assinado por dois anos. O que mais o marcou nesse período? O respeito e o carinho das pessoas. Os estádios estão cheios? Os japoneses gostam de ir ver futebol ao vivo? Gostam. Se formos ver um jogo da II Liga de Portugal os estádios estão desertos, inclusive os da I Liga. Aqui eles trabalham muito o marketing, aquilo que é a imagem do clube. Têm muitas barraquinhas à volta do estádio, com vários tipos de comida diferentes, têm animações, é tudo super seguro, as pessoas podem ir em família, e levar as crianças. Imagine, o jogo está marcado para as seis da tarde, eles vão para o estádio às duas da tarde e ficavam lá, a divertirem-se com as crianças, porque o estádio está localizado num parque e tem tudo aquilo que já falei. E faziam uma coisa curiosa: quem chegasse primeiro, marcava no chão com fita-cola o seu lugar na fila para entrar no estádio, e inclusive deixava os seus pertences se fosse preciso, e ninguém roubava. E respeitam aquelas marcações. Todas essas experiências marcaram-me e fazem com que o Japão seja sempre um país especial para mim. Histórias para contar dessas duas épocas? Passado uma semana de eu ter chegado deu-se um terramoto, algo que nunca tinha experienciado. Eles emitem um aviso no telemóvel quando vai haver um terramoto, mas eu não sabia. Ia deitar-me, tinha acabado de pôr o alarme, estava naquela fase quase a adormecer e de repente há um alarme super forte do telemóvel, olhei para o telemóvel super assustado porque era impossível ser o alarme para acordar, e vi um sinal de perigo amarelo com um ponto de exclamação e uma coisa escrita em japonês, que não entendi. O barulho era muito forte mesmo. Passado uns segundos começo a sentir a casa a abanar. Levantei-me da cama assustado. Como reagiu? Aquilo que aprendemos em Portugal sobre terramotos é mínimo, fui para a sala, olhei para a minha mesa e pensei, “se me meter ali de baixo qual é a probabilidade de não morrer?” Tipo, “isto não se partir?” Não, não vou para ali [risos]. Comecei a mudar de roupa para sair. Agora sei que não se deve sair de casa, exceto se for um terramoto mesmo muito forte e aí temos de sair para zonas de evacuação que eles têm nas cidades. Eu vivia num 7.º andar, estava a sair de casa e as minhas vizinhas do lado, que eu ainda nem conhecia, estavam do lado de fora de casa, a rir, mas cheias de medo também, percebi isso. Uma disse em inglês: “Não há problema nenhum, fique em casa, é mais seguro.” Fui para casa, aquilo acalmou, só durou uns segundos. Entretanto, o tradutor mandou-me mensagem a perguntar se o abalo tinha sido forte e se precisava de alguma coisa. Avisou-me que podia haver réplicas e disse para eu ficar em casa. No dia seguinte, quando cheguei ao clube era toda a gente a perguntar-me como tinha sido e eu: “Foi uma m*rda.” [risos]. Começaram todos a rir. O terramoto foi mesmo muito forte, como as casas estão preparadas para os sismos, elas balançam muito, o que assusta ainda mais quem não está habituado. Foi dado alerta de tsunami e tudo, que acabou por não acontecer e mesmo que acontecesse não chegava à minha casa, felizmente. Nessa noite pensei, “eu não vim para aqui para morrer”. Pensou em vir embora? Não, mas tremi naquela noite [risos]. O que fazia nos tempos livres? Não fazia muita coisa porque aquela cidade era interior, apesar de haver ainda bastante população, não tinha muita coisa para fazer de interessante. De vez em quando, ia ver uns templos, uma montanha, cheguei a ir ver um vulcão adormecido. A região era e é muito famosa pela cereja e consegui conhecer um produtor de cerejas, com os meus pais. Comprámos-lhe cerejas. A fruta no Japão é muito cara, porque a maioria é importada. Também havia muitas plantações de arroz. No verão ia muitas vezes com um livro e a minha coluna para junto de uma cascata, para apanhar sol. Quando tinha folga, algumas vezes vinha para Tóquio, apesar de estar a três horas de comboio. Esteve duas épocas no Montedio Yamagata. Como foi parar ao Brasil a seguir? O clube tinha interesse que ficasse. Quando cheguei não tinha quase números para escolher e escolhi o 20. No final da primeira época, aquele que era o n.º 10 saiu e eles ligaram-me a dizer que queriam que eu fosse o 10. O 10 no futebol tem muita importância, mas no Japão parece ter uma importância acrescida. Só por aí mostraram o respeito pelo que eu tinha feito no ano anterior. No fim do ano, mudei de empresário, eles falavam muito com o meu empresário, que é italo-brasileiro, e sabiam que a probabilidade de eu ficar no clube era ínfima. Eu não queria ficar, mas o empresário também não lhes fechava a porta. Na verdade, sabiam que eu ia querer dar mais um passo, pensavam que eu ia para a I Liga. O meu empresário estava inclusive a falar com clubes japoneses da I Liga. Só que eu já tinha na cabeça a vontade de experimentar outra coisa, noutro país. E nada tinha que ver com gostar ou não do Japão, porque amo o Japão e adorei a maneira como fui tratado, adaptei-me muito bem. Mas queria experimentar algo diferente e queria muito que fosse no continente americano, não necessariamente no Brasil. Porquê? É uma pancada que sempre tive. Sei que quase ninguém tem o desejo de ter uma experiência num país da América Latina, mas eu tinha. O que mais queria era o México, adorava jogar no México. Por alguma razão em especial? Sempre acompanhei os campeonatos do México e da América do Sul. Houve uma viagem que fiz ao México, que foi a primeira grande viagem com amigos, passámos um bom tempo lá, e eu já gostava do país. Naquele momento também estavam a ser jogados os play-offs de campeão. Enfim, não sei, sempre gostei do idioma espanhol, gosto muito da música latina. Gosto da vibe deles. Sempre gostei de seguir a Copa Libertadores. Mas o meu empresário estava a falar com clubes do Brasil, clubes com mais nome do que o Botafogo e nos quais eu tinha mais vontade de ingressar Que clubes? Um está na I Liga, outro é um clube grande que está na II Liga, mas as coisas não avançaram, por isso prefiro não dizer os nomes. Apareceu o Botafogo-SP com um treinador português [Paulo Gomes] que me ligou e foi muito por esse motivo, não propriamente pelo contrato em si. O treinador tinha-me ligado, era português, queria contar comigo, e ia disputar o estadual de São Paulo, o melhor estadual do Brasil, em que o primeiro jogo era contra o Santos e pelo meio metia o Corinthians, o Red Bull Bragantino e, no fim, o Palmeiras. Sentiu que podia ser uma montra. Sim, sabia que fazendo um bom Paulista, a probabilidade de ser contratado no fim para um clube da I do Brasileirão era real. Só que eu não me adaptei muito bem lá. Porquê? Essencialmente devido à estrutura do clube. Eu vinha de uma realidade em que tinha tudo direitinho, era tudo super organizado, não faltava nada, cheguei lá e as coisas eram bem diferentes. Nem quero falar muito porque o treinador continua lá, mas não é uma estrutura muito boa. Não é moderna, tem muita coisa que falha. Dou um exemplo, a proteína era metida num saquinho de plástico e nós tomávamos no saquinho de plástico. Eu poderia comprar um shaker, é verdade, mas são detalhes. O campo de treinos é muito mau. Houve várias coisas às quais não estava habituado. Tive uma redução grande de salário para aceitar ir para o Brasil, parecendo que não também mexe com uma pessoa. O meu empresário estava a falar com outros clubes, com estruturas maiores, muito