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Tópico da Política, Ambiente e Economia

Publicações recomendadas

Estou a ouvir o podcast do Bitalk com o activo russo português. 

E a vontade que tenho de bater no homem é incontrolável. 

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Ouçam o debate quinzenal e o que disseram o Hugo Soares e o Montenegro. 

É que já não escondem.

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Que surpresa, o governo do Montenegro odiar greves e sindicatos.
Qualquer dia apresentam um pacote laboral a apresentar mais limites aos 2 /s

Editado por rcoelho14

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Citação de rcoelho14, há 1 hora:

Que surpresa, o governo do Montenegro odiar greves e sindicatos.
Qualquer dia apresentam um pacote laboral a apresentar mais limites aos 2 /s

O pacote já tem limites ao segundo a partir do momento que é o patrão que escolhe qual a convenção coletiva a aplicar, subvertendo o direito de contratação coletiva e podendo influenciar a sindicalização dos trabalhadores. E mesmo no direito à greve querem impor limitações em setores alargados, uma vez que querem generalizar os serviços mínimos para lá atividades consideradas hoje como sendo de “necessidade social impreterível”. Tu querendo fazer greve mas sendo um deles ou mentes à entidade patronal a dizer que estas doente ou então tens esse direito retirado.

Citação de Lifehouse, há 2 horas:

Ouçam o debate quinzenal e o que disseram o Hugo Soares e o Montenegro. 

É que já não escondem.

Ouvi uma parte. Tive de sair por causa do trabalho e porque já me estava a saltar a veia e antes que tenha aqui um AVC decidi abandonar. 

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Citação de Scirea, há 11 minutos:

O pacote já tem limites ao segundo a partir do momento que é o patrão que escolhe qual a convenção coletiva a aplicar, subvertendo o direito de contratação coletiva e podendo influenciar a sindicalização dos trabalhadores. E mesmo no direito à greve querem impor limitações em setores alargados, uma vez que querem generalizar os serviços mínimos para lá atividades consideradas hoje como sendo de “necessidade social impreterível”. Tu querendo fazer greve mas sendo um deles ou mentes à entidade patronal a dizer que estas doente ou então tens esse direito retirado.

Eu sei, daí o meu comentário irónico.

Eles querem poder impedir também os sindicatos de fazer ação sindical em empresas em que não tenham nenhum trabalhador associado ao seu sindicato.

Também querem que as empresas possam alegar dificuldades financeiras para ignorar os contratos coletivos de trabalho em vigor.

E toda a atitude deste governo diz uma coisa: só não acabam com direito à greve e aos sindicatos porque não podem.

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Citação de rcoelho14, há 2 minutos:

Eu sei, daí o meu comentário irónico.

Eles querem poder impedir também os sindicatos de fazer ação sindical em empresas em que não tenham nenhum trabalhador associado ao seu sindicato.

Também querem que as empresas possam alegar dificuldades financeiras para ignorar os contratos coletivos de trabalho em vigor.

E toda a atitude deste governo diz uma coisa: só não acabam com direito à greve e aos sindicatos porque não podem.

Essa a bold desconhecia mas também são tantas que uma pessoa a dada altura já não consegue acompanhar a bola de neve.

A postura do governo parece ser de "anda tudo a abusar da boa vontade dos patrões". 

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Citação de Scirea, há 2 minutos:

Essa a bold desconhecia mas também são tantas que uma pessoa a dada altura já não consegue acompanhar a bola de neve.

A postura do governo parece ser de "anda tudo a abusar da boa vontade dos patrões". 

São 100 alterações, e as que tiveram mais destaque foram as relacionadas com amamentação, direitos de pais de crianças pequenas e/ou com deficiência, e facilidade dos despedimentos.

É um balde de m*rda e com m*rda.

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Eu não esperava é que tanta gente ainda dissesse "mas, os patrões já dão emprego..."

  • Concordo! 1

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Montenegro "lamenta profundamente" transmissão na RTP2 de desenhos animados sobre identidade de género

Spoiler

Trata-se de uma resposta do primeiro-ministro depois de o CDS-PP ter apresentado um protesto pelo que a RTP2 fez

Durante o debate quinzenal desta manhã no Parlamento, o deputado do CDS Paulo Núncio referiu um programa transmitido pela RTP, às 19:25 de 16 de novembro, intitulado “Sex Symbols - Transgénero”. “Ao que nós chegámos”, comentou, considerando que se tratou de “um programa absolutamente lamentável e que chocou e indignou muitas famílias portuguesas”.

Núncio disse que o programa, que era dirigido a todo o público mas "claramente direcionado para as crianças", é “pura propaganda de ideologia de género”. No programa, dizia-se que "em vez de homem e de mulher, deverá passar a falar-se de ser fecundante e ser gestante", que "o género varia para satisfazer a identidade" e que" os meninos podem ser meninas e as meninas podem ser meninos através, simplesmente, do uso de hormonas”.

 

"É isto que nós queremos que os nossos filhos pequenos vejam e ouçam na televisão pública portuguesa? E eu respondo: não, não e não."

Paulo Núncio anunciou que “o CDS vai propor neste parlamento um voto de protesto pela transmissão destes programas na RTP” e quis saber a opinião de Luís Montenegro sobre esta matéria, enquanto primeiro-ministro e enquanto cidadão, lembrando que num congresso do PSD, em 2024, “teve a coragem de dizer que queria libertar a educação das amarras ideológicas e de fação”.

 

Ainda que reconhecesse não ter poderes para intervir na RTP, Luís Montenegro respondeu: “Lamento profundamente que o programa tenha sido emitido nos termos em que foi”. O primeiro-ministro subscreveu “na íntegra” as palavras do deputado do CDS e disse que isso “já ficou bem patente na própria política que o Governo vem seguindo na área da educação e, em particular, nas alterações à disciplina de cidadania”.

 

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Quando "Isto não é o Bangladesh" chega à escola

Citação

O caso do menino brasileiro com dedos amputados na escola levou vários pais e professores a denunciar nas redes sociais o entusiasmo de crianças e adolescentes com os slogans racistas e xenófobos do partido de extrema-direita. O DN recolheu o testemunho de vários destes cidadãos preocupados.

Spoiler

“A minha filha tem 13 anos, anda numa escola pública em Lisboa e conta-me que os colegas, sobretudo os rapazes, cantam ‘Chega, Chega’ e a música ‘Isto não é o Bangladesh’ no recreio.”

A informação vem de uma mulher de 43 anos cuja identidade o DN entende ocultar. A turma da filha, informa, tem muitas crianças filhas de imigrantes, várias delas de origem indostânica. Não são essas que cantam a música em causa, em cujo refrão se ouve, a rimar com Bangladesh, “tira os teus putos castanhos da minha creche”

Criada por um youtuber e divulgada num vídeo feito com recurso a Inteligência Artificial, alegadamente com o intuito de satirizar o discurso xenófobo e racista de André Ventura e do Chega (em alusão à menção, pelo líder e uma deputada do partido, de nomes de crianças alegadamente  matriculadas num jardim de infância lisboeta, para “provarem” tratar-se de crianças “zero portuguesas” que teriam precedência sobre as “nacionais”, menção essa que foi objeto de uma carta de repúdio de seis associações de pais, de uma queixa-crime e de um processo cível), a canção foi apropriada pelo partido, que colocou o título num cartaz (ato que foi igualmente objeto de ações judiciais).

A crer nos relatos que esta aluna do 8º ano faz à mãe, as crianças alvo da cantoria (ou seja, as oriundas do Bangladesh) não reagem: “Ou ignoram ou, se não ignoram, não fazem qualquer tipo de queixa.” Ao contrário, a filha de Sofia — vamos chamar-lhe assim — deu, em família, conta do seu incómodo. A mãe acha que essa sensibilidade se deverá em parte ao facto de terem sido elas próprias imigrantes no Reino Unido. “Estivemos sete anos no norte do país, e quando lá vivemos era a minha filha, como única portuguesa, a menina ‘diferente’. Dizia-nos que queria ser loira e de olhos azuis, queria ser igual às outras crianças. Pelo que acho que ela sente isto de uma forma mais pessoal.” 

A consciência da miúda também advirá, crê a mãe, de lá em casa, à hora do jantar, quando a família se reúne, falarem “muitas vezes destas questões da discriminação e do racismo sistémico”. Conversas que, supõe Sofia, não ocorrerão nas famílias dos miúdos que protagonizam os referidos cânticos, e que a filha descreve como “não imigrantes”. “Eles são um pouco papagaios nestas idades, repetem muito aquilo que ouvem”, reflete. “E a escola não faz nada em relação a isto.”

“Conhecem mais o Chega do que tudo o resto”

Não será bem assim. Ou melhor, depende. Dependendo de Rita (também não é o nome dela), 25 anos, professora de economia no secundário, na Grande Lisboa, a coisa não passa em claro. “No outro dia, numa turma que se porta particularmente mal, começaram a cantar o ‘Isto não é o Bangladesh’ durante uma aula. Exprimi o meu desagrado e quiseram saber porquê. Falei-lhes do estafeta imigrante que foi assassinado [Shamin Bhai, de 32 anos, natural do Bangladesh, mortalmente esfaqueado a 28 de setembro na Costa da Caparica, quando tentava recuperar a sua bicicleta, que lhe fora furtada]. Ficaram um bocado calados mas a seguir houve quem perguntasse ‘mas então o que é que ele estava a fazer?’”

Rita tem um sorriso amargo na voz. “Noutra turma estávamos a falar de literacia financeira e uns alunos perguntaram ‘Sabe o que é que andam a fazer? O André Ventura falou disso, os imigrantes estão a tirar as coisas da Segurança Social’. Perguntei ‘Estão a tirar o quê?’, responderam: ‘Estão a tirar dinheiro.’ Quando questionei como tiravam o dinheiro não me souberam responder, porque não percebem sequer do que estão a falar. Estes miúdos não veem debates, não veem TV, não veem notícias. Veem coisas de 10 segundos descontextualizadas, no TikTok. E têm uma grande tendência para dizer que é tudo corrupção, que é tudo roubar.”

Porém, nota Rita, aqui não se trata de pré-adolescentes, como no caso da escola da filha de Sofia, mas de jovens no 12º ano, alguns já com idade para votar. “Têm uma conversa bastante aberta comigo, dizem o que veem, quem seguem. E conhecem mais o Chega do que tudo o resto. Levam muito mais tempo a dizer o nome do primeiro-ministro do que o do líder do Chega. Para eles é tudo uma brincadeira, são um bocado infantis, não têm a consciência de que estas coisas têm um carácter político.

Aliás, informa esta professora, há jovens imigrantes que alinham nesse discurso. “Tenho muitos alunos cujos pais são oriundos dos PALOP, e um dos que disse que os imigrantes estão a tirar dinheiro da Segurança Social é imigrante ou filho de imigrantes. Claro que não lhe chamei a atenção para isso, mas pensei.” 

Como se lida com isso? “Eu sou o mais imparcial possível, como tem de ser”, responde Rita. “Tento ensinar pensamento crítico, dar informação.”

“Os ciganos não são de Portugal”

Os testemunhos de Sofia e Rita surgiram na sequência do noticiário sobre a agressão, numa escola do distrito de Viseu, a uma criança brasileira de 10 anos, a qual perdeu parte dos dedos de uma mão, entalada por colegas na porta da casa-de-banho. 

A tragédia, recorde-se, ocorreu a 10 de novembro e, dada a nacionalidade da vítima e o clima de hostilidade contra imigrantes de determinadas proveniências (entre as quais o Brasil, país de onde vem a maioria da imigração para Portugal) que tem vindo a ser alimentado por certos discursos políticos, surgiu de imediato a suspeita de que poderia ter sido motivada por discriminação

Uma suspeita que a mãe, Nivia Estevam, viria a adensar, narrando episódios anteriores: a 5 de novembro, afirmou aos media, o filho aparecera em casa com o pescoço marcado, tendo contado que um colega lhe puxara os cabelos e lhe dera pontapés; antes disso já comentara que a forma como falava português (com sotaque brasileiro) lhe era apontada amiúde por outros meninos, que se queixariam de não o perceber.

Para já, não há uma versão oficial dos motivos da ocorrência: o caso está a ser investigado pelas autoridades e é objeto de um inquérito interno na escola. Mas Nivia garante que os seus alertas anteriores, referindo os episódios citados, foram ignorados. E que no próprio dia em que o filho teve os dedos mutilados lhe disseram na escola que se tratara de “uma brincadeira que correu mal”, nem sequer a advertindo logo de que o menino, que quando a mãe chegou estava com a mão ligada, perdera parte dela (foi, diz, um bombeiro que, na ambulância para o hospital, lhe deu os dedos decepados do filho).

Face a estes relatos de Nivia, surgiram, no Instagram e Twitter/X, publicações dando testemunho de situações de discriminação protagonizadas quer por alunos quer por professores, assim como do entusiasmo de crianças e adolescentes com o partido de extrema-direita e os seus slogans e discurso anti-imigrantes. 

Publicações que, por sua vez, suscitaram comentários como o desta “mãe de três”, encontrado na conta de Instagram de @volksvargas: “Os mais velhos (13 e 11 anos) contam histórias de arrepiar sobre os colegas da turma gritarem ‘Chega’ no meio das aulas e andarem pelos corredores a cantar ‘O Ventura é o dono desta m*rda!’. A mais nova, de cinco anos, ontem chegou a casa a dizer que uma amiga da turma tinha dito que os ciganos não eram de Portugal. Com muita calma explicámos que na verdade os ciganos são de Portugal e que mesmo que não fossem isso não importa. Importa serem humanos. Isto assusta-me muito.

Outra, identificada como “mãe de um aluno do 10º, com 14 anos”, corrobora: “É verdade, miúdos repetem as frases xenófobas do Chega e gritam 'Chegaaaa' por tudo e mais alguma coisa.”

No mesmo local, o funcionário de uma escola de Tavira assevera ser o “Isto não é o Bangladesh” a música mais cantada, e um professor de Educação Visual do 8º ano comenta: “É assustadora a quantidade de miúdos que ouvi a cantarem o refrão da música em diferentes turmas”. 

“Se não percebes a pergunta, vai para a tua terra”

Trata-se, alegadamente, de cidadãos preocupados com aquilo que veem como um alastrar de slogans e ideias xenófobas e racistas entre os mais jovens — aquilo que, na citada carta de associações de pais e encarregados de educação em reação à utilização de nomes de crianças pelo Chega, é denominado de “narrativa de ódio” — e que o DN tentou ouvir, conseguindo chegar à fala com vários  (outros não responderam aos pedidos de contacto do jornal). 

Entre os que responderam, para além das já citadas Sofia e Rita, está Maria (outro nome fictício), de 48 anos, com um filho de 13 no 8º ano da escola secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Este contou-lhe que numa aula de Matemática a professora respondeu “se não percebes a pergunta, vai para a tua terra” a um aluno cuja língua materna não é o português.

Os colegas, narra Maria, protestaram de imediato e queixaram-se à direção, assim como aos respetivos pais, que pediram explicações à diretora de turma. O DN contactou a escola, identificando a professora e perguntando se se confirmam os factos relatados, O jornal quis também saber quais os procedimentos, se alguns, adotados. A primeira resposta, assinada pelo diretor, agradeceu o interesse do jornal mas foi pouco esclarecedora: “Neste momento estamos a diligenciar no sentido de saber efetivamente o que se passou na sala de aula, apesar de no momento do seu contacto já estarmos a acompanhar a situação”. O DN insistiu e a escola, desta vez num email assinado por toda a direção, certificou que "foram ouvidos todos os intervenientes e contextualizada a situação. Mais: não existiu/verifica, até ao momento presente, a entrada de qualquer queixa formal nos serviços da Escola Secundária Pedro Nunes".

Não há, na resposta, qualquer esclarecimento sobre o que significa a "contextualização da situação", tão-pouco a confirmação ou infirmação, que o jornal pediu logo de início, dos factos relatados, ou qualquer posicionamento sobre os mesmos.

Maria nem quer acreditar. “Se não houve queixa como ouviram os intervenientes? Adivinharam o que se passou na aula? O que é que a direção considera uma queixa? É uma participação à Inspeção Geral da Educação e Ciência? Se é o que querem, vão ter." Suspira. "Que história. Ainda assim, o que me animou foi a indignação geral dos miúdos. Porque vai sendo raro acontecer.”

Teresa, 41 anos, professora do 3º ano de escolaridade numa escola da Grande Lisboa, acredita, como a outra docente ouvida pelo DN, que só é derrotado quem desiste. E ela não desiste de tentar que os seus alunos aprendam a distinguir entre o certo e o errado — entre avaliar cada um pelo que faz e diz ou decidir que há grupos de pessoas, definidas pela origem, cor, etnia, nacionalidade, ou outra característica identitária, que merecem, à partida, animosidade e discriminação. Pelo que quando, em outubro, apanhou um deles, no regresso do recreio, a entoar “isto não é o Bangladesh” no meio da risada de alguns, disse-lhes para parar. “Ainda por cima tenho uma menina do Bangladesh naquela turma. Ela ficou um bocado parada, não sei se estava a assimilar a situação. Mas creio que depois, penso que pela forma como tratei do assunto, levou como uma brincadeira de mau gosto, sem outra intenção.”

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN.

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN. Arquivo DN

“Acho que temos medo, nós, professores”

E como tratou Teresa, a professora primária, do assunto? “Primeiro perguntei ao rapaz por que estava a cantar aquilo, e ele esclareceu que leu nos cartazes do Ventura, ‘que é o maior’. A seguir disse-lhes, com toda a calma, que é preciso ter cuidado, até porque os portugueses já estiveram em situações semelhantes. Expliquei o processo migratório que houve para França nos anos 60 do século passado, em busca de uma vida melhor, fugindo à pobreza, como foram tratados os portugueses e como viviam lá, e que há países de onde as pessoas fogem pelas mesmas razões ou por causa da guerra (tenho um aluno do Afeganistão e outro da Ucrânia). Perguntei-lhes o que achavam de serem colocados nessa situação. Falei-lhes também, até porque faz parte da matéria do 3º ano, de Estudo do Meio, na Declarações Universais dos Direitos da Criança e dos Direitos Humanos.” 

A reação foi satisfatória, crê. “Eles depois entendem que gostam uns dos outros e não querem que os meninos do Bangladesh e do Afeganistão se vão embora, querem que fiquem e reconhecem-lhes o direito de procurar uma vida melhor. Acho que os fez repensar. Pelo menos nunca mais se referiram a estrangeiros e até já me vieram fazer queixa de alunos de outras turmas que dizem ‘não sei o quê do Bangladesh’. Ou seja, fazem o processo contrário, assinalam o erro dos outros.”

Ainda assim, não está otimista. “Não sei se de hoje para amanhã não volta a acontecer. Porque em casa a aula de história será outra. Até porque não é a primeira vez que me deparo com este tipo de situação. Há dois anos fui professora no Norte e em relação aos alunos brasileiros surgiam alguns comentários um bocado tristes.” De que tipo? “Os zucas [de “brasuca”, termo derrisório para brasileiro] vêm para aqui, só querem tirar os empregos aos nossos pais, e esse tipo de comentários. Na altura, até com alunos do segundo ano [sete anos de idade].”

Questionada sobre se as escolas estão preparadas para lidar com esta realidade, Teresa hesita. “Depende muito de cada professor. Na minha sala de aula abordo esses temas da melhor maneira possível. Não garanto que isso se passe com os meus colegas. Quanto ao agrupamento, tem algumas atividades de inclusão, vamos fazendo algumas coisas. Mas sou muito sincera: acho que temos medo, nós, professores. Não falo de mim, mas sinto que há colegas que têm receio de entrar por esses campos. É como o tema da igualdade de género, há quem não aborde por medo de que os pais façam queixa. Acho que não se faz mais por medo.

Respira fundo. “E é terrível, porque estamos aqui a formar cidadãos. Eu falo para eles como futuros adultos, falo tudo o que tenho a falar, com o filtro necessário, para que eles possam, no futuro, tomar as decisões certas. Mas tenho a certeza de que tenho colegas que não o fazem porque no dia seguinte pode estar aqui um pai a dizer ‘Você falou do André Ventura, ou disto ou daquilo.’ Eu contorno: falo do regime fascista que existiu antes do 25 de Abril, e para eles um dia poderem comparar. E digo-lhes que a história nos ajuda a perceber o que está a acontecer, para não cometermos os mesmos erros. Porque antes de engenheiros, médicos, professores, estamos a formar pessoas. Eu estou a tentar.

 

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Agora sim, assim que mandarmos os monhés embora, que acabarmos com as casas de banho mistas, que passarmos a pagar menos 27 euros de irs por ano, o meu poder de compra, que agora é como o rio de São Pedro de Moel, que se some nas areias em plena praia ali, a dez metros do mar em maré cheia, vai finalmente desaguar de maneira que se possa dizer: "porra, finalmente o rio desaguou!",  agora sim vou ficar satisfeito com o estado do mundo, a minha felicidade está mesmo ao virar da esquina

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Citação de rcoelho14, há 31 minutos:

Quando "Isto não é o Bangladesh" chega à escola

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“A minha filha tem 13 anos, anda numa escola pública em Lisboa e conta-me que os colegas, sobretudo os rapazes, cantam ‘Chega, Chega’ e a música ‘Isto não é o Bangladesh’ no recreio.”

A informação vem de uma mulher de 43 anos cuja identidade o DN entende ocultar. A turma da filha, informa, tem muitas crianças filhas de imigrantes, várias delas de origem indostânica. Não são essas que cantam a música em causa, em cujo refrão se ouve, a rimar com Bangladesh, “tira os teus putos castanhos da minha creche”

Criada por um youtuber e divulgada num vídeo feito com recurso a Inteligência Artificial, alegadamente com o intuito de satirizar o discurso xenófobo e racista de André Ventura e do Chega (em alusão à menção, pelo líder e uma deputada do partido, de nomes de crianças alegadamente  matriculadas num jardim de infância lisboeta, para “provarem” tratar-se de crianças “zero portuguesas” que teriam precedência sobre as “nacionais”, menção essa que foi objeto de uma carta de repúdio de seis associações de pais, de uma queixa-crime e de um processo cível), a canção foi apropriada pelo partido, que colocou o título num cartaz (ato que foi igualmente objeto de ações judiciais).

A crer nos relatos que esta aluna do 8º ano faz à mãe, as crianças alvo da cantoria (ou seja, as oriundas do Bangladesh) não reagem: “Ou ignoram ou, se não ignoram, não fazem qualquer tipo de queixa.” Ao contrário, a filha de Sofia — vamos chamar-lhe assim — deu, em família, conta do seu incómodo. A mãe acha que essa sensibilidade se deverá em parte ao facto de terem sido elas próprias imigrantes no Reino Unido. “Estivemos sete anos no norte do país, e quando lá vivemos era a minha filha, como única portuguesa, a menina ‘diferente’. Dizia-nos que queria ser loira e de olhos azuis, queria ser igual às outras crianças. Pelo que acho que ela sente isto de uma forma mais pessoal.” 

A consciência da miúda também advirá, crê a mãe, de lá em casa, à hora do jantar, quando a família se reúne, falarem “muitas vezes destas questões da discriminação e do racismo sistémico”. Conversas que, supõe Sofia, não ocorrerão nas famílias dos miúdos que protagonizam os referidos cânticos, e que a filha descreve como “não imigrantes”. “Eles são um pouco papagaios nestas idades, repetem muito aquilo que ouvem”, reflete. “E a escola não faz nada em relação a isto.”

“Conhecem mais o Chega do que tudo o resto”

Não será bem assim. Ou melhor, depende. Dependendo de Rita (também não é o nome dela), 25 anos, professora de economia no secundário, na Grande Lisboa, a coisa não passa em claro. “No outro dia, numa turma que se porta particularmente mal, começaram a cantar o ‘Isto não é o Bangladesh’ durante uma aula. Exprimi o meu desagrado e quiseram saber porquê. Falei-lhes do estafeta imigrante que foi assassinado [Shamin Bhai, de 32 anos, natural do Bangladesh, mortalmente esfaqueado a 28 de setembro na Costa da Caparica, quando tentava recuperar a sua bicicleta, que lhe fora furtada]. Ficaram um bocado calados mas a seguir houve quem perguntasse ‘mas então o que é que ele estava a fazer?’”

Rita tem um sorriso amargo na voz. “Noutra turma estávamos a falar de literacia financeira e uns alunos perguntaram ‘Sabe o que é que andam a fazer? O André Ventura falou disso, os imigrantes estão a tirar as coisas da Segurança Social’. Perguntei ‘Estão a tirar o quê?’, responderam: ‘Estão a tirar dinheiro.’ Quando questionei como tiravam o dinheiro não me souberam responder, porque não percebem sequer do que estão a falar. Estes miúdos não veem debates, não veem TV, não veem notícias. Veem coisas de 10 segundos descontextualizadas, no TikTok. E têm uma grande tendência para dizer que é tudo corrupção, que é tudo roubar.”

Porém, nota Rita, aqui não se trata de pré-adolescentes, como no caso da escola da filha de Sofia, mas de jovens no 12º ano, alguns já com idade para votar. “Têm uma conversa bastante aberta comigo, dizem o que veem, quem seguem. E conhecem mais o Chega do que tudo o resto. Levam muito mais tempo a dizer o nome do primeiro-ministro do que o do líder do Chega. Para eles é tudo uma brincadeira, são um bocado infantis, não têm a consciência de que estas coisas têm um carácter político.

Aliás, informa esta professora, há jovens imigrantes que alinham nesse discurso. “Tenho muitos alunos cujos pais são oriundos dos PALOP, e um dos que disse que os imigrantes estão a tirar dinheiro da Segurança Social é imigrante ou filho de imigrantes. Claro que não lhe chamei a atenção para isso, mas pensei.” 