mais desenvolvidas. Sou uma pessoa curiosa e procuro logo perceber como são os clubes, as cidades e, de todos, aquele não era o melhor, de facto. Não gostou de viver em Ribeirão Preto? É uma cidade bem tranquila, em nenhum momento senti perigo. É do interior de São Paulo e há muita gente que se cansa do estilo de vida de São Paulo e escolhe ir para lá, porque é um sítio muito mais tranquilo. Ribeirão Preto é uma cidade bem vista no Estado de São Paulo. E realmente é tranquila, com vários restaurantes bons. A cidade não era um problema. Obviamente estava longe e os acessos no Brasil não são iguais aos do Japão. Para chegar a São Paulo, ou ia de avião, ou demorava quatro horas e meia de carro. Nunca fui a São Paulo, não tínhamos dias de descanso, de três em três dias estávamos a jogar, fazia muito calor, perdi muita massa muscular porque não treinávamos direito. Como assim? Não era culpa do treinador, simplesmente o tempo que tínhamos era mais para recuperar do que propriamente para treinar. O ritmo de jogos é absurdo, ainda por cima numa altura em que está muito calor. Ribeirão Preto é muito abafado, muito quente, o que só por si faz com que desidratamos muito mais rápido. Se não temos mais treinos de força, a massa muscular vai embora e notei que isso aconteceu comigo. Mas gostou do estilo de futebol praticado no Brasil? Essa é outra questão, não gostei muito, porque é um estilo de jogo muito mais amarrado, custa mais a construir. Custa mais que o jogo flua com naturalidade. No Japão, flui com muita naturalidade, os campos também são bons, as bolas são boas e no Brasil apanhamos campos maus, ambientes muito diferentes. Particularmente, não gostava da bola do campeonato Paulista. A bola, já nem me lembro da marca, mas parecia uma bola não profissional, campos com relvas altas, secas. As pessoas têm ideia de que o futebol no Brasil é muito um contra um, mas não. É difícil muitas vezes ir no um contra um, porque é muito agressivo, para mais, há uma ou outra porrada mais forte, há muita briga com árbitros. Estive num jogo em que inclusive dois colegas da mesma equipa começaram a stressar tanto que o próprio árbitro virou-se para um deles e perguntou: “Achas isto normal?” O Brasileirão não parece ser assim… Sim, provavelmente é outro nível porque são clubes mais estruturados, com estádios melhores, relvas melhores. Não joguei, mas tenho quase a certeza que deve ser um bom campeonato de jogar. Agora, a parte da logística no Brasil é muito complicada e só estive lá dois meses, mas pude sentir, principalmente quando é para jogar a Taça do Brasil, primeira e segundas eliminatórias, em que calhamos com equipas realmente fracas, mais amadoras. O Brasil é muito grande, para chegar a determinado sítio podemos ter de fazer duas viagens de avião e ainda andar de autocarro. Não é fácil. Então ao fim de dois meses não aguentou mais e quis vir embora? Desde o início que percebi que não me estava a adaptar bem e as coisas não fluíam na minha cabeça da forma que esperava. Logo no primeiro dia, tinha feito uma viagem super longa, acordei de madrugada em Portugal, para fazer Lisboa-Brasília, depois Brasília-Ribeirão, foram quase 24h de viagem. Quando cheguei foi um senhor da imprensa do clube que me foi buscar ao aeroporto, perguntei-lhe qual era o plano para o dia seguinte e ele não sabia, não tinha informação e eu não tinha informação nenhuma, ninguém me tinha passado nada. No dia seguinte, tive de acordar às sete, dormi pouco, estava cansado, estava muito calor e obrigaram-me logo a fazer testes físicos. À tarde havia treino no campo, eu estava ainda com jetlag, estava muito calor e comecei a sentir-me doente. Isto para dizer que logo no primeiro dia não gostei da falta de cuidado deles para com a minha situação, acho que podiam ter feito as coisas de outra forma. E houve outras coisas que não fui gostando, nada com o treinador, gostei dele e da atitude comigo também. E o balneário? 60% do plantel era novo e a verdade é que gostei, a malta era gente boa. Às vezes diz-se que os brasileiros são falsos, mas eu senti que havia gente boa mesmo. Gostei do balneário. O que me atrapalhou mais foi que eu tinha realmente uma vontade tão grande de ir, que fui com as expectativas altas e acho que foram defraudadas. Mas jogava? Sim, participei em quase todos os jogos, fiz oito em 11 possíveis. O treinador apercebeu-se da sua insatisfação? Ele percebeu que não estava a rolar como ele achava que ia ser e como eu achava que ia ser. Tanto é que um dia, depois do treino, chamou-me para falarmos. Perguntou-me o que eu achava que faltava para não estar com o rendimento que ambos esperávamos, porque também não consegui fazer nenhum golo lá. E sou uma pessoa que se cobra demasiado. Foi honesto com ele? Contei-lhe que estava desiludido com a estrutura do clube, que não era aquilo que esperava, etc. Ele disse-me que não queria problemas, que queria soluções, era a forma como encarava a vida. Penso que, no fundo, ele entendeu-me, mas é o treinador, não pode passar essa imagem, não podia concordar comigo naquilo que eu estava a dizer, apesar de achar que ele sentia o mesmo. Ele foi para o Brasil com o objetivo de chegar à I Liga e valoriza o facto de estar ali. Quando falou com o seu empresário, disse-lhe que queria voltar ao Japão ou deixou em aberto? Falei com o empresário passado um mês e só não falei antes porque achei que não faria sentido, pareceria demasiado cedo. Adiei até uma altura em que os mercados europeus estavam a fechar, era aquela fase janeiro/fevereiro, em que os clubes só contratam um ou outro jogador se sentirem necessidade. A maioria dos mercados já tinha fechado, apareceu a proposta do Tokyo Verdy, do Japão, um clube que já me queria antes e o meu empresário voltou a falar com eles. De início, disseram que já estavam sem dinheiro, o plantel já estava fechado, mas deram um jeito de conseguir um valor e acabei por aceitar o que me ofereceram porque ia voltar ao Japão, um país onde tinha sido feliz, ia ter a possibilidade de jogar a I Liga japonesa que cada vez mais é reconhecida no mundo do futebol. Pode não ser tão reconhecida em Portugal, por exemplo, mas quem trabalha no mundo do futebol já a reconhece. Há muita diferença da I para a II Liga japonesa? Um pouco. Na II liga japonesa há qualidade e há muitos jovens jogadores de qualidade, mas em quase todas as equipas é notório que há dois ou três elementos que não têm tanta qualidade, e na J1, na I liga, já não é assim, praticamente em todas as equipas que apanhamos os jogadores são nivelados, não há um ou outro que seja mais fraco. A média é boa. Está a gostar de viver em Tóquio? Já adorava Tóquio antes e agora gosto mais porque moro aqui. É uma cidade diferente e muito impactante. Onde eu estou pertence a Tóquio, mas não é Tóquio central. Mas para chegar ao centro a qualquer ponto mais famoso demoro 20, 30, 40 minutos, dependendo das zonas. É super rápido. Continua solteiro? Sim. Há uma pessoa com quem já estive, mas agora não estou. Ela por acaso tem cara de japonesa porque tem ascendência japonesa, mas é brasileira. Já cá está há alguns anos. O Tokyo Verdy também tem boas condições? Não tem as mesmas condições que eu tinha na II Liga, estruturalmente é um clube que está envelhecido, precisa ser modernizado, precisa de investimento, mas é um clube dos mais tradicionais no Japão, jogamos num