Como se lida com isso? “Eu sou o mais imparcial possível, como tem de ser”, responde Rita. “Tento ensinar pensamento crítico, dar informação.”

“Os ciganos não são de Portugal”

Os testemunhos de Sofia e Rita surgiram na sequência do noticiário sobre a agressão, numa escola do distrito de Viseu, a uma criança brasileira de 10 anos, a qual perdeu parte dos dedos de uma mão, entalada por colegas na porta da casa-de-banho. 

A tragédia, recorde-se, ocorreu a 10 de novembro e, dada a nacionalidade da vítima e o clima de hostilidade contra imigrantes de determinadas proveniências (entre as quais o Brasil, país de onde vem a maioria da imigração para Portugal) que tem vindo a ser alimentado por certos discursos políticos, surgiu de imediato a suspeita de que poderia ter sido motivada por discriminação

Uma suspeita que a mãe, Nivia Estevam, viria a adensar, narrando episódios anteriores: a 5 de novembro, afirmou aos media, o filho aparecera em casa com o pescoço marcado, tendo contado que um colega lhe puxara os cabelos e lhe dera pontapés; antes disso já comentara que a forma como falava português (com sotaque brasileiro) lhe era apontada amiúde por outros meninos, que se queixariam de não o perceber.

Para já, não há uma versão oficial dos motivos da ocorrência: o caso está a ser investigado pelas autoridades e é objeto de um inquérito interno na escola. Mas Nivia garante que os seus alertas anteriores, referindo os episódios citados, foram ignorados. E que no próprio dia em que o filho teve os dedos mutilados lhe disseram na escola que se tratara de “uma brincadeira que correu mal”, nem sequer a advertindo logo de que o menino, que quando a mãe chegou estava com a mão ligada, perdera parte dela (foi, diz, um bombeiro que, na ambulância para o hospital, lhe deu os dedos decepados do filho).

Face a estes relatos de Nivia, surgiram, no Instagram e Twitter/X, publicações dando testemunho de situações de discriminação protagonizadas quer por alunos quer por professores, assim como do entusiasmo de crianças e adolescentes com o partido de extrema-direita e os seus slogans e discurso anti-imigrantes. 

Publicações que, por sua vez, suscitaram comentários como o desta “mãe de três”, encontrado na conta de Instagram de @volksvargas: “Os mais velhos (13 e 11 anos) contam histórias de arrepiar sobre os colegas da turma gritarem ‘Chega’ no meio das aulas e andarem pelos corredores a cantar ‘O Ventura é o dono desta m*rda!’. A mais nova, de cinco anos, ontem chegou a casa a dizer que uma amiga da turma tinha dito que os ciganos não eram de Portugal. Com muita calma explicámos que na verdade os ciganos são de Portugal e que mesmo que não fossem isso não importa. Importa serem humanos. Isto assusta-me muito.

Outra, identificada como “mãe de um aluno do 10º, com 14 anos”, corrobora: “É verdade, miúdos repetem as frases xenófobas do Chega e gritam 'Chegaaaa' por tudo e mais alguma coisa.”

No mesmo local, o funcionário de uma escola de Tavira assevera ser o “Isto não é o Bangladesh” a música mais cantada, e um professor de Educação Visual do 8º ano comenta: “É assustadora a quantidade de miúdos que ouvi a cantarem o refrão da música em diferentes turmas”. 

“Se não percebes a pergunta, vai para a tua terra”

Trata-se, alegadamente, de cidadãos preocupados com aquilo que veem como um alastrar de slogans e ideias xenófobas e racistas entre os mais jovens — aquilo que, na citada carta de associações de pais e encarregados de educação em reação à utilização de nomes de crianças pelo Chega, é denominado de “narrativa de ódio” — e que o DN tentou ouvir, conseguindo chegar à fala com vários  (outros não responderam aos pedidos de contacto do jornal). 

Entre os que responderam, para além das já citadas Sofia e Rita, está Maria (outro nome fictício), de 48 anos, com um filho de 13 no 8º ano da escola secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Este contou-lhe que numa aula de Matemática a professora respondeu “se não percebes a pergunta, vai para a tua terra” a um aluno cuja língua materna não é o português.

Os colegas, narra Maria, protestaram de imediato e queixaram-se à direção, assim como aos respetivos pais, que pediram explicações à diretora de turma. O DN contactou a escola, identificando a professora e perguntando se se confirmam os factos relatados, O jornal quis também saber quais os procedimentos, se alguns, adotados. A primeira resposta, assinada pelo diretor, agradeceu o interesse do jornal mas foi pouco esclarecedora: “Neste momento estamos a diligenciar no sentido de saber efetivamente o que se passou na sala de aula, apesar de no momento do seu contacto já estarmos a acompanhar a situação”. O DN insistiu e a escola, desta vez num email assinado por toda a direção, certificou que "foram ouvidos todos os intervenientes e contextualizada a situação. Mais: não existiu/verifica, até ao momento presente, a entrada de qualquer queixa formal nos serviços da Escola Secundária Pedro Nunes".

Não há, na resposta, qualquer esclarecimento sobre o que significa a "contextualização da situação", tão-pouco a confirmação ou infirmação, que o jornal pediu logo de início, dos factos relatados, ou qualquer posicionamento sobre os mesmos.

Maria nem quer acreditar. “Se não houve queixa como ouviram os intervenientes? Adivinharam o que se passou na aula? O que é que a direção considera uma queixa? É uma participação à Inspeção Geral da Educação e Ciência? Se é o que querem, vão ter." Suspira. "Que história. Ainda assim, o que me animou foi a indignação geral dos miúdos. Porque vai sendo raro acontecer.”

Teresa, 41 anos, professora do 3º ano de escolaridade numa escola da Grande Lisboa, acredita, como a outra docente ouvida pelo DN, que só é derrotado quem desiste. E ela não desiste de tentar que os seus alunos aprendam a distinguir entre o certo e o errado — entre avaliar cada um pelo que faz e diz ou decidir que há grupos de pessoas, definidas pela origem, cor, etnia, nacionalidade, ou outra característica identitária, que merecem, à partida, animosidade e discriminação. Pelo que quando, em outubro, apanhou um deles, no regresso do recreio, a entoar “isto não é o Bangladesh” no meio da risada de alguns, disse-lhes para parar. “Ainda por cima tenho uma menina do Bangladesh naquela turma. Ela ficou um bocado parada, não sei se estava a assimilar a situação. Mas creio que depois, penso que pela forma como tratei do assunto, levou como uma brincadeira de mau gosto, sem outra intenção.”

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN.

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN. Arquivo DN

“Acho que temos medo, nós, professores”

E como tratou Teresa, a professora primária, do assunto? “Primeiro perguntei ao rapaz por que estava a cantar aquilo, e ele esclareceu que leu nos cartazes do Ventura, ‘que é o maior’. A seguir disse-lhes, com toda a calma, que é preciso ter cuidado, até porque os portugueses já estiveram em situações semelhantes. Expliquei o processo migratório que houve para França nos anos 60 do século passado, em busca de uma vida melhor, fugindo à pobreza, como foram tratados os portugueses e como viviam lá, e que há países de onde as pessoas fogem pelas mesmas razões ou por causa da guerra (tenho um aluno do Afeganistão e outro da Ucrânia). Perguntei-lhes o que achavam de serem colocados nessa situação. Falei-lhes também, até porque faz parte da matéria do 3º ano, de Estudo do Meio, na Declarações Universais dos Direitos da Criança e dos Direitos Humanos.” 

A reação foi satisfatória, crê. “Eles depois entendem que gostam uns dos outros e não querem que os meninos do Bangladesh e do Afeganistão se vão embora, querem que fiquem e reconhecem-lhes o direito de procurar uma vida melhor. Acho que os fez repensar. Pelo menos nunca mais se referiram a estrangeiros e até já me vieram fazer queixa de alunos de outras turmas que dizem ‘não sei o quê do Bangladesh’. Ou seja, fazem o processo contrário, assinalam o erro dos outros.”

Ainda assim, não está otimista. “Não sei se de hoje para amanhã não volta a acontecer. Porque em casa a aula de história será outra. Até porque não é a primeira vez que me deparo com este tipo de situação. Há dois anos fui professora no Norte e em relação aos alunos brasileiros surgiam alguns comentários um bocado tristes.” De que tipo? “Os zucas [de “brasuca”, termo derrisório para brasileiro] vêm para aqui, só querem tirar os empregos aos nossos pais, e esse tipo de comentários. Na altura, até com alunos do segundo ano [sete anos de idade].”

Questionada sobre se as escolas estão preparadas para lidar com esta realidade, Teresa hesita. “Depende muito de cada professor. Na minha sala de aula abordo esses temas da melhor maneira possível. Não garanto que isso se passe com os meus colegas. Quanto ao agrupamento, tem algumas atividades de inclusão, vamos fazendo algumas coisas. Mas sou muito sincera: acho que temos medo, nós, professores. Não falo de mim, mas sinto que há colegas que têm receio de entrar por esses campos. É como o tema da igualdade de género, há quem não aborde por medo de que os pais façam queixa. Acho que não se faz mais por medo.

Respira fundo. “E é terrível, porque estamos aqui a formar cidadãos. Eu falo para eles como futuros adultos, falo tudo o que tenho a falar, com o filtro necessário, para que eles possam, no futuro, tomar as decisões certas. Mas tenho a certeza de que tenho colegas que não o fazem porque no dia seguinte pode estar aqui um pai a dizer ‘Você falou do André Ventura, ou disto ou daquilo.’ Eu contorno: falo do regime fascista que existiu antes do 25 de Abril, e para eles um dia poderem comparar. E digo-lhes que a história nos ajuda a perceber o que está a acontecer, para não cometermos os mesmos erros. Porque antes de engenheiros, médicos, professores, estamos a formar pessoas. Eu estou a tentar.

 

Diz a mãe da aluna "a escola não faz nada em relação a isto"

Nem tem de fazer. A escola serve para transmitir conhecimentos, para educar estão lá os pais. A escola é um espaço social, uma mini sociedade onde as desigualdades são exponenciadas, agora pedir que a escola faça alguma coisa, é gozar com o papel assistencialista que muitas vezes as escolas já têm de fazer e não seriam da competência delas (desde refeições a miudos que não tomam o pequeno almoço com aulas as 8h até mediação para situações limite). Então diz-se que o filho deles é um rufia, que tem más notas porque não presta atenção nem estuda e aparecem a pedir satisfações porque o filho deles é sempre o melhor do mundo, não faz nada mal e quando erra a culpa é evidentemente da escola e dos malandros dos professores. Não lhes metam um telemóvel à frente do nariz mal sai da barriga da mãe porque não querem lidar com uma criança frustrada pelo tédio (oh desgraça o tédio, nem eles sabem lidar com ele); não cedam à pressão de não serem os "melhores amigos dos filhos" e não deixem ter redes sociais quando não têm maturidade para tal; criem regras em casa, direitos e deveres; tenham tanto "medo" de os deixar sair à noite e ficar bêbados ou consumir drogas como daquilo que os deixam ver online. Enfim, este discurso acontece porque muitos pais se desresponsabilizam de serem pais porque querem ser fixes, querem ser amigos dos filhos. Porque acreditam que os filhos são flores de estufa que se vão magoar por tudo e por nada. São os chamados pais helicóptero que andam sempre a sobrevoar tudo o que os filhos fazem mas nunca perto o suficiente para perceber o que se passa. A realidade para estes miúdos acontece no mundo físico e no mundo virtual. Quem decidiu ter filhos aceitou à priori um número de regras escondidas da contemporaneidade. Se não sabem lidar com elas não tenham filhos porque sim vão ter de os educar nestas circunstancias porque não há outras.

Editado por Scirea
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Citação de Lifehouse, há 5 horas:

Ouçam o debate quinzenal e o que disseram o Hugo Soares e o Montenegro. 

É que já não escondem.

Quase 2M votaram e voltariam a votar nisto.

 

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Citação de rcoelho14, há 52 minutos:

Quando "Isto não é o Bangladesh" chega à escola

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“A minha filha tem 13 anos, anda numa escola pública em Lisboa e conta-me que os colegas, sobretudo os rapazes, cantam ‘Chega, Chega’ e a música ‘Isto não é o Bangladesh’ no recreio.”

A informação vem de uma mulher de 43 anos cuja identidade o DN entende ocultar. A turma da filha, informa, tem muitas crianças filhas de imigrantes, várias delas de origem indostânica. Não são essas que cantam a música em causa, em cujo refrão se ouve, a rimar com Bangladesh, “tira os teus putos castanhos da minha creche”

Criada por um youtuber e divulgada num vídeo feito com recurso a Inteligência Artificial, alegadamente com o intuito de satirizar o discurso xenófobo e racista de André Ventura e do Chega (em alusão à menção, pelo líder e uma deputada do partido, de nomes de crianças alegadamente  matriculadas num jardim de infância lisboeta, para “provarem” tratar-se de crianças “zero portuguesas” que teriam precedência sobre as “nacionais”, menção essa que foi objeto de uma carta de repúdio de seis associações de pais, de uma queixa-crime e de um processo cível), a canção foi apropriada pelo partido, que colocou o título num cartaz (ato que foi igualmente objeto de ações judiciais).