estádio grande, bom, estamos em Tóquio. Tem as suas coisas que disfarçam as outras, Surpreendeu-me pela negativa, porque como tinha tido aquela experiência no Yamagata, pensei que fosse mais ou menos idêntico. Assinou por quantas épocas? Até ao fim deste ano. Eles têm uma opção de renovar por mais um ano até ao final de outubro, se o fizerem até essa data eu tenho uma cláusula de rescisão baixa. Até agora não joguei muito, estive lesionado, estou a voltar agora. Como se lesionou? Tive uma infelicidade, num lance normal no jogo, sofri uma falta nada de especial, só que, na queda, caí de joelhos no chão e com o impacto no chão com o peso do corpo senti um esticar muito forte no adutor direito, no dia seguinte fiz exames e tinha uma rotura, tinha muito sangue na zona. Tentámos acelerar o processo para eu voltar, passado duas semanas quiseram testar para ver se podia ir fazer o jogo do fim de semana e voltei a lesionar-me. Na verdade, não estava bem ainda. Voltei a lesionar-me no mesmo músculo, um pouquinho mais acima, mas as imagens da ressonância estavam praticamente iguais. Já estou na fase final da recuperação. Está com 28 anos acabados de fazer. Tem alguma meta para deixar de jogar? Acho que não vou ter uma longevidade tão grande como tem acontecido com alguns jogadores. Não acho que vá chegar aos 36 anos a jogar futebol. Não sei. Acho que vai depender do meu estado físico e mental, do tipo de lesões que possa ter e daquilo que eu possa atingir contratualmente. Já pensou no que quer fazer após pendurar as chuteiras? Tenho pensado cada vez mais. Tenho umas ideias... Gosto muito daquela zona do Caribe e há uns anos fiz uma viagem com o meu pai, para a República Dominicana, e um dia fomos conhecer uma loja de tabaco e quando chegámos o dono era um belga, que me contou a história de como foi ali parar, e essa história marcou-me. Ele vivia na Bélgica e foi fazer Erasmus para a República Dominicana, o que só por si já é uma coisa que faz arregalar os olhos, gostou, acabou por arranjar uma namorada lá, começou a olhar para a vida de outra forma, porque na República Dominicana não existe aquela pressão nem o pensamento de casar, ter filhos, de ter o carro X ou apartamento Y. Mudou a sua linha de pensamento, decidiu ficar, abriu uma empresa de tabaco, aquilo foi crescendo e já vende online para todo o mundo. E estava super feliz. Gostei daquilo. Gosto muito de tudo o que é meio-latino. A sua ideia é ir viver para um desses países? Talvez. Talvez gostasse de ter essa experiência. Não sei se o vou fazer, vai depender do momento da vida e da mulher com quem esteja na altura. Mas há algum tipo de negócio que gostasse de desenvolver? Pensei numa espécie de um hotel pequeno, que só tivesse serviço de pequeno-almoço incluído e um bar de praia um pouco parecido com um onde estive, no México, com os meus amigos. Então não lhe passa pela cabeça continuar ligado ao futebol. Só ficarei ligado ao futebol se for alguma coisa que envolva negócios de transferência de jogadores, mas não propriamente ser empresário, se calhar trabalhar em parceria com o empresário atual. Onde ganhou mais dinheiro até agora? No Japão. Já investiu? Sim, em imobiliário. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Talvez apanhar um avião depois de um jogo para ir passar a noite a Barcelona, porque tinha uma ligação forte com uma mulher lá, apesar de não namorarmos. Tem algum hóbi? Viajar. Gosto muito de conhecer culturas diferentes e restaurantes locais. É um homem de fé? Não. Superstições? Geralmente entro com o pé direito e dou dois saltos. Levo café e chocolate para tomar antes do jogo e meto duas fitas adesivas nos pulsos. Qual foi a primeira tatuagem que fez? As datas de nascimento dos meus pais e do meu irmão em letra romana. Tinha 18 anos. Depois disso já fiz várias, mas não tenho propriamente aquelas tatuagens grandes. Tenho umas 12 o 13. Quais as mais importantes? A primeira. Tenho uma que fiz o ano passado, que representa a minha passagem aqui, no Japão, tenho outra que é da viagem que fiz com os meus amigos ao México, e tenho a palavra “Resiliência”, porque acho que sempre me definiu ao longo da vida, sobretudo no futebol. Tenho uma de uma viagem que fiz ao Chile, onde tenho um grande amigo, com quem joguei no Varzim. Fizemos a mesma tatuagem os dois. Segue ou pratica outra modalidade além do futebol? Geralmente sigo as retas finais do futsal, em Portugal, mas não sigo a época. Gosto, mas também não sou um seguidor, por assim dizer, de ténis. E quando era novo gostava muito do futebol de praia, ia ver os Mundialitos. Qual a maior frustração que tem na carreira? Aquele contrato que era para ter assinado na I Liga, mas que não veio como tinha de vir, do Belenenses, nos juniores. E o maior arrependimento? Não tenho grandes arrependimentos no futebol. Mas posso dizer que quando era mais novo, na formação, arrependi-me de não ter ficado no SC Braga. E também me arrependi de não ter ficado no Getafe B, da Espanha e ter optado pelo Varzim B O momento mais feliz na carreira? Um jogo que fiz pelo Varzim, no estádio de Alvalade, para a Taça da Liga. Ficou-me memorizado porque tinha jogado no Sporting. Se pudesse escolher qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Real Madrid. Tem ou teve alguma alcunha além do joker na Polónia? Aqui às vezes chamam-me ‘Tchi San’. Não é propriamente uma alcunha, é só a maneira como algumas pessoas me chamavam porque eles têm dificuldade em dizer “Ti”, dizem “tchi” e como no fim usam o “san” para chamar a pessoa, dizem: “Tchi San.” Quais foram as maiores amizades que fez no futebol? O Bruno Wilson, que está na MLS, o Artur Taborda, que já não joga, e o German Ruiz que jogou comigo no Olimpia. Alguma regra do futebol que se pudesse, alterava? Mudaria de alguma forma o VAR. Não sei se metia uma margem de erro. Como é que anulamos um golo por 1 cm, numa coisa que é feita num computador que depende do ponto que a pessoa que está a analisar escolheu? Há várias coisas. Tem algum talento escondido? Não. Qual o país onde gostava de jogar a seguir? Espanha. “Fizemos a despedida de solteiro do Filipe Anunciação após um jogo na Madeira. Como não gostei das bailarinas, fui eu quem fez o striptease” Tony “Careca” ou “Pequeno Buda”, como também é frequentemente chamado, conta-nos nesta II parte do Casa às Costas como terminou a carreira de jogador, que depois do Cluj ainda passou pelo V. Guimarães, Paços de Ferreira e Penafiel. Fala sobre Manuel Machado, Costinha, Jorge Costa e Paulo Fonseca, por quem foi treinado, entre outros. Relata algumas histórias vividas enquanto adjunto da seleção dos Camarões e do cancro que o abalou e já venceu, ainda que esteja sob vigilância apertada. No comando do Politehnica Iasi, da Roménia, que há poucos meses salvou da descida, o técnico de 43 anos confessa que gostava de voltar a treinar em Portugal, para estar perto dos seus Mostrar conteúdo oculto Em 2010/11 deixou a Roménia e voltou para Portugal, para o V. Guimarães. Como surgiu o convite? Antes disso, recebi uma proposta do SC Braga. Na altura o treinador era o Domingos Paciência. É quando o SC Braga vai à final da Liga Europa contra o Futebol Clube do Porto. Só que, em Portugal, já com tudo apalavrado com o Salvador, vou almoçar um bacalhau às Taipas, onde vivi uns anos antes, e o presidente do Guimarães, Emílio Macedo, que foi meu presidente nos