A crer nos relatos que esta aluna do 8º ano faz à mãe, as crianças alvo da cantoria (ou seja, as oriundas do Bangladesh) não reagem: “Ou ignoram ou, se não ignoram, não fazem qualquer tipo de queixa.” Ao contrário, a filha de Sofia — vamos chamar-lhe assim — deu, em família, conta do seu incómodo. A mãe acha que essa sensibilidade se deverá em parte ao facto de terem sido elas próprias imigrantes no Reino Unido. “Estivemos sete anos no norte do país, e quando lá vivemos era a minha filha, como única portuguesa, a menina ‘diferente’. Dizia-nos que queria ser loira e de olhos azuis, queria ser igual às outras crianças. Pelo que acho que ela sente isto de uma forma mais pessoal.” 

A consciência da miúda também advirá, crê a mãe, de lá em casa, à hora do jantar, quando a família se reúne, falarem “muitas vezes destas questões da discriminação e do racismo sistémico”. Conversas que, supõe Sofia, não ocorrerão nas famílias dos miúdos que protagonizam os referidos cânticos, e que a filha descreve como “não imigrantes”. “Eles são um pouco papagaios nestas idades, repetem muito aquilo que ouvem”, reflete. “E a escola não faz nada em relação a isto.”

“Conhecem mais o Chega do que tudo o resto”

Não será bem assim. Ou melhor, depende. Dependendo de Rita (também não é o nome dela), 25 anos, professora de economia no secundário, na Grande Lisboa, a coisa não passa em claro. “No outro dia, numa turma que se porta particularmente mal, começaram a cantar o ‘Isto não é o Bangladesh’ durante uma aula. Exprimi o meu desagrado e quiseram saber porquê. Falei-lhes do estafeta imigrante que foi assassinado [Shamin Bhai, de 32 anos, natural do Bangladesh, mortalmente esfaqueado a 28 de setembro na Costa da Caparica, quando tentava recuperar a sua bicicleta, que lhe fora furtada]. Ficaram um bocado calados mas a seguir houve quem perguntasse ‘mas então o que é que ele estava a fazer?’”

Rita tem um sorriso amargo na voz. “Noutra turma estávamos a falar de literacia financeira e uns alunos perguntaram ‘Sabe o que é que andam a fazer? O André Ventura falou disso, os imigrantes estão a tirar as coisas da Segurança Social’. Perguntei ‘Estão a tirar o quê?’, responderam: ‘Estão a tirar dinheiro.’ Quando questionei como tiravam o dinheiro não me souberam responder, porque não percebem sequer do que estão a falar. Estes miúdos não veem debates, não veem TV, não veem notícias. Veem coisas de 10 segundos descontextualizadas, no TikTok. E têm uma grande tendência para dizer que é tudo corrupção, que é tudo roubar.”

Porém, nota Rita, aqui não se trata de pré-adolescentes, como no caso da escola da filha de Sofia, mas de jovens no 12º ano, alguns já com idade para votar. “Têm uma conversa bastante aberta comigo, dizem o que veem, quem seguem. E conhecem mais o Chega do que tudo o resto. Levam muito mais tempo a dizer o nome do primeiro-ministro do que o do líder do Chega. Para eles é tudo uma brincadeira, são um bocado infantis, não têm a consciência de que estas coisas têm um carácter político.

Aliás, informa esta professora, há jovens imigrantes que alinham nesse discurso. “Tenho muitos alunos cujos pais são oriundos dos PALOP, e um dos que disse que os imigrantes estão a tirar dinheiro da Segurança Social é imigrante ou filho de imigrantes. Claro que não lhe chamei a atenção para isso, mas pensei.” 

Como se lida com isso? “Eu sou o mais imparcial possível, como tem de ser”, responde Rita. “Tento ensinar pensamento crítico, dar informação.”

“Os ciganos não são de Portugal”

Os testemunhos de Sofia e Rita surgiram na sequência do noticiário sobre a agressão, numa escola do distrito de Viseu, a uma criança brasileira de 10 anos, a qual perdeu parte dos dedos de uma mão, entalada por colegas na porta da casa-de-banho. 

A tragédia, recorde-se, ocorreu a 10 de novembro e, dada a nacionalidade da vítima e o clima de hostilidade contra imigrantes de determinadas proveniências (entre as quais o Brasil, país de onde vem a maioria da imigração para Portugal) que tem vindo a ser alimentado por certos discursos políticos, surgiu de imediato a suspeita de que poderia ter sido motivada por discriminação

Uma suspeita que a mãe, Nivia Estevam, viria a adensar, narrando episódios anteriores: a 5 de novembro, afirmou aos media, o filho aparecera em casa com o pescoço marcado, tendo contado que um colega lhe puxara os cabelos e lhe dera pontapés; antes disso já comentara que a forma como falava português (com sotaque brasileiro) lhe era apontada amiúde por outros meninos, que se queixariam de não o perceber.

Para já, não há uma versão oficial dos motivos da ocorrência: o caso está a ser investigado pelas autoridades e é objeto de um inquérito interno na escola. Mas Nivia garante que os seus alertas anteriores, referindo os episódios citados, foram ignorados. E que no próprio dia em que o filho teve os dedos mutilados lhe disseram na escola que se tratara de “uma brincadeira que correu mal”, nem sequer a advertindo logo de que o menino, que quando a mãe chegou estava com a mão ligada, perdera parte dela (foi, diz, um bombeiro que, na ambulância para o hospital, lhe deu os dedos decepados do filho).

Face a estes relatos de Nivia, surgiram, no Instagram e Twitter/X, publicações dando testemunho de situações de discriminação protagonizadas quer por alunos quer por professores, assim como do entusiasmo de crianças e adolescentes com o partido de extrema-direita e os seus slogans e discurso anti-imigrantes. 

Publicações que, por sua vez, suscitaram comentários como o desta “mãe de três”, encontrado na conta de Instagram de @volksvargas: “Os mais velhos (13 e 11 anos) contam histórias de arrepiar sobre os colegas da turma gritarem ‘Chega’ no meio das aulas e andarem pelos corredores a cantar ‘O Ventura é o dono desta m*rda!’. A mais nova, de cinco anos, ontem chegou a casa a dizer que uma amiga da turma tinha dito que os ciganos não eram de Portugal. Com muita calma explicámos que na verdade os ciganos são de Portugal e que mesmo que não fossem isso não importa. Importa serem humanos. Isto assusta-me muito.

Outra, identificada como “mãe de um aluno do 10º, com 14 anos”, corrobora: “É verdade, miúdos repetem as frases xenófobas do Chega e gritam 'Chegaaaa' por tudo e mais alguma coisa.”

No mesmo local, o funcionário de uma escola de Tavira assevera ser o “Isto não é o Bangladesh” a música mais cantada, e um professor de Educação Visual do 8º ano comenta: “É assustadora a quantidade de miúdos que ouvi a cantarem o refrão da música em diferentes turmas”. 

“Se não percebes a pergunta, vai para a tua terra”

Trata-se, alegadamente, de cidadãos preocupados com aquilo que veem como um alastrar de slogans e ideias xenófobas e racistas entre os mais jovens — aquilo que, na citada carta de associações de pais e encarregados de educação em reação à utilização de nomes de crianças pelo Chega, é denominado de “narrativa de ódio” — e que o DN tentou ouvir, conseguindo chegar à fala com vários  (outros não responderam aos pedidos de contacto do jornal). 

Entre os que responderam, para além das já citadas Sofia e Rita, está Maria (outro nome fictício), de 48 anos, com um filho de 13 no 8º ano da escola secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Este contou-lhe que numa aula de Matemática a professora respondeu “se não percebes a pergunta, vai para a tua terra” a um aluno cuja língua materna não é o português.

Os colegas, narra Maria, protestaram de imediato e queixaram-se à direção, assim como aos respetivos pais, que pediram explicações à diretora de turma. O DN contactou a escola, identificando a professora e perguntando se se confirmam os factos relatados, O jornal quis também saber quais os procedimentos, se alguns, adotados. A primeira resposta, assinada pelo diretor, agradeceu o interesse do jornal mas foi pouco esclarecedora: “Neste momento estamos a diligenciar no sentido de saber efetivamente o que se passou na sala de aula, apesar de no momento do seu contacto já estarmos a acompanhar a situação”. O DN insistiu e a escola, desta vez num email assinado por toda a direção, certificou que "foram ouvidos todos os intervenientes e contextualizada a situação. Mais: não existiu/verifica, até ao momento presente, a entrada de qualquer queixa formal nos serviços da Escola Secundária Pedro Nunes".

Não há, na resposta, qualquer esclarecimento sobre o que significa a "contextualização da situação", tão-pouco a confirmação ou infirmação, que o jornal pediu logo de início, dos factos relatados, ou qualquer posicionamento sobre os mesmos.

Maria nem quer acreditar. “Se não houve queixa como ouviram os intervenientes? Adivinharam o que se passou na aula? O que é que a direção considera uma queixa? É uma participação à Inspeção Geral da Educação e Ciência? Se é o que querem, vão ter." Suspira. "Que história. Ainda assim, o que me animou foi a indignação geral dos miúdos. Porque vai sendo raro acontecer.”

Teresa, 41 anos, professora do 3º ano de escolaridade numa escola da Grande Lisboa, acredita, como a outra docente ouvida pelo DN, que só é derrotado quem desiste. E ela não desiste de tentar que os seus alunos aprendam a distinguir entre o certo e o errado — entre avaliar cada um pelo que faz e diz ou decidir que há grupos de pessoas, definidas pela origem, cor, etnia, nacionalidade, ou outra característica identitária, que merecem, à partida, animosidade e discriminação. Pelo que quando, em outubro, apanhou um deles, no regresso do recreio, a entoar “isto não é o Bangladesh” no meio da risada de alguns, disse-lhes para parar. “Ainda por cima tenho uma menina do Bangladesh naquela turma. Ela ficou um bocado parada, não sei se estava a assimilar a situação. Mas creio que depois, penso que pela forma como tratei do assunto, levou como uma brincadeira de mau gosto, sem outra intenção.”

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN.

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN. Arquivo DN

“Acho que temos medo, nós, professores”

E como tratou Teresa, a professora primária, do assunto? “Primeiro perguntei ao rapaz por que estava a cantar aquilo, e ele esclareceu que leu nos cartazes do Ventura, ‘que é o maior’. A seguir disse-lhes, com toda a calma, que é preciso ter cuidado, até porque os portugueses já estiveram em situações semelhantes. Expliquei o processo migratório que houve para França nos anos 60 do século passado, em busca de uma vida melhor, fugindo à pobreza, como foram tratados os portugueses e como viviam lá, e que há países de onde as pessoas fogem pelas mesmas razões ou por causa da guerra (tenho um aluno do Afeganistão e outro da Ucrânia). Perguntei-lhes o que achavam de serem colocados nessa situação. Falei-lhes também, até porque faz parte da matéria do 3º ano, de Estudo do Meio, na Declarações Universais dos Direitos da Criança e dos Direitos Humanos.” 

A reação foi satisfatória, crê. “Eles depois entendem que gostam uns dos outros e não querem que os meninos do Bangladesh e do Afeganistão se vão embora, querem que fiquem e reconhecem-lhes o direito de procurar uma vida melhor. Acho que os fez repensar. Pelo menos nunca mais se referiram a estrangeiros e até já me vieram fazer queixa de alunos de outras turmas que dizem ‘não sei o quê do Bangladesh’. Ou seja, fazem o processo contrário, assinalam o erro dos outros.”

Ainda assim, não está otimista. “Não sei se de hoje para amanhã não volta a acontecer. Porque em casa a aula de história será outra. Até porque não é a primeira vez que me deparo com este tipo de situação. Há dois anos fui professora no Norte e em relação aos alunos brasileiros surgiam alguns comentários um bocado tristes.” De que tipo? “Os zucas [de “brasuca”, termo derrisório para brasileiro] vêm para aqui, só querem tirar os empregos aos nossos pais, e esse tipo de comentários. Na altura, até com alunos do segundo ano [sete anos de idade].”

Questionada sobre se as escolas estão preparadas para lidar com esta realidade, Teresa hesita. “Depende muito de cada professor. Na minha sala de aula abordo esses temas da melhor maneira possível. Não garanto que isso se passe com os meus colegas. Quanto ao agrupamento, tem algumas atividades de inclusão, vamos fazendo algumas coisas. Mas sou muito sincera: acho que temos medo, nós, professores. Não falo de mim, mas sinto que há colegas que têm receio de entrar por esses campos. É como o tema da igualdade de género, há quem não aborde por medo de que os pais façam queixa. Acho que não se faz mais por medo.