Sandinenses, viu-me e perguntou o que estava ali a fazer. Eu disse que ia para o SC Braga. “Para o SC Braga? Não. Tu vais para o Vitória.” Ele deu-me a volta e fui para o Vitória. Deu-lhe a volta como? O contrato que lhe ofereceu era melhor? Sinceramente, não era melhor, ia ganhar menos dinheiro. Mas eu achava que tinha uma dívida moral com ele, pela forma como me recebeu quando fui da França para Portugal. Deu-me tudo, abriu-me as portas de casa, ajudou-me muito, aconselhou-me. E o Vitória era um clube com grande massa associativa, a sua história. Hoje o SC Braga é um grande clube, mas, naquela altura, ainda não era o SC Braga que é hoje. Arrepende-se dessa escolha? Foi uma má escolha desportiva para mim, porque o SC Braga vai à final da Liga Europa e porque joguei pouco no Vitória de Guimarães. Também tive a infelicidade de me lesionar duas vezes seguidas e isso ‘matou-me’ um bocado no clube. No Vitória esteve com Rui Vitória e Manuel Machado. Que tal um e outro? O Manuel Machado é dos treinadores mais pacatos que já conheci. Uma pessoa sempre positiva, as coisas correndo bem ou correndo mal, ele tinha um equilíbrio emocional fora do normal, raramente elevava o tom ou berrava com os jogadores. Sempre muito educado, sabia fazer passar a mensagem dele com muita educação e sabedoria. Quando Rui Vitória entrou, passados 15 dias surgiu a proposta do Paços de Ferreira. Eu já estava no Vitória de Guimarães há mais de oito meses, tinha jogado pouco, o que me deixava frustrado… Jogava pouco porquê? Não era opção para o Manuel Machado? Sim, a opção dele era o Alex e eu respeitava. E, como disse, lesionei-me duas vezes, o que marcou. Lesionou-se onde e como? Fiz uma rutura logo na pré-época, no gémeo, que me deixou dois meses fora. Depois lesionei-me no tendão de Aquiles, onde fiz rutura parcial, também num treino, num lance estúpido, e estive quatro meses fora. Dos nove meses que estive no Vitória, quase seis meses foi parado. Depois apareceu a proposta para ir para o Paços de Ferreira, que estava em último lugar. O presidente Carlos Barbosa ligou-me. Dois jogadores que estavam no Paços, jogaram comigo no Cluj, o Manuel José e o André Leão, decidi ir, para jogar e ser feliz. Era um clube familiar, onde sabia que, independentemente dos resultados, ia ser feliz. Acabámos por salvar o clube quando ninguém esperava. Com Henrique Calisto? Sim. Fizemos uma segunda volta sensacional com ele, conseguimos jogar um futebol atrativo e salvar o clube. O Paços de Ferreira é um clube top a todos os níveis. No ano seguinte veio o Paulo Fonseca e fizemos o 3.º lugar, temos a famosa classificação à Liga dos Campeões. Gostou do Paulo Fonseca como treinador? Ele foi meu colega no Estrela da Amadora enquanto jogador. Depois, como treinador, a nível de competência, da preparação de jogos, estratégia, de liderança, posso dizer que foi dos treinadores mais completos que tive. Além do António Conceição, pela experiência, a sua leitura de jogo, a sua liderança. Mas o Paulo Fonseca foi alguém que me abriu os olhos para o mundo do futebol. Fez-me ver o futebol com outro olhar. O que quer dizer com isso? Pode explicar melhor? Era muito dedicado, cada pormenor é importante. Vou dar um exemplo, nós jogámos numa segunda-feira à noite contra o Estoril, estava 0-0, faltavam sete minutos para acabar e houve um problema no campo, as luzes foram abaixo. Tivemos de jogar aqueles últimos sete minutos no dia seguinte, às 15h. O nosso aquecimento foi feito no campo de treinos, onde estivemos a trabalhar uma jogada que ia acontecer em sete minutos, para poder ganhar o jogo. Só fizemos essa jogada repetidamente durante todo o aquecimento, fomos para o campo, a bola vem no ar e não é que aquela jogada na qual o Paulo Fonseca pensou a noite toda, surtiu efeito e ganhámos 1-0? É nestes pormenores que o Paulo é diferente. Fez-nos acreditar que éramos bons jogadores e, pela primeira vez, quando jogávamos com o Benfica, o Sporting, o SC Braga, o V. Guimarães, todos tinham medo de jogar com o Paços Ferreira, porque éramos uma equipa muito atrevida e jogávamos bem. A confiança era tal que era difícil parar-nos. Logicamente, não tínhamos a qualidade individual dos outros, mas a nível coletivo a equipa era fantástica. Alguma história mais para contar do Paços? Quando atingimos a Liga dos Campeões, o Paulo Fonseca prometeu-nos que, se ganhássemos na Madeira, como viajávamos no dia seguinte, tínhamos a noite livre. Ganhámos o jogo e quisemos aproveitar para fazer a despedida de solteiro do Filipe Anunciação. Queríamos levá-lo para um striptease para o pôr numa situação mais incómoda à nossa frente. Quando chegámos lá, achámos que as raparigas não tinham condições para fazer-lhe a brincadeira, então resolvi fazer eu o striptease e foi uma risada muito grande. Afinal, a bailarina da despedida de solteiro do Filipe, fui eu. Em 2013, foi pai finalmente. Sim. O meu maior troféu. Foi o melhor momento da minha vida. É a minha razão de viver, a minha vida, o meu príncipe. Agora entendo quando os meus pais diziam-me que o amor de pai é diferente. O Luka para mim é tudo. Ele vive com quem agora? Vive em Braga. Como trabalho na Roménia, ele está metade do tempo com os meus pais e com a mamã dele. Quando estou em Portugal, está metade do tempo comigo e a outra metade com a mãe. No Paços Ferreira ainda teve o Costinha e o Jorge Costa como treinadores. O que pode dizer deles como treinadores? O Costinha é uma pessoa muito inteligente, muito competente, muito incompreendido pela massa associativa. Não era fácil para ele porque veio logo a seguir ao Paulo Fonseca, a exigência era grande. Não foi compreendido, não foi ajudado. Gostava de se vestir bem e usar bons carros, mas as pessoas no Paços não entendiam isso. Era o que ele dizia, eu trabalhei a minha vida toda para poder ter aquilo que tenho e agora não posso usufruir, porquê? E é verdade. As pessoas tomaram-no de ponta logo de início por causa disso e foi um aspeto negativo no Paços, porque tanto a qualidade do treinador, como a qualidade humana que o Costinha tinha, não mereciam isso. E o ‘Bicho’ [Jorge Costa]? O ‘Bicho’ tinha um carisma que nem era preciso falar, só o olhar dele metia respeito. Ele entendia muito bem o jogador, sabia lidar com cada situação da melhor forma, por ter sido capitão de um clube como o FC Porto. Tinha uma liderança fácil pelo seu historial, pelo seu nome, era muito respeitado pelos jogadores e veio para salvar o Paços de uma descida. Entretanto, em 2014, acabava contrato com o Paços de Ferreira, certo? Sim. Mas como o Paços não sabia quem ia ser o treinador da época seguinte e eu estava com 33 anos, fiquei com medo de ficar sem nada, se calhar precipitei-me um pouco. Fui para o Penafiel, era muito desejado pelo treinador, o Ricardo Chéu. É um grande amigo e foi através dele que comecei a ser treinador. Assinei um ano pelo Penafiel, o último clube da minha carreira e, passados dois dias, ligou-me o Paulo Fonseca porque voltava do FC Porto para o Paços de Ferreira. Infelizmente, eu já tinha assinado pelo Penafiel e não pude voltar a trabalhar com o Paulo. Como foi esse ano? Passou-se muita coisa negativa. Os resultados, mudanças de treinadores, tivemos três treinadores e perdi um bocado, com todo o respeito, o ‘tesão’ de ir para o campo com alegria, com vontade. Quando acabou a época, ainda me apareceu o Gil Vicente, na