Respira fundo. “E é terrível, porque estamos aqui a formar cidadãos. Eu falo para eles como futuros adultos, falo tudo o que tenho a falar, com o filtro necessário, para que eles possam, no futuro, tomar as decisões certas. Mas tenho a certeza de que tenho colegas que não o fazem porque no dia seguinte pode estar aqui um pai a dizer ‘Você falou do André Ventura, ou disto ou daquilo.’ Eu contorno: falo do regime fascista que existiu antes do 25 de Abril, e para eles um dia poderem comparar. E digo-lhes que a história nos ajuda a perceber o que está a acontecer, para não cometermos os mesmos erros. Porque antes de engenheiros, médicos, professores, estamos a formar pessoas. Eu estou a tentar.

 

Está tudo bem.

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Citação de Plagio o Original, há 1 hora:

Agora sim, assim que mandarmos os monhés embora, que acabarmos com as casas de banho mistas, que passarmos a pagar menos 27 euros de irs por ano, o meu poder de compra, que agora é como o rio de São Pedro de Moel, que se some nas areias em plena praia ali, a dez metros do mar em maré cheia, vai finalmente desaguar de maneira que se possa dizer: "porra, finalmente o rio desaguou!",  agora sim vou ficar satisfeito com o estado do mundo, a minha felicidade está mesmo ao virar da esquina

Ok, são só 27 euros por ano no irs, mas imagina meteres isso no sp 500? 27 * 0.11 de retorno ao ano = 2.97, por tanto no final fazes 29.97, imagina isso composto ao longo de 10 anos

Editado por Plagio o Original

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Citação de rcoelho14, há 2 horas:

Quando "Isto não é o Bangladesh" chega à escola

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Citação de SAS_Robben, Em 25/11/2025 at 21:12:

Eu tenho um sonho: viver o tempo suficiente para mijar na campa do Ventura.

 

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Citação de Scirea, há 2 horas:

Diz a mãe da aluna "a escola não faz nada em relação a isto"

Nem tem de fazer. A escola serve para transmitir conhecimentos, para educar estão lá os pais. A escola é um espaço social, uma mini sociedade onde as desigualdades são exponenciadas, agora pedir que a escola faça alguma coisa, é gozar com o papel assistencialista que muitas vezes as escolas já têm de fazer e não seriam da competência delas (desde refeições a miudos que não tomam o pequeno almoço com aulas as 8h até mediação para situações limite). Então diz-se que o filho deles é um rufia, que tem más notas porque não presta atenção nem estuda e aparecem a pedir satisfações porque o filho deles é sempre o melhor do mundo, não faz nada mal e quando erra a culpa é evidentemente da escola e dos malandros dos professores. Não lhes metam um telemóvel à frente do nariz mal sai da barriga da mãe porque não querem lidar com uma criança frustrada pelo tédio (oh desgraça o tédio, nem eles sabem lidar com ele); não cedam à pressão de não serem os "melhores amigos dos filhos" e não deixem ter redes sociais quando não têm maturidade para tal; criem regras em casa, direitos e deveres; tenham tanto "medo" de os deixar sair à noite e ficar bêbados ou consumir drogas como daquilo que os deixam ver online. Enfim, este discurso acontece porque muitos pais se desresponsabilizam de serem pais porque querem ser fixes, querem ser amigos dos filhos. Porque acreditam que os filhos são flores de estufa que se vão magoar por tudo e por nada. São os chamados pais helicóptero que andam sempre a sobrevoar tudo o que os filhos fazem mas nunca perto o suficiente para perceber o que se passa. A realidade para estes miúdos acontece no mundo físico e no mundo virtual. Quem decidiu ter filhos aceitou à priori um número de regras escondidas da contemporaneidade. Se não sabem lidar com elas não tenham filhos porque sim vão ter de os educar nestas circunstancias porque não há outras.

Em relação a estas matérias só tenho a certeza de uma coisa: a solução não está nos pais acusarem as escolas de não fazerem nada e das escolas acusarem os pais de nada fazerem enquanto as crianças estão a ser educadas pela Rita Matias no TikTok.

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Citação de rcoelho14, há 3 horas:

Quando "Isto não é o Bangladesh" chega à escola

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“A minha filha tem 13 anos, anda numa escola pública em Lisboa e conta-me que os colegas, sobretudo os rapazes, cantam ‘Chega, Chega’ e a música ‘Isto não é o Bangladesh’ no recreio.”

A informação vem de uma mulher de 43 anos cuja identidade o DN entende ocultar. A turma da filha, informa, tem muitas crianças filhas de imigrantes, várias delas de origem indostânica. Não são essas que cantam a música em causa, em cujo refrão se ouve, a rimar com Bangladesh, “tira os teus putos castanhos da minha creche”

Criada por um youtuber e divulgada num vídeo feito com recurso a Inteligência Artificial, alegadamente com o intuito de satirizar o discurso xenófobo e racista de André Ventura e do Chega (em alusão à menção, pelo líder e uma deputada do partido, de nomes de crianças alegadamente  matriculadas num jardim de infância lisboeta, para “provarem” tratar-se de crianças “zero portuguesas” que teriam precedência sobre as “nacionais”, menção essa que foi objeto de uma carta de repúdio de seis associações de pais, de uma queixa-crime e de um processo cível), a canção foi apropriada pelo partido, que colocou o título num cartaz (ato que foi igualmente objeto de ações judiciais).

A crer nos relatos que esta aluna do 8º ano faz à mãe, as crianças alvo da cantoria (ou seja, as oriundas do Bangladesh) não reagem: “Ou ignoram ou, se não ignoram, não fazem qualquer tipo de queixa.” Ao contrário, a filha de Sofia — vamos chamar-lhe assim — deu, em família, conta do seu incómodo. A mãe acha que essa sensibilidade se deverá em parte ao facto de terem sido elas próprias imigrantes no Reino Unido. “Estivemos sete anos no norte do país, e quando lá vivemos era a minha filha, como única portuguesa, a menina ‘diferente’. Dizia-nos que queria ser loira e de olhos azuis, queria ser igual às outras crianças. Pelo que acho que ela sente isto de uma forma mais pessoal.” 

A consciência da miúda também advirá, crê a mãe, de lá em casa, à hora do jantar, quando a família se reúne, falarem “muitas vezes destas questões da discriminação e do racismo sistémico”. Conversas que, supõe Sofia, não ocorrerão nas famílias dos miúdos que protagonizam os referidos cânticos, e que a filha descreve como “não imigrantes”. “Eles são um pouco papagaios nestas idades, repetem muito aquilo que ouvem”, reflete. “E a escola não faz nada em relação a isto.”

“Conhecem mais o Chega do que tudo o resto”

Não será bem assim. Ou melhor, depende. Dependendo de Rita (também não é o nome dela), 25 anos, professora de economia no secundário, na Grande Lisboa, a coisa não passa em claro. “No outro dia, numa turma que se porta particularmente mal, começaram a cantar o ‘Isto não é o Bangladesh’ durante uma aula. Exprimi o meu desagrado e quiseram saber porquê. Falei-lhes do estafeta imigrante que foi assassinado [Shamin Bhai, de 32 anos, natural do Bangladesh, mortalmente esfaqueado a 28 de setembro na Costa da Caparica, quando tentava recuperar a sua bicicleta, que lhe fora furtada]. Ficaram um bocado calados mas a seguir houve quem perguntasse ‘mas então o que é que ele estava a fazer?’”

Rita tem um sorriso amargo na voz. “Noutra turma estávamos a falar de literacia financeira e uns alunos perguntaram ‘Sabe o que é que andam a fazer? O André Ventura falou disso, os imigrantes estão a tirar as coisas da Segurança Social’. Perguntei ‘Estão a tirar o quê?’, responderam: ‘Estão a tirar dinheiro.’ Quando questionei como tiravam o dinheiro não me souberam responder, porque não percebem sequer do que estão a falar. Estes miúdos não veem debates, não veem TV, não veem notícias. Veem coisas de 10 segundos descontextualizadas, no TikTok. E têm uma grande tendência para dizer que é tudo corrupção, que é tudo roubar.”

Porém, nota Rita, aqui não se trata de pré-adolescentes, como no caso da escola da filha de Sofia, mas de jovens no 12º ano, alguns já com idade para votar. “Têm uma conversa bastante aberta comigo, dizem o que veem, quem seguem. E conhecem mais o Chega do que tudo o resto. Levam muito mais tempo a dizer o nome do primeiro-ministro do que o do líder do Chega. Para eles é tudo uma brincadeira, são um bocado infantis, não têm a consciência de que estas coisas têm um carácter político.

Aliás, informa esta professora, há jovens imigrantes que alinham nesse discurso. “Tenho muitos alunos cujos pais são oriundos dos PALOP, e um dos que disse que os imigrantes estão a tirar dinheiro da Segurança Social é imigrante ou filho de imigrantes. Claro que não lhe chamei a atenção para isso, mas pensei.” 

Como se lida com isso? “Eu sou o mais imparcial possível, como tem de ser”, responde Rita. “Tento ensinar pensamento crítico, dar informação.”

“Os ciganos não são de Portugal”

Os testemunhos de Sofia e Rita surgiram na sequência do noticiário sobre a agressão, numa escola do distrito de Viseu, a uma criança brasileira de 10 anos, a qual perdeu parte dos dedos de uma mão, entalada por colegas na porta da casa-de-banho. 

A tragédia, recorde-se, ocorreu a 10 de novembro e, dada a nacionalidade da vítima e o clima de hostilidade contra imigrantes de determinadas proveniências (entre as quais o Brasil, país de onde vem a maioria da imigração para Portugal) que tem vindo a ser alimentado por certos discursos políticos, surgiu de imediato a suspeita de que poderia ter sido motivada por discriminação

Uma suspeita que a mãe, Nivia Estevam, viria a adensar, narrando episódios anteriores: a 5 de novembro, afirmou aos media, o filho aparecera em casa com o pescoço marcado, tendo contado que um colega lhe puxara os cabelos e lhe dera pontapés; antes disso já comentara que a forma como falava português (com sotaque brasileiro) lhe era apontada amiúde por outros meninos, que se queixariam de não o perceber.

Para já, não há uma versão oficial dos motivos da ocorrência: o caso está a ser investigado pelas autoridades e é objeto de um inquérito interno na escola. Mas Nivia garante que os seus alertas anteriores, referindo os episódios citados, foram ignorados. E que no próprio dia em que o filho teve os dedos mutilados lhe disseram na escola que se tratara de “uma brincadeira que correu mal”, nem sequer a advertindo logo de que o menino, que quando a mãe chegou estava com a mão ligada, perdera parte dela (foi, diz, um bombeiro que, na ambulância para o hospital, lhe deu os dedos decepados do filho).

Face a estes relatos de Nivia, surgiram, no Instagram e Twitter/X, publicações dando testemunho de situações de discriminação protagonizadas quer por alunos quer por professores, assim como do entusiasmo de crianças e adolescentes com o partido de extrema-direita e os seus slogans e discurso anti-imigrantes. 

Publicações que, por sua vez, suscitaram comentários como o desta “mãe de três”, encontrado na conta de Instagram de @volksvargas: “Os mais velhos (13 e 11 anos) contam histórias de arrepiar sobre os colegas da turma gritarem ‘Chega’ no meio das aulas e andarem pelos corredores a cantar ‘O Ventura é o dono desta m*rda!’. A mais nova, de cinco anos, ontem chegou a casa a dizer que uma amiga da turma tinha dito que os ciganos não eram de Portugal. Com muita calma explicámos que na verdade os ciganos são de Portugal e que mesmo que não fossem isso não importa. Importa serem humanos. Isto assusta-me muito.

Outra, identificada como “mãe de um aluno do 10º, com 14 anos”, corrobora: “É verdade, miúdos repetem as frases xenófobas do Chega e gritam 'Chegaaaa' por tudo e mais alguma coisa.”

No mesmo local, o funcionário de uma escola de Tavira assevera ser o “Isto não é o Bangladesh” a música mais cantada, e um professor de Educação Visual do 8º ano comenta: “É assustadora a quantidade de miúdos que ouvi a cantarem o refrão da música em diferentes turmas”. 

“Se não percebes a pergunta, vai para a tua terra”

Trata-se, alegadamente, de cidadãos preocupados com aquilo que veem como um alastrar de slogans e ideias xenófobas e racistas entre os mais jovens — aquilo que, na citada carta de associações de pais e encarregados de educação em reação à utilização de nomes de crianças pelo Chega, é denominado de “narrativa de ódio” — e que o DN tentou ouvir, conseguindo chegar à fala com vários  (outros não responderam aos pedidos de contacto do jornal). 

Entre os que responderam, para além das já citadas Sofia e Rita, está Maria (outro nome fictício), de 48 anos, com um filho de 13 no 8º ano da escola secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Este contou-lhe que numa aula de Matemática a professora respondeu “se não percebes a pergunta, vai para a tua terra” a um aluno cuja língua materna não é o português.

Os colegas, narra Maria, protestaram de imediato e queixaram-se à direção, assim como aos respetivos pais, que pediram explicações à diretora de turma. O DN contactou a escola, identificando a professora e perguntando se se confirmam os factos relatados, O jornal quis também saber quais os procedimentos, se alguns, adotados. A primeira resposta, assinada pelo diretor, agradeceu o interesse do jornal mas foi pouco esclarecedora: “Neste momento estamos a diligenciar no sentido de saber efetivamente o que se passou na sala de aula, apesar de no momento do seu contacto já estarmos a acompanhar a situação”. O DN insistiu e a escola, desta vez num email assinado por toda a direção, certificou que "foram ouvidos todos os intervenientes e contextualizada a situação. Mais: não existiu/verifica, até ao momento presente, a entrada de qualquer queixa formal nos serviços da Escola Secundária Pedro Nunes".

Não há, na resposta, qualquer esclarecimento sobre o que significa a "contextualização da situação", tão-pouco a confirmação ou infirmação, que o jornal pediu logo de início, dos factos relatados, ou qualquer posicionamento sobre os mesmos.

Maria nem quer acreditar. “Se não houve queixa como ouviram os intervenientes? Adivinharam o que se passou na aula? O que é que a direção considera uma queixa? É uma participação à Inspeção Geral da Educação e Ciência? Se é o que querem, vão ter." Suspira. "Que história. Ainda assim, o que me animou foi a indignação geral dos miúdos. Porque vai sendo raro acontecer.”

Teresa, 41 anos, professora do 3º ano de escolaridade numa escola da Grande Lisboa, acredita, como a outra docente ouvida pelo DN, que só é derrotado quem desiste. E ela não desiste de tentar que os seus alunos aprendam a distinguir entre o certo e o errado — entre avaliar cada um pelo que faz e diz ou decidir que há grupos de pessoas, definidas pela origem, cor, etnia, nacionalidade, ou outra característica identitária, que merecem, à partida, animosidade e discriminação. Pelo que quando, em outubro, apanhou um deles, no regresso do recreio, a entoar “isto não é o Bangladesh” no meio da risada de alguns, disse-lhes para parar. “Ainda por cima tenho uma menina do Bangladesh naquela turma. Ela ficou um bocado parada, não sei se estava a assimilar a situação. Mas creio que depois, penso que pela forma como tratei do assunto, levou como uma brincadeira de mau gosto, sem outra intenção.”

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN.

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN. Arquivo DN

“Acho que temos medo, nós, professores”

E como tratou Teresa, a professora primária, do assunto? “Primeiro perguntei ao rapaz por que estava a cantar aquilo, e ele esclareceu que leu nos cartazes do Ventura, ‘que é o maior’. A seguir disse-lhes, com toda a calma, que é preciso ter cuidado, até porque os portugueses já estiveram em situações semelhantes. Expliquei o processo migratório que houve para França nos anos 60 do século passado, em busca de uma vida melhor, fugindo à pobreza, como foram tratados os portugueses e como viviam lá, e que há países de onde as pessoas fogem pelas mesmas razões ou por causa da guerra (tenho um aluno do Afeganistão e outro da Ucrânia). Perguntei-lhes o que achavam de serem colocados nessa situação. Falei-lhes também, até porque faz parte da matéria do 3º ano, de Estudo do Meio, na Declarações Universais dos Direitos da Criança e dos Direitos Humanos.” 

A reação foi satisfatória, crê. “Eles depois entendem que gostam uns dos outros e não querem que os meninos do Bangladesh e do Afeganistão se vão embora, querem que fiquem e reconhecem-lhes o direito de procurar uma vida melhor. Acho que os fez repensar. Pelo menos nunca mais se referiram a estrangeiros e até já me vieram fazer queixa de alunos de outras turmas que dizem ‘não sei o quê do Bangladesh’. Ou seja, fazem o processo contrário, assinalam o erro dos outros.”

Ainda assim, não está otimista. “Não sei se de hoje para amanhã não volta a acontecer. Porque em casa a aula de história será outra. Até porque não é a primeira vez que me deparo com este tipo de situação. Há dois anos fui professora no Norte e em relação aos alunos brasileiros surgiam alguns comentários um bocado tristes.” De que tipo? “Os zucas [de “brasuca”, termo derrisório para brasileiro] vêm para aqui, só querem tirar os empregos aos nossos pais, e esse tipo de comentários. Na altura, até com alunos do segundo ano [sete anos de idade].”

Questionada sobre se as escolas estão preparadas para lidar com esta realidade, Teresa hesita. “Depende muito de cada professor. Na minha sala de aula abordo esses temas da melhor maneira possível. Não garanto que isso se passe com os meus colegas. Quanto ao agrupamento, tem algumas atividades de inclusão, vamos fazendo algumas coisas. Mas sou muito sincera: acho que temos medo, nós, professores. Não falo de mim, mas sinto que há colegas que têm receio de entrar por esses campos. É como o tema da igualdade de género, há quem não aborde por medo de que os pais façam queixa. Acho que não se faz mais por medo.

Respira fundo. “E é terrível, porque estamos aqui a formar cidadãos. Eu falo para eles como futuros adultos, falo tudo o que tenho a falar, com o filtro necessário, para que eles possam, no futuro, tomar as decisões certas. Mas tenho a certeza de que tenho colegas que não o fazem porque no dia seguinte pode estar aqui um pai a dizer ‘Você falou do André Ventura, ou disto ou daquilo.’ Eu contorno: falo do regime fascista que existiu antes do 25 de Abril, e para eles um dia poderem comparar. E digo-lhes que a história nos ajuda a perceber o que está a acontecer, para não cometermos os mesmos erros. Porque antes de engenheiros, médicos, professores, estamos a formar pessoas. Eu estou a tentar.

 

Isto é gravíssimo. Ou os pais se estão a demitir da sua função de educar os filhos ou então temos uma geração de pais a criar pessoas socialmente tóxicas.

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Citação de fornix, há 11 horas:

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Mas hey, segundo a Sra. Ministra, nem todos querem um trabalho com estabilidade. Bom, bom é andar com contratos a termo ad eternum. 

 

Isto é verdade. Apanho cada vez mais pessoas que nem contrato querem e preferem ter liberdade 

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mas vocês lembram-se de ter 13 anos? mas quais pais? Que puto de 13 anos ouve os pais ou partilha das ideias deles? Juízo. A culpa é da internet. E não é o tempo de acesso que eles têm à internet, é A internet. A única maneira de acabar com isto é acabar com a internet. Era para ontem, na verdade

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Citação de Rain Dog, há 19 minutos:

mas vocês lembram-se de ter 13 anos? mas quais pais? Que puto de 13 anos ouve os pais ou partilha das ideias deles? Juízo. A culpa é da internet. E não é o tempo de acesso que eles têm à internet, é A internet. A única maneira de acabar com isto é acabar com a internet. Era para ontem, na verdade

Mas que 13 anos? Com 8 ou menos já têm o seu telemóvel na mão.

E podem não ouvir os pais aos 13 mas ouvem antes. E talvez seja boa ideia educar os filhos, transmitir-lhes conhecimentos, valores e tudo o resto. Claro que o grande problema é que uma grande parte da população continua a ser muitíssimo limitada e pouco evoluída e as crianças estão logo nas mãos de quem controla o discurso no mundo virtual.

  • Concordo! 2

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Citação de rcoelho14, há 6 horas:

Quando "Isto não é o Bangladesh" chega à escola

  Mostrar conteúdo oculto

“A minha filha tem 13 anos, anda numa escola pública em Lisboa e conta-me que os colegas, sobretudo os rapazes, cantam ‘Chega, Chega’ e a música ‘Isto não é o Bangladesh’ no recreio.”

A informação vem de uma mulher de 43 anos cuja identidade o DN entende ocultar. A turma da filha, informa, tem muitas crianças filhas de imigrantes, várias delas de origem indostânica. Não são essas que cantam a música em causa, em cujo refrão se ouve, a rimar com Bangladesh, “tira os teus putos castanhos da minha creche”

Criada por um youtuber e divulgada num vídeo feito com recurso a Inteligência Artificial, alegadamente com o intuito de satirizar o discurso xenófobo e racista de André Ventura e do Chega (em alusão à menção, pelo líder e uma deputada do partido, de nomes de crianças alegadamente  matriculadas num jardim de infância lisboeta, para “provarem” tratar-se de crianças “zero portuguesas” que teriam precedência sobre as “nacionais”, menção essa que foi objeto de uma carta de repúdio de seis associações de pais, de uma queixa-crime e de um processo cível), a canção foi apropriada pelo partido, que colocou o título num cartaz (ato que foi igualmente objeto de ações judiciais).

A crer nos relatos que esta aluna do 8º ano faz à mãe, as crianças alvo da cantoria (ou seja, as oriundas do Bangladesh) não reagem: “Ou ignoram ou, se não ignoram, não fazem qualquer tipo de queixa.” Ao contrário, a filha de Sofia — vamos chamar-lhe assim — deu, em família, conta do seu incómodo. A mãe acha que essa sensibilidade se deverá em parte ao facto de terem sido elas próprias imigrantes no Reino Unido. “Estivemos sete anos no norte do país, e quando lá vivemos era a minha filha, como única portuguesa, a menina ‘diferente’. Dizia-nos que queria ser loira e de olhos azuis, queria ser igual às outras crianças. Pelo que acho que ela sente isto de uma forma mais pessoal.” 

A consciência da miúda também advirá, crê a mãe, de lá em casa, à hora do jantar, quando a família se reúne, falarem “muitas vezes destas questões da discriminação e do racismo sistémico”. Conversas que, supõe Sofia, não ocorrerão nas famílias dos miúdos que protagonizam os referidos cânticos, e que a filha descreve como “não imigrantes”. “Eles são um pouco papagaios nestas idades, repetem muito aquilo que ouvem”, reflete. “E a escola não faz nada em relação a isto.”

“Conhecem mais o Chega do que tudo o resto”

Não será bem assim. Ou melhor, depende. Dependendo de Rita (também não é o nome dela), 25 anos, professora de economia no secundário, na Grande Lisboa, a coisa não passa em claro. “No outro dia, numa turma que se porta particularmente mal, começaram a cantar o ‘Isto não é o Bangladesh’ durante uma aula. Exprimi o meu desagrado e quiseram saber porquê. Falei-lhes do estafeta imigrante que foi assassinado [Shamin Bhai, de 32 anos, natural do Bangladesh, mortalmente esfaqueado a 28 de setembro na Costa da Caparica, quando tentava recuperar a sua bicicleta, que lhe fora furtada]. Ficaram um bocado calados mas a seguir houve quem perguntasse ‘mas então o que é que ele estava a fazer?’”

Rita tem um sorriso amargo na voz. “Noutra turma estávamos a falar de literacia financeira e uns alunos perguntaram ‘Sabe o que é que andam a fazer? O André Ventura falou disso, os imigrantes estão a tirar as coisas da Segurança Social’. Perguntei ‘Estão a tirar o quê?’, responderam: ‘Estão a tirar dinheiro.’ Quando questionei como tiravam o dinheiro não me souberam responder, porque não percebem sequer do que estão a falar. Estes miúdos não veem debates, não veem TV, não veem notícias. Veem coisas de 10 segundos descontextualizadas, no TikTok. E têm uma grande tendência para dizer que é tudo corrupção, que é tudo roubar.”

Porém, nota Rita, aqui não se trata de pré-adolescentes, como no caso da escola da filha de Sofia, mas de jovens no 12º ano, alguns já com idade para votar. “Têm uma conversa bastante aberta comigo, dizem o que veem, quem seguem. E conhecem mais o Chega do que tudo o resto. Levam muito mais tempo a dizer o nome do primeiro-ministro do que o do líder do Chega. Para eles é tudo uma brincadeira, são um bocado infantis, não têm a consciência de que estas coisas têm um carácter político.

Aliás, informa esta professora, há jovens imigrantes que alinham nesse discurso. “Tenho muitos alunos cujos pais são oriundos dos PALOP, e um dos que disse que os imigrantes estão a tirar dinheiro da Segurança Social é imigrante ou filho de imigrantes. Claro que não lhe chamei a atenção para isso, mas pensei.” 

Como se lida com isso? “Eu sou o mais imparcial possível, como tem de ser”, responde Rita. “Tento ensinar pensamento crítico, dar informação.”

“Os ciganos não são de Portugal”

Os testemunhos de Sofia e Rita surgiram na sequência do noticiário sobre a agressão, numa escola do distrito de Viseu, a uma criança brasileira de 10 anos, a qual perdeu parte dos dedos de uma mão, entalada por colegas na porta da casa-de-banho. 

A tragédia, recorde-se, ocorreu a 10 de novembro e, dada a nacionalidade da vítima e o clima de hostilidade contra imigrantes de determinadas proveniências (entre as quais o Brasil, país de onde vem a maioria da imigração para Portugal) que tem vindo a ser alimentado por certos discursos políticos, surgiu de imediato a suspeita de que poderia ter sido motivada por discriminação

Uma suspeita que a mãe, Nivia Estevam, viria a adensar, narrando episódios anteriores: a 5 de novembro, afirmou aos media, o filho aparecera em casa com o pescoço marcado, tendo contado que um colega lhe puxara os cabelos e lhe dera pontapés; antes disso já comentara que a forma como falava português (com sotaque brasileiro) lhe era apontada amiúde por outros meninos, que se queixariam de não o perceber.