II Liga, mas recebi uma chamada do Ricardo Chéu, com uma proposta para ir para o AC Viseu com ele. No início comecei a rir, disse-lhe que não ia ter dinheiro para mim, mas quando ele me disse que não era para jogar, mas para ser adjunto dele, pedi-lhe tempo para pensar. Na altura já sabia o que queria fazer após pendurar as chuteiras? Queria continuar no mundo do futebol, mas via-me mais como diretor-desportivo, ou agente de jogadores, mais na parte do negócio, do que como treinador. Por isso, quando me lançou o desafio, pedi-lhe três semanas para poder pensar. Eu estava de férias na Espanha e um dia ele liga-me, diz que será apresentado dali a dois dias, precisava de uma resposta. Já tinha algum nível do curso de treinador? Só tinha o primeiro nível, mas aceitei o desafio do Chéu. Não senti falta de jogar à bola porque estava diariamente num balneário, com os jogadores no campo, e ele ensinou-me muito no dia a dia, da gestão do próprio treino. Foi um excelente professor. Sou seu admirador e devo-lhe muito porque foi através dele que se abriu esta porta. Depois, fui-me formando até tirar o UEFA Pro. Tirei também várias outras formações, de psicologia, fisioterapia, para colher cada vez mais informação, mais conhecimento do corpo humano, da gestão das cargas. Tirei cursos de metodologia de treinos, tudo o que podia fazer eu fazia, parecia uma esponja a absorver. Depois do Académico de Viseu foi para o Freamunde também com ele e, a seguir, estreia-se como treinador principal na AD Oliveirense. Sim, na fase de subida à II Liga. Como correu essa estreia na liderança de uma equipa? Fui fazer os últimos quatro jogos da equipa. Foi muito bom a nível de jogo, de prestação, foi elogiada por toda a gente. Depois vou para Bragança, no Campeonato de Portugal. Acabei por sair antes do Natal. Devido a quê? Resultados? Devido a tudo. A resultados, a falta de condições, falei com o presidente inclusive, disse-lhe que abdicava do meu salário para poder trazer jogadores, porque precisávamos reforçar a equipa. Várias vezes fomos para jogo com apenas 13, 14 jogadores. Treinar só 13 ou 14 jogadores não é fácil num Campeonato de Portugal, que é tão competitivo. Acabei por sair e fui para um clube da distrital, o clube da aldeia da minha avó, o Vilar de Perdizes, no concelho de Montalegre. Através da minha notoriedade e de muito trabalho com o presidente, conseguimos meter o Vilar de Perdizes nos meios de comunicação, houve várias reportagens nas televisões e correu super bem. Foi um trabalho muito bom, em que tentámos valorizar os atletas da região. Estive lá ano e meio. Começou como treinador principal em clubes onde lidava com homens feitos, alguns com outros empregos… Sim, lembro-me do meu capitão, em Bragança, que muitas das vezes chegava tarde aos treinos porque tinha o trabalho dele. No Vilar de Perdizes não foi fácil, apesar de estarem com grande disponibilidade e coração. Tinha trolhas, cozinheiros, padeiros, estudantes, tinha de tudo. Quando chegavam à noite, eu tinha um treino pensado e muitas vezes ouvia “ó mister, hoje estou cansado, estive a carregar muita coisa” e tinha que ter a sensibilidade de ajustar certas cargas. Não é fácil. Tem uma coisa boa, eles estavam ali pelo amor ao futebol, pelo amor ao clube, pela amizade e não pelo dinheiro. E isso é uma vantagem muito grande. Nunca puseram em causa a sua autoridade por ser um treinador novo, sem experiência? Não, porque, graças a Deus, em Portugal tinha uma certa imagem, toda a gente conhece o Tony ‘Careca’. Fui sempre respeitado, nunca tive problemas, antes pelo contrário, a minha carreira de jogador ajudou-me bastante na de treinador. A seguir vai treinar os sub-19 do GD Chaves. Foi mais difícil treinar jovens jogadores? O que é difícil é gerir a expectativa dos pais, porque pensam que têm o Cristiano Ronaldo em casa. Acabamos por ter um papel muito mais de educador do que propriamente de treinador, porque há muita expectativa, se vão à equipa principal, se não vão. Mas não podemos esquecer que além do jogador, há um homem. Eu era muito exigente com eles na escola, queria que tivessem boas notas. Exigia também a nível de respeito, de educação, com os próprios pais, com os colegas, porque a sociedade mudou, perderam-se muitos valores e temos de voltar a mostrar exemplos de valores que se perderam. Nos juniores do Chaves tive cinco jogos, quatro vitórias e um empate. Entretanto, aparece-me uma proposta do António Conceição para ser adjunto dele na seleção dos Camarões. Aceitou logo? Sim. Por isso é que o Toni é o meu pai do futebol. Foi quem me estreou na I Liga enquanto jogador e depois deu-me oportunidade de entrar num projeto de uma seleção de topo mundial, que está sempre nos Mundiais, luta pelas Taças de África. Poder estar com jogadores como Vincent Aboubakar, Choupo-Moting, André Onana, ou Zambo Anguissa, do Nápoles, durante três anos e meio, foi um privilégio enorme. Cresci imensamente ao lado do António Conceição, do Baltazar, seu adjunto também e do professor João Renato. África é outro mundo. O que mais o chocou? Vivemos no paraíso e não sabemos. O que mais me chocou foi a falta de acessos e muita pobreza. Víamos estádios de futebol de milhões e atrás do estádio havia muita pobreza, estradas e casas sem condições. Mas víamos pessoas felizes e metia-me confusão, porque temos tudo em Portugal e às vezes queixamo-nos. De quê? Vi crianças a quem o facto de oferecer uma laranja, parecia que elas tinham ganho a Liga dos Campeões. Têm uma abordagem à vida muito diferente. Desde que haja pão na mesa são pessoas alegres, felizes, só querem ganhar um dinheirinho para ter cervejinha ao fim de semana e poder ver um jogo de futebol. A alegria deles é essa. Mas tive a sorte de viajar por vários países de África, fui um privilegiado e aprendi muito. Vi países muito desenvolvidos e outros onde ainda há tudo por fazer. Apesar da maior parte ter uma mentalidade ainda muito fechada, há muito talento bruto. E histórias para contar desses anos em África? Há um episódio que me marcou, quando fomos jogar a qualificação do Campeonato do Mundo, no Catar. Íamos jogar contra Moçambique, em Marrocos, porque o estádio deles não tinha sido homologado. Quando chegámos ao aeroporto para embarcar, não tínhamos avião. É África. Vieram dizer-nos que a solução era viajarmos em dois aviões, um atrás do outro. A seguir ao jogo, para voltar aos Camarões, não havia combustível para o avião, tivemos de esperar a noite toda no aeroporto, até que de manhã viesse alguém abastecer o avião. Dormimos no chão. Estamos a falar de uma seleção que tem jogadores que ganham cinco e seis milhões de euros ao ano. Tem mais algum episódio que possa partilhar? Quando fomos jogar a Moçambique para a qualificação do CAN, o autocarro foi buscar-nos ao aeroporto e a meio do caminho para o hotel ficámos sem gasolina também. A nossa sorte é que dali até ao hotel era uma descida, senão ficávamos ali. Há muitas histórias dessas em África. Mas o jogador africano é mentalmente muito forte e preparado para as adversidades. Eu ficava frustrado e eles diziam: "Ó mister, esteja tranquilo, isso é África, é normal. Estamos habituados. Amanhã vamos ganhar na mesma, esteja tranquilo." [risos] Fez-me crescer a nível de gestão de emoções, a nível humano também, valorizar certas coisas que normalmente não valorizamos. Mas a equipa técnica passava a