Para já, não há uma versão oficial dos motivos da ocorrência: o caso está a ser investigado pelas autoridades e é objeto de um inquérito interno na escola. Mas Nivia garante que os seus alertas anteriores, referindo os episódios citados, foram ignorados. E que no próprio dia em que o filho teve os dedos mutilados lhe disseram na escola que se tratara de “uma brincadeira que correu mal”, nem sequer a advertindo logo de que o menino, que quando a mãe chegou estava com a mão ligada, perdera parte dela (foi, diz, um bombeiro que, na ambulância para o hospital, lhe deu os dedos decepados do filho).

Face a estes relatos de Nivia, surgiram, no Instagram e Twitter/X, publicações dando testemunho de situações de discriminação protagonizadas quer por alunos quer por professores, assim como do entusiasmo de crianças e adolescentes com o partido de extrema-direita e os seus slogans e discurso anti-imigrantes. 

Publicações que, por sua vez, suscitaram comentários como o desta “mãe de três”, encontrado na conta de Instagram de @volksvargas: “Os mais velhos (13 e 11 anos) contam histórias de arrepiar sobre os colegas da turma gritarem ‘Chega’ no meio das aulas e andarem pelos corredores a cantar ‘O Ventura é o dono desta m*rda!’. A mais nova, de cinco anos, ontem chegou a casa a dizer que uma amiga da turma tinha dito que os ciganos não eram de Portugal. Com muita calma explicámos que na verdade os ciganos são de Portugal e que mesmo que não fossem isso não importa. Importa serem humanos. Isto assusta-me muito.

Outra, identificada como “mãe de um aluno do 10º, com 14 anos”, corrobora: “É verdade, miúdos repetem as frases xenófobas do Chega e gritam 'Chegaaaa' por tudo e mais alguma coisa.”

No mesmo local, o funcionário de uma escola de Tavira assevera ser o “Isto não é o Bangladesh” a música mais cantada, e um professor de Educação Visual do 8º ano comenta: “É assustadora a quantidade de miúdos que ouvi a cantarem o refrão da música em diferentes turmas”. 

“Se não percebes a pergunta, vai para a tua terra”

Trata-se, alegadamente, de cidadãos preocupados com aquilo que veem como um alastrar de slogans e ideias xenófobas e racistas entre os mais jovens — aquilo que, na citada carta de associações de pais e encarregados de educação em reação à utilização de nomes de crianças pelo Chega, é denominado de “narrativa de ódio” — e que o DN tentou ouvir, conseguindo chegar à fala com vários  (outros não responderam aos pedidos de contacto do jornal). 

Entre os que responderam, para além das já citadas Sofia e Rita, está Maria (outro nome fictício), de 48 anos, com um filho de 13 no 8º ano da escola secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Este contou-lhe que numa aula de Matemática a professora respondeu “se não percebes a pergunta, vai para a tua terra” a um aluno cuja língua materna não é o português.

Os colegas, narra Maria, protestaram de imediato e queixaram-se à direção, assim como aos respetivos pais, que pediram explicações à diretora de turma. O DN contactou a escola, identificando a professora e perguntando se se confirmam os factos relatados, O jornal quis também saber quais os procedimentos, se alguns, adotados. A primeira resposta, assinada pelo diretor, agradeceu o interesse do jornal mas foi pouco esclarecedora: “Neste momento estamos a diligenciar no sentido de saber efetivamente o que se passou na sala de aula, apesar de no momento do seu contacto já estarmos a acompanhar a situação”. O DN insistiu e a escola, desta vez num email assinado por toda a direção, certificou que "foram ouvidos todos os intervenientes e contextualizada a situação. Mais: não existiu/verifica, até ao momento presente, a entrada de qualquer queixa formal nos serviços da Escola Secundária Pedro Nunes".

Não há, na resposta, qualquer esclarecimento sobre o que significa a "contextualização da situação", tão-pouco a confirmação ou infirmação, que o jornal pediu logo de início, dos factos relatados, ou qualquer posicionamento sobre os mesmos.

Maria nem quer acreditar. “Se não houve queixa como ouviram os intervenientes? Adivinharam o que se passou na aula? O que é que a direção considera uma queixa? É uma participação à Inspeção Geral da Educação e Ciência? Se é o que querem, vão ter." Suspira. "Que história. Ainda assim, o que me animou foi a indignação geral dos miúdos. Porque vai sendo raro acontecer.”

Teresa, 41 anos, professora do 3º ano de escolaridade numa escola da Grande Lisboa, acredita, como a outra docente ouvida pelo DN, que só é derrotado quem desiste. E ela não desiste de tentar que os seus alunos aprendam a distinguir entre o certo e o errado — entre avaliar cada um pelo que faz e diz ou decidir que há grupos de pessoas, definidas pela origem, cor, etnia, nacionalidade, ou outra característica identitária, que merecem, à partida, animosidade e discriminação. Pelo que quando, em outubro, apanhou um deles, no regresso do recreio, a entoar “isto não é o Bangladesh” no meio da risada de alguns, disse-lhes para parar. “Ainda por cima tenho uma menina do Bangladesh naquela turma. Ela ficou um bocado parada, não sei se estava a assimilar a situação. Mas creio que depois, penso que pela forma como tratei do assunto, levou como uma brincadeira de mau gosto, sem outra intenção.”

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN.

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN. Arquivo DN

“Acho que temos medo, nós, professores”

E como tratou Teresa, a professora primária, do assunto? “Primeiro perguntei ao rapaz por que estava a cantar aquilo, e ele esclareceu que leu nos cartazes do Ventura, ‘que é o maior’. A seguir disse-lhes, com toda a calma, que é preciso ter cuidado, até porque os portugueses já estiveram em situações semelhantes. Expliquei o processo migratório que houve para França nos anos 60 do século passado, em busca de uma vida melhor, fugindo à pobreza, como foram tratados os portugueses e como viviam lá, e que há países de onde as pessoas fogem pelas mesmas razões ou por causa da guerra (tenho um aluno do Afeganistão e outro da Ucrânia). Perguntei-lhes o que achavam de serem colocados nessa situação. Falei-lhes também, até porque faz parte da matéria do 3º ano, de Estudo do Meio, na Declarações Universais dos Direitos da Criança e dos Direitos Humanos.” 

A reação foi satisfatória, crê. “Eles depois entendem que gostam uns dos outros e não querem que os meninos do Bangladesh e do Afeganistão se vão embora, querem que fiquem e reconhecem-lhes o direito de procurar uma vida melhor. Acho que os fez repensar. Pelo menos nunca mais se referiram a estrangeiros e até já me vieram fazer queixa de alunos de outras turmas que dizem ‘não sei o quê do Bangladesh’. Ou seja, fazem o processo contrário, assinalam o erro dos outros.”

Ainda assim, não está otimista. “Não sei se de hoje para amanhã não volta a acontecer. Porque em casa a aula de história será outra. Até porque não é a primeira vez que me deparo com este tipo de situação. Há dois anos fui professora no Norte e em relação aos alunos brasileiros surgiam alguns comentários um bocado tristes.” De que tipo? “Os zucas [de “brasuca”, termo derrisório para brasileiro] vêm para aqui, só querem tirar os empregos aos nossos pais, e esse tipo de comentários. Na altura, até com alunos do segundo ano [sete anos de idade].”

Questionada sobre se as escolas estão preparadas para lidar com esta realidade, Teresa hesita. “Depende muito de cada professor. Na minha sala de aula abordo esses temas da melhor maneira possível. Não garanto que isso se passe com os meus colegas. Quanto ao agrupamento, tem algumas atividades de inclusão, vamos fazendo algumas coisas. Mas sou muito sincera: acho que temos medo, nós, professores. Não falo de mim, mas sinto que há colegas que têm receio de entrar por esses campos. É como o tema da igualdade de género, há quem não aborde por medo de que os pais façam queixa. Acho que não se faz mais por medo.

Respira fundo. “E é terrível, porque estamos aqui a formar cidadãos. Eu falo para eles como futuros adultos, falo tudo o que tenho a falar, com o filtro necessário, para que eles possam, no futuro, tomar as decisões certas. Mas tenho a certeza de que tenho colegas que não o fazem porque no dia seguinte pode estar aqui um pai a dizer ‘Você falou do André Ventura, ou disto ou daquilo.’ Eu contorno: falo do regime fascista que existiu antes do 25 de Abril, e para eles um dia poderem comparar. E digo-lhes que a história nos ajuda a perceber o que está a acontecer, para não cometermos os mesmos erros. Porque antes de engenheiros, médicos, professores, estamos a formar pessoas. Eu estou a tentar.

 

Mas o que se discute no parlamento e é realmente importante é:

Citação de rcoelho14, há 6 horas:

Montenegro "lamenta profundamente" transmissão na RTP2 de desenhos animados sobre identidade de género

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Trata-se de uma resposta do primeiro-ministro depois de o CDS-PP ter apresentado um protesto pelo que a RTP2 fez

Durante o debate quinzenal desta manhã no Parlamento, o deputado do CDS Paulo Núncio referiu um programa transmitido pela RTP, às 19:25 de 16 de novembro, intitulado “Sex Symbols - Transgénero”. “Ao que nós chegámos”, comentou, considerando que se tratou de “um programa absolutamente lamentável e que chocou e indignou muitas famílias portuguesas”.

Núncio disse que o programa, que era dirigido a todo o público mas "claramente direcionado para as crianças", é “pura propaganda de ideologia de género”. No programa, dizia-se que "em vez de homem e de mulher, deverá passar a falar-se de ser fecundante e ser gestante", que "o género varia para satisfazer a identidade" e que" os meninos podem ser meninas e as meninas podem ser meninos através, simplesmente, do uso de hormonas”.

 

"É isto que nós queremos que os nossos filhos pequenos vejam e ouçam na televisão pública portuguesa? E eu respondo: não, não e não."

Paulo Núncio anunciou que “o CDS vai propor neste parlamento um voto de protesto pela transmissão destes programas na RTP” e quis saber a opinião de Luís Montenegro sobre esta matéria, enquanto primeiro-ministro e enquanto cidadão, lembrando que num congresso do PSD, em 2024, “teve a coragem de dizer que queria libertar a educação das amarras ideológicas e de fação”.

 

Ainda que reconhecesse não ter poderes para intervir na RTP, Luís Montenegro respondeu: “Lamento profundamente que o programa tenha sido emitido nos termos em que foi”. O primeiro-ministro subscreveu “na íntegra” as palavras do deputado do CDS e disse que isso “já ficou bem patente na própria política que o Governo vem seguindo na área da educação e, em particular, nas alterações à disciplina de cidadania”.

 

 

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Citação de rcoelho14, há 9 horas:

Quando "Isto não é o Bangladesh" chega à escola

  Mostrar conteúdo oculto

“A minha filha tem 13 anos, anda numa escola pública em Lisboa e conta-me que os colegas, sobretudo os rapazes, cantam ‘Chega, Chega’ e a música ‘Isto não é o Bangladesh’ no recreio.”

A informação vem de uma mulher de 43 anos cuja identidade o DN entende ocultar. A turma da filha, informa, tem muitas crianças filhas de imigrantes, várias delas de origem indostânica. Não são essas que cantam a música em causa, em cujo refrão se ouve, a rimar com Bangladesh, “tira os teus putos castanhos da minha creche”

Criada por um youtuber e divulgada num vídeo feito com recurso a Inteligência Artificial, alegadamente com o intuito de satirizar o discurso xenófobo e racista de André Ventura e do Chega (em alusão à menção, pelo líder e uma deputada do partido, de nomes de crianças alegadamente  matriculadas num jardim de infância lisboeta, para “provarem” tratar-se de crianças “zero portuguesas” que teriam precedência sobre as “nacionais”, menção essa que foi objeto de uma carta de repúdio de seis associações de pais, de uma queixa-crime e de um processo cível), a canção foi apropriada pelo partido, que colocou o título num cartaz (ato que foi igualmente objeto de ações judiciais).

A crer nos relatos que esta aluna do 8º ano faz à mãe, as crianças alvo da cantoria (ou seja, as oriundas do Bangladesh) não reagem: “Ou ignoram ou, se não ignoram, não fazem qualquer tipo de queixa.” Ao contrário, a filha de Sofia — vamos chamar-lhe assim — deu, em família, conta do seu incómodo. A mãe acha que essa sensibilidade se deverá em parte ao facto de terem sido elas próprias imigrantes no Reino Unido. “Estivemos sete anos no norte do país, e quando lá vivemos era a minha filha, como única portuguesa, a menina ‘diferente’. Dizia-nos que queria ser loira e de olhos azuis, queria ser igual às outras crianças. Pelo que acho que ela sente isto de uma forma mais pessoal.” 