maioria do tempo em Portugal, ou não? Estávamos muitas vezes em Portugal, sim, mas de dois em dois meses íamos para África. Quando havia jogos da seleção, íamos 15 dias antes e também viajávamos pela Europa para monitorizar os nossos jogadores e ver novos jogadores, com dupla nacionalidade, que pudessem vir à seleção. Por exemplo, os franceses-camaroneses, íamos falar com alguns deles. Continua a viver sozinho? Estou com uma pessoa há sete anos. Não temos filhos em comum, mas ela tem uma menina do lado dela, eu tenho um menino e somos uma família muito bem equilibrada. Ela é franco-espanhola, mas vive em Braga, na nossa casa, eu é que vim trabalhar para a Roménia, no ano passado, no dia 1 de abril [risos]. Não é brincadeira, foi mesmo no dia 1 de abril que assinei contrato. Antes de passarmos à Roménia, quais foram os principais feitos que alcançaram com a seleção dos Camarões? Conseguimos a qualificação para o Mundial do Catar, mas depois, infelizmente, mudou o presidente da federação, entrou o Samuel Eto'o que, com um conflito com o governo, mandou-nos embora. Mas fizemos um excelente trabalho. Conseguimos o 3.º lugar da Taça de África, que se jogou nos Camarões, em 2021, onde fomos a equipa com mais golos, com os dois melhores marcadores. Passou onde o ano em que surgiu a covid-19? Quando apareceu a primeira vaga do covid estávamos em África, mas viemos rapidamente para Portugal. Estive em Montalegre, na aldeia do meu pai. Tive sorte porque a casa dos meus pais é no meio de uma montanha e, portanto, nunca estive preso. Acho até que foi dos melhores momentos que tive na vida, porque passei muito tempo com o meu filho, com o meu pai, com as pessoas que eu amava e estávamos confinados, mas em liberdade, porque estávamos no meio da montanha. Como se entretinham? Muitos passeios pela montanha, no rio, muitos jogos de cartas, muita televisão, muitos momentos passados juntos, para criar laços. Construímos muitas coisas, muitas barraquinhas para os meninos, muito passeio, andar de bicicleta, jogar à bola, o jardim é tão grande que permitia isso tudo. Quando veio embora dos Camarões foi adjunto de quem no Paços de Ferreira? Do César Peixoto. Mandaram-nos embora dos Camarões, mas ainda tínhamos ano e meio de contrato e defendemos os nossos interesses na FIFA. Depois, no Paços, as coisas não corriam bem, o presidente Paulo Meneses achava que eu podia trazer algo positivo para ajudar os jogadores a nível mental e fiz parte do staff técnico do César Peixoto. Conseguimos fazer uma segunda volta razoável. Deu-se bem com o César Peixoto? Sim, sem problema. O César é um jovem treinador muito ambicioso, com excelentes ideias, muito bem organizadas. É um romântico do futebol, gosta sempre de futebol bem jogado e, portanto, não tenho mais nada a dizer. Tentámos fazer o nosso melhor. Se a primeira volta tivesse corrido como a segunda, o Paços Ferreira tinha-se safado, mas, infelizmente, não conseguimos os pontos suficientes. Saiu no final da época também? Sim, e fui para Montalegre, para o clube da terra do meu pai, como treinador principal, estava tudo a correr bem até que chegou uma fase em que tive um pequeno problema de saúde. Apareceu-me um tumor na próstata, mas, no azar, tive muita sorte, porque foi detetado muito cedo e há novas tecnologias que me permitiram fazer um tratamento de laser. Com cinco tratamentos consegui dar cabo do tumor. Mas continuo em vigilância, de seis em seis meses faço alguns exames. Apanhou o susto da sua vida… Confesso que na altura não quis que ninguém soubesse, só os familiares e amigos mais próximos. Tive muito medo, só pensava no meu filho, não voltar a ver o meu filho era uma coisa inconcebível. Decidi sair do Montalegre por causa disso, faltavam seis jogos para acabar o campeonato. Quando recebi a notícia do médico, após os cinco tratamentos, de que estava tudo bem, só precisava continuar a fazer medicação durante mais 45 dias, entretanto, apareceu a proposta para ser treinador na I Liga da Roménia, para salvar um clube que ia descer de divisão. O Politehnica Iasi? Exatamente. Eu tinha uma excelente imagem na Roménia, devido à minha passagem pelo Cluj, posso dizer que sou idolatrado aqui, não posso sair à rua, toda a gente quer tirar fotografias. Na altura ainda hesitei porque acabara de ter o problema de saúde, mas como era só por sete jogos e o objetivo era salvar o clube da descida, quando toda a gente dizia que já tinha descido, pensei, não tenho nada a perder, tenho tudo a ganhar. Quem conseguiu vencer um cancro pode vencer qualquer coisa e acabei por aceitar, no dia 1 de abril. E correu bem. Muito bem. Não havia muito tempo para mudar muita coisa, era mais o aspeto psicológico. Consegui através da minha personalidade, trazer coisas positivas, unir o clube quando toda a gente desconfiava de toda a gente, ninguém dizia “bom dia” a ninguém. Fiz questão de abraçar e beijar toda a gente, desde as cozinheiras, a mulher da limpeza, abraçava e beijava toda a gente, porque eu também tinha passado há pouco tempo um momento difícil a nível de saúde e dizia-lhes que nós temos uma oportunidade de vida, temos de fazer tudo para as coisas saírem bem. Através disso tudo conseguiu criar-se uma atmosfera tão boa, tão boa, que quando todos pensavam que íamos cair conseguimos safar-nos. Falou-lhes no cancro? Só no fim. No último jogo, precisávamos de ganhar para não descer de divisão. Antes disso, nunca falei disso a ninguém. Mas, no último jogo, disse-lhes para estarem tranquilos, que ia correr bem, que íamos ganhar porque Deus é sério com quem é sério também. E contei-lhes que antes de ir para o clube tive aquele problema de saúde. O certo é que ganhámos o último jogo e conseguimos a inesperada manutenção. Pediram-lhe para ficar, certo? Mal acabou o jogo, o presidente do clube queria renovar comigo, mas eu disse que precisava aliviar a cabeça um ou dois dias e pensar nas coisas. Entretanto, apareceu-me também um clube da II Liga, na Arábia Saudita. É moda agora toda a gente ir para a Arábia Saudita, a nível financeiro é melhor, mas preferi dar continuidade ao projeto aqui, estar na I Liga num clube que tenta dar-nos as condições todas. Não é um clube de topo, é um clube médio da tabela. Digamos que é um Gil Vicente, um Paços Ferreira ou um Chaves. Traçaram-lhe algum objetivo? O objetivo é não passar pelos calafrios que passámos o ano passado. Quero tentar desenvolver um bom futebol e sermos felizes, que para mim é muito importante. E tentar valorizar jogadores para vender um ou outro, porque os clubes de média dimensão precisam disso para sobreviver. Assinou por quanto tempo? Este ano, e mais um. Está sozinho na Roménia? Sim, a minha namorada tem de ficar em Portugal, mas vem passar uns dias aqui, o meu filho também. Quando os meninos têm escola é complicado. O meu filho já vai fazer 12 anos, a escola começa a ser algo sério. Estamos a fazer um sacrifício, não posso esconder, ganho um bom dinheiro, não é um salário milionário, mas é um bom dinheiro para poder dar estabilidade à família e o meu filho mais tarde poder ter bons estudos, boas universidades. Ele joga futebol? Treina no SC Braga semanalmente. Revê-se nele? No feitio, sim, a jogar, não. Não é tão lutador como o pai. Se fosse lutador com o meu pai, era melhor. Mas tem muito de mim, é muito carinhoso, muito de abraçar, muito sentimental, somos muito parecidos nesse sentido. Ele também diz que quer ser jogador de futebol? Diz, mas tenho de ser honesto, acho que vai ter de trabalhar muito para ser jogador de futebol. Onde ganhou mais dinheiro na carreira? No Cluj. Investiu? Sim, comprei apartamentos e uma bomba de gasolina. Qual foi a maior extravagância que fez na vida? Comprar um Porsche Cayenne. Tem algum hobby? Jantar com os amigos. É um homem de fé? Muita. Aqui na Roménia, não, mas em Portugal cada vez que posso estou sempre na igreja. Superstições? Não. Qual foi a primeira tatuagem que fez e quantos anos tinha? A primeira foram umas asas de anjo nas costas. Tinha 27 anos, estava no Cluj. Foi para fazer uma homenagem à minha mãe, porque ela dizia que eu era o anjo da família. De lá para cá tenho mais umas oito. Tenho também uma tatuagem no antebraço de uma foto comigo e com o meu filho. Segue ou pratica outra modalidade? Pratico padel, gosto muito de ver ciclismo e ténis. Com os Jogos Olímpicos vou passar os dias a ver desporto, porque acho que nós no futebol temos muito a aprender das outras modalidades, a nível mental. Qual a maior frustração na carreira? Não ter sido internacional para Portugal? E o maior arrependimento? Se calhar, não ter assinado pelo SC Braga. O momento mais feliz? O primeiro jogo da Liga dos Campeões, na Roma, quando ganhámos 2-1. Se pudesse escolher, qual o clube de sonho onde gostava de ter jogado? Manchester United. Quais as maiores amizades que fez no futebol? Muitas. Posso destacar o Cadú, o André Leão, Manuel José, Filipe Anunciação, Caetano. São pessoas de grande amizade. Além de ‘Careca’, tem ou teve mais alguma alcunha? O ‘Pequeno Buda’. Não me chateio. Há alguma regra do futebol que se pudesse, alterava, ou bania? A vinda do VAR tem coisas muito negativas, por isso, se calhar bania. Perdeu-se muito a essência do futebol. A tomada de decisão tem de ser humana e não sempre através das novas tecnologias, porque mesmo com as novas tecnologias, vai-se buscar aquilo que se quer. Tem algum talento escondido? Falo um ótimo arroz de cabidela, gosto de cozinhar. O momento mais difícil da sua vida? Foi quando a minha mãe teve um acidente muito grave e esteve perto de morrer. Foi o pior momento da minha vida até agora. Teve um acidente de viação? Não. Bebeu um líquido que a queimou toda por dentro. Tiveram de tirar-lhe o estômago e reconstruir o esófago, foi um momento muito complicado para nós. Qual o adversário mais difícil que enfrentou em campo? O Robben, do Bayern de Munique. Era muito rápido e tecnicista. Mas quero destacar também o Ricardo Quaresma, porque era imprevisível. Quais são os seus objetivos futuros? Continuar a ser feliz e voltar a ter a oportunidade de trabalhar num clube de I Liga, em Portugal, perto da família. Esse Tiago é o tipico grunho tuga/espanhol que vem para cá e chora porque queria que toda a gente lhes beijasse os pés por serem morenos 2 Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 9 Setembro 2024 Citação de a.lopes, há 1 hora: Esse Tiago é o tipico grunho tuga/espanhol que vem para cá e chora porque queria que toda a gente lhes beijasse os pés por serem morenos Estive a ler e nem precisei de ir ver a foto para tirar a pinta. No entanto era o meu sonho ter feito carreira como ele esta a fazer. Uma tipo a do Luis Leal é que seria a ideal no entanto. 1 Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 9 Setembro 2024 Citação de Jimpo, há 32 minutos: Estive a ler e nem precisei de ir ver a foto para tirar a pinta. No entanto era o meu sonho ter feito carreira como ele esta a fazer. Uma tipo a do Luis Leal é que seria a ideal no entanto. Como gerias a tua vida se tivesses conseguido tal coisa? Este gajo deve chegar aos 32 e mais nenhum clube lhe vai pegar. Ganhou o suficiente? O que fazer depois que seja rentável? Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 9 Setembro 2024 Citação de a.lopes, há 15 minutos: Como gerias a tua vida se tivesses conseguido tal coisa? Este gajo deve chegar aos 32 e mais nenhum clube lhe vai pegar. Ganhou o suficiente? O que fazer depois que seja rentável? Quando tentei a sério o profissionalismo, já tarde, já tinha o curso de fisioterapeuta. Num clube tens sempre o contacto com fisioterapeutas/médicos, por isso quando senti-se que estaria a chegar o fim da carreira era só interessar-me mais pela fisioterapia desportiva. Quando tive para ir para um clube da Alemanha era com esse intuito, tentar a sorte no futebol a ver se dá, e se não desse tratava dos papéis e ficava no país como fisioterapeuta. Não acredito que um jogador destes ganhe o "suficiente" porque acima de tudo a maioria deslumbra-se e não tem noção que a carreira acaba num instante. Ainda hoje vi uma notícia que o Paulo Machado está na Suiça como serralheiro e foi internacional A 1 Compartilhar este post Link para o post
toze2 Publicado 9 Setembro 2024 Citação de Jimpo, há 12 minutos: Quando tentei a sério o profissionalismo, já tarde, já tinha o curso de fisioterapeuta. Num clube tens sempre o contacto com fisioterapeutas/médicos, por isso quando senti-se que estaria a chegar o fim da carreira era só interessar-me mais pela fisioterapia desportiva. Quando tive para ir para um clube da Alemanha era com esse intuito, tentar a sorte no futebol a ver se dá, e se não desse tratava dos papéis e ficava no país como fisioterapeuta. Não acredito que um jogador destes ganhe o "suficiente" porque acima de tudo a maioria deslumbra-se e não tem noção que a carreira acaba num instante. Ainda hoje vi uma notícia que o Paulo Machado está na Suiça como serralheiro e foi internacional A Epa, mas o Paulo Machado ainda fez uma bela carreira, foi campeão na Grécia, jogou em França. Muito bom. Compartilhar este post Link para o post
silentz Publicado 9 Setembro 2024 O Paulo Machado deve ter estoirado o dinheiro todo, só pode O gajo jogou no Saint Ettienne, Toulouse, Olympiakos, Dinamo Zagreb Não me digam que vivendo uma vida normal e ir investindo o que se ganha em clubes destes é preciso ir para serralheiro 1 Compartilhar este post Link para o post
Petar Musa Publicado 9 Setembro 2024 Citação de Jimpo, há 1 hora: Quando tentei a sério o profissionalismo, já tarde, já tinha o curso de fisioterapeuta. Num clube tens sempre o contacto com fisioterapeutas/médicos, por isso quando senti-se que estaria a chegar o fim da carreira era só interessar-me mais pela fisioterapia desportiva. Quando tive para ir para um clube da Alemanha era com esse intuito, tentar a sorte no futebol a ver se dá, e se não desse tratava dos papéis e ficava no país como fisioterapeuta. Não acredito que um jogador destes ganhe o "suficiente" porque acima de tudo a maioria deslumbra-se e não tem noção que a carreira acaba num instante. Ainda hoje vi uma notícia que o Paulo Machado está na Suiça como serralheiro e foi internacional A Se calhar é serralheiro por opção. O Drinkwater gosta de ser trolha, por exemplo 1 Compartilhar este post Link para o post
footboy23 Publicado 9 Setembro 2024 Citação de Petar Musa, há 2 horas: Se calhar é serralheiro por opção. O Drinkwater gosta de ser trolha, por exemplo E o trolha gosta de Drinkbeer 2 Compartilhar este post Link para o post
Banks29 Publicado 10 Setembro 2024 O Paulo Machado lembro-me vagamente de ter dito que queria estar ligado a Mecânica quando acabasse a carreira, talvez não existam carros na Suíça 🤣 Compartilhar este post Link para o post