A consciência da miúda também advirá, crê a mãe, de lá em casa, à hora do jantar, quando a família se reúne, falarem “muitas vezes destas questões da discriminação e do racismo sistémico”. Conversas que, supõe Sofia, não ocorrerão nas famílias dos miúdos que protagonizam os referidos cânticos, e que a filha descreve como “não imigrantes”. “Eles são um pouco papagaios nestas idades, repetem muito aquilo que ouvem”, reflete. “E a escola não faz nada em relação a isto.”

“Conhecem mais o Chega do que tudo o resto”

Não será bem assim. Ou melhor, depende. Dependendo de Rita (também não é o nome dela), 25 anos, professora de economia no secundário, na Grande Lisboa, a coisa não passa em claro. “No outro dia, numa turma que se porta particularmente mal, começaram a cantar o ‘Isto não é o Bangladesh’ durante uma aula. Exprimi o meu desagrado e quiseram saber porquê. Falei-lhes do estafeta imigrante que foi assassinado [Shamin Bhai, de 32 anos, natural do Bangladesh, mortalmente esfaqueado a 28 de setembro na Costa da Caparica, quando tentava recuperar a sua bicicleta, que lhe fora furtada]. Ficaram um bocado calados mas a seguir houve quem perguntasse ‘mas então o que é que ele estava a fazer?’”

Rita tem um sorriso amargo na voz. “Noutra turma estávamos a falar de literacia financeira e uns alunos perguntaram ‘Sabe o que é que andam a fazer? O André Ventura falou disso, os imigrantes estão a tirar as coisas da Segurança Social’. Perguntei ‘Estão a tirar o quê?’, responderam: ‘Estão a tirar dinheiro.’ Quando questionei como tiravam o dinheiro não me souberam responder, porque não percebem sequer do que estão a falar. Estes miúdos não veem debates, não veem TV, não veem notícias. Veem coisas de 10 segundos descontextualizadas, no TikTok. E têm uma grande tendência para dizer que é tudo corrupção, que é tudo roubar.”

Porém, nota Rita, aqui não se trata de pré-adolescentes, como no caso da escola da filha de Sofia, mas de jovens no 12º ano, alguns já com idade para votar. “Têm uma conversa bastante aberta comigo, dizem o que veem, quem seguem. E conhecem mais o Chega do que tudo o resto. Levam muito mais tempo a dizer o nome do primeiro-ministro do que o do líder do Chega. Para eles é tudo uma brincadeira, são um bocado infantis, não têm a consciência de que estas coisas têm um carácter político.

Aliás, informa esta professora, há jovens imigrantes que alinham nesse discurso. “Tenho muitos alunos cujos pais são oriundos dos PALOP, e um dos que disse que os imigrantes estão a tirar dinheiro da Segurança Social é imigrante ou filho de imigrantes. Claro que não lhe chamei a atenção para isso, mas pensei.” 

Como se lida com isso? “Eu sou o mais imparcial possível, como tem de ser”, responde Rita. “Tento ensinar pensamento crítico, dar informação.”

“Os ciganos não são de Portugal”

Os testemunhos de Sofia e Rita surgiram na sequência do noticiário sobre a agressão, numa escola do distrito de Viseu, a uma criança brasileira de 10 anos, a qual perdeu parte dos dedos de uma mão, entalada por colegas na porta da casa-de-banho. 

A tragédia, recorde-se, ocorreu a 10 de novembro e, dada a nacionalidade da vítima e o clima de hostilidade contra imigrantes de determinadas proveniências (entre as quais o Brasil, país de onde vem a maioria da imigração para Portugal) que tem vindo a ser alimentado por certos discursos políticos, surgiu de imediato a suspeita de que poderia ter sido motivada por discriminação

Uma suspeita que a mãe, Nivia Estevam, viria a adensar, narrando episódios anteriores: a 5 de novembro, afirmou aos media, o filho aparecera em casa com o pescoço marcado, tendo contado que um colega lhe puxara os cabelos e lhe dera pontapés; antes disso já comentara que a forma como falava português (com sotaque brasileiro) lhe era apontada amiúde por outros meninos, que se queixariam de não o perceber.

Para já, não há uma versão oficial dos motivos da ocorrência: o caso está a ser investigado pelas autoridades e é objeto de um inquérito interno na escola. Mas Nivia garante que os seus alertas anteriores, referindo os episódios citados, foram ignorados. E que no próprio dia em que o filho teve os dedos mutilados lhe disseram na escola que se tratara de “uma brincadeira que correu mal”, nem sequer a advertindo logo de que o menino, que quando a mãe chegou estava com a mão ligada, perdera parte dela (foi, diz, um bombeiro que, na ambulância para o hospital, lhe deu os dedos decepados do filho).

Face a estes relatos de Nivia, surgiram, no Instagram e Twitter/X, publicações dando testemunho de situações de discriminação protagonizadas quer por alunos quer por professores, assim como do entusiasmo de crianças e adolescentes com o partido de extrema-direita e os seus slogans e discurso anti-imigrantes. 

Publicações que, por sua vez, suscitaram comentários como o desta “mãe de três”, encontrado na conta de Instagram de @volksvargas: “Os mais velhos (13 e 11 anos) contam histórias de arrepiar sobre os colegas da turma gritarem ‘Chega’ no meio das aulas e andarem pelos corredores a cantar ‘O Ventura é o dono desta m*rda!’. A mais nova, de cinco anos, ontem chegou a casa a dizer que uma amiga da turma tinha dito que os ciganos não eram de Portugal. Com muita calma explicámos que na verdade os ciganos são de Portugal e que mesmo que não fossem isso não importa. Importa serem humanos. Isto assusta-me muito.

Outra, identificada como “mãe de um aluno do 10º, com 14 anos”, corrobora: “É verdade, miúdos repetem as frases xenófobas do Chega e gritam 'Chegaaaa' por tudo e mais alguma coisa.”

No mesmo local, o funcionário de uma escola de Tavira assevera ser o “Isto não é o Bangladesh” a música mais cantada, e um professor de Educação Visual do 8º ano comenta: “É assustadora a quantidade de miúdos que ouvi a cantarem o refrão da música em diferentes turmas”. 

“Se não percebes a pergunta, vai para a tua terra”

Trata-se, alegadamente, de cidadãos preocupados com aquilo que veem como um alastrar de slogans e ideias xenófobas e racistas entre os mais jovens — aquilo que, na citada carta de associações de pais e encarregados de educação em reação à utilização de nomes de crianças pelo Chega, é denominado de “narrativa de ódio” — e que o DN tentou ouvir, conseguindo chegar à fala com vários  (outros não responderam aos pedidos de contacto do jornal). 

Entre os que responderam, para além das já citadas Sofia e Rita, está Maria (outro nome fictício), de 48 anos, com um filho de 13 no 8º ano da escola secundária Pedro Nunes, em Lisboa. Este contou-lhe que numa aula de Matemática a professora respondeu “se não percebes a pergunta, vai para a tua terra” a um aluno cuja língua materna não é o português.

Os colegas, narra Maria, protestaram de imediato e queixaram-se à direção, assim como aos respetivos pais, que pediram explicações à diretora de turma. O DN contactou a escola, identificando a professora e perguntando se se confirmam os factos relatados, O jornal quis também saber quais os procedimentos, se alguns, adotados. A primeira resposta, assinada pelo diretor, agradeceu o interesse do jornal mas foi pouco esclarecedora: “Neste momento estamos a diligenciar no sentido de saber efetivamente o que se passou na sala de aula, apesar de no momento do seu contacto já estarmos a acompanhar a situação”. O DN insistiu e a escola, desta vez num email assinado por toda a direção, certificou que "foram ouvidos todos os intervenientes e contextualizada a situação. Mais: não existiu/verifica, até ao momento presente, a entrada de qualquer queixa formal nos serviços da Escola Secundária Pedro Nunes".

Não há, na resposta, qualquer esclarecimento sobre o que significa a "contextualização da situação", tão-pouco a confirmação ou infirmação, que o jornal pediu logo de início, dos factos relatados, ou qualquer posicionamento sobre os mesmos.

Maria nem quer acreditar. “Se não houve queixa como ouviram os intervenientes? Adivinharam o que se passou na aula? O que é que a direção considera uma queixa? É uma participação à Inspeção Geral da Educação e Ciência? Se é o que querem, vão ter." Suspira. "Que história. Ainda assim, o que me animou foi a indignação geral dos miúdos. Porque vai sendo raro acontecer.”

Teresa, 41 anos, professora do 3º ano de escolaridade numa escola da Grande Lisboa, acredita, como a outra docente ouvida pelo DN, que só é derrotado quem desiste. E ela não desiste de tentar que os seus alunos aprendam a distinguir entre o certo e o errado — entre avaliar cada um pelo que faz e diz ou decidir que há grupos de pessoas, definidas pela origem, cor, etnia, nacionalidade, ou outra característica identitária, que merecem, à partida, animosidade e discriminação. Pelo que quando, em outubro, apanhou um deles, no regresso do recreio, a entoar “isto não é o Bangladesh” no meio da risada de alguns, disse-lhes para parar. “Ainda por cima tenho uma menina do Bangladesh naquela turma. Ela ficou um bocado parada, não sei se estava a assimilar a situação. Mas creio que depois, penso que pela forma como tratei do assunto, levou como uma brincadeira de mau gosto, sem outra intenção.”

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN.

Há comentários depreciativos sobre imigrantes até nos alunos do segundo ano (sete anos), conta uma professora ao DN. Arquivo DN

“Acho que temos medo, nós, professores”

E como tratou Teresa, a professora primária, do assunto? “Primeiro perguntei ao rapaz por que estava a cantar aquilo, e ele esclareceu que leu nos cartazes do Ventura, ‘que é o maior’. A seguir disse-lhes, com toda a calma, que é preciso ter cuidado, até porque os portugueses já estiveram em situações semelhantes. Expliquei o processo migratório que houve para França nos anos 60 do século passado, em busca de uma vida melhor, fugindo à pobreza, como foram tratados os portugueses e como viviam lá, e que há países de onde as pessoas fogem pelas mesmas razões ou por causa da guerra (tenho um aluno do Afeganistão e outro da Ucrânia). Perguntei-lhes o que achavam de serem colocados nessa situação. Falei-lhes também, até porque faz parte da matéria do 3º ano, de Estudo do Meio, na Declarações Universais dos Direitos da Criança e dos Direitos Humanos.” 

A reação foi satisfatória, crê. “Eles depois entendem que gostam uns dos outros e não querem que os meninos do Bangladesh e do Afeganistão se vão embora, querem que fiquem e reconhecem-lhes o direito de procurar uma vida melhor. Acho que os fez repensar. Pelo menos nunca mais se referiram a estrangeiros e até já me vieram fazer queixa de alunos de outras turmas que dizem ‘não sei o quê do Bangladesh’. Ou seja, fazem o processo contrário, assinalam o erro dos outros.”

Ainda assim, não está otimista. “Não sei se de hoje para amanhã não volta a acontecer. Porque em casa a aula de história será outra. Até porque não é a primeira vez que me deparo com este tipo de situação. Há dois anos fui professora no Norte e em relação aos alunos brasileiros surgiam alguns comentários um bocado tristes.” De que tipo? “Os zucas [de “brasuca”, termo derrisório para brasileiro] vêm para aqui, só querem tirar os empregos aos nossos pais, e esse tipo de comentários. Na altura, até com alunos do segundo ano [sete anos de idade].”

Questionada sobre se as escolas estão preparadas para lidar com esta realidade, Teresa hesita. “Depende muito de cada professor. Na minha sala de aula abordo esses temas da melhor maneira possível. Não garanto que isso se passe com os meus colegas. Quanto ao agrupamento, tem algumas atividades de inclusão, vamos fazendo algumas coisas. Mas sou muito sincera: acho que temos medo, nós, professores. Não falo de mim, mas sinto que há colegas que têm receio de entrar por esses campos. É como o tema da igualdade de género, há quem não aborde por medo de que os pais façam queixa. Acho que não se faz mais por medo.

Respira fundo. “E é terrível, porque estamos aqui a formar cidadãos. Eu falo para eles como futuros adultos, falo tudo o que tenho a falar, com o filtro necessário, para que eles possam, no futuro, tomar as decisões certas. Mas tenho a certeza de que tenho colegas que não o fazem porque no dia seguinte pode estar aqui um pai a dizer ‘Você falou do André Ventura, ou disto ou daquilo.’ Eu contorno: falo do regime fascista que existiu antes do 25 de Abril, e para eles um dia poderem comparar. E digo-lhes que a história nos ajuda a perceber o que está a acontecer, para não cometermos os mesmos erros. Porque antes de engenheiros, médicos, professores, estamos a formar pessoas. Eu estou a tentar.

 

A culpa é tanto dos pais como das entidades que regulam (ou não) as redes sociais.

A partir do momento em que o conteúdo na internet ficou mais concentrado em poucos espaços e com ligação forte entre todas elas (Twitter, TikTok, Instagram, Facebook) aliada à sociedade do espetáculo, os problemas estruturais e históricos que envolvem o racismo, a xenofobia e outro tipo de discriminações só vão voltar a ter mais pujança em todas as faixas etárias que as utilizam.

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