Chandler Publicado 10 Setembro 2024 Citação de Jimpo, Em 09/09/2024 at 12:20: Não acredito que um jogador destes ganhe o "suficiente" porque acima de tudo a maioria deslumbra-se e não tem noção que a carreira acaba num instante. Quanto é que tu achas que pagam na primeira liga do Japão? Já nem falo do Paulo Machado. Conheço alguns jogadores que fizeram carreiras perfeitamente médias de primeira liga, ligas secundárias estrangeiras, e praticamente resolveram a vida deles. Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 10 Setembro 2024 Citação de Chandler, há 5 minutos: Quanto é que tu achas que pagam na primeira liga do Japão? Já nem falo do Paulo Machado. Conheço alguns jogadores que fizeram carreiras perfeitamente médias de primeira liga, ligas secundárias estrangeiras, e praticamente resolveram a vida deles. Tal como em todas as profissoes, a questao nao esta no que ganhas, esta no que gastas. Quem esta habituado a um certo estilo de vida se o continua a fazer apos o termino da carreira as economias vao rapido. Penso que é o Miguel Garcia que anda com um projeto desses porque foi alguém que nao fez uma carreira nada de extraordinaria e que esta bem na vida porque investiu corretamente. E viu que com muitos colegas que até tinham melhores contratos que ele nao se passou o mesmo. Mas nao tenho noçao de quanto se paga neste momento numa primeira divisao do Japao. Em Portugal a média da primeira liga, extra grandes, rondara os 5/7k? Compartilhar este post Link para o post
Chandler Publicado 10 Setembro 2024 Sim, é isso que dizes. É tudo uma questão de escolhas, mas o que digo é que a maioria deles, sem andar de Porsche, consegue orientar-se para o resto da vida sem ter que fazer muito mais daí em diante. 5/7 é um plantel de gama muito baixa, anda de certeza longe da média. Talvez a média do Nacional ou do Boavista andem perto disso. Mas houve jogadores a entrar no mercado de Janeiro do Estrela do ano passado - orçamento mais baixo da Liga - que vieram receber 20k. Por certo uma equipa como o Famalicão, por exemplo, terá muitos jogadores acima disso. Compartilhar este post Link para o post
a.lopes Publicado 10 Setembro 2024 Citação de Chandler, há 1 minuto: Sim, é isso que dizes. É tudo uma questão de escolhas, mas o que digo é que a maioria deles, sem andar de Porsche, consegue orientar-se para o resto da vida sem ter que fazer muito mais daí em diante. 5/7 é um plantel de gama muito baixa, anda de certeza longe da média. Talvez a média do Nacional ou do Boavista andem perto disso. Mas houve jogadores a entrar no mercado de Janeiro do Estrela do ano passado - orçamento mais baixo da Liga - que vieram receber 20k. Por certo uma equipa como o Famalicão, por exemplo, terá muitos jogadores acima disso. por mês? wow não sabia que pagavam tão bem lol Compartilhar este post Link para o post
Chandler Publicado 10 Setembro 2024 Por mês, sim. Já nem falo de prémios. Houve clubes na Liga 3 nestes anos que pagaram perto de 10k a alguns jogadores, por exemplo. Aliás, houve um clube que por vitória na fase de subida pagou este ano 500€ a cada elemento (jogadores, staff). Um orçamento muito baixo de 2ª liga deve pagar entre 2 a 3k a cada jogador neste momento, diria. O investimento externo veio mudar o paradigma. Contudo, não faltam países onde se ganha muito mais do que cá, às vezes sítios onde o nível competitivo é bem mais baixo. É tudo uma questão de ter o empresário certo. Compartilhar este post Link para o post
Jimpo Publicado 10 Setembro 2024 Citação de Chandler, há 21 minutos: O investimento externo veio mudar o paradigma. Contudo, não faltam países onde se ganha muito mais do que cá, às vezes sítios onde o nível competitivo é bem mais baixo. É tudo uma questão de ter o empresário certo. Mudou bem entao desde a altura em que eu tinha noçao de alguns salarios. O pessoal com quem lidei andou quase tudo pela Roménia/Chipre/Bulgaria e deu de certeza para economizar mas tiveram todos de arranjar trabalho apos a carreira acabar. Compartilhar este post Link para o post
Chandler Publicado 10 Setembro 2024 Conheço alguns assim, mas acho que alguns tem mesmo a ver com o que foram fazendo ao que ganharam. O futebol está cheio de histórias inacreditáveis com dinheiro: desde presidentes que chegam ao balneário antes do jogo com uma mala cheia de notas e dizem "estão aqui 50k para dividir por vocês se ganharem hoje" (e isto é história de segunda liga, presidente de SAD/estrangeiro), a contratos que para serem feitos com valores baixos (e fugir aos impostos) começam logo com um saco cheio de notas a abrir (que duplicava o valor anual), no momento de assinatura do contrato, tudo por baixo da mesa (e esta foi num país europeu que não um dos que disseste). Compartilhar este post Link para o post
lastdance Publicado 10 Setembro 2024 Citação de Chandler, há 4 minutos: Conheço alguns assim, mas acho que alguns tem mesmo a ver com o que foram fazendo ao que ganharam. O futebol está cheio de histórias inacreditáveis com dinheiro: desde presidentes que chegam ao balneário antes do jogo com uma mala cheia de notas e dizem "estão aqui 50k para dividir por vocês se ganharem hoje" (e isto é história de segunda liga, presidente de SAD/estrangeiro), a contratos que para serem feitos com valores baixos (e fugir aos impostos) começam logo com um saco cheio de notas a abrir (que duplicava o valor anual), no momento de assinatura do contrato, tudo por baixo da mesa (e esta foi num país europeu que não um dos que disseste). no outro dia apanhei o sagrado balneário do vitor pereira e ele dizia que na arabia os jogadores recebiam logo 90% ou la o que era do salário no inicio da época. Compartilhar este post Link para o post
O Pastel Publicado 11 Setembro 2024 Citação de Chandler, há 19 horas: Por mês, sim. Já nem falo de prémios. Houve clubes na Liga 3 nestes anos que pagaram perto de 10k a alguns jogadores, por exemplo. Aliás, houve um clube que por vitória na fase de subida pagou este ano 500€ a cada elemento (jogadores, staff). Um orçamento muito baixo de 2ª liga deve pagar entre 2 a 3k a cada jogador neste momento, diria. O investimento externo veio mudar o paradigma. Contudo, não faltam países onde se ganha muito mais do que cá, às vezes sítios onde o nível competitivo é bem mais baixo. É tudo uma questão de ter o empresário certo. Realmente nós não tínhamos a mínima capacidade para competir nos campeonatos profissionais... É uma pena que a maioria dos adeptos não tenha noção disso e colocasse uma pressão absurda nos jogadores. Vocês este ano com o Ferro, Nani, Jovane, Alan Ruiz também devem estar a pagar bem não? Compartilhar este post Link para o post
Chandler Publicado 11 Setembro 2024 Concordo com a primeira parte, acho que falei disso aqui algumas vezes. Quanto à segunda, honestamente não faço ideia. Não tenho nenhuma informação, mas notoriamente o plantel é mais caro - e parece melhor -, vamos ver é se isso se traduz em rendimento, que estas quatro jornadas não foram nada animadoras. Compartilhar este post Link para o post
Hammerfall Publicado 11 Setembro 2024 Era eu adolescente e o Aves andava na segunda, dava-me com pessoal da claque e ia ver alguns jogos, um deles chegou a ser "roupeiro" do clube por uma época Cheguei a saber o salário de um dos jogadores, 5k por mês Isto à coisa de 15 anos atrás Compartilhar este post